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BEHAVIORISMO E CRIMINOLOGIA CONTROLE DO

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BEHAVIORISMO E CRIMINOLOGIA: CONTROLE DO 
COMPORTAMENTO DESVIANTE 
 
Rodrigo Iennaco de Moraes1 
 
“Este mundo transformar-se-á se educarem vossos filhos não na 
liberdade da libertinagem, mas na liberdade do behaviorismo” 
(J. B. Watson. In Behaviorism. 1930, p. 303-304) 
 
SUMÁRIO: 1. Nota introdutória: antecedentes do behaviorismo – 2. J. B. 
Watson e a Escola behaviorista de pensamento – 3. O método behaviorista – 4. 
Objeto de estudo do Behaviorismo – 5. Teses fundamentais – 6. Novos Sistemas 
behavioristas – 7. B. F. Skinner e o Controle comportamental de sociedades – 
7.1. O sistema de Skinner e o condicionamento operante – 7.3. Esquemas de 
reforçamento – 7.4. O determinismo de uma sociedade behaviorista – 8. 
Behaviorismo e criminologia – 8.1. Controle do comportamento no cárcere – 9. 
Nota Conclusiva – 10. Referências bibliográficas. 
 
1. NOTA INTRODUTÓRIA: ANTECEDENTES DO BEHAVIORISMO 
 Na segunda década do século XX, menos de 40 anos após Wundt2 ter 
iniciado formalmente a Psicologia, procedeu-se a notada evolução no modelo científico, 
 
1 Defensor Público em Minas Gerais, Professor de Direito Penal e Processual Penal da Faculdade de Direito 
da UFJF e da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Instituto Vianna Jr. e Mestrando em Ciências 
Penais pela UFMG. Publicado originalmente na Revista Brasileira de Ciências Criminais, vol. 43, 
IBCCRIM. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2003. 
2 A fundação de uma ciência experimental da psicologia é atribuída a Wilhelm Wundt, que reuniu, à luz do 
espírito positivista, os métodos da ciência natural que estavam sendo utilizados, em meados do sec. XIX, 
para explicar os fenômenos mentais e o modelo empirista para a descrição do funcionamento dos sentidos. 
A partir dos estudos de Wundt, assinalou-se o início da primeira posição sistemática ou escola de 
pensamento em Psicologia: o Estruturalismo, hoje relacionado aos estudos de Titchener. Cf. SCHULTZ, 
Duane e SCHULTZ, Sydney Ellen. História da psicologia moderna. 6a ed. São Paulo: Cultrix, 1994, p. 72 
e 75-76. 
sobretudo nos Estados Unidos, passando-se de uma visão Estruturalista para 
Funcionalista. 
 Embora a psicologia funcional não fosse totalmente objetiva, representou 
avanço no sentido da objetividade, enfatizando o comportamento e métodos objetivos em 
desfavor da introspecção. Os funcionalistas reescreveram as regras da Psicologia, 
afastando-se gradativamente dos conceitos estabelecidos por Wundt e Titchener. Essa 
mudança de concepção foi imperceptível na época em que ocorreu. Aos poucos, o valor 
da introspecção e a existência de elementos mentais foram sendo questionados, 
defendendo-se a necessidade de a Psicologia manter-se pura. 
 Neste contexto, em que conviviam ideários Estruturalista e Funcionalista, 
eclode, em 1913, uma revolução apresentada como reação a ambas Escolas: o 
Behaviorismo, cujo líder foi o psicólogo americano John Broadus Watson. O 
Behaviorismo assume, então, papel preponderante na vida cultural e social da época, 
abandonando-se as concepções mais antigas. 
 Influenciaram o movimento behaviorista o avanço filosófico objetivista e 
mecanicista, a psicologia animal e o funcionalismo.3 Dos três, o avanço da psicologia 
animal, representado sobretudo nos estudos de E. L. Thorndike e Ivan P. Pavlov4, 
merece destaque. 
 
 
3 Cf. SCHULTZ, Duane. História da psicologia moderna. São Paulo: Cultrix, 1990, p. 198. A psicologia 
funcional, como salientou J. B. Watson em artigo publicado em 1913 na Psychological Review (A 
psicologia como o behaviorista a vê), afastou o uso de elementos, no sentido estático dos estruturalistas, 
acentuando a significação biológica dos processos conscientes e descartando a análise de estados 
conscientes em elementos isoláveis de introspecção. 
4 Os estudos de Thorndike e Pavlov apresentam formulações semelhantes, partindo-se de uma teoria 
objetiva e mecanística da aprendizagem, centrada unicamente no comportamento manifesto e mínima 
referência à consciência ou processos mentais. A aprendizagem deve refletir o estudo do comportamento 
considerado objetivamente, em termos de ligações concretas entre estímulos e respostas, desconsiderando-
se elementos mentais ou a experiência consciente. 
 
 
2. WATSON E A ESCOLA BEHAVIORISTA DE PENSAMENTO 
 Os princípios básicos do Behaviorismo exigem uma Psicologia totalmente 
objetiva – uma ciência do comportamento – que se ocupa unicamente de atos observáveis 
de conduta, que possam ser objetivamente descritos em termos de estímulo e resposta. Os 
conceitos mentalistas, via de conseqüência, seriam rejeitados. Termos como “imagem”, 
“mente” e “consciência” – remanescentes da filosofia mental – perdiam o significado e as 
técnicas de introspecção, que pressupunham a existência de processos conscientes, eram 
irrelevantes. 
 J. B. Watson usou as descobertas e os métodos da Psicologia Animal 
como base para o desenvolvimento de uma ciência do comportamento (aplicável tanto ao 
homem quanto aos animais). A Psicologia, na interpretação do Behaviorismo, é uma 
ciência puramente objetiva e empírica. Seu objetivo é a predição e o controle do 
comportamento. Desprezam-se, por isso, os termos consciência, estados mentais, mente, 
conteúdo e, principalmente, verificação introspectiva. O comportamento é compreendido 
em termos de estímulo e resposta, em termos de formação de hábito, integrações de 
hábito etc. 
 
3. O MÉTODO BEHAVIORISTA 
 O behaviorismo tem como ponto de partida o fato observável de que os 
organismos, tanto humanos quanto animais, ajustam-se ao meio ambiente a partir do 
equipamento hereditário e do hábito. Em segundo lugar, alguns estímulos levam os 
organismos a apresentar as respostas. Conhecendo-se a resposta, portanto, é possível 
predizer o estímulo; dado o estímulo, é possível predizer a resposta. 
 O objetivo fundamental do behaviorismo é obter conhecimentos precisos 
sobre os ajustamentos (adequação ao ambiente por hábito individual ou respostas 
hereditárias) e os estímulos que os provocam5. Sob o prisma do behaviorismo, a 
psicologia deve ser uma “ciência do comportamento” – e não o estudo introspectivo da 
consciência. Um ramo experimental, demonstrável empiricamente, um ramo objetivo da 
ciência natural. 
Buscam-se métodos gerais e particulares pelos quais seja possível 
controlar o comportamento e não apenas a descrição ou explicação de estados de 
consciência. Assim, tão logo a psicologia consiga, com o behaviorismo, obter dados 
sobre o comportamento experimentalmente, o jurista, assim como o educador, o médico 
etc., todos poderiam utilizar estes dados de maneira prática em suas atividades. 
Portanto, somente são admitidos métodos objetivamente demonstráveis: 
observação; reflexo condicionado; relato verbal (de forma restrita); testes. Os resultados 
são tratados como comportamento por amostragem e não como medidas de qualidades 
mentais, haja vista o combate à introspecção. A análise do comportamento é objetiva, 
reduzindo-se a unidades elementares de ligação estímulo-resposta. O pesquisador 
estabelece as condições do experimento e observa como o sujeito responde a essas 
condições: o homem passa a ser visto como objeto de observação, “uma máquina 
estímulo-resposta”6. 
 
 
5 WATSON, John B. Psychology as the behaviorist views it. Psychological Review, 1913, 20 
6 SCHULTZ, Duane. op.cit. p.232 
 
 
4. OBJETO DE ESTUDO DO BEHAVIORISMO 
 O objeto de estudo (ou dados primários da psicologia) deve ser, segundo a 
concepção behaviorista, itens de comportamento – movimentos musculares ou secreções