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UNIVERSIDADE PAULISTA Campus de Araraquara ANÁLISE DO FILME “O CONTO” NA PERSPECTIVA DA TEORIA PSICANALÍTICA Curso de Psicologia Matutino PS5A52 ARARAQUARA MARÇO/2019 Karen Priscila de Almeida RA: D39485-1 Jéssica Cristina Cervan RA: D3462H-7 Leia Maurício RA: N13119-5 Letícia Aparecida Madeira RA: N1983E-3 Marcelo de Lima RA: D46ADH-9 Trabalho de análise de obra cinematográfica, a partir dos conteúdos programáticos, ministrados em aula na disciplina Teoria Psicanalítica. Profª Ms. Luzia Helena das Neves Teixeira SUMÁRIO INTRODUÇÃO ..................................................................... 1 DESENVOLVIMENTO ......................................................... 7 CONCLUSÃO .................................................................... 15 REFERÊNCIAS ................................................................. 18 1 INTRODUÇÃO O Conto The Tale ANO: 2018 PAÍS: EUA CLASSIFICAÇÃO: 18 anos DIREÇÃO: Jennifer Fox ELENCO: Elizabeth Debicki, Jason Ritter, Ellen Burstyn, Laura Dern O conto, originalmente intitulado como The Tale, foi o escolhido para análise com base nos levantamentos bibliográficos e principais temas trabalhados na disciplina Teoria Psicanalítica, a partir da obra, 2 trabalharemos alguns conceitos Freudianos como mecanismos de defesa, catarse, repressão, sexualidade infantil e sublimação. O Conto, diz respeito a uma obra autobiográfica, escrita e dirigida pela Jennifer Fox, a produtora cinematográfica, resolve trazer sua história de vida no cinema, relatando as experiências significativas vivenciadas pela mesma em sua pré-adolescência. A trama inicia-se mostrando Jenny (como é chamada no filme), aos 48 anos, a protagonista tem uma carreira de sucesso, trabalha atualmente como documentarista, tem um namorado atencioso e uma vida estável. Após alguns minutos de filme, ela recebe várias mensagens de sua mãe, relatando que achou uma antiga redação da filha, titulada “O Conto”, a qual trata-se de uma história romântica, envolvendo a menina, seu ex treinador de educação física e sua orientadora de equitação, ambos adultos de aproximadamente 40 anos que mantinham uma relação extraconjugal. A mãe encontra-se apavorada após ler o conteúdo da carta, que inicialmente acreditava ser fictício, confrontando Jenny a dizer a verdade e resolve mandá-la para que ela 3 também leia, com urgência. A questão é que a própria, não recorda mais com clareza do ocorrido naquele verão, cujo passou na casa da Sra. G, sua admirada treinadora de equitação, onde também conheceu Bill, o amante da Sra. G. Jennifer responde a mãe, pedindo que deixe-a com suas próprias memórias, afirmou ter 15 anos na época, e afinal, isso já havia passado tempo demais, constatando ser provavelmente algo sem importância, chegando a defender ambas as pessoas citadas no conto, alegando serem extraordinárias. Após rejeitar e esquivar-se dos questionamentos da mãe, a protagonista inquieta e intrigada com as lembranças e com o conteúdo da carta que finalmente concorda em ler, resolve revisitar o passado e desvendar a história de vez. Foi até a casa da mãe para encontrar fotos com o casal, fazendo uma busca nos álbuns, não encontrando os registros. Quem encontra o álbum correto é a mãe, ao deparar-se com as fotos ela percebe que tinha 13 anos de idade naquele ano e não 15 como recordava, a partir isso, ela se dá conta de que algo está errado com suas lembranças, questionando a si mesma da versão que ela guardou tantos anos sobre essa situação. 4 Determinada, Jennifer começa a entrar em contato com as meninas que participaram do grupo de verão junto a ela e tiveram contato o casal, com o intuito de descobrir algo sobre o que de fato ocorreu. É nesse ponto que o filme nos leva a uma jornada entre o passado e o futuro, utilizando de flashbacks como ferramenta, para entendermos o que aconteceu com a documentarista. No início dos flashbacks, há uma grande confusão e inexatidão das memórias, percebe-se que Jenny, mesmo tantos anos depois trazia suas memórias na perspectiva de um olhar infantil, é perceptível a grande carga emocional que cai sob ela justificando a dificuldade de concentrar-se para despertar o que estava escondido. Aos poucos, a dinâmica dessa relação é trazida à tona e o mistério é quebrado, ao voltar no passado, Jennifer consegue corrigir as memorias distorcidas, em um processo doloroso e de muito sofrimento, as cenas ganham sentido e ordem cronológica de uma vez por todas, Jennifer recorda que havia sido abusada psicologicamente pelo casal e sexualmente por Bill, o treinador. Jenny confiava de olhos fechados no casal, que por outro lado, aproveitaram da 5 situação para manipulá-la e seduzi-la cada vez mais, é nesse jogo de persuasão que a jovem se torna amante do casal, principalmente de Bill que consegue convencer a garota de ter relações sexuais com ele, afirmando que ela era mais especial e mais madura do que todas as meninas de sua idade e de que ele estaria protegendo-a de todos os garotos estúpidos que estavam soltos por aí. Ao decorrer da trama, Jennifer reconhece que sofreu abuso sexual e que foi manipulada, é nesse momento que ela se pergunta por que durante tanto tempo ignorou esse acontecimento tão importante em sua vida e por que distorceu e reprimiu todas essas vivencias, esquecendo-se delas por completo. É nessa transição entre o passado e o futuro que ela redescobre sua identidade, Jennifer consegue quebrar as barreiras psicológicas e os mecanismos de defesa que utilizou durante anos para sobreviver e encarar a realidade. A pedofilia e o abuso sexual são tratados de forma sensível e realista no enredo, apresentando-se na esfera emocional e física, mas o foco da história diz respeito à memorias oprimidas, e as consequências que levamos de 6 um trauma muito forte do passado para o futuro, acompanhamos essa trajetória emocionante, de choque, negação, busca pela verdade e por fim justiça, quando a documentarista vai atrás do abusador em um momento de revolta, e resolve denunciá-lo, ao final do filme, quando a mesma descobre que ela não havia sido a única menina abusada. 7 DESENVOLVIMENTO Como já estudamos, Freud construiu e elaborou a teoria psicanalítica a partir dos estudos com as mulheres histéricas, após conhecer o médico Bruer e estudar esses casos clínicos com o mesmo. Uma das questões levantadas com essas pacientes, foi a do trauma, para Freud, a histeria teria origem em algum episódio que gerou um sofrimento psíquico intenso, a ponto, da mente precisar proteger aquela pessoa daquelas lembranças indesejadas, deixando-as inconscientes, apesar disso, o sintoma aparente que sugeria que algo estava errado com aquela mulher era externo fixando-se em alguma parte do corpo. Além disso, Freud obteve um amplo conhecimento nesses estudos e constatou que geralmente esses quadros traumáticos estavam ligados a acontecimentos de natureza sexual na maioria ou em quase todas as vezes. Relacionandoisso ao filme, no ponto de vista da psicanalise, podemos afirmar que o abuso sexual e toda a história romântica que Jhennifer guardou para si durantes anos foi traumática, pois, além da garota não ter 8 conseguido externalizar esse acontecimento de maneira apropriada, o acontecimento foi esquecido. Pode-se analisar que houve um mecanismo de repressão em Jennifer, uma força psíquica de resistência, em que ela manteve essas lembranças e recordações afastadas do consciente, reprimindo-as, expulsando-as de sua memória, para poder seguir em frente com sua vida. Falando ainda sobre o trauma, ele pode se apresentar de várias formas na vida do sujeito, seja no aspecto emocional, seja nas ações e nos comportamentos que esse sujeito tem ao longo de sua vida. Em alguns momentos do filme, após os abusos, a garota costumava ter enjoo e vomitar em momentos de desespero e angustia, essas crises que Jenny sofria nesse sentido, poderia ser um mecanismo de defesa que seu organismo estava criando, pelo desequilíbrio no aparelho psíquico ou seja, o próprio ato de vomitar seria um sinal de que algo não estava bem e que precisava ser colocado para fora de alguma maneira. Já, como exemplo, na vida adulta, dessa experiência traumática podemos citar a dificuldade de Jennifer em estabelecer uma relação sólida, pois ela rejeitava assumir sua relação e morar com seu namorado, 9 casando-se de vez com ele, toda vez fugindo do assunto e do comprometimento, afastando-o dela, como se ela não tinha o direito de ser feliz com outra pessoa, provavelmente existia uma culpa inconsciente que ela carregava, a qual não conseguia se desvincular com a relação traumática da infância. Na quarta lição em psicanalise, Freud, explica talvez a mais chocante de suas descobertas para a sociedade: a sexualidade infantil, segundo o autor, a sexualidade nos acompanha desde o nascimento até a morte, mas a sexualidade infantil não é a sexualidade erótica adulta, ela diz respeito a busca de prazer que a criança tem e a necessidade de realizar seus desejos. Analisando o filme segundo conceitos da Psicanálise, podemos perceber alguns aspectos a sexualidade infantil sendo apresentadas, pois os impactos e os acontecimentos no desenvolvimento dessa sexualidade são formadores da personalidade do sujeito, principalmente, no que diz respeito ao Complexo de Édipo que é fundamental na teoria da sexualidade. O complexo de Édipo na análise do filme é importante, pois pode nos revelar, a vulnerabilidade emocional de Jennifer na sua puberdade, até mesmo explicar seu encanto por 10 aquelas duas pessoas, que proporcionavam a ela tantas fantasias e uma paixão platônica em ambas as figuras, deixando-se ser manipulada e seduzida, sem perceber as reais intenções daqueles adultos, que representavam para ela o desejo, a liberdade sexual (deixar de ser criança e alcançar a maturidade sexual tão almejada), o amor verdadeiro e a chance de ser vista e valorizada. Na teoria Freudiana, em resumo, o complexo de édipo, seria uma fase do desenvolvimento infantil, a qual toda pessoa passa, por volta dos três anos de idade, seria uma relação triangular de disputa, caracterizada por sentimentos ambíguos de amor, e ódio entre a criança, e seus genitores. Ex: O menino disputaria o amor da mãe com o pai, e a menina disputaria o amor do pai com a mãe, isso acontece pela castração emocional que a criança vivência, quando começa a perceber que não é mais o centro das atenções e sente-se ameaçada em relação a sua posição, percebe que não é o único ser amado naquela relação e que precisa dividir a atenção que tinha só para ela, nos primeiros anos de vida. Segundo a teoria freudiana também, com o passar do tempo o sujeito busca uma identificação com os pais. Mas quanto a Jhennifer, como 11 isso foi estabelecido e como a menina passou por essa fase do desenvolvimento, sendo que além dela, eram mais cinco irmãos mais novos que consumiam todo o tempo dos pais, como foi lidar com essa frustração e esse sentimento de rejeição? Teria ela buscado a imagem da mãe e do pai naquele casal? Naquele verão, é provável que Jenny tenha encontrado um refúgio emocional na Sra G., mostrando total devoção por ela e uma certa obsessão, a Professora de equitação, porém, foi a encarregada de apresentar e aproximar a garota a Bill que desde o primeiro encontro fez ela sentir-se especial e protegida, contando que ele e a treinadora eram amantes, que confiavam nela e que querem que ela faça parte dessa história, despertando fantasias e o afeto da mesma. Como dito acima, o complexo de édipo é um dos formadores de personalidade e acarreta consequências, desse modo, a ausência e a falta de referência dos pais pode ter projetado uma insegurança e um sentimento de insuficiência na menina, que aos 13 anos, encontrou a possibilidade de superar as angustias da infância, se relacionando, com pessoas inspiradoras e atraentes para ela. 12 É justamente pela grande importância emocional que ambos tiveram naquele período para ela que isso tenha se tornado tão traumatizante. Os mecanismos de defesa do ego também estão aparentes. Na segunda tópica, Freud apresenta-nos o EGO, uma das instancias psíquicas, é a parte consciente do aparelho psíquico, tem relação com o mundo externo e o sistema perceptivo, o ego então, é responsável pelos mecanismos de defesa, usados para proteger o sujeito de suas dores e frustrações. No filme listamos os seguintes: Negação, utilizando o exemplo de Jennifer no início negar a culpa de ambos pelo abuso sexual, quando questionada pela mãe, e negando a si mesma, que aquilo havia sido algo doloroso pra ela; de Racionalização quando ela supostamente tenta justificar não haver problema em ela ter mantido uma relação com alguém mais velho, pois ela já tinha 15 anos e sabia o que estava fazendo, buscando uma explicação lógica e como já mencionado a Repressão, mantendo o acontecimento fora do seu consciente, ou seja, em seu inconsciente. Um ponto a ser falado, é sobre ela querer desvendar a história a ponto de lembrar do que realmente aconteceu, por conta de ela ter reprimido tudo aquilo e distorcido todas 13 as lembranças. Ela foi atrás de pessoas do passado que ela conhecia que sabiam da história verdadeira, como a própria Sra. G. Após essas lembranças serem buscadas, faladas, serem vistas através de fotos, e externalizadas ela se lembra da história verdadeira. Segundo Freud, isso se dá pelo processo de Catarse, que é permitir que o paciente fale sobre si, uma cura pelas lembranças dos fenômenos. Ele diz que percebe durante a fala do paciente que ele acaba descobrindo coisas sobre si mesmo, é o que ele chama de dissolução de sintomas. A dissolução dos sintomas só acontece após sabermos o porquê estamos tendo aqueles sintomas, ou seja, após nos lembrarmos das memórias reprimidas. São três lições que nos ajudam a lidar com aquilo que está nos machucando: a primeira é a aceitação do desejo reprimido, no caso da Jennifer foi vir à tona aquilo que ela estava reprimindo, passou do inconsciente dela para o consciente. Segunda é a sublimação, entender os sintomas e transformar aquilo em algo positivo, usar aquilo ao seu favor, pode-se identificar a sublimação, quando Jhennifer em seu documentário pede que as mulheres que está entrevistando falem sobre abusos sexuais e se interessa 14 por isso, tentando ajuda-lasa resolver o problema. E terceira e última, reconhecer a repulsa – controle consciente do desejo: saber que existe e controlá-lo conscientemente, no filme Jennifer “usa” isso como válvula de escape, sabia que tinha acontecido aquele relacionamento, mas controla conscientemente, para lembrar-se das memórias da forma que ela queria lembrar, através da repressão. 15 CONCLUSÃO Uma situação traumática pode encontrar terreno fértil quando se depara com um sujeito frágil ou incapaz, em função da sua natural imaturidade de dar-se conta de situações extremas e potencialmente desorganizadoras, como, por exemplo, no caso do filme em que uma criança é submetida a uma situação de abuso sexual. Neste sentido, existem implicações diversas nessas organizações, pelo fato do trauma precoce ocorrer logo ao início da fase edípica, o objeto passa a ser instável, sucedendo uma introjeção falha, assim como o próprio período edípico o foi. Portanto, a relação com o objeto permanece centrada na dependência analítica do outro, ou seja, o que se estabelece é uma relação de grande dependência e de difícil superação dessa situação, como percebemos claramente na relação central do filme. Existe, também, a presença forte e determinante da figura paterna, ainda que ela não seja entendida como sexuada devido à imaturidade do ego da criança. Esta última luta contra um estado depressivo que a ameaça constantemente, sendo que, na verdade, a angústia ocorre 16 pelo receio de perder o objeto, daí, então, a relação de dependência. Finalizamos assim, afirmando que a vítima de abuso sexual geralmente tem uma predisposição para perpetuar o ciclo de violência a qual foi submetida, em O Conto, vivenciamos o sofrimento da garota após cada violação, apesar da angustia ela demorou para conseguir se desprender daquilo, afinal, sentia-se ‘amada’ e não queria aceitar o verdadeiro significado daquela relação. Quanto aos abusadores também podemos identificar alguns aspectos, no caso de Bill, percebemos que ele se acha no direito de impor seu desejo, para satisfazer suas necessidades utilizando do poder que tinha com Jennifer, principalmente por ela ser de uma faixa etária menor, podemos associar que ele obteve prazer a partir da vulnerabilidade de Jennifer, ou seja, para ele isso era um jogo de poder. Em relação a Sra. G, há indícios de que ela também tenha sofrido abuso em sua infância, isso é questionado várias vezes no filme, ou talvez ela tenha reproduzido o 17 acontecimento que vivenciou no passado, como forma de vingar-se. Há de ressaltar também a coragem da diretora Jennifer Fox em tornar pública sua história de violência e abuso infantil. Mas talvez o mérito mais importante de O Conto seja constatar que quando uma vítima escolhe contar sua história para os outros, ela também está contando para si mesma e reformulando o trauma. Nesse sentido a realização do filme foi também uma ‘cartase’ pessoal. Em uma entrevista, Fox disse que queria mostrar ao público que o sofrimento é algo que do qual precisamos lidar durante a vida. “O que acho muito bom é que, pela primeira vez, as pessoas podem ver que, uau, tudo isso é realmente confuso para todos. Aquilo que a mídia tenta dizer que é simples, como se o mundo fosse pintado de preto e branco, não funciona. Quando uma criança se sente amada, amando e quando ela sente especial, elas precisam lidar com essas emoções e é aí que os abusadores se aproveitam e tiram vantagem.” 18 REFERÊNCIAS FREUD, S. Cinco Lições de Psicanálise: Quarta Lição (1912). IN FREUD, S. Obras Completas de S. Freud, Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda; 1969. GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o Inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996 O CONTO. Direção: Jennifer Fox. Produção: Jennifer Fox. Distribuidora: HBO, 2018.