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CEDERJ 2016 
GEOGRAFIA POLÍTICA 
Prof. Ivaldo Lima 
Aula 2 
A geografia política clássica e seus fundamentos 
 
 
O momento histórico da formação da geografia política 
 
Como já vimos, embora o projeto político da geografia remonte à Antiguidade, a sistematização 
de um conhecimento científico político-geográfico somente veio a se delinear no final do século 
XIX. Foi com a obra do prussiano Friedrich Ratzel (1844-1904) que a geografia experimenta 
uma renovação em seu conteúdo e, sobretudo, em sua abordagem. Nessa obra, destacam-se os 
livros “Antropogeografia”, publicado em 1882 e “Geografia Política”, publicado em 1997, cuja 
reedição surgiu em 1902 acompanhada do subtítulo “Uma geografia dos Estados, do comércio e 
da guerra”. No primeiro, Ratzel divide o objeto de estudo antropogeográfico em três partes 
principais – a população, o território e os recursos – permitindo, assim, uma sistematização que 
modernizasse a geografia científica, além de posicionar essa mesma disciplina como uma das 
ciências sociais. No segundo livro, a leitura ratzeliana da geografia é bem mais específica, 
enfatizando a relação formada entre espaço e poder que conduziria, por seu turno, à 
sistematização moderna da geografia política, refundando seus conceitos e expandindo seus 
temas. 
 
 
 
Mas, afinal, quais eram as características fundamentais dessa geografia política refundada por 
Ratzel? Esse questionamento nos servirá como fio condutor desta aula, nos possibilitando 
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entender como o pensamento desse autor estava plenamente contextualizado no ambiente 
político, intelectual, econômico, cultural e filosófico daquele momento por ele vivido. E, assim, 
chegaremos ao entendimento de como, em seu nascedouro, a geografia política constituiu-se 
como uma das matrizes do pensamento de Ratzel, bem como de outros cientistas sociais 
equitemporâneos. Aqui, utilizamos o termo matriz, por dois motivos. O primeiro motivo deriva 
do fato deste pensamento político-geográfico ter servido de base para desdobramentos analíticos 
na trajetória científica desse autor, ou seja, as análises empreendidas por Ratzel frequentemente 
se referiam à espacialidade do poder. O segundo motivo deriva do fato desta geografia política 
ter influenciado muitos cientistas, contemporâneos e sucedâneos de Ratzel, como foi o caso do 
sueco Rudolf Kjéllen – jurista germanófilo que cunhou o termo geopolítica, em 1899. 
 
O momento histórico vivido por Ratzel é decisivo para a caracterização de sua produção 
científica. Isso porque, o autor vivencia o momento político de unificação que faz surgir um 
novo Estado: a Alemanha. Portanto, trata-se de um momento de afirmação de uma 
nacionalidade institucionalizada há pouco, embora o sentimento nacional alemão derive de uma 
longa maturação cultural da germanidade, ou seja, como um produto legítimo da cultura 
germânica. A própria ideia de nação como uma unidade de cultura, alentada na Alemanha 
recém-unificada, expressa bem essa derivação. Nesse contexto, a afirmação da nação alemã se 
dá, também, por meio da filosofia romântica a qual se contraporá à filosofia iluminista de cunho 
francês. Esse romantismo (também conhecido como idealismo alemão) constitui uma corrente 
filosófica em que o passado, as tradições, enfim, o caldo de cultura específico de um povo é 
valorizado para definir a unidade, a coesão e a ideologia desse próprio povo. Deduz-se que a 
construção do caráter nacional do povo alemão é o que estava em jogo. Daí recordarmos a 
influência de filósofos representantes desse idealismo alemão sobre o pensamento de Ratzel – 
mesmo que não apenas esses, pois ele sofre clara influência de Hegel, como veremos adiante – 
tais como Herder (com seu livro “Outra filosofia da história”) e Fichte (com seu livro 
“Discursos à nação alemã”). Assim, a valorização da cultura germânica assume uma dimensão 
territorial nítida, seja pela definição do território alemão como seu epicentro, seu foco 
irradiador, seja pela ampliação de seus horizontes para além da Alemanha (envolvendo porções 
da Áustria, da Suíça e da Polônia). Um decisivo pangermanismo se insinua no mundo 
geopolítico daquele momento. 
Wanderley Messias da Costa (1990:30) afirma sobre Ratzel, o intelectual engajado daquele 
momento: 
Ao mesmo tempo, como intelectual preocupado com os destinos da Alemanha, [Ratzel] 
participava de uma série de atividades acadêmicas voltadas para a questão nacional 
(como a Liga Pangermanista). Após o retorno de sua viagem aos EUA, que muito o 
impressionou e cuja influência será notória em seus estudos (em 1880 escreveria Os 
Estados Unidos da América do Norte), Ratzel alterna estudos sistemáticos de geografia 
geral (como a sua famosa Antropogeografia, de 1882) com vários pequenos estudos 
sobre problemas geográfico-políticos, culminando com a sua obra maior (Geografia 
Política, de 1897). Preocupava-o essencialmente o que avaliara como a “unificação 
malconcluída” da Alemanha, desde o processo que se iniciara sob o comando de 
Bismarck. De fato, malgrado a centralização via constituição de um Estado forte, mas 
que não resultara de um processo revolucionário clássico, tal qual ocorrera com a 
vizinha França, a Alemanha apresentava-se, até o início do século XX, extremamente 
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fragmentada, tanto socialmente como do ponto de vista de sua organização político-
territorial. 
A esse ambiente político, cultural e filosófico vivido por Ratzel, articula-se o ambiente 
econômico que exigia do Estado alemão uma corrida colonialista atrás de recursos existentes 
para além do seu próprio território, ou seja, em terras estrangeiras. É essa exigência que faz com 
que a Alemanha se lance na construção de territórios coloniais próprios, numa situação de 
desvantagem notória em relação a outras potências europeias já maduras, como França, Holanda 
e Inglaterra, por exemplo, que detinham, há tempos, amplos impérios coloniais mundo afora. A 
afirmação econômica da Alemanha estava condicionada, desse modo, pela exploração produtiva 
de áreas localizadas fora de seu território. O expansionismo territorial parecia inevitável. 
Segundo o raciocínio geográfico de Ratzel, um Estado cresce e se desenvolve em consonância 
com os recursos de que potencialmente necessita e que efetivamente dispõe para a 
sobrevivência de sua população, sendo o território a fonte provedora de tais recursos. Logo, à 
Alemanha se impunha o imperativo de um espaço suficientemente vasto para a provisão desses 
recursos, isto é, um espaço vital que garantisse a sobrevivência da população. Surge, a partir 
desse raciocínio ratzeliano, o conceito de lebensraum ou espaço vital, definido como uma 
relação de proporção entre a manutenção de uma dada população e os recursos demandados 
para tanto. Nota-se que esse conceito expressa uma conotação geopolítica, que, aliás, será 
amplamente explorada por R. Kjéllen e por K. Haushofer, geógrafo alemão que estudaremos em 
aula vindoura. 
 
Geografia política é equivalente de geografia do Estado? 
 
Resta-nos saber que concepção de Estado sustenta o raciocínio político-geográfico de Ratzel. 
Para tanto, devemos, de antemão, conhecer o ambiente intelectual vivido por esse autor. Nesse 
sentido, destaca-se na segunda metade do século XIX, a obra magistral de Charles Darwin, “A 
origem das espécies”, publicada em 1859. Essa obra terá impacto incomensurável no 
pensamento científico daquele momento histórico em diante. Assim, a geografia política de 
Ratzel não escapará da influência impactante da obra darwiniana. A ideia de evolução, luta pela 
sobrevivência,lei dos mais fortes e, sobretudo, de organismo vivo polarizam as produções 
científicas na época mencionada, dentro e fora das ciências biológicas. A evidência mais 
flagrante dessa polarização é a tendência de se compararem fatos e processos da realidade social 
a um organismo vivo. Tal tendência, que recebe o nome de organicismo, é verificada nas 
comparações da sociedade, do Estado, do próprio planeta Terra etc. com um organismo vivo, 
por meio da caracterização e análise da anatomia e fisiologia desses elementos, ou seja, de suas 
partes constitutivas e de seu funcionamento integrado. Naquele momento, o organismo vivo 
assume um protagonismo ímpar como metáfora que pretende explicar a natureza dos fatos e dos 
processos sociais. 
Para Ratzel, o Estado é um organismo vivo sujeito, portanto, às circunstâncias objetivas que 
regulam o nascimento, o desenvolvimento, o envelhecimento e a morte potencial desse 
organismo. Trata-se da concepção de um Estado orgânico, no sentido de que ele é composto por 
partes – órgãos – que integram de forma harmoniosa um todo – o organismo. O maior triunfo de 
um Estado será garantido por seu crescimento e o seu maior fracasso pela perda de um proveito 
territorial, ou seja, nessa perspectiva organicista, o Estado que cresce territorialmente é saudável 
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e prospera, já aquele que perde parte de eu território é doente pode vir a morrer. Esse Estado 
deve, por conseguinte, ser cuidado para não sucumbir. No esteio dessa premissa do cuidado com 
o organismo estatal é que se pode entender a ideia de Ratzel sobre o crescimento dos Estados e 
seus condicionantes. Para tanto, Ratzel elaborou leis do crescimento espacial dos Estados as 
quais funcionam, antes de tudo, como um conjunto de proposições observadas por quaisquer 
Estados (e estadistas...) que almejassem triunfo em meio à competição com outros Estados. 
Vejamo-las. 
1- O espaço do Estado cresce com a expansão da população que compartilha a mesma 
cultura. 
2- O crescimento territorial acompanha outros aspectos do desenvolvimento. 
3- Um Estado cresce absorvendo unidades menores. 
4- A fronteira é a periferia orgânica do Estado que reflete sua força e seu crescimento, no 
entanto, não é permanente. 
5- Estados no curso do seu crescimento procuram absorver territórios políticos valiosos. 
6- O ímpeto de crescimento vai desde o Estado primitivo até a civilização mais 
desenvolvida. 
7- A tendência com relação ao crescimento territorial é contagiosa e aumenta através do 
processo de transmissão. 
 
Uma ideia para a nossa reflexão: 
No contexto do expansionismo europeu do século XIX, que ilações podemos extrair do 
significado dessas leis espaciais e de suas consequências práticas? 
 
Desse conjunto de leis espaciais, ressalta a concepção organicista que as define, como se nota na 
quarta lei cuja definição de fronteira se aproxima àquela da pele que constitui o órgão periférico 
de um organismo. Desse modo, ao crescer, o organismo necessita que a pele se expanda. Essa 
linguagem organicista traduz, na prática, a ideia expansionista de que as fronteiras são móveis e 
devem se deslocar para atender ao crescimento do organismo estatal. Devemos estar muito 
atentos ao fato de que a concepção orgânica de Estado (e de suas fronteiras) é uma das marcas 
distintivas da geografia política clássica. Mas, a concepção de Estado que informa a geografia 
política de Ratzel vai mais além. Trata-se, igualmente, de uma concepção totalitária, no sentido 
de que o Estado é visto como o todo poderoso do mundo da política. Em poucas palavras, 
Ratzel desenvolvia a seguinte equação: Poder = Estado. Disso deriva a concepção 
unidimensional do poder. O que isso significa precisamente? Significa que, como vimos na aula 
anterior, o poder é uma relação e tem muitas fontes. Nessa linha de raciocínio, o Estado não 
pode ser a única fonte de onde emanam as relações de poder, embora, seguramente, seja uma 
das principais. Dito de outro modo, a geografia política clássica é estadocêntrica, para 
empregarmos uma expressão cara ao geógrafo Claude Raffestin. O Estado como o grande – 
quiçá o único... – protagonista do fenômeno do poder: eis a proposição de Ratzel. 
Sobre a concepção de Estado assumida por Ratzel, Claude Raffestin (1993:14-15) argumenta o 
seguinte: 
Mas que Estado é esse privilegiado por Ratzel? É o Estado moderno ou o Estado-nação. 
Melhor dizendo, Ratzel só faz geografia a partir de uma dessas “conformações 
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históricas possíveis pelas quais uma coletividade afirma sua unidade política e realiza 
seu destino”, segundo Henri Lefebvre. De fato, não pode haver dúvida sobre isso: 
“Quem diz poder ou autoridade não diz Estado”, segue afirmando Lefebvre. Para 
Ratzel, tudo se desenvolve como se o Estado fosse o único núcleo de poder, como se 
todo o poder estivesse concentrado nele: “É preciso dissipar a frequente confusão entre 
Estado e poder. O poder nasce muito cedo, junto com a história que contribui para 
fazer”, arremata Lefebvre. Dessa forma, Ratzel introduziu todos os seus “herdeiros” na 
via de uma geografia política que só levou em consideração o Estado ou os grupos de 
Estados.(...) Em todo caso, Ratzel na sua geografia política, faz eco ao pensamento do 
século XIX que racionaliza o Estado. Dá ao Estado sua significação espacial, “teoriza-
o” geograficamente. Aliás, nisso ele foi influenciado por uma longa tradição filosófica 
que encontrou em Hegel o seu mais brilhante representante. 
Finalmente, Raffestin (1993:16) sentencia: 
Com efeito, a geografia política de Ratzel é uma geografia do Estado, pois veicula e 
subentende uma concepção totalitária, a de um Estado todo-poderoso. 
Involuntariamente, talvez, Ratzel fez uma geografia do “Estado totalitário”, o adjetivo 
sendo aqui tomado no sentido daquilo que abraça uma totalidade e não no sentido 
político atual. 
Até aqui, sistematizamos alguns pontos fundamentais da geografia política clássica que 
equivalem, por assim dizer, à geografia fundamentada na obra de F. Ratzel. Também, 
ressaltamos a crítica direcionada à essa geografia ( e a essa obra). Conceber uma geografia 
política que lide com a multidimensionalidade do poder, como visto na Aula 1, em vez da 
unidimensionalidade do poder, constitui um objetivo crucial que conduz ao entendimento i) do 
que vem a ser o Estado e ii) dos novos horizontes que essa disciplina vem expandindo desde o 
seu nascimento moderno no final do século XIX. 
 
Há determinismo na obra de Ratzel? 
 
Leia com atenção o fragmento a seguir. 
 
Friedrich Ratzel foi um pensador alemão, considerado como um dos principais teóricos 
clássicos da Geografia e o precursor da geopolítica e do determinismo geográfico.Vale 
lembrar que a expressão “determinismo” não era empregada pelo próprio Ratzel, 
tratando-se de uma atribuição conceitual que foi dada a partir das leituras sobre o seu 
pensamento. Sua principal obra publicada foi a Antropogeografia. A Ratzel deve-se a 
ênfase dos estudos geográficos sobre o homem. Entretanto, a teoria ratzeliana via o ser 
humano a partir do ponto de vista biológico (não social) e que, portanto, não poderia ser 
visto fora das relações de causa e efeito que determinam as condições de vida no meio 
ambiente. A essa concepção deu-se o nome de determinismo geográfico, em que o 
homem seria produto do meio, ou seja, as condições naturais é que determinam a vida 
em sociedade. O homem seria escravo do seu próprio espaço. Esse pensador foi bastante 
influenciado pela obra de Charles Darwin, que defendia o postulado de que a evolução 
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se basearia na luta entre as diferentes espécies, de forma que aquelas que possuíssem as 
características de melhor adaptação ao meio sobreviveriam. Ratzel, de certa forma, 
aplicou essas ideias à espécie e sua vida em sociedade. Os seres humanos, raças e etnias 
mais aptos venceriam e dominariam os povos considerados inferiores. 
 
Disponível em: http://brasilescola.uol.com.br/geografia/friedrich-ratzel.htm. Acesso 
em: 29 fev. 2016. 
 
O texto acima apresenta problemas fáceis de detectar. Avancemos nessa detecção. Muito 
embora o nome – mais do que a obra – de Friedrich Ratzel seja bastante divulgado no Brasil 
como o “pai do determinismo geográfico”, alguns aspectos contidos nessa divulgação exigem 
algum esclarecimento. O primeiro deles é de que a noção de determinismo ambiental, entendida 
como a situação em que uma decorrência é absolutamente provocada por um fator natural, é 
muito mais antiga do que a obra de Ratzel. Encontramos tais referências na obra de 
Montesquieu, em seu livro “O espírito das leis”, do século XVIII, e em inúmeros outros 
trabalhos produzidos bem antes da obra ratzeliana, como no livro “Muqaddimah”, do 
historiador Ibn Kaldhun, do século XIV/XV. O segundo esclarecimento diz respeito ao uso 
incorreto, neste caso, do adjetivo geográfico no lugar de ambiental. Isso porque, espaço não é 
sinônimo de meio ambiente, muito menos geografia é sinônimo desse último termo. Então, i) 
Ratzel não poderia ser pai de uma ideia que já existia há muito, tampouco ii) o tipo de 
determinismo atribuído a sua obra poderia chamar-se geográfico. Então, o que ocorre? 
De saída, devemos lembrar que Ratzel se refere às influências do meio físico sobre o 
comportamento humano e que, na primeira metade do século XX, essa ideia foi levada às 
últimas consequências por discípulos seus como Huntington, na Inglaterra ou Ellen Semple, nos 
Estados Unidos. Por outro lado, é prudente destacar que Ratzel considerava incontornável a 
relação formada entre o solo e o povo, isto é, entre as condições territoriais e o desenvolvimento 
de uma coletividade humana, e, sobretudo, a relação entre solo e Estado. “Ratzel partiu da ideia 
de que existia uma estreita ligação entre o solo e o Estado. Trata-se de uma ilustração política 
daquilo que se chamou de determinismo, que teve seus defensores e seus detratores inflamados” 
(RAFFESTIN, 1993:13). 
Assim, de acordo com Costa (1990:34): 
O que se pode concluir dessa concepção [de Estado] de Ratzel, portanto, é que sua 
matriz conservadora e autoritária não estaria simplesmente no fato de que ela sobrepõe 
condicionantes naturais aos processos sociais e políticos, mas justamente na ideia 
subjacente de um Estado forte, centralizador e “posto por cima” da sociedade, como ele 
próprio explicita, ao afirmar que a unidade do Estado depende da unidade territorial e 
que esta, por sua vez, depende dos liames espirituais entre os habitantes, o solo e o 
Estado. Trata-se, assim, de uma unidade nacional-territorial comandada pelo poder 
central: “Uma política estatal correta é a de evitar que as dissensões que ocorrem no 
interior da sociedade se transformem em conflitos geografizados”, afirma Ratzel, em 
seu livro “Geografia Política”. 
Para entendermos a complexidade da obra geográfica de Ratzel, é oportuno mencionar que: 
A raiz do pensamento ratzeliano se move na ambivalência, ao servir de ponte entre o 
determinismo e o evolucionismo, apreciado nas relações entre sociedade e ambiente em 
seus primeiras etapas de sua obra e na apreciação possibilista que aparece nos seus 
últimos trabalhos de Geografia Política nos quais leva em conta os fatores humanos cuja 
influência, observa, é maior do que a procedente do entorno físico. Isso supõe um 
câmbio radical no seu discurso (LÓPEZ TRIGAL; POZO, 1999:33-34). 
Pelo exposto, parece lícito ponderar que a obra de Ratzel não deve ser reduzida a um de seus 
aspectos, mas, ao contrário, deve ser apreciada tendo-se em conta a diversidade de seus 
enfoques, de suas contradições e ambivalências, ou seja, a sua riqueza intelectual. Decerto, 
Ratzel é um dos nomes mais importantes da história do pensamento geográfico e, seguramente, 
o pai fundador da geografia política moderna. Sua geografia política, renomeada de clássica 
devido à evolução interna da própria disciplina, inaugura uma momento de extrema fertilidade 
da imaginação geográfica que tenta se ajustar à interpretação das condições socioespaciais da 
virada do século XIX para o XX. 
Uma reflexão fundamental que devemos sublinhar a partir dessa contribuição científica de 
Ratzel deriva de sua célebre frase: 
Espaço é poder. 
Essa máxima ratzeliana nos parece bastante oportuna para entendermos o fundamento de um 
raciocínio. Essa máxima também nos parece bastante atual. “Espaço é poder” sintetiza 
claramente o fundamento da geografia política, a partir do qual se pode deduzir que a geografia 
política clássica nos legou um lastro inspirador para a formulação de nossas ideias. Contudo, 
antes de abordarmos os desdobramentos e superações dessa geografia política clássica para os 
dias correntes, é-nos obrigatória uma revisitação nas contribuições da chamada geopolítica 
clássica. E será precisamente sobre esse tema que nos debruçaremos na aula seguinte. Até lá! 
 
 
Box de leitura 
FRIEDRICH RATZEL 
Luciana de Lima Martins * 
 
Friedrich Ratzel (1844-1904) é considerado por muitos o fundador da moderna geografia 
humana, sendo responsável também pelo estabelecimento da geografia política como disciplina. 
A abrangente produção ratzeliana deixa transparecer a integração de fatos da modernidade e do 
rápido desenvolvimento da sociedade no contexto da Alemanha que se unificava. Reflexões 
sobre o Estado, a história, as raças humanas, o ensino da geografia e a descrição de paisagens 
perpassam a obra do geógrafo, que se preocupava em auferir uma identidade comum à nação em 
formação. No Brasil, é o Ratzel determinista que se destaca na produção historiográfica da 
geografia, resultado da leitura da obra ratzeliana através da literatura francesa, sobretudo da 
obra de Lucien Febvre - La Terre et L’Évolution Humaine (1922) - que estigmatizou a pecha de 
determinista para Ratzel em contraposição ao possibilismo de Vidal de la Blache, termo 
cunhado pelo próprio Febvre (cf. Moreira, 1989:32 e Moraes, 1990:13). 
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Ratzel inicia sua carreira acadêmica em 1866 como zoólogo, interesse despertado peloconsiderável impacto da obra de Charles Darwin na Europa, e de seu discípulo alemão Ernst 
Haeckel. Correspondente do jornal Kölnische Zeitung desde 1868, Ratzel teve a oportunidade 
de viajar pelo sul da França, pela Itália e pelo leste Europeu. Em suas impressões sobre natureza 
e paisagem, ocupação humana e nacionalidade, pode-se perceber a mudança do cientista natural 
para o geógrafo. De 1873 a 1875, Ratzel trabalha como correspondente na América do Norte, 
percebendo o surgimento de uma nova sociedade através do ambiente antrópico e de seu uso, e 
prevê um futuro essencialmente urbano para a sociedade moderna, no bem e no mal. 
O interesse pelo estudo da migração chinesa (Die chinesische Auswanderung, 1876), com o qual 
completa sua qualificação acadêmica, foi também suscitado na sua viagem à América. 
 De 1875 a 1886, Ratzel leciona geografia na Politécnica de Munique, combinando seu vasto 
conhecimento da literatura da disciplina com a riqueza, de dados e informações obtidos em suas 
viagens e pesquisas de campo. Geografia física, geografia regional dos continentes, geografia 
humana e política foram todos temas dos cursos mais substanciais. Em 1886, Ratzel transfere-se 
para a Universidade de Leipzig, onde permanecerá até sua morte, em 1904. Jean Brunhes, Ellen 
Semple, Hans Helmolt e Alfred Hettner foram alguns dos mais ilustres estudantes e orientandos 
de Ratzel nesse período. O geógrafo divide seu tempo trabalhando na formação de professores 
para as escolas públicas e no fomento de aulas de geografia nessas escolas, publicando o livro 
didático Deutschland (1898) para combater a aspereza das aulas de geografia e “despertar a 
vontade de obtenção de um conhecimento e de uma concepção da terra natal (Heimat) não 
envolvidos apenas com o intelecto” (citado por Buttman, 1977: p. 83). Em Leipzig, Ratzel vai 
também aprofundar seu conhecimento filosófico através dos encontros com o chamado “Círculo 
de Leipzig”, um grupo de intelectuais interessados, sobretudo, na obra de Leibniz, que terá 
influência marcante na produção ratzeliana dos últimos anos de sua vida. 
Em linhas gerais, a obra de Ratzel é uma tentativa de superar uma geografia puramente 
descritiva e de avançar na formulação de grandes construções explicativas, onde o “sentido de 
espaço” (Raumsinn) ocupa lugar primordial. Das fecundas ideias ratzelianas, destacam-se 
principalmente: 
 1) O estudo dos efeitos recíprocos entre o homem e seu ambiente, onde o homem teria um 
duplo posicionamento: ativo, na medida que transforma, através de seu trabalho, a superfície 
terrestre, e passivo, na sua dependência das condições naturais, que seu espaço vital 
(Lebensraum) lhe impõe (Anthropogeographie, vol. 1, 1882); 
 2) O papel importante desempenhado pela cultura e pela difusão cultural (Völkerkunde, 1885-
8); 
3) As relações entre o homem e a natureza devem ser compreendidas não somente sob o ângulo 
da mediação técnica ou econômica (trabalho, progresso), mas também, e sobretudo, levando se 
em consideração a mediação política: Ratzel compara o Estado a um organismo (Politische 
Geographie, 1897). No entanto, o “organismo” político a que Ratzel se refere difere da estrutura 
rudimentar do organismo biológico, na medida em que expressa a unidade orgânica do homem e 
da Terra, incluindo todos os objetos perceptíveis, materiais e imateriais, vinculando-se ao 
conceito da unidade (Ganzheit) de matriz romântica; 
 4) A importância básica da geografia física para toda a pesquisa geográfica (Die Erde und das 
Leben, 1901-2); 
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5) A descrição artística da natureza e da paisagem deve preencher tanto as necessidades 
científicas como as estéticas (Über Naturschilderung, 1904). 
O texto de Ratzel - “Freunde, im Raum wohnt das erhabene nicht!” (Amigos, o sublime não 
mora no espaço!) - foi publicado em 1903 no periódico Glauben und Wissen (Fé e Saber) e 
insere-se no primeiro volume da obra póstuma Kleine Schriften von Friedrich Ratzel (Pequenos 
escritos de Friedrich Ratzel), organizada por Hans Helmolt, em 1906. Trata-se de uma coletânea 
de cerca de 86 artigos publicados em diversos periódicos de 1867 a 1904, que conta ainda com 
uma biografia escrita pelo organizador e de uma bibliografia levantada por Viktor Hantzsch. 
Nesses artigos, encontra-se ora um Ratzel reflexivo, ora inflamado, ora crítico. Despojado da 
rigidez acadêmica, da preocupação da sistematização do pensamento geográfico enquanto 
disciplina, como em suas principais obras - Anthropogeographie e Politische Geographie -, 
aflora, nos Kleine Schriften, um Ratzel multifacetado, engajado politicamente, envolvido com 
questões filosóficas, artísticas e religiosas. Os artigos tratam desde a anatomia do Enchytraeus 
vermiculares a considerações sobre a fisionomia da Lua, glaciologia, etnografia, história, 
colonialismo na África, paisagens, panoramas, fotografia, escritos biográficos, geografia 
política, cidades, nacionalidades e raças. 
A menção a este texto [a autora em tela o traduziu para o português] deve-se à curiosidade 
suscitada pelo momento em que foi produzido, a chamada fase “madura” da obra ratzeliana. A 
humildade intelectual subjacente ao questionamento que Ratzel se permite fazer, em que busca 
explorar “as contradições da visão do mundo entre conhecimento das ciências naturais e fé 
cristã” (Buttmann, 1977:102), propiciou a sintonia com seu pensamento, o encontro, a mediação 
entre seu mundo e o atual. Nesse texto, o geógrafo faz uma profissão de fé, reconhece o 
intransponível, o insondável, mas não toma, perante este fato, uma atitude niilista. Apenas está 
consciente da existência de limites que, longe de provocarem-lhe desânimo, incitam-no a 
prosseguir seu caminho. No momento atual, em que se repensam os caminhos e descaminhos da 
atividade científica e do projeto da modernidade, e o lugar da geografia nesse contexto, a 
reflexão ratzeliana é digna de atenção. 
 
O realismo político como paradigma da geografia política e da geopolítica 
 
Como bem nos recorda Claval (2006:75), nos seus escritos entre 1882 e 1891, ao familiarizar-se 
com os estudos da etnologia, 
[Ratzel] estabelece uma diferença fundamental entre os Naturvölker os povos que 
permanceram no estado de natureza e só sobrevivem se se adaptarem ao ambiente onde 
vivem, e os Kulturvölker cujas técnicas materiais e formas de organização social e 
política são suficientemente evoluídos para que se possam isolar do meio natural. (…) 
Estes últimos possuem como característica específica, uma forma de organização 
essencial para compreender o mundo contemporâneo: o Estado. A geografia política 
surge então a Ratzel como a parte mais original da geografia humana das sociedades 
evoluídas. 
Do comentário de Paul Claval, uma evidência se confirma: a centralidade da figura do Estado 
como fundamento da geografia clássica. Por sua vez, essa condição tão central é o núcleo duro 
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de um paradigma denominado realismo político. O vínculo entre a geografia política e esse 
paradigma das relações internacionais é lapidarmente explicitado por Becker (1995:273), 
quando a autora afirma: 
Se necessário fosse definir um paradigma para a Geopolítica desde que se constituiu 
como disciplina, certamente este seria o de realismo, nocampo das relações 
internacionais. Realismo que pressupõe o Estado como unidade básica do sistema 
internacional, cujo atributo principal é o poder, em suas dimensões predominantes de 
natureza militar, ideológica e econômica. 
A autora ainda nos sinaliza que, em sua Geografia Política (1897), “Ratzel propõe o significado 
da Geografia Política e dá ao Estado sua significação espacial, tornando-o visível 
geograficamente” (BECKER, 1995: 283). Então, parece claro que a centralidade do Estado está 
no cerne da geopolítica e da geografia política, desde a magistral fundamentação desses 
conhecimentos feita por F. Ratzel. Essa centralidade estatal é o que nos leva a tecer algumas 
mais algumas considerações sobre o realismo político. 
Os estudos sistemáticos no campo das relações internacionais, concebidas como disciplina 
científica, têm início nos anos 1930. A partir desse momento, identificam-se diversos 
paradigmas que dariam suporte para o entendimento de tais relações. Sem dúvida, o paradigma 
mais antigo, por isso mesmo denominado de clássico, é aquele que considera o Estado como o 
protagonista indiscutível dessas relações, ainda que não seja, ele em si mesmo, o único ator 
internacional. Nesse ponto, está evidenciado que se trata de relações interestatais que 
comandariam o cenário internacional e seus jogos de interesses. A antiguidade desse paradigma 
clássico não remonta aos anos 1930, pois seria fácil recorrer a fatos e suas interpretações que 
demonstram o papel do Estado nos comportamentos políticos – e geopolíticos. Assim, alguns 
autores evocam a História da guerra do Peloponeso, de Tucídides (460-400 a.C.), até as obras 
de N. Maquiavel, T. Hobbes, C. Clausewitz e M. Weber, num voo plurissecular que vai da 
antiguidade grega ao início do século XX. Contudo, para sermos mais precisos, é bom lembrar 
que o realismo político surge a partir das intervenções teóricas de Edward Carr, em seu livro 
The twenty years crisis – 1919-1939 e Hans Morgenthau, com o seu Politics among nations, o 
primeiro publicado em 1939 e o segundo em 1948. 
 
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Considerado, por muitos, como o “Maquiavel moderno”, Hans Morgenthau em seu clássico 
livro apresenta os seis princípios do realismo político, assim sistematizados por Gonçalves 
(2002:56-57): 
1. O realismo acredita na objetividade das leis da política, que são determinadas pela 
natureza humana. A natureza humana não sofre variações de tempo e de lugar. Em 
qualquer tempo e lugar o comportamento político é sempre orientado pela busca da 
realização dos interesses. 
2. O “interesse definido em termos de poder” constitui o conceito fundamental da política 
internacional, que distingue a política da economia, da ética, da estética e da religião. 
Esse conceito permite a análise racional do comportamento político dos governantes. 
3. Os interesses variam segundo o tempo e o lugar. Eles exprimem o contexto político e 
cultural a partir do qual são formulados. A transformação do mundo resulta da 
manipulação dos interesses. 
4. A política internacional possui suas próprias leis morais, que não se confundem com 
aquelas que regem o comportamento do cidadão. A ética política do governante não 
deve ser avaliada conforme as leis abstratas universais, porém, a partir das 
responsabilidades que o governante tem para com o povo que representa. 
5. O realismo recusa a ideia de que uma determinada nação possa revestir suas próprias 
aspirações e ações com fins morais universais. A ideia messiânica de que “Deus está 
conosco” é perigosa por conduzir a guerras. A paz só pode existir como resultado da 
negociação dos diferentes interesses dos Estados. 
6. A grande virtude do realismo está no reconhecimento de que a esfera política é 
independente das demais esferas que compõem a vida do homem em sociedade. Ao 
abordar a política nos seus próprios termos, o realismo cria condições para o correto 
entendimento da política. 
Na França, o realismo foi enriquecido pelo livro de Raymond Aron, Paz e guerra entre as 
nações, publicado em 1962. Aron critica severamente as ideias de Morgenthau rejeitando o 
universalismo com que este último trata as relações entre Estados, na escala mundial. Para 
Aron, a especificidade das relações entre Estados depende do procedimento histórico e 
sociológico de cada caso em particular e, ainda, a questão mais expressiva das relações 
internacionais é a possibilidade de os Estados se envolverem em guerras. 
Outro nome relevante nesse debate teórico do realismo político é o de Kenneth Waltz, 
especialmente devido a seu livro Theory of international politics, que veio à luz em 1979. Para 
Waltz, para o entendimento das relações internacionais, o comportamento dos atores no 
mercado importa, e muito. A pergunta central para ele é a seguinte: por que sempre houve 
guerra? Porém, sua maior contribuição à teoria em tela é a ideia que apresenta sobre a estrutura 
do sistema internacional. Para este autor, seria um erro pensar que a realidade internacional é o 
mero resultado das determinações nacionais de cada Estado, pois seria a estrutura internacional 
que determinaria o comportamento dos Estados. Waltz inaugura um tipo de realismo estrutural 
ou neorrealismo no campo das relações internacionais. 
O século XX é pródigo na formulação de termos vinculados ao realismo político. Dois desses 
termos são high politics e low politics ( alta política e baixa política, respectivamente). Segundo 
Pecequilo (2004:121): 
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A high politics refere-se aos comportamentos essenciais da política de poder para os 
realistas, envolvendo os elementos militares, diplomáticos e estratégicos que definem a 
capacidade de projeção internacional do Estado e sua capacidade de ação diante de 
unidades políticas semelhantes. Pode-se dizer que o termo indica os aspectos mais 
“nobres” da política internacional, opondo-se às questões sociais, culturais e 
econômicas, que representam a low politics. 
Cristina Pecequilo, ainda nos lembra que, até mesmo por seus críticos, o realismo é 
reconhecido como a corrente teórica ainda dominante das relações internacionais. Contudo, 
segundo Nogueira e Messari, a partir dos anos 1980 e, sobretudo, dos 1990, críticas ao realismo 
se multiplicaram. Para esse autores (2004:48): 
A maioria dessas críticas destacava a incapacidade do realismo de prever e explicar a 
queda da União Soviética e sua inadaptação para lidar com o mundo pós-Guerra Fria. 
Novos assuntos (a globalização), novos atores (as civilizações segundo Huntington) e o 
possível/eventual fim dos conflitos (o fim da história segundo Kukuyama) pareciam 
relegar o realismo às margens da história. 
Nesse contexto do fim do século XX, a reação dos realistas não tardou. Alguns autores 
argumentaram que há uma verdade objetiva que precisa ser descoberta. São os chamados 
realista neoclássicos por resgatarem as raízes do realismo original para adaptá-las ao mundo 
contemporâneo. O realismo estrutural ou neorrealismo de Waltz veio à tona para ser reforçado, 
quando a guerra é colocada como estudo central das relações internacionais, ou atacado, quando 
os conceitos de sistema e de estrutura são apresentados como distintos (aspecto ignorado por 
Waltz). Desse modo, “Waltz não percebeu que a estrutura é composta por sistema e suas 
unidades e que, por isso, é possível produzir uma teoria tanto no nível do sistema quanto no 
nível das unidades” (NOGUEIRA; MESSARI, 2005:50). Por fim, mas sem esgotar as 
tendências atuais em relação ao realismo político, alguns autorescomo Fareed Zacaria 
questionam a separação das políticas doméstica e internacional – como preconizado pelo 
realismo – restabelecendo a importância de se levar em conta as políticas de cada Estado para o 
entendimento do sistema internacional. 
As características básicas do realismo político estão por aí a nos rodear. Segundo Rodrigues 
(1994: 25-28), essas características são as seguintes: 
1. Política interna e política internacional são consideradas duas áreas distintas e 
independentes entre si. Na política internacional prevalecem as questões de poder e de 
segurança, as quais constituem a alta política (high politics); 
2. Somente os Estados são considerados atores internacionais. As relações internacionais 
se traduziriam, assim, em relações interestatais. Os Estados, considerados como atores 
racionais, ou seja, eles se comportam atendendo aos interesses nacionais definidos em 
termos de poder; 
3. O poder, traduzido na possibilidade de usar a força, é a obsessão do realismo político. 
As relações internacionais, sendo conflitivas, marcadas pelo império da força, só podem 
ser vistas, interpretadas e entendidas como uma luta constante pelo domínio do poder. 
O que podemos concluir desse aporte do realismo em relação à geografia política? Decerto, é 
notório o embasamento da geografia política nesse paradigma das relações internacionais, pelo 
menos por dois motivos: a) o Estado pode ter sofrido perda de algumas de suas funções, 
sobretudo no âmbito da economia – devido ao surgimento de novos atores, como as firmas 
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transnacionais, mas mantém sua força no âmbito político, propriamente dito, como nos casos 
das guerras em curso no século XXI; e b) o mundo nunca possuiu tantos Estados como no 
presente momento, o que sugere, no mínimo, uma reflexão mais atenta sobre a necessidade 
desse aparato jurídico-institucional para o funcionamento do mundo contemporâneo. São 
reflexões nessa direção que esperamos dos geógrafos políticos. 
 
 
Referências bibliográficas: 
BECKER, B. A geopolítica na virada do milênio. In: Castro, I. et al. (Org.). Geografia: 
conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995 
BUTTMANN, G. 1977. Friedrich Ratzel; Leben und Werken eines deutschen geographen. 
Stuttgart, Wissenschaftliche Verlagsgesselschaft. 
CLAVAL, P. A história da geografia. Lisboa: Edições 70, 2006 
GONÇALVES, W. Relações internacionais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002 
MARTINS, L. 1993. Friedrich Ratzel através de um prisma. Rio de Janeiro: PPGG/UFRJ 
(dissertação de mestrado). 
MORAES, A. C. R. (Org.). Ratzel. São Paulo: Ática, 1990 
MOREIRA, R. O que é Geografia. São Paulo: Brasiliense, 1989 
NOGUEIRA, J.; MESSARI, N. Teoria das relações internacionais. Rio de Janeiro: Elsevier, 
2005 
PECEQUILO, C. Introdução às relações internacionais. Petrópolis: Vozes, 2004 
RODRIGUES, G. O que são relações internacionais. São Paulo: Brasiliense, 1994 
(*) Mestre (1993) e doutora (1998) em Geografia pela UFRJ, desde 1999 trabalha como 
pesquisadora do Grupo de Geografia Social e Cultural de Royal Holloway, Universidade de 
Londres. A Introdução baseia-se principalmente em Martins (1993). A autora agradece a 
inestimável ajuda do prof. Ferdinand Reis, sem a qual a tradução do artigo de Ratzel não se 
viabilizaria 
Disponível em: 
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:euWhCojohU0J:www.uff.br/geographi
a/ojs/index.php/geographia/article/download/58/56+&cd=3&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br. Acesso 
em: 29 fev. 2016. Adaptado. 
A partir da leitura atenta do texto de Luciana Martins, seguem nossas sugestões para uma 
reflexão crítica: 
 
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1. Qual é a influência exercida pela formação acadêmica original de Ratzel sobre as 
formulações do autor acerca da relação entre o povo e o solo? 
 
2. Como Ratzel concebeu a noção de unidade para pensar a relação homem / natureza? 
 
 
3. Como interpretar a ideia de um “Ratzel multifacetado”? 
 
Recomendamos as leituras seguintes para aprofundamentos futuros: 
COSTA, W. Geografia política e geopolítica. São Paulo: EDUSP, 1990. 
DEFRAY, A. La géopolitique. Paris: PUF, 2005 
GRIFFITHS, M. Grandes estrategistas das relações internacionais. São Paulo: Contexto, 2004 
LÓPEZ TRIGAL, L.; POZO, B. Geografía política. Madri: Cátedra, 1999 
RAFFESTIN, C. Por uma geografia do poder, São Paulo: Ática, 1993