Prévia do material em texto
Brasília-DF. Zoonoses Bacterianas e rickéttsias Elaboração Iracema Gomes de Araujo Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APrESEntAção ................................................................................................................................. 4 orgAnizAção do CAdErno dE EStudoS E PESquiSA .................................................................... 5 introdução.................................................................................................................................... 7 unidAdE i MecanisMos de defesa e adaptação das bactérias ...................................................................... 9 CAPÍtuLo 1 coMo as bactérias se instalaM no organisMo aniMal .................................................. 9 unidAdE ii transMissão interespecífica de bactérias e riQUétsias ................................................................ 16 CAPÍtuLo 1 doenças bacterianas coMUns ao hoMeM e aos aniMais ............................................. 16 CAPÍtuLo 2 riQUetsioses coMUns ao hoMeM e aos aniMais ............................................................. 64 rEfErênCiAS .................................................................................................................................. 95 4 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 5 organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. 6 Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 7 introdução Zoonoses são definidas, pela Organização Mundial de Saúde, como: “Doenças ou infecções naturalmente transmissíveis entre animais vertebrados e seres humanos”. Essa definição deixa nas entrelinhas que um animal pode ter um agente etiológico de uma doença e eliminá-lo de forma assintomática, sem apresentar nenhum sintoma da enfermidade. E deixa a entender também, que tal definição não se enquadra às doenças transmitidas dos animais ao homem apenas sob condições experimentais. Acredita-se que casos de zoonose existam desde os primórdios da humanidade. Mas, foi há aproximadamente oito mil anos antes de Cristo, que as condições para transmissão de agentes patogênicos de animais vertebrados para o ser humano se tornou mais favorável, pois nessa época teve início a estruturação das práticas da agricultura, início da organização da vida urbana e aldeias e a domesticação de muitas espécies animais. No período da Idade Média, cerca de 800 a 1.200 anos depois de Cristo, a estruturação das cidades medievais dentro dos castelos feudais, contribuiu ainda mais para o aumento do número de casos de diferentes zoonoses; pois esses lugares apresentavam aglomerações de pessoas sob condições de higiene precárias, mau armazenamento dos alimentos e falta de medicamentos específicos para tratar os enfermos. Nessas condições, as zoonoses tornaram-se o elo de doenças transmissíveis que acometem populações humanas e animais, tendo destaque considerável para as zoonoses bacterianas e rickettsioses, assunto que será abordado aqui neste material didático. As zoonoses têm importante destaque na Saúde Pública Veterinária e representam a interseção entre a Saúde Pública e a Saúde Animal. Hoje, as doenças transmitidas ao homem por hospedeiros vertebrados é um dos maiores desafios para a saúde humana. objetivos » Deixar claro a importância das zoonoses bacterianas e rickettsioses na história da humanidade e da Medicina Veterinária ao longo de muitos séculos. » Explicar a relação da domesticação de várias espécies animais com o surgimento das zoonoses e a necessidade da evolução da Medicina Preventiva. » Estabelecer uma relação entre a Medicina Humana e a Medicina Veterinária, atrás dos estudos em Saúde Pública. 8 9 unidAdE i MECAniSMoS dE dEfESA E AdAPtAção dAS bACtériAS CAPÍtuLo 1 Como as bactérias se instalam no organismo animal fatores de virulência e patogenicidade de bactérias definições e conceitos Patogenicidade refere-se à capacidade de um micro-organismo causar doenças. Os micro-organismos capazes de causar doenças nas circunstâncias apropriadas são denominados patógenos. A virulência refere-se geralmente ao grau de patogenicidade num grupo ou numa espécie de micro-organismo. A virulência de um micro-organismo geralmente não é atribuída a um fator único, dependendo, isto sim, de vários parâmetros que estão relacionados ao organismo, ao hospedeiro e à interação dinâmica entre eles. Esse equilíbrio entre o hospedeiro e o “potencial patógeno” é uma área de interesse crescente entre os microbiologistas. De modo geral, a virulência compreende duas características do micro-organismo patogênico: sua infectividade (isto é, a capacidade de iniciar uma infecção) e a gravidade (severidade) da condição produzida. Cepas altamente virulentas, moderadamente virulentas e/ou avirulentas podem ocorrer numa espécie ou num grupo de micro-organismos que são geralmente considerados patogênicos. A infecção do hospedeiro por um micro-organismo é uma etapanecessária na produção de doença. Entretanto, a infecção nem sempre causa doença. Os membros da microbiota normal se estabelecem na superfície ou no interior do hospedeiro e persistem por toda a sua vida. A infecção por bactérias exógenas pode ser abortada pela microbiota normal que já ocupa o nicho ecológico do potencial patógeno. Se isso de fato ocorrer, a infecção só poderá ser evidenciada pela demonstração de uma resposta 10 UNIDADE I │ MEcANIsMos DE DEfEsA E ADAptAção DAs bActérIAs de anticorpos com eliminação do micro-organismo exógeno. Em alguns casos pode se evidenciar um estado de portador assintomático ou se manifestar uma doença fraca. A capacidade de um micro-organismo causar doença, sem dúvida, envolve tanto fatores microbianos como do hospedeiro, e há, atualmente, muito interesse na variedade de respostas adaptativas de bactérias que acarretam expressão de características envolvida na patogenia das doenças. Por exemplo, Pseudomonas aeruginosa é um micro-organismo ubíquo no solo e na água que, devido à sua versatilidade genética, se adaptou com êxito a ambientes humanos, como hospitais, para criar seu próprio nicho específico, ao longo de seu período de coexistência com os seres humanos. P. aeruginosa surgiu como um patógeno hospitalar e oportunista que expressa vários fatores de virulência geneticamente determinados, incluindo várias exotoxinas, hemolisinas, lipases, elastase e proteases, polissacarídios capsulares altamente mucoides e resistência a fármacos antimicrobianos mediada por plasmídios ou transpósons. Essas respostas adaptativas geneticamente determinadas proporcionaram à P. aeruginosa a versatilidade necessária para sobreviver e até se desenvolver em ambientes potencialmente hostis. O processo da medicina também nos possibilitou apreciar as respostas adaptativas da microbiota humana normal. Quando os mecanismos de defesa do hospedeiro são anulados por causas não infecciosas subjacentes ou por intervenções diversas (por exemplo, neoplasias, diabetes, terapia imunossupressora), os micro-organismos endógenos também podem causar patologias e de doença devido à expressão fenotípica de características que refletem uma nova resposta adaptativa do micro-organismo a seu hospedeiro. As bactérias desenvolveram métodos sofisticados para captar seu ambiente e regular a expressão dos genes envolvidos na virulência. A transdução de sinais de dois componentes refere-se aos pares de proteínas reguladoras que funcionam sequencialmente na detecção de alterações no ambiente externo e na produção de respostas adaptativas no organismo. requisitos para a patogenicidade O primeiro passo no estabelecimento de um processo infeccioso consiste na capacidade de um micro-organismo em penetrar no hospedeiro e desencadear uma infecção. O contato inicial depende da capacidade do micro-organismo em se fixar às superfícies das mucosas do hospedeiro. A fixação se dá pela interação de diversas adesinas bacterianas com receptores na superfície celular. Alguns micro-organismos se fixam a células epiteliais, sem invadir tecidos mais profundos. Nesses casos, as toxinas ou enzimas elaboradas pelos micro-organismos são geralmente responsáveis pela patologia, e os 11 MecanisMos de defesa e adaptação das bactérias │ Unidade i efeitos das toxinas podem ser locais ou sistêmicos. Alguns micro-organismos se fixam às células epiteliais da mucosa e subsequentemente ultrapassam essa barreira. A posterior multiplicação dos micro-organismos nos tecidos subepiteliais acarreta a destruição do tecido por fatores bacterianos (p. ex., proteases, colagenases, hialuronidases) e pela resposta imunológica (isto é, citólise mediada pelo complemento, reações imunológicas mediadas por células). Micro-organismos mais invasivos podem se fixar, penetrar nas superfícies celulares epiteliais, multiplicar-se e estender-se aos tecidos mais profundos, acabando por ter acesso à corrente sanguínea e causar infecção disseminada. Muitos micro-organismos são bastante específicos quanto aos tipos de tecido que podem infectar. Por exemplo, N. meningitidis pode ser um ambiente normal da garganta, e o estado de portador assintomático é bem caracterizado. Em circunstâncias apropriadas, podem invadir as meninges e a corrente sanguínea. S. pneumoniae também pode habitar a garganta e a nasofaringe, porém as cepas virulentas invadem preferencialmente o trato respiratório inferior e a corrente sanguínea, causando pneumonia e/ou sepse pneumocócica. As especificidades teciduais podem refletir a presença de receptores na mucosa para antígenos de superfície das bactérias ou a presença de nutrientes que servem como quimioatraentes para os micro-organismos (p. ex., alguns aminoácidos, íons ou carboidratos). Um exemplo clássico dessa dependência nutricional é observado com Brucela abortus, a causa do aborto contagioso no gado bovino. Esse micro-organismo tem uma necessidade específica de crescimento do álcool açúcar eritriol, que está presente em concentrações elevadas no útero e no tecido placentário bovino. Assim, esse micro-organismo pode efetivamente “buscar” o trato genital bovino devido a essa predileção nutricional. fatores de virulência dos micro-organismos Os fatores de virulência de bactérias são componentes estruturais ou produtos de bactérias que possibilitam ao micro-organismo causar danos ao hospedeiro de alguma maneira. Alguns fatores de virulência estão associados a células, enquanto outros podem ser extracelulares. Além disso, alguns dos fatores envolvidos na produção de doenças fazem parte da decomposição anatômica ou fisiológica da célula, e o seu papel como fatores de virulência é acidental no ciclo vital do micro-organismo. Adesinas Para infectar um hospedeiro, os micro-organismos primeiro têm de aderir à superfície mucosa. A aderência bacteriana é geralmente um processo específico, envolvendo estruturas da superfície celular bacteriana que são geralmente designadas como adesinas 12 UNIDADE I │ MEcANIsMos DE DEfEsA E ADAptAção DAs bActérIAs e receptores complementares na superfície de células sensíveis. As adesinas bacterianas podem incluir fímbrias, componentes da cápsula bacteriana, ácidos lipoteicóicos que se projetam para fora do peptidoglicano da parede celular de bactérias gram-positivas, proteínas da membrana externa ou outros antígenos da superfície celular. A proteína fibronectina da superfície celular humana é um receptor do hospedeiro para alguns patógenos bacterianos. Agressinas Para sobreviver e se multiplicar no interior do hospedeiro, muitos micro-organismos produzem várias substâncias que lhes possibilitam evitar ou controlar mecanismos de defesa do hospedeiro. Essas substâncias, denominadas agressinas incluem carboidratos de superfície, enzimas, toxinas e outras pequenas moléculas. As estruturas capsulares de algumas bactérias possibilitam evitar a fagocitose, impedindo a interação entre a superfície celular bacteriana e as células fagocitárias ou escondendo componentes da superfície celular bacteriana que de outra forma iriam interagir com as células fagocitárias ou o complemento e ocasionar sua ingestão. Anticorpos específicos dirigidos contra o material capsular causam a opsonização dos micro-organismos. Após a opsonização, as bactérias encapsuladas são prontas e rapidamente ingeridas e mortas pelas células fagocitárias. Alguns micro-organismos produzem cápsulas e, portanto, não são reconhecidas como estranhas pela vigilância imunológica. Algumas bactérias apresentam proteínas de superfície que participam da aderência e de outras funções associadas à virulência. Por exemplo, a proteína M dos estreptococos grupo A desempenha muitos papéis na patologia da infecção por esse micro-organismo, incluindo aderência, resistência à fagocitose,invasão intracelular, comprometimento da função do complemento e efeitos líticos sobre leucócitos polimorfonucleares. Algumas bactérias são capazes de produzir proteases que pode hidrolisar e inativar imunoglobulinas secretoras (Ig A). Essa imunoglobulina age localmente impedindo a aderência bacteriana, portanto, estimula a colonização da mucosa. Algumas agressinas agem depois da fagocitose, interferindo na fusão fagossomo/lisossomo e na atividade do sistema mieloperoxidase. Micobactérias e brucelas são capazes de se adaptar a uma existência intracelular em células do hospedeiro, pela elaboração de substância que impedem a destruição intracelular dos micro-organismos. Nas micobactérias isso pode ser devido a micosídios e sulfolipídeos associados à parede celular que são incorporados ao fagossomo e impedem a fusão fagossomo/lisossomo. O fato de esses micro-organismos assumirem residência nas células fagocitárias também contribui para virulência, por proteger os referidos micro-organismos da destruição por anticorpos específicos e pelo complemento. 13 MecanisMos de defesa e adaptação das bactérias │ Unidade i A existência intracelular também tem uma influência significativa sobre a terapia. As infecções por espécie de Brucella e por Francisella tularensis devem ser tratadas por antibióticos que sejam capazes de agir intracelularmente (p. ex., tetraciclina, aminoglicosídeos) para afetar esses micro-organismos protegidos. Muitas bactérias produzem enzimas ou toxinas ou possuem componentes celulares que têm efeitos tóxicos ou necrosantes diretos sobre células inflamatórias do hospedeiro e sobre outros componentes do sistema imunológico. A leucocidina e a alfa-hemolisina produzidas por S. aureus causam arredondamento e intumescimento de células polimorfonucleares e macrófagos expostos a elas, seguidos de desgranulação, ruptura nuclear e lise celular. As bactérias gram-positivas possuem polímeros de peptidoglicano na parede celular e ácidos teicoicos de membrana que podem causar uma liberação semelhante de citocinas e podem ocasionar sintomas semelhantes de choque séptico. Essa propriedade pode facilitar a disseminação das bactérias na corrente sanguínea e os vasos linfáticos, ocasionando infecção sistêmica ou o estabelecimento de focos infectados em locais distantes do local da infecção inicial. O ferro é um nutriente essencial para muitos micro-organismos e um requisito para virulência de alguns patógenos bacterianos. Em relação a isso, bactérias patogênicas bem-sucedidas desenvolveram maneiras para obter ferro do ambiente ou do meio restrito em ferro dos tecidos do hospedeiro, em que o ferro livre é mantido em concentrações baixas por ligação à transferrina e à proteína lactoferrina. Os micro-organismos obtêm esse ferro pela produção de sideróforos, que são pequenas moléculas que funcionam com quelantes de ferro de alta afinidade. A produção de sideróforos é considerada, portanto, um fator de virulência. Além disso, a produção de muitos produtos microbianos extracelulares, incluindo toxinas, é particularmente regulada em nível transcricional pelas concentrações de ferro no meio circundante. Embora os plasmídeos propriamente ditos não sejam fatores de virulência, os genes codificam muitos dos produtos celulares bacterianos responsáveis pela virulência residem frequentemente em plasmídeos bacterianos. Os fatores R (plasmídeos que contêm genes que codificam a resistência a agentes antimicrobianos) podem ser considerados fatores de virulência, porque a aquisição de resistência a fármacos antimicrobianos estimula o crescimento e a disseminação continuados das infecções bacterianas, apesar das intervenções terapêuticas. Algumas bactérias contêm igualmente plasmídeos que codificam pili sexuais e mobilização dos cromossomos. Esses dois fatores possibilitam a um micro-organismo transferir material genético (de origem plasmidial, cromossômica ou de ambos os tipos) para outros micro-organismos. 14 UNIDADE I │ MEcANIsMos DE DEfEsA E ADAptAção DAs bActérIAs Exotoxinas e endotoxinas As toxinas de origem microbiana se distribuem por dois grupos: exotoxinas e endotoxinas. As exotoxinas bacterianas são as mais potentes toxinas biológicas conhecidas e são produzidas principalmente por bactérias gram-positivas, embora algumas bactérias gram-negativas também as elaborem. As exotoxinas são geralmente de natureza proteica e são termolábeis. Por serem proteínas, muitas delas podem ser inativadas ou destruídas por enzimas proteolíticas. Por outro lado, algumas exotoxinas são ativadas unicamente após hidrólise parcial (chanfradura) por enzimas proteolíticas. A atividade tóxica de algumas exotoxinas pode ser destruída pelo tratamento com formaldeído (desenvolvimento de toxoide) e neutralizada por anticorpos específicos. A exploração dessas propriedades ocasionou o desenvolvimento de toxoides diftérico e tetânico, que são usados, respectivamente, para a imunização ativa contra difteria e tétano. Em geral, as exotoxinas bacterianas se distribuem por dois grupos. O primeiro grupo consiste em toxinas citolíticas, que agem sobre as membranas celulares causando a formação de poros e a lise subsequente da célula. O segundo grupo consiste de duas subunidades A-B, ou toxinas bipartidas. Essas toxinas contêm uma subunidade B (ou de ligação), que se liga a um receptor específico nas células do hospedeiro, e uma subunidade A (ou ativa), que penetra na célula e interage com o alvo. Algumas doenças como tétano, botulismo, difteria e cólera se devem quase que totalmente aos efeitos das toxinas sobre seus órgãos e tecidos-alvo. O tétano é causado pelos efeitos sistêmicos da neurotoxina tetânica, a toxina produzida por Clostridium tetani. O tétano geralmente ocorre em consequência da infecção de uma ferida por C. tetani ou, em raras ocasiões, pela injeção de materiais contaminados com células vegetativas ou esporos de C. tetani. A neurotoxina do tétano é liberada por lise celular após o crescimento bacteriano em condições anaeróbicas (p. ex., em feridas por punção profunda). O efeito espasmogênico da toxina se deve à sua ação sobre os reflexos pré-sinápticos envolvendo interneurônios na medula espinhal. A toxina bloqueia a inibição pós-sináptica normal dos neurônios motores espinhais após impulsos aferentes, por impedir a liberação de neurotransmissores inibitórios. Esse bloqueio pré-sináptico dos neurônios centrais acarreta o aumento do tônus muscular e reflexos hiperativos. A consequente sensibilidade a impulsos excitatórios, não contrabalançada pelos mecanismos inibitórios, produz a paralisia espástica generalizada característica do tétano. O botulismo decorre da ingestão de toxinas formadas por Clostridium botulinum crescendo em alimentos, cujos principais veículos são frutas e legumes enlatados de forma inadequada (geralmente enlatados caseiros), condimentos e frutos do mar. O botulismo em feridas consiste em intoxicação sistêmica decorrente cocrescimento de 15 MecanisMos de defesa e adaptação das bactérias │ Unidade i C. botulinum e da produção da toxina em feridas. C. botulinum também pode colonizar o trato intestinal de lactentes e produzir toxinas nesse local (botulismo neonatal). A toxina se acumula em células de C. botulinum durante a germinação dos esporos e o crescimento ativo das células vegetativas, mas é liberada somente por lise das células. No caso de colonização do trato intestinal por C. botulinum, depois de ser absorvida a toxina chega a neurônios sensíveis (em junções neuromusculares e sinapses autonômicas periféricas) pela corrente sanguínea. Aí ela se liga a terminais pré-sinápticos, em que bloqueia a liberação de acetilcolina por terminações nervosas motoras colinérgicas. A característica típica do botulismo inclui envolvimento de nervos cranianos,enfraquecimento e paralisia bilaterais e descendentes de músculos esqueléticos, e a condição se caracteriza por fadiga, tonteiras, náuseas, vista turva, fala empastada, dilatação das pupilas, retenção urinária, paralisia flácida geral dos músculos esqueléticos e paralisia respiratória. A difteria é outro exemplo de doença que se deve basicamente à ação de uma toxina. É interessante assinalar que somente cepas de C. diphtheriae que contêm um bacteriófago lisogênico (β-corinefago) são capazes de produzir a toxina diftérica. A molécula da toxina é formada por C. diphtheriae em associação com a membrana celular e é secretada pela célula como um único peptídeo, que posteriormente será clivado em duas cadeias principais A e B. Com a ligação à célula-alvo por meio do peptídeo B, a toxina penetra na célula por endocitose mediada por receptores. As endotoxinas, por outro lado, são produzidas unicamente por bactérias gram-negativas e consistem principalmente em lipopolissacarídio (LPS), que é um componente estrutural da membrana externa desse tipo de bactérias, constituindo os determinantes antigênicos somáticos (O). As endotoxinas são termolábeis e são apenas parcialmente neutralizadas por anticorpos específicos. Em comparação a muitas das exotoxinas, as endotoxinas possuem toxicidade relativamente baixa. Embora a endotoxina possa escapar para os líquidos ao redor (como “vesículas” na superfície de bactérias gram-negativas), a célula inteira geralmente conserva a principal parte de sua atividade tóxica. As atividades biológicas e tóxicas da endotoxina são amplas. Quantidades de nanograma de endotoxina causam febre em seres humanos e a liberação de pirógenos endógenos. Doses mais altas causam hipotensão, redução da contagem de leucócitos polimorfonucleares e plaquetas por marginação aumentada dessas células às paredes dos pequenos vasos sanguíneos, hemorragias e, por vezes, coagulação intravascular disseminada por ativação de mecanismos de coagulação. A endotoxina também é mitogênica para linfócitos B e estimula a liberação de várias citocinas por macrófagos. 16 unidAdE ii trAnSMiSSão intErESPECÍfiCA dE bACtériAS E riquétSiAS CAPÍtuLo 1 doenças bacterianas comuns ao homem e aos animais zoonoses causadas por bactérias bartonelose (doença da Arranhadura do gato) As bartoneloses são doenças provocadas por alfaprotobactérias da Ordem Rhizobiales, Família Bartonellaceae, cujos gêneros mantêm relação filogenética remota com os membros da Família Rickettsiaceae. Essa ordem taxonômica ficou estabelecida a partir de 1993, com o auxílio da biologia molecular, em que as espécies anteriormente agrupadas na Família Rochalimaea passaram a ser descritas na Família Bartonellaceae, deixando, assim, a Ordem Rickettsiales. Sinonímia A Doença da Arranhadura do Gato (DAG) também é conhecida como Doença de Carrión, Febre de Oroya ou Febre das trincheiras. Agente etiológico As bactérias conhecidas como bartonelas são bacilos pequenos, gram-negativos, aeróbicos e oxidase negativos, que parasitam células endoteliais e eritrócitos de mamíferos. As bartonelas apresentam distribuição geográfica ampla, de forma que mais de 30 espécies e subespécies de Bartonella spp. são conhecidas atualmente, muitas das quais capazes de causar enfermidades em humanos. 17 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii A Doença da Arranhadura do Gato (DAG) consiste em uma zoonose causada pela B. henselae e de ampla distribuição mundial, sendo, também, associada às espécies B. quintana, B. clarridgeiae, B. koehlerae e B. doshiae. Do ponto de vista geográfico, B. Quintana e B. clarridgeiae são as responsáveis por causar a Doença da Arranhadura do Gato na América do Sul. reservatórios e vetor B. bacilliformis tem como reservatório flebotomíneos do gênero Lutzomyia e o próprio ser humano. Já B. quintana tem como reservatório Pediculus humanus corporis (piolho humano) e o próprio homem. Também já foi isolada de gatos, cães com endocardite e macaco. Vale ressaltar que foi identificado DNA dessa bactéria a partir de Ctenocephalides felis (pulga do gato), de carrapatos e da polpa dentária de gatos. Por outro lado, B. henselae têm os felinos domésticos sãos como reservatórios. O conjunto de sinais clínicos que podem ser causados pela infecção por Bartonella spp. ainda não foi totalmente investigado já que, de forma geral, o gato infectado por B. henselae apresenta um estado físico aparentemente saudável. No entanto, o sinal clínico clássico de infecção por B. henselae caracteriza-se por linfadenopatia regional, que pode ser acompanhada de sinais clínicos inespecíficos como anorexia, febre e perda de peso. Em estudos experimentais com a indução de infecção por B. henselae, foram observadas desordens neurológicas e reprodutivas. Período de incubação Em relação ao período de incubação, quando a bactéria é inoculada em um hospedeiro reservatório (mamífero), é necessário um período para replicação das bactérias no endotélio vascular até que elas possam ganhar a corrente sanguínea e, consequentemente, infectar os eritrócitos, o que vai garantir a manutenção da bacteremia e favorecer, consequentemente, a transmissão vetorial contínua (Figura 1). Geralmente, o período de incubação da Doença da Arranhadura do Gato é de sete dias a partir da arranhadura ou mordedura do gato infectado. 18 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs figura 1. representação das diferentes fases da infecção por Bartonella spp. a. inoculação da bactéria presente nas fezes da pulga; b. fagocitose da bactéria por células migratórias de defesa do organismo; c. a Bartonella spp. atinge o nicho primário de replicação, persistindo no endotélio vascular; d. a bactéria ganha a circulação podendo invadir eritrócitos, ou mesmo, outras células do endotélio vascular; e. a replicação da Bartonella spp. no interior de eritrócitos é limitada; f. persistência da Bartonella spp. no nicho intraeritrocitário favorecendo a transmissão da bactéria para outros artrópodes; g. a pulga se infecta ao se alimentar com sangue infectado por Bartonella spp. fonte: harms a, dehio c. clin. Microbiol. rev.; 25:42-78, 2012. Modo de transmissão e patogenia Muitos aspectos da transmissão desses patógenos ainda estão em estudos, mas pesquisas realizadas identificaram a pulga Ctenocephalides felis como principal vetor da bartonelose: as bactérias se multiplicam no sistema digestório desse vetor e permanecem viáveis nas fezes deste por dias. Ainda, a pulga Ctenocephalides felis parece estar relacionada com a transmissão da bartonelose de gato para gato. Sugere-se que a transmissão da bartonelose possa ocorrer tanto por meio da arranhadura quanto da mordedura do gato infectado com a Bartonella spp. O prurido intenso causado pelo parasitismo da pulga (infectada com Bartonella spp.) no gato, pode causar a contaminação das unhas do gato com as bactérias presentes nas fezes da pulga, e a consequente inoculação dos micro-organismos em humanos ou animais pela arranhadura do gato. Ainda, o hábito de lambedura dos gatos pode levar à contaminação da cavidade oral desses animais, por meio tanto da ingestão das fezes das pulgas contaminadas com a Bartonella spp. quanto da ingestão da própria pulga infectada, o que poderá predispor a transmissão dos micro-organismos por meio da mordedura. Manifestações Clínicas A bartonelose é caracterizada pela presença de pequenas pústulas eritematosas, com surgimento a partir de sete dias após o contato (mordedura ou arranhadura) com o gato 19 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii infectado. Em até 14 dias, os linfonodos responsáveis pela drenagem da região infectada encontram-se entumescidos, podendo até abscedere supurar em cerca de 10% dos casos. Além disso, há relatos de febre, anorexia, mal-estar, cefaleia, prostração, problemas hepáticos, desordens oftálmicas, complicações neurológicas e cardiovasculares. diagnóstico diferencial O diagnóstico diferencial para a Doença da Arranhadura do Gato inclui inúmeras dermatopatias, como infecção bacteriana secundária a dermatites alérgicas, infecções por micobactérias e doenças malignas, quando há comprometimento de linfonodos regionais ao local da arranhadura e inoculação da bactéria no ferimento. diagnóstico O diagnóstico da infecção por Bartonella spp. pode ser realizado por meio da detecção de anticorpos no soro de pacientes, pela histopatologia dos linfonodos entumescidos, e até da pele, fígado ou de outros órgãos afetados, além de análises através de isolamento bacteriano ou de biologia molecular. Nesse contexto, o uso da biologia molecular tem sido cada vez mais frequente no auxílio do diagnóstico das infecções por Bartonella spp., sendo de extrema importância para a detecção de infecções recentes (nesses casos, a sorologia não é eficiente devido ao curto tempo para indução da síntese de anticorpos contra o antígeno). tratamento A terapia com eritromicina, azitromicina, rifampicina e doxiciclina, durante quatro a seis semanas, são as mais utilizadas no tratamento contra a bartonelose. No entanto, devido à grande variedade de sinais e sintomas da infecção por bartonelose, a implementação de uma metodologia terapêutica deve levar em consideração cada caso, individualmente. Quando o animal infectado pertence a um paciente imunossuprimido, recomenda-se que o tratamento antimicrobiano seja realizado também nos gatos, reduzindo, assim, a probabilidade de desenvolvimento de resistência às drogas, assim como favorecendo a redução da bacteremia e, consequentemente, o potencial de transmissão da doença. Epidemiologia Apesar de a frequência de bartonelose não ser bem conhecida no Brasil, estudos têm sugerido a circulação de Bartonella spp. em felinos no estado do Rio de Janeiro (detectados por testes sorológicos e moleculares). 20 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs Prognóstico De forma geral, o prognóstico é favorável, o processo costuma ter involução espontânea dentro de dois a seis meses. Prevenção Para a prevenção contra a Doença da Arranhadura do Gato, recomenda-se o uso regular de antipulgas em animais de estimação. brucelose A Brucelose é uma zoonose de ampla distribuição em nossos rebanhos. Os graves danos que a Brucelose pode causar em pacientes crônicos culminam com intensas e drásticas consequências, tanto do ponto de vista sanitário quanto econômico. O baixo índice de suspeita da Brucelose por parte dos médicos e médicos veterinários é consequência de diversos fatores, como, por exemplo, ser uma enfermidade de difícil, pela falha nas notificações aos laboratórios credenciados e por falhas na identificação dos micro-organismos em testes de diagnóstico comerciais rápidos (pela baixa especificidade dos testes rotineiros). Ainda, práticas laboratoriais inseguras, assim como acidentes em laboratórios têm sido responsáveis pelo aumento no número de casos de exposição ao agente patogênico e o consequente adoecimento. Assim, a Brucelose é uma zoonose diretamente relacionada ao trabalho, tendo em vista que a sua transmissão pode se dar pelo contato com material contaminado de animais infectados durante as atividades profissionais. Sinonímia A Brucelose também é conhecida como: Febre do Mediterrâneo, Febre de Malta (Melitococia), Febre Ondulante, Febre de Gibraltar, Febre de Constantinopla, Doença das Mil Faces. Agente etiológico A primeira identificação das bactérias do gênero Brucella foi feita por Sir David Bruce em 1887. A Brucelose é uma enfermidade que tem como agente etiológico bactérias gram-negativas (cocobacilos), aeróbicas e não fermentadoras, e intracelulares facultativas do gênero Brucella (Figura 2). Atualmente, temos mais de nove espécies descritas, sendo B. melitensis, B. abortus, B. suis e B. canis as principais espécies associadas à enfermidade em humanos (apesar de raramente ser isolada no Brasil, a B. 21 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii melitensis está associada aos casos mais graves de Brucelose). Ainda, a Brucella spp. é considerada um potencial agente para uso como arma biológica, sendo classificado como categoria B pelo Centro de Controle e Prevenção de Doença (do inglês, Centers for Disease Control and Prevention; CDC) americano. figura 2. ilustração de Brucella spp. fonte: <https://5bioterrorismdiseases.wikispaces.com/3++brucellosis>. reservatórios Além do ser humano, as espécies de Brucella spp. podem ser encontradas em outras espécies (sempre com, pelo menos um hospedeiro preferencial). A seguir, listamos os hospedeiros preferenciais de cada espécie: » B. melitensis: caprinos, ovinos e camelídeos; » B. abortus: bovinos e bubalinos; » B. suis: suínos e vários mamíferos selvagens; » B. canis: cães; » B. ovis: ovinos; » B. neotomae: ratos de florestas e do deserto; » B. microti: roedores; 22 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs » B. inopinata: humanos; » B. delphini, B. pinnipediae e » B. ceti: animais marinhos, como golfinhos, focas e baleias. Período de incubação Geralmente, o período de incubação das espécies de Brucella spp. Varia entre cinco e 60 dias, podendo perdurar por até dois anos em alguns casos. Modo de transmissão e Patogenia A transmissão de Brucella spp. dá-se por diversas vias, como por exemplo: » contato direto com material biológico contaminado (sangue, urina, secreções, fetos abortados, restos placentários); » contato direto com a conjuntiva ou pele lesionada; » consumo de produtos contaminados não pasteurizados (lácteos) ou mal cozidos (vísceras, carne e medula óssea, por exemplo); » aerossolização, ou seja, inalação do agente infeccioso (quando da limpeza de estábulos, movimentação do gado, procedimentos em abatedouros, ordenha ou laboratórios); » inoculação acidental durante a vacinação dos animais. Nesse contexto, a Brucella spp. é uma bactéria que pode permanecer viável na água e no solo úmido por mais de 10 semanas, podendo ser facilmente inativada por agentes desinfectantes comuns ou calor (a temperatura elevada é um excelente inativador desse micro-organismo). O tempo de viabilidade dos micro-organismos em produtos não processados adequadamente está resumido na Tabela 1. Casos de transmissão entre pessoas são extremamente raros, mas já foram descritos na literatura casos de contaminação por meio de relação sexual, transfusão de sangue e transplante de medula óssea. Nesse mesmo contexto, a possibilidade de transmissão vertical e por aleitamento materno ainda não é bem estabelecida havendo, assim, a necessidade de mais estudos sobre esse assunto. De toda forma, a orientação é manter os pacientes internados em condições-padrão de contenção. 23 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii tabela 1. tempo médio de viabilidade de Brucella spp. em diferentes meios Meio Tempo Leite Cerca de 17 dias Leite congelado > 800 dias Queijos até seis meses Manteiga até quatro meses Iogurte – 43ºC a 46ºC / pH 3,9 De 2,5 a 3,5 horas Iogurte – 18ºC a 34ºC / pH 3,7 De 89 a 96 dias fonte: diretoria de Vigilância epidemiológica de sc, jan. de 2012. A ação do sistema imune após a entrada de bactérias das espécies de Brucella spp. no organismo é evitada por mecanismos ainda não muito bem esclarecidos e, por isso, ainda não existem atualmente vacinas eficazes em humanos. Sugere-se que haja cobertura de lipopolissacarídeos, cobre-zinco,superoxidodismutase, que ofereceria proteção contra o ambiente ácido do estômago. Além disso, as bactérias são fagocitadas, porém não inativadas, e, consequentemente, não há desenvolvimento de imunidade duradora (o pico de produção de IgM quanto IgG ocorre quatro semanas após a exposição). Manifestações clínicas Após a infecção por Brucelose, alguns pacientes podem apresentar a forma subclínica da doença, não desenvolvendo sintomas ou, ainda, apresentando sintomatologia inicial inespecífica. Por outro lado, nos pacientes que desenvolvem sintomatologia, o quadro clínico varia, podendo ser agudo, subagudo ou crônico. A Brucelose pode durar semanas ou meses, se não tratada. A Brucelose caracteriza-se, de forma geral, por febre intermitente acompanhada de sudorese, mal-estar, anorexia e prostração. No aspecto mais específico, o período inicial da doença é caracterizado por uma tríade de sintomas que, embora inespecífica, pode caracterizar a doença como descrito na literatura: » febre superior a 38ºC pode se apresentar de forma remitente, intermitente, irregular ou ondulante, apresentando acentuação vespertina e prolongando-se durante a noite, com período de remissão matinal; » sudorese profusa, predominantemente noturna, acompanhada de odor desagradável; » dor, caracterizada por artralgia de pequenas e grandes articulações, mialgia e cefaleia. 24 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs Pesquisadores analisaram a frequência dos sintomas em pacientes com Brucelose, de forma que ele observou que 98,7% apresentaram febre, 84% apresentaram sudorese, 75% apresentavam sintomas constitucionais (como perda de peso, prostração, anorexia e astenia). Cerca de 35,2% dos pacientes diagnosticados com Brucelose ainda apresentaram hepatomegalia, e em 20,8% dos casos, apresentaram esplenomegalia. Apesar de casos de abortamento em humanos ser raro, nos casos de evolução para as formas crônicas, é comum encontrarmos problemas em órgãos-alvo em decorrência da Brucelose. Por exemplo, em quase metade das complicações focais, observa-se comprometimento osteoarticular, que pode ser representado por sacroileíte, espondilite, artrite periférica e osteomielite. Em crianças acometidas por Brucelose, é comum que o acometimento osteoarticular seja pela presença de monoartrite, geralmente dos joelhos ou quadris. A ocorrência de manifestações neurológicas e psiquiátricas não é tão comum, mas pode ocorrer em alguns casos, havendo, inclusive, relatos de confusão mental e depressão. Complicações genitourinárias também podem ocorrer em pacientes acometidos pela Brucelose, como casos de gromerulonefrite, abcesso renal e orquiepididimite. O comprometimento cardíaco é considerado o mais grave de todos, podendo levar, inclusive, ao óbito, devido a lesões em válvulas, principalmente na aórtica, além de lesões em múltiplas áreas cardíacas. As alterações hematológicas encontradas podem variar entre leucocitose ou leucopenia, trombocitopenia e anemia. Nos casos complicados, problemas pulmonares podem ocorrer como derrame pleural e pneumonias. Na pele e mucosas podem ser observadas lesões eritematopapulosas, púrpura, cistos dérmicos e síndrome de Stevens-Johnson (reação cutânea grave com elevado potencial de morbidade e mortalidade). Para saber mais sobre a síndrome de Stevens-Johnson, leia o artigo Síndrome de Stevens-Johnson e Necrólise Epidérmica Tóxica em Medicina Intensiva, de Bulisani et al. (2006). diagnóstico diferencial Sendo a Brucelose uma doença com amplo espectro clínico, seus sintomas podem mimetizar uma grande variedade de enfermidades infecciosas como, por exemplo, a Tuberculose, a Febre Tifoide, a Endocardite Infecciosa, a Leptospirose, a Criptococose, a Histoplasmose, a Amononucleose, a Malária, além de doenças do Colágeno/Vasculites, as Neoplasias, a Síndrome da Fadiga Crônica e os Transtornos Neuropsiquiátricos 25 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii (principalmente depressão). Assim, é de extrema importância a história epidemiológica, pesquisando o contato do indivíduo com animais potencialmente infectados, bem como da ingestão de produtos contaminados (e não adequadamente processados). diagnóstico O diagnóstico laboratorial específico para a Brucelose pode ser realizado por meio de testes diretos [como cultura e reação em cadeia de polimerase (PCR, do inglês, polymerase chain reaction)] ou por testes indiretos imunológicos (Rosa Bengala, teste de soroaglutinação, teste de microaglutinação, ELISA, Ensaio Homogêneo de Fluorescência Polarizada, Imunofluorescência Indireta, dentre outros). Para a Brucelose humana não há um protocolo de diagnóstico definitivo, recomendando-se a realização de um teste de triagem (soroaglutinação com antígeno brucélico corado pelo Rosa Bengala) e, posteriormente, e se necessário, um teste para confirmação. Para a realização de culturas, é importante saber que Brucella spp. precisa de meio enriquecido para seu crescimento aliado ao tempo prolongado de incubação. Além disso, os testes com cultura apresentam uma queda gradual da positividade do exame na fase aguda quando comparados à fase crônica; por essa razão, o isolamento do agente etiológico na frase crônica torna-se difícil. Atualmente, há dificuldade em determinar quais testes podem ser utilizados em larga escala para confirmação diagnóstica no homem. A Reação em Cadeia da Polimerase (PCR), por exemplo, não é utilizada como rotina nos casos suspeitos de Brucelose, devido à falta de validação de alguns testes comerciais. Nesse contexto, nos casos de pacientes com impossibilidade de realização de testes confirmatórios (casos prováveis), mas que haja uma clínica compatível associada a uma história epidemiológica positiva (contato direto com animais doentes e/ou confirmados com Brucelose ou consumo de produtos desses animais), esses serão considerados como casos confirmados da doença. Em caso de exposição à cepa vacinal de Brucella abortus RB51, os testes disponíveis serão negativos, pois são baseados na detecção de anticorpos da cepa lisa nos indivíduos expostos e, no presente caso, a exposição induz à síntese de anticorpos da cepa rugosa (Figura 3). 26 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs figura 3. fluxograma do diagnóstico de brucelose humana Caso suspeito de Brucelose: clínica e epidemiologia Teste de Triagem: Rosa Bengala Positivo Negativo Teste confirmatório* Repetir Rosa de Bengala em 30 dias Positivo Negativo Caso Confirmado Positivo Negativo Manter acompanhamento clínico para realizar diagnóstico diferencial * na falta de teste confirmatório: utilizar diagnóstico provável (clínica + epidemiologia + teste de triagem positivo). fonte: diretoria de Vigilância epidemiológica de sc, jan. de 2012. tratamento A Brucelose é uma enfermidade com ampla gama de sintomas, podendo apresentar formas graves e de elevada morbidade. Nesse contexto, sabe-se que as medicações comumente utilizadas induzem efeitos colaterais, por vezes considerados tão graves quanto a própria doença, havendo, também, a elevada possibilidade de resistência bacteriana. Assim, o tratamento deve ser planejado, devendo ser cada caso avaliado individualmente. Nesse contexto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que todos os casos confirmados (ou seja, que tenham quadro clínico e epidemiologia compatível), além da comprovação laboratorial (teste de triagem e teste confirmatório positivo), sejam tratados. Por outro lado, caso não haja a possibilidade de realização dos testes para a confirmação do diagnóstico, admite-se a possibilidade de tratamento dos casos prováveis (com suspeita clínica + epidemiologia+ teste de triagem positivo). Os medicamentos usados seguem protocolos da OMS, atualizados por revisões publicadas em revistas de renome internacional e sumarizados no Quadro 1. Vale ressaltar que a associação de doxiciclina com rifampicina, embora de posologia mais fácil (por via oral), tem sido rejeitada por alguns especialistas em troca da associação de doxiciclina com um aminoglicosídeo (preferencialmente estreptomicina ou eritromicina, como 27 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii segunda escolha), associação essa que parece apresentar melhor resposta terapêutica, apesar de serem drogas injetáveis. Vale ainda ressaltar que em casos de pacientes com suspeita de infecção associada à cepa vacinal de Brucella abortus RB51, o protocolo de tratamento não deverá conter rifampicina, já que essa cepa possui resistência intrínseca a essa droga. Devemos ter total atenção para os efeitos colaterais das drogas utilizadas no tratamento e reforçar a adesão ao tratamento, já que é um protocolo terapêutico prolongado em pacientes, muitas vezes, oligossintomáticos. Quadro 1. esquemas terapêuticos para brucelose Droga Dose Intervalo Duração Tratamento de eleição para adultos Doxiciclina + Rifampicina 100mg 300mg A cada 12h A cada 12h 42 dias 42 dias Tratamento de eleição para crianças se oito a 14 anos Doxiciclina + Rifampicina 1-2mg/kg/dose 7,5-10mg/kg/dose A cada 12h A cada 12h 42 dias 42 dias Tratamento de eleição para crianças menores de oito anos SMZ + TMP + Rifampicina ou Estreptomicina2 ou Gentamicina2 4mg/kg/dose 7,5-10mg/kg/dose 30mg/kg/dose 5mg/kg/dose A cada 12h A cada 12h A cada 24h A cada 24h 42 dias 42 dias 21 dias 10 dias Tratamento de eleição para gestantes e nutrizes Rifampicina + SMZ + TMP3 ou Estearato de eritromicina 300mg 800mg + 160mg 500mg A cada 12h A cada 12h A cada 6h 42 dias 42 dias 42 dias Tratamento de eleição para adultos com intolerância/alergia a rifampicina e para profissionais infectados pela vacina RB51 Doxiciclina + Estreptomicina2 ou Gentamicina2 100mg 1g 160mg A cada 12h A cada 24h A cada 24h 42 dias 14 dias 14 dias Tratamento de eleição para adultos com intolerância/alergia a doxiciclina Ciprofloxacina + Rifampicina 500mg 300mg A cada 12h A cada 12h 42 dias 42 dias 1. O uso de tetraciclinas deve ser evitado em menores de oito anos. Em caso de intolerância a sulfametaxazol, avaliar risco-benefício e utilizar a eritromicina (7,5-12,5 mg/kg, a cada seis horas). 2. Aplicação intramuscular ou intravenosa. 3. O tratamento com sulfametoxazol + trimetoprim (SMZ-TMP) deve ser evitado no terceiro trimestre do puerpério, devido ao risco de icterícia neonatal. fonte: diretoria de Vigilância epidemiológica de sc, jan. de 2012. 28 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs Algumas complicações podem ocorrer em consequência da Brucelose, como endocardite, espondilite e neurobrucelose; nesses casos, além de o tratamento ser mais longo (por até mais de oito semanas), pode haver a necessidade de intervenção cirúrgica, para drenagem de abscessos, reparo de válvulas cardíacas, dentre outros. Nesse contexto, o término do tratamento será avaliado de acordo com a resposta clínica do paciente, bem como de seus exames complementares. No tratamento contra a neurobrucelose, deve-se evitar o uso de aminoglicosídeos, devido à sua baixa permeabilidade na barreira hematoencefálica. Já os casos de endocardite com reposição valvar, o tratamento com antimicrobiano deve ser mantido por várias semanas seguidas após a cirurgia de reparação. A ocorrência de recidivas é fenômeno muito comum em pacientes acometidos por Brucelose, sendo descritas em cerca de 20% dos pacientes tratados de forma monoterápica no primeiro ano pós-tratamento. Nesses casos, a doença geralmente é menos sintomática quando comparado ao evento inicial, além de ser raramente associado a quadros de resistência microbiana. Assim, recomenda-se que o mesmo protocolo terapêutico já utilizado seja seguido em casos de recidiva, sendo o tempo de tratamento mais prolongado a única ressalva sugerida por alguns profissionais, apesar de ainda não termos evidências que comprovem cientificamente o seu benefício. Seguimento ambulatorial Um dos principais objetivos do seguimento ambulatorial no que tange à Brucelose consiste na busca das formas de contágio do paciente enfermo, com o objetivo de realizarmos uma triagem nos indivíduos/contatos que tiveram a mesma forma de exposição ao agente. Nesses casos, os profissionais de saúde do município onde o paciente reside serão responsáveis pela triagem laboratorial inicial, devendo os profissionais ser capacitados e ter recursos para a realização dos testes para diagnóstico diferencial, tanto para o acompanhamento dos indivíduos expostos com títulos ascendentes nos testes sorológicos de triagem (Rosa Bengala) quanto para os casos confirmados. Casos suspeitos de Brucelose Pacientes que apresentem sintomas clínicos compatíveis com a Brucelose devem ser submetidos aos exames laboratoriais específicos (conforme Figura 3) para que o diagnóstico seja concluído. Em casos de suspeita da forma aguda da doença, recomenda-se a repetição dos exames dentro do prazo de 30 dias, caso os resultados sejam negativos na primeira bateria de exames específicos. Ainda, caso após a repetição o resultado permanecer negativo, deve-se realizar o acompanhamento ambulatorial do paciente para a realização do diagnóstico diferencial. Vale ressaltar a supraimportância 29 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii da história clínica e epidemiológica do paciente e das áreas correlatas, com o objetivo de constatarmos as possíveis formas de transmissão da doença. Casos confirmados de Brucelose O plano terapêutico descrito no presente material deve ser adotado tanto para os casos confirmados (positivos do ponto de vista clínico, epidemiológico e laboratorial), bem como para aqueles casos ditos “prováveis”, ou seja, positivos do ponto de vista clínico, epidemiológico e por meio do teste de triagem (nos casos de ausência de testes laboratoriais para a confirmação). No Quadro 2 (adaptado da Nota Técnica do Ministério da Saúde do Peru) sugere-se a forma de acompanhamento do paciente tanto com consultas periódicas quanto com avaliações de controle sorológico, com o objetivo de avaliar a melhora clínica do paciente, bem como a sua adesão ao tratamento. A utilização de teste sorológico no controle dos pacientes deve ser feita com muita cautela, uma vez que pode não ajudar adequadamente em recidivas, já que a titulação de anticorpos decresce lentamente, podendo ser negativada apenas entre seis a doze meses após o tratamento. Se houver suspeita de recidiva nesse período, os anticorpos detectados podem ser em consequência da primeira infecção. Assim, é recomendada a comparação entre os resultados dos dois testes realizados, desde que tenham seguido a mesma metodologia e sido realizados no mesmo laboratório. No primeiro ano após o tratamento contra a Brucelose, é muito comum os pacientes serem acometidos por recidivas. Assim, durante esses primeiros 12 meses, o paciente deve ser monitorado por exames clínicos e laboratoriais (como proteína C reativa e transaminases, que são considerados indicadores da doença em atividade). Quadro 2. acompanhamento ambulatorial de pacientes com brucelose humana Período Tipo de controle 1a semana de tratamento Avaliação clínica e verificação da adesão ao tratamento 3a semana de tratamento Avaliação clínica e verificaçãoda adesão ao tratamento Final do tratamento Avaliação clínica e sorológica – Teste Rosa de Bengala Pós-tratamento 1o mês ------------------------------------------------ 2o mês ------------------------------------------------ 3o mês ------------------------------------------------ 6o mês ------------------------------------------------ 12o mês ---------------------------------------------- 18o mês ---------------------------------------------- 24o mês ---------------------------------------------- Avaliação clínica Avaliação clínica Avaliação clínica e sorológica – Teste Rosa de Bengala Avaliação clínica e sorológica – Teste Rosa de Bengala Avaliação clínica e sorológica – Teste Rosa de Bengala Avaliação clínica e sorológica – Teste Rosa de Bengala Avaliação clínica e sorológica – Teste Rosa de Bengala – Alta do Paciente fonte: diretoria de Vigilância epidemiológica de sc, jan. de 2012. 30 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs A solicitação dos exames pode ser feita por médico assistente ou pela equipe de veterinários do município. Já a coleta deve ser feita no município de origem e o material deve ser devidamente encaminhado para o centro de análise credenciado pelo Mapa. Pessoas expostas à Brucelose Os indivíduos expostos à Brucella spp. (seja pelo contato com material contaminado em suas atividades profissionais ou pela ingestão de alimentos não processados adequadamente) devem ser submetidos a avaliações clínicas e laboratoriais em uma unidade de saúde. Aqueles que apresentarem sintomatologia compatível com casos de Brucelose devem ser encaminhados para as unidades de referência. figura 4. representação esquemática do manejo de indivíduos expostos à brucelose. Pessoa assintomática exposta à Brucelose Teste de triagem: Rosa de Bengala Positivo Negativo Manter acompanhamento ambulatorial e sorológico a cada seis meses até dois anos Repetir Rosa de Bengala em 30 dias Positivo Negativo Clínica compatível com Brucelose Títulos crescentes na sorologia Seguir fluxograma de diagnóstico de Brucelose humana Ambulatório de referência Alta do acompanhamento* * orientar sintomatologia e retorno, se necessário. fonte: diretoria de Vigilância epidemiológica de sc, jan. de 2012. 31 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii Indivíduos expostos e assintomáticos devem ser devidamente acompanhados e orientados quanto aos principais sintomas da doença, devendo estes serem reavaliados, inclusive com novo teste de triagem, caso haja aparecimento de clínica compatível. Epidemiologia A Brucelose é considerada uma zoonose hiperendêmica em diversas regiões do planeta, de forma que mesmo em locais livres de Brucelose podem ocorrer casos provenientes de outras regiões. Assim, naquelas propriedades que não apresentam casos de Brucelose em sua produção, cuidados devem ser tomados principalmente no momento da compra, para evitar que a Brucelose animal entre no rebanho por meio de animais sem o teste para diagnóstico dessa doença (de acordo com a legislação vigente, a apresentação de testes negativos tanto para a Brucelose quanto para a tuberculose é obrigatória para o trânsito interestadual de bovinos e bubalinos). Prognóstico A Brucelose pode fazer você se sentir muito mal e ser de longa duração, no entanto, raramente é fatal em humanos. A maioria das pessoas se recupera completamente sem complicações após tratamento antibiótico. No entanto, se não for tratada, até 2% dos pacientes podem desenvolver endocardite (infecção do coração), o que pode ser fatal. Prevenção Prevenção da Brucelose humana A prevenção da Brucelose humana está diretamente relacionada com o controle e/ou erradicação da doença nos animais, por meio de métodos de identificação e eliminação de animais infectados, bem como pela vacinação do rebanho (animais provenientes de propriedades com foco de Brucelose, com idade igual ou superior a oito meses e não reagentes a testes sorológicos). Além disso, a população deve ser orientada sobre o consumo de produtos devidamente pasteurizados e cozidos, e que sejam provenientes de locais com controle sanitário e fiscalizado por órgãos competentes. Conduta frente à exposição de animais ou alimentos à Brucella spp. A partir da devida notificação do caso suspeito (e/ou confirmado) de Brucelose animal, a vigilância epidemiológica do município deverá obedecer aos seguintes passos: 32 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs » Buscar e identificar (com registro dos dados pessoais) todos aqueles considerados expostos à Brucelose, por meio do preenchimento da ficha de notificação: › as fichas de notificação serão encaminhadas para vigilância epidemiológica do município, juntamente com as amostras sorológicas para a requisição do exame. 1. Orientar os indivíduos (tanto os considerados expostos quanto aqueles da propriedade em questão) sobre os riscos dessa zoonose, assim como as formas de prevenção da doença. 2. Todos aqueles indivíduos considerados expostos devem ser encaminhados para avaliação clínica. 3. Todos aqueles indivíduos identificados pelo contato direto com os animais infectados ou que tenham consumido produtos provenientes de animais suspeitos e/ou confirmados de Brucelose animal naquela propriedade devem ser encaminhados para análise sorológica. Conduta do serviço oficial frente aos animais positivos A propriedade com casos confirmados de Brucelose possui o trânsito de animais interditado. Os animais cujos testes (clínicos e laboratoriais) forem positivos são separados para a devida eutanásia pelos órgãos competentes, podendo ocorrer tanto na própria propriedade (sendo a carcaça ali mesmo enterrada) ou levados para abate em estabelecimentos com serviço de inspeção. Os demais animais do rebanho devem ser submetidos a repetidos testes (clínicos e laboratoriais) para a Brucelose, até que se tenha a certeza de que não exista mais foco da doença e, assim, a propriedade pode ser desinterditada. doença de Lyme A Doença de Lyme é uma infecção bacteriana sistêmica causada pela espiroqueta Borrelia burgdorferi e transmitida por carrapatos dos gêneros Ixodes e Amblyomma, que pode acometer o homem, assim como animais domésticos e silvestres. A apresentação clínica da Doença de Lyme é muito ampla, podendo iniciar com erupções cutâneas e evoluindo para manifestações cardíacas, musculoesqueléticas, artríticas, neurológicas e, inclusive, psiquiátricas. Apesar de a grande maioria dos sintomas terem chances de ser eliminados por tratamento precoce com antibióticos, quando o tratamento tem início tardio (ou é realizado de forma inadequada), o paciente 33 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii tem grandes chances de desenvolver o “estágio tardio” da Doença de Lyme que, além de ser debilitante, é de difícil tratamento. Sinonímia A Doença de Lyme também é conhecida como Borreliose ou Borreliose de Lyme ou Meningopolineurite por Carrapatos, Artrite de Lyme, Eritema Migratório. Agente Etiológico O agente causador da Doença de Lyme é Borrelia burgdorferi, uma bactéria gram-negativa, espiralada e multiflagelada, microaerófila e nutricionalmente exigente para o seu lento crescimento. Essa bactéria é intracelular obrigatória, e apresenta protoplasma e uma membrana externa rica em lipoproteínas (Figura 5). figura 5. ilustração da espiroqueta Borrelia burgdorferi, agente causador da doença de lyme fonte: <https://pt.wikipedia.org/wiki/borrelia_burgdorferi>. Período de incubação O período de incubação varia de três a 30 dias após a picada do carrapato. reservatórios e vetor Os reservatórios para Borreliaburgdorferi são carrapatos dos gêneros Ixodes (Figuras 6A e 6B) ou Amblyomma (Figura 7), que têm o ciclo de vida exposto na figura a seguir (Figura 8). 34 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs figura 6. carrapatos da espécie Ixodes ricinus, pertence à família Ixodidae. possuem escudo dorsal não ornamentado, os hipostômios podem apresentar dentições. presença de um macho (A) no canto superior esquerdo da figura, o escudo cobre todo o corpo e presença de quatro fêmeas (b) na figura, escudo dorsal no terço anterior do corpo, podem ficar acinzentadas quando ingurgitadas. fonte: <https://pt.wikipedia.org/wiki/carrapato-estrela>. figura 7. carrapatos da espécie Amblyomma cajennense ou carrapato-estrela, pertence à família Ixodidae. possuem escudo dorsal ornamentado, palpos e gnatossoma longos. o macho (A) tem escudo dorsal que cobre todo o corpo e a fêmea (b) tem escudo apenas no terço anterior do corpo. fonte: <https://hiveminer.com/tags/micrura>. 35 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii figura 8. ciclo de vida do carrapato Amblyomma cajennense, vetor da doença de lyme. fonte: <http://carrapatos.cnpgc.embrapa.br/museu.html>, foto de Jaqueline Matias e <https://pt.wikipedia.org/wiki/ carrapato-estrela>, respectivamente. Borrelia burgdorferi é transferida via transovariana da fêmea do carrapato para seus ovos e se mantém nas larvas, as quais irão transferir o agente etiológico para os animais que picarem (Figura 9). figura 9. ciclo que ilustra a transmissão de Borrelia burgdorferi ao longo dos estágios da vida do carrapato e deste para vários animais fonte: <http://www.oswaldobuzzo.com.br/artigos/doencas-rurais?tmpl=%2fsystem%2fapp%2ftemplates%2fprint%2f&showpri ntdialog=1>. Modo de transmissão e Patogenia A infecção humana por Borrelia burgdorferi ocorre pela saliva do carrapato (gêneros Ixodes ou Amblyomma) contendo a espiroqueta. A disseminação das espiroquetas no indivíduo hospedeiro ocorre pela sua associação ao plasminogênio sem ativadores, e à 36 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs ativação do complemento. Apesar de não serem conhecidos os mecanismos de elevação das respostas imunitárias do hospedeiro nas recorrências febris, sabe-se que essas espiroquetas permanecem na corrente sanguínea do indivíduo durante os episódios de febre, induzindo, assim, a produção de anticorpos específicos contra as lipoproteínas da membrana plasmática da Borrelia spp. Assim, o término das manifestações clínicas é atribuído à atividade humoral específica de anticorpos que seria maior quando comparado às células fagocíticas. Por outro lado, as lipoproteínas expressas durante a infecção por Borrelia burgdorferi desencadeia processo infeccioso, levando a uma evolução da doença com remissão e exacerbação dos sinais clínicos. A imunidade patogênica do hospedeiro contra Borrelia burgdorferi induz reações autoimunes que podem induzir artrite e, até mesmo, lesões cardíacas, de forma que esse mecanismo de imunidade intrínseca pode ter alguma influência na constância dos sintomas clínicos. Alguns estudos mostram que o organismo humano apresenta fatores protetores contra esses anticorpos para Borrelia burgdorferi, como a decorina, por exemplo. A decorina é um proteoglicano com importante função na manutenção da matriz extracelular da pele, articulações e, em menor quantidade, no coração. Assim, a presença de decorina nesses sítios favorece a concentração das espiroquetas nessas regiões e, consequentemente, a instalação de uma infecção crônica. Vale ressaltar, ainda, que a exposição primária a um carrapato não contaminado é um fator de proteção, fato esse sugerido pelas evidências de que moradores de regiões endêmicas de carrapatos dos gêneros Ixodes ou Amblyomma não desenvolvem a doença. Autores sugerem que esse fator de proteção pode ser em decorrência de uma hipersensibilidade cutânea desenvolvida em resposta à saliva do carrapato, o que poderia culminar com uma reação imune local protetora. No entanto, tal proteção parece ser transiente, já que o indivíduo não consegue manter a imunidade natural contra a Doença de Lyme, podendo, assim, sofrer uma reinfecção a partir de um novo contato com a salina do carrapato. Manifestações clínicas As manifestações clínicas podem ser divididas em três estágios. A principal e primeira manifestação é o eritema migratório que aparece no local da picada. A lesão se inicia, em média, de três a 30 dias após a picada. Dos infectados, de 60% a 80% apresentam essa lesão. Esse estágio 1 vem acompanhado de sintomas semelhantes ao da gripe, como cefaleia, febre, mialgia, fadiga e artralgia. O rash cutâneo mede aproximadamente 0,5cm de diâmetro, demonstra expansão centrífuga e lenta, mas, também, pode 37 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii expandir-se rapidamente. Possui a região central mais clara e a borda mais avermelhada. Aproximadamente 50% dos indivíduos infectados apresentam somente uma lesão quando se inicia em outros lugares, é sinal de doença disseminada (Figuras 10A e 10B). figura 10. ilustração de eritema migratório em antebraço esquerdo de uma pessoa picada por carrapato (A). lesão característica após picada do carrapato (b) fonte: <https://pt.wikipedia.org/wiki/doen%c3%a7a_de_lyme>. Nessa situação, inicia-se o estágio 2. São manifestações que podem aparecer após semanas ou meses do início do eritema migratório. Elas podem durar pouco, ou até meses, podem ser recorrentes e também se tornarem crônicas. Os sistemas mais acometidos são: neurológico, cardíaco e, ocasionalmente, ocular. As principais manifestações de SNC são comprometimento de condução nervosa, perda de reflexo, parestesia, neuropatia craniana, radiculopatia, meningite, cefaleia, fadiga e mudanças comportamentais. Afecções cardíacas são mais raras, mas podem acontecer arritmia, miocardite, angina, vasculite e bloqueio atrioventricular. Esse último é o mais comum. Geralmente, a lesão é reversível, melhora em dias ou semanas, e, algumas vezes, está associada à miocardite, palpitação e bradicardia. Em alguns casos pode haver manifestações oculares como alterações visuais, cegueira, lesão de retina, atrofia óptica, conjuntivite, uveíte, coroidite, ceratite, inflamação, dor, diplopia e papiledema. Pode ocorrer também acometimento do nervo óptico com neurite óptica ou neurorretinite. Embora rara, pode haver paralisia do abducente, oculomotor e troclear. O estágio 3 acontece meses ou anos após infecção e, frequentemente, é caracterizado pela artrite crônica, acrodermatite, encefalomielite. Já foi descrita Lyme congênita. A transmissão do agente por via transplacentária no primeiro trimestre da gestação aumenta a chance de complicações neonatais. Pode ocorrer parto prematuro e morte neonatal. Não há transmissão do agente pelo leite materno nem entre pessoas. Em crianças, as manifestações mais comuns são: eritema migratório, artrite, paralisia do nervo facial, meningite asséptica e cardiopatia. Na meningite infantil por Lyme há pouca 38 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs febre, porém, há cefaleia e rigidez nucal. É importante pensar em coinfecção quando o aspecto clínico é diferente da infecção isolada. Tratamento antibiótico adequado evita essa transmissão. figura 11. esquema que resume os sintomas da doença de lyme fonte: <http://www.wort.lu/pt/luxemburgo/doenca-de-lyme-tratada-com-pincas-no-luxemburgo- 56bb2a000da165c55dc52b30>. Outras alterações laboratoriais que os pacientes podem apresentar são: anemia, VHS aumentado, leucocitose e trombocitopenia, além do aumento nas enzimas hepáticas. diagnóstico diferencial Para os casos mais complicados de serem diagnosticadosou que não se tenha dados suficientes para se fechar o diagnóstico de boreliose, deve-se fazer o diagnóstico diferencial para sífilis, doença reumatoide, mononucleose infecciosa e morphea. diagnóstico O diagnóstico da Doença de Lyme consiste na associação dos sintomas com dados epidemiológicos (naquelas regiões de grande endemicidade) e testes laboratoriais. Dentre os exames laboratoriais mais utilizados para o diagnóstico dessa doença é o ELISA seguido pelo Western-Blot, sendo esse o melhor teste diagnóstico. Apesar de o 39 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii exame de PCR não ser muito utilizado, ele teria maior sensibilidade quando comparado ao Western-Blot na fase aguda da Doença de Lyme. Na anamnese, deve-se averiguar o número de semanas que o paciente apresenta os sintomas, sendo esse dado de suma importância para o pedido dos exames a serem feitos. Enquanto em pacientes de alto risco (sintomáticos e provenientes de áreas endêmicas) não são necessários exames laboratoriais, pacientes com sintomas suspeitos por até quatro semanas, recomenda-se solicitar o ELISA e Western-Blot tanto para IgM quanto para IgG. Por outro lado, estando o animal com sintomas com mais de quatro semanas, somente a quantificação de IgG deve ser solicitada, a fim de evitar resultados falso-positivos. Na clínica veterinária encontramos elevados índices de resultados falso-negativos e falso-positivos. Os exames falso-positivos para a Doença de Lyme podem ocorrer quando o animal apresenta outras infecções por espiroquetas (como mononucleose infecciosa, sífilis, doença reumatoide, e morphea). Já os animais que receberam a vacina composta por gene derivado de B. burgdorferi também podem apresentar resultados falso-positivos. Além do ELISA e Western-Blot, técnicas alternativas são utilizadas para o diagnóstico da Doença de Lyme, como a biópsia cutânea, por exemplo, que, apesar de ter baixa especificidade, é de grande utilidade para o diagnóstico devido à caracterização de infiltrados na pele de linfócitos, histiócitos e eosinófilos. Outra técnica diagnóstica é a biópsia cutânea, que, apesar de não ser tão específica, mostra-se útil no diagnóstico pelas características do infiltrado de linfócitos, histiócitos e eosinófilos na pele, que apresenta uma disposição específica em torno dos vasos (em forma de manguito), assim como no interstício. Já a detecção do agente causador da Doença de Lyme por meio de histologia não é recomendada, já que os micro-organismos apresentam-se de forma escassa e não homogênea nas lesões, apesar de ainda haver divergências entre os autores sobre essa forma de diagnóstico. A cultura, por sua vez, também é extremamente difícil, assim como a visualização microscópica, já que os micro-organismos não absorvem corantes. tratamento A antibioticoterapia profilática não é recomendada para quem teve contato com o carrapato, mas apresenta-se assintomático; no entanto, o paciente deve ser acompanhado e ficar em observação para possível aparecimento de sintomas compatíveis com a Doença de Lyme, como artralgia, febre ou rash. 40 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs Para os pacientes sintomáticos, o tratamento deve ser iniciado tão logo o diagnóstico seja concluído que, dependendo do estágio da doença, a antibioticoterapia pode ser por via oral ou endovenosa. O fármaco de primeira escolha é a doxiciclina 100mg (duas vezes por dia, via oral, durante 14 a 21 dias consecutivos) seguidos de cefuroxina e amoxicilina com probenecida e macrolídeos. Para crianças e gestantes, a droga de eleição é a amoxicilina. Já em casos com complicações cardíacas e neurológicas, indica-se a utilização de ceftriaxona 2g, uma vez ao dia, durante duas a três semanas consecutivas; já em complicações alérgicas, recomenda-se a utilização de doxiciclina. Quando o paciente apresenta febre recorrente, deve-se optar por tetraciclina 0,5g e eritromicina 0,5g (em dose única). Já nos casos em que se observa encefalite e meningite, recomenda-se o uso de penicilina, cefotaxima ou ceftriaxona, por via endovenosa, por 14 dias consecutivos. A evolução do tratamento mostra-se eficaz quando o médico veterinário verifica a melhora nos sintomas clínicos, além da normalização do pleomorfismo celular do liquor. Não é recomendado medir os anticorpos no liquor pós-tratamento, porque eles costumam persistir. Pacientes podem apresentar a síndrome pós-doença de Lyme, que é caracterizada pela persistência dos sintomas (como sintomas neurocognitivos, fadiga, cefaleia, mialgia e artralgia), mesmo após os protocolos terapêuticos. Apesar de a patogênese da síndrome pós-doença de Lyme ser desconhecida, o tratamento recomendado é puramente sintomático, tendo em vista que estudos com pacientes nessa condição revelaram que a antibioticoterapia mostrou-se ineficaz. Epidemiologia No Brasil, o principal carrapato vetor dessa doença é o carrapato Amblyomma cajennense. Já na América do Norte, o carrapato “patas negras de cervos” (Ixodes scapularis) espalhou a doença pela costa do Atlântico e o carrapato (Ixodes pacificus) espalhou o agente etiológico na costa do Pacífico. Na Europa, a transmissão ocorre pelo Ixodes ricinius. Prognóstico Quando o tratamento é iniciado na fase inicial da doença, a recuperação do paciente é completa e rápida; porém, quando ocorre nos estágios mais avançados, os sintomas 41 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii podem ser recorrentes (nesses casos, recomenda-se um segundo ciclo de terapia, com até quatro semanas de duração, já que antibioticoterapia por longos períodos mostrou-se ineficaz e até prejudicial, podendo levar a diversas complicações, incluindo morte). Prevenção Evitar aquelas áreas sabidamente infestadas por carrapatos continua sendo o melhor método diagnóstico. Para quando não for possível, recomenda-se: » usar calça e camisa de mangas compridas; » caminhar no centro das trilhas, evitando as margens; » aplicar repelentes de insetos à base de DEET (dietiltolu-amida) sobre a pele e roupa, ou repelente à base de permethrin sobre as roupas; » verificar, diariamente, se há carrapatos. Os lugares prediletos por eles são as pernas, virilhas, axilas, linhas do cabelo e dentro ou atrás das orelhas; » remover os carrapatos imediatamente usando pinça de ponta fina – não se deve espremer nem torcer o carrapato. Leptospirose A Leptospirose é uma doença infecciosa e potencialmente grave, causada por uma bactéria, que cursa com sintomatologia aguda e com febre, e de evolução benigna em cerca de 90% dos casos. A Leptospirose é uma zoonose com ampla distribuição mundial (com exceção das regiões polares), acometendo indivíduos de ambos os sexos e de qualquer idade. Sinonímia Apesar de a leptospirose ser conhecida por outros nomes (Febre dos Pântanos, Febre dos Arrozais, Febre Outonal, Doença dos Porqueiros, Tifo Canino, ou Doença – ou Síndrome – de Weil), deve-se evitar o uso de tais nomenclaturas devido à elevada possibilidade de confusão com outras enfermidades. Agente Etiológico O agente etiológico da Leptospirose é uma bactéria aeróbica obrigatória e espiroqueta (helicoidal), do gênero Leptospira. Hoje, conhecemos 14 espécies patogênicas, sendo 42 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs L. interrogans a mais importante. A unidade taxonômica básica é sorovar (sorotipo): estudos já identificaram mais de 200 sorovares até o momento, e cada um tem o seu hospedeiro preferencial, apesar de que uma única espécie animal pode albergar mais de um sorovar. O tipo de sorovar pode determinar a forma da apresentação clínica da Leptospirose no homem, (por exemplo, no Brasil,os sorovares Icterohaemorrhagiae e Copenhageni estão frequentemente relacionados aos casos mais graves da doença) (Figura 12). figura 12. ilustração de miscroscopia eletrônica de bactéria do gênero leptospira. fonte: <http://clep.fiocruz.br/>. reservatórios A persistência dos focos de Leptospirose no ambiente está relacionada a diversos fatores; no que tange ao próprio agente etiológico, podemos citar a alta variação antigênica, a grande resistência desses micro-organismos no ambiente (sobrevivendo por até 180 dias) e a elevada variedade de animais com potencial para se tornar hospedeiros da Leptospira. Nesse contexto, os animais sinantrópicos, domésticos e selvagens, são reservatórios importantes para a persistência dos focos da infecção de Leptospira spp., em que os humanos se encontram apenas como hospedeiros acidentais e, terminais, dentro da cadeia de transmissão da Leptospirose. Na verdade, os roedores sinantrópicos são os principais reservatórios do agente etiológico da Leptospirose, sendo tais reservatórios exemplificados pelos Rattus norvegicus (ratazana), Rattus rattus (rato preto) e Mus musculus (camundongo). Em particular, a ratazana (R. norvegicus) é o principal portador de um dos sorovares mais patogênicos para os seres humanos (sorovar Icterohaemorraghiae). Outros reservatórios de Leptospira spp. de relevância para a saúde pública são os caninos, suínos, bovinos, equinos, ovinos e os caprinos. 43 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii Os roedores sinantrópicos não desenvolvem a Leptospirose quando se infectam com o seu agente etiológico, mas, sim, tornam-se portadores. Essas bactérias instalam-se nos túbulos renais dos roedores, podendo ser eliminadas vivas no meio ambiente por meio da urina por semanas, contaminando, assim, a água, o solo e alimentos. Dependendo da espécie do animal e do sorovar, os hospedeiros podem eliminar a Leptospira spp. por meio da urina por meses e, até mesmo, anos. Período de incubação O período de incubação da Leptospira spp. varia de um a 30 dias (sendo, em média, de cinco a 14 dias). Modo de transmissão e Patogenia Os micro-organismos penetram no hospedeiro pelas mucosas, de lesões pré-existentes na pele ou mesmo na pele íntegra, quando imersa por longos períodos em água contaminada. Como mencionado anteriormente, a principal forma de infecção humana por Leptospirose é em consequência da exposição à urina de animais infectados, de forma direta e indireta. Raramente as infecções ocorrem pelo contato com sangue e órgãos de animais infectados, pela ingestão de água ou alimentos contaminados, e da transmissão acidental. Por outro lado, a transmissão direta entre humanos é extremamente rara, havendo relatos de infecção por contato com urina, sangue ou secreções de pessoas infectadas. A suscetibilidade no homem à Leptospirose é geral. A imunidade adquirida após a infecção é do tipo sorovar-específica, ou seja, um mesmo indivíduo pode manifestar a doença mais de uma vez, desde que o agente infeccioso do novo episódio pertença a um sorovar diferente do anterior. Manifestações clínicas As manifestações clínicas e o grau de severidade da Leptospirose humana são muito diversos, variando desde as formas assintomáticas e subclínicas, até os quadros mais graves e complexos. Do ponto de vista didático, as manifestações clínicas da Leptospirose humana foram divididas em fase precoce e fase tardia, de acordo com a fase evolutiva da doença: a instalação da doença, com quadros de febre, mialgia e cefaleia caracteriza a fase precoce da Leptospirose, um período de difícil diferenciação com outras causas de quadros febris agudos; já a progressão da Leptospirose para a 44 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs fase tardia ocorre em cerca de 15% dos casos, que está associada com as manifestações graves e potencialmente letais da doença. Fase precoce (fase leptospirêmica) Apesar de esta fase corresponder de 85% a 90% das formas clínicas e de curta duração (três a sete dias), poucos casos da doença nesse período são identificados e notificados, em consequência das dificuldades tanto no diagnóstico clínico quanto laboratorial da fase precoce. A fase precoce da Leptospirose caracteriza-se pela ocorrência de quadros febris de início súbito, mialgia (região lombar e nas panturrilhas), cefaleia, anorexia, náusea e êmese, podendo o indivíduo apresentar outros sintomas (como tosse, hiperemia/hemorragia conjuntival, artralgia, fotofobia ou dor ocular, hepatomegalia, esplenomegalia e linfadenopatia). O exantema (distribuído ao longo do tronco ou da região pré-tibial, apresentando componentes de eritema macular, purpúrico, papular ou urticariforme) pode acontecer em 10% a 20% dos pacientes. Frequentemente, a Leptospirose na fase precoce é diagnosticada como uma “síndrome gripal”, “virose” ou outras doenças que ocorrem na mesma época, como dengue ou influenza. Apesar do difícil diagnóstico da doença na fase precoce, alguns sinais e sintomas podem ajudar a diferenciar a fase leptospirêmica de outras doenças com quadros febris agudos, apesar de não serem suficientemente sensíveis ou específicos para tal diferenciação. Dentre esses sinais e sintomas, podemos citar: » o surgimento de sufusão conjuntival, por exemplo, é um achado característico da Leptospirose observado em cerca de 30% dos pacientes, que geralmente aparece no final da fase leptospirêmica da doença; » a sufusão conjuntival, caracterizada por um quadro de hiperemia e edema da conjuntiva, ao longo das fissuras palpebrais; » a progressão da doença pode levar ao desenvolvimento de hemorragias conjuntivais e petéquias. Assim, pela dificuldade do diagnóstico diferencial na fase precoce da Leptospirose, é importante coletar um histórico adequado dos casos suspeitos, abrangendo a exposição epidemiológica de risco que possa auxiliar no diagnóstico clínico, como a exposição direta ou indireta a coleções hídricas (incluídas água e lama de enchentes), à urina de animais infectados ou outros materiais passíveis de contaminação, além da exposição a pacientes provenientes de áreas de risco da doença. 45 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii Fase tardia (fase imune) A evolução da Leptospirose para casos mais graves ocorre em cerca de 15% dos pacientes, podendo ter início ao final da primeira semana, ou ainda, mais cedo, caso o indivíduo esteja com a apresentação fulminante da doença. A manifestação clássica da Leptospirose grave é caracterizada por icterícia, hemorragia (principalmente pulmonar) e insuficiência renal, um conjunto de sintomas conhecido como síndrome de Weil, que podem se manifestar isoladamente ou em conjunto na fase imune da Leptospirose. A hemorragia pulmonar em pacientes com Leptospirose tem sido descrita como um importante sinal de caracterização da fase tardia da Leptospirose, caracterizada por uma aguda lesão pulmonar associada com sangramento pulmonar intenso. Tal manifestação clínica é tão expressiva que enquanto a taxa de mortalidade em casos de Leptospirose geral é de cerca de 10%, a letalidade de pacientes que desenvolvem a fase tardia da doença, e que apresenta hemorragia pulmonar, é maior que 50%. Pacientes com comprometimento pulmonar apresentam quadros de tosse seca, dispneia e expectoração hemoptoica, podendo ocorrer casos de cianose e dor torácica. Quando ocorrem quadros de hemoptise (expectoração de sangue) de forma súbita, o paciente é considerado em estado de grande gravidade, podendo culminar com quadros de insuficiência respiratória – síndrome da hemorragia pulmonar aguda e síndrome da angústia respiratória aguda – seguida de óbito. Na maioria dos pacientes, a hemorragia pulmonaré identificada somente por meio de radiografia de tórax, ou quando o paciente é submetido à intubação orotraqueal. A Leptospirose ainda pode causar também síndrome da angústia respiratória aguda, mesmo na ausência de sangramento pulmonar. Assim, os médicos devem suspeitar de lesão pulmonar grave da Leptospirose em pacientes que apresentem febre e sinais de insuficiência respiratória, mesmo que na ausência de hemoptise. Os quadros da “forma pulmonar grave da Leptospirose” podem evoluir para quadros de hemorragia intensa e maciça, com insuficiência respiratória aguda ou síndrome de angústia respiratória do adulto, em muitos casos sendo acompanhado de icterícia e insuficiência renal, podendo levar a óbito nas primeiras 24 horas de internação. Além de sangramento nos pulmões, a Leptospirose pode induzir hemorragias na pele (por equimoses, petéquias ou sangramento em locais de punção venosa), em mucosas ou órgãos internos, e no sistema nervoso central como consequência da trombocitopenia. O quadro de insuficiência renal aguda é uma importante complicação da fase tardia da Leptospirose e ocorre em 16% a 40% dos pacientes. 46 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs A icterícia é um sinal clínico frequentemente utilizado para auxiliar o diagnóstico da Leptospirose, manifestando-se como icterícia rubínica (com tonalidade alaranjada intensa) a partir do terceiro ou sétimo dia da doença. A icterícia rubínica é considerada um sinal de prognóstico reservado para o paciente, devido à sua associação com a síndrome de Weil. No entanto, vale ressaltar que casos de hemorragia pulmonar e insuficiência renal podem ocorrer em pacientes sem presença de icterícia, de forma que os médicos não devem levar em consideração única e exclusivamente a presença de icterícia para identificar pacientes leptospirêmicos ou com riscos de graves complicações da doença. A fase tardia da Leptospirose ainda pode causar uma insuficiência renal aguda característica, (não oligúrica e hipocalêmica, devido à inibição de reabsorção de sódio no túbulo contorcido proximal do néfron e o consequente aumento na carga de sódio no túbulo distam, com a perda de potássio). Nesse estágio inicial, o débito urinário encontra-se normal ou elevado, com níveis séricos de creatinina e ureia elevados, podendo o paciente desenvolver hipocalcemia de intensidade moderada a grave. Com a perda progressiva do volume intravascular, os pacientes desenvolvem insuficiência renal oligúrica, apresentando azotemia pré-renal, com o aumento progressivo nos níveis de potássio. Assim, devido à perda de volume contínua, os pacientes podem sofrer necrose tubular aguda e não responder à reposição intravascular de fluidos, necessitando, assim, do início imediato de diálise para o tratamento da insuficiência renal aguda. Convalescença e sequelas Mesmo estando apto para receber alta, o paciente pode apresentar astenia e anemia. O período de convalescença pode durar de um a dois meses, podendo nesse período, ainda haver quadros de cefaleia, febre, mal-estar geral e mialgia. O quadro de icterícia desaparece lentamente, podendo demorar semanas. As concentrações de anticorpos diminuem progressivamente, evidenciado por meio de testes sorológicos, apesar de em alguns casos essas concentrações permanecerem elevadas por meses ainda. Por outro lado, a eliminação de leptospiras pela urina (leptospirúria), fator importante na cadeia de transmissão da doença, pode se estender desde uma semana por até vários meses após o desaparecimento dos sintomas. diagnóstico diferencial Considerando-se que a Leptospirose tem um amplo espectro clínico, cursando com sintomas comuns a várias enfermidades, os principais diagnósticos diferenciais são: » Na Fase precoce: Dengue, Influenza (síndrome gripal), Malária, Riquetsioses, Doença de Chagas aguda, Toxoplasmose, Febre Tifoide, entre outras doenças. 47 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii » Na Fase tardia: Apendicite aguda, Colangite, Colecistite aguda, Coledocolitíase, Dengue hemorrágica, Doença de Chagas aguda, Endocardite, Esteatose aguda da gravidez, Febre amarela, Febre Tifoide, Hantavirose, Hepatites virais agudas, Malária grave, Meningites, Pneumonias, Pielonefrite aguda, Riquetsioses, Sepse, Síndrome Hepatorrenal, Síndrome Hemolíticourêmica, e outras vasculites, incluindo Lúpus eritematoso sistêmico, dentre outras doenças. diagnóstico Exames específicos Os métodos de diagnóstico mais usualmente utilizados para o diagnóstico de Leptospirose são o ELISA e o teste de microaglutinação, que devem ser realizados somente por laboratórios que credenciados na Rede Nacional de Laboratórios de Saúde Pública. No entanto, outros testes podem ser realizados para o diagnóstico, inclusive nas diferentes fases da doença. Na fase precoce da Leptospirose, por exemplo, as leptospiras podem ser visualizadas diretamente no sangue por meio de exame direto. Nessa fase, ainda podem ser realizados testes com cultura em meios específicos (que por ser um teste de longa duração, o diagnóstico é apenas retrospectivo), inoculação em animais de laboratório ou, ainda, a detecção do DNA da leptospira pela reação em cadeia da polimerase (PCR, do inglês polymerase chain reaction). Já na fase tardia, as leptospiras podem ser encontradas na urina, podendo ser cultivadas ou inoculadas como métodos de exames. tratamento O tratamento do paciente diagnosticado com Leptospirose é feito com hidratação, primordialmente. Sendo o diagnóstico feito até o quarto dia da doença, devem ser empregados antibióticos (doxiciclina, penicilinas), assim se reduz as chances de evolução para a forma grave da doença. As pessoas com Leptospirose sem icterícia podem ser tratadas no domicílio sob orientação médica. As que desenvolvem meningite ou icterícia precisam ser internadas. As formas graves da doença necessitam de tratamento intensivo e talvez medidas terapêuticas como diálise peritoneal para tratamento da insuficiência renal. Não se deve utilizar medicamentos para dor ou para febre que contenham ácido acetil-salicílico, pois esses podem aumentar o risco de sangramentos. Alguns anti-inflamatórios também não devem ser utilizados pelo risco de efeitos colaterais, como hemorragia digestiva e reações alérgicas. 48 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs Epidemiologia A maioria das infecções por leptospiras ocorre pelo contato com águas de enchentes contaminadas por urina de ratos. A ineficácia ou inexistência de rede de esgoto e drenagem de águas pluviais, a coleta de lixo inadequada e as consequentes inundações são condições favoráveis à alta endemicidade e às epidemias. Atinge, portanto, principalmente a população de baixo nível socioeconômico da periferia das grandes cidades, que é obrigada a viver em condições que tornam inevitável o contato com roedores e águas contaminadas. A infecção também pode ser adquirida através da ingestão de água e alimentos contaminados com urina de ratos ou por meio de contato com urina de animais de estimação (principalmente cães) que estejam com a doença. A limpeza de fossas domiciliares, sem proteção adequada, é uma das causas mais frequentes de aquisição da doença. Existe risco ocupacional para as pessoas que têm contato com água e terrenos alagados (limpadores de fossas e bueiros, lavradores de plantações de arroz, trabalhadores de rede de esgoto, militares) ou com animais (veterinários, pessoas que manipulam carne). Prognóstico O prognóstico para Leptospirose depende do tempo que se leva para diagnosticar a enfermidade e iniciar o tratamento. Quanto mais grave o quadro clínico, maiores as chances de a Leptospirose ser fatal. Prevenção Medidas de proteção individual Orisco de adquirir Leptospirose reduz quando se evita o contato ou ingestão de água que possa estar contaminada com urina de animais que tenham a bactéria. Deve-se ser utilizar apenas água tratada (clorada) para beber e para a higiene pessoal. Bebidas como água mineral, refrigerantes e cervejas não devem ser ingeridas diretamente de latas ou garrafas, sem que essas sejam lavadas adequadamente (já houve casos de contaminação com urina de rato). No caso de inundações, deve ser evitada a exposição desnecessária à água ou à lama. Se for necessário entrar em contato com água e terrenos alagados, é recomendado utilizar roupas e calçados impermeáveis. O uso profilático de antibacterianos é indicado apenas para indivíduos, como trabalhadores e militares em manobras, que irão se expor a risco em áreas de alta endemicidade por período relativamente curto (semanas). 49 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii A vacina não confere imunidade permanente e não está disponível para seres humanos no Brasil. Em alguns países é utilizada a vacinação contra sorotipos específicos em pessoas sob exposição ocupacional em áreas de alto risco. Em animais, a vacina (disponível no Brasil) evita a doença, mas não impede a infecção nem a transmissão da Leptospirose para seres humanos, por isso devendo ser feita anualmente nos cães. Recomendações para áreas com risco de transmissão É preciso que a população esteja bem informada sobre a doença e o que deve ser feito para evitá-la, além de ter acesso fácil aos serviços de diagnóstico e tratamento. O risco de transmissão pode ser reduzido nos centros urbanos por meio da melhoria das condições de infraestrutura básica (rede de esgoto, drenagem de águas pluviais, remoção adequada do lixo e eliminação dos roedores). A limpeza e dragagem de córregos e rios são medidas fundamentais para reduzir a ocorrência de inundações (equipamentos de proteção como botas e luvas impermeáveis, devem ser oferecidos às pessoas com risco ocupacional). Peste negra A Peste é uma doença infecciosa da antiguidade que persiste até hoje. A bactéria Yersinia spp., que sofre um ciclo de vida obrigatório pulga-roedor-pulga, causa a Peste Bubônica, uma doença zoonótica rápida e altamente fatal, responsável por pelo menos por três pandemias que ocorreram nos séculos 5-6, 8-14 e 19-21. A doença, que foi apelidada pelo povo de Peste Negra, matou cerca de um terço da população europeia em meados do século XIV. Sinonímia A Peste Negra também é conhecida como Peste Bubônica, Peste Pneumônica ou Peste Septicêmica. Agente etiológico O agente causador da doença é uma bactéria pequena, gram-negativa e de formato cocobacilar da espécie Yersinia spp. Na atualidade, estão incluídas 11 espécies no gênero Yersinia; entretanto, apenas três (Y. pestis, Y. pseudotuberculosis e Y. enterocolitica) demonstraram ser inquestionavelmente patógenos humanos (Figura 13). 50 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs figura 13. Microscopia eletrônica de Yersinia pestis. fonte: Muhsin Özel, gudrun holland, rolf reissbrodt/rKi, 2014. reservatórios e vetor Y. pestis é endêmica de vários roedores, incluindo ratos, esquilos, espécies de marmota, camundongos, coelhos e até gatos. E o vetor é a pulga do rato. Período de incubação A Peste Bubônica tem período de incubação de 7 dias ou menos após a picada de pulga infectada. No caso da Peste Pneumônica o período de incubação é mais curto, de 2 a 3 dias, os sinais pulmonares aparecem em 1 dia. Modo de transmissão e patogenia Entre os anos de 1346 e 1352, muitos navios de comércio, que vinham do Oriente, traziam milhares de ratos nos porões. Estes roedores encontraram nas cidades europeias um ambiente favorável para proliferação, pois estas possuíam condições precárias de higiene e galpões com alimentos nos portos. O esgoto corria a céu aberto e o lixo acumulava-se nas ruas. Rapidamente a população de ratos aumentou muito e a doença se espalhou. Estes roedores certamente já estavam contaminados com a bactéria Yersinia Pestis. E as pulgas destes ratos transmitiam a bactéria aos homens através da picada. Os ratos também morriam da doença e, quando isto acontecia, as pulgas passavam rapidamente para os humanos para obterem seu alimento, o sangue. 51 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii Manifestações Clínicas São reconhecidas três formas clínicas de peste: Bubônica, Septicêmica e Pneumônica. As formas Septicêmica e Pneumônica são habitualmente secundárias à forma Bbubônica, que é a mais comum. A Peste Bubônica caracteriza-se por edema dos linfonodos cervicais, axilares e inguinais, dependendo da localização da porta de entrada das bactérias. A disseminação hematogênica das bactérias para outros órgãos e tecidos, caracteriza a Peste Septicêmica, isso pode causar coagulação intravascular e choque endotóxico, produzindo uma pigmentação escura nos membros (Figura 14). No geral ela ocorre como uma complicação da Peste Bubônica, uma vez que a bactéria pode sair do sistema linfático e atingir o sangue, causando infecção generalizada. figura 14. imagem de pigmentação escura da mão de homem infectado com peste septicêmica, lesões consequentes de coagulação intravascular e choque endotóxico. fonte: <http://timecras.blogspot.com.br/2012_07_01_archive.html>. Caso a bactéria chegue aos pulmões através da corrente sanguínea, o paciente desenvolve Peste Pneumônica, que é transmitida de pessoa para pessoa por meio de objetos infectados com muco ou pelo ar. Peste Bubônica No caso da Peste Bubônica, as bactérias disseminam-se para os linfonodos regionais, geralmente na virilha (mais comum), na axila ou no pescoço. Um sinal precoce de infecção dos linfonodos consiste no aparecimento de grandes tumefações dolorosas, denominadas bubões. Com frequência, observa-se o início súbito de febre, calafrios, fraqueza e cefaleia. Dentro de poucas horas, o paciente pode apresentar dor intensa na região anatômica dos bubões. Os pacientes apresentam prostração e letargia e podem exibir agitação, particularmente quando o bubão é incômodo. Em estágios avançados da infecção, os gânglios linfáticos inflamados podem se transformar em feridas abertas 52 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs que transmitem a bactéria por contato. Trata-se da forma mais leve de peste; entretanto, a taxa de mortalidade nos casos não tratados é de aproximadamente 75%. Peste Pneumônica A Peste Pneumônica é habitualmente secundária ao processo bubônico, embora também possa resultar de exposição direta a perdigotos respiratórios de outro paciente pneumônico ou de gatos infectados. Os pacientes apresentam inicialmente febre e mal-estar; a seguir, desenvolvem sinais pulmonares dentro de 1 dia. Nesses pacientes, observam-se tosse, dor torácica e hemoptise, e o escarro é habitualmente purulento e contendo bacilos da peste. A Peste Pneumônica é rapidamente seguida de sepse e morte, a não ser que seja instituída a terapia antimicrobiana no primeiro dia. A taxa de mortalidade ultrapassa 90% se não for tratada. As pessoas com suspeita de Peste Pneumônica devem ser colocadas em isolamento respiratório e imediatamente notificadas às autoridades de saúde pública, de modo que se possa estabelecer um diagnóstico rápido, iniciar avaliações ambientais e implementar medidas de controle. Peste Septicêmica No caso da Peste Septicêmica, há uma infecção direta da corrente sanguínea pela picada de pulga ou pela disseminação do bacilo da peste dos linfonodos para a corrente sanguínea. Nessa forma, 100% dos pacientes apresentam septicemia, com hemoculturas positivas. Verifica-se o desenvolvimento de febre alta, delírio,convulsões em crianças, choque séptico e coagulação intravascular disseminada. Aparecem manchas hemorrágicas pretas, o que dá à peste o nome de Morte ou Peste Negra. diagnóstico diferencial O diagnóstico diferencial da peste inclui síndrome de Reyne, tularemia, pneumonia bacteriana e abdômen cirúrgico agudo. diagnóstico A confirmação laboratorial de todas as formas de peste é efetuada por métodos microbiológicos ou pela demonstração sorológica de títulos de antígenos ou anticorpos. Deve-se suspeitar de peste em pacientes febris que foram expostos a roedores ou outros mamíferos em áreas endêmicas conhecidas. Uma evolução febril num paciente com prostração e bubão deve sugerir peste ou tularemia: pode-se estabelecer rapidamente um diagnóstico bacteriológico no paciente com esfregaço e cultura de um aspirado de bubão, ou sangue ou escarro, nos casos mais graves da doença. 53 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii Foi desenvolvido um teste diagnóstico rápido que utiliza um teste de tira reagente simples com anticorpos monoclonais para detectar o antígeno F1, uma proteína específica de Y. pestis. O teste produz resultados confiáveis dentro de 15 minutos e poderia ajudar a controlar a doença nos países em desenvolvimento e talvez acelerar a detecção e o tratamento da infecção durante um ataque bioterrorista. tratamento Antibióticos e tratamento medicamentoso para alívio dos sintomas são efetivos contra Peste Negra em pacientes diagnosticados a tempo. Durante o tratamento, o paciente precisa ser isolado. Como terapia primária utiliza-se estreptomicina; alternativamente, utiliza-se a gentamicina, tetraciclinas ou cloranfenicol. Além disso, é necessário localizar e parar a fonte de infecção na área onde o caso humano foi exposto, além de instituir saneamento e controle de medidas apropriadas para impedir a fonte de exposição. Se não for tratada, a Peste Negra pode ser fatal. Por isso, é essencial o diagnóstico e tratamento precoce da doença. Epidemiologia São descritas duas formas epidêmicas da doença: a peste urbana, que é mantida na população de ratos urbanos, e a peste silvestre, cujos portadores são representados por espécies de marmota, camundongos, coelhos e ratos. O micro-organismo é transferido de roedor para roedor ou de roedor para o homem por pulgas. Ocorrem infecções domiciliares quando pessoas, animais domésticos (particularmente gatos) e roedores peridomésticos trazem pulgas para casa, expondo maior número de pessoas. Os gatos domésticos que têm livre acesso a áreas onde ocorre peste em roedores correm risco aumentado de infecção e, portanto, aumentam o riso de transmissão peridoméstica a seres humanos. Verifica-se a formação de abscessos orais nos gatos infectados, que transmitem diretamente a peste a pessoas por lambidas, arranhaduras ou mordidas. Viajantes podem adquirir peste em determinada região e adoecer em outra área onde a peste não é endêmica (isto é, peste peripatética). Apesar de rara, a peste peripatética tem mais tendência a resultar em desfechos fatais devido à demora em procurar tratamento ou ao estabelecimento de diagnóstico equívoco em áreas onde os profissionais de saúde podem não estar bem familiarizados com a doença. No atual estado de maior alerta quanto à possibilidade de terrorismo, os casos peripatéticos também podem 54 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs ser confundidos com aqueles que decorrem da liberação intencional de bactérias causadoras da peste. Prognóstico O prognóstico da Peste Negra é reservado, a obtenção da cura requer diagnóstico preciso e tratamento com antibióticos a tempo. Quando a Peste Bubônica torna-se séptica ou pneumônica, a situação clínica do paciente se agrava e as chances de cura reduzem consideravelmente. Prevenção A principal medida para prevenção da Peste Negra é identificar os locais onde a doença está ativa e notificar os órgãos públicos responsáveis, como a prefeitura. Você também deve evitar o contato direto com pessoas infectadas, principalmente se houver feridas expostas de Peste Bubônica ou se ela está infectada com a Peste Pneumônica. Tome as seguintes precauções se você vive ou passará por regiões onde ocorrem surtos de Peste Negra: » elimine potenciais focos de ratos e pulgas, tais como pilhas de entulho, lenha e lixo. Não deixe alimentos para animais de estimação em áreas que os roedores podem facilmente acessar; » mantenha seus animais de estimação livre de pulgas. Pergunte ao seu veterinário quais produtos irão funcionar melhor; » use repelente de insetos. Pseudotuberculoses Corynebacterium pseudotuberculosis A Pseudotuberculose causada por Corynebacterium pseudotuberculosis causa linfadenite subaguda a crônica na espécie humana e é contraída pelo contato com animais infectados com esse micro-organismo, sendo assim considerada uma zoonose. Essa bactéria é distribuída mundialmente, mas com prevalência mais alta na Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Estados Unidos e Brasil. Nos animais, esse patógeno intracelular facultativo que causa a linfadenite caseosa (LC) ou glândula caseosa em caprinos e ovinos, linfangite ulcerativa em equinos, abscessos 55 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii superficiais em bovinos, suínos, cervos e animais de laboratório, artrites e bursites em ovinos, abscessos de peito em equinos e mais raramente em camelos, caprinos e cervos. Sinonímia A doença também é conhecida como Mal do Caroço ou Falsa Tuberculose. Linfadenite caseosa (LC) ou glândula caseosa em caprinos e ovinos, linfangite ulcerativa em equinos, abscessos superficiais em bovinos, suínos, cervos e animais de laboratório, artrites e bursites em ovinos, abscessos de peito em equinos (febre dos pombos, peito de pombo ou garrotilho das terras secas) e mais raramente em camelos, caprinos e cervos. Agente Etiológico Trata-se da bactéria C. pseudotuberculosis e considerando sua morfologia, é classificada como pleomórfica por apresentar variações desde formas cocoide até bastão filamentoso. Esse micro-organismo é gram-positivo, imóvel e não esporula. Seu tamanho varia de 0,5 a 0,6μm de diâmetro por 1,0 a 3,0μm de comprimento, apresenta grande diversificação no requerimento de oxigênio, podendo ser aeróbio, microaerófilo e anaeróbio facultativo (Figuras 15A e 15B). Corynebacterium pseudotuberculosis produz dois importantes antígenos: uma potente exotoxina hemolítica, a fosfolipase D (PLD), capaz de converter esfingomielina em N-acetiesfingosil – ceramida e de aumentar localmente a permeabilidade vascular, levando à disseminação do patógeno no interior do hospedeiro, e os lipídios tóxicos que constituem cerca de 6,52% da parede celular e estão relacionados à virulência da bactéria, pois podem mediar a resistência bacteriana ao ataque dos fagócitos. figura 15. foto de placa de petri de cultura de C. pseudotuberculosis e ágar sangue (A). foto de uma lâminade da mesma bactéria corada pelo método de gram-aumento 100x (b) fonte: <https://en.wikipedia.org/wiki/corynebacterium> e <http://www.infobibos.com/artigos/2009_2/linfadenite/index.htm>, respectivamente. 56 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs Reservatórios Os reservatórios de C. pseudotuberculosis são considerados os animais que estejam infectados com o micro-organismo. Período de Incubação O período de incubação para aparição dos abscessos do C. pseudotuberculosis pode variar entre 25 e 147 dias ou mais, dependendo da proximidade com um linfonodo. A enfermidade desenvolve-se de forma mais rápida e grave em indivíduos imunossuprimidos. Modo de Transmissão e Patogenia A infecção em humanos por C. pseudotuberculosisé esporádica e a doença reconhecida como zoonose ocupacional. A transmissão do agente para o homem pode ocorrer pelo contato com material purulento procedente de abscessos de pele, linfonodos abscedados e, ocasionalmente, pela ingestão do leite de animais com mastite. A maioria dos casos são descritos em países com grande atividade na exploração de pequenos ruminantes, como Austrália, Nova Zelândia, EUA, França e Espanha. A bactéria penetra no organismo por meio de ferimentos, arranhões ou, mesmo, na pele intacta, alcança a linfa e atinge os linfonodos regionais. Manifestações Clínicas A infecção em humanos apresenta quadro clínico semelhante ao encontrado em ovinos e caprinos, e o contato direto com o material purulento proveniente dos abscessos caseosos, e o ambiente dos criatórios é aventado como a provável fonte de infecção. Nas últimas décadas, têm aumentado os registros de infecções humanas por C. pseudotuberculosis, notadamente em indivíduos imunossuprimidos. Clinicamente, a doença em humanos manifesta-se principalmente por linfadenite generalizada, recidivante e de curso longo, com lesões caracterizando linfadenite granulomatosa (Figuras 16A e 16B). 57 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii figura 16. caprinos infectados com C. pseudotuberculosis, apresentando linfonodos pré-escapular (A) e submandibular (b) aumentado de tamanho fonte: <http://guiaanimal.blogspot.com.br/2014/10/linfadenite-caseosa-ou-mal-do-caroco.html>. Diagnóstico Diferencial Para o diagnóstico diferencial, é importante a diferenciação de patógenos oportunistas que podem vir a causar abscessos, como Arcanobacterium pyogenes e a Pasteurella multocida. Diagnóstico O diagnóstico é baseado principalmente nos sintomas e sinais clínicos característicos, coleta do material purulento para cultivo e identificação do organismo envolvido, por meio da utilização de técnicas de cultivo bacteriano adequadas e, posteriormente, de testes bioquímicos. Além de contar com a PCR para confirmação do agente C. pseudotuberculosis. Tratamento Nas infecções humanas, a drenagem e excisão cirúrgica do(s) linfonodo(s) geralmente é necessária, e a maioria dos pacientes apresenta drenagem persistente ou recorrente no local de ferida durante períodos prolongados. Em virtude do processo lento de cicatrização, os pacientes são, em sua maioria, tratados com vários antibióticos, incluindo penicilina G, tetraciclina, eritromicina, sulfissoxazol e penicilinas antiestafilocócicas. Em geral, esse micro-organismo é sensível às penicilinas, aos macrolídios, às tetraciclinas, às cefalosporinas, às quinolonas e à rifampicina; a maioria mostra-se resistente aos aminoglicosídios, aos nitrofuranos e à polimixina. Epidemiologia No Brasil, a linfadenite caseosa (causada por C. pseudotuberculosis em ovinos e caprinos) apresenta ocorrência variável. Na região sul do País foi descrita a ocorrência de 8,09% de linfadenite caseosa em ovinos. Na região Nordeste, em especial em 58 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs Pernambuco, inquéritos soro-epidemiológicos realizados em caprinos revelaram 24% a 50% dos animais infectados, o que significa um risco alto para infecção de humanos. A alta prevalência da doença nessa região seria creditada à presença de plantas cactáceas que causariam ferimentos na pele e na cavidade oral dos animais, favorecendo a disseminação da doença, notadamente, em caprinos. No Rio de Janeiro foi estimada prevalência média de 12,2% em ovinos assintomáticos, e 32,5% em animais com sinais sugestivos de linfadenite. Prognóstico Assim como em outras zoonoses bacterianas, o prognóstico vai depender da detecção do agente etiológico por métodos de diagnósticos precisos e o uso de antibiótico terapia adequada para o tratamento da enfermidade. Prevenção Para evitar contrair a enfermidade, médicos veterinários, criadores e outros profissionais que mantêm contato com os animais de produção, particularmente pequenos ruminantes e equinos, recomenda-se fazer a inspeção periódica do rebanho, isolando-se os animais com abscessos para impedir que eles se rompam naturalmente e contaminem o ambiente. Deve-se também fazer higienização das instalações, bebedouros e comedouros com desinfetantes e fazer uso periódico de “vassoura de fogo” (pois a bactéria é sensível quando exposta a temperaturas maiores que 70ºC). A vacinação dos animais também pode ser uma medida de prevenção. Embora não haja proteção total contra a formação de abscessos, consegue-se redução do número de lesões. Para os caprinos, a resposta é menos efetiva. Os animais devem ser vacinados a partir de 60 dias de idade com reforço após 30 dias. A partir daí, deve-se fazer reforço anualmente. Fêmeas prenhes podem ser vacinadas três semanas antes do parto para garantir imunidade colostral a suas crias. Nesse caso, os cordeiros devem ser vacinados a partir de 90 dias de idade. Yersinia Pseudotuberculosis Y. Pseudotuberculosis é também endêmica de uma ampla variedade de animais, incluindo galinhas, e é responsável pela ocorrência de linfadenite mesentérica, particularmente em crianças que manifestam uma doença clínica simulando apendicite. Raramente ocorre variação septicêmica de infecção por Y. Pseudotuberculosis, que tem sido descrita principalmente em pacientes com algum distúrbio subjacente, como cirrose hepática, hemocromatose ou diabetes, com taxas de mortalidade de até 75%, apesar do tratamento com antibióticos. Os veículos e as fontes de infecção por Y. Pseudotuberculosis não são bem conhecidos. Em virtude de sua semelhança com Y. Enterocolítica, foi sugerido 59 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii que pode ser um possível patógeno transmitido por alimentos, porém as evidências limitam-se a alguns surtos sugestivos e dois surtos maiores, um ocorrido no Canadá, ligado ao leite pasteurizado, e outro observado na Finlândia, devido a alfaces contaminadas de uma fazenda que utilizava água não tratada para irrigação das plantações. tuberculose bovina no Homem A Tuberculose é uma doença bacteriana antiga de importância mundial que acomete os seres humanos e os animais (mamíferos e aves). O agente causador da doença foi descoberto no final século XIX; desde então, o quadro da Tuberculose humana e bovina tem-se agravado, particularmente nos países subdesenvolvidos. A suscetibilidade do homem ao Mycobacterium bovis é uma das principais razões da importância dessa zoonose nos bovinos, visto que a transmissão pode ocorrer pelo consumo do leite de vacas infectadas. Essa importante zoonose é uma doença infectocontagiosa de caráter crônico, caracterizada por granulomas específicos, denominados tubérculos. Sinonímia Antigamente chamada de Peste Cinzenta e também conhecida como Tísica Pulmonar ou Doença do Peito. Agente Etiológico O gênero Mycobacterium inclui várias espécies de micro-organismos causadores da Tuberculose tanto nos seres humanos como nos animais. O complexo Mycobacterium tuberculosis inclui M. tuberculosis, causador da Tuberculose humana e M. bovis, causador da Tuberculose bovina e bubalina e capaz de infectar o homem, fato que classifica a Tuberculose bovina como uma zoonose (Figuras 17A e 17B). Trata-se de uma doença infectocontagiosa de caráter crônico, caracterizada pela formação de granulomas específicos, denominados tubérculos. O M. bovis é patogênico para as espécies domésticas e silvestres, principalmente bovinos e bubalinos, e pode participar da etiologia da Tuberculose humana. 60 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs figura 17. foto de lâmina de M. tuberculosis corada pelo método de gram(A) e foto de microscopia eletrônicade M. bovis (b). Visualmente M. tuberculosis e M. bovis são muito semelhantes fonte: <http://www.promegaconnections.com/tag/mycobacterium-tuberculosis/> e <http://microbewiki.kenyon.edu/indexphp/ Mycobacterium_bovis>, respectivamente. O M. tuberculosis é a principal causa da Tuberculose em humanos e pode infectar bovinos, mas não causa doença progressiva nessa espécie, todavia pode sensibilizá-los ao teste tuberculínico. Esses micro-organismos são pequenos bastonetes gram-positivos, curtos, imóveis, não ramificados, aeróbicos, álcool-ácido resistentes e não apresentam hifas aéreas. reservatórios Bovinos ou bubalinos contaminados com M. bovis. Período de incubação No caso da infecção por via respiratória, assim que o bacilo alcança o alvéolo pulmonar, esse é fagocitado pelos macrófagos. Caso os bacilos não sejam eliminados, irão multiplicar-se no interior dos macrófagos até destruí-los. Após cerca de duas a três semanas da entrada do agente no organismo, este não cessa sua multiplicação, ocorrendo resposta imune celular e uma reação de hipersensibilidade tardia, passando a haver necrose de caseificação para frear o crescimento intracelular das bactérias. Os bacilos presentes na lesão pulmonar migram para os linfonodos regionais, levando à formação de novo granuloma, originando, assim, o complexo primário. Modo de transmissão e patogenia M. bovis é transmitido entre os animais domésticos e silvestres, assim como dos animais para o ser humano e vice-versa. Os alimentos contaminados (especialmente o leite) ou o estreito convívio com os animais infectados são as principais vias de transmissão do M. bovis para os seres humanos. A apresentação clínica da Tuberculose pelo M. bovis depende da rota de infecção. 61 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii figura 18. a transmissão de bactérias da espécie Mycobacterium spp. pode acontecer entre bovinos, de um animal infectado para um animal são. de um ser humano infectado para outro e de bovinos infectados para o homem são e vice-versa fonte: <http://www.clubeamigosdocampo.com.br/artigo/problemas-respiratorios-em-bovinos-1262>. figura 19. três formas diferentes de comprometimento dos pulmões, em indivíduos com tuberculose(A). radiografia de tórax de indivíduos com tuberbulose, setas indicam as áreas foco da enfermidade no parênquima pulmonar(b) fonte: <http://brasilescola.uol.com.br/doencas/tuberculose.htm#slider-4> e <https://pt.wikipedia.org/wiki/tuberculose>, respectivamente. Manifestações clínicas Os sinais clínicos da Tuberculose bovina na maioria das vezes estão ocultos e, quando presentes, são representados por perda de peso, enfartamento dos linfonodos, debilidade, caquexia, sinais respiratórios e, com menor frequência, por sinais digestivos e geniturinários, neurológicos e outros. 62 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs diagnóstico diferencial O diagnóstico diferencial deve ser feito para outras patologias do trato respiratório inferior, como as pneumonias, micoses pulmonares (paracoccidioidomicose, histoplasmose), sarcoidose, carcinoma brônquico, dentre outras enfermidades. diagnóstico Os métodos que atualmente são utilizados para o diagnóstico da Tuberculose em seres humanos, especialmente os empregados nos países com poucos recursos, são inadequados para identificação do M. bovis. Esse é o maior obstáculo enfrentado para a determinação da ocorrência da infecção de seres humanos pelo M. bovis. Em muitos casos de tuberculose humana, o diagnóstico laboratorial é firmado pela identificação de bacilos álcool-ácido-resistentes no exame microscópico do escarro. Quando é efetuado o cultivo para isolamento do micro-organismo, o meio de cultura à base de ovo contendo glicerol inibe o crescimento do M. bovis. Até mesmo nos países desenvolvidos que utilizam meios de cultivo líquidos, as técnicas de identificação adotadas não estabelecem a diferenciação dos micro-organismos além do nível do complexo M. tuberculosis. As técnicas moleculares mais avançadas são dispendiosas e os laboratórios normalmente não possuem técnicos capacitados para a condução de tais ensaios. Além do mais, como o tratamento para a Tuberculose causada pelo M. tuberculosis e pelo M. bovis são similares, alguns sinais clínicos não são considerados importantes para que se efetue a diferenciação da infecção provocada pelas duas espécies de micro-organismos. tratamento O desenvolvimento de estirpes de micobactérias resistentes às drogas (multidroga-resistentes e amplamente resistentes às drogas) tem comprometido a eficácia do tratamento da tuberculose em humanos e tem aumentado marcadamente o custo das terapias associadas ao uso de múltiplas drogas. Foi constatado que a resistência é determinada por mutações cromossomais nos genes que codificam o alvo das drogas. O acúmulo sequencial de mutações nos genes-alvo leva ao desenvolvimento de estirpes multidroga-resistentes. Além disso, a suscetibilidade dos humanos imunodeficientes ao complexo M. tuberculosis, como ocorre nos indivíduos infectados pelo vírus HIV, é a principal preocupação dos serviços oficiais de saúde pública nos países em desenvolvimento, em que a síndrome de imunodeficiência adquirida é endêmica. 63 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii As estirpes do M. bovis são naturalmente mais resistentes à pirazinamida. No entanto, a suscetibilidade a outras drogas antituberculose é normalmente similar ao M. tuberculosis. O Manual da Organização Mundial de Saúde, publicado em 2003, não apresenta recomendações específicas para a terapia da Tuberculose bovina. Na prática, os pacientes são tratados com o sistema padronizado para antituberculose. A pirazinamida é omitida do tratamento. A American Thoracic Society recomenda um sistema inicial de dois meses de isoniazida, rifampicina e etambutol, seguidos de sete meses de isoniazida e rifampicina. Epidemiologia Nos países em desenvolvimento, as comunidades enfrentam maior risco de infecção pelo M. bovis, devido ao maior grau de exposição dos seres humanos aos animais, particularmente no que concerne ao consumo frequente de leite não pasteurizado e de produtos lácteos derivados de rebanhos que não possuem controle da Tuberculose bovina. Ao mesmo tempo, essas populações estão inclusas no grupo em que as taxas de infecção HIV/AIDS são as mais altas do mundo e estão associadas ao aumento de suscetibilidade à coinfecção com o M. tuberculosis, principal causador de tuberculose nos humanos. Prognóstico Para que o prognóstico da tuberculose bovina no homem seja favorável é preciso que se chegue ao diagnóstico da doença e assim se possa iniciar o tratamento adequado como uso de antibacterianos. Atenção redobrada deve ser dada aos pacientes imunocomprometidos, além de crianças e idosos. Prevenção Buscando minimizar o avanço dessa doença, são necessárias melhorias nos aspectos de saúde pública veterinária em relação à infecção por M. bovis, especialmente nas populações em risco, como tratadores de rebanhos e trabalhadores da indústria de carnes. Um dos maiores problemas de saúde pública era a transmissão da Tuberculose bovina ao homem pelo consumo do leite de vacas infectadas, contudo, com o desenvolvimento da pasteurização, esse problema foi minimizado. 64 CAPÍtuLo 2 riquetsioses comuns ao homem e aos animais riquétsias As riquétsias causam doenças em seres humanos como o Tifo (transmitida por piolhos) e a Febre Maculosa (transmitida por carrapatos). Ainda, muitas das riquétsias membros do grupo da Febre Maculosa são patogênicas para os seres humanos. Dentre estas se incluem aquelas transmitidas por carrapatos: » Rickettsia rickettsii (Febre Maculosa das Montanhas Rochosas); » R. conorii(Febre Maculosa do Mediterrâneo ou Febre Boutonneuse); » R. sibirica (Tifo dos carrapatos do norte da Ásia); » R. japonica (Febre Maculosa oriental); » R. australis (Tifo dos carrapatos da província australiana de Queensland); » R. honei (Febre Maculosa da Ilha Flinders); » R. africae (Febre da picada do carrapato da África); » riquétsia sem nome da Febre Maculosa israelense e possivelmente outras; » R. akari (varíola de riquétsias) é transmitida pela picada de um pequeno ácaro. Nos últimos anos, novas riquétsias têm sido identificadas como espécies patogênicas potencialmente importantes, incluindo R. slovaca, a causadora de T1BO-LA (linfadenopatia transmitida por carrapatos) e R. felis, uma doença semelhante ao Tifo Murino transmitida por pulgas. zoonoses causadas por riquétsias febre Maculosa A Febre Maculosa, como todas as rickettsioses, é classificada como uma zoonose. Esta doença incomum é causada Rickettsia rickettsii, uma espécie de bactéria que é transmitida aos seres humanos por carrapatos da família Ixodidae. 65 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii No Brasil, a maior parte dos casos é encontrada na região sudeste e é transmitida principalmente pelo carrapato da espécie Amblyomma cajennense, também conhecido como carrapato-estrela, carrapato-de-cavalo ou rodoleiro, as larvas por carrapatinhos ou micuins, e as ninfas por vermelhinhos. Há Febres Maculosas também em outros países, porém causadas por outras espécies de Rickettsia e transmitidas por outros artrópodes – por exemplo, a Febre Maculosa japonesa, a Febre Maculosa tailandesa e a Febre Maculosa australiana. A doença pode ser difícil de diagnosticar nos estágios iniciais e sem tratamento rápido e apropriado pode ser fatal. Os sinais e sintomas iniciais da doença incluem o início súbito de febre, dor de cabeça e dores musculares, seguidos pelo aparecimento de exantema. Sinonímia A Febre Maculosa também é conhecida como febre do carrapato. Pode receber outros nomes dependendo do país: Rocky Mountain spotted fever (febre manchada das montanhas rochosas) (EUA), fiebre de Tobia (Colômbia) e fiebre manchada (México). Agente Etiológico O agente etiológico da Febre Maculosa é a bactéria gram-negativa Rickettsia rickettsii, a qual é obrigatoriamente um micro-organismo intracelular tanto do vertebrado quanto do vetor invertebrado que a transmite, sobrevivendo pouco tempo fora do hospedeiro. Apresenta morfologia de bacilo curto ou de cocobacilo e é bem pequena, medindo de 0,3 a 1,00μm (Figura 20). figura 20. Rickettsia rickettsii coradas em roxo, no citoplasma da célula de um mamífero. fonte: <https://en.wikipedia.org/wiki/rickettsia_rickettsii>. Os humanos são hospedeiros intermediários, não colaborando com a propagação do organismo. Outras riquétsias causam outros tipos de Febre Maculosa e Tifo em outros lugares do mundo. 66 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs reservatórios e vetor As capivaras e os cavalos assumem grande importância na cadeia epidemiológica da doença, pois são os principais reservatórios dos carrapatos transmissores da Febre Maculosa (Figura 21). figura 21. estágios da vida do Ambyomma cajennense. fonte: <http://www.tickencounter.org/tick_identification/cayenee_tick>. Os vetores da doença são os carrapatos, os quais, no Brasil, são das espécies Amblyomma aureolatum, que é conhecido como o carrapato-amarelo-do-cão e Amblyomma cajennense, conhecido como carrapato-estrela, carrapato-de- cavalo ou rodoleiro, as larvas por carrapatinhos ou micuins, e as ninfas por vermelhinhos. Uma vez infectado, o carrapato pode carrear o patógeno pela vida inteira (Figura 22). figura 22. esquema ilustrativo do ciclo de vida do carrapato Amblyomma cajennense, vetor da febre Maculosa. fonte: <http://www.cnpma.embrapa.br/nova/mostra2.php3?id=478>. 67 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii Período de incubação O período de incubação da Febre Maculosa pode variar de dois a 14 dias, com média de sete dias até o aparecimento dos sintomas, e está relacionado ao tamanho do inóculo no momento da infecção. Modo de transmissão e patogenia As Rickettsiae são transmitidas a um hospedeiro vertebrado por meio da picada do carrapato, enquanto este se alimenta sugando o sangue do animal infestado. A transmissão da bactéria ocorre em qualquer uma das fases da vida do carrapato (larva, ninfa e adulto). Para que o carrapato transmita a doença, é necessário que fique aderido à pele, alimentando-se, por um período de seis a 10 horas. Ao picar, e após se alimentar, o carrapato transmite o micro-organismo por meio de suas glândulas salivares. É importante notar que as picadas das larvas e das ninfas, por serem menos dolorosas, são as que têm a maior probabilidade de transmitir o micro-organismo, pois o ser humano não percebe a picada e permite que ocorra a transmissão. A picada do adulto, por ser muito dolorida, prontamente é percebida, e pode-se retirar o carrapato a tempo de não transmitir a doença. Outra forma de contágio dá-se pelo esmagamento do carrapato quando é retirado, liberando seu conteúdo gástrico. Manifestações clínicas Os sintomas iniciais são inespecíficos e podem assemelhar-se a uma variedade de outras doenças, infecciosas ou não. O paciente pode apresentar: febre alta, em torno de 39,5oC; cefaleia; mialgias; mal-estar generalizado e hiperemia das conjuntivas. Já os sintomas gastrintestinais aparecem em um número significativo de pacientes. O quadro inclui náuseas, vômitos, diarreia e dor abdominal, podendo ser confundido com abdômen agudo. A tríade clássica de achados é: febre, exantema e história de mordida de carrapato. Entretanto, essa combinação frequentemente não é identificada quando o paciente procura os cuidados médicos pela primeira vez. O exantema máculo-papular, principal sinal para definir o diagnóstico, aparece em poucos pacientes no primeiro dia da doença, mostrando-se em cerca de 49% dos doentes até o terceiro dia e em 91% dos doentes até o quinto dia (Figura 23). O retardo no aparecimento do exantema macular determina atraso no diagnóstico e piora do prognóstico pela dificuldade de emprego do tratamento adequado. A falta desse sinal dificulta muito o diagnóstico clínico, podendo atingir de 9% a 12% dos infectados, mais especificamente idosos e pessoas com pele negra. 68 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs As máculas têm aspecto róseo, de bordos mal definidos, com 2 a 6mm de diâmetro; têm início geralmente ao redor dos punhos e tornozelos, podendo também iniciar na região do tórax. As máculas, no início, somem ao serem pressionadas, mas esse efeito desaparece com o tempo e o escurecimento da coloração. O aparecimento do exantema nas palmas das mãos e plantas dos pés, apesar de ocorrer com muita variação (40% a 80% dos pacientes), é considerado um sinal muito característico da Febre Maculosa. A necrose tecidual e a gangrena, especialmente dos dedos e orelhas, ocorre em até 4% dos pacientes. figura 23. imagens que demonstram presença de máculas maiores e já escurecidas no tornozelo e no pé (A) e menores na palma da mão e no antebraço (b), ambos os casos de indivíduos com sinais clínicos de infecção por R. rickettsii. fonte: <https://pt.wikipedia.org/wiki/febre_maculosa>. Com a falta de tratamento e a progressão do quadro, pode haver comprometimento do sistema nervoso central, caracterizado por grave encefalite, determinando confusão mental (28% dos pacientes), delírios (20% a 26%), ataxia (5% a 18%), convulsões (8%) e coma (9% a 10%). A presença do micro-organismo nos vasos sanguíneos das meninges e cérebro leva à presença de leucócitos no liquor – 10 a 100 por ml eaumento de proteínas em cerca de 35% dos pacientes. diagnóstico diferencial Em virtude da sintomatologia extremamente inespecífica, o diagnóstico precoce torna-se difícil, com sugestões de Leptospirose, Dengue, Hepatite viral, Salmonelose, Encefalite, Malária ou Pneumonia por Mycoplasma pneumoniae. Com a progressão da doença e o surgimento do exantema, surge, ainda, confusão com meningococcemia, sepse, virose exantemática, ou, ainda, outras riquetsioses do grupo do Tifo, como Erliquiose e Borreliose. 69 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii diagnóstico A confirmação laboratorial é essencial para se estabelecer o diagnóstico específico da Febre Maculosa. Os exames inespecíficos incluem: » Hemograma: são comuns a anemia e a trombocitopenia. A redução do número de plaquetas é um achado frequente e auxilia no diagnóstico. Os leucócitos podem estar normais, aumentados ou diminuídos, podendo apresentar desvio para a esquerda. » Enzimas: creatinoquinase (CK), desidrogenase lática (LDH), aminotransferases (ALT e AST) e bilirrubinas estão geralmente aumentadas. Os exames específicos são descritos a seguir: » Reação de imunofluorescência indireta (IFI): é o método sorológico mais utilizado e o mais disponível na rotina laboratorial. Trata-se de uma reação de alta sensibilidade e especificidade que pode ser utilizada para a pesquisa de imunoglobulinas específicas (IgM e IgG). Esse teste está disponível na Fundação Oswaldo Cruz (Estado do Rio de Janeiro), Instituto Adolfo Lutz (Estado de São Paulo) e Fundação Ezequiel Dias (Estado de Minas Gerais). » Técnicas de biologia molecular (PCR): indicadas especialmente em casos fatais, com óbito nos primeiros sete dias, e quando há necessidade de confirmação sem a possibilidade de uma segunda amostra de soro. tratamento O sucesso do tratamento está relacionado à precocidade e à especificidade de sua instalação. Os únicos fármacos com comprovada ação e eficácia são as tetraciclinas e o cloranfenicol. Em casos mais severos, em virtude da ausência no Brasil de uma tetraciclina para uso endovenoso, preconiza-se o cloranfenicol. Em pacientes com quadro menos grave, a preferência é pela doxiciclina, utilizada por via oral. Alguns trabalhos têm demonstrado, clinicamente, sua maior efetividade no tratamento da Febre Maculosa quando comparada ao cloranfenicol. 70 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs Em relação às gestantes, embora alguns autores recomendem o uso da doxiciclina nessa população, o risco de alterações no esmalte dental é grande, devendo-se dar preferência ao cloranfenicol endovenoso ou via oral, conforme a gravidade da doença. É importante lembrar que as gestantes devem evitar o uso do cloranfenicol 30 dias antes do parto em função da síndrome cinzenta no neonato. Nesse caso, recomenda-se a doxiciclina. Epidemiologia A sazonalidade da incidência da doença é importante e está relacionada ao aumento da atividade do carrapato, promovendo maior contato com o ser humano, ocorrendo de junho a outubro. O carrapato localiza-se em pastos e gramados, preferencialmente em lugares distantes do sol, bem assombreados e próximos a rios e lagos. No Brasil, as taxas de mortalidade giram em torno de 20% a 30%, em função das dificuldades em fazer o diagnóstico e estabelecer a terapia apropriada, relacionadas ao pouco conhecimento sobre a doença e à sintomatologia pouco específica. Prognóstico O prognóstico para Febre Maculosa é muito variável, dependendo do tempo que o paciente vai levar para procurar um médico a partir do aparecimento dos primeiros sinais e sintomas da doença. Além disso, deve-se levar em conta o tempo necessário para se fechar o diagnóstico e finalmente iniciar o tratamento adequado. As taxas de mortalidade no Brasil são cerca de 10 vezes maiores do que nos Estados Unidos. Esse alto índice deve-se exclusivamente ao retardo no diagnóstico e no estabelecimento da terapia apropriada. Os profissionais de saúde devem estar atentos e levar em consideração essa hipótese diagnóstica, especialmente entre os meses de junho e outubro, quando há aumento na proliferação do carrapato. Prevenção Evite o contato com carrapatos. Se, por acaso, estiver numa área em que eles possam existir, tome as seguintes precauções: » examine seu corpo cuidadosamente a cada três horas pelo menos, porque o carrapato-estrela transmite a bactéria responsável pela Febre Maculosa só depois de pelo menos quatro horas grudado na pele; » use roupas claras porque facilitam enxergar melhor os carrapatos; 71 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii » coloque a barra das calças dentro das meias e calce botas de cano mais alto nas áreas que possam estar infestadas por carrapatos. Tenha cuidado ao retirar o carrapato que estiver grudado em sua pele e não se esqueça de que os sintomas iniciais da Febre Maculosa são semelhantes aos de outras infecções e requerem assistência médica imediata. Esteja atento ao aparecimento dos sintomas comuns a vários tipos de infecção e procure um médico para diagnóstico diferencial. riquetsioses do grupo do tifo O Tifo é uma doença zoonótica epidêmica transmitida ao homem por vetores como piolhos e pulgas, e causado pela bactéria Rickettsia spp. Atualmente, é um tipo de riquetsiose rara no mundo, graças à eficiência do tratamento antibiótico e da eliminação dos vetores com a melhoria das condições de higiene humana. Das riquétsias causadoras do Tifo, podemos destacar: » Rickettsia typhi; » R. felis; » Rickettsia prowazekii. Rickettsia spp. é um pequeno (menos de meio centímetro) bacilo cocoide parasita intracelular que é incapaz de se reproduzir fora das suas células hóspedes. E que tem como vetor o piolho humano (Pediculus humanus), pulgas ou carrapatos que adquiriram a bactéria de animais como ratos, gatos, gambás, guaxinins e outros. tifo Murino O Tifo Murino é causado pela Rickettsia typhi, uma espécie de riquétsia transmitida pelas pulgas infectadas para ratos e gambás. A transmissão dos micro-organismos depende somente da distribuição da infecção pela pulga para mamíferos não infectados, porque, pelo que parece, a transmissão transovariana (passagem dos micro-organismos dos artrópodos infectados para sua prole) nas pulgas é ineficaz. R. felis, a nova espécie encontrada em alguns casos de Tifo Murino, diferencia-se exatamente por isso – é capaz de exercer uma transmissão transovariana altamente eficaz em pulgas de gatos. Esse micro-organismo é encontrado em pulgas de gatos obtidas em áreas endêmicas de Tifo Murino nos Estados Unidos. 72 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs Sinonímia A doença também é conhecida como Tifo endêmico, Febre de Prisão ou popularmente conhecido apenas como Tifo (apesar de outras doenças distintas terem o mesmo nome). Agente Etiológico Tifo endêmico, normalmente, é causado pela bactéria Rickettsia typhi, transmitida pelas pulgas infectadas para ratos e gambás. Ela acontece, normalmente, porque a região em que está tem a população de animais continuamente infectada com a bactéria, que pode passar incidentalmente para os humanos. Assim como ocorre na peste, o Tifo Murino é transmitido para o homem quando há um grande número de roedores contaminados (epizootia), o que obriga a pulga Xenopsylla cheopis (Figura 24) a buscar novos hospedeiros, como o homem. A transmissão dos micro-organismos depende somente da distribuição da infecção pela pulga para mamíferos não infectados, porque, pelo que parece, a transmissão transovariana (passagem dos micro-organismos dos artrópodos infectados para sua prole) nas pulgas é ineficaz. Reservatórios e Vetor O TifoMurino acontece dentro de um ciclo de animais reservatórios – como ratos, gatos, gambás, guaxinins – para o vetor – como pulgas e carrapatos. Quando os vetores estão próximos a áreas urbanas ou de comunidades rurais, eles podem acabar infectando humanos também. A picada ou mordida do vetor pode causar coceira, o que permite que a bactéria entre na pele quando a pessoa acaba coçando o local. A transmissão indireta entre humanos é rara, mas pode acontecer se o vetor infectar uma pessoa que desenvolve a doença e, então, o vetor passa de pessoa em pessoa por contato direto ou por uso das mesmas roupas (Figura 24). figura 24. ciclo biológico de Rickettsia typhi. fonte: <http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=s1657-95342012000200011>. 73 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii Período de Incubação O período de incubação varia de 10 a 14 dias enquanto as bactérias se reproduzem no interior de células endoteliais que revestem os vasos sanguíneos. Modo de Transmissão e Patogenia Sendo uma riquétsia vasculotrópica, depois uma curta proliferação local, Rickettsia typhi se dissemina por via sistêmica. O alvo é sempre o endotélio vascular, e isso acontece em muitos tecidos. Diferente das riquétsias do grupo da Febre Maculosa na qual as riquétsias polimerizam a actina celular e se mobilizam endocelular, a infecção das células endoteliais causa lesão celular por lise mecânica devido ao acúmulo de grandes números de riquétsias dentro do citoplasma da célula endotelial. Isso porque a riquétsia tífica polimeriza actina de uma maneira precária para mobilidade intracelular. figura 25. Vetor do tifo Murino à esquerda e microscopia eletrônica de Rickettsia typhi infectando célula do animal enfermo à direita. fonte: <http://brasilescola.uol.com.br/doencas/tifo-endemico-ou-murino.htm>. A infecção intracelular e a lesão da célula endotelial gera recrutamento de células inflamatórias, com várias células efetoras. A proliferação intracelular das riquétsias do grupo do Tifo é inibida por mecanismos mediados por citocinas, dependentes e independentes do óxido nítrico. Como resultado, a presença de vasculite sistêmica decorrente da presença das riquétsias dentro das células endoteliais vai causar uma patologia característica, dependendo do órgão acometido: pneumonite intersticial; Nefrite intersticial; Miocardite; Meningite; Hepatite leve com infiltrados linfo-histiocitários periportais. À medida que as lesões causadas pela vasculite e pela lesão inflamatória se acumulam podem surgir lesões em múltiplos órgãos. 74 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs Manifestações Clínicas A apresentação inicial mais frequente é a febre de origem indeterminada, sintoma inespecífico. Achados importantes para o Tifo Murino são erupção cutânea, mialgias, vômitos, tosse, cefaleia e diarreia e dor abdominal. figura 26. pessoa infectada com tifo apresentado erupção cutânea. fonte: <http://rickettsia1.blogspot.com.br/>. Há mais sinais relacionados com essa moléstia, tipo estupor, coma, convulsões, meningismo e ataxia, fotofobia, confusão. Mas é interessante que os sintomas acima aparecem com alta frequência nos adultos e mais raramente em crianças (menos de 17% das crianças hospitalizadas e em menos de 6% das crianças infectadas tratadas ambulatorialmente). Usualmente há surgimento de máculas ou maculopapulas distribuídas pelo tronco e membros (erupção cutânea) petequial. As palmas das mãos e as plantas dos pés são raramente envolvidas. Diagnóstico Diferencial Geralmente a instalação e o desenvolvimento do Tifo no organismo humano estão relacionados a fatores de risco como: » morar ou visitar locais onde a doença seja endêmica, como cidades portuárias (onde há grande população de roedores); » estar em áreas onde há lixo acumulado e falta de higiene, como comunidades sem teto, zonas de desastre ou de extrema pobreza. 75 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii Portanto, o diagnóstico diferencial deve ser feito para doenças relacionadas à superpopulação, falta de higiene e saneamento básico, como cólera, tuberculose, malária, dengue e outras doenças virais. Diagnóstico Além dos exames clínicos e análise de sintomas, os testes de diagnóstico para a presença de Tifo incluem: » detecção de anticorpos específicos contra a R. prowasekii no soro sanguíneo do doente; » teste de imunofluorescência, em que se usa corantes fluorescentes para detectar tifo em amostras de expectoração; » observação microscópica após cultura de amostras em meios com células vivas (recolhidas de ovos fecundados de galinha); » exame imunohistológico em biópsia de pele; » confirmação dos achados por detecção de DNA por meio da técnica de PCR. Podemos utilizar, eventualmente, alguns exames de laboratório: » leucopenia leve (36% a 40%), com um desvio para a esquerda moderado; » trombocitopenia de leve a acentuada (43% a 60%); » hiponatremia (20% a 66%); » hipoalbuminemia (46% a 87%); » elevação do aspartatoaminotransferase (82%); » elevação do alaninaminotransferase (38%); » elevação da ureia sérica (devido a mecanismos pré-renais). Assim como todas as riquetsioses, atrasos no diagnóstico e no tratamento estão associados com um aumento da morbidade e da mortalidade. 76 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs Tratamento O tratamento é feito com antibióticos, sendo a primeira escolha as tetraciclinas ou cloranfenicol, por um mínimo de cinco dias ou até que o paciente esteja afebril por pelo menos dois a quatro dias para evitar recaídas. » doxiciclina por via oral ou intravenosa (2,2mg/kg/dia divididos em duas vezes por dia; máximo: 300mg/dose); » tetraciclina oral (25-50mg/kg/dia divididos a cada seis horas, máximo 2g/dia); » cloranfenicol por via intravenosa (50-100mg/kg/dia divididos a cada seis horas; máximo: 3g/dia). Crianças com Tifo Murino podem necessitar de cuidados intensivos. Há possibilidade de complicações como meningoencefalite ou uma condição semelhante à coagulação intravascular disseminada. Epidemiologia O Tifo Murino tem uma distribuição mundial sendo mantido em um ciclo que envolve pulgas de ratos (Xenopsyla cheopis) e os próprios ratos (Rattus. sp.), é uma doença altamente contagiosa – típica de aglomerações humanas – aliada a más condições de higiene. Por tal motivo, é mais frequente em populações carentes, campos de refugiados e de concentração, prisões, tempos de guerra etc. Hoje em dia está erradicada na Europa, e em outras regiões, mas, apesar de avanços significativos no que se diz respeito ao saneamento básico, até hoje ocorrem surtos em países da Ásia, África, regiões montanhosas do México, América do Sul e América Central. Já foram diagnosticados casos de Tifo Murino em estados do Sudeste como Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Prognóstico Os sintomas de Tifo devem começar a regredir em duas semanas, não demorando muito para desaparecer por completo quando tratados. Contudo, caso o paciente não seja diagnosticado e medicado, Tifo pode ocasionar outros problemas mais graves, comprometendo rins, pulmões e sistema nervoso, podendo causar também hepatite, hemorragia gastrintestinal e hipovolemia. É comum idosos não resistirem à doença. Prevenção Durante a Segunda Guerra Mundial foi desenvolvida uma vacina para prevenir Tifo epidêmico, contudo, a diminuição dos casos da doença fez com que a vacina parasse de ser fabricada. Logo, para prevenir Tifo deve-se: 77 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii » manter bons hábitos de higiene pessoal; » controlar a população de roedores ou evitarregiões em que eles estejam presentes em grande número; » evitar locais endêmicos da doença; » em casos de alto risco de contaminação, como em campanhas humanitárias em áreas de extrema pobreza e sem saneamento, doxiciclina é utilizada como quimioprofilaxia. Sempre prescrita por um médico, claro! tifo epidêmico (exantemático) Tifo epidêmico é a forma mais severa da doença que também é conhecida como Tifo recrudescente, esporádico ou exantemático. Sinonímia A doença também é conhecida como Tifo epidémico (português europeu), Tifo epidêmico (português brasileiro) ou Tifo exantemático. Agente Etiológico O Tifo epidêmico é causado pela bactéria Rickettsia prowazekii, que assim como toda riquétsia é um parasita intracelular obrigatório (Figura 27). Essa bactéria também é a causadora da forma recrudescente do Tifo epidêmico, a doença de Brill-Zinsser (doença de Brill), sendo considerada como a riquétsia mais patogênica do gênero. figura 27. imagem de microscopia eletrônica mostra um grande número de Rickettsia prowazekii. fonte: <http://www.inf.furb.br/sias/parasita/textos/rickettsias.htm>. 78 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs Uma coisa interessante foi remarcada sobre o genoma de R. prowazekii, reconhecida como um parente genético da mitocôndria eucariótica. Acredita-se que ao adaptar-se ao seu nicho intracelular único, está perdendo genes funcionais. Reservatórios e Vetor O principal ou único reservatório de R. prowazekii são os seres humanos. Transmitido pelo vetor piolho humano do corpo Pediculus humanus corporis (mais raramente pelo piolho dos cabelos). Recentemente, os esquilos voadores foram comprovados como outros reservatórios. Ou seja, existe um ciclo selvagem com pequenos roedores e seus ectoparasitas. Período de Incubação O período de incubação varia de 10 a 14 dias enquanto as bactérias se reproduzem no interior de células endoteliais que revestem os vasos sanguíneos. Modo de Transmissão e Patogenia Ao se parasitar pessoas riquetsêmicas, o piolho humano do corpo (Pediculus humanus subsp. corporis) ingere R. prowazekii, que, do mesmo jeito que fazem na espécie humana, infectam as células epiteliais do intestino médio do parasita (Figura 28). As riquétsias ingeridas são passadas, assim, para as fezes. Como o piolho defeca na pele humana, as bactérias são introduzidas em um hospedeiro humano suscetível mediante: » abrasões ou perfurações na pele; » a conjuntiva; » raramente por meio de inalação de excrementos ressecados de piolhos infectados que estão presentes em vestimentas, roupas de cama ou móveis. figura 28. Vetor do tifo exantemático à esquerda e microscopia eletrônica de Rickettsia prowazekii infectando célula do animal enfermo à direita. fonte: <http://brasilescola.uol.com.br/doencas/tifo-epidemico-ou-exantematico.htm>. 79 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii Da mesma forma que no Tifo Murino, o alvo da R. prowazekii é sempre o endotélio vascular, e isso acontece em muitos tecidos. A infecção das células endoteliais causa lesão celular por lise mecânica devido ao acúmulo de grandes números de riquétsias dentro do citoplasma da célula endotelial. Isso porque a riquétsia causadora do Tifo polimeriza actina de maneira precária para mobilidade intracelular. À medida que as lesões causadas pela vasculite e pela lesão inflamatória se acumulam, podem surgir lesões em múltiplos órgãos da mesma forma que acontece no Tifo Murino, sendo este mais brando do que o Tifo epidêmico. Manifestações Clínicas Os sintomas do Tifo epidêmico surgem em até 14 dias, de forma súbita e podem incluir: febre alta (39oC-40oC), dor de cabeça, mal-estar, náuseas, vômitos, tosse, dor de barriga. diarreia, manchas avermelhadas na pele (exantema). De forma similar ao Tifo endêmico, as manchas aparecem cerca de quatro a sete dias depois da infecção inicial no peito e abdômen, após outros sintomas iniciais se desenvolverem e, muitas vezes, se espalham pelo corpo. Porém, nos casos mais epidêmicos é comum que os pacientes desenvolvam sintomas adicionais como: sangramento na pele (petéquias), delírios, estupor, pressão baixa e choque circulatório. As estimativas da mortalidade variam entre 3,8% e 20% nos surtos. Uma complicação decorrente do Tifo exantemático é a doença de Brill-Zinsser, uma infecção secundária que pode ocorrer até anos mais tarde. A doença é consequência de riquétsias que se “esconderam” do sistema imunitário dentro das células em estado quiescente e que aproveitam períodos de baixa imunidade para se instalar. Caracteriza-se por sintomas mais moderados de Tifo. Diagnóstico Diferencial Geralmente, a instalação e o desenvolvimento do Tifo no organismo humano estão relacionados a fatores de risco como: » morar ou visitar locais onde a doença seja endêmica, como cidades portuárias (onde há grande população de roedores); » estar em áreas onde há lixo acumulado e falta de higiene, como comunidades sem teto, zonas de desastre ou de extrema pobreza. Portanto, o diagnóstico diferencial deve ser feito para doenças relacionadas à superpopulação, falta de higiene e saneamento básico, como Cólera, Tuberculose, Malária, Dengue e outras doenças virais. 80 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs Diagnóstico Além dos exames clínicos e análise de sintomas, os testes de diagnóstico para a presença de Tifo incluem: » detecção de anticorpos específicos contra a R. prowasekii no soro sanguíneo do doente; » teste de imunofluorescência, em que se usa corantes fluorescentes para detectar Tifo em amostras de expectoração; » observação microscópica após cultura de amostras em meios com células vivas (recolhidas de ovos fecundados de galinha); » exame imunohistológico em biópsia de pele; » confirmação dos achados por detecção de DNA por meio da técnica de PCR. Podemos utilizar, eventualmente, alguns exames de laboratório: » leucopenia leve (36% a 40%), com um desvio para a esquerda moderado; » trombocitopenia de leve a acentuada (43% a 60%); » hiponatremia (20% a 66%); » hipoalbuminemia (46% a 87%); » elevação do aspartatoaminotransferase (82%); » elevação do alaninaminotransferase (38%); » elevação da ureia sérica (devido a mecanismos pré-renais). Assim como todas as rickettsioses, atrasos no diagnóstico e no tratamento estão associados com um aumento da morbidade e da mortalidade. Tratamento O tratamento é feito com antibióticos, sendo a primeira escolha as tetraciclinas ou cloranfenicol, por um mínimo de cinco dias ou até que o paciente esteja afebril por pelo menos dois a quatro dias para evitar recaídas. » doxiciclina por via oral ou intravenosa (2,2mg/kg/dia divididos a cada 12 horas; máximo: 300mg/dose); 81 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii » tetraciclina por via oral (25-50mg/kg/dia divididos a cada seis horas, máximo 2g/dia); » cloranfenicol por via intravenosa (50-100mg/kg/dia divididos a cada seis horas; máximo: 3g/dia). Assim como pode ser visto, praticamente são idênticos àqueles utilizados para o Tifo Murino. O tratamento deve ser continuado por um mínimo de cinco dias e até que o paciente se torne afebril por pelo menos dois a quatro dias para evitar recidiva, especialmente nos pacientes tratados precocemente. Existem boas evidências de que a doxiciclina em uma única dose oral de 200mg também seja eficaz. Epidemiologia Surtos recentes em áreas rurais e montanhosas da África e América do Sul foram contidos com o uso de antibióticos e eliminação dos vetores antes que a contaminação se espalhasse para outros países. O Tifo exantemático nunca foi descrito no Brasil. Prognóstico Os sintomas de Tifo devemcomeçar a regredir em duas semanas, não demorando muito para desaparecer por completo quando tratados. Contudo, caso o paciente não seja diagnosticado e medicado, Tifo pode ocasionar outros problemas mais graves, comprometendo rins, pulmões e sistema nervoso, podendo causar também Hepatite, Hemorragia Gastrintestinal e Hipovolemia. É comum idosos não resistirem à doença. Prevenção Durante a Segunda Guerra Mundial foi desenvolvida uma vacina para prevenir Tifo epidêmico, contudo, a diminuição dos casos da doença fez com que a vacina parasse de ser fabricada. Logo, para prevenir Tifo deve-se: » manter bons hábitos de higiene pessoal; » destruição imediata dos vetores com uso de produtos indicados, interrompendo a transmissão para um número maior de piolhos, reduzindo a prevalência da infecção nos reservatórios humanos e diminuindo o impacto de um surto; » evitar locais endêmicos da doença; 82 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs » evitar a inalação da poeira que contém excretas de piolhos infectados, que é capaz de transmitir o Tifo. Erlichiose e Anaplasmose Humana A doença causada por E. chaffeensis, que infecta predominantemente células monocíticas, é chamada de erliquiose humana monocítica. Para diferenciar essas infecções (erliquiose humana monocítica), a doença causada por Anaplasma phagocytophilum é chamada de anaplasmose humana, anteriormente erliquiose granulocítica (EG), e a doença causada por E. ewingii tem recebido vários nomes, incluindo erliquiose ewingii. O nome erliquiose é aplicado a todos. Todas essas bactérias agora são classificadas na família Anaplasmataceae e dividem muitas características, incluindo a transmissão por picadas de carrapatos. Essas bactérias são patógenos de células hematopoiéticas em mamíferos, e caracteristicamente cada espécie tem uma afinidade pelas células hospedeiras definitivas: » E. chaffeensis infecta fagócitos mononucleares; » A. phagocytophilum e » E. ewingii infectam neutrófilos. Anaplasmose Humana Anaplasma phagocytophilum é uma bactéria intracelular obrigatória, gram-negativa, pertencente à família Anaplasmataceae, que pode ser encontrada predominantemente em neutrófilos de várias espécies de mamíferos, incluindo cães, felinos, equinos e humanos. A transmissão desse agente ocorre por carrapatos, podendo ser inoculados em vários animais, inclusive humanos. Os cães e seres humanos são hospedeiros acidentais. A bacteremia parece ser de curta duração (< 28 dias) e como tais, cães e seres humanos não são importantes na transmissão para outras espécies hospedeiras. Em humanos, o agente causa uma enfermidade febril aguda, não específica, previamente conhecida como Erliquiose Granulocítica Humana e agora denominada de anaplasmose granulocítica humana (AGH). Sinonímia A Anaplasmose Granulocítica Humana pode também ser conhecida simplesmente como Anaplasmose Humana. 83 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii Agente Etiológico O agente causador da Anaplasmose Granulocítica Humana (AGH) é a riquétsia Anaplasma phagocytophilum (Figura 29). figura 29. Mórula de Anaplasma phagocytophilum no interior de um neutrófilo. fonte: <http://medicine.academic.ru/101116/human_granulocytic_anaplasmosis>. Reservatórios e Vetores Os reservatórios do Anaplasma phagocytophilum geralmente são mamíferos como veados e capivaras. Essa espécie da riquétsia é mantida na natureza predominantemente por transmissão horizontal (carrapato → mamífero → carrapato) por carrapatos do gênero Ixodes, incluindo I. scapularis (carrapato de pernas pretas ou de veados). Acredita-se que não haja transmissão transovariana nos carrapatos, ou seja, uma fêmea de carrapato infectada não transmitirá o micro-organismo para a sua prole. O reservatório para A. phagocytophilum no leste dos Estados Unidos parece ser o camundongo de pés brancos, Peromyscus leucopus, mas o aumento de evidências também implica veados ou ruminantes domésticos. Período de Incubação O período de incubação depois da última picada do carrapato ou exposição ao carrapato pode variar de dois dias a três semanas. Em alguns, o diagnóstico torna-se mais difícil de ser fechado, porque não se encontra vestígios da picada do carrapato. Modo de Transmissão e Patogenia Muitas vezes, pacientes com Anaplasmose apresentam um quadro clínico muito semelhante a casos de Febre Maculosa ou Tifo, destacando-se o fato de que nessa enfermidade a vasculite é rara. 84 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs Podem ser observados outros tipos de lesões: » infiltrações difusas, mas suaves linfo-histiocíticas perivasculares; » apoptoses hepatocíticas não frequentes; » hiperplasia das células de Kupffer; » hepatite lobular suave; » aumentos nas infiltrações com células eritrofagocíticas ocasionais de: › fagócitos mononucleares; › nódulos linfáticos; › medula óssea. » hiperplasia de uma ou mais linhagens hematopoiéticas da medula óssea. Parece que as riquétsias induzem uma ativação difusa de fagócitos mononucleares e reações imunológicas e inflamatórias atípicas no hospedeiro. Não são conhecidos os mecanismos patogênicos exatos, mas os exames histopatológicos sugerem isso na maioria das pesquisas. As consequências desse processo são bastante complicadas – na presença de uma medula óssea hipercelular os achados são: » moderada a profunda leucopenia com infecções secundárias ou oportunistas; » trombocitopenia com possível hemorragia grave. Um estranho mecanismo desconhecido que, aparentemente, nem é relacionado com a infecção direta pode causar doença grave por causa de: » danos nos alvéolos de forma difusa que resultam num quadro clínico da Síndrome do Desconforto Respiratório do tipo Adulto; » lesões hepáticas ou em outros órgãos específicos. A meningoncefalite com pleocitose de células mononucleares no líquido cefalorraquidiano é rara nos casos anaplasmose humana. 85 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii Manifestações Clínicas As manifestações clínicas de Erlichiose e Anaplasmose são muito semelhantes. Ocorrem muitos casos pediátricos bem definidos, de gravidade variável, incluindo uma evolução fatal de Anaplasmose. Geralmente é possível se observar achados inespecíficos como: febre, dores de cabeça, mialgias, anorexia, náusea e/ou vômitos. Meningoncefalite com pleocitose de células mononucleares do líquido cefalorraquidiano são manifestações clínicas raras de acontecerem na infecção por A. phagocytophilum. Casos que cursam com artrite ou artralgias podem sugerir Borreliose ou meningococcemia, pois são pouco frequentes nos casos de anaplasmose. Edemas da face, mãos e pés podem contribuir para a incerteza do diagnóstico. A duração da doença pode variar de quatro a 12 dias, na maioria dos casos, os pacientes precisam ser hospitalizados. Diagnóstico Diferencial O diagnóstico diferencial deve ser feito para Febre Maculosa, Doença de Lyme, Tifo e Erlichiose, Febre Q, Leptospirose e outras enfermidades citadas a seguir. A partir de exames clínicos e laboratoriais, podemos considerar como outros diagnósticos potenciais: Otite média, Faringite estreptocócica, Mononucleose infecciosa, Doença de Kawasaki, Endocardite, Síndromes Virais, Hepatite, Doença Colágeno-vascular, Leucemia. As erupções da pele e coagulopatia intravascular disseminada devem ser suspeitas de Meningococcemia, Sepse bacteriana e Síndrome do Choque Tóxico. Meningoencefalite pode sugerir infecções por enterovírus ou Herpes Simples, Meningite bacteriana ou Febre Macular da Montanha Rochosa, enquanto doenças respiratórias graves podem ser confundidas com Pneumotites bacterianas, viraisou por fungos. Diagnóstico Em muitos casos, é difícil conseguir fechar um diagnóstico preciso de Anaplasmose, o que leva à piora do quadro e à morte em muitos casos. Vale ressaltar que os sintomas podem ser muito parecidos com os da Febre Maculosa, assim como todo o histórico do paciente. 86 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs Dentre os métodos de diagnóstico, os mais utilizados são a pesquisa de mórulas em esfregaço sanguíneo, em que se observam mórulas típicas de anaplasma em neutrófilos circulantes, fato menos frequente de ser observado nos casos de infecção por ehrilichia, em que se pode observar mórulas típicas em leucócitos do sangue periférico nos pacientes pediátricos infestados com E. chaffeensis. Outra forma de diagnóstico é a detecção de anticorpos por imunofluorescência indireta, ou amplificação de DNA pela Reação em Cadeia da Polimerase (PCR) na fase aguda da doença, quando os anticorpos ainda não podem ser diagnosticados. Tratamento O antibiótico de eleição para o tratamento dos pacientes com Anaplasmose são as tetraciclinas, especialmente a doxiciclina, que garante melhora considerável no quadro clínico dos pacientes dentro de 48 horas. Em alguns casos, observam-se alterações na coloração dos dentes de crianças com menos de nove anos de idade. Constatou-se a suscetibilidade de A. phagocytophilum à rifampicina in vitro; esse antibiótico tem sido usado com sucesso para tratar Anaplasmose em mulheres grávidas. Em casos mais complicados de Anaplasmose, a terapia precisa ser feita por um mínimo de cinco dias com: » doxiciclina por via oral ou intravenosa (sendo duas doses de ataque de 2,2mg/kg/dose a cada 12 horas seguidas por 2,2mg/kg/dia divididos a cada 12 horas, VO ou IV; dose máxima: 300mg). Geralmente, as doses de ataque não são necessárias em pacientes com a doença menos grave; » tetraciclina via oral (25-50mg/kg/dia divididos por seis horas; máximo: 2g/dia). Considera-se o tratamento eficaz quando o paciente não tem mais febre por pelo menos dois a quatro dias. » testes com penicilinas, cefalosporinas, aminoglicosídios e macrolídeos não demonstraram eficácia. Tratamentos antecedentes com sulfametoxazol-trimetroprim merecem atenção especial, pois podem resultar em casos mais graves da doença. 87 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii Epidemiologia Os cães atuam como sentinelas para exposição humana e têm o potencial de serem fontes de infecção por conterem carrapatos infectados capazes de transmitir o agente infeccioso aos humanos. Prognóstico O prognóstico da Anaplasmose humana vai depender de quanto tempo a pessoa infectada levará para procurar um médico e da experiência profissional deste, para que, por meio de uma boa anamnese, exames clínicos e laboratoriais, consiga fechar o diagnóstico o mais rápido possível, podendo, assim, ser iniciado logo o tratamento adequado; dessa forma, as possibilidades de sucesso no tratamento e cura são grandes. Atenção especial deve ser dada aos indivíduos imunossuprimidos, como idosos, portadores de HIV, indivíduos transplantados ou que tenham câncer, pois estes podem desenvolver casos graves da doença e correm muito risco de terem um prognóstico muito desfavorável a fatal. A imunidade do hospedeiro e suas reações inflamatórias podem, em parte, ser responsáveis por muitas das manifestações clínicas dessa enfermidade. Prevenção O principal foco para prevenção da anaplasmose é evitar o contato do homem com o vetor dessa enfermidade. Medidas eficazes para diminuir os riscos de aquisição de anaplasmose são: » evitar áreas infestadas por carrapatos; » uso de roupas de cores claras que permitam avistar o carrapato facilmente; » passar repelente de carrapatos nas roupas; » verificação cuidadosa do corpo à procura do vetor após exposição; » retirada imediata de qualquer carrapato, de forma cuidadosa, usando uma pinça para retirá-lo, sem espreme-lo. 88 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs Após a picada do carrapato, quatro horas é o tempo necessário para que a riquétsia seja transmitida ao homem; portanto, quando avistado, o carrapato deve ser retirado imediatamente. Erliquiose Humana Primeiramente isolada em ratos, esse agente foi relacionado à ocorrência de doença febril aguda, acompanhada de letargia, linfadenopatia e alterações hematológicas em humanos, conhecida desde o final do século XIX no sudoeste do Japão. Infecções por bactérias do gênero ehrlichia são conhecidas há muito tempo pela medicina veterinária, mas os primeiros casos humanos foram reconhecidos somente em 1987. Essa riquétsia está distribuída em muitos países de clima temperado, tropical e subtropical em todo o mundo, causando enfermidade em todos os continentes, coincidindo com a prevalência do seu vetor Rhipicephalus sanguineus. O número de pessoas vítimas da Erlichiose vem aumentando muito em países como os Estados Unidos. No Brasil, essa doença ainda é pouco diagnosticada em humanos, mas já se têm registros em estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Sinonímia A Erlichiose Monocítica Humana pode também ser conhecida simplesmente como Erlichiose Humana. Agente Etiológico A Erlichiose humana é causada por riquétsias do gênero ehrlichia, que compreende parasitos intracitoplasmáticos de leucócitos e plaquetas do sangue circulante de várias espécies de mamíferos, inclusive o homem; sendo transmitidas biologicamente por carrapatos. São organismos cocoides e elipsoidais e não móveis. Ocorrem isolados ou em colônias, denominadas mórulas, consideradas formas características do parasito (Figura 30). A reprodução nos hospedeiros ocorre primariamente por fissão binária dos corpos elementares. 89 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii figura 30. ilustração de mórulas no interior de leucócito. fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/file:echaff.jpg>. Reservatórios e Vetor Alguns pesquisadores acreditam que os cães podem ser reservatórios de E. chaffeensis, apesar de fazerem infecção branda ou inaparente quando infectados por parasitos dessa espécie. Nos Estados Unidos, o reservatório principal para E. chaffeensis é o veado de rabo branco (Odocpileus virginianus), encontrado abundantemente em muitas partes do território norte-americano. O carrapato, que é o vetor para transmissão de riquétsias do gênero ehrlichia para o ser humano, pode transmitir o micro-organismo nas fases de ninfa e adulto. Estudos demonstraram que nenhuma fêmea de carrapato infectada transmitiu a riquétsia para a sua prole, assim como não foi possível detectar o micro-organismo no ovário de carrapatos infectados experimentalmente. Esses estudos comprovaram que Rhipicephalus sanguineus é o vetor (Figura 31), mas não o reservatório do agente causador da Erlichiose humana. No Brasil, essa espécie de carrapato é considerada o principal vetor dessa enfermidade. Dados epidemiológicos dos EUA sugerem que carrapatos da espécie Amblyomma americanum também sejam vetores da Erlichiose humana. figura 31. carrapato Rhipicephalus sanguineus, pertence à família Ixodidae, possui escudo sem ornamentação e sua cor varia de castanha a castanha avermelhada. Vetor de E. chaffeensii. carrapato macho à direita da figura, escudo dorsal cobrindo o corpo e fêmea ingurgitada à esquerda da figura, escudo dorsal no terço anterior do corpo. fonte: <http://www.lookfordiagnosis.com/mesh_info.php?term=rhipicephalus&lang=3>. 90 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs Dentro do carrapato, o micro-organismo se multiplica nos hemócitos e células da glândula salivar,finalmente penetrando no trato digestivo com consequente infecção no epitélio do médio intestino desse vetor. Período de Incubação O período de incubação, depois da picada do carrapato, é de aproximadamente 10 dias. Modo de Transmissão e Patogenia A transmissão de riquétsias do gênero ehrlichia para o ser humano ocorre quando carrapatos infectados se alimentam e sua secreção salivar é inoculada no local da picada (Figura 32). figura 32. ilustração da entrada a. phagocytophilum e de E. chaffeensis em leucócitos humanos e os mecanismos para driblar as defesas celulares e humorais. fonte: <http://www.nature.com/nrmicro/journal/v8/n5/full/nrmicro2318.html>. Manifestações Clínicas As manifestações clínicas de Erlichiose são semelhantes às da Anaplasmose. Na maioria dos casos clínicos, predominam achados inespecíficos como: febre, dores de cabeça, mialgias, anorexia, náusea ou vômitos. Aproximadamente dois terços das 91 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii crianças com Erliquiose humana monocítica apresenta erupção cutânea. Essa erupção é descrita como macular ou maculopapular, embora lesões petequiais também possam ocorrer. Sintomas como fotofobia e a conjuntivite também podem ocorrer, e faringite e linfadenopatia são vistas em uma minoria dos pacientes. Exames de imagem frequentemente descrevem hepatomegalia e esplenomegalia e exames clínicos frequentemente revelam um murmúrio de ejeção sistólica. Meningoncefalite com pleocitose de células mononucleares do líquido cefalorraquidiano pode ser uma grave complicação na Erliquiose humana monocítica. Artrite ou Artralgias geralmente são sintomas infrequentes. Os edemas da face, mãos e pés podem contribuir para a incerteza do diagnóstico. Na grande maioria dos casos há necessidade de hospitalização; a duração da doença varia de quatro a 12 dias. Podem ocorrer complicações como: envolvimento pulmonar grave, dano alveolar difuso e SDRA, infecções secundárias nosocomiais ou oportunistas, sintomas semelhantes ao choque tóxico, meningoencefalite com sequelas neurológicas a longo prazo, plexopatia braquial, miocardite, rabdomiólise, lesões renais. Já foi relatado caso de Erliquiose monocítica fatal em um paciente pediátrico em que os achados foram inicialmente dominados por envolvimento pulmonar com insuficiência respiratória complicada por pneumonia bacteriana nosocomial. Indivíduos imunossuprimidos como idosos, portadores de HIV, indivíduos transplantados ou que tenham câncer, podem desenvolver casos graves da doença e correm muito risco de terem um desfecho fatal para Erlichiose. A imunidade do hospedeiro e suas reações inflamatórias podem, em parte, ser responsáveis por muitas das manifestações clínicas em todas as formas de Erliquiose. Diagnóstico Diferencial Como as manifestações clínicas da erlichiose humana não são específicas e se assemelham muito às de outras enfermidades, o diagnóstico diferencial precisa ser feito para Febre Maculosa, Tularemia, Babesiose, Doença de Lyme e Tifo. Assim como nos casos de suspeita de Anaplasmose humana, devemos considerar outros possíveis diagnósticos diferenciais como: Otite média, Faringite estreptocócica, Mononucleose infecciosa, Doença de Kawasaki, Endocardite, Síndromes virais, Hepatite, Leptospirose, Febre Q, Doença Colágeno-vascular e Leucemia. 92 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs Diagnóstico O diagnóstico é feito em laboratório e consiste na observação de mórulas típicas de Ehrlichia em esfregaços de sangue periférico ou concentrado leucocitário, uma vez que no início da fase aguda, o diagnóstico sorológico pode mostrar-se negativo. Outra forma de diagnóstico é a detecção de anticorpos por imunofluorescência indireta, passada a fase aguda da doença, mostrando excelente especificidade e grande sensibilidade no diagnóstico da Erlichiose. Outro método de diagnóstico é detecção e amplificação de DNA por meio da Reação em Cadeia da Polimerase (PCR) na fase aguda da doença, quando os anticorpos ainda não podem ser diagnosticados. Essa técnica tem revelado similaridade e enorme paralelismo entre espécies do gênero ehrlichia. Importante saber que pacientes com anaplasmose sofrem reações sorológicas a E. chaffeensis em até 15% dos casos, e então o sorodiagnóstico depende da testagem com ambos os antígenos, de E. chaffeensis e de A. phagocytophilum. Técnicas mais utilizadas atualmente: » Detecção de E. chaffeensis: › soroconversão com um título >1:64 + contexto de uma doença clinicamente compatível; › único título sérico (geralmente soroconversão na fase de convalescença) de >1:128 + contexto de uma doença clinicamente compatível. » Detecção de E. ewingii: induz anticorpos que promovem uma reação cruzada com E. chaffeensis em testes sorológicos rotineiros. Mesmo assim, há possibilidade de identificação de ácidos nucleicos específicos ou a demonstração de mórulas em neutrófilos em que o título de E. chaffeensis é pelo menos quatro vezes mais alto que o título de A. phagocytophilum. Exames laboratoriais nos pacientes também podem ajudar muito, a maioria dos pacientes pediátricos com erliquiose monocítica apresentam pancitopenia: leucopenia (58%-72%), linfopenia (75%-78%) e trombocitopenia (80%-92%). Em alguns casos, pode ocorrer leucocitose. Hiponatremia pode acontecer em poucos casos. Crianças com quadro clínico grave da doença podem sofrer graus variáveis de danos renais, apresentando, consequentemente, concentrações elevadas de creatinina sérica e da ureia. Níveis elevados das transaminases – alanina transaminase (ALT) e aspatato transaminase (AST) – podem indicar lesões 93 Transmissão inTerespecífica de bacTérias e riQUéTsias │ Unidade ii hepáticas que podem ser brandas ou graves. Além disso, pode haver aumento do tempo de coagulação sanguínea e queda dos níveis de fibrinogênio, o que pode levar a quadros de coagulopatias intravasculares disseminadas. Geralmente, exames revelam medula óssea celular ou reativa em adultos, e, supostamente, granulomas e inflamação granulomatosa são identificadas cedo em 75% de espécimes de medula óssea examinados de pacientes em casos provados de infecção por E. chaeffeensis. Tratamento O tratamento é exatamente o mesmo feito para anaplasmose humana. Nos casos de Erlichiose humana, o antibiótico de eleição para o tratamento também são as tetraciclinas, com destaque para doxiciclina e já se pode notar melhora clínica no quadro nos enfermos após 48 horas de tratamento. Tanto E. chaffeensis quanto A. phagocytophilum possuem concentrações mínimas inibitórias de cloranfenicol acima de níveis sanguíneos obtidos. Por causa desses achados, o uso de cloranfenicol por um tempo curto é o regime recomendado. Assim como A. phagocytophilu, E. chaffeensis é suscetível à rifampicina in vitro. Em caso de erliquiose humana monocítica grave, o tratamento intensivo com doses de ataque deve ser feito da mesma forma que foi descrita anteriormente para os casos complicados de Anaplasmose. O tratamento deve ser mantido por dois a quatro dias depois de cessada a febre. Assim como A. phagocytophilu, as riquétsias do gênero Ehrlichia foram comprovadamente resistentes às penicilinas, cefalosporinas, aminoglicosídios e macrolídeos. Pesquisas demonstraram que E. chaffeensis é naturalmente resistente às quinolonas. Epidemiologia Atualmente, a Erlichiose é considerada a mais importante das doenças emergentes transmitidas por carrapatos. As espécies de Ehrlichia spp. e Anaplasma spp. são mantidas na natureza predominantemente por transmissão horizontal (carrapato a mamífero a carrapato). Os micro-organismos não são transmitidos de carrapatos fêmeas adultas para a sua prole. São relatadosquadros graves dessa rickettsiose em humanos, com casos de insuficiência renal aguda, síndrome de angústia respiratória aguda do adulto, encefalopatia e coagulação intravascular disseminada. São descritos, ainda, casos fatais. 94 UNIDADE II │ TrANsmIssão INTErEspEcífIcA DE bAcTérIAs E rIQUéTsIAs Casos suspeitos com achados sorológicos de E. chaffeensis foram descritos na Europa, na África e no Ocidente e não podem ser ignorados, confirmando que o agente é bem distribuído. Na Venezuela foi descrito um caso de Erlichiose humana em que foram observados sintomas de insuficiência respiratória aguda, hepato-esplenomegalia, anormalidades neurológicas, insuficiência renal e severas alterações hematológicas, incluindo coagulação intravascular disseminada. Foi demonstrada, também, a presença de mórulas em plaquetas. Muitas crianças infectadas têm sido identificadas. As infecções são altamente associadas à exposição e mordidas de carrapatos, e são identificadas predominantemente durante maio-setembro. Contudo, não se deve esquecer de que a idade média dos pacientes com Erliquiose e Anaplasmose é geralmente alta (mais de 42 anos). As infecções humanas por E. ewingii têm sido identificadas apenas em áreas nas quais também existe E. chaffeensis, ou seja, provavelmente há um vetor carrapato em comum. Prognóstico O prognóstico vai depender da agilidade e experiência dos profissionais de saúde em fechar o diagnóstico da enfermidade, iniciando o tratamento adequado o mais rápido possível. Assim, as chances de cura aumentam consideravelmente. Os pacientes com comprometimento imunológico prévio (p. ex., infecção por HIV, terapia com altas doses de corticosteroide, quimioterapia contra câncer, transplante de órgãos) possuem alto risco de infecções fulminantes. Prevenção As medidas preventivas para a erlichiose humana são exatamente iguais às descritas anteriormente para a anaplasmose humana. 95 referências ACHA, P. N., SZYFRES, B. Zoonosis y enfermedades transmissibles comunes al hombre y a los animales. Washington: Organización Panamericana de la Salud, 1986. (Publicación Científica, 503). ABRAMSON J. S., GIVNER L. B. Rocky Mountain spotted fever. Pediatr Infect Dis J. 1999; 18(6):539-40. ACHAS, P. N.; SZYFRES, B. Zoonosis y enfermedades transmissibles comunes al hombre y a los animales. 3. ed. Washington: Organización Panamericana de la Salud, 2003. ALMOSNY, N. R. P. Ehrlichia canis (DONATIEN; LESTOQUARD, 1935): avaliação parasitilógica, hematológica e bioquímica sérica da fase aguda de cães e gatos experimentalmente infectados. UFRRJ. Tese de Doutorado, 1998. AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Rocky Mountain spotted fever. Em: Pickering LK, ed. Report of the committee on infectious diseases. 26th ed. Elk Grove Village: American Academy of Pediatrics, 2003. ANDERSON B. E.; NEWMAN, M. A. Bartonella spp. as emerging human pathogens. Clin Microbiol Rev, 1997; 10(2): 203-219. ARRAGA-ALVARADO, C.; MONTERO-OJEDA, M.; BERNARDONI, A.; ANDERSON, B. E.; PARRA, O. Human ehrlichiosis: report of the 1st case in Venezuela. Investigative Clinic. v.37, (no 1): pp. 35-49, 1996. ASHFORD, D. A.; WHITNEY, E.; RAGHUNATHAN, C. Epidemiology of selected mycobacteria that infect humans and other animals. Revue Scientifique Technique Office desInternational of Epizooties, v. 20, no 1, pp. 325-337, 2001. ASHFORD, D. A.; VOELKER, L.; STEELE, J. H. Bovine tuberculosis: environmental public health preparedness considerations for the future. In: THOEN, C. O.; STEELE, J. H.; GILSDORF, M. J. (Ed.). Mycobacterium bovis infection in animals and humans. 4. ed. AMES, I. A. USA: Blackwell Publishing, 2006. pp. 305-315. 96 RefeRências AYELE, W. Y.; NEILL, S. D.; ZINSSTAG, J.; WEISS, M. G.; PAVLIK, I. Bovine tuberculosis: an old disease but a new threat to Africa. International Journal Tuberculosis Lung Disease, v. 8, pp. 924-937, 2004. BACTERIAL AND VIRAL ZOONOSES. Genebra: OMS, 1981. (lnformes Técnicos, 682, l982). BAKER, D. C.; GAUNT, S. D.; BABIN, S. S. Anemia of inflammation in dogs infected with Ehrlichia platys. American Journal Veterinary Reserarch, v. 49, (no 7): pp. 1014-1016, 1988. BAKKEN, J. S.; DUMLER, J. S. Human granulocytic anaplasmosis. Infect Dis Clin North Am, 2008/ 22:443-448. ______. Clinical, diagnosis and treatment of human granulocytotropic anaplasmosis. Ann N. Y. Acad. Sci., 1.078:236-247. BARONI, F. A.; CAMPOS, S. G.; DIREITO, G.M. A cat sporotrichosis case. Rev Bras Med Vet, 1998; 20(1):25-27. BATEY, R. G. Pathogenesis of caseous lymphadenitis in sheep and goats. Australian Veterinary Journal, no 63, pp. 269-272, 1986. BATISTA, R. S., GOMES, A. P.; SANTOS, S. S.; ALMEIDA, L. C.; FIGUEIREDO, C.E.S.; PACHECO, S. J. B. Manual de infectologia. Rio de Janeiro: Revinter; 2003. BEER, J. Doenças infecciosas em animais domésticos. 1. ed. 1988. 380p. BENENSON, A. S. El control de enfermedades transmissibles al hombre. Washington: Organización Panamericana de la Salud, 1987. (Publicación Científica, 507). BERG, S.; GARCIA-PELAYO, M. C.; MÜLLER, B.; HAILU, E.; ASIIMWE, B.; KREMER, K.; DALE, J.; BONIOTTI, M. B.; RODRIGUEZ, S.; HILTY, M.; RIGOUTS, L.; FIRDESSA, R.; MACHADO, A.; MUCAVELE, C.; NGANDOLO, B. N.; BRUCHFELD, J.; BOSCHIROLI, L.; MÜLLER, A.; SAHRAOUI, N.; PACCIARINI, M.; CADMUS, S.; JOLOBA, M.; VAN SOOLINGEN, D.; MICHEL, A. L.; DJØNNE, B.; ARANAZ, A.; ZINSSTAG, J.; VAN HELDEN, P.; PORTAELS, F.; KAZWALA, R.; KÄLLENIUS, G.; HEWINSON, R. G.; ASEFFA, A.; GORDON, S. V.; SMITH, N. H. African 2, a Clonal Complex of Mycobacterium bovis Epidemiologically Important in East Africa. Journal Bacteriology, v. 193, no 3, pp. 670-678, 2011. BIER, O. Micobactérias. In: Bacteriologia e imunologia. 19. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1978, pp. 585-610. 97 RefeRências BILAL, S.; IQBAL, M.; MURPHY, P.; POWER, J. Human bovine tuberculosis-remains in the differential. Journal Medical Microbiology, v. 59, pp. 1379-1382, 2010. DOI:10.1099/jmm.0.020511-0. BILLETER, S. A., KASTEN, R. W.; KILLMASTER, L. F.; BREITSCHWERDT, E. B., LEVIN, M. L., LEVY; M. G. et al. Experimental infection by capillary tube feeding of Rhipicephalus sanguineus with Bartonella vinsonii subspecies berkhoffii. Comp Immunol Microbiol Infect Dis, 2012; 35(1):9-15. BLOOD, D. C.; RADOSTITS, O. M. Clínica Veterinária. 1989. BORTOLI, C. P.; ANDRÉ, M. R., SEKI, M. C.; PINTO, A. A.; MACHADO, S. T. Z.; MACHADO, R. Z. Detection of hemoplasma and Bartonella species and co-infection with retroviruses in cats subjected to a spaying/neutering program in Jaboticabal, SP, Brazil. Rev Bras Parasitologia Vet, 2012; 21(3):219-223. BOULOUIS, H. J.; CHANG, C. C.; HENN, J. B.; KASTEN, R. W.; CHOMEL, B. B. Factors associated with the rapid emergence of zoonotic Bartonella infections. Vet Res, 2005; 36:383-410. BRAGA, M. S. C. O.; DINIZ, P. P. V. P.; ANDRÉ, M. R.; BORTOLI, C. P.; MACHADO, R. Z. Molecular characterization of Bartonella species in cats from São Luís, state of Maranhão, northeastern Brazil. Mem Inst Oswaldo Cruz, 2012; 107(6):772-777. BRASIL. Manual Técnico do Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e da Tuberculose Animal-PNCEBT. MAPA/SDA/DSA-MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO. Brasília: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, 2006 ______. Lei no 8.080, de 19 de setembro de 1990. ______. Secretaria de Vigilância em Saúde. Guia de vigilância epidemiológica/Ministério da Saúde. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2005. BREITSCHWERDT, E. B; HEGARTY, B. C.; HANCOCK, S. I. Doxycycline teatment and challenge infection with two Ehrlichia strains. Journal Veterinary Internal Medical, v. 11: p. 132, 1997. BREITSCHWERDT, E. B.; MAGGI, R. G.; SIGMON, B.; NICHOLSON, W.L. Isolation of Bartonella quintana from a woman and a cat following putative bite transmission. J Clin Microbiol, 2007; 45:270–272. 98 RefeRências ______. CHOMEL, B. B.; LAPPIN, M. R. Bartonellosis: an emerging infectious disease of zoonotic importance to animals and human beings. J Vet Emerg Crit Care 2010; 20(1): 8-30. BRENNER, D.J., O’CONNOR, S., WINKLER, H.H., STEIGERWALT, A. G. Proposals to unify the genera Bartonella and Rochalimaea, with descriptions of Bartonella quintana comb. nov., Bartonella vinsonii comb.nov. and to remove the family Bartonellaceae from the order Rickettsiales. Int J Syst Bacteriol 1993; 43(4):777-786. BROSCH, R.; GORDON, S. V.; MARMIESSE, M.; BRODIN, P.; BUCHRIESER, C.; EIGLMEIER, K.; GARNIER, T.; GUTIERREZ, C.; HEWINSON, G.; KREMER, K.; PARSONS, L. M.; PYM, A. S.; SAMPER, S.; VAN SOOLINGEN, D.; COLE, S. T. A new evolutionary scenario for the Mycobacterium tuberculosis complex. Proceedings National Academy Sciences of the United States America, v. 99, no 6, pp. 3684-3689, 2002. BROUQUI, P.; LASCOLA, B.; ROUX, V.;, RAOULT, D. Chronic Bartonella quintana bacteremia in homeless patients. N Engl J Med, 1999; 340(3):184-189. BURKE, G., WIKEL, S. K.; SPIELMAN, A.; TELFORD, S. R.; MCKAY, K.; KRAUSE, P. J.; Tick-borne Infection Study Group. Hypersensitivity to ticks and Lyme disease risk. Emerg Infect Dis. 2005; 11(1):36-41. CETINKAYA, B.; KARAHAN, M.; ATIL, E.; KALIN, R. DE BAERE, T.; Veneechoutte, M. Identification of Corynebacterium pseudotuberculosis isolates from sheep and goats by PCR. Veterinary Microbiology, v. 88, pp. 75-83, 2002. CHANG, C. C.; CHOMEL, B. B.; KASTEN, R. W.; ROMANO, V.; TIETZE, N. Molecular evidence of Bartonella spp. in questing adult Ixodes pacificus ticks in California. J Clin Microbiol, 2001; 39:1.221-1.226. CHEN, S. M.; DUMLER, S.; BAKKEN, J. Identification of a granulocytotropic Ehrlichia species as the etiologic agent of human disease. J Clin Microbiol, 1994, 32:589-595. CHEN, L. F.; Sexton, D. J. What’s new in Rocky Mountain spotted fever? Infect Dis Clin North Am. 2008; 22(3):415–32. CHOMEL, B. B.; BOULOUIS, H. J.; BREITSCHWERDT, E. B. Cat scratch disease and other zoonotic Bartonella infections. J Am Vet Med Assoc 2004; 224:1.270-1.279. CHOMEL, B. B.; KASTEN, R. W. Bartonellosis, an increasingly recognized zoonosis. J Appl Microbiol 2010; 109(3):743-750. 99 RefeRências CHOMEL, B. B.; KASTEN, R. W.; FLOYD-HAWKINS, K.; CHI, B.; YAMAMOTO, K.; ROBERTS-WILSON, J. et al. Experimental transmission of Bartonella henselae by the cat flea. J Clin Microbiol 1996; 34(8):1952-1956. COLE, S. T.; BROSCH, R.; PARKHILL, J. Deciphering the biology of mycobacterium tuberculosis from the complete genome sequence. Nature, v. 393, pp. 537-544, 1998. CONRAD, M. E. Review: Ehrlichia canis: A tick-borne Rickettsial-like infection in Humans living in the Southeastehr United State. American Journal of Medical Science, v. 297, (no 1): pp. 35-37, 1989. CORRÊA, W. M.; CORRÊA, C. N. M. Enfermidades infecciosas dos mamíferos domésticos. 2. ed. São Paulo: MEDSI-Editora Médica e Científica Ltda., 1992. CORREA, W. M. Enfermidades infecciosas dos mamíferos domésticos. Botucatu: Unesp, 1992. COSTA, I. P.; BONOLDI, V. L. N.; YOSHINARI, N. H. Clinical and laboratorial outline of Lyme-like disease, in Mato Grosso do Sul State: analysis of 16 patients. Rev Bras Reumatol. 2001; 41(3):142-150. COSTA, P. S. G.; BRIGATTE, M.E., GRECO, D.B. Antibodies to Rickettsia rickettsii, Rickettsia typhi, Coxiella burnetti, Bartonella henselae, Bartonella quintana, and Ehrlichia chaffeensis among healthy population in Minas Gerais, Brazil. Mem Inst Oswaldo Cruz, 2005; 100: 853-859. COSTA, P. S.; VALLE, L. M.; BRIGATTE, M. E.; GRECO, D. B. More about human monocytotropic ehrlichiosis in Brazil: serological evidence of nine new cases. Braz J Infect Dis, 2006, 10(1):7-10. DALTON, M. J.; CLARKE, M. J.; HOLMAN, R. C.; KREBS, J. W.; FISHBEIN, D. B.; OLSON, J. G. et al. National surveillance for Rocky Mountain spotted fever, 1981-1992: epidemiologic summary and evaluation of risk factors for fatal outcome. Am J Trop Med Hyg. 1995; 52(5):405-13. DANTAS-TORRES, F. Rocky Mountain spotted fever. Lancet Infect Dis. 2007; 7(11): 724-32. DAVOUST, B.; MACKOWIAK; MOREAU, Y. Erlichiose canine. Enquete épidemiologic. Revista Medicina Veterinária, v. 162, (no 4): pp. 471-475, 1986. DAVOUST, B. Lerhlichiose Canine. Le poitn Veterinare, v. 25, (no 151): pp. 43-51, 1993. 100 RefeRências DAVOUST, B. Epidemiologie de I’erliquiose de la leishmaniose et de la dirofilariose canine. A propos de la situation actuelle dans les effects de Iárée française. Revista Médicina Véterinária 145(4) 249-256, 1994. DAWSON, J. E.; RIKIHISA, Y.; EWING, S. A.; FISHBEIN, D. Selorogic diagnosis of human ehrlichiosis using two Ehrlichia canis isolates. Journal Infectious Disease, v. 163: pp. 564-567, 1991. DEPIETROPAOLO, D. L.; POWERS, J. H.; GILL, J. M.; FOY, A. J. Lyme disease: what you should know. Am Fam Physician. 2005; 72(2):309. ______. Diagnosis of lyme disease. Am Fam Physician. 2005; 72(2):297-304. DIAS, E.; MARTINS, A. V. Spotted fever in Brazil. A summary. Am J Trop Med. 1939; 19(1):103-108. DOMINGUES, P. F. Linfadenite Caseosa. Associação Paulista de Criadores de Ovinos. Disponível em: PINHEIRO, R. R.; GOUVEIA, A. M. G.; ALVES, F. S. F.; HADDAD, J. P. A. Aspectos epidemiológicos da caprinocultura cearense. Arquivo Brasileiro Medicina Veterinária e Zootecnia v. 52; no 5, Belo Horizonte, outubro, 2000. DONOHUE, J. F. Lower respiratory tract involvement in Rocky Mountain spotted fever. Arch Intern Med. 1980; 140(2): 223-7. DUMLER, J. S.; BARBET, A. F.; BEKKER, C. P. J.; DASCH, G. A.; PALMER, G.H.; RAY, S.C., et al. Reorganization of genera in the families Rickettsiaceae and Anaplasmataceae in the order Rickettsiales: Unification of some species of Ehrlichia with Anaplasma, Cowdria with Ehrlichia and Ehrlichia with Neorickettsia, descriptions of six new species combinations and designation of Ehrlichia equi and ‘HGE agent’ as subjective synonyms of Ehrlichia phagocytophila. Int J Sys Evol Microbiol, 2001, 51:2.145-2.165. DUMLER, J. S.; BAKKEN, S. Ehrlichial Diseases of Humans: Emerging Tick-Born Infection. Clinical Infectious Disease, v. 20: pp. 1.102-1.110, 1995. DUMLER, J. S.; CHOI, K.; GARCIA-GARCIA, J. C.: BARAT, N. S.: SCORPIO, D. G., GARYU, J. W. et al. Human granulocytic anaplasmosis and Anaplasma phagocytophilum (Perspective). Emerging Infectious Diseases, 2005, 11:1.828-1.839. DURÁ-TRAVÉ, T.; YOLDI-PETRI, M. E.; GALLINAS-VICTORIANO, F.; LAVILLA-OIZ, A.; BOVE-GURI, M. Case Report Neuroretinitis Caused by Bartonella henselae (Cat-Scratch Disease) in a 13-Year-Old Girl. Int J Pediatr 2010; 2010:1-3. 101 RefeRências EL APORTE DE LA VETERINARIA A LA SALUD PUBLICA. Genebra : OMS, 1975. (OMS-Informe Técnicos, 573, 1975.) ENG, T. R.; GILES, R. Ehrlichiosis. Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 194, (no 4): 497-499,1989. ESCUDERO-NIETO, R.; GUERRERO-ESPEJO, A. Enfermedades producidas por Borrelia. Enferm Infecc Microbiol Clin. 2005; 23(4):232-40. EXPERT COMITTEE ON ZOONOSIS THIRD REPORT. GENEBRA: OMS, 1960. (OMS-Informes Técnicos, 378, 1967). FISHBEIN, D. B.; SAWER, L. A.; HOLLAND, C. J.; HAYERS, E.B.; OKOROANYANWU, W; WILLIANS, D; SIKES, K; RISTIC, M.; McDADE, J. E. Unesplained febrille illnesses after exposure to ticks. infection with na Ehrlichia¿ Journal American Medical Association, v. 257, (no 22): 3.100-3.104, 1987. FISHBEIN, D. B.; FRONTINI, M. G.; GILES, R.; VERNON, L.L. Fatal cases of Rocky Mountain spotted fever in the United States, 1981-1988. Ann N Y Acad Sci. 1990; 590: 246-7. FONSECA, A. H.; SALLES,R. S.; SALLES, S. A. N., MADUREIRA, R. C.; YOSHINARI, N. H. Borreliose de Lyme simile: uma doença emergente e relevante para a dermatologia no Brasil. Na Bras Dermatol. 2005; 80(2):171-8. FUGIMOTO, F.; GHANEM, R. C.; MONTEIRO, M. L. R. Pupila tônica bilateral como sequela oftálmica isolada da Doença de Lyme: relato de caso. Arq Bras Oftalmol. 2005; 68(3):381-384. HAAGSMA, J. Bovine tuberculosis. OIE Manual (Amendment 2), 1995, 11p. HARDEN, V. A. Rocky Mountain spotted fever: history of a twentieth century disease. Baltimore: Johns Hopkins; 1990. HARDMAN, J. G.; LIMBIRD, L. E., MOLINOFF, P. B.; RUDDON, R. W.; GILMAN, A. G. The pharmacological basis of therapeutics. 10th ed. New York: McGraw-Hill. 2001. HARKESS, J. R.; EWING, S. A.; CRUTCHER, J. M.; KUDLAC, J.; McKEE, G.; ISTRE, G. R. Erlichiose Humanine: Aspects actueis d’une nouvell maladie. Journal Infectious Disease, v. 159, (no 3): pp. 576-579, 1989. 102 RefeRências HARRUS, S.; BARK, H.; WANE, T. E. (a). Canine Monocytic Ehrlichiosis: Na Update. The Compedium Continuing Education, v. 19, (no 4), pp. 431-444, 1997. HARRUS, S.; WANE, T. E.; AINZENBERG, I.; BARK, H. (a). Therapeutic Effect of Doxicycline in Experimental Subclinical Canine Monocytic Ehrlichiosis: Evaluation of a 6-Week course. Journal of Clinical icrobiology, v. 36, (no 7): pp. 2.140- 2.142, 1998. HELMICK, C. G.; BERNARD, K. W.; D’ANGELO, L. J. Rocky Mountain spotted fever: clinical, laboratory, and epidemiological features of 262 cases. J Infect Dis. 1984; 150 (4):480-8. HENN, J. B.; GABRIEL, M. W.; KASTEN, R. W. Gray foxes (Urocyon cinereoargenteus) as a potential reservoir of a Bartonella clarridgeiae-like bacterium and domestic dogs as sentinels for zoonotic arthropod-borne pathogens in northern California. J Clin Microbiol, 2007, 45:2.411-2.418. HERBERT, W. N.; SEEDS, J. W.; KOONTZ, W. L.; CEFALO, R. C. Rocky Mountain spotted fever in pregnancy: differential diagnosis and treatment. South Med J. 1982; 75(9): 1.063-6. HOLMAN, R. C.; PADDOCK, C. D.; CURNS, A. T.; KREBS, J. W.; MCQUISTON, J. H.; CHILDS, J. E. Analysis of risk factors for fatal Rocky Mountain Spotted Fever: evidence for superiority of tetracyclines for therapy. J Infect Dis. 2001; 184(11):1437-44. HOWARD TAYLOR RICKETTS. Science (Washington). 1910; 32(826): 585-7. JOPPERT, A. M.; HAGIWARA, M. K.; YOSHINARI, N. H. Borrelia burgdorferi antibodies in dogs from Cotia county, São Paulo State, Brazil. Rev Inst Med Trop Sao Paulo. 2001; 43(5):251-5. KANTOR, L. N. Bacteriologia de Ia tuberculosis bovina en América Latina y el Caribe. OPAS/OMS. Nota técnica no 8, 1998. 23p. KAPLOWITZ, L. G.; LANGE, J. V.; FISCHER, J. J.; WALKER, D. H. Correlation of rickettsial titers, circulating endotoxin, and clinical features in Rocky Mountain spotted fever. Arch Intern Med. 1983; 143(6): 1.149-51. KAPLOWITZ, L. G; ROBERTSON, G. L. Hyponatremia in Rocky Mountain spotted fever: role of antidiuretic hormone. Ann Intern Med. 1983; 98(3):334-5. KELLY, P.; ROLAIN, J. M.; MAGGI, R.; SONTAKKE, S.; KEENE, B.; HUNTER, S. et al. Bartonella quintana endocarditis in dogs. Emerg Infect Dis 2006; 12:1.869-1.872. 103 RefeRências KENYON, R. H.; WILLIAMS, R. G.; OSTER, C. N.; PEDERSEN, C. E. Jr. Prophylactic treatment of Rocky Mountain spotted fever. J Clin Microbiol. 1978; 8(1):102-4. KOEHLER, J. E.; TAPPERO, J. W. Bacillary angiomatosis and bacillary peliosis in patients infected with human immunodeficiency virus. Clin Infect Dis 1993; 17(4):612-624. KONEMAN, E.; Jr, W. W.; ALLEN, S.; JANDA, W.; PROCOP, G.; SCHRECKENBERGER, P.; WOODS, G. Diagnóstico microbiológico: texto e atlas colorido. 6. ed. 2012, pp. 200-204, pp. 1.399-1.402. KOSEC, M.; LAVARELLO, R.; GILMAN, R. H.; DELGADO, J.; MAGUIÑA, C. VERÁSTEGUI, M. et al. Natural history of infection with Bartonella bacilliformis in a nonendemic population. J Infect Dis 2000; 182(3):865-872. LA, V.D.; TRAN-HUNG, L.; ABOUDHARAM, G.; RAOULT, D.; DRANCOURT, M. Bartonella quintana in domestic cat. Emerg Infect Dis 2005; 11:1287-1289. LABRUNA, M. B.; KASAI, N.; FERREIRA, F.; FACCINI, J. L.; GENNARI, S. M. Seasonal dynamics of ticks (Acari: Ixodidae) on horses in the State of São Paulo, Brazil. Vet Parasitol. 2002;105(1):65-77. LAMAS, C.; CURI, A.; BÓIA, M. N.; LEMOS, E. R. S. Human bartonellosis: seroepideniological and clinical aspects with emphasis on data from Brazil – a review. Mem Inst Oswaldo Cruz, 2008; 103(3):221-235. LAMAS, C.; MARES-GUIA, M. A., ROZENTAL, T.; MOREIRA, N.; FAVACHO, A.R., BARREIRA, J. et al. Bartonella spp. infection in HIV positive individuals, their pets and ectoparasites in Rio de Janeiro, Brazil: serological and molecular study. Acta Trop 2010; 115(1-2):137-141. LAMPS, L. W.; SCOTT, M. A. Cat-scratch disease: historic, clinical, and pathologic perspectives. Am J Clin Pathol 2004; 121 Suppl, S71-S80. LEE, I. T.; LEVY, J. K.; GORMAN, S. P.; CRAWFORD, P. C.; SLATER, M. R. Prevalence of feline leukemia virus infection and serum antibodies against feline immunodeficiency virus in unwed free-roaming cats. J Am Vet Med Assoc 2002; 220(5):620-622. LEMOS, E. R.; MACHADO, R. D., COURA, J. R., GUIMARÃES, M. A., FREIRE, N. M., AMORIM, M. et al. Epidemiological aspects of the Brazilian spotted fever: seasonal activity of ticks collected in an endemic area in São Paulo, Brasil. Rev Soc Bras Med Trop. 1997; 30(3):181-5. 104 RefeRências LEMOS, E. R. S.; ALVARENGA, F. B.; CINTRA, M. L.; RAMOS, M. C.; PADDOCK, C. D.; FEREBEE, T. L. et al. Spotted fever in Brazil: a seroepidemiological study and description of clinical cases in an endemic area in the State of São Paulo. Am J Trop Med Hyg. 2001; 65(4):329-34. LEMOS, E.R.S. Rickettsial diseases in Brazil. Virus Rev Res. 2002;7(1):7-16. LES ZOONOSES PARASITAIRES. Genebra: OMS, 1978. (Informes Técnicos, 637, 1979.) LIANG, F. T. ; BROWN, E. L.; WANG, T.; IOZZO, R. V.; FIKRIG, E. Protective niche for Borrelia burgdorferi to evade humoral immunity. Am J Pathol. 2004; 165(3):977-85. LOUREIRO, V. S.; HAGIWARA, M. Levantamento de anticorpos anti-Bartonella henselae em felinos domiciliados na cidade de São Paulo, Estado de São Paulo e sua importância em saúde pública. Rev Bras Ciênc Vet 2007; 14(1):39-42. MADEWELL, B.; GRIBBLE, D. Infection in two dogs with an agent resembling Ehrlichia equi. J Am Vet Med Assoc; 1982, 180:512-514. MANDELL, G. L.; BENNETT, J. E.; DOLIN, R. Principles and practices of infectious diseases. New York: Churchill Livingstone; 1995. MANSUETO, P.; VITALE, G.; DI LORENZO, G.; ARCOLEO, F.; MANSUETO, S., CILLARI, E. Immunology of human rickettsial diseases. J Biol Regul Homeos Agent. 2008; 22(2):131-9. MARGARELLI, L. A. Ehrlichiosis: a veterinary problem with growing epidemiologic importance. Journal Clinical Microbiology, v. 12(n. 19): pp. 145-147, 1990. MARQUES, A. R.; HORNUNG, R. L.; DALLY, L.; PHILIPP, M. T. Detection of immune complexes is not independent of detection of antibodies in Lyme disease patients and does not confirm active infection with Borrelia burgdorferi. Clin Diagn Lab Immunol. 2005; 12(9):1.036-40. MARKLEY, K. C.; LEVINE, A. B.; CHAN, Y. Rocky Mountain spotted fever in pregnancy. Obstet Gynecol. 1998; 91(5 Pt 2):860. MASTERS, E. J.; OSLON, G. S.; WEINER, S. J.; PADDOCK, C. D. Rocky mountain spotted fever: a clinician’s dilemma. Arch Intern Med. 2003; 163(7):769-74. McDADE, J. E. Ehrlichiosis – a disesase of Animals and Humans. Journal Infectious Disease, v. 161: pp. 609-617, 1989. 105 RefeRências MCNEE, J. W.; RENSHAW, A.; BRUNT, E. H. “Trench fever”: a relapsing fever occurring with the British fources in France. Br. Med. J. 1916; 12:225-234. MELO, I. S., GADELHA, A. R., FERREIRA, L. C. L. Estudo histopatológico de casosde eritema crônico migratório diagnosticados em Manaus. An Bras Dermatol. 2003; 78(2):169-177. MMWR Morbility Mortality Weekly Report, v. 54, pp. 605-608, 2005. MONAGHAN, M. L.; DOHERTY, M. L.; COLLINS, J. D.; KAZDA, J. F.; QUINN, P.J. The tuberculin test. Veterinary Microbiology. v. 40, no 1-2, pp. 111-124, 1994. MORAIS, J. D.; DAWSON, J. E.; GRENNE, C.; FILIPE, A. R.; GALHARDAS, L.C.; BACELLAR, F. First European of ehrlichiosis. Lancet, v. 38: pp. 633-634, 1991. MUHSIN ÖzEL, Gudrun Holland, Rolf Reissbrodt/RKI, 2014. <http://www.rki.de/ EN/Home/homepage_node.html;jsessionid=2E326101D4B24BB668E71778F7B 1C002.2_cid363>. Acesso em: 7 fev. 2017. NEILL, S. D.; POLLOCK, J. M.; BRYSON, D. B.; HANNA, J. Patogenesis of Mycobactrium bovis infection in cathe. Veterinary Microbiology. v. 40, no 1-2, pp. 41-52,1994. ORGANIZACION MUNDIAL DE LA SALUD. Informe de la primero reunión do Grupo Mixto OMS/FAO de experts en las zoonosis. Genebra: OMS, 1950. (OMS-Informes Técnicos, 40, 1958). ORMSBEE, R. A.; PARKER, H.; PICKENS, E. G. The comparative effectiveness of aureomycin, terramycin, chloramphenicol, erythromycin, and thiocymetin in suppressing experimental rickettsial infections in chick embryos. J Infect Dis. 1955; 96(2):162-7. O’REILLY, L. M.; DABORN, C. J. The epidemiology of Mycobactrium bovis infections in animaIs and man: a review. Tuber. Lung Dis., v.76, pp. 1-46, 1995, pp. 317-335. O’ROURKE, L. G.; PITULLE, C.; HEGARTY, B. C.; KRAYCIRIK, S.; KILLARY, K. A., GROSENSTEIN, P. et al. Bartonella quintana in cynomolgus monkey (Macaca fascicularis). Emerg Infect Dis 2005; 11:1931-1934. PALACIOS, R.; OSORIO, L. E.; GIRALDO, L. E.; TORRES, A. J.; PHILIPP, M. T.; OCHOA, M. T. Positive IgG Western blot for Borrelia burgdorferi in Colombia. Mem Inst Oswaldo Cruz. 1999; 94 (4):499-503. 106 RefeRências PASQUIER, M., PETER, O.; FROCHAUX, V.; IMSAND, C.; VOGT, P.; GIROD, G. Atrioventricular heart block in Lyme disease. Ver Med Suisse. 2006; 2(52): 415-7. PEREIRA, S. A.; PASSOS, S. R. L.; SILVA, J. N. ; GREMIÃO, I. D. F.; FIGUEIREDO, F. B.; TEIXEIRA, J. L. et al. Response to azolic antifungal agents for treating feline sporotrichosis. Vet Rec 2010; 166(10):290-294 PICHA, D.; MORAVCOVA, L.; ZDARSKY, E.; MARESOVA, V.; HULINSKY, V. PCR in lyme neuroborreliosis: a prospective study. Acta Neurol Scand. 2005; 112(5):287-92. PFISTER, H. W.; RUPPRECHT, T. A. Clinical aspects of neuroborreliosis and post-Lyme disease syndrome in adult patients. Int J Med Microbiol. 2006; 296 Suppl 40:S11-6. PURVIS, J. J.; EDWARDS, M. S. Doxycycline use for rickettsial disease in pediatric patients. Pediatr Infect Dis J. 2000; 19(9):871-4. QUINN, P. J.; MARKEY, B. K.; CARTER, M. E.; DONNELLY, W.J.; LEONARD, F. C. Microbiologia veterinária e doenças infecciosas. Porto Alegre: Artemed, 2005. 512p. Cap. 13. RADOSTITS, O. M.; BLOOD, D. C.; GAY, C. C.; HINCHCLIFF, D. C. Clínica veterinária: um tratado de doenças dos bovinos, ovinos, suínos, caprinos e equinos. 9. ed. 2002. 1.737p. RAMSEY, A. H., BELONGIA, E. A., CHYOU, P. H., DAVIS, J. P. Appropriateness of Lyme disease serologic testing. Ann Fam Méd. 2004; 2(4):341-4. RAO, A. K.; SCHAPIRA, M.; CLEMENTS, M. L.; NIEWIAROWSKI, S.; BUDZYNSKI, A .Z.; SCHMAIER, A. H. et al. A prospective study of platelets and plasma proteolytic systems during the early stages of Rocky Mountain spotted fever. N Engl J Med. 1988; 318(16):1.021-8. RAOULT, D.; ROUSSELLIER, P.; VESTRIS, G.; TAMALET, J. In vitro antibiotic susceptibility of Rickettsia rickettsii and Rickettsia conorii: plaque assay and microplaque colorimetric assay. J Infect Dis. 1987; 155 (5):1.059-62. RAVECHE, E. S.; SCHUTZER, S. E.; FERNANDES, H., BATEMAN, H.; MCCARTHY, B. A.; NICKELL, S. P. et al. Evidence of Borrelia autoimmunity-induced component of Lyme carditis and arthritis. J Clin Microbiol. 2005; 43(2):850-6. RICKETTS, H. T. A micro-organism which apparently has a specific relationship to Rocky Mountain spotted fever. JAMA. 1909; 52:379-80. 107 RefeRências _______. Some aspects of Rocky Mountain spotted fever as shown by recent investigations. 1909. Rev Infect Dis. 1991; 13(6):1.227-40. RIKIHISA, Y. The Ehrlichiae and Ehrlichial Diseases. Clinical Microbiology Reviews, v. 4: pp. 286-308, 1991. RIKIHISA, Y.; YAMAMOTO, S.; KWAK, I.; IQBAL, Z.; KOCIBA, G.; MOTT, J.; CHICHANASIRIWITHAYA, W. C. Reative protein and α 1 – Acid Glycoprotein levels in dogs infected with Ehrlichia canis. Journal Clinical Microbiology, v.32, (no 4): pp. 912-917, 1994. ROHRBACH, B. W.; HARKESS, J. R.; EWING, S. A.; KUDLAC, J.; McKEE, G. L.; ISTRE, G. R. Epidemiologic and clinical characteristic of persons With Serologic Evidence of E. canis infection. American Journal of Public Health, v. 80, (no 4). pp. 442-445, 1990. ROLAIN, J. M.; MAURIN, M.; VESTRIS, G.; RAOULT, D. In vitro susceptibilities of 27 rickettsiae to 13 antimicrobials. Antimicrob Agents Chemother. 1998; 42(7):1.537-41. SÃO PAULO, SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE DO ESTADO DE SÃO PAULO. Divisão de Zoonoses. Informe Técnico. Febre maculosa brasileira. Disponível em: <ftp.cve. saude.sp.gov.br/doc_tec/ZOO/INF_MACULOSA.pdf>. Acessado em: 26 de nov. de 2016. SATO, M. T.; SCHMITT, A.; GREBOGE, P.; ARANA, J.; MOREIRA, A. T. R.; YOSHINARI, N. H. Neuroretinitis associated with interstitial Keratitis: the first case report of Lyme disease in the State of Paran. Rev Bras Oftalmol. 2003; 62(4):275-283. Segundo informe do Grupo Mixto OMS/FAO de experts en las zoonosis. Estocolmo: OMS, 1958. (OMS-Informes Técnicos, 169, 1959). SCHWABE, C. W. Veterinary medicine and human health. 3. ed. Baltimore; Williams A. Wilkins, 1984. STALLINGS, S. P. Rocky Mountain spotted fever and pregnancy: a case report and review of the literature. Obstet Gynecol Surv. 2001; 56(1):37-42. STANCHI, N. O.; BALAGUE, L. J. Lyme Disease: antibodies against Borrelia burgdorferi in farm workers in Argentina. Rev Sade Pblica. 1993; 27(4):305-7. STONE, E. G.; LACOMBE, E. H.; RAND, P. W. Antibody testing and Lyme disease risk. Emerg Infect Dis. 2005; 11(5):722-724. 108 RefeRências TAVARES, W.; MARINHO, L. A. C. Rotinas de diagnóstico e tratamento das doenças infecciosas e parasitárias. 2. ed. São Paulo: Atheneu; 2007. TRABULSI, L. R.; ALTERTHUM, F. Microbiologia. São Paulo: Atheneu; 2004. TZIANABOS, T.; ANDERSON, B. E.; MCDADE, J. E. Detection of Rickettsia rickettsii DNA in clinical specimens by using polymerase chain reaction technology. J Clin Microbiol. 1989; 27(12):2.866-8. VALBUENA, G.; FENG, H. M.; WALKER, D. H. Mechanisms of immunity against rickettsiae. New perspectives and opportunities offered by unusual intracellular parasites. Microbes Infect. 2002; 4(6): 625-33. XU, W. B.; RAOULT, D. Taxonomic relationships among spotted fever group rickettsiae as revealed by antigenic analysis with monoclonal antibodies. J Clin Microbiol. 1998; 36(4):887-96. YOSHINARI, N. H.; ABRÃO, M. G.; BONOLDI, V. L.; SOARES, C. O.; MADRUGA, C. R.; SCOFIELD, A. et al. Coexistence of antibodies to tick-borne agents of babesiosis and Lyme borreliosis in patients from Cotia county, State of São Paulo, Brazil. Mem Inst Oswaldo Cruz. 2003; 98(3):311-8. WALKER, D. H. Rocky Mountain spotted fever: a disease in need of microbiological concern. Clin Microbiol Rev. 1989; 2(3):227-40. WALKER, D. H., VALBUENA, G. A., OLANO, J. P. Pathogenic mechanisms of diseases caused by Rickettsia. Ann N Y Acad Sci. 2003; 990:1-11. WINTERS, A.; DRIVER, C.; MACARAIG, M.; CLARK, C.; MUNSIFF, S. S.; PICHARDO, C.; DRISCOLL, J.; SALFINGER, M.; KREISWIRTH, B.; JEREB, J.; LOBUE, P.; LYNCH, M. Human tuberculosis caused by Mycobacterium bovis – New York City, 2001-2004. WOLDWHIWET, Z. Tick-borne fever: A review.Vet Res Commun; 1983, 6:163-175. ZORNORFF, D. C. M.; OLIVEIRA, B. G. V.; MEIRA, D. A.; CORREIA, C. N. M. Erlichiose Humana. Jornal Brasileiro de Medicina, v. 68, (n. 1-2): pp. 7.280, 1995. Sites <https://pt.wikipedia.org/wiki/Borrelia_burgdorferi>, acesso em: 10 mar. 2017. <https://5bioterrorismdiseases.wikispaces.com/3++Brucellosis>, acesso em: 10 mar. 2017. 109 RefeRências <https://pt.wikipedia.org/wiki/Carrapato-estrela>, acesso em: 10 mar. 2017. <https://hiveminer.com/Tags/micrura>, acesso em: 5 fev. 2017. <http://carrapatos.cnpgc.embrapa.br/museu.html>, foto de Jaqueline Matias , acesso em: 12 mar. 2017. <https://pt.wikipedia.org/wiki/Carrapato-estrela>, acesso em: 12 mar. 2017. <http://www.oswaldobuzzo.com.br/artigos/doencas-rurais?tmpl=%2Fsystem%2Fap p%2Ftemplates%2Fprint%2F&showPrintDialog=1>, aceso em: 5 mar. 2017. <https://pt.wikipedia.org/wiki/Doen%C3%A7a_de_Lyme>, acesso em: 10 mar. 2017. <http://www.wort.lu/pt/luxemburgo/doenca-de-lyme-tratada-com-pincas-no- luxemburgo-56bb2a000da165c55dc52b30>, acesso em: 17 jan. 2017. <http://clep.fiocruz.br/>, acesso em: 8 mar. 2017. <http://timecras.blogspot.com.br/2012_07_01_archive.html>, acesso em: 5 jan. 2017. <https://en.wikipedia.org/wiki/Corynebacterium>, acesso em: 8 mar. 2017. <http://www.infobibos.com/Artigos/2009_2/Linfadenite/Index.htm>, acesso em: 8 mar. 2017. <http://guiaanimal.blogspot.com.br/2014/10/linfadenite-caseosa-ou-mal-do-caroco. html>, acesso em: 10 mar. 2017. <http://www.promegaconnections.com/tag/mycobacterium-tuberculosis/>, acesso em: 3 mar. 2017. <http://microbewiki.kenyon.edu/indexphp/Mycobacterium_bovis>, acesso em: 3 mar. 2017. <http://www.clubeamigosdocampo.com.br/artigo/problemas-respiratorios-em- bovinos-1262>, acesso em: 15 fev 2017. <http://brasilescola.uol.com.br/doencas/tuberculose.htm#slider-4>, acesso em: 6 mar. 2017. <https://pt.wikipedia.org/wiki/Tuberculose>, acesso em: 6 mar. 2017. <https://en.wikipedia.org/wiki/Rickettsia_rickettsii>, acesso em: 8 mar. 2017. 110 RefeRências <http://www.tickencounter.org/tick_identification/cayenee_tick>, acesso em: 9 mar. 2017. <http://www.cnpma.embrapa.br/nova/mostra2.php3?id=478>, acesso em: 11 fev. 2017. <https://pt.wikipedia.org/wiki/Febre_maculosa>, acesso em: 12 mar. 2017. < h t t p : / / w w w . s c i e l o . o r g . c o / s c i e l o . p h p ? s c r i p t = s c i _ a r t t e x t & p i d =S1657-95342012000200011>, acesso em: 5 mar. 2017. <http://brasilescola.uol.com.br/doencas/tifo-endemico-ou-murino.htm>, acesso em: 5 mar. 2017. <http://rickettsia1.blogspot.com.br>/, acesso em: 18 fev. 2017. <http://www.inf.furb.br/sias/parasita/Textos/rickettsias.htm>, acesso em: 7 fev. 2017. <http://brasilescola.uol.com.br/doencas/tifo-epidemico-ou-exantematico.htm>, acesso em: 8 fev. 2017. <http://medicine.academic.ru/101116/human_granulocytic_anaplasmosis>, acesso em: 4 mar. 2017. <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Echaff.jpg>, acesso em: 4 mar. 2017. <http://www.lookfordiagnosis.com/mesh_info.php?term=rhipicephalus&lang=3>, acesso em: 10 fev. 2017. <http://www.nature.com/nrmicro/journal/v8/n5/full/nrmicro2318.html>, acesso em: 10 fev. 2017. _Hlk480780309