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METODOLOGIA DA PESQUISA EM ESTUDOS LITERÁRIOS

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crítico que tomar esta pers-
pectiva deve estar preocupado com “[...] a criação de um contexto favorável 
aos marginalizados e oprimidos para a recuperação da sua história, sua voz.” 
(BONNICI, 2012, p. 20).
O autor afirma que o desenvolvimento das literaturas pós-coloniais pro-
vém de dois fatores: o primeiro, a conscientização nacional que ocorre em 
etapas, e o segundo, o reforço em diferenciar a sua produção literária da do 
colonizador (BONNICI, 2012, p. 22).
7.4 Condicionamento da leitura da obra (modo e do ponto de vista)
Bonnici (2012, p. 26) apresenta-nos então a dicotomia sujeito-objeto, ci-
tando Sartre para configurar seu pensamento: “[...] através da percepção do 
próprio ser-objeto para o Outro deve-se compreender a presença do ser-su-
jeito dele, afirma Sartre”. Em suma, na teoria pós-colonial, ocorre a hierar-
quização, o colonizado torna-se objeto para o sujeito colonizador, formando 
a dialética do dominador e do subalterno.
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O oprimido é sufocado pela imposição moral, estética, política, religiosa 
e social, em que o opressor a julga superior, por isso a incute na sociedade 
colonizada e, este mesmo pensamento, segue até após a independência da 
colônia. O subalterno ainda o será enquanto compreender a hierarquia cul-
tural como verdadeira e sólida.
A esta altura do raciocínio, deve-se levar em conta o fator ideológico. No 
capítulo seis do livro de Bonnici, temos uma amostra de aplicação da teoria 
pós-colonial, isto é, uma leitura condicionada da obra orientada pelas dis-
cussões já mencionadas. A análise apresentada tem por título “Colonização 
e alteridade – Robinson Crusoé e o problema do outro”, e aborda o romance 
de Daniel Defoe, Robinson Crusoé (1719).
Segundo Bonnici (2012, p. 107), no romance “[...] o fator ideológico re-
ferente ao outro começa a espreitar a superfície do texto e revela o posicio-
namento do personagem diante do não-europeu”. Crusoé, inglês, é tratado 
como semelhante diante dos portugueses, mas seus comportamentos diante 
de um nativo não-europeu revelam as suas atitudes colonialistas. Abstrai-se, 
portanto, a subalternização de cunho cultural contra o nativo, a hierarquiza-
ção. Esse pensamento nos orienta sobre qual deve ser o ponto de vista a ser 
tomado mediante a leitura de literaturas pós-coloniais.
7.5 Leitura guiada pelo pós-colonialismo (verificar as marcas do 
imperialismo, a diferenciação ou hierarquização colonizador/colonizado)
O crítico que tomar esta perspectiva deve estar preocupado com “[...] a 
criação de um contexto favorável aos marginalizados e oprimidos para a re-
cuperação da sua história, sua voz.” (BONNICI, 2012, p. 20). É necessário ler 
analisando os padrões referenciais e sociais em questão da obra no contexto 
em que foi escrita, atentando ao “substrato político-religioso” (BONNICI, 
2012, p. 107). 
A leitura guiada volta as atenções do leitor para as imposições imperia-
listas nos permite ter a compreensão exata de como proceder em juízos de 
valor e como discorrer sobre os temas possíveis nessa teoria, em geral, refle-
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xões morais e éticas quanto a ideologia dentro da obra, quer da perspectiva 
do colonizador ou do colonizado. O colonizado também pode, em sua lite-
ratura, demonstrar o discurso imperialista em denúncia, combate, recusa, 
etc. Assim, se se observar a poesia africana lusófona, por exemplo, pode-se 
abstrair o discurso colonialista de um outro modo.
Segue, pois, uma breve análise do poema “Cantaremos”, de Duarte (2005, 
p. 57), poetisa de Cabo Verde, ex-colônia portuguesa na África, do livro 
Preces e súplicas ou os cânticos da desesperança.
Cantaremos
Ao longo de longos séculos da história
foste o continente do ouro e do sabão
e teus filhos os filhos da fome e do chicote
em tempos muitos que já lá vão
em tuas terras floresceram as riquezas
e teus filhos
 (então filhos do tam-tam e do sol)
viveram a felicidade do não à exploração
então vieram caravelas
trazendo homens de cor estranha
 (e estranhos pensamentos)
que cobiçaram a força simples
dos teus filhos perfeitos
e descendo um a um
os degraus do vício da corrupção e da traição
 começaram a comprar e vender teus filhos
 não mais homens
 não mais africanos
 abjectamente escravos [...]
A África é evocada e o eu-lírico reporta-se a ela em suas falas: “Ao longo 
de séculos da história/ foste o continente do ouro e do sabão/ e teus filhos 
os filhos da fome e do chicote”. O eu lírico narra a chegada dos europeus 
cobiçosos e violentos: “[...] então vieram caravelas/ trazendo homens de cor 
estranha/ [...] que cobiçaram a força simples/ dos teus filhos perfeitos” (DU-
ARTE, 2005, p. 57). 
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Na perspectiva do eu-lírico, os europeus eram homens de cores estra-
nhas, não eram filhos da mãe-África, os menosprezavam, mas queriam sua 
força para o trabalho, para a escravização. Em “[...] começaram a comprar 
e vender teus filhos/ não mais homens/ não mais africanos/ abjectamente 
escravos” (DUARTE, 2005, p. 57), declara-se pela voz deste eu-lírico a desti-
tuição da humanidade aos negros, agora objetos, mercadoria, escravos.
O poema mostra de maneira categórica a denúncia da coisificação e su-
balternização a que os filhos da África foram submetidos. A leitura torna-se 
então uma busca pelos traços da colonização, subalternização, imperialismo, 
exploração, aculturação, entre outros temas comuns à teoria pós-colonial.
7.6 Comunicação com os estudos sociais, políticos e ideológicos
Para o enriquecimento da argumentação feita em defesa da ideia pro-
posta a partir do pós-colonialismo, vem a aplicação da interdisciplinaridade 
comum à pesquisa em literatura. Associam-se, então, pensamentos de ou-
tras teorias para comunicação e corroboração de resultados. No exercício de 
crítica, um ponto importante é a análise dos fatores que atuam sobre a or-
ganização interna da obra (CANDIDO, 2006, p. 14). Candido (2006) afirma 
residir nisto o ponto central da problemática do fator social na obra literária, 
pois, para ele, as características sociais dão base material (ambiente, costu-
mes, traços grupais, ideias) à obra.
Estando o pós-colonialismo pautado por discussões ligadas aos estudos 
da sociocrítica literária e aos estudos culturais, pergunta-se, como a cultura 
do colonizado fica? Após a independência das colônias, o que fica para que 
estas se encontrem como nação distinta do colonizador? A resposta espera-
da a essa pergunta seria a busca pelo que havia antes da colonização. No en-
tanto, podem não existir mais rastros da cultura anterior. Segundo o teórico, 
“[...] durante o período de dominação europeia, [...] mais de três quartos do 
mundo estavam submetidos a uma complexa rede ideológica de alterida-
de e inferioridade” (BONNICI, 2012, p. 17), a cultura nativa degradou-se e 
foi negativamente compreendida. O foco das análises acaba por voltar-se a 
questões extratextuais.
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Para alcançar os resultados que dizem respeito ao externo da obra, é ne-
cessário recorrer as outras humanidades, tais como, História, Filosofia, So-
ciologia, Antropologia, entre outras. Inclui-se, portanto, outras teorias, não 
necessariamente conectadas à literatura, entretanto, precisam ter pontos de 
comunicação com os temas localizados e destacados. Citamos, pois, alguns 
deles: feminismo; silenciamento; denúncia social; luta pela liberdade (pró
-independência); valorização da cultura local; metalinguagem; etc.
7.7 Aplicação da Literatura Comparada (fins diversos)
Neste ponto da pesquisa, é comum haver as comparações com outras 
obras, outros autores, outras literaturas com sistematizações diferentes, 
iguais ou opostas. Não propomos aqui a obrigatoriedade ou a necessidade 
de comparação, contudo, a abordagem de literatura comparada, quanto às 
obras e aos resultados, pode “[...] melhor descrevê-los, compreendê-los e 
saboreá-los.” (PICHOIS; ROUSSEAU, 1967 apud COUTINHO; CARVA-

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