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CAPÍTULO 1 INDICADORES DO ESTADO NUTRICIONAL DE COLETIVIDADES 1 OBJETIVOS Após a leitura e a discussão do capítulo 1 e a realização do exercício estabelecido, os alunos deverão estar capacitados a: 1.1 Elaborar um conceito de estado nutricional, identificando suas dimensões biológica e social; 1.2 Identificar e reconhecer, no conceito de estado nutricional elaborado, os diferentes conceitos envolvidos: variável, índice, indicador, método, técnica e instrumento; 1.3 Estabelecer as diferenças entre avaliação nutricional individual e avaliação nutricional de populações e 1.4 Reconhecer os métodos diretos e indiretos de avaliação do estado nutricional. 2 CONCEITOS E DEFINIÇÕES BÁSICAS Iniciamos nosso estudo com a seguinte questão: O que é estado nutricional? Dentro de sua dimensão biológica, estado nutricional tem sido comumente conceituado como “condição de saúde de um indivíduo, influenciada pelo consumo e utilização de nutrientes, identificada pela correlação de informações obtidas de estudos físicos, bioquímicos, clínicos e dietéticos”1. Ou como “o estado resultante do equilíbrio entre o suprimento de nutrientes de um lado e do gasto do organismo do outro”2. 17 Seguindo esta dimensão biológica e, portanto, individual, o conceito de estado nutricional como produto da relação entre o consumo (ou ingestão alimentar) e as necessidades nutricionais (gastos nutricionais ou utilização biológica de nutrientes) está representado na Figura 1. Neste sentido, como produto da referida relação, ao nível biológico (i.e. do corpo individual), o estado nutricional poderia, teoricamente, ser expresso dentro de três modalidades de manifestações orgânicas: a) Manifestações produzidas pelo equilíbrio entre consumo e necessidades nutricionais (que denominaremos de normalidade nutricional ou de eutrofia); b) Manifestações produzidas pela insuficiência quantitativa e/ou qualitativa de consumo de alimentos/nutrientes em relação às necessidades nutricionais (que denominaremos de carências ou deficiências nutricionais) e c) Manifestações produzidas pelo excesso ou desequilíbrio de consumo de alimentos/nutrientes em relação às necessidades nutricionais (que denominaremos de “distúrbios nutricionais”). Consumo Necessidades Alimentar nutricionais ESTADO NUTRICIONAL Insuficiência de consumo Normalidade Excesso ou desequilíbrio (carências nutricionais) nutricional de consumo (distúrbios nutricionais) Desnutrição energético-protéica Obesidade Anemia ferropriva Diabetes Hipovitaminose A Dislipidemias Bócio Hipertensão Cárie dental Certos tipos de câncer Outras carências nutricionais Outras doenças crônico não transmissíveis Figura 1 – Dimensão biológica do conceito de estado nutricional 18 Voltaremos a discutir sobre estas três manifestações ou formas orgânicas que expressam o estado nutricional ao nível do corpo individual, em outro momento de nosso estudo. Passaremos, agora, à introdução do conceito de estado nutricional dentro de sua dimensão social. Nesta, assumiremos a concepção de que estado nutricional ou “a nutrição é parte integrante da totalidade do processo social de produção”3, sendo, portanto, “efeito muito nítido e até típico do posicionamento do indivíduo e de seu grupamento, na estrutura social”4. O estado nutricional é o produto ou manifestação biológica do conjunto de processos que se operam sobre o “corpo social”, é a síntese orgânica das relações entre homens-natureza-alimento que se estabelecem no interior de uma determinada sociedade. Ou seja, além de sua dimensão biológica (relação entre consumo e necessidades nutricionais), o estado nutricional expressa uma dimensão (ou determinação) histórico-social. Em uma estrutura social como a nossa (capitalismo periférico ou dependente), o estado nutricional apresenta-se diferenciado entre as distintas classes sociais que a compõem, bem como entre as distintas categorias sociais que compõem estas classes sociais e entre os distintos indivíduos que compõem estas categorias. Sendo assim, a compreensão do conceito de estado nutricional deve ser buscada a partir da identificação e análise de suas determinações gerais (ou estruturais) que correspondem aos processos mais gerais da organização social (processos econômicos, políticos e ideológicos que definem a produção e as relações de produção da sociedade); de suas determinações particulares que correspondem aos processos específicos de organização da produção e consumo de cada grupo sócio-econômico ou classe social; e de suas determinações individuais que correspondem aos processos de organização da produção e consumo familiar e individual5. Estes três níveis de determinação do estado nutricional se encontram representados na figura 2. Passaremos, agora, à introdução dos conceitos de variável, de índice, de indicador, de técnica, de instrumento e de outros elementos necessários à apreensão do conceito de estado nutricional. 2.1 A construção do conceito de estado nutricional A construção do conceito de estado nutricional de um indivíduo ou de uma população se realiza quando, a partir de estudos ou investigações, são coletados dados, medidas ou informações que possibilitem a identificação das variações existentes no 19 estado nutricional do indivíduo ou da população, independente do nível de determinação que está sendo investigado. As variações existentes, quando observadas, medidas, quantificadas, qualificadas, classificadas etc., são expressas na investigação a partir de variáveis. Variáveis são categorias de análise que nos possibilitam a descrição das mudanças ou variações do processo objeto de estudo, no nosso caso, o estado nutricional de um indivíduo ou de uma população5. ESTADO NUTRICIONAL Consumo Necessidades Alimentar Nutricionais Nível Individual: Processos relacionados à organização da produção e consumo Determinação individual e familiar: biológicos, ambientais e ecológicos, Imediata econômicos, sociais (saúde, educação, cultura e ideologia). Nível Particular: Processos relacionados à organização da produção e consumo Determinação de cada grupo sócio-econômico ou classe social os quais Mediata definem os diferentes perfis de reprodução social.Nível geral Processos econômicos, políticos e ideológicos da organização ou estrutural: social: desenvolvimento das forças produtivas, relações de Determinação produção, formas e conteúdos das instituições políticas (Estado Básica e seus aparelhos) e instituições civis. Figura 2 – Dimensão social do conceito de estado nutricional De acordo com as características da variação, as variáveis classificam-se em qualitativas e quantitativas. As variáveis qualitativas descrevem as variações referentes às propriedades ou atributos do processo objeto de estudo e são expressas em escalas nominais. Por exemplo, o sexo é uma variável qualitativa, cuja expressão, em escala nominal, descreve as variações: homem e mulher, ou masculino e feminino. As variáveis quantitativas descrevem as variações relativas à intensidade ou grandeza do processo objeto de estudo e são expressas em escalas numéricas. Por exemplo, a idade é 20 uma variável quantitativa, cuja expressão, em escala numérica, descreve as variações: 0, 1, 2... 10... 99 anos5. De acordo com a hierarquia ocupada dentro dos níveis de determinação do processo objeto de estudo, as variáveis classificam-se em: variáveis associadas e variáveis adicionais. As variáveis associadas classificam-se em independentes e dependentes. Variáveis dependentes são aquelas que aparecem como produto ou resultado da influência de outras variáveis. Variáveis independentes são aquelas que influenciam ou ocasionam a variação do processo objeto de estudo (da variável dependente). As variáveis independentes classificam-se em: variáveis causais (selecionadas para o estudo); variáveis de controle (têm efeito potencial sobre a dependente e podem ser controladas na análise); variáveis não controláveis (que, apesar do efeito sobre a dependente, não são controladas) e variável perturbadora (estreitamente vinculada à causal e à dependente). As variáveis adicionais são aquelas adicionadas à associação causal principal e classificam-se em: variáveis antecedentes (antecedem a causal no tempo); variáveis explicativas (antecedem e, quando controladas, anulam o efeito causal); variáveis intervenientes (são afetadas pela independente e afetam a dependente); variáveis moderadoras (especificam a associação entre a causal e a dependente); e variáveis componentes (atuam como causal complexa)5,6. Na figura 3 procuramos exemplificar a construção do conceito de variáveis. E, antes de passarmos ao conceito de indicador, é preciso registrar que esta exemplificação deve ser entendida como um recurso didático-pedagógico, baseado nas concepções da epidemiologia clássica, uma vez que devemos entender o estado nutricional (variável dependente) como um dos processos da totalidade do processo social, e todos estes processos da totalidade formam uma unidade dialeticamente articulada. Neste sentido, o que é “dependente” pode ser “independente” e vice-versa, havendo, portanto, uma constante interação de processos. As variáveis são categorias de análise (conceitos) que, quando materializadas, construídas, medidas de forma concreta ou objetiva (quantitativamente ou qualitativamente), adquirem a denominação de índices, marcadores ou indicadores. Tomemos como exemplificação a antropometria ou método antropométrico de avaliação do estado nutricional. O método antropométrico consiste no estudo das medidas (variações) do corpo humano. As medidas corporais são variações (variáveis) que se expressam em escalas numéricas (quantitativas) e que são obtidas a partir da 21 utilização de determinadas técnicas (procedimentos ou habilidades especiais) e determinados instrumentos de medição (antropômetro, balança, estadiômetro, fita métrica, paquímetro, plicômetro etc.). Sendo assim, o peso ou massa corporal; a altura, estatura ou comprimento; o perímetro ou circunferência cefálica; a dobra cutânea tricipital etc. são variações antropométricas que, quando medidas, são expressas na forma de “dados/valores/informações” quantitativas ou numéricas que expressam o conceito de variável antropométrica. (variável causal ) (variáveis intervenientes) Inserção social dos Consumo alimentar Estado de saúde pais (variável antecedente) (variáveis moderadoras) (variável dependente) Estratificação Condições sócio- Estado nutricional Social econômicas da de escolares da família 1ª série Idade, sexo, série escolar, necessidades nutricionais (variáveis de controle) HIPÓTESES DE CONSTRUÇÃO: a) Existem diferenças entre o estado nutricional (altura para idade, peso para altura) de escolares da 1ª série do 1º grau, de três instituições educacionais de Florianópolis: uma escola privada, uma escola pública estadual e uma escola pública municipal. b) As condições sócio-econômicas da família, definidas pelo tipo de inserção social dos pais das crianças, estabelecem estas diferenças. Figura 3 – Construção do conceito de variáveis, a partir da associação hipotética entre inserção social dos pais e estado nutricional de escolares da 1ª série do 1º grau. Uma variável ou medida corporal, usada isoladamente, tem pouca utilidade na avaliação nutricional de indivíduos e/ou populações. Para fins de diagnóstico nutricional individual ou coletivo é preciso construir índices antropométricos ou índices nutricionais. A construção de um índice antropométrico consiste na combinação ou associação de duas ou mais medidas corporais com a finalidade de estabelecimento de 22 um diagnóstico nutricional. Portanto, a combinação de distintas medidas corporais, tais como peso, estatura, idade e gênero, tem possibilitado a construção de vários índices antropométricos, por exemplo: Peso para Idade e sexo (P/I); Estatura par Idade e sexo (E/I); Peso para Estatura e sexo (P/E)7,8. As variáveis antropométricas assumem a denominação de indicadores do estado nutricional, quando, nas medidas das dimensões do corpo, incluímos elementos de comparação e de julgamento. Estes elementos de comparação e de julgamento são as escalas dos indicadores (medidas dos graus, valores ou parâmetros que a variável pode assumir dentro da concepção de “normalidade nutricional”9 adotada). Ou seja, as escalas dos indicadores são determinados valores ou parâmetros “considerados normais” que, quando comparados com valores inferiores ou superiores, atestam a alta probabilidade do indivíduo apresentar um problema nutricional7,8. No decorrer de nosso estudo estaremos constantemente abordando estes conceitos. Passaremos, agora, ao estudo das diferenças entre método clínico e método epidemiológico de avaliação do estado nutricional. 3 DIFERENÇAS ENTRE O MÉTODO CLÍNICO E O MÉTODO EPIDEMIOLÓGICO Avaliar ou diagnosticar o estado nutricional de um indivíduo consiste em utilizar determinados procedimentosdiagnósticos, com a finalidade de confirmar a existência de um processo mórbido nutricional, de identificar as causas prováveis que originam o referido processo e de estabelecer as condutas terapêuticas adequadas. A avaliação clínica do estado nutricional consiste em uma das ações desenvolvidas pelo nutricionista dentro do seu processo de trabalho no atendimento à saúde, de âmbito hospitalar ou ambulatorial. A atuação em nutrição clínica consiste num conjunto de ações e atividades voltadas exclusivamente ao indivíduo. Ao realizar uma consulta ou atendimento clínico-ambulatorial, por exemplo, o nutricionista defronta-se com um indivíduo cujo problema nutricional exige uma intervenção imediata e/ou mediata. No caso de um paciente desnutrido, por exemplo, a desnutrição é a expressão ou manifestação orgânica (do biológico) da situação concreta geral, particular e individual em que este desnutrido está inserido na sociedade. Entretanto, pelas próprias características da atenção clínica, a abordagem do problema da desnutrição do paciente 23 e, sobretudo, as formas de intervenção limitam-se fundamentalmente aos aspectos de sua situação individual. Neste sentido, a atuação do nutricionista no atendimento clínico desenvolve-se basicamente na priorização e concentração de atenção aos processos que se desenvolvem ao nível do biológico e nas correspondentes técnicas e procedimentos do diagnóstico, prevenção, tratamento e recuperação de caráter individual10. 3.1 O método de investigação clínica ou avaliação clínica nutricional apresenta as seguintes características: a) Parte de processos biológicos (de indivíduos), utilizando-se, prioritariamente, dos conhecimentos das ciências naturais; b) Possibilita, com eficiência, a identificação das manifestações (ou variações) orgânicas produzidas, bem como a identificação de determinados níveis de relações causais (imediatos e mediatos), mas não possibilita a identificação das relações causais básicas e c) Permite intervenções adequadas sobre alguns dos efeitos de processos individuais, mas não atua, de forma eficaz, sobre as causas e sobre os processos sociais. 3.2 O método de investigação epidemiológica em nutrição ou a avaliação do estado nutricional de populações ou coletividades apresenta alguns pontos comuns ao método de investigação clínica, já que ambos seguem os princípios gerais da investigação científica. Entretanto, pelo seu caráter mais abrangente, ao estudar os processos nutricionais dentro de sua dimensão social, a avaliação nutricional de populações reveste-se de certas especificidades: a) Parte do geral, do estrutural (da organização social), utilizando-se, prioritariamente, dos conhecimentos das ciências sociais; identifica o particular e descreve e explica o individual; b) Possibilita, com maior eficiência, a explicação não apenas dos efeitos ou conseqüências, mas das relações causais (básicas, mediatas e imediatas) dos processos nutricionais e c) Permite intervenções adequadas não apenas ao nível dos efeitos, mas, sobretudo ao nível das causas, uma vez que estas são direcionadas para grupos populacionais ou para a população como um todo5. 24 3.3 A avaliação do estado nutricional de coletividades constitui-se, portanto, numa das ações da atuação do nutricionista em saúde coletiva (ou saúde pública). O processo de trabalho do nutricionista em saúde coletiva é uma extensão da atuação clínico-nutricional de caráter individual. Ao realizar uma visita domiciliar a um paciente ambulatorial, o nutricionista, mesmo direcionando o objetivo desta visita do acompanhamento da situação nutricional individual e biológica do paciente, está rompendo os limites da prática individual e curativa. Ao realizar uma visita domiciliar, o nutricionista defronta-se não apenas com um indivíduo, mas com sua família, com seus vizinhos, com as condições de moradia e de vida deste indivíduo e da população de abrangência da unidade sanitária. Da visita domiciliar de caráter individual, a atuação do nutricionista vai ganhando um caráter coletivo, na medida em que ele vai identificando a área geográfica de sua abrangência; localizando as residências de seus pacientes; identificando as condições individuais, particulares e gerais que determinam os problemas nutricionais de seus pacientes; identificando e quantificando a prevalência e a natureza dos problemas nutricionais; identificando as alternativas utilizadas na resolução destes problemas. A conduta dietoterápica de caráter individual vai, aos poucos, assumindo um caráter coletivo. A atuação do nutricionista é direcionada, não apenas a um indivíduo isolado, mas a grupo de indivíduos ou á comunidade como um todo. A atuação não assume apenas um caráter curativo, mas associa a este um caráter de promoção e proteção, no sentido de melhorar as condições alimentares e nutricionais de toda a comunidade10. 4 OS DIFERENTES MÉTODOS DE AVALIAÇÃO DO ESTADO NUTRICIONAL Como se avalia (mede, diagnostica, quantifica, qualifica, explica) o estado nutricional de uma população? Diferentes métodos, técnicas e procedimentos têm sido utilizados em estudos sobre o estado nutricional de populações. Sobretudo a partir dos anos 60 do século XX, os estudos populacionais sobre o estado nutricional foram bastante enfatizados por 25 organizações internacionais, como a Organização Mundial de Saúde (OMS) que, a partir de então, passaram a desenvolver esforços no sentido de padronização e normatização dos métodos, técnicas e procedimentos de avaliação. A definição, escolha ou seleção dos métodos, técnicas e procedimentos de uma avaliação do estado nutricional encontra-se diretamente relacionada com os objetivos da avaliação. Em geral, o objetivo principal de uma avaliação nutricional de uma população consiste em diagnosticar a magnitude e a distribuição geográfica dos problemas nutricionais, identificar e analisar os seus determinantes, com a finalidade de estabelecer as medidas de intervenção adequadas11. Por outro lado, a definição dos diferentes métodos, técnicas e procedimentos de avaliação do estado nutricional de uma população encontra-se diretamente relacionada com o “modelo” de determinação dos problemas nutricionais que implícita ou explicitamente é adotado na investigação. Nos anos 70 do século XX, com a incorporação do “modelo da história natural das doenças”12 aos estudos epidemiológicos nutricionais, procurou-se adequar os diferentes métodos, técnicas e procedimentos de avaliação nutricional às diferentes fases ou períodos seqüenciais do processo nutricional. De acordo com o “modelo da história natural das doenças” (no nosso caso, as doenças nutricionais), o aparecimento e desenvolvimento de uma doença é produto do “desequilíbrio” entre os “fatores” da chamada “tríade ecológica”: o agente, o hospedeiro e o meio ambiente, os quais se encontram em constante interação e equilíbrio. Sendo assim, toda e qualquer “anormalidade” ou “comportamento anormal” em um destes três “fatores” poderiam causar alterações nos demais, provocando o desequilíbrio da tríade. Assim, por exemplo, um meio ambiente desfavorável à produção de alimentos básicos, provoca alterações na disponibilidade e no consumo de alimentos (o agente) e, conseqüentemente, sobre o estado nutricional do hospedeiro, desencadeando o processo mórbido-nutricional. Dentro deste enfoque explicativo, o período de interação e equilíbrio da tríade é chamado de pré-patogênese ou período pré-patogênico. Rompido o equilíbrio da tríade, tem início o chamado período patogênico ou patogênese que compreende um conjunto de fases seqüenciais (reservas diminuídas,reservas esgotadas, alterações metabólicas e fisiológicas, sinais e sintomas não específicos, doença) que podem evoluir para as fases de dano permanente ou morte, ou, podem “retornar” ao período de “equilíbrio” inicial12. A partir deste enfoque explicativo de determinação do estado nutricional foram difundidos os conceitos de indicadores diretos e indiretos do estado nutricional, ou, 26 para ser mais preciso, os conceitos de métodos diretos e métodos indiretos de avaliação do estado nutricional (figura 4). Os métodos diretos (estudos laboratoriais, exames clínicos e exames antropométricos) são aplicados no período patogênico, e os resultados destes estudos constituem-se indicadores diretos porque “exploram o problema em si”, ou seja, as manifestações biológicas que expressam o estado nutricional da população13. Os métodos indiretos (inquéritos de consumo alimentar, estudos demográficos e inquéritos sócio-econômicos e culturais) são aplicados no período pré-patogênico, e os resultados destes estudos constituem-se indicadores indiretos porque ‘poderão ser determinantes da situação de alimentação e nutrição da população13. Outros estudos têm utilizado outras classificações ou terminologias para estes dois tipos de indicadores. Neste sentido, aos indicadores diretos que descrevem a situação nutricional têm sido atribuídas as terminologias de “indicadores de estado”, “indicadores de desnutrição manifesta”, “indicadores de conseqüências”, “indicadores descritivos”, “indicadores reflexivos” etc. Por outro lado, aos indicadores que explicam a situação nutricional têm sido atribuídas as terminologias de “indicadores condicionantes”, “indicadores de risco e tendências”, “indicadores explicativos”, “indicadores preditivos” etc14, 15, 16, 17. 27 Exames Peso, Estatura, Dobra Cutânea, antropométricos Perímetros, IMC, RQC, etc. Métodos Exames Hemoglobina, Albumina, diretos laboratoriais Glicose, Colesterol, etc. Exames Sinais clínicos e Sintomas clínicos Os métodos de avaliação nutricional de coletividades Inquéritos Recordatório, freqüência, de consumo pesos e medidas, folhas de alimentar balanço alimentar (FBA), etc. Métodos Estudos Sexo, faixa etária, atividade, indiretos demográficos morbidade, mortalidade, etc. Inquéritos Salário, ocupação, escolaridade, sócio-econômicos hábitos, saúde, etc. e culturais Figura 4 – Métodos de Avaliação do Estado Nutricional de Coletividades 28 5 EXERCÍCIO Nº 1 Escolha uma das seguintes associações causais para, a partir dela, resolver os exercícios propostos: a) Desnutrição materna e risco de baixo peso ao nascer; b) Desmame precoce e risco de desnutrição infantil; c) Desnutrição no primeiro ano de vida e risco de mortalidade infantil; d) Sarampo e risco de desnutrição infantil; e) Alto consumo de carboidratos simples e lipídios e aumento do risco de obesidade; f) Aumento do consumo de frutas, vegetais e alimentos ricos em fibras e redução do risco de câncer; g) Consumo excessivo de gorduras e risco de câncer; h) Consumo elevado de sódio e risco de hipertensão arterial. 5.1 Construa um diagrama com um modelo hipotético causal, apresentando as variáveis associadas e adicionais que você presume que fazem parte do processo ou associação causal escolhida. 5.2 Identifique no modelo como você classifica cada uma das variáveis apresentadas. 5.3 Para cada variável identificada, apresente um indicador que a quantifique ou qualifique (Faça uma relação à parte do modelo).