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METODOLOGIA DA PESQUISA EM ESTUDOS LITERÁRIOS

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e Carvalhal (2011, p. 233), com o intuito 
de melhor compreender a Literatura como função específica do espírito hu-
mano:
Figura 1 - Quebra-cabeça da literatura comparada
Fonte: As autoras (2017).
Tais elementos, quando projetados na pesquisa comparatista, transfor-
mam-se em norte metodológico, a saber: 1. “descrição analítica” do objeto 
que se propõe investigar; 2. “comparação diferencial”, pois o texto de cada 
comparatista é singular, diferente do Outro. Cada produção contém as suas 
particularidades que a diferencia e particulariza das demais; 3. “interpre-
tação pela história, pela crítica e pela filosofia”, pois o texto literário não é 
isolado em si mesmo (contexto interno), ao contrário, ele dialoga com áreas 
afins do conhecimento, para uma interpretação crítica, dinâmica e interdis-
ciplinar; 4. “interpretação sintética dos fenômenos literários, interlinguís-
ticos ou interculturais”, identificando na linguística as metáforas e outras 
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construções possíveis no texto literário e nos estudos culturais das relações 
possíveis para o estudo literário. 
Carvalhal (1997, p. 8), pesquisadora em literatura comparada trata a res-
peito das contribuições que o comparatismo traz a quem se propõe a utilizá
-lo como proposta teórico-literária:
Adentrar o terreno da Literatura Comparada é preparar-se 
para caminhar por trilhas diversas do pensamento humano. É 
desprezar fronteiras e penetrar em territórios diferentes e des-
cobrir que o ‘Outro’ pode ser o ‘Mesmo’ ou que o ‘Outro’ pode 
ser ‘Eu mesmo’ ou simplesmente o ‘Outro’; é valer-se da opor-
tunidade de olhar longe para ver de perto como o Outro fala, 
do que o Outro fala, o que o Outro pensa, onde o Outro vive, 
como vive; é, enfim, estabelecer comparações–atitude normal 
do ser humano. O exercício do comparativismo ‘colabora para 
o entendimento do Outro’.
Consideramos relevante apresentar brevemente o panorama histórico 
que Carvalhal (2006) faz na obra Literatura comparada, na qual a autora 
apresenta-nos os primórdios da literatura comparada, afirmando a dificul-
dade de consenso em relação à natureza, objetivos e métodos desta perspec-
tiva literária, que adquire novos significados, até chegar às acepções que os 
estudiosos da área a empregam. 
A literatura comparada surgiu no século XIX e está vinculada à corren-
te cosmopolita aí presente; difundiu-se por toda a Europa, firmando-se na 
França, a partir de onde se produziu amplamente. É devido a Ampère que a 
expressão “literatura comparada” passou a ser estudada pela crítica literária; 
com isso, o autor foi considerado o fundador da “história literária compa-
rada”. A literatura comparada manteve a denominação imprecisa e ambí-
gua dos franceses, permanecendo-se a dificuldade de diferenciar a literatura 
comparada, definida como “[...] estudo de literaturas nacionais em relação 
umas as outras” da literatura geral, definida como o “[...] estudo da literatura 
sem preocupação com fronteiras linguísticas.” (SAYCE apud COUTINHO; 
CARVALHAL, 2011, p. 314).
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No início do século XXI, a literatura comparada ganha estatura de disci-
plina. Duas orientações básicas nortearam os estudos comparados, às quais 
o comparatista francês René Wellek confere nomenclatura de “escolas”: a 
escola francesa, na qual se sobressaem as relações causais entre obras e/ou 
autores, mantendo uma relação íntima com a historiografia literária; a esco-
la norte-americana, que se opunha ao historicismo francês, e privilegiava a 
análise intrínseca do texto literário, em detrimento das relações extrínsecas 
entre obras e/ou autores, tendo René Wellek como expoente máximo. 
Carvalhal (2006) discorre sobre as contribuições didáticas dos manuais 
franceses e do manual brasileiro, Literatura Comparada, de Oliveira (1964), 
que não apresentou noções inovadoras, mas contribuiu ao sistematizar as 
orientações francesas. Dentre os teóricos apresentados por Carvalhal (2006, 
p. 44) como pioneiros, destacam-se: Etiemble, que afirmava a existência de 
uma “interdependência universal das nações”, na qual as obras de uma na-
ção se tornam bem comum de todas as nações; João Ribeiro, capítulo na 
obra Páginas de estética (1905), que estudava a literatura comparada como 
“crítica literária” e defendia uma atuação crítica e vinculada à história, para 
os estudos comparados; Antonio Candido, que concebe “[...] a literatura 
como um sistema no qual interagem autores (produtores literários), obras e 
público (conjunto de receptores)”. 
Carvalhal (2006) ainda destaca os seguintes teóricos que contribuíram 
para a reformulação de conceitos básicos da literatura comparada tradicio-
nal: R. Jakobon e Iuri Tynianov (evolução literária); Jan Mukarovsky (fun-
ção estética e arte como fato semiológico); e M. Bakhtin (dialogismo no 
discurso literário). Da noção de “diálogo” estudada por Bakthin, Julia Kris-
teva chegou à noção de “intertextualidade”, em 1969, que será tratada em ca-
pítulo específico. J. L. Borges é evidenciado por Carvalhal (2006) no que diz 
respeito às questões por ele estudadas como os conceitos de originalidade, 
filiação e hierarquia cronológica na produção literária. A autora conclui que 
o estudo comparado de literatura: 
[...] compara com a finalidade de interpretar questões mais ge-
rais das quais ou procedimentos literários são manifestações 
concretas. Daí a necessidade de articular a investigação com-
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parativista [...] com a História num sentido abrangente. (CAR-
VALHAL, 2006, p. 86).
Para Coutinho (2003, p. 40) “A literatura comparada é hoje, [...], uma se-
ara ampla e movediça, com inúmeras possibilidades de exploração, que [...] 
se erige como um diálogo transcultural, calcado na aceitação das diferenças”. 
Antonio Candido organiza a sua concepção de literatura sistêmica no tripé 
“autor-obra-público”, ao lado de tais pressupostos “[...] a solidariedade es-
treita entre arcadismo e romantismo, metodologia ampla que integra o fato 
histórico e estético e, finalmente, a concepção de literatura como missão.” 
(NITRINI, 2015, p. 198). Esta compreensão da literatura como um sistema 
articulado muda o caminho traçado anteriormente e afirma a necessidade 
de se olhar para o texto literário de modo interno e externo. Consideramos 
que Candido é fundamental para o início e desenvolvimento da literatura 
comparada no Brasil, já que ele propõe um novo modo de pensar o texto 
literário no ensino e na pesquisa comparatista. 
No texto “Teoria literária e literatura comparada”, Nitrini (1994, p. 477-
478) apresenta as dez linhas de pesquisa em andamento, quanto à pesquisa 
comparativa contemporânea: 1. Literatura e Educação, 2. Problemas de Tra-
dução Literária, 3. Ecdótica e Genética Textual, 4. Literatura e Psicanálise, 
5. Teoria dos gêneros, 6. História literária e história cultural, 7. Correntes 
críticas, 8. Literatura e Sociedade, 9. Literatura e teatro e 10. Estudos compa-
rativista da literatura, a qual destacamos neste trabalho, na medida em que 
se estrutura a partir da noção de que a literatura comparada é o espaço inter-
relacional por excelência e abrange um amplo escopo de estudos, baseados 
no diálogo da literatura comparada com a teoria e a crítica literária, com as 
literaturas brasileira, clássica e medieval, e outras ramificações do saber. 
Em razão da diversidade de pesquisas em literatura comparada, surgem 
dois dilemas relacionados ao método comparativo em trabalhos compara-
tistas: o primeiro está relacionado à delimitação do seu objeto de estudo e o 
segundo se refere à ausência de um método de análise. Destacamos que os 
métodos serão adaptados de acordo com os pressupostos e as necessidades 
do pesquisador e de sua pesquisa. Para Coutinho e Carvalhal (2011, p. 116), 
são condições necessárias que as pesquisas comparatistas devem preencher:
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[...] conhecimento aprofundado da obra e do homem, dos 
quais estudamos o destino,

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