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METODOLOGIA DA PESQUISA EM ESTUDOS LITERÁRIOS

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fato ocorre de-
vido à ideia equivocada de que a obra literária se sobrepõe à sua adaptação 
fílmica. Desta feita é importante salientarmos que uma transposição fílmica 
possui uma matriz diferente daquela utilizada em uma obra literária, por 
exemplo. 
Conforme Barnwell (2013, p. 44), “[...] quando um romance é adaptado 
para as telas, várias mudanças serão necessárias; isto ocorre porque alguns 
aspectos do romance não podem ser alcançados na tela”. Assim, quando te-
mos a literatura adaptada para o cinema, obtemos uma nova obra, e outros 
fatores são levados em consideração, pois enquanto o texto literário utiliza a 
linguagem verbal o cinema emprega a visual. 
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Desse modo, o objetivo deste trabalho é apontar metodologias para fins 
de análise em Literatura e Cinema. Assim, no decorrer da pesquisa elenca-
mos alguns caminhos metodológicos que nos proporcionam esse percurso, 
como: tradução e adaptação intersemiótica, por Plaza (1959-2000) e Stam 
(2000); análise comparativa, por Carvalhal (1986). E, por fim, demonstra-
mos uma análise comparativa entre Literatura e Cinema por meio do li-
vro Êxodo da Bíblia Sagrada (1966), tradução João Ferreira de Almeida e a 
sua adaptação fílmica “Êxodo: Deuses e Reis”, com direção de Ridley Scott 
(2014). Tal análise se pautará nos seguintes aspectos: (1) os elementos do li-
vro que permaneceram no filme; (2) os que foram modificados; e (3) os que 
foram acrescidos à adaptação.
1.2 Tradução e adaptação fílmica: algumas considerações
Adaptar é trair por amor. 
Walter George Durst
Adaptar deriva do latim adaptare e, segundo o dicionário Aurélio, consis-
te em “[...] tornar apto; fazer com que uma coisa se combine conveniente-
mente com outra; apropriar.” (FERREIRA, 2010, p. 31). O termo possui ain-
da outros conceitos, tais como acomodar e transpor. No sentido de transpor, 
podemos relacionar à literatura com a finalidade de transposição do texto 
literário para outros modos de produção, como cinema e televisão.
Jakobson foi o pioneiro nos estudos de tradução e adaptação fílmica ao 
propor três classificações de tradução: intralingual, “[...] utiliza outra pala-
vra, mais ou menos sinônima, ou recorre a um circunlóquio”; interlingual 
“[...] o tradutor recodifica e transmite uma mensagem recebida de outra fon-
te, assim, a tradução envolve duas mensagens equivalentes em dois códigos 
diferentes” e intersemiótica que “[...] consiste na interpretação dos signos 
verbais por meio de sistemas de signos não verbais”, como por exemplo “[...] 
da arte verbal para a música, a dança, o cinema ou a pintura.” (JAKOBSON, 
1970, p. 63-72). 
Apesar do pioneirismo de Jakobson, vale destacar que este não construiu 
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um padrão estritamente voltado para os estudos de tradução e adaptação; 
desse modo, para efeito dessa pesquisa, no que diz respeito à tradução inter-
semiótica, utilizaremos os pressupostos de Plaza, que compreende que 
[...] numa tradução intersemiótica, os signos empregados têm 
tendência a formar novos objetos imediatos, novos sentidos, e 
novas estruturas, que pela sua própria característica diferen-
cial tendem a se desvincular do original. (PLAZA, 2003, p. 30).
Stam (2000) afirma que “[...] a ideia de adaptação como tradução suge-
re um empenho baseado em princípios de transposição semiótica, com as 
inevitáveis perdas e ganhos, típicos de qualquer tradução.” (STAM, 2000, p. 
62, tradução nossa1). Sendo assim, é natural que em uma adaptação encon-
tremos elementos adicionados à obra já que se trata de uma recriação. De 
acordo com Hutcheon:
 
A adaptação é uma forma de transcodificação de um sistema 
de comunicação para outro. Com as línguas, nós nos move-
mos, por exemplo, do inglês para o português, e conforme vá-
rios teóricos nos ensinaram, a tradução inevitavelmente altera 
não apenas o sentido literal, mas também certas nuances, asso-
ciações e o próprio significado cultural do material traduzido. 
Com as adaptações, as complicações aumentam ainda mais, 
por as mudanças geralmente ocorre entre mídias, gêneros e, 
muitas vezes, idiomas e, portanto, culturas. (HUTCHEON 
2013, p. 9).
Conforme Plaza (2003, p. 32), os símbolos utilizados em uma tradução 
tendem a produzir novos sentidos, uma obra adaptada sempre será um novo 
objeto por se desvincular do original: “[...] assim, a tradução como signo en-
1 “The trope of adaptation as translation suggests a principled effort of semiotic 
transposition, with the inevitable losses and gains typical of any translation.” (STAM, 
2000, p. 62).
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raizado no icônico tem o princípio de similaridade a única responsabilidade 
de confecção com seu original”. Por falar em similaridade em adaptações, 
há uma polêmica que gira em torno da tão falada fidelidade ao texto “origi-
nal”, ainda segundo o autor, “[...] é mais uma questão de ideologia, porque 
o signo não pode ser ‘fiel’ ou ‘infiel’ ao objeto, pois como substituto só pode 
apontar para ele.” (PLAZA, 2003, p. 32). 
Literatura e Cinema, por serem mídias diferentes, consequentemente, 
trabalharão de modos distintos. Dessa forma, toda essa questão de fidelida-
de não cabe quando colocamos em pauta, pois, como já foi dito, no momen-
to em que uma obra passa pelo processo de adaptação, torna-se um objeto 
novo, ou seja, uma nova criação e consequentemente não tem obrigatorie-
dade de ser fiel ao texto que o inspirou, mas, sim similar.
1.3 Método comparativo 
Quando pensamos em método comparativo, imediatamente remetemos 
à ideia de comparar duas coisas, estabelecendo possíveis convergências e/ou 
divergências. Porém, ao associarmos a questão da comparação aos estudos 
literários, notamos que esse significado inicial ganha maior profundidade.
“Em síntese, a comparação, mesmo nos estudos comparados, é um meio, 
não um fim.” (CARVALHAL, 1986, p. 7). Ainda de acordo com a autora, 
quando entramos em contato com trabalhos classificados como “estudos li-
terários comparados”, por essa denominação, é perceptível a rotulação de in-
vestigações variadas, com metodologias diferentes e, pela diversificação dos 
objetos de análise, dão um vasto campo de atuação à literatura comparada. 
Quando utilizamos o método comparativo para trabalhar determinada 
obra, desvelando pontos que se cruzam ou que se afastam, estamos fazen-
do um estudo comparativo. É importante ressaltar que, para proceder aos 
estudos comparativos, não obrigatoriamente devemos avaliar os elementos 
que convergem, mas também podemos elucidar aqueles que divergem. Os 
estudos comparatistas entre literatura e cinema costumam apresentar a obra 
literária como ponto de partida, porém o contrário também ocorre, como 
no de caso de filmes que foram adaptados para a literatura. 
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1.4 Caminhos metodológicos para estudos comparativos entre Literatura 
e Cinema
A partir de agora demonstraremos alguns caminhos metodológicos (pas-
sos) para proceder a análise comparativa entre Literatura e Cinema. Para 
isso, faremos a análise comparativa do livro de Êxodo, da Bíblia Sagrada, e 
o filme Êxodo: Deuses e Reis. É relevante salientar que nos pautaremos nos 
pressupostos da intersemiótica, defendidos por Plaza. A seguir, para melhor 
entendimento do leitor, apresentamos o resumo das produções, precedido 
dos passos que podem ser utilizados a fim de se fazer a análise comparativa 
entre Literatura e Cinema. Trata-se de uma exemplificação de abordagem 
metodológica. 
1.4.1 Resumo: Êxodo 
O livro de Êxodo, da Bíblia Sagrada (1966), conta a história da escravidão 
e posterior libertação do povo hebreu do jugo egípcio. O livro aborda ainda 
o nascimento e trajetória de Moisés, o escolhido por Deus para libertar os 
hebreus da escravidão que há mais de 400 anos estavam subjugados. A his-
tória da escravização do povo hebreu tem raízes profundas no final do livro 
de Gêneses (BÍBLIA..., 1966) quando José torna-se governador do Egito

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