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METODOLOGIA DA PESQUISA EM ESTUDOS LITERÁRIOS

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essa complexidade, poderá tanto 
escolher problemáticas já exploradas por outros pesquisadores, objetivando 
ampliar a sua compreensão quanto poderá sugerir novas questões a serem 
investigadas. 
A pesquisa voltada para o ensino de literatura deve ser pautada no conhe-
cimento teórico e no conhecimento empírico. É desejável que o pesquisador 
tenha uma história de leitura, seja um leitor e mantenha um diálogo com 
os pressupostos teóricos que orientam sobre questões intrínsecas do texto 
literário, como explica Compagnon (2014, p. 21): “[...] a teoria organiza a 
prática” pois é um “[...] discurso sobre as obras literárias que acentua a ex-
periência da leitura, descreve, interpreta, avalia o sentido e o efeito que as 
obras exercem sobre os (bons) leitores”. 
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O professor-pesquisador poderá ter como objeto de questionamentos 
para sua pesquisa, qualquer um dos elementos protagonistas do letramento 
literário na escola (COSSON, 2014): alunos-leitores, o autor (texto literário), 
o professor e suas práticas, ou também os elementos que contribuem para o 
letramento de uma forma direta ou indireta como o espaço de leitura na es-
cola (biblioteca), disponibilidade de livros, horários ou os documentos ofi-
ciais como por exemplo, o projeto político pedagógico da escola e diretrizes 
curriculares que orientam o sistema educacional pois eles “[...] interferem 
na dinâmica escolar e se confrontam com todo o movimento social do inte-
rior da instituição.” (FAZENDA, 2012, p. 44). 
Assim, podemos dizer que uma pesquisa cujo corpus são as ações na sala 
de aula, é uma via de mão dupla onde teoria e prática devem ser aliadas. Por 
meio dela, professores podem agregar uma nova significação às suas práticas e 
fazer das atividades desempenhadas na sala de aula o seu campo de pesquisa, 
questionar práticas, por à prova teorias e orientações curriculares e encontrar 
ou apontar caminhos para a solução dos problemas. 
17.1 Escolher o método
Para elaboração de uma pesquisa, o primeiro passo é identificar uma si-
tuação inquietante ou intrigante para a qual o pesquisador gostaria de trazer 
soluções ou ter uma melhor compreensão. Essa situação é o problema, que 
merece ser alvo de sua pesquisa. Laville e Dionne (1999) destacam como 
procedimentos iniciais para elaboração de uma pesquisa, a centralização em 
“problemas específicos”: a escolha e delimitação do tema – escolher sob qual 
ângulo ele será abordado – e a escolha do método de pesquisa que é o cami-
nho a ser percorrido pelo pesquisador. Ele contribui para uma melhor orga-
nização de ações estabelecendo critérios, metas e etapas a serem atingidas. 
Apesar de sua estrutura previamente definida, os métodos de pesquisa 
não devem ser tomados como algo rígido e inflexível pois é uma construção 
de conhecimentos e como tal, se dá aos poucos, sendo delineado à medida 
que a pesquisa vai sendo construída. Existem vários tipos de métodos que 
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oferecem diferentes perspectivas, mas todos eles têm um roteiro de ação 
mais ou menos comum: a) escolha e delimitação do tema; b) levantamento 
bibliográfico preliminar; c) determinação dos sujeitos; d) coleta de dados; e) 
análise e interpretação de dados; f) redação do relatório ou proposta de uma 
possível solução para a problemática escolhida (GIL, 2017). 
Alguns métodos podem ser mais adequados que outros para questões 
relativas ao campo educacional. Dentre eles, indicamos a pesquisa-ação, a 
pesquisa etnográfica, a pesquisa documental, estudo de caso e pesquisa fe-
nomenológica. O uso de um ou de outro, vai depender do tipo de questio-
namento que se deseja fazer. 
Pesquisadores ligados às questões de ensino têm preferido a pesquisa-a-
ção que “[...] tem características situacionais, já que procura diagnosticar 
um problema específico numa situação específica, com vistas a alcançar al-
gum resultado prático.” (GIL, 2017, p. 42). Um exemplo de pesquisa-ação 
é aplicar uma mesma sequência didática de leitura em turmas diferentes 
(pode ser da mesma escola ou não), registrar em que condições se deu a pes-
quisa, que estratégias metodológicas foram usadas, como se deu a recepção 
dos alunos a essas atividades e analisar os dados coletados à luz dos teóricos. 
Nesse caso, o pesquisador estará presente aos eventos investigados e poderá 
ou não fazer intervenções. 
O estudo de caso também pode ser oportuno ao professor-pesquisador 
que desejar “[...] lançar luz empírica sobre conceitos ou princípios teóricos.” 
(YIN, 2015, p. 44). É um método que parte das perguntas “como” e “por que” 
para buscar respostas que contribuam para uma melhor compreensão dos 
fenômenos como afirma Yin (2015, p. 17):
O estudo de caso é uma investigação empírica que investiga 
um fenômeno contemporâneo (o 'caso') em profundidade e 
em seu contexto de mundo real, especialmente quando os li-
mites entre o fenômeno e o contexto puderem ser claramente 
evidentes.
O evento a ser investigado em um estudo de caso deve ser contemporâ-
neo, isso não significa que deve estar presente, mas que ainda seja possível 
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encontrar fontes de evidências para obter informações suficientes a respeito 
do evento estudado. Assim, um professor-pesquisador pode tomar como 
objeto de estudo uma determinada turma de alunos que obteve alto índice 
de aprovação na prova de literatura no processo seletivo para a universidade. 
O pesquisador irá então, por meio de entrevistas, depoimentos, análise de 
registros didáticos, fazer um levantamento das fontes de evidências (YIN, 
2015) que contribuíram para esse fenômeno. 
Segundo Gil (2017, p. 137), 
[...] em educação pode ser interessante investigar o cotidiano 
dos alunos, o relacionamento professor-aluno, as aspirações 
acadêmicas, o método do fracasso e da punição e a satisfação 
dos professores com a profissão. 
Por isso a pesquisa fenomenológica pode ser usada pelo ao professor
-pesquisador pois sua proposta é buscar respostas para problemas que se 
referem “[...] à experiência vivida no dia a dia das pessoas.” (GIL, 2017, p. 
136). Um exemplo, é investigar o relacionamento professor-alunos durante 
as aulas, ou o porquê da preferência dos alunos a determinado autor ou gê-
nero literário. 
17.2 Conclusão
O professor de língua portuguesa não deve ser indiferente aos questiona-
mentos, às complexidades próprias da mediação de leituras e pode, a partir 
de suas experiências ou das experiências de outros professores, elaborar pes-
quisas que abordem esses problemas, tragam reflexões, comprovem ou re-
futem paradigmas e que possam resultar num reordenamento ou “rearranjo 
da teoria” (LAVILLE; DIONNE, 1999, p. 40) contribuindo dessa forma, para 
a consolidação da literatura.
Para atender às complexas demandas de educação literária, a existência 
de professores-pesquisadores é de fundamental importância pois são eles os 
mais indicados para discutir problemas relativos à presença da literatura na 
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sala de aula e estabelecer novos diálogos entre teoria e prática. Uma pesquisa 
em ensino da literatura faz do dia a dia do professor uma atividade significa-
tiva e pode fazer das suas insatisfações, angústias e interrogações objeto de 
pesquisa. Pode transformar sonhos e ideais em propostas de melhorias, de 
modificações e contribuir para o avanço da educação literária em sua escola, 
em seu estado, em seu país. 
Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: proposta preliminar: 
segunda versão revista. Brasília: MEC, 2016. Disponível em: <http://basenacionalcomum.
mec.gov.br/documentos/bncc-2versao.revista.pdf>. Acesso em: 23 mar. 2017.
______. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: terceiro 
e quarto ciclos do ensino fundamental: língua portuguesa. Brasília: MEC/SEF, 2002.
COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: Literatura e senso comum. Tradução 
Cleonice Paes B. Mourão

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