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Aluno: Leonardo Guerino Análise do livro: Teorias do jornalismo – Porque as notícias são como são – Volume I – de Nelson Traquina O que é notícia? O termo “notícia” é uma palavra constantemente associada ao trabalho jornalístico. A união entre este vocábulo e esta carreira está de modo tão fortemente marcado que os ditos “profissionais da notícia”, por vezes, não chegam a raciocinar sobre essa expressão que a eles é relacionada. Mesmo o jornalista sendo o profissional conhecido pela sociedade que produz essas “notícias”, apresenta, constantemente, dificuldades em definir “o que elas são”, “de onde elas vieram”, “como se formaram” e “porque se tornaram notícia”. É compreensível tal situação, tendo em vista que a atividade de produzir notícias é algo mecânico para quem atua nessa carreira. E, por diversos motivos, apesar de eventualmente não conseguir definir “o que é notícia”, no momento de elaborá-las, de algum modo, o jornalista reconhece o que é ou não uma notícia. Contudo, esse texto tratará de definir não, simplesmente, o que é uma notícia, mas buscar compreender porque as notícias são da maneira que são. Essa conceituação será baseada na obra homônima de Nelson Traquina: Teorias do jornalismo – porque as notícias são como são – volume I. O que é notícia para os jornalistas? “Relato de fatos e acontecimentos atuais de interesse público, veiculado em jornal, televisão, rádio, revista”. Essa é uma das definições do vocabulário “notícia”, apresentado pelo dicionário Michaelis. Tal caracterização chama atenção pelo trecho “Relato de fatos”. “Relatar fatos” é muito conhecido por ser o modus operandi do jornalista, ou seja, narrar a realidade. Esta é também uma das considerações que Traquina faz em seu livro, quando afirma que, se perguntado a classe jornalística sobre o que é o jornalismo, seus integrantes prontamente dirão que: “o jornalismo é a realidade”. Realidade. Essa é uma boa premissa a se considerar. Quando procurado um texto jornalístico, o acordo existente entre o leitor da obra e o escritor é de que este primeiro ator consumirá um produto verídico, algo não ficcional. A função do jornalista, então, é a de transformar fatos do mundo real em eventos noticiosos, para que o público, ao consumir esse produto, se informe sobre a realidade. Entretanto, essa atividade, que é essencial para o desenvolvimento de uma sociedade democrática, é diretamente influenciada por diversos fatores durante essa transformação da realidade em notícia. E esses eventos, justamente por intervirem no modo de produção do jornalista, fazem com que o conceito de realidade seja passível de ser analisado mais friamente. Traquina (2005, p. 31) afirma “[…] o jornalismo é uma profissão de enorme responsabilidade social, exigente, difícil e, em última análise, perigosa, em que os jornalistas enfrentam decisões difíceis sob intensas pressões.”. Complementando: O trabalho jornalístico é condicionado pela pressão das horas de fechamento, pelas práticas levadas a cabo para responder às exigências da tirania do fator tempo, pelas hierarquias superiores da própria empresa, e, às vezes o (s) próprio (s) dono (s), pelos imperativos do jornalismo como um negócio, pela brutal competitividade, pelas ações de diversos agentes sociais que fazem a “promoção” dos seus acontecimentos para figurar nas primeiras páginas dos jornais ou na notícia de abertura dos telejornais da noite. (TRAQUINA, 2005, p.25) Sendo assim, graças a todas essas interferências, qual realidade é realmente passada aos leitores de um texto jornalístico? Para se compreender melhor quais são e como funcionam esses elementos da realidade que influenciam o jornalista a compor as notícias, é primeiro necessário que se entenda como a profissão desenvolveu seus critérios éticos e produtivos. Só assim se verá como essas dinâmicas impactaram historicamente e continuam atuando no processo de elaboração das notícias que permanece até os dias atuais. O desenvolver da profissão Mesmo que os primeiros jornais impressos datem de antes do século XVII, o jornalismo, conforme conhecemos hoje em dia, só foi se desenvolver a partir do final da Revolução Francesa (1789 – 1799). Nessa época, com o fim da monarquia absolutista do país, o movimento democrático começou a cominar na sociedade. Os folhetins informativos da época, panfletos que traziam algumas notícias do dia a dia, estavam impregnados pela propaganda e partidarismo dos influenciadores políticos da época. Esses produtos apresentavam ideias de como a sociedade e o poder deveria ser, baseado nos conceitos desses influenciadores. Conforme fora ocorrendo o desenvolvimento da teoria democrática, houve a tripartição dos poderes (legislativo, executivo e judiciário). Essa divisão no novo mundo colocou, então, o jornalismo como a figura que vigiaria essas instâncias, ficando conhecido como o “quarto poder”. Conforme escreve Traquina (2005, p. 50): Por um lado, a teoria democrática apontava para que o jornalismo cumprisse um duplo papel: 1) om liberdade “negativa”, vigiar o poder político e proteger os cidadãos dos eventuais abusos dos governantes; 2) com liberdade “positiva”, fornecer aos cidadãos as informações necessárias para o desenvolvimento das suas responsabilidades cívicas, tornando central o conceito de serviço público como parte da identidade do jornalista. Contudo, via-se que o jornalismo desse período estava impregnado de questões políticas partidárias; muitas vezes, inclusive, os periódicos da época eram financiados pelos governos. Tal fato impedia que o jornalismo exercesse seu papel de maneira adequada. Ocorre, assim, uma transformação no modelo de negócio jornalístico. Ele não mais seria financiado pelo Estado, mas sim se transformaria em uma empresa propriamente dita, buscando lucro e estabilidade administrativa. Por outro lado, a comercialização da imprensa torna o jornalismo mais independente dos laços políticos e transforma a atividade também numa indústria onde um novo produto – as notícias como informação – é vendido com o objetivo de conseguir lucros. A nova ideologia pregava que os jornais deveriam servir aos leitores e não os políticos, pregava que traziam informações úteis e interessantes ao cidadão, em vez de argumentos tendenciosos em nome de interesses partidários, pregava fatos e não opiniões (TRAQUINA, 2005, p. 50). Surgia, com isso, uma nova forma de se fazer jornalismo, onde a informação, por si só, seria privilegiada. Tal momento da imprensa ficou conhecido como penny press. Na penny press os jornais apresentariam uma maior diversidade nas suas informações e diferentes pontos de vista sobre determinados assuntos. Não por acaso, afinal, agora que dependiam exclusivamente de suas próprias vendas para obterem lucro, era necessário que cada vez mais leitores consumissem esses produtos midiáticos. Com essa nova ideia de que cabia aos jornais encontrarem as notícias, foram surgindo novas técnicas na profissão do jornalista, como o emprego de entrevistas, correspondentes internacionais, além da criação do conhecido lead jornalístico. O lead é um marco importante da nova mídia, pois é com ele que o jornalista passa a narrar uma história de modo diferente. Agora, é o profissional da mídia que controla o modo como a informação será contada, o que será elencado como relevante e o que deverá se apresentado ou não na notícia. A consolidação das empresas midiáticas, por meio de seu sucesso lucrativo e seu reconhecimento pela sociedade, fizeram com que mais e mais profissionais fossem atraídos paraesse ramo. Isso fez com que houvesse a necessidade da criação de normas e códigos técnicos que os novos jornalistas deveriam seguir. Isso asseguraria a esses novos trabalhadores o título de entidade do saber responsável por redigir as notícias de maneira precisa e correta. De todas essas consequências ocorridas historicamente é que o jornalismo de hoje em dia se formou. Nota-se que essa digressão histórica não necessariamente apresenta a resposta do porque as notícias são como são, indagação principal desse texto. Contudo, faz compreender como os fatores que influenciam na produção dessas notícias se formaram e como o jornalista acabou se tornando refém dessas condições. Teorias da notícia Considerando o condicionamento da profissão do jornalista já apontado por Traquina (p. 25) e o histórico da profissão, criaram-se teorias que possivelmente explicassem a razão das notícias atuais serem formuladas da maneira que o são. No livro do autor são elencadas sete hipóteses que explicam esse modus operandi da mídia, capaz de impactar diretamente nas sociedades contemporâneas. Tais modelos não excluem, necessariamente, um ao outro; mas, por vezes, são capazes de se complementarem e consolidarem essas suposições. Teoria do espelho: Essa hipótese consiste em afirmar que o trabalho jornalístico é uma transcrição exata da realidade comum, sem refinamentos ou edições. A teoria explica que o jornalista é um comunicar sem interesse com a notícia, e a produz apenas para informar seu leitor sobre o mundo real, sem emitir opiniões pessoais. Teoria da ação pessoal ou “gatekeeper”: a tradução do termo “gatekeeper” para o português é: porteiro. E há razão nessa associação da palavra. Segundo a teoria, o fluxo das notícias passa por selecionadores para que ela seja produzida. O jornalista, então, é quem fará a seleção do que é ou não relevante à notícia, através de suas impressões pessoais subjetivas. Isso faz com que as notícias sejam um produto da intensão pessoal que esses keepers consideram. Tal método ignora outras instâncias selecionadoras além do jornalista, como a própria instituição a qual esse profissional trabalha. Teoria organizacional: Diferentemente da teoria do gatekeeper, essa hipótese considera que o trabalho jornalístico de produção noticiosa é mais influenciado pelas diretrizes institucionais da empresa em que este trabalha do que suas próprias convicções pessoais. O que motiva essa atuação, segundo os teóricos que apresentaram esse modelo, é o receio ao constrangimento do profissional em meio a sua instituição. Seis elementos são considerados como peças-chave para que essa hipótese seja validada: Receio às punições de instâncias superiores; O sentimento de obrigação com a entidade ou com os profissionais superiores que cercam o jornalista; O desejo em alcançar altos cargos corporativos da empresa; A não interferência dos sindicatos em assuntos internos das empresas; A boa relação dos ambientes redacionais e a confortabilidade do jornalista com sua profissão; As notícias como valor máximo da profissão e não as aspirações pessoais do jornalista; Juntos, esses elementos conspiram para que o jornalista se conforme com o modo de operação que a empresa em que atua funciona. Teoria da ação política: Nesse modelo, a mídia noticiosa é apresentada como uma entidade instrumental, servindo necessariamente para interesses políticos próprios. A visão política de esquerda entende que a mídia tem a única função de manter o sistema capitalista atuante. Na visão política de direita, a mídia é um instrumento que coloca em causa o capitalismo. Não importando o posicionamento político, nessa teoria é defendida que as notícias são distorções da realidade que servem a interesses políticos de alguns agentes, projetando, por meio das notícias, sua visão pessoal da realidade. Porém, é necessário ponderar que em cada uma dessas visões políticas o jornalista assume um papel diferente. Para a direita, o jornalista tem função ativa no processo produtivo noticioso. São capazes de empregar suas visões na produção além de terem valores políticos destoantes ao resto da população; Já na visão da esquerda, o jornalista é mero coadjuvante do processo noticioso. Alguém que apenas executa o serviço bruto de redação, refém das ideologias da empresa em que trabalha e dos grandes capitalistas que anunciam no veículo ou inflem na sociedade. Teoria construcionista: Esse modelo é diametralmente oposto à teoria do espelho. Isso porque a hipótese construcionista considera que diversos fatores da realidade e do jornalista são subjetivos e isso impacta diretamente na forma como a notícia será construída. Elementos como o repertório do jornalista, sua visão sobre determinado assunto, a linguagem que esse empregará, dentre tantos outros fatores, fazem com que não seja possível que uma notícia seja a transcrição exata do mundo real. Um fato, então, pode ser compreendido de diferentes maneiras pelas pessoas que o verificam. E essa visão distinta, impactada pelas concepções pessoas, destoa de indivíduo para indivíduo, significando diferentemente para ambos. Teoria estruturalista: Nessa hipótese, os meios de comunicação, ainda que possuidores de certa autonomia por serem empresas independentes, constroem seus produtos com o objetivo de ser uma espécie de aparelho de controle do Estado. Segundo os teóricos dessa visão midiática, os meios de comunicação estariam sujeitos a serem influenciados pelos seguintes elementos: • As decisões burocráticas que a rotina jornalística impõe aos seus profissionais; • Os elementos que fazem parte dos “valores-notícia” da organização jornalística, ou seja, os critérios pré-definidos de quais estórias serão divulgadas pela imprensa; • A contextualização e o nível de conhecimento que o público consumidor de notícias compreende de determinado fato antes dele ser divulgado; Em outras palavras, esses itens capazes de influenciar a produção jornalística, leva em conta a natureza consensual da sociedade que o consome. Essa atitude faz com que os valores de determinada localidade sejam mantidos, justamente por serem característicos dessa população. Ocorre, assim, uma hegemonia ideológica. Teoria interacionista: Considera que o jornalista vive, constantemente, sobre o imperativo temporal. Ou seja, sua rotina é extremamente afetada pelo tempo de produção. Tal situação faz com que o jornalista tenha de tomar uma série de atitudes que impactam no modo como este produz a notícia. Segundo os teóricos dessa hipótese, as empresas jornalísticas, para conseguirem cumprir sua função mercadológica, tomam medidas para conseguirem controlar o tempo e o espaço, a fim de terem em mãos as principais informações para montarem seu leque de notícias. • Com relação a ordenação do espaço, as empresas de jornalismo dividem os territórios, facilitando, assim, a captação das informações, elegendo relevância de determinado setor sobre o outro.; • Quanto a organização temporal, as empresas jornalísticas, tal qual qualquer outra empresa, possui seu próprio ritmo de produção. Essa qualidade faz com que o tempo influencie seu modo de produzir seus materiais. Sendo assim, o período que um evento ocorre impacta diretamente no modo de uma notícia ser ou não produzida; ou ainda, se produzida, na maneira como ela será apresentada. Conclusão Por meio do estudo dos argumentos apresentados na obra de Traquina, nota-se que a resposta para a questão “por que as notícias são como são?” é a de que: as notícias são influenciadas por uma gama de eventosdo mundo real, sejam questões objetivas ou subjetivas. Todas essas impactam no modo como as notícias são apresentadas. O jornalista, em meio a esse processo, é apenas um dos agentes influenciadores capazes de impactar no elemento noticioso. Para a resposta da pergunta “o que é notícia?” pode-se concluir que: notícia, em jornalismo, é a apresentação de uma informação jornalística, baseada no mundo real, que é apresentado sobre a influência de diversos elementos da realidade. Esses itens fazem com que a notícia possa ser modificada conforme os fatores que tocaram, chegando ao público apenas uma fração da realidade do evento acontecido.