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1 Burocracia como Organização, Poder e Controle Autoria: José Henrique de Faria, Francis Kanashiro Meneghetti Resumo O questionamento que direciona este trabalho é: Qual é a concepção de burocracia, segundo as obras de Maurício Tragtenberg e de Fernando Cláudio Prestes Motta? Assim, o objetivo central consiste em analisar a forma como Maurício Tragtenberg e Fernando Cláudio Prestes Motta, dois importantes intelectuais da área de estudos organizacionais, concebem a burocracia. Portanto, os objetivos específicos são: (i) compreender as principais características da burocracia segundo Weber, autor central que orienta as obras de Tragtenberg e de Prestes Motta; (ii) atingir o entendimento de burocracia expresso na obra de Tragtenberg; (iii) apreender o entendimento de burocracia segundo a obra de Prestes Motta; (iv) analisar as relações entre os entendimentos de burocracia de Tragtenberg e de Prestes Motta. O método que orienta este estudo é o materialismo histórico, o mesmo utilizado pelos autores analisados. Este é um estudo que tangencia a história dos conceitos, alicerçados nos pressupostos de que: (i) a trajetória intelectual dos autores ajuda no entendimento do conceito estudado; (ii) a ordem das produções dos autores é importante para a compreensão do conceito em análise; (iii) as epistemologias que estruturam o conceito em questão apresentam importante relevância para compreender seu significado; (iv) o estudo de todo conceito deve ser compreendido no próprio espaço e tempo histórico; (v) todo conceito tem sua dimensão semântica, ideológica e cultural; (vi) determinados questionamentos (Para quem o autor escreve? A partir de que perspectiva teórica? Qual é o posicionamento político do autor? De onde escreve? Quais são seus interesses?) se revelam importantes para se compreender o desenvolvimento teórico do conceito. Este estudo teórico, diferente de uma simples revisão teórica, tem como objetos de análise as seguintes obras de Tragtenberg: Burocracia e ideologia (TRAGTENBERG, 1974), Reflexões sobre o Socialismo (TRAGTENBERG, 1986), Administração, poder e ideologia (TRAGTENBERG, 1989), Sobre educação, política e sindicalismo (TRAGTENBERG, 2004) e vários textos escritos em jornais (citados nas notas de fim). As obras de Prestes Motta utilizadas nas análises são: O que é burocracia (PRESTES MOTTA, 1981), Burocracia e autogestão (PRESTES MOTTA, 1982), Teoria geral da administração: uma introdução (PRESTES MOTTA, 1989), Organização e poder: empresa, estado e escola (PRESTES MOTTA, 1990), Teoria das organizações: evolução e crítica (PRESTES MOTTA, 2001), Introdução à organização burocrática (PRESTES MOTTA; BRESSER PEREIRA, 1980) e Teoria geral da administração (PRESTES MOTTA; VASCONCELOS, 2004). Chegou-se à conclusão de que, apesar das diferenças nas trajetórias intelectuais de Tragtenberg e Prestes Motta, a burocracia é entendida por ambos como organização, poder e controle. 2 Introdução O conceito de burocracia tem sido amplamente estudado em todas as áreas do conhecimento, contudo, é inegável que a grande contribuição sobre o tema tenha sido realizada por Max Weber (1982). Como objeto de estudo nas ciências sociais, sociologia, ciência política, direito, resultaram vários entendimentos sobre burocracia e na área de estudos organizacionais não tem sido diferente. Apesar dos estudos de Weber serem o ponto de partida, diversos são os direcionamentos adotados pelos estudiosos da área de estudos organizacionais sobre essa temática, que é amplamente estudada sob múltiplos recortes teóricos e perspectivas epistemológicas. Entre eles, destacam-se as interpretativistas, estruturalistas, marxistas e fenomenológicas. Mais do que concepções divergentes, é necessário entender cada perspectiva epistemológica em suas raízes. Nesse sentido, a pergunta a direcionar este trabalho é: Qual é a concepção de burocracia, segundo as obras de Maurício Tragtenberg e de Fernando Cláudio Prestes Motta? Assim, o objetivo central dirige-se para analisar de que forma Maurício Tragtenberg e Fernando Cláudio Prestes Motta, dois importantes intelectuais da área de estudos organizacionais, concebem a burocracia. Logo, os objetivos específicos são: (i) compreender as principais características da burocracia segundo Weber, autor central que orienta as obras de Tragtenberg e de Prestes Motta; (ii) atingir o entendimento de burocracia, segundo a obra de Tragtenberg; (iii) apreender o entendimento de burocracia segundo a obra de Prestes Motta; (iv) analisar as relações entre os entendimentos de burocracia de Tragtenberg e de Prestes Motta. Nos estudos críticos da área de estudos organizacionais, há certa tendência em acreditar na uniformidade em relação ao conceito de burocracia. Mais do que isso, ocorrem equívocos sobre as formas das relações materiais e sociais estabelecidas na sociedade. A tendência de se atribuir significado único e de não se levar em consideração como a burocracia se estrutura e se sedimenta na sociedade provoca contradições na área de estudos organizacionais. Com a intenção de colaborar para o esclarecimento do conceito de burocracia nos estudos críticos organizacionais, este artigo apresenta as conformidades e as diferenças em relação à burocracia com base na obra de dois intelectuais de perspectiva crítica. Este estudo teórico tem, como objeto de análise, as seguintes obras de Tragtenberg: Burocracia e ideologia (TRAGTENBERG, 1974), Reflexões sobre o Socialismo (TRAGTENBERG, 1986), Administração, poder e ideologia (TRAGTENBERG, 1989), Sobre educação, política e sindicalismo (TRAGTENBERG, 2004) e vários textos publicados em jornais (citados nas notas de fim). As obras de Prestes Motta utilizadas nas análises são: O que é burocracia (PRESTES MOTTA, 1981), Burocracia e autogestão (PRESTES MOTTA, 1982), Teoria geral da administração: uma introdução (PRESTES MOTTA, 1989), Organização e poder: empresa, estado e escola (PRESTES MOTTA, 1990), Teoria das organizações: evolução e crítica (PRESTES MOTTA, 2001), Introdução à organização burocrática (PRESTES MOTTA; BRESSER PEREIRA, 1980) e Teoria geral da administração (PRESTES MOTTA; VASCONCELOS, 2004). Todo estudo teórico exige método e procedimento, diferente de simples revisão teórica. Fundamentando-se no materialismo histórico, mesmo método utilizado pelos autores analisados, este estudo tangencia a história dos conceitos, alicerçado nos pressupostos de que: (i) a trajetória intelectual dos autores contribui para o entendimento do conceito estudado; (ii) a ordem das produções dos autores é importante para a compreensão do conceito em análise; (iii) as epistemologias estruturantes do conceito em questão apresentam importante relevância 3 para se compreender seu significado; (iv) o estudo de todo conceito deve ser compreendido em seu espaço e tempo histórico; (v) todo conceito tem sua dimensão semântica, ideológica e cultural; (vi) determinados questionamentos (Para quem o autor escreve? Baseado em que perspectiva teórica? Qual o posicionamento político do autor? De onde escreve? Quais foram seus interesses?) são importantes para se compreender o desenvolvimento teórico do conceito. A Burocracia segundo Weber: Ponto de Partida de Tragtenberg e Prestes Motta. Max Weber é o maior estudioso da burocracia, e suas inferências estão compreendidas no conjunto de suas obras. Dessa forma, Economia y sociedad: esbozo de sociologia compreensiva (WEBER, 1974), de dois volumes, e Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (WEBER, 1989) são obras tão fundamentais como Ensaios de Sociologia (WEBER, 1982), para esta tarefa. Weber analisa o processo de racionalização da sociedade na passagem da Idade Média para a Idade Moderna. O desencantamento do mundo, baseado no cálculo utilitário de consequências, substitui a mediação das relações sociais que antes estavam baseadas na tradição e no carisma. Uma racionalidade instrumental-legalse institui e modifica as relações na sociedade, fazendo com que a burocracia moderna se consolide como razão materializada desse processo histórico. Para chegar a essa compreensão, Max Weber analisou a burocracia do sistema de produção asiático e de outras sociedades deslocadas e dentro de seu tempo histórico. Entretanto, as características da burocracia moderna são próprias de uma racionalização estabelecida dentro do sistema capitalista de produção. Dessa forma, mesmo em Weber, a burocracia, quando analisada isoladamente, ou seja, como fenômeno atemporal, perde sentido, pois é por meio da racionalidade oriunda de um modo de produção específico que uma estrutura se ergue e se instaura. A vantagem técnica da organização burocrática no capitalismo é “a superioridade puramente técnica sobre qualquer outra forma de organização. O mecanismo burocrático plenamente desenvolvido compara-se às outras organizações exatamente da mesma forma pela qual a máquina se compara aos modos não-mecânicos de produção”. (WEBER, 1982, p. 249) Segundo Weber (1982, p. 229), a burocracia moderna funciona sob forma específica, destacando-se dentre as diversas características: • A burocracia está sob regência de áreas de jurisdição fixas e oficiais, ordenadas por leis e normas administrativas. • A burocracia estabelece uma relação de autoridade, delimitada por normas relativas aos meios de coerção e de consenso. • A burocracia estabelece uma relação hierárquica, definindo postos e níveis de autoridades, além de um sistema de mando e subordinação com gerência das atividades e tarefas delegadas por autoridade. • A administração é formalizada por meio de documentos, que acabam por regular a conduta e as atividades das pessoas. • Na administração burocrática especializada, pressupõe-se treinamento especializado. • As atividades e tarefas de um trabalho, que podem ser apreendidas por qualquer trabalhador, são descritas e delimitadas pela criação de cargos mais ou menos estáveis. • A ocupação de um cargo configura uma profissão de ordem impessoal e transitória. O treinamento especializado volta-se para generalizar o cargo e transformá-lo em profissão. 4 • A posição pessoal de um funcionário é desfrutada e estimada em um contexto social específico, sempre em comparação aos demais funcionários e em relação à estrutura social. • Um funcionário recebe um salário (compensação pecuniária) regular, criando-se certa segurança social em troca das atividades exercidas por ele. Esse salário é definido pela tarefa realizada, por suas particularidades e pela posição hierárquica do funcionário. • A burocracia cria uma carreira dentro da ordem hierárquica estabelecida. Para Weber (1974), o cumprimento dos objetivos efetiva-se por tarefas definidas, que devem ser calculadas e precisam ser realizadas independentemente das características das pessoas, ou seja, o cumprimento das mesmas deve se revestir de impessoalidade. Essa natureza peculiar da burocracia é “bem recebida pelo capitalismo, [e] desenvolve-se mais perfeitamente na medida em que a burocracia é ‘desumanizada’, na medida em que consegue eliminar dos negócios oficiais o amor, o ódio, e todos os elementos pessoais e irracionais e emocionais que fogem ao cálculo. É essa a natureza específica da burocracia, louvada como sua virtude especial”. (WEBER, 1982, p. 251) A estrutura burocrática concentra os meios materiais de administração nas mãos das elites detentoras do capital, mediante o desenvolvimento das grandes empresas capitalistas, que “encontram nesse processo suas características essenciais. Um processo correspondente ocorre nas organizações públicas”. (WEBER, 1982, p. 257) Quando a burocracia se estabelece plenamente, ela se situa entre as estruturas sociais mais difíceis de serem destruídas, configurando-se um meio de transformar ação comum em ação societária, racionalmente ordenada. Dessa forma, constitui um instrumento de poder, de dominação, pois, ninguém pode ser superior à estrutura burocrática de uma sociedade. Outra característica descrita por Weber (1982, p. 269) em relação à burocracia é que ela potencializa os segredos, conhecimentos e intenções. Na administração burocrática, tende a ser uma estrutura organizada de pequenas sessões secretas, na medida em que oculta conhecimentos e ações. Dessa forma, o poder do perito, ou funcionário especializado, é aquilatado e, por esse motivo, a qualificação como forma de especialização crescente resulta muito valorizada. A burocracia, portanto, “tem um caráter ‘racional’: regras, meios, fins e objetivos dominam sua posição”. (WEBER, 1982, p. 282) Quanto às contribuições de Weber referentes à burocracia, importa notar que ele, apesar de fazer uma análise histórica da burocracia, não adota o materialismo histórico, limitando-se a um olhar no plano da superestutura. Prestes Motta e Tragtenberg partem das análises de Weber para compreender a burocracia. Perspectiva da Burocracia em Tragtenberg A concepção de Tragtenberg em relação à burocracia é essencialmente weberiana. Assim como Marx, Weber está entre os autores mais estudados em sociologia. Várias leituras e interpretações em relação às suas obras foram realizadas, muitas delas por pesquisadores, intelectuais e acadêmicos importantes. Particularmente, em relação a Weber, “diversas leituras sobre o autor, frequentemente muito difundidas no espaço acadêmico, tentaram reduzir a polifonia weberiana, frisando este ou aquele traço do seu pensamento e obra. Assim, temos o Weber de Talcott Parsons, quase um ‘sociopsicólogo’; o Weber positivista de Adorno/Horkheimer, um apologista do status quo; o Weber fenomenológico de Alfred Schutz e o Weber preso à ilusão objetivista, de Lucien Goldmann e Michael Löwy.” (LAZARTE, 1996, p. 27) 5 Maurício Tragtenberg, sobretudo pela sua fluência com a língua alemã, possibilitando- lhe inclusive a tradução dos textos de Weber para o português, tornou-se muito próximo às ideias originais do autor de Ética protestante e o espírito do capitalismo, Economia e sociedade e demais. Uma compreensão importante em relação a Weber, como intelectual, é “pensar e refletir criticamente com Weber e não polemizar contra Weber, sem subterfúgios, escamoteação dos problemas centrais, penetrando na reflexão efetiva para superar, isto é, absorver a contribuição de Weber e excedê-la”. (TRAGTENBERG, 1974, p. 156) Muitas divergências ocorridas em relação às ideias de Weber se efetivaram, porque muitos acadêmicos e intelectuais, municiados dos seus pressupostos teóricos, não compreenderam o contexto histórico em que a teoria da burocracia foi escrita. Tragtenberg, nessa situação, convida os estudiosos interessados na compreensão da teoria weberiana para “superar em Weber as limitações do tempo e contexto social em que se situa a sua obra; discuti-la sem compromissos ideológicos que impliquem o sacrifício do intelecto com o respeito que uma obra do porte que ele nos legou implica.” (TRAGTENBERG, 1974, p. 157) Sem desconsiderar o rigor epistemológico, Weber contribui para a compreensão do processo de racionalização, em que a sociedade tradicional, baseada nas crenças, valores e em uma economia atrelada ao período da Idade Média, transforma-se em uma sociedade baseada nas relações em que os fins são mais importantes que os meios e em que o desencantamento do mundo é uma realidade permanente. Há, na obra de Weber, conforme afirma Tragtenberg (1974, p. 161-162), uma “contradição fundamental relacionada aos postulados metodológicos presos ao neokantismo e à sociologia histórica das formas de dominação, onde dialoga com a sombra de Marx. Em virtude disso, Weber é o reflexo das contradições e do agravamento destas na vida alemã, que levaram à solução nazista de 1933, já por ele pressentida.” Para alguns autores, como Lukács (1959), Weber é um dos intelectuais que prepararam o terreno para o aparecimento do regime nazista. Todavia, asações e atitudes de Weber em nenhum momento corroboraram a possibilidade de ele ser um disseminador dos interesses reacionários e totalitários que afirmam a ideologia fascista. Acusar Weber de ser um intelectual do fascismo é o mesmo que culpabilizar alguém, que teve simplesmente uma compreensão da realidade, pelos atos de terceiros. A obra de Weber segue a tradição da filosofia alemã e sua teoria da burocracia ocorre em um período de formação econômico-social do capitalismo. Antes dele, Hegel já procurara entender a burocracia por outras categorias de análise. Ambos, Weber e Hegel, procuraram compreender a burocracia prussiana no contexto do processo de racionalização do mundo capitalista por vias diferentes. “Diferentemente das burocracias patrimoniais do Egito, da China, de Roma e de Bizâncio, a burocracia capitalista na Europa Ocidental fundara-se na economia capitalista, transpondo a área administrativa à crescente divisão de trabalho e à racionalização. O que não quer dizer que a causalidade econômica explique, em última análise, a emergência deste fenômeno; somente unida à análise política, poderá fazê-lo.” (TRAGTENBERG, 1974, p. 93) Tragtenberg tem ciência de que a burocracia estudada por Weber é um processo marcado por características determinadas por um período histórico em que o capitalismo é a forma econômica dominante. Aliás, a análise de Tragtenberg é, antes de tudo, uma avaliação de caráter histórico, não se podendo negar, em razão disso, que o fundamento epistemológico que acompanha Tragtenberg seja o materialismo histórico. A citação anterior corrobora isso, mormente, porque parte do pressuposto de que a burocracia é consequência de uma forma específica de racionalização, originária da divisão do trabalho no contexto do capitalismo. 6 Marcuse (1998), com propriedade, chegou a essa conclusão, estudando o processo de burocratização na sociedade industrial. Na atualidade, conforme afirma o próprio Tragtenberg (1974, p. 144), “... a ênfase no estudo de Weber a respeito da burocracia deve ser dada não como o é por muitos autores, nas suas virtudes organizacionais, mas no oposto, como defender-se ante este avanço implacável da burocracia? Esta é a preocupação central de Weber que não se esquece de advertir que a burocracia é uma máquina de difícil destruição. No Mundo Antigo, ela só caiu com o colapso da estrutura de poder, assim se deu na China, no Egito, no Baixo-Império Romano. Weber desmistifica a tese segundo a qual é possível vida digna sem os Direitos do Homem; em outras palavras, sem a liberdade política, de pensamento e expressão. Isso coloca o problema do controle político-social da burocracia.” Burocracia é o oposto de autonomia, tanto individual como coletiva. O próprio pensamento da atualidade encontra-se refém da burocratização. No interior das organizações, os trabalhadores – do operário ao executivo – são condicionados pelas determinações de que a burocracia (vista como sedimentação da racionalização oriunda da divisão do trabalho) impõe. Para Tragtenberg, a burocracia materializa a face perversa do capital; resulta num problema real com origem na expansão do sistema de capital. Nos seus estudos, a proposta sempre foi criar mecanismos de defesa ante os nefastos efeitos da burocracia. Em Weber, burocracia é “um tipo de poder. Burocracia é igual à organização.” (TRAGTENBERG, 1974, p. 139). Seguindo suas concepções, Tragtenberg compreende que a complexidade crescente das organizações no sistema capitalista faz com que elas adotem, na mesma proporção, uma estrutura racional legal caracterizada pela impessoalidade para garantir a reprodução da própria organização. Além disso, a burocracia é entendida como um sistema racional construído da divisão do trabalho, que tem, como princípio, os fins. A impessoalidade, dessa forma, transforma-se em álibi das eventuais injustiças ou, como afirmam os funcionalistas, das disfunções burocráticas. Quando os meios não estão adequados aos fins visados, os indivíduos são identificados como os principais fatores de insucessos. Destarte, a “burocracia implica predomínio do formalismo, de existência de normas escritas, estrutura hierárquica, divisão horizontal e vertical do trabalho e impessoalidade no recrutamento dos quadros.” (TRAGTENBERG, 1974, p. 139). A especialização crescente deixa a burocracia organizacional cada vez mais “forte”. Os gestores isentam-se de responsabilidades pela regra da impessoalidade, do formalismo ou do discurso de profissionalismo. A capacidade do indivíduo dá lugar à profissão e à própria autoridade intrínseca quanto ao cargo com suas respectivas responsabilidades. A dinâmica da constituição da burocracia dar-se-á, portanto, com base na divisão do trabalho, que faz com que o trabalhador especializado seja percebido, contraditoriamente, de duas formas: o especialista passa a concentrar conhecimento específico, ao mesmo tempo em que destitui dos demais trabalhadores o poder de eles agirem, por falta, justamente, de conhecimentos específicos. Por outro lado, o trabalhador especializado desumaniza-se cada vez mais, pois o conhecimento, a habilidade ou a competência específica interessam à organização e não ao indivíduo. Assim, a organização, que não deve depender de ninguém, articula-se para criar substitutos para o especialista. Criam-se e incentivam-se aparatos ideológicos e um conjunto de tecnologias e técnicas, para envolver o trabalhador de forma sutil e silenciosa. Explicitam-se: tecnologia da informação, sistemas de controles gerenciais, manuais de gestão, protocolos de qualidade, normas, regras, hierarquias, assim como técnicas 7 de gestão colaborativas (exemplo mais recente e eficiente é o kaizen, utilizado em ampla escala no Sistema Toyota de Produção). Apesar das convergências conceituais, Tragtenberg via em Weber a separação entre o econômico e o político. “Weber aceita, como os liberais, a separação entre o econômico e o político, mas contrariamente a eles, acentua o peso dos fatores economicamente condicionados e, muitas vezes, insiste nos aspectos meramente econômicos em detrimento do político, não considerando a interação dialética entre os fatores.” (TRAGTENBERG, 1974, p. 161) Essa análise define sua preferência epistemológica pelo materialismo dialético como método de análise. Em um aprofundamento sobre a separação entre as esferas econômicas e políticas, Tragtenberg destaca que “a dualidade da realidade alemã é vivida por Weber no seu labor sociológico: a separação das esferas do político e do econômico; a dialética das formas de dominação oscilando entre o carisma e a burocracia.” (TRAGTENBERG, 1974, p. 107) As contradições existentes na própria realidade vivenciada por Weber configuram-se elementos importantes na sua construção teórica. Conforme Sennet (2007) afirma, a teoria da burocracia é influenciada pela burocracia militar, cuja rigidez organizacional se generaliza no âmbito da sociedade. Para Weber, essa generalização significa a tendência à crescente complexidade das organizações, surgindo a burocracia como uma forma organizada decorrente da racionalização consolidada pela formação dos grandes estados nacionais. Os interesses particulares são dispersos pela generalidade imaginária do coletivo e o Estado, visto como ente que representa os interesses da maioria, quando, na realidade, consolida os interesses particulares. Assim, “as finalidades do Estado são as da burocracia e as finalidades desta se transformam em finalidades do Estado. A ideologia da burocracia aparece quando se dá a divisão dos funcionários como portadores de símbolos, uniformes e signos do que do saber real, técnico e utilitário: hierarquia autoritária.” (TRAGTENBERG, 1974, p. 24) A legião de trabalhadores que formam a máquina burocrática do Estado exerce, no limite, os interesses de uma parte da elite dominante, realizando a tarefa de mediação do capital com os interesses do coletivo,por meio de participações específicas no processo de racionalização. Em relação à educação, por exemplo, “o Estado possui o monopólio da educação e regula burocraticamente as construções públicas e privadas, os rituais das festas, o nascimento e a morte.” (TRAGTENBERG, 1974, p. 33) Tragtenberg (1974, p. 132), em uma leitura de Weber, vê que, na concepção do sociólogo alemão, a crescente socialização (aqui definida como estatização da economia) dos meios de produção na posse de um Estado proletário implica, necessariamente, aumento da burocratização. A ditadura do proletariado seria, inevitavelmente, transformada em ditadura do burocrata, do funcionário do Estado. Diante dessa análise, “A eliminação do capitalismo privado resolveria o problema da burocratização? Weber crê que aumentaria o nível de burocratização e mais, a situação dos operários dirigidos pelo Estado não mudaria sensivelmente e, ainda, a luta contra uma burocracia estatal pela participação no poder, segundo Weber, é sem esperança. A causa explicativa do progresso da organização burocrática foi sempre a superioridade técnica da burocracia sobre qualquer outro tipo de organização. Um mecanismo burocrático desenvolvido atua em relação a outras organizações 8 como uma máquina em relação aos métodos artesanais de trabalho. A precisão, rapidez, continuidade, discrição, uniformidade, subordinação rigorosa, ausência de conflitos e custos são infinitamente maiores numa administração severamente burocratizada e especialmente monocrática, fundada em funcionários especializados, do que em qualquer organização do tipo colegiado ou honorífico. (TRAGTENBERG, 1974, p. 142)” Resta evidente que a superação da burocracia não pode ocorrer apenas por meio da consciência política dos trabalhadores. A própria estrutura econômica na sua unidade elementar, que é o modo de produção, consolida essa burocracia como forma específica de organização da produção e, consequentemente, da sociedade em geral. Evidente que, para a fase atual de desenvolvimento das forças produtivas, não há como negar a necessidade de uma forma de burocracia, uma vez que ela apenas consolida uma forma específica de produção. Todavia, quando a “burocracia participa da apropriação da mais-valia, participa do sistema de dominação. A burocracia age antieticamente: de um lado, responde à sociedade de massas e convida à participação de todos; de outro, com sua hierarquia, monocracia, formalismo e opressão afirma a alienação de todos, torna-se jesuítica (secreta), defende-se pelo sigilo administrativo, pela coação econômica, pela repressão política. Em suma, ela une a sociedade civil ao Estado.” (TRAGTENBERG, 1974, p. 190) Contudo, não foi somente no âmbito acadêmico que Tragtenberg explanou sua opinião em relação à burocracia, pois, em outros locais de discussão também manifestou suas ideias a respeito sem abrir mão de sua coerência de raciocínio e militância política. Avesso a qualquer forma de burocratização que impedisse a autonomia dos indivíduos, caracteriza-se um dos pioneiros na crítica ao regime autoritário com que o socialismo tentou se estabelecer no Leste Europeu. A afirmação, que segue, resume bem as várias manifestações contra essa ocorrência. “Na realidade o que ocorre é que com o nome de economia socialista existe uma economia de Estado nas mãos de uma burocracia dominante, que exerce o poder em nome do trabalhador. Que há um Estado vertical e um exército burocrático e hierárquico, acima da população e dirigido contra ela nas épocas de crise. Por isso, nenhuma ditadura é revolucionária, pois ela tende a ser exercida por um quadro burocrático e defender o status quo. A isso, chamam “socialismo realmente existente”, seus defensores profissionais. Na realidade trata-se de um capitalismo de Estado monopolista, onde a burocracia coletivamente detém nas mãos os meios de produção e o trabalhador permanece como escravo assalariado, domesticado através do Partido e do Estado”i. A clareza da análise de Tragtenberg demonstra domínio em relação ao fenômeno da burocratização. A burocracia instalada nos países ditos socialistas ocorre igualmente em outros estados declaradamente liberais, somente com uma máscara diferente. Em outra ocasião, Tragtenberg escreve sobre o Leste Europeu, da seguinte forma: “Sob Stalin, o regime do Leste europeu reproduziu o modelo russo: economia de Estado regida por uma burocracia que gozava de imunidades e privilégios defendidos por um Estado policial, onde a liberdade era vista como ‘preconceito burguês’. ii” Mesmo os partidos políticos são incorporados pela burocratização e “a luta partidária, no Estado atual, assume a forma definida por Max Weber; é a luta pelo direito de nomeação aos cargos públicos. (...) O problema mais sério do partido é, após escalar o poder, quem o tira 9 de lá. Diriam alguns: é através do processo eleitoral. Concordamos, porém, ressaltando que as diferenças entre os partidos brasileiros são de rótulo. Eles se constituem nos viveiros de uma nova burocracia tecnocrática, que, legitimada pelo voto popular, melhor poderá explorá-lo e dominá-lo” iii. O Estado, de certa forma, estrutura-se para manter a ordem vigente, além de criar normas, regras, hierarquias e organizações de forma muito semelhante às empresas da iniciativa privada. As diferenças apresentam-se, nessas situações, apenas para garantir a reprodução do sistema e o equilíbrio estrutural para que o capital avance com o mínimo de dificuldade possível. Ressalta-se que Tragtenberg não poupou esforços para compreender o fenômeno da burocracia nos diversos contextos sociais. Em relação à Polônia, por exemplo, alertou sobre o poder generativo da burocracia ante os avanços do proletariado na construção do regime socialista. Sobre as ditaduras, não deixou de mencionar sobre a burocracia cubana e romena, anos atrás das mudanças que ocorreriam. O Estado, como representante e legitimador da burocracia, tem papel central na consolidação de uma sociedade organizada em função de crescente processo da ação racional- legal, que legitima os interesses do capital. Uma ideia centraliza bem a forma como Tragtenberg analisa esse fenômeno: “A máquina do Estado funda seu poder sobre o controle de todos a partir do centro: ela funciona na monarquia absoluta que estatiza pouco a pouco todos os aspectos da vida, todos os detalhes do comportamento social, econômico, político, sexual e afetivo. O ensino, a religião, a psiquiatria, o esporte, a pornografia e o urbanismo, no processo de estatização, são verdadeiras indústrias de castração, onde os efeitos completam a escravidão assalariada e as relações de produção capitalistas. Como predissera Marx, com lucidez, o trabalho assalariado nos transforma em eunucos industriais. Não é suficiente reduzir os escravos assalariados a seu estado de objeto, de mercadoria; o Estado programa detalhadamente o processo de ‘coisificação’. Daí é que os senhores tiram não somente a sua mais-valia pecuniária, mas sua mais-valia energética e libidinal, o que leva Kissinger a dizer que o poder é um afrodisíaco, tanto mais absoluto quanto mais absoluto for.” (TRAGTENBERG, 1989, p. 110) A concepção do Estado como meio de controle e aparelho repressor se faz evidente em Tragtenberg. Para ele, qualquer forma de Estado representa um tipo de burocracia e, dessa forma, nada mais representa que uma sociedade que sofre um processo de desencantamento do mundo, ou seja, uma manifestação evidente e clara da ação racional-legal de como os meios de produção se organizam e se constituem. Em uma passagem de seu livro Reflexões sobre o socialismo, Tragtenberg (1986) escreve: “as lutas sociais podem tender à burocratização e à perda de suas finalidades iniciais, mas há sempre alguém – a classe trabalhadora – que reage a isso criando suas entidades igualitárias e novas relações sociais antagônicas à burocratização’.” (ACCIOLY, 2001, p. 80) Nessacitação, Tragtenberg considera o processo de burocratização um fenômeno social em consequência, também, do grau de complexidade das forças produtivas em uma sociedade que passa a quantificar-se em todas as dimensões da vida social, inclusive, da educação. 10 Perspectiva da Burocracia em Prestes Motta. Para adequar suas contribuições aos propósitos deste trabalho, utilizam-se as análises feitas por Prestes Motta (1981, 1982, 1989, 1990, 2001) e dele com outros autores (PRESTES MOTTA; BRESSER PEREIRA, 1980; PRESTES MOTTA; VASCONCELOS, 2004). Prestes Motta foi um estudioso das obras de Weber e de Marx, que procurou esclarecer como a relação do sistema de produção capitalista com os elementos da infraestrutura pode formar a burocracia. A ligação advém de um processo de racionalização, provocada por condições específicas da produção. Prestes Motta (1981, p. 7) afirma que a “burocracia é uma estrutura social na qual a direção das atividades coletivas fica a cargo de um aparelho impessoal hierarquicamente organizado, que deve agir segundo critérios impessoais e métodos racionais”. A burocracia nasce das relações de produção, consolida-se no Estado como forma organizada de controle social e amplia-se com as organizações de modo geral. Assim, a sociedade moderna tornou-se uma “sociedade de organizações burocráticas submetidas a uma grande organização burocrática que é o Estado” (MOTTA, 1981, p. 8). Adotando-se as orientações de Weber e Marx, segundo Prestes Motta (1981, p. 8-9), a burocracia apresenta algumas características, tais como: • A burocracia transforma a maioria das pessoas em trabalhadores assalariados. • As pessoas organizam-se e participam de grandes organizações impessoais. • O trabalho nas organizações burocráticas perde significação intrínseca. • Mantém-se um estado de segurança e conformismo em troca do trabalho alienado. • As necessidades das pessoas são manipuladas por meio das relações entre produção e consumo. • As pessoas aprendem a viver em organizações e não mais em comunidade. • É fortalecida a aparência de que a democracia é efetivamente o regime político dominante. Isto ocorre por meio dos partidos políticos e sindicatos, vistos como organizações burocráticas que criam a falsa sensação de participação democrática nas decisões políticas da sociedade. • A participação das pessoas na vida política perde sentido, sobretudo, porque as pessoas não participam de fato das decisões relevantes. • O comportamento passa a ser disciplinado e caracterizado como irresponsabilidade social, caso o comportamento padrão não seja seguido. • A filosofia de vida passa a ser o consumo privado e a organização na vida produtiva. As análises de Prestes Motta (1981, 1982, 1989, 1990) demonstram caráter marxista em relação à burocracia. Para chegar à afirmação sobre as características descritas anteriormente, ele entende a burocracia de três formas: como poder, como controle e como alienação. A burocracia como poder só pode ser compreendida “na medida em que analisamos a sua história” (PRESTES MOTTA, 1981, p. 12). O processo de burocratização no contexto do sistema de produção capitalista é um fenômeno universal e, como tal, é parte de um sistema antagônico próprio do sistema de capital. A burocracia é um instrumento da classe dominante que impõe sua ascendência sobre as demais classes. Essa dominação é feita pelas organizações (empresas, escola, partidos, sindicatos e outros) e pelo Estado, por meio do estabelecimento de um modo de vida específico, de acordo com os interesses do capital. 11 O “modo burocrático de pensar leva o homem ao vazio e à luta por pequenas posições na hierarquia social de prestígio e consumo.” (PRESTES MOTTA, 1981, p. 13) Levando-se em consideração a história, outro fato importante é que a da burocracia é a história do afastamento entre trabalho manual e trabalho intelectual, cuja separação entre os que pensam e os que executam estabelece uma relação hierárquica bem definida, adequada aos interesses do capital. Para tanto, as operações no trabalho são isoladas em parcelas, que, posteriormente, são aprimoradas, classificadas e agrupadas obedecendo à lógica da separação entre concepção e execução. A partir disso, cria-se uma nova lógica para o processo de qualificação dos trabalhadores, passando o trabalhador coletivo a desempenhar atividades sistematizadas, racionalizadas e previsíveis, cujo controle não detém mais. Uma nova cooperação é estabelecida de acordo com os interesses do capital. Tudo isso ocorre por causa da eficiência, responsável por aumentar a produção da mais-valia e, consequentemente, de proporcionar maior lucro. Concentra-se, ainda, o poder de decisão já que o novo agrupamento retira da maioria o poder de decisão por meio da expropriação do planejamento, da criatividade e do conhecimento amplo e integral. “Tudo isso se faz sob o comando das funções diretivas, que coordenam o processo. (...) É por essa razão que as técnicas de organização, que começam a ser necessárias com a divisão do trabalho, são técnicas capitalistas, que visam ao aumento da mais-valia. Racionalizar o trabalho significa aumentar a mais-valia relativa, isto é, a mais-valia que se obtém com a intensificação do trabalho”. (PRESTES MOTTA, 1981, p. 20-21). A unidade de poder da burocracia é a organização, representada principalmente pela empresa capitalista. A integração dessa unidade é feita pelo Estado, que desempenha papel fundamental para manter a concentração de poder. Assim, a empresa burocrática pressupõe o Estado burocrático responsável por manter a ordem e o controle social. O Estado aparece dessa forma como uma organização burocrática fundamental, consolidando uma elite política normalmente associada à classe dominante e criando, além disso, um corpo de funcionários hierarquicamente organizados para se ocuparem da administração. Procura-se manter, com essa organização, a ordem interna, além de proteger o Estado constituído das ameaças externas. Essa organização estatal burocrática utiliza-se do seu poder disciplinador, de políticas que promovam consenso social e, também, o monopólio da violência, visando manter a própria burocracia. O poder do Estado e da burocracia em geral está associado principalmente a uma forma específica de dominação: a racional-legal. Estabelece-se uma acreditação em relação às leis e à ordem legal, cujos principais instrumentos de controle, dentro de uma estrutura social específica, se constituem nas próprias regras, que necessitam de caráter impessoal para serem aceitas pela coletividade. Outra característica da burocracia é que ela é controle. De acordo com Prestes Motta (1981, p. 33), “as organizações burocráticas estão veiculadas à estrutura social. Elas reproduzem uma estrutura social característica de uma formação social. Esta reprodução significa uma recriação ampliada das condições de produção em uma dada sociedade, em um dado sistema econômico”. Como consequência disso, reproduzem-se, também, as classes sociais dessa mesma estrutura. Na organização do trabalho, a especialização das tarefas faz com que o trabalhador domine de forma insignificante o processo produtivo, permitindo ao capitalista controlar o produto final. Assim, o expediente de controle do produto passa a ser do capitalista e o trabalhador vende sua força de trabalho em troca de sua autonomia. A hierarquia burocrática nasce, por conseguinte, na fábrica, contexto em que “hierarquia e divisão parcelar do trabalho 12 se conjugam como molas propulsoras de uma forma de produção e reprodução do capital”. (PRESTES MOTTA, 1981, p. 37). A hierarquia exerce significativo papel na instituição da burocracia como controle, estabelecendo uma relação de vigilância e de disciplinamento essencial para garantir a submissão do trabalhador, além de outro elemento importante: o salário. “Como os salários não estão relacionados com o valor que produzem,mas sim com a reprodução de sua subsistência, estão garantidas as condições para a reprodução do capital” (PRESTES MOTTA, 1981, p. 38). O papel das organizações burocráticas não está associado apenas à produção de bens, capital, serviços e demais e, tampouco, à reprodução da mão-de-obra como força de trabalho ou garantia da sobrevivência do trabalhador por meio do salário. O papel das organizações burocráticas constitui-se em garantir o controle social por meio do estabelecimento das relações de poder, que sempre ocorrem entre desiguais. As organizações burocráticas servem de unidades de dominação, sendo, igualmente, responsáveis pela inculcação ideológica, pela adoção da submissão, pelos comportamentos controlados e socialmente aceitos, todos entendidos como naturais. Assim, a organização burocrática configura-se numa estrutura de controle e poder. Importa perceber “que, enquanto estruturas de dominação, as organizações burocráticas contêm em si um conflito latente, e para abafá-lo todas as instâncias são manipuladas. Isto quer dizer que há mecanismos econômicos, políticos, ideológicos e psicológicos utilizados para a neutralização do conflito”. (PRESTES MOTTA, 1981, p. 48) As organizações burocráticas, destarte, procuram garantir o controle social, o monitoramento dos comportamentos, as padronizações e o consenso. A terceira característica apresentada por Motta incide na burocracia como alienação. A dominação se apresenta como um “‘estado de coisas’ no qual as ações dos dominados aparecem como se estes houvessem adotado como seu o conteúdo da vontade manifesta do dominante”. (PRESTES MOTTA, 1981, p. 59) Marx apresenta a mais conhecida teorização sobre a alienação, que não parte da burocracia, mas do próprio trabalho. Segundo ele, o operário torna-se mais pobre na medida em que produz mais riqueza; torna-se mercadoria tão mais insignificante quanto mais quantidade produz. Dessa forma, na medida em que cria valor no mundo das coisas, o mundo dos homens aumenta em razão direta a sua depreciação. O trabalhador depara-se com o produto como um objeto estranho, com o qual não se identifica, uma vez que a apropriação do objeto é feita pelo capitalista. A alienação do produto implica, ainda, alienação em relação à natureza, por meio da qual ele garante os meios de sua subsistência física. A burocracia configura alienação, porque, além de estruturar, garante a separação entre produtor e produto. Intensifica, ainda, a separação entre os que pensam e os que executam, fator condicionante na relação de posse do produtor e do produto feito por ele. “A burocracia implica [também] que os indivíduos não se possam inserir na sociedade de acordo com suas necessidades e seu bem-estar pessoal. Daí a relação decisiva entre burocracia e alienação. Nessa ordem de idéias, a alienação é tão necessária quanto o for a burocracia, e não são poucos aqueles que nos afirmam que esta última é um aspecto imutável da tecnologia industrial”. (PRESTES MOTTA, 1981, p. 76). A burocracia garante a separação entre produtor e produto, da mesma forma como garante a separação entre homem e natureza por meio do afastamento físico, psíquico e social. Prestes Motta (1990, p. 133) apresenta o surgimento de uma nova classe no sistema de capital, os tecnoburocratas, os quais atendem aos interesses do capital, pois exercem 13 atribuições de gestores. Na tecnoburocracia, a tecnologia é incorporada na lógica da burocracia vigente, potencializando o controle das organizações sobre os indivíduos. Dessa forma, “o controle social concentra-se cada vez mais nas mãos da tecnoburocracia tanto pública, quanto privada.” (PRESTES MOTTA, 1990, p. 135). Nessa perspectiva, Prestes Motta considera que a burocracia exerce dominação pela sua superioridade técnica comparativamente a outras formas de racionalização do trabalho, tornando-se ainda tão mais forte quanto maior for a utilização da tecnologia como meio de controle. As análises de Prestes Motta relacionando a tecnoburocracia com o Estado, a escola e as organizações são dialéticas e demonstram de que forma a burocracia se fortalece na medida em que ela está subsumida à lógica do sistema de capital e de sua tendência a estabelecer formas específicas de burocracia. Diante do exposto sobre o entendimento de burocracia nas perspectivas de Tragtenberg e de Prestes Motta, faz-se necessário compreender o que há de comum e de diferente entre elas. Burocracia como Organização, Poder e Controle: Reflexões Provisórias Tragtenberg e Prestes Motta têm um público em comum, os universitários. Ambos escrevem para futuros administradores, educadores, sociólogos, enfim, para indivíduos que estão frequentando o ensino superior. Além deles, seus escritos também influenciam os estudiosos – intelectuais e pesquisadores – das áreas de humanidades e de ciências sociais. Entretanto, Tragtenberg tem maior penetração em áreas como o da educação e da ciência política, principalmente pela sua atuação direta como professor na área de educação e como militante político. Essa é uma característica que diferencia Tragtenberg e Prestes Motta. Por causa de sua participação ativa como intelectual que também fala para a classe trabalhadora em seus escritos jornalísticos, as obras de Tragtenberg apresentam conteúdos mais intensos de militância. Assim, ambos falam para a classe intelectual e acadêmica, mas Tragtenberg mostra maior penetratividade na classe trabalhadora. Dessa forma, o posicionamento político de Tragtenberg e Prestes Motta é de oposição entre capital e trabalho. A burocracia tem como finalidade política a instituição de um aparelho de dominação com base em uma racionalidade que separa os que pensam dos que executam, consequência elementar da divisão técnica e social do trabalho. O posicionamento político de Tragtenberg é mais visível porque seus escritos na coluna No Batente, do jornal Notícias Populares, tinham como objetivo formar o pensamento crítico entre os trabalhadores. Outro fator importante é que ambos podem ser considerados materialistas históricos, notadamente, quando suas análises se referem à burocracia. É bem provável que esse fato ocorra, porque Prestes Motta adota os estudos sobre a burocracia de Tragtenberg, como ponto de partida nas suas próprias análises sobre o fenômeno. A burocracia é vista como uma superestrutura originada das relações materiais e sociais que se estabelecem na produção. Dessa forma, burocracia configura-se uma forma específica de racionalização que tem como sustentação o que acontece no âmbito da produção, originariamente, na divisão técnica e do trabalho. Tragtenberg tenta entender como se dá a construção histórica da burocracia originária das influências intelectuais que Weber, a quem Tragtenberg via como pensador crítico da burocracia, sofreu. Por isto, faz críticas à tendência burocratizante da modernidade. Seguindo essa linha de pensamento, Prestes Motta procura estudar os efeitos da burocracia e como ela se consolida na modernidade sob a égide do sistema capitalista de produção. Apesar da convergência no método de análise em relação à burocracia, algumas diferenças epistemológicas podem ser encontradas nas obras dos autores. Tragtenberg publica 14 em livros e colunas de jornais sobre o tema, enquanto Prestes Motta limita-se a publicações em livros e alguns artigos científicos. Os livros sobre o tema em Tragtenberg são de natureza reflexiva (TRAGTENBERG, 1974, 1986, 1989, 2004), cuja apresentação formal segue a lógica da apresentação ensaística. Prestes Motta (1989, 1990, 2001), apesar de ser fiel à primazia das ideias e de fazer do conteúdo o elemento central dos seus trabalhos, adota, em partes das suas publicações, os livros didáticos. Cabe ressaltar que essa adoção de livros com formato didático não desqualifica a obra de Prestes Motta, estando apenas condicionada à maneira como o conteúdo é apresentado para os leitores, se comparado comoutras publicações sobre a mesma temática do próprio autor (PRESTES MOTTA, 1981, 1982; PRESTES MOTTA, BRESSER PEREIRA, 1980; PRESTES MOTTA, VASCONCELOS, 2004). No texto Teoria Geral da Administração (PRESTES MOTTA, VASCONCELOS, 2004), em coautoria com a professora Vasconcelos, percebe-se a apresentação do conteúdo sobre o estruturalismo – relacionado à burocracia – com um fundamento fenomenológico, fugindo das concepções adotadas em publicações mais antigas sobre o tema, em que Prestes Motta escreve sozinho. Ressalta-se que as diferenças de trajetórias profissionais dos autores é outro fator importante. Tragtenberg teve uma formação autodidata, diferentemente de Prestes Motta. As origens pessoais e o percurso formativo de ambos foram distintos. Todavia, a aproximação com a teoria marxista e com os escritores anarquistas é ponto de convergência que aproxima suas obras do ponto de vista político. Prestes Motta torna-se praticamente um seguidor das ideias de Tragtenberg, mas isso não o impede de ter uma obra diferenciada e original. Suas trajetórias são marcadas por problemas enfrentados dentro das grandes estruturas burocráticas da educação. Percebem que a tendência da burocratização afeta diretamente a ela e à produção de conhecimento. Por isso, apresentam resistência em acreditar na capacidade emancipadora da educação dentro de um sistema educacional burocraticamente estruturado. Ambos vivem o enfrentamento com o Regime Militar por bom tempo e são fortemente influenciados pelas ideias opositoras ao regime, entretanto, não caem na fascinação ingênua do discurso das elites políticas dos partidos comunistas. Percebem que tais regimes políticos não passavam de empulhação ideológica ou de um regime baseado no capitalismo de estado. Por esse motivo, veem, na burocracia desses regimes políticos, os mesmos pressupostos burocráticos instituídos nos países capitalistas. Em Tragtenberg, percebe-se um ecletismo em relação às preferências de leituras, que influencia diretamente na sua produção acadêmica. O anarquismo é percebido permanentemente nas suas obras e ao longo da sua trajetória acadêmica. Marx e Weber acompanham permanentemente seus escritos, seja de forma direta como objeto de análise ou indiretamente na estruturação dos fundamentos e das argumentações. Em Prestes Motta, percebe-se com clareza pelo menos três momentos distintos: primeiro, a influência de autores como Marx e Weber (PRESTES MOTTA, 1989, 1990, 2001); segundo, o interesse pelos estudos sobre cultura organizacional e cultura brasileira (PRESTES MOTTA; CALDAS, 1997) e o terceiro, a teoria da psicanálise (PRESTES MOTTA; FREITAS, 2002). A produção de artigos também acompanha essa lógica. Avaliando-se o desenvolvimento teórico em relação à burocracia, é possível perceber que o conceito, mesmo na segunda e na terceira fase e apesar de não ser abordado como objeto central, está presente tangencialmente nos escritos e em muitos deles como pressuposto elementar de estruturação social. Tanto para Tragtenberg como para Prestes Motta, a burocracia precisa ser entendida em seu espaço e tempo histórico. Essa realidade pode ser percebida em diversas civilizações sob formas variadas de economias. Assim, as formas específicas de burocracia só podem ser 15 entendidas em um contexto econômico e político indissociável. Burocracia é mais do que um termo pontual ou um fenômeno específico do sistema de capital. É um processo de racionalização peculiar e que se apresenta em todas as épocas históricas. Por isso, é necessário compreender sua dimensão semântica, compreender esse processo como consequência elementar do processo civilizatório. Sua compreensão requer dissociá-la da sua imersão ideológica e cultural, apesar de esses elementos serem também constitutivos do próprio processo de racionalização de uma época histórica. Tragtenberg e Prestes Motta concordam que as principais características da burocracia são impessoalidade, formalismo e profissionalismo, apesar de as conceberem como efeito de um processo de racionalização ocorrido na sociedade, especialmente originado da divisão técnica do trabalho. Assim, avaliando-se o conceito ao longo das suas obras, a burocracia apresenta-se como organização, poder e controle. Organização, porque está baseada em uma racionalidade formalizadora de natureza instrumental estruturada na forma como o trabalho se organiza. A divisão técnica e social do trabalho estabelece a forma como as outras dimensões da vida influenciam o cotidiano dos indivíduos. A burocracia é organização, porque está baseada em uma ordem específica que precisa ser compartilhada e reproduzida para garantir a existência da própria civilização. Assim, da organização estabelecida na forma como se estrutura a divisão técnica do trabalho para a subordinação da existência dos homens à burocracia do Estado, como a grande organização que assegura a continuidade do processo civilizatório na modernidade, a burocracia é vista não como produto, mas como processo de racionalização. Esse entendimento é adotado tanto por Tragtenberg como por Prestes Motta. Burocracia é poder. Sua condição de estabelecer relações de poder, seja formatando as relações sociais ou instituindo a informalidade em favor de elites que detêm o aparelho burocrático, possibilita a reprodução dos indivíduos nas suas posições sociais ou das organizações na lógica de dominação política e econômica. A burocracia, como racionalidade instituída e mediadora de relações políticas e econômicas, apresenta-se como espaço das lutas sociais. Entretanto, esse espaço beneficia geralmente aqueles que detêm o domínio desse espaço e que têm a posse dos meios de criação e instituição das racionalidades. Sendo o poder um atributo coletivo, de grupos organizados, a burocracia torna-se instrumento de dominação e de controle social. A superioridade técnica da burocracia moderna possibilita o estabelecimento do poder. A adoção da técnica e de seu permanente aprimoramento faz da burocracia um sistema de dominação baseado na reprodução da dominação da natureza, inclusive do homem em relação ao próprio homem. As diferenças entre Tragtenberg e Prestes Motta é que o primeiro deu foco diferenciado para o poder do Estado, enquanto o segundo analisa a burocracia como poder emanado das organizações. Isso não implica afirmar que ambos não tenham feito a relação dialética entre poder e burocracia com base na relação entre organizações e Estado. Burocracia significa controle, cujas formas estão presentes nas organizações produtivas, mas, sobretudo no Estado. Este é a organização em forma de máquina que garante o controle político-social, influenciando diretamente na reprodução das demais organizações na sociedade. A burocracia é capaz de estabelecer relações de controle, seja por vias objetivas ou pelo domínio intersubjetivo. A tecnologia dentro da racionalidade burocrática, as normas, as regras formais e os procedimentos são exemplos de meios instituidores de controle. Somada à ideologia, a burocracia é capaz de criar costumes, normas informais, ideias e imaginários tornando-se responsável pelo controle intersubjetivo. Em Prestes Motta, são desenvolvidos raciocínios de como o salário, o disciplinamento dos trabalhadores no ambiente de trabalho e a cooptação ideológica são instituidores de controle no cotidiano dos indivíduos. Por isso, a alienação se confirma, porque o indivíduo internaliza o modo burocrático de 16 pensar. Em Prestes Motta, a relação entre burocracia e alienação é ressaltada. A inculcação ideológica, a submissão, os comportamentos padrões e o disciplinamento não são decorrentes apenas da forma objetiva como a burocracia se institui na organização. A burocracia investe também no controle intersubjetivo e esse movimento é essencial para que o controle possa ser efetivo. Nos escritos de Tragtenberg e de Prestes Motta é possível perceber nuances em relação à burocracia como organização,poder e controle. Em cada um deles, a burocracia das organizações privadas ou públicas, ou ainda no âmbito do Estado, pode ser percebida como resultado de uma forma específica da organização da produção da vida dos sujeitos. Ergue-se um grande aparelho com todas as suas racionalidades fundamentais capaz de estabelecer organização, poder e controle sobre as práticas dos indivíduos ou sobre os grupos que participam das esferas organizacionais. Com base neste estudo teórico, portanto, foi possível identificar que, em ambos os autores, a burocracia apresenta-se nas três formas citadas. Referências ACCIOLY, Doris. Tema e variações em Maurício Tragtenberg. In: ACCIOLY E SILVA, Doris; MARRACH, Sonia. Maurício Tragtenberg: uma vida para as Ciências Humanas. São Paulo: Editora UNESP, 2001. LAZARTE, Rolando. Max Weber: ciência e valores. Rio de Janeiro: Cortez, 1996. LUKÁCS, György. El asalto a la razón: la trayectoria del irracionalismo desde Schelling hasta Hitler. 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