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Metacontingencia - comportamento, cultura e sociedade.
Book · January 2005
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Joao CLAUDIO Todorov
University of Brasília
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Ricardo Correa Martone
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Marcio Borges Moreira
Centro Universitário de Brasília
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Metacontingências:
comportamento, cultura
e sociedade
CapyfightS cfcisffl oetsáa-
L S E le c b d lio te s A sso cia d o s. Sitnlp Ajii:< f. 20W>.
tOdC-% l» Ctfe*túS HKofVjnxj*
Todorov: Joào Cláudio, et al
Metacontingências: comportamento, cultura o sodedade -
Org. J.C. Todorov. R. C. Martone, M B. Moreira. 1-ed Santo André.
SP: ESETec Editores Associados. 2005.
171 p. 14 x21 cm
l Psicologia do Comportamento e Cognição
2. Análise do Comportamento
CDD155 2
CDU 159.9.019.4
ISBN 85 - 88303 -61 -2
ESETec Editores Associados
Solicitação de exemplares.
comorcial@esetec com. br
wyvw.esetec.com.br
Tel/fax: (11)4438-6866
Metacontingências:
comportamento, cultura
e sociedade
João Cláudio Todorov
Ricardo Corrêa Martone
Márcio Borges Moreira
Organizadores
ESETec
Christian Vichi
Fundação Universidade Federal do
Valo do São Francisco
Gisele Carneiro Campos Pereira
Universidade de Brasilia
João Cláudio Todorov
Instituto de Educação Superior de
Brasilia
Universidade Católica de Goiás
Maisa Moreira
Universidade de Brasília
Mara Regina A. Prudéncio
Universidade de Brasília
Márcio Borges M oieira
Instituto de Educação Superior de
Brasilia
Maria Amalia Pie Abib Andery
Pontifícia Universidade Católica do
São Paulo
Agradecim entos
ASguAs cnpttuk» oeste livro foram originalmente pwVicudos cm outros veículos do divulgação
cientifica. Estamos graxjs aos veiculas c fc a d o s a lx iix o o ^ g e rtil autorização para a publicação
<io3 segut^e» o rtç r»
Capitulo 02: Glenn, S.S (15)86) M citoontingcntim in Waltfon Two Pohimtyai Angtya/s antf Soc/a(
Action, 5 ,2-fl PiibíincJo ccen a autorcaçüo do fks'.#vk\rifís for Social Responsibility.
C apítulo. 03: Todorov J. C . {1087). A Constituição como M ot&cont.-<j*icla. Pstcofoçta: C & nc i£»
9 Profissão, 7 9 - 13
C apitu lo 04: Todorov. J. C. e V o re ra . M . (200-1). A^Alse expdf.mentól oo comoofiamemo e
sociedade: um novo foco c * estudo. P&cotogta: R efíexáo e Crítica. 1 7 .25-2«
C apftu lo 05: foCoroV, J. C .. Moreira. M . Prudênao M R. A. &. Pereira, G. C . C. <2CC4) O
E*tatuto da Scianvj o do Adolescente como motacroilingôocia l r M 7. S BrsndttO, F- C.
S Cor.ln. F. S. Brandão. Y. K. irgbM m an. V I M Silva A S. M. Oliani (fids.) Sobre
comportamento o cognição contingências 0 m oincoringèncías. contextos sócio-VWbais
9 0 com podamootodo terapeuta. Siinto Andié' fcSETea
C apitu lo 00; Todorov. J C . Moreira. M 8 & M orara. M (20IMJ. M otaconl'igonoes <neilock*>:
a id unrelated conlhtjencios In T. C. C. Gra&si (Org J. Contemporary chaUenyes m ttto
ben auow i approach Santo A rdré . -SET&c.
C a p itu lo 09; Glonn, S .S & M alott, M . {2 0 0 4 ) Complexity and Selection lmpllcullo>i3 foi
O rganizational Change Bvrm viut and S o d a i issues. 13. 8 5 -106 Puhllcudo corn a
autorfcaçSo 0 0 8etiavforists- for SotíaJ ReaponslbMiy.
C apitu lo 10: P.lartone, R.C , & Todorov J.C. (2005) Sobr« ■Compltfxidmfoe ftnloçflo iaiplicaçícR
»ara inudnnçii o rg an izac io n a l' oe G lenn e M alo l! Rttvísia BratW aira do Tntnpin
Camfxxlanientuf t: CttgrJtivx
C a p itu lo ll: Andnry, M A . Mirh<*l«3lo, N , &S6 ro . T M (2005) A noálise do íonftmuno» sociais-
eso nçív ido um a proposto paro a idontlficaçÃo do corn ingércín» «r.tm taçDdas e
•netacortigénda-s Rev<ste Bras.'>era be Anáitee do Comportamento (no piolo)
C apttulo1 2 : Ancery M A . & Séoo. T.M ( l í '9 7 ) O conceito 0 0 m otacontirrtf-rci#*. J-.tlnal a
veina conongônciace retorçamento e Hftrtlcfente? R B arreo , (Cry i Sot«« com coitarr^ilo
e C0 9 .11Ç&0 . Santo Andnô. ARBytea-' ESETec (pp. 108-116) |r>o prelo)
Maria E. Maltot
Mafíot & Associates
Nilza Micheletto
Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo
Ricardo Corrôa Martone
Instituto de F.tíucação Superior de
Brasília
Universidade de Brasilia
Roberto Alves Banaco
Pontifícia Universidade Catótica de
São Pauto
Sigrid S. Glenn
University of North Texas
Tereza M aria de A ze v e d o P ires
Sério
Pontifícia Universidade Católica de
São Pauto
II.SB - Inxiitulo dc rdurH<2u Sii|Kito> tfr lii jtiliu
Ti|Wi <lí Document»: DaU:
Livro 04AHV200?
A<| iiiklçAo rrocedéncm
'
Curto: Píívolo^ a
l.iKalwuçio: *iul
Preçn: RS 25.50 Sumário
Prefácio.....................................................................................................7
Capítulo 1
Os fins e os meios de uma Ciência do C om portam ento............ 9
Márcio Borges Moreira, Ricardo Corrêa Martorie, Joào Cláudio Todorov
Capitulo 2
Metacontingéncias em W alden D ois ................................................. 13
Sigrid Glenn
Capitulo 3
A Constituição como Metaconlingência.......................................... 29
João Cláudio Todorov
Capitulo 4
A n á lise E x p e rim e n ta l do C o m p o rta m e n to e S ociedade:
um novo foco de e s tu d o ....................................................................... 37
João Cláudio Todorov, Maísa Moreira
Capitulo 5
Um estudo de Contingências e Metacontingéncias no Estatuto da
Criança e do A dolescente..................................................................... 45
Joào Cláudio Todorov. Maisa Moreira, Mara Regina A Prudêncio. Gisele
Carneiro Campos Pereira
Capitulo 6
Contingências Entrelaçadas e Contingências Não-Relacionadas 55
João Cláudio Todorov, Márcio Borges Moreira. Maísa Moreira
Capitulo 7
Comportamento Social: A Imprensa como agência e ferramenta
de controle s o c ia l....................................................................................61
Ricardo Corrêa Martone, Roberto Alves Banaco
Capitulo 8
Igualdade ou Desigualdade: Manipulando um análogo experimental
de prática cultural em laboratório.......................................................81
Christian Vichi
Capítulo 9
Complexidade e Seleção: Implicações para a mudança organizacional...101
Sigrid S. Glenn, Maria E. Mallot
Capitulo 10
Comentários sobre ‘Complexidade e seleção: implicações para mudança
organizacional' de Glenn e Malott (2004)......................................... 121
Ricardo Corrêa Martone, João Cláudio Todorov
Capitulo 11
A a n á lis e d e fe n ô m e n o s so c ia is : e s b o ç a n d o u m a p ro p o s ta
p ara a id e n tific a ç ã o d e c o n tin g ê n c ia s e n tre la ç a d a s e m eta-
c o n tig ê n c ia s .............................................................................................129
Maria Amalia P. A. Andery. Nilza Michetetto, Teresa M. dc Azevedo Pires Sério
Capitulo 12
O co nce ito d e m etacon tlng ô n c ias : a fina l, a ve lha co n tin g ên c ia
de re fo rçam ento é in s u fic ie n te ? ................................................... 149
Maria Amalia P. A. Andery, Teresa M. do Azevedo Pires Sério
Capitulo 13
Introdução ao estudo de MetacontingénciasMárcio Borges Moreira
161
Prefácio
Já há algum tempo queríamos publicar um livro com artigos exclusi
vamente sobre metacontingèncias e questões sociais uma vez que os as
pectos sociais e culturais do ser humano vèm ganhando, desde a década
de 80. um relativo espaço nas publicações em Análise do Comportamento.
Não como un> novo foco de estudo, mas como uma retomada do projeto
original de B.F. Skinner, explicitado na terceira parte de Ciência e Compor
tamento Humano e em tantas outras obras de sua autoria.
No presente livro o leitor encontrará uma compilação de alguns tra
balhos de autores brasileiros sobre o assunto, trazendo alguns trabalhos já
publicados em outros veiculos de divulgação e outros inéditos.
Além das publicações de autores brasileiros o livro também apresen
ta traduções de dois outros importantes artigos de autores norte-america
nos: Metacontingèncias em Walden Dois, publicado em 1986 e do autoria de
Sigrid Glenn. considerado o artigo seminal sobre Metacontingèncias: e Com
plexidade e Seleção: Implicações para a Mudança Organizacional, de auto
ria de Sigrid Glenn e Maria Mallot. O primeiro destaca-se por sua importância
histórica e pelo mérito de retomar o interesse, de forma explicita, pelos as
pectos sociais do comportamento humano O segundo dostaca-se pela atu
alidade e pelas vividas discussões geradas recentemente ao ser publicado
no periódico Behavior and Social Issu&s {2004, vol.13).
Os trabalhos apresentados neste livro versam, de forma geral, so
bre a pertinência, relevância e definição do que tem sido discutido sob a
alcunha de Metacontingència em Análise do Comportamento. Diversos
aspectos do assunto são abordados com maior ou menor ênfase em cada
texto (e.g. metodologia, definição, aplicabilidade, interpretações de acon
tecimentos recentes, como os "atentados terroristas" de 11 de setembro, á
luz do concoito, dentre outros).
O presente trabalho surge, também, em um momento muito oportu
no. pois seu lançamento ocorre concomitantemente á realização de um
evento que. certamente, constituir-se-á em um marco histórico nos estu
dos sobro Metacontingèncias: Think Tank on M etacon lfngenc ics and
C u ltu ra l Ana lys ls , que ocorrerá em agosto de 2005, em Campinas, e con
tará com a participação de 16 importantes nomes da Análise do Comporta
mento brasileira o mundial com o intuito de abordar quatro questões funda
mentais:
1 Quais são as opções que temos para caminharmos em d i r e to a estu
dos observacionais ou ao menos podermos empreender modestos tra
balhos experimentais, a partir de um trabalho que tem se caracterizado
pela interpretação?
2. Quais são os caminhos para uma ação efetiva em direção à mudança
cultural?
3. Como o instrumental teórico da análise do comportamento pode auxiliar
na compreensão dos fenômenos sócio-culturais?
4. Quais são os caminhos para que possamos estabelecer interface com
outras áreas do conhecimento?
Recomendamos ao leitor que entra em contato com este assunto
pela primeira vez, através desse livro, que comece sua leitura pelo Capitulo
13. Este capítulo é uma introdução ao conceito de metacontingência elabo
rado em forma de instrução programada, uma tecnologia de ensino bastan
te utilizada em décadas passadas, sobretudo por analistas do comporta
mento, para aumentar ou refinar o repertório verbal de seus alunos.
João Cláudio Todorov
Ricardo Corrêa Martone
Márcio Borges Moreira
Agosto/2005
Os fins e os meios de uma
Ciência do Comportamento
Márcio Borges Moreira
Ricardo Corrêa Martone
João Cláudio Todorov
O comportamento social pode ser definido como o comportnmento
de duas ou mais pessoas em relação a uma outra ou em conjunto em
relação ao ambiente comum. Com frequência se argumenta que é
diferente do comportamento individual e que há situações sociais' e
‘forças sociais ' que não podem ser descritas na linguagem da ciência
natural. Diz-se que requer uma disciplina especial denominada 'ciên
cia social' por causa dessa aparente ruptura na continuidade da na
tureza. Há, é claro, muitos fatos referentes a governos, guerras, mi
grações. condições econômicas, procedimentos culturais, etc. - que
nunca se prestariam a estudo se as pessoas não se juntassem e se
comportassem em grupos, mas ainda assim continua a questão de
se saber se os dados básicos são fundamentalmente diferentes. Aqui
nos interessamos (>elos métodos das ciências naturais como os vi
mos funcionando na Fistca, na Química, na Biologia, e com os ter
mos aplicados ao campo do comportamento. Até onde nos levaráo
no estudo do comportamento de grupos?" (Skinner. 1953/2000. p.
325).
É desta forma que Skinner inicia a quarta seção de Ciência e Com
portamento Humano (C&Chf), seção esta intitulada: "O Comportamento das
pessoas em grupo". C&CH. que foi escrito em 1953 e é considerado por
muitos a 'bíblia" da Análise do Comportamento, é, sem dúvida uma obra de
reíorència fundamental. Esta quarta seção é composta pelos capítulos ‘ Com
portamento social”, "Controle pessoal* e "Controle pelo grupo*. A quinta
seçáo se intitula "Agências controladoras", fazendo referência em capítu os
distintos a 'Governo e lei’ , "Religião", 'Psicoterapia", “Controlo econômico",
e “Educação". Por fim, a ultima seção. Intitulada “O controle do comporta
mento humano", versa sobre "Cultura e controle”, "Planejamento de uma
cultura" e *0 problema do controle". Praticamente um terço de Ciência o
Comportamento Humano é dedicado ao comportamento do indivíduo inse
rido em um contexto sóao-cultural.
10 M a r a o B o rg o n fA ifattti, R ic u td o C a rrA c M a r u n * . J o i » O a j c J ' j T g o o io v
Ainda antes da publicação de C&CH, em 1948. Skinner publica
Walden Two, uma obra definida, pelo próprio Skinner. desta forma:
"Minha novela utopista... publicada há quarenta anos foi uma anteci
pação ficc io n a l daquilo que veto a se r cham ado análise
comportamental aplicada Ela descreve uma comunidade em que
instituições governamentais, religiosas e capitalistas sào substituí
das por controle face a face. Os novos membros começam seguindo
regras simples, com o auxilio de instruções e aconselhamento, e seu
comportamento é logo posto sob o controle de contingências soci
ais cuidadosamente planejadas .. Como todas as utopias, Walden
Two tenta resolver os problemas da cultura, todos de uma vez e
não um a um. Ê provável que não consigamos nos direcionar para
esse lipo de mundo melhor, mas, penso eu, é valioso té-lo como um
modelo.'(Skinner, 1989/1991, p. 115, grifo nosso).
Vemos claramente neste trecho a preocupação de Skinner em forjar
uma ciência do comportamento cujo objetivo maior seria o planejamento
cultural.Ao longo de sua produtiva carreira Skinner publicou várias obras,
como Frvedom and the control o fm en (1955), The design ofcultures {1961),
The design o f experimental communities (1968), 8eyond freedom anddignity
(1971) e Reflections on behaviorism and socie ty (1978) Upon Furlher
Refíection (1987) que expressavam sua preocupação com o planejamento
cultural e exploravam idéias acerca de "como a ciência pode ajudar?’ .
Mesmo tendo sido o planejamento cultural, norteado por uma ciência
do comportamento, tantas e tantas vezes ressaltado por Skinner. este aspecto
do comportamento humano parece ter sido relegado a um segundo plano den
tro da própria Análise Experimental do Comportamento. Como ressaltado pelo
próprio Skinner. “é o indivíduo que se comporta. O problema apresentado pelo
grupo maior ó explicar por que os indivíduos se comportam juntos." (Skinner.
1953/2000, p. 340). Mesmo olhando para o grupo, o foco principal sempre será
o indivíduo, mas será que existe algo mais a ser considerado quando o ambi
ente do individuo é um grupo social? A resposta a esta pergunta ainda é con
troversa. mas. graças a SigridGlenn (1986) esta pergunta tem. pelo menos,
sido feita por alguns analistas do comportamento.
Sigrid Glenn (1986) trouxe o assunto à tona com o conceito do
m etacontingênc ia , de fin ida por e la com o con tingênc ias ind iv idua is
entrelaçadas {bterlocking em inglês, no original), em que todas elas juntas
produzem um mesmo resultado a longo prazo. Metacontingèncias envol
vem contingências socialmente determinadas. O elo de comportamentos
individuais em uma metacontingência é a conseqüência a longo prazo que
afeta toda a sociedade (ou grupo de pessoas).
É verdade que ainda há muito o que aprender sobre o comportamen
to do individuo. ainda temos muito o que aprender sobre o comportamento
dos nossos tão conhecidos sujeitos experimentais náo-humanos (ratos e
pombos) e, de importância fundamental, temos que aprender ainda muito
mais sobro comportamento verbal. No entanto, não é verdade que o conhe
cimento produzido até o momento em Análise Experimental do Comporta
mento não seja suficiente para que haja, entre os analistas do comportamen
to. tentativas de a lçar vôos maiores, mesmo que inicialmente apenas
camila paiffer
Highlight
camila paiffer
Highlight
W nt»»ci«tlirí)êf*sM *: o ^ n p o ta iru M rio . c l <Ij t a « v j i in d m j« 11
especulativos - no bom sentido da palavra - no intuito de analisar e compre
ender fenômenos culturais (o terceiro nível de seleção pelas consequências).
Questões de amplo interesse social, e que resgatam a responsabili
dade social proposta por Skinner desde os primórdios de sua carreira, têm
sido abordadas recentemente por vérios analistas do comportamento. Siste
mas sócio-econômicos (Kunkel, 1991; Lama!. 1991; Rakos. 1991; Rakos.
1989), política (Goldstein & Pennypacker, 1998; Lamal & Groenspoon, 1992:
Todorov, 1987). educação (Greenspoon, 1991), políticas públicas (Hovell,
Wahlgren & Russos, 1997; Mattaini & Magnabosco, 1997), sistemas peniten
ciários {Ellis. 1991), e o controle do comportamento por intermédio da infor
mação (Guerin. 1992; Martone, 2003; Rakos. 1993) são alguns dos temas
estudados por alguns (ainda muito poucos!) analistas do comportamento.
Vale ressaltar também o brilhante esforço de alguns autores que vôm desen
volvendo teoricamente o conceito, discutindo sua pertinência, suas implica
ções metodológicas e a necessidade de construir parâmetros para que se
possa de lato caminhar rumo à sua aplicabilidade (Andery & Sério, 1999;
Glenn. 1991; Todorov. Moreira & Moreira, 2004).
Desenvolver ainda mais os temas apontados acima e tantos outros
que podem e devem ser alcançados por uma ciência do comportamento é
de importância fundamental no mundo atual, sobretudo quando deparamo-
nos com problemas que á primeira vista nos parece não existir qualquer
solução a médio prazo. O recrudesci mento do terrorismo em muitas partes
do mundo e a extrema pobreza observada em muilos paises são alguns
dos problemas que não dependem somente de 'vontade política*. Necessi
tamos cada vez mais de mudanças, mudanças estas que de fato produzam
efeitos duradouros e que beneficiem o maior número de pessoas possível.
Temos ainda um longo caminho!
Referências Bibliográficas
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camila paiffer
Highlight
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Skinner, B F (1991). Questões rocontos na análise comportamental Tradução de
A. L. Neri. São Paulo: Papirus. (trabalho originalmente publicado em 1989)
Metacontingências em
Walden Dois1
Sigrid Glenn
Li pela primeira vez a novela utópica Walden Dois, de B.F.Skinner,
por voita de 1972 g estive a ponto de fazer minhas malas: seguramente
alguem foz algo para que isso pudesse acontecer. Desde aquela época
tenho ouvido sobre comunidades planejadas nos moldes da utopia de
Skinner - especialmente Twin Oaks e Los Horcones. Entretanto, eu quero
uma utopia com o re tra tada no liv ro - v inda d ire tam ente da escrita
skinneriana. Talvez, assim como Estragon e Vladimir na peça de Samuel
Becket. eu esteja esperando por um GorJot que trará a Terra Prometida até
mim. Ao menos aguardo por um Frazler, o planejador fictício de Walden
Dois, o qual saberá o que fazer e como fazer.
Provavelmente,uma solução que nos leve a um mundo melhor deve
embasar-se no planejamento de melhores contingências em nosso ambien
te atual para que alcancemos esse objetivo. Além disso, devemos começar
agora e a partir do ponto em que estamos. Ir a algum lugar qualquer a espera
de um sábio planejador cultural, provavelmente, não tomará nosso inicio mais
fácil. Nossa tarefa implica em encontrar um caminho através da selva que se
encontra entre nós e a Terra Prometida, planejando e construindo os veícu
los necessários, que nos levaráo até lá. Em suma, nós devemos criar uma
tecnologia que envolva mais do que “aplicaralguns poucos princípios gorais”
(Skinner. 1969, p.97).
Com esse objetivo, tenho gastado algum tempo buscando compre
ender as diferenças fundamentais entre Walden Dois e nossa própria cultu
ra. Tentei para mim mesma clarificar algumas discriminações de Skinner e,
quando necessário, utilizei inslghls de outros pensadores radicais perten
centes ou não ao campo da análise do comportamento. Estou aqui para
contar meu progresso - pelo menos acho ter sido um progresso - enquan
to ou caminho através da selva.
Contingência e Metacontingências
Alguns anos atrás, ao tentar descrever alguns elementos que nos apro
ximavam de Walden Dois no Center for Behavioral Sludies, trabalhei no senti
do de distinguir entre dois tipos de contingências que pareciam estar em ope-
1 T iaduçd o d e Gfonn. S .S . (1 9 8 6 ) M olacontlrydncius I r W aldon Two. 8eh av lu ra l A ra lys i» ;»nd
Social A c to n , 5. 2 -8 , puW kada c o t i a autorização do B^avx>rí;,ts for S o d af Rosponslbility. Este
penôdico tm nslo im ou-sa r o Üehavior and Scx.iol Issues cujo cor*teí»do podit $<*• aces-satío em
liCp .'''/Av'>v b fe .o rg . Tradução realizada por Ricar<ío C crrèa M ar.ono e Diogo Seoo C e rq u e Ryrw ira
14 S g r i d G lo tv i
raçâo lá: 1) relações de conbngênda entre uma dasse de respostas e uma
conseqüência comum - contingências de reforçamento - e 2) relações de
contingência entre uma classe de operantes e uma conseqüência cultural co
mum. A esse segundo tipo de relações de contingência dei o nome de
metacontingêndas. Algum tompo depois oompreendi que eu estava traduzin
do em eventos cotidianos, ou talvez esclarecendo para mim mesma, a diferen
ciação entre a seleção do comportamento operante em indivíduos e a seleção
de práticas culturais em sociedades feita por Skinner. Parece-me que a dife
rença crucial entre o nosso mundo e Walden Dois está nas metaoontíngèncias.
Antes de prosseguir, permitam-me esclarecer a diferença entre contingêndas
e metacontingêndas.
Um operante ê um grupo de respostas de topografias variadas que
foram aglutinadas em uma classe funcional por terem produzido unia conse
qüência comum A contingência de reforçamento é a unidade de análise que
descreve as relações funcionais entre o comportamento operante e o ambi
ente com o qual o organismo que se comporta interage. A contingência de
reforçamento envolvo um processo de seleção no nível comportamental que
mantém um paralelo com o processo filogenético chamado seleção natural,
devendo sua existência a ele. Embora muitas das relações que surgem entre
o comportamento operante e o ambiente se configuram como o resultado de
uma história individual - a maioria das relações estabelecidas entre seres
humanos e o ambiente assim se caracteriza - o processo õ diretamente
mediado pela biologia do organismo.
Bater á porta, chamar, girar a maçaneta e empurrar a porta, inserir a
chave na fechadura e girá-la, entre outros, são exemplos freqüentemente
citados de respostas que conduziram historicamente à porta aberta, cons
tituindo assim uma classe operante. A conseqüência re fo rça d o r ê imedia
ta e, como Michael (1984) apontou, temos que procurar por outras explica
ções para o fortalecimento dos comportamentos que estão amplamente
separados no tempo de suas conseqüências.
A metacontingência é a unidade de análise que descreve a relação
funcional entre uma classe de operantes, cada operante possuindo sua pró
pria conseqüência imediata e única, e uma conseqüência a longo prazo co
mum a todos os op o ra n te s que pe rtencem à m e ta co n tin g ê n c ia .
Metacontingêndas devem ser mediadas por contingências de reforçamento
socialmente organizadas. Tomemos como exemplo os vários comportamen
tos envolvidos na conseqüênda a longo prazo ’ redução da poluição do ar*.
Engenheiros devem se engajar em vários operantes necessários na elabora
ção de catalisadores para escapamentos de automóveis: os trabalhadores
da linha de montagem devem aprender a construi-los e encaixá-los correta
mente; os consumidores precisam comprar esses automóveis assim como
abastecê-los com gasolina sem chumbo; as refinarias devem desenvolver
técnicas para retirar o chumbo da gasolina. A probabilidade de todos esses
operantes ocorrerem sem contingências mediadas socialmente parece ser
pequena. As contingências de mediação são planejadas e implementadas
em virtude de sua relação com o efeito a longo prazo como. por exemplo,
reduzir a poluição do ar.
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M W K iy t t ln g f t r c t M ' r n T p c r t a T u i t t a c U tu ra • »co «> .1nOi* 15
O comportamento verbal ô uma ligação fundamental entre contingên
cias e metacontingèncias, ao menos de dois modos. Primeiro, o comporta
mento verbal em forma de regras preenche o vácuo existente entre o com
portamento e a conseqüência a longo prazo. Isto é, o comportamento verbal
possibilita que um ato único, a dedaração de uma regra, ocorra em resposta
a eventos amplamente dispersos no tempo Como um estimulo discriminativo
a regra deve então fazer parte da contingência de reforçamento que gera e
mantém comportamento o qual não ocorreria na sua ausência. Por exemplo,
a regra: "abraçar o meu filho quando ele se aproxima de mim com um sorriso
resulta em mais sorrisos"è comportamento verbal sob controle de estimulos
de eventos não relacionados temporalmente. Uma vez sondo bem formula
da a regra pode ser usada para trazer outros comportamentos sob o controle
de estímulos dessa relação. O segundo modo como o comportamento verbal
participa das metacontingèncias é quando o reforçamento social fomeco as
conseqüências que mantém o comportamento sob cont/ole das regras até o
momento em que as conseqüências a longo prazo possam ser distinguidas.
Todos aqueles que buscam ensinar clientes ou estudantes a reforçarem com
portamento desejável de outras pessoas, sabom quo as mudanças almeja
das no comportamento ocorrem tão vagarosamente, tão distribuídas ao lon
go do tempo e tão cindidas do comportamento do agente de mudança para
funcionar como reforçamento sem a mediação social'(a.gr.. gráficos de de
sempenho, elogios etc.)
Muitas das contingências de reforçamento em Waiden Dois são simi
lares ás de nossas próprias vidas. Quando apertamos o botão do interru|X>r
de luz, a luz se acende; quando dizemos ‘ bom dia”, as pessoas respondem
com uma saudação. No entanto, quando nos referimos às metacontingèncias
as coisas são bem diferentes. Assim, o comportamento verbal que interliga
as duas é necessariamente diferente. Desde o instante em que o que dize
mos sobre o mundo cria nossos conceitos a respeito da realidade, as
metacontingèncias parecem ser o rabo que balança o cachorro^
Desde que Skinner apresentou Waiden Dois como uma utopia, pode-
se perguntar se as metacontingèncias dispostas na comunidade utópica pos
sivelm ente são mais prováveis de prom over sobrevivência do que as
metacontingèncias dispostas em nossa própria cultura. Como toda ficção,
V/akien Dois nos apresenta um retrato e deixa que abstraiamos as regras.
Mas Skinner nos dá uma pista, a qual me levou à presente análise oas
metacontingèncias em WaidenDois e suas relações com sou caráter utópico.
Processos Culturais Tecnológico e Cerimonial
Logo nas primeiras páginas de Waiden Dois. Skinner retere-se ao livro
Teoria da Classe Ociosa, de Thorstein Veblen. Nesse livro Veblen distinguiu
entre dois processos culturais opostos os quais acreditava operarem em nos
sa sociedade assim como om outras - processo tecnológico e processo ceri
monial. Embora Veblen deva ter considerado essas forças imutáveis, como
•' N .T : A autora utÜtea o ditado apare*’ tem erve aludindo ao fato do aer Indlscarnlvol so o nx jrd o c íií i
nossa percepção d e realidade ou o contráno.
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16 SISJIC G(«'in
Yin e Yang, bem e mal, ou como a força da vida e a força da morte, Walden
Dois parece representar a hipótese de Skinner de que essas forças na verda
de não são imutáveis, mas sim, emergentes do comportamento humano -
muitas das quais são funções de contingências de reforçamento, portanto
mutáveis. A diferença entre Walden Dois e nossa própria cultura está no fato
de Walden Dois ter eliminado os processos culturais cerimoniais e dispor de
metacontingéndas que sustentam procossos tecnológicos. Em um trabalho
anterior (Gtenn, 1985) analisei as contingências comportamentais subjacentes
a esses processos. Um resumo dessa análise auxiliará na comproensão das
metacontingéndas dispostas em Walden Dois.
Contingências tecnológicas envolvem comportamentos que são manti
dos por mudanças não arbitrárias no ambiente. Os reforços que participam
das contingências tecnológicas derivam seu poder de sua utilidade, de seu
valor, ou de sua importânda às pessoas que estão envolvidas nesses tipos de
contingências, assim oomo de outras. Por outro lado, contingências cerimoni
ais envolvem comportamentos mantidos por reforços sodais os quais derivam
seu poder do status, da posição ou da autoridade do agente reforçador inde
pendentemente de qualquer relação com as mudanças ambientais que, direta
ou indiretamente, beneficiam as pessoas que se comportam.
O controle cerimonial pode ser exemplificado pola expressão: 'Faça
porque estou dizendo para fazê-lo" Já o controle tecnológico pode ser
exemplificado, primeiro, pelo comportamento que partidpa das contingên
cias naturais de reforçamento (alavancas e roldanas são utilizadas, pois
permitem construir mais rapidamente) e. segundo, por contingências soci
ais planejadas que medeiam as relações entre comportamento e os efeitos
resultantes em motacontingencias tecnológicas (T a ça isso, pois o resulta
do será melhores condições de saneamento, por conseqüência, melhores
condições de saúde").
As metacontingéndas envolvidas em comportamento tecnológico
aglutinam um grande número de dasses operantes (ou um grande número
de indivíduos), as quais apresentam uma conseqüência a longo prazo que
be n e fic ia todos os in d iv íd uo s e nvo lv idos na m e tacon tingênc ia .
Metacontingéndas tecnológicas requerem a abstração de boas regras, ou
seja, regras que descrevam com acurácia as relações funcionais entre o
comportamento e conseqüências não arbitrárias imediatas ou conseqüênci
as a longo prazo Essas metacontingéndas envolvem também a mediação
do comportamento verbal do especificar regras, as conseqüências dispostas
para o seguimento das rogras e o continuo monitoramento dos resultados de
soguir regras. Motacontingônciao tocnológicas solicitam que façdilius uuns-
tantemente a seguinte pergunta: as conseqüências ainda são aquelas inid-
almente previstas? A regra ainda é boa?
Metacontingências conflitantes
De acordo com Clarence Ayres (1944-1962). discípulo de Veblen, pro
cessos tecnológicos impulsionam os culturas adiante - utilizando nosso pró
pria terminologia, processos tecnológicos aumentam o alcance e a efetividade
do comportamento operante nas mudanças ambientais, aumentando a so
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M e l n c o r t r v j « i c i * v c O T j w r t à m j i l o . c u l t u - a o » o p o d a t f o 17
brevivência e a satisfação do grupo e do indivíduo. Contingências cerimoni
ais impedem a evolução do comportamento operante, em especial, daqueles
operantes definidos oomo "práticas culturais". Os processos cerimoniais for
çam as práticas culturais para dentro de esquemas rigidamente definidos,
mantendo-os assim por intermédio de controle social derivado de status,
posição ou autoridade. À medida que práticas casuais resuttam om conseqü
ências a longo prazo benéficas aos membros da cultura, o controle cerimoni
al não deve ser terrivelmente prejudicial. Mas o controle cerimonial não ò
sensível às possibilidades de mudanças construtivas. Metacontingéncias ce
rimoniais retardam e Impedem mudanças de qualquer tipo. mesmo quando
as contingências atuais produzem sérios problemas.
Ayres sugeriu que a rápida evolução cultural ocorre em culturas no
m om ento em que os processos cerim onia is desfalecem e processos
tecnológicos pressionam de forma incontrolável. produzindo massivas mu
danças em curtos espaços de tempo. Tais mudanças, claro, possibilitam a
oportunidade para o surgimento de novo controle cerimonial, pois um novo
grupo poderoso passa a ter o controle através da autoridade e do status
ganhos em decorrência do seu papel no desenvolvimento de tecnologias
avançadas. Os vários grupos cujo comportamento tecnológico produziu as
mudanças revolucionárias, agora, adquiriram status e tendem a estacionar a
evolução cultural e manter o controle pela autoridade Controle cerimonial
mantém-se por si só, controle tecnológico assegura mudança
Como apontado por Skinner em Ciência e Comportamento Humano
(1953), o desenvolvimento tecnológico ocorreu rapidamente em domínios
sobre os quais se empregou o método científico. A discrepância entre o pro
gresso tecnológico nas ciências física e biológica e o progresso tecnológico
das ciências comportamental e social levou a um perigoso desequilíbrio em
nosso poder de lidar efetivamente com o ambiente fisico e com o comporta
mento de grupos e indivíduos na cultura. Já que nós não estamos propensos
a virar as costas às tecnologias que melhoraram a vida dos seres humanos
de forma significativa, Skinner sugeriu que nos movimentemos adiante para
desenvolvermos as tecnologias comportamentais necessárias para reparar
esse desequilíbrio
Em Além da Liberdade e Dignidade (1971) Skinner sugeriu que a
nossa falha continua em corrigir o desequilíbrio do progresso tecnológico
nas duas arenas é o resultado de nossa tenacidade om apegar-nos a uma
visão da realidade produzida por progressos tecnológicos antigos. Essa
visào esta sendo mantida por controle cehmonial e continua a impedir o
desenvolvimento de tecnologias comportamentais necessárias para a so
brevivência de nossa cultura
Um recente exemplo de um impedimento cerimonial a um progresso
tecnológico em práticas culturais, pode ser encontrado na recusa generali
zada em im plem entar ou incentivar o desenvolvim ento da poderosa
tecnologia educacional denominada Instrução Direta. Como podemos nos
responsabilizar pela profunda indiferença de nosso sistema educacional e
pelo financiamento a uma tecnologia que demonstrou ser capaz de produ-
18 S ig rid G iw v i
zir competência em habilidades académicas básicas om populações previ
amente condenadas ao fracasso? A decisão irracional do promover proje
tos que falham em produzir tais resultados e negar verbas para aqueles
que apresentam sucesso (Carnine, 1984) sugere que a efetividade e o re
sultado não foram os critérios a partir dos quais a decisão foi tomada. Ao
considerarmos a necessidade critica presente em nossa cultura, de uma
população capacitada para participar das atividades técnicas e socialmen
te complexas atualmente exigidas, rião seriam necessárias muitas deci
sões para assegurar nossaprópria extinção cultural. Por outro lado, Waiden
Dois é apresentada por Skinner (1985) como tendo realizado uma comple
ta reversão em suas práticas educacionais entre 1948 e 1984.
Processos Tecnológico e Cerimonial em Waiden Dois
Drásticas transformações nas práticas educacionais de Waiden Dois
foram completamente previsíveis dadas as metacontingènrias sob as quais
a comunidade é retratada om seu funcionamento. As metacontingéncias fo
ram especificamente planejadas a permitir tais mudanças. Waiden Dois é
uma comunidade experimental Isso não quer dizer que a comunidade é um
experimento, mas sim que a comunidade experimenta. Em Waiden Dois o
valor de qualquer comportamento é explicitamente julgado em termos de
suaS conseqüências práticas para os seus membros. Essas conseqüências
beneficiam diretamente a comunidade e a todos os seus componentes?
Waiden Dois foi planejada de modo que as conseqüências benéficas
tenham precedência no desenvolvimento de suas práticas culturais. Quais
características de planejamento foram incorporadas por Frazier para asse
gurar tais resultados? Eu acredito existirem ao menos duas características
que se relacionam uma à outra. A primeira é a abolição de instituições mantidas
por controle cerimonial; a segunda é a relação clara entre as contingências e
as metacontingéncias em Waiden Dois.
Ausência de Controle Cerimonial
Vamos examinar, primeiramente, as evidências da abolição do con
trole cerimonial em Waiden Dois e seus efeitos sobre as práticas culturais.
Três instituições que têm exercido controle cerimonial em virtualmente to
das as culturas são a familia, a igreja e o estado. Desde que o controle
cerimonial deriva seu poder da autoridade ou status independente de con
siderações pragmáticas (resultados), processos cerimoniais freqüentemente
contam maciçamente com controle aversivo. Entre as três instituições, a
familia é a que provavelmente mais combine contingências cerimoniais e
tecnológicas diretamente reforçadas. A família, tradicionalmente, tem apre
sentado duas funções - fornecer segurança económica e interpessoal a
seus membros e também treiná-los a aceitar o poder cerimonial arbitrário
da autoridade.
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M w la c o i* fiu é ncia * . c o it f > c f U iT « ii io . o iN is a a c o s w d iis o 19
Em WêkJen Dois, a familia como uma unidade funcional não existe.
Suas características desejáveis, prover segurança interpessoal e econômica,
foram assumidas pela comunidade como um todo: seu poder cerimonial desa
pareceu uma vez que o grupo familiar não obtém o controle de quaisquer
reforçadores que não possam ser obtidos pelos membros individuais indepen
dentemente. Todos os reforçadores em Walden Dois estão disponíveis a todos
os membros durante todo o tempo, contingentes somente aos comportamen
tos requeridos para produzi-los. O critério fundamental para a abolição do con
trole cerimonial é a igualdade econômica. Com a ausência de controle cerimo
nial cada membro da comunidade está livre para desenvolver o que pode ser
chamado de "relações interpessoais honestas". Reforçadores interpessoais
são completamente ooritingentes a comportamento interpessoal.
Em W alden D ois os ind iv íduos são m ais independentes e
interdependentes que em nossa própria cultura. Os recursos (condições que
fazem o com portam ento possível) e os reforçadores (conseqüências
oomportarTientais) não são contingentes à obediência cerimonial. No entanto,
para manter suas autonomias sociais relativas, os membros devem compor-
tar-so do manoira que beneficie o grupo. Isso não se torna tão oneroso, pois
qualquer benefício ao grupo automaticamente beneficia o indivíduo. Se
reforçadores sociais medeiam comportamento tecnológico, sua importância é
igual ao resultado tecnológico. A não ser que reforçadores sociais plar.ejados
façam a mediação entre contingências tecnológicas e metacontingéncias. os
reforçadores interpessoais participam somente om contingências interpessoais.
Há tempos a importância de tais relações vem sendo reconhecida.
Parafraseando a descrição de Pascal (1961) sobre a tirania - quando a
beleza demanda crença, força demanda arnor e aprendizagem demanda
medo: "Nós devemos diferentes obediências a diferentes qualidades; am or
é a resposta adequada ao charme, medo ò força e crença à aprendiza
gem". Marx (1963) colocou isso de maneira um pouco mais áspera "então,
am or só pode ser trocado po r amor, confíança p o r confiança... se você oe-
seja influenciar as pessoas, você deve ser uma pessoa que tenha um efe 'to
estimulante e encorajador sobre os outros.. Se você ama sem incitar amor
de volta, se você nào é capaz em fazer de você mesma uma pessoa ama
da. então, seu arnor é impotente” *, Skinner afirma isso de modo mais útil á
ação do que todos: “Em um mundo de igualdade econômica total, você
obtém e mantém as afeições que você merece. Vocè não pode comprar
am or com presentes ou favores, você não pode manter am or criando uma
criança inadequada e você não pode te r segurança no am or servindo como
uma boa empregada ou um bom p rovedo r'{ 1948, p 147).
Quanto á autoridade religiosa, ela não é necessária em Walden Dois,
pois a relação entre contingências e metacontingéncias é claramente
especificada. Tradicionalmente, o papel da autoridade religiosa tem sido o
de manter contingências que promovam a sobrevivência do grupo Isso
tem sido feito estabelecendo regras que são usualmente abstraídas de con-
' As cllaçôes a Pascal e Marx foram sugeridas a mim por Willinm A Luker, Professor d* Eooromia
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20 SlarkJ G le n o
tingéncias atuais (isto é. boas regras) mantendo-as por intermédio de con
trole cerimonial, mesmo que elas se tornem mal cspeciticadas como o re
sultado de contingências em mudança. Um protótipo desse caso pode ser
encontrado no Êxodo Moisés conduziu seu povo para fora do Egito onde
viviam em circunstancias relativamente suntuosas, mas sob controlo ceri
monial de seus senhores egípcios. Os frutos do comportamento tecnológico
do povo de Moisés pertencem aos egípcios, beneficiando-o somente se
seguir ás solicitações cerimoniais. Todavia, dentro de um ambiente relati
vamente caótico. Moisés tem de conseguir levar seu povo suficientemente
longe dos reforçadores do Egito antes que ele possa ter a chance de oferecê-
los a escolha de prosseguir ate a Terra Prometida. Nesse momento o povo
de Moisés entra em um pacto que o amarra conjuntamente na busca por
um objetivo comum.
O interessante desse pacto é que ele não é travado um com o outro,
mas sim com Deus. Para que o povo sobreviva como uma cultura algumas
diretrizes foram necessárias para proteger a integridade do grupo. Conse
qüentemente. Moisés desceu da montanha com os Dez Mandamentos que
parecem ter sido derivados de uma notável e astuta análise do comporta
mento necessária para manter a integridade do grupo, dada a natureza
vigente de seu ambiente social e tecnológico. Muito possivelmente Moisés
não estava em uma posição de explicar a base racional dos Dez Manda
mentos. assim como seu valor em manter a união do grupo. Assim, os Dez
Mandamentos adquiriram controle cerimonial Imediato quando apresenta
dos como a contrapartida de Deus para conduzir seu povo à Terra Prome
tida O primeiro mandamento estabeleceu a autoridade final de Deus e se
lou o controle cerimonial. Moisés tomou-se um agente de Deus.
Como esperado, logo que Moisés fez sua parte ao levar o povo até
a visão da Terra Prometida, ele morreu, talvez porque tal controle centrali
zado era perigoso uma vez que o objetivo já havia sido alcançado. Em seu
livro Êxodo e Revolução. Michael Walzer sugere que o Êxodo é o protótipo
das revoluções sociais na civilização ocidental, e que embora a Terra Pro
metida nunca vivesso completamentea altura da propaganda feita, a histó
ria nos tem servido bem para conduzir o progresso social. Talvez, nós sere
mos capazes de conseguir uma maior aproximação com a Terra Prometida
dispensando o controle cerimonial da autoridade religiosa e olhando com
maior cuidado para as contingências implícitas ás regras que seguram no
lugar nossas práticas sociais. De qualquer maneira, foi assim que Frazier
planejou Walden Dois.
A versão dos Dez Mandamentos em Walden Dois é o Código Walden.
Embora Skinner não tenha sido muito especifico quanto ao conteúdo do
Código, pode-se conjecturar seu conteúdo a partir do planejamento e do
funcionamento da comunidade. Minha hipótese sobre o conteúdo do Código
não será abordada nesse texto; o ponto importante a ser salientado é que o
Código constitui-se em uma série de diretrizes que especificam as classes
de operantes necessárias à sobrevivência da cultura. Para que o Código
tenha um efeito que não envolva controle cerimonial, o comportamento es
pec ificado deve p roduz ir conseqüências que sejam corren tem ente
reforçadoras para a comunidade assim como aumentem sua sobrevivência
MetacGnfli»£f>cl32: c â m p fó n n rrilo , c m um <? sociA jcde 21
a longo prazo. Desse modo, o Código seria possivelmente uma série de [Vós]
Deveis ao Invós do [Vós] Não deveis. Se o comportamento especificado no
Código ó para ser mantido por reforçadores sociais que derivam sua força
dos efeitos a longo prazo do comportamento sobre a comunidade, o valor
dos itens no Código devem ser avaliados em termos de sua utilidade.
Presumivelmente, o Código se transformará gradualmente à medida que a
cultura Wafden evolua. Assim, as metacontingências que mantém o compor
tam ento de acordo com o C ódigo estão em basadas em processos
tecnológicos. A autoridade cerimonial da religião é substituída pelo pragmá
tico. Desde que o que nós chamamos de aspectos espirituais da religião
possam ser conceptualizados como fenômeno comportamental (Shimoff,
1984), eles náo oferecem nenhum problema em Watden Dois,
Também o Estado é dispensado em Watden Dois. Isso é possível por
que todos os membros da comunidade são diretamente responsáveis uns pelos
outros, a comunidade é pequena o bastante para proporcionar a cada membro
o contato direto com todos os outros. Como Marx enxergou há mais de um
século, também é preciso haver igualdade económica. Walden Dois ê capaz
de funcionar sem o Estado somente porque suas metacontingências reque
rem que os resultados beneficiem a todos os membros. A funçáo primária do
Estado é impingir metacontingências cerimoniais e regular a competição por
recursos. O Estado totalitário nâo oferece contracontrole adequado ao que é
regulado, resultando invariavelmente em extremos de controle aversivo e ceri
monial por parte do governante. Também, utiliza-se facilmente o Estado demo-
crático sem igualdade econômica para manter o controle cerimonial sobre os
recursos. Mesmo desfrutando de igualdade econômica, os Estados democrá
ticos dependem da opinião pública que pode não ostar bem informada - com
portamento verbal sob controle de variáveis irrelevantes ou mesmo prejudicial
á sobrevivência da cultura. Como Walden Dois pode funcionar sem o Estado
será discutido na próxima sessão.
A ausência de controle institucional cerimonialmente mantido em
Wafden Dois ê provavelmente a característica que assusta muitos leitores
que persistem em enxergar o espectro do controle autoritário quando, de
fato. não há evidência de tal controle. Visto que a maioria dos leitores terá
experenciado controle cerimonial por pade da família, da igreja e do esta
do. e!es parecem ter dificuldades em imaginar uma comunidade onde o
controle cerimonial esteja ausente. Eles devem assumir que isso é tão oia-
bolicamente obscuro o ponto de não ser visível especialmente como o
Complexo de Édipo. sobre o qual dizem que Anna Freud não encontrou
evidências, concluindo através disso, que a possibilidade de náo haver con
trole cerimonial deve ter tamanha força para ser tão bem reprimido.
Contingências e Metacontingências em Walden Dois
O comportamento operante dos membros de qualquer cultura deve
ser classificado em termos dos tipos de conseqüências que o comportamen
to tem para os indivíduos que se comportam e para a cultura. Historicamen
te, nós temos distinguido, com algum grau de intuição, entre: trabalhar, ativi
dades de diversão e comportamento interpessoal. Trabalhar pode ser espe
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22 S ig n e G rtr in
cificado como um comportamento que é essencial para a sobrovivônda da
cultura, e por essa razão, participa de metacontingências tecnológicas. Nós
distinguimos entre trabalho e ocupação1’ pelas discrepâncias nos efeitos
tecnológicos de cada uma. Ocupar-se não leva a nada e é cerimonialmente
mantido. Atividades de diversão envolvem tipos de comportamentos que pro
duzem reforçadores não arbitrários, não apresentando uma influência direta
sobre a sobrevivência da cultura. Entretanto, a oportunidade de engajar-se
em comportamentos que produzam esses reforçadores é uma importante
característica de uma cultura com valor de sobrevivência. Comportamento
interpessoal, stríctu sensus, é aquele comportamento voltado a outras pes
soas que ê mantido pelas respostas dessas outras pessoas.
Em Walden Dois as metacontingências são planejadas de maneira
que os reforços a esses comportamentos não sejam confundidos ou mes
mo igualados. Reforçadores interpessoais não compram nada, oxceto o
comportamento interpessoal de outras pessoas. As relações interpessoais
em uma comunidade sem controle cerimonial, possivelmente, seriam exa
tamente parecidas com a forma como Skinner as retratou - simples, since
ras e inteiramente honestas. Não há razão para que sejam de outra forma.
Trabalhar não produz reforçadores interpessoais diretamente, nem oportu
nidades diferenciadas de engajar-se em diversão e os reforçadores que as
acompanham. O trabalho que envolve comportamento cooperativo ou
interativo deve ser intrinsecamente interessante para algumas pessoas,
entretanto, esse trabalho como qualquer outro é mantido pelas suas conse
qüências tecnológicas. Atividades de diversão não resultam em quaisquer
outros reforçadores que não sejam aqueles derivados das conseqüências
do engajar-se em diversão por si só, incluindo oportunidades de interagir
com outras pessoas. Como Walden Dois toi planejada de forma a assegu
rar que a tirania, como descrita por Pascal, não atrapalhe?
Primeiro, vamos olhar para o trabalho em Walden Dois. Somente as
atividades essenciais à sobrevivência da comunidade sáo designadas como
“trabalho", e por isso. administradas pelo sistema de Crédito de Trabalho. Exis
tem três tipos de trabalho em Walden Dois - trabalho manual, organização e
administração, o legislar e avaliar. Trabalho manual e administração são tipos
de trabalho que produzem conseqüências daramente relacionadas ao com
portamento operante. Remove-se o legislar para o mais distante possivel de
suas conseqüências, talvez uma razão seja porque legislar não deva receber
todos os créditos de trabalho referentes a essa atividade. Os planejadores
devem ganhar um crédito de trabalho por dia para fazer o trabalho manual.
Uma razão muito importante para o engajamento dos planejadores em algum
trabalho deve ser porque isso os coloca em contato com as mesmas contin
gências experimentadas pelos outros membros da comunidade. Ademais, essa
estratégia evita que os planejadores façam parte de uma "classe" diferenciada,
o que possivelmente instigaria controle cerimonial.
O trabalho de organizar e administrar, que também leva a privilégios
cerimoniais em nossa própria cultura, não produz privilégios parecidos em
Walden Dois. Um gigantesco segmento da população aspira a tal 'posição"MelK»rrW;jôrc3»s: oomaortíitnnivKj, c u llu '* e uiciccaOo 23
pelo fato de tais comportamentos em nossa própria cultura freqüentemente
assegurarem uma melhor posição econômica, assim como controle ceri
monial Freqüentemente, essas posições são agarradas por pessoas oue
as obtiveram por caminhos cerimoniais e não aprosentam os repertór os
comportamentais de Interesse para executar as responsabilidades do tra
balho de forma adequada. Em Walden Dois, não há nenhuma vantagem,
mas ató algumas desvantagens (longas horas de trabalho), ás pessoas
que se engajam em tal trabalho. As contingências quase asseguram que
as pessoas que tomarem parte em organizar e administrar a comunidade,
assim o farão porque o trabalho é agradável a elas. e porque os resultacos
de suas atividades beneficiam o grupo e a elas próprias
O trabalho manual é distribuído entre os membros da oomunidade de
modo que ninguém necessite trabalhar mais do que quatro horas por dia. e
aqueles que fazem um trabalho menos desejável o faz somente por duas
horas e meia ao dia. Toma-se cuidado para que o trabalho náo seja separa
do de suas conseqüências naturais; as pessoas têm muitas oportunidades
para mudar de atividade quando desejarem, todo trabalho em Watden Dois
obtém o mesmo respeito. Tal respeito existe pelo fato de todos os membros
terem acesso igual a todos os recursos, e não obterem nenhum crédito pes
soal para atividades bem feitas.
Ao arranjar as contingências do ambiente de trabalho como descrito
acima, Frazier montou as seguintes metacontingências. Primeira, para qual
quer um em Walden Dois ê vantajoso conservar os recursos, porque o nível
de vida. demonstrado pela pouca quantidade de tempo gasto no trabalho,
está diretamente relacionado à reduçào da quantidade do trabalho neces
sária para garantir a sobrevivência em um ambiente confortável, se não
luxuoso. As metacontingências dispostas em nossa cultura são completa
mente distintas, pois os indivíduos competem pela disponibilidade de re
cursos. fazem um uso maior dos recursos para competir efetivamente por
intermédio da produção, reduzindo, em decorrência disso, sua quantidade
disponível (ou o aumento do custo para utilizá-los) em nome de uma efetiva
competição. Segunda, dão-se créditos somente para atividades importan
tes ã sobrevivência do grupo e para seu bem estar físico, entrando todas
elas no sistema de Crédito de Trabalho. Define-se o valor do crédito do
uma determinada atividade pela sua preferência - o trabalho de maior pre
ferência recebe menos cróditos. Isso é eminentemente racional, pois o tra
balho que é mais valorizado em detrimento de outro tem um valor reforçador
excessivamente maior. Em Walden Dois, o valor comum é explicitamente a
sobrevivência e o bem estar do grupo. O trabalho menos reforçador possui
valor somente em decorrência de sua contribuição á comunidade - possibi
litando ao trabalhador uma quantidade de tempo máxima para se engajar
em outras atividades intrinsecamente mais reforçadoras.
Vamos agora às atividades caracterizadas como divertimento em
Walden Dois. Tradicionalmente, imaginamos as atividades de diversão como:
arte em todas as suas formas, jogos e recreação, e ciência, ao menos en
quanto pesquisa básica. Embora essas atividades sejam diferentes, asse
melham-se em dois aspectos cruciais: são atividades em que as pessoas se
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24 Signd G i«m
engajam pelo o que elas mesmas têm a oferecer; e não são essenciais para
a sobrevivência ootídiana. Períodos da história conhecidos por essas ativida
des são conhecidos como Idades Douradas. Presumivelmente são denomi
nadas assim pelo fato de terem produzido muitos artefatos que viriam a ter
um grande valor reforçador em épocas posteriores - literatura, história, arte.
música e sistemas conceituais que ordenam e fornecem um sentido ao uni
verso. Tais conseqüências exigem que muitas pessoas tenham o ócio neces
sário para poderem se dedicar a esta peculiar busca humana.
Ao longo da história humana, pouquíssimas pessoas obtiveram tem
po livre suficiente para essas atividades. Muitos daqueles quo as buscaram
assim o fizeram às custas de privações cruéis. Atualmente, pouquíssimos
indivíduos estão aptos a comprar a oportunidade de se dedicarem a tais
comportamentos negociando seus produtos nos mais elevados preços. As
metacontingências em Walden Dois estabelecem a oportunidade para que
todos seus membros possam se empenhar em tais comportamentos. Os
produtos desses comportamentos sáo disponíveis a todos os membros da
comunidade. Frazíer (quem. enquanto protagonista, freqüentemente dá voz
aos pensamentos de Skinner) prediz uma Idade Dourada em Walden Dois
sem paralelo. As pessoas não estarão exaustas em decorrência do trabalho;
estarão livres para desenvolverem seus próprios interesses; tempo e recur
sos materiais estarão disponíveis; todos viverão desde o nascimento entre
pessoas interessadas em tais atividades; e a ausência de contingências com
petitivas deveria indlnar os membros a encorajar e apoiar o empenho de
todos. As metacontingências em Waiden Dois são planejadas para fornecer
amplas oportunidades e apoiar todos os membros a explorarem arte. literatu
ra, música etc. O comportamento que atualmente evolui será modelado e
mantido pelas conseqüências intrínsecas.
Talvez o efeito mais radical notado pela ausência de controle ceri
monial em Walden Dois seja provavelmente na esfera interpessoal. O uso
de reforçadores interpessoais que comandam o controle cerimonial prova
velmente tem levado a muitos dos problemas que importunam a humanida
de ao longo da história. A concentração de controle cerimonial nas mãos
de uma minoria em uma cultura deve ter exigido que as mais fracos inclu
am controle interpessoal em contingências que não têm relação direta com
comportamento interpessoal. Esse padrão parece ter sido sistematicamen
te desempenhado nas relações entre homens e mulheres nas culturas oci
dentais. Os homens têm assegurado controle cerimonial sobre a maioria
dos recursos naturais e culturais mesmo se produzidos pelo comportamen
to tecnológico das mulheres. As mulheres têm, talvez em conseqüência ou
talvez antecipadamente, ganho acesso aos reforçadores tecnológicos fa
zendo com que reforçadores pessoais sejam contingentes ao acesso. Ho
mens com menos contro le cerim onial tam bém têm utilizado controlo
interpessoal para obter acosso aos reforçadores não disponíveis através
de comportamento mais relevante.
O desequilíbrio parece ter levado a uma profunda desconfiança entre
os indivíduos, especialmente entre os que possuem poder cerimonial, mas
camila paiffer
Highlight
MtfacomtnjAqclaK cjytiparliynerilo, cuKure » uix:<Kt(Klu 25
não apresenlarn reforçadores interpessoais: e os que possuem poder
interpessoal, mas não têm acesso aos reforçadores cerimoniais (status. po
sição etc.). Metacontingéncias culturais que sustentam controle cerimonial
garantem uma guerra fria permanente entre as partes. Talvez pior ainda, até
mesmo a possibilidade de tal troca não reciproca de reforçadores podo ter
retraído afeto genuíno onde era possível e comportamento tecnológico ge
nuíno onde ele poderia ter feito a diferença. Sansão e Dalila sáo bons mode
los. Na medida em que alguns acoitam perder seus poderes ao serem sedu
zidos por reforçadores interpessoais e alguns têm aperias reforçadores
interpessoais para ter acesso a recursos controlados cerimonialmente, pes
soas com controle cerimonial nunca estarão confiantes de que são amadas
‘ pelo que sáo" e aqueles a quem foi cerimonialmente negado acesso a re
cursos tecnológicos nunca saberão se eles tinham realmente “algo a ofere
cer* além deles mesmos (ou, mais apropriadamente, seu comportamento
interpessoal).
Governo em Walden Dois
Talvez, a característica mais difícil de entendermos em Walden Dois
é seu governo.Provavelmente, a dificuldade está no fato do governo quase
sempre se caracterizar como um agente de controle cerimonial. Em Walden
DoiSr o governo não se caracteriza assim. Nele, as pessoas que realizam o
trabalho chamado de 'governar' em Walden Dois estão trabalhando pela
mesma conseqüência a longo prazo como quaisquer outras. O trabalho de
todos faz parte das mesmas metacontingéncias. Além do mais. as ativida
des aglutinadas no 'governar" sáo tão severamente reduzidas assim como
as conseqüências que rnantém essas atividades.
O governo historicamente tem se caracterizado por algumas funções,
que incluem: estabelecer políticas e fazer leis, forçar a obediência às mes
mas. proteger a comunidade de grupos externos ou renegar membros dentro
da comunidade, ooletar taxas e gastar o dinheiro. O governo om Walden
Dois não tem nenhuma dessas incumbências, com exceção da primeira -
estabelecer políticas e regras. As outras funções do governo têm sido distri
buídas entro os outros trabalhadores em Walden Dois, muitas delas de ma
neira igualitária por toda a comunidade. Parece haver pouquíssima necessi
dade de leis em Walden Dois porque existe pouquíssima necessidade de se
regular as relações entre indivíduos ou grupos. Walden Dois funciona como
um organismo, cada componente em conjunção com os outros, todos por
um e um por todos. Não se oxige motivação altruística uma vez que as
metacontingéncias garantem que o que é bom para um é bom para todos.
De maneira geral, o papel do governo tem sido o de garantir a con
centração de controle cerimonial a um pequeno número de pessoas, inclu
indo os que participam do governo. Em oposição ao desequilíbrio, a ten
dência tem sido geralmente distribuir esse controlo entre um maior número
de pessoas. Em nonhum outro lugar pode-se observar mais claramente o
camila paiffer
Highlight
26 Cterri
resultado dessa tendência do que no comportamento de burocratas meno
res. Não importa se as circunstâncias de uma determinada situação se
igualem ás contingências que fundamentam uma regra. A regra controlará
seu comportamento porque o burocrata garantirá que ela assim o faz -
frequentemente pelo puro prazer de estar no comando. Aqui não há nenhu
ma conseqüènda do trabalho de uma pessoa além da manipulação e con
trole do comportamento de outras pessoas - para seu próprio bem.
O foco nesse processo tem sido sempre em pessoas e suas posi
ções em consideração um com os outros. Na tentativa de reparar o
desequilíbrio, os seres humanos primeiramente enxergariam no problema
uma oportunidade para dispensar o líder ruim e trocá-lo por um bom. Entre
tanto, encontrar outro líder melhor não era assim tão fácil. Primeiro, contin
gências casuais teriam que produzir, em algum lugar, um Indivíduo que
tivesse o repertório comportamental que o caracterizasse como um "bom
líder". Segundo, esse indivíduo teria de sor cerimonialmente acessível -
isto é, ter nascido dos pais corretos etc. Terceiro, o indivíduo teria que ser
reconhecido como possuidor do negócio certo; e quarto; para instalar o
indivíduo como um lider, a competição teria que ser aplacada ou arrasada.
A tendência, decorridas algumas centenas de anos, de distribuir poder
cerimonial entre muitas pessoas, mesmo através de diferentes ramifica
ções governamentais, tem sido bastante efetiva em estabelecer algum
contracontrole praticável entre indivíduos e grupos. Mas o processo embasa-
se em uma discriminação fundamental a qual tem demonstrado ser inade
quada na solução do problema A discriminação tem sido entre governantes
ruins e governantes bons, e entre pessoas ruins e pessoas boas. As mu
danças baseadas nessa discrim inação têm envolvido uma procura por
modos de garantir que as pessoas ruins não possam conseguir ou susten
tar controle cerimonial.
Se o foco fosse comportamentos desejáveis e indesejáveis seriamos
levados a contingências desejáveis e indesejáveis. O que a cultura oddental
tem se ocupado em distribuir é controle cerimonial. Quanto maior o número
de pessoas que apresentarem um pouco de controle cerimonial, melhor será
o equilíbrio de poder, e melhor será a estabilidade da cultura. Existem dois
problemas com isso. O primeiro é político. Para que o controle cerimonial
tenha algum valor, deve haver acesso direto desproporcional a reforçadores
e a oportunidades de comportar-se de modo a gerar reforçadores tecnológicos.
Assim , deve haver alguóm com desproporc iona l fa lta de acesso. A
redistribuição do poder cerimonial tem sido forçada sobre a minoria que de
tém esse poder pela maiooa que tem força quantitativa. Mas na medida em
que a distribuição atinja o meio do caminho, será a minoria que estará caren
te. deixando-a sem poderes políticos om número para contrabalanoear o
controle cerimonial dos recursos. O acesso a armas poderosas, entretanto,
não pode ser evitado indefinidamente. Assim, a esperança que poderíamos
ter de que o poder cerimonial ficaria tão igualitariamente distribuído que se
anularia ó provavelmente infundada.
O segundo problema é mais prático. Ao darmos ênfase á distribui
ção do poder cerimonial, negligenciamos a origem de todo poder real para
M o ta to n li> ]A n r.i8 h r x > T p o r la r m í o , a i f t r a *» soseJ<*do 27
mudança positiva: o comportamento oporante que produz conseqüências
não arbitrárias. Assim, nossa tendência em focar as diferenças entre pes
soas boas e pessoas ruins, faz com que negligenciemos as possíbilidacos
inerentes em discriminar comportamento útil de inútil. Em Walden Dois, as
metacontingéncias sustentam comportamento útil para a comunidade e todo
membro que participa dela. O papel do governo é simplesmente assegurar
que essas metacontingéncias sejam mantidas. Esse governo deve assim
fazer sem beneficiar poder cerimonial.
A s pessoas que compõem o governo em Walden Dois são chama
das de Planejadores. Existem somente poucos deles e seu trabalho é man
tido somente por contingências tecnológicas, assim como o trabalho de
qualquer outra pessoa. Reforçadores cerimoriialmente derivados não es
tão disponíveis aos Planejadores. O trabalho deles não é considerado um
privilégio, merecedor de reconhecimento especial, ou mais valorizado do
que qualquer outro. Eles conseguem exatamente as mesmas coisas de
seu trabalho como qualquer outia pessoa consegue - satisfação em reali
zar o trabalho por si só e os resultados do trabalho para a comunidade,
incluindo para eles próprios.
O governo em Walden Dois, como qualquer outra atividade, é visto
como comportamento operante. Ê julgado petas suas conseqüências - Ime
diata ou a longo prazo. O foco total da comunidade sobre as conseqüências
do comportamento para a própria comunidade é o que toma o controlo ceri
monial dispensável. As metaoontingências igualitárias só são possíveis devi
do à ausência de controle cerimonial. À medida que Walden Dois permanece
uma comunidade experimental, ela se gerenciará sozinha
Do Egito à Terra Prometida5
Para aqueles de nós que enxergam Walden Dois como a Terra P ro
metida e onde encontramos o Egito, ó importante lembrar que um território
vasto e ormo situa-se entre ambos. A tendência em sair e começar do zero.
em um novo lugar, onde possamos começar uma nova sociedade nunca
terá êxito porque levamos nosso velho comportamento conosco, e ele for
nece as contingências para o comportamento dos outros em nosso novo
ambiente. Então, nós poderíamos da mesma forma começar bem aqui, no
Egito, e lidar com a menor área possível, aquela com a qual temos contato
direto e contínuo - nosso ambiente doméstico, nosso ambiente de trabalho
e nossas atividades de lazer.
Para nos ajudar a caminhar através desse território eu sugiro que,
primeiro, olhemos atentamente para o nosso próprio comportamento. Pode
mos separar os reforçadores tecnológicos dos reforçadores cerimoniais vi
randoas costas a esses últimos? O que podemos fazer para fornecer um
ambiente de trabalho para outras pessoas que as coloque em contato com
reforçadores tecnológicos e diminua o efeito do contingências cerimoniais?
Agi nüoçoao professor Lukor por rtroduzw-m a a o Iwfo W atzer e por sugw ir qi*o vivam os r o E tflo .
camila paiffer
Highlight
camila paiffer
Highlight
28 _ ü < j r d õ t a n r t
Teremos coragem de dar afeto gratuitamonto sem utilizá-lo como moeda de
troca por acesso a controle cerimonial? Existe alguma maneira que possa
mos arranjar, mesmo em um pequeno sistema, para que o comportamento
de todos seja igualmente valorizado? Que todos contribuam para o bom es
tar do grupo e partilhem igualmente os produtos dos esforços grupais? Ten
do sucesso ao fazer essas atividades, poderemos progredir através desse
território ermo.
Os poucos de nós. felizardos, náo estarao juntos nessa jornada,
mas em tempos e lugares separados. Mas em decorrência da moderna
tecnologia de comunicação podemos provavelmente nos beneficiar do que
os outros estejam aprendendo à medida que façam a jornada. Talvez, nós
poderemos usar nosso tempo quando nossos cominhos se encontrarem
para relembrar uns aos outros para que estamos trabalhando E nós preci
samos começar. O tempo é curto.
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camila paiffer
Highlight
A Constituição como
Metacontingência
João Cláudio Todorov
“Demonstrando corno os procedimentos governamentais modelam o
comportamento dos governos, a ciônda pode nos lavar mais rapida
mente ao planejamento de um governo, no sentido mais amplo pos
sível, que necessariamente promova o bem estar daqueles que são
governados. " (Skinner, 1953/2000, p 482)
As metacontingências do processo cultural tecnológico aumentam
o âmbito de ação e a eficácia do comportamento que altera o ambiente no
sentido de garantir a sobrevivência e a satisfação do indivíduo e da socie
dade (são exemplos a redução da poluição ambiental e a proteção aos
direitos humanos). Por outro lado, as metacontingências cerimoniais impe
dem o surgimento de novos comportamentos, mantêm o controle social
como está, e são nocivas a longo prazo quando a sobrevivência de todos
depende da ocorrência de mudanças. Metaconbngências cerimoniais já
existem na sociedade e as regras das quais dependem estão formuladas
tácrta ou explicitamente no processo de socialização da criança. Quando
há conflito ontre metacontingências tecnológicas e cerimoniais, a vanta
gem inicial está toda com as metacontingências cerimoniais.
Vista a Constituição como a lei fundamental ou coleção de leis regen
do a natureza e as funções do Estado, e o conjunto dos direitos e deveres do
povo, vejamos como retomar a ela depois de passar por vários conceitos que
pertencem ao discurso da análise do comportamento enquanto abordagem
psicológica. Uma lei que se prezo sempre prescreve alguma conseqüência
para algum tipo de comportamento Com maior freqüência, as leis estabele
cem conseqüências punitivas e visam controlar o comportamento a ser puni
do O Código Penal autoriza certos agontes a aplicar a punição, especifican
do os parâmetros do processo. Algumas leis visam incent-var comportamen
tos desejáveis, do ponto de vista de quem redige a lei, e prescrevem conse
qüências positivas para tais comportamentos (geralmente dinheiro, que sai
do bolso de todos nós). Em outros casos é a ausência do certos comporta
mentos que é punida ou recompensada, como a omissão de socorro e a
poupança voluntária, respectivamente. Em todos esses exemplos configura-
se uma relaçáo que ó fundamental para o trabalho de análise do comporta
mento: a contingência de dois termos.
30 jo tto Clflufllo Todnruv
Contingência, como usamos o termo, é uma relação condicional entre
uma classe de respostas, ou tipo de comportamento, o conseqüências que
advêm da ocorrência desse comportamento. Os exemplos são infinitos e
banais, mas gostamos de começar pelas coisas aparentemente simples
para chegar a um entendimento mais firme dos casos complexos. Que a
simplicidade é aparente veremos logo a seguir, com um exemplo do tipo:
“Quem tropeça pode cair'’ . A frase pode ser vista como uma contingência
de dois termos, uma relação condicional entre um comportamento, trope
çar, e uma conseqüência desse comportamento, cair Não é necessário
muito pensar para concluir que cair depois de tropeçar depende também
de diversos outros fatores: afinal, "nem tudo que balança cai". Tentando
continuar com um exemplo simples, imaginemos uma escada com corri
mões onde quem sobe com as mãos apoiadas, tropeçando não cai; quem
sobe com as mãos abanando, tropeçando sempre cai Temos agora o mes
mo exemplo em dois cenários diferentes, e isso é bastante para o que que
remos explicar. Não há sentido na pretensão de se entender o comporta
mento de tropeçar sem se levar em conta o cenário e a conseqüência.
Escolhemos de propósito começar com um exemplo que envolve a
interação do homem com seu ambiente fisico. As contingências são as
mesmas em todo o mundo conhecido, independem de regras, leis ou con
venções sociais. Mesmo assim, a unidade básica de análise envolve uma
relação condicional de três termos, ou contingência tríplice: situação, com
portamento e conseqüência. Nas relações sociais, no comportamento de
pessoas interagindo com outras pessoas, a contingôncia tríplice sorve ape
nas como um instrumento de partida. Possibilita o estudo do que chama
mos de controle discriminativo do comportamento, e é extremamente útil
em áreas como alfabetização e no tratamento de deficiências graves de
repertório social, mas a não ser para os que se preocupam com os altos
índices de repetência no primeiro ano do primeiro grau ou para os sócios
da APAE, estudos que imitam a análise da contingência tríplice aborrecem
os intelectuais ocupados com os mistérios da vida e da morte.
Como dizíamos, nos assuntos humanos a complexidade é maior.
Mas é ao analisar essa complexidade que percebemos as sutilezas do con
trole discriminativo. A contingência tríplice pode ser colocada sob o contro
le de diferentes cenários. Se. na presença do Sr. X (cenário 1) afirmo "O
senhor ó um ladrão*, a conseqüência do meu comportamento vai depender
de outras condições do ambiente. Se estamos sós. se não há testemu
nhas, o Sr. X pode reagir Irado e mo agredir fisicamente, mesmo sendo um
político experiente.Se, na presença do Sr. X (cenário 1), o das câmeras de
televisão (cenário 2). faço a mesma afirmação, a conseqüência de meu
comportamento pode ser uma resposta em termos elevados e inteligentes,
como o Sr X tentando convencer o eleitorado de que. polo contrário, o
ladrão ó o outro candidato.
Quando temos uma contingência triplice colocada sob o controle
discriminativo de outros aspectos do ambiente, temos uma contingôncia de
quatro termos, também condicional, com dois termos que se referem a situ
Motacontíngflnci*»: nciirrourlaiiMiito t;u tu m t> SMtoíCKto 31
ações ambientais, um ao tipo de comportamento, e um às conseqüências
desse comportamento. D irem os, então, que a contingência de três termos,
que especifica o controle discrim nativo, está sob um controle condicional
na contingência quádrupla. Estímulos condicionais (ou contextuais) não
controlam o comportamento diretamente, mas determinam o controle oue
outros estímulos exercem sobre o comportamento.
Políticos bem-sucedidos e pessoas nomiais nâo oostumarn se preocu
par muito com exemplos do contincôncias quádruplas - afinal, a classe média
riasce sabendo como comportar-se a mesa. O assunto tem. entretanto, inte
ressado aos estudiosos dos aspectos não-lingüísücos da linguagem, aos que
se preocupam com as condições da formação de relaçõos de equivalência
entre conceitos, aos que ganham a vida como psicoterapeutas, e aos Que
tentam explicar o fracasso eleitoral de certos políticos bem conheodos.
Contingências quádruplas tambôm podem estar sob o controle de
outras condições do ambiente. Caracterizando contingências quíntuplas e
controle condicional de segunda ordem (Sidman, 1986). Usando o conceito
de contingência quintupla como ferramenta, podemos começar a falar de
conceitos mais abstratos, mas não convém agora abusar da paciência do
leitor interessado em saber o que metacontingéncia tem a ver com Consti
tuição. A intenção foi fixar o conc3ito de contingência e deixar bem claro
que não se aplica apenas a situações do tipo ‘ se correr o bicho pega’ . A
contingência é, pois, a unidade de análise que descreve as relações funci
onais entre o comportamento e o ambiente no qual a pessoa interage. A
metacontingéncia é a unidade de énálise que descreve as relações funcio
nais entre uma classe de comportamentos, cada comportamento como parto
de uma contingência específica, e uma conseqüência que ccorre a lor.go
prazo e que é comum a todos cs comportamentos inseridos em uma
metacontingéncia. Metacontingéncia» envolvem essencialmente contingên
cias socialmente determinadas.
Vejamos um exemplo arriscadíssimo. A mudança de um governo
predom inantem ente m ilitar para um governo predominantemente civil,
abreviadamente, a passagem do controle do PDS para o PMDB. pode ser
vista sobre o prisma do conceito de metacontingéncia. A conseqüência a
longo prazo ora a saida dos militeres e dos políticos a eles diretamente
ligados e a passagem do poder a uri partido predominantemente civil. Des
cartada a hipótese de um Exército substituir a outro, a transição ocorreu
como resultante de um movimento social que envolveu milhões de pessoas
e m ilhares de entidades responsáveis pela organ ização do que se
convencionou chamar de sociedade civil. Abandonado o uso abusivo da
força para impor a lei ilegítima (desde Geisel), mudavam as contingências
que envolviam o comportamento político
A desobediência civil, era possivel. Novas contingências que afe
tam o comportamento de indivíduos se estabeleceram e foram organizadas
em metacontingências pelo discurso politico unificado de amplos setores,
do centro à esquerda. O objetivo a fongo prazo coordenou diferentes com
portamentos submetidos a conseqüSncías imediatas que, separadamente,
32 Ju 5o C ttu dto Tb o w o v
pouco teriam a ver com a redemocratização do pais. O que pode uma rebe
lião do professores contra o autoritarismo de dirigentes de uma escola ter a
ver, quando vista isoladamente, com a transição da ditadura para a dem o
cracia? Os exemplos de comportamentos específicos de diferentes pesso
as e grupos do pessoas, todos submetidos a diferentes conseqüências ime
diatas. são inumeráveis. O elo de união desses comportamentos individu
ais em uma metacontingência ô a conseqüência a longo prazo que afeta a
toda a sociedade, e o que liga essa conseqüência a longo prazo às nossas
ações do dia-a-dia é o discurso político, visto aqui sob a ótica da análise do
comportamento, enquanto comportamento verbal. Esse discurso político
rege as interações entre as pessoas organizadas em grupos e assim man
tém seu comportamento enquanto a conseqüência a longo prazo não che
ga
Metacontingências tecnológicas e cerimoniais
Metacontingências não envolvem necessariamente mudanças soci
ais. Ao contrário, seria mais fácil exemplificar metacontingências de manu
tenção do status quo. Skinner (1967) retira da Teoria da Classe Ociosa" de
Thornstein Veblen (1965) os conceitos de dois processos culturais distin
tos. um tecnológico, outro cerimonial. Sigrid Glenn (1986). analisando os
trabalhos de Skinner, propõe o conceito de metacontingência e mostra quo
Skinner, ao contrário de Veblen. não vê os dois processos como imutáveis,
mas sim como produtos do homem, e como tais. possíveis de alteração
(Avros. 1962). Contingências ligadas ao processo cultural tecnológico en
volvam comportamentos mantidos por conseqüências não arbitrárias. Es
sas conseqüências têm poder sobre a manutenção do comportamento por
que são úteis, de valor ou são importantes para a pessoa que se comporta
assim como para as demais pessoas. As contingências associadas ao pro
cesso cultural cerimonial, por outro lado. envolvem comportamentos manti
dos por conseqüências sociais que derivam seu poder do status, da posi
ção ou da autoridade do agente que maneja as conseqüências, indepen
dentemente de alterações no ambiente que beneficiem direta ou indireta
mente a pessoa que se comporta. Sigrid Glenn oforece dois exemplos sim
ples dos controles cerimonial e tecnológico: “Faça isso porque eu estou
mandando’ raramente envolve comportamentos que beneficiam a pessoa
que recebe a ordem: "Faça isso porque teremos então melhores condições
sanitárias, o que levará à melhoria nas condições de saúde de todos” espe
cifica conseqüências positivas para a pessoa que se comporta e para a
coletividade como um todo. A redução da poluiçào ambiental, por exemplo,
depende do processo cultural tecnológico, por meio de metacontingências
que reunam os comportamentos de milhões de pessoas, diferentes com
portamentos em diferentes situações, todos, porém, levando a uma conse
qüência comum a longo prazo que beneficiara a cada uma daquelas pes
soas. assim como a todos que convivem na sociedade. Da mesma forma,
podemos pensar em metacontingências associadas ã proteção dos direi
M tfa c o M O n jta c U ie irc m p o r le m fn io , c u r .u a o *c< te d ed e 33
tos humanos, à melhoria da distribuição de renda, ao uso social e produtivo
da terra etc.
As metacontingências do processo cultural tecnológico aumentam o
âmbito de ação e a eficácia do comportamento que altera o ambiente na
direção de garantir a sobrevivência e a satisfação do indivíduo e da socieda
de. Por outro lado, as contingências cerimoniais impedem o surgimento de
novos comportamentos, mantêm o controle social como está, e são nocivas
a longo prazo quando a sobrevivência de todos depende da ocorrência de
mudanças. Quando há conflito entre metacontingências tecnológicas e ceri
moniais.. a vantagem inicial está toda com as metacontingências cerimoniais.
Como afirmamos acima, a lacuna entre o objetivo a longo prazo e o compor
tamento que deve ocorrer hoje é preenchida pelo comportamento verbal,
especificamente por regras de conduta a serom seguidas. Quando r.o pro
cesso cultural tecnológico se propõemmudanças que envolvem o estabele
cimento de uma metacontingência, há a seguir todo um trabalho de detennl-
naçáo de regras específicas, de providenciar conseqüências imodiatas para
a observância dessas regras, e de avaliação dessas regras e das conseqü
ências. Bons exemplos disso podem ser encontrados nos anais das Confe
rencias Nacionais do Saúde ou nos debates sobre a Reforma Agrária no
Brasil. A avaliação critica é necessária a todo momento. E as divergências
sobre as avaliações às vezes levam a polêmicas acirradas e a disputas
iriterpartidárias. O processo é trabalhoso, mas esse é o preço pago pela
democracia para livrar-se de um Grande Planejador.
Metacontingências cerimoniais, por sua vez já existem ria sociedade e
as regras das quais dependem estão formuladas tácita ou explicitamente no
processo de socialização da criança, no qual atuam em grande sintonia as três
instituições mantenedoras do status quo: Família. Igreja e Estado Esse con
trole cerimonial não é necessariamente nocivo ao indivíduo e a sociedade,
mas não é sensível às possibilidades de inovação e de mudanças sociais cons
trutivas. Para garantir a estabilidade social, as agências que atuam no proces
so de socialização valorizam mais a obediência às regras que o pensamento
critioo. a repetição do saber que seu questionamento, a verbalização de solu
ções que a formulação de problemas.
Sigrid Glenn mostra como até este ponto os trabalhos de Skinner
devem muito a Clarence Avres, discípulo de Veblen (Skinner, 1972). Para
Avres, ti possib ilidade de evolução cultural rápida ocorre quando há crise no
processo cultural cerimonial e o processo cultural se desenvolve por algum
tempo sem oposição. Mas as mudanças produzidas levam a um novo tipo do
controlo cerimonial mantido pela autoridade de um novo grupo que assume o
poder Assim o mesmo grupo que produz mudanças revolucionárias mantém
as novas práticas culturais através do processo cultural cerimonial cercean
do nova evolução cultural e mantendo o controle através do uso da autorida
de. Skinnor vai além dos trabalhos de Avres e de Veblen ao ocupar-se das
contingências específicas que compõem o controle cerimonial e ao cnticar o
controle social atual mostrando, através de uma utopia, como poder-a ser
uma sociedade sem instituições mantidas pelo controle cerimonial onde as
34 J o i o O M q T s i is ío v
relações entre as contingências ligadas ao comportamento do cada pessoa
e as metacontingôncias são claramente formuladas.
Constituição: as metacontingências que queremos
Este não ó um trabalho sobre metacontingências e utopias, entre
tanto. Aos interessados, os trabalhos de Skinner disponíveis no Brasil po
dem ser facilmente encontrados em qualquer livraria. Esperando ter escla
recido o que sâo metacontingências, vejamos agora a Constituição como
metacontingência. A constituição escrita de qualquer pais traz, bem ou mal
formuladas, metacontingências, algumas cerimoniais, outras tecnológicas.
A constituição outorgada pela Junta M ilitar em 1969 tem metacontingências
relacionadas principalmente ao processo cultural cerimonial, algumas já
tradicionais em Constituições anteriores, como a que define a Republica
como Federação de Estados, a que especifica o âmbito de ação das For
ças Armadas, etc. Mas mesmo a Constituição de 1969 prevê a possibilida
de de metacontingências relacionadas ao processo cultural tecnológico, ao
prever emendas desde que aprovadas por dois terços do Congresso.
Neste momento histórico em que nós, como nação, temos a oportuni
dade de rever a Constituição, redigir claramente as regras do jogo, convém
refletir um pouco sobre quais são as metacontingências cerimoniais que que
remos e quais são as mudanças de que necessitamos a serem especificadas
em metacontingências tecnológicas. Como deve organizar-se o Estado para
evitarmos o abuso do controle cerimonial? Uma vez especificadas as
metacontingências, como garantir a especificação das novas regras a serem
aprendidas por todos, pois que afetarão o comportamento de cada um? Es
sas regras estarão contidas em leis, decretos, portarias, atos. resoluções
etc.? Como orientar as diversas autoridades que assinarão essas regras?
Respostas a essas questões são cruciais, pois de nada adiantara uma Cons
tituição com objetivos nacionais bem formulados, consensualrnente aceitos
pela nação, sem que a lacuna entre esses objetivos gerais e o comporta
mento individual de cada cidadão não seja preenchida por um sistema de
regras de relações sociais e interpessoais que privilegie o trabalho em detri
mento da escamoteação, a produção e não a especulação, a saúde de todos
por ser um direito de cada um. a educação crítica porque a nação precisa de
cidadãos pensantes, e assim por diante.
A oportunidade de redigir uma nova constituição e também a oportu
nidade que o pais tem de conscientizar o cidadão sobre a importância des
sas questões e o papel de cada um no fornecimento de respostas. E. nesse
ponto, a campanha eleitoral que resultou na composição do Congresso Cons
tituinte pouco esclareceu o eleitorado. O papel a ser reservado as Forças
Armadas, por exemplo, foi assunto de discussões nas antecâmaras do poder
e recebeu alguma atenção da imprensa no primeiro semestre do 1986. A
discussão parou porém, após 25 de agosto, com o pronunciamento firme do
Ministro do exérdto: a questão certamente não foi tema de campanha eleito
ral. Sobre a reforma agrária, outro exemplo, não foram esclarecidas ques-
MiKüCoabngAnci»»: coro^rta/uurito, cu r.u ia e «eo edadi» 35
Iões como onde. quando, como por quê? Outro exemplo. qual o papel a ser
reservado à iniciativa privada nas áreas de educação, saúde, transportes?
Diferentes caminhos em cada uma dessas encruzilhadas levam a contingên
cias incompatíveis e ao estabelecimento de metacontingéndas que englo
bam objetivos a longo prazo muito diferentes. Perdidas as oportunidades
oferecidas pela campanha eleitoral, resta a sociedade civil que de fato ele
geu Tancredo e Sarney acompanhar os trabalhos do Congresso Constituinte
reavivando a memória de nossos representantes.
A nova Constituição poderá ser sintética, a moda americana, ou
detalhista, como o projeto da Comissão Afonso Arinos. Em uma Constituição
de poucos artigos, os objetivos colocados são necessariamente gerais e
abstratamente formulados. O projeto Arinos. por outro lado. exemplifica uma
redação que pode especificar melhor esses objetivos. Os dois exemplos, é
claro, representam apenas casos extremos. Para o que nos interessa neste
artigo, uma Constituição, muito sintótica tem a desvantagem do ser tão abs
trata que não possibilita a explicitação das metacontingéndas que abriga. Já
uma Constituição quilométrica certamente descerá ao nível de especificas
contingências que seriam mais propriamente matéria de lei ordinária.
Num caso ou no outro, as metacontingéndas poderão ser predomi
nantemente cerimoniais, e estaremos frustrando as expectativas da popula
ção e esfacelando o amplo acordo político que sustenta a transição para a
democracia. Ou serão predominantemente tecnológicas, definindo as trans
formações sociais possíveis sem a ruptura de vida social organizada Neste
segundo caso, do uma Constituição que especifique metacontingéndas
tecnológicas, convém que a redaçáo não se faça em termos puramente abs
tratos. do tipo *a educação é um direito de todos e um dever do Estado'. Por
mais amplo que seja o consenso sobre um objetivo tão geral e exatamente
por ser tão geral que. se ficarmos nesse nível de abstração, não estaremos
apontando os caminhos para a educação brasileira.
A tarefa dos constituintes será das mais difíceis. Se não houver ou
tro esforço nacional dirigido para garantir a democracia, definindo objetivos
e os caminhos para atingir, correremos o risco de termos uma Constituição
que resultará das-pressõesdos diferentes "lobbies" já articulados. Teremos
então uma colcha de retalhos, certamente de curta duração.
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Análise Experimental do
Comportamento e Sociedade:
um novo foco de estudo
João Cláudio Todorov
Maísa Moreira
’Assim como as características genéticas que surgem como muta
ções são selecionadas ov rejeiladas por suas consequências, tam
bém as novas formas do comportamento são selecionadas ou rejet-
ladas pelo reforço. Há ainda uma lerceira espécie de seleção que se
aplica às práticas culturars.' (Skinner. 1953/2000. p. 467-468).
Tragédias como a ocorrida em 11 de setembro do 2001, nos Estados
Unidos, que resultou na morte de mais de 3000 pessoas e em posteror ata
que dos Estados Unidos ao Afeganistão (entre milhares de outras tragédias
que ocorrem todos os dias em nossos paises, incluindo a atual invasão do
Iraque) nos lembram que várias das nossas práticas culturais trazem preiui-
zos às vidas de todos. Apesar dos grandes progressos técnicos e científicos,
nâo há suficiente preocupação sobre o gasto dos recursos naturais ou com a
excessiva poluição das águas e do ar, e menos ainda mecanismos de contro
le do uso da violência, seja por pessoas, por organizações ou por paises.
Estas preocupações tém sido temas das ciências sociais, e com poucas ex
ceções. a análise do comportamento não as tem abordado, apesar de ter
considerável potencial para servir à nossa cultura no aumento das chances
de sobrevivência, ou ao menos tornar mais compreensível os processos o as
variáveis que determinam as direções atuais.
Este potencial, porém, tem sido pouco utilizado. Esta escassa ex
ploração do potencial da análise do comportamento, no estudo social acon
tece apesar das contribuições de B. F. Skinner sobre a análise social e
cultura l com o um com ponente fundam enta l do behaviorism o radical
(Malagodi. 1986). Muitos trabalhos teóricos de Skinner (1953 ,1955a, 1955b,
1956. 1957, 1961. 1964. 1968a. 1968b, 1969, 1972, 1974, 1978) têm em
sua compreensão uma nova visão de mundo (Michael, 1980; Todorov, 1982)
que integra filosofia, ciência e princípios do comportamento dentro de uma
teoria opistemológica consistente e geral do comportamento humano. O
maior componente desta visão d e mundo está na extensão de princípios
comportamentais para a análise do processos sociais e culturais. Em “Ci
ência e Comportamento Humano“ Skinner (1953) dedicou as três últimas
38 Jofio C líud io TodOTOV. M biüu Muiotia
seções para discutir extensivamente assuntos sobre a natureza, evolução,
sobrevivência, valores o planejamento cultural.
Nesse sentido, a visão de mundo do Skinner implica uma ciência do
comportamento que estuda regras que descrevem as relações de controle
entre contingências ambientais e comportamentos. Quando os membros atu
antes da sociedade entram em contato com essas regras e as soguem, re
pertórios de solução de problemas sâo solecionados e mantidos por contin
gências de reforçamento existentes na cultura. Apesar deste tema ser impor
tante para muitos, houve poucos estudos nos últimos 20 anos. A ciência do
comportamento tem se dedicado a resolver problemas principalmente de in
divíduos ainda que em organizações ou instituições, muitas vezes vitimas
de um mau planojamento cultural, mas sem um instrumental teórico explicito
que se aplicasse ao comportamento de grupos sociais.
Glenn considerou importante esta interdisdplinaridade á medida que
estudar sociedades e práticas culturais tendo como instrumento a contingên
cia tríplice (Skinner. 1953; Souza, 1999. Todorov, 1985) pode não significar
êxito total pois corremos o risco de reduzir a análise a um ponto que nào
mostra como se deu a evolução e a manutenção da prática em estudo. O
nivel comportamental da análise científica considera o organismo a base a
partir da qual as relações funcionais entre o comportamento e os eventos
ambientais são experimentalmente examinados (Glenn, 1988). Já na análise
cultural o comportamento do indivíduo ê a base a partir da qual práticas cul
turais emergem e o estudo das relações funcionais ocorre em outro nivel.
Seleção em nivel comportamental e seleção em nivel cultural po
dem ser facilmente confundidos poisos dois envolvem relações entre even
tos com porta menta is e resultam em mudanças no ambiente. Conseqüênci
as culturais, no entanto, nâo selecionam comportamentos individuais, sele
cionam relações entre contingências comportamentais, compreendendo as
práticas culturais. O comportamento de um indivíduo especifico tem pouco
efeito nas conseqüências culturais.
Metacontingências
Para estudos do oomportamenlo humano em nível social, uma impor
tante unidade de análise usada é a metacontingència. Esta ê uma unidade que
descreve as relações funcionais entre classes de operantes. cada classe as
sociada a uma contingência tríplice diferente, e uma conseqüência comum a
longo prazo, comum a todos os operantes na metacontingència Os comporta
mentos operantes dos membros do grupo formam um conjunto de ações coor
denadas. geralmente chamado de prática cultural, que se relaciona a um am
biente comum aos membros. Práticas culturais envolvem o comportamento
operante de grupos de pessoas que compõem a sociedade.
Metacontingências são relações contingentes entre práticas cultu
rais o suas conseqüências. Sáo relações funcionais om nivel de análise
cultural, cuja existência deriva mas não ê equivalente a contingências
comportamentais (Glenn, 1991). Uma metacontingència não é um arranjo
M ftíic o n b n g to c tflft c O T p í i la r a o n t o . O J lh r a o R o c to i.a t» 39
de contingências individuais de diferentes pessoas. Ela consiste em contin
gências individuais interligadas, entrelaçadas, em que todas elas juntas
p roduzem um m esm o re su lta d o a longo p razo . O co n ce ito de
metacontingência nos permite efetivamente considerar o comportamento
de grandes grupos de indivíduos em certas situações. Isso pode ser
exemplificado pelos vários comportamentos envolvidos na redução da po
luição do ar (Glenn, 1986).
Meta contingências envolvem essencialmente contingências social
mente determinadas. O elo de união de comportamentos individuais em uma
metacontingência é a conseqüência a longo prazo que afeta toda a socieda
de. São essas conseqüências que ligam as ações do dia-a-dia de diferentes
pessoas e que podem ser controladas pelas regras da sociedade como. por
exemplo, a Constituição (Todorov, 1987). Uma motacontingência existo se o
objeto de análise for uma prática cultural de um grupo do indivíduos, se as
conseqüências desta praüca, para o grupo, e se seus antecedentes puderem
ser identificados (Glenn. 1986). No estudo das contingências sociais usarido
a unidade de análise metacontingência, há uma distinção entre contingênci
as de reforçamento (relações de contingências entre uma classe de respos
tas e uma consequência comum) e metacontingências (relações de contin
gência entre uma classe do operantes e uma conseqüência cultural e co
mum a longo prazo).
No processo cultura l existem m etacontingências cerim onia is e
tecnológicas, segundo Glenn (1986), aproveitando conceitosde Veblen(1899/
1965). A Família, a Igreja o o Estado usam as metacontingências cerimoniais
paia garantir a manutenção do status quo da sociedade. Este oontroio ceri
monial não é necessariamente nocivo ao indivíduo e à sociedade, mas ô
insensivel às possibilidades de inovações de mudanças sociais construtivas
(Todorov, 1987), O controle cerimonial pode ser exemplificado pela afirmati
va: "Faça isso porque eu disse!” (Glenn, 1986). Este controle, apesar de
garantir a ordem pela Família, Igreja e Estado, não incentiva a experimenta
ção e adaptação dessos comportamentos às mudanças sociais.
As metacontingências tecnológicas propõem um trabalho de determi
nação de regras especificas, de providenciar conseqüências imediatas para
a observância dessas regras, e de avaliação dessas regras e das conseqü
ências (Todorov, 1987). O controle tecnológico pode ser exemplificado pela
afirmativa: Faça isso porque resuftará numa melhoria das condições sanitá
rias e conseqüentemente na melhoria da saúde (Glenn, 1986). Porém, mes
mo as metacontingências tecnológicas após mudanças culturais podem pos
teriormente se tornar metacontingências cerimoniais cerceando nova evolu
ção cultural, Por isso a avaliação das regras sociais deve ser um processo
contínuo.
Sociedades se comportam governadas por metacontingências. Estas
metacontingências podem ser definidas nos códigos e leis dos paises. Em
Estados democráticos de direito, como o Brasil, as metacontingências que
controlam a sociedade são deliberadas democraticamente por um Congres
so eleito pela maioria da população. Alguns exemplos são: a Constituição, o
40 Jo ã o CttM Jk» Toúorttv. Mais* M o rétn
Código Penal, o Código Civil e o Estatuto da Criança e do Adolescente. To
dos estes códigos de comportamento possuem metacontingências cerimoni
ais © tecnológicas. E pelos seus resultados no controle do comportamento
podemos predizer que sua grande maioria é cerimonial.
A idéia de planejamento cultural (Skinnor. 1953) vai ao encontro das
metacontingências tecnológicas, no sentido de procurar sempre estabele
cer situações sociais deliberadas e que sigam também uma evolução cul
tural. acompanhando as mudanças que o ambiente sofre. As práticas cultu
rais devem sofrer uma seleção natural para que continuem funcionais. A
disfuncionalidade das práticas culturais, devido à Inobservância das mes
mas, pode ser constatada atualmente na questão das regras e da estrutura
da família A estrutura não é mais a mesma, pois o ambiente mudou. Nao
há mais lugar para a família patriarcal nesses dias em que o capitalismo
demanda o poder aquisitivo e impulsiona os indivíduos ao consumismo. A
família teve que se adequar a esta necessidade criada, transformando seus
membros em força de trabalho ativa.
Concluindo, entendemos que o conceito de metacontingôncia am
plia o campo de estudo da análise do comportamento. Ele resgata a preo
cupação de Skinner sobre planejamento cultural, já muito discutida em ’ Ci
ência e Comportamento Humano’ . O desenvolvimento do conceito de
metacontingência mostra a importância da realização da pesquisa básica,
mas enfatiza o valor dos resultados desta pesquisa no estudo social
Estudos sobre Metacontingências
Todorov analisou a Constituição do Brasil sob o ponto de vista do
conceito de metacontingência (Todorov, 1987). A Constituição de qualquer
pa is traz. bem ou mal form uladas, m etacontingências cerim onia is e
tecnológicas. A Constituição outorgada pela Junta Militar em 1969 tem
metacontingências relacionadas principalmente ao processo cultural ceri
monial. Mas mesmo a Constituição de 1969 prevê a possibilidade de
metacontingências relacionadas ao processo cultural tecnologico. ao pre
ver emendas desde que aprovadas por dois terços do congresso.
Todorov (1987) se preocupou com o momento de revisão da Consti
tuição de 1988 e considerou várias reflexões sobre as metacontingências
cerimoniais o tecnológicas da Constituição. Dentre estes pontos de refle
xão estão as perguntas: uma vez especificada a metacontingência, como
garantir a especificação das novas regras a serem apreendidas por todos e
que afetará o comportamento de cada um? Todorov argumenta que na re
visão da Constituição (o trabalho foi escrito e publicado durante a Constitu
inte. antes da aprovação da Constituição de 1988) os constituintes deveri
am se preocupar em não escrever uma Constituição extremamente ceri
monial, frustrando as expectativas da população e esfacelando o amplo
acordo politico que sustentou a transição para a democracia, e nem extre
mamente tecnológica, com termos puramente abstratos como "a educação
Mal.i^.:n ‘,ino0i 03; OdPttiytartXul». cultum esociedndo 41
é um direito de iodos e um dever do Estado’ , que não apontam os cami
nhos para a efetivação da idéia.
Lamal e Greenspoon {1992) descrevem uma rftetacontingència que
controla a maioria dos comportamentos dos membros do Congresso cos
EUA: a metacontingência da reeleição. Há um paradoxo entre os deputa
dos e senadores: apesar de serem consistentemente reeleitos as pescui-
sas mostram que os eleitores que os elegem têm pouca estima por eles. Os
padrões de votação dos membros do congresso podem, em muitas vez-ss,
ser acuradamente previstos porque o seu comportamento de votar ó posi
tivamente e negativamente reforçado por grupos organizados (com interes
ses especiais) que pagam, dão apoio financeiro para que votem em causas
que são benéficas a esses grupos. Assim, não é surpreendente que o com
portamento de votar as leis seja consistente com o ponto de v;sta de grupos
organizados.
O controle de grupos organizados sobre o voto dos deputados e se
nadores é relacionado em grande parte ao financiamento das campanhas
eleitorais. Este controle tem crescido cada vez mais nos últimos 15 anos. A
emergência e proliferação dos comitês politicos de ação tem um profundo
efeito na contribuição das campanhas. Aqueles que votam nos candidatos
(pela boa propaganda eleitoral) e os grupos organizados sáo sem dúvidas
fontes de reforçamento deles. Algumas vezes os comités políticos funcionam
como operações estabelecedoras (Michael, 1982. 2000). Semelhantes aos
comitês de ação política são os lobistas. Nos EUA lobistas tèm adquirido
considerável controle sobre deputados e senadores porque têm comando
sobre a distribuição do dinheiro, especialmente ern fundos de campanha, e
porque estão freqüentemente relacionados aos comités de ação política.
Um estudioso do Congresso americano descreveu três categorias de
comportamento verbal dos congressistas, deputados e senadores: fazem
propaganda, pedem verbas e tomam posições. Fazer propaganda envolve
em sua grande parte tornar reconhecido popularmente seu nome. sendo a
mídia, especialmente a televisão, uma importante fonte de controle em mas
sa dos congressistas. A categoria de tomar posição significa fazer uma de
claração em público que interesse aos constituintes e aos grupos organiza
dos. A categoria de pedir verba consiste em fazer com que o governo provi
dencie reforçadores aos constituintes, ou ao menos convencer os constituin
tes que é ele o responsável pelo que é feito no interesse deles.
Alguns membros do Câmara e do Senado, que são raros, se res
ponsabilizam por legislações que levam anos para serem aprovadas. Eles
geralmente têm poucos votos e se engajam em temas controversos. Ape
sar disso continuam sendo reeleitos. Mas o que os reforça é fazer um bom
trabalho aos constituintes, o qual chega ao conhecimento dos eleitores pela
repercussão na imprensa.
A partir desta análise Lamal e Greenspoon (1992) percebem um fe
nômeno transcultural que serve de estrutura para a análise do comporta
mento de sociedades e práticas culturais. Um dos fenômenos é o estabeleci
mento e a manutenção de contingências que favorecem indivíduos ou gru-
42 JoA » C la J rt o TcrfccovMfJ» 8 M cnára
pos mas entram em conflito com o bem-estar da cultura. É o poder do
reforçamento imediato do comportamento dos deputados e senadores que
tem efeitos desastrosos para a sociedade a longo prazo, efeitos geralmente
ignorados pela maioria do eleitorado.
A propaganda da campanha política rio Presidente George Bush
(pai do atual Presidente George W. Bush) alterou para Laitinen o Rakos
(1997), o controle da cadeia de comportamentos dos cidadãos que era con
tro lada por re fo rçam ento negativo passando a se r con tro lada por
reforçamento positivo. Operações estabelecedoras (Michael. 1982, 1983.
2000) foram manipuladas para tomar o Iraque e Hussein estímulos aversivos
e regras introduziram contingências aversivas: agressões espontâneas
devem ser feitas contra eles para preservar a liberdade e a equidade. Isto
estimulou uma concordância consensual "para fazer algo". Este "algo" pas
sou para a história como a Guerra do Golfo. A solidariedade patriótica foi
reforçada pelo reconhecimento d» que ações não militares desempenha
vam um papel importante contra o perigo. Contudo, concorrentemente, o
estímulo aversivo da organização e preparação de tropas para o combate
foi introduzido muito gradativamente para evitar respostas discordantes ou
de esquiva da população Posteriormente a organização das tropas milita
res cresceu imensamente mas sempre acompanhada por estimulação po
sitiva como se esta ação fosse parte de esforços diplomáticos ou de alian
ça de vários países Quando a guerra começou, a açao m ilitar era um esti
mulo positivo e a guerra tinha corro conseqüência reforçamento positivo e
não negativo. Reforçamento positivo era assegurado ao não divulgar as
conseqüências negativas da guerra e ao apresentar apenas as realizações
tecnológicas e o sucesso das conquistas. Propaganda militar através da
rnidia de massa transformou a Guerra do Golfo em um grande entreteni
mento. ao qual os cidadãos respondiam com ‘entusiasmo patriótico". Os
americanos aprenderam uma lição da experiência no Vietnam: para ganhar
e manter o apoio ã guerra na era da comunicação em massa, o controle de
estímulos deve ser manipulado precisamente, o reforçamento positivo deve
ser d issem inado num grande esquema de difusão, considerando as
metacontingôncias inter-relacionadas que operam nos conglomerados do
mídia (Leitinen & Rakos, 1997).
Conclusão
Estes estudos sobre metacontingências fazem parte de uma peque
na amostra do trabalho que os analistas do comportamento começam a fa-
zor em nível sodal. Os trabalhos são importantes, mas é um campo de estu
dos que está apenas começando. Ainda são apenas estudos descritivos, e
só com o aperfeiçoamento destes poderemos efetivar estudos sociais rele
vantes. aproveitando a oportunidade oferecida por verdadeiros exfjerimen-
tos naturais em andamento. Lembrando Charles Darwin. a predição e o con
trole não terão sucesso se o fenõrneno a ser previsto e controlado não for
M i-ViiunUngArcM * eomport»rn#nto. a j íu r a o tr.oeOe<lH 43
adequadamente descrito e para isso nosso mais novo instrumento paro o
estudo ó a metacontingéncia. A volta do Iraque ao centro do interesse da
politica extema dos Estados Unidos não deixa de ser uma excelente ocasião
para conferir a análise funcional efetuada por Leitinen e Rakos (1997).
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Um estudo de Contingências e
Metacontingências no Estatuto da
Criança e do Adolescente
João Cláudio Todorov
Maisa Moreira
Mara Regina A. Prudêncio
Gisele Carneiro Campos Pereira
'Um ponto importante no desenvolvimento de urna agência governa
mental é a codificação de seus procedimentos controladores... Ge-
ralmento a lei tem dois aspectos importantes Em primeiro lugar, es
pecifica o comportamento... Em segundo lugar, uma lei especifica ou
dá a entender certa consequência, usualmente punição. A lei è en
tão o enunciado de uma contingência de reforço mantida por urna
agência governamental.’' (Skinner, 1953/2000, p. 369-370).
O estudo de sociedades pea análise experimental do comportamento
foi um tema de estudo relegado por muito tempo, apesar das contribuições
o da ênfase de B F. Skinner soDre a análise social e cultural como um
componente fundamenta! do behaviorismo radical (Malagodi, 1986). Mui
tos trabalhos teóricos de Skinner (1953. 1955a, 1955b, 1956, 1957. 1961,
1964, 1968a. 1968b. 1969, 1972 1974, 1978) têm em sua compreensão
uma nova visão de mundo (cf. Michael, 1980; Todorov. 1982) que integra
filosofia, ciência e princípios do comportamento dentro de uma teoriB
epistemológica consistente e geral do comportamento humano. O maior
e le m e n to desta v isã o de m undo es tá na e x te n sã o de p rin c íp io s
comportamentais para a análisede processos sociais e culturais. Em ‘ Ci
ência e Comportamento Humano" Skinner (1953) dedicou as três últimas
s ignos para discutir oxtonRivamontn assuntos sobre a natureza, evolução,
sobrevivência, valores e planejamento cultural.
Os novos estudos desse tema resultaram na construção da unidade
de análise da cultura: a metacontingència (Glenn, 1986). Metacontingências
são relações contingentes entre práticas culturais e suas conseqüências.
São relações funcionais em nível de análise cultural, cuja existência deriva,
mas nãoé equivalente a contingências comportamentais (Glenn, 1991). Uma
metacontingència não é um arranjo de contingências Individuais do diferen
tes pessoas. Ela consiste em contingências indiv iduais interligadas,
entrelaçadas, em que todas juntas produzem um mesmo resultado a longo
camila paiffer
Highlight
JuAo CUiuiSo fo.1erov, M ooa M .r . i A PiusAmío.Otseíe C. Cantsm Pw«lia
prazo. O conceito de metacontingéncia permite efetivamente considerar o
comporlamento de grandes grupos de indivíduos em certas situações Isso
pode ser exemplificado pelos vários comportamentos envolvidos na redução
da poluição do ar (Glenn, 1986).
Essa unidade de análise pode ser utilizada para o estudo de códi
gos de leis. Em Estados dem ocráticos do d ire ito , com o o B rasil, as
metacontingências percebidas na sociedade são deliberadas por represen
tantes do povo eleitos para as Casas Legislativas, dai o seu caráter demo
crático. Alguns exemplos são: a Constituição, o Código Penal, o Código
Civil e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A Constituição do
Brasil, por exemplo, já foi estudada a partir do conceito de metacontingéncia
(Todorov, 1987).
O ECA pode ser considerado uma metacontingéncia, pois descreve
comportamentos diferentes para os diversos segmentos da sociedade
(juizes, promotores, cidadãos, conselheiros tutelares, psicólogos, pais, res
ponsáveis, crianças, adolescentes). Esses diferentes comportamentos in
tegram contingências semelhantes visando a um fim único: a proteção do
crianças e adolescentes
No Brasil, a Lei Estatutária (ECA) encontra-se em vigor desde o ano
de 1990, sendo, desde então, regulador de todos os procedimentos relati
vos á proteção integral à criança e ao adolescente. Como exemplo da apli
cação do ECA tem-se as diversas denúncias de abuso fisico ou sexual
contra crianças que são feitas por cidadãos e levadas ao conhecimento do
Conselho Tutelar ou da Vara da Infância do Município, as quais geram estu
dos técnicos e a aplicação de medidas aos pais ou responsáveis, previstas
no artigo 129.
O objetivo deste trabalho foi identificar as contingências tríplices
entrelaçadas representadas nos artigos dispostos ao longo da Lei. Sua
contribu ição fo i a geração de uma m etodolog ia para estudos sobre
metacontingências em códigos de Lei, possibilitando pesquisas que visem
a descrição de práticas culturais inseridas numa sociedade.
Método
O bjeto d e E stu do
O objeto de estudo da pesquisa é o Estatuto da Criança e do Adoles
cente. Lei n° 8069, de 13 de julho de 1990, de acordo com as alterações
dada pela Lei n° 8.242, do 12 de outubro do 1991. enquanto um conjunto de
contingências entrelaçadas constituindo metacontingências (Glenn, 1986).
O Estatuto da Criança o do Adolescente ó composto por dois Livros
Esses livros estão subdivididos em Títulos. Cada Titulo é subdivido em
Capítulos Os Capítulos estão subdivididos em seções e estas últimas, em
subseções. Resultando, portanto, em um total de 267 (duzentos e sessenta
e sete) artigos dispostos na Lei.
camila paiffer
Highlight
M r’Jicontir«3#n < i# s concnxtanw nto. LÜtvJt» o & ;a trJ » Jo 47
In s tru m e n to de A nálise
O instrumento de análise utilizado foi a contingência tríplice, com o
objetivo de identificar termos da contingência nos artigos o agrupar os unte-
cedentes, comportamentos 0 conseqüentes de uma mesma contingência.
Critérios de Análise Utilizados
Antecedentes: descrevem contextos, condições e circunstâncias para ocor
rência de comportamentos.
Comportamentos: estabelecem açâo esperada de um sujeito, a qual pode
ser definida implícita ou explicitamente.
Conseqüentes: sáo conseqüências diretas de comportamentos definidos
nas contingências.
Procedimento
Foram analisados os 267 artigos presentes na Lei, tendo como ob
jetivo idontiticar os termos das contingências que representavam, por exem
plo. se cada artigo referia-se a um antecedente, comportamento ou conse
qüente, Localizado um artigo que descrevesse um antecedente, pesquisava-
se a existência de artigos que apresentassem comportamentos e conse
qüentes. contingentes ao antecedente.
O texto foi pesquisado soguindo-se a ordem numérica dos artigos,
entretanto, na organização das contingências essa ordem foi desconsiderada,
priorizando-se o agrupamento dos termos das contingências. Por exemplo,
no lema Proteção à Vida e á Saúde, o antecedente da contingência é o artigo
7 °:
Art. 7o - A criança e o adolescente tôm direito á proteção, d vida e à
saúde, mediante a efetivação do políticas sociais públicas que penni-
tam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condi
ções dignas de existência.
O comportamento é representado no artigo 4L :
Art 4o - È dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e
do Poder Público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação
dos direilos referentes à vida. à saúde, ò alimentação, à educação,
ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, ã dignidade, ao
respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.
Parágrafo Único - A garantia de prioridade compreende:
a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstânci
as;
b) precedência do atendimento nos serviços públicos ou de relevân
cia pública;
c) preferência na formulação e na execução cias políticas sociais públi
cas;
48 J o ã o C d w O to T o iío fo v . M a lta í/ate.ira. M o ra H e s fn a A . P M d S r o o .é t e n in C C o m p o e P e re ira
d) destinaçôo privilegiada do recursos públicos nas áreas relaciona
das com a proteção à infância e à juventude
E a conseqüência encontra-se no artigo 129.
A /t 129 - São medidas aplicáveis aos pais oti responsável:
I - encaminhamento a programo oficial ou comunitário de promoção
à família;
II - inclusão em programa oíicial ou comunitário de auxilio, orientação
e tratamento a alcoólatras e toxicômanos:
III • encaminhamento a tratamento psicológico ou psiquiátrico;
r IV - encaminhamento a cursos ou programas c!e orientação;
|, V' - obrigação de matricular o filho ou pupilo e acompanhar sua fre-
|k qüôncia e aproveitamento escolar;
i[, VI - obrigação de encaminhar a criança ou adolescente a tratamento
especializado:
VII - advertência;
VIII - perda da guarda;
IX - destituição da tutela;
» X - suspensão ou destituição do pátrio poder.
*i| Parágrafo Único • Na aplicação das medidas previstas nos incisos IX
e X deste artigo, observar-se-á o disposto nos arts. 23 e 24.
Em toda a análise utilizava-se o artigo intoiro, apenas os artigos do
T itu lo V II - D os C rim es e das In fra çõ e s A d m in is tra tiva s - fo ram
desmembrados em parágrafos o penas, como pode ser observado abaixo:
ANTECEDENTES
Art. 7o - A criança e o adolescente têni direito à proteção, à vida e A
saúde, mediante a efetivação de potiticas sociais públicas quo permi
tam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso,, em condi
ções dignas de existência.
COMPORTAMENTOS
Art. 245 - Deixar o médlço, professor ou responsável por estabeleci
mento do atençáo à saúde e de ensino fundamental, pré-escola ou
crocho, do comunicar ò autoridade compotonto os cüsos de que te
nha conhecimento, envolvendo suspeita ou confirmação de maus-
tratos contra criança ou adolescente:
CONSEQÜÊNCIAS
(ARTIGO 245) Pena - multade 3 (três) a 20(vinte) salários do roferênda,
aplicando-se o dobro em caso de íeincidêndn.
Resultados e Discussão
M etenanttaQ A ncflB : c o m p tru m m rrto . c L l h « o * 4c c ró d m J« 49
O presente trabalho possibilitou o estudo da metacontingência en
volvida no ECA, entendendo-se como metacontingência a unidade que des
creve as relações funcionais entre classes de operantes, cada classe asso
ciada a uma contingência tríplice diferente, e uma conseqüência comum a
longo prazo, comum a todos os operantes na metacontingência. São essas
conseqüências que ligam nossas ações do dia-a-dla e que podem ser con
troladas pelas regras da sociedade como a Constituição e os Códigos de
Leis (Todorov, 1987).
A metacontingência contida no ECA pode ser descrita no seu artigo
1o: "Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente.'
Observando-se os artigos da Lei e organizando-os em contingências, per
cebeu-se que formam dois conjuntos: contingências completas e incomple
tas. Esses conjuntos entrelaçados procuram garantir uma conseqüência
comum a longo prazo, a qual é descrita no artigo primeiro.
Na completa são encontrados os três termos da contingência: ante
cedentes. comportamentos e conseqüências, como apresentado a seguir:
EXEMPLO 1:
TEMA: Saúde
ANTECEDENTES
Art 7o - A criança e o adolescente tèm direito à proteção, à vida e à
saúde, mediante a efetivação de políticas sociais publicas que permi
tam o nascimento e o desenvolvimento sadio e hannonioso. em condi
ções dignas de existência.
COMPORTAMENTOS
Ari. 228 - Deixar o encarregado de serviço ou o dirigente de estabele
cimento de atenção A saúde de gestante de manter registro das ativi
dades desenvolvidas, na forma e prazo referidos no art. 10 desta Lei.
bem como de fornecer à partunente ou a seu responsável, por ocasião
da alta médica, declaração de nascimento, onde constem as
intercorrèncias do parte e do desenvolvimento do neonato:
CONSEQUÊNCIAS
(ARTIGO 228) Pena - detenção d e 6 ( seis) meses a 2 (dois) anos.
Também foi considerada contingência completa aquela que não
apresentava antecedente especifico, ou seja. que não estabelecia a condi
ção para a ocorrência do comportamento. A falta de um antecedente espe
cífico não impede o entendimento da contingência, pelo contrário, permite
maior flexibilidade na interpretação da Lei, visto que o comportamento re
querido deve ocorrer em qualquer condição, como se segue'
EXEMPLO 2:
camila paiffer
Highlight
Joao Oáitoo TodDfiA', Mr.iCíi M jíH lld. Maru R oy lr.i A. P-u:fftncti>,ais*lfr C. C:iini>3« P*n;«.i
TEMIA: Direito à educação, à cultura, ao esporte e ao lazer
COMPORTAMENTOS
Art. 5 6 -O s pais ou responsável têm a obrigação de matricular seus
lilhos ou pupibs na rede regular de ensino.
CONSEQUÊNCIAS
Art. 129 - São medidos aplicáveis aos pais ou res/x>ns<s\'el:
I - encaminhamento a programa oficial ou comunitário de promoção à
famiüa;
II - inclusão om programa oficial ou comunitário de auxilio, orientação e
tratamento a alcoólatras o toxicômanos;
III - encaminhamento a tratamento psicológico ou pstquiótnco:
IV - encaminhamento a cursos ou programas do orientação:
V - obrigação de matricular o filho ou [x/pilo e acompanhar sua freqüên
cia e aproveitamento escolar;
VI - obrigação de encaminhar a criança ou adolescente a tratamento
especializado,
VII - advertência;
VIII ■ perda da guarda;
IX - destituição da tutela;
X - suspensão ou destituição do pátrio poder.
Parágrafo Único - Na aplicação das medidas previstas nos incisos IX e
X deste artigo, i>b$er\’ar-se-á o disposto nos arts. 23 e 24.
Considerou-se contingência incompleta aquela formada por um ou
dois termos da contingência (por exemplo, um antecedente sem comporta
mento ou conseqüência). Isso pode ser observado no Exemplo 3:
EXEMPLO 3:
TEMA: Convivência familiar e comunitária
ANTECEDENTE
An. 20 - Os filhos, havidos ou não da relação do casamento, ou por
adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quais
quer designações discriminatórias relativas á filiação
Este artigo dispõe sobre os direitos dos filhos havidos do casamen
to ou por adoção. Porém, náo so encontrou no texto um comportamento
esperado diante deste antecedente, bem como uma conseqüência.
É importante ressaltar que os artigos 1o e 6o por apresentarem uma
descrição geral foram considerados antecedentes gerais que permeiam todo
o texto
O agrupamento dos artigos para fomiar uma contingência não obe
dece a uma ordem numérica, uma vez que os antecedentes, comporta-
Mn*iiconUnginci!iH' «m p o n o r if in lo . c u M r r .« s ixto dad» 51
mentos e conseqüentes não se encontram em artigos próximos. Observou-
se que as penas se encontravam nos últimos artigos do Livro II. Os artigos
que contõm comportamentos estão na Parte Especial, e os principais ante
cedentes no Livro I. Tal configuração é observada no Exemplo 1.
Semelhante fragmentação das contingências no toxto pode ser
verificada também na distribuição dos temas (especificado a seguir), ou
seja, um tema como Flagrante de Ato Infracional surge no Livro I assim
como no Livro I! (artigos relacionados a procedimentos). Essa disposição
dos artigos pode representar uma dificuldade no manuseio da Lei Estatutária
à medida que, para aplicá-la, o intérprete da Lei (juiz, promotor, advogado,
delegado) e o cidadáo comum devem percorrer todo o livro para encontrar
os artigos que remetam ã situação em estudo.
No ECA os artigos são divididos em temas. Na análise, alguns des
ses temas foram agrupados resultando em 29 temas para este trabalho.
São eles: Saúde, Liberdade, Família, Pátrio Poder, Guarda, Tutela, Ado
ção, Educação e Esporte. Profissionalização, Prevenção, Produtos e Servi
ços, Autorização para Viajar. Entidades de Atendimento, Medidas de Prote
ção, Ato infracional, Garantias Processuais, Medidas Sócio-Educativas,
Conselho Tutelar, Acesso á Justiça, Juiz, Serviços Auxiliares, Procedimen
tos. Apuração de Infração Administrativa, Recursos, Ministério Público.
Advogado, Proteção de Direitos. Crimes e Infrações Administrativa e Dis
posições Finais. É interessante observar que o entrelaçamento de contin
gências se dá na existência de contingências semelhantes presentes em
cada tema, ou seja, todas apresentam o mesmo objetivo: garantir direitos
da criança e do adolescente.
Na análise de contingências completas e incomplotas por tema veri
ficou-se que o maior númoro do contingências completas se encontra nos
temas Prevenção e Saúde. O conteúdo do tema Prevenção se relera tanto
à exposição da criança e do adolescente a produtos de entretenimento -
como filmes, shows, espetáculos e revistas - quanto ao consumo de subs
tâncias e objetos que possam causar danos fisicos e psicológicos - álcool.
O tema Saúde apresenta os direitos da criança e do adolescente referentes
ao atendimento hospitalar e tratamento médico. Essas contingências com
pletas indicam que há conseqüências descritas para controlar os compor
tamentos desejados e que os legisladores se preocuparam em garantir di
reitos básicos para a criança e o adolescente, desde o acompanhamento
pré-natal para a mãe, até a atenção que o jovem deve receber no Sistema
Único de Saúde
Os cinco outros temas com maiores escores são: Família. Educa
ção e Esporte. Alo Infracional. Liberdade e Guarda. Os quatros primeiros
parecem mostrar a preocupação com os procedimentos e condições de
aplicação da Lei com relação aos comportamentos inadequados dos ado
lescentes (como roubo, furto e homicídio).
Esses altos escores de contingências completas nestes temas de
monstram uma característica importante do Estatuto que é a de prevenção
à violação do direito das crianças e adolescentes, dando pouca ênfase a
procedimentos punitivos.
52 .!»&:> flá .in n Todrrov M rit» M -ieiM . M.ir.i R o g ii« A Poííftlclo.OanlsC . Campa» - ‘e ie irx
Os temas com menores escores de contingências completas (oram
Pátrio Poder, Profissionalização, Medidas de Proteção, Juiz, Serviços Auxi
liares, Procedimentos. Apuração de Infraçáo Administrativa, Recursos. M i
nistério Público, Advogado, Proteção de Direitos. Crimes e Infrações Admi
nistrativas e Disposições Finais.
A falta de conseqüências para os comportamentos contidos nesses
temas (como pode ser observado no Exemplo 4, abaixo) deve-se ao fato de
existirem leis específicas que regulam as atribuições de cada agência
controladora, como. por exemplo, a atividade dos Juizes que é regulamen
tada pela LOMAN - Lei Complementar n° 35/79 e a atividade dos Promoto
res que ó regulamentada pela Lei Complementar n* 75/93. Verifica-se. a
partir de então, a necessidade de uma análise que faça a inter-relação
entre o ECA e as leis correlatas a ele.
EXEMPLO 4:
TEMA: Do Juiz
ANTECEDENTES
A ri 146-A aulondade a que se refere esta Lei è o Juiz da Infância e
da Juventude, ou o Juiz que exerce essa funçao, na forma da / ei de
Organização Judiciária locai
Ao formar as contingências percebeu-se que há artigos que partici
pam de várias contingências diferentes. Os dados que remetem ao número
de repetições de artigos nas contingências mostram o quanto a Lei é aber
ta. o quanto não define bem as contingências, pois 34 artigos, de 267 no
total, ou seja, quase metade dos artigos se repete duas vezes ou mais para
que as contingências sejam formadas. Esse número de repetições sugere
possíveis dificuldades na interpretaçáo da Lei. pois esta pode parecer in
completa. No agrupamento de artigos para formar as contingências, a re
petição pode suprir as lacunas da Lei fechando-a a diferentes possibilida
des de interpretação, pois a contingência descreve as possibilidades de
ação do sujeito e as conseqüências precisas para suas ações.
Como resultado geral desta análise do contingências, obteve-se o
percentual de 47,22% de contingências completas e de 52,77% de contin
gências incompletas. Dada a importância do papel do ECA na sociedade
brasileira e o fato de que uma lei seria escrita para que comportamentos
possam ser controlados, esses resultados revelam que estas contingências
incompletas podem ser uma das causas de problemas encontrados em sua
aplicação. Essa falta de clareza em especificar as contingências pode, tam
bém. levar em um nível prático, a possíveis incertezas quanto ao papel exer
cido por cada agente que se encontra sob as diretrizes do ECA Cabe ressal
tar que. em uma análise qualitativa, mesmo os artigos, os quais contém com
portamentos, são pobres em descrevê-los operacionalmente, deixando as
Motaoorengúioíi*. oonpnruntnlo. ojri.ru e woxIaiM 53
sim, à cargo da autoridade judiciária uma ampla interpretação discricionária
da Lei.
Um artigo incompleto abre precedente para várias interpretações, pois
ao não esclarecer qual a conseqüência para a ação, esta pode ser manipulada
articulando-se diferentes artigos para crimes semelhantes Isto pode ser visto
diariamente, nos jornais, nas manipulações da lei feitas por Juizes. Quando o
ECA enuncia que é dever da familie, da comunidade, da sociedade em geral e
do Poder Público assegurar os direitos do saúde e alimentação (artigo 4o) e
não especifica a conseqüência para o náo cumprimento desta ação, o resulta
do jurídico de uma sentença para este caso pode ser distinto para famílias
diferentes (ou níveis sociais diferentes) que incorrem no mesmo delito.
Referências Bibliográficas
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Profissão, 7. 9 - 13.
Contingências Entrelaçadas e
Contingências Não-Relacionadas
João Cláudio Todorov
Márcio Borges Moreira
Maísa Moreira
"Quando falamos de planejamento deliberado' da cultura, queremos
indicar a produção de uma prática cultural 'por causa da suas
consequências" (Skinner. 1953/2000, p 465).
Os analistas do comportamento por décadas concentraram seus
esforços no aprim oram ento conce itua i e experim enta l de questões
concernentes ao comportamento de indivíduos. Este fato reflete positiva
mente na quantidade e na qualidade de conhecimento produzido na área.
No entanto, tanto esforço dedicado ao comportamento de indivíduos rele
gou a um segundo plano estudos sobre o que Skinner (1953) chamou de
comportamento de pessoas em grupo e o estudo de práticas culturais. A
relevância de uma abordagem comportamental de práticas culturais, ape
sar de ressaltada por Skinner cinco décadas atrás, permaneceu na pe
numbra até a década de 80, quando Sigrid Glenn (1986) trouxe à tona o
assunto com o conceito do metacontingencia. A iniciativa de Glenn não
só retomou o assunto como também tem despertado o interesse de alguns
analistas do comportamonto (Todorov, 1987; Andery & Sério. 1997; Lamal,
1991; Rakos, 1991; Martone, 2003; Todorov & Moroira, 2004).
A possibilidade do lidar com comportamentos que vão muito além
do comportamento de um único indivíduo, utilizando-se de referencial pró
prio ô, indubitavelmente, um grande passo para a Análise do Comporta
mento. Questões de destacada reíevància político-social têm sido aborda
das sob a perspectiva do metacontingências: reeleição do congresso nor
te-americano (Lamal & Greenspoon, 1992); controle da opinião pública
amencana sobre a Guerra do Golfo (Rakos. 1993); controle corporativo da
mídia (Laitinen & Rakos. 1997); a Constituição brasileira (Todorov, 1987),
entre outros trabalhos.
Glenn (1986) dofine metacontingências como contingências indivi
duais entrelaçadas (interlocking em inglês no original), em que todas elas
juntas produzem um mesmo resultado a longo prazo. Metacontingências
envolvem contingências socialmente determinadas. O elo de comporta
mentos individuaisem uma metacontingência é a conseqüência a longo
prazo que afeta toda a sociedade (ou grupo de pessoas). Este mesmo
camila paiffer
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camila paiffer
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56 J o A o C lé u iJ o t& d cv o v . »/ . ir ;:o M n rn im . M a « a M o r e r a
conceito é apresentado em todos os estudos feitos sobre metacontingência
ató 2004 (ex. Todorov, 1987; Rakos, 1991; Lamal 1992; Andery e Sério,
1997, Boher, 1998; Martone, 2003; Todorov & Moreira 2004) e em publica
ções subseqüentes da própria Glenn (1988, 1990, 1991).
É comum, nas ciências, mudanças, refinamentos, redefinições e
aprimoramento de conceitos. Temos, como exemplo, o próprio conceito do
operante que foi bastante modificado (Todorov, 2002) dosde sua proposi
ção (Skinner, 1938). Não seria, portanto, estranho ou anormal que o con
ceito de Metacontigência apresentasse alguma inconsistência ou não fos
se exatamente descritivo dos fenômenos aos quais se aplica. É neste sen
tido. e com a intenção de tom ar mais claro o conceito de Metacontingência.
como proposto por Glenn, que expomos neste artigo nosso ponto de vista
sobre o assunto.
Ao confrontarmos o conceito com os vários exemplos que são apre
sentados nos trabalhos sobre metacontingências, bem como com exem
plos hipotéticos, o uso de um termo especifico no conceito nos chama a
atenção: contingências entrelaçadas.
O dicionário Michaelis (2000) define entrelaçar como enlaçar reci
procamente. Enlaçar, por sua vez. é definido como prender, ligar, ter cone
xão ou relação. Ao afirmar-se, portanto, que metacontingências são contin
gências individuais entrelaçadas estamos falando (a) de algum tipo de liga
ção ou conexão entre essas contingências individuais e (b) que esta liga
ção, seja de que natureza for. deve ser necessariamente mútua. Quando
conectamos um aparelho televisor a uma tomada geralmente dizemos quo
o aparelho está ligado na tdtnada, e náo interligado. A direção da ligação é
única (televisor tomada). No entanto, quarido queremos dizer que duas
pessoas estão so comunicando via satélite, dizemos que elas estão interli
gadas via satélite. A ligação se dá em dois sentidos (pessoa A U pessoa
B). O conceito apresentado por Glenn estabelece que o elo entre compor
tamentos individuais em uma metacontingência é a conseqüência a longo
prazo que afeta toda a sociedade (ou um determinado grupo). Este elo
parece-nos ser o ponto defin idor - necessário e suficiente - de uma
metacontingência e, neste caso, as contingências individuais estariam li
gadas a uma m esm a conseqüência a longo prazo. Não ó necessário nem
mesmo dizer e em alguns casos não ó possível que as contingências
individuais estão ligadas pe la conseqüência a longo prazo.
O termo contingências entrelaçadas parece-nos estar sendo utiliza
do em dois sentidos: (a) para denotar relações entre as contingências indi
viduais e; (b) para ressaltar que as conseqüências resultantes de contin
gências individuais são mais que a simples soma destas contingências,
visto que os resultados obtidos nunca seriam atingidos por uma única pes
soa, ou por pessoas agindo independentemente (Glenn, 1991; Andery Ã
Sòrio 1999). Esta relação é entendida como contingências Individuais que
afeiam outras contingências individuais. Neste caso (b), contingências indi-
camila paiffer
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>.ViUu.xiliny-1i* ;as : aiinportan*»nx». -uIIiim « socmuvk» 57
viduais podem ser ditas entrelaçadas, se entendermos o termo entrelaçadas
como o proposto por Skinner, ao falar sobre esquemas de reforçamento.
(1969, pp 120): where the behav io r o f one organism a lte rs the
conlingencies affecting another, and v ic e -v e rs a Esta relação, no entanto,
não é necessária para que um conjunto de contingências individuais se
constitua em uma metacontingência. O primeiro uso apontado (a) sinal-za
apenas um certo tipo agrupamento entre coisas - neste caso contingênci
as. que resulta em uma conseqüência que, sem este agrupamento, rã o
seria possivel. Para ilustrar, podemos fazer uma analogia com eventos da
Física.
Suponha que para mover um determinado objeto seja necessário
aplicar uma força de 10N. e que você não disponha de nenhuma fonte que
possa aplicar essa força (10N) ao objeto. No entanto, você tem três fontes
de força (vetores 1 .2 e 3 de mesmo sentido e direção): dois vetores de 3N
e uin de 4N. O objeto só se moverá se os três vetores forem aplicados.
Neste caso, a conseqüência - mover o objeto - só ocorrerá devido à aplica
ção dos três vetores ao objeto. Os físicos, neste caso, não diriam que os
três vetores se entrelaçaram para a produção da conseqüência última (m o
ver o objeto).
Em uma metacontingência (definindo esta pela conseqüência a lon
go prazo que ocorre em função de uma série de contingências individuais)
podemos ter contingências individuais que afetam outras contingências in
dividuais, bem como contingências que. simplesmente, ocorrem com uma
relativa simultaneidade.
Tomemos com o exem plo, para ilus tra r nossos argum entos, a
metacontingência da despoluição ambiental - para efeito de simplificação, a
despoluição de um río. Suponhamos que um agricultor - que planta milho -
more sozinho às margens desse rio. Ele houve dizer que há na cidade próxi
ma uma nova semente de milho, e que este milho (um transgènico) não
necessita do uso de defensivos agrícolas - defensivos estes que poluem o
rio. Apesar da semente nova ser um pouco mais cara que a convencional o
agricultor faz as contas e descobre que terá um aumento de 30% nos lucros
se usá-la, já que economizará ao não utilizar pesticidas, além de obter um
pequeno aumento na produtividade. O agricultor então planta a semente
transgênica. Ao assim fazer o inadvertido agricultor já está fazendo parte de
nossa metacontingência de despoluição do rio.
Cinco quilômetros á frente da pequena propriedade deste agricultor,
também às margens do rio, encontra-se um curtume. Este curtume, apesar
de pequeno, despeja diariamente centenas de quilos de subprodutos resul
tantes do beneficiamento de couro - outra fonte de poluição do nosso rio. O
dono deste curtume, pesquisando na Internet, descobre que se ele deposi
tar os dejetos que lança diariamente no rio em um recipiente devidamente
fechado, ele poderá obter, devido à fermentação dos dejetos, um pequeno
estoque de butano (gás combustível), que poderá utilizar como fonte alter
camila paiffer
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58 J o f io C lá u n lo \c*iuv/, M A ru o B u p a s M i r a r a . M u i » r .U f g r a
nativa de energ;a em seu curtume. Ele assim o faz, e reduz em 50% a
quantidade de dejetos que joga diariamente no rio. Mais uma contingência
individual passa a fazer parte de nossa metacontingéncia.
Em uma pequena cidade, pela qual o rio passa, o prefeito, que vem
aumentando sua fortuna possoal rapidamente, deseja superfaturar mais
uma obra. Como a cidade já possui um ginásio de esportes, um pequeno
centro de vendas para ambulantes e duas pontes, o prefeito opta por cons
truir uma estaçào de tratamento de esgoto, que depois de pronta reduzirá
em 25% a quantidade de esgoto não-tratado jogado diariamente no rio,
constituindo, até o momento, a terceira contingência individual em nossa
metacontingéncia.
O exemplo acima, apesar de caricato, ilustra bem nosso ponto de
vista sobre o entrelaçamento de contingências individuais. Nenhuma das
contingências apresentadas tem qualquer relação com as demais, no en
tanto a ocorrência das três produzirá, a longo prazo, uma conseqüência
para aquela comunidade, que é a despoluição do no que os abastece de
água, e continuará abastecendo por um tempo ainda maior.
Contingências individuais, no entanto, podem estar de alguma for
ma relacionadas dentro de uma metacontingéncia, sobretudo no que se
refere à ‘ expansão“ destametacontingéncia, e a i sim temos oportunidade
para utilizar o sofisticado termo: entrelaçamento de contingências.
Continuando o exemplo de despoluição do rio, suponhamos que há
naquela pequena cidade uma ONG que sai de porta em porta dando escla
recimentos sobre a importância de se preservar recursos naturais e infor
mando aos moradores da cidade como contribuir para esta preservação.
Neste caso os comportamentos individuais dos membros da ONG se entre
laçam aos comportamentos individuais dos moradores, tendo, portanto, o
duplo papel de ação e ambiente comportamental para ação de outros (Glenn,
1991).
Outro aspecto importante a ser considerado é que as contingências
individuais dentro da metacontingéncia não são mantidas necessariamen
te pela conseqüência a longo prazo comum a todas as contingências, mas
também pelas conseqüências diretas de cada contingência individual. Como
vimos no exemplo anterior o comportamento dos três primeiros agentes na
metacontingéncia nào estava sob o controle da despoluição, mas sob o
controle de obter lucros individuais. Dessa forma, contingências individuais
podem se perpetuar indefinidamente mantidas apenas por suas conseqü
ências próximas (o nosso esperto agricultor pode continuar usando a se
mente de milho transgênico enquanto for lucrativo, sem jamais se preocu
par com a qualidade da água do rio).
O que tentamos expor, portanto, é que uma Metacontingéncia pode
ser definida por um conjunto de contingências individuais que. a longo pra
zo, resultam em uma conseqüência comum, diferente das conseqüências
das contingências individuais, para um determinado grupo de indivíduos.
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»/ c U w o rt n p e n o B S c o r a o r t a in n iv a , a u lliiv i *i aor.iBon&i 59
Se contingências individuais so entrelaçam, ou se a conseqüência comum
ao grupo passa a controlar o comportamento de indivíduos são pontos que
pertencem á análise de uma metacontingéncia em particular, não á sua
definição.
Referências Bibliográficas
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Porto Alegre
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Comportamento Social:
A Imprensa como agência e
ferramenta de controle social1
Ricardo Corrêa Martone
Roberto Alves Banaco
'O grupo exerce um controle ótico sobre cada um de seus membros
através, principalmente, de seu poder de reforçar ou punir. O (xxler
deriva do número e da importância de outras pessoas na vida de
cada membro. Geralmente o grupo não é bem organizado, nem seus
procedimentos sáo consistentemente mantidos. Dentro do grupo, en
tretanto. cortas agências de controle manipulam conjuntos particula
res de variáveis. Essas agências são geralmente mais bem organi
zadas que o grupo como um todo, e frequentemente operam com
maior sucesso." (Skinner, 1953/2000, p. 363).
A análise do comportamento estabelece como seu objeto de estudo
a relaçáo do organismo com o ambiente ã sua volta, e enfatiza a importân
cia das variáveis ambientais e do organismo na determinação do compor
tamento. Grande parte das descobertas dos princípios comportamentais
ocorreu a partir de pesquisas experimentais com sujeitos não humanos e
apresentavam, como objetivo principal, a descrição das relações entre o
organismo e o ambiente. A principal descoberta que marcou a análise do
comportamento e a diferenciou de outras abordagens ccmportamentais foi
o comportamento operante, caracterizado pela ação do indivíduo sobre o
ambiento, modificando-o e, por sua vez sendo modificado pelas conseqü
ências de sua ação (Skinner. 1957/1978).
O comportamento pode ocorrer tanto em ambientes não sociais como
om ambientes sociais. Numa situação não social o organismo opera direta
mente sobre o ambiente, o qual estabelece as condições nas quais uma
resposta emitida pelo organismo será reforçada. Por exemplo, num procedi
mento de discriminação simples um rato responde pressionando uma banra
colocada à esquerda da caixa experimental na presença da luz verde; já na
presença da luz vermelha ele pressiona uma barra colocada á direita da
caixa, recebendo uma pelota de alimento apôs as respostas. Por outro lado,
1 O profcent» irabalho é uhvj voreão abrev iada d a d íssarlação do m estrodo do oiiriw lro autor
apffisonbitla. em 2003 . a o Program a d e EaUidOS Pós-G raduados em Psicologia Experim ental;
ArAlfBé do Coffiportam nnto d » PU C -S P , sob orientação do segundo autor
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62 fticcrdo Cor1'!'» Maojoa, KitiMtf> N w t Barmcn
existem situações nas quais a presença de outros organismos pode alterar a
relação com o ambiente. Nesses casos, a complexidade aumenta, pois há
uma interação entre pelo menos dois repertórios comportamentais. Skinner
(1953/1994) descreveu um experimento que estabelecia uma situação coo
perativa entre dois pombos:
"...dois pombos foram colocados em gaiolas adjacentes separadas
por uma placa de vidro. Junto ao vidro, lado a lado. havia duas colu
nas verticais de Irês botões cada. uma coluna ao alcance de cada
pombo. O aparelho foi montado para reforçar ambos os pombos com
comida, mas apenas quando bicavam botões correspondentes, si
multaneamente. Apenas um par de botões funcionava em um mes
mo momento. A situação requeria uma cooperação ainda mais com
plicada. Os pombos deveriam explorar os três pares para descobrir
qual o eficaz,e deviam bicar os dois botões em cada par ao mesmo
tempo. Essas contingências devem ser divididas. Um pombo - o ti-
der - explora os botões, bicando-os em uma ordem característica ou
mais ou menos ao acaso. O outro - o liderado - bica o botão oposto,
seja qual for o botào bicado pelo líder. O comportamento do liderado
é quase exdusivamente controlado pelo íider, cujo comportamento
por sou turno é controlado pelo aparelho que atribui ao acaso os
reforços entre os três pares de botões. Dois liderados ou dois lideres
colocados juntos só casualmente resolvem o problema A função do
líder pode mudar de um pássaro para outro em um periodo de tem
po, e pode se originar uma condição temporária na qual os dois são
liderados“ (p. 293).
Na situação experimental do discriminação simples descrita anterior
mente a ação do sujeito se deu diretamente sobre o ambiente, sem a articu
lação com outro organismo e sem sua mediação. Portanto, trata-se de res
postas emitidas num ambiente não social. O experimento dos pombos, en
tretanto, demonstra o envolvimento entre o repertório comportamental de
dois organismos que compartilham o mesmo ambiente. Neste caso pode-se
falar que os pombos se comportam em um ambiente social.
Grande parte do comportamento humano ocorre em ambientes so
ciais que se caracterizam principalmente pela importância de uma outra
pessoa como integrante fundamental desses ambientes. Essa outra pes
soa apresenta uma peculiaridade: pode ser um “falante' ou um “ouvinte',
ou seja. possui a capacidade, selecionada filogenéticamente de emitir e
ouvir sons, aliada à capacidade, selecionada ontogenetica e culturalmente,
de se comunicar por meio de signos linguísticos. O fato de o homem poder
sor um “falante" e um ‘ ouvinte’ apresenta, de imediato, uma implicação: a
ação sobro o ambiente pode ser indireta, pela mediação de outras pesso
as. Por essa razão o comportamento verbal é comportamento social. Skinner
(1953/1994) definiu comportamento social como *o comportamento de duas
ou mais pessoas uma em relação à outra ou em conjunto em relação ao
ambiente comum" (p.285).
MevuTMtfirrçOncjftii m irocrtan ien io . cu tura » scowJaJt» 63
Podem ser retomados agora os seguintes aspectos tão importantes
para a compreensão do que Skinner chama de ambiente social e comporta
mento social. O comportamento social, como o próprio nome diz, ocorre em
ambientes sociais. O comportamento social caracteriza-se pela ação conjun
ta de dois ou mais organismos em relação, um com o outro, ou conjuntamen
te em relação a um ambiente comum e. no caso de humanos, apresenta a
vantagom de agir indiretamente sobre o ambiente por meio do comporta
mento verbal. O ambiente social, por sua vez, apresenta todos os aspectos
de um ambiente nào social, como. por exemplo, estímulos antecedentes e
conseqüências, com a peculiaridade desses aspectos poderem ser estabe
lecidos por outras pessoas. Como afirmou Skinner (1953/1994):
“Muitos reforços requerem a presença de outras pessoas. Em alyuns
desses (reforços] como em certas formas de comportamento sexual
ou pugilistico, a outra pessoa meramente participa como um mero ob
jeto. Nào se pode descrever o reforço sem referência ao outro orga
nismo. Mas o reforço social geralmente é uma questão de mediação
pessoal. Quando a màe alimenta a criança, o alimento, como um refor
ço primário, nào ó social, mas o comportamento da mão ao apresenta-
lo é... O comportamento verbal sempre acarreta reforço social e deriva
suas propriedades características desse fato. A resposta ‘um copo
dágua por favor' nào tem efeito no ambiente mecânico, mas em um
ambiente verbal apropriado pode levar ao reforço primário. No campo
do comportamento social dá-se imporlància especial ao reforço com
atenção, aprovação, afeição e submissão" (Skinner, 1953/1994. p.286).
A definição de comportamento social apresentada por Skinner (1953/
1994) o distancia de outras áreas do conhecimento que abordam os fenóme
nos sociais em termos de "leis sodais". "forças sociais" e 'situações socia s",
que não levam em consideração que os fenômenos sociais são. a partir da
perspectiva de Skinner, determinados e constituídos por comportamentos do
indivíduos em interação. Uma antiga lei da Economia chamada Lei de
Gresham, diz Skinner, afirma que ‘ a moeda má tira de circulação a moeda
boa". Entretanto, diz ele. ossa lei pode ser explicada em termos do contin
gências de reforço: "se o indivíduo quo possui dois tipos de moeda, uma boa
e outra má. tende a gastar a má e guardar a boa (...) e se é válido para um
grande número de pessoas, surge o fenómeno descrito pela lei de Gresham.
O comportamento do indivíduo explica o fenómeno do grupo" (p 286).
Skinner apontou ainda uma questão metodológica importante no
momento em que afirma que sua preocupação é com a extensão dos prin
cípios comportamentais utilizados para a análise do comportamento do in
divíduo para análise dos fenômenos de grupo. Sua postura podo sor cons
tatada a seguir:
‘ Aplicar nossa análise aos fenômenos do grupo é um modo excelen
te de testar sua adequação, o se formos capazes de explicar o com
portamento de pessoas em grupos sem usar nenhum termo novo ou
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64 líctirdo Ccoéa RobflisoAlvee Bar«*»
sem p(t)ssu{Xir nenhum novo processo ou princípio, teremos demons
trado uma promissora simplicidade nos dados ' (Skinnor, 1953/1994.
p. 286).
Alguns analistas do comportamento, interessados em análises de
fenômenos sociais e que vêm contribuindo com proposições e discussões
teóricas que possam fornecer e auxiliar o desenvolvimento de instrumentos
de anàfise para lidar com fenómenos sociais, apontam, a partir das propo
sições de Skinner que:
1} analisar fenómenos sociais não e a mesma coisa quo analisar a soma
das contingências individuais dos participantes do grupo, dado que os
efeitos da ação em conjunto não podem ser alcançados somente com a
participação de um único indivíduo ou sem a participação dos outros
(Glenn, 1986, 1988, 1991; Malagodi. 1986; Pierce, 1991);
2) os princípios quo rogulam o comportamento social são os mesmos quo
regulam o comportamento não social (Pierce. 1991; Skinner, 1953/1994)
A partir dos parâmetros teóricos e metodológicos estabelecidos por
Skinner em 1953 e em outros trabalhos (1948/1978, 1971/1983, 1978). al
guns analistas do comportamento vêm demonstrando um crescente inte
resse pelo estudo de fenômenos sociais de larga escala, pela busca por
soluções de problemas sociais e pelo planejamento de práticas culturais
(Biglan, 1995; Glenn, 1986, 1988,1991; Guerin. 1992,1994; Holland, 1978;
Kunkel. 1970; Malagodi, 1986; Malagodi & Jackson, 1989; Mattaini & Thyer,
1996: Pennypackor, 1986). Algumas razões para o interesse no estudo de
fenômenos sociais de larga escala são:
1) a necessidade de dar continuidade às tentativas de Skinner em incluir
análises sociais como componentes fundamentais do behaviorismo ra
dical ampliando assim o campo de atuação do analista do comporta
mento (Malagodi, 1986);
2) o estudo dos problemas do indivíduo conduz a determinantes que estão
no vasto mundo social (Kunkel & Lamal, 1991):
3) o desenvolvimento de novas ferramentas teóricas que capacitam o ana
lista do comportamento a ir além do indivíduo único e de pequenos
grupos. Entre essas ferramentas estão: o comportamento governado
por regras e metacontingências. que vêm sendo considerados como
conceitos legitimos e apropriados para análise de fenômenos de gran
de escala (Kunkel & Lamal, 1991).
Metacontingências e a análise de fenôm enos sociais de
grande escala
Alguns autores que vêm se dedicando ao estudo de práticas culturais
(Andery & Sério. 1999; Glenn. 1986, 1988, 1991; Kunkel. 1991; Kunkel &
Lamal, 1991; Lamal & Greenspoon. 1992; Malagodi & Jackson, 1989; Rakos
1991; Todorov, 1987) em questões referentesa: organizações, sistemas po-
»/«taBcntlnpSntf«»: ajmoortainBrta cultura « eoo&oaoí 65
lítico-económicos, sistemas penitenciários, sistemas de saúde, educação,
influência da mídia2 no mundo oonternporàneo, movimento feminista (Martone.
2000), salientam a importância do conceito de metacontingências como for
ma de se analisar fenómenos de grande escala.
Metacontingências doscrevem relações funcionais em um nível dis
tinto do comportamento individual- elas descrevem a relação entre práticas
culturais e seus produtos (Andnry & Sério, 1999). Práticas culturais são
compostas de muitas contingências comportamentais entrelaçadas. São
as contingências comportamentais entrelaçadas que permitem aos seres
humanos agirem no ambiente em conjunto, possibilitando uma série de
conseqüências que não seriam possíveis de serem produzidas somente
pela da ação de um único indivíduo.
Essas contingências sao de fundamental importância para a com
preensão do comportamento humano dentro da cultura e das formas pelas
quais novos indivíduos são inseridos para dentro dela. Quando um novo
indivíduo vem ao mundo, a cultura necessariamente precisa ntroduzi-lo
dentro de suas vastas redes de relações O excessivo cuidado que o bebê
humano necessita para sobreviver demonstra a necessidade de uma pro-
paração para sua inserção cultura!. O ambiente encontrado por ele já está
pronto e algumas partes fundamentais (do ambiente) devem adquirir, para
a sobrevivência do novo indivíduo, alguma função comporta mental. A co
mida. o olhar dos outros, a voz humana, o toque materno são alguns dos
materiais brutos sob os quais o repertório comportamental do bebê irá se
constituir (Glenn, 1991). O comportamento verbal é um dos grandes res
ponsáveis pela transmissão de padrões comportamentais através das ge
rações (Glenn, 1991).
Uma prática cultural ó definida por Glenn (1988) como: "...um
subconjunto de contingências entrelaçadas de reforçamento..." (p. 167).
Isto implica no entendimento da complexidade da cultura humana, na qual
pessoas se engajam em atividades determinadas para conjuntamente pro
duzirem coisas comuns a todos os seus integrantes. No entanto, a autora
deixa muito claro que indivíduos, ao se engajarem em atividades conjun
tas. são reforçados pelas contingências únicas e características de sua
história ontogenética, e também pelos produtos agregados á prática, üu
seja, para que se posso analisar o fenômeno cultural, deve-se estar atento
para a descrição do mesmo comportamento a partir de duas perspectivas:
o individual (ontogenético) e o cultural, ou, como Glenn nomeia, contingên
cias comportamentais. em um nivel, e metacontingônc.ias; em outro.
■ O termos mídia o Imprensa serào inrarcambiávois neste trabalho por terom sido <bef»nldoa trn
Houai&s [2001) da seguinte maneia;
Imprensa: 4 qualquer me .d ut-ltzado nn difusão do informações Jornal isticai; conjunto doa proces
sos dfi voiculaçâodo informações prnaiisticas por veículos impto&sos ou aMrònicos Ip.1ü84)
Mídia: 1. todo o suporte de dltesàode informação quecorstitu o rrélo intermediário de oxpres3éo
espaz do transmitir mensagens (p.1919)
Esto decisão fci tomada para mamor ;i nomenclatura origina) de cada oolcrdtado.
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66 HlcorUo Com&a Martofie, Roberto Av m aitriaco
Todorov (1987) fomeceu-nos um exemplo da aplicação do conceito
de motacontingéndas em fenômenos sociais de grande escala. O autor ana
lisou o movimento pela redemocratização do Brasil que possibilitou a mu
dança de um governo militar para um governo civil nos anos 80. A conseqü
ência a longo prazo (produto cultural) ora a saída dos militares e dos políticos
diretamente ligados a eles do govemo e a passagem do poder a um partido
civil. A transição ocorreu como resultado de movimentos sociais (práticas
culturais) que envolveram milhões de pessoas e milhares de entidades res
ponsáveis pela organização da sociedade civil. Com a abertura política, inici
ada pelo govemo do General Geisel, abandonou-se paulatinamente o uso da
torça que impunha governos sem legitimidade popular. Todorov sugeriu que
as contingências que envolviam o comportamento político começaram a
mudar, tornando possíveis grandes manifestações como o movimento pelas
eleições diretas, conhecido como "Diretas já", quo mobilizou milhões de pes
soas em todo país - políticos, artistas, cantores e outros cidadãos - e amplos
setores da sociedade civil organizada - entidades de defesa dos direitos
humanos, sindicatos e entidades representantes de classes profissionais.
Em outros tempos esse movimento teria sido considerado desobediência
civil o reprimido violentamente. Como apontou Todorov (1987).
"Novas contingências, que afetam o comportamento de indivíduos,
se estabeleceram e foram organizadas em melacontingèncias pelo
discurso unificado de amplos se/ores. do centro à esquerda O obje
tivo o longo prazo (salda dos militares e a passagem do poder a um
partido civilj coordenou diferentes comportamentos submetidos o
conseqüências imediatas que, separadamente, pouco teriam a ver
com a redemocratização do pais “ (p. 11).
O autor afirma que são muitos os exemplos de comportamentos
específicos de diferentes pessoas e grupos submetidos a diferentes conse
qüências que comporiam uma metacontingênda. Por exemplo, o que teria
a ver uma rebelião de professores contra o autoritarismo de dirigentes de
uma escola, se vista isoladamente, com a redemocratização? O próprio
autor esclarece:
“O efo desses comportamentos individuais em uma melaconttngênda è a
conseqüènda a longo prazo que afeta toda a sociedade, o o que liga essa
cotiseqüêruja a longo prazo às nossas ações do dia-a-dia, è o discurso
político, visto aqui, sob a ótica da análise do comportamento, enquanto
comportamento verbal. Esse discurso poli tico rvge as interações entre as
pessoas organizadas em grupos e assim mantém seu comportamento
enquanto a conseqüência a longo prazo não chega" (Todorov. 1997. p
11).
A Imprensa enquanto uma agência controladora
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f/o L K K irm y ftro a v oomacrisiniunto, cuNuM *i 67
Skinner (1953/1994) afirmou que o grupo social exerce um controle
sobre seus membros por intermédio do poder de reforçar ou punir. O grupo,
segundo Skinner. geralmente não é bem organizado e por <sso, na tentat va
de o rg a n iza r a co n v ivê nc ia e n tre ind iv íduos tem criado agênc ias
controladoras. Essas agências manipulam um conjunto particular de variá
veis, sendo mais bem organizadas do que o grupo como um todo, poderdo
assim operar com maior sucesso. As agências descritas por Skinner foram
o Governo, a Religião, a Psicotorapia, a Eoonomia e a Educação.
Cada uma dessas agências deriva seu poder da capacidade de con
trolar o comportamento dos indivíduos no grupo social. Assim, as agênc as
podem controlar o comportamento das pessoas avaliando e liberando con
seqüências para o comportamento de algumas maneiras: bom/mal, leçal/
ilegal (sistema de avaliação mais comumente aplicado pelo Governo); bem/
mal. pecado/virtude (sistema de avaliação da Religião); “bens" matéria s.
ganhos/pe rdas (s is tem a da E conom ia): ce rto /e rra d o (E ducação e
Psicoterapia) e estabelecendo contingências especificas òe acordo com
seu âmbito de atuação.
Além das agências citadas por Skinner é possível encontrar algu
mas outras que podem participar no controle social do comportamento cos
Indivíduos. A rigor, algumas áreas do conhecimento (medicina, publicida
de, farmacologia, por exemplo) ou outros grupos detentores de reforçadores
específicos poderiam ser tomados como agências controladoras.
Um desses grupos, de especial importância paraeste artigo ó a mídia
que detém o reforçador “ informação".
Esta agência tem o poder de controlar comportamento divulgardo
informações sobre a 'realidade', e produzindo o que Guerin (1992) descre
veu como conhecimento socialmente produzido. Os controlados, nesse caso
os consumidores de informação, ficam sob controle de uma realidade
construída, sem contato direto com o ambiente, possibilitando assim a
manipulação do que é relatado sobre esse ambiente por alguns membros
da comunidade.
Vivo-se hoje em dia no que chamamos de “aldeia global", repleta de
instrumentos cada vez mais sofisticados e eficientes que permitem a trans
missão da informação em segundos de uma parte à outra do planeta. O
avanço da tecnologia, assim como a grande oferta de aparelhos que rece
bem e transmitem informação, vem permitindo a um número cada vez mai
or de pessoas o acesso a uma rede de comunicação sem precedentes na
história da humanidade. A Internet pode ser considerada um exemplo claro
da agilidade e da rapidez ao acesso de uma infinidade de informações. Ela
vem desempenhando um papel crucial no que alguns autores denominam
idade da Revolução da Informação. Uma conseqüência fundamental dessa
mudança é o lugar de destaque que toda a indústria da midia de massa
vem dando ã Internet. Segundo Dizard (2000) todas as grandes firmas de
midia. e grande parte das menores, estão adaptando suas operações para
a realidade da Internet, levando-as a uma competição pelos usuários A
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68 R b d r t ú C i v i & i M a n o n t» í í r t ic r t o A ,v n » íV ar^C O
América on Une (AOL), o maior provedor de acesso á Internet do mundo,
durante os anos 90, passou a expandir seus serviços para além da informa
ção impressa na rede, incluindo recursos multimídia de voz e vídeo para os
mais de 20 milhões do assinantes. Ao longo desse período a rnédia de uso
do AOL aumentou para 45 minutos por dia em 1998. quando dois anos
antes era de apenas 19 minutos. Dizard (2000) descreveu uma pesquisa
que apontou os sorviços mais utilizados da Internet. Em 1997. o serviço de
informações e notícias aparecia em primeiro lugar sendo utilizado por 87.8%
dos usuários, seguido pelo correio eletrônico, utilizado por 83.2%. Os da
dos demonstram a expansão dos serviços disponibilizados na rede e a busca
cada vez maior por novos usuários. Mais do que isso, apontam o quanto a
informação é importante para grande parte das pessoas.
Uma tendência na indústria da mídia ó a fusão de empresas e a
formação de grandes conglomerados que abrangem um grande número de
modalidades de meios de comunicação. A maior fusão da história, em ja
neiro de 2000, entre a AOL e a Time Warner, gigante da comunicação e
entretenimento, possibilitou a formação de um dos maiores conglomerados
de niidia e comunicação (Arbex, 2001; Dizard. 2000). Paralelamente ao
desenvolvimento tecnológico e a expansão do número de usuários de veí
culos de comunicação, ocorreu um processo de concentração de poder
nas mãos de um pequeno número de corporações da mídia (Arbex, 2001;
Dizard, 2000; Laitinen & Rakos, 1997; Rakos, 1992). Dizard (2000) argu
mentou que estratégias de sinergia atualmente dominam a nova mídia,
podendo ser uma ferramenta perigosa, pois concentra o poder e a riqueza
nas mãos de um pequeno número de grandes empresas, que controlariam
a produção da informação sem possibilidade de confronto.
Os grandes conglomerados de midia e comunicação mantêm es
treitos vínculos com o poder do Estado, mesmo que tais vínculos não se
jam tão simples e diretos aos olhos do grande público (grupo de controla
dos) (Arbex, 2001).
O poder alcançado pela mídia na sociedade contemporânea tem
levado autores de diferentes áreas do conhecimento a refletir sobre possí
veis implicações políticas, econômicas e sociais (Arbex, 2001; Conti, 1999;
Dizard. 2000; Mamou. 1992; Rakos, 1993) Arbex (2001) chega mesmo a
questionar: "até que ponto os meios de comunicação de massa são uma
força determinante nos rumos dos fatos históricos (isto é. da história públi
ca, do evento político)?" (p. 38).
A eleição de Fernando Collor à presidência do Brasil, em 1989, foi
um exemplo das relações estabelecidas entre grande parte da Imprensa
brasileira e o Palácio do Planalto. Conti (1999) descreveu com riqueza de
detalhes as relações entre os proprietários da grande Imprensa, jornalistas
do destaque e aliados do ainda candidato Fernando Collor, no sentido de
promovê-lo como um novo e jovem talento da política nacional con» o título
de “caçador de marajás” Ao outro candidato. Luís Inácio Lula da Silva,
restou a imagem do perigo, do radical, de alguém que iria libertar a classe
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yeic«iir.'ioéw:3V oonpn-tnnmlo, euf.cn» n tacosacm 69
trabaihadora da opressão expropriando a classe dominante Entre os exem
plos de manipulações da Imprensa brasileira, nesse episódio, fornecidos
pelo autor e que foi de fundamental importância no rumo da eleição. está a
divulgação, no Jornal Nacional da TV Globo, do último debate ocorrido en-
ire Lula e Collor antes das eleições. No dia seguinte ao debate, o Jornal
Nacional veiculou uma reportagem com o resumo dos principais momen
tos, dando muito mais ênfase às participações de Collor e dedicando um
tempo maior da reportagem a ele. O Jornal Nacional naquela época tinha
um público fiel de 60 milhões de pessoas e era o programa de maior audi
ência da televisão brasileira. Collor ganhou a eleição3.
Um exemplo clássico das relações estabelecidas entre Estado e Im
prensa, no jornalismo internacional, foi o observado durante Guerra do Golfo
em 1991 De acordo com Mamou (1992) a Guerra do Golfo obrigou toda a
Im prensa a se questiona r quan to ao seu papel, sua função e sua
instrumentalização, levando ao surgimento de uma série de reflexões sobre
a cobertura do episódio. Durante seis meses, entre agosto de 1990 e janeiro
de 1991, antes da intervenção bélica norte americana, houve o que Art>ex
(2001) chamou de "construção de uma metáfora interpretativa" polarizada
entre o Bem o o Mal De um lado difundiu-se a idéia de um pais {Estados
Unidos) com valores democráticos, cristãos e pluralistas; de outro a idéia de
um Iraque islâmico e intolerante, abrigo de terroristas fanáticos e que não
reconhecia qualquer direito das mulheres. Essas idéias foram transmitidas
numa operação tecida entre o Estado norte americano e a mídia por intermé
dio de filmes, fotos e reportagens especiais que mostravam a "humanidade"
dos soldados norte americanos indo para guerra, despedindo-se de suas
mulheres e dos seus filhos; enquanto que os iraquianos eram vistos como
fanáticos religiosos com imagens que mostravam um oriente exótico (estra
nho, hostil), mulheres cobertas por véus e crianças armadas com metralha
doras. Construiu-se uma metáfora aterradora dos islâmicos, apresentado-os
sempre como vilões e exóticos, restando aos norte-americanos a tarefa
messiânica de libertar o mundo do tenor, quando na verdade os interesses
norte americanos estavam nas reservas do petróleo ocupadas por Saddam
Hussein no Kuwait (Arbex, 2001).
Uma outra questão abordada por Arbex (2001) é quando a metáfora
se transforma em convicção pessoal. Muitos acreditam que nâo houve
mortes no conflito do Golfo, pois as imagens transmitidas pela televisão
mostravam uma guerra ‘ cirúrgica", que atingia com impressionante preci
são os alvos em Bagdá, todos eles "inanimados". Aparentemente apenas
A inda q ue nSo se posso fazer um paralelo direto e^ tre o comportanvcnto da m ídta neste caso
(fnvorec.anco o desem penho <Je Collor) e o com portam ento da população d u ra r ia a s etoiçQes
(esoolhGodo-o oom o prosiconle), duvu-se terr brar que íi m o$m a m ldio (ainda q ue aliadaa vártoe
grupos ecopòrrscos. financeiros e do governo) tem sido apontada, tam bém . oDtno a responsável
pela dep os 'çâo d o própno Collor, incerU vando um m ovim ento popular M ia sua d e p c s lj ío
(Im p ea crm e n t). N ào é ‘am bém despercebido o pape* d a m íd ia na última oloiçíio do prôprw l uls
liiacio Luia d a Stfva. num a dem onstração clara d e controlo mútuo entr*j açôocsas oe controle e
controlado«
camila paiffer
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70 H t ta id o C c rtf c i M o l o - ie . R o t o r ia A lv o » Q a ia o o
edifícios vazios e equipamentos haviam sido atingidos. Na verdado, foram
despojadas 88.500 toneladas de bomba sobre a cidade. Morreram 100.000
pessoas em quarenta dias d© guerra. Como relata Arbex (2001) os noticiá
rios da época mostravam apenas o número de soldados amoncanos mor
tos e a quantidade de armas iraquianas destruídas, não mencionando o
número de iraquianos mortos. Os interesses do Estado norte americano
foram bem defendidos pela mídia nosse episódio, ainda mais quando se
cooptou o consentimento de grande parte da opinião pública mundial a
favor da intervenção norte americana sobre o Iraque.
‘Mosmo a divulgação do uma cifra espantosa como a Guerra do Golfo
- 100.000 mortes em apenas quarenta dias não produz efeitos
nem sequer longinquamente comparáveis aos que seriam criados
caso fossem transmitidas as imagens de corpos sendo estraçalhados
por rajadas de metralhadoras. A mldia conquistou, de fato. a capaci
dade política e tecnológica de ocultar até genocídios de grandes pro
porções. Esse dado ooloca, com urgência, as indagações sobro o
futuro dessa perigosa articulação de interesses entre as grandes
corporações da mídia e o Estado' (Arbex. 2001, p. 121).
Analisando práticas culturais: a informação como com
ponente fundamental da análise
O papol da midia no mundo contomporáneo. assim como o poder
de influenciar e produzir fatos, têm sido muito discutidos em diferentes áre
as do conhecimento (por exemplo, Arbex, 2001; Chomsky, 1988; Conti, 1999;
Dizard, 2000, Eco, 1984; Mamou, 1992). A análise do comportamento tam
bém vem contribuindo, de forma ainda muito modesta, com essa discus
são. Essa ciência dispõe de instrumental teórico capaz de abordar ques
tões referentos à cultura. Entretanto, grande parte dos trabalhos de analis
tas do comportamento interessados pela cuttura, ainda se caracteriza mais
pela descrição e análise de algum fenômeno social do que pelo desenvol
vimento de tecnologias de intervenção (Lamal, 1991).
O estudo da mídia e de sua influência sobre práticas culturais inse
re-se na lista de temas abordados por analistas do comportamento interes
sados em questões culturais. Rakos (1992), por exemplo, salientou a natu
reza informacional da sociedade contemporânea, ressaltando que analis
tas do comportamento Interessados em analisar a cultura devem necessa
riamente abordar questões referentes à influência da mídia no controle do
comportamento. O autor afirmou ainda que a construção do um ambiente
altamente tecnológico acabou por definir a informação e não mais o capital
como mercadoria mais valiosa. Segundo ele, os sistemas sócio-politicos
basoados na propriedade do capital são menos importantes que aqueles
baseados na propriedade da informação, pois a informação agora produz
riqueza. Não é por acaso que os Estados Unidos são considerados o banco
de informações do mundo e abrigam os maiores conglomerados de midia
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MeuuwiinjiAtiCírèt: a»ir<port.iinan»: CU(ut6 o ssciodiuch} 71
do planeta, dispondo do uma enorme rede de informações aliada a uma
sofisticada tecnologia4 (Dizard, 2000).
Fundamental para analistas do comportamento interessados no rela
tar pela Imprensa, sâo as duas grandes categorias de infonnação identificadas
por Rakos (1992) observadas no mundo contemporâneo. A primeira catego
ria inclui todas as informações que são impossíveis de ser controladas.
"Por causa da intensa tecnologia de transferência de informação a.je
ó independente de fronteiras artificiais, políticas, sociais e culturais -
através da educação, de viagens, telecomunicações e da Imprensa
e da midia eletrônica - as pessoas em todo mundo são expostas a
eslimulos que rapidamente adquirem propriedades reforçadores con
dicionadas. Esto processo de condicionamento 6 estendido para um
número continuamente maior de eslimulos à medida que a lecnotogia
expande a amplitude de bens potencialmente desejáveis - bens ma
teriais em geral, incluindo aqueles que produzem mais informação e
conhecimento' (Rakos. 1992. p. 1503).
A informação, por intermédio de uma tecnologia que gera meios de
comunicação cada vez mais rápidos e eficientes, é disseminada introduzin
do estímulos que muitas vezes podem estabelecer condições que resultam
no consumo de bens materiais específicos e que podem adquirir proprieda
des reforçadoras. Um problema apontado por Rakos (1992). decorrente da
transmissão de informação impossível de se controlar, é de extrema impor
tância para analistas do comportamento a falta de controle dos indivíduos
sobre o ambiente. As propriedades reforçadoras das tecnologias alardeadas
pelos meios de comunicação podem ser tão poderosas que tornam qual
quer contracontrole impossível. De acordo com Rakos (1992) o problema
da incontrolabilidade tendo a se intensificar com o desenvolvimento conti
nuo das tecnologias de transmissão de informação.
A segunda categoria de informação identificada por Rakos (1992)
inclui as que são rigidamente controladas, não possibilitando ás pessoas a
discriminação das contingências em operação, assim como o contracontrole.
Durante a Guerra do Golfo a mídia norte-americana agiu de forma articula
da com o Estado. Rakos (1993) demonstrou as formas pelas quais a opi
nião pública norte-americana foi induzida a apoiar um conflito armado con
tra o Iraque. Foram utilizadas duas formas de manipulação: a dissemina
ção de noticias falsas sobre ações do exército iraquiano quando invadiu o
Kuwait, e a censura de notícias. As variáveis do controle do comportamen
to da midia om relatar os fatos referentes á Guerra do Golfo permaneceram
totalmente não cognoscíveis para a opinião pública que tinha acesso aos
fatos somente por intermédio da Imprensa. Os fatos relatados pela midia
foram tomados por grande parte da opinião pública como cabais. Náo hou-
• O domínio rtorte am oricnno sobto a fnformaçôo podo sor nrritxildo tam bém outras práticas
cultum iè com o. u>or exe m p o : dustinaçao do enorm es verbas para pescjulsns u desenvolvimento
ter.ro loçK .oom vátias á re a s do conhecim ento, Incluída ai, a mldla.
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72 Ricardo Cctrèa l/arkxie. RcCj* * o A ve« 0an#co
ve a possibilidade, para grande parte da opinião pública, da discriminação
de contingências de controle manejadas pela mídia o pelo Estado. Grande
parte dos norte americanos apoiou a guerra.
A informação está centralizada e concentrada em estruturas gover
namentais e estruturas corporativas. O grande número de informação so
bre as pessoas armazenadas em computadores do governo o de empre
sas permite a previsão e o controle do comportamento por essas agências,
criando demandas e produzindo comportamentos desejáveis para os seus
próprios interesses, mantendo assim as hierarquias de poder atuais (Rakos,
1992).
Algum as propostas de análise sobre o relatar da Impren
sa do ponto de vista da análise do comportamento
Os trabalhos de dois autores têm sido utilizados corno referências por
analistas do comportamento interessados pela análise do relatar pela Im
prensa. O primeiro deles analisou as condições nas quais o conhecimento õ
socialmente produzido (Guerin, 1992). O segundo estudo, já citado anterior
mente, faz uma análise da propaganda como controlede estímulos no episó
dio que ficou conhecido como a Guerra do Golfo (Rakos, 1993).
Guerin (1992) descreveu duas condições cruciais para a determina
ção do conhecimento socialmente produzido. A primeira condição refere-
se ás respostas verbais descritas por Skinner (1957/1978) como tatos e
intraverbais, que estariam envolvidas na construção social do conhecimen
to.
A segunda condição referir-se-ia à identificação de que muitas das
respostas verbais que descrevem aspectos do ambiente, topograficamente
sem elhantes às respostas de tatear, seriam , na verdade, respostas
intraverbais emitidas sob controle discriminativo das respostas de outros
membros da comunidade verbal. Entretanto, quando as conseqüências que
mantêm o tatear são controladas por uma parcela especifica da comunida
de verbal, as respostas de tato estariam sujeitas a viéses determinados
pelas condições daqueles que obtêm os reforçadores. Skinner (1957/1978)
classificou essas respostas como tatos distorcidos, aludindo ao fato da cor
respondência entre eventos e relatos verbais não ser reforçada e sim, seria
reforçada uma dada definição de relato correto estabelecida por um grupo
que controla e libera os reforçadores.
A análise de Gueriri (1992) traz algumas implicações importantes
para analistas do comportamento interessados em compreender e revelar
os controles exercidos pela midia na divulgação de relatos, tomados por
muitos como descrições fiéis, objetivas e verdadeiras da realidade. A midia
è uma grande formadora de opinião, ditando padrões comportamentais.
regras éticas, criando candidatos e influenciando fatos políticos e históricos
que são descritos como conhecimento socialmente construído. Muitas opi
niões e atitudes compartilhadas pelos membros da comunidade verbal frente
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M K a c o n tf tg & n s â B : c c n p o .T s m e n lo , c u r .t r a e b o ^-m ü s iio 73
ao relato de algum evento da realidade, devem ser entendidas como res
postas verbais sob controle de tatos emitidos por um pequeno grupo dentro
da comunidade verbal como, por exemplo, membros da mídia. A mídia como
controladora do comportamentos e denominada 'form adora de opinião"
passa a produzir cadeias intraverbaís nos indivíduos de sua comunidade
verbal, colocando-os sob controle de respostas verbais do tipo intraverbal
Deste ponto de v is ta , ela poderia ser encarada como uma agência
controladora.
Uma outra questão crucial também presente na análise de Guerin
(1992) é o contato cada vez menor das pessoas, no mundo contemporâ
neo. com o ambiente mecânico. Tem-se acesso â realidade, cada vez mais,
por intermédio do rolato de certos segmentos da comunidade verbal. A
produção de cadeias intraverbaís por intermédio da mídia propicia a cria
ção de um conhecimento virtual, que pode representar os interossos de
uma pequena parcela da comunidade verbal. Durante a Guerra do Golfo a
Imprensa norte-americana teria produzido uma série de relatos que foram
tomados como descnções fiéis da realidade. A construção pela mídia de
um Iraque atrasado, usurpador dos valores democráticos, abrigo de terro
ristas capazes das maiores barbáries e que não reconhecia os direitos da
mulher estarreceu o mundo e p/oduziu ações contrárias à “rea lidade '
iraquiana na opinião pública norte americana. A construção desse conheci
mento. que não descrevia ‘ objetivamente" a realidade, serviu aos interes
ses do Estado norte-americano, resultando em comportamentos de apoio
da população quando a guerra contra o Iraque teve inicio.
A análise de Guerin (1992) serve também como um alerta para os
controles exercidos por pequenas parcelas da comunidade verbal. Segun
do o autor, se o controle social do la tear estiver nas máos de um grupo que
não reforça necessariamente a correspondência entre as propriedades do
am biente e o relato, mas s im uma dada definição de relato "correto"
estabelecida a priori por esse grupo, se estará diante de ficçòes criadas
para atender alguns interesses.
Rakos (1993) sugeriu uma segunda possibilidade de analisar os rela
tos apresentados pela Imprensa. O autor apresentou uma descrição de pro
cessos comportamentais envolvidos na propaganda efetivada pelo Estado norle-
omericano com o objetivo conseguir o consenso da opinião pública da neces
sidade de uma resposta bélica ao Iraque, logo após este invadir o Kuwait.
Rakos (1993) definiu propaganda como um conjunto de estímulos
antecedentes que teriam a funçào de induzir a emissão de comportamen
tos nas pessoas. No caso da Guerra do Golfo, o governo norte-americano
não tinha o respaldo da opiriiáo pública e do Congresso para uma possível
invasão do Iraque, necessitando realizar uma campanha para conquistá-
los. Segundo o autor, o governo precisava vender duas imagens para a
Imprensa que rapidamente as aceitou: Saddam Hussein é uma ameaça, o
o Kuwait é uma naçâo amiga. Obtendo a cumplicidade da Imprensa, o go
verno poderia levar a cabo sua tarefa de obter apoio público para a guom.«
por meio de duas estratégias de publicidade: restringir InformaçÔen sobro
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74 R c a rd o Corrêa Martono, Rclx-rir, Alvoe, U w i0 <»
os acontecimentos no Oriente Médio (censura). e disseminar informações
falsas sobre as ações militares do Iraque.
Rakos (1993) analisou o conteúdo sobre o conflito (notícias da re
gião do conflito, discursos políticos do funcionários do governo norte-ame
ricano. análises de comentaristas) de todas as publicações do The New
York Times a partir de 1° de agosto de 1990 até 17 de janeiro de 1991,
agrupando e identificando essa conteúdo em quatro operações de controle
de estímulos: estímulos discriminativos, operações estabelecudoras, regras
e equivalência de estímulos; e a relação temporal entre as notícias veicula
das pela Imprensa e as respostas dos cidadãos (medidas através de pes
quisas de opinião sobre a aprovação ou não de uma intervenção bélica
norte-americana).
Rakos (1993) concluiu que no primeiro mès após a invasão do Kuwait
pelo Iraque, a possibilidade de uma intervenção militar dos Estados Unidos
era aversiva para a opinião pública norte-americana. O Iraque era visto
como uma nação aliada, devido á guerra desse país com o Irã, pois os
americanos haviam apoiado os iraquianos. O Kuwait, por outro lado, era
visto como uma nação antidemocrática, inimiga e preconceituosa em rela
ção ás mulheres. Entretanto, após os cinco meses seguintes á invasão do
Kuwait pelo Iraque, a campanha de propaganda efetivada pelo Estado em
articulação com a Imprensa, alterou a opinião da maioria da população
norte-americana que passou a apoiar a intervenção bélica norte americana
no Iraque. Por meio de operações estabelecedoras identificadas por Rakos
nas notícias, criadas por relações transitivas de equivalência que equipara-
vam Hussein (A) a Hitler (B) e um mal indescritível (C), transformaram o
Iraque e Saddam Hussein em estímulos aversivos. e as regras introduzi
ram contingências aversivas: "agressões não provocadas deveriam ser
contidas para preservar a liberdade e o direito’ . Esses estímulos induziram
declarações verbais na opinião pública do tipo "algo precisa ser feito '. Es
sas declarações verbais (da opinião pública) eram reforçadas pelos relatos
de esforços diplomáticos, de restrições econômicas impostas ao Iraque e
de relatos que descreviam a ação da Organização das Nações Unidas
(ONU). A hipótese de deslocamento de tropas norte-americanas para a
região do conflito, e uma possível guerra eram ainda vistos, pela opinião
pública, como estímulos aversivos. Foram introduzidas, paulatinamente,
noticias que defendiam um conflito armado.
Essas noticias foram apresentadas, com o passar do tempo, de fo r
ma mais intensa, e sempre acompanhadas por declarações que interessavam à opinião pública (sanções económicas, ações da ONU. uso da diplo
macia). O público habituou-se com a intensificação de relatos que defendi
am uma ação militar norte-americana contra o Iraque (inicialmente aversiva).
Quando a guerra começou, a ação militar tornou-so um estimulo positivo
para a opinião pública quo passou a apoiar a guerra. O reforçamento posi
tivo foi assegurado, pois as conseqüências negativas da guerra foram afas
tadas (foram omitidas imagens de pessoas sendo metralhadas, corpos
mutilados) permanecendo somente a demonstração da alta tecnologia uti
P /ok xicfr.inpíirrcos: o o m u o rta m o n w . c u llu 'a « KH,ic<Í4tla 75
lizada e o sucesso das conquistas por intermédio do uma guerra cirúrgica,
que atingia precisamente os alvos aparentemente não povoados. A popu
laridade e o apoio à adm inistração norte americana atingiram Índices
altíssimos de aprovação.
Uma primoira tentativa do analisar relatos verbais produzidos pela
Imprensa escrita brasileira sobre acontecimentos violentos, tendo por base
a análise do controle avorsivo do Sidman, foi efetivada por Andery & Sério
(1996). A análise foi feita a partir de manchetes de jornais brasileiros que
relatavam três episódios que se caracterizaram pelo excesso de violência:
o assassinato de 8 meninos do rua por policiais em frente ã Igreja da
Candelária no Rio de Janeiro, em julho de 1993: a invasão, pela policia
m ilitar em novembro do 1992, do Pavilhão 9 da Casa do Detenção do Esta
do de São Paulo, que terminou com a morte de 111 presos; e a invasão da
favola Vigáno Geral, no Rio de Janeiro, por homens armados e oncapuzados,
que terminou com o assassinato de 21 pessoas.
As autoras analisaram os seguintes aspectos: 1) a distribuição tem
poral dos relatos sobre esses eventos durante um ano quo se seguiu a
cada episódio. 2) aspectos do episódio destacados nas manchetes pela
Imprensa e 3) as conseqüências do controle avorsivo idontificadas através
dos relatos. Dentre os signrficantes resultados obtidos pelas autoras, o nú
mero de vezes que um episódio era manchete do jornal, é um dos que mais
chama a atenção, pois poderia sugerir que houve alguma ação do veículo
de comunicação no sentido de restringir a informação para produzir ou evi
tar alguns efeitos sobro a opinião pública. Por exemplo, os episódios de
Vigário Geral e da invasáo da Casa de Detenção foram manchetes 48 ve
zes durante o periodo de um ano após suas ocorrências. Já o episódio da
Candelária foi manchete 29 vezes durante um ano após o ocorrido
Os dados obtidos pelas autoras mostraram que rios três episódios,
o maior número de relatos concentrou-se nos dois primeiros meses após
os acontecimentos. No caso da Candelária e de Vigário Geral a maioria dos
relatos apareceu no primeiro mês após os episódios. Andery & Sério (1996)
sugeriram que o menor número de relatos referentes à invasáo da Casa de
Detenção de Sâo Paulo no primeiro mês. pode ser uma conseqüência do
episódio ter ocorrido em uma instituição fechada, na qual poderia haver
alguma açáo no sentido de restringir informações.
Um segundo trabalho conduzido por Andery & Sério (1999a) traz
uma análise, também embasada na concepção de controlo aversivo do
Sidman, sobre o fenómeno da violência. As autoras selecionaram algumas
noticias dos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo dos anos
1993 e 1995 que relatavam episódios violentos. As noticias selecionadas
foram colocadas em algumas categorias que permitiam verificar as efeitos
do controle aversivo. As autoras puderam demonstrar a presença constan
te e disseminada do conlrole aversivo na vida das pessoas através da alta
freqüência de relatos sobre eventos violentos veiculados pela Imprensa
escrita.
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76 ííicürtto Corròd M urtow , How ioo A vus ãan acu
Uma análise sobro o rolato da violência por um meio d© comunicação
de massa também foi sugerida por Namo (2001). O autor analisou todas as
noticias publicadas pelo jornal Folha de São Paulo duranto o ano de 1999
que traziam o relato de eventos violentos ocorridos no Brasil o no ostado e
dados sobre os índices de violência da Secretaria de Segurança Pública do
Estado de São Paulo. As notícias foram analisadas quanto ao tipo de violên
cia relatada, vítimas e agentes da violência e efeitos da violência. Entre as
análises realizadas pelo autor, uma delas é muito significativa. Foram com
parados os dados obtidos na Secretaria de Segurança Pública sobre os tipos
de violência com os dados obtidos nas noticias veiculadas pela Folha de São
Paulo. Namo (2001) constatou, por exemplo, que o tipo de violência mais
comum retratado pelo jornal foi o homicídio, enquanto que os dados oficiais
da Secretária de Segurança pública apontavam lesão corporal como o tipo
mais comum de violência no estado. Tomando-se os dados da Secretaria de
Segurança Pública oomo representativos da incidência dos tipos de violên
cia no estado, segundo o autor, o jornal Folha de São Paulo estaria dando
uma ênfase maior a eventos violentos (homicídios) que, na verdade, não
seriam os de maior Incidência. Segundo o autor, a discrepância entre os
dados da Secretária e as noticias da Folha de São Paulo seria um indicativo
de que o jomal privilegiaria certos tipos de noticias para causar algum impac
to sobre o leitor, visando interesses mercadológicos como. por exemplo, ven
der mais exemplares do jornal.
Partindo das análises anteriormente citadas sobre o relato da Im
prensa e as formas pelas quais esse mesmo relato pode controlar compor
tamento, Martone (2003) realizou uma análise sobre o relato da Imprensa
enquanto agência controladora sobre um conjunto de práticas culturais pro
duzidas por uma cultura imediatamente após o episódio que ficou conheci
do como os ‘ ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 ' contra os
Estados Unidos. O autor coletou, via site eletrônico, notícias produzidas
pela Cable News Network (CNN). Foram analisadas noticias veiculadas
durante três dias subseqüentes aos episódios de 11 de setembro de 2001,
utilizando-se a classificação empregada pela própria agência controladora
na divulgação dos relatos. Estas notícias também foram categorizadas o
organizadas de forma a encadear os eventos relatados em uma seqüência
causal. Os resultados indicaram que o relato da Imprensa foi parcial, não
fornecendo qualquer dado sobre a motivação envolvida no ‘ ataque“, e pri
vilegiou as ações da agêncta governamental e econômica.
Oe trabalhoe quo analisam o relato da Impronsa, acima doKcritos.
demonstram as formas pelas quais a Imprensa escrita relata eventos da
realidade privilegiando mais a publicação de alguns assuntos em detrimen
to de outros. Os trabalhos demonstram também a pertinência e utilidade da
análise do comportamento na análise do relato da Imprensa, pois como foi
apontado por alguns autores (Andery & Sério. 1996, 1999a; Guerin, 1992;
Namo. 2001; Rakos, 1993) esta ciência possui um instrumental teórico ca
paz de lidar com as questões envolvidas neste tipo de análise.
O conhecimento socialmente construído através da produção de ca
deias intraverbais pela mídia (Guerin, 1992); a descrição de processos
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W«íl&:xaiiing«nr.ta»: oom pofltritn to . ajhur.i a 6o:-«-Jitdô 77
comportamentais subjacentes á veiculação da noticia e seu possive! efeito
sobre o leitor (Andery à Sério, 1996. Rakos. 1993), assim como os possíveis
controles exercidos sobre o relatar da Imprensa (Guerin. 1992, Namo. 2001;
Rakos, 1993) são questões analisadas em trabalhos de analistas do compor
tamento e que apontam caminhos promissores para este tipo de análise.
Pode-se observar que, apesar dos aspectos ressaltados sobro a
possibilidade da Imprensa distorcer os relatos sobre os eventos ocomdos,tais relatos têm a função de controlar os comportamentos de um grupo
social. Seja ela (a Imprensa) associada ou não a uma outra agência de
controle, os trabalhos apresentados demonstraram claramente que o com
portamento de relatar tem um efeito sobre o comportamento dos "controla
dos socialmente".
Tais efeitos têm sido descritos pela literatura e poderiam ser dividi
dos em dois grandes conjuntos: o primeiro, mais diretamente observado
pelos controlados, poderia ter a função de tato, e daria a “veracidade" para
o relato como um todo. O segundo conjunto, ao qual o controlado não teiia
acesso direto, poderia ser mais facilmente manipulado por meio de distorção
e/ou seleção de algum aspecto (censura) tornando mais prováveis algu
mas respostas dos controlados.
Conclusão
Alguns analistas do comportamento vêm utilizando o instrumental te
órico disponível em sua ciência para identificar os controles exercidos sobre
o relatar da Imprensa, demonstrando assim que o que é relatado e como é
relatado riáo pode ser considerado "neutro’', livre de qualquer influência.
Uma questão que surge a partir dos trabalhos descritos nesse artigo
diz respeito á pretensa neutralidade dos veículos de comunicação ao rela
tar os fatos. Ouvem-se jargões do tipo "testemunha ocular dos fatos", "jor
nalismo objetivo que leva os fatos até você", ‘‘a verdade dos fatos, doa a
quem d o e r e ‘jornalismo imparcial e objetivo’ (Arbex. 2001). Estas frases
revelam a idéia de que a atividade jomalistica deve ser encarada como um
meio pelo qual os fatos possam ser espelhados como imagens fiéis da
realidade, livre de influências que possam alterar a percepção e o relato
dos acontecimentos. Entretanto, a literatura vem apontando que algumas
variáveis desempenham um papei crucial no relato da realidade pela Im
prensa. Influenciando-a e determinando em muitos casos a forma pela q ja l
o fato deve ser divulgado, ou até mesmo o que pode e o que não podo ser
publicado.
A afirmação de que o relato da imprensa deve ser ‘ neutro" ou um
"espelho da realidade" é o reflexo de uma concepção que desvincula as ações
hum anas de suas determ inações históricas e socia is, propiciando o
ocultamento de variáveis importantes de controle e uma completa alienação
do que ou quem está no controle. Acredita-se que o comportamento hurrono
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78 Ricardo CorAu M anor*. Robortu AJv o í Bjikico
seja multidetermiriadu e não ocorra desvinculado de seu contexto ambiental.
Acredita-se também que a função do pesquisador seja identificar as variá
veis ambientais que determinam o comportamento, ainda quo estejam elas
em ambientes altamente complexos e de dificil detecção, como no caso das
variáveis que estariam envolvidas no fenómeno aqui estudado.
O behaviorismo radical fornece uma compreensão do comportamento
humano que vai de encontro às concepções mais tradicionais da cultura,
instrumentalizando o pesquisador com conceitos que permitem uma análi
se que considere os controles exercidos sobre o comportamento.
"Se vamos usar os métodos da ciência no campo dos assuntos hu
manos. devemos pressupor que o comportamento é ordenado e de
terminado. Devemos esperar desoobrir que o que o homem faz é o
resultado de condições que podem ser especificadas e que. uma vez
determinadas, poderemos antecipar e até certo ponto detenuinar as
açóes. Esta possibilidade desagrada a muitas pessoas por se opor a
uma tradição de longo tempo, que encara o homem como um agente
livre, cujo comportamento é o produto, não de condições anleceden-
tes específicas, mas de mudanças anteriores espontâneas' (Skinner,
1953/1994. p. 20).
A utilização do conceito de contingência como instrumento de análi
se permite a identificação de relações especificas entre indivíduo e ambi
ente, assim como as mudanças produzidas por estas relações no ambiente
e no sujeito.
Referências Bibliográficas
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Igualdade ou Desigualdade:
Manipulando um análogo
experimental de prática cultural
em laboratório. 1' 2
Christian Vichi
"O ambiente social de qualquer grupo de pessoas ó o produto de
uma série complexa de eventos no qual o acidente algumas vezes
desempenha um papel proeminente... Um procedimento cultural não
é menos eficiente por suas origens acidentais, ao determinar o com
portamento característico de um grupo Mas uma vez observado o
efeito sobre o comportamento, a origem da prática pode ser exami
nada mais de perto Certas questões vêm a ser colocadas. Por que o
planejamento de uma cultura deve ser deixado tanto ao acaso? Não
será possivel mudar o ambiente social deliberadamente de forma a
que o produto humano esteja mais de acordo com especificações
aceitáveis?" (Skinner, 1953/2000, p. 463-464).
Através de seu modelo de seleção pelas conseqüências, Skinner
(1993/1953; 1974, 1981) propõe a existência de irés niveis distintos de vari
ação e seleção: o nivel filogenótico, o ontogenático e o cultural. No primeiro
destes três niveis o ambiente seleciona a estrutura fisiológica e anatómica,
assim como algurnas respostas de importância vital para a sobrevivência,
popularmente chamadas de reflexos. O segundo nível responde pela produ
ção de seleção nas respostas que sâo adquiridas e mantidas, ou modifica
das ao longo do periodo de vida do organismo. E o terceiro nível explicaria a
estruturação e origem das práticas culturais de determinadas sociedades.
Cada um destes niveis deve ser abordado pela ciência responsável por tais
objetos de estudo, respectivamente: Fisiologia/biologia/etologia. análise ex
perimental do comportamento e antropologia.
O homem sendo um ser social e capaz de emitir um tipo especifico
de comportamento, chamado de “comportamento verbal" (Skinner, 1978/
1957), vive sob controle de contingências muito mais complexas do que
' Eete trabalho foi oacrito u partir d a d issenaçflo d e m ostm do defendida peto autor em 2 0 0 4 no
Program a d e E&tudos Pôs-graduados e m Psicotogia Experim ental: A n â lü o c o Com poitam onto
d a P U C -S P sob (x to n ta çào d o Prol*. O r* M nria Am álln Ple Abib A rd e ry e foi parcialm ente financi
ado por um a bo^sa C A P E S ..
* O autor tam bóm ag rad ece a co laboração do Prol W. D avid P íeroe e as augestóes dn Prol“
S*Qiid S. G te rn duianto a fase d e e*«bo raçào do projeto.
82 ChnsOd-i V k l»
organismos não verbais, ou mesmo não sociais. Pois através do comporta
mento verbal um indivíduo é possível intermediar as conseqüências do com
portamento de outro indivíduo, criando assim uma espécie de conseqüên
cia arbitrária para uma resposta que “naturalmente" não produziria o mes
mo efeito; aqui talvez um exemplo se faça útil. para tanto empregamos o
clássico exemplo da água: Se uma pessoa disser “Por favor, me dê um
copo de água" (uma resposta que num ambiente não social não produziria
a apresentação do estímulo copo de água), poderá e provavelmente terá
sua resposta reforçada pela apresentação do estimulo reforçador: um copo
de água dado a ela por uma outra pessoa presente no momento da emis
são do pedido e que tenha sido treinada pela mesma comunidade verbal.
Sendo o comportamento humano produto das relações estabelecidas
eritre organismo e ambiente e considerando que uma parto muito significa
tiva deste ambiente é composta por outros seres humanos (Skinner. 1993/
1953; 1974), as contingências de natureza social são responsáveis por boa
parte de nosso repertório comportamental. Essa análise pode ficar ainda
mais complexa se considerarmos que as pessoas podem, ainda, formar
grupos com certo grau de organização e cu jas “(...) conseqüências
relorçadoras geradas pelo grupo exGSÚamJlaçtiinGíÊe Q àM aiS das Qüime-.
quêndãs vue uadcriam. ser Lvnseaiúüâs joslosmeíabíps. scjia isssni seafl-
fjdúm entc . Q efeito . íQfwçãúsirjQ tdA.GãQrwQimintQ jçrescióQ '' (Skinner.
1993/1953 - pp. 31 - grifos meus). E de um modo semelhante as pessoas
podem, ainda, foonar grupos muito organizados e eficazes em controlar o
comportamento humano, por vezes chamados de agências controladoras.
Descrever as relações entre os integrantes deste grupo, em termos
do contingências de reforço, pode explicar os comportamentos individuais de
seus membros, no entanto, muitas destas contingências mantenedoras são
artificialmente criadas e aqueles que aplicam as conseqüências, na maioria
dos casos, também estão sob controle de outras contingências de natureza
social. Para explicar de que modo estas relações passam a existir e de que
modo os comportamentos dentro do um grupo se conectam ao ambiente
natural (não social), devemos atentar a um nível mais amplo de explicação,
que Skinner (1993/1953; 1974: 1981) chamou de seleção das práticas cultu
rais.
Os analistas do comportamento vèm, cada vez com maior freqüên
cia, demonstrando interesse por questões sociais (Skinner. 1977/1948;
Burgess & Bushell Jr., 1969; Kunkel. 1970; Rakos. 1991: Lamal, 1991) essa
retomada pelo interesse nas variáveis sociais, importantes na determinação
do comportamento humano, têm se tomado mais e mais incisiva na literatura
(Holland, 1978; Malagodi,1986) ao longo do tempo.
Uma contribuição bastante significativa à análise do comportamento,
instrumentalizando o pesquisador no estudo das práticas culturais, foi o con
ceito de metacontingéncia (Glenn, 1986; 1988; Andery e Sério, 1999) por pos
sibilitar a relação entre a redo do contingências que mantêm os comportamon-
tos individuais dos integrantes de uma prática cuftural e os produtos agregados
desta prática Nas palavras de Glenn (1988) a metacontingéncia é:
\< 8l8C o rífv ,iÔ M i:iav c o r f w r l ív r * » H o . c u H ir a o c o s e d o g o 83
“(...) a unidade de análise que descreve as relações funcionais entro
urna classe de operantes, cada operante tendo sua própria conseqü
ência, imediata e única, e uma conseqüência em longo prazo, co
mum a todos os operantes na metacontingèncía".
Apesar do interesse cada vez maior no estudo de tais práticas, es
tes estudos ainda são. em sua maioria, do natureza teórica e ou interpretativa
(por ex.: Todorov, 1987; Malott, 1988; Rakos. 1991). quase-experimental
(por ex.: Kunkel, 1985; Rakos, 1993) ou mesmo aplicada (Biglan, 1995),
poucos estudos aoordam a questão especifica da seleção e manutenção
das práticas cu ltu ra is num a perspectiva experim enta l, de fa to uma
metodologia para isso é difícil de encontrar dentro da análise do comporta
mento. No entanto, dentro da sociologia americana é comum encontrar
sociólogos, denominados sociólogos experimentais, cuja preocupação é
testar experimentalmente diferentes tipos de relações sociais tais como
preconceito, hierarquia, poder e distribuição do ganhos. Estes temas são,
freqüentemente, considerados amostras de práticas culturais, portanto existia
a possibilidade de que. talvez, estes sociólogos tivessem uma abordagem
interessante do assunto em questão.
Segundo Wlggins (1969) esta área de pesquisa está subdividida em
dois pólos
1) Efeitos de eventos antecedentes sobre os comportamentos dos inte
grantes de um grupo (área chamada de controle de estímulos dentro da
análise do comportamento)
2) Efeitos dos eventos conseqüentes sobre os comportamentos dos inte
grantes do um grupo (relações resposta-consoquôncia).
a. Efeitos das conseqüências que retroagem individualmente sobre o com
portamento do sujeito.
b. Efeito das oonseqüénaas que retroagem sobre o grupo como um todo.
Devido aos limites deste trabalho não foi possível ater-se às pesqui
sas descritas no grupo (1) por Wiggins, porém será descrito a seguir um
breve levantamento sobre os experimentos que atentam para os efeitos das
conseqüências sobre o indivíduo e sobre o grupo de maneira geral (2)
a) Efeitos das conseqüências que retroagem individualmente sobro o
comportamento do sujeito.
Conhecendo a importância das conseqüências sobre o comporta
mento individual e a importância do comportamento social e verbal, Bavelas.
Hastoff, Gross e Kite (1965) ao investigar o fenômeno conhecido popular
mente como "liderança", em pequenos grupos de quatro pessoas, notaram
uma relação entre a quantidade de emissões de respostas vGrbais e a clas
sificação hierárquica de liderança realizada pelos próprios integrantes des
tes grupos. Os autores puderam perceber que os participantes mais silen
ciosos, ou menos falantes, em geral, eram classificados como estando num
nível hierárquico (de liderança) mais baixo, enquanto que os participantes
84 O i r . K a o Vkcli
mais falantes eram classificados como possuidores de posições hierarqui
camente mais elevadas. Durante o experimento os pesquisadoros apre
sentaram diferentes conseqüências tentando aumentar o número de res
postas verbais dos integrantes em nivel hierárquico mais baixo e diminuir o
número de respostas verbais dos integrantes em nível hierárquico mais
elevado. Os resultados oncontrados indicaram que pode-se modificar a
avaliação hierárquica que os integrantes de um grupo fazem, uns dos ou
tros. a partir da alteração de uma simples classe de respostas individuais,
no caso o tempo de fala de um individuo alvo.
Pierce (1975) realiza um experimento semelhante ao de Bavelas et
al. (1965), com a diferença básica de empregar o delineamento de sujeito
único e de atentar para a possibilidade de que se um dado participante, ao
interagir, fosse capaz de produzir reforçadores para os demais membros
do grupo (ou seja, conseguisse maximizar a produção de reforçadores)
este poderia ter seu indice sodomótrico ampliado a um status mais eleva
do A fim de testar essa possibilidade ele aplica em dois grupos, de quatro
pessoas, contingências chamadas de RCI3 e RMG4. A contingência RCI
era a mesma empregada por Bavelas et al (1965), porém na contingência
RMG o grupo partilhava os reforçadores; de modo que sempre que a pes
soa designada a recebor reforçadores por falar o que fazia, os demais par
ticipantes também seriam reforçados, em tese isso faria com que o próprio
grupo passasse a tentar ‘ estimular" a pessoa alvo a emitir maior número de
respostas verbais.
Outro experimento, muito semelhante a esto, foi realizado posterior
mente (Pierce. 1977), agora, porém com três grupos distintos onde se veri
ficou que outra variável relevante, para a possibilidade de se alterar a or
dem hierárquica de um grupo, era o tempo do interação deste na linha de
base. Observou-se que quanto mais tempo de interação os participantes
tiverem uns com os outros, maior será o grau do que Pierce chamou de
“consenso"5 e conseqüentemente maior a dificuldade de alterar a posição
dos participantes na ordem hierárquica.
b) Efeito das conseqüências que retroagem sobre o grupo como um todo.
Para o presente artigo, o experimento mais relevante foi o Wiggins
(1969), pois seu procedimento permitiu demonstrar como uma determinada
prática de um grupo de pessoas pode ser selecionada, a partir da conseqüên
cia desta prática para o grupo como um todo'. Neste experimento dez grupos
de três participantes tomavam parte num jogo com duração de cerca de uma
hora por dia (ou trinta jogadas), durante doze dias. Cada participante tinha um
3 R ofofçam enlo centrado r o Indivíduo
c Reforçam anto nw diado pato grupo
'E m b o ro Pierce (1975; 1977) r à o afirm e isso. aparentom onta o c o rs e c s o ô produzido pe la fyim u-
laçáo e seguim ento rugras acerca das posições do cada ^ teg ran te . Corno sabem os regras são
tx>m m onos so n sfv ea ao s efeitos d33 cortin géncias o lo rx in m a retarda* seu oforto.
' O s resultados para o fl-upu com o um todo podem , tam bém , serom cham ados d e 'esultados
agregados.
M etlUXH* n g A r o a * : o a n * i w t i ' r « i n j u u ltu i» • s t f t i « l # ü « 85
papel, um deles era designado como líder e tinha poder de decisão final om
caso de falta de consenso, outro participante era designado como secretáric e
tinha algumas informações privilegiadas sobre o jogo, podendo compartilhá-
las ou não oom os demais e o terceiro era denominado tesoureiro e somente
recebia e investia o dinheiro conforme a decisão do grupo. O experime-to
consistia de um jogo de apostas e ganhos ou perdas e o líder era sempre
obrigado a investir mais (em função das regras do jogo).
Os participantes eram informados que a pesquisa tratava-se um estu
do sobre resolução de problemas em um pequeno grupo. Era dito que sua
tarefa seria a seguinte: o experimentador primeiro escolheria uma coluna
numa matriz de sete colunas por sete fileiras com uma quantidade aleatória
de sinais + e - o em soguida, sem conhecer a decisão do experimentador, o
grupo deveria escolher uma fileira e apostar suas fichas. Esta escolha (fileira
e coluna) Indicaria uma célula de intercessão, quo poderia ser positiva ou
negativa, e determinaria um saldo para o grupo. Cada sinal positivo daria
direito a 30 centavos, pagos ao final de cada tentativa. Se a célula indicasse
um sinal negativo, os participantes perderiam o investimentoe nada ganha
riam. O dinheiro era. em seguida, colocado em uma caixa, chamada de "player
pool", e os participantes deveriam então dividir algum dinheiro do “player
pool” entre si. do modo como estes decidissem. Basicamente eles poderiam
fazer uma distribuição eoüitativa (proporcional ao investimento de cada par
ticipante) ou igualitária (os recursos são dislribuidos..em.parles.ifluaisJnde:
pendentemente do quanto cada unr invostiu ou colaborou, para a. iMQ.dtic.ãfl
do resultado)7. Cada participante deveria investir seu próprio dinneiro na jo
gada e ao final da sessão o grupo deveria devolver o dinheiro usado do
"player pool", deixando-o com a mesma quantidade do inicio.
A decisão do experimentador por uma coluna, na verdade, não ora
aleatória ela dependia do modo como os participantes haviam dividido seus
ganhos na tentativa imediatamente anterior, ou seja, o exper.mentador po
deria fazer com que o grupo ganhasse ou perdesse. Os participantes Cos
cinco grupos submetidos à condição experimental 1 somente ganhariam
na jogada seguinte se distribuíssem igualmente seus ganhos e nos últirros
cinco dias recebiam o tratamento inverso. Os participantes dos outros cin
co grupos inversamente iniciavam o experimento na condição experimental
2 e ao final passavam para a condição 1.
Os resultados do Wiggins indicaram que os grupos tendem a se ade
quar à contingência vigente", pois ela ó mais vantajosa para todos (em termos
de densidade de reforçadores ao longo do tempo), mesmo nos casos em que
era forçada uma divisão igual do dinheiro ganho, e que o líder tendia a ganhar
' N a literatura de estas palavras aparecem com um a term tro logia técnica usada para designar
diferentes m odos de alucar os reforçadores no grupo: U m a distribuição Igualitária ou Equality
ie fere ao m odo de dtstrlbu.r os reforçadores igualm ente entre todos os Indtviduos. Independente
d a sua contribuição para a produção do resultado do grupo. Equidade ou Equrty o um m odo cte
distribuir os reforçadores a partir da COrlrítxiiçSo Co cad a sujeito r « geração do produto f ira l co
g rupa
'■ N este texto tem -se em pregado um a term iro logia fam iliar aos analistas do com portam ento, po
rém o » autores nem som pre em pregam t,j.s íormos. om bora este jam rofonndo-se a e ;«s
86 C t u is U ín V c it l
relativamente menos a cada jogada, por conta da regra que o obrigava a apos
tar mais. Soll & Martin (1989) investigando as chamadas "regras o alocação de
recursos" também notaram esse efeito, os grupos tendiam a desrespeitar as
regras de distribuição impostas pelo exparimentador se uma regra alternativa
e sem conseqüências aversivas para os integrantes fosse proposta.
A semelhança destes resultados com Lei da Igualação (Herrstein,
1970) levou alguns pesquisadores a proporem a chamada Lei Social da
Igualação (Grifflth & Gray, 1978; Gray, Griffrth, Von Broemsen & Sullivan, 1982),
pois aparentemente, a mesma fórmula usada no nivel ontogenético poderia
prever as relações entre práticas e resultados agregados do grupo no nivel
social. Usando sua Lei Social da Igualação Griffith & Gray (1978) investiga
ram o efeito da probabilidade do chamado "reforço externo"" sobre o modo
como os participantes dividiam os ganhos e relataram que grupos com altas
probabilidades de receberem conseqüências positivas tendiam a igualdade
e grupos com baixas probabilidades tendiam a equidade.
Restringindo-so os grupos ainda mais Judson & Gray (1990) investi
garam a distribuição de autoridade em duplas de desconhecidos como fun
ção da manipulação do resultado que esta dupla era capaz de produzir (re
sultados agregados) e posteriormento foi-se investigado o efeito deste tipo
de contingônda sobre duplas que se conheciam há tempos (Gray, Judson &
Duran-Aydintug, 1993), com alto grau de consenso, como diria Pierce (1977).
Ambos os estudos corroboraram a tese de Wiggins (1969), ou seja, as du
plas tendem a se adequar à contingência vigente, mesmo que isso implique
numa inversão das relações internas já previamente estabelecidas.
Portanto, coloca-se aqui novamente a questão: É possível modificar
os comportamentos dos integrantes de um pequeno grupo, sem manipular
diretamente as respostas individuais de cada participante, e ao invés disso
manipular somente os resultados agregados? Como esta contingência afe
taria as respostas verbais dos participantes? Eles teriam “consciência °" do
"por que" se comportam de tal modo?
Método
Partic ipantes
Foram recrutados oito participantes (voluntários) entre estudantes
do primeiro ao terceiro ano do curso de psicologia da Universidade São
Francisco” (Itatiba, SP). Destes participantes sete eram do sexo feminino e
um do sexo masculino, com idades variando de 18 a 22 anos e foram divi
didos em dois grupos respectivamente chamados de Grupo 1 e Grupo 212.
* Ter/no uWceado por este grupo d e pesquisadores para so rofonrem a o s resultados aQrogados
produzidos poto grupo.
10 Consc-éncia é aqui e rio n d id a com o a descrição verta ) de con lirgéncliib « a p o n s á v e a por deto--
m inadas resposUu (Skinner, 1977).
' O autor ô especia lm ente grato ao s alunos o professores du6 ta un.vorsldadc por sua valiosa
colaboração.
Mi-'-iirai'üir>3ÍKiria» cr*Tpcflarf:*-ilo, cultura o ko_ «dac« 87
Todos assinaram um termo do consentimento tomando ciência de: 1) seu
compromisso com a pesquisa (receberam uma agenda com os 12 dias dos
encontros); 2) que todas as suas sessões seriam filmadas, mas que seu
anonimato estava assegurado; 3) que receberiam uma pequena gratifica
ção financeira a cada sessão e ao final do experimento.
Foram também recrutados quatro alunos como assistentes de pes
quisa para que realizassem o registro manual dos dados durante a sessão.
Para realizar a pesquisa os participantes se comprometeram a compa
recer a um máximo de doze encontros com cerca de uma hora de duração
cada (tompo médio que levava para concluir uma sessão de 30 jogadas).
Setting
Os dados foram coletados numa sala de aula adaptada para se tor
nar um laboratório de pesquisa do pequenos grupos. As carteiras eram
afastadas para o fundo da sala nos dias de coleta e o experimentador dis
punha quatro cadeiras em torno de uma mesa (onde os participantes se
sentavam); ao lado as duas cadeiras dos assistentes: no lado oposto uma
filmadora: no centro da mesa a "caixa dos jogadores" (será descrita adian
te) e em frente a matriz de oito colunas por oito fileiras com sinais +■ e -
aleatoriamente distribuídos a cada célula de intersecção (Figura 1).
Figura 1: Matriz da 8x6 colunas e fileiras com sinais + e -
randomlcamente distribuídos entre as células de intersecção
Proced im ento
O experimento, em linhas gorais, tratava-se de um jogo colotivo de
pequenas apostos e ganhos. Cada participante recebia do pesquisador, ao
: A o lego do tox'.o o s giupos podo/ào ser refeildws com o G 1 e G 2.
88 C W stte n i
início de cada sessão, 110 fichas para o jogo (cada uma das fichas valia R$
0.01) e ao final de cada sessão os participantes poderiam trocar suas fi
chas por dinheiro, do modo que quanto mais fichas acumulassem maior
seria o valor que levariam para casa a cada dia de coleta.
A sessão iniciava-se com o experimentador instruindo o grupo que a
cada jogada ale (e experimentador) escolheria uma coluna (que eram co
loridas, conforme visto na Figura 1) e que baseava sua escolha num “com
plexo sistema'' pré-definido. porém, nada mais podia dizer aos participan
tes sobre este sistema. Também foi dito ao grupo que se, de algum modo,
conseguissem descobri-lo poderiam ganhar muitas vezes sucessivamente
prevendo as escolhas do experimentador.
O pesquisador, então, anunciava que tinha feito sua escolha por
uma coluna no início de cada jogada o que os participantes teriam meio
minuto pararealizarem suas apostas (decididas individualmente e que jun
tas compunham a aposta coletiva do qruooï. cada um deveriam apostar
uma quantidade mínima de 3 fichas e máxima de 10 pot jogada, as quais
eram coletadas tão logo fosse decidido o valor a ser apostado. Uma vez
tendo sido realizadas as apostas, os integrantes tinham um minuto e meio
para debater as jogadas, escolher uma fileira (que eram numeradas de 1 a
8) e em seguida anunciá-la ao pesquisador.
Em seguida o pesquisador anunciava qual coluna havia sido esco
lhida e a céluta de intersecção entre a coluna (do experimentador) e a fileira
(dos participantes) determinava os ganhos ou perdas do grupo. Se a célula
possuísse um sinal + o grupo ganharia o dobro das fichas apostadas, mas
se na célula houvesse um sinal - então o grupo somente receberia metade
das fichas apostadas, quo eram imediatamente pagas. Embora os partici
pantes não soubessem, a escolha do experimentador, exatamente como
no experimento de Wiggins (1969). era na verdade determinada pelo modo
como o grupo tinha feito a divisão das fichas na tentativa imediatamente
anterior; por exemplo: se o pesquisador quisesse induzir o grupo a dividir
as fichas sempre de modo igual bastava que ele escolhesse qualquer colu
na cuja célula de intersecção com a fileira escolhida tivesse o sinal + sem
pre que o grupo tivesse feito uma divisão igual dos ganhos na jogada ante
cedente, o que possivelmente levaria a um aumento na freqüência deste
tipo de distribuição.
Os participantes receberiam, então, um montante de fichas que per
tenciam ao gmoo ,e deveriam_ser_jlMdidas. seaundQ_cjiíòáQS_DrQDriQS. A
escolha sobre como dividir as fichas era livre, basicamente eles poderiam
escolher um critério de divisão igualitário (a mesma quantia para todos) ou
desigual (um ou rnais participantes recebiam mais fichas), eram, no entan
to obrigados a investirem algum valor, qualquer que fosse, num pote de
vidro chamado de “caixa dos jogadores" antes de iniciarem a divisão das
fichas entre si, eventualmente o experimentador era quem determinava
quantas fichas seriam colocadas na caixa.
Uma vez colocadas as fichas na "caixa dos jogadores", elas deveriam
permanecer lá dentro até o ultimo dia de coleta, quando a caixa seria aberta
f/ ^ tiK o n tm g & n o e s : o o tn D o rts n w e o , e u liu -a o eocieiAiia> 89
Q os participantos dividiriam as fichas acumuladas do modo que achassem
melhor (de modo igual ou desigual) A caixa tinha uma dupla e importante
função no experimento, pois servia como uma contingência útil para evitar
desistências (quem desistisse não estaria presente na abertura dela) e para
produzir uma necessária variabilidade com porta mental, pois uma certa práti
ca de distribuir os ganhos só podoria ser selecionado pelas suas conseqüên
cias se chegasse a ser emitida, a caixa permitia ao experimentador tomar
mais prováveis certos tipos de divisão. Sempre que o grupo passava cerca
de cinco lances com erros sucessivos o experimentador fazia uma ou duas
intervenções nos depósitos da caixa deixando para os participantes um nú
mero de fichas que fosso impossivol do sor dividido por quatro (por ox.:qualquer
número ímpar maior que três), caso quisesse forçar uma divisão desigual ou
um número de fichas que fosse muito fácil de ser dividido igualmente ontre
os quatro (por ex.: exatamente quatro fichas).
D elin eam en to E xperim en ta l
Cada participante integrou um do dois grupos (G1 e G2) que foram
expostos às mesmas condições experimentais em ordem inversa. O G1 foi
exposto á condição experimental A-B-A-B e o G2 foi exposto à condição B-
A-B. Embora a pesquisa estivesse originalmente planejada para que o Gru
po 1 passasse apenas pelas condições A-B-A. eles conseguiram mudar de
condições experimentais rápido o suficiente para que o pesquisador tives
se oportunidade de aplicar novamente a condição B. o que foi feito.
Condição Experimental A Quando esta condição vigorava o grupo so
mente obteria um resultado positivo se tivesse distribuído as fichas de for
ma igual na jogada imediatamente anterior.
Condição Experimental B - Quando esta condição vigorava o grupo so
mente obteria um resultado positivo se tivesse distribuído as fichas de for
ma desigual na jogada imediatamente anterior.
O critério para a mudança de condição experimental teve como base
a estabilidade do grupo em determinada contingência. Portanto, se o grupo
passasse dez jogadas consecutivas obtendo sucessivos acertos era su
posto que haviam se adequado à contingência em vigor e o dado esperado
te rdo sido obtido permitiam a mudança de condição experimental.
O experimentador também disponibilizou cadernos, lápis, borrachas
o apontadores para cada indivíduo dos grupos a fim de verificar que tipo de
registros eles poderiam fazer (caso desejassem) e se estes registros possi
bilitariam uma eventual descrição verbal da contingência e a formulação de
uma regra, qu© por sua vez poderia passar a controlar o comportamento
dos participantes levando-os á proficiência na tarefa. Para confirmar se os
integrantes dos grupos foram capazes de descrover as contingências vi
gentes. produzindo a tão conhecida “consciência", o experimentador ao
final da última sessão de coleta aplicou as seguintes queslóes, de modo
individual, aos participantes:
90 C h rtiO e n V ís n l
1: Qual é o sistema de escolha de colunas utilizado pelo experimentador?
2: Como vocês descrevem o seu desempenho? Ganharam mais ou perde
ram mais?
3: Como vocês se sentiram durante o jogo?
4: Vocês são capazes de fazer uma descrição sessão a sessão sobre como
as coisas aconteceram?
Resultados
Como podo ser observado na Figura 2, o procedimento mostrou-se
eficaz para estabelecer uma determinada prática de divisão dos grupos (no
caso do presente experimento, uma divisão igual ou desigual).
A Figura 2 também ilustra como o Grupo 1 adequou-se rapidamente
a condição experimental vigente e, sem que fosse necessária nenhuma in
tervenção do experimentador, atingiram o critério de estabilidade definido
para a mudança de condição experimental (dez acertos11' consecutivos) já na
jogada dezenove da primeira sossão e errando apenas duas jogadas ató
então. A causa deste resultado, possivelmente, tenha se devido ao relacio
namento pró-experimental dos participantes (todos colegas de classe), isso
somado ao valor baixo dos reforçadores: alguns centavos por jogada, que
para estudantes de classe média-alta, tendem a exercer menos controle so-
bre o comportamento do que manter boas relações com um colega, facilitan
do assim a possibilidade de uma divisão igual dos ganhos.
Um indicativo extra desta propensão dos participantes a se adequa
rem facilmente a um modo de distribuição igual ô encontrado quando estes
entram na condição experimental B e que só acerlavam quando fizessem
uma divisão desigual na tentativa anterior Na verdade, nem poderia ser con
siderado um indicativo muito fidedigno, pois os participantes já haviam pas
sado por uma condição que os faziam dividir os ganhos de modo igual, o
assunto vottará a ser discutido ao serem analisados os dados do Grupo 2.
Pôde-se observar que eles erraram durante muitas jogadas (praticamente só
acertaram com a intervenção do experimentador; que por sinal, foi muito
freqüente.) passando parte da sessão um e da sessão cinco, além de todas
as sessões dois, três e quatro, na condição experimental B. Somente conse
guiram mudar de condição na jogada cento e trinta de dois durante a sessão
cinco, quando novamente voltaram a errar seguidamente.
O que se observou a seguir, quando o Grupo 1 retornou ã condição
A. é que passaram a ocorrer variações espontâneas no modo de distribui
ção (no sentido de que o experimentador precisou intervir com menos fre
qüência) e foram necessárias somente duas intervenções na “caixa dos
jogadores’, durante todo o periodo em que a condição experimental A vol
tou a vigorar para que o grupo atingisse o critério de estabilidade.
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o dobro de flclias na jogada ou perder m etade das fichas no jogada.
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Figura 2: Acertos acumulados ao lonqo das nove sessões realizadas para o
Grupo 1 e 2. Os pontos brancos no gráfico indicam os momentos em que o
experimentador fazia uma Intervenção nos depósitos da “ caixa dos
jogadoros” . A rotícula do fundo sinaliza a condição experimental vigente a
cada momento.
Os participantes permaneceram nesta condição experimental (A)
durante pouco mais da metade da sessão cinco, durante toda e sessão
seis e na maior parte da sessão sete, encerrando-a na joçjada duzentos e
três, durante sessão sete. e entrando novamente na condição B, na qual
permaneceram durante todo o resto da coleta de dados. A condição B en-
corrou-se na jogada duzentos e cinqüenta e três (sessão nove) e deman
dou apenas três intervenções do experimentador na caixa.
O Grupo 2, contrariamente ao Grupo 1. iniciou o experimento pela con
dição B (portanto, somente acertariam caso dividissem os ganhos de modo
desigual), como foi anterioimente indicado os dados parecem apontar para
92 O f< * U a n V c t i-
maior dificuldade dos participantes em dividirem seus ganhos de modo desi
gual (possivelmente por conta da relação pró-experimental entre os participan
tes. anteriormente discutido). Pode-se ver na Figura 2 que os integrantes do
Grupo 2 erraram com grande freqüência durante quase todo o periodo em que
vigorou a condição B, de fato, a maior parte de seus acertos foram causados
quase exdusivamente pela intervenção do experimentador na "caixa dos joga
dores". Os participantes passaram todas as seis primeiras sessões nesta con
dição e parte da sétima até que durante a sexta sessão começaram a esboçar
alguma variabilidade espontânea (nâo forçada) e passaram, ontâo. a ficar sob
controle da contingência vigente atingindo assim o critério de dez acertos, ne
cessários ã mudança de condição experimental.
O grupo então passa para a condição experimental A (agora só acer
taria se houvesse dividido seus ganhos de modo igual na jogada antece
dente) e permaneceu mais da metade da sessão sete. toda a sessão oito e
uma pequena parte da sessão nove nesta condição, até quo novamente
retornou à condição experimental 8, na jogada duzentos e quarenta e qua
tro da sessão nove O grupo permaneceu nesta condição apenas durante
pouco mais de meia sessão, até novamente atingir o critério de estabilida
de e encerrar o experimento.
Com relação aos ganhos individuais de cada participante, póde-se
observar pela Figura 3 que cada um dos grupos produziram diferentes prá
ticas (intragrupo) de divisão dos ganhos, o Grupo 2 foi mais eficaz em pro
duzir fichas para seus integrantes (pois todos ganharam aproximadamente
tanto quanto apostaram) e também conseguiu ser mais igualitário pois ao
final das nove sessões as diferenças de ganhos entre os inlegrantes deste
grupo foi desprezível. O Grupo 1 aparentemente não conseguiu desenvol
ver práticas “económicas' tão eficazes como o G2 (observe que todos apos
taram mais do que ganharam), de modo quo ao final do experimento existia
uma considerável diferença entre os ganhos acumulados dos integrantes.
Além disso, mesmo o participante que obteve maiores ganhos no Grupo 1
(participante 1 com um acumulo de 695 fichas) ainda não conseguiu acu
mular tantas fichas como cada um dos quatro integrantes do Grupo 2 (em
que o participante 3, com menor acumulo de fichas, até nona sessão, obte
ve um total de 1033) Estas diferenças entre os ganhos acumulados com
parativos dos participantes do Grupo 1 X Grupo 2 podem, também, terem
se relacionado ao fato do Grupo 2 não ter sido prejudicado com nenhuma
ausência, o que possibilitou apostas maiores e ganhos maiores, ou mesmo
ao fato do Grupo 2 ter se submetido a apenas três condições experimentais
enquanto o Grupo 1 passou por quatro. No entanto, vale a pena ressaltar o
fato de que o tanto o Grupo 1 como o Grupo 2 terminaram a coleta do
dados na condição experimental B (deveriam produzir diferenças) e mes
mo assim curiosamente nota-se que. para todos os participantes do Grupo
2, as linhas de apostas e ganhos começa a se unir. sinal de que mesmo
dividindo os recursos de modo diferenciado ainda produziam igualdade entre
os membros.
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Figura 3: Ganhos e apostas acumulados por cada um dos quaUo participantes
dos Grupos 1 e 2 Os pontos brancos e a descontinuidade da linha Indicam as
sessões em que houve ausénda de algum dos participantes. As linhas brancas
e escuras Indicam fichas apostadas e ganhas, conforme legenda.
Os dados coletados indicaram que os grupos estavam empregando
estratégias bastante distintas no modo de apostar o de distribuir as fichas
ganhas. Como descrito anteriormente as apostas eram individuais e cada
participante colocava o quanto achasse melhor (embora observações du
rante a coleta indiquem que os integrantes dos grupos tendiam a discutir o
sugerir apostas uns aos outros), porém a divisão dos ganhos era decidida
coletivamente, sendo assim cada integrante podia apostar mais e recebor
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94 Ctnohai vielu
menos, apostar menos e recebor mais. receber tanto quanto apostava, e
assim por diante, permitindo várias combinações livres.
Uma amostra dos padrões de apostas e divisões, retirada da sessáo
cinco do Grupo 1 (Figura 4). indicou que o participante três tendia a apostar
sucessivamente mais fichas e receber mais na hora da divisão, o participan
te quatro, por outro lado. recebia quase sempre um número menor de fichas
(e nesta sessão, eventualmente em alguns lances, não recebia ficha algu
ma). apesar de apostar tanto quanto os outros participantes. Enquanto isso,
freqüentemente, o participante 2 apostava mais fichas e recebia mais. o que
deve ter gerado a ele um considerável acumulo ao longo da sessão.
Se. por outro lado, observarmos uma amostra das táticas de divisão
dos ganhos no Grupo 2. ilustrada pela Figura 5, poder-se-á perceber que
este grupo empregou uma prática divergente, usando uma espécie do “ro
d íz io ' de apostas, de modo que a cada jogada um participante diferente
tendia a apostar mais e receber mais na divisão, depois outro e assim por
diante, mesmo que de modo não tão sistemático. Esta prática “econômica"
fez com que os integrantes deste grupo, mesmo nos momentos onde deve
riam dividir as fichas de modo diferente (condição 8), conseguissem man
teros ganhos de todos aproximadamente eqüalizados.
Figura 4: Fichas apostadas e
ganhas durante cada jogada da
sessão 5 para cada um dos
participantes (P1. P2. P3 e P4)
do Grupo 1
».•'«iMyuYitgtrK:*« ooMfon»ne*iU>. cur.uo o coc«:M ân 95
Figura 5: Fichas apostadaü e
ganhas durante cada jogada da
sessão 9 (até seu encerramento
na jogada 22) para cada um dos
participantes (P1. P2. P3a P4) do
Grupo 2.
Ao final da coleta da dados, conformo foi descrito no método, a “cai
xa dos jogadores foi aberta e os participantes puderam dividir seu conteú
do do modo como quisessem, vale a pena lembrar que ambos os grupos
encerraram o experimento na condição experimental B (que produz desi
gualdade). Observou-se que o G rupo 1 dividiu as fichas do modo bastante
desigual, pois P1. P2 e P3 receberam 258 fichas enquanto P4 recebeu 123
(cerca de metade dos demais), possivelmente por ter faltado a última ses
são e náo estar presente para fazer maiores reivindicações. O Grupo 2, no
entanto, dividiu tudo do modo m ais igualitário possível, pois P1. P2 e P4
receberam 192 fichas enquanto P2 recebeu 191 (isso somente ocorreu
pois o total do fichas na caixa não era múltiplo de quatro).
Por meio dos cadernos fornecidos aos participantes e pela análise
dos registros textuais feitos por eles, foi possível evidenciar que inicialmen
te os participantes registraram muitas variáveis (tais como: o quanto cada
um apostou: o quanto cada um ganhou; se erraram; se acertaram, depósi
tos na caixa; colunas escolhidas pelo experimentador; etc.). porém tende
ram a registrar cada vez um menor número destas variáveis ou mosmo
96 Chm linn V rtd
deixar de fazer registros (dos oito participantes, somente três mantiveram-
se registrando até a última sessão, os demais desistiram). Uma possível
explicação para isso é o fato da descrição não ter se mostrado útil em aju
dar os grupos a acertarem com maior freqüência as jogadas, o que levou a
extinção deste tipo de resposta, ao mesmo tempo cm que, devido às mani
pulações na caixa, os grupos se tornavam mais sensíveis à contingência
vigente o acumulavam cada vez um maior número de acertos, reforçando
assim a interrupção dos registros.
Um dos dados mais interessantes foi obtido ao final do experimento
quando, ao coletar as respostas dos participantes ao questionário final ve
rificou-se que, embora evidentemente a contingência tenha exercido con
trole sobre as práticas de divisão dos recursos obtidos, nenhum dos partici
pantes foi capaz de realizar uma descrição verbal das contingências que
estiveram operando durante as sessões. Na melhor das hipóteses os parti
cipantes conseguiram descrever que, em determinados momentos, passa
vam por seqüências de acertos e depois por seqüências de erros.
Discussão
Apesar das diferenças metodológicas e do emprego de um estudo
de sujeito único, os dados encontrados corroboraram os relatados por
Wiggins (196g). assim como os de outras pesquisas, um pouco mais restri
tas com pequenos grupos e abordando diferentes tipos de comportamen
tos (Grifïith e Gray, 1978; Judson e Gray, 1990; Gray, Judson e Duran-
Aydintug, 1993). No presente trabalho, também, a forma de distribuição
dos ganhos entre os partie pantes (de ambos os grupos) mudou na direção
prevista pela contingência em vigor (igual - A ou desigual - B).
De um modo geral os dados apontaram para uma maior facilidade
em fazer com que um determinado grupo faça uma divisão igual do quo
uma divisão diferente do seus ganhos, pelo menos nestas condições rela
tadas. Isso, como mencionado na apresentação dos resultados, pode ter
se relacionado ao fato dos participantes serem colegas de classe, que se
encontravam freqüentemente, o que os tornava provavelmente mais sensí
veis a eventuais discordàncias e às suas conseqüências sociais, ainda que
amenas. Este diferiu do relato de Wiggins (1969), pois em seu estudo foi
mais fácil estabelecer entre os participantes uma divisão desgual dos gan
hos, temos que lembrar é claro, que em seu experimento os participantes
eram desconhecidos entre si e um integrante do grupo era obrigado a apostar
mais fichas sistematicamente.
O procedimento aqui empregado indica que os “valores" dos partici
pantes dos grupos, ou sua "crença” numa “filosofia igualitária" e especial
mente sua prática de alocação e distribuição de recursos (que poderiam
ser chamados popularmente de sua organização social) podem ser muda
dos por uma manipulação nas variáveis relevantes, assim corno indicam
também os dados de Wiggins (1969) e mesmo de outros pesquisadores
M e l o o o iv r t g ^ ^ Q * ' « i i p w t a T e n o , ô j l l i r a e e o c ío d s â â 97
(Pierce. 1975, 1977; Gray, Judson © Duran-Aydintug, 1993). No caso do
presente estudo mostrou-se inclusive que esta prática pode não apenas
ser mudada uma vez. mas revertida também: neste sentido, este estudo
pode ser tomado como uma demonstração de que as conseqüências de
uma dada prática social (neste caso de alocação e distribuição de recur
sos) sfilíKÍQüSü]QyaCÍa2QS5 nesta prática, fortalecendo-as de maneira a torná-
las uma nova prática. Deste ponto de vista, os resultados podem ser toma
dos como indicação de que práticas sociais são sim constituídas como con
juntos de contingências sociais sob controle de suas conseqüências Indivi
duais e para o grupo (Skinner, 1993/1953; 1981).
Numa linha semelhante de interpretação, o presente estudo pode
ser tomado, ainda, como demonstração de como estas práticas (no caso,
uma forma de distribuição) podem em certo sentido, serem definidas por um
produto agregado (produção de fichas) produzidos (em longo prazo) por com
portamentos individuais, eles mesmos mudados por este produto agregado.
Os resultados deste experimento mostraram que o produto agregado (ganho
ou perda de fichas) selecionou desempenhos individuais distintos em cada
grupo, demonstrados nas apostas e nas divisões dos ganhos. Assim, foi pos
sível notar que num grupo (Grupo 2) os participantes apostaram aproximada
mente a mesma quantia de fichas que ganharam ao longo das sessões e. ao
final, todos os participantes tiveram ganhos reais muito semelhantes; en
quanto que. no outro grupo (Grupo 1) os participantes apostaram mais do
que ganharam e que o ganho (ou a menor perda) entre os participantes foi
porceptivelmonte diferente entre os integrantes.
Sabemos que os grupos, para se adequarem á contingência em vigor
deveriam dividir as fichas de modo gual ou diferente (a depender da condi
ção experimental no momento). Porém não havia contingências que estabe
lecessem como deveriam apostar, ou quem deveria ganhar mais, ou quanto
mais este alguém deveria ganhar, ou se certos comportamentos deveriam
tor certos padrões (como a chamada escolha consensual de uma fileira).
Enfim, não havia conseqüências programadas para estes e outros compor
tamentos que no seu conjunto (formariam uma dada forma de distribuição de
recursos) produziriam o produto (maior ou menor ganho de fichas) delimita
do pela contingência em vigor (sucesso ou fracasso nas apostas feitas) O
que os resultados mostraram ó que para cada um dos grupos, diferentes
operantes entrelaçados (Skinner, 1993/1953. Glenn 1988,1991) foram sele
cionados em cada grupo. Em ambos os casos estes operantes (padrões de
comportamento individual, mantidos por suas conseqüências) fortaleceram-
se e produziram o resultado agregado especificado; mas, em cada caso.
diferentes operantes foram selecionados e as conseqüências específicas que
os mantiveram foram distintas. Mais ainda, em cada caso (ou melhor em
cada grupo) estes padrões de comportamento distintos e as distinta» conse
qüências mantenedoras promoveram resultados mais ou menos satisfatórios,
se pensarmos em termos de ganhos e perdas individuais, ou seja. eram es
tratégias distintas, porém funcionais. Isso poderia até mesmo nosleva' a
considerá-las uma ‘ classe" de práticas semelhantes.
98 CMslian visni
Assim, muitos comportamentos (como apostar, propor a distribuição,
colocar na caixa dos jogadores, contribuir para a decisão de escolha da filei
ra entre outros) poderiam ser (de fato, foram) selecionados pelas conseqü
ências e estes comportamentos eram "livres", no sentido de que diferentes
variações individuais poderiam promover o sucesso da aposta, por isso em
cada grupo há diferentes padrões individuais. No entanto, estes padrões tam
bém poderiam se mostrar mais ou menos produtivos no sentido de produzi
rem "maiores lucros" individuais (e possivelmente relações sociais distintas,
e ainda, maior ou menor adesão ao grupo). Sendo assim, nâo é de se surpre
ender que diferentes padrões caracterizaram ambos os grupos.
Portanto, há indícios de que contingências sociais entrelaçadas
(Skinner, 1978/1957, Glenn 1988, 1991) muito particulares estavam ope
rando om cada grupo e estas contingências parecem ter determinado um
maior ou menor na produção de fichas. Por exemplo, um grupo rapidamen
te parecia apostar num ritmo muito acelerado (muitas fichas por jogada) ao
discriminar que entraria numa seqüência de ganhos (Grupo 2), enquanto o
outro grupo parecia ir testando a contingência de forma mais lenta (Grupo
1) e portanto ao longo do tempo esta “forma de jogar" acabaria por se mos
trar menos produtiva no sentido de que, uma vez ganhando seguidamente,
o interessante para os participantes seria apostar o máximo e obter o maior
número de fichas possível, pois quanlo menos fichas apostadas menores
eram também os ganhos. Outro fato interessante o ser considerado é que
os participantes do Grupo 2 acabaram desenvolvendo um sistema de rodí
zio (ilustrado na Figura 5). do modo que cada membro do grupo aposlava
alternadamente mais que seus colegas na condição B e aquele que apos
tava mais também recebia proporcionalmente mais na divisão dois ganhos
implicando assim numa forma de divisão igualitária dos ganhos quase sem
pre.
Foi demonstrada uma relação de probabilidade entre os produtos
agregados e certo modo de distribuição e para produzir tal resultado (um
determinado montante de fichas) cada participante deveria investir, discu
tir, dividir, escolher e muitas vezes aplicar uma conseqüência sobre o com
portamento dos outros (somente aqui existiria uma enorme variedade de
Interações verbais envolvidas) do divorsas formas diferentes de modo que
cada comportamento era selecionado por suas conseqüências imediatas
(por exemplo, investir determinado montante de fichas, sugerir um modo de
divisão dos ganhos ou propor uma formo de escolha de fileiras a cada joga
da dô modo que poderia ou não ser acoita pelos colegas) e o conjunto
destas interações (que teoricamente formaria uma prática cultural como
distribuir os recursos de modo igual ou diferente) era responsável pela maior
ou menor habilidade de cada um dos grupos em produzir fichas (o resulta
do agregado), que seria uma conseqüência mais atrasada e que manteria
toda esta rede de relações de uma forma análoga a determinação de práti
cas no nível cultural. Possivelmente esta relação seria, também, análoga a
relação descrita pelo conceito de metacontingência (Glenn, 1988; 1991:
Andery e Sério, 1999), porém seria interessante uma tentativa de especifi
car melhor os operantes entrelaçados em experimentos futuros.
Mbiacoqüoj&hiIbis coTporiammto, oitlura ** rixhkIoU» 99
Embora não tenham sido capazes de descrever verbalmente as con
tingências. alguns participantes se mantiveram fazendo registros nos cader
nos fornecidos pelo experimentador, até o final da coleta de dados, porém
observou-se que o comportamento de fazer registros escritos foi se tornando
menos freqüente, uma vez que registrar não tornava mais provável o suces
so no jogo e eventualmente algum participante poderia passar por uma se
qüência de acertos sem que fizesse qualquer típo de registro. No presente
estudo, assim como no de Wiggins (1969). nenhum dos participantes foi ca
paz de 'tomar consciência" do real motivo" do sucesso ou fracasso do grupo
nas jogadas, ou seja, os participantes não puderam fazer uma descrição
verbal precisa das contingências em vigor, muito embora seja evidente que
todos os participantes dos grupos estivessem sob controle delas, um indicio
extra de que o controle por parte de uma contingência independe de sua
descrição verbal, como já foi apontado por Skinner (1974).
Em estudos futuros seria interessante a elaboração de experimen
tos capazes de verificar o efeito destas conseqüências seletivas sobre gru
pos numa situação de competição, onde se um grupo ganha o outro perde,
pois sabemos que no mundo real grupos distintos competem por recursos
limitados e eventualmente se uma prática se mostrar efetiva poderá ser
transmitida a outro grupo. Embora de execução complexa, seria também
interessante fazer uma análise detalhada das interações verbais decorren
tes de experimentos semelhantes a este (Wiggins. 1969; Sell e Martin, 1989;
Pierce. 1975; 1977), uma vez que o comportamento verbal é essencial para
a interação social e como se indicou aqui, tem papel relevante na determi
nação dos padrões de comportamento individual e nos produtos agrega
dos que são conseqüências das inierações sociais.
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Complexidade e Seleção:
implicações para a mudança
organizacional
Sigrid S. Glenn
Maria E. Mallot
Organizações são entidades complexas em constante mudança. O
que sâo organizações? O que significa mudança organizacional? Quais são
as causas da mudança? Neste artigo examinamos a natureza das organiza
ções, enquanto entidades culturais que se transformam, sendo esta transfor
mação o resultado de dois tipos distintos de seleção: comportamental e cuí-
tural. Sugerimos que todas as organizações são entidades culturais, mas
nem todas as entidades culturais são organizações. Isto é similar a dizer que,
assim como entendemos ser todo comportamento verbal comportamento
operante, nem todo comportamento operante é comportamento verbal. Mais
ainda, embora o comportamento verbal seja operante e organizações sejam
©ntidades culturais, não há razão para afirmar que comportamento verbal e
organizações não possam (ou devam) apresentar, cada um deles, caracte
rísticas peculiares que transcendam suas inclusões nas categorias gerais de
comportamento operante e entidades culturais.
Neste artigo tratamos de duas características significativas da mu
dança organizacional: complexidade e seleção. Na primeira seção faze
mos uma revisão da natureza dos sistemas organizacionais, discutimos os
limites organizacionais e sugerimos uma taxonomia de alguns tipos de com
plexidade que são característicos de muitas organizações. Na segunda
seção tentamos explicar mudança organizacional como uma função de
contingências culturais e comportamentos. Ao longo deste artigo, utiliza
mos exemplos reais, muitos dos quais pertencentes a organizações com
fins lucrativos. Estamos confiantes que organizações com fins lucrativos,
assim como outras organizações humanas, estão para nossa análise as
sim como jogar futebol e ler estão para a análise operante.
' Tradução do G lo rn , S S . A M alo tt, M (2 0 0 4 ). Com piox ily and Solection: Implicallons or
OrganlZflltonal C h ange B e h a v b ra n d S o ci.ih ssucs 1 3 .8 9 -1 0 6 Publicado c o n a autorlzaçfio do
Botravionsis (ur Satfal Rvsponsibtòty. S e h jv w and Soo«M£Su».s pode seracessado em hltp !
.''www.bfsr.orfl. Tradução realizada por Maria Silvia Ribeiro Todorov
camila paiffer
Highlight
102 S i y i c G lo -u t. M a n a M J u i i
Complexidade Organizacional
A maioria das tentativas de mudança organizacional é exaustiva, pois
uma organização pode se transformar de diversas maneiras. Para lidar com
a complexidade organizacional, constituímos grupos, passamos inúmeras
horas em reuniões o, com demasiada freqüência, tomamos decisões que
não têm efeito algum a longo prazo. Um exemplo: em um esforço para redu
zir filas nos caixas, uma organização de vendas a varejo tentou implementar
a “regra do próximo na fila ' em lojas que atendem até 2000 fregueses em um
dado momento e têm até 40 caixas registradoras. A regra era que nenhuma
fila deveria ter mais que um freguês esperando enquanto um outro estivesse
sendo atendido no caixa. Em diferentes lojas da rede, tentou-se reduzir ou
eliminar longas filas nos caixas sem sucesso porque muitas variáveis que
afetam a eficiência do atendimento r>o caixa não foram consideradas - o
volume do tráfego em momentos específicos do dia, as condições climáticas
e seus efeitos nos padrões de compra, número de empregados necessários
para lidar com um volume variável de fregueses, demandas de serviço em
outras partes da loja. e assim por diante.
Muitas variáveis dinâmicas afetam as organizações e nosso trabalho
nelas. Acreditamos que compreender a natureza da complexidade organizaci
onal é essencial, mas não suficiente, se esperamos realizar uma mudança
significativa e evitar sermos submergidos por detalhes. Nas próximas seções
examinamos a natureza dos sistemas organizacionais, definimos as fronteiras
das organizações e distinguimos vários tipos de complexidade.
A Natureza dos Sistemas Organizacionais
A n a lis ta s do co m p o rta m e n to , que traba lham no cam po de
gerenciamento organizacional do comportamento, devem ir além das ativi
dades tradicionais dos analistas do comportamento porque seu objeto de
estudo é o comportamento organizacional. “Comportamento organizacional"
significa tanto o comportamento de indivíduos em organizações quanto o
comportamento de organizações como entidades funcionais. O que deve
ser gerenciado é a relação entre o comportamento de indivíduos em uma
organização e o comportamento da organização como um todo.
Organizações consistem da interação dinâmica entre o comportamento
de seres humanos e seus produtos. O comportamento de todos os emprega
dos. como o comportamento no laboratório experimental, e o resultado de
contingências de seleção comportamental, ou, resumindo, de contingências
comportamentais. As unidades de análise que compõe o comportamento
consistem de relações entre antecedentes, repostas emitidas pelos organis
mos o conseqüências. Algumas contingências comportamentais tornam mais
prováveis que um comportamento do mesmo tipo volte a ocorrer. Por exem
plo. om uma fábrica de produtos do plástico, um esquema de produção (an
tecedente) contém Instruções para o trabalhador montar o molde (resposta)
M a t H r w it ir t if l it ó U » n o m jw r t w n e ilo , a iM t f á « B o rw e -ttV i 103
para poças plásticas Um moldo finalizado ó o produto do comportamento
desse operário. O operário localiza o molde, coloca-o em uma empilhadeira,
leva-o para a prensa e o coloca na prensa. Se o molde ê fixado niveladamente
entre as portas da prensa, a tarefa BStá completa (consequência). So o mol
do não está nivelado, o operário deve manipulá-lo até que se ajuste do modo
adequado. A relação entre suas ações e a prensa adequadamente carrega
da (contingência) afeta a maneira como a fixação do molde será feita da
próxima ve /. Variantes do comportamento na colocação adequada dos mol
des se tomam cada vez mais freqüentes. Repetições desse comportamento
na colocação de moldes constituem uma linhagem comporta mental, A colo
cação de molde está passando por uma seleção por reforçamento - um pro
cesso pelo qual a relação entre resposta e suas conseqüências aumenta a
probabilidadefutura desse comportamento. A colocação do molde é com
portamento operante porque atua sobre seu meio ambiente. Uma linhagem
operante consiste de uma seqüência de instâncias do operante que mudam
com o passar do tem po com o resu ltado de contingências de seleção
comportamentais.
Algumas vezes o comportamento da pessoa A. ou o produto desse
comportamento, é a ocasião para a pessoa B fazer algo. O comportamento
de B, ou seu produto, pode por sua vez estabolecer a ocasião para a pessoa
C fazer algo. As contingências comportamentais de A, B e C são interligadas.
O mesmo evento ou objeto (e g o produto de A) é uma conseqüência do
comportamento de A e estabelece a ocasião para o comportamento de B.
Por exemplo, na manufatura de peças de plástico, o operário A pega o molde
de uma estante de ferramentas e o coloca na prensa. O operário B ajusta o
mostrador da pronsa do acordo com especificações técnicas. O operário C
molda as peças. O comportamento de cada pessoa torna-se parte do ambi
ente passando a integrar contingências comportamentais para outras pesso
as. Chamamos esses tipos de relações entre os comportamentos de duas ou
mais pessoas de contingências comportamentais entrelaçadas. Elas são os
fundamentos da complexidade cultural.
O comportamento de A : B e C podo ser parte de um conjunto maior
de contingências comportamentais entrelaçadas que. juntas resultam em
um produto agregado: peças p lásticas moldadas. Essas contingências
entrelaçadas são repetidas com cada solicitação de moldagem; e as repe
tições constituem-se em uma linhagem de contingências entrelaçadas.
Variações nos elementos das contingências entrelaçadas podem resultar
em variações na quantidade ou qualidade das peças plásticas. As contin
gências entrelaçadas determinam as características dos produtos; e as ca
racterísticas dos produtos determ inam a aceitação do produto pelo consu
midor. A aceitação do consumidor é o ambiente externo contingente ao
produto das contingências comportamentais entrelaçadas.
Em organizações, estamos interessados nos produtos do comporta
mento entrelaçado do múltiplos indivíduos; portanto, o comportamento de
indivíduos permanece sendo o componente fundamental das organizações.
camila paiffer
Highlight
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Highlight
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104 & y n d 6 < in n , M a n a M a o li
A evolução do uma organização como um lodo depende não somente dos
comportamentos individuais, mas também, do modo como esses comporta*
mentos so combinam e formam unidades de seleção que evoluem. Dada a
complexidade inerente às organizações, o comportamento de qualquer indi
víduo raramente pode ser isolado e administrado sem se levar em conta
suas interações com o comportamento de outros indivíduos.
Fro n te iras organizacionais
Podemos começar nossa análise organizacional estabelecendo as
fronteiras da entidade que queremos estudar. O que constitui uma organi
zação? Em seu sentido mais amplo, uma organização é constituída por um
grupo que desempenha tarefas que resultam em um produto particular. Uma
organização é definida polo que produz. A fábrica XYZ, por exemplo, con-
siste.de todos os empregados cujo trabalho integrado resulta na fabricação
do produto manufaturado por esta fábrica. Se um departamento interno
fornece sorviços de viagem aos empregados da XYZ, sua existência ne
cessariamente dependeria dos produtos manufaturados da XYZ. Inversa
mente, uma agência de viagens, contratada pela XYZ para fornecer seus
serviços aos empregado da companhia, é uma organização diferente da
XYZ porque a existência da agência necessariamente não depende dos
produtos manufaturados pela fábrica.
As organizações frequentemente compreendem diversos sistomas que
contribuem para que elas atinjam seus objetivos. O termo sistema é usado
para uma variedade de relações entre muitos tipos de elementos isolados,
combinados em um todo para alcançar um resultado. XYZ necessita de vários
sistemas para fabricar produtos, tais como sistema de compras, de vendas, de
produção o de expedição. Cada sistema gera um produto que está relacionado
às operações de um ou mais dos outros sistemas e, desse modo, contribui
para o produto agregado da XYZ. Por exemplo, os produtos dos sistemas de
XYZ incluem ordens de compra, artigos comprados, produtos manufaturados
e prontos para entrega. Cada sistema é composto de subsistemas. O sistema
de produção poderia incluir os subsistemas de moldagem, acabamento, e
empacotamento, cada um produzindo um componente crítico - componentes
moldados, acabados e empacotados. Um subsistema pode ter seus próprios
subsistemas. Por exemplo, moldagem inclui preparação do plástico, instala
ção da prensa e injeção do plástico, e esses sistemas produzem plástico ade
quado, instalação apropriada e moldes injetados. O sistema cultural menos
complexo em uma organização é aquele formado por uma contingência
comportamental entrelaçada na qual dois indivíduos executam, cada um ao
menos, um comportamento repetidamente.
Organizações não são entidados estáticas; são compostas por todos
os seus sistemas dinâmicos, sempre passando por mudanças. Alterações
nos sistemas internos resultam em mudanças na organização como um todo.
Por exemplo, o comportamento entrelaçado de uma equipe de produção
poderia ser afetado não só pela equipe de engenharia diretamente envolvida
na produção, mas também pelo processo de compra, o do expedição, e por
camila paiffer
Highlight
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MbVjuPtlInQAicla»: ccoipoi'.en6olo. cu*urn e wxtedCKte 105
outros processos na organização. Além das dinâmicas internas de qualquer
processo, este também é afetado por alterações no ambiente externo à orga
nização, tais corno mudanças nas organizações de clientes e de fornecedo
res. A mvasâo de partes de um sistema nas operações de outros sistemas
revela a permeabilidade de suas fronteiras. As interações dinâmicas entre os
elementos dos sistemas e a permeabilidade de suas fronteiras criam uma
complexidade difícil de se analisar. Devido ã permeabilidade, as fronteiras de
qualquer sistema são arbitrárias, entretanto, delinear fronteiras auxilia-nos a
simplificar uma complexidade esmagadora.
Identificar fronteiras arbitrárias não significa que podemos ignorar o
grande número de interações que ocorrem entre entidades internas e ex
ternas. Somente significa que deixamos de lado as influências mais remo
tas e focalizamos as dinâmicas mais diretas. Análises de sistemas, inde
pendentemente de seu tamanho, requereriam, minimamente, o estudo oas
interações dinâmicas entre seus componentes internos, suas relações com
sistemas criticos da organização, sua relação com o desempenho da orga
nização como um todo, o sua rolaçâo com a demanda dos clientes. {Para
um relato de análises de sistema em mudanças organizacionais, ver Gilbert,
1996; Malott, 2001-b; R um m lere Brache, 1995.)
Por exemplo, o comportamento da equipe de vendas de uma com
panhia farmacêutica está integralmente relacionado a outros sistemas da
organização. Seria limitado estudar somente o comportamento do pessoal
de vendas e tentar planejar novas contingências de reforçamento para au
mentar as vendas. Não poderíamos saber se nossas mudanças teriam um
efeito dosejado em outros processos e, portanto, na organização como um
todo. Assim, a análise do comportamento da equipe de vendas exigiria não
somente o estudo do comportamento do pessoal de vendas, mas também
a inter-relação entre as equipes de venda em territórios, distritos e regiões;
a influência da propaganda, do desenvolvimento de produtos, dos proces
sos de produção: as tendências de compras dos clientes; e o impacto das
regulamentações de drogas no desempenho das vendas.
Taxonomia da Complexidade Organizacional
Organizações são como ecossistemas, formadas por inúmeras
interdependências.A ecologia oferece uma visão ordenada da natureza
que simplifica o estudo das relações entre organismos e seus ambientes
físicos, incluindo outros organismos. Como os ecologistas, os analistas do
comportamento que trabalham em organizações precisam de um caminho
para o rd ena r as com p lexas in te rdependênc ias e n tre os s is tem as
organizacionais e suas contingências entrelaçadas.
P ensam os se r ú til c o n s id e ra r trê s tip o s de com p le x id a d e
organizacional: ambiental, de componentes e hierárquica. Nesta seção '9-
vomos osses três tipos de complexidade e suas implicações para a eficácia
organizacional.
camila paiffer
Highlight
106 & g i d G ltw in , M a rta M atan
Complexidade ambiental
Para escolher qualquer área a ser mudada, por menor que ela seja.
devemos compreender a organização como um todo. O número de variá
veis externas à organização que afetam seu desempenho determina a com
plexidade ambiental. O ambiente oxterior à organização está mudando cons
tantemente de maneiras que afetam a organização interna. Algumas das
maneiras como o ambiente externo pode mudar são. por exemplo, desen
volvimento de produtos e serviços dentro de uma indústria, regulamenta
ções governamentais, fusões, consolidações, falências o estado de guerra.
Outras variáveis externas, como mudanças na concorrência, fornecedores
e condições climáticas também podem afetar as organizações. A Figura 1
ilustra a complexidade ambiental.
Desenvolvimento de produto. Milhões de novos produtos e serviços
se tornam acessíveis no mercado todo ano, o que requer mudanças em muitos
sistemas internos das organizações, tais como, produção, controle de quali
dade, treinamento e tecnologia da informação. Fracasso em melhorar a qua
lidade dos produtos, nivelar-se aos padrões da concorrência e até mesmo
não obter êxito na tentativa de superá-la, pode reduzir as vendas e a fatia do
marcado ameaçando a estabilidade de longo prazo da organização.
Regulamentações governamentais. Regulamentações também impõem
tremendas mudanças em processos internos. Por exemplo, consideremos o
impacto das regulamentações de rótulos em alimentos de 1994 concebidas
para ajudar os consumidores a fazer escolhas saudáveis. O United States Food
and Drug Administration e o Departamento de Agricultura exigiram que todos
os alimentos empacotados tivessem um rótulo padronizado indicando as quan
tidades de calorias, vitaminas, proteína, gordura e fibra por porção. Estas regu
lamentações impuseram mudanças nos processos de fabricação de alimen
tos, controle de qualidade, empacotamento, e outros.
Fusões, consolidações e falências. Fusões e consolidações, frequen
temente, revitalizam empreendimentos debilitados, diminuem a competi
ção, ou diversificam linhas de produtos, alterando assim o quadro ambiental
e criando nova demanda. Uma fusáo é realizada quando a companhia com
CfQtnltaçAte Cortfçe«
Cthtffoa
Figura 1 Comploxidade ambiental
MtrtacsnUiyjônsiíi»: ccMpOítafwittO. cuRur« e scaed ede 107
pra a propriedade de outras firmas, absorvondo-as em uma estrutura
corporativa que mantém sua identidade original. Uma consolidação ó efeti
vada quando duas ou mais companhias se dissolvem para formar uma com
panhia inteiramente nova. Falências podem resultar no desaparecimento
de concorrentes, vendedores ou clientes.
Flutuações na economia. Flutuações na economia têrn um impacto
significativo no ambiente de uma organização. Em períodos de prosperida
de. produção, emprego, salários, e lucros aumentam; mais investimentos
expandem a produção. No entanto, enquanto se mantém essa tendência
ascendente os custos do produção aumentam; falta de matérias primas pede
dificultar a produção; taxas de juros se elevam; preços sobem; e os consu
midores reagem aos preços maiores comprando menos. À medida que o
consumo começa a não acompanhar a produção, acumulam-se os estoques,
causando uma queda nos preços. Os fabricantes fazem cortes, o investi
mento diminui, a produção diminui, e o desemprego cresce. Ciclos de pros
peridade e depressão afetam a maioria das organizações.
Estado de guerra. O estado de guerra também tem um impacto sig
nificativo nos ambientes organizacionais. A guerra afeta a economia, a
infra-estrutura dos países envolvidos, o desenvolvimento de sistemas mili
tares e de inteligência, e assim por diante.
A ocorrência de mudanças ambientais não significa que as organiza
ções tèm que se tomar, necessariamente, mais complexas. Algumas vezes,
mudanças no ambiente externo forçam as organizações a simplificar seus
sistemas. Por exemplo, demanda por entrega mais rápida de pedidos pode
exigir de uma organização que simplifique seus processos de modo que uma
maior quantidade de volumes seja entregue em menos tempo.
Mudanças no ambiente externo provocam alterações dentro da or
ganização, mas mudanças dentro das organizações também afetam o
ambiente. Por exemplo, consideremos o Impacto na economia de uma Oni-
ca grande fusão, ou de resíduos perigosos gerados por uma empresa, ou
de um ato terrorista. A complexidade ambiental não pode ser ignorada. As
organizações que não se adaptam ãs mudanças em seus ambientes exter
nos tomam a sua sobrevivência improvável.
C o m p lex id ad e de co m p on en tes
O número de elementos que compõem uma organização determina a
complexidade de componentes. Os elementos podem se relacionar uns com
os outros como iguais ou podem estar localizados em diferentes niveis de
uma hierarquia. As menores unidades organizacionais de interesse sno con
tingências comportarrientais entrelaçadas que geram produtos crilicos.
Organizações tendem a ser mais complexas quanto maior for o nú
mero de pessoas que participam ern seus processos. Pequenas empresas
com poucos empregados são geralmente menos complexas do que grandes
empresas com milhares de empregados. A complexidade de componentes
108 S g r id G io m , M ara M doll
também depende do número de processos que cada sistoma compreende.
Por exemplo, em uma companhia industrial o processo de produção pode
ser mais complexo do que o processo de publicidade. Isso pode ocorrer por
que a produção tem mais subsistemas e/ou maior número de contingências
comportamentals entrelaçadas. O processo industrial pode conter todas as
contingências entrelaçadas envolvidas na recepção de matéria prima, na pre
paração do equipamento, no planejamento, na produção e na administração
de estoquo. Uma maneira simples de se visualizar a complexidade de com
ponentes é olhar mapas de processos. Pensemos em um mapa de processo
como uma descrição gráfica, em que cada caixa no mapa representa com
portamento entrelaçado que gera um produto. Um mapa de processo pode
englobar o comportamento de milhares de pessoas (Malott, 2001-b). Proces
sos com mais caixas no quadro organizacional são mais complexos do que
aqueles que têm menos caixas. A Figura 2 mostra o processo parcial de
seleção de itens de varejo a serem anunciados.
( 2 } 0 A f Ü « < « < d»
V ^ C c r « i f *4rjt M o um»
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a íksu d* p » ijtv t « a Ib ia l n i p v i M >
Figura 2 Complexidade de componentes.
Estudar a complexidade de componentes tem importância decisiva.
Sem um esforço sistemático,as organizações tendem a crescer em com
plexidade de componentes e se tornam redundantes e ineficientes. Uma
complexidade de componentes desnecessária pode ser contraproducente
para os objetivos últimos da organização.
MaeacoiüngtnciK' comfwriwno-itn. cuWlt« « *or«d«o<* 109
C o m p lex id ad e h ie rárqu ica
Organizações são feitas de sistemas que contém subsistemas que.
por sua vez. podem conter mais subsistemas, e assim em diante. A ccm -
plexhJade hierárquica è determinada pelo número de níveis de sistemas
existentes na organização, ou o número de relações parte-todo que consti
tuem uma organização Os niveis de direçáo em uma organização são.
geralmente, um bom índice de complexidade hierárquica.
Uma organização cresce em complexidade hierárquico à medida
que cria mais camadas de componentes. Portanto, a complexidade de com
ponentes geralmente afeta a complexidade hierárquica. Por exemplo, uma
organização que precisa aumentar a produção podo adquirir mais fábricas;
a supervisão do funcionamento de diversas fábricas requer outro nível de
gerenciamento. Quando o número de fábricas cresce consideravelmerte,
as organizações necessitam de diretores regionais para administrar áreas
geográficas especificas. À medida que a companhia expande, os diretores
regionais precisam de mais ajuda para administrar seus territórios, de medo
que podem criar uma nova camada de direção - diretores distritais. A Figu
ra 3 ilustra a complexidade hierárquica em uma companhia farmacêutica.
— C
igaras:
Figura 3 Complexidade hierárquica
camila paiffer
Highlight
110 Sgr.d G w iri, Mana MefoU
As estruturas organizacionais frequentemente refletem o modo como
reúnem seus componentes em hierarquias. Os conjuntos podem ser defini
dos funcionalmente (marketing-vendas), geograficamente (regiões-distritos),
por conteúdo (psicologia, história, fisica). pela forma (carros e caminhões),
pefa expectativa de vida (pereciveis-não pereciveis/secos-molhados) e pela
sazonalidado (sazonal-não sazonal).
As organizações podem ter tipos diferentes de níveis hierárquicos -
companhias farmacêuticas que algumas vezes organizam suas equipes de
venda por territórios, distritos e regiões podem também apresentar cama
das de direção agrupadas por tipos de produto. Assim, possuem especia
listas em produtos para tipos espoclficos de doenças, por exemplo, doen
ças do sistema nervoso central
Uma consequência importante de complexidade hierárquica é que, à
medida quo os níveis de gerenciamento aumentam, o comportamento da
queles nos niveis mais elevados se torna cada vez mais desconectado a
componentes essenciais das contingências entrelaçadas dos niveis mais
baixos. Infelizmente, á medida que os níveis de gerenciamento crescem em
uma organização, essas rupturas entre n ive is am eaçam o sucesso
organizacional. O desempenho do nível mais baixo, em última análise, deter
mina o sucesso, o fracasso e a sobrevivência da organização. Mas o que
acontece no nivel mais baixo depende do comportamento de gerentes nos
niveis mais altos - principalmente comportamento de tomada de decisões.
Decisões nos niveis mais altos são frequentemente tomadas som
que se tenha consciência das consequências para os sistemas de niveis
Tabela 1. Tipos de complexidade
Tipo
Ambtontal
d»
Componentes
Peftnlçfto
Õ s fator©*
externos A
orgu-it/açâo quo
Hf elam o
desoinptmho
organizadora*
Número da
Owtes quo
oofstit(.«rí o
(oso
(represeiiiaili
«*m mapas c-o
PHXMMOV
Nume*u do
ivvôis do
wrtertodo
{ropreseotado
pornfv«9de
odn.nislraçáo)
Exem plos
OttMonvnlvimunto
d& produtos e
serviço», fuso«»
e consd«.-içò<x>
ftjluaçúe*
flcopímlcas.
estado de guerra
MoUaqern incHi
acionar a
piorsc, verificar
o oldsíioo o
sacar o plástico
Crxri[i(i!birr.r>-to
da ven d a*é
parte CO Brno d«
veiKa»; time do
vandaa ô corts
do territoito;
tomtork) ô parle
do distrito;
o stntu « parto
_oajea&.
t ffa to __________
Amoaçam a ou
coritrítuam para
a aotimvívércia
da orgailzaçôo
EflcMocta dos
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«rganUaçAo
interro ao
ambiente
ttxforno
Otimiza» oa
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•liminantJo
rodurca - ia .«
C fici4naa doe
p iu o iw s
Simplifica os
niveis o«
cdministraçãu
para «liminar
deecu-iexòes e
promover a
oonsütórjcla
ontre as
camadas
MrtlBOortrigAnofts: cotrpofurnonto, cultura « »ir.iwlodo 111
mais baixos da organização. Tomar decisões toma monos tempo do que
implementá-las. E tomar decisões com pouca reflexão toma muito menos
tempo do que implementá-las - mesmo que pobremente implementadas.
Administradores geralmente solicitam mais iniciativas de mudança do oue
pode ser realisticamente implementado. A Tabela 1 mostra os trés tipos de
complexidade discutidos.
Nesta seçáo tentamos introduzir organizações como ecossistemas e
descrever interdependências apontando très tipos distintos de complexidade -
ambiental, de componentes, e hierárquica. A próxima seçáo trata de como
organizações evoluem por intermédio da seleção comportamental e cultural
Seleção em Organizações em Evolução
As características biológicas dos organismos, o comportamento
aprendido dos organismos individuais e as contingências comportamentais
entrelaçadas om organizações são tipos de coisas muito diferentes, mas
todos eles mudam ao longo do tempo como resultado de seleção. Seleçáo
na tu ra l responde po r ca ra c te rís tica s do m undo o rgân ico ; se leção
comportamental por características do comportamento individual; e sele
ção cultural por características de organizações. Embora a seleção natua l
não pareça desempenhar um papel corrente na mudança organizacional, o
processo de seleçáo natural é bom compreendido. Assim, introduzimos o
conceito de seleção descrevendo seu papol na evolução biológica e seu
papel na evolução comportamental.
Charles Darwin (1958) foi o primeiro a apresentar a seleção natural
como um processo que causa preservação diferencial de características her
dadas (genéticas) em uma linhagem de organismos reprodutores. Caracterís
ticas de um organismo/gene que melhor se adaptam ao meio em que esse
organismo existe ocorrem com mais frequência do que outras características
em sua linhagem Por exemplo, organismos do uma espécie particular que
vivem em um ambiente muito frio podem variar quanto a suas propensões
herdadas a desenvolver pelo denso. Aqueles com maior probabilidade de de
senvolver pelo denso têm, em média, maiof probabilidade de sobreviver e re
produzir do que aquoles com menos propensão herdada para pelagem densa.
Portanto, a quantidade módia de pelagem densa dos organtsmos destas es
pécies aumenta em sucessivas gerações ou ciclos reprodutivos. A pelagem
densa média da Geração #5000 será consideravelmente diferente da pelagem
densa média da Geração #20000. mas a mudança entre duas gerações con
secutivas quaisquer dadas não soria detectável. Neste exemp!o. a relação entre
a pelagem densa de um organismo e as temperaturas ambientais afeta a pro
babilidade de pelagem densa em gerações futuras. Similarmente, a relação
entre a pressào á barra do um rato e a apresentação de comida, afeta a proba
bilidade de futuras pressões á barra. Em suma, as relações entre as caracte
rísticas dos organismos ou comportamento e seu ambientes determinam
frequências futuras dessas características. Essas relações têm sido chama
das de ‘contingências de seleção" (Skinner, 1981). As contingências de sele
ção podem também evolver relações entre organizações e seus ambientes.
112 S ig rid G lw in . M s t a M s li» !
Nas seções abaixo, buscamos fornecer uma abordagem selecionista para a
evolução de organizações, na qual a seleção cultural e comportamental são
diretamente relevantes
Seleção Cultural em Organizações
Organizaçõessáo entidades culturais que mudam em períodos pro
longados de tempo mantendo sua "mesma'' identidade enquanto organiza
ção. Nesse sentido, uma organização é como uma linhagem biológica. É
composta de repetidas gerações de eventos, tendo características que se
transformam ao longo do tempo como um resultado do modo pelo qual vari
ações na geração em cureo são “recebidas" por seu meio ambiente. Por
exemplo, desde 1990 muitas organizações se adaptaram a um ambiente
comercial que inclui comórcio eletrônico (e-commerce). Antes de 1990 o
ambiente de organizações com produtos para vender caracterizava-se pela
troca e pelo transporte de bens de um lugar a outro. No final dos anos 90, o
avanço da tecnologia de redes de computador gerou um crescimento explo
sivo do G-commarcc. Esto pormitiu a troca de bons e serviços na World Wide
Web (internet}, aumentando a eficiôncia e a precisão nas transações comer
ciais. Na América do Norte as transações business-to-consumer o-commerce
(transações empresa-consumidor via Internet) cresceram de US $11.5 bi
lhões em 1998 para USS 44.5 bilhões em 2000. Organizações que foram
montadas para transaçõos e-commerce conseguiram os negócios de outras
organizações melhorando agressivamente os tempos de entrega. Em pou
cos anos, bilhetes de passagens aéreas, reservas em hotéis, e todos os tipos
do bens e serviços estavam disponíveis via web. Essa rápida mudança no
ambiente externo selecionou organ-zações com processos tecnológicos mais
capazes de responder ás demandas dos consumidores.
M etacon ting ên c ias
Metacontingências sáo relações entre contingências comportamentais
entrelaçadas o seus ambientes selecionadores (Glenn, 1989). Junto com
contingências comportamontais, metacontingências respondem pela sele
ção cultural e pela mudança evolucionária em organizações. Em organiza
ções, metacontingências aprosentam três componentes: contingências
comportamentais entrelaçadas, seu produto agregado e um sistema de re
cepção. O sistema de recepção é o recpiente do produto agregado e assim
funciona como o ambiente selecionador de contingências comportamentais
entrelaçadas (cf. Brethower. 2000). Contingências entrelaçadas não mais se
repetirão caso não haja mais demanda por seus produtos A Figura 4 ilustra
o conceito de metacontingência.
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Mo'.*co'i()i>36'>r.tiib c o T p O ftim m lo . a utura « 113
De modo análogo ao reforço operante no comportamento individual,
os a m b ien tes ex te rnos de o rg a n izações d isp õ em co n sequênc ias
selecionadoras. Clientes "compram” {ou não compram) os produtos da or
ganização. os acionistas compram ou vendem suas cotas, agências de
fomento concedem verbas ou não, agências governamentais concedem
isenções ou penalidades tributárias, e assim por diante. A maioria dessas
conseqüências são reiacionadas. mesmo que de forma imperfeita, aos pro
dutos das contingências comportamentais entrelaçadas.
Considere um restaurante como uma organização. O produto agrega
do das contingências comportamentais entrelaçadas do restaurante é a comi
da servida, e o sistema receptor são os consumidores. O restaurante sobrevi
verá somente se sua comida e suas características físicas (ambiente) satsfl-
zerem às exigências do ambiente selecionador {consumidores que comem
nesse restaurante). A comida o o ambiente podem mudar á medida que o
ambiente extemo (preferência dos consumidores ou concorrência) se transfor
ma. Os sistemas que contribuem para o produto do restaurante incluem o de
compras, o de preparação da comida, o de servir a comida, o gerenciamento
financeiro o a manutenção das instalações. Cada processo envolve uma ou
mais metacontingências. Servir refeições representa um conjunto de contin
gências comportamentais entrelaçadas envolvendo o comportamento de di
versas pessoas: o atendimento realizado pelos garçons, o chefe de cozinha
fornecendo rnstruções, o cozinheiro preparando a comida e colocando-a onde
o garçom possa pegà-la. O comportamento de cada indivíduo está relaciona
do ao dos outros nas contingências entrelaçadas. O produto agregado dessas
contingências entrelaçadas são as refeições disponíveis para serem servidas.
Se as refeições preparadas são bem adaptadas á demanda dos consumido
res, os consumrdores provavelmente continuarão a freqüentar o restaurante.
Outras metacontingências que têm produtos agregados diferentes
também afetam a demanda do consumidor. Por exemplo, o comportamento
entrelaçado dos atendentes afeta a prontidão e a qualidade do serviço. Por
tanto. inúmeras metacontingências existem dentro das fronteiras do restau
rante. O comportamento do qualquer indivíduo, assim como as característi
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114 & 9 " G G ln i n , M»*1h MBfcXt
cas de qualquer uma das contingências comportamentais entrelaçadas, pode
contribuir para a adequação dos produtos às demandas do ambiente.
Uma organização como um todo pode evoluir, ou mudar, enquanto
repetições de suas metacontlngências Internas Interrelacionadas ocorrem
ao longo do tempo. Os produtos agregados gerados pelas contingências
entrelaçadas variam ao longo do tempo, e os ambientas em que existem
selecionam difercncialmente essas variações. A Figura 5 é um diagrama
de uma linhagem cu ltura l e apresenta três repetições das mesmas
motacontíngências ao longo do tempo. Os participantes na metacontingència
mudam através das repetições (o que ó ilustrado pelo diferente sombreado
das figuras humanas).
C ons ide re um a m etacon tingènc ia na qua l as con tingênc ias
comportamentais entrelaçadas produzem a especialidade mais popular de
um restaurante. Variações sistemáticas no produto podem resultar de dife
renças insignificantes nas contingências entrelaçadas que ocorrem no a l
moço e no jantar. Em conseqüência disso, pedidos no almoço podem dimi
nuir enquanto pedidos no jantar podem aumentar, ou permanecer numero
sos. Se essas variações nas contingências entrelaçadas têm efeitos simila
res em outros pratos, um gerente perspicaz tentará analisar as diferenças
nas contingências comportamentais entrelaçadas e organizará as contin
gências de outro modo para o tumo do almoço.
Figura 5. Linhagem cultural
»/ e lK x tf i iptrfeas: o o irv x x tjiw n w , cultura a socMOada 115
As parles mais importantes de um ecossistema são seus sistemas
nucleares. Na ecologia de uma organização, o produto (output) de um
sistema afeta diretamente o funcionamento de outros sistemas. Em organi
zações, sistemas nucleares são partes essenciais, diretamente responsá
veis pela geração do produto agregado. Por exemplo, a preparação de
comida ostá no ámago do sucesso de um restaurante. Se a comida for
ruim, não importa quão bom seja o serviço, o restaurante, provavelmente,
fracassará a longo prazo. Produção ê um sistema nuclear de uma compa
nhia industrial: merchandising ó um sistema nuclear em uma companhia de
varejo; vendas é um sistema nuclear em uma companhia de marketing
(Malott, 1999)
As relações entre os sistemas e seus subsistemas em uma organi
zação constituem a rede de metacontingências entrelaçadas. Se a organi
zação como um todo satisfaz as exigências do ambiente externo depende
quase in te iram en te das ca rac te rís ticas dessas m etacon tingênc ias
entrelaçadas. Quanto maior a complexidade de componentes de qualquer
subsistema, mais metacontingências entrelaçadas provavelmente existirão.
A com p lex idade h ie rá rqu ica aum enta com o núm ero de n íve is de
subsistemas. Nessa rede do metacontingências entrelaçadas, qualquer
desacordo signíficante entre a geração de produto em um sistema (ou
subsistema) e os requisitos ambientais de um sistema relacionado (ou
subsistema) será, provavelmente, prejudicial para ambos os sistemas.
Se os sistemas de uma organização resultam emprodutos que es
tão pobremente relacionados com seus ambientes externos, ou o ambiente
ou o(s) sistema(s) tem que mudar para que a organização se mantenha por
um tempo prolongado. O ambiente de um subsistema pode mudar do modo
que seus produtos apóiem melhor a organização, pois o ambiente dos
subsistemas de uma organização é controlado internamente
Considere, por exemplo, uma indústria que produz componentes
plásticos para indústrias automotivas e de telecomunicações. Para preen
cher uma demanda de produto na indústria da saúde, a companhia come
çou a manufatura de conectores plásticos usados em transplantes cardía
cos em crianças. O cliente tinha especificações extremamente precisas para
o produto, que requeria um ambiente de fabricação livre de poluição, im
pondo mudanças significativas no processo de produção. Uma área espe
cial foi montada para moldagem livre de poluição, equipamento de segu
rança especial foi incorporado nos sistema, as regras de vestuário dos ope
rários foi alterada, e novas especificações de produção foram adicionadas
ao processo de informação de fabricação. Devido ao fato de um produto de
má qualidade poder custar a vida de uma criança, outros processos inter
nos foram ajustados, por exemplo, os acordos legais com os clientes, e os
requisitos para o envio do produto foram modificados
As m e ta co n tin g ê n c ia s en tre la ça d a s em um ecoss is tem a
organizacional, om última instância, determinam o curso da evolução conti
nuada do uma organização Se. ao longo do tempo, os produtos de um fabri
cante não são comprados em quantidade suficiente para sustentar a produ-
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116 Stptn 01 win. Mario Malar.
ção e para o investimento adequado para o futuro, então a organização se
toma progressivamente menos viável em um ambiente relativamente está
vel. Uma mudança no ambiente externo (e .g . o desaparecimento de um con
corrente ou a redução do custo das matérias primas) representa uma mu
dança nas metacontingências que podem afastar a possibilidade de extinção
e tornar a recuperação possível (ao menos temporariamente).
Uma mudança fortuita no ambiente externo podo resultar em uma
combinação adequada entre os sistemas de uma organização e seu ambi
entes selecionadores. Um resultado do tipo “salvo pelo gongo’ náo é típico
e as organizações não contam com tais mudanças afortunadas em seus
ambientes externos selecionadorcs. Em vez disso, focalizam nas mudan
ças de seus ambientes internos. Quanto mais complexos são esses ambi
entes internos, mais dificil ó reagir rapidamente a mudanças no ambiente
externo. O curso de ação mais seguro é monitorar continuamente o ajuste
entre os produtos da organização e o ambiente externo, identificar requisi
tos correntes (e futuro previsível) para a adaptação continuada e então pla
nejar e reajustar metacontingências internas.
S is tem as nu c le a re s em uma re d e de m e ta co n tin g ê n c ia s
organizacionais devem oo-evoluir para a organizaçáo prosperar, porque os
sistemas no ecossistema organizacional continuamente afetam um ao outro.
Co-evolução é a evolução conjunta de dois sistemas que apresentam um
relacionamento ecológico estreito. Na co-evolução, a mudança em cada sis
tema é seguida por mudança no outro, de modo que os dois sistemas evolu
am de forma combinada. Tomemos, por exemplo, o uso das caixas registra
doras contemporâneas em estabelecimentos de venda a varejo. Hoje as cai
xas registradoras calculam o total da venda quando um freguês compra di
versos artigos; mantém um registro de cada venda e a seção em que foi feita;
registram se a compra foi feita a dinheiro ou crédito; Imprimem os detalhes
da venda no comprovante de vendas, que serve como um recibo para o
freguês; e registram o Imposto a ser recolhido. Essa tecnologia náo poderia
ser implementada adequadamente sem que se alterassem diversos outros
subsistemas, inclusive o gerenciamento de estoque.
Se contingências de compotiçáo existem entre sistemas nucloaros,
um sistema nuclear sofrerá ás custas de outro. Por definição, todos os sis
temas nucleares são essenciais à sobrevivência da organização, do modo
que quando se planeja metacontingências. nas quais os sistemas relacio
nados participam, deve-se tomar cuidado para assegurar co-evolução em
vez de competição entre sistemas essenciais para a capacidade da organi
zaçáo em atender às exigências do ambiente selecionador. Infelizmente,
muitos dos sistemas nucleares competem com outros sistemas por recur
sos; e sistemas nucleares freqüentemente desenvolvem redundâncias com
outros sistemas da organizaçáo para realizar seu trabalho. Por exemplo,
departamentos de tecnologia da informação, tipicamente, não atendem aos
sistomas nucleares da organizaçáo porque, freqüentemente, estão sobre
carregados com infra-estrutura tecnológica intricada e fracionada. Como
resultado, sistemas nucleares, como produção em uma empresa industrial.
MtfftttMIlnçAnciRa r o T p z r t n r a n w , cjttira 0 «<K*dã3* 117
Ireqüentemente. contraiam especialistas em computação para facilitar o
processo de produção. Departamentos de treinamento são, do mesmo modo.
redundantes em muitos casos porque o pessoal é muito pouco familiariza
do com aspectos criticos dos sistemas nucleares para treinar os emprega
dos adequadamente (Mallot. 1999).
Metacontingôncias são as unidades de análise em ecossistemas
organizacionais, e suas contingências comportamentais entrelaçadas cons
tituem entidades culturais que evoluem via seleção. Entretanto, suas con
tingências comportamentais constituintes podem ser analisadas como uni
dades de análise no nível com porta mental. Qualquer intervenção planeja
da no sentido de melhor adaptar uma organização às mudanças no ambi
ente externo requer mudanças nas metacontingôncias entrelaçadas. E in
tervenções nas metacontingôncias entrelaçadas exigem mudar as contin
gências comportamentais para os Indivíduos envolvidos.
Seleção Comportamental em Organizações
Nenhuma organização poderia existir sem comportamento operante.
Como dito anteriormente, comportamento operante é comportamento que
opera, ou tem um efeito sobre seu ambiente. Tal comportamento é adquiri
do ao longo da vida dos indivíduos. Sua freqüência, forma, llming, exatidão
ou duração ae alteram quando contingências comportamentais mudam.
Embora as contingências de seleção comportamental expliquem o com
portamento das pessoas essas contingências ocorrem no contexto das
contingências entrelaçadas exigidas pelo ambiente externo ao sistema. A
complexidade das organizações torna difícil identificar onde a mudança
comportamental pode melhor beneficiar uma organização ou onde mudan
ças não percebidas em padrões comportamentais podem prejudicá-la. En
tretanto, as contingências de seleção que explicam o comportamento dos
indivíduos não podem ser ignoradas porque todo o ecossistema depende
delas.
Nem todo comportamento que ocorre dentro dos limites de uma orga
nização faz parte dos sistemas que definem e sustentam a existência daque
la organização. De fato, as organizações mudam, algumas vezes do modos
aparentemente caóticos. Tomemos, por exemplo, um departamento de con
tabilidade que produz relatórios que ninguém compreende. Embora os rela
tórios não tenham nenhuma função com relação a qualquer outro comporta
mento na organização, um supervisor continua a solicitá-los. Comporamen-
tos como esses podem permanecer não detectáveis por períodos indefini
dos. sobrevivendo porque o sistema receptor (supervisor) mantém as contin
gências entrelaçadas que resultam no produto (o relatório). Organizações
podom fazer melhoras significativas e reduzir os custos por meio de análise
constante da relevância dos produtos de comportamento individual e de con
tingências entrelaçadas para o desempenho global daorganização.
Comportamentos que prejudiquem seriamente os sistemas criticos
para a sobrevivência da organização são mais do que mero desperdício.
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Highlight
118 Ü I0-1U ( J l n i n , M w l s M Alot!
Um exemplo é o produtor de leite cujos empregados nào lavam as mãos
antes do tirar leite das vacas ou que adicionam água ao leite de modo a
obter mais volume e pagamento maior. Os resultados de tais comporta
mentos resultam em contaminação do leite ou leite de baixa qualidade. Se
tais comportamentos são generalizados entre empregados, a organização
pode fracassar. Todos esses tipos de comportamento mencionados são
mantidos por contingências da seleção compcrtarnental, mesmo aqueles
comportamentos que têm um efeito danoso para a organização. Mais leite
resulta em maior remuneração para o indivíduo, independentemente da
qualidade do leite. Somente mudanças nas contingências comportamentais
podem mitigar problemas como esse.
Embora nem todo comportamento considerado um "problema" seja
uma ameaça a uma organização, todos os problemas organizacionais en
volvem comportamento. No processo de resolução de “ problemas de com
portamento" devemos considerar seus impactos nos produtos para os quais
contribuem. Nossa primeira prioridade deveria ser os problemas de com
portamento que afetam sistemas nucleares, os quais, por sua vez, afetam o
desempenho da organização
Resumo das Implicações para a Mudança
Organizacional
Organizações são conglomerados de sistemas dinâmicos que mu
dam constantemente. As fronteiras organizacionais assim como os limites
de seus sistemas internos são perrnoàveis. Organizações são também com
plexas de muitas maneiras diversas. Nós identificamos três tipos de com
plexidade: ambiental (variações no ambiente fora da organização), de com
ponentes (número de componentes organizacionais e suas relações) e hi
erárquica (número de níveis e suas relações).
Quais são as implicações da complexidade para o gerenciamento
da mudança organizacional? Embora não possamos eliminar a complexi
dade, podemos adm in istrá-la . Podemos adm in istra r a com plexidade
ambiental alinhando os sistemas internos às demandas ambientas. Pode
mos administrar a complexidade de componentes analisando os conjuntos
de contingências entrelaçadas e seus produtos, e eliminando redundânci
as e desconexões. Podemos ainda administrar a complexidade hierárquica
tentando simplificar os níveis de gerenciamento, ou reduzir as desconexões
entre níveis.
Mudança organizacional significa alterações de metacontingências
e contingências comportamentais. Metacontingências são relações entre a
dem anda por produtos agregados e contingências com portam entais
entrelaçadas que os produzem. Contingências comportamentais são rela
ções entre consequências ambientais e comportamento operante de indivi-
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Highlight
f .V -lu c c íilin g é rn ta s ; e c c i ix x u m w r t o C U Iu n » t i -c K v im J e 119
duos. As causas da mudança organizacional são contingências de seloção
culturais e comportamentais.
Quais são as implicações da seleção ambiental para a administra
ção de organizações? Primeira, qualquer análise de uma organização é
meramente um recorte de metacontingências interrelacionadas em um dado
momento, porque organizações evoluem no transcorrer do tempo. Análises
repetidas nos permitem entender o curso da evolução de uma organização.
Segunda, alteramos metacontingências em todos os níveis relevantes des
sa organização, e programamos uma administração de contingências de
comportamentos críticos à sobrevivência da organização.
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Skinner. B. F. (1981) Selection by consequences Science. 213. 501-504.
« . V
Comentários sobre ‘Complexidade
e seleção: implicações para mu
dança organizacional’1 de Glenn e
Malott (2004).
Ricardo Corrêa Martone
João Cláudio Todorov
'Uma linha de produção que so move com uma dada velocidade tor
na a contingência entro velocidade de trabalho e estimulação aversiva
mais evidente Esta cadência' do comportamento não é de modo
algum um efeito dos tempos modernos. ’ (Skinner, 1953/2000. p. 423).
A partir de 1938 com o surgimento de The Behavior o f Organisms, de
B.F.Skinner, o universo psicológico passou a testemunhar o desenvolvimen
to de princípios comportamentais que iriam contribuir (com a psicanálise de
Froud e eventos posteriores) para transformar radicalmente a concepção de
um ser humano "livre", desprovido de qualquer controle, e que iriam também
(esses mesmos princípios) abalar definitivamente a dicotomia cartesiana entre
mundo mental e mundo físico. Os avanços teóricos conquistados pela Análi
se Experimental do Comportamento o as tecnologias de intervenção desen
volvidas pela Análise Aplicada do Comportamento estão intrinsecamente ata
dos às pesquisas com animais realizadas nas décadas de 40 e 50 do século
passado (cf.. Honig, 1966; Honig & Staddon, 1977). Tais pesquisas apresen
tavam como objetivo principal a elucidação dos princípios que regem o com
portamento operante. A partir de então uma ênfase crescente passou a ser
dada aos experimentos que envolviam seres humanos {cf.. Catania, 1996;
Baum. 1999). primordialmente em ambientes sobre os quais os pesquisado
res podiam exercer considerável controle, como hospitais psiquiátricos e sa
las de aula, uma vez que se deparavam com poucos problemas referentes à
mensuração e ao controle do comportamento nesses settfngs (cf.. Ayllon &
Azrin, 1968; Axelrod.1977) Entretanto, a Análise do Comportamento Huma
no vem demonstrando que a seleção do comportamento pelas suas conse
qüências vai além, é um mecanismo causal válido e vigoroso, capaz de expli-
' E s te tex to d urn c u m u r .in o a o a tt^ o ’Com plexity and Selection: Im p liu ib ons for O rg a riza tn n a l
C liarige ’ , d e S<grid Gkrnn n M aria M alo tt<2004), puM cad o noperiodlooEJeliavioi srec Social issues,
volum e 13 no 2 A giodccom os a geotftaza das au ’.oras por en v la r-ro s o rctforidc amigo para co-
meoidnos
122 «lavifu Corrf-w Marurw, Oodo ClàuClo Toditfov
car uma infinidade de atividades humanas, desde unia simples interação
verbal entre duas pessoas até o planejamento de políticas públicas nacio
nais, muito além dos estudos em ambientes controlados pelo experimentador.
Skinner trabalhava com um otho no laboratório e o outro no mundo,
buscando descrever as descobertas experimentais e generalizá-las para a
cultura. Em Science and Human Behavior (Skinner, 1953) salientou o papel
da Análise do Comportamento no estudo de sistemas sociaise também
propôs um programa de pesquisa para o estudo da cultura que enfatizava a
análise de contingências sociais e a seleção do comportamento pelas suas
conseqüências (Pierce, 1991). Enquanto houver interesse por análises cul
turais, Science and Human Behavior permanecerá uma obra fundamental.
Com a ampliação do escopo da Análise do Comportamento em direção a
fenômenos sociais de grande escala, que envolvem um grande número de
indivíduos e de práticas culturais, as seções do livro que discutem o com
portamento social e as agências controladoras sâo atualmente mais impor
tantes do que no século passado (Todorov. 2003).
Afirma>se freqüentemente que o potencial e a utilidade de uma teoria
cientifica sâo mensurados pela amplitude dos fenômenos que ela abarca, ou
seja, quanto maior a generalidade dos princípios dessa ciência maior seu
vigor. Caminhar em direção ao estudo de práticas culturais é de importância
fundamental para a sobrevivência da análise do comportamento enquanto
uma ciência generalistae utilitária (Biglan, 1995; Guerin, 2004, Lamal, 1991a).
O artigo "Com plexidade e seleção: implicações para mudança
organizacional" de Sigrid Glenn e Maria Malott é um exemplo contundente
da extensão dos princípios comportamentals a fenómenos altamente com
plexos e que envotvom muitas pessoas, assim como demonstra a força e a
necessidade de compreendermos o funcionamento de organizações por
intermédio de um enfoque selecionista.
O primeiro grande mérito desse artigo é a preocupação das autoras
com o estabelecimento dos limitos de uma organização (Organizational
Boundaries). É de suma importância sabermos a natureza do fenômeno que
pretendemos ostudan as pessoas e as atividades envolvidas e os produtos
produzidos por essas pessoas em conjunto (objetivo organizacional). Glenn
& Malott destacam essas características e as descrevem como sistemas e
subsistemas da organização chamando a atenção para o fato de que cada
uma dessas ‘ peças organizacionais' gera um produto que se relaciona ás
operações de outras peças. Tais características fornecem a amplitude (ou
tamanho) da organização e precisam ser levadas em conta por analistas do
comportamento que trabalham com organizações para poderem definir o al
cance e a efetividade de suas intervenções. Para que o analista do compor
tamento possa intervir no comportamento dos vendedores de uma compa
nhia farmacêutica, por exemplo, não seria suficiente somente estudar seus
comportamentos e planejar novas contingências. Ele teria que ir além para
de fato conseguir modificar e melhorar o desempenho da companhia. Como
ressaltam Glenn & Malott. dever-se-ia estar atento também á organização do
pessoal de vendas em todas as regiões e distritos alcançados pelos produ-
fAtlAScniM igênci»: oomsrrtamerv,;.. cu K u n o *or,iocWi» 123
tos da empresa, aos processos de produção. á influência da propaganda e
as tendências de compra do consumidor.
As autoras apontam também a necessidade de buscarmos ordenar
a complexidade organizacional por intermédio do que elas denominam
"Taxonomia da Complexidade Organizacional“ (identificar, descrever e clas
sificar contingências complexas que desempenham um papel fundamental
nas organizações). Três tipos de complexidades organizacionais são apon
tadas; 1 Complexidade do Ambiente, variáveis externas que afetam o de
sempenho da organização (regulamentações governamentais, falências de
concorrentes, fusões e uniões de empresas: flutuações na economia); 2 -
Complexidade dos Componentes, riúmero de elementos que compõe uma
organização; e 3 - Complexidade da Hierarquia, niveis de hierarquia de uma
organização. Cada uma dessas complexidades apresenta Implicações para
a efetividade da organização.
Glenn & Malott instrumentalizam analistas do comportamento a ex
pandirem ainda mais suas análises rumo a fenômenos mais complexos
que envolvem a interação de um grande número de pessoas, ao traçar os
limites de uma organizaçao (Fronteiras da Organização) e ordenarem e
classificarem a complexidade organizacional (Taxonomia da Complexida
de Organizacional). Tais descrições são de importância fundamental, pois
a partir delas podemos generalizar nossas análises para outros tipos de
organizaçao como governos, partidos politicos, sindicatos, organizações
da sociodade civil, etc. Até então, parece não ter ainda surgido um texto do
ponto de vista analítico comportamental que identificasse de forma tão cla
ra tantas variáveis que influenciam o comportamento organizacional. As
autoras, entretanto, vão além e demonstram de forma muito clara, com
muitos exemplos, as formas pelas quais o modelo de seleção por conseqü
ências pode explicar a evolução de padrões comportamentais dentro de
organizações e a evolução da própha organização.
Em primeiro lugar, não seria possível analisar o comportamento da or
ganização (lembrando que ela é composta por comportamentos de indivíduos)
sem estabelecer as relações existentes entre as divorsas contingências
entrelaçadas com o produto agregado à estas contingências. Estamos diante,
neste caso, de um outro nível de análise diferente daquele que nós. como
analistas do comportamento, estamos acostumados a lidar (Andery & Sério,
1999). O concerto de metacontingências já demonstrou ser fundamental para
análises de oontingéncias envolvidas em questões extremamente complexas
como sistemas político-econômicos (Goldstein & Pennypacker. 1998; Lamal,
1991b; Lamal, 1991c; Lamal &Greenspoon. 1992: Rakos. 1989; Rakos, 1991a;
Rakos, 1991b;Todorov, 1987). políticas do saúde (Dams, 1997; Edwards, 1991;
Hovell, Wahlgren & Russos, 1997; Glenn. Ellis & Hutchison, 1993; Russos,
Fawcett, Francisco, Berkley & Lopez, 1997). políticas educacionais (Greenspojn,
1991), influência da midia sobre o comportamento (Laitinen & Rakos, 1997) e
organizações (Bohrer & Ellis, 1998; Mawhinney, 1992; Redmond & Agnew.
1991; Redmond & Wilk, 1991). O artigo de Glenn & Malott insere-se dentro
dessa literatura e auxilia ainda mais a análise do comportamento na sua escala
124 K o a r d o C -Jffé u M e r ta m . O â j ü o T o d o w v
da rumo á compreensão das contingências envolvidas no terceiro nível de sele
ção do comportamento. Não seria possível sem o conceito de metaccntingèncias
estabelecer de que forma as contingências são organizadas de forma a atingir
uma meta planejada. Dessa forma, não seria possível, apenas com o conceito
de contingências individuais prever o comportamento organizacional. O planeja
mento torna-se mais efetivo a partir do momento que se possa enxergar o com
portamento dos indivíduos envolvidos nos diversos sistemas e subsistemas de
uma organização e as conseqüências produzidas em conjunto. O conceito de
metacontingêndas chama a atenção para a necessidade de descrevermos o
comportamento em dois níveis distintos de análise. Para que possamos de fato
manipular comportamento organizacional devemos estar atento ás conseqüên
cias individuais imediatas do comportamento da pessoa que participa da prática
cultural (incentivos financeiros, salário, benefícios trabalhistas, promoções, medo
da perda do emprego, etc), conseqüências essas que controlam seu comporta
mento, e ao mesmo tempo, ás conseqüências da prática cultural como um todo
(o produto final da prática) (Glenn. 1988).
Um aspecto crucial que poderia contribuir ainda mais para a compreen
são dos mecanismos envolvidos na sobrevivência de uma organização é a
propaganda. Glenn & Malott reconhecem a importância do sistema publicitário
de uma organtzação quando discutem Complexidade dos Componentes. No
entanto, a função da publicidade na avaliação final do consumidor sobre o
produto produzido pela organização poderia ser um pouco mais explorada. As
autoras afirmam ao longo do texto que a sobrevivência de uma organização
dependerá exclusivamente da avaliação do consumidor sobreo produto pro
duzido por ela, avaliação essa expressa pelo comportamento de comprar do
consumidor. Se a organização não se adaptar ás complexidades de seu ambi
ente externo (competição, regulamentações, flutuações econômicas), não pro
mover mudanças na oomp’exídade intema (contingências comportarnentais
entrelaçadas) para atender melhor o cliente através de seu produto, não so
breviverá. Tal engrenagem está muito clara e as autoras avançam enorme
mente na identificação e descrição de elementos fundamentais para a com
preensão da seleção e evolução de práticas culturais complexas. Entretanto,
poderíamos fazer as seguintes perguntas: será que as organizações não pro
duzem demandas ria comunidade? A publicidade não desempenharia um pa
pel importante nesse processo? Será que todos consomem porque o produto
ê "bom", "útil"? Rakos (1992) salientou a natureza informacional da sociedade
contemporânea, ressaltando que analistas do comportamento interessados
em analisar práticas culturais devem necessariamente abordar questões refe
rentes á influência da propaganda no ooritrole do comportamento. A informa
ção, por intermédio de uma tecnologia que gera meios de comunicação cada
vez mais rápidos e eficientes, é disseminada introduzindo estímulos que mui
tas vezes podem estabelecer condições que resultam no consumo de bens
materiais específicos e que podem adquirir propriedades reforçadores Um
exemplo fornecido por Rakos (1992) de um bem material que adquiriu proprie
dades reforçadores foi o fomo de microondas. Preparar rapidamente alimen
tos no microondas tomou-se reforçador Antes do desenvolvimento o da pro
WaliKXifti-iòeritjaa: «aiviix»tJiinenlD cuXüfn >• sccitxlade 125
paganda dessa tecnologia, segundo o autor, não havia a necessidade de se
preparar alimentos em poucos minutos. Vale lembrar que o desenvolvimento
de produtos por organizações conta com pesquisas de mercado exaustivas
para apurar demandas na sociedade, conta também com pesquisas que bos-
cam identificar nichos nos quais novas demandas possam ser produzidas e,
por último, com grandes bancos de dados armazenados com informações de
um grande número de pessoas.
Mais uma vez o trabalho de Glenn & Malott amplia nossos horizontes
e nos auxilia rumo á compreensão de fenômenos mais complexos e permite
que generalizemos suas análises para outros tipos de organizações, levan
do-se em conta também o caráter informacional contemporâneo. Na história
republicana recente brasileira tivemos um lamentável exemplo do poder da
propaganda na produção de um presidente eleito com o slogan "caçador de
marajás* Organizações dos mais variados setores da sociedade (bancos,
grandes indústrias, grupos midiáticos) se aglutinaram e promoveram o então
candidato Fernando Collor como um novo e jovem talento no cenário político
brasileiro (na verdade. Collor era ligado òs mais tradicionais oligarquias bra
sileiras). A meta final, orquestrada por grande parte do poder econômico
brasileiro, era colocá-lo na Presidência e evitar que seu adversário Luís Inácio
Lula da Silva* visto como um radical de "esquerda" e "libertador da classe
trabalhadora oprimida” , chegasse até Brasília. Collor ganhou as eleições gra
ças a uma campanha publicitária vigorosa.
Conclusão
O artigo de S. Glenn e M. Malott contribui de forma exemplar para a
afirmação da utilidade do conceito de metacontingéncias, Em primeiro lu
gar, não seria possivol analisar o comportamento da organização (lembrando
que ela é composta por comportamentos de indivíduos) sem estabelecer
as relações existentes entre as diversas contingências entrelaçadas com o
produto agregado à estas contingências. Náo seria possível também, sem
esse conceito, estabelecer de que forma as contingências sâo organizadas
de forma a atingir uma meta planejada. Dessa forma, não seria possível
prever comportamento organizacional. O planejamento torna-se mais efeti
vo a partir do momonto que se possa enxergar o comportamento dos indiví
duos envolvidos nos diversos sistemas e subsistemas do uma organização
e as conseqüências produzidas em conjunto. Em suma, o conceito parece
sim dar conta de fenômenos que deveriam/poderiam ser analisados em um
outro nível de análise.
• A ni&totiu fecem n política no B'a&-i CemonSItrou su a grand e ironlu. ou melhor, as ConíingíSncÍBS
refletiram essa ironín. O s m oem os grupos oco nôm lcosresponsáveis pela ascer sfio de C o iò r têm
sido apontados iam bém com o os f«spor.sãvG»s pula seu
im p eachm ert G r.in d o p a r o desses m esm os g tupos '.am som foi o respo nsável pota vitória do
Lu ia à pfesldfcnclíi em 2 0 0 2 ,
126 K i-a rc o C c iif t j M a io r* . * o ta C la u d o Tnrlcnw
A complexidade de uma organização é caracterizada pela capacida
de que ela possui de abarcar muitos sistemas e subsistemas. Essa descri
ção é de importância fundamental, pois a partir dela podemos generalizar
para outros tipos de organizações como governas, partidos, organizações da
sociedade civil, etc. Até então, parece não ter ainda surgido um texto que
identificasse de forma tão clara muitas variáveis que influenciam o comporta
mento de organizações do ponto de vista analitioo comportamental. assim
como nenhum outro texto mostrou de forma clara, com muitos exemplos, as
formas pelas quais o modelo de seleção pelas conseqüências de Skinner
pode explicar a evolução de padrões comportamentais dentro de organiza
ções e a evolução da própria organização (linhagem cultural).
Um problema que merece destaque é o grande número de pessoas
que compõe uma organização. Quanto maior o número maior sua complexi
dade, maior a dificuldade de análise. Há um distanciamento, devido a esta
complexidade, entre as pessoas hierarquicamente superiores e inferiores.
Quanto maior esse distanciamento maior serão os problemas envolvidos na
sobrevivência da organização.
Uma variável importante ausente no texto é a propaganda. Uma orga-
nrzação pode criar demandas por intermédio da publicidade de seus produtos,
podendo também interferir na avaliação do seu produto pelo consumidor. O
texto discute complexidade e seleção, sendo fundamental a compreensão do
mecanismo de seleção pelas conseqüências. Se a avaliação do consumidor,
expressa na maior ou menor procura pelo produto, for um elemento importante
para a seleção das práticas envolvidas na fabricação de tal produto e dessa
forma vital para a sobrevivência organizacional, como compreender a influên
cia da publicidade sobre essa avaliação? A propaganda, realizada por um dos
sistemas ou subsistemas que oompõe uma organização, é essencial para a
avaliação do consumidor. O produto final agregado pode não ser tão bom ou
eficiente, mas a publicidade o anuncia como tal criando enormes cadeias
intraverbais na comunidade (Guerin, 1994). Compra-se muitas vezes porque
está "na moda", porque todos possuem. As análises de Guerin (1994) e Rakos
(1992) são do extremo valor para que possamos compreender os controles
exercidos pela informação na sociedade contemporânea.
Enfim, Comptexity and Setection: Im pllcations fo r Organizational
Change contribui de forma contundente para o desenvolvimento da análise
de p rá tic a s c u ltu ra is , s a lie n ta n d o p r in c ip a lm e n te o c o n c e ito de
metaconlingèncias como instrumento válido e poderoso de análise o inter
venção. Com a expansão rumo à compreensão da cultura a Análise do
Comportamento vem demonstrando cada vez mais o seu potencial como
ciência empírica, capaz de fornecer soluções para uma infinidade de pro
blemas humanos, pois apresenta uma unidade de análise fabulosa - a con
tingência de reforçamento; não há nada melhor para comemorarmos o cen
tenário de B.F. Skinner! C om plexity and S e lection : Im p lica tions fo r
Organizational Change é uma grande contribuição. Afinal, quem foi mesmo
que decretou o fimdo Behaviorismo Radical?
MeMcoRtrigftncte»: cotr<*ortUT<mto, cM u 'a « *ocie«Jai>j 127
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A análise de fenômenos sociais:
esboçando uma proposta para a
identificação de contingências
entrelaçadas e metacontigências 1
Maria Amalia Pie Abib Andery **
Nilza Micheletto *
Tereza Maria de Azevedo Pires Sério* 3
Uma simples consulta a do is dos primeiros livros sobre conceitos
básicos em análise do comportamento (Keller e Schoenfeld, 1950, e Skinner.
1953) seria suficiente para elim inar qualquer dúvida sobre a inclusão de
fenómenos sociais entre os fenômenos que são vistos como legítimos ob
jetos de estudo da análise do comportamento. Entretanto, se isto não fosse
suficiente, há uma afirmação de Skinner (1953) bastante contundente so
bre esta inclusão: “Propor uma mudança em uma prática cultural, íazer tal
mudança e aceitá-la são partes de nosso objeto de estudo" (p.427).
Na verdade, a preocupação dos analistas do comportamento com o
estudo de fenômenos sociais não só não é uma novidade (ver. por exem
plo. Ulrich, Stachnik e Mabry, 1966, Burguess e Bushell, 1969, e Kunkel,
1970), ela vem se expandindo de forma que já estabelecemos, hoje, uma
literatura de referência sobre diferentes aspectos envolvidos na análise de
tais fenômenos (por exemplo, Ishaq, 1991;Lamal. 1991,1997; Guerin, 1994;
Màttaini e Thyer, 1996).
1. o p ro b lem a da un id ade de- an á lise
Entretanto, o reconhecimento dos fenômenos sociais como objeto
de estudo da análise do comportamento não é suficiente para que tais fe
nómenos sejam adequadamente abordados dentro desta perspectiva. Te-
P U C S F
' Versões arttórôres fles te a itígo (oram apresentadas no 12 c . C o rg re s M t o A B P M C (Londrira ,
2C 03) & na 30a A 8 A Á nnualC oivvenlíon (8-ostos', 2 0 ÍK )
•' B o la ía a C N P q processo no.
' Golsista C N P q processo no. 30i5032.‘D 2 '0
130 M arla Am alia P I« A b lb A n du ry, Nll>.) M lchototio, Toresa Marta d » A / «v * d o Pitt.% S ir lo
remos de enfrentar(colocar e resolver) um conjunto de problemas4 para
que possamos efetivamente fazer com que a análise do comportamento
possa contribuir para a compreensão dos fenômenos sociais. Um proble
ma do qual, com certeza, não poderemos fugir é o que se relaciona com a
delimitação da unidade de analise com a qual devemos trabalhar ao tratar
de fenômenos sociais. O problema da unidade de análise podena ser as
sim formulado: a mesma unidade de análise que tem sido utilizada para a
descrição de comportamentos operantes - a tríplice contingência - deve
ser mantida quando se trata do estudo de fenômenos sociais?
O problema da unidade de análise se coloca aqui porque a expres
são ‘fenômeno social' é um rótulo aplicado a um enorme número do fenô
menos que abarcam desde aquilo que tem sido chamado de ‘comporta
mento social’ ate aquilo que tem sido chamado de 'prática cultural'.
Comportamento social foi definido por Skinner, já em 1953, como "o
comportamento do duas ou mais pessoas, uma em relação à outra ou,
[dessas pessoas] em conjunto, em relação a um ambiente comum” (p. 297).
Pierce (1991), comentando esta definição, apresenta dois exemplos que
ilustram a abrangência dos comportamentos que seriam chamados de com
portamento social: ‘‘comportamento sexual é social porque os parceiros
respondem 'um em relação ao outro' e cooperação é social porque duas ou
mais pessoas precisam coordenar suas respostas em relação a um 'ambi
ente comum1 “ (p.14). Como destaca Guerin (1994). podemos falar ern com
portamento social quando uma outra pessoa estiver envolvida em qualquer
um dos três elementos de uma contingência de reforçamento (estímulos
antecedentes, respostas, ou estímulos subseqüentes) ou, como ele prefe
re, quando estivermos diante de contingências com “propriedades sociais",
ou seja. diante de ‘ quaisquer contingências em que uma outra pessoa
estiver envolvida, seja como um estimulo contextual, como um determinante
de conseqüências, ou como parte do próprio comportamento (do grupo)’
(p.79).
Já uma prática cultural "envolve a repetição de comportamento operante
análogo entre indivíduos de urna dada geração e entre gerações de indivíduos"
(Glenn, 1991, p.60); assim, “quando relações comportamentais que definem parte
do conteúdo do repertório de um organismo são replicadas nos repertórios de
outras pessoas, em um sistema sociocultural, o comportamento replicado é cha
mado de uma prática cultural." (Glenn e Malagodi. 1991, p.5).
Tal como no caso de comportamento social, a expressão 'prática
cultural' também já é encontrada em Ciôncia e Comportamento Humano
(1953, por exemplo, pp. 418, 419, 424, 425), quando Skinner introduz em
sua análise os aspectos culturais; em especial quando ele aborda tópicos
que mais tarde (1981) serão parte integrante do modelo causai de seleção
por conseqüências:
‘ A identificação co quais süo ossos problem as *.alvez tíeva ser a b # to do discussão entro os
analistea do comportamento; ontrolaoto, nflo 6 o ob|©tivo pflrneiro oe&ta artigo. Sobre isso pcidw
ser ba& tanleescU ifw codoro artigo de M alagodi \ Í9GG).
camila paiffer
Highlight
camila paiffer
Highlight
M e»conK na*ttl«& con<po(1*ni«ntD. cuki.rn o sodeJ&Jf? 131
Vimos qifó, em certos aspectos. o reforçamento operante se asse
melha à seleção natural da teoria da evolução. Assim como caracte
rísticas genéticas que surgem como mutações são selecionadas ou
descartadas por suas conseqüências, também novas formas de com
portamento são selecionadas ou descartadas pelo reforçamento. Há,
ainda, um terceiro tspo de seleção que se aplica às práticas culturais.
Um grupo adota uma dadi prática - um costume, um uso, um meca
nismo de controlo - seja pmiejadamente ou por meio de algum evento
que, no que diz respeito a seu efeito sobre o grupo, pode ser comple
tamente acidental. Como característica do ambiente social, esta prá
tica modifica o comportamento dos membros do grupo. (p.430)
O que chama atenção, no trecho citado, ó que. quando falamos em
práticas culturais, as conseqüências agem sobre o grupo o não mais. como
no caso da seleção de comportamentos operantes, sobre o operante; em
outras palavras, não estamos mais lidando com as relações selecionadoras
entre resposta e suas conseqüências, mas sim estamos lidando com "o efei
to sobro o grupo", efeito este produzido pelo conjunto de comportamentos
dos membros do grupo. Este aspecto é destacado por Skinner quando ele
mais formalmente apresenta o modelo de seleção por conseqüências; se
gundo Skinner (1981), o processo que descreve a evolução de culturas:
Começa, presumivelmente, no nível do indivíduo. Uma maneira me
lhor de fazer uma ferramenta, cultivar um alimento, ou ensinar uma
criança é reforçada por sua conseqüência - respectivamente, a fer
ramenta, o alimento, ou o aprendiz útil. Uma cultura evolui quando
práticas que se originam desta maneira contribuem para o sucesso
do grupo praticante na souçâo de seus problemas. É o efeito sobre
o grupo, não as conseqüências reforçadoras para os membros indi
viduais. que é responsável pela evolução da cultura, (p.502)
Este aspecto também tem sido destacado por analistas do comporta
mento que vêm so dedicando ao estudo deste terceiro nfvel de seleção do
comportamento. Glenn e Malagodi (1991). por exemplo, afirmam que:
Uma conseqüência comportamenta) è contingente à atividade de um
organismo singular e se leciona o comportamento daquele indivíduo
apenas. Um produto citftvráf' é uma mudança no ambiente que re
su lta do com portam ento agregado nas contingências
comportamentais entrelaçadas.... As mudanças no ambiente prcxiu-
zidas pelo comportamento agregado... podem, então, funcionar (seja
imediatamente, seja mais tarde, soja de maneira graduai) para forta
lecer ou enfraquecer as contingências entrelaçadas (p. 9)
Parece, assim, que estamos, no caso das práticas culturais, diante
de um fenômeno que tem sua origem no comportamento individual, mas
que, ao ganhar sua particularidade, não mais pode ser descrito no âmbito
de sua origem. Como afirmam Glenn e Malagodi (1991) “fenômenos cultu
rais são construídos por fenômenos comportanientais, o que não quer di
zer que possam ser reduzidos aos fenômenos comportamentais (assim como
- O s autoras .' iti-o-jijzom o ro v o teim o o u tm n e trfltíuzído, oqui. com o produto ~ para d is li^ ju lr
r.onsBqüônclus culturais - o u fo tw ies - deconseoúônclas com ponam ontais
camila paiffer
Highlight
camila paiffer
Highlight
camila paiffer
Highlight
Marta Am àlia Plc A b ib Amtery, N i lu Mlctvclctto, Tcrena Maria do A x tv M fe P lreu Scilo
fenôm enos com portam enta is não podem ser reduz idos a eventos
fisicoquímicos)" (p. 6)
É exatamente a possibilidade da configuração de um fenômeno que não
se limita às contingências que descrevem comportamentos operantes (quais
quer que sejam eles) de um individuo que coloca o problema da unidade de
análise: aparentemente, quando lidamos com práticas culturais, a contingência
de reforçamento não permito mais a descrição de todas as possiveis relações
envolvidas, já que as relações que descrevem o efeito sobre o grupo náo estão
a i contidas. Este problema se coloca quando estamos diante de práticas cultu
rais oom um determinado nível de complexidado, ou seja. se estivermos diante
de uma prática cultural que produz um produto agregado. Mais uma vez recor
rendo a Glenn (1988.1991), talvez possamos imaginar práticas culturais de dife
rentes níveis de complexidade, desde práticas que envolveriam a simples imita
ção (e, qua, portanto, poderiam ser descritas apenas com o conceito de compor
tamento social) até as envolvidas, por exemplo, na organização do trabalho (e
que só seriam oompletamente descritas se pudéssemos identificar os produtos
agregados per elas produzidos). Como sugere Glenn (1991), "a diferençacrítica
entre as pnotocutturaR humanas e de outros primatas e as culturas humanas
parece ser a complexidade das relações comportamentais entrelaçadas nas cul
turas humanas" (p.60). Isto sugere que a descrição de fenómenos sociais pode
envolver diferentes unidades de análise.
a) contingências entrelaçadas como unidade de análise.
Quando tratamos de comportamento social, o recurso á contingência
de reforçamento como unidade de análise continua sendo possível e, talvez,
heurístico, desde que se considere a necessidade de descrevermos, pelo
menos, duas contingências, pois, ao lidarmos com comportamento social,
estamos já lidando com a interação de, no mínimo, duas contingências. Em
outras palavras, o comportamento social envolve o que chamamos de con
tingências entrelaçadas (intertocking contíngendes) (Skinner, 1953, Glenn.
1991, Glenn e Malagodi, 1991). Segundo Glenn (1991):
Os mesmos processos comportamentais que levam a tanlos univer
sos comportamentais quantos são os indivíduos que se comportam,
também resultam em vastas redes de inter-relações entre os reper
tórios comportamentais de indivíduos humanos. Estes são os ele
mentos de unidades culturais. Eles foram rotulados de ‘contingênci
as entrelaçadas'para cham ara atenção para o duplo papel que o
comportamento de cada pessoa desempenha nos processos sociais
- o papeI de ação e o papel de ambiente comporlamental para a
ação de outros, (p. 56)
A Figura 1 é uma ten ta tiva de representa r as contingências
entrelaçadas que devem estar envolvidas na imitação, quando as respos
tas de um individuo (A e B) evocam respostas em outro individuo (B e C).
ocupando o lugar de estímulos antecedentes nas contingências que des
crevem o comportamento de B e C. Os comportamentos de B e de C po
dem ser classificados como comportamentos sociais.(Footnotes)
camila paiffer
Highlight
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Highlight
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M o W íx iir iip e n c f is : O M n p w t u r iw H o . c u U t r a o «o s o d B t f e 133
Figura 1 Uma representação de contingências entrelaçadas
quo descrevem imitação.
Na Figura 1, supusemos que o falo das respostas de urn indivíduo
evocarem respostas em outro revelariam uma função discriminativa do es
timulo. É importante notar, com o salienta Michael (1980), que só podemos
fazer esta suposição se, entro outras coisas, houver uma história de
reforçamento diferencial na qual as respostas de B e C, diante dos estímu
los antecedentes (que, neste caso, são as respostas de A e B, respectiva
mente), tenham sido reforçadas, enquanto que as mesmas respostas não
foram reforçadas em outras situações de estimulo. (Este comentário vale
para as figuras que se seguem).
Podemos imaginar outras possibilidades de entrelaçamento do con
tingências. Podemos, por exemplo, imaginar uma situação na qual "cada
indivíduo tem algo a oferecer de maneira a reforçar o outro e, uma vez
estabelecido, o intercâmbio, se m antém ' (Skinnor, 1953. p.310). Podemos
ressaltar que, neste exemplo, o entrelaçamento das contingências ocorre
de forma tal que ele mesmo se reproduz. A Figura 2 è uma tentativa de
representar estas contingências entrelaçadas.
entrelaçadas quo descrevem uma situaçáo de tracH
reciproca
Podemos ainda imaginar um exemplo de contingências entrelaçadas
no qual “o grupo pode manipular variáveis especiais para manter tendênci
as para que os indivíduos se comportem do maneira que resultem no
reforçamento de outros. (...) Muitos importantes sistemas entrelaçados de
comportamento social não poderiam se manter sem estas práticas convert-
i c o n tin g ê n c ia s e n tre la ç a d a »
M a ria A m M i.t P io A b l b A i id e r y , N ilx a M íd ie lv U o . T e r » * « M i r 1« d * A x » v « d o P lm s S e rto
cionais" (Skinner. 1953, p.310) A Figura 3 é uma tentativa de ilustrar tais
entrelaçamentos de contingências.
Figura 3. Uma representação de contingônclas entrelaçadas que
exkjetn contingências de suporte para sua manutenção.
Diferentemente do que ocorre nos dois primeiros casos, neste caso
as contingências entrelaçadas são mantidas porque outras contingências
em vigor fornecem suporte para o entrelaçamento das contingências por
meio da manutenção do comportamento de pelo menos alguns dos partici
pantes. A descrição deste entrelaçamento, então, já nos conduz para além
das próprias contingências entrelaçadas, o que sugere que, se jà não
estamos diante do uma metacontingéncia (o que exigiria a identificação de
um produto agregado), certamente estamos diante de uma situação de tran
sição para outro nível de analiso.
b) metacontingências como unidade de análise
Quando tratamos de práticas culturais, parte de nossa descriçáo
poderá ter como unidade de análise a contingência de refoiçamento, já
que, como afirma Glenn (1988), uma prática cultural ê "um conjunto de
contingências de reforçamento entrelaçadas nas quais o comportamento e
os produtos comportamentais de cada participante funcionam como even
tos ambientais com os quais o comportamento de outros indivíduos interage’
(p.167). Entretanto, como a própria Glenn (1991) ressalta:
A maior parte das práticas culturais tem um elemento adicional: elas
envolvem dois ou mais indivíduos cujas interações produzem conse
qüências para cada um deles individualmente e, além disso, cujo
comportamento conjunto produz um produto agregado que pode ou
camila paiffer
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camila paiffer
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M »i8C0nt ng4itiâfrs: cw inoccwinunlo. t u tjrct » sccimUxlo
----------------------------------------------- -^------- 135
não ter urn eteito comporia mental. Quando uma prática cultural en
volve tais contingências comportameniais entrelaçadas e produtos
agregados associados, está estabelecido o cenário para uma com
plexidade crescente no nível de análise cultural, (p. 60)
Para dar conta deste "nivel de analise cultural', Glenn (1988.1991)
propõe o conceito de metacontingéncias: 'metacontingência é a unidade
de análise que engloba uma prática cultural, em todas as suas variações, e
o produto agregado de todas as variações aluais" (Glenn, IÔ88, p. 168).
Como está indicado na Figura 4 pela flecha que retorna às contin
gências entrelaçadas, ©starcmos diante de uma metacontingência se, de
algum modo, o produto agregado - que é dependente destas contingênci
as entrelaçadas - retroagir sobre elas selecionando-as. Além disso, é im
portante salientar que o conjunto das contingências entrelaçadas, no caso
das metacontingéncias. está delimitado, na Figura, para sugerir que estas
contingências constituem uma unidade e que ê sobre esta unidade çue
retroage o produto agregado. Estas características são relevantes quando
tratamos dn metacontingéncias, uma vez que, como afirmam Mattaini e
Thyer {1996), “Sigrid Glenn introduziu o termo metacontingência para des
crever as dependências entre uma prática cultural e seus produlos agrega
dos para o grupo” (p. 16).
2) carac te rís ticas e sp ec ia is d os fe n ô m en o s sociais .
A análise de fenômenos sociais não exigirá do analista do compor
tamento um novo conjunto ou corpo de principios ou um novo modelo cau
sal; no entanto, exigirá o reconhecimento de que estes fenômenos têm
algumas propriedades especiais. Para Guerin (1992), ainda que a distin
ção entre principios e propriedades possa parecer irrelevante, ela è neces
sária para que a análise do comportamento contribua para a compreensão
dos fenômenos sociais. Ainda que a contingência de reforçamemo seja o
principio básico para a análise do comportamento social, trata-se de identi
camila paiffer
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camila paiffer
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M u r ln A m A itn P ie A W U A lw J ír y , N iU o M c h o t o n o , T a r M O M <rl.i d e A z o v o ü o P ire s S A rto
ficar, no caso da análise de fenômenossociais, as propriedades especiais
destas contingências (Guerin, 1992).
As propriedades especiais das contingências sociais que destaca
mos a seguir foram identificadas a partir do tratamento que Skinner deu ao
tema, jã em 1953.
a) características especiais do ambiente social.
Identificar as características do ambiento social talvez seja uma das
grandes contribuições que a análise do comportamento possa trazer para a
compreensão do homem, em especial no que se refere aos determinantes
de seu comportamento. Já em um texto dos anos 40, encontramos um desa
fio para a realização desta contribuição, quando, referindo-se à detennina-
ção do comportamento humano. Skinner {1947/1999) afirmou:
A constituição genética do indivíduo e sua história pessoal até o mo
mento desempenham uma parle nesta determinação. Aióm disso, o
controle permanece no ambiento Mais que isto. as forças mais im
portantes estão no ambiente social que é construído pelo homem
/mari-niadey. O comportamento humano está. portanto, em grande
parte sob controle humano, (p. 345)
Falar do ambiente que controla comportamento humano ê, assim,
principalmente e quase que exclusivamente falar de um ambiente social,
ou melhor, do ostimulos sociais (sejam estes estímulos controladores ante
cedentes ou subseqüen tes ao responder). Com o a firm am K e lle r e
Schoenfeld (1950):
Os estímulos sociais não diferem de outros estímulos em suas dr
mensões. Em vez disto, a diferença ó uma diferença de origem. Eles
se originam do outros organismos, de seus comportamentos, ou dos
produtos de seus comportamentos. Alóm disso, estímulos sociais não
diferem dos estímulos de origem inanimada em relação às suas fun
ções; oles agem como eliciadores, reforçadores, discnminativos e
assim por diante. A vida social surge porque estímulos socia is pas
sam a exercer estas funções, (p. 352- 353)
a1) eventos que podem to ra função de reforço social.
Quando, em uma contingência, um evento tem supostamente a fun
ção de reforço para a resposta de um indivíduo e não podemos descrevê-lo
*sem fazer referência a outro organismo" (Skinner. 1953. p. 298), chamamos
este estimulo reforçador do um reforçador social Como o próprio Skinner
ressalta, em alguns casos “a outra pessoa participa meramente como obje
to... mas usualmento o reforçamento social é uma questão de mediação pes
soal.” (pp.298, 299) O fato de que os reforçadores sociais onvolvem, em
grande parte, a mediação acaba trazendo como implicação três outras pro
priedades para o processo de reforçamento. A primeira delas é que exata
mente porque é mediado por outra pessoa, no caso do reforçamento social
o reforço dificilmente independe da ocorrência da resposta reforçada.
MetoonnUngOioas; ocinípcrtameiMo, cultura « uxM niitln 137
A segunda característica do processo é que “o reforçamento soc ai
varia de momento a momento, dependendo da condição do agente reforçador"
(Skinner 1953, p. 299). Isto quer dizer que respostas de uma mesma classe
nem sempre produzirão as mesmas alterações ambientais e que tais altera
ções não dependem exclusivamente da emissão destas respostas, já que
“dependem também da condiçãc do agente reforçador”. Segundo Skinner
(1953). duas propriedades do comportamento social - sua extensão e flexibi
lidade - seriam resultado desta característica do reforçamento social.
Uma terceira caracteristice do reforçamento social que é conseqüên
cia dos reforçadores sociais mediados, destacada por Skinner, ô que “as
contingências estabelecidas por meio de um sistema de reforçamento soc ai
podem mudar lentamente’ (Skinne' 1953, p. 299). São as condições do agente
reforçador que, mais uma vez, determinam o ritmo da mudança da contin
gência e, mais quo isto, deve se' enfatizado que as condições do agente
reforçador, por seu tumo. são produzidas, entre outras coisas, pelas respos
tas que vêm sendo mantidas por tais contingências. Ou seja, è do comporta
mento promovido pelas contingências sociais que se originam as novas con
dições de exigência do agente reforçador, o que, por sua vez, conduz à mu
dança. po r parte deste agente, das exigênc ias estabe lec idas para
reforçamento.
Finalmente, a quarta carecteristica do processo do reforçamento
mantido por reforço social, destacada por Skinner (1953), e que é intima
mente ligada à anterior, é que o agente reforçador ajusta o esquema de
reforçamento às características da resposta reforçada de uma forma que
“raramente ocorre na natureza inorgânica" (Skinner, 1953. p.301).
O que marca todas estas características é o que Skinner chama de
sensibilidade e complexidade do agente reforçador em comparação com o
ambiente não social, isto é. o ambente social pode reagir diferencialmente,
de maneiras mais sutis, às respcstas por ele selecionadas. Esta mesma
característica pode acarretar problemas:
Mas, um sistetriB reforçador que è afetado desta maneiro pode conter
defeitos inerentes que levam a comportamento instável. Isto pode ex
plicar porque contingências reforçadores da sociedade causam com
portamento indesejável /ra/s freqüentemente do que as contingências
aparentemente comparáveis na natureza inanimada. (Skinner, 1953.
p.301)
a2) estímulos antecedentes socJais
Quando em uma contingência o estímulo antecedente é social, o
desafio que se coloca para o analsta do comportamento é um desafio de
ordem metodológica. Como Skinner (1953) afirmou, “um estimulo social,
como qualquer outro estimulo, torna-se importante no controle do compor
tamento por causa das contingências de que ele participa* (Skinner, pp.
301, 302). Deste ponto de vista, estímulos antecedentes sociais, como es
tímulos não sociais, adquirem funções comportamentais pelos mesmos
processos. No entanto, no caso d>s estímulos sociais, a dificuldade está
em identificar, nestes estímulos, as dimensões e propriedades de controle
M arta A m é lia P io A b ll» A m U iry . N í t u M le íic lc lto , T c r & M M j r l » do A * * v * < lo P ire s S ftrlo
quo são relevantes, uma vez que elas não podem ser descritas pelas “ pro
priedades físicas” destes estímulos Isto acontece porque as contingênci
as de reforço que tomam tais estímulos comportamentalmente significati
vos “sâo determinadas pela cultura e por uma história particular" (Skinner,
1953, p 302). O que quer dizer que “estímulos sociais sáo importantes
porque os reforçadores sociais com os quais estão correlacionados são
importantes.... Estímulos sociais são importantes para aqueles para quem
reforçamento social é importante" (Skinner, 1953, pp. 302, 303).
É dai que decorre, possivelmente, a dificuldade que temos em com
preender como em nossa vida cotidiana não temos grandes problemas para
identificar respostas que chamaríamos do bom-humor, simpatia, ou amiza
de, enquanto quo como cientistas teríamos muitos problemas para definir
tais respostas. Esta disparidade ó exatamente reflexo da origem cultural
destes estímulos. Como afinna Skinner (1953), a respeito do nosso suces
so na identificação, no cotidiano, destes estímulos;
Niio significa que existam aspectos do comportamento que são tão
independentes do comportamento do observador como são as for
mas geométricas, como os quadrados, círculos e triângulos. Ele [o
homem comumj está observando um evento objetivo - o comporta
mento de um organismo; não há aqui dúvida em relação ao status
fís ico, mas apenas em re la çã o ao s ign ificado dos termos
cíassifícatôhos. As propriedades geométricas da 'amabilidade' ou
'agressividade' dependem da cultura, mudam com a cultura e variam
com a experiência individual em uma dada cultura, (p. 302)
A dificuldade de descrição dos estímulos sociais (ainda que não signi
fique que tais estímulos tenham propriedades de dimensão diferente daquela
dos fenómenos que constituem contingências não sociais) certamente colocaum desafio para o analista do comportamento e nos obriga a descobrir proce
dimentos que nos permitam descrever tais classes de estímulos.
Da origem social dos estímulos docorre mais um aspecto relevante
para a compreensão de fenómenos sociais: na interação entre dois indiví
duos, pequenas mudanças nas respostas de um dos indivíduos que mui
tas vezes parecem triviais, simples e sutis - as quais operam como estímu
los antecedentes para as respostas do outro podem ter efeitos significati
vos e poderosos sobre estas respostas. Skinner (1953) recorre aos pode
rosos efeitos que tem o contato visual para exemplificar este aspecto.
b) elementos quo constituem contingências entrelaçadas
Tendo reconhecido as peculiaridades do ambiente social, um momento
importante da análise de um fenómeno social é a identificação dos elemen
tos que delimitam tais contingências: ao fazer isto estaremos necessaria
mente identificando os participantes, os elementos do ambiente social e os
elementos do ambiente não social que participam das contingências.
Se considerarmos os exemplos dados por Skinner (1953), identifica
mos pelo menos quatro possibilidades de entrelaçamento de contingências.
MertaotWirtdâncÍÉfti: c o rrp a íta rra n to , c s jll ira e « « « D a d o 139
Numa primeira possibilidade, ern que dois indivíduos participam, apenas uma
das contingências envolve o que podo ser chamado de comportamento soci
al. isto é. apenas um dos indivíduos se comporia sob controle do comporta
mento do outro. O exemplo dado por Skinner é de um predador (B) seguindo
uma presa (A). No caso, o comportamento da presa (A) está sob controle de
estímulos não sociais (por exemplo, sua toca), já as respostas do predador
(B) estão sob controle das respostas da presa (por exemplo, afastar-se do
predador). As conseqüências selecionadoras do comportamento de B são
individuais, ou seja. afetam apenas o comportamento de B.
Numa situação parecida, podemos estar diante de uma segunda
possibilidade de entrelaçamento de contingências. Se o predador (B) esti
ver perseguindo a presa e a presa (A) estiver fugindo do predador, então,
as respostas de cada um dos participantes estarão sob controle das res
postas do outro. Neste caso, ambos os comportamentos (de A e B) podem
ser c lass ificados com o com portam ento socia l. E as conseqüências
selecionadoras das respostas de A e B são aqui também peculiares e indi
viduais. o que quer dizer que elas são específicas a cada uma das contin
gências entrelaçadas.
Uma terceira possibilidade de contingência entrelaçada amplia os
elementos constituintes das contingências, pois o comportamento de cada
um dos participantes fica sob controle tanto das respostas do outro como
de aspectos do ambiento não social. O exemplo que Skinner refere ê o de
dois ou mais indivíduos puxando uma corda que só é movida pelo esforço
conjunto. Neste caso. as respostas de A e B sáo coordenadas e. para tan
to. devem estar sob controle das respostas de puxar a corda (de B e de A)
e do deslocamento da corda. Aqui. as conseqüências que selecionam o
comportamento de cada um dependem do comportamento conjunto dos
indivíduos (elas não existiriam sem as conseqüências entrelaçadas) e, neste
caso. as conseqüências selecionadoras do comportamento de cada um
dos participantes são as mesmas (o movimento da corda)
Finalmente, uma quarta possibilidade de contingência entrelaçada
envolve dois ou mais indivíduos que se comportam sob controle do respon
der uns dos outros, mas as contingências que descrevem os comporta
mentos de cada um deles são diferentes. Entre os exemplos dados por
Skinner. destacamos o de um par dançando:
As conseqüências reforçadores - positivas e negativas - dependem
de uma contingência dupla: (1) os dançarinos devem executar certas
seqüências de passos, em certas direções, em relação ao espaço
disponível e (2) o comportamento de um deve ser temporulmente
organizado, de modo a corresponder ao comportamento do outro.
Esta contingência dupla normalmente ó dividida entre os dançarinos.
O tidor estabelece o padrão e responde ao espaço disponível, o se
guidor é controlado pelos movimentos do líder e responde adequa
damente para satisfazer a segunda contingência, (p. 305)
camila paiffer
Highlight
Marl« Amélia Pi* Abib Andary. NUu Mtetwbitto, Tereaa Marta da Axavado PUas Stulo
Note que, neste exemplo, a contingência que descreve o comporta
mento do "líder" (A) é diferente da contingência que descreve o comporta
mento do “seguidoi* (B): no primeiro caso, a contingência envolve, como
estímulos antecedentes, elementos do ambiente não social (como o espa
ço disponível) e o comportamento do ‘ seguidor"; já a contingência que des
creve o comportamento do “seguidor'’ envolve como estímulo antecedente
apenas as respostas do "lider*. As conseqüências selecionadoras dos com
portamentos de A e B aqui são individuais - B segue A sem tropeços e A
lidera B sem problemas. Além disso, podemos supor que esta interação
produz ainda um outro efeito, que chamamos de conjunto, que pode ter
papel selecionador sobre as respostas de A e B - ambos dançam de forma
em harmoniosa.
O Quadro 1. apresentado a seguir, tom por objetivo sintetizar as quatro possibilida
des aqui apresentadas.
Exemplos de
continências
Participantes F.stimubs aniccedcoies Conseqüências
1. predador persegue A (presa) —
IndividualB (predador) Resposta* de A
2 . predador persegue
c prc&a fuge
.A (prcsa)........
B(predador)
RcsgostBS de B
Respostas de Ä Individual
3. homens puxam
corda
A Rcspostus de B
Aspectos do ambiente ník> social Individual
B Respostas de A
Aspodos do ambiente nào social Conjuntu
4. par dan^n A (lider)
B (seguidor)
Respostas de B
Aspectos do ambiente não «»ciai
Respostas de A
Individual
4-
(Jonjunta
Ao descreverm os os elem entos que constituem contingências
entrelaçadas, uma vez que continuam os tratando de com portam ento
operante, necessariam ente deverem os iden tificar as conseqüências
selecionadoras do responder de cada indivíduo. Estas conseqüências po
dem constituir a contingência que descreve o comportamento de um indiví
duo particular envolvido na contingência entrelaçada e, neste caso, como
indicado no Quadro 1, elas foram chamadas de individuais. Este rótulo foi
utilizado para distinguUas de uma conseqüência que tem ao mesmo tempo
papel selecionador sobre as respostas de cada participante, isto é, de uma
m esm a co n se q ü ê n c ia que co n s titu i as d ife re n te s c o n tin g ê n c ia s
entrelaçadas; caso em que foram chamadas de conseqüências conjuntas.
Como o Quadro 1 sugere, contingências entrelaçadas apenas em alguns
casos envolvem o que chamamos de conseqüências conjuntas. E, nestes
casos, estas conseqüências podem ser idênticas às individuais, ou podem
ser outras e diferentes daquelas conseqüências.
M o M C Q Q t f n g f tn c t o * . ' m i n p c c t o m n n l » c u t u r p o » s c t e O B d » 141
Como deve ter ficado claro, o termo conseqüência indica a produ
ção de uma mudança ambiental que depende da emissão de uma dada
resposta. No caso das conseqüências que participam de contingências
entrelaçadas, então, as conseqüências mantêm esta característica; pode
mos assim dizer quo elas dependem do entrelaçamento das contingências.
Todavia, há um outro aspocto em relação às consoqüências onvolvidas em
contingências entrelaçadas que merece destaque: o entrelaçamento das
contingências aumenta a magnitude das conseqüências. Skinner (1953)
ressalta este aspecto ao afirmar que:
Se 6 sempre o indivíduo que so comporta, no entanto, 6 o grupo que
tem o maior efeito reforçador. Juntando-se a um grupo, o indivíduo
aumenta seu poder para adquirir reforça mento... As conseqüências
reforçador as geradas pelo grupo facilmente excedem a soma de con
seqüênciasque poderiam ser obtidas pelos membros agindo sepa
radamente. O efeito reforçador total ó enormemente aumentado, (p.
312)
Ao discutirmos a questão da unidade de análise envolvida no estudo dos
fenômenos sociais, sugerimos a possibilidade de duas diferentes unidades de
análise: as contingências entrelaçadas e as metacontingêndas. Esta distinção
tem implicações quando se trata de identificar as conseqüências envolvidas nas
contingências entrelaçadas. No caso de motaoontingências. além de todas as
conseqüências que participam de cada uma das contingências entrelaçadas, há
ainda mais uma conseqüência, que foi chamada de produto agregado. Se o
fenômeno sodal analisado envolver metacontingêndas, será necessário, então,
identificar este produto agregado tendo em vista seu papel selecionador em
relação ao entrelaçamento das contingências envolvidas.
Como no caso das contingências entrelaçadas que envolvem distin
tos tipos de conseqüências, metacontigências parecem envolver diferentes
tipos de produtos agregados. Como Glenn salientou já em 1988, em certos
casos, metacontingêndas envolvem produtos agregados que são também
as conseqüências selecionadoras dos comportamentos constitutivos das
contingêndas entrelaçadas. Em outros casos, no entanto (e estes parecem
ser o mais comum nas sociedades chamadas de complexas), os produtos
agregados são diferentes das conseqüências selecionadoras dos compor
tamentos individuais. Mais ainda, o produto agregado pode ou não afetar
todos os participantes das contingências entrelaçadas.
Tudo isto torna muito difícil identificar tais produtos e G lenn e
Malagodi, já em 1991, reconheciam que a tentativa de analisar fenômenos
sociais que envolvem metacontingêndas exigiria do analista do comporta
mento procedimentos não usuais em sua área. Neste artigo, os autores
fazem um a d is tin çã o en tre con teúdo com portam en ta l e p rocesso
com porta mental, afirmando: *o conteúdo do comportamento humano pede
ser genericamente caracterizado como aquilo que as pessoas fazem e di
zem.... Afirmações de relações sujeitas a leis podem ser consideradas descri
camila paiffer
Highlight
Murta A m e lia Pio A b ib Ajiclery. N ilta M lc ti«l»R o , T e r » » Marta do A ie v e d o P iro » SAtto
ção do processos ... Em resumo, princípios comportamentaís descrevem
processos e explicam conteúdos' (Glenn o Malagodi, 1991, pp. 2, 3). Esta
distinção é estendida á análise de fenômenos sociais e segundo eles "a
tarefa de formular princípios gerais que descrevem processos culturais pode
ser mais difícil que no domínio comportamontal" (p.4). Estas dificuldades
envolvem a complexidade da unidade de análise, a escala temporal do
muitos dos fenômenos sociais e a dificuldade de estabelecer situações de
ostudo análogas às utilizadas para o estudo do comportamento individual.
Como conseqüência, os autores sugerem que. pelo menos de início, o es
tudo dos fenômenos socials, com vistas à formulaçáo dos princípios que o
governam, precisará “se basear muito mais fortemente num amplo conhe
cimento existente sobre conteúdos culturais" (p.4). Do nosso ponto de vis
ta. o que estes autores estáo sugerindo é a necessidade dos analistas do
comportamento se debruçarem sobre a cultura buscando identificar o que
os indivíduos fazem e dizem e que ó tido como característico daquela cultu
ra Partindo desta descrição quase narrativa poderíamos hipotetizar rela
ções de depondência entre as ações e os ambientes selecionadores. Este
poderia ser o primeiro passo para a identificação de metacontingências.
c) com portam ento verba l re lac ionado às con tingênc ias entre laçadas
Muito freqüentemente a análise de contingências entrelaçadas, como
indicado na Figura 3. envolverá a descrição das aqui chamadas contingên
cias de suporte. Em um caso especial, e extremamente relevante (e bas
tante comum), tais contingências envolvem comportamento verbal. Como
ressalta Skinner (1981), comportamento verbal foi crucial para a emergên
cia do terceiro nível de seleção por conseqüências - a seleção das práticas
culturais. Assim, não deve causar espanto que a descrição de fenômenos
sociais muito provavelmente exija a descrição de comportamento verbal
envolvido na seleção e manutenção destas práticas. Como afirma Glenn
(1991):
O comportamento verbal de cada pessoa serve como parte do ambi
ente comportamontal da outra e isto claramente produz oportunida
des para que contingências sociais complexas tragam um número
cada vez maior de dimensões do mundo (social e não social) para os
ambientes comportamentais dos indivíduos participantes." (p.59)
Mais que isto. ao distinguir as culturas humanas das chamadas
protoculturas humanas (ou não), Glenn destaca o papel do comportamento
verbal oon>o elemento chave para que tenha emergido a complexidade quo é
típica das práticas culturais, ou melhor, das contingências entrelaçadas que
caracterizam as culturas humanas. Nas suas palavras: “a cola que foi neces
sária para manter tais relações entrelaçadas foi o comportamento verbal" (Glenn.
1991, p.60).
A Figura 5 ê uma tentativa de representar a participação de contin
gências verbais no suporte das contingências entrelaçadas. Há entre ela e
a Figura 3 uma diferença que ê importante de ser destacada. Quando as
contingências de suporte são verbais, as respostas verbais podem promo
ver outras contingências por meio do que tem sido chamado de compor
tamento governado por regras (Skinner, 1969), ou, mais recentemente, de
camila paiffer
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VelKíoitmflpBnaâa oomptyisirm nto. c u íu ro o suaw lM fe 143
Figura 5. Representação de contingências entrelaçadas que
exigem contingências verbais de suporte.
comportamento governado verbalmente (Catania, 1999). O que é relevante
aqui è que o comportamento verbal pode evocar pela primeira vez a emis
são de outro comportamento (antes mesmo que este seja consequenciado).
Assim, contingências verbais de suporte ampliam em muito a extensão do
controle social sobre o comportamento. E assim, também, dificilmente um
analista do comportamento poderá estudar fenômenos sociais sem domi
nar o conhecimento - teórico e empírico - sobre comportamento verbal.
3. os con tex tos de es tudo d os fenôm enos soc ia is
O analista do comportamento interessado no estudo dos fenôme
nos sociais, então, tem meio caminho andado: sabe que estos são legíti
mos como objotos de estudo de seu interesse e tem à sua disposição ferra
mentas conceituais para iniciar o tratamento destes fenômenos. No entan
to, este analista do comportamento precisará ainda tomar decisões a res
peito das situações apropriadas para o estudo de tais fenômenos.
Este aspecto - o de situações adequadas para estudo dos fenôme
nos sociais tem sido também abordado por vários analistas do comporta
mento. Lamal (1991), por exemplo, aponta as dificuldades de medida e de
delineamento envolvidos no estudo de fenômenos sociais, pois os analis
tas do comportamento não desenvolveram, ainda, procedimentos para re
alizar análises que envolvem o comportamento de muitas pessoas. Segun
do ele, a análise do comportamento quando aplicada a tais fenômenos,
deverá trabalhar com o que ele chama de “experimentos naturais" (p. 8) e
não. como está até entáo habituada, com experimentos de laboratório. Dois
Mario A m é lia Pte A M b A n d a iy , Nltea MIclaeieHo, lew oM M nrla á e A ze ve d o Pire* Sério
estudos de Kunkel (1985, 1986) ilustram muito bem como tais 'experimen
tos naturais' poderiam ser realizados. No primeiro estudo, Kunkel (1985)
analisa um conjunto atividades que ocorreram em Veneza, entre 1650 e
1800, com relação á educação musical de meninas órfãs; ole toma a parti
cipação das meninas nas atividades envolvidas nesta educação e todo o
suporte necessáriopara que estas atividades ocorressem como a variável
manipulada e analisa os efeitos disso sobre mudanças na vida dessas
meninas quando comparada á vida de meninas que não tinham tal oportu
nidade. No segundo estudo. Kunkel (1986) analisa os efeitos de mudanças
introduzidas, a partir de 1952, em uma fazenda no Peru, a fazenda Vicos,
quando ela foi objeto de um programa de pesquisas conduzido por um
sociólogo (Holmberg). Fica claro, nos dois casos, a necessidade de recor
rer a tipos de dados (registros oficiais, relatos históricos, relatos de pesqui
sa produzidos outros objetivos) com os quais o analista do comportamento
não está habituado e. mais do que isso. a necessidade de identificar, nas
histórias já ocorridas, situações que possam ser vistas como situações ex
perimentais. Como ressalta Kunkel (1986). esta decisão metodológica en
volverá uma opção:
O preço da análise experimentai do comportamento humano em am
bientes naturais pode sor um menor grau de controle de variáveis
[quando comparado ao da situação de laboratório/, enquanto que os
benefícios, que se originam de um acompanhamento das varáveis
estendido no tempo, são tarefas experimentais com significado mai
or e manipulações mais efetivas. Esses benefícios valem a pena e
prometem sucesso para o futuro da análise experimental do com
portamento humano, (p. 465)
Pierce (1991) também abordou a questão das situações para o es
tudo dos fenômenos sociais; tal como os autores já citados, ele parte da
constatação de que os analistas do comportamento precisam ampliar os
métodos aos quais recorrem para que este estudo seja produtivo. Indo nes
ta direção, Pierce (1991) destaca três possibilidades:
Métodos aceitáveis incluem: (1) técnicas observacionais que des
crevem o comportamento das pessoas organizado em termos de
settíng ovonts, estímulos discriminativos específicos e conseqüên
cias funcionais; (2) estudos quase-experimentais que tentam isolar
as variáveis causais de uma prática social particular, e (3) análise
experimental do comportamento em pequenos grupos, (p. 20)
Evidentemente, a identificação das diferentes propostas já existen
tes e sua comparação mereceriam um estudo especial; entretanto, a leitu
ra, ainda que assistemática, de artigos que apresentam tais propostas
metodológicas e de artigos que analisam fenômenos sociais sugere que
temos à nossa disposição quatro alternativas metodológicas que têm sido
bem sucedidas no estudo de fenômenos sociais.
A primeira delas não deve ser novidade para os analistas do com
portamento; em mais de uma oportunidade, Skinner (1957e 1974, por exem
plo) propõe a interpretação como um caminho legitimo para a compreen
são do comportamento. Segundo Skinner (1974):
c c n ip o i '« r iM il i> . c u I j i b « a o c le da d tf 145
Como em outras ciências, freqüentemente não temos a informação
necessária para predição e controle e devemos nos satisfazer com a
Interpretação, mas as nossas interpretações terão o apoio da predi
ção e do controle que foram possíveis em outras condições (p. 176)
Temos, em várias publicações de analistas do comportamento, exem
plos do análise de fenômenos sociais que recorreram á interpretação. po
dem ser citados o estudo de Ellis (1991) sobre o sistema penitenciário dos
EUA e o estudo de Laitinen e Rakos {1997) sobre a mídia e seus efeitos
sobre o comportamento individual, destacando, como exemplo, as noticias
sobro o Iraque, tal como divulgadas na mídia impressa e falada dos EUA. e
seus efeitos sobre a opinião pública com rolaçõo à invasão do Iraque pelos
EUA. em 1991.
Outra alternativa metodológica já foi aqui mencionada, sâo os cha
mados 'experimentos naturais'. Kunkel {1986), um de seus defensores, afir
ma:
A maioria dos estudos de longa duração foram descrições... Ainda
assim, o progresso da psicologia depende do poder e da eficácia do
paradigma experimental.... A melhor solução para o duplo problema
do laboratório e do tempo é o experimento natural (pp 52. 53)
Uma terceira alternativa são os chamados experimentos de cam
po’. Muitas das pesquisas que chamarnos de pesquisa aplicada em anáhse
do comportamento podem ser incluídas como exemplos desta alternativa
Um exemplo bastante significativo é encontrado no trabalho de Coheri e
Filipczak (1971) realizado em um reformatório para jovens condenados pela
justiça, em Washington.
Finalmente, uma alternativa que deve merecer especial atenção e
esforço é o desenvolvimento de situações experimentais que são análogos
a fenômenos sociais.
Uma afirmação de Skinner, feita em 1973, é reveladora da importân
cia desta alternativa:
Quando os fenômenos estão fora do alcance no tempo ou espaço,
ou quando eles são muito grandes ou pequenos para serem direta
mente manipulados, precisamos falar deles com uma descrição das
condições relevantes qtre náo é completo. O que foi aprendido em
condições mais favoráveis é. então, de valor inestimável (p. 261)
De fato. parece que temos rr-uito a ganhar em termos de nossa com
preensão das variáveis de controle de fenômenos sociais complexos com
tentativas de desenvolver análogos experimentais de tais fenômenos. Um
exemplo instigante desta estratégia ó a descrição o programa de pesqui
sas, intitulado Projeto Columban. desenvolvido por Epstein, Carr, Lanza e
Skinner (Epstein, 1981), no qual os autores tinham por objetivo demonstrar
ex|)erimentalmente - com pombos - as variáveis envolvidas na constitui
ção de fenômenos como. por exemplo, autoconsciência, comunicação
camila paiffer
Highlight
M u n a A m A iiii P io A b * b A n d o r y , N ilz a M ic »io l# tto . T e u * »» M » r ln de A je v o d a P ir e » S 4r to
simbólica, mentira e produção de pistas para o próprio responoer - tradicio
nalmente descritos à maneira cógnitivista.
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