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<p>Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)</p><p>(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)</p><p>Schõkel, Luís Alonso</p><p>Salmos I : salmos 1-72 / Luís Alonso Schõkel, Cecília Carniti; tradução, João Rezende Gosta;</p><p>revisão H. Dalbosco e M. Nascimento - São Paulo: Paulus, 1996. - (Coleção grande comentário bíblico)</p><p>ISBN 85-349-0155-4</p><p>1. Bíblia. A.T. Salmos - Crítica e interpretação 2. Bíblia. A.T. Salmos - Introduções I. Carniti,</p><p>Cecília. II. Costa, João Rezende. III. Título. IV. Série : grande Comentário bíblico.</p><p>94-0586 CDD 223.206</p><p>índices para catálogo sistemático:</p><p>1. Salmos : Interpretação e crítica 223.206</p><p>2. Salmos : Introdução 223.206</p><p>GRANDE COMENTÁRIO BÍBLICO</p><p>• O Apocalipse de São João, E. Corsini</p><p>• Êxodo, G. V. Pixley</p><p>• Profetas I, L. A. Schõkel e J. L. Sicre Diaz</p><p>• Profetas II, L. A. Schõkel e J. L. Sicre Diaz</p><p>• O Evangelho de São João, J. Mateos e J. Barreto</p><p>• Carta aos Romanos, C. E. B. Cranfield</p><p>• O Evangelha.de São Marcos, Ched Myers</p><p>• Os salmos, Artur Weiser</p><p>• Jó, Samuel Terrien</p><p>• Sabedoria, José Vílchez Líndez</p><p>f • Salmos I (Salmos 1-72), L. A. Schõkel e C. Carniti</p><p>LUÍS ALONSO SCHÖKEL - CECÍLIA CARNITI</p><p>SALMOS</p><p>PAULUS</p><p>Título original</p><p>SALMOS / (Sa/mos 1-72)</p><p>© Editorial Verbo Divino, Estella (Navarra), Espanha 1992</p><p>Tradução</p><p>João Rezende Costa</p><p>Revisão</p><p>H. Daibosco e M. Nascimento</p><p>© PAU LU S-19 96</p><p>Rua Francisco Cruz, 229</p><p>04117-091 São Paulo (Brasil)</p><p>Tel.:(011)575-7362</p><p>Fax: (011)570-3627</p><p>ISBN 85-349-0155-4</p><p>ISBN 84-7151-667-5 (ed. original)</p><p>PRÓLOGO</p><p>Para efeitos de catálogo, este livro vem depois dos comentários a</p><p>Profetas I e II* (em colaboração com J. L. Sicre), Job (com o mesmo co­</p><p>laborador), Provérbios (com a colaboração de J. Vilchez) e Sabedoria* de J.</p><p>Vilchez). Para efeito de biografia, este livro chega ao final de longa carreira</p><p>dedicada ao estudo do Antigo Testamento, acompanhado de oração.</p><p>Minha disciplina principal durante decênios foi a teologia do Antigo</p><p>Testamento. E disciplina que subordina a exegese ao estudo temático,</p><p>favorece conhecimento global do Antigo Testamento, impõe o exercício de</p><p>estender pontes coligantes entre textos afastados e díspares da literatura</p><p>bíblica. E como estender pontes imaginárias entre astros de uma constela­</p><p>ção. Embora as peças bíblicas não componham constelações imutáveis, mas</p><p>se unam e se separem para formar novas figuras. Perseguir essas combi­</p><p>nações é uma das aventuras mais sugestivas de nossa disciplina. Isso</p><p>explica por que, limitando o diálogo com colegas atuais, prefiro fazer</p><p>dialogar os salmos com outros textos bíblicos.</p><p>Naturalmente, o professor inicia-se e amadurece numa tradição viva,</p><p>e a partir dela, às vezes contra ela, vive e atua. Contudo, é impossível e</p><p>ocioso colar a cada idéia ou proposta um rótulo ou marca de origem. Como</p><p>represa terminal, este livro detém águas de muitos rios e afluentes sem</p><p>traçar o mapa pormenorizado de cada corrente de água. O leitor que desejar</p><p>adentrar-se pelos desfiladeiros, às vezes labirintos, das opiniões dispõe na</p><p>Introdução de bibliografia articulada e, depois, de bibliografia particular</p><p>para cada salmo. Para compô-la, vali-me dos repertórios gerais e especiais</p><p>de uso comum. Vali-me, ademais, de forma dominante, da abundante</p><p>bibliografia que me oferece em seu monumental comentário G. Ravasi (a</p><p>quem agradeço por me ter poupado muitíssimo trabalho).</p><p>Trinta anos de estudo e ensino formam só uma vertente deste comentá­</p><p>rio; a outra vertente formam-na mais de trinta anos de rezar e meditar os</p><p>salmos. Se os salmos são, por nascimento, textos para rezar, penso que a</p><p>oração é instrumento privilegiado para penetrar em seu sentido profundo.</p><p>Sim, o cristão ora sempre “por nosso Senhor Jesus Cristo”, pois não há outro</p><p>’‘Publicados no Brasil por PAULUS Editora.</p><p>6 Prólogo</p><p>mediador na terra. A situação cristã, a prática da oração, orientam a</p><p>compreensão dos salmos. Contudo, de ordinário, reservo a “apropriação</p><p>cristã” a um capítulo final de cada salmo.</p><p>Este livro chega também depois de outros dois dedicados aos Salmos.</p><p>O primeiro intitula-se Salmosy Cânticos, e vai pela sétima edição. Contém</p><p>a tradução com notas breves para a oração. Essa tradução, bem revisada,</p><p>incorporou-se à Nueua Bíblia Espanola. Agora submeti a tradução dos</p><p>salmos a nova revisão, no afa de emendar interpretações, ater-me mais ao</p><p>original, procurar a expressão mais simples e eficaz.</p><p>O segundo livro intitula-se Treinta Salmos: Poesia y oración. Nele</p><p>ensaiei uma aproximação literária, estilística, como meio para compreen­</p><p>der o sentido. Esses comentários foram treinamento e antecipação. Agora</p><p>aproveito a experiência sobretudo na “explicação global” de cada salmo,</p><p>acrescentando atenção maior aos pormenores.</p><p>Como outros volumes da série, também este se vale da colaboração.</p><p>Neste caso foi a professora Cecília Carniti (doutora em línguas semíticas pela</p><p>Universidade Católica de Milão e em Sagrada Escritura pelo Instituto</p><p>Bíblico de Roma, e vários anos professora de hebraico e aramaico no mesmo</p><p>Instituto). Tocou a ela a tarefa de tecer um comentário filológico e lingüístico</p><p>a cada salmo, para prender em sua rede volumes e matizes. Selecionou como</p><p>fios uns quantos autores, representantes de várias nações e línguas, e daí fez</p><p>excursões a outros autores, segundo os casos. Eu revisei o trabalho, simpli­</p><p>fiquei-o às vezes (acertadamente?) e até levei ao extremo o estilo telegramático</p><p>da informação. Essas páginas mais técnicas são para a consulta do experto,</p><p>não para a simples leitura.</p><p>Cada salmo, dentro de seu contexto cultural amplo e de seu gênero</p><p>particular, é um indivíduo no qual uma experiência religiosa se faz palavra</p><p>poética para ser compartida. O estudo do perfil unitário de cada salmo é o</p><p>mais importante para compreendê-lo e é talvez a contribuição mais pessoal</p><p>do presente comentário. O comentário, versículo por versículo, pôde enri­</p><p>quecer com muitos pormenores e relações a compreensão global. O comen­</p><p>tário já pôde valer-se de duas obras recentes: Diccionário Bíblico Hebreo</p><p>Espanol (trad. bras. em preparação por Paulus Editora) e o Manual de</p><p>poética hebrea.</p><p>O comentário à Sabedoria de Vilchez, este primeiro volume dos</p><p>Salmos e outros quatro volumes em preparação dão testemunho de que o</p><p>projeto de comentário ao Antigo Testamento segue seu curso.</p><p>Roma, 21 de junho de 1991.</p><p>Siglas e Abreviaturas 7</p><p>SIGLAS E ABREVIATURAS</p><p>Ordinariamente respeito as siglas e abreviaturas comuns em nossa</p><p>disciplina. Em particular remeto-me às abreviaturas do Elenchus</p><p>Bibliograficus Biblicus (de Nober e North) e ao Old Testament Abstracts.</p><p>Algumas infrações das citadas normas devem-se ao desejo de tornar mais</p><p>facilmente reconhecível o título da revista ao usuário conhecedor da</p><p>matéria. Acrescento a nova sigla DBHE = Diccionário Bíblico Hebreo</p><p>Espanol. FS significa Festschrift, ou seja, Homenagem, Miscelanêa.</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>HISTORIADA INTERPRETAÇÃO DOS SALMOS</p><p>E TAREFAS PENDENTES</p><p>PERÍODO DE FORMAÇÃO</p><p>I</p><p>Nota prévia</p><p>Nos comentários aos salmos costuma-se fazer anteceder uma introdu­</p><p>ção sobre os problemas gerais do saltério. Essa introdução pode crescer até</p><p>converter-se em obra autônoma. Alguns comentadores terminam a intro­</p><p>dução com breve referência à história da interpretação; muito breve, se</p><p>comparada com a informação sobre problemas e discussões atuais.</p><p>Inverterei a ordem e as dimensões. O meu comentário tem algumas</p><p>contribuições peculiares, e interessa-me inseri-lo firmemente numa gran­</p><p>de tradição exegética. Por isso darei uma visão panorâmica onde acompa­</p><p>nharei as principais etapas da interpretação, assinalando os problemas</p><p>dominantes, os métodos aplicados, alguns nomes mais significativos.</p><p>Começarei pela época do Antigo Testamento, quando o saltério estava se</p><p>formando. Deter-me-ei no período florescente dos Padres. Na Idade Média,</p><p>assinalarei três movimentos: a lectio monastica, a lectio scholastica e a</p><p>revolução crítica dos mestres judeus. O ensinamento desses últimos pene­</p><p>tra e se estende através de Nicolau de Lira e fecunda um novo</p><p>congela-se o sentimento. E como se uma</p><p>grande pintura, rica de formas e cores, viesse a se transformar num</p><p>quadriculado branco e preto.</p><p>Quanto às “quaestiones”, vejamos um exemplo de Ricardo de S. Vítor.</p><p>A Vulgata do Sl 2,4 diz “qui habitat in coelis”. Uma análise filológica diria</p><p>que o hebraico yshb significa aí “estar sentado, entronizado, governar”; a</p><p>análise literária explicaria que “céu” é representação simbólica comum a</p><p>muitas religiões. Ricardo se propõe um problema, uma “quaestio”:</p><p>Se o Senhor está em todas as partes, como se diz que está no céu e não em</p><p>todas as partes? E se está só no céu, como se crê que está em todas as partes?</p><p>Em seguida, o escolástico busca uma resposta apelando ao conceito de ser</p><p>visto, mostrar-se (pouco convincente).</p><p>Em conjunto, o método escolástico não enriqueceu a compreensão dos</p><p>salmos, e, em meados do séc. XIV, provocou reação salutar. Para compreendê-</p><p>la, devemos aludir a outra tradição importante, decisiva.</p><p>À guisa de complemento, direi algo acerca de títulos latinos e capítulos.</p><p>Introduzo-os aqui, porque a composição de muitos e a difusão de todos</p><p>36 História da interpretação</p><p>pertencem a essa segunda época. Os “tituli psalmorum” servem para</p><p>orientar a oração e facilitam a interpretação cristã. Tendem a amplificar,</p><p>a explicitar. Os capítulos são resumos articulados, oferecem o argumento</p><p>do salmo por secções: “primeiro... segundo... terceiro”. Estão mais próximo</p><p>do estudo que da oração.13</p><p>c) Os mestres judeus</p><p>Que forças misteriosas, que condições ambientais fazem com que um</p><p>dia da matéria salte a chispa da vida? Que correntes espirituais, que ventos</p><p>invisíveis empurram e provocam a conjunção onde algo de novo começa?</p><p>Enquanto a idade medieval cristã discorre tranqüilamente e se aproxima</p><p>do sobressalto cultural da escolástica, entre os comentadores judeus ocorre</p><p>autêntica revolução que se coagula no triumvirato Rashi (1040-1105),</p><p>Abraão Ibn Ezra (1089-1164) e Davi Qimchi (1160-1235).</p><p>E preciso remontar mais de um século para entender essa revolução</p><p>exegética. A exegese judaica dos salmos, como de resto da Bíblia, corre pelo</p><p>canal sisudo dos targuns e pelo largo e acolhedor dos midraxes (tradução</p><p>parafrástica e comentário espiritual). Na primeira metade do séc. X,</p><p>aproveitando resultados da ciência grega clássica, transmitidos pelos</p><p>árabes, um rabino genial põe no Egito os alicerces de um estudo científico</p><p>e filológico da Bíblia hebraica. E o gaão (= mestre) Saadias al-Fayyumi (de</p><p>Faium). Os seus estudos se propagam pelo norte da África, passam para o</p><p>sul da Espanha e se encontram numa escola de gramáticos e retóricos</p><p>sensacionais. Córdova e Lucena são os centros do movimento intelectual.</p><p>Cito os dois rivais Menahen Ibn Sarug e Dunas Ben Labrat, alguns</p><p>discípulos menores e o mestre inconteste Abulwalid = Ibn Yanah, perito em</p><p>gramática sem se descuidar da retórica. Na segunda emerge Moisés Ibn</p><p>Ezra. Com esses antecedentes, em um século, floresce e alcança grande</p><p>altura a exegese literal, filológica, do texto bíblico. Os judeus a chamam</p><p>peshat para distingui-la do derash.</p><p>Não se nos conservou o comentário ao salmos do cordovês Moisés Ibn</p><p>Gekatilla nem o do toledano Judas Ibn Balaam. Conhecemo-los por citações</p><p>ocasionais coligidas pelo grande comentador Abrahan Ibn Ezra. Com esse</p><p>triunfa a exegese literal sobre a midráxica. O mestre viaja e reside por</p><p>alguns anos em Roma e em diversos lugares na França. Em seus escritos,</p><p>13 P. Salmon, Les tituli psalmorum des manuscrits latins (Collectanea Biblica Latina 12; Roma</p><p>1959); H. Boese, Capitula Psalmorum: Revue Benédicinne 91 (1981) 131-163. Para informação sobre</p><p>nomes desta época e a seguintes: H. Hurter, Nomenclator litterarius theologiae catholicae (Innsbruck</p><p>1903-13). Também as obras de conjunto, como a Cambridge History ofthe Bible e La Bible de tous les</p><p>temps, em seus volumes correspondentes. E a série exaustiva de P. Stegmüller, Repertorium Biblicum</p><p>Medii Aevi, continuada por Reinhardt.</p><p>Desde Cassiodoro até Nicolau de Lira 37</p><p>opõe-se à excessiva e impertinente erudição dos gaões, ao descuido da</p><p>tradição oral dos caraítas, à alegoria e ao derash. Sua influência se estende</p><p>a judeus e cristãos. O seu comentário será duradouro fermento.</p><p>Algo antes e através dos mestres Sarug e Labrat, Rabi Salomão Ben</p><p>Isaac = Rashi descobre a exegese literal ou peshat e procura harmonizar</p><p>com ela alguns elementos tradicionais do midrash. O seu comentário ao</p><p>Pentateuco é o mais importante dos judaicos medievais, e o seu comentário</p><p>aos salmos competiu em infuência com o de Ibn Ezra.</p><p>Em Narbona atua, um século mais tarde, Davi Qimchi. O seu comentário</p><p>distingue-se pela precisão filológica, pela busca do sentido óbvio e simples. E</p><p>estranho que tivesse que buscar o óbvio. Ainda que tenha respondido</p><p>polemicamente à polêmica dos cristãos, a influência do seu comentário</p><p>estendeu-se a todos. Há quem pense que o seu comentário foi o mais influente.</p><p>Aproveito esse espaço para acrescentar alguns dados sobre comentá­</p><p>rios judaicos aos salmos.</p><p>Saadia (892-942) traduziu ao árabe, escreveu uma introdução e anotou</p><p>os salmos. Jafet Ibn Ali, caraíta de Bosra (segunda metade do séc. IX [?]):</p><p>conservam-se fragmentos. Josef Ibn Abitur de Córdova (séc. XI [?]): um</p><p>comentário midráxico.</p><p>Depois do triunfo da exegese literal, voltou a impor-se a midráxica,</p><p>sem cancelar nem anular a influência da precedente. Cito outros nomes de</p><p>comentadores, certos ou prováveis, dos salmos:</p><p>Menahem Ben Salomo Meiri (Perpignan 1249-1306).</p><p>Immanuel Ben Salomo (Roma 1270-1330): poeta, cultiva o sentido</p><p>literal.</p><p>Semaria Ikriti (= Cretense) (entre os séc. XIII e XIV, Nápoles).</p><p>Josef Caspi (t 1340).</p><p>Josef Ibn Chayun, rabino português (cerca de 1450-1480).</p><p>Joel Ibn Shoeb (Tudela 1485).</p><p>Josef Yabetz (Salônica, finais do séc. XV); publicado por um neto.</p><p>Em fins do séc. XV, imprime-se pela primeira vez, em Nápoles, o</p><p>comentário de Qimchi; nos inícios do século seguinte imprimem-se em</p><p>Veneza e outros lugares alguns comentários judaicos clássicos: Nápoles</p><p>desde 1487, Veneza desde 1525. São famosas as coleções de Athias (1549)</p><p>e de Fagius (1542). Em 1712, Bashuysen publica uma coleção importante</p><p>em Amsterdam.</p><p>Encerro essa exposição com uma lista de comentadores certos e</p><p>prováveis até os fins do séc. XVII:</p><p>Leão Hebreu (Abravanel) (primeira metade do séc. XVI).</p><p>Meir Arama (1512).</p><p>Ibn Yahya (Bolonha 1494-1534).</p><p>38 História da interpretação</p><p>Elias Levita (1469-1549).</p><p>Moisés Alsech (Veneza 1605).</p><p>Davi Melo (Frankfurt 1620 = versão rítmica).</p><p>Jacobo Lombroso (Veneza 1639 [?]).</p><p>Elias Aboab (Amsterdam 1644 [?]).</p><p>Moisés de Mercado (Amsterdam 1653 [?]).</p><p>Davi ben Uri (Amsterdam 1681 [?]).</p><p>Com influências da Cabala assinalam-se um comentário publicado em</p><p>Saionetta em 1556 e outro de Israel Ben Mose de 1592. Esses dois e os que</p><p>indiquei com interrogação não consegui controlá-los em outros repertórios;</p><p>devo-os ao erudito e nem sempre muito crítico Jakob Ecker, Porta Sion</p><p>(1903).14</p><p>7. Desde Nicolau de Lira até a era da crítica</p><p>a) Século XIV</p><p>E de repente, aí está Nicolau de Lira. Talvez não de repente, pois o seu</p><p>livro tem título curioso: Postillse. Ou seja,post üla, o que vem depois daquilo.</p><p>E o que é “aquilo”? O texto bíblico que comenta, que “apostila”. Mas para o</p><p>momento vamos torcer o sentido rumo a outros üla. Lira vem depois de</p><p>aqueles, depois da lição monástica e da lição escolástica. A primeira tinha</p><p>subtraído realismo e corporeidade aos salmos a força de espiritualizar; a segunda,</p><p>a força de abstrair e conceitualizar. A primeira conservava pelo menos a</p><p>capacidade de escutar símbolos, a tensão para vibrar emotivamente por</p><p>ressonância. A segunda era mais árida e fria. Nas duas, os salmos não chei­</p><p>ravam a húmus molhado do terreno nativo. E depois, vem Nicolau de Lira.</p><p>Lira depende dos comentadores judeus, cujas teorias e métodos trans­</p><p>mite aos cristãos de modo pessoal e com contribuições próprias. Pode</p><p>mediar tranqüilamente, porque é cristão: filho fiel de são Francisco, devoto</p><p>discípulo</p><p>de Boaventura, formado na escolástica (comenta as Sentenças de</p><p>Lombardo). Chamaram-no doctor planus e doctor utilis: sua simplicidade</p><p>evita que tropecemos e não é pobreza, sua utilidade é múltipla. E como se</p><p>suas apostilas retirassem escombros acumulados sobre o texto ou tirassem</p><p>escamas dos olhos dos leitores. Com ele começa e se impõe novo modo de ler</p><p>14 Aqui me detenho para voltar à exegese cristã no século XIV. W. Bacher, Die Bibelexegese, em J.</p><p>Winter e A. Wünsche, Geschichte der rabbinischen Literatur wãhrend des Mittelalters und íhrer</p><p>Nachblüte in der neueren Zeit (Hildesheim 1965); S. Lehmann, Saadia al-Fajum’s arabische</p><p>Psalmenilbersetzung und Kommentar (Berlim 1902); Yafet Ben Heli de Bassora, Liber Psalmorum</p><p>DavidRegis et Profhetae, a R. Y. karaita auctore decimi saeculi arabice concinnatum (ed. J.J.L. Bargés,</p><p>Paris 1861).</p><p>Desde Nicolau de Lira até a era da crítica 39</p><p>e entender o Antigo Testamento. A partir dele é raro o comentador que se</p><p>sinta dispensado de tratar primeiro do sentido literal do texto. Com as</p><p>1.100 adições críticas do judeu convertido Paulo de Burgos e as 400</p><p>"réplicas” críticas do franciscano Matias Dõring, as Postillae ganharam</p><p>inclusive aceitação. Da segunda metade do séc. XIV conservam-se mais de</p><p>700 exemplares inteiros ou parciais; imprimiu-se pela primeira vez em</p><p>1471; durante o séc. XVI, alcançou mais de cento e quarenta edições.</p><p>Durante mais de três séculos é a obra bíblica mais usada. Nos início do séc.</p><p>XVI surgiram outras obras originais de gramática e lexicografia, e a</p><p>influência de Lira deixou de ser tão exclusiva.</p><p>b) Século XV</p><p>Do séc. XV conto oito autores no Nomenclator de Hurter:</p><p>Michael Ayguanus (Angrianus)</p><p>João de Torquemada (1388-1468)</p><p>Henrique de Loe (f 1481)</p><p>João de Waldheim (fl482)</p><p>Jacobo Pérez de Valência (f 1490)</p><p>Tomás de Oppenheim (f 1493)</p><p>Tomás Schifaldis (| 1495).</p><p>O comentário de Ayguanus, cuja datação é conjectural, se bem que</p><p>tenha merecido juízos opostos da crítica posterior, continuou sendo impres­</p><p>so muitas vezes sem o nome do autor. Apresenta sobriamente o sentido</p><p>literal.</p><p>A obra de Torquemada (não confundi-lo com o seu sobrinho, o</p><p>inquisidor) alcançou bom número de edições (1470, 1474, 1476, 1485,</p><p>1513, 1524, etc.) e cumpre sobretudo o ofício de transmitir, pois o</p><p>comentário é em grande parte cópia ou resumo de Jerônimo, Agostinho,</p><p>Cassiodoro e Remígio. Se recordarmos que Jerônimo é tradutor e adaptador</p><p>de Orígenes e que Cassiodoro é o grande coletor do séc. VI, vemos que</p><p>Torquemada repete a distância a função de cadeia de transmissão.</p><p>O mais importante desse século é em muito Pérez de Valência. Foi</p><p>publicado em Valência em 1484 e 1493, em Paris em 1509 e 1518, em Lião</p><p>em 1499 e 1514, em Veneza em 1526 e 1586 etc. Para o sentido literal, segue</p><p>Lira; apresenta os quatro sentidos tradicionais (histórico, alegórico,</p><p>tropológico e anagógico) com grande riqueza de pensamento e clareza de</p><p>exposição, embora um tanto difuso. Não é exagerado dizer que com Va­</p><p>lência começa o grande século do esplendor exegético. Se os números não</p><p>se interpusessem, este ano de 1490 seria posto por nós na próxima secção.</p><p>Aceitando a soberania dos números, direi que é vigília solene de um século</p><p>solene.</p><p>40 História da interpretação</p><p>c) Séculos XVI e XVII: Católicos</p><p>Durante o séc. XVI se consuma a divisão da cristandade ocidental nos</p><p>dois movimentos, opostos e polêmicos, que costumamos chamar de Refor­</p><p>ma e Contra-reforma. Não esqueçamos aquilo que alguns autores chama­</p><p>ram Pré-reforma, ou seja, um intenso movimento espiritual que se faz</p><p>sentir em toda a Europa até fins do séc. XV e começos do séc. XVI. No campo</p><p>bíblico a coisa é clara. O estudo das línguas bíblicas, os trabalhos sobre texto</p><p>e traduções, a fundação da Universidade de Alcalá, o monumento sur­</p><p>preendente que é a Poliglota de Alcalá são alguns sinais conspícuos.</p><p>O movimento é tão vigoroso e unitário que a divisão entre católicos e</p><p>protestantes é menos decisiva em exegese. Se não se toca uma questão</p><p>teológica controvertida, a exegese católica e protestante de um salmo não</p><p>são tão diversas. Lutero é tão devedor de Lira e tão cristológico como</p><p>qualquer dos exegetas católicos. Talvez tenha sido uma bênção o nascimen­</p><p>to e desenvolvimento de uma teologia especificamente de controvérsia, pois</p><p>deixou mais livre de polêmicas a exegese, ainda que não totalmente.</p><p>Está por fazer, e seria interessante e útil, o trabalho comparativo de</p><p>exegetas católicos e protestantes do séc. XVI e metade do séc. XVII. A exegese</p><p>dos salmos poderia ser bom terreno de experimentação, porque os salmos</p><p>continuaram sendo rezados em ambas as partes da cristandade dividida, e</p><p>não cabe dúvidas de que muitas orações assim pronunciadas, com palavras</p><p>inspiradas, tenham sido acolhidas por Deus sem distinção de pessoas.</p><p>Se a alta Idade Média esteve dominada por monges e bispos, a etapa</p><p>presente, assim como a precedente imediata, acha-se dominada por profes­</p><p>sores universitários. O caráter universitário da exegese não anula nem</p><p>atenua a preocupação pastoral e espiritual; só se lhe imprime um selo novo,</p><p>mais reflexo e mais culto. A maioria dos chefes espirituais da época se</p><p>formaram em universidades e colégios. Pregadores como Alonso de Cabrera,</p><p>mestres espirituais como João dos Anjos, poetas como Lope de Vega e João</p><p>da Cruz formaram-se em salas universitárias e inspiraram-se em livros de</p><p>exegese universitária.</p><p>Embora o método não tenha mudado radicalmente, melhoraram</p><p>muitíssimo os instrumentos de trabalho e, pela invenção da imprensa, são</p><p>muito mais acessíveis os dicionários, as gramáticas, os textos em várias</p><p>línguas, novas traduções latinas do hebraico e do grego, enciclopédias sobre</p><p>antiguidades bíblicas, concordâncias. A imprensa aproxima e propaga</p><p>obras antes quase inacessíveis, difunde rapidamente as novas por toda a</p><p>Europa e o novo mundo na língua franca que é o latim.</p><p>Os impressores daquela época, admiráveis na arte de compor e</p><p>distribuir os textos em colunas e notas marginais, não merecem a mesma</p><p>Desde Nicolau de Lira até a era da Crítica 41</p><p>admiração em sua capacidade de reproduzir textos hebraicos e gregos. Com</p><p>muitíssima freqüência, com reincidência alarmante, confundem as letras</p><p>de alfabetos não latinos. Se em vez de cilícios e disciplinas tivessem revisto</p><p>pacientemente as provas...</p><p>Continua-se comentando “per sensus”, os quatro tradicionais ou ou­</p><p>tros equivalentes, e menos “per quaestiones”. A escolástica continua</p><p>presente e não desaparecem os alegorismos conceituais:</p><p>Assim, Belarmino comenta o cedro do Líbano do Sl 92,13: “Multiplicados</p><p>os ramos de boas obras, assegurados por raízes tenazes de perseverança, não</p><p>os abaterá vento algum de tentações. Finalmente, serão úteis para decorar,</p><p>como tábuas de cedro, o teto de artesãos do Rei dos reis na Jerusalém</p><p>celeste”.</p><p>Nesse contexto global, produz-se florescimento exegético, dentro do</p><p>qual devemos contemplar a exegese dos salmos. Raro é o comentador que</p><p>não dê atenção de alguma maneira ao sentido literal, apoiado no texto</p><p>hebraico. Mesmo depois do decreto tridentino sobre a Vulgata, o exegeta</p><p>consulta, se pode, o original hebraico e expõe o seu sentido. Alguns autores</p><p>empenham-se em concordar e harmonizar o latim com o hebraico, inclusive</p><p>valendo-se de circunvoluções engenhosas. Não faltam os que defendem a</p><p>superioridade do texto latino (goza de enorme favor são Jerônimo, como o</p><p>atestam também pintores e escultores).</p><p>Graças à penetração poderosa, à invasão pacífica do estudo do sentido</p><p>literal, um princípio, antes mais bem anunciado do que praticado, pode</p><p>introduzir uma síntese nova: “historia est fundamentum”. Quer dizer que</p><p>o sentido literal é a base do espiritual. De mais a mais, as “quaestiones”</p><p>soem resolver-se apelando ao mesmo sentido literal, coisa que já preconi­</p><p>zava santo Tomás.</p><p>Dou primeiro uma lista de comentários, com a data de publicação,</p><p>embora não tenha podido controlá-los todos:</p><p>•J. Pelbart 1513 M. A. Flamínio 1548</p><p>J. Pocken (Potken) 1513 A. Nefchamp 1548</p><p>F. Prato 1524 P. Wirth 1558</p><p>0 . Luscinius (Nachtigall) 1524 J. Oliveira 1558</p><p>C. Pulsictus 1528 J. Verlenius 1558</p><p>T. V. Caietanus 1530 P. Bechigni 1559</p><p>F. dei Pozo 1534 M. Bredenbach 1560</p><p>A. Justiniani 1536 J. a Pasturaz 1560</p><p>R. Snoyus 1536 P. Car anus 1562</p><p>J. van Campen 1538 J. Price 1565</p><p>Fr. Vatablus 1547 C. Jansenius Gand: 1568</p><p>J. Gagneus 1547 P. Parmense 1569</p><p>A. Steuchus 1548 L. Tiraboschi 1572</p><p>42 História da interpretação</p><p>D. Barbaro 1574</p><p>J. D. Lindanus 1576</p><p>G. Genebrardus 1577</p><p>B. Botta 1581</p><p>G. de la Cerda 1583</p><p>A. Buonriccio 1584</p><p>J. Osorio 1592</p><p>Manuel Sa 1596</p><p>L. da Cruz 1597</p><p>J. P. Pallanterius 1600</p><p>R. Dosma 1601</p><p>B. Arias Montano 1605</p><p>A. Agellius 1606</p><p>S. Lampertus 1611</p><p>R. Bellarmino 1611</p><p>L. de Alcazar 1613</p><p>J. Hajus 1614</p><p>N. de Gorham 1617</p><p>J. Jansonius 1625</p><p>A. Alleret 1625</p><p>F. Justiniani 1627</p><p>A. Crommius 1628</p><p>T. Maluenda 1628</p><p>M. Hoen 1630</p><p>J. J. Menochio 1630</p><p>S. de Muis (Marotte) 1630</p><p>J. Tirinus 1632</p><p>J. Lorinus 1634</p><p>D. Ginnasius 1636</p><p>J. Gordon 1641</p><p>H. Drexelius 1643</p><p>E. L. Castaneus 1643</p><p>J. J. Sopranis 1643</p><p>B. Corderius 1643-46</p><p>O. Bonaert 1654</p><p>G. Heser 1654</p><p>P. de Cadenet 1660</p><p>J. de la Haye 1661</p><p>T. Basellus 1662</p><p>P. Caranus 1662</p><p>T. Carrière 1663</p><p>T. le Blanc 1664-76</p><p>B. de la Palisse 1665</p><p>G. de Matta 1665</p><p>A. Escobar 1667</p><p>G. Mentzius 1668-72</p><p>A. a S. Bonaventura 1673</p><p>A. E. Mege 1675</p><p>D. a S. Renato 1679</p><p>L. Ferrandus 1683</p><p>J. B. Bossuet 1691</p><p>L. Dupin 1691</p><p>F. Nottens 1692</p><p>I. le Maître de Saci 1696</p><p>J. M. Thomasius 1697</p><p>Mais de oitenta e provavelmente não estão todos arrolados.15 O</p><p>catálogo atesta o interesse e a diligência daquelas gerações pelo estudo dos</p><p>salmos. O número de autores e obras é preciso arredondá-lo com as</p><p>numerosas edições de alguns. E devemos acrescentar todo o trabalho</p><p>inédito de tantos professores que ditavam simplesmente as lições e que os</p><p>alunos copiavam por sua conta (ou por meio de um criado os mais ricos), sem</p><p>chegarem à publicação. Na ratio studiorum dos jesuítas, manda-se que</p><p>nunca se deixem de explicar “os salmos e cânticos”. Não podendo apresen­</p><p>tar todos, seleciono de novo alguns.</p><p>Começo pelas cadeias. Destacam-se a de Padres gregos traduzidos ao</p><p>latim, compilada por Daniel Barbaro ( f 1578) e publicada em 1572.</p><p>Baltasar Corderius (Cordier, 1592-1650) compilou uma cadeia grega,</p><p>15 M. Marini deixou inédito seú comentário literal em forma de notas. Publicou-o Mingarelli em</p><p>1948-1950.</p><p>Desde Nicolau de Lira até a era da crítica 43</p><p>publicada em 1630. Menos importante é a cadeia ou compilação de F.</p><p>Dupuy (t 1521), publicada em 1510.</p><p>Para o texto e as versões basta mencionar dois autores. João Pocken</p><p>publicou em 1518 um saltério quadrilíngüe, em hebraico, grego, latim e</p><p>aramaico (caldaico, diziam na época), adiantando-se em data de publica­</p><p>ção, não em trabalho preparatório, à Poliglota de Alcalá. Obra de erudição</p><p>insigne é a Octapla de Agostinho Justiniani (t 1536), que apresenta em oito</p><p>colunas o texto hebraico, o grego da Setenta, a Vulgata, o aramaico, o árabe</p><p>e três versões latinas anteriores.</p><p>Alguns autores comentam os salmos como parte de comentário com­</p><p>pleto à Escritura ou ao Antigo Testamento. Nesse caso, o comentário pode</p><p>ser breve, à maneira de notas ou escólios. Hoje o chamaríamos manual; em</p><p>sua época desempenhou função equivalente. Enorme êxito teve F. Titelman,</p><p>reeditado, lido e citado com muita freqüência como autoridade. Sua exegese</p><p>triunfa na paráfrase descritiva ou retórica do texto, muito ao gosto da</p><p>época. Eis um exemplo:</p><p>Comenta o Sl 75,9: “Calix in manu Domini vini meri plenus mixto”: “Na</p><p>mão do juiz está a administração de retribuição digna, a repartição do</p><p>pagamento devido, como está o cálice na mão do homem; cálice cheio de vinho</p><p>fortíssimo e não potável, mesclado com fezes e impurezas, todo turvo de</p><p>sedimentos, tal a produzir asco e não existe quem o beba. E o cálice da ira e</p><p>indignação de Deus onipotente, que contém o castigo mais amargo, a sentença</p><p>mais insuportável, que é como um vinho concentradíssimo, fortíssimo,</p><p>aspérrimo, turvo de sedimentos, impossível de se beber”.</p><p>Semelhante em autoridade, mas um tanto inferior em número de</p><p>edições, foi obra de F. Vatablus (= Watebled), escrita em forma de escólios</p><p>( cuja edição válida é a segunda, de 1584). Manuel Sá compõe um prontuário</p><p>breve, certeiro, em que discute especialmente passagens difíceis; sua obra</p><p>continuou a ser publicada em todo o séc. XVII. Menos conhecido é o comen­</p><p>tário à maneira de notas de João de Mariana. De Maluenda falarei mais</p><p>abaixo.</p><p>Do séc. XVII destaco A. Alleret, J, Gordo, S. S. Menochio, J. Tirino e L. I.</p><p>le Maître de Saci. J. de la Haye publicou suaBiblia Magna em 1643 e suaBiblia</p><p>Maxima em 1660: obra basicamente de compilação com notas de erudição. E</p><p>curioso que na grande obra de Cornélio a Lápide faltem precisamente os</p><p>salmos.</p><p>Alguns comentadores merecem especial menção pela atenção dedicada</p><p>ao hebraico e ao sentido literal. Começo por Otmar Luscinius (Nachtigall),</p><p>que dedicou três trabalhos ao saltério: uma versão do hebraico e do grego</p><p>com breves notas morais, uma versão em alemão, e alguns resumos. Segue-</p><p>o o professor de hebraico Agácio de Giudici, que traduz do hebraico e</p><p>44 História da interpretação</p><p>comenta os salmos 1-24 (1540). Félix de Prato, rabino convertido, compõe</p><p>uma versão literal do hebraico. Mathias Bredenbach segue fielmente o</p><p>hebraico tendo em conta as versões antigas. Já bastante adentrado o século</p><p>XVII e contra a corrente que dá preferência à Vulgata, destaca-se S. de</p><p>Muis, que se concentra no sentido literal e histórico, dando preferência</p><p>quase exclusiva a autores rabínicos.</p><p>Tomás de Maluenda é caso especial. Antes de tudo é preciso retificar</p><p>o seu nome, que se sói citar como Malvenda (Maluenda é povoado perto de</p><p>Catalayud). Em seus comentários a quase toda a Escritura (a morte o</p><p>interrompeu) compraz-se em acumular e multiplicar traduções possíveis</p><p>de palavras e expressões hebraicas. Não está claro se é alarde de erudição</p><p>ou se se deve ao fato de não se decidir por alguma em particular, ou ao fato</p><p>de ser precursor inconsciente da teoria da polissemia e do texto aberto. O</p><p>exemplo terá de ser algo mais longo e em latim:</p><p>Sal 104,15: “Ut exhilaret faciem oleo”. Verbum tzahal in Hiphil hic</p><p>tantum legitur in infinitivo: quod varie reddunt. I. Ad exhilaranda facies</p><p>ex oleo. II. Ut mundet seu illustret faciem prae oleo [min comparativo]...</p><p>IV. Ut faciem nitere faciat prse oleo... VI. Proprie, ad faciendum hinnire</p><p>facies ab oleo; id est, ut facies oleo delibutae, prae nitore et laetitia veluti</p><p>petulanter et lascive hinnire et gestire videantur: metaphora. Acute</p><p>Forsterus coniectatur forte Ihçhyl positum pro Ihçhyr... quasi dicas, ad</p><p>oleifícandum facies ab oleo. Hunc versum perspicuitatis gratia alii ita</p><p>redunt...”</p><p>Em resumo: do verbo três traduções, alegrar, resplandecer, relinchar; da</p><p>preposição duas, causal e comparativa. Encerra o versículo a versão de</p><p>Buchanan de 14-15 em três exâmetros latinos.</p><p>Pelo valor dos comentários, merecem menção honrosa quatro autores</p><p>que sabem integrar bons conhecimentos de línguas, interpretação de vários</p><p>sentidos, tradição e personalidade. São Cornelius Jansenius, Gilbertus</p><p>Genebrardus, que emparelha a tradição rabínica com a patrística, Antonius</p><p>Agellius, penetrante e certeiro, e o monumental J. Lorinus. Apresentarei</p><p>mais longamente esse último, porque nele confluem muitos trabalhos e</p><p>tendências precedentes. O seu comentário é obra enorme, rica, prolixa,</p><p>mais para consulta do que para leitura contínua. A consulta facilita-se</p><p>muito pela cadeia de informações ou referências ao longo das margens</p><p>laterais, que indicam temas e autores. A introdução, em 17 pontos, mostra</p><p>a largueza de interesses do autor:</p><p>1. Autoridade canônica do livro.</p><p>2. Davi, autor do livro.</p><p>3. Davi profeta? Por que não figura entre os profetas?</p><p>4. E o saltério um só livro?</p><p>5. Número dos salmos.</p><p>Desde Nicolau de Lira até a era da crítica 45</p><p>6. Ordem de disposição.</p><p>7. Métrica. Função da forma poética.</p><p>' 8. Os versículos.</p><p>9. Título do livro.</p><p>10. Por que se chamam solilóquios</p><p>de Cristo? Argumento dos salmos:</p><p>Cristo e a igreja de modos diversos. Aqui introduz a prosopologia,</p><p>citando Tertuliano, com a terminologia clássica.</p><p>11. A que parte da Escritura pertencem? O saltério é como um</p><p>compêndio de toda a Escritura.</p><p>12. Títulos. Considera-os inspirados e canônicos.</p><p>13. Edição latina.</p><p>14. Recitação solene dos salmos.</p><p>15. Obscuridade dos salmos. Pela profundidade dos mistérios, varieda­</p><p>de de sentidos, predição do futuro, aparentes contradições, estra­</p><p>nheza de línguas não fáceis de se traduzir, estilo figurado, inclusão de</p><p>quase todas as ciências, salto de uma pessoa a outra, de um argumento</p><p>a outro, da letra ao espírito... Porque exigem no leitor o mesmo</p><p>Espírito com que foram compostos... “Não entenderás Davi se não</p><p>repetires sua experiência apropriando-te de seus sentimentos...</p><p>Quando se entenderam, a inteligência se fixa na memória, e como os</p><p>salmos são compêndio do resto, ajudam a entender outras passagens</p><p>da Escritura”.</p><p>16. Alguns comentários dos salmos, gregos e latinos: os gregos da</p><p>cadeia de Barbaro, treze latinos, seis medievais, quinze recentes.</p><p>17. Finalidade do comentário.</p><p>O comentário de cada salmo discorre com toda amplidão, comprazendo-</p><p>se na abundância. Primeiro expõe o título. Segundo, o argumento, referindo</p><p>com autoridades várias propostas: sentido histórico, Davi; ou profético do</p><p>povo de Deus, por exemplo, o desterro; ou messiânico na expectativajudaica;</p><p>ou de Cristo, a Igreja, qualquer fiel; para essa vida, para a futura. Terceiro,</p><p>versículo depois de versículo. Em cada versículo: paráfrase amplificando e</p><p>mostrando a inserção e função no desenvolvimento. Expõe o sentido literal</p><p>apelando ao hebraico, ao grego e também ao latim, com autoridades,</p><p>especialmente Lira. Com abundantes citações dos Padres e outros, apresen­</p><p>ta outros sentidos/per sensus], aduzindo e criticando. A maneira de êxcurso,</p><p>pode tratar da teologia de um termo, como luz, verdade; ou um tema de</p><p>erudição. Se um problema se apresenta, o discute. O comentário a cada</p><p>versículo ocupa de ordinário um pouco mais de uma página in folio de duas</p><p>colunas.</p><p>Segundo costume da época, o comentário aos salmos de Lorinus é toda</p><p>uma biblioteca sacra com excursões profanas. Mas houve quem o superou,</p><p>se não em mérito, em extensão: em pleno séc. XVII, Tomás de Blanc teve a</p><p>oportunidade de compor um comentário em seis volumes.</p><p>Na segunda metade do séc. XVII parece que se apaga a criatividade e</p><p>começa a decadência.</p><p>46 História da interpretaçao</p><p>dj Séculos XVI e XVII: protestantes</p><p>É lógico que o movimento da Reforma impulsionasse o uso dos salmos</p><p>na piedade de seus adeptos. Seus principais chefes e inspiradores logo</p><p>escreveram comentários. Lutero continua com talento pessoal a leitura</p><p>cristológica dos salmos: não é a novidade de princípios ou métodos, mas a</p><p>qualidade que recomenda os seus comentários; para o sentido literal,</p><p>Lutero prefere Jerônimo e Lira. Calvino é mais literal e histórico, e sua</p><p>atitude é mais intelectual; a julgar pelas citações de autores modernos, o</p><p>seu comentário é dos mais permanentes da Reforma. Zwínglio compôs</p><p>somente um Enchiridion.</p><p>A Reforma não produz nos primeiros séculos comentários comparáveis</p><p>em erudição aos de Genebrardus, Maluenda ou Lorinus. Concentra-se, ao</p><p>invés, em alguns autores reconhecidos, cujas edições se multiplicam. Os</p><p>mais estimados são (em ordem cronológica);</p><p>Bugenhagen (Pomeranius) 1524 Tremellius 1580</p><p>Bucerus (Butzer) 1526 Hugo Grotius (Groot) 1644</p><p>Draconites 1543 Piscator 1646</p><p>J. Willich 1564 Coccejus (Koch) 1660</p><p>H. Moller 1573 M. Polus: Synopsis 1694</p><p>Rudinger 1580</p><p>Piscator expõe em cada salmo uma “análise” ou argumento por secções</p><p>e gênero, escólios explicando passagens difíceis, observações teológicas e</p><p>pastorais. Os seus gêneros são onze: didascalici, epaenetici (laudatórios),</p><p>eucharistici, gloriabundi, contestativi, epangeltici, paraenetici, confessorii,</p><p>querulativi, euctiti (súplica), consolatorii.</p><p>Mathaeus Polus recolhe opiniões de autores diversos, inclusive santos</p><p>Padres e alguns autores católicos. Os seus preferidos parecem ser Coccejus,</p><p>Moller, Muis e Geier. Discute o sentido literal palavra por palavra. Deve­</p><p>se usar a edição revisada de Frankfurt 1712. Com Pole podemos comoda­</p><p>mente encerrar uma etapa.</p><p>e) Século XVIII</p><p>Aceitando as fronteiras artificiais de um centenário, esse século se nos</p><p>apresenta como época de transição: aponta e se prepara o grande movimen­</p><p>to crítico, prepara-se certa aproximação e convergência das diversas</p><p>confissões.</p><p>Em meados do século, três acontecimentos ocorrem. O bispo anglicano</p><p>Robert Lowth publica em latim o seu estudo sobre a poesia hebraica, De</p><p>sacrapoesi hebrseorum, abrindo caminho à degustação e ao estudo literário</p><p>A crítica até Gunkel 47</p><p>da Bíblia; os salmos ocupam no livro lugar importante. Astruc, médico</p><p>francês de origem judaico-catalã (recorde-se o medieval Bonastruc Saporta),</p><p>publica um estudo sobre o Pentateuco, abrindo caminho à análise das</p><p>fontes; Houbigant publica sua edição crítica da Bíblia.16</p><p>No livro de Lowth, além de numerosas referências, os salmos ocupam</p><p>quase inteiras as preleções XXV-XXIX. Cada preleção conclui com tradução</p><p>em versos latinos (hexâmetros, anapestos, coriambos, estrofe arcaica).</p><p>Entre os católicos continua a tradição; só que o trabalho científico</p><p>parece ter cedido lugar a obras de piedade e divulgação. Isso significa que,</p><p>no meio da inegável decadência dos estudos bíblicos, especialmente em</p><p>países latinos, os salmos continuaram a alimentar a piedade cristã.</p><p>Traduzem-se do hebraico: M. F. Dantine (Paris 1739). Ou se comenta a</p><p>Vulgata, Ou se parafraseiam em francês: C. L. Dugard (Paris 1754). Com</p><p>notas breves ou abundantes, de que darão idéia dois títulos:</p><p>F. Bellenger, Liber psalmorum Vulgatse editionis cum notis, in quibus</p><p>titulus, occasio, argumentum cuiusque psalmi, sensus litteralis, mysticus,</p><p>etc., explicatur (Paris 1727).</p><p>A. Kaikstein, Elucubrationeslitterales, allegoricae, moralesetanagogicae</p><p>in totam S. Scripturam (Breslau 1727-54).</p><p>O mais notável e de maior influência por sua concentração no sentido</p><p>literal foi o de A. Calmet (1672-1757), que faz parte de sua obra La Bible en</p><p>latin et en français (1707-1716).</p><p>Entre os protestantes teve particular aceitação o comentário em forma</p><p>de notas sobre o sentido literal de J. D. Michaelis (1771). Pelos fins do</p><p>século, o novo movimento bíblico crítico veio a se coalhar na famosa</p><p>introdução de Eichhorn e nos trabalhos de Semler.</p><p>Entre os judeus, deve-se apontar o movimento renovador de Moisés</p><p>Mendelssohn, que se torna campeão da abertura e intercâmbio da cultura</p><p>judaica, começando pela Bíblia. Sua tradução alemã dos salmos foi base de</p><p>algum comentário.</p><p>8. A crítica até Gunkel</p><p>A medida que nos aproximamos de nossa época, é menos necessário</p><p>esboçar um quadro geral dos movimentos intelectuais. Sabemos o que foi</p><p>o iluminismo, seu poder renovador, os descobrimentos acumulados e</p><p>crescentes, a mentalidade que plasmou e nos legou. Na época crítica que</p><p>iniciaram os pioneiros do séc. XVIII vive a nossa ciência bíblica atual.</p><p>10 Em 1751 o florentino Antônio Casini publicara seu livro De divino poêsi sim de psalmis, canticis</p><p>deque omni re poética S. Scripturae, obra que não transcendeu.</p><p>48 História da interpretação</p><p>O séc. XIX é período de esplendor da exegese crítica, preparada pelos</p><p>estudos gramaticais e lexicográficos de Gesenius e Ewald. A investigação</p><p>desenvolve-se ao termo da época, que hoje nos pode parecer lento. Em sua</p><p>imensa maioria, os investigadores criativos são protestantes. Os católicos,</p><p>com poucas exceções, parecem apegados a posições apologéticas, ainda</p><p>desconfiados de muitos princípios filosóficos que de fato inspiravam a</p><p>pesquisa bíblica. Começo com uma lista abundante e não completa de</p><p>comentadores:</p><p>W. M. L. de Wette 1811 C. M. Curci 1883</p><p>F. C. Rosenmüller 1821 F. W. Schulz 1888</p><p>H. Ewald 1826 T. K. Cheyne 1888</p><p>F. Hitzig 1835 A. F. Kirkpatrick 1891</p><p>Nolhac 1836 F. Baethgen 1892</p><p>E. W. Jengstenberg 1842-47 G.</p><p>P. Huntington/H. A. Metcalf 1892</p><p>C. von Lengerke 1847 M. Maclaren 1893</p><p>G. Phillipps 1849 J. Sharpe 1894</p><p>J. A. Alexander 1850 S. R. Hirsch 1898</p><p>J. Olshausen 1853 B. Duhm 1899</p><p>H. Hupfeld 1855 P. Valeton 1902</p><p>F. Delitzsch 1859-60 W. T. Davison/T. W. Davies 1905</p><p>A. C. JenningsAV. H. Lowe 1871 C. A. Briggs 1906</p><p>D. A. Tholuck 1873 R. Kittel 1907</p><p>Vejamos um pouco os começos: Rosenmüller e de Wette. 0 primeiro</p><p>discute, mais tradicionalmente, a origem, datas, autores, coleções e divi­</p><p>são, número e título dos salmos. O segundo alarga o olhar:</p><p>1. Estilo poético e conteúdo: antologia de poemas líricos; tipos ou gêneros</p><p>poéticos. 2. Origem e formação da lírica hebraica: Davi e Samuel. 3. Autores</p><p>dos salmos. 4. Originalidade e imitação, obras antigas e tardias. 5. Coleção</p><p>e divisão. 6. Títulos. 7. Ritmo e música. O verso hebraico, o paralelismo,</p><p>sonoridade, outros recursos poéticos. 8. Interpretação histórica: circunstân­</p><p>cias, situação.</p><p>A influência de Lowth e Herder é patente. E curioso observar como</p><p>reaparecem em chave nova problemas que já eram discutidos por Atanásio</p><p>em sua carta a Marcelino. O estudo crítico e histórico domina o comentário,</p><p>o que será uma constante em seguida. A atenção prestada a aspectos</p><p>literários influirá em alguns autores posteriores.</p><p>H. Ewald é importante por sua contribuição para a gramática hebraica.</p><p>Hengstenberg sobressai estudando a unidade e o desenvolvimento de cada</p><p>salmo. Phillipps (estranhamente preterido nas resenhas) é excelente fi­</p><p>lólogo. Olshausen tornou-se famoso e controvertido por sua datação</p><p>macabaica de quase todo o saltério.</p><p>A crítica até Gunkel 49</p><p>Entre os católicos abundam os comentários devocionais ou de divul­</p><p>gação, como no século precedente, entre os quais sobressai a obra em vários</p><p>volumes de M. Wolter (1868-90). Entre os científicos, mencionarei Schegg</p><p>(1845-47), G. C. Reischl (1873) e H. Lesêtre (1886).</p><p>Entre os judeus, assinalem-se H. Graetz (1892), A. B. Ehrlich (1905),</p><p>J. Nobel (1911) e o comentário em hebraico de Chayes, incluído na Bíblia</p><p>de Kahana (1904-30).</p><p>Agora encomendo a tarefa de representar essa época ao mais insigne</p><p>dos protestantes, F. Delitzsch, e um católico significativo, Lesêtre. Este nos</p><p>faz conhecer seus problemas e interesses numa introdução de 92 páginas:</p><p>Além das questões comuns, como história, títulos, etc., vale a pena</p><p>destacar algumas secções. Oferece-nos uma breve história de comentários,</p><p>com nomes e crítica. Estuda as origens da poesia hebraica: aptidões poéticas</p><p>do povo hebreu e da língua hebraica. Expõe alguns recursos poético salientes</p><p>e fala da execução musical. Distingue os seguintes gêneros: adoração, ação</p><p>de graças, petição, penitência, didáticos, históricos, litúrgicos, messiânicos,</p><p>de ascensão. Termina com uma síntese da doutrina e da moral incorporadas</p><p>ao saltério.</p><p>Franz Delitzsch é um dos grandes comentadores dos salmos de toda a</p><p>história. À distância de 120 anos, sua obra pode e dever-se-ia ler com</p><p>interesse e fruto. Sua introdução mostrar-nos-á a amplitude de sua visão</p><p>e a preferência de seus interesses:</p><p>1. Lugar do saltério entre os hagiógrafos ou ketubim, em particular entre</p><p>os livros poéticos. 2. Nome do saltério. 3. História da composição dos salmos.</p><p>A poesia hebraica começa com Moisés, que compõe um hino, Ex 15; uma</p><p>elegia, Sl 90, e um poema profético didático, Dt 32. Com Davi chega à</p><p>maturidade: antes de ser ungido compõe o Sl 8 e o Sl 144; depois, alguns que</p><p>levam o seu nome e alguns mais. Descrição do estilo poético de Davi. Com</p><p>Salomão começa a decadência, de que se salvam Josafá e Ezequias. Sucede</p><p>a etapa das imitações até o desterro: à poesia sucede a profecia. Existem</p><p>salmos macabaicos? Não é impossível, mas parece improvável. 4. Origem da</p><p>coleção, data-limite. 5. Disposição e títulos: relações temáticas; coleções</p><p>compiladas segundo critérios heterogêneos. 6. Métrica: metro, ritmo, rima,</p><p>paralelismo, estrofe. Música do templo e salmodia: testemunhos. 8. Tradu­</p><p>ções. 9 História da interpretação. 10. Observações teológicas preliminares.</p><p>Sentido messiânico.</p><p>No comentário junta o acerto do filólogo consumado e a percepção de</p><p>conteúdos espirituais. E erudito e devoto a um só tempo e sem violência.</p><p>Sua reconstrução histórica é hoje insustentável, por sua falta de crítica;</p><p>tampouco realizou o estudo dos gêneros.</p><p>Delitzsch e Lesêtre compartilham de interesse que decaiu e até desapa­</p><p>receu em comentários recentes: a história da interpretação. Estranhamente,</p><p>50 História da interpretação</p><p>em nome do método histórico-crítico, expulsamos sem verdadeira crítica toda</p><p>a história entre os salmos e nós. As exposições de Lesêtre e Delitzsch são</p><p>sumárias, quase sumaríssimas; Delitzsch não soube superar uma série de</p><p>preconceitos. O silêncio dos recentes e a brevidade incompleta dos preceden­</p><p>tes obrigam-me a empreender esse trabalho de síntese, no qual procurei</p><p>encerrar com ordem muitos materiais em breve espaço.</p><p>Com Gunkel começa outra etapa, a nossa, que talvez se esteja esgotan­</p><p>do com o século. A outros tocará historiá-la.</p><p>9. Gunkel: obra e influência</p><p>a) Hermann Gunkel</p><p>Arrastando uma herança de romanticismo tardio, Gunkel aspirava a</p><p>penetrar na mente do autor para concentrar-se nele. Almejava chegar à</p><p>experiência religiosa original do autor passando pela catalogação e descri­</p><p>ção dos gêneros literários de que lançou mão. Ajunta assim o psicológico ao</p><p>objetivo ou textual. Estimava que os antigos sentiam-se mais ligados às</p><p>convenções de estilo, entre as quais dominava a forma típica ou “gênero</p><p>literário”, convenção social e de grêmio. Introduziu por própria conta em</p><p>seu programa um conceito novo: o contexto vital ou a situação (Sitz im</p><p>Leben) de origem e uso, que para os salmos, era ordinariamente o culto</p><p>comunitário ou pelo menos público. Aos fatores psicológico e textual</p><p>acrescia o fator social.</p><p>De gêneros ou formas, catalogados segundo temas ou afetos, já se ti­</p><p>nham ocupado antigos e modernos (cf. 4, f). Entre esses se costuma citar de</p><p>Wette, Tholuk, Hupfeld, Buhl. A novidade de Gunkel consistiu em trans­</p><p>formar isso em princípio sistemático de interpretação. Também os antigos</p><p>tinham-se referido ao culto, e a prática da Igreja mantinha viva a tradição</p><p>milenar. Gunkel reconquistou para os salmos o culto como contexto vital de</p><p>destino e execução.</p><p>Pela idéia de forma repetível, de peça de repertório, Gunkel se afastava</p><p>da explicação histórica de muitíssimos. Pela recuperação do culto, confron­</p><p>tava-se com poderosa corrente protestante.</p><p>Gunkel definia o gênero literário por um tema peculiar, um esquema</p><p>ou padrão próprio, alguns procedimentos característicos. O tema articula­</p><p>va-se em motivos literários, que permitiam o acesso ao mundo espiritual do</p><p>salmo e do gênero (Welt der Frömmigkeit, “mundo da piedade”). Fiel à</p><p>orientação histórica da ciência de sua época, já que não podia situar cada</p><p>salmo na história de Davi ou de Israel, impôs-se a tarefa de compor uma</p><p>Gunkel: obra e influência 51</p><p>história dos gêneros, para o que estabeleceu um esquema fixo de evolução.</p><p>O gênero nasce como forma pura e simples, desenvolve-se por adição ou</p><p>subtração de elementos, por divisão e contaminação, até que o gênero vem</p><p>a se dissolver. O seu esquema não era resultado de indução, mas era</p><p>hipótese fabricada a priori, praticamente impossível de se verificar.</p><p>O vasto programa de Gunkel teve aplicação mais coerente e feliz no</p><p>estudo do saltério. Os seus esforços vieram a se condensar em obra</p><p>póstuma, publicada pelo seu discípulo J. Begrich. Sua Introdução aos</p><p>Salmos (Einleitung in die Psalmen, 1834) constitui hoje um clássico</p><p>indispensável de nossa ciência exegética.</p><p>Pode-se consultar: W. Klatt, Hermann Gunkel. Zu einer Theologie der</p><p>Religionsgeschichte und zur Entstehung der Formgeschichtlichen Methode,</p><p>FRLANT 100 (1969).</p><p>Não precisamos ampliar esse ponto, porque o ensinamento de Gunkel</p><p>vai reaparecer reiteradamente no comentário.</p><p>b) Influência imediata</p><p>Foram poucos os que se fecharam ao seu método, embora tenham</p><p>ficado alguns focos</p><p>de resistência isolados, que não se aliaram numa frente</p><p>unitária:</p><p>E. König mal teve tempo para conhecer ou assimilar o novo método. J.</p><p>Calès, H. Herkenne, M. Buttenwieser, Eerdmans, Dahood.</p><p>A imensa maioria dos comentadores seguiram a Gunkel, repetindo ou</p><p>prolongando o seu programa. Começa, com a obra de Gunkel, nova era</p><p>fecunda.</p><p>Tentarei mostrar a novidade comparando dois autores destacados de</p><p>antes e depois. À distância de um século, emergem e se destacam dois</p><p>comentários influentes: Delitzsch publicou a primeira edição de seu comen­</p><p>tário em 1859-60. Kraus publicou o seu em 1860. Suas respectivas introdu­</p><p>ções oferecem terreno para a comparação.</p><p>Quanto a Delitzsch, veja o resumo de sua introdução no capítulo prece­</p><p>dente. Recordo somente o que diz acerca de Moisés, Davi e a monarquia até</p><p>o exílio.</p><p>Kraus, após tratar dos temas tradicionais, texto, título, coleções, gêneros,</p><p>estilo, etc., trata na secção 7 o problema da história: a relação dos salmos com</p><p>a história de Israel não é imediata nem linear, e também não basta o culto</p><p>como denominador único. Datação e história dos salmos: podem orientar a</p><p>língua e o estilo e algumas alusões históricas; mas dificultam a datação a</p><p>repetição convencional de temas e fórmulas, as adaptações e atualizações. 8.</p><p>Como destino aponta o culto e também a piedade individual.</p><p>52 História da interpretação</p><p>Termina com uma secção sobre a teologia dos salmos (tema a que mais</p><p>tarde dedicou um volume inteiro).</p><p>Delitzsch e Kraus coincidem em algumas questões tradicionais. A</p><p>ampla secção descritiva dos gêneros literários não existia na obra de</p><p>Delitzsch. Sofre mudança notável a proposição da análise histórica. Delitzsch</p><p>reconstruía uma história da literatura sálmica por épocas, assinalando</p><p>autores e definindo conjunturas históricas em que surgia cada composição.</p><p>Kraus reconhece nos salmos alguma relação com a história: puntual em</p><p>poucos casos, de ordinário genérica. Pergunta-se, antes, onde surge e se</p><p>transmite o salmo, que destino tem. O estamento conta mais do que o poeta</p><p>individual, o destino condiciona a origem. Como se vê, o enfoque de estudo</p><p>histórico veio a se desviar pelo impacto da teoria do contexto vital.</p><p>Não menos profunda é a diversidade na secção sobre a teologia dos</p><p>salmos. Delitzsch faz a pergunta sobre o sentido cristão dos salmos; depois,</p><p>sobre um tema tipicamente protestante, a justificação pela fé, finalmente,</p><p>sobre dois temas genericamente cristãos, o amor aos inimigos e a vida</p><p>futura. Kraus centra sua exposição nos dois dados correlatos: a presença do</p><p>Senhor em Sião, no templo, e a comunidade que a ele se dirige para louvá-</p><p>lo, suplicar-lhe, confrontar-se perante ele com os grandes problemas da</p><p>existência humana.</p><p>Desapareceu em Kraus a referência ao sentido cristão e também a</p><p>história da interpretação. E não se propõe o problema da apropriação. Nem</p><p>tudo significou ganho num século de estudos.</p><p>c) Os salmos e a história</p><p>Ao estabelecer o contexto vital, social, repetível, Gunkel aboliu a</p><p>circunstância histórica irrepetível. O tema merece breve desenvolvimento.</p><p>Vimos que os títulos históricos dos salmos eram tentativas de historicizá-</p><p>los e, como tais, foram recebidos pelos autores antigos e dominaram a</p><p>exegese durante séculos. Teodoro de Mopsuéstia, que rejeitava os títulos</p><p>históricos tradicionais, substituía-os por outros de sua colheita, pelo</p><p>critério da coerência. Delitzsch ainda se atinha à explicação histórica da</p><p>origem de cada salmo, pondo a serviço dessa explicação sua perspicácia e</p><p>erudição. No final do século e representando a muitos, Lesêtre traçava em</p><p>três páginas um quadro cronológico de todos os salmos, deixando espaço</p><p>para dúvidas e alternativas. Se autores como Ewald, Hitzig e Cheyne se</p><p>esforçavam para datar os salmos, Hupfeld e Smend, por sua vez, mostra­</p><p>vam-se céticos ou cautos; ao passo que em outra frente se travava a batalha</p><p>acerca da datação macabaica. Para o século passado, veja-se a síntese</p><p>informativa:</p><p>Gunkel: obra e influência 53</p><p>Historical sketch o f Psalm criticism, em J. Robertson, The Poetry and</p><p>Religion ofthe Psalms, Edimburgo-Londres, 1898.</p><p>Característica do fato histórico é sua unicidade, sua natureza irrepetível</p><p>como tal. Se Davi compôs um salmo enquanto se escondia na caverna de</p><p>Adulã, o salmo não foi composto por um dos profetasjavistas escondidos em</p><p>cavernas de que fala lRs 18. Os pesquisadores, como Wellhausen, Olshausen</p><p>e outros, que atribuem a maioria dos salmos ao período macabaico, buscam</p><p>na história dos Macabeus a intersecção histórica precisa onde teria surgido</p><p>o salmo que se quer datar.</p><p>Gunkel anulou o pressuposto e o substituiu por outro. Os salmos</p><p>surgem e se recitam em situações sociais típicas, repetíveis. Não é a</p><p>perseguição de Davi por Saul, mas a perseguição de inocente qualquer. O</p><p>típico se contrapõe ao único. Os salmos são utilizáveis e acomodáveis já por</p><p>nascimento, e não por adaptação adventícia. Nesse sentido, Gunkel opõe-</p><p>se vigorosamente à corrente historicizante, e com razão. Não há acomoda­</p><p>ção, mas puro sentido literal segundo a intenção do autor.</p><p>Neste caso, sobra acaso lugar ao estudo histórico? Gunkel é fiel à sua</p><p>época e formação, pertence à escola da história da religião. Por isso introduz</p><p>de novo a crítica histórica por outra porta. Traçará a história de cada gênero</p><p>literário segundo processo e trajetória rigorosos. O mal é que Gunkel</p><p>inventa, como hipótese, o esquema da evolução para traçar sua história. Os</p><p>críticos literários que escrevem a história de gêneros literários, Viètor,</p><p>Pesch e outros, operam indutivamente sobre textos previamente datados.</p><p>A construção (não re-construção) histórica de Gunkel é a maior fraqueza de</p><p>seu programa.</p><p>E claro que a situação social repetível e o culto são fatos históricos,</p><p>pertencentes à história religiosa de Israel. E, nesse sentido, Gunkel não</p><p>renega a crítica histórica.</p><p>Nos últimos decênios surge um ensaio diverso de historicizar. Consiste</p><p>em introduzir o fator processo no interior de cada salmo. Segundo os</p><p>defensores dessa teoria, o salmo não nasce como unidade poética em</p><p>circunstância irrepetível ou típica, mas os seus versos vão surgindo e</p><p>aderindo aos precedentes numa série de etapas históricas. O salmo que leio</p><p>hoje pode ser produto de séculos, de aportações anônimas acumuladas num</p><p>processo de sedimentação. Como uma catedral que conserva em linhas e</p><p>pedras o testemunho de séculos de construção, mudanças de artesões e de</p><p>estilos.</p><p>Que alguns salmos se prestaram a atualizações, que receberam</p><p>adições circunstanciais, é suposição plausível que se confirma em análise</p><p>sem preconceitos (por exemplo, SI 2, 14, 51). A teoria a que me refiro, não</p><p>se contenta em reconhecer casos isolados, mas os eleva ao gabarito de</p><p>54 História da interpretação</p><p>princípio geral, de critério que orienta e guia a pesquisa. Primeira</p><p>hipótese: suponhamos que no princípio os poetas compõem com grande</p><p>pureza e rigor, segundo cânones convencionais e respeitáveis, de acordo</p><p>com exigências do uso litúrgico ou devocional. Decorre que o salmo que</p><p>agora estou examinando não reproduz esse perfil puro e simples: sinal de</p><p>que sofreu elaborações de alcance vário e em etapas escalonadas. A mim</p><p>como pesquisador cabe identificar as peças adventícias, atribuir a cada</p><p>uma o seu momento e a sua razão, isolando, finalmente, o núcleo prístino</p><p>mais antigo (se é que se conserva íntegro). Ao contrário — segunda</p><p>hipótese — suponhamos que os poetas compõem com maior liberdade e</p><p>talento variável, que a vida, também a do culto, é menos lineal e</p><p>diferenciada, que as convenções poéticas são menos rígidas. Então os</p><p>salmos, que leio e estudo, salvo exceções, se explicam como obra de poetas</p><p>oficiais ou privados.</p><p>Como representantes da primeira hipótese (de sedimentação sucessiva)</p><p>podemos citar Beyerlin, Loretz e Lipinski (que informa sobre esse tema).</p><p>Falei de duas hipóteses que guiam a pesquisa dos sajmos. A primeira</p><p>fixa-se mais em preceitos abstratos e escolas anônimas, a segunda dá maior</p><p>importância aos poetas (cujo nome acidentalmente desconhecemos). Em</p><p>teoria, tão histórica pode ser a existência da escola E como a de poeta P. Isso</p><p>sim, a segunda hipótese respeita melhor os fatos e trabalha menos com</p><p>construções especulativas.</p><p>d) Sigmund Mowinckel</p><p>Com suas duas grandes obras Psalmenstudien I-V (Oslo, 1921-1924),</p><p>e The Psalms in Israel’s Worship I-II (tradução revista de Offersang og</p><p>Sangoffer, Oslo, 1951), S. Mowinckel é a figura mais importante depois de</p><p>Gunkel. Do mestre assume como ineludível o estudo tipológico, reafirman­</p><p>do com energia o princípio da radicação cúltica dos salmos. Polemiza contra</p><p>os que defendem uma religião sem culto, puramente interior; idéia que</p><p>“repousa na falsa concepção da religião e do culto”.</p><p>Sua obra é riquíssima de dados coligidos, interpretados e organizados.</p><p>Sua capacidade de sistematizar é talvez o que mais impressionou a outros</p><p>pesquisadores; foi talvez a tentação que não quis vencer. Mowinckel</p><p>possuía mente de arquiteto mais do que de lírico. Ainda que tenha descrito</p><p>finamente formas particulares, comunitárias ou individuais, proféticas e</p><p>sapienciais, etc., à maneira de capelas diferenciadas, quis, não obstante,</p><p>contar com uma espécie de santuário central e centralizador. Para tanto,</p><p>inventou uma festa que os calendários bíblicos desconhecem, a ela reduziu</p><p>Gunkel: obra e influência 55</p><p>inúmeros dados, para ela fez convergir múltiplas linhas divergentes, a</p><p>partir dela se dispôs a explicar tudo o que era possível. A suposta festa da</p><p>entronização de Yhwh no começo do ano transformou-se em pólo poderoso</p><p>que arrastava para si infinitas partículas, em voragem que sugava inume­</p><p>ráveis gotas de material sálmicos. O resultado era simples, geométrico,</p><p>belo, e, para alguns, sedutor. O mal era que a festa, que tudo explicava, era</p><p>invenção de Mowinckel.</p><p>Algo parecido, em muito menor escala, ocorreu com a suposta identi­</p><p>ficação dos po‘alle ’awn (literalmente, “mal-feitores”) com feiticeiros ou</p><p>bruxos, os quais, em salmos de enfermos, tramando seus feitiços contra</p><p>israelitas indefesos. Defendeu com tenacidade e engenho sua teoria, que</p><p>provocou bastantes discussões hoje apagadas.</p><p>Esses erros mais patentes aderidos ao nome e à fama de Mowinckel</p><p>não devem obscurecer a riqueza e acerto de tantas observações e análises</p><p>coligidas e ordenadas no seu livro. Sua segunda obra continua sendo lida</p><p>ainda hoje com interesse e fruto. E, se às vezes suas respostas já não</p><p>convencem, permanece o mérito e a validade de suas proposições. Nada</p><p>melhor que algumas amostras:</p><p>II, 132: “E preciso distinguir entre o poeta e o eu orante”.</p><p>135: “O que o salmista faz é emprestar sua voz e arte ao indivíduo e à</p><p>comunidade”.</p><p>137: “Ainda que às vezes o poeta se meta no poema, em salmos sapienciais</p><p>o mestre se deixa ver e sentir, como nos Sl 37, 73, 48”.</p><p>140: “O poeta funde sua personalidade com a do povo, encarna a</p><p>comunidade”... cúltico não significa formalístico, impessoal:</p><p>As citações anteriores são tomadas de um substancioso capítulo intitulado</p><p>“Tradicionalismo e personalidade nos salmos”.</p><p>Também é notável sua capacidade para perceber por analogia do que se</p><p>faz entre nós, em nossa tradição litúrgica. Por exemplo, a propósito da</p><p>“palavra profética” (cap. XII da obra) diz: “A substância da resposta talvez</p><p>esteja no ritual e o profeta cúltico lhe dá forma poética; ou então o texto já</p><p>se encontra no ritual “como nossa fórmula de absolvição” (II, 57).</p><p>Sobre Mowinckel, pode-se ver a resenha de J. de Fraine no DBS.</p><p>M. R. Hauge, Sigmund Mowinckel and the Psalms. A query into his</p><p>concern: SJOT 2 (1988) 56-71.</p><p>e) Tendências sobressalentes</p><p>A partir de Gunkel, a pesquisa sobre os salmos tem sido ativa e</p><p>produtiva. Sobre ela informam os artigos apresentados na bibliografia (b),</p><p>aos quais se pode acrescentar o longo artigo de Lipinski (um verdadeiro</p><p>livro erudito) em DBS, Psaumes.</p><p>Para orientar-nos nos últimos passos da pesquisa, podemos traçar três</p><p>linhas ou fixar três secções:</p><p>56 História da interpretação</p><p>— Em largo grupo central coloco os comentários com seu séquito de</p><p>introduções e sínteses de teologia ou espiritualidade. Cada ano aparecem</p><p>até dez comentários novos, entre obras técnicas científicas, de divulgação,</p><p>de devoção. Por definição, os comentários discorrem num leito central,</p><p>abertos a múltiplos afluentes, agradecidos, críticos ou tolerantes. Os</p><p>afluentes costumam ser muito curtos, nascidos neste século. E raro o</p><p>comentário atual que se enlaça com a tradição dos Padres, da Idade Média</p><p>ou do Renascimento. Uma citação ocasional de Lutero ou de Calvino ou de</p><p>Agostinho é toda a pegada confessada do passado. Como se Gunkel tivesse</p><p>liquidado e cancelado a história precedente.</p><p>— Em secção lateral discorrem os estudos tradicionais de crítica</p><p>textual, lexicografia, filologia, instituições, aspectos literários etc. Os</p><p>resultados dessa pesquisa paciente vão passando lentamente aos comentá­</p><p>rios para tornar-se bem comum.</p><p>— Em outra secção coloco os estudos monográficos sobre problemas já</p><p>tratados e não resolvidos ou sobre problemas que surgem sob a pressão das</p><p>circunstâncias ou pelo poder inquisitivo do pesquisador.</p><p>Gunkel sistematizou com rigor moderado, combinando fatores de forma</p><p>e conteúdo. A moderação no rigor é a meu ver uma virtude, não um defeito</p><p>de Gunkel. Ela possibilitou elaborar um sistema bastante completo e</p><p>funcional. Em assuntos de poesia, o rigor puritano não é o melhor conselhei­</p><p>ro. O seu sistema serviu, ademais, como coordenada para a pesquisa.</p><p>Assim ocorre nos estudos comparativos, como se pode apreciar exami­</p><p>nando a bibliografia (f).</p><p>No quadro dos gêneros literários, investiga-se a origem de um novo</p><p>gênero ou de alguns de seus temas, o nascimento cultual de uma peça, sua</p><p>execução litúrgica. Por exemplo, a oração penitencial seria uma peça pós-</p><p>exílica desgarrada da súplica coletiva, que começava confessando a culpa</p><p>do povo. A teofania como vinda do Senhor não procederia da experiência</p><p>histórica do Sinai, onde o Senhor estava e não vinha, mas de modelos</p><p>míticos extrabíblicos. A visão de Sião como cidade protegida pelo Senhor não</p><p>seria descobrimento provocado pela derrota de Senaquerib, mas seria, ao</p><p>invés, inspirada em concepções míticas de cidades ou territórios sagrados.</p><p>Nas liturgias de entrada, o salmo 118 explica-se descrevendo o cerimonial de</p><p>execução. Sobre a oração do inocente acusado, que apela ao tribunal do</p><p>templo, pergunta-se em que momento do processo o salmo em questão fala.</p><p>A análise de gêneros continua com a identificação ou descrição de</p><p>supostos gêneros novos, com a diferenciação em dois de um gênero já</p><p>registrado, ou explorando o seu sentido religioso. Por exemplo, H. Schmid</p><p>introduz o gênero do inocente injustamente acusado que apela ao templo.</p><p>J. Jeremias propõe como gênero autônomo a teofania. Crüsemann tenta</p><p>Tarefas pendentes 57</p><p>distinguir tipos de hinos segundo critérios rigorosamente formais, como o</p><p>uso de particípios como predicados, de exortativos com Yhwh em segunda</p><p>ou terceira pessoa, do optativo. A nota de Gunkel acerca de salmos de</p><p>entronização ou realeza do Senhor cresceu desmesuradamente na constru­</p><p>ção de Mowinckel. O tema da realeza, de Deus ou do monarca humano, pola­</p><p>rizou enorme quantidade de estudos. Os que o cultivam apelam facilmente</p><p>a concepções estrangeiras, à ideologia régia; só em segunda instância se</p><p>perguntam sobre a projeção messiânica do tema.</p><p>No quadro dos gêneros, ensaia-se também a identificação das persona­</p><p>gens que intervêm: na primeira pessoa como falante/orante, na segunda</p><p>pessoa como destinatário, e na terceira pessoa como referência. Na primei­</p><p>ra pessoa: fala o indivíduo ou a comunidade, ou o rei representando a</p><p>comunidade? Com papéis específicos: fala um enfermo, um perseguido, um</p><p>réu inocente. A segunda pessoa induz por rechaço outra pergunta: se</p><p>alguém se dirige ao orante, indivíduo ou comunidade, quem fala?; um</p><p>profeta cúltico, como se fosse funcionário do templo?; um sacerdote,</p><p>profissional do oráculo</p><p>de resposta a consultas e preces?; ou uma voz</p><p>interior que o orante objetiva poeticamente? E mais, semelhante análise</p><p>leva a supor que determinadas súplicas eram interrompidas por oráculos</p><p>cujo texto não foi incorporado à súplica por ser estranho ou heterogêneo. Na</p><p>terceira pessoa: intrigou sobretudo a presença de inimigos e rivais, malva­</p><p>dos ou malfeitores, que parecem assediar sempre o enfermo.</p><p>Uma modificação ou atenuação do método de Gunkel consiste em conce­</p><p>der maior espaço à criação poética a imitação de formas cúlticas, desligadas já</p><p>da execução cúltica. Este ponto explica melhor muitas irregularidades de</p><p>forma ou tema. Isso não contradiz, mas prolonga algo já indicado por Gunkel.</p><p>Sem rejeitar os gêneros e sem apelar sistematicamente a eles procede</p><p>o estudo literário que se pode chamar retórico ou poético ou estilístico. De</p><p>maneira geral o cultivam Ridderbos e Aletti-Trublet; Girard e Auffret</p><p>estudam as estruturas; Monloubou e Keel analisam a linguagem imagina­</p><p>tiva; Culley estuda fórmulas. Essa parcela, hoje ainda pequena, poder-se-</p><p>ia estender e ampliar, porque é abundante a matéria e foi pouco estudada.</p><p>Com isso estou terminando e entrando no umbral das “tarefas”, que</p><p>serão o tema de outro breve item.</p><p>10. Tarefas pendentes</p><p>Parecia que tínhamos chegado ao fim de nossa revisão histórica até os</p><p>dias de hoje, quando eis que imensa tarefa se nos antolha. Tão imensa que,</p><p>em vez de levá-la a cabo, contentar-me-ei com apenas descrevê-la timida-</p><p>58 História da interpretação</p><p>mente. Do lado dos autores dos salmos, urge descrever suas crenças, seus</p><p>sentimentos e sua linguagem. Do lado dos receptores e usuários, impõe-se</p><p>tratar da apropriação e execução. As páginas que seguem são programáticas:</p><p>de algum modo guiam e orientam o meu comentário, mas, como tarefa, o</p><p>ultrapassam.</p><p>a) As crenças</p><p>Em geral, os salmos não expõem doutrina. Dirigindo-me a Deus, não</p><p>o faço como mestre. E se ensino algo à assembléia, talvez como dirigente da</p><p>liturgia, é para que se volte a Deus. Posso, na verdade, refletir em alta voz</p><p>para proveito dos que me escutam, mas não para instruir a Deus.</p><p>ls 40,13s: “Quem lhe sugeriu o seu projeto? Com quem se aconselhou para</p><p>entendê-lo, para que lhe ensinasse o método exato? Para que lhe ensinasse</p><p>o saber e lhe sugerisse o método inteligente?”</p><p>O Sl 49 parece instrução e não oração. Como se fosse uma breve prática</p><p>espiritual pronunciada para auditório devoto. A oração não está formal­</p><p>mente nas palavras de quem fala, e sim nas reações dos que escutam.</p><p>— Se bem que os salmos não exponham doutrina, professam ou</p><p>propõem, todavia, crenças e também credulidades. Quando as professam,</p><p>podemos isolá-las facilmente, e poderíamos coligi-las e sistematizá-las</p><p>visando compor uma teologia dos salmos. Quando são somente pressupos­</p><p>tas, é preciso rastreá-las e trazê-las à superfície. Talvez não possamos tirar</p><p>por inteiro a rede de crenças que oscila na profundeza, furtando-se à</p><p>superfície do texto. As relações submarinas desse mar ou lago podem ser</p><p>instrutivas ou sugestivas. Recorde-se, porém, que algumas idéias não são</p><p>crenças, mas credulidades, e, por isso, devemos proceder com crítica, a</p><p>partir de nossa maior compreensão do mistério.</p><p>— As crenças são muitas e ramificadas ou entretecidas: sobre Deus e</p><p>o homem e a natureza e suas relações de criação e salvação. Mas por baixo,</p><p>sustentado-as todas, subjaz uma crença fundamental: que orar a Deus tem</p><p>sentido e valor. No simples ato de orar, o homem crê fazer algo que vale a</p><p>pena. Coloca-se no seu lugar de homem, humilde e nobilíssimo. Humilde,</p><p>porque tem consciência de ser criatura perante o criador; nobilíssimo,</p><p>porque se sabe interlocutor de Deus. O Senhor falava com Moisés face a</p><p>face, “como fala um homem com um amigo” (panim ’elpanim, Ex 33,11; cf.</p><p>Dt 34,10); os israelitas recorriam à mediação de Moisés. Pois bem, os</p><p>salmos democratizam a experiência: qualquer é chamado a tratar com</p><p>Deus face a face, como alguém fala com um amigo. Assim os salmos</p><p>antecipam, globalmente, a experiência de Jesus falando com o Pai e dos</p><p>discípulos falando com Jesus e depois com o Pai.</p><p>Tarefas pendentes 59</p><p>— Pode-se objetar e se objetou que a oração é inútil: porque Deus já</p><p>sabe tudo, porque nada lhe damos, porque não intervirá. O saltério</p><p>responde às objeções em ação. “Não chegou a palavra à minha boca e já,</p><p>Senhor, a sabes toda” (Sl 139,4); quem o diz, continua pronunciando</p><p>palavras que Deusjá sabe. Poderíamos colocar esse versículo no frontispício</p><p>de todo o saltério, e não o invalidaria. “Comeria eu carne de touros, beberia</p><p>sangue de cabritos?” (50,13). Tampouco com nossos louvores, mais espiri­</p><p>tuais do que vítimas de animais, nada acrescentamos à glória e felicidade</p><p>de Deus. Não obstante, o israelita continua a cantar os seus hinos, a recitar</p><p>as suas ações de graças. Que Deus não intervém, é simplesmente a</p><p>credulidade interessada do insensato ou do malvado: “O Senhor nada vê,</p><p>o Deus de Jacó nem percebe...” (94,7); ao contrário, o israelita fiel pode</p><p>confiar porque sabe que Deus agirá (37,5).</p><p>— Outra maneira de objetar é declarar que os salmos são simples</p><p>monólogo em forma de interpelação, ato imanente do sujeito: na melhor das</p><p>hipóteses auto-estímulo benéfico, e, na pior, ilusão enganosa. A resposta do</p><p>saltério a essa objeção situa-se no contexto da fé: se oramos, é porque Deus</p><p>quer que o façamos, porque Deus nos concede audiência. Rezar os salmos</p><p>não é recitar monólogos, mas dialogar com um amigo face a face. A primeira</p><p>metade do Sl 77 mostra o malogro da oração reduzida ao monólogo, ou sua</p><p>função preparatória e dialética para saltar para a oração eficaz.</p><p>— Impossível tentar aqui uma exposição sistemática de crenças</p><p>contidas ou formuladas no saltério. Creio mais factível chamar a atenção</p><p>Dara a inlocução ou modo de serem propostas. As crenças soem ter a</p><p>consistência de convicções, se bem que em alguns casos internas (p. ex., Sl</p><p>73) o orante luta com a dúvida. As crenças podem-se formular em atos de</p><p>profissão, de proclamação, de simples comunicação, de testemunho pes­</p><p>soal; podem ser temas de reflexão ou contemplação. A proclamação, o</p><p>testemunho podem residir simplesmente na execução pública; às vezes se</p><p>rematizam: “Celebrar-te-ei para sempre, porque agiste; proclamarei diante</p><p>de teus fiéis que teu nome é bom” (52,11) (veja-se Aletti-Trublet).</p><p>b) Os sentimentos</p><p>Não menos importante que o universo das crenças, muito mais comple­</p><p>xo e bastante descuidado é o universo dos sentimentos nos salmos. O</p><p>saltério foi para Israel grande escola de lírica, entendendo-se por essa a</p><p>expressão verbal da experiência pessoal ou alheia. Os salmos constituem</p><p>sobretudo expressão, mais do que informação ou interpelação. O homem</p><p>pode gritar diretamente os seus sentimentos, dizê-los em palavras aproxi­</p><p>madas e genéricas. O poeta transforma em palavra o sentir próprio e o</p><p>60 História da interpretação</p><p>alheio. Para fazê-lo, começa distanciando-se da experiência para observá-</p><p>la e analisá-la. Em seguida modelará sua linguagem para dar forma</p><p>comunicável ao sentimento. Essas operações, que distinguiu no empenho</p><p>de clareza, na realidade se sobrepõem. Muitas vezes a necessidade de</p><p>expressar obriga a analisar. Nesse sentido, o saltério é contribuição literária</p><p>que se distingue radicalmente da narração, tão objetiva e tão pouco psicoló­</p><p>gica de Israel. O saltério é autêntica criação de uma língua da interioridade.</p><p>O corpóreo, que num tempo é mero sintoma, como tremer de medo,</p><p>enrubescer de vergonha, vai se convertendo em universo de símbolos</p><p>descritivos e expressivos. “Tremo de medo” é objetivo, imediato; “o terror me</p><p>atenaza” é transformação expressiva porque personifica o sentimento e</p><p>apresenta o orante como vítima dessa personificação. Que o coração se me</p><p>retorça por dentro não é uma descrição fisiológica. Supõe primeiro o conceito</p><p>antigo de coração como sede de interioridade (os gregos antigos imaginavam-</p><p>na no diafragma, phrenes); imagina depois um movimento giratório (retor­</p><p>cer,</p><p>torqueo) do órgão, e com sujeito e verbo quer dar a entender uma</p><p>experiência unitária, onde talvez o poeta não distinga ainda entre corporal</p><p>e espiritual. Continua: “terrores mortais caem sobre mim”. A morte como</p><p>potência tem um séquito de subordinados, uma espécie de esquadrão de</p><p>esbirros, que são os terrores. Sinto que se lançam sobre mim, pesam sobre mim,</p><p>estendem-se sobre mim esmagando-me. Tampouco isso é descrição física.</p><p>Por que então não tentarmos fazer uma catalogação de sentimentos com</p><p>suas expressões, assim como Gunkel catalogou os gêneros dos salmos?</p><p>Porque é impossível. Já vimos como é pouco rigorosa a classificação de</p><p>Gunkel e que não melhorou muito, quanto à lógica de divisão e subdivisão,</p><p>os cinqüenta anos seguintes. Pois o mundo dos sentimentos é muito mais</p><p>complexo, é mais fluida a passagem de um a outro, mais livremente se</p><p>combinam e sobrepõem, são capazes de lutar entre si, mascaram-se e</p><p>desvanecem. Nem os psicólogos modernos dedicados à tarefa lograram uma</p><p>classificação comumente aceita. A classificação estóica das paixões (pathe),</p><p>com sua divisão elementar quaternária e suas subdivisões, continua sendo</p><p>útil apesar de milenária. Outras classificações podem fornecer distinções</p><p>orientadoras ou instrumentos de análise. E não se esqueça nossa língua</p><p>moderna com o seu rico repertório não sistematizado.</p><p>Foi publicada recentemente uma obra dedicada ao estudo de um</p><p>sentimento, aliás, fundamental: o medo.</p><p>Bruna Costacurta, La vita minacciata (Roma, 1988).</p><p>São mais de 300 páginas de análise e síntese.</p><p>T. J. Raja Rao, Agony and anguish: the Psalmist in his suffering, JEcuSt 18</p><p>(1988) 94-100.</p><p>Tarefas pendentes 61</p><p>Outro tanto seria preciso fazer com a confiança, o amor e o ódio, o desejo</p><p>e a indolência, a ira e a mansidão, a tristeza e a alegria, a compaixão e a</p><p>crueldade, a inveja e o apreço. E outros mais refinados, tais como despeito,</p><p>rancor, desgosto, nostalgia. A nossa linguagem moderna nos brinda com</p><p>abundante repertório, um campo semântico ainda não reduzido a campo</p><p>léxico. Com esse repertório, procuramos traduzir aproximadamente o texto</p><p>dos salmos (assim o esperamos); poderíamos nos valer dele para continuar</p><p>o estudo. Fica consignado aqui como tarefa futura, já que não posso sequer</p><p>começá-la no espaço desta introdução. E possível, sim, examinar breve­</p><p>mente alguns sentimentos e atitudes dominantes no saltério.</p><p>— Começo pelo louvor, próprio do hino. Quem louva, reconhece e</p><p>afirma a bondade do outro (prescindindo do louvor próprio). O louvor</p><p>significa abertura ao ser enquanto verdadeiro ou cognoscível e enquanto</p><p>bom. O louvor simples não é utilitarista nem interessado. A bondade</p><p>reconhecida gera gozo e, por isso, o louvor é gozoso. Opõe-se à inveja, que</p><p>é pesar pelo bem alheio, à mesquinhez de espíritos pequenos; é o contrário</p><p>da difamação. O louvor é generoso e com sua generosidade enriquece e</p><p>enobrece quem o sente e expressa. O louvor é extrovertido, enquanto se</p><p>dirige ao objeto; mas, louvando, alguém expressa seu gozo e nele se</p><p>confirma e o compartilha. Louvando, os israelitas descobriram a beleza/</p><p>bondade do universo, a maravilha de sua história. Louvar é a primeira</p><p>forma de se relacionar com Deus.</p><p>— Se o bem alheio nos foi comunicado como dom, favor, graça, então</p><p>sentimos agradecimento, expressamos reconhecimento. A palavra re-co-</p><p>nhecer implica conhecer aceito, a palavra a-gradec-imento contém a graça</p><p>recebida. Se bem que não seja interessado, o agradecimento é menos</p><p>gratuito do que o louvor. De alguma maneira se insinua nele um sentimento</p><p>de obrigação: o outro me faz um favor, mostrando assim sua bondade</p><p>comunicativa, e não posso menos que reconhecê-lo. O agradecimento so é</p><p>ser também gozoso e nobre. Consideramos reprovável a ingratidão. As</p><p>vezes um homem quereria não ter que agradecer a outrem: por quê? Porque</p><p>dever um favor sujeita, porque receber parece uma forma de inferioridade.</p><p>Porém a gratidão pode ser escola de generosidade.</p><p>— A confiança é segurança fundada em outro (prescindindo da</p><p>confiança própria, que não entra na oração). A confiança é inimiga do temor</p><p>e da dúvida. Pode estar no início de um processo ou no final. Não suplicamos</p><p>à pessoa de quem desconfiamos, de quem por qualquer motivo não espera­</p><p>mos obter o que desejamos. Também a confiança afirma a bondade de outro,</p><p>acrescentando seu poder e disponibilidade. Porém nem sempre começamos</p><p>por ela, mas ela pode ser o resultado final de um processo. As vezes o orante</p><p>quer confiar, o que é atitude crepuscular. Se quer, é que ainda não confia,</p><p>62 História da interpretação</p><p>mas confia que poderá chegar a confiar. Confia a médias, entre dúvidas que</p><p>procura dissipar e certezas que repete a si mesmo. A confiança pode-se</p><p>expressar nos salmos em tom tranqüilo e categórico ou com dramática</p><p>ambigüidade. Não está se dando ânimo o orante do Sl 27? Se está tão</p><p>seguro, para que servem tantas petições? Alguns comentadores cortam o</p><p>salmo em duas peças autônomas e opostas; pelo visto, não crêem no drama</p><p>da consciência.</p><p>— O arrependimento é outro sentimento complexo. Não pesar do que</p><p>me aconteceu, mas do que fiz, com juízo de valor negativo, com desejos de</p><p>desfazer o feito. A consciência desdobra-se em juiz de si mesma ou em</p><p>perseguidor de culpado que é ele mesmo. Perseguem-nos as conseqüências</p><p>e muito mais o fato, a nossa ação. Pelos seus motivos, pode emaranhar e</p><p>complicar o seu perfil. Muitas vezes pesa ao orante o que fez porque lhe pesa</p><p>o que depois lhe veio a suceder, sejam conseqüências imanentes da ação,</p><p>seja castigo extrínseco. No saltério, o sofrimento é muitas vezes revelador</p><p>de pecado e provocador de arrependimento. Mas o motivo pode ser também</p><p>porque Deus o aborrece (Sl 51): o juízo da consciência ajusta-se ao juízo de</p><p>Deus, e o Deus irado converte-se em Deus acolhedor. O homem não pode</p><p>desfazer o feito, mas Deus pode perdoá-lo. O fato incorpora-se como peça de</p><p>biografia, e oxalá sejam mínimas as suas conseqüências. Deus “se esquece”.</p><p>Do perdão brota um sentimento de paz, gozo e serenidade ou um júbilo que</p><p>clama e se comunica (Sl 28 e 51). A alegria de ter sido perdoado é sentimento</p><p>complexo de alguns salmos.</p><p>— A surpresa. Eis outro sentimento curioso, não catalogado pelos</p><p>estóicos. O surpreendente é mais do que o impressionante. R. Otto, descre­</p><p>vendo a categoria de “o santo”, falava de síntese de fascinação e terror. Diante</p><p>do objeto que o ultrapassa e o transborda, o homem descobre e sente sua</p><p>pequenez e fica surpreso. A majestade de uma cordilheira, a força de uma</p><p>catarata, a magnitude de uma catástrofe. O orante do saltério experimenta</p><p>esse sentimento diante de Deus e suas obras ou sinais: “Os habitantes dos</p><p>confins do orbe se surpreendem diante dos teus sinais” (Sl 65,9).</p><p>Admiração, pasmo, estupor encaixam-se na seção anterior e formam</p><p>parte também do louvor. Os gregos diziam que a admiração é mãe da ciência</p><p>ou do conhecimento. O saltério faz da admiração escada para o conhecimen­</p><p>to de Deus. Modelos de contemplação admirada da natureza são o Sl 104 e</p><p>Eclo 43. O Sl 8 se admira diante do firmamento estrelado da noite, e da</p><p>admiração passa à pergunta. Um passo significativo.</p><p>— A pena ou aflição é sentimento provocado pelo mal presente, e,</p><p>muito humanamente, ocupa boa parte do saltério, expressando-se de</p><p>muitas maneiras. Uma forma particular consiste em sentir como própria</p><p>a pena ou dano alheios, o que chamamos de compaixão. Muito próxima está</p><p>Tarefas pendentes 63</p><p>a piedade, embora os antigos reservassem a pietas para as relações</p><p>familiares ou para com a divindade. Quem não se compadece é cruel e</p><p>desapiedado, tipo que no saltério aparece na pessoa do inimigo. Em rigor,</p><p>piedade e compaixão referem-se a pessoas; por extensão podem-se voltar a</p><p>outros objetos. E notável e comovedor um versículo pela capital destruída:</p><p>“Teus servos amam suas pedras, até seu pó lhes dói” (102,15). Deus deve</p><p>adiantar-se sentindo piedade e compaixão do seu povo, do desvalido, do</p><p>pecador arrependido, em cujo caso se pressupõe que</p><p>o arrependimento se</p><p>traduzirá em ação. Pode ocorrer o contrário, que o homem sinta piedade de</p><p>Deus? Objetivamente não tem sentido; mas, psicologicamente, o orante</p><p>toma sobre si as ofensas feitas a Deus: “O zelo por teu templo me devora,</p><p>e as afrontas com que te afrontam recaem sobre mim” (69,10).</p><p>A pena quer de ordinário acalmar-se por remoção da causa. Curiosa­</p><p>mente, a pena busca às vezes prolongar-se, como que saboreando o reconto</p><p>dos males, ou como que sentindo-se protagonista que provoca e centra a</p><p>compaixão. O homem não quer ser desgraçado; porém, já que o é, quer ser</p><p>compadecido. E sente que a última instância de piedade e compaixão</p><p>encontra-se em Deus: “Ainda que meu pai e minha mãe me abandonem, o</p><p>Senhor me acolherá” (27,10). Expressa sentimentos de compaixão o Sl</p><p>35,14: “Como por um amigo ou um irmão, andava triste, cabisbaixo como</p><p>quem chora a mãe”. Busca a compaixão alheia 69,21: “Espero compaixão e</p><p>não há, consoladores, e não os encontro”.</p><p>— Contrária à piedade é a crueldade, que toma às vezes a forma de</p><p>superioridade e desprezo, expressando-se no riso sarcástico ou triunfador.</p><p>Sentimento do vencedor que se assanha com sua vítima. O orante o</p><p>descreve nos seus adversários: “Quando me aflijo com jejuns, caçoam de</p><p>mim; quando me visto de saco, riem-se de mim” (69,lls). Mais duramente:</p><p>"Riem-se a gargalhadas dizendo: ah! ah! nós o vimos com nossos olhos”</p><p>35,21). Mas ao frigir seguirá o rir, porque um dia será Deus quem rirá deles</p><p>■ 2,2; 37,13); então “retirar-se-ão, envergonhados, os que se riem de mim”</p><p>70,4).</p><p>— Não costumamos pôr entre os sentimentos o desejo e no entanto o</p><p>desejo vive-se muitas vezes com forte carga emocional: como ânsia, anelo,</p><p>expectação. Sente-se no espírito e no corpo, expressa-se talvez com suspi­</p><p>ros: “ ...minha carne anseia por ti” (63,2); “Minha alma se consome anelan­</p><p>do” (84,3).</p><p>— O sentimento de complacência e vaidade. A complacência pode</p><p>ter objeto alheio, a vaidade toma o sujeito como objeto. Alguns ricos</p><p>comentam: “Na vida se felicitavam: Ponderam o bem que lhe sucede”</p><p>49,19); é complacência de segundo grau, do louvor que arranca aos</p><p>outros. Ele passa bem, os outros o ponderam, ele se incha de prazer. O</p><p>64 História da interpretação</p><p>salmista sentencia sobre todo o complexo psicológico e social. Outros “se</p><p>comprazem na mentira” (62,5), sentem gosto nela. O prazer propositado</p><p>no mal é delito agravado. Com-placê-ncia envolve prazer por algo próprio</p><p>ou alheio. Se pelo alheio, pode expressar-se em felicitação, celebração.</p><p>Pode ser social e pública e gera festa. Acima de todos celebramos,</p><p>festejamos a Deus: o prazer é jubiloso e pode expressar-se sonoramente.</p><p>— A indignação inflama-se sobretudo diante da injustiça e do abuso.</p><p>Chega ao cúmulo diante da injustiça dos governantes, diante do abuso</p><p>contra os fracos, podendo descarregar-se em imprecações apaixonadas e</p><p>até violentas. Violência verbal. É o sentimento que domina os salmos</p><p>chamados de imprecação, é a face valiosa e legítima da vingança ilegal ou</p><p>maligna. Na indignação revela-se o amor da justiça. Pode-se citar o Sl 58</p><p>que interpela governantes e o Sl 137 que se confronta com estrangeiros.</p><p>Nessa seção podem-se alojar a ira, a cólera, o furor, que animam muitos</p><p>salmos. Não é bíblica a indiferença ou passividade.</p><p>■— Grande capítulo ter-se-ia de redigir sobre amor e ódio, rancor e</p><p>carinho, afeto e indiferença. Definem-se por seus objetos: a quem, o que</p><p>ama o orante? A Deus sobre tudo, o seu povo, o país e a capital, o templo,</p><p>a lei, a família; aborrece os malvados, os idólatras, a intriga, a mentira e a</p><p>duplicidade. Mas, ainda que seja tão central, o amor é anunciado secamen­</p><p>te, não analisado em suas facetas e seus processos.</p><p>— A introspecção se exalta quando o orante observa em si luta de</p><p>sentimentos, como público de peça dramática que nele se representa, que</p><p>ele representa. O orante do Sl 42-43 debate-se entre a esperança e o</p><p>desesperança, e no estribilho se exorta por três vezes. No Sl 73 é um</p><p>problema vital que o angustia, e se debate entre a consciência de sua</p><p>retidão, o êxito dos malvados e o malogro da doutrina da retribuição; num</p><p>aparte diz: “Meu coração se azedava e me pungia meu interior” (73,20). O</p><p>orante do Sl 77 debate-se entre sua fé tradicional na proteção divina e a</p><p>experiência de um presente de abandono. O orante do Sl 39 debate-se entre</p><p>falar e calar, por medo de dizer barbaridades: “Guardei silêncio resignado,</p><p>contive-me inutilmente, minha ferida piorou, o coração me ardia por</p><p>dentro; pensando-o me requeimava, até que soltei a língua” (39,3s).</p><p>A maneira de amostras, repassarei doze pontos, germe de possíveis</p><p>monografias ou capítulos, modelos de estudo semelhantes. Recordemos a</p><p>importância que os salmos dão à sinceridade, ou seja, à expressão autêntica</p><p>de sentimentos e atitudes.</p><p>Dado o caráter programático desse capítulo, ouso acrescentar uma</p><p>lista de sentimentos que se poderiam estudar no saltério. Embora teria sido</p><p>mais lógico agrupá-los por oposição e semelhança, contento-me com a</p><p>ordem alfabética:</p><p>Tarefas pendentes 65</p><p>aborrecimento desgosto inquietação pressentimento</p><p>admiração desejo ira rancor</p><p>afeto desilusão mágoa remorso</p><p>alegria despeito medo ressentimento</p><p>ambição dó nostalgia satisfação</p><p>amor entusiasmo ódio serenidade</p><p>angústia esperança otimismo simpatia</p><p>antipatia excitação passividade sinceridade</p><p>benevolência humilhação pena temor</p><p>carinho ilusão pesar tristeza</p><p>ciúme inveja pessimismo vergonha</p><p>compaixão indiferença piedade</p><p>desconfiança indolência preocupação</p><p>c) A linguagem</p><p>Algo apareceu ao tratarmos da expressão verbal dos sentimentos.</p><p>Muito mais permanece por dizer no comentário, já que a análise da</p><p>linguagem é uma de minhas preocupações principais. Contento-me a essa</p><p>altura com algumas observações gerais.</p><p>Formular um sentimento prolonga-o, intensifica-o ou acalma-o, esgo­</p><p>ta-o ou renova-o, aclara-o à consciência. Não basta a sinceridade diante de</p><p>Deus e dos homens; é preciso também uma linguagem apta. Porém, é</p><p>possível dar forma verbal à nossa interioridade, à profundidade de nossa</p><p>relação com Deus? Até certo ponto é possível, estilizando o complexo, com</p><p>a mediação dos símbolos. Precisamente essa é uma das tarefas dos compo­</p><p>sitores de salmos: dar forma verbal apta aos sentimentos religiosos, na</p><p>presença de Deus e da assembléia.</p><p>O louvor pode empregar a linguagem descritiva, de traços breves, miú­</p><p>dos ou grandiosos; pode trabalhar por enunciado e por alusão. Se narra,</p><p>pode congelar um fato ou uma série em particípios predicativos, em títulos;</p><p>supondo conhecida a história, contenta-se muitas vezes com fixar o momen­</p><p>to culminante ou com aludir.</p><p>A súplica emprega a linguagem retórica da persuasão. Ama a ampli­</p><p>ficação e a acumulação, não teme a hipérbole, insiste, reitera.</p><p>A expressão psicológica pode nos ser surpreendente por sua densidade</p><p>corpórea, que testemunha a consciência de unidade do homem, antes de</p><p>qualquer dicotomia. Os sentimentos podem-se expressar diretamente, em</p><p>interjeções, ou tematizados. Abundam imagens e símbolos. As vezes</p><p>assiste-se ao desdobramento do eu que fala.</p><p>Recordemos, para terminar, a linguagem da interpelação profética, a</p><p>linguagem performativa que convoca ao louvor, a linguagem da teofania.</p><p>66 História da interpretação</p><p>a) Os salmos como expressão</p><p>Resta-nos um ponto importante, talvez o mais importante: a apro­</p><p>priação, fazer nosso o salmo como oração, como expressão válida de nossos</p><p>sentimentos dirigida a Deus. Podemos entender os salmos como documento</p><p>curioso de uma cultura antiga. Não é esse o sentido autêntico e original dos</p><p>salmos, que foram compostos para serem rezados e meditados. O sentido</p><p>original de um salmo consuma-se cada vez que um homem o pronuncia como</p><p>oração sua dirigida a Deus.</p><p>A. Schenker, Das Gebet im Lichte der Psalmen: BKI (1980) 37-41.</p><p>Os salmos também são poesia. Com eles, o crente ou a comunidade</p><p>professa suas crenças, expressa seus sentimentos espirituais, incita-se à</p><p>ação; as três coisas, atos religiosos, podem fundir-se</p><p>florescimento</p><p>nos séculos XV a XVII. Nos fins do século XVIII advém a era da crítica na</p><p>qual nos encontramos. Dentro dela, Gunkel é o cume que marca mudança</p><p>de direção, ainda que não esgote as possibilidades e exigências da interpre­</p><p>tação. Por isso falarei das tarefas pendentes, que o meu comentário quer</p><p>levar em conta.</p><p>Esse percurso nos possibilitará apreciar como os antigos já estiveram</p><p>conscientes de muitos problemas que hoje tratamos com outros métodos. A</p><p>panorâmica histórica nos cura de provincianismo, denuncia as pretensões</p><p>de monopólio de um método, alarga o nosso horizonte atual.</p><p>Depois dessa ampla exposição, virá a Introdução costumeira, com uma</p><p>bibliografia seleta.</p><p>12 História da interpretação</p><p>1. Período de formação</p><p>do Antigo Testamento1</p><p>a) Interpretação incorporada ao texto</p><p>A distinção entre interpretação reprodutiva e interpretação explicativa</p><p>tem especial aplicação no caso dos salmos. Porque os salmos, de modo</p><p>particularíssimo, nascem ou são destinados à execução: devem ser recitados</p><p>ou cantados. Recitadores e cantores são os seus intérpretes primários. E</p><p>verdade que qualquer texto literário deve ser reproduzido para viver, ao</p><p>menos na mente silenciosa de um leitor. Mas outros textos nascem simples­</p><p>mente para serem escutados; os salmos, para serem rezados. Se o poeta lírico</p><p>faz falar o seu eu no poema, o autor dos salmos se sacrifica, se retira da cena,</p><p>para que outros, talvez desconhecidos e futuros, tomem seus versos e digam</p><p>neles “eu”. De verdade, não com a ficção do autor dramático. Na Bíblia</p><p>hebraica e na versão grega da Setenta ficaram pegadas desse destino à</p><p>recitação e ao canto, como veremos mais abaixo.</p><p>Nas páginas seguintes tratarei primeiro da interpretação explicativa.</p><p>Pois bem, antes de fixar-se no texto definitivo dos salmos hebraicos, o</p><p>trabalho de interpretação acompanhava o texto e às vezes lograva somar-</p><p>se a ele, introduzir-se nele. O que alguns especialistas chamam de “história</p><p>da redação” refere-se em boa parte a trabalho de explicação e adaptação que</p><p>sedimenta sobre texto provisoriamente constituído. No curso da exegese é</p><p>preciso levarem conta esse trabalho. Nessa introdução histórica, interessa-</p><p>me a interpretação que fica fora do texto quando esse já é definitivo.</p><p>b) Processo de canonização</p><p>Paralelo ao precedente, outro fato importante sucede aos salmos na</p><p>história de Israel: o processo de canonização. Não podemos reconstituir</p><p>etapas e datas desse processo, porém sim podemos refletir sobre suas</p><p>implicações e conseqüências hermenêuticas.</p><p>Os salmos não se conservam como monumento nacional ou funerário,</p><p>como mera recordação histórica, mas como repertório para o uso repetido. Ao</p><p>serem contidos e encerrados num cânon, ficam institucionalmente abertos.</p><p>Outras pessoas poderão e deverão ocupar o eu do orante original; outras</p><p>circunstâncias análogas impor-se-ão como referência do texto original.</p><p>Isso é óbvio nos salmos que nascem como peças disponíveis de repertório,</p><p>^ o a parte das informações e muitas sugestões úteis para essa síntese histórica devo a meu colega</p><p>Pierre Prouxl.</p><p>Período de formação do AT 13</p><p>mas também ocorre com salmos que brotam de circunstância única.</p><p>Desprendem-se dela como modelos de novas situações semelhantes: um</p><p>desterro semelhante e modelo de outro, um retorno de outro, uma vitória</p><p>de outra. A canonização dos salmos é ato interpretativo.</p><p>Existe momento histórico ou princípio teórico que feche a abertura</p><p>descrita? Poder-se-ia fixar limite numérico artificial, de 150; tão artificial</p><p>que não funciona. Poder-se-ão fazer coleções díspares de tamanho. A</p><p>disponibilidade dos salmos, como direito de nascimento ou privilégio</p><p>adquirido na canonização, não pode ser abolida. Que isso trará ampliações</p><p>e transposições de sentido, especialmente dos símbolos, é conseqüência</p><p>necessária da disponibilidade; não lamentável, mas feliz, porque é sinal de</p><p>riqueza expansiva. Se “para sempre” significava “para a vida” no horizonte</p><p>do autor e de algumas gerações de orantes, um dia “para sempre” se</p><p>prolongará para além da morte, a outra vida duradoura. Não se trata de</p><p>deformação nem de perda de sentido, mas de dar todo o sentido às palavras.</p><p>Se um salmo canta que “o Senhor virá”, quem fixa limites ao modo de sua</p><p>vinda? Até onde pode chegar o sentar-se à direita de Deus?</p><p>c) Títulos e coleções</p><p>As primeiras manifestações de trabalho interpretativo são as cole­</p><p>ções e os títulos. Reunir os salmos em cinco livros ou coleções não é mero</p><p>expediente prático, mas significa interpretar o corpo de orações oficiais</p><p>como correspondente ao Pentateuco. “De sorte que o saltério seja outro</p><p>pentateuco”, diziam autores antigos. Por esse artifício, aparentemente tão</p><p>extrínseco, o Davi ideal dos salmos réplica ao Moisés da Torá.</p><p>Mais diretamente interpretativos são os títulos bíblicos em dois</p><p>aspectos: a referência histórica e a etiqueta do gênero.</p><p>Referência histórica. Ao longo do Antigo Testamento, desde Ex 15 até</p><p>Jz 16, tropeçamos com salmos ou cânticos inseridos numa situação histó­</p><p>rica ou narrativa.2 Trata-se de artifício narrativo que detém e retarda o</p><p>curso do relato, que eleva até Deus a experiência histórica, que convida o</p><p>leitor a participação mais intensa. De mais a mais, o artifício reflete</p><p>provavelmente práticas litúrgicas e é correlativo da atribuição de títulos</p><p>históricos a determinados salmos. Trata-se de atribuir salmos a situações</p><p>históricas narradas. Em 2Sm 22 e no livro das Crônicas o processo é feito</p><p>com peças do saltério, e o costume penetrará no Novo Testamento.</p><p>Somente 23 salmos levam no título referência histórica concreta,</p><p>quase sempre aludindo a algum episódio da vida de Davi: “quando fugia de</p><p>^Veja-se A. Gonzâles Núnez, La oración em la Biblia, Madri, 1968.</p><p>14 História da interpretação</p><p>seu filho Absalão” (3,1); “quando fugiu diante de Abimelec e este o deixou</p><p>ir” (34,1); “quando se lhe apresentou o profeta Natã por suas relações com</p><p>Betsabéia” (51,1) etc. Em certo sentido, esse é trabalho de crítica histórica,</p><p>que busca na história conhecida por outros documentos a origem e razão de</p><p>ser de salmos particulares; indiretamente estabelece uma cronologia,</p><p>ainda que não passe a descrever processo histórico.</p><p>Ainda que desses prólogos não tenhamos mais do que 23, a minoria tem</p><p>força de atração ou difusão. Ao apresentar Davi como autor de 72 salmos,</p><p>e a contemporâneos seus (mais ou menos) como autores de outros 23, o</p><p>intérprete é convidado a buscar na vida de Davi a circunstância histórica</p><p>coerente com o conteúdo do salmo em questão. E muito provável que essa</p><p>atividade interpretativa seja muito antiga, mas não se tomou série sistemá­</p><p>tica de títulos. Os seus resultados terão corrido oralmente, até ser recolhidos</p><p>e transmitidos nos textos targúmicos e midráxicos. E impossível remontar</p><p>até a origem e seguir o curso dessa suposta atividade interpretativa.</p><p>Quanto aos gêneros poéticos dos salmos, os títulos nos desconcertam,</p><p>pois as suas etiquetas não correspondem a características formais ou de</p><p>conteúdos coerentes. Os títulos dizem mizmor, maskil, miktam, shir e</p><p>compostos. Etiquetar é maneira rudimentar de interpretar. Mas permane­</p><p>ce oculto para nós o critério aplicado pelos autores dessas indicações dos</p><p>títulos.</p><p>Autor, circunstância histórica, gênero, três preocupações ativas nos</p><p>velhos títulos, que persistirão com mudanças ao longo dos séculos. Repeti­</p><p>damente se perguntarão os comentadores: quem compôs o salmo?, em que</p><p>circunstância?, como se classifica?3</p><p>2. Os salmos no Novo Testamento</p><p>a) Interpretação por citação ou alusão</p><p>O Novo Testamento introduz um fator novo e radical de interpretação</p><p>dos salmos: a referência a Jesus, messias vindo ao mundo da parte do Pai.'</p><p>Isaías e os salmos são os livros mais citados no NT. Entre citações formais,</p><p>frases ocasionais e alusões, um editor moderno do NT pode registrar cerca</p><p>de quatrocentas presenças. Existem salmos preferidos por sua repetição (2;</p><p>110) ou por sua densidade (22). No uso, não se distinguem os evangelhos</p><p>na palavra poética, no</p><p>poema. Posso estudar a vertente artística e fazer poética ou estilística;</p><p>posso estudar a vertente religiosa e fazer teologia. Se metodicamente</p><p>separo a dimensão poética da religiosa é para que depois se fundam na</p><p>nova, viva, oração do crente. O estudioso de ótica pode analisar e distinguir</p><p>as cores; o pintor pode aplicar diretamente o verde sem dar primeiro uma</p><p>camada de azul e depois uma de amarelo.</p><p>Os salmos são poesia e oração: são expressão de experiências religio­</p><p>sas, dirigida para Deus. Se nos fixarmos no termo, Deus, os salmos in­</p><p>terpelam; se nos fixarmos no orante, os salmos expressam. Assim distin­</p><p>guimos este corpo literário da profecia, que é interpelação de Deus ao</p><p>homem, e da história, que é primariamente informação. E verdade que toda</p><p>palavra de Deus ao homem o interpela; também os salmos. Contudo, e</p><p>dentro dessa virtualidade geral, os salmos têm estatuto próprio, porque</p><p>colocam em primeiro plano o protagonismo humano. Como portadores de</p><p>Espírito (palavra inspirada), capacitam o homem a dirigir-se validamente</p><p>a Deus, em espírito e com verdade. O protagonismo do homem pode ter</p><p>diversos graus de individualidade. Na oração privada, dão-se momentos de</p><p>absoluta individualidade irrepetível. Nos salmos, sacrifica-se o radical­</p><p>mente individual para expressar o atualmente compartilhado por uma</p><p>comunidade ou o compartilhável por diversos indivíduos. Só que cada um</p><p>compartilha a seu modo.</p><p>Os salmos, enquanto oração, propõem agudamente o problema da</p><p>experiência religiosa. Se é verdade que o quanto alcançamos entender de</p><p>Deus o alcançamos do nosso ponto de apoio, ainda que elevados pelo</p><p>Espírito, que o captamos enquanto nos toca e nos invade, também é</p><p>11. A apropriação</p><p>A apropriação 67</p><p>verdade que a oração empurra o orante para o primeiro plano. A expressão</p><p>se faz na primeira pessoa: ao orar, o homem adianta-se e parece tomar a</p><p>iniciativa, se bem que movido pelo Espírito.</p><p>b) Compreender os salm os</p><p>Compreender a experiência humana religiosa poeticamente expressa</p><p>não é recair no psicologismo? Não. Porque não tencionamos invadir a mente</p><p>do autor para repetir sua experiência, mas nos atemos a textos poéticos</p><p>para realizar experiência semelhante ou equivalente, nossa. O salmo</p><p>expressa experiência humana, mas não necessariamente nem imediata­</p><p>mente a do autor. Não necessariamente, porque o poeta pode ter composto</p><p>por encomenda, sem ter passado pessoalmente pela situação suposta; não</p><p>imediatamente, porque se interpõe a obra portadora de sentido.</p><p>Para compreender os salmos como oração, é preciso sintonizar com</p><p>eles. Se é difícil entender textos religiosos quando não se crê, é dificílimo</p><p>entender orações quando se é incapaz de orar. Poderá a analogia estender</p><p>uma ponte elevadiça, no final tropeçaremos com um portão fechado.</p><p>Comparem-se as expressões: “algo assim como quando.. e “justo o que me</p><p>acontece”. Não nos basta o colorido que pode imaginar um cego de nasci­</p><p>mento.</p><p>E preciso compreender os salmos como poem as. Não apelamos a uma</p><p>telepatia espiritual que ponha em contato duas mentes sem mediação</p><p>verbal. O poema está aí e é nosso objeto primário de estudo. Em poesia não</p><p>conta o que sentiu de fato o autor, mas sua expressão válida; válida prin­</p><p>cipalmente para o leitor que a faz sua. Num poema conta antes de tudo o</p><p>seu universo poético, a sua linguagem e a sua organização. Para mais</p><p>pormenores, remeto o leitor a meu M anual de poética hebrea (Madri, 1987).</p><p>O contexto vital ou situação de que falava Gunkel, por exemplo, o</p><p>uso em cerimônia litúrgica, pode ser superficial com respeito à consci­</p><p>ência dos que oram. Uma coisa é descrever uma liturgia penitencial, com</p><p>suas partes e suas personagens, outra coisa sentir o pecado e a condição</p><p>pecadora, tal como a descreve Paulo em Rm 7 ou como a expressa o Sl 51.</p><p>Em princípio, a compreensão da experiência religiosa ou da fé é mais pro­</p><p>funda e importante do que a descrição, útil sem dúvida, de uma situação</p><p>em uso.</p><p>c) Apropriação e mediação</p><p>O salmo que expressou a experiência de um homem ou uma comuni­</p><p>dade tem que converter-se em expressão religiosa de um novo homem ou</p><p>comunidade. Para isso, tem que se produzir uma experiência análoga ou</p><p>68 História da interpretação</p><p>equivalente, e o salmo deverá converter-se em sua expressão válida. Sobre</p><p>a radical unidade humana atua o único Espírito:</p><p>“As duas coisas são verdade: que são nossa voz e não o são, que são voz</p><p>do Espírito e não o são. São do Espírito de Deus porque se ele não as</p><p>inspirasse, não as diríamos; não são dele, porque não está necessitado nem</p><p>sofre. Essas vozes são próprias de necessitados que sofrem. São nossas,</p><p>porque expressam nossa necessidade; não são nossas, porque é dom seu</p><p>também a nossa capacidade de gemer” (Agostinho, Enarrationes in Psalmos</p><p>XXVI, 1).</p><p>Além de oferecer-se como expressão válida de experiência, os salmos</p><p>podem mediar experiência análoga ou vicária, contanto que haj a disposição</p><p>básica. O Espírito, que inspirou os salmos e sopra neles, promove em nós</p><p>experiência de fé semelhante:</p><p>“Se o salmo ora, orai; se geme, gemei... Tudo o que aí se escreve é espelho</p><p>que nos reflete” {Ibid., XXXIII,1).</p><p>Pela compreensão queremos chegar à apropriação; mas essa permite</p><p>compreensão melhor: assim em alternância que intensifica ou em espiral</p><p>que se dilata.</p><p>S. Schneider,Das Denken inBildern als Voraussetzung für das persönliche</p><p>Psalmenbeten: BK 35 (1980) 37-41.</p><p>d) A verdade dos salmos '</p><p>Um poema tem sentido e tem valor. Se há poemas ruins e falsos, não</p><p>me ocupo agora deles. Ainda o que os saxões chamam de non-sense, por</p><p>exemplo, Jabberwock, tem o seu sentido. Dizer que os salmos são poemas</p><p>religiosos não é rebaixar o seu valor, mas exaltá-lo. Quem põe a poesia no</p><p>rol das palavras cruzadas ou da literatura de evasão não deveria dedicar-</p><p>se à poesia nem opinar sobre ela.</p><p>Um poema tem o seu sentido e a sua verdade. Um poema de tipo</p><p>“expressivo” tem o seu sentido e a sua verdade referidos à experiência</p><p>expressa. Podemos desafogar nosso sentimento numa interjeção, grito</p><p>apenas articulado. Podemos descrevê-lo em discurso enunciativo, como</p><p>fazem muitas vezes os novelistas. O poeta lírico transforma o sentimento,</p><p>próprio ou alheio, em poema: veja-se o comentário ao Sl 133.</p><p>Dizemos que a experiência é verdadeira quando alcança o seu termo</p><p>real. Em outras palavras, a experiência não é puramente imanente, porque</p><p>tende a um termo extrínseco a ela; não é pura ilusão, porque de algum modo</p><p>alcança o seu termo. Quem ora pronunciando um salmo alcança realmente</p><p>o Deus verdadeiro, adora-o espiritualmente e de verdade.</p><p>A apropriação 69</p><p>A expressão da experiência pode ser sincera, fingida ou fictícia. É</p><p>sincera se a expressão corresponde ao sentimento, se concordam lábios e</p><p>coração. É fingida a expressão quando não corresponde ao sentimento:</p><p>aquele que fala finge, é hipócrita ou recita como papagaio. Mais sutil é a</p><p>categoria do fictício, que não se opõe à verdade. Ainda que o poeta não sinta</p><p>pessoalmente, faz seu o sentimento alheio para dar-lhe forma poética</p><p>verdadeira e sincera. A expressão não corresponde ao eu do poeta, é fictícia;</p><p>corresponde ao eu do poema, não é fingida. Ao contrário, aquele que se</p><p>apropria dela para orar não tem direito a fingir.</p><p>O poema deve ser verdadeiro como expressão válida da experiência</p><p>humana. Não só pela coerência interna de seu universo poético, mas sua</p><p>referência ao sentimento de onde parte. O poeta de alguma maneira</p><p>generaliza: saca do individual o compartilhável, eleva a categoria exemplar</p><p>o dado individual.</p><p>O salmo revela o homem tocado por Deus, Deus tocando o homem. O</p><p>seu sentido pode ser atualizado por apropriação.</p><p>e) Oração nossa</p><p>Chegamos à etapa final, a decisiva, a que justifica todo o anterior; e,</p><p>para explicá-la, recorro a dois exemplos.</p><p>O do enamorado topando com o poema que diz o que ele sente e não</p><p>sabe dizer. Seria capaz de assinar o poema e enviá-lo à sua amada (se bem</p><p>que hoje não se usam declarações em verso). É um caso</p><p>entre muitos outros</p><p>semelhantes, pois uma parte da literatura funcional se compõe para que</p><p>dela se apropriem outros, individual ou coletivamente: um hino nacional,</p><p>um canto de resistência, os hinos de corporações ou grupos. No civil como</p><p>no religioso, o poeta colige o sentimento de muitos e põe na boca deles as</p><p>palavras que compõe.</p><p>Um caso correlativo é o daquele que se contagia com as palavras do</p><p>poema, a sós ou compartilhadas com outros. Começa a sentir o que não sentia,</p><p>adquire sinceridade o que era fórmula, cresce e se afirma o que indicava.</p><p>Cyrano de Bergerac nos oferece um caso mais sutil e complexo.</p><p>Outro exemplo é o do ator dramático, já sugerido na prosopologia dos</p><p>Padres e explícito num texto do abade medieval Gerhoh. O autor dramá­</p><p>tico estuda sua personagem para entrar nela ou para metê-la dentro de</p><p>si. Deve encarná-la em sua palavra e gesto. Quando o autor estuda o seu</p><p>papel, não exercita somente a memória ou a inteligência, mas mobiliza</p><p>todas as suas faculdades. A fantasia se transfere à situação da persona­</p><p>gem, entram em jogo emoções, fortes ou sutis, flexíveis e matizadas, a</p><p>dicção convoca re-cursos expressivos, amplo repertório de gestos se</p><p>70 História da interpretação</p><p>oferece para servir. Quando o ator representa sua personagem, apresenta</p><p>sua verdade, que é verdade do homem ou sobre o homem. Mas toca num</p><p>limite: quando abandona o cenário, deixa de ser a personagem e retorna</p><p>à sua personalidade. Ainda que se registrem casos de contágio, em que a</p><p>representação transforma o ator, e situações em que a realidade e ficção</p><p>se sobrepõem, bivalência explorada em Um drama novo e em obras</p><p>semelhantes.</p><p>Os exemplos são superados pelo crente que reza um salmo. Porque não</p><p>representa outrem, mas entrega sua pessoa à oração. Faz suas as palavras</p><p>do salmo sujeitando-se a elas. Sem fingimento nem ficção, revive uma</p><p>experiência vicária mediada pelo salmo e depois a expressa sincera e</p><p>validamente com as palavras do salmo. Identifica-se, não com o autor, mas</p><p>com o eu do poema, com o orante. O orante é agora ele ou eles. Isso foi</p><p>compreendido e formulado muito bem pelos antigos comentadores dos</p><p>salmos.</p><p>f) Oração cristã</p><p>Repetir uma experiência equivalente, fazer suas as palavras do poema</p><p>não é renunciar à nossa personalidade nem ao nosso mundo. Não precisa­</p><p>mos viajar ao passado para rezar os salmos como os judeus de cerca de 25</p><p>séculos atrás. Ao contrário, transferimos os salmos à nossa época a fim de</p><p>rezá-los como cristãos. Isso significa mudança de horizonte com todas as</p><p>suas conseqüências. Tampouco um judeu atual reza igual a um contempo­</p><p>râneo de Ezequias, porque não tenciona nem pode abolir sua modernidade</p><p>e a história interposta. No caso do cristão sobrepõe-se a novidade recriadora</p><p>do mistério de Jesus Cristo e de sua revelação.</p><p>Explícita ou implicitamente, um cristão sempre se dirige a Deus Pai</p><p>“por Jesus Cristo nosso Senhor”. Se pretendesse excluí-lo expressamen­</p><p>te, deixaria de rezar. Esse fato fundamental, garantido pelo Espírito</p><p>que nos ensina a orar, pode ser explicado e fomentado por dados</p><p>subministrados pelo NT, pelos Padres, pela liturgia, e por outros co­</p><p>mentários tradicionais. Para isso não mudo o texto dos salmos, mas os</p><p>transporto a nova chave, coloco-os no horizonte da revelação e experiência</p><p>cristã.</p><p>Basta-me afirmar aqui o princípio, que corresponde a minha convicção</p><p>e prática pessoal. Para mais dados teóricos, remeto-me ao capítulo sobre a</p><p>interpretação do AT do livro Comentários a laDei verbum (2&ed. preparada</p><p>por A.M. Artola, Bilbao 1991, com o título La palabra de Dios en la historia</p><p>de los hombres). E para a prática, o leitor encontrará uma breve secção de</p><p>“transposição cristã” no final de cada salmo.</p><p>A apropriação 71</p><p>g) Outros salmos</p><p>Uma vez assimilados os salmos como oração, podem converter-se em</p><p>matriz geradora de textos semelhantes, por imitação direta ou por inspira­</p><p>ção global. Nessa atividade, a linguagem dos salmos desdobra de novo o seu</p><p>potencial. Nesse quadro entram os hinos cristãos de que falei na exposição</p><p>histórica e muitos outros de tantos poetas que se deixaram inspirar pelos</p><p>salmos bíblicos. Já que não posso fazer um apanhado assinalando-lhes o</p><p>seu lugar, dou-me por satisfeito e concluo minha exposição.</p><p>INTRODUÇÃO AOS SALMOS</p><p>II</p><p>1. Dados gerais</p><p>a) Falta a apresentação</p><p>Em nossos livros modernos estamos acostumados a encontrar no</p><p>pórtico ou nas primeiras páginas informações precisas sobre o autor, título,</p><p>data e editor. Tanto que assinalamos expressamente um livro como</p><p>anônimo ou sem data ou sem lugar de impressão. Preocupa-nos bastante</p><p>a exatidão dessa página e condenamos quase todos os artifícios. Digo</p><p>“quase”, porque aceitamos o truque de um título comercial, um sintagma</p><p>voltado para o público mais do que para o conteúdo do livro. Em livros</p><p>científicos, porém, nos molesta esse artifício; inclusive acrescentamos um</p><p>subtítulo para precisar o conteúdo do livro. Como se isso fosse pouco, aos</p><p>dados do autor e data adjudicamos direitos jurídicos que os asseguram e</p><p>protegem.</p><p>Os autores antigos não tinham a mesma preocupação. Ordinariamen­</p><p>te despreocupavam-se, não assinavam, não reclamavam direitos de autor.</p><p>Inclusive acolhiam a um homem ilustre do passado sua produção não</p><p>menos ilustre (por exemplo, a obra do Segundo Isaías). Quando eruditos</p><p>posteriores intentavam submeter uma obra ou um conjunto a um autor,</p><p>não poucas vezes usavam um nome ideal, de grande ressonância (por</p><p>exemplo, Moisés como suposto autor do Pentateuco ou Torá).</p><p>Algo parecido sucede com os salmos. Hoje chamamo-lo Livro dos</p><p>salmos ou Salmos simplesmente; ontem acrescentavam “de Davi”. E uma</p><p>ficção sonora ou elipse cômoda. O livro é uma coleção de orações, uma</p><p>espécie de devocionário. Melhor dito, é uma coleção de coleções.</p><p>b) Saltério</p><p>O morfema espanhol e português -erio indica coleção ou repertório,</p><p>como evangeliário, dicionário, lecionário, formulário, etc. Em hebraico é</p><p>seper tehillim ou livro de hinos (às vezes abreviam em spr tlym).</p><p>Dados gerais 73</p><p>Tehillim, da raiz hll, significa hinos, loas, encómios, cantos de louvor.</p><p>Tratando-se de repertório de orações, o destinatário do louvor é Deus, o</p><p>Senhor de Israel e de todo o mundo, senhor dos exércitos estelares, etc. O</p><p>gênero loa deu o nome a toda a coleção, porque é título amplo ou porque</p><p>louvar a Deus considera-se a tarefa primária de quem ora. Creio que esse</p><p>título já é enunciado teológico: “O homem é criado para louvar... a Deus”.</p><p>Se, deixando o título, fizermos uma recontagem, provavelmente encontra­</p><p>remos que é maior o número das súplicas. Como se a primeira tarefa do</p><p>homem fosse louvar a Deus, ao passo que a mais urgente é pedir, suplicar:</p><p>“Orar é elevar o coração a Deus e pedir-lhe mercê”.</p><p>Prescindindo da distinção em loas ou encómios e súplicas ou pedidos,</p><p>0 livro poder-se-ia chamar manual de oração, se o conceito e o objeto</p><p>chamado “manual” já fôra inventado na antiguidade. Outra denominação</p><p>possível seria “repertório oficial de orações”.</p><p>Acrescentei um adjetivo, “oficial”, que nos leva a outra observação. E</p><p>provável que os israelitas conhecessem e usassem muitas outras orações.</p><p>Ao longo do Antigo Testamento encontram-se espalhados outros “salmos”</p><p>1 Angel González Núnez dedica-lhes um livro de 450 páginas: La oración en</p><p>laBiblia [Madri 1968]; inclui também o NT). Todavia, num momento de sua</p><p>história, os judeus estabeleceram uma coleção oficial de orações, formaram</p><p>um “cânon”. Os salmos são livro canônico.</p><p>Canonizar um livro ou coleção é confessar e declarar que seu conteúdo</p><p>é sagrado, que, de algum modo não precisado, o livro é obra de Deus. Essa</p><p>é a convicção de toda a tradição, judaica e cristã, sem distinção. Pois bem,</p><p>o cânon do AT divide-se em três grupos: torá ou Pentateuco, nebi’im</p><p>anteriores ou texto narrativo e posteriores ou profetas, e ketubim ou</p><p>escritos (em grego hagiographa). No terceiro item entram os três livros</p><p>poéticos, Jó, Provérbios e Salmos (pelas iniciais hebraicas,’emet), mais os</p><p>cinco rolos</p><p>ou megillot (repartidos segundo as festas), finalmente Dn Esdr</p><p>Ne Cr.</p><p>Dados abundantes com textos citados em língua original e tradução em</p><p>Jakob Ecker, Porta Sion (Tréveros 1903) 6-12.</p><p>A classificação é posterior e erudita, não é parte da inspiração (Lc 24,44</p><p>diz panta tagegrammena en toi nomoi moyseos kai prophetais kaipsalmois).</p><p>Atendendo a outros critérios, nós agrupamos naNueva Biblia Espahola, os</p><p>Salmos, o Cântico e as Lamentações como livros poéticos, diversos dos</p><p>sapienciais.</p><p>Pouco peso tem para nós a notícia de lCr 25,1, que fala de “inspiração”</p><p>ou atividade profética dos descendentes de Asaf (em hebraico hannibbe’im).</p><p>Qimchi tomava-o como testemunho de atividade profética, ainda que de grau</p><p>74 Introdução aos salmos</p><p>inferior. Maimônides sempre distinguiu a atividade do salmista da proféti­</p><p>ca. Testemunhos em Ecker, l.c.</p><p>c) Número e numeração</p><p>O número oficial é 150, no hebraico como nas coleções antigas (o 151</p><p>considera-se adventício, não canônico). Que se trata de número artifi­</p><p>cial, três cinqüentenas e cinco trintenas, mostram-no vários argumen­</p><p>tos: numeração diversa nas versões, duplicados, união ou separação de</p><p>peças.</p><p>A numeração não coincide em hebraico e nas versões antigas, do que</p><p>segue-se confusões ou a necessidade de pôr número duplo, um entre</p><p>parêntesis. Dou a correspondência em quadro sinótico</p><p>Grego-Latim Hebraico</p><p>1-8 1-8</p><p>9A 9</p><p>9B 10</p><p>11-112 12-113</p><p>113,1-8 114</p><p>113,9-26 115</p><p>114 116,1-9</p><p>115 116,10-19</p><p>116-145 117-146</p><p>146 147,1-11</p><p>147 147,12-20</p><p>148-150 148-150</p><p>No final coincidem os dois (como o pianista e o violinista: “no caldeirão</p><p>nos encontramos”). Daqui em diante, se não disser o contrário, citarei o</p><p>hebraico, porém na bibliografia algumas vezes é necessário respeitar outra</p><p>numeração.</p><p>O artifício alfabético mostra que o 9 e 10 formam um salmo único, como</p><p>testemunham as versões; o estribilho obriga a unir 42 e 43; 117 parece</p><p>estribilho mais do que salmo autônomo. O 53 é variante do 14. Alguns são</p><p>compostos de peças de outros: 40,14-18=70; 107=57,8-12 + 60,6b-14.</p><p>As dimensões dos salmos variam entre dois e 176 versículos: salmo 117</p><p>e 119. 40 salmos têm entre 9 e 12 versículos. Tampouco esse dado é preciso,</p><p>porque a assignação tardia de versículos nem sempre responde ao ritmo do</p><p>poema.</p><p>d) Coleção de coleções</p><p>O saltério é uma coleção de coleções. Como dividi-lo hoje? Encontramos</p><p>uma divisão que chamarei vertical, porque nos permite repartir os 150</p><p>Dados gerais 75</p><p>poemas em cinco fascículos ou coleções. As outras divisões são em sua</p><p>maioria transversais, porque cortam a divisão precedente ou a atravessam</p><p>dando origem a outros agrupamentos.</p><p>— A divisão em cinco blocos parece ser um fato de canonização. Criava</p><p>uma espécie de “pentateuco” da oração, cujo autor ideal era Davi. As cinco</p><p>coleções são marcadas porversos intercalados conclusivos: 41,14; 72,18-20;</p><p>89,53; 106,48. Isso nos dá cinco grupos desiguais em tamanho e heterogê­</p><p>neos em conteúdo: 1-41; 42-72; 73-89; 90-106; 107-150 (com muitos comen­</p><p>tadores dedico o primeiro volume às duas primeira coleções).</p><p>Empenhar-se em buscar unidade de sentido a cada coleção e progresso</p><p>através delas foi exercício de engenhos opulentos de tempo.</p><p>— Segundo o autor. Nos títulos hebraicos atribuem-se a Davi 73</p><p>salmos (dois criticamente duvidosos); o grego lhe acrescenta outros 14; em</p><p>latim se lhe atribuem 85. Asaf aparece como autor de doze, a família Coré,</p><p>de onze; Salomão leva um ou dois e Moisés um. A Vulgata atribui um a</p><p>Jeremias. No hebraico figuram 52 salmos sem nome de autor.</p><p>Essa divisão não produz coleções homogêneas, além de não oferecer</p><p>garantia histórica. Se os de Asaf formam quase um bloco, 50 e 73-83, os</p><p>dos coraítas se repartem em 42.44-49 e 84-85.87-88.</p><p>— Há um bloco compacto que em hebraico porta o título de shyr rrílwt,</p><p>o que pode significar muitas coisas: canto de subidas, de degraus ou</p><p>escalões, de peregrinação, etc. Vão do 120 ao 134.</p><p>— Chamam-se aleluiáticos alguns que têm no início ou no fim a aclamação</p><p>hebraica hallHu Yh = Louvai ao Senhor! O curioso é que uns têm a aclamação</p><p>no fim e outros no início. Em muitos casos o que aparece como final de um em</p><p>hebraico coloca-se como começo do seguinte em latim ou grego.</p><p>— De pouca utilidade é a distinção entre salmos javistas e eloístas. A</p><p>primeira coleção, 1-41, usa o nome divino de Yhw h; a segunda e a terceira</p><p>costumam preferir a designação genérica ’Ihym. Alguns autores pensam</p><p>que se trata de arrumação secundária.</p><p>— Outro agrupamento se obtém seguindo as indicações dos títulos</p><p>hebraicos sobre gêneros literários. 57 salmos ostentam a designação mizmor;</p><p>shyr / shyrh simplesmente se lê no S146 e no Sl 18, com alguma especificação</p><p>em outros 29 salmos; 13 se chamam maskil, 6 miktam; o 7 é shiggayon, o 145</p><p>tfhilla, o 89 tfpilla.</p><p>A distribuição é irregular relativamente às coleções que chamei de verticais.</p><p>Comparadas as designações com a forma e o conteúdo dos respectivos salmos,</p><p>dizem-nos muito pouco. Pelo que os comentadores recorrem ao jogo perigoso da</p><p>etimologia: mizmor, de zm r = tocar, seria o que se canta com acompanhamento,</p><p>tocando um instrumento; maskil, de skl = juízo, seria didático; miktam</p><p>oferece duas etimologias possíveis ketem = ouro e ktm = ser pintalgado.</p><p>76 Introdução aos salmos</p><p>A todas essas classificações antigas superpõem-se hoje com peso</p><p>esmagador o agrupamento por gêneros literários, segundo os critérios</p><p>inaugurados por Gunkel.</p><p>e) Autor e autores</p><p>Uma velha tradição diz ou clama: Davi! Como Moisés escreve os cinco</p><p>livros da torá, assim Davi compõe os cinco livros dos salmos. Tão legendária</p><p>é uma notícia como a outra. Delitzsch ainda dava crédito às atribuições</p><p>massoréticas; nos inícios do século Ecker defendia uma posição que consi­</p><p>derava moderada, para manter a autoria davídica de numerosos salmos.</p><p>Recordemos que autores antigos, para reservar a Davi todo o saltério,</p><p>consideravam os outros autores como executores ou intérpretes.</p><p>Como o problema do autor está vinculado à data de composição, dou um</p><p>monstruário de atribuições de três salmos, observando que os comentadores</p><p>baseiam a atribuição no título hebraico ou em indícios de forma e conteúdo.</p><p>SI 23. Delitzsch: não há razão para duvidar que o autor é Davi. De Wette:</p><p>nada se opõe, nada abona a autoria de Davi. Ewald: o autor é da época</p><p>imediatamente posterior a Davi e Salomão. Baethgen: exílico, como o mos­</p><p>tram o tom e o versículo 6. Hitzig: pela composição, a linguagem e a clareza,</p><p>é preciso datá-lo no século VII; poderia ser de Jeremias. Graetz: do tempo de</p><p>Manassés ou de Joaquim.</p><p>SI 90. Delitzsch: de Moisés; nada prova que seja tardio. De Wette: em seu</p><p>teor atual não pode ser de Moisés. Ewald: por conteúdo e estilo bem que pode</p><p>ser mosaico, certamente anterior a Davi, seja de Moisés ou de Samuel.</p><p>Rosenmüller: provavelmente da época de Antíoco (sec. II). Hitzig: muito</p><p>tardio. Hoberg: nada se opõe à atribuição mosaica do título. Kõster, Graetz</p><p>e Olshausen: pós-exílico.</p><p>SI 127. Hengstenberg: a atribuição a Salomão do título confirma-se pelo</p><p>conteúdo. De Wette: que Salomão seja o autor não é impensável, ainda que</p><p>o título repouse num erro. Oshausen: pós-exílico, da época de Simão. Gratez:</p><p>de Neemias.</p><p>Ecker prolonga o jogo precedente, salmo por salmo, ao longo de 38</p><p>páginas. Cada autor faz a atribuição baseando-se em sua concepção global,</p><p>que é em boa parte conjetura. A maioria dos comentadores atuais tomaram</p><p>a prudente decisão de não discutir o problema do autor do saltério ou de</p><p>salmos individuais.</p><p>Contudo, por respeito à velha tradição, será decoroso apresentar</p><p>alguns supostos autores. Asaf: segundo informações tardias do Cronista,</p><p>Asaf filho de Baraquias foi mestre de canto de Davi (lCr 6,39.43; 15,17;</p><p>16,5; 2Cr 29,30); também seus filhos e descendentes foram músicos do</p><p>templo (lCr 25,2; 2Cr 20,14; 29,13; Esd 2,41; 3,10; Ne 7,45; 11,22). Como</p><p>se vê, toda a informação é tardia. Coré: o chefe de uma revolta contra Moisés</p><p>Dados gerais 77</p><p>(Nm 16). Seus filhos foram Aser, Elcana e Abiasaf;</p><p>seus descendentes</p><p>aparecem como autores de onze salmos, lditun aparece nos títulos gregos</p><p>de Sl 38 e 76; foi mestre de música nos tempos de Davi (lCr 16,41ss; 25,1­</p><p>16; 2Cr 5,12). Etã e Hemã: mestres de canto da mesma época (lCr 6,44);</p><p>atribuem-se-lhes respectivamente o Sl 89 e 88.</p><p>f) Títulos</p><p>Grande parte da informação precedente é tomada dos títulos hebraicos,</p><p>uma pequena parte de títulos gregos. Esses títulos, que os antigos conside­</p><p>ravam canônicos e inspirados, parte do texto oficial, hoje se consideram</p><p>como notas eruditas ou conjeturais de compiladores tardios, não muito</p><p>dotados de senso crítico. Procura-se explicar o sentido das categorias para</p><p>depois prescindir delas e não lhes fazer caso. Para evitar mal-entendidos,</p><p>nós não traduzimos os títulos nem na Bíblia nem no comentário.</p><p>Os títulos subministram informações sobre: o autor, Davi, Asaf, etc.;</p><p>a ocasião histórica ou litúrgica da composição: “quando Davi fugia de</p><p>Absalão”, “para o sábado”; o caráter do salmo, “canção, com acompanha­</p><p>mento, gradual, etc.; sobre a execução ou interpretação musical:</p><p>Imnçh: para/do diretor (do coro, da orquestra?). Veja-se lCr 15,21 com</p><p>lCr 23,4 e Esd 3,8s. Os antigos traduziram eis telos = in finem, e tiraram daí</p><p>considerações engenhosas e entretidas.</p><p>‘I ‘Imwt: para moças (sopranos?), cantavam mulheres no templo?</p><p>‘I hshmynyt: em oitava: baixa ou alta? tinham os nossos intervalos?</p><p>l‘nwt: respondendo; modo antifonal; mas, por que conjugação piei?</p><p>bngynwt: com instrumentos de corda.</p><p>’I hnhylwt: com flautas.</p><p>‘I gtyt: com um instrumento de Gat?, ou com a melodia dos lagares.</p><p>Outros parecem assinalar uma melodia então conhecida, do tipo “pela</p><p>morte ao filho”, “cerva da aurora”, “lírios”, “pomba muda”, “não destruir”.</p><p>Alguns desses títulos são tão sugestivos como enigmáticos. “Cerva da</p><p>aurora”: dá desejo de escrever um poema com esse título...</p><p>g) Texto hebraico</p><p>O texto hebraico do saltério regala abundantes problemas ao engenho</p><p>do exegeta. Repassar este texto é uma carreira de obstáculos que temos que</p><p>realizar ao longo do comentário (Cecília Carniti e eu).</p><p>Comparando versões duplas dentro e fora do saltério, expressões</p><p>paralelas e versões antigas, e tendo em conta gramática e vocabulário</p><p>conhecidos, concluímos que o texto hebraico do saltério sofreu em sua</p><p>transmissão. Talvez o uso freqüente tenha contribuído para a situação.</p><p>78 Introdução aos salmos</p><p>Sem emendas simples e sem conjeturas, não podemos percorrê-lo</p><p>com galhardia. Contudo, temos que confessar a limitação de nossos</p><p>conhecimentos de gramática e léxico hebraicos, especialmente de textos</p><p>poéticos.</p><p>Houve autores, nos fins do século passado e começo do presente, que</p><p>emendavam com temerária facilidade, como Bickell, Graetz, Ehrlich (con­</p><p>tra os quais se desencadeia Ecker). Mas também personagens ilustres como</p><p>de Lagarde ou Wellhausen, deixaram-se levar pelo engenho do emendador.</p><p>Corrigia-se metri causa ou por razões de estilo ou para igualar ou harmo­</p><p>nizar duas versões.</p><p>Bickell suprimia a repetição de twrh em 1,2 porque a considerava inútil</p><p>e pouco elegante. Wellhausen não se contentava com o escudo çnh de 5,13 e</p><p>o transformava em çnph, que em Is 22,18 significa aro. Graetz achavayhgw</p><p>de 2,1 demasiado fraco e emendava emymmw.</p><p>Hoje em dia mal acham seguidores esses engenhosos corretores.</p><p>Uma direção à primeira vista oposta seguia Dahood para salvar a todo</p><p>custo o texto consonântico massorético. A todo custo significa ao custo de</p><p>mudar livremente as vogais da tradição massorética, de cortar de outra</p><p>forma as palavras, de recorrer a fenômenos gramaticais que justificava</p><p>alegando prováveis ou possíveis paralelos ugaríticos.</p><p>sh’l m’t = pedir a (cf. Ex 11,2) se convertia em “pedir cem vezes”; com as</p><p>consoantes m’t fabricava um advérbio denominativo de m’h = cento. O difícil bl</p><p>q‘rob ’eleka de 32,9 o lia e explicava assim: bal = então tu (supondo que bl pode</p><p>significar não e sim segundo convenha), qrb = aproxima-te (imperativo), ’ly = a ele</p><p>(-y sufixo de terceira pessoa) k- unido ao substantivo seguinte. O bahalotam de</p><p>35,13 = em sua enfermidade, quando estavam enfermos, o lia behallotam =</p><p>quando tocavam a flauta (criando um denominativo de hlyl = flauta).</p><p>Exemplo de respeito ao texto massorético foram no século passado</p><p>Delitzsch e Phillips, apelando a outras línguas semíticas e também a</p><p>autores judeus medievais (não compreendo porque os modernos ignoram</p><p>Phillips).</p><p>Com mais conhecimento do vocabulário e com uma idéia mais flexível</p><p>da gramática hebraica, especialmente em poesia, procuramos hoje em dia</p><p>respeitar judiciosamente o texto massorético e propomos com temor e</p><p>modéstia as emendas que nos parecem necessárias, as conjeturas que</p><p>ousamos acolher. E provável que no processo da pesquisa, a próxima</p><p>geração se encontre melhor equipada para resolver tantos casos duvidosos.</p><p>No comentário a cada salmo, dedicamos uma secção para discutir o texto.</p><p>Selecionamos alguns autores representativos de épocas e línguas, de dez a</p><p>quinze. O trabalho foi realizado por Cecília Carniti; eu revisei o seu texto, às</p><p>vezes o reorganizei e acrescentei alguns dados.</p><p>Dados gerais 79</p><p>h) A versão dos Setenta</p><p>Vai nos levar mais tempo dizer algumas coisas essenciais sobre esta</p><p>antiga e venerável versão. Por um lado, a recomenda o uso da Igreja antiga</p><p>e de grandes comentadores como Eusébio, Orígenes, Teodoreto, Basílio e</p><p>outros. Para eles, era o texto oficial, o que tinham citado e usado os</p><p>escritores do NT. Dela derivaram a versão siríaca e as diversas latinas. A</p><p>que hoje se lê na Vulgata, a galicana, procede da versão grega dos Setenta</p><p>e foi texto oficial da Igreja latina durante séculos.</p><p>Mas o tradutor grego dos salmos delata muitas ignorâncias ou toma</p><p>muitas liberdades ao traduzir. Ou melhor, a ignorância é nossa, porque não</p><p>sabemos o que ele entendia por traduzir poesia. Antes de pronunciar um</p><p>juízo global, ilustro alguns aspectos dessa versão:</p><p>Tem algo em seu favor a leitura grega de 5,9.0 hebraico diz Ipny drkyk</p><p>- diante de mim teu caminho; o grego traduz enopion sou ten hodon mou =</p><p>“diante de ti meu caminho”; contudo, tem bom sentido o hebraico: o caminho</p><p>teu (o que me mandas seguir).</p><p>O enigmático hrkm çpwr de 11,1 se esclarece em grego: é preciso</p><p>combinar de outro modo as consonantes, hr kwm çpwr: ao monte como um</p><p>pássaro. A negação de 22,30 npshw V é esclarecida pelo grego lendo o dativo</p><p>autoi. Em 37,36 a primeira pessoa do grego parece preferível à terceira do</p><p>hebraico.</p><p>Como os anteriores existem outros muitos casos em que a versão grega</p><p>nos tira de apuros. Em muitos casos assistimos a uma mudança estilística</p><p>lícita a todo tradutor responsável. O mh qw yty de 39,8 traduz-se por tis he</p><p>hypom one mou, transformando o verbo em substantivo de ação. Menos</p><p>convincentes é transformar as expressões concretas, corpóreas em concei­</p><p>tos abstratos ou genéricos. Sl 18,3 se dirige a Deus: sl‘y çwry ’hsh bw: penha</p><p>minha, rocha minha, nele me refugio; o grego amortece a expressão:</p><p>streuma mou boethos mou elpizo ep ’ auton. O escudo m gn de 3,4 converte-</p><p>se em antileptor = o que se encarrega de (estaria pensando em “o que recebe</p><p>[os golpes] em meu lugar”, lambano anti?). As línguas “resvaladiças,</p><p>escorregadias” aduladoras de 5,10 tornam-se dolosas = adoliousan; cf. 12,4.</p><p>18,9 descreve audazmente os narizes lançando fumaça: ‘lh ‘shn b ’pw ; o</p><p>grego diz orge = cólera. O yb w s = pisotear de 60,14 converte-se em</p><p>exoudenosei = ad nihilum deducet. m hsh - refúgio de 61,4 torna-se elpis =</p><p>esperança. O contrário ocorre em 33,6, onde o genérico rísw. = foram feitos</p><p>corresponde estereothesan = foram afirmados, solidificados.</p><p>Vejam alguma frase. O original de 62,10 soa Vlwthm h mhbl = subindo</p><p>mais leves que um sopro (na balança); o grego diz tou adikesai autoi ek</p><p>mataiotetos; em latim ut decipiant ipsi de vanitate. Entenderam o hebraico?</p><p>80 Introdução aos salmos</p><p>É preciso todo o gênio de Agostinho para tirar sentido de frases semelhan­</p><p>tes. E clássico o começo do Sl 22: a segunda frase do</p><p>hebraico é difícil: rhwq</p><p>m ysh w ‘ty dbry sh ’g ty : com leve correção se chega à tradução “longe (fica)</p><p>o meu clamor, o rugido de minhas palavras (minhas palavras rugidoras)”.</p><p>O grego e o latim vão emparelhados: makran apo tes soterias m ou hoi logoi</p><p>ton paraptom aton, mou, longe a salute mea verba delictorum meorum.</p><p>Parece-me demasiado renunciar ao hebraico e a uma correção simples</p><p>para defender as versões. Muitas vezes a leitura da Setenta supõe ou</p><p>indica uma vocalização diversa. Em 11,4, ‘enaw yehzu = seus olhos</p><p>observam; eis tonpeneta apoblepousin, parece ter lido ‘ani. O hebraico de</p><p>11,7 vocaliza yashar = o honrado, o grego leu yosher = euthyteta =</p><p>aequitatem = retidão. O passivo m ehullal = digno de louvor converte-se no</p><p>ativo ainoun = laudans.</p><p>Abundam os casos em que o tradutor grego não entendeu a palavra</p><p>hebraica ou talvez tenha lido outra. No Sl 1, leçim converte-se em lomon,</p><p>pestilentise. Os bny ’ish de 4,4 = nobres, cavalheiros, reduzem-se a hyoi</p><p>anthropon. O calar-se de 4,5 passa a compungir-se, talvez confundin­</p><p>do com nystazo. O murmúrio ou sussurro de 5,2 converte-se em krauge =</p><p>clamor, yeter é corda de arco em 11,2, o grego traduz aljava. Em 18,15 há</p><p>um rb que significa dispara que o grego tomou no sentido de multiplicar.</p><p>O delito grave de 19,14 converte-se em “alheios”, provavelmente por</p><p>que o tradutor leu zrym . m etar de 21,13 é a corda do arco; o tradutor de­</p><p>riva a palavra de ytr e traduz en tois periloipois, in reliquiis. A lesma de</p><p>58,9 converte-se em cera; o grunhir canino de 59,7 aparece como ter fome.</p><p>Em vez de passos diz mãos em 58,11. Da vertigem de 60,10 resulta</p><p>compunção.</p><p>Outras vezes ocorre uma mudança de funções sintáticas. Em 11,5 o</p><p>hebraico diz literalmente “sua alma aborrece o malvado e o que ama a</p><p>violência”, ou seja, um sujeito com duplo complemento. O grego traduz: “o</p><p>que ama a injustiça se odeia a si mesmo”, sem levar em conta que sríh pede</p><p>sujeito feminino. Nova mudança de funções em 34,22: onde o hebraico diz:</p><p>“a maldade dá morte ao malvado”, o grego diz “a morte do malvado é</p><p>desgraçada”, mors peccatorum péssim a. Muito engenhosa parece-me a</p><p>leitura do hebraico 37,20 kyqrkrym klw, que traduzimos “como a beleza dos</p><p>prados perecem”. O grego leu dois infinitivos com partícula k-: “quando são</p><p>glorificados e exaltados, perecem”.</p><p>Concluindo, a versão da LXX pode ajudar-nos em problema de crí­</p><p>tica textual e em uma ou outra interpretação; mas não podemos tomá-</p><p>la como base da exegese, ainda que reconheçamos o seu valor histórico,</p><p>por ter sido citada pelo NT e comentada por séculos por autores de nossa</p><p>tradição.</p><p>Gêneros literários: classificação 81</p><p>i) A Vulgata</p><p>Algo semelhante podemos dizer da tradução latina, chamada galicana,</p><p>incorporada à Vulgata. Foi uma perda histórica de graves conseqüências o</p><p>fato de a versão do hebraico de Jerônimo, “iuxta hebraicam veritatem”, não</p><p>ter sido acolhida como texto oficial da igreja latina. Quando o decreto</p><p>tridentino sobre o uso preferencial da Vulgata, interpretado rigorosamen­</p><p>te, vinculava os comentadores católicos, é de admirar o esbanjamento de</p><p>engenho que fizeram para concordar o latim com o hebraico ou então para</p><p>preferi-lo. Se bem que seja verdade que muitos comentadores começavam</p><p>expondo o sentido do texto hebraico.</p><p>Em tempos recentes o papa Pio XII mandou fazer uma tradução latina</p><p>do saltério, para que os clérigos pudessem rezá-lo inteirando-se melhor e</p><p>mais a gosto. E denominada versão piana. Dela posso aduzir minha</p><p>experiência, porque me coube usá-la a partir de minha ordenação sacerdo­</p><p>tal. Salvo um círculo reduzido, a maioria a recebemos com alívio. Os que</p><p>preferiram continuar rezando com a versão da Vulgata fizeram-no, creio</p><p>eu, por razões históricas dignas de se ater, já que tinha sido o texto oficial</p><p>da igreja latina durante séculos.</p><p>De outras traduções não é preciso falar aqui. Se a Bíblia é o livro mais</p><p>traduzido da literatura universal, dentro da Bíblia levam a palma os</p><p>evangelhos e os salmos. E justo e conveniente que desse grande repertório</p><p>se façam versões variadas, segundo as épocas, as funções e os gostos. Em</p><p>prosa ou em verso, mais literais ou mais livres, para a recitação coral, para</p><p>o canto ou para a reza privada.</p><p>A tradução que ofereço neste comentário representa uma terceira</p><p>etapa. A primeira versão foi a de 1966, usada comumente na Espanha e</p><p>alguns países da América Latina. A segunda foi a revisão publicada na</p><p>Nueva Biblia Espahola em 1975. Submetendo as precedentes a revisão,</p><p>segundo o resultado da análise presente, cheguei a uma tradução que</p><p>considero mais aderente ao original sem perder qualidade poética.</p><p>2. Gêneros literários: classificação</p><p>O estudo dos salmos como peças literárias divide-se comodamente em</p><p>três itens: a classificação por tipos ou gêneros, a linguagem poética, o poema</p><p>individual. O último o irei fazendo ao comentar cada salmo de acordo com</p><p>o caráter de cada um e não seguindo esquemas rígidos. O segundo é tarefa</p><p>importante, de que existem inúmeros dados dispersos, mas que ainda não</p><p>foram apresentados sistematicamente; exigiriam um tratado especial, “a</p><p>82 Introdução aos salmos</p><p>linguagem poética dos salmos”. O primeiro apoderou-se da pesquisa,</p><p>tornando-se dominante e descendo a vários níveis de divulgação.</p><p>O estudo dos gêneros literários dos salmos é de tal sorte dominante,</p><p>que Gunkel se ergue na história como quebra-ondas: antes e depois. A base</p><p>de todos os trabalhos posteriores continua sendo o estudo póstumo de</p><p>Gunkel e Begrich, Einleitung in die Psalmen (1937), de que possuímos</p><p>versão espanhola (Valência, 1987). Cite-se em segundo lugar oDictionnaire</p><p>de laBible, Supplément. A palavra Psaumes ocupa 214 colunas repartidas</p><p>como segue: Gêneros 1-125, o saltério: formação e uso litúrgico 126-157,</p><p>poesia 158-165, teologia 166-187, texto 187-206, os salmos no NT, na</p><p>liturgia e nos Padres 206-214. A erudita síntese de Lipinski é outro ponto</p><p>de referência.</p><p>Redigidas essas páginas, chega-me o livro de Beltrán Villegas,El libro de</p><p>los Salmos (Santiago do Chile, 1990). Da extensa introdução dedica 42</p><p>páginas à descrição de gêneros, fixos ou ocasionais. Interessa-lhe muito o</p><p>ritual ou cerimonial da festa ou celebração correspondente a cada gênero.</p><p>Oferece um esquema pormenorizado e uma rica lista de “literatura parale­</p><p>la”, a saber, “bíblica, judaica não canônica, do Oriente”. Esboça uma história</p><p>de cada gênero.</p><p>Os leitores de fala espanhola têm aí um manual rico de dados e</p><p>referências.</p><p>Ainda que exista convergência e acordo nas linhas gerais, os comenta­</p><p>dores diferem em muitos pontos particulares, de sorte que a classificação é</p><p>fluida. Não é estranho. Classificar tipologicamente é uma operação secundá­</p><p>ria e erudita, que se baseia em dados reais; e a realidade não é rigorosa. Por</p><p>exemplo, a maior parte dos salmos parecem ser litúrgicos, mas alguns têm</p><p>função ou desenvolvimento litúrgico particular que os coloca à parte. A súplica</p><p>individual pode-se fazer em casos de enfermidade, de perigo, de perseguição,</p><p>de acusação falsa, o que pode originar gêneros diferenciados e subgêneros.</p><p>A confiança invade a súplica e a ação de graças confunde-se com o hino.</p><p>Eu estabeleço onze itens (diante dos vinte de Lipinski):</p><p>1. Hino, do qual são especificações:</p><p>2. Canto de entronização ou realeza de Yhwh</p><p>3. Canto de/para Sião</p><p>4. Ação de graças ou eucaristia</p><p>5. Súplica nacional</p><p>6. Súplica individual</p><p>a) de perseguido</p><p>b) de enfermo</p><p>c) de inocente acusado</p><p>7. De confiança</p><p>8. Salmos reais</p><p>Gêneros literários: classificação</p><p>9. Liturgias</p><p>10. Penitenciais: de acusação e de confissão</p><p>11. Sapienciais</p><p>a) H ino</p><p>Poder-se-ia chamar também loa ou encómio. É um canto de louvor a</p><p>Deus, de ordinário por suas obras. O tom é festivo e costuma ser coral. Pode-</p><p>se esquematizar em introdução, corpo e conclusão. Fórmula germinal ou</p><p>resumida: “louvai — o Senhor — porque é bom”.</p><p>Introdução. Um liturgo ou presidente convida outros ao louvor, diri­</p><p>gindo-se em imperativo, na segunda pessoa plural. Também pode dirigir-</p><p>pois não se deve</p><p>confundir lamentação = querela com lamento = elegia ou com súplica.</p><p>Logicamente, como a súplica supõe alguma situação de sofrimento ou carência,</p><p>nela se expressará a dor, a pena, com acentuações de queixa, reclamação,</p><p>lamento. Nesta secção cataloga Gunkel: 44 74 79 80 83; Lm 5; Eclo 33,1-13;</p><p>36,16-22; Dn 3,26-45. Considera emparentados ou variantes 106 e 125.</p><p>Introdução: invocação a Deus, com o seu nome e seus títulos, de ordinário</p><p>na segunda pessoa. Corpo: é como uma motivação retórica interpelando a</p><p>Deus; conjuga a descrição da própria desgraça e a responsabilidade nela do</p><p>Senhor. A motivação acrescenta-se a petição apaixonada. Pode incluir</p><p>outros dois componentes: protesto de inocência ou confissão de pecados,</p><p>segundo os casos; expressão de confiança de ser escutados e remediados.</p><p>A situação é uma desgraça nacional: de ordem agrícola, como seca,</p><p>gafanhotos, pragas; ou bélica, de saúde, como peste ou epidemia, ou</p><p>catástrofe nacional. A súplica costuma formar parte de um rito complexo,</p><p>com mortificações como expressão da dor.</p><p>Gêneros literários: classificação 87</p><p>Lipinski pensa que a confissão de pecados se separa da súplica</p><p>comunitária depois do desterro, para formar um gênero autônomo. Mas nos</p><p>profetas e em textos narrativos antigos existem referências a confissões de</p><p>pecado, ainda que não formalizadas. E provável que no dia da expiação se</p><p>recitassem textos penitenciais já antes do exílio.</p><p>Conjetura-se que à súplica do povo respondia o Senhor mediante</p><p>oráculo pronunciado pelo sacerdote. Indícios dele se lêem em Js 7,6.15; J1</p><p>2,17-27; 2Cr 20,3-19 e outros.</p><p>As petições ou súplicas, como motivo integrante, podem penetrar em</p><p>outros gêneros sem se sentir estranhas. Na ação de graças às vezes se cita</p><p>a súplica ou um resumo dela.</p><p>C. Westermann, Struktur und Geschichte der Klage imAT: ZAW 66 (1954)</p><p>44-80.</p><p>P. Beauchamp, Plainte et louange dans les Psaumes: Christus 13 (1967) 65­</p><p>82.</p><p>E. Lipinski, La liturgie pénitentielle dans la Bible (Paris 1969).</p><p>A discussão sobre o eu dos salmos pergunta-se se é individual ou coletivo.</p><p>f) Súplica individual</p><p>É um gênero muito freqüente no saltério; tanto que convém subdivi­</p><p>di-lo em três grupos particulares: por perseguição ou perigo, por enfermi­</p><p>dade, do inocente injustamente acusado. Antes de encetar a descrição, os</p><p>investigadores propõem a pergunta: são realmente individuais? Muitos,</p><p>já desde a antiguidade, escutaram no eu desses salmos a voz da comuni­</p><p>dade, ou então a voz de um liturgo que fala em nome de todos, ou então</p><p>a voz do rei que incorpora em si a comunidade. Comecemos pela descrição</p><p>genérica.</p><p>A súplica individual, assim como a coletiva, é uma peça retórica,</p><p>interpelação a Deus para que socorra o orante. Os motivos básicos</p><p>esgrimidos são a necessidade do suplicante e a bondade do suplicado;</p><p>donde os componentes básicos de descrição da desgraça e a petição de</p><p>auxílio. Como motivos complementares podem-se acrescentar: um ato</p><p>expresso de confiança e uma promessa de ação de graças ou sua formula­</p><p>ção antecipada.</p><p>Gunkel cataloga nesse gênero: 3 5 6 7 13 17 22 25 26 27,7-14 28 3135</p><p>39 42-43 51 54 55 56 57 59 61 63 64 69 70 71 86 88 102 109 120 130 140</p><p>141 142 143. Desses se terá de descontar alguns para passá-los às</p><p>subdivisões mencionadas ou a outras divisões (51). A súplica, com os seus</p><p>temas e as suas motivações, difunde-se capilarmente por qualquer texto,</p><p>de modo que seria praticamente impossível catalogar todas as súplicas</p><p>individuais do AT. Os exemplos de livros narrativos parecem abonar a</p><p>existência da súplica individual, que se podia pronunciar no templo ou em</p><p>qualquer lugar. Podia ir acompanhada de gestos corporais ou de ritos</p><p>formalizados no culto.</p><p>G. Castellino, Le lamentazioni individuali e gli inni in Babilônia e in Israele</p><p>(Turim 1940).</p><p>J. M. W evers,A study in the forrn criticism o f individual complaint Psalms:</p><p>VT 6 (1956) 80-96.</p><p>A estrutura básica compreende: uma invocação ao Senhor, com títulos;</p><p>descrição da desgraça própria; a súplica, com domínio do imperativo ou</p><p>passagem ao jussivo, com acumulação de razões para mover a Deus;</p><p>profissão de confiança e promessa de agradecimento.</p><p>Compreendia o rito também um oráculo de resposta, de concessão?</p><p>Textos do saltério e de outros corpos atestam a existência desses oráculos. A</p><p>mudança de atitude, passando de quase desespero à confiança, parece se</p><p>basear em um oráculo recebido, pronunciado pelo sacerdote e não registrado</p><p>no texto da súplica. Mas se pode contar com promessas gerais que o orante</p><p>se aplica e que a experiência religiosa confirma. A resposta dever-se-ia</p><p>buscar em cada caso e muitas vezes não a encontramos sequer por ilação</p><p>nos textos.</p><p>J. Begrich, Das priesterliche Heilsorakel: ZAW 52 (1934) 81-92.</p><p>F. Küchler, Das priesterliche Orakel in Israel und Juda, em FS von</p><p>Baudissin: BZAW 33 (1918) 285-301.</p><p>Na súplica individual se reflete o drama da vida pessoal e social, se</p><p>manifesta a experiência humana em múltiplas facetas. Seriam material</p><p>privilegiado para estudo de psicologia religiosa. Dentro da variedade,</p><p>alcançam suficiente distinção os grupos seguintes:</p><p>— O homem perseguido ou em perigo. Em princípio o perigo pode</p><p>provir de causas naturais, sociais ou pessoais. Causas naturais podem ser</p><p>carestia, secas, outras pragas, guerra, tempestade no mar (Jonas); com</p><p>freqüência essas causas afetam a coletividade (J1 1-2), mas podem ser</p><p>experimentadas e expressas pelo indivíduo. Causas sociais: escravidão,</p><p>injustiça, pobreza. Causas pessoais: físicas ou psíquicas.</p><p>Nesse primeiro item, ainda que não seja exclusivo dela, fixo-me na</p><p>perseguição de inimigos ou rivais. Embora não sejam identificados, sua</p><p>presença é invasora e difusa; fazem-nos compreender que a vida citadina</p><p>não era pacífica e ideal como pedia a legislação. São cruéis, sem piedade,</p><p>mortais; agrupados, sem escrúpulos e sem justificação; muitas vezes de</p><p>classe alta, influentes, poderosos. Desatam um fluxo copioso de imagens</p><p>e expressões patéticas, não poucas vezes convencionais. Mais do que</p><p>indivíduos definidos, parecem com freqüência tipos humanos.</p><p>88 Introdução aos salmos</p><p>Gêneros literários: classificação 89</p><p>Alguns pesquisadores pretenderam identificar muitos desses inimi­</p><p>gos com bruxos ou feiticeiros que provocam desgraças com seus feitiços.</p><p>Além de Mowinckel, podemos citar</p><p>H. Birkeland, Die Feinde des Individuum s in der israelitischen</p><p>Psalmenliteratur (Oslo 1933).</p><p>Id., The evil-doers in the book ofPsalms (Oslo 1935).</p><p>N. H. Ridderbos, De werkers der ongerechtigheid in de individueelepsalmen</p><p>(Kampen 1939).</p><p>A. Puukko, Der Feind in den alttestamentlichen Psalmen: OTS 8 (1950) 47­</p><p>65.</p><p>K. Schwarzwáller, Die Feinde des Individuums in den Psalmen. Dis. (Ham­</p><p>burgo 1963).</p><p>C. Hauret, Les ennemies-sorciers dans les supplications individuelles: RechBib</p><p>8 (1967) 129-137.</p><p>Muitas vezes o orante invoca o castigo de seus inimigos, inclusive com</p><p>expressões apaixonadas que soam a sentimentos de vingança. Isso cria um</p><p>problema para a sensibilidade religiosa ou espiritual de muitos. Por isso se</p><p>reitera a discussão do problema, como o mostra a seguinte lista seletiva:</p><p>J. G. Vos, The ethical problem ofthe imprecating Psalms: WestTJ 4 (1942)</p><p>123-128.</p><p>P. van Imschoot, De psalmis imprecatoriis: ColGand 27 (1944) 89-93.</p><p>J. L. McKenzie, The imprecations in the Psalter: AmER 111 (1944) 81-96.</p><p>J. L. Lilly, The sacred duty ofhating and imprecating: AmER 115 (1946) 271­</p><p>277. -</p><p>M. de Tuya,E l problema bíblico de las imprecaciones: CiTom 78 (1951) 171­</p><p>192; 79 (1952) 3-29.</p><p>O. Schilling, Noch einmal die Fluchpsalmen: ThGl 47 (1957) 177-185.</p><p>H. A. Brongers, Die Rache und Fluchpsalmen im AT: OTS 13 (1963) 21-42.</p><p>J. Blenkinsopp, Can xvepray the cursing Psalms: CIRev 50 (1965) 534-538.</p><p>J. C. Lâney, A fresh look at the imprecatory Psalms: BS 138 (1981) 35-45.</p><p>P. WLsãherger,ZurProblematik undHerkunft der sogenanntenFluchpsalmen:</p><p>TTZ 97 (1988) 183-216.</p><p>— Súplica de enfermo. Além da situação específica, o subgênero requer</p><p>explicações peculiares. 1)</p><p>Sem negar causas naturais, em grande medida</p><p>desconhecidas dos antigos, a enfermidade, inserida no contexto mental de</p><p>retribuição, pode sentir-se e viver como castigo. Por mecanismo lógico, pode</p><p>conduzir a uma confissão de pecado com pedido de perdão, como condições</p><p>para recuperar a saúde. 2) A enfermidade revela debilidades humanas e</p><p>conduz ã consciência da caducidade humana, até limites de verdadeira</p><p>angústia. 3) A presença freqüente de inimigos anônimos tem preocupado os</p><p>pesquisadores. Mowinckel sustentou que se trata de feiticeiros que provo­</p><p>caram ou que se pensava terem provocado a doença com seus conjuros. Ao</p><p>que se responde: a enfermidade aparece de ordinário como anterior de modo</p><p>90 Introdução aos salmos</p><p>que a hostilidade é conseqüência e não causa; os inimigos já existentes</p><p>aproveitam-se da invalidez do enfermo; amigos precedentes e conhecidos</p><p>podem se atemorizar diante do homem “ferido por Deus” e capaz de</p><p>contagiar com sua maldição; ao enfermo tudo se lhe antolha hostil ou</p><p>distante; a simples distância ou desinteresse vive-se como amostra de não-</p><p>amizade e hostilidade (pense-se hoje em doentes da AIDS).</p><p>A esse grupo pertencem: 38 39 41 7188 143. Dentre eles, o 39 confessa</p><p>a radical caducidade do homem, o 88 é uma oração in articulo mortis.</p><p>A. Hjelt, Sjukdomslidandet och fienderna i psalmerna, en FS Buhl, 64-74.</p><p>H. Duesberg, Le psautier des malades (Maredsous 1952).</p><p>R. Martin-Achard, La prière des malades dans le psautier: LuVie 86 (1958)</p><p>25-43.</p><p>Th. Struys, Ziekte en genezing in het OT (Kampen 1968).</p><p>— O inocente injustamente acusado. H. Schmid apresentou como</p><p>gênero autônomo um grupo de salmos que soam como apelação de um</p><p>inocente ao tribunal de Deus no templo. Cataloga como tais: 3 4 5 7 (11) 17</p><p>26 27 31,1-9 35 42-43 54 55 56 57 59 62 (64) 69 70 86 109 140 142 143.</p><p>Lipinski poda a série até ficar com onze; 34571117 232627 63.A situação</p><p>e as referências são forenses: um homem, que se sabe inocente, foi acusado</p><p>falsamente, talvez tenha sido condenado numa instância inferior. Em tal</p><p>situação, acode ao templo, ao tribunal de Deus. Expõe sua causa, pede sua</p><p>absolvição e o castigo dos culpados, invocando em algum caso a lei do talião.</p><p>Depois aguarda confiado a sentença divina, que se pronuncia pela manhã.</p><p>Entre os elementos judiciais se destacam: o protesto de inocência, não</p><p>geral, mas com respeito à acusação; a petição de que seja examinada a causa</p><p>e a pessoa do acusado até o mais recôndito; a petição confiante de que Deus</p><p>decida em seu favor. Implícita ou explicitamente Deus é proclamado juiz</p><p>supremo de Israel e do universo. O protesto de inocência pode ser reforçado</p><p>com o juramento.</p><p>L. Delekat tentou transferir esses e outros salmos à instituição</p><p>jurídica do asilo: o inocente se acolhe na segurança do templo. Sem</p><p>dúvida, o recurso ao asilo está presente em muitos salmos; mas não creio</p><p>que chegue a constituir um gênero peculiar. Com efeito, o condenado e</p><p>perseguido, no momento em que chega ao tribunal de apelação do templo,</p><p>acha-se protegido de seus acusadores, já que entra em outra competência</p><p>superior.</p><p>H. Schmidt, Das Gebet des Angeklagten im A T (Giessen 1928).</p><p>L. Delekat, Asylie und Schutzorakel am Zionheiligtum (Leiden 1968).</p><p>Concluo esse item acrescentando bibliografia sobre a súplica indivi­</p><p>dual. Primeiro sobre a identificação do eu da súplica (e de outros salmos):</p><p>Gêneros literários: classificação 91</p><p>G. Beer, individual- und Gemeindepsalmen (Marburgo 1894).</p><p>F. Coblenz. Über das betende Ich der Psalmen (Francfurt 1897).</p><p>J. Schuurmans-Stekhoven, Über das Ich der Psalmen: ZAW 9 (1899) 131­</p><p>135.</p><p>Sobre o direito de asilo:</p><p>M. Lohr, Das Asylwesen im A T (Halle 1930).</p><p>G. Pidoux, Quelques allusions au droit d’asile dans les Psaumes, em FS</p><p>Vischer (Montpellier 1960).</p><p>B. van Oeveren, De vrijsteden in het OT (Kämpen 1968).</p><p>K. van der Toom, Ordeal procedures in the Psalms and the Passover Meal:</p><p>VT 38 (1988)427-445.</p><p>Sobre a expressão de con ança e a promessa de ação de graças:</p><p>J. Begrich, Die Vertrauensäusserungen im israelitischen Klagelied des</p><p>Einzelnen und in seinem babylonischen Gegenstück: ZAW 46 ( 1928) 221­</p><p>260.</p><p>W. Beyerlin, Die töda der Heilsvergegenwärtigung in den Klageliedern des</p><p>Einzelnen: ZAW 79 (1967) 208-224.</p><p>Estudos recentes de caráter geral:</p><p>E. Ger stenberger, Der bittende Mensch. Bittritual und Klagelied des Einzelnen</p><p>im AT: W M ANT 51 (1980).</p><p>J. B. Glaus, Der Klagepsalm des Einzelnen in seiner Entstehungsgeschichte</p><p>und in seiner christlichen Aktualisation. Dis. (Innsbruck 1981).</p><p>g) Salm os de confiança</p><p>Se bem que a confiança suporte toda petição, pois o homem não</p><p>suplicaria se não esperasse ser escutado, contudo, a confiança pode ser o</p><p>tema central, o afeto constitutivo de alguns salmos: ora a confiança</p><p>segura e serena, ora a atitude do homem que busca corroborar sua</p><p>confiança em crise. A esse grupo pertencem: 4 11 16 23 27 62 131. Begrich</p><p>engloba a expressão da confiança na súplica, não a trata como gênero</p><p>autônomo.</p><p>Nestes salmos, o orante expressa um estado de ânimo, repousado ou</p><p>dramático, gozoso ou temeroso, sem enunciar petições específicas. A</p><p>fórmula condensada seria: “só em Deus descansa minha alma”; mas pode</p><p>tomar a forma de exortação a si mesmo. A relação com o culto é muito</p><p>duvidosa.</p><p>J. Begrich, Die Vertrauensäusserungen im israelitischen Klageliede des</p><p>Einzelnen und in seinem babylonischen Gegenstück: ZAW 46 (1928) 221­</p><p>260.</p><p>J. Thévenet, La confiance en Dieu dans les Psaumes (Paris 1965).</p><p>92 Introdução aos salmos</p><p>h) Salmos reais</p><p>A importância central da monarquia em Israel e em seguida em Judá,</p><p>a consciência viva da promessa dinástica a Davi (2Sm 7), e também in­</p><p>fluências externas, deram origem a um tipo de salmos introduzindo o rei na</p><p>oração. Estes salmos são régios pelo tema ou porque o rei os pronuncia. Em</p><p>outros termos, são do rei ou pelo rei. Para nós assumem importância</p><p>particular, porque na série se alojam os chamados messiânicos. Messiânicos,</p><p>porque o foram desde sua composição ou porque chegaram a sê-lo com a</p><p>evolução histórica da fé e da piedade (o que é mais provável). A lista</p><p>compreende: 2 18 20 21 45 72 89 110 132.</p><p>— Fala o rei, na primeira pessoa ou na terceira. No Sl 2 o rei pronuncia</p><p>uma frase; no 18 pronuncia todo o salmo; no 89 a terceira pessoa pode</p><p>representar modestamente o orante, a mesma coisa no 132.</p><p>— 20 e 21 se referem a um rei antes e depois de uma batalha; 45 se</p><p>dedica a um rei em sua boda; o 72 apresenta em forma de petição o rei ideal;</p><p>o 110 recolhe um oráculo do Senhor ao rei, o seu escolhido.</p><p>Dessa enumeração se deduz que os “salmos régios” podem ser oráculo,</p><p>epinício, epitalâmio, súplica na guerra, ação de graças na vitória, súplica</p><p>na derrota, petição por um governo justo. Ou seja, agrupamos salmos</p><p>heterogêneos por um tema ou um contexto comum. Não nego que é uma</p><p>agrupação cômoda e conveniente.</p><p>Outros comentadores pensam que o rei é o eu de outros muitos salmos.</p><p>Birkeland punha nos lábios do rei quase todo o saltério.</p><p>G. von Rad, Erwägungen zu den Königspsalmen: ZAW 57 (1940-1941) 216­</p><p>222.</p><p>J. de Fraine, L ’aspect religieux de la royauté israélite (Roma 1954).</p><p>A. R. Johnson, Sacral Kingship in ancient Israel (Cardiff 1955).</p><p>G. Widengren, Sakrales Königtum im A T und im Judentum (Stuttgart</p><p>1955).</p><p>J. L. McKenzie, Royal messianism: CBQ 19 (1957) 25-52.</p><p>R. Nogosek, The royal psalms in form criticism (Paris 1961).</p><p>K. H. Bernhardt, Das Problem der altorientalischen Königsideologie im AT</p><p>unter besonderer Berücksichtigung der Geschichte der Psalmenexegese</p><p>dargestellt und kritisch gewürdigt (Leiden 1961).</p><p>K. R. Crim, The royal psalms (Richmond 1962).</p><p>i) Salmos litúrgicos ou liturgias</p><p>Na falta de outro título, chamam-se assim três salmos que parecem refletir</p><p>em seu texto um momento ou um desenvolvimento do cerimonial: 15 24 118.</p><p>15 e 24 se desenvolvem às portas do templo, como rito de entrada, em</p><p>diálogo breve. 118 percorre as etapas de uma celebração complexa, incor-</p><p>porando frases que soam a rubricas: “diga... se ouvem...”;</p><p>as mudanças de</p><p>falante ficam unificadas na celebração. Ao grupo se costuma acrescentar Is</p><p>33,14-16 e Mq 6,6-8 como imitações proféticas.</p><p>K. Galling, Der Beichtspiegel. Eine gattungsgeschichtliche Studie: ZAW 47</p><p>(1929) 125-130.</p><p>J. Morgenstern, The Gates of Righteousness: HUCA 6 (1929) 1-37.</p><p>K. Koch, Tempeleinlassliturgien und Dekaloge, en FS von Rad (Neukirchen</p><p>1961) 45-60.</p><p>j) Salmos penitenciais:</p><p>de requisitória e de confissão</p><p>Na tradição da igreja, chamam-se penitenciais sete que incluem</p><p>alguma confissão de pecados: 6 32 38 51 102 103 143. Lipinski cataloga</p><p>como requisitórias quatro: 50 78 81 95. Mas nem o 6 nem o 102 contêm</p><p>confissões, ao passo que o 103 canta o perdão. Pode-se suspeitar que 81 e</p><p>95 formavam parte de uma cerimônia composta, mas não temos provas. Eu</p><p>parto de 50-51 que formam como que as duas valvas de uma celebração</p><p>penitencial: a requisitória de Deus e a confissão do povo (o terceiro ato, o</p><p>perdão, configurou o oráculo de Ez 36). A requisitória pode-se ordenar à</p><p>conversão e ao perdão, em cujo caso temos uma liturgia penitencial (50-51);</p><p>pode preparar a condenação do réu, seja doméstico (58), seja estrangeiro</p><p>(75), seja divino (82). A confissão pode ocorrer desligada, supondo ou não a</p><p>prévia requisitória: como gênero desse tipo, desenvolve-se depois do exílio:</p><p>Esd 9; Ne 9-10; Dn 3 e 9 Bq 1,15-3,8. Mas também se encontra no saltério:</p><p>106, o salmo dos sete pecados.</p><p>R. Arconada, Ecclesiae Psalmi pcenitentiales (Roma 1936).</p><p>G. Bernini, Le preghiere penitenziali del Saltério (Roma 1953).</p><p>J. Luyten, Het zelfbeklag in de Psalmen: ETL 39 (1963) 501-538.</p><p>H. Bückers, Die Sündenvergebung in den Psalmen: DivThomFrib 25 (1951)</p><p>188-210.</p><p>H. McKeating, Divine forgiveness in the Psalms: ScotJT 18 (1965) 69-83.</p><p>E. Lipinski, La liturgie pénitentialle dans la Bible (Paris 1969).</p><p>k) Salmos sapienciais</p><p>Distinguem-se por sua temática sapiencial ou por seu tom reflexivo e</p><p>às vezes didático. Gunkel inclui neste item: 137 49 73 91 112 127 128 133.</p><p>Sendo o sapiencial um tema amplo e um talante, seu influxo faz-se sentir</p><p>em outros muitos salmos, como 14 ou 94.</p><p>Tendo em conta o tom entre reflexivo didático, eu os divido pelo tema</p><p>em dois grupos: os que meditam sobre a condição humana em seu aspecto</p><p>Gêneros literários: classificação 93</p><p>94 Introdução aos salmos</p><p>ético e religioso, e são os citados; e os que meditam sobre a história, e são</p><p>78 105 107.</p><p>P. A. Munch, Die jüdischen Weisheitspsalnten und ihr Platz im Leben: AcOr</p><p>15 (1937) 112-140.</p><p>R. E. Murphy, A consideration ofthe classification “Wisdom Psalms: VTS 9</p><p>(1963) 156-167.</p><p>A. Hurvitz, Wisdom vocabulary in the Hebrew Psalter: A contribution to the</p><p>study o f Wisdom Psalms: VT 38 (1988) 41-51.</p><p>Repassei rapidamente onze tipos ou grupos, que se poderiam enrique­</p><p>cer com outros. Pela forma externa pode-se agrupar comodamente os</p><p>alfabéticos: 9-10 25 34 37 111 112 119 145. Pelos temas ou por outros</p><p>fatores, esses salmos se repartem pelos grupos precedentes; parecem</p><p>tardios:</p><p>M. Lohr, Alphabetische und alphabetisierendeLiederimAT: ZAW 25 (1905)</p><p>173-198.</p><p>Lipinski fala de macarismos ou bem-aventuranças. É verdade que</p><p>podem formar um gênero próprio, que podem aparecer em séries, mas não</p><p>creio que gerem salmos inteiros, nem sequer os que, como o primeiro,</p><p>começam com a fórmula ’ashre = ditoso.</p><p>E. Lipinski, Macarismes et psaumes de congratulation: RB 75 (1968) 321­</p><p>367.</p><p>H. Schmidt, Grüsse und Glückwünsche im Psalter: ThStKr 103 (1931) 141­</p><p>150.</p><p>1) Balanço sobre o estudo</p><p>dos gêneros literários</p><p>As versões deste tema em obras de divulgação ou em livros de piedade</p><p>podem dar a impressão de um sistema compacto e bem articulado. As</p><p>páginas precedentes deixam entrever e em casos palpar os desajustes da</p><p>classificação. Uma exposição mais técnica, como a de Gunkel ou Lipinski,</p><p>achegam-nos a todas as indecisões, discrepâncias e desconcertos do estudo.</p><p>Em tais condições, continua sendo válida a classificação?</p><p>Um fato chamativo é que para classificar se embaralham e se mistu­</p><p>ram os critérios formais com os temáticos; não se combinam, se misturam.</p><p>Se os hinos e as súplicas têm um tema, uma estrutura e certos recursos</p><p>formais claramente discerníveis, os salmos régios são um conglomerado, os</p><p>cantos de Sião se sujeitam como quer que seja à cidade santa. Podemos falar</p><p>de classificação? Creio que sim, porque não fazemos trabalho de botânicos</p><p>nem compilamos a lista dos elementos químicos. Os salmos são criaturas</p><p>Bibliografia geral 95</p><p>poéticas, com sua disciplina e suas liberdades, seus caprichos. A assimetria</p><p>da classificação reflete a irregularidade da realidade.</p><p>E por que não continuar subdividindo? Porque uma classificação muito</p><p>ramificada deixa de ser útil. Inventar um novo gênero para alojar um ou</p><p>dois salmos não ajuda a compreendê-los. A classificação tem que deter-se</p><p>a tempo. Por outro lado, os sinais para classificar deverão ser apreciáveis,</p><p>a simples vista ou quando são mostrados. Se exigem uma indagação sutil,</p><p>se são fatores recônditos, deixam de ser credíveis. Passados cinquenta anos</p><p>de pesquisa nesse setor, o capítulo está praticamente esgotado. E preciso</p><p>buscar outros campos de operações.</p><p>O estudo dos gêneros literários dos salmos e sua aplicação deverá</p><p>evitar a máxima tentação do reducionismo. Quanto aos tipos, reduzir é</p><p>forçar semelhanças e sacrificar anomalias; reduzir é pensar que catalogan­</p><p>do, tudo está explicado. Como se um salmo, ao ocupar um lugar na estante</p><p>tipológica, fosse patente e sem segredos. Quanto à situação ou ao contexto</p><p>vital, junto à função e ao emprego real, é preciso contar com a imitação,</p><p>“como se”. Estabelecido o gênero de um salmo, começa a análise do</p><p>individual: o gênero é terreno comum que permite comparar e diferenciar.</p><p>Também é preciso decidir se o salmo foi composto para uso específico ou se</p><p>o uso se toma como esquema de imitação. Em outras palavras, um salmo</p><p>pode ser uma criação literária estilizada “à maneira de”.</p><p>No meu comentário, interessa-me mais a compreensão do indivíduo</p><p>que sua catalogação tipológica. Interessa-me mais a experiência espiritual</p><p>coagulada no texto do que a situação e ocasião em que se recitava.</p><p>3. Bibliografia geral</p><p>Introdução: o sentido de uma bibliografia sobre salmos.</p><p>a) Tarefa impossível</p><p>Dizem que um comentário competente aos salmos deve estar apetre­</p><p>chado de boa bibliografia. Hoje, porém, uma bibliografia especial sobre os</p><p>salmos, como parte de um comentário, tornou-se impossível.</p><p>O Elenchus de Bíblica, preparado por R. North, registra cada ano uns</p><p>75 títulos, livros e artigos, sobre salmos em geral; sem contar o que se</p><p>refere a salmos e versículos individuais. Descontando repetições de anos</p><p>sucessivos, se eu quisesse oferecer aqui a bibliografia geral dos últimos</p><p>dez anos, teria que dedicar-lhe cerca de 30 a 35 páginas. Seria uma seleção</p><p>recente.</p><p>96 Introdução aos salmos</p><p>Em poucos anos, essa bibliografia iria ficando atrasada. O ritmo de</p><p>publicações não tende a decrescer; o regime acadêmico presente favorece a</p><p>quantidade de publicações mais do que a qualidade. Assim sucede que,</p><p>quando se consulta a bibliografia encontra-se-a incompleta e superada; e</p><p>tem-se que recorrer a outras fontes de informação. Supondo que a consulte;</p><p>pois muitas vezes os usuários querem a bibliografia para tê-la, não para</p><p>usá-la. Como nos acontece com esses mecanismos engenhosos que, quando</p><p>os compramos, nos parecem práticos e depois não os usamos.</p><p>b) O remédio: os repertórios</p><p>O remédio mais simples e eficaz é socorrer-se dos repertórios existen­</p><p>tes, quer genéricos, quer específicos.</p><p>— Cumpre começar pelo Elenchus ofBiblical Bibliography, preparado</p><p>por R. North e editado pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Na VII</p><p>seção Libri didactici VT encontramos os seguintes itens:</p><p>E6. Poesis. 1. métrica Biblical versificação</p><p>E6.2 Psalmi, textus</p><p>E6.3 Psalmi, introductio</p><p>E6.4 Psalmi, commentarii</p><p>E6.5 Psalmi, themata</p><p>E6.6 Psalmi: oratío, liturgia; Psalms as prayer</p><p>E6.7 Psalmi: verse-numbers</p><p>Outros repertórios gerais complementares</p><p>são o Old Testament Abstract</p><p>(artigos resumidos e apresentação dos livros), o Internationale</p><p>Zeitschriftenschau für Bibelwissenschaft und Grenzgebiete (artigos resu­</p><p>midos), e o Book List (apresentação sumária de livros).</p><p>Repertórios especiais, de informação histórica sobre o estudo dos</p><p>salmos:</p><p>M. Haller, Ein Jahrzehnt Psalmenforschung: ThRu NF 1 (1929) 377-402.</p><p>J. Hempel, Neue Literatur zum Studium des Psalters: ZAW 56 (1938) 171­</p><p>173.</p><p>S. Mowinckel, Psalm criticism between 1900 and 1935: VT 5 (1955) 13-33.</p><p>J. J. Stamm, Ein Vierteljahrhundert Psalmenforschung: ThRu 23 (1955) 1­</p><p>68.</p><p>J. Schildenberger, Die Psalmen: Eine Übersicht über einige Psalmenwerke</p><p>der Gegenwart: BiLe 8 (1967) 220-231.</p><p>A. S. Kapelrud, Scandinavian research in the Psalms after Mowinckel:</p><p>AnSvThlnst 4 (1965) 148-162.</p><p>A. R. Johnson, The Psalms, em The OT and modern study (ed. H. H. Rowley,</p><p>Oxford 1951) 162-209.</p><p>J. Coppens, Les études recentes sur le Psautier, em Le Psautier. Ed. R. de</p><p>Langhe (Lovaina 1962) 1-71.</p><p>Bibliografia geral 97</p><p>L. Sabourin, The Psalms. Their origin and meaning. Staten Island 1969, vol</p><p>I, 1-177 e II, 337-367 (lista bibliográfica alfabética).</p><p>I. Hunt, Recent Psalm study: Wor 51 (1977) 127-144.</p><p>F. J. Stendenbach, Die Psalmen in der neueren Forschung: BK 35 (1980) 60­</p><p>70.</p><p>K. Seybold, Beiträge zur Psalmenforschung: TRu 46 (1981) 1-18.</p><p>S. Feininger, A decade of German psalm-criticism: JSOT 20 (1981) 91-103.</p><p>S. Pié i Ninot, La investigation exegética sobre los salmos: un balance: Phase</p><p>23(1983) 157-171.</p><p>D. D. Hopkins, New directions in Psalms research: SLJT 29 (1986) 271-283.</p><p>c) Os comentários</p><p>Sendo os salmos livro favorito de oração, piedade e meditação, não é</p><p>estranho que abundem os comentários, repartidos numa escala articulada</p><p>de nível e dimensão. Desde o comentário científico, técnico, descendo por</p><p>degraus de alta, média e baixa divulgação. Desde o comentário de mais de</p><p>3.000 páginas, ao de umas centenas; incluindo os textos com notas.</p><p>Aos repertórios registrados no estudo histórico, acrescentarei aqui</p><p>uma lista seletiva, por línguas e datas:</p><p>Alemães</p><p>A. B. Ehrlich</p><p>H. Gunkel</p><p>J. K. Zenner</p><p>K. Leimbach</p><p>N. Schlögl</p><p>W. Staerk</p><p>R. Kittel</p><p>A. Miller</p><p>S. Landesdorfer</p><p>Ed. König</p><p>N. Peters</p><p>H. Schmidt</p><p>E. Kalt</p><p>H. Herkenne</p><p>R. Abramowski</p><p>F. Nötscher</p><p>B. Bonkamp</p><p>A. Weiser</p><p>H. Lamparter</p><p>H. J. Kraus</p><p>A. Deissler</p><p>H. Brandenburg</p><p>H. Gross</p><p>1963</p><p>1967s</p><p>1978</p><p>1911</p><p>1911</p><p>1914</p><p>1920</p><p>1922</p><p>1926</p><p>1930</p><p>1934</p><p>1935</p><p>1936</p><p>1938s</p><p>1947</p><p>1949</p><p>1950101987</p><p>1958s</p><p>1960 51978</p><p>1905</p><p>1905 51968</p><p>1906</p><p>190941922</p><p>98 Introdução aos salmos</p><p>Franceses</p><p>R. Condamin</p><p>J. Calès</p><p>E. Podechard</p><p>A. Clamer</p><p>P. Guichou</p><p>A. Maillol e A.</p><p>Lelièvre</p><p>Ch. Brètes</p><p>M. Mannati</p><p>J. Weber</p><p>L. Jacquet</p><p>E. Beaucamp</p><p>L. Sabourin</p><p>Espanhóis</p><p>J. M. Alvarez de Luna</p><p>S. Pérez Gonzalo</p><p>R. M. de Manresa</p><p>J. Prado</p><p>J. Straubinger</p><p>M. García Cordero</p><p>A. Bileham?</p><p>J. Gonzalez Brown</p><p>A. González Núnez</p><p>L. Alonso Schökel</p><p>R. Arconada</p><p>Catalöes</p><p>T. Sucona i Vallès</p><p>B. Ubach</p><p>Ingleses</p><p>G. Phillips</p><p>J. J. S. Perowne</p><p>T. K. Cheyne</p><p>A. Barry</p><p>W. L. Watkinson</p><p>W. Jones</p><p>A. F. Kirkpatrick</p><p>Ch. A. Briggs</p><p>S. B. Macy</p><p>P. V. Higgins</p><p>P. Boylan</p><p>T. E. Bird</p><p>W. E. Barnes</p><p>M. Buttenwieser</p><p>W. G. Scroggie</p><p>E. J. Kissane</p><p>1922</p><p>1936</p><p>1949-1954</p><p>1950</p><p>1958</p><p>1962-1969</p><p>1963</p><p>1966-1968</p><p>1968</p><p>1974-1978</p><p>1976-1979</p><p>1988</p><p>1912-1914</p><p>1915</p><p>1935</p><p>1948</p><p>1949</p><p>1963</p><p>1965</p><p>1966</p><p>1966</p><p>1966 71988</p><p>1967</p><p>1901</p><p>1932</p><p>1846</p><p>1868-1870</p><p>1888</p><p>1891</p><p>1892</p><p>1892</p><p>1897-1903</p><p>1907</p><p>1913</p><p>1913</p><p>1920</p><p>1927</p><p>1931</p><p>1938</p><p>1948-1950</p><p>1953-1954</p><p>Bibliografia geral 99</p><p>W. 0 . Osterley 1962</p><p>M. Dahood 1966-1970</p><p>S. R. Hirsch 1973-1976</p><p>D. Kidner 1973</p><p>J. W. Rogerson</p><p>e J. W. McKay 1977</p><p>A. Cohen 1982</p><p>P. C. Craigie 1983</p><p>Italianos</p><p>D. Triceri 1925-1926</p><p>A. Vaccari 1949</p><p>T. Piatti 1954</p><p>G. Castellino 1955</p><p>S. Rinaudo 1966</p><p>G. Barbaglio</p><p>e L. Commissari</p><p>e E. Galbiati 1972</p><p>E. Bianchi 1973</p><p>G. Ravasi 1981-1984</p><p>A. Lancelloti 1984</p><p>Croatos</p><p>P. Vlasic 1923-1925</p><p>C. Tomic 1986</p><p>Norueguês</p><p>K. Myrhe 1985</p><p>Japonês</p><p>M. Sekine 1971</p><p>Holandeses</p><p>(flamengos)</p><p>J. de Groot</p><p>F. M. T. de Liagre</p><p>e B. Gemser</p><p>J. Ridderbos</p><p>J. P. M. van der Ploeg</p><p>Poloneses</p><p>E. Gorski 1930</p><p>S. Wojcik 1947</p><p>W. Borowski 1983</p><p>J. W. Roslon 1985</p><p>T. Brzegowy 1989</p><p>Húngaro</p><p>D. Farkasfalvy 1975</p><p>1932</p><p>1946-1949</p><p>1958</p><p>1963</p><p>Introdução aos salmos</p><p>P^gsâjsdístas, já incompletas e que cada ano ficarão m ais incompletas,</p><p>•quero-apontar algum as preferências pessoais.</p><p>Dos alemães deste século, escolho Gunkel por sua contribuição funda­</p><p>m ental, W eiser por seu senso literário e teológico, Kraus por sua erudição.</p><p>Dos franceses, acho bem sucedido o nível médio de M aillot e Lelièvre, entre</p><p>pesquisa e alta divulgação, tradicional e pessoal. Por sua originalidade, um</p><p>pouco de franco-atiradora, aponto M annati. Beaucamp pela leitura cristã.</p><p>Dos italianos, o m onum ental comentário de Ravasi, m ina de informação e</p><p>panorâmica de cultura (que sempre tive em mãos em m eu trabalho).</p><p>d) Traduções antigas</p><p>J. Ecker, Porta Sion. Lexikon zum, lateinischen Psalter (Tréveris 1903).</p><p>lá.,Psalterium iuxtaHebrseos Hieronymi inseinem Verhältnis zu Masora,</p><p>Septuaginta, Vulgata (Tréveros 1906).</p><p>M. Flashar, Exegetische Studien zum Septuagintapsalter: ZAW 32 (1912)</p><p>81-116, 161-189, 241-268.</p><p>A. Allgeier,Die Psalmen derVulgata. IhreEigenart, sprachliche Grundlage</p><p>und geschichtliche Stellung (Paderborn 1940).</p><p>W. H. McClellan, Obscurities in the Latin Psalter: CBQ 1-6 (1939-1944).</p><p>22 artigos breves en forma de notas seguindo o saltério.</p><p>G. Scarpat, II liberpsalmorum e il Psalterium Gallicanum (Milão 1950).</p><p>T. Ayuso Marazuela, La Vetus Latina Hispana, V. El Saltério (Madri</p><p>1962).</p><p>D. H. Sainte-Marie, S. Hieronymi Psalterium iuxta Hebrseos. Edition</p><p>critique (Edit. Vaticana 1954).</p><p>C. Estin, St. Jeröme, traducteur des Psaum.es. Dis (Sorbona 1977).</p><p>Informação am pla no Elenchus E 6 .2</p><p>e) Títulos e datação</p><p>J. M. Vosté, Sur les titres des Psaumes dans la Peshitta surtout d’apres</p><p>la recension orientale: Bib 25 (1944) 210-235.</p><p>H. L. Ginsberg, Psalms and inscriptions ofpetition and acknowledgement,</p><p>em FS L. Ginzberg (Nova York 1945) 159-171.</p><p>H. Cazelles, La question du «Lamed auctoris»: RB 56 (1949) 93-101.</p><p>J. Enciso, Indicaciones musicales en los títulos de los salmos, en FS B.</p><p>Ubach (Montserrat 1953) 185-200.</p><p>Id., Los títulos de los salmos y la historia de la formación del Salterio:</p><p>EstBib 13 (1954) 135-166.</p><p>Id., Los salmos-prólogos: EstEcl 34 (1960) 621-631.</p><p>L. Kunz, Selah, Titel und authentische Gliederung der Psalmen: ThGl 46</p><p>(1956) 363-369.</p><p>R. Toumay, Sur quelques rubriques des Psaumes, em FS Robert (1957)</p><p>197-204.</p><p>Bibliografia geral 101</p><p>P. Salmon, Les tituli psalmorum des manuscrits latins (Paris 1959).</p><p>J. J. Glueck, Some remarks on the introductory notes ofthe Psalms, em</p><p>Studies on the Psalms (Potchefstroom 1963) 30-39.</p><p>M. Buttenwieser, The Psalms, chronologically treated (Chicago 1938).</p><p>C. L. Feiberg, Are there Maccabean Psalms in the Psalter?: Bibl Sacra 105</p><p>(1948)44-55.</p><p>R. Tournay, Recherches sur ta Chronologie des Psaumes: RB 65 (1958)</p><p>321-357; 66 (1959) 161-190.</p><p>C. Hauret, Un probleme insoluble? La Chronologie des psaumes: RSR 35</p><p>(1961) 225-256.</p><p>G. Sauer, Erwägungen zum Alter der Psalmendichtung in Israel: TZBas</p><p>22 (1966) 81-95.</p><p>E. Slomovic, Toward an understanding of the formation ofhistorical titles</p><p>in the book of Psalms: ZAW 91 (1979) 350-380.</p><p>Alguns comentários discutem o problema da datação na introdução</p><p>geral. Ao lado das datações altas e baixas, é m ister assinalar a hipótese dos</p><p>que defendem um crescimento por reelaboração e sedimentação de muitos</p><p>salmos; m ais que uma data, buscam um processo.</p><p>f) Estudos comparativos</p><p>F. Stummer, Sumerisch-akkadische Parallelen Zum Aufbau alttes-</p><p>tamentliche Psalmen (Paderborn 1922).</p><p>Id ., Die Psalmengattungen im Lichte der altorientalischen</p><p>Hymnenliteratur: JSQR 8 (1924) 123-125.</p><p>A. M. Blackman, The Psalms in the light of Egyptian research, em The</p><p>Psalmists (Oxford 1926) 177-197.</p><p>J. Begrich, Die Vertrauensässerungen im israelitischen Klageliede des</p><p>Einzelnen und in seinem babylonischen Gegenstück: ZAW 46 (1928) 221­</p><p>260.</p><p>G. Widengren,</p><p>de</p><p>outros escritos.</p><p>3Falei dos títulos que aparecem em nossas edições da Bíblia hebraica, que hoje não consideramos</p><p>canônicos.</p><p>Os salmos no NT 15</p><p>“Isso significavam minhas palavras quando vos disse, estando ainda</p><p>convosco, que todo o escrito acerca de mim na lei de Moisés, nos profetas e nos</p><p>salmos tinha que cumprir-se”. São palavras de Jesus ressuscitado aos discí­</p><p>pulos, segundo Lc 24,44. Nelas consta o que crê a comunidade cristã.</p><p>Entrando em Jerusalém, Jesus responde à recriminação de algumas auto­</p><p>ridades judaicas citando como Escritura Sl 8,3; Mt 21,16.</p><p>Mc 12,10s: Jesus cita como Escritura Sl 118,22s, referindo-se a si.</p><p>Jo 10,34: Jesus chama lei o Sl 82,6 tirando dele um argumento em seu favor.</p><p>Jo 13,18: na ceia Jesus cita Sl 41,10 dizendo: “Assim se cumpre aquela</p><p>passagem da Escritura”; cf. Jo 17,12.</p><p>Para não alargar a lista, recordo que quarenta salmos estão explicita­</p><p>mente citados no NT; alguns versículos repetidas vezes. A modo de exem­</p><p>plos:</p><p>Sl 2,1.2.7: At 2,27; 4,25s; 13,33; Hb 1,5; 3,5; Ap 2,27.</p><p>Sl 8,3.5.8: Mt 21,16; ICor 15,26; At 2,6-8.</p><p>Sl 16,8-11: At 2,25-28; 13,35.</p><p>Sl 95,8: Hb 3,7-11.15; 4,7; etc.</p><p>Instaura-se dessa forma um horizonte novo de interpretação e</p><p>compreensão dos salmos. Que Jesus recite liturgicamente alguns salmos,</p><p>como se diz em Mt 26,30 e Mc 14,26, ainda não é decisivo. O salto se dá na</p><p>referência exclusiva ou preferencial a Jesus.</p><p>O uso dos salmos no NT insere-se tranqüilamente na abertura</p><p>inata e tradicional que descrevi acima. Prolonga a disponibilidade e às</p><p>vezes parece desbordar a capacidade do texto.</p><p>b) Hinos novos por imitação</p><p>Os escritores do NT fazem três coisas. Põem nos lábios de Jesus ou de</p><p>outra personagem um salmo ou alguns versículos, apropriando-lhe o eu do</p><p>orante. Outras vezes citam um salmo ou versículo como tipo ou profecia que</p><p>se cumpre em alguma circunstância da vida de Cristo ou de sua comunida­</p><p>de, ou que ilumina algum aspecto do seu mistério. Terceiro, compõem ou</p><p>citam cantos ou hinos especificamente cristãos: uns de corte semítico, como</p><p>o Benedictus e o Magnificat; e outros de corte mais grego, como em algumas</p><p>cartas de Paulo e no Apocalipse.4</p><p>As três práticas resultarão exemplares com variável intensidade na</p><p>tradição cristã. Quero dizer que os cristãos não se contentarão com repetir</p><p>o que já foi feito pelos escritores do NT, mas os imitarão: tomando o</p><p>princípio e observando sua aplicação, alargarão o âmbito, lançarão as redes</p><p>até capturar em suas malhas todo o saltério. Respeitando sempre o caráter</p><p>único do NT como palavra inspirada.</p><p>4Veja-se Josef Kroll, Die christliche Hymnodik biz zu Klemens von Alexandreia, Braunsberg 1921,</p><p>Darmstadt 1968, 15-17.</p><p>16 História da interpretação</p><p>Ademais, se o NT cita expressamente uns 78 versículos de diversos</p><p>salmos, isso não passa da pegada escrita e canonizada de uma prática das</p><p>comunidades primitivas. Outras passagens do NT que mencionam salmos,</p><p>hinos, cânticos, podem-se considerar testemunhos indiretos. Por exemplo,</p><p>ICor 14,15 e Tg 5,3 usam o verbopsallein que pode corresponder ao hebraico</p><p>zmr; Ef 5,19 e Cl 3,16 mencionam psalmois hymnois kai hodais.</p><p>A Igreja primitiva não inventou um novo saltério que suplantasse o</p><p>antigo, mas recebeu e transmitiu o saltério constituído. E acrescentou por</p><p>sua conta certo número de hinos. E não falo de textos não canônicos, como</p><p>as Odes de Salomão, cuja composição alguns situam no séc. II.5</p><p>3. Até o século III</p><p>A partir da conclusão do NT até bastante dentro do séc. III, nossa</p><p>informação é escassa. As comunidades cristãs podiam conservar os salmos</p><p>como profecia messiânica e como fonte de ensinamento, enquanto compu­</p><p>nham, de forma espontânea ou profissional, orações especificamente cris­</p><p>tãs: hinos a Cristo e súplicas ao Pai. E, pelo que parece, surgiu um problema</p><p>que hoje formularíamos assim: seria preciso substituir os salmos, repertório</p><p>de oração da etapa precedente, por um repertório novo? Nesse caso, poder-</p><p>se-iam conservar sem nenhuma dificuldade alguns salmos “messiânicos”,</p><p>como o 2, o 8, o 22 (21), o 45, o 110... O resto serviria, em leitura tipológica,</p><p>para continuar penetrando e expondo o mistério de Cristo.6</p><p>Que as comunidades compuseram novos textos, sobretudo hinos,</p><p>consta por diversos documentos, ainda que escassos. Que o novo repertório</p><p>tivesse que desbancar o anterior, não consta. Contudo, é conseqüência</p><p>lógica que os salmos perderam importância e aceitação. Segundo alguns</p><p>dados, também os hereges trabalharam intensamente na elaboração de</p><p>hinos cristãos, como meio de difundir sua peculiar concepção do cristianis­</p><p>mo. As dificuldades que sentimos hoje, em plena renovação bíblica, diante</p><p>de muitos salmos, por seus sentimentos pelo que parece alheios e mesmo</p><p>contrários ao sentir cristão, não as sentiriam as comunidades incipientes?</p><p>Que pensavam e sentiam os novos convertidos, seus catequistas e</p><p>evangelizadores? Infelizmente, não está documentado um capítulo da</p><p>história que seria muito interessante.</p><p>5AIém de monografias sobre cada livro do NT, podem ver-se as exposições de conjunto, com respectiva</p><p>bibliografia: L. Venard, Citations de VAT dans le NT, em DBS II, 23-51 (1934); G. Smits, Oud-</p><p>Testamentiche citaten inhetNieuuie Testament, Amsterdam, 1952-63. Sobre as conseqüências teológicas</p><p>da prática pode consultar-se M. Hengel, Himn and Christology, Studia Biblica 1978: JSNT Supl.3.</p><p>®Veja-se B. Fischer, Die Psalmenfrómmigkeit der Mãrtyrerkirche, Freiburg, 1949.</p><p>Desde Orígenes até Cassiodoro: panorama 17</p><p>No séc. IV assistimos a um movimento que procura inverter a direção:</p><p>exclui ou limita o uso de composições especificamente cristãs não canônicas,</p><p>dando, ao invés, direitos exclusivos ou preferenciais aos salmos como textos</p><p>de oração. Isso exigia uma “cristianização” maior e sistemática dos salmos.</p><p>Dois dados ilustrarão o movimento.</p><p>O concílio de Laodicéia (cerca de 360) estabelece que não se devem</p><p>recitar na Igreja salmos privados ou de particulares (psalmous idiotikous)</p><p>nem outros livros não canônicos, mas somente textos canônicos do Novo e</p><p>Antigo Testamento (ta kanonika).</p><p>Por seu lado, a carta de Atanásio a Marcelino (veja-se mais abaixo)</p><p>ensina como orar com os salmos canônicos. Os hinos especificamente</p><p>cristãos não apresentavam problemas particulares, salvo o perigo de</p><p>contaminação herética, sentido agudamente na época.</p><p>Não me toca descrever aqui o que ocorreu depois, contento-me com</p><p>uma referência de passagem. Os salmos entraram e continuaram vivendo</p><p>nas comunidades cristãs como repertório oficial de oração. Os hinos</p><p>cristãos continuaram a ser cultivados e recitados em lugar inferior, mais no</p><p>oriente que no ocidente. Entre os autores de hinos cristãos, destacam-se:</p><p>Efrém na igreja síria (306-372), Melódio Romano em grego (cerca de 490­</p><p>560); em latim, Hilário (f 367), Ambrósio (t 397), Prudêncio (f depois de</p><p>405), Sedúlio (f metade do séc. V), Venâncio Fortunato (t depois de 600),</p><p>Beda 735). O quarto concílio de Toledo (633) defende os hinos litúrgicos não</p><p>canônicos. A convivência dura até os nossos dias. Os hinos cristãos não são</p><p>comentários dos salmos em sentido estrito. Mas são testemunho insigne da</p><p>recepção dos salmos, uma recepção vital, que assimila o poder regenerador</p><p>de símbolos e formas poéticas. Poder-se-ia escrever uma história interes­</p><p>sante da interpretação dos salmos nos hinos da igreja.7</p><p>Conservamos papiros com textos de salmos, datados dos séculos II e</p><p>III, e, com mais abundância, nos séculos seguintes. As vezes esses papiros</p><p>eram usados como amuletos.8</p><p>4. Desde Orígenes até Cassiodoro: panorama</p><p>Começando por Orígenes e acabando com Cassiodoro, desde o séc. III</p><p>até bem dentro do séc. VI, desenvolve-se intensa atividade intelectual em</p><p>torno dos salmos. Chamo-a de intelectual para distingui-la do uso litúrgico</p><p>7Veja-se em Lexikon für Theologie und Kirche V, 559-573: Hymnendichter, Hymnengesang,</p><p>Hymnodie, Hymnologie, Hymnus', com bibliografia diferenciada.</p><p>’’Veja-se Orsolina Montevecchi, La Papirologia, 1973, 301-306.</p><p>18 História</p><p>The Accadian and Hebrew Psalms of Lamentation as</p><p>religious documents. A comparative study (Upsala 1936).</p><p>G. Castellino, Le lamentazioni individuali e gli inni in Babilônia e in</p><p>Israele. Raffronto riguardo alia forma e al contenuto (Turim 1940).</p><p>Id., Lamentazioni individuali accadiche ed ebraiche: Sal 10 (1948) 145­</p><p>162.</p><p>J. H. Patton, Canaanite parallels in the book of Psalms (Baltimore 1940)</p><p>C. L. Feinberg, Parallels to the Psalms in Near Eastern literature:</p><p>Bibliotheca Sacra 104 (1947) 290-297.</p><p>J. de Savignac, Theologie pharaonique et messianisme d’lsrael: VT 7</p><p>(1957)82-90.</p><p>H. G. Jefferson, Canaanite literature and the Psalms: The Personalist 39</p><p>(1958)356-360.</p><p>A. Barucq, L’expression de la louange divine et de lapriere dans la Bible</p><p>et en Égypte (El Cairo 1.962).</p><p>H. Reinelt, Die altorientalische und biblische Weisheit und ihr Einfluss</p><p>auf den Psalter (Friburgo 1966).</p><p>102 Introdução aos salmos</p><p>H. Donner, Ugaritismen in der Psalmenforschung: ZAW 79 (1967) 322­</p><p>350.</p><p>O. Loretz, Die Königspsalmen. Die altorientalische-kanaanäische</p><p>Königstradition in jüdischer Sicht (Münster 1988).</p><p>Merecem especial menção os comentários de Castellino para paralelos</p><p>mesopotâmicos e o de Lahood para paralelos ugariticos.</p><p>g) Gêneros literários (ordem alfabética)</p><p>R. Arconada, Ecclesiæ psalmi pœnitentiales (Roma 1936).</p><p>J. Begrich, Das priesterliche Heilsorakel: ZAW 52 (1934) 81-92.</p><p>J. Blenkinsopp, Can we pray the cursing Psalms?: CIRev 50 (1965) 534­</p><p>538.</p><p>H. A. Brongers, Die Rache- und Fluchpsalmen im AT: OTS 13 ( 1963) 21-42.</p><p>K. R. Crim, The royal psalms (Richmond 1962).</p><p>L. Delekat, Asylie und Schutzorakel am Zionheiligtum (Leiden 1967).</p><p>A. Descamps, Pour un classement littéraire des Psaumes, em FS Robert</p><p>(Paris 1957) 187-204.</p><p>H. Duesberg, Le psautier des malades (Maredsous 1952).</p><p>A. Feuillet, Les psaumes eschatologiques du règne de Yahweh: NRT 83</p><p>(1951) 244-260, 352-363.</p><p>O. Fuchs, Die Klage als Gebet. Eine theologische Besinnung am Beispiel</p><p>des Psalms 22 (Munich 1982).</p><p>K. Galling, Der Beichtspiegel. Eine gattungsgeschichtliche Studie: ZAW</p><p>47 (1929) 125-130.</p><p>E. Gerstenberger, Der bittende Mensch. Bittritual und Klagelied des</p><p>Einzelnen im AT: WMANT 51 (1980).</p><p>J. B. Glaus, Der Klagepsalm des Einzelnen in seiner Entstehungsgeschichte</p><p>und in seiner christlichen Aktualisierung (Innsbruck 1981).</p><p>J. Gray, The kingship ofGod in the Prophets and Psalms: VT 11 (1961)</p><p>1-29.</p><p>P. Guichou, La prière de pèlerinage dans la Bible: Rev Namur 18 (1964)</p><p>347-368.</p><p>A. Hjelt, Sjukdomslidandet och fienderna i psalmerna, em FS Buhl, 64­</p><p>74.</p><p>J. Jeremias, Theophanie. Die Geschichte einer alttestamentlichen Gattung</p><p>(Neukirchen 1965).</p><p>K. Koch, Tempeleinlassliturgien und Dekalog, emFS von Rad (Neukirchen</p><p>1961) 44-48.</p><p>F. Küchler, Das priesterliche Orakel in Israel und Juda, em FS von</p><p>Baudissin: BZAW 33 (1918) 285-301.</p><p>J. C. Laney, A fresh look at the imprecatory Psalms: BS 138 (1981) 35-45.</p><p>A. Lauha, Die Geschichtsmotive in den alttestamentlichen Psalmen</p><p>(ActAcadSc Fennicæ 56) (Helsinki 1945).</p><p>J. L. Lilly, The sacred duty of hating and imprecating: AmER 115 (1946)</p><p>271-277.</p><p>F. Mand, Die Eigenständigkeit der Danklieder des Psalters als</p><p>Bekenntnislieder: ZAW 70 (1958) 185-199.</p><p>Bibliografia geral 103</p><p>R. Martin-Achard, La prière des malades dans le Psautier: LuVie 86</p><p>(1958) 25-43.</p><p>J. L. McKenzie, The imprecations in the Psalter: AmER 111 (1944) 81-96.</p><p>D. Michel, Studien zu den sogenannten Thronbesteigungspsalmen: VT 6</p><p>(1956)40-68.</p><p>R. Murphy, A new classification ofliterary forms in the Psalms: CBQ 21</p><p>(1959) 83-87.</p><p>R. Nogosek, The royal psalms in form criticism (Paris 1961).</p><p>L. Sabourin, Un classement littéraire des Psaumes (Bruxelas 1964).</p><p>O. Schilling, Noch einmal die Fluchpsalmen: ThGl 47 (1957) 177-185.</p><p>R. Schmid, Die Fluchpsalmen im christlichen Gebet, em Theologie im</p><p>Wandel (Munique-Friburgo 1967).</p><p>H. Schmidt, Das Gebet des Angeklagten imAT: BZAW 49 (1928) 143-155.</p><p>M. de Tuya, El problema bíblico de las imprecaciones: CiTom 78 (1951)</p><p>171-192; 79 (1952) 3-29.</p><p>H. Ubbelohde, Fluchpsalmen und alttestamentliche Sittlichkeit (Breslau</p><p>1938).</p><p>P. van Imschoot, De psalmis imprecatoriis: ColGand 27 (1944) 89-93.</p><p>J. G. Vos, The ethical problem of the imprecating Psalms: WestThJ 4</p><p>(1942) 123-128.</p><p>S. Wagner, Das Reich des Messias: TL 109 (1984) 866-874.</p><p>CI. Westermann, Lob und Klage in den Psalmen (Gotinga 1977).</p><p>J. W. Wevers, A study in the form criticism of individual complaintPsalms:</p><p>VT 6 (1956) 80-96.</p><p>Naturalmente, é preciso consultar a ampla exposição de Lipinski no</p><p>DBS. Westermann propôs uma correção e simplificação que não logrou</p><p>impor-se. Do descobrimento e achado de novos gêneros hoje se passou a</p><p>estudar algum motivo em algum gênero; do tipo “a morte nas súplicas</p><p>individuais, contemplação da natureza nos hinos”. O grande debate sobre</p><p>o contexto cultual e sobre os salmos de “entronização de Yhwh” veio a se</p><p>acalmar. O elenchus não dedica secção especial aos gêneros dos salmos.</p><p>h) Identificação de personagens</p><p>R. Smend, Über das Ich der Psalmen: ZAW 8 (1888) 56-58.</p><p>A. Rahlfs, ‘ani und ‘ariaw in den Psalmen (Gotinga 1892).</p><p>E. Baila, Das Ich der Psalmen: FRLANT 16 (1912).</p><p>H. Birkeland, ‘ani und ‘anaw in den Psalmen (Oslo 1933).</p><p>Id., Die Feinde des Individuums in der israelitischen Psalmenliteratur</p><p>(Oslo 1933).</p><p>Id., The evildoers in the book of Psalms (Oslo 1955).</p><p>P. A. Munch, Einige Bemerkungen zu den ‘aniyym und den resha‘im in</p><p>den Psalmen: Le Monde Orientale 30 (1936) 13-26.</p><p>B. D. Eerdmans, The Chasidim, em Essays on Masoretic Psalms: OTS 1</p><p>(1942).</p><p>A. Puukko, Der Feind in den alttestamentlichen Psalmen: OTS 8 (1950)</p><p>47-65.</p><p>104 Introdução aos salmos</p><p>J. Coppens, Les psaumes des hasidim, enFS Robert (Paris 1957)214-224.</p><p>C. Sauer, I nemici nei Salmi: Protest 13 (1958) 201-207.</p><p>P. van den Berghe, ‘ani et ‘anaw dans les Psaumes, em Le Psautier ( 1962)</p><p>272-296.</p><p>K. Schwarzwäller, Die Feinde des Individuums in den Psalmen (Ham­</p><p>burgo 1963).</p><p>G. W. Anderson, Enemies and evildoers in the book of Psalms (Manchester</p><p>1965).</p><p>C. Hauret, Les enemies-sorciers dans les supplications individuelles:</p><p>RechBib 8 (1967) 129-137.</p><p>J. de Fraine, Les nations païennes dans les psaumes, em FS Rinaldi</p><p>(Genova 1967) 285-292.</p><p>M. du Buir, Le David des Psaumes: MDB 7 (1979) 6-7.</p><p>J. Scharbert, Das Wir in den Psalmen auf den Hintergrund alto­</p><p>rientalischen Betens, em FS H. Gross (Stuttgart 1986) 297-324.</p><p>St. Croft, The identity ofthe individual in the Psalms (Sheffield 1987).</p><p>i) Poética e estilística (ordem alfabética)</p><p>J. N. Aletti-J. Trublet, Approche poétique et théologique des Psaumes (Pa­</p><p>ris 1983).</p><p>L. Alonso Schökel, El lenguaje imaginativo de los Salmos, em</p><p>Hermenêutica de la palabra (Madrid 1987) II, 271-284.</p><p>E. Baumann, Strukturuntersuchungen im Psalter: ZAW 61 (1945-1948)</p><p>115-176; 62 (1949-1950) 115-152.</p><p>R. G. Boling, Synonimousparallelism in the Psalms: JSS 5 ( 1960) 221-255.</p><p>Th. Boys, A key to the Psalms, being a tabular arrangement, in which the</p><p>Psalms are exhibited to the eye. E. W. Bullinger (Londres 1890).</p><p>J. Becker, Structures strophiques des Psaumes: RSR 56 (1968) 199-223.</p><p>R. G. Bratcher, Dividing the Psalms into strophes: BT 29 (1978) 425-427.</p><p>R. Galdós, La estróftca de los salmos y su utilidad en la critica textual y</p><p>en la exégesis: EstBib 5 (1946) 215-230.</p><p>M. Girard, Les Psaumes. Analyse structurelle et interprétation, I, 1-50</p><p>(Montreal-Paris 1984).</p><p>W. Grossmann, Poetic devices in the book of Psalms (Nova York 1954).</p><p>G. Kittel, Die Sprache der Psalmen (Gotinga 1973).</p><p>L. Kunz, Zur symmetrischen Struktur der Psalmen, em FS Angles</p><p>(Barcelona 1958-1961) 453-464.</p><p>Id., Die Gestalt der alttestamentlichen Psalmen (Gerleve 1982).</p><p>J. Magonet, Some concentric structures in Psalms: HeyJ 23 (1982) 365­</p><p>372.</p><p>L. Monloubou, Les psaumes - le symbole - le corps: NRT 102 (1980) 35­</p><p>42.</p><p>L. Monloubou, L’imaginaire des Psalmistes. Psaumes et symboles (Paris</p><p>1980).</p><p>N. H. Ridderbos, De Psalmen, 1, 1-41 (Kämpen 1962).</p><p>L. Santucci, Poesia e preghiera nella Bibbia (1979).</p><p>J. Schildenberger,</p><p>Bemerkungen zum Strophenbau der Psalmen: EstEcl</p><p>34 (1960) 673-687.</p><p>Bibliografia geral 105</p><p>E. B. Smick, Mythopoetic language in the Psalms: WestTJ 44 (1982) 88­</p><p>98.</p><p>P. van der Lugt, Strofische Strukturen in de Bijbels-Hebreeuwse Poèzie</p><p>(Kämpen 1980).</p><p>Para o estudo da poesia, além do livro de Watson e o meu Manual,</p><p>tenho que apontar como estudo específico dedicado aos salmos o livro de</p><p>Aletti e Trublet, moderno em sua concepção de linguagem e estilo, bem</p><p>como marcadamente didático.</p><p>j) Temas e motivos (ordem alfabética)</p><p>Ch. Barth, Die Errettung vom Tode in den idividuellen Klage und</p><p>Dankliedern des AT (Zurique, 1947).</p><p>A. Barucq, La lode divina nei salmi: BiOr I (1959) 66-77.</p><p>A. Bentzen, Der Tod des Beters in den Psalmen, em FS Eissfeldt (Halle</p><p>1947) 57-60.</p><p>W . Beyerlin, Die töda der Heilsverkündigung in den Klageliedern des</p><p>Einzelnen: ZAW 79 ( 1967) 208-224.</p><p>G. J. Bildstein, Nature in the Psalms: Judaism 13 (1964) 29-36.</p><p>H. Bückers, Die Sündenvergebung in den Psalmen: DivThom Freib 29</p><p>(1951) 188-210.</p><p>Id., Zur Verwertung der Sinaitraditionen in den Psalmen: Bib 32 (1951)</p><p>401-422.</p><p>Chang Young-Ihl, The theme of oppression in the Psalms (Atlanta 1987).</p><p>J. H. Coetze, The tension between hideness of God and his saving</p><p>intervention (Pretoria 1987).</p><p>E. Cortese, Poveri e umili nei Salmi: RivBib 35 (1987) 299-306.</p><p>M. Dahood, The meaning of sacrifices in the Psalms, em FS J. H. Hertz</p><p>(Londres 1944) 97-109.</p><p>G. H. Davies, The ark in the Psalms, en FS Hooke (Edimburgo 1963) 51­</p><p>61.</p><p>A. Deissler, Das lobpreisende Gottesvolk in den Psalmen, em FS K.</p><p>Rahner (Friburgo 1961) 17-49 .</p><p>R. de Pinto, The Torah and the Psalms: JBL 86 (1967) 154-174.</p><p>U. Devescovi, I silenzi di Jahvé: RivBib 10 (1962) 226-239.</p><p>B. D. Eerdmans, Thora-Songs and Temple-Singers in the pre-exilic</p><p>period, em Essays on Masoretic Psalms (Leiden 1942).</p><p>D. Eichorn, Gott als Fels, Burg und Zuflucht. Eine Untersuchung zum</p><p>Gebet des Mittlers in den Psalmen (Berna-Francfurt 1972).</p><p>W. F. Forrester, Sin and repentance in the Psalms: CIR 41 (1956) 663-674.</p><p>H. J. Franken, The mystical communion with Jhwh in the book of Psalms</p><p>(Leiden 1954).</p><p>B. Gemser, Gesinnungsethik im Psalter: OTS 13 (1963) 1-20.</p><p>A. M. Gierlich, Der Lichtgedanke in den Psalmen. Eine terminologisch­</p><p>exegetische Studie (Friburgo 1940).</p><p>J . M. González Ruiz, Las teofanías en los salmos: EstBib 13 (1954) 267­</p><p>287.</p><p>106 Introdução aos salmos</p><p>M. Gruenthaner, The future life in the Psalms: CBQ 2 (1940) 57-63.</p><p>G. S. Gunn, God in the Psalms (Edimburgo 1956).</p><p>H. H. Guthrie, Israel’s Sacred songs: a study of dominant themes. (Nova</p><p>York 1960).</p><p>E. Haglund, Historical motifs in the Psalms (Malmö 1984).</p><p>B. Hall, The problem of retribution in the Psalms: Scripture 7 (1955) 84­</p><p>92.</p><p>A. Hanel, Die Erlösergestalt in ausgewählten Psalmen (Viena 1962).</p><p>J. Harvey, La typologie de l’Exode dans les Psaumes: ScEccl 15 (1963)</p><p>383-405.</p><p>C. M. Hyatt, The doctrine of salvation in the book of Psalms (Fort Worth</p><p>1952).</p><p>J. Jeremias, Das Königtum Gottes in den Psalmen: FRLANT (Gotinga</p><p>1987).</p><p>J. Im Seung-Phill, Die Unschulderklärungen in den Psalmen (Roma</p><p>1987).</p><p>O. Keel, Die Schilderung der Feinde in den individuellen Klage und</p><p>Lobpsalmen (Friburgo 1967).</p><p>H. Krings, Der Mensch vor Gott. Die Daseinserfahrung in den Psalmen</p><p>(Vurzburgo 1952).</p><p>J. Kühlewein, Das Reden von Geschichte in den Psalmen (Heidelberg</p><p>1966).</p><p>J. K. Kuntz, An examination of theophany in the OT, with special</p><p>reference to theophanic contexts in the Psalter (Nova York 1963).</p><p>V. Laridon, Psalmorum doctrina de retributione: ColBrug 44 (1948) 283­</p><p>287.</p><p>J. Luyten, Het Zelfbeklag in de Psalmen: ETL 39 (1963) 501-538.</p><p>D. J. McCarthy, Creation motifs in ancient Hebrew poetry: CBQ 29 (1967)</p><p>393-406.</p><p>H. McKeating, Divine forgiveness in the Psalms: ScotJT 18 ( 1965) 69-83.</p><p>P. Moré, Métaphores de la protection divine dans les Psaumes: RClAfr 10</p><p>(1955) 577-584.</p><p>N. Nicolsky, Spuren magischer Formeln in den Psalmen: BZAW 46</p><p>(Giessen 1927).</p><p>E. Pax, Studien zum Vergeltungsproblem der Psalmen: Liber Annuus</p><p>Franc. 11 (1960/1961) 56-112.</p><p>G. von Rad, Gerechtigkeit und Leben in der Kultsprache der Psalmen, em</p><p>FS Bertholet (Tubinga 1950) 418-437.</p><p>G. Ravasi, II canto della rana. Musica e poesia nella Bibbia (Casale</p><p>Monferrato 1990).</p><p>A. B. Rhodes, Creation and salvation inthe Psalter (Chicago 1952).</p><p>H. W. Robinson, The inner life ofthe Psalmist. Ed. D. C. Simpson (Oxford</p><p>1926) 45-66.</p><p>Id., The social life on the Psalmists: Ibid., 67-86.</p><p>T. H. Robinson, The god ofthe Psalmists: Ibid., 23-44.</p><p>Id., The eschatology ofthe Psalmists: Ibid., 87-108.</p><p>G. Sauer, Die strafende Gerechtigkeit Gottes in den Psalmen. Eine</p><p>Frömmigkeitsgeschichtliche Untersuchung (Halle 1956).</p><p>R. Sorg, Hesed and hasid in the Psalms (San Luis 1953).</p><p>Bibliografia geral 107</p><p>H. Strobel, La conversion des gentils dans les Psaumes (Roma 1949).</p><p>J. Thévenet, La confiance en Dieu dans les Psaumes (Paris 1965).</p><p>R. Tournay, L’eschatologie individuelle dans les Psaumes: RB 56 (1949)</p><p>481-506.</p><p>V. Vandenbroucke, Le Dieu des Psaumes: VieSp 74 (1946) 625-640.</p><p>L. Vosberg, Studien zum Reden vom Schöpfer in den Psalmen (Munique</p><p>1975).</p><p>A. H. van der Weijden, Die Gerechtigkeit in den Psalmen (Nimega 1952).</p><p>A. C. Welch, The Psalter in life, worship and history. Nature, History,</p><p>Worship, Inner life (Oxford 1926).</p><p>C. Westermann, Vergegenwärtigung der Geschichte in den Psalmen, em</p><p>FSKupisch (Munique 1963) 253-280.</p><p>W. I. Wolverton, The Psalmist’s belief in God’s presence: CanJT 9 (1963)</p><p>82-94.</p><p>H. Zirker, Die kultische Vergegenwärtigung der Vergangenheit in den</p><p>Psalmen (Bonn 1964).</p><p>Essa amostra seleta testemunha a riqueza de temas expressos nos</p><p>salmos e acusa algumas preferências dos exegetas. O Elenchus de R. Noth</p><p>dedica uma secção a temas, E6.5.</p><p>k) Leitura cristã (ordem alfabética)</p><p>J. Aldazábal, Salmos del AT para los cristianos de hoy: Phase 23 (1983) 109-122.</p><p>P. Beauchamp, Psaumes nuit et jour (Paris 1980).</p><p>D. Barsotti, Introduzione ai Salmi (Brescia 1972).</p><p>L. Bouyer, Les psaumes dans la prière chrétienne traditionnelle: BVC 10</p><p>(1955) 22-35.</p><p>H. Breit, Die Psalmen in der christlichen Kirche: KlBlatt 45 (1965) 379­</p><p>384.</p><p>G. M. Castellini, Isalmi, preghiera cristiana: EphLit 72 (1958) 341-347.</p><p>T. K. Cheyne, The Christian use ofthe Psalms (Londres 1899).</p><p>H. de Candole, The Christian use ofthe Psalms (Londres 1955).</p><p>J. Esquerda Bifet, Todo es mensaje. Experiencia cristiana de los salmos</p><p>(Madrid 1982).</p><p>J. Fichtner, Von Psalmenbeten. Ist das Beten aller Psalmen der christlichen</p><p>Gemeinde möglich und heilsam?: WortDienst 3 (1952) 38-80.</p><p>B. Fischer, Die Psalmenfrömmigkeit der Martyrerkirche (Friburgo 1949).</p><p>B. Fischer, Die Psalmen als Stimme der Kirche (Tréveros 1982).</p><p>Id., Prayng the Psalms. A guide for using the Psalms as Christian Prayer</p><p>(Notre Dame 1964).</p><p>S. B. Frost, The Christian interprétation ofthe Psalms: CanJT 5 (1959)</p><p>25-34.</p><p>A. George, Jésus et les Psaumes, em FS Gelin (Le Puy 1961) 297-308.</p><p>M. F. Lacan, Les Psaumes, prière de l’Église: VieSp 112 (1965) 519-530.</p><p>J. A. Lamb, The Psalms in Christian worship (Londres 1962).</p><p>H. Lamparter, Das Psalmengebet in der Christengemeinde. Eine</p><p>Einführung in das Gebetbuch der Bibel (Stuttgart 1965).</p><p>108 Introdução aos salmos</p><p>C. S. Lewis, Reflections on the Psalms (Londres 1958).</p><p>J. M. Nealy, A commentary on the Psalms from primitive and medieval</p><p>writers and from the various Office-Books and Hymns (Londres 1869).</p><p>R. F. Littledale, vol. IV (Londres 1874).</p><p>C. J. Nesmy, La tradition médite le Psautier (St. Cenere 1973).</p><p>S. Rinaudo, I salmi, preghiera di Cristo e delia Chiesa (1973).</p><p>A. Rose, Les Psaumes, voix du Christ et de l’Eglise (Paris 1982).</p><p>F. Vandenbroucke, Le psautier, prophétie ou pri'ere du Christ?: QLitPar</p><p>33 (1952) 149-161, 201-213.</p><p>Id., Les Psaumes et le Christ (Lovaina 1955).</p><p>M. Wolter, Psallite sapienter (Friburgo 1981).</p><p>T. Worden, The Psalms are Christian prayer (Nova York 1961).</p><p>Ao passo que os exegetas de profissão parecem evitar o tema em seus</p><p>comentários científicos, os mesmos</p><p>autores e outros muitos dedicam</p><p>interesse e até entusiasmo ao tema em escritos de “espiritualidade” (como</p><p>se fazer oracionáveis os salmos, ou seja, inteligíveis, não fosse tarefa da</p><p>ciência exegética). A secção E6.6 do Elenchus dos últimos anos dá fé do</p><p>renovado interesse pelo tema, mais entre autores católicos.</p><p>1) Bibliografia especial para a análise filológica</p><p>• Gramáticas e dicionários</p><p>J. Barth, Die Nominalbildung in den semitischen Sprachen (Leipzig, 2-</p><p>ed. 1894).</p><p>H. Bauer - P. Leander, Historische Grammatik der Hebräische Sprache</p><p>des Alten Testamentes, I: Einleitung. Schriftlehre. Laut- und Formenlehre</p><p>(Hildesheim 1965) [= Halle 1922], [BL].</p><p>W. Baumgartner, Hebräisches und aramäisches Lexicon zum Alten</p><p>Testament (Leiden 1967)... [HALAT].</p><p>G. Bergsträsser, Hebräische Grammatik, I-II (Leipzig 1918) 1929.</p><p>C. Brockelmann, Grundriss vergleichenden Grammatik der semitischen</p><p>Sprachen, I-II (Berlim 1908, 1913).</p><p>C. Brockelmann, Hebräische Syntax (Neukirchen Kreis Moers 1956).</p><p>H. Ewald, Ausfürliches Lehrbuch der Hebräischen Sprache des Alten</p><p>bundes (Gotinga 7~ ed. 1863).</p><p>W. Gesenius, Hebräische Grammatik. Völlig umgearbeitet von E. Kautzsch</p><p>(Leipzig 28a ed. 1909) [GK].</p><p>W. Gesenius, Thesauras philologicus criticus linguse hebreaeetchaldaeae</p><p>Veteris Testamenti, I-III (Leipzig 1829-1853).</p><p>W. Gesenius - F. Buhl, Hebräisches und aramäisches Handwörterbuch</p><p>über das Alte Testament (Leipzig 17® ed. 1921). [GB],</p><p>E. Jenni, Das hebräische Picel. Syntaktische-semantsiologische</p><p>Untersuchung einer Verbalform im Alten Testament (Zurique 1968).</p><p>P. Joüon, Grammaire de VHébreu Biblique (Roma 1965) (Edition</p><p>photomécanique corrigée) [1923]. [Jou.].</p><p>Bibliografia geral 109</p><p>Fr. E. König, Historisch-comparative Syntax der hebräischen Sprache</p><p>(Leipzig 1897).</p><p>R. Meyer, Hebräische Grammatik, I-IV (Berlin 1966-1972).</p><p>D. Michel, Tempora und Satzstellung in den Psalmen (Bonn 1960).</p><p>W. von Soden, Akkadisches Handwörterbuch, I-III (Wiesbaden 1965­</p><p>1981). [AHw],</p><p>W. von Soden, Grundriss der Akkadischen Grammatik (Analecta</p><p>Orientalia 33/47) (Roma 1969). [GAG].</p><p>F. Zorell, Lexicon Hebraicum et Aramaicum Veteris Testamenti (Roma</p><p>1940-1954). [Zor.].</p><p>• Comentários</p><p>Fr. Baethgen, Die Psalmen HAT II, 2 (Gotinga 3a ed. 1904).</p><p>B. Corderius, Expositio Patrum Graecorum in Psalmos, I-III (Amberes</p><p>1643-1646).</p><p>C. A. Briggs - E. G. Briggs, A Critical and Exegetical Commentary on the</p><p>Book of Psalms. ICC (Edimburgo 1907).</p><p>M. Buttenwieser, The Psalms. The Library of Biblical Studies (Nova</p><p>York 1969).</p><p>G. Castellino ,Libro dei Salmi, en La Sacra Bibbia, ed. S. Garofalo (Turim</p><p>1955) [Cast],</p><p>M . Dahood, Psalms, I-III (AB 16.17.17A) (Garden City 1966-1970) [Dah].</p><p>F. Delitzsch, Biblischer Kommentar über die Psalmen (Biblischer</p><p>Kommentar über das Alte Testament IV/1) (Leipzig 5a ed. 1894) [Del].</p><p>B. Duhm, Die Psalmen (Kurzer Hand-Kommentar zum Alten Testament</p><p>14) (Tubinga 2ä ed. 1922).</p><p>Genebrardus, In Psalmos Commentarium (Scripturæ Sacræ Cursus</p><p>Completus XIV-XVl) (Paris 1839).</p><p>H. Graetz, Kritischer Commentar zu den Psalmen, I-II (Breslau 1882,</p><p>1883).</p><p>H. Gunkel, Die Psalmen (Göttinger Handkommentar zum Alten</p><p>Testament II/2, 1926). (Gotinga 1968) [Gun].</p><p>E. Hieronimus, Breviarium in Psalmos: PL 26, 871-1406 [Hier-Jerön],</p><p>F. Hitzig, Die Psalmen, I-II (Leipzig Heidelberg 1863, 1865).</p><p>R. Kittel, Die Psalmen (Kat 13) (Leipzig 3-4® ed. 1922).</p><p>Ed. König, Die Psalmen (Gütersloh 1927).</p><p>H. J. Kraus, Psalmen, I-II (Biblischer Kommentar. Altes Testament 15/</p><p>1-2) (Neukirchen Vluyn 1978).</p><p>M. Marinus, Annotationes litterales in Psalmos, I-II (Bolonha 1748,</p><p>1750)</p><p>Nicolaus de Lyra Postilla, in Biblia Sacra cum glossa ordinaria, III</p><p>(Amberes 1617).</p><p>J. Pérez de Valencia, Centum ac quinquaginta Psalmi Davidici (Lião</p><p>1517).</p><p>G. Phillips, The Psalms in Hebrew; with a Critical, Exegetical, and</p><p>Theological Commentary I-II (Londres 1846) [Phil].</p><p>E. Podechard, Le Psautier. Traductio littérale et explication historique, I,</p><p>Ps 1-75, (Bibliothèque de la Faculté catholique de Théologie de Lyon 3) (Lião</p><p>1949) [Pod].</p><p>110 Introdução aos salmos</p><p>E. Podechard, Le Psautier. Notes critiques, I: Ps 1-75 (Bibliothèque de la</p><p>Faculté catholique de Théologie de Lião 4) (Lyon 1949).</p><p>D. Qmhy, hpyrwsh hshlm ï thlym. Ed. ’brhm, yrwshlym [s. d.]; trad.</p><p>latina: Rabbi Davidis Kimchi commentant in Psalmos Davidis regis et</p><p>prophetæ ex hebræo Latine redditi a Domno Ambrosio Ianvier (Paris 1666)</p><p>[Qim],</p><p>G. Ravasi, Il libro dei Salmi. Commento e attualizzazione, I-III (Lettura</p><p>pastorale delia Bibbia) Bolonha 1981-1984) [Rav].</p><p>E. F. C. Rosenmüller, Psalmi annotationeperpetua illustrati, I-III (Scolia</p><p>in Vêtus Testamentum IV) (Leipzig 1821-1823) [Ros].</p><p>Theodoretus Cyrensis, Interpretatio in Psalmos: PG 80, 857-1998.</p><p>A. Weiser, Die Psalmen, I-II (ATD 14) (Gotinga - Zurigo 10a ed. 1987).</p><p>L. Jacquet, Les Psaumes et le cœur de l’homme. Étude textuelle, littéraire</p><p>et doctrinale, I-III (1975-1979).</p><p>Conclusão</p><p>Ofereci algumas amostras de bibliografia geral, deixando ou estreitan­</p><p>do secções, selecionando autores e títulos. Espero que sirvam para remeter</p><p>o leitor a repertórios sistemáticos: aos que hoje se imprimem ou a próximos</p><p>bancos de dados.</p><p>No comentário que segue, darei bibliografia relativa a cada salmo para</p><p>encaminhar o leitor que deseje estudar um salmo ou um tema. Com isso,</p><p>espero livrar-me de apontar meu texto com notas. Existe uma espécie de</p><p>comentário que trabalha com fichas, às quais dá saída e constância ao longo</p><p>da exposição. Existe outra espécie de comentário que supõe a assimilação</p><p>seletiva de conhecimentos, que afloram diretamente na exposição, sem</p><p>passar pelo fichário. Os dois métodos são legítimos e escolhi o segundo.</p><p>TEXTO</p><p>E COMENTÁRIO</p><p>Salmo 1</p><p>1. Texto</p><p>1 Ditoso o homem</p><p>que não anda aconselhado por malvados \vvx</p><p>e no caminho de pecadores não se d etém ^ y^</p><p>e na sessão dos cínicos não toma<üÈèwisy U</p><p>2 mas sua ocupação é a lei do SeiiJwr.</p><p>e medita sua lei1 dia e n m ))</p><p>3 Será como uma árvore plantada junto a ri^mros,</p><p>que dá fruto a seu tèmpo e sua folhagem não murcha.</p><p>Tudo o que faz2 prospera.</p><p>4 Não assim os malvados [não assim]</p><p>mas como palha, que o vento arrebata.</p><p>5 Por isso no julgamento os malvados não ficarão de pé</p><p>ném os pecadores na assembléia dos justos.</p><p>6 'Porfyúe o Senhor se ocupa com o caminho dos justos,</p><p>^ 'iK\ mas o caminho( dttÉ rnalvados se extravia.</p><p>'essa lei</p><p>2 quanto emprepríde</p><p>2. Bitiliografia</p><p>H. Schmidt, Grüsse und Glückwünsche im Psalter: ThStKr 103 (1931)</p><p>141-150</p><p>E. R, Arbez, A study o f Psalm 1: CBQ 7 (1945) 398-404.</p><p>P. Auvray, Le psaume 1. Notes de grammaire et exégèse: RB 53 (1946) 365-371.</p><p>H. W. Wolff, Psalm 1: EvTh (1949-1950) 385-394.</p><p>H. J. Kraus, Freude am Gottes Gesetz: EvTh (1950-1951) 337-351.</p><p>I. Engnell, Planted by the Streams o f Water, em FS Pedersen (1953) 85-96.</p><p>G. J. Botterweck, Ein Lied vom glücklichen Menschen. Ps 1: ThQ 138</p><p>(1958)129-151.</p><p>L. Rousel, Le Ps 1. Texte, traduction, commentaire (Paris 1959).</p><p>G. Rinaldi, Al termine delle due vie. Sal 1: BiOr 3 (1961) 69-75.</p><p>114 Salmo 1</p><p>L. Kuntz, Zur Liedgestalt der ersten fünf Psalmen: BZ 7 ( 1963) 261-270.</p><p>J. A. Soggin, Zum ersten Psalm: TZ 23 (1967) 81-96.</p><p>S. Bullough, The Question of Meter in Psalm 1: VT 17 (1967) 42-49.</p><p>R. Bergmeier, Zum, Ausdruck ‘çtrsh‘ym inPs 1,1; Job 10, 3; 21,16; 22,18:</p><p>ZAW 79(1967)229-232.</p><p>E. Beaucamp, Le sens de ki-’im en Psaume 1; RSR 57 (1969) 435-437.</p><p>O. Loretz, Psalmenstudien: UF 3 (1971) 101-103.</p><p>W. H. Brownlee, Psalms 1-2 as coronation liturgy: Bib 52 ( 1971) 321-336.</p><p>R. C. M. Ruijs, Salmo 1: da forma ao conteúdo: Atualidades Bíblicas</p><p>(1971) 256-278.</p><p>H. Bardtke, Psalm 1 und Psalm 2, em FS De Liagre Böhl (Leiden 1973)</p><p>1-8 .</p><p>G. W. Anderson, A note on Psalm 1,1: VT 24 (1974) 231-233.</p><p>R. Lack, Le Psaume 1: Une analyse structurale: Bib 57 (1976) 154-167.</p><p>P. Auffret, Essai sur la structure littéraire du psaume 1: BZ 22 (1978)</p><p>26-45.</p><p>R. P. Merendino, Sprachkunst in Psalm 1: VT 29 (1979) 45-60.</p><p>W . Vogels, A structural analysis of Psalm 1: Bib 60 (1979) 410-416.</p><p>J.</p><p>T. Willis, Psalm 1 — An entity: ZAW 91 (1979) 381-401.</p><p>G. Haendler, Zur Auslegung der Psalmen in der alten Kirche: TLZ 103</p><p>(1978) 625-632.</p><p>N. H. Snaith, Psalm 1,1 and Is 40,31: VT 29 (1979) 363-364.</p><p>S. C. Reit, Ibn Ezra on Psalm 1,1-2: VT 34 (1984) 232-236.</p><p>J. A. Durlesser, Poetic Style in Psalm 1 and Jer 17,5-8: Sem 9 (1984)</p><p>30-48.</p><p>M. Conti, La via délia beatitudine e délia rovina secondo il Salmo 1: Anton</p><p>61(1986) 3-39.</p><p>M. E. Thomas, Ps 1 and 112 as a paradigm for the comparison of wisdom</p><p>motifs in the Psalms: JEvTS 29 (1986) 15-24.</p><p>J. Marböck, Zur frühen Wirkungsgeschichte von Ps 1, em FS H. Gross</p><p>(1986) 207-222.</p><p>B. J. Diebner, Ps 1 als Motto der Sammlung des kanonischen Psalters:</p><p>DielB 23 (1986) 7-45.</p><p>J. Maier, Ps 1 im Licht antiker jüdischer Zeugnisse, em FS Gunneweg</p><p>(1987) 353-365.</p><p>J. L. Mays, The place ofthe Torah-psalms in the psalter: JBL 106 (1987)</p><p>3-12.</p><p>Lista alfabética:</p><p>Anderson 74 Diebner 86 Merendino 79</p><p>Arbez 45 Durlesser 84 Reit 84</p><p>Auffret 78 Engnell 53 Rinaldi 61</p><p>Auvray 46 Haendler 78 Rousel 59</p><p>Bardtke 73 Kraus 50 Ruijs 71</p><p>Beaucamp 69 Kuntz 63 Schmidt 31</p><p>Bergmeier 67 Lack 76 Snaith 79</p><p>Botterweck 58 Loretz 71 Soggin 67</p><p>Análise filológica 115</p><p>Brownlee 71 Maier 87 Thomas</p><p>Bullough 67 Marböck 86 Vogels</p><p>Conti 86 Mays 87 Willis</p><p>86</p><p>79</p><p>79</p><p>Wolff 49</p><p>Nota sobre a bibliografia. O número de artigos, desde o final da guerra,</p><p>mostra o interesse que suscitou o salmo entre os intérpretes. Alguns fixam-</p><p>se mais na exegese ao modo tradicional: Kraus, Auvray, Soggin, Conti, etc.;</p><p>outros acentuam o aspecto pastoral: Kraus, Wolff; na etapa recente aprecia-</p><p>se o interesse crescente pelo aspecto literário do salmo: o artigo fundamental</p><p>é o de Lack, que, comparado com o de Auffret, mostrará a diferença entre</p><p>análise da estrutura profunda e da estrutura superficial e a superioridade</p><p>do primeiro (veja-se meu Manual de poética hebraica, (217-227); neste grupo</p><p>reúnem-se Ruijs, Durlesser, Merendino, Vogels. Outros consideram o salmo</p><p>em relação com o seguinte ou com outros: Kuntz, Brownlee, Bardtke, Willis.</p><p>Finalmente há notas sobre versos em particular. ,</p><p>Não encontro um estudo sistemático sobre a história da interpretação</p><p>deste salmo, e penso que por sua brevidade e caráter liminar seria uma boa</p><p>mostra do gênero. Isso mesmo haveria que repeti-lo de quase todos os</p><p>salmos.</p><p>3. Análise filológica</p><p>1. ’shry: Em geral se considera plural de ’esher (dicionários). Del o</p><p>deriva de ’ashar relacionado com yshr = ser reto, plano; cor o deriva de</p><p>’ashar - caminhar ou endereçar. Wellhausen hipotetiza um dual: Reste</p><p>arabischen Heidentums (Berlim, 1897, 2a ed., p. 111); Barth hipotetiza um</p><p>singular com - ê - de enlace, à semelhança de partículas; ZDMG 42 (1988)</p><p>356. Saraw identifica-o com uma forma arcaica qatlay: ZAW 21 (1908) 41;</p><p>de modo semelhante Soggin, TZ 23 (1967) 82s.</p><p>hlk: Para o valor temporal de qatal na poesia podem ver-se Bergsträsser</p><p>II, ap. 6i; Dahood III, 420-423. Ravasi fala de perfeito gnômico com valor de</p><p>presente. Vejam-se também Gunkel, Briggs e já Rosenmüller; Kraus</p><p>remete a Michel, p. 108ss e a Bergsträsser.</p><p>Içym: Diversas traduções: Ros o relaciona com o árabe lâça, de lawaça,</p><p>e traduz por irrisores, sanniones = burlões, bufões; Jerônimo irrisores, Del</p><p>Spötter, Briggs scorners; outros difamadores, segundo Is 29,20 e a inscrição</p><p>de Karatepe A-I, 8 (DBHE 368s).</p><p>2. wbtwrtw: Atribui valor enfático ao w - Soggin, TZ 23 (1967) 86.</p><p>ywmm wlylh sintagma adverbial. Podem ver-se: Brockelmann He Sy ap.</p><p>100 b, Bauer Leander ap. 65 s.u.y. Joüon 93g e 102b; Meyer 41.6 e 45, 3c.</p><p>3. whyh: w - consecutivo Gesenius Kautzsch 112x, Del, Duhm, Gun;</p><p>ou enfático Phillips.</p><p>116 Salmo 1</p><p>yçlyh: Del considera possíveis três valores: causativo com Deus</p><p>como sujeito = fará prosperar, transitivo com homem como sujeito = idem,</p><p>intransitivo com sujeito = “quanto empreende”. Preferem a segunda Br. Del</p><p>Duhm Gun But Cast Kr etc.; preferem a terceira LXX, Vg Ros Phil Wei etc.</p><p>Veja-se Ez 17,10 shtwlh htçlh = está plantada, lograr-se-á?, antônimo de</p><p>ybsh secar.</p><p>4. hrsh‘ym: Com artigo como oposto a h’ysh do v. 2.</p><p>5 .yqwmw: Levantar-se (ou ressuscitar) L'XXanastesontai, Vg resurgent,</p><p>Briggs. Comparecer, estar presente Dah (contrario in absentia), Kraus</p><p>participar no julgamento sacro que precede à entrada no templo. Em</p><p>contrato matrimonial de Elefantina (see. V), linha 2 e 24, usa-se qwm b‘dh</p><p>para expressar um ato jurídico, proclamação do divórcio, diverso de um</p><p>processo, expresso por wV dyn wl’ dbb, na linha 26 e 29. Na linha 29 qwm</p><p>‘l significa um ataque de terceiros aos direitos da esposa. Veja-se J.</p><p>Fitzmyer, em FS Albright (1971) p. 139. A luz desse texto, o versículo do</p><p>salmo poderia significar que os malvados não atacarão aos honrados</p><p>acusando-os ou com falso testemunho, num juízo nem terão voz na assem­</p><p>bléia.</p><p>6.yw d‘: Com matiz de afeto: Del Soggin Rav; de cuidado: Qimchi Dah</p><p>Kr; de aprovação: Ros Phil.</p><p>t’bd: Qim e Del o explicam como ir à perdição = ’bdwn.</p><p>4a. LXX e Vg acrescentam um segundo “não assim”.</p><p>4b. LXX e Vg acrescentam “da superfície da terra”, ou “do solo”.</p><p>4. Estudo global</p><p>a) Gênero. O salmo primeiro costuma-se catalogar entre os salmos</p><p>sapienciais. Os comentadores, que flutuam ao traçar a lista dos salmos</p><p>sapienciais, não soem duvidar acerca do primeiro. Por tonalidade e atitude,</p><p>por vários motivos literários, por alguns termos, parece-me segura a</p><p>classificação.</p><p>O salmo primeiro não é hino nem ação de graças, não é súplica nem ato</p><p>de confiança. E uma reflexão tranqüila, um enunciado seguro sobre o</p><p>destino do homem. Destino que se realiza em sistema de oposições simples,</p><p>porque a liberdade divide os homens em campos éticos e a dimensão ética</p><p>é parte da ocupação sapiencial:</p><p>Uma linhagem honrosa? — A linhagem humana;</p><p>uma linhagem honrosa? — Os que respeitam a Deus.</p><p>Uma linhagem abjeta? — A linhagem humana;</p><p>uma linhagem abjeta? — Os que quebrantam a lei (Eclo 10,19).</p><p>Análise filológica 117</p><p>Se o talante sapiencial apela à razão, por que a intervenção decisiva da</p><p>lei? Porque a lei é parte do mundo sapiencial, especialmente em textos</p><p>tardios (vamos ver mais abaixo). Também é sapiencial concretizar a antítese</p><p>ética na imagem, bastante gasta, dos dois caminhos. A retribuição pela</p><p>conduta é tema favorito dos sapienciais, e os momentos críticos o confirmam</p><p>(p.ex., S173; Jó). O termo leç é quase exclusivo do mundo sapiencial e ‘eça pode</p><p>entrar e sair do campo mencionado.</p><p>Pode-se ser exato dentro do gênero sapiencial? — Não muito. A felicita­</p><p>ção, ’ashre, poder-se-ia considerar como gênero autônomo (veja-se mais</p><p>abaixo), que não se deve confundir com a bênção. E verdade que a felicitação</p><p>abunda especialmente em salmos e textos sapienciais: 26 vezes e 10 vezes</p><p>respectivamente, diante de 9 vezes no resto da Bíblia. A felicitação pode ser</p><p>uma frase integrada e pode governar a unidade.</p><p>A pertença do salmo ao mundo sapiencial convida a compará-lo com</p><p>paralelos específicos, tarefa que repartirei no que segue.</p><p>b) Época. Creio que o salmo é tardio, composto para construir um pórtico</p><p>à coleção final de todos os salmos. O posto da tôra é típico de textos tardios, como</p><p>Dt 4, Bar 3, Eclo; os paralelos com Pr 1-8 parecem confirmá-lo.</p><p>c) Composição. Seguindo o seu modelo favorito de elaboração sucessiva,</p><p>Lipinski (DBS, Psaumes) e Merendino propõem um texto primitivo simples,</p><p>reelaborado mais tarde. Lipinski pensa na felicitação simples inicial, adatada</p><p>depois a usos didáticos: esse autor opera com o modelo de formas ou gêneros</p><p>simples e puros, que se amalgamam sucessivamente em composições hete­</p><p>rogêneas. Merendino propõe um texto original simples, enriquecido com</p><p>interpolações tomadas de Jr 8,13; 31,9; 17,8s.</p><p>Os que adotam o modelo literário vêem no salmo uma unidade original,</p><p>compacta na travação de seus elementos, desenvolvida com coerência e</p><p>clareza, de caráter mais intelectual. Mostram-no tanto a estrutura de</p><p>superfície como a estrutura profunda.</p><p>Estrutura de superfície. O honrado é descrito com tr��s traços negativos</p><p>e um</p><p>positivo, dos quais se segue, em figura vegetal, a sua prosperidade. O malvado</p><p>ocupa posição assimétrica, pois só se enuncia o seu destino final, ao passo que sua</p><p>conduta permanece implícita ou pressuposta por contraste no primeiro</p><p>versículo. No final impera a simetria de duas oposições entre malvados e hon­</p><p>rados, se bem que a ação de Javé introduza uma última e significativa assime­</p><p>tria. A oposição mostra o caudal tradicional dos dois caminhos, duas condutas,</p><p>dois destinos. A assimetria que impõe o autor mostra que o seu interesse</p><p>primário é o destino do honrado e que o malvado entra por contraste ou por</p><p>generalização. Isso individualiza o salmo, distinguindo-o de outras exposições</p><p>sapienciais sobre os dois caminhos, como, por exemplo, a de Pr 4,10-19.</p><p>118 Salmo 1</p><p>Estrutura profunda. Remi Lack submeteu o salmo a uma análise</p><p>semiótica dos eixos semânticos (Manual de Poética 224s). Nos três</p><p>elementos, vento, terra e água, enraíza os semas de instabilidade/estabi­</p><p>lidade = vento/terra; o vento é, ademais, esterilidade, a terra com água é</p><p>fecundidade. Opõem-se malvados, estéreis e instáveis, a honrados, está­</p><p>veis e fecundos: passa o vento diante da árvore junto a ribeiros. Assim</p><p>resulta a tôra como água perene que fecunda com sua presença e contato</p><p>o honrado que a medita. O eixo da temporalidade estende-se entre os</p><p>opostos cíclico/linear: cíclicos são noites e dias, estações; linear é o</p><p>desenlace do fruto e juízo, do ser arrebatado pelo juízo e extraviar-se do</p><p>caminho. Complementa-o o eixo do movimento: seguir — deter-se —</p><p>sentar-se/ser arrebatado — não manter-se — perder-se. E o eixo de</p><p>pluralidade/singularidade: malvados/honrado ao princípio, dois plurais</p><p>no final.</p><p>Vogels acrescentou uma análise de actantes e do quadrado semiótico,</p><p>que diz confirmar a análise de Lack. Mas, tratando-se de um texto não</p><p>narrativo, a análise de actantes parece-me menos oportuna.</p><p>Em conclusão, acolho dois aspectos sobressalentes da composição do</p><p>salmo: processo e resultado na primeira parte, decisão escatológica no final;</p><p>segundo, a assimetria, que rompe o paralelismo rigoroso de honrados e</p><p>malvados.</p><p>5. Exegese</p><p>1-2. Enunciado negativo e positivo é uma maneira de definir completa,</p><p>inclusiva, que encontramos em outras passagens: p.ex., Jó era “religioso e</p><p>separado do mal” (1,1.8; 2,3; Pr 3,7; 16,6.17); “cessai de fazer o mal,</p><p>aprendei a fazer o bem” (Is 1,17) etc. Mas, enquanto estes textos falam do</p><p>apartar-se do mal, o salmo personaliza o mal como conduta dos malvados,</p><p>e está mais próximo dos versículos seguintes de Provérbios:</p><p>3,31 Não invejes o violento</p><p>nem escolhas nenhum de seus caminhos.</p><p>22,24 Não te juntes ao colérico</p><p>nem vás com o iracundo,</p><p>25 para que não ocorra que te acostumes com seus caminhos</p><p>e te ponham uma armadilha mortal.</p><p>23,17 Não tenhas inveja dos pecadores,</p><p>mas sempre dos que respeitam a Deus:</p><p>18 assim terá um porvir</p><p>e tua esperança não fracassará.</p><p>Exegese 119</p><p>(Caberia um estudo comparado destes textos com o Sl 1. A simples</p><p>citação mostra o parentesco).</p><p>Gregório de Nissa, com sua tendência filosófica, comenta: O salmo pri­</p><p>meiro é uma espécie de introdução à filosofia espiritual, pois nos persuade</p><p>a afastar-nos do malvado ou do mal, a aproximar-nos do bom ou do bem.</p><p>1. A peça negativa articula-se em três momentos progressivos, já</p><p>indicados por comentadores antigos e modernos. As personagens a serem</p><p>evitadas são rsh‘ym - malvados, htym = pecadores, Içym = cínicos em</p><p>sentido não técnico (de escola filosófica). O adjetivo designa o homem que</p><p>despreza com superioridade, burla com segurança, não respeita nem valores</p><p>nem pessoas. Em geral os comentadores assinalam a ação e o costume de</p><p>burlar. Para mais dados veja-se nosso comentário a Provérbios 412.</p><p>Os malvados não são simples pluralidade, mas grupo concorde, como</p><p>o insinua a palavra ‘eça, se lhe atribuímos o valor de conselho, deliberação</p><p>(veja-se Bergmeier); indica-o claramente o termo moshab, que tem aqui o</p><p>sentido tardio de junta, sessão: como em Ez 28,2 a assembléia dos deuses</p><p>ou no Sl 107,32 o conselho dos anciãos.</p><p>Entre ambos os substantivos abre passagem o drk, caminho ou</p><p>conduta, o qual produz um corrimento de versos. Sendo a expressão</p><p>normal hlk bdrk = ir pelo caminho, o autor rompe o sintagma e fala de “ir</p><p>pelo conselho, deter-se no caminho”. O terceiro verbo, sentar, resolve a</p><p>miúda tensão. O trio enuncia uma ruptura total com um modo de viver e</p><p>atuar; ruptura que Pr 29,27, fechando um ciclo, enuncia em termos de</p><p>incompatibilidade radical, de aborrecimento mútuo. Caráter mais explici­</p><p>tamente teológico tem a profissão do Sl 139,21: “aborreço, Senhor, os que</p><p>te aborrecem”. Pode ver-se o desenvolvimento de Sb 2, de que cito dois</p><p>versículos:</p><p>15 leva uma vida distinta dos outros</p><p>e vai por um caminho à parte;</p><p>16 considera-nos de má lei</p><p>e se afasta de nossas sendas como se contaminassem;</p><p>proclama ditoso o destino do justo...</p><p>Pérez de Valência amplifica o verso, preparando o enlace com o v. 2:</p><p>Como há três graus de malvados, a saber, os que propõem, os que pecam,</p><p>os que se obstinam, assim também há três graus de honrados, a saber,</p><p>principiantes, adiantados, perfeitos. Por isso podemos ler e entender os</p><p>versículos hipoteticamente assim: Feliz o homem que não segue o conselho</p><p>dos malvados, mas permanece no conselho dos fiéis e justos; que não se</p><p>detém nas sendas dos pecadores, mas que persiste em fazer o bem; que não</p><p>senta no banco de pestilência, mas que persevera na doutrina autêntica da</p><p>lei.</p><p>120 Salmo 1</p><p>2. Parte positiva. A três substantivos com genitivo plural de pessoa</p><p>opõe-se um único substantivo com genitivo, duplicado, como opondo seus</p><p>flancos simétricos, idênticos: a tôra do Senhor, sua tôra.</p><p>Tora é originariamente uma instrução, uma diretiva; é depois a vontade</p><p>de Deus articulada em palavra e comunicada ao homem; pode converter-se</p><p>em entidade autônoma, objetivada; chega a significar um corpo cristalizado</p><p>e transmitido com autoridade. Na época a que atribuo o salmo, o caráter de</p><p>corpo canônico pode estar presente; podem-no evidenciar os textos de Baruc</p><p>e Eclo que aduzirei mais embaixo. Contudo, o genitivo pessoal “do Senhor”</p><p>pesa tanto como o substantivo: a relação com Deus está na consciência, ainda</p><p>que o seu leito seja um texto legal.</p><p>Assim o propõe Kraus, indicando como a lei se enraíza na aliança; e contra</p><p>Noth defende que não se desprendeu de seu contexto original.</p><p>Para Wolff, a tôra inclui aqui também os salmos e toda a palavra de Deus</p><p>escrita e canonizada no séc. III. Ambos os autores dão muito peso ao termo</p><p>hepes = prazer, gosto, desejo: a lei não se sente como imposição externa,</p><p>vinculante da liberdade e restritiva, mas que se interioriza e se ama. A esse</p><p>propósito aduzem alguns paralelos:</p><p>Js 1,8 Que o livro dessa lei não te caia dos lábios;</p><p>medita-o de dia e de noite; (whgyt bw ywmm wlylh)</p><p>para pôr em obras todas as suas cláusula</p><p>assim prosperarão tuas empresas e terás êxito (tçlyh ’t drkyk).</p><p>Essas sentenças, normalmente atribuídas ao Deuteronomista, in­</p><p>fluem na formulação do Sl 1: aquilo de que o narrador encarrega o chefe e</p><p>sucessor de Moisés, agora é oferta universal, sapiencial, ha’ish.</p><p>Sl 40,9 Deus meu, eu o quero: hpçty</p><p>levo tua lei nas entranhas wtwrtk btwk m‘y</p><p>O Sl 1 usa a raiz hpç, mas não fala de assimilação nas entranhas. O</p><p>substantivo também pode, de mais a mais, significar “tarefa” (Eclo 3,1),</p><p>paralelo sinonímico de meditação.</p><p>Sl 37,30 A boca do honrado fala sabiamente,</p><p>sua boca diz o que deve,</p><p>31 porque leva no coração a lei de seu Deus.</p><p>E interessante neste texto a conjunção do ético, çdyq; o sapiencial,</p><p>yhgh hkmh, e o religioso, tvort ’Ihyw. Diz mais que o Sl 1.</p><p>Pr 29,18 O que guarda a lei é feliz (’shry).</p><p>Exegese 121</p><p>Este texto fala de uma felicidade que consiste em observar a lei.</p><p>O Sl 1 se detém na meditação, como tarefa permanente, supondo que</p><p>dela se seguirá o cumprimento. E curioso que se detenha aí, inclusive se</p><p>afastando do modelo de Js 1,8. Por quê? Talvez porque o salmo programe</p><p>uma atividade recolhida, de simples meditação, própria do mundo espiri­</p><p>tual dos salmos. Através da meditação o homem poderá modelar sua</p><p>conduta.</p><p>hgh significa mussitar, sussurrar e mais tarde meditar. Opõe-se à</p><p>meditação em voz alta, Sl 50,16 spr, ou à leitura em voz alta, Dy 17,19 qr’.</p><p>Dia e noite é fórmula comum, que Beauchamp tomou como título do seu</p><p>livro: Psaumes nuit e jour.</p><p>3. A dita deste homem consiste formalmente em meditar a lei do</p><p>Senhor ou nas conseqüências dessa atividade? Responde o v. 3 passando às</p><p>conseqüências valendo-se de uma figura vegetal singela, um esboço de</p><p>paisagem: uma árvore plantada junto a ribeiros, com o sulco sempre</p><p>assegurado, de folha perene e fruto em seu tempo (nessa secção concentra-</p><p>se a análise de Lack). Obviamente, mesmo sem cair na alegoria pormeno­</p><p>rizada, a tôra é a corrente de água que o homem absorve meditando. O fruto</p><p>é conseqüência de uma vitalidade bem regada, não é um prêmio dependu­</p><p>rado desde fora, como os enfeites de uma árvore de natal. Por que também</p><p>as folhas? Fazia falta para completar o paralelismo; talvez visão de beleza,</p><p>frondosidade que é um sinal de vida, oferta de sombra. Sendo esse dado</p><p>menos comum, abre-se à sugestão. O Sl 92,13s se compraz na descrição</p><p>vegetal do honrado, afirmando enfaticamente, paradoxalmente, que isso</p><p>sucede no templo:</p><p>13 O honrado florescerá como a palmeira,</p><p>se alçará como cedro do Líbano</p><p>14 plantado na casa do Senhor,</p><p>florescerá nos átrios de nosso Deus;</p><p>15 na velhice continuará dando fruto</p><p>e estará loução e frondoso.</p><p>As árvores que contempla Ezequiel, vivificadas pelo manancial do</p><p>templo, justificam expressamente as folhas: “seus frutos serão comestíveis,</p><p>suas folhas, medicinais” (47,12). Jeremias frisa a esterilidade do povo</p><p>mencionando frutos e folhas: “não há cachos de uva na videira nem figos na</p><p>figueira, a folha está seca” (8,13). Por sua vez, Isaías (texto provavelmente</p><p>posterior) pronuncia esta maldição: “serão como carvalho de folhas secas,</p><p>como jardim sem água” (ls 1,30, Merendino).</p><p>Mais que os textos precedentes interessa-nos Jr 17,5-8, porque o seu</p><p>desenvolvimento antitético está mais próximo do Sl 1:</p><p>122 Salmo 1</p><p>5 Maldito quem confia no homem</p><p>e busca apoio na carne</p><p>apartando seu coração do Senhor!</p><p>6 Será espinho da estepe que não chegará a ver chuva</p><p>habitará em deserto abrasado,</p><p>terra salobra e inóspita.</p><p>7 Bendito quem confia no Senhor</p><p>e busca nele seu apoio!</p><p>8 Será uma árvore plantada junto à água,</p><p>enraizada junto à corrente:</p><p>quando chegar o calor, não temerá,</p><p>sua folhagem continuará verde,</p><p>em ano de seca não se assusta,</p><p>não deixa de dar fruto.</p><p>Jr opõe bênção a maldição, o salmo fala de felicidade; o tema de</p><p>Jeremias é a confiança em Deus ou no homem e se fixa na ameaça periódica</p><p>da seca. O aspecto parecido dos dois textos é bem restrito.</p><p>A última frase do versículo 3, que não poucos consideram glosa, tem o</p><p>inconveniente de explicar desnecessariamente a figura, mas tem a vanta­</p><p>gem de seu tom categórico.</p><p>4. O autor abrevia a antítese vegetal do malvado, como que materia­</p><p>lizando no texto sua caducidade, como que polarizado pelo momento final</p><p>e irreversível. A comparação da palha é tópica: Is 17,13 o exército invasor;</p><p>29,5 idem; 41,15s os inimigos; Os 13,3 Efraim idólatra; Sf 2,2 o povo</p><p>pecador; Jó 21,18 os malvados. O olhar profético se fixa nos inimigos, o</p><p>sapiencial generaliza.</p><p>O verbo ndp = arrebatar é pouco freqüente. Aplica-se a folhas, palha,</p><p>fumaça. E curioso que o dinamismo do vento seja aqui sinal negativo, ao</p><p>passo que a quietude vertical é signo positivo. Contudo, não carece pensar num</p><p>vento teofânico, ainda que possua virtude judicial (cf. Jr 4,lls). O vento não</p><p>arrasta a árvore enraizada, mas os que voluntariamente se tornam palha.</p><p>Contrasta a agitação repentina de uma rajada de vento com o fluir sossegado</p><p>dos ribeiros. O vento pode ser instrumento a serviço de Deus (Sl 104,4).</p><p>5 .0 poema abandona a breve figura vegetal, dá um salto ao momento</p><p>escatológico e adota um tom sentencioso, mais regular. Malvados e pecado­</p><p>res são os de antes, que hão de comparecer ao juízo definitivo de Deus; se</p><p>bem que o verbo qwm pareça significar aqui o manter-se em pé, na posição</p><p>dos inocentes. Veja-se P. Bovati, Ristabilire la giustizia, Roma, 1986, pp.</p><p>217-219-276.</p><p>Cabe a leitura superposta das duas peças: os pecadores culpados não</p><p>terão um posto no grupo dos honrados. Pois os honrados são agora uma</p><p>comunidade, uma assembléia, que tem lugar precisamente diante do</p><p>Exegese 123</p><p>tribunal (à direita?). Mudou-se a direção da negação: no v. 1 era o honrado</p><p>que evitava a sessão dos malvados, agora são os malvados que não têm</p><p>acesso à assembléia dos justos. E tarde demais, não é hora de conversão,</p><p>mas de receber a sentença. O livro da Sabedoria nos oferece uma visão</p><p>imaginativa de um juízo final:</p><p>4,20 Comparecerão assustados quando da contagem dos pecados,</p><p>e seus delitos os acusarão na cara.</p><p>5,1 Naqueíe dia o justo ficará em pé sem temor</p><p>perante os que o afligiram e desprezaram seus trabalhos.</p><p>Todos comparecem, o justo está de pé, separado e diante deles.</p><p>6. O último versículo dá a razão do desenlace, no qual intervém de</p><p>modo particular o Senhor. A assimetria está bem calculada: do primeiro</p><p>hemistíquio é sujeito o Senhor e complemento o caminho, no segundo</p><p>hemistíquio é sujeito o caminho. Como se o êxito dependesse do Senhor, e</p><p>o fracasso fosse conseqüência imanente de uma conduta. Preenchendo o</p><p>silêncio, para maior clareza, diríamos que o Senhor atende e se desentende,</p><p>ocupa-se e despreocupa-se.</p><p>No verbo ’bd conjugam-se o sentido físico de perder-se = extraviar-se,</p><p>próprio do caminho, e o perder-se = perecer, próprio de uma vida e um</p><p>destino: perda e perdição. Recordemos que um sinônimo de she’ol é ’abadon:</p><p>Sl 88,12; Jó 26,6; 28,22; Pr 15,11.</p><p>Realmente, é preciso felicitar o homem que se liberta da perdição</p><p>graças ao exercício de meditar a lei; o homem se atarefa com a lei do Senhor,</p><p>e o Senhor ocupa-se de seu destino.</p><p>O Sl 1 como introdução ao saltério</p><p>Considero esse salmo uma composição tardia, elaborada para ser</p><p>anteposta à compilação final do saltério. Donde brotam valores contextuais</p><p>que convém sondar.</p><p>“Que melhor começo do saltério que essa profecia e louvor do homem</p><p>perfeito em sua relação com o Senhor?” (Orígenes).</p><p>“O Sl 1 é a base que sustenta todo o edifício do saltério” (Basílio).</p><p>“Magnífico salmo para começar o saltério: expressa a esperança da</p><p>felicidade, a ameaça de juízo, a promessa de incorporação ao mistério de</p><p>Deus” (Hipólito).</p><p>— E provável que o autor tenha escolhido a letra alef para começar.</p><p>Dentro do salmo a primeira palavra começa com alef, a última com tau</p><p>(primeira e última letras do alfabeto hebr.). A coisa não é tão clara se nos</p><p>fixarmos em todo o saltério ou em alguma coleção: o Sl 150 termina com</p><p>124 Salmo 1</p><p>fhallel Yh, num louvor a toda a orquestra; o Sl 148 leva um remate tfhilla;</p><p>o Sl 72, que fecha a segunda coleção, acrescenta ao remate klw tplwt dwyd.</p><p>— Mais significativo é o gênero de felicitação, que com termo técnico</p><p>se costuma chamar de macarismo (grego makarios = feliz, makarizo =</p><p>felicitar).</p><p>H. Schmidt, Grüsse und Glückwiinsche im Psalter: ThStKr 103 (1931)</p><p>141-150.</p><p>C. Keller, Les béatitudes de 1’AT, em FS W. Vischer (1960) 88-100.</p><p>W. Janzen, ’ashre in the OT: HarvThR 58 (1965) 215-226.</p><p>E . Lipinski, Macarismes et psaumes de congratulation: RB 75 (1968) 321­</p><p>367.</p><p>Felicitar pode expressar um desejo, como, por exemplo, num aniversá­</p><p>rio; pode ser enunciado: feliz tu que conseguiste... Em ambos os casos</p><p>implica um juízo de valor. A felicitação não é mandato, como a tôra, nem</p><p>súplica, como a tepilla. No Sl 1 é um enunciado de valor: evitar o caminho</p><p>dos pecadores é um valor, meditar a lei do Senhor é um valor. Todo o saltério</p><p>fica assim inscrito, de algum modo, nesse enunciado inicial e programático.</p><p>“Todo homem deseja a felicidade. Por isso o salmo primeiro descreve</p><p>quem realmente é feliz” (Eusébio).</p><p>“O fim da vida virtuosa é a felicidade. Verdadeiramente</p><p>feliz é Deus, como</p><p>diz lTm 6,15... Entre os homens, é feliz quem se assemelha a Deus por</p><p>comunhão com ele e participação dele” (Gregório Niceno).</p><p>Ao longo do saltério, encontraremos outras felicitações, 26 no todo.</p><p>Como começo de salmos, com ’ish, geber, ’adam, ‘am:</p><p>32.1 Feliz o que ficou absolvido de sua culpa</p><p>41.2 Feliz o que se ocupa do desvalido (cf. Pr 14,21)</p><p>112.1 Feliz o homem que respeita o Senhor.</p><p>119.1 Feliz o que tem vida irrepreensível drk</p><p>2 Feliz o que guardando seus preceitos...</p><p>128.1 Feliz o que respeita o Senhor e segue seus caminhos</p><p>(v. 3 pry, v. 3b shtl).</p><p>Com outros substantivos</p><p>32.2 Feliz o homem ’dm a quem o Senhor não lhe aponta o delito</p><p>34,9 Feliz o varão gbr que se acolhe a ele</p><p>40.5 Feliz o varão que pôs sua confiança no Senhor</p><p>84.6 Feliz o homem que encontra em ti sua força</p><p>94.12 Feliz o varão a quem educas</p><p>127.5 Feliz o varão que enche com eles sua aljava</p><p>32.12 Feliz o povo ‘m cujo Deus é o Senhor</p><p>89,16 Feliz o povo que sabe aclamar-te</p><p>144.5 Feliz o povo que tem isso, cujo Deus é o Senhor</p><p>Exegese 125</p><p>Pelo parentesco certo, vale a pena acrescentar alguns dados do livro</p><p>dos Provérbios:</p><p>3,13 Feliz o homem ’dm que alcança sensatez hkmh</p><p>8,32 Feliz o que observa os meus caminhos</p><p>8,34 Feliz o homem que me escuta</p><p>14,21 Feliz quem tem piedade dos pobres</p><p>16,20 Feliz o que confia no Senhor</p><p>20,7 Felizes os filhos que lhe sucedam</p><p>28,14 Feliz o homem que se mantém alerta</p><p>29,18 Feliz o que guarda a lei</p><p>O repertório se presta a um estudo sobre o sistema fundamental de</p><p>valores nos dois corpos de escritos e em comparação com o evangelho.</p><p>— O sapiencial. Erigir um pórtico sapiencial é como acolher e circuns­</p><p>crever todo o saltério na tarefa sapiencial do homem. Com alcance univer­</p><p>sal, já que se trata de ’ish, de um homem qualquer. Referências típicas de</p><p>Israel são o nome de Yhwh e a tôra: dimensões que agora se abrem e se</p><p>oferecem a qualquer um. Todo homem pode entrar por este pórtico no</p><p>saltério.</p><p>Como os salmos pertencem tradicionalmente aos ketubim e se men­</p><p>ciona a tôra, podemos notar a falta dos profetas. E que o pórtico não</p><p>introduz formalmente à escuta do oráculo, mas à tarefa humana de</p><p>assimilar-se a tôra. Não faltam no saltério salmos de acento profético, não</p><p>faltam oráculos sacerdotais. Contudo, o oráculo é palavra de Deus dirigida</p><p>ao homem, o salmo é palavra humana dirigida a Deus.</p><p>Introduzir orações, hinos ou súplicas, em textos sapienciais é costume</p><p>que se cristaliza em tempos tardios. Pr 30,7-9 é uma breve súplica a Deus.</p><p>Ben Sira, o Eclesiástico, espraia-se em magnífico hino, 42,15-43,33, e sabe</p><p>inserir preces de vez em quando: p.ex., 22,27-23,6; 36,1-22; uma ação de</p><p>graças em 51,1-12; numa ocasião o mestre convida os discípulos ao louvor,</p><p>39,14s. O livro da Sabedoria insere uma prece do fictício Salomão no</p><p>capítulo 9. Talvez seja mais ambiciosa a idéia do autor do salmo primeiro</p><p>ao compô-lo e colocá-lo como entrada da coleção.</p><p>A meditação não é especificamente sapiencial. Mas no princípio do</p><p>saltério pode soar como oferta alternativa: os salmos se podem recitar e se</p><p>podem meditar, o que nos leva a um uso individual. Em Pr 8,7 diz a Sensatez</p><p>personificada: “meu paladar repassa hgh a verdade”; com leb = coração como</p><p>sujeito soa o verbo hgh em Pr 15,28 e 24,2: “a mente honrada medita a</p><p>resposta”, “seu coração medita violências”. Dos salmos tiro alguns exemplos:</p><p>35,28 sussurrarão meus lábios todo o dia louvando tua justiça</p><p>37,30 a boca do honrado sussurra sensatez</p><p>63,7 velando medito em ti</p><p>71,24 minha língua repassará tua justiça = 143,5</p><p>49,4 será sensata minha reflexão (hgwt Iby)</p><p>Sobre a lei no mundo sapiencial citarei dois textos, um de Baruc e outro</p><p>do Eclesiástico:</p><p>Br 4,1 [a Sensatez] E o livro dos preceitos de Deus,</p><p>a lei de validade eterna:</p><p>os que a guardam viverão</p><p>os que a abandonam morrerão...</p><p>4 Felizes nós, Israel, que conhecemos</p><p>o que agrada ao Senhor!</p><p>Eclo 39,1 Ao invés, quem se entrega de cheio</p><p>a meditar a lei do Altíssimo</p><p>indaga a sabedoria de seus predecessores</p><p>e estuda as profecias.</p><p>— Os dois caminhos. O saltério se introduz também como um bom</p><p>caminho, afastado do caminho dos malvados. Eles têm um desígnio em seu</p><p>caminho, o honrado tem a tôra do Senhor no seu. O saltério é uma “tarefa”</p><p>humana de que “se ocupa” o Senhor. O tema está também presente na</p><p>primeira secção de Pr 1,8-19.</p><p>126 Salmo 1</p><p>6. Transposição cristã</p><p>Para uma transposição em chave cristã, pode-se partir da frase de</p><p>Jesus: Eu sou o caminho. A meditação da lei sucede a meditação dos</p><p>mistérios da vida de Cristo. O seu programa de vida está enunciado numa</p><p>série de felicitações ou bem-aventuranças. Como complemento, pode-se</p><p>recordar Mt 7,13s: “largo é o caminho que leva à perdição... estreito é o</p><p>caminho que leva à vida”.</p><p>Entre os autores antigos, vários se fixam na imagem da árvore, de que</p><p>tiram aplicações diversas: a árvore é antes de tudo Jesus Cristo (Eusébio,</p><p>Hilário), em segundo lugar é o justo; é também a árvore da cruz (Gregório</p><p>Magno em seus comentários morais a Jó: PL 75,990; Ruperto de Deutz: PL</p><p>167,1626). Hilário discorre sobre a árvore da cruz comparando-a com a</p><p>árvore do paraíso.</p><p>O tema dos “burlões” serve a Ruperto para amplo desenvolvimento</p><p>sobre os que se burlavam de Jesus Cristo (PL 167,1613).</p><p>Jerônimo cita o exemplo de Caim a propósito da palha arrebatada pelo</p><p>vento.</p><p>Salmo 2</p><p>1. Texto</p><p>1 Por que as nações se am otinam</p><p>e os povos m editam um fracasso,</p><p>2 levantam -se os reis do mundo</p><p>e, unidos, os príncipes conspiram</p><p>contra o Senhor e contra o seu Ungido ?</p><p>3 “Rom pam os suas correias,</p><p>sacudam os o seu ju g o !”</p><p>4 Sentado no céu sorri,</p><p>o Senhor se burla deles;</p><p>5 depois lhes fala com furor</p><p>e com sua cólera os espanta:</p><p>6 “E u m esm o ungi o meu rei</p><p>em Sião, meu monte santo”.</p><p>7 — Vou recitar o decreto do Senhor:</p><p>Ele m e disse: “Tu és meu filho,</p><p>eu hoje te gerei”.</p><p>8 Pede e te darei as nações em herança,</p><p>em propriedade os confins do mundo.</p><p>9 Tu os triturarás com cetro de ferro,</p><p>os despedaçarás como vasos de louça.</p><p>10 E agora, ó reis, sede sensatos,</p><p>escarmentai, os que regeis o mundo:</p><p>11 servi ao Senhor com temor,</p><p>12 tremendo prestai-lhe hom enagem 1</p><p>para que não percais o caminho,</p><p>se chegar a inflamar-se sua ira.</p><p>Felizes os que se refugiam nele.</p><p>^eija-lhe os pés</p><p>128 Salmo 2</p><p>2. Bibliografia</p><p>a) Sobre o salmo em conjunto</p><p>A. Schulz, Bemerkungen zum 2 Psalm: ThGl 23 (1931) 87-97.</p><p>H. H. Rowley, The text and structure of Psalm 2: JTS 42 (1941) 143-154.</p><p>I. Sonne, The Second Psalm: HUCA 19 (1945/1946) 43-55.</p><p>A. Robert, Considérations sur le messianisme du P s2: RSR 39 (1951) 88­</p><p>98.</p><p>M. Didier, Les Ps 2 dans l’Ancien Testament: RevNamur 11 (1957) 120­</p><p>130.</p><p>R. Press, Jahweh und sein Gesalbter: TZ 13 (1957) 321-334.</p><p>O. Schilling, Wider Gott und seinen Gesalbten: BiLe 2 (1961) 261-277.</p><p>H. K. Berg, Gotteskönig und die Herrschaft über die Welt: EvErz 17 ( 1965)</p><p>386-393.</p><p>M. Treves, Two acrostic psalms: VT 15 (1965) 81-95.</p><p>B. Lindars, Psalm 2, an acrostic poem?: VT 17 (1967) 60-67.</p><p>N. Poulssen, König und Tempel im Glaubenzeugnis des A T (Stuttgart</p><p>1967) 64ss.</p><p>J. A. Soggin, Zum zweiten Psalm, em FS Eichrodt (Zuriquel970) 191­</p><p>207.</p><p>W. H. Brownlee, Psalm 1-2 as a coronation liturgy: Bib 52 (1971) 321­</p><p>336.</p><p>W. Thiel, Der Weltherrschaftsanspruch desjudäischen Königs nach Ps 2:</p><p>ThVers 3 (1971) 53-63.</p><p>L. Kuntz, Der 2 Psalm in neuer Sicht: BZ 20 (1976) 238-242.</p><p>G. Auffret, The literary structure of Psalm 2: JSOT 3 (1977) 5-41.</p><p>H. Klein, Zur Auslegung von Psalm 2: TBei 10 (1979) 63-71.</p><p>M. A. Singer, King Messiah: Rashi’s exegesis of Psalm 2: Proof 3 (1983)</p><p>273-284.</p><p>G. H. Wilson, The use of royal psalms at the seams ofthe Hebrew Psalter:</p><p>JSOT 35 (1986) 85-94.</p><p>Sobre a realeza, quatro obras de conjunto, com bibliografia abundante:</p><p>R. de Fraine, L ’aspect religieux de la royauté Israélite (Roma 1964).</p><p>A. R. Johnson, Sacral Kingship in Ancient Israel (Cardiff 1967).</p><p>J. H. Eaton, Kingship and the Psalms (Londres 1976).</p><p>S. Springer, Neuinterpretation im AT. Untersucht an den Themenkreisen</p><p>des Herbstfestes und der Königspsalmen in Israel (StBBeitr 5) (Stuttgart</p><p>1979).</p><p>E. Zenger, Wozu tosen die Völker? Beobachtungen zur Entstehung und</p><p>Theologie des 2 psalms, em FS II, H. Gross (1986) 495-509.</p><p>J. T. Willis, A cry of defiance: Ps 2: SBL Jerusalem summaries (1986) 9.</p><p>P. Auffret, Compléments sur la structure littéraire du Ps 2 et son rapport</p><p>au Ps 1: BiNot 35 (1986) 7-13.</p><p>Bibliografia 129</p><p>Lista alfabética</p><p>Auffret 77 Lindars 67 Soggin 70</p><p>Berg 65 Poulssen 67 Sonne 45</p><p>Brownlee 71 Press 57 Springer 79</p><p>De Fraine 64 Robert 51 Thiel 71</p><p>Didier 57 Rowley 41 Treves 65</p><p>Eaton 76 Schilling 61 Willis 86</p><p>Johnson 67 Schulz 31 Wilson 86</p><p>Klein 79 Singer 83 Zenger 86</p><p>Kuntz 76</p><p>b) Bibliografia por versículos</p><p>v. 2: R. de Vaux, Le roi d’Israël, vassal de Yahvé, em FS Tisserant (1964)</p><p>119-133.</p><p>M. Noth, Gott, König, Volk im AT, em Gesammelte Studien (1966) I, 222.</p><p>v. 4: W. Vischer, Der im Himmel Thronende lacht, em FS de Quervain</p><p>(Munique 1966) 129-135.</p><p>v. 5: J. Vanderkam, BHL in Ps 2,5 and its etimology: CBQ 39 (1977) 245­</p><p>250.</p><p>v. 7: A. Vaccari, De Messia Filio Dei in VT: VD 15 (1935) 48-55.</p><p>J. de Fraine, Quel es le sens exact de la filiation divine dans le Ps 2,7: Bijdr</p><p>16 (1955) 349-356.</p><p>K. H. Rengstorf, Old and new traces o f a formula ofthe Judaean royal</p><p>ritual: NT 5 (1962) 229-244.</p><p>G. H. Jones, The Decree of Yahweh: VT 15 (1965) 336-344.</p><p>G. Cooke, The Israelite king as son ofGod: ZAW 73 (1961) 202-225.</p><p>v. 8: A. Alt, Das Grossreich Davids: TLZ 75 (1950) 213-220.</p><p>v. 9: A. Kleber, Ps 2,9 in the light o f an ancient ceremony: CBQ 5 (1943)</p><p>63-67.</p><p>G. Wilhelmi, Der Hirt mit dem eisernen Szepter: VT 27 (1977) 196-204.</p><p>J. A. Emerton, The translation o f verbs in the imperfect in Ps 2,9: JTS 29</p><p>(1978) 499-502.</p><p>A. Lemaire, Avec un sceptre de fer. Ps 2,9 et l’archéologie: BN 32 (1986)</p><p>25-30</p><p>v. 10: A. M. Dubarle, Draocasthe paideias: RB 62 (1955) 511-512</p><p>v. 11-12: A. Bertholet, Eine crux interpertum: ZAW 28 (1908) 58-59.193.</p><p>P. Joüon, Notes philologiques sur le texte hébreu de Ps 2,12: Bib 11 (1930)</p><p>81-85.</p><p>J. Coppens, Une mention du Messie retrouvé dans le psautier. Le psaume</p><p>2,11-12: ETL 12 (1935) 324-325.</p><p>G. Closen, Gedanken zur Textkritik von P s 2, l ib -12a: Bib 21 (1940) 288­</p><p>309.</p><p>R. Köbert, Zur ursprünglichen Textform von Ps 2 ,ll-12a : Bib 21 (1940)</p><p>426-428.</p><p>J. Morgenstern, Nessequ bar (Ps 2): JQR 32 (1941-1942) 371-385.</p><p>H. Cazelles, Nshqw br (Ps 2,12): OrAnt 3 (1964) 43-45.</p><p>130 Salmo 2</p><p>A. A. McIntosh, A consideration ofthe problems presented by Ps 2,11-12:</p><p>JTS 27(1976) 1-14.</p><p>A Robinson, Deliberate but misguided haplography explains Psal 2,11­</p><p>12: ZAW 89 (1977) 421-422.</p><p>W. L. Holladay, A new proposal for the crux in Ps 2,12: VT 28 (1978) 110-112.</p><p>H. G. von Mutius, Die Bezeugung einer aussertiberienischen Punktua-</p><p>tionsform in Ps 2,12 durch mittelalterliche jüdische Gelehrte: BN 15 (1981)</p><p>44-45.</p><p>3. Análise filológica</p><p>1. Imh: “Non tam interrogantis... quam deridentis”: Corderius.</p><p>rgshw: Briggs, Dahood propõem como significado original reunir-se;</p><p>ao qual se acrescenta depois a modalidade “tumultuosamente” Qimchi,</p><p>Rosenmüller, Del. Segundo Gun, o murmúrio de gente em deliberação</p><p>secreta; segundo Soggin, reunir-se, conjurar, paralelo de swd.</p><p>yhgw: sussurrar, meditar, projetar Pr 24,2; Ros, seguindo a A ibn Ezra,</p><p>ferver, agitar-se; segundo Dah, contar (as tropas ryq).</p><p>ryq: ac. complemento ou adverbial Áquila kenôs.</p><p>2. ytyçbw: colocar-se; com matiz militar Jerônimo, Del Phil Zor.</p><p>Corrigem em yty‘çw deliberar, segundo 83,4, Duhm, Gun, Graetz, de</p><p>Lagarde, Wellhausen. Confirmam o TM LXX Vg Sim Targ.</p><p>rwznym: Príncipes, potentes; como em árabe e fenício. Phil sugere que</p><p>se trata de conselheiros reais, apoiado no aramaico e siríaco raz = segredo</p><p>de Dn 2,18.27-30; 4,6.</p><p>nwsdw: deliberar. Aparentado com ysd = fundar, segundo Qim Ros</p><p>Phil; com ysd2 ou swd Hitzig Briggs Duhm Gun Kraus Ravasi Soggin (GK</p><p>par 77c).</p><p>‘I... mshyh: Kraus com outros pensa que é glosa.</p><p>3. nntqh, wnshlykh: coortativos GK par 108b.</p><p>mwsrwtymw, ‘btymw: para o sufixo vejam-se Meyer par 30,3c e 46 3d;</p><p>BL par 29z. Gun muda o segundo em ‘ullotemo = seus jugos. Soggin pensa</p><p>que pode ser metonímia, pars pro toto.</p><p>ywshb bshmym: o part. sem artigo opõe-se aos reis terrestres, segundo</p><p>ibn Ezra citado por Ros. Segundo Gun e Soggin, cadena constructa, GKpar</p><p>130a. yshb = sentar-se no trono: GB, Del Briggs, Dah But,’dny: vocalizado</p><p>-ay, para distingui-lo do -ay dos homens; cf. Gn 19,2. Gun corrige yhwh.</p><p>5. ’z: sentido temporal ou consecutivo. Temporal: futuro Del Duhm</p><p>Gun Kraus, ou futuro iminente But Cast; a respeito da atividade hostil dos</p><p>reis, Qim, Ros Phil. Consecutivo: por isso, então GB Zor.</p><p>Análise filológica 131</p><p>ybh lm w : sufixo m w com verbos Joüon par 6 l i ; cf. Ex 15,15.0 piei pode</p><p>indicar o resultado da ação: Jenni, Das Hebräische P i‘el.</p><p>6 . w ’ny: wau adversativo Jerônimo, Phil Cast Dah Soggin Rav.</p><p>Segundo Del, introduz uma circunstancial que pressupõe uma frase suben­</p><p>tendida: vós vos rebelais, mas eu... Cf. Ewald par 341c; também Qim But.</p><p>nskty: denominativo de nasik = príncipe But ou de nsk = derramar,</p><p>fundir. Derramar: o azeite da unção Phil Cast Rav; fundir um metal e daí</p><p>instalar Del de acordo com a passiva da LXX. Zor distingue um nsk2 =</p><p>estabelecer, para explicar essa passagem e Pr 8,23; ambos derivam de swk</p><p>Dah. Jerôn traduz “orditus sum” = urdir. Aquila e a quinta coluna,</p><p>ediasamen; Símaco, echrisa.</p><p>nskty ... qdshy: a LXX põe a frase nos lábios do rei, com Deus como</p><p>pronome de 3â pess. hyp ’ autou ... autou; a mesma coisa Duhm, Gun Dah</p><p>Soggin; Jerônimo concorda na primeira metade com TM, e na segunda com</p><p>a LXX: “orditus sum regem meum super Sion montem sanctum suum”.</p><p>7. ’sprh ... yh w h : Briggs e Duhm se inclinam a transpô-lo antes do</p><p>v. 6. Gun corrige em ’osipka ’el heqi = acolho-te no meu regaço, e o põe em</p><p>lugar de bny ’th suprimindo yh w h ; bny ’th seria variante posterior,</p><p>inserida para significar o mesmo em termos menos mitológicos. Em geral</p><p>se lê yh w h como regido por hq, não como sujeito de ’m r (ainda que o sentido</p><p>não muda Ros) Briggs, Duhm, Cast Weiser, Dah But Kraus Soggin Rav.</p><p>Del, seguindo a leitura massorética, separa yh w h de hq, e lê 7 hq ao estilo</p><p>árabe como uso amplificativo de nome indeterminado: “ein Dekret und</p><p>was für eines!”.</p><p>A LXX duplica: kyriou kyrios; Jerôn: Dei praeceptum Dominus dixit.</p><p>’I: (segundo informe de Ros) ibn Ezra o considera equivalente de l- de</p><p>finalidade; Qim, no livro das Raízes, equivalente de ’et de acusativo. Ros o</p><p>explica: secundum, juxta . Wellhausen lê % Duhm 7 ou ’t.</p><p>Acerca de Del Phil Wei But; acus. LXX Jerôn Dah Kraus Rav.</p><p>yldtyk: vocalizado -lid- talvez por influxo do Y inicial não vocalizado</p><p>Ewald par 53d; 199d GKpar 69s; a partir de uma formayaled, Ros Phil, por</p><p>redução de patah a hireq GKpar 27s 44d; veja-se também Meyer par 23.2a.</p><p>8. sh ’l m m ny: segundo Briggs, glosa; segundo Gun e Wei, m m ny glosa.</p><p>w ’tnh: coortativo indireto depois de imperativo, cf. Joüon par 116b</p><p>LXX: “kai doso soi”, Jerôn: “et dabo tibi”.</p><p>w ’tnh... ’rç: ntn com duplo acusativo: GB p. 530, n 3a.</p><p>9 . tr‘m : de r“ ou de r‘h. De r aramaísmo correspondente ao hebraico</p><p>rçç Sim Targ Briggs, Duhm Gun Cast Kraus, GB; Duhm e Kraus Polel, GB</p><p>qal. De r‘h: LXX: “poimaneis”, Jerôn: “pasces eos”.</p><p>bshbt brzl: Ros: não se trata de cetro (Del Briggs Duhm Rav), mas de</p><p>clava; cf. 2Sm 23,21, o mth de Hab 3,14 e Diodoro Sículo 111,33, segundo o</p><p>132 Salmo 2</p><p>qual os árabes trogloditas andavam armados de clava. O mesmo Gun</p><p>Kraus; vara But Dah Wei.</p><p>kkly: Coletivo Gun, cf. 2Sm 17,28; Jr 29,11.</p><p>10.hwsrw: Qim wqhw mwsr; cf. também o Targum, Del e Gun. Nifal</p><p>tolerativo: Joüon par 51c.</p><p>shpty: chefes: Dah; reis: Soggin.</p><p>11-12. wgylw ... br: são múltiplas as explicações dessa frase enigmá­</p><p>tica, umas respeitando o texto, outras corrigindo-o. Eis algumas. Jerônimo:</p><p>“adorate pure” Sim; nshq em qal se diz de cultos pagãos em lRs 19,18; Os</p><p>13,2; Jó 31,27; bar = puro moralmente Sl 19,9; 24,4; 73,1; Jó 11,4;</p><p>Eclo</p><p>40,21; cf. GB. Hilário (citado por Cordério): gozo temperado com temor,</p><p>também Del. Abul Walid (e Storr, citados por Ros): gyl significa uma</p><p>emoção forte, de gozo ou de pena, cf. Os 10,5. Del: “jubilai tremendo. Bejai</p><p>o filho”: bar = filho como em Pr 31,2. Cazelles: “bejai o puro”; br título divino,</p><p>como um provável título real ugarítico; já Qim tinha proposto a alternativa</p><p>“puro”, predicada do rei. Rashi: armai-vos de pureza (nshq = armas em Ez</p><p>39,10).</p><p>Briggs acrescenta um complemento bw com LXX; But acrescenta lw,</p><p>como hry‘w lw do Sl 98,4. A proposta de Bertholet foi amplamente aceita:</p><p>wnshqw brglyw br‘dh = “beijai-lhe os pés com tremor” (gesto de submissão);</p><p>seguem-na Duhm Gun Kraus Wei Soggin Rav. Holladay lê tioshe qeber /</p><p>qober como vocativo = “os que esqueceis na tumba/ao que enterra”.</p><p>12.drk: acus de relação: ibn Ezra e Schroeder (citados por Ros);</p><p>também Del Duhm Gun Cast But.</p><p>ky: sentido causal Del Duhm Gun Briggs Wei Dah But Kraus Rav. LXX</p><p>otan temporal.</p><p>km‘t: facilmente Del Gun; depressa a LXX Rashi Ros Duhm Wei Kraus</p><p>Dah Rav; logo Qim: “como se dissesse: se não vos converterdes logo” ’m V</p><p>tshwbw bmhrh; também But. De um momento pouco definido: Genesius</p><p>Thesaurus 648 e 811. Partícula do potencial ou irreal Diccionario Bíblico</p><p>Hebreo Espafiol, 418B.</p><p>4. Estudo global</p><p>a) Um ou dois?</p><p>Algumas indecisões antigas em atribuir a epígrafe de “salmo primeiro”</p><p>convidaram a se repropor a questão:</p><p>No aparato crítico de At 13,33 citam-se alguns testemunhos que o</p><p>chamam de “salmo primeiro”: D, Orígenes, Hilário, Pseudo-Jerônimo.</p><p>Estudo global 133</p><p>Pensam alguns que os salmos 1 e 2 formam um só salmo: veja-se J.</p><p>Enciso, Los Salmos-Prólogo, EstEcl 34 (1960) 621-631. Penso que tudo</p><p>surge do fato de se considerar o salmo primeiro como uma espécie de prólogo</p><p>de todo o saltério. Também pode ter influído a felicitação, ’shry, (a todas as</p><p>luzes adventícia) com que se encerra o Sl 2, formando inclusão com a que</p><p>abre o Sl 1.</p><p>A seguinte hipótese pode explicar as dúvidas. Quem compôs o Sl 1 como</p><p>prólogo de todo o saltério quis ligá-lo com o salmo seguinte, sem mudar o</p><p>texto desse, e recorreu a uma simples adição final (encontraremos adições</p><p>parecidas ao longo de todo o saltério): “Feliz o homem que ... Feliz quem se</p><p>acolhe a ele”. A operação é intencional, significativa, e nos obriga a olhar o</p><p>Sl 2 em sua conexão com o primeiro. Suposta a união secundária, adquirem</p><p>certo relevo algumas correspondências verbais ou temáticas:</p><p>conselho ou deliberação, em termos diversos 1,1 e 2,2</p><p>meditar, com verbo idêntico hgh 1,2 e 2,1</p><p>zombadores Içym e burla de Deus Vg 1,1 e 2,4</p><p>lei tôra e decreto hoq 1,2 e 2,7</p><p>fracasso final drk ’bd 1,6 e 2,12</p><p>Em conseqüência, podem-se contemplar os fatos do Sl 2 como caso</p><p>concreto do que o Sl 1 enuncia genericamente. O honrado é o rei pela graça</p><p>de Deus, os malvados pecadores são os povos rebeldes; o rei atém-se à</p><p>decisão divina e está estabelecido no monte santo, acolhe-se ao Senhor e</p><p>goza de sua proteção. As correspondências têm valor contanto que não se</p><p>lhes dê rigor. O texto do Sl 2 é autônomo e original, não foi modificado para</p><p>encaixar-se como segundo quadro de um díptico. Tem personalidade</p><p>demasiada para manter-se como ilustração de um princípio geral.</p><p>Também não está justificada a hipótese de ler o Sl 1-2 como ritual de</p><p>entronização do rei (Brownlee). A hipótese resulta gratuita e responde</p><p>talvez ao afa de encontrar um contexto vital, social, típico, para cada salmo.</p><p>b) Gênero</p><p>Todos os comentaristas estão de acordo em catalogar essa composição</p><p>como salmo real ou régio. E uma classificação temática mais que formal.</p><p>Porque não existe um padrão comum para salmos como os seguintes: 2 18</p><p>20 21 45 72 110 132 etc. No mais, podem-se assinalar motivos literários</p><p>comuns a vários. A monarquia chega a ser instituição central em Israel, na</p><p>história e na esperança, e logicamente reclama a colaboração de poetas</p><p>litúrgicos em diversas ocasiões. Comparados os salmos reais com outras</p><p>séries ou tipos, destacam-se por sua variedade e caráter individual. Como</p><p>se os reis e a corte tivessem sido exigentes e não tivessem se contentado com</p><p>134 Salmo 2</p><p>peças convencionais. Por isso não é preciso insistir muito no genérico deste</p><p>salmo, que nos atrai por sua unicidade.</p><p>c) Análise literária</p><p>— O padrão institucional. O poeta partiu de uma instituição conhe­</p><p>cida e praticada na antiguidade: as relações entre reis e soberanos e reis</p><p>vassalos. Um rei soberano, superior política e militarmente, nomeia ou</p><p>confirma reis subordinados, vassalos, e lhes atribui os seus postos relati­</p><p>vos, garantindo a ordem com sua autoridade soberana.</p><p>R. de“Vaux (art. citado) apresenta abundantes dados comparativos.</p><p>Retomo uns dois casos:</p><p>Por vontade do rei hitita Abdianati, o rei Siyanu fica dispensado da</p><p>vassalagem ao rei de Ugarit e é nomeado “servo” (vassalo) do rei de</p><p>Carquemis (p. 123).</p><p>O rei hitita Musil II escreve em seu tratado com Duppi-Teshub, rei</p><p>amorreu: “Eu te nomeei sucessor de teu pai e te submeti com juramento teus</p><p>irmãos e irmãs e todo o território amorreu” (p. 124).</p><p>(Irmãos e irmãs poderiam ser reis e cidades da mesma categoria subor­</p><p>dinada: cf. lRs 9,13, onde Hiram chama Salomão de irmão).</p><p>Os exemplos nos interessam porque atestam a existência de vassalos</p><p>de diversos graus. Na história de Israel não encontro casos tão completos.</p><p>O faraó Necao depôs Joacaz=Sallum e nomeou no seu lugar a Eliacim,</p><p>mudando o seu nome para Joaquim (2Rs 23,33s). Nabucodonosor destituiu</p><p>e deportou Jeconias e nomeou rei a Sedecias. Conquistada Jerusalém,</p><p>Nabusardã nomeia prefeito a Godolias, que foi assassinado numa conjura</p><p>por Ismael. O SI 45 fala de estabelecer filhos do rei como príncipes</p><p>governantes no país. Embora nos exemplos bíblicos não existam vassalos</p><p>em subordinação hierárquica, sempre se supõe a existência de súditos que</p><p>devem obediência ao rei ou prefeito ou governador subordinado. O dado da</p><p>autoridade delegada funciona em todos os casos e é dado capital para</p><p>explicar o salmo segundo.</p><p>A esse propósito nos vem à memória a história de José, nomeado vizir</p><p>ou vice-rei pelo faraó:</p><p>Gn 41,40: “Tu estarás à frente de minha casa e todo o povo obedecerá às</p><p>tuas ordens; só no trono te precederei”. 41 E acrescentou: “Vê, eu te ponho</p><p>à frente de todo o país”. 42 E o faraó tirou o sinete da mão e o pôs em José...</p><p>44 O faraó disse a José: “Eu sou o faraó: sem contar contigo ninguém moverá</p><p>mão e pé no Egito”.</p><p>Em resumo, o esquema de uma autoridade delegada que os súditos</p><p>deverão respeitar e obedecer é dado bem conhecido. A versão política em</p><p>Estudo global 135</p><p>três níveis, vassalos de vassalo de soberano, não é freqüente. Vamos deixar</p><p>agora que o esquema se desdobre em ação. O soberano elege e nomeia um</p><p>rei vassalo, conferindo-lhe sua autoridade sobre um território ou cidade de</p><p>seus domínios. A nomeação se realiza em rito que pode ter caráter ou</p><p>elementos sagrados. O ato jurídico se registra num protocolo. A autoridade</p><p>do soberano respalda a do vassalo escolhido. Passado algum tempo ocorre</p><p>que os vassalos inferiores organizam uma conjura contra o superior</p><p>imediato. Então o soberano intervém, confirma a nomeação, castiga ou</p><p>ameaça os rebeldes intimando-lhes a submissão.</p><p>Rebeliões de vassalos coligados contra o soberano eram episódios</p><p>recorrentes naqueles tempos e países, sobretudo quando um império rival</p><p>estava disposto a dar apoio aos rebeldes. Costumam-se citar esses exemplos:</p><p>Oráculo da deusa Ninlil para Assurbanipal da Assíria (séc. VII): “Pala­</p><p>vras da deusa para o rei: Não temas, Assurbanipal! O que digo sucederá, eu</p><p>to concederei. Exercerás o poder sobre os povos de quatro línguas...</p><p>Os reis estrangeiros deliberam reunidos: Vamos nos rebelar contra</p><p>Assurbanipal... Responde Ninlil: Eu derrocarei os reis estrangeiros, eu os</p><p>submeterei ao jugo, meterei em cepos seus pés.” (ANET 45IA).</p><p>Inscrição de Zakir, rei de Hamat e Luat (séc. VIII): “Eu sou Zakir... Bei</p><p>shamaim me assistiu... Benhadad filho de Hazael encabeçou um</p><p>grupo de</p><p>sete reis com seus exércitos contra mim... Eu levantei a mão a Bei shamaim</p><p>e ele me escutou e me respondeu por meio de videntes e adivinhos. Bei</p><p>shamaim me disse: Não temas! Eu te nomearei rei, eu te apoiarei e te livrarei</p><p>dos reis que te cercam”. (ANET 501B).</p><p>Da coalizão contra Acaz me ocuparei mais abaixo.</p><p>— Projeção religiosa. O esquema descrito se projeta sem dificuldade</p><p>à concepção da realeza “por graça de Deus” (comprovam-no os exemplos</p><p>apenas citados). Na mentalidade de Israel, o Senhor Yhwh é soberano de</p><p>todo o mundo e estabelece e depõe reis. Ele escolheu Davi, nomeou-o rei e</p><p>lhe fundou uma dinastia estável em Jerusalém; submete-lhe reis estran­</p><p>geiros. Se esses se rebelam, é como rebelar-se contra o Senhor, o qual</p><p>intervirá eficazmente. O salmo segundo é uma projeção literária dessa</p><p>concepção político-religiosa: tem sentido coerente e completo, lido segundo</p><p>esse esquema. Podemos ilustrá-lo com textos de diversas épocas. Seleciono</p><p>textos históricos, apocalípticos, sapienciais.</p><p>No final do séc. VIII, Síria e Efraim (= o reino do norte) aliam-se visan­</p><p>do submeter Judá e estabelecer aí um novo rei amigo ou vassalo: “...pro­</p><p>voquemos a cisão e a divisão em seu seio em nosso benefício e estabeleçamos</p><p>como rei sobre ele o filho de Tabeel” (Is 7,6). Trata-se de projeto contra a</p><p>dinastia davídica, que o Senhor não tolera: “Tal não se realizará, tal não há</p><p>de suceder”, pois, assim como Damasco é a capital da Síria e Samaria de</p><p>Efraim, assim também (por implicação) Jerusalém é capital de Judá; como</p><p>136 Salmo 2</p><p>nelas reinam Rason e o filho de Romelias, assim também em Jerusalém</p><p>reina e reinará um filho de Davi.</p><p>Quando mais tarde o poderoso império assírio ameaça Judá, o Senhor</p><p>anuncia o princípio de sua autoridade soberana (Is 14):</p><p>24 Iahweh dos exércitos jurou, dizendo:</p><p>Certamente o que projetei se cumprirá,</p><p>aquilo que decidi se realizará.1</p><p>26 Este é o projeto que ele decidiu contra a terra inteira,2</p><p>esta é a mão estendida contra todas as nações.</p><p>27 Com efeito, Iahweh dos exércitos decide, quem o impedirá?</p><p>Se sua mão está estendida, quem a fará recuar?</p><p>1y ‘s</p><p>2 ‘çh</p><p>Tanto a coalizão da Síria e Efraim como o império assírio fracassarão em</p><p>sua pretensão. Mas um dia o princípio se voltará contra Judá, porque o plano</p><p>de Deus é paradoxal: decidiu submeter Judá como vassalo de Nabucodonosor.</p><p>Mas o princípio de sua autoridade é o mesmo (Jr 27):</p><p>5 Eu criei a terra e homens e animais</p><p>sobre a face da terra,</p><p>com meu grande poder e meu braço estendido;</p><p>e a dou a quem me aprouver.</p><p>6 Pois bem, eu entrego todos estes territórios</p><p>a Nabucodonosor, rei da Babilônia, meu servo...</p><p>7 Todas as nações serão vassalos dele ...</p><p>8 Se uma nação e seu rei não se submetem</p><p>a Nabucodonosor, rei da Babilônia,</p><p>e não entregam o pescoço ao jugo do rei da Babilônia,</p><p>eu castigarei essa nação pela espada, pela fome e pela peste</p><p>até entregá-la em suas mãos — oráculo do Senhor —.</p><p>11 Mas a nação que rende o pescoço</p><p>e se submete ao rei da Babilônia</p><p>deixá-la-ei em sua terra para que a cultive e a habite</p><p>— oráculo de Iahweh —.</p><p>Deus é o soberano, Nabucodonosor é o seu servo = vassalo, os outros</p><p>reis são vassalos do vassalo.</p><p>A mesma concepção rege o livro de Daniel, como o mostram uma</p><p>confissão de Daniel e outra de Nabucodonosor:</p><p>2,20 Ele possui a sabedoria e o poder,</p><p>21 ele muda tempos e estações,</p><p>destrona e entroniza os reis,</p><p>4,14 a fim de que todos os viventes reconheçam</p><p>que o Deus Altíssimo é dono dos reinos humanos,</p><p>que dá o reino a quem quer</p><p>e põe o mais humilhado no trono.</p><p>Estudo global 137</p><p>Podem-se ver também a descrição de Jó 12,16-25 e Eclo 10,14.</p><p>Pois bem, sucede da parte do Senhor uma cadeia de eleições e</p><p>nomeações: um povo, uma cidade, um monte, uma dinastia. O oráculo de</p><p>Natã (2Sm 7) é o ponto de referência da ideologia régia de Judá.</p><p>— Autoridade e repressão. O salmo escolhe e exalta um aspecto</p><p>particular da realeza, de tal sorte que a leitura ou meditação do texto pode</p><p>perturbar-nos. O salmo estabelece o princípio de autoridade como dado</p><p>formal, sem enchê-lo de conteúdo. Não exigindo do soberano a administra­</p><p>ção da justiça, o salmo abre o flanco a críticas graves, porque abre o flanco</p><p>a abusos desmedidos, “por graça de Deus”. Pois respalda imediatamente a</p><p>autoridade régia com a divina ,juntando-as como numa só mira: um ataque</p><p>ao rei é ataque a Deus.</p><p>Responde-se que a autoridade formal de Deus garante o conteúdo,</p><p>porque “ele é santo” (Sl 99,3.5.9). Nesse caso, a dificuldade se desvia para</p><p>o modo ditatorial, à forma repressiva, ao regime “férreo”, com o agravante</p><p>da “burla” sangrenta. Vem-nos à mente a política de Roboão, zeloso de sua</p><p>autoridade real, férreo com os súditos, disposto à repressão armada: “Meu</p><p>dedo mínimo é mais grosso que a cintura de meu pai. Se meu pai vos</p><p>sobrecarregou com um jugo pesado, eu aumentarei ainda mais a carga; se</p><p>meu pai vos castigou com açoites, eu vos açoitarei com escorpiões” (lRs</p><p>12,10s). Acaso é esse o ideal que o salmo patrocina?</p><p>A observação serve para delimitar o alcance do poema e para ver que</p><p>precisa de complementação por outros textos mais atentos ao conteúdo do</p><p>poder real, como, por exemplo, Sl 45,5; 72; Is 11,3s. A administração da</p><p>justiça pode exigir o castigo dos malvados; só que o salmo não apresenta os</p><p>vassalos rebeldes como malvados; para consegui-lo, era preciso lê-lo à luz</p><p>do salmo primeiro.</p><p>Vamos colocar-nos experimentalmente da parte dos submetidos. Sen­</p><p>tem-se privados de sua autonomia, vivem em condição de jugo e cadeias,</p><p>lançam o grito de liberdade e independência. Poderiam aplicar-se o que diz</p><p>ls 14,25: “O seu jugo será removido de meu povo, o seu fardo será removido</p><p>de seus ombros”. Acaso o Deus que libertou alguns escravos do Egito, busca</p><p>e impõe a escravidão a outros povos? A única saída que se lhes oferece é</p><p>aceitar a vassalagem...</p><p>d) Composição</p><p>Vou fixar-me na realização literária do conjunto. O Sl 2 é um poema de</p><p>grande concentração, de tensão dramática resolvida em parte. O poeta</p><p>concede a palavra a diversas personagens, em alguns casos cita palavras</p><p>dentro de outro discurso.</p><p>138 Salmo 2</p><p>Uma voz anônima, o eu do poema, emoldura o resto do material. Essa</p><p>voz começa de repente, referindo-se em terceira pessoa a uns aliados</p><p>rebeldes; pronuncia uma pergunta retórica, mescla de indignação e despre­</p><p>zo: não têm razão, não terão êxito. Em sua primeira intervenção, enuncia</p><p>claramente a chave de tudo, a ligação do soberano celeste e seu vassalo</p><p>terrestre: “contra o Senhor e contra o seu messias”. Imediatamente a voz</p><p>cita o grito de guerra dos rebeldes e a resposta dominadora do soberano, o</p><p>qual passa da burla despectiva à ameaça irada (passaram-se seis versículos).</p><p>Sem introdução se ouve falar o messias citando palavras que o Senhor lhe</p><p>dirigiu no dia de sua nomeação ou entronização: palavras que estabelecem</p><p>e prometem e continuam em vigor. De novo toma a palavra a voz anônima:</p><p>já que os termos da situação estão definidos e avaliados, segundo o juízo de</p><p>Deus, agora ele interpela aos rebeldes dando-lhes um ultimato: ou render-</p><p>se ou perecer.</p><p>A descrição precedente poderia dar a impressão de que no poema existe</p><p>boa quantidade de discurso. Medindo-se as palavras, pode-se apreciar a</p><p>concentração no essencial: w.3.6.7b.8.9. Cinco versículos, sem contar o</p><p>locutor anônimo. Contribui ao dramatismo a inversão da ordem cronológi­</p><p>ca. A ordem temporal seria: nomeação do rei 7b-8, rebelião dos súditos 1­</p><p>3, reação do Senhor 4-6, ultimato 10-11. Ou seja, o poema começa e termina</p><p>em plena rebelião, atraindo e atualizando material precedente. A alterna­</p><p>tiva do ultimato deixa em aberto o final; o desenlace fica fora do salmo.</p><p>Esse poema é uma oração de súplica, uma meditação? E um convite à</p><p>esperança em momento de crise e perigo? Como se vê, incluir o salmo no</p><p>grupo dos salmos régios é uma operação extrínseca de catalogação, sem</p><p>abordar o sentido. Buscar-lhe um contexto vital típico na entronização real</p><p>é prescindir do dramatismo da rebelião.</p><p>e) Identificação</p><p>da interpretação</p><p>e espiritual, nunca interrompido, que alimentava o trabalho intelectual e</p><p>aflorava em suas linhas. Considero-a intensa em proporção à cultura da</p><p>época.</p><p>Repassando o que nos foi conservado, que certamente não é tudo,</p><p>apreciamos notável unidade de critérios, grande variedade de métodos e</p><p>resultados, amplo arco de questões tratadas. O texto usado é a versão grega</p><p>da Setenta e a latina Galicana da Vulgata. Antes de passar revista a co­</p><p>mentadores em particular e levando em conta o descuido com que essa</p><p>época é tratada por alguns especialistas modernos, parece-me conveniente</p><p>delinear um mapa estilizado que permita compreender e abarcar a rami­</p><p>ficação da exegese.</p><p>Seguindo a tradição judaica de alguns títulos, os comentadores se interes­</p><p>sam pela inserção histórica dos salmos. Seguindo o exemplo do NT, os Padres</p><p>buscam nos salmos a referência a Cristo, que os diz ou de quem se dizem. As</p><p>duas perspectivas podem superpor-se e cruzar-se. Contudo, é legítima a</p><p>divisão principal em interpretação histórica e interpretação cristológica.</p><p>Algumas questões tratadas são: sobre o autor ou autores dos salmos;</p><p>gêneros poéticos e argumentos; forma de execução; apropriação. Praticam-</p><p>se vários tipos de exposição: analítica e sintética, notas e comentário, ho­</p><p>milia e tratado. Na interpretação cristológica distinguirei os seguintes</p><p>pontos: profética, típológica, alegórica, prosopológica.</p><p>a) Interpretação histórica</p><p>Treze salmos têm no hebraico brevíssima introdução histórica que os</p><p>refere a episódios da vida de Davi, contada nos livros de Samuel. A versão</p><p>grega Setenta e a Vulgata galicana acrescenta outros oito títulos históricos.</p><p>A maioria dos Padres, excetuando Teodoro, aceitam a autoridade dos</p><p>títulos e, seguindo seu exemplo, rebuscam na história bíblica de Davi</p><p>circunstâncias em que possam alojar historicamente outros salmos sem</p><p>título histórico, ainda que atribuídos a Davi ou a seus contemporâneos; a</p><p>atribuição histórica pode prolongar-se a fatos e épocas posteriores a Davi.</p><p>Teodoro de Mopsuéstia não aceita os títulos tradicionais, mas abraça</p><p>fervorosamente o critério da atribuição histórica. Ao longo da história do</p><p>povo judeu, até depois do exílio, busca circunstâncias que lhe permitam,</p><p>por coerência, situar historicamente os salmos. Portanto, aceita fatos</p><p>futuros a respeito de Davi. Os resultados de sua exegese antioquena pesam</p><p>ou influem na tradição da igreja da Síria.</p><p>Vale dizer, os Padres manifestam interesse histórico crítico enquanto</p><p>aplicam um critério de coerência; e é pouco crítico, porque não possui</p><p>critérios rigorosos e se contenta facilmente com a coerência ou a tradição</p><p>Desde Orígenes até Cassiodoro: panorama 19</p><p>como critério válido de atribuição. Somente Teodoro sabe criticar com</p><p>independência a tradição dos títulos, embora não chegue a construção</p><p>criticamente controlada. Em nosso sentido moderno, não podemos falar de</p><p>‘‘crítica histórica” nessa atividade; por outro lado, é injusto dizer que os</p><p>Padres não se interessavam pela história nem pela crítica.</p><p>b) Interpretação profética</p><p>Pode-se entender a profecia em sentido estrito como predição do</p><p>faturo, e em sentido lato como visão inspirada. Como predição, uma</p><p>profecia pode referir-se a fatos da história judaica posteriores a Davi, autor</p><p>suposto, e pode em princípio referir-se a Cristo em sua vida e sua igreja. O</p><p>profeta autor sai de sua coordenada temporal e dá salto mental a fatos fu­</p><p>turos precisos que conhece por revelação divina. O fato futuro não deve ser</p><p>por si homogêneo ou parecido com a situação do autor; se parecer, será por</p><p>simples coincidência que não diz respeito ao sentido profético. A profecia</p><p>não é continuidade, mas salto; não anuncia o previsível, mas a surpresa,</p><p>com o risco de ser mal-entendida. Teodoro de Mopsuéstia, lendo com cri­</p><p>tério minimalista o NT, aceita quatro salmos como profecia de Cristo: 2, 8,</p><p>22(21), 110( 109). Considera vários salmos como profecia davídica referente</p><p>a fatos futuros de seus descendentes e de seu povo. Por esse minimalismo,</p><p>que soa contrário à prática do NT, Teodoro foi condenado, e suas teorias</p><p>foram evitadas até por antioquenos, como Teodoreto. A maioria dos Padres</p><p>repetem em muitas ocasiões que alguns salmos inteiros ou alguns versícu­</p><p>los de outros se referem somente a Cristo e sua Igreja, sem a mediação do</p><p>sentido histórico imediato. A falta de mediação, de referência à situação</p><p>própria, é salto límpido ao ponto futuro, é essencial à profecia.</p><p>Se muitos salmos ou versículos são profecia clara, comprovada a</p><p>posteriori pelos acontecimentos (pensam os Padres), se muitas vezes se</p><p>referem pura e simplesmente à economia cristã, o seu autor tem que ser</p><p>declarado profeta. Ainda que a tradição não inclua os salmos na série dos</p><p>nebVim, mas entre os ketubim, Davi é “o profeta” por antonomásia, ho</p><p>prophetes. Prolonga e alarga essa tradição o abade Gerho (séc. XII) quando</p><p>afirma e tenta mostrar que Davi no saltério é o primeiro revelador da</p><p>Trindade. Nos inícios do séc. XVII, Lorinus atreve-se a afirmar que “todos os</p><p>mistérios da religião católica podem-se provar com os salmos”. O capítulo 3</p><p>da longa introdução de seu comentário tem esta epígrafe: “An David fuerit</p><p>propheta et quamvis; et cur inter alios prophetas non censetur”.</p><p>Ora, os salmos que cantam a criação do mundo ou a saída do Egito</p><p>podem-se chamar profecia? Alguns autores respondem recorrendo ao sentido</p><p>lato de profecia, como visão inspirada ou iluminada de qualquer aconteci­</p><p>20 História da interpretação</p><p>mento. Esse alargamento permite unificar os salmos como profecia e justi­</p><p>ficar o seu autor como profeta por antonomásia. Mas ao preço do uso ambíguo</p><p>do termo, que o torna incapaz de servir para o nosso exame histórico.</p><p>Também Teodoro considerava Davi inspirado e profeta, ainda que pense que</p><p>somente quatro vezes tenha anunciado Cristo (extremando a posição do seu</p><p>mestre Diodoro de Tarso). A maioria dos Padres considera Davi como o autor</p><p>de todos ou quase todos os salmos, profeta de Cristo: ho prophetes.</p><p>c) Interpretação tipológica</p><p>A tipologia baseia-se numa semelhança entre dois acontecimentos. O</p><p>termo typos, usado no NT (Rm 5,14; ICor 10,6), procede das artes plásticas.</p><p>Significa o molde ou a forma, o modelo ou a cópia, a figura. Por isso dizemos</p><p>que a interpretação tipológica é figurativa.</p><p>Em sentido amplo, a tipologia pode-se aplicar à coincidência ou</p><p>semelhança de dois acontecimentos que permite considerá-los como mode­</p><p>lo e cópia ou como dois vazios de um molde. Esse sentido amplo, de simples</p><p>coincidência ou semelhança humana, não basta para definir o método dos</p><p>Padres, pois eles exigem que a correspondência forme parte de um desígnio</p><p>ou plano de revelação: um acontecimento deve desenvolver-se de sorte a</p><p>prefigurar outro futuro. Como se um artista fizesse um molde antes de</p><p>fundir a estátua; ou melhor, como se fizesse um esboço antes de realizar a</p><p>obra definitiva.</p><p>A Davi perseguido podem parecer-se inumeráveis inocentes persegui­</p><p>dos, mas isso não basta para fazer de Davi tipo em sentido técnico. Segundo</p><p>o plano definido de Deus, Davi será perseguido para prefigurar a persegui­</p><p>ção do Cristo inocente, em si ou em seus membros. Em tais condições, Davi</p><p>é tipo de Cristo. O tipo é uma espécie de profecia em ação, só que não</p><p>indefinidamente aberta e difusa. Um desígnio superior a polariza e a dirige</p><p>a ponto preciso: Cristo e sua Igreja. Mas, como Davi atua numa constelação</p><p>de personagens históricas, ao entrar essas em conjunção ou intersecção</p><p>com ele, podem converter-se em tipos de personagens em torno de Cristo:</p><p>Saul pode ser tipo de Pilatos; Absalão, tipo do demônio que persegue o</p><p>cristão...</p><p>Tiremos a referência individual a Cristo e o desígnio divino, e a</p><p>exemplaridade se reduz à de um texto literário que, por generalização, se</p><p>aplica a muitos casos humanos. Um bom texto literário pode dar expressão</p><p>singular a uma pluralidade, talvez a uma universalidade. Nem por isso é</p><p>“tipo” no sentido técnico aqui exposto.</p><p>O autor tem que</p><p>Perguntam os comentadores: a que rei se refere? E três respostas se</p><p>oferecem: a) um rei empírico, histórico; seja um individualmente, Davi</p><p>ou Ezequias, ou um qualquer, o de plantão; b) o futuro messias, o esperado</p><p>descendente de Davi; c) o rei histórico em sua categoria sacral, divina.</p><p>Começo pela terceira explicação, que esteve em moda e foi bastante</p><p>discutida desde umas duas décadas. Como entendo que a teoria carece de</p><p>fundamento sólido, contento-me em remeter o leitor curioso ao artigo de</p><p>Cooke (ZAW 1961).</p><p>— Explicação histórica, empírica; entende-se, do texto original. O</p><p>salmo idealiza em forma poética, com hipérboles cortesãs, a figura e a</p><p>função do monarca davídico. O domínio universal, “os confins da terra” é</p><p>Estudo global 139</p><p>hipérbole que descreve o grande reino de Davi (cf. A. Alt). A coalizão</p><p>internacional de rebeldes é amplificação hiperbólica de rebeldia ou ataques</p><p>históricos, como, por exemplo, de Edom, Síria, a coalizão da Síria com</p><p>Efraim = Israel etc. A nomeação e consagração real se apoiam no oráculo</p><p>de Natã, com suas ampliações e reiterações. Antecipo aqui algumas frases:</p><p>2Sm 7,12 consolidarei teu reino</p><p>14 eu serei para ele pai e ele será para mim filho</p><p>23,5 ele fez comigo eterna aliança,</p><p>bem formulada e mantida</p><p>E preciso conceder uma margem muito ampla à hipérbole para reter</p><p>a hipótese da referência histórica empírica. A Davi concede Deus “paz com</p><p>seus inimigos” (2Sm 7,11), não o nomeia senhor de uma constelação de</p><p>vassalos. Em 2Sm 8 mencionam-se algumas conquistas de Davi: Filistéia,</p><p>Moab, Damasco, Edom. E um império notável, se bem que não extraordi­</p><p>nário. Não se pode comparar com os impérios de Assíria ou Babilônia, para</p><p>não mencionar a Pérsia de Dario. Nenhum sucessor de Davi manteve um</p><p>grupo de reis vassalos, tributários. E quanto às rebeliões, ocorreram em</p><p>diversas zonas e em ritmo diverso; nunca se deu conjura de largo alcance.</p><p>A aliança de Damasco com Israel contra Judá é episódio minúsculo, embora</p><p>perigoso, comparado com a conjura do salmo. Depois de Davi, Salomão se</p><p>distinguiu pelas relações comerciais e culturais, e não por seu poderio</p><p>político e militar. Logo sobrevêm o cisma, e o grande reino passa a ser uma</p><p>recordação ou um sonho.</p><p>Em conclusão, o salmo não reflete uma situação histórica, ainda que</p><p>possa expressar ilusões a contrapelo da história. Os que defendem essa</p><p>primeira hipótese, referência empírica, consideram o salmo pré-exílico:</p><p>Dahood o atribui ao séc. X.</p><p>— A segunda hipótese é que o salmo é messiânico de nascimento. Ou</p><p>seja, que foi composto quando o pensamento e a esperança messiânica já se</p><p>tinham cristalizado. O salmo seria expressão simbólica de um desejo e uma</p><p>esperança, por transformação ideal de dados e esquemas históricos. Essa</p><p>hipótese supõe que o salmo é tardio:</p><p>A. Robert, analisando a linguagem do salmo, conclui que é pós-exílico:</p><p>Considerations sur le messianisme du Psaume 2: RSR 39 (1951/52) 97.</p><p>Em época em que os judeus não têm rei nem autonomia política, podia-</p><p>se dizer que a promessa de Deus a Davi deixa de se cumprir; no entanto, na</p><p>desolação espiritual brota e cresce a esperança. Virá um sucessor legítimo</p><p>de Davi para restaurar o passado e instaurar um futuro ainda mais</p><p>glorioso. E a versão de um reino messiânico com monarca davídico, do qual</p><p>existem testemunhos inseridos em livros proféticos, como, por exemplo:</p><p>140 Salmo 2</p><p>Is 11,10 Naquele dia a raiz de Jessé se erguerá</p><p>como um sinal para os povos:</p><p>será procurada pelas nações,</p><p>e sua morada será gloriosa.</p><p>Ez 37,22 E farei deles um só povo em seu país,</p><p>nos montes de Israel,</p><p>e um só rei reinará sobre eles...</p><p>Am 9,11 Naquele dia levantarei a tenda caída de Davi</p><p>taparei as brechas, levantarei suas ruínas...</p><p>Pertencem também a época tardia as idéias complementares de uma</p><p>coalizão internacional hostil e de um domínio universal: Ez 38-39; Dn 7; Zc</p><p>9,9-10: “Ele eliminará os carros de Efraim... Anunciará a paz às nações. O</p><p>seu domínio irá de mar a mar e do Rio às extremidades da terra”; 12,3:</p><p>“contra ela se reunirão todas as nações da terra”; 9: “naquele dia procurarei</p><p>destruir todas as nações que invadirem Jerusalém”; 14,2: “Mobilizarei</p><p>todas as nações contra Jerusalém”; 9: “O Senhor será rei de todo o mundo”.</p><p>Resumo as duas hipóteses: 1) salmo antigo referente a monarcas</p><p>históricos em linguagem cortesã e hiperbólica, mais tarde lido em chave</p><p>messiânica; 2) salmo tardio, referente ao messias esperado, na linguagem</p><p>imaginativa da esperança. Cada alternativa pode desdobrar o repertório de</p><p>suas razões, capaz de inclinar uma parte dos exegetas. Cada um terá de</p><p>confessar modestamente: por 55 contra 45 (ou algo assim), inclino-me à</p><p>primeira/segunda teoria. Inclino-me à segunda: o salmo é composto em</p><p>tempos de humilhação nacional; como tal é colocado no começo da primeira</p><p>coleção, tendendo o olhar ao último da segunda coleção, o Sl 72. A obser­</p><p>vação é muito importante e a relação dos dois salmos foi notada por muitos</p><p>comentadores; veja-se, em nome de muitos, G. H. Wilson (art. citado). O Sl</p><p>2 enuncia o princípio formal de autoridade, o Sl 72 preenche-a do conteúdo</p><p>da justiça; um par de motivos se repetem em ambos. Que o leitor faça a</p><p>prova de lê-los seguidos como um díptico.</p><p>5. Exegese</p><p>1-2. Em dois binários regulares se reúnem nações e povos, reis e</p><p>príncipes; a forma frisa o acordo. A disposição a+a’ b+b’ funcionaria</p><p>também na disposição a+b a’+b’: nações e reis, povos e príncipes; o advérbio</p><p>yhdw é como o fecho. O primeiro verbo rgsh descreve um tumulto, um</p><p>motim sonoro; em contraste, o segundo versículo surpreende os povos em</p><p>suas maquinações clandestinas, hgh. O terceiro verbo htyçb os põe em pé</p><p>de guerra, os reis diante de suas tropas; o quarto os observa de novo em sua</p><p>deliberação confidencial, swd /ysd. O segundo verbo, o único no quaternário,</p><p>Exegese 141</p><p>leva complemento (ou advérbio), que soa como burla de quem fala: plane­</p><p>jam ... um fracasso. Aquilo de que murmuram e cochicham é definido de</p><p>antemão como vazio, vão (ryq associado a hbl em Is 30,7).</p><p>Com grande intensidade, pela brevidade e ritmo do sintagma, soa o</p><p>objeto do ataque: contra o Senhor e contra o seu Ungido. São inseparáveis.</p><p>A coalizão internacional se fecha contra duas pessoas e cairão brutalmente</p><p>contra elas. Recordemos a parábola de Lc 19:</p><p>14 Não queremos este por rei...</p><p>27 E a esses meus inimigos, que não me queriam por rei,</p><p>trazei-os aqui e degolai-os em minha presença.</p><p>Só que essa rebelião é assunto de política interna; algo como na eleição</p><p>de Saul em ISm 10,27: “Os malvados comentaram: Este vai nos salvar!”</p><p>Ungido designa o rei histórico e é freqüente a fórmula “ungido do</p><p>Senhor”: ISm 24,7.11; 26,9.11.16.23; 2Sm 1,14.16; 19,22; acrescentado às</p><p>vezes de um possessivo, como no salmo: ISm 12,5; 16,6; Sl 20,7; 18,51;</p><p>84,10; 89,39.52; 132,10.17. E curioso que o título se aplica ao messias futuro</p><p>somente em Dn 9,25. O título alude ao rito da unção como cerimônia de</p><p>nomeação: cf. Sl 45,8.</p><p>3. Grito de liberdade e independência na imagem clássica do jugo com</p><p>suas cordas e correias. De ordinário se emprega a palavra 7 = jugo: lRs 12;</p><p>Jr 28 etc. O vocábulo ‘bt, especialmente nesse sentido, é raro. O sintagma</p><p>ntq mwsr reaparece em Jr 2,20; 5,5; 30,8; Ne 1,13 e Sl 107,14. Jer 2 e 5 o</p><p>refere à rebeldia dos judeus contra o Senhor, os outros textos expressam</p><p>uma libertação:</p><p>Jr 5,5 Todos juntos romperam o jugo,</p><p>fizeram soltar as correias.</p><p>Na 1,13 Romperei o jugo que te oprime,</p><p>farei saltar as correias.</p><p>Sl 107,14 Tirou-os das trevas sombrias</p><p>e fez saltar as correias.</p><p>Daí, a ambigüidade abstrata da frase: grito de liberdade, grito de</p><p>rebeldia. O contexto do salmo não permite a ambigüidade. O Targum diz:</p><p>“rebelião contra o Senhor, luta contra o seu Ungido”.</p><p>A reação do soberano ocorre em dois tempos: primeiro a burla de</p><p>desprezo, depois a cólera que condena.</p><p>Nós falamos da ironia da história, pensando nas conseqüências impre­</p><p>vistas, contrárias, de algumas ações e decisões. A História personificada,</p><p>tirando conseqüências</p><p>lógicas não calculadas, se burla dos atores. O salmo</p><p>atribui o riso ao soberano celeste; e não se trata de sorriso compassivo, como</p><p>o sugere G. Ebeling.</p><p>142 Salmo 2</p><p>O riso de Deus pode-se verificar em outros dois salmos;</p><p>37,13 mas o Senhor se ri dele</p><p>porque vê que lhe chega a hora.</p><p>59,9 mas o Senhor se ri deles,</p><p>faz burla dos insolentes/povos.</p><p>Veja-se o riso terrível que Jó atribui a Deus (9,23).</p><p>yosheb: como em muitos casos, tem o valor de gesto convencional</p><p>daquele que manda: estar sentado é estar entronizado. Pois bem, aquele</p><p>que tem trono no céu está acima de todos, como soberano de muitos</p><p>vassalos: “Cada autoridade tem uma superior, e uma suprema vigia sobre</p><p>todas” (Ecl 5,7). A ele cabem o governo e o julgamento (Sl 72,ls). A cólera</p><p>é aí começo de juízo, mas não ainda condenação formal, ’ap é o nariz como</p><p>sede da cólera e haron é o ardor que experimenta um rosto irado, furioso:</p><p>sintoma, mostra visível de uma paixão. Ao ver os sinais e escutar as</p><p>palavras, os rebeldes se espantam.</p><p>bhl: no piei parece de uso tardio (Vanderkam): Sl 83,16: uma conjura</p><p>de nações contra Israel; Jó 22,10; Dn 11,44; Esd 4,4; 2Cr 32,18; 35,21;</p><p>apressar-se: Ecl 5,1; 7,9. Ao invés, é clássico o nifal.</p><p>6. As palavras iradas do Senhor são um simples enunciado histórico.</p><p>Dito ao revés: o enunciado histórico pronuncia-se com indignação, apaixo­</p><p>nadamente. O fato histórico se reafirma em sua validade permanente, com</p><p>ênfase da primeira pessoa: meu rei ... meu monte ... eu mesmo. Conteúdo</p><p>e tom do enunciado bastam para perturbar os rebeldes. O verbo nsk com o</p><p>significado específico de ungir é único. Por que o escolheu o autor? Acaso</p><p>para criar uma aliteração com nshq?</p><p>7. Fala o rei, como que desenvolvendo o protocolo de sua nomeação ou</p><p>recitando-o de memória. E rara a expressão sipper’ el hoq: Sl 50,16 diz</p><p>sipper huqqay; 69,27: spr ’l = plural “contam as chagas”. O protocolo se</p><p>concentra ou se condensa em dois dados: seria o texto lido no rito antes</p><p>mencionado da unção.</p><p>O primeiro é a adoção. Ao texto de 2Sm 7, citado mais acima, é preciso</p><p>acrescentar outro do Sl 89:</p><p>27 Ele me invocará: Tu és o meu pai,</p><p>meu Deus, minha Rocha salvadora!</p><p>28 E eu o nomearei meu primogênito,</p><p>excelso entre os reis da terra.</p><p>H. Frankfort (La royauté et les dieux, Paris, 1957) cita paralelos</p><p>orientais. Para a rainha Hatshepsut:</p><p>Tu és minha filha querida, eu sou teu pai amado.</p><p>Estabeleço tua soberania sobre as duas regiões</p><p>e te escrevo o protocolo.</p><p>Exegese 143</p><p>Para Tutmósis 111:</p><p>Eu sou teu pai, eu te gerei como deus,</p><p>para sentares em meu trono</p><p>como rei do alto e baixo Egito.</p><p>A filiação divina em Israel ocorre em momento maduro da vida do rei,</p><p>“hoje”. Não se trata de fato biológico, mas de ato jurídico. O melhor termo</p><p>para explicá-lo é adoção. O que se diz do povo coletivamente (Ex4,22; Dt 8,5;</p><p>Os 11,1 etc.), diz-se singularmente do rei. O Sl 110,3 é demais duvidoso para</p><p>esclarecer o presente texto. Sobretudo nesse versículo se apóia a leitura</p><p>cristã do salmo.</p><p>8 .0 segundo elemento é a oferta de um dom: “Pede e te darei”. Dir-se-</p><p>ia que a oferta de um dom insigne faz parte da nomeação e entronização.</p><p>Volta o tema em Sl 21,5: “concedeste-lhe o desejo de seu coração”; desenvol­</p><p>ve-se em lRs 3,1-15: “pede-me o que quiseres” (a Salomão); em ls 7,11 o rei</p><p>é convidado em nome de Deus a pedir um sinal. Também Elias faz uma</p><p>oferta testamentária em 2Rs 2,9.</p><p>Contrasta o conteúdo: o rei do Sl 21 pede vida longa, Salomão pede</p><p>Çrudência para governar. Aqui o conteúdo da petição é o domínio universal.</p><p>E preciso entender a oferta literal ou hiperbolicamente? Literalmente</p><p>seria: o soberano dita ao vassalo a petição que deve fazer. Hiperbolicamente</p><p>seria: podes pedir até o domínio universal; “até a metade de meu reino”, diz</p><p>Herodes em Mc 6,23. Parece impor-se o sentido literal.</p><p>nhlh ’hzh: Herança e possessão. Toda a família israelita tem uma</p><p>propriedade hereditária (Js 13ss); os reis podem receber cidades (lRs 9,11);</p><p>Ez 48 delimita geometricamente os terrenos do príncipe, dos levitas, das</p><p>tribos; Acaz quer comprar um terreno para alargar sua propriedade ( lRs 21).</p><p>O rei do Sl 2 recebe em propriedade “até os confins do orbe”. E domínio que</p><p>compete ao Senhor e ao messias. A Deus: ISm 2,10; ls 45,22; 52,10; Sl 98,3;</p><p>Jr 16,19; Sl 22,28; 67,8. Ao rei: Sl 72,8; ao messias Mq 5,3; Zc 9,10. Creio que</p><p>esse domínio não se outorga a um rei histórico, mas somente ao messias.</p><p>Notemos de passagem o enlace temático com o Sl 72; sem esquecer que Deus</p><p>concede o domínio universal a Nabucodonosor (Jr 27,5-7, citado acima).</p><p>9. Dada a ambivalência do texto consonântico tr‘m, propõem-se duas</p><p>interpretações (veja-se análise filológica):</p><p>Com a LXX, tir‘em = tu os pastorearás, regerás. A imagem do pastor</p><p>pode aludir a Davi e é parte da simbologia do oriente antigo. Em si, indica</p><p>uma atividade nobre e benéfica (cf. Sl 78,72 de Davi). Mas o cetro de ferro</p><p>indica um regime férreo, duro, sem concessões (Sl 45,7 fala de “cetro de</p><p>retidão”). E o regime reservado aos estrangeiros, que supõem indóceis e</p><p>turbulentos. A descrição de Mq 5,1-5 partilha com o salmo os termos ou</p><p>raízes r‘h nsyk ’psy’rç:</p><p>144 Salmo 2</p><p>3 Pastoreará com a autoridade do Senhor</p><p>em nome da majestade do Senhor, seu Deus...</p><p>5 pastorearão a Assíria com a espada, Nemrod com adaga.</p><p>É a resposta a uma invasão agressiva da Assíria. Nessa primeira</p><p>explicação, ao governo duro, férreo, segue a condenação e destruição nippeç</p><p>dos rebeldes.</p><p>— Vocalizar com TM 1fro‘em, do verbo r“, forma aramaicizante do</p><p>hebraico rçç = triturar. Nessa hipótese, os dois hemistíquios repetem e</p><p>complementam o sentido: com vara férrea os triturarás e os despedaçarás</p><p>como vasos de louça. Passa-se diretamente à destruição dos rebeldes.</p><p>shbt: Pode significar também a vara que executa um castigo ou fere</p><p>uma pessoa ou nação, inclusive manejada pelo rei: Is 9,3; 10,5; 11,4; 14,29;</p><p>Lm 3,1; é a vara da correção em vários provérbios.</p><p>A. Kleber (texto citado) pretende ilustrar o gesto com textos e ritos</p><p>egípcios de execração. Em vasos de louça se escrevia o nome do inimigo,</p><p>depois se quebrava a louça para obter magicamente a destruição do rival.</p><p>A relação é possível; mas também se explica nosso texto óomo imagem óbvia</p><p>daquela cultura: veja-se Jr 19,1-2.10-15. A vara de ferro pode-se comparar</p><p>com o martelo bélico de Jr 51,20-24:</p><p>Tu és minha maça, minha arma bélica. Contigo maçarei as nações,</p><p>destruirei os reinos, contigo maçarei o cavalo e o cavaleiro...</p><p>Os casos certos de r“com esse sentido são raros e tardios: Jó 34,24; Is</p><p>24,19.</p><p>— Definindo como original a leitura “pastorear”, mudada mais tarde</p><p>por influência do aramaico, poder-se-iam descobrir no versículo dois aspec­</p><p>tos polares de regime: o benéfico de pastorear e do oleiro, e o repressivo do</p><p>ferro e do despedaçar. Mas isso talvez seja despedaçar o texto para tirar</p><p>significados aos fragmentos. Ademais, uma ambigüidade ou ambivalência</p><p>pretendida não destoa com a prática literária de Israel.</p><p>Prefiro a segunda hipótese, a qual propõe o problema suscitado mais</p><p>acima. Se o soberano submete as nações sob um regime de ferro, não é</p><p>estranho que se rebelem gritando liberdade e independência (quando escrevo</p><p>isso, estão ocorrendo movimentos e mudanças gigantescos na Europa central</p><p>e oriental). Enfrentando a rebelião, o regime torna-se repressivo, de terror.</p><p>Isso diz a ordem cronológica. Mas o salmo parte da visão de povos rebeldes</p><p>por natureza, que justificam um regime duro. Isso diz a ordem lógica.</p><p>Com isso terminou o documento da entronização.</p><p>10-13. Volta a tomar a palavra a voz anônima para pronunciar um</p><p>ultimato. E uma chamada à sensatez, a ser razoáveis, a emendar-se por</p><p>experiência alheia ou por castigos parciais. Ser razoável é agora submeter-</p><p>Transposição cristã 145</p><p>se, prestar homenagem; sensatez respaldada pelo temor. Hoje diríamos</p><p>realismo, não provocar o poderoso. Curioso convite com o tacape levantado</p><p>(e sem a cenoura). Não apela o arauto aos valores do rei, de seu reinado (cf.</p><p>Sl 45); brande</p><p>simplesmente a autoridade ameaçadora.</p><p>Quatro verbos opõem-se aos quatro do começo:</p><p>se amotinam sede sensatos</p><p>planejam um fracasso deixai-vos corrigir</p><p>se aliam servi com temor</p><p>conspiram beijai os pés</p><p>A correspondência é global e não por peças.</p><p>10. hskylw: duas vezes fala Pr de um servo ou ministro “prudente”,</p><p>sensato; 14,35: goza do favor real; 17,2: chega a mandar.</p><p>11. ‘bdw ’t yhwh: servir, dar culto a Yhwh, dito de estrangeiros é</p><p>excepcional: aqui e no Sl 102,23 (exílico).</p><p>wgylw br‘dh: conservando a leitura do TM, comenta Hilário que o culto</p><p>a Deus combina harmoniosamente regozijo e temor. Eutímio diz que o gozo</p><p>deve ser mesclado com temor, não desenfreado, “gozai pela esperança,</p><p>temei pelo pecado”. A correção “beijar os pés” refere-se ao gesto de submis­</p><p>são comum no oriente e na Bíblia.</p><p>12. fbdw drk: extraviar do caminho, frustrar o destino. Em 1,6 era</p><p>sujeito o caminho. O final reconduz tudo ao Senhor, o soberano, fonte e</p><p>cume da autoridade real. Sua cólera a essa altura equivaleria a uma</p><p>condenação.</p><p>’shry: Já indiquei a função de enganche dessa frase acrescentada. No</p><p>interior do Sl 2, serve para terminar em tom positivo: a submissão é nm</p><p>acolher-se, refugiar-se, e é garantia de felicidade.</p><p>Comparações. O Sl 48 descreve uma aliança de reis contra Jerusalém,</p><p>capital do Senhor, sem mencionar o rei humano. O ataque fracassa ao</p><p>nascer. O Sl 83 descreve outra aliança internacional para aniquilar Israel,</p><p>sem mencionar o rei humano. O orante pede a Deus que destrua os</p><p>inimigos.</p><p>6. Transposição cristã</p><p>P. Saydon, The divine sonship of Christ in Psalm 2: Scripture 3 ( 1948) 32-35.</p><p>J. Dupont, Filius meus es tu. L ’interprétation du Ps 2 ,7 dans le NT: RSR</p><p>35 (1948) 522-543.</p><p>A. Robert, Considérations sur le messianisme du Ps 2: RSR 39 (1951)</p><p>88-98.</p><p>146 Salmo 2</p><p>F. Asensio, iSalmos mesiánicos o salmos nationales?: Greg 33 (1952)</p><p>219-260.</p><p>A. Rose, Essai d ’interpretation chrétienne du Ps 2: Dieu Vivant 22 (1952)</p><p>135-142.</p><p>P. E. Bonnard, Trois lectures du Ps 2: BVC 53 (1963) 37-44.</p><p>R. Toumay, Le Psaume de la fête de Christ: Le Roi-Messie: AssSeign 88</p><p>(1966)46-63.</p><p>J. Coppens, Le Messianisme royale (Paris 1968) 52-57.</p><p>F. L. Lentzen-Deiss, Ps 2,7, ein Motiv früher hellenistischer Christologie:</p><p>ThPh 44 (1969) 342-362.</p><p>J. J. Alemany, Interpretation mesiánica del salmo 2: CuBi 32 (1975)</p><p>255-277.</p><p>H. Cazelles, II Messia della Bibbia (Roma 1981) 27-38.</p><p>A leitura cristã do salmo acha-se assegurada por sua reiteração no NT.</p><p>Começo indicando as citações e alusões:</p><p>At 4,25-26 cita 2,1 aplicando-o à aliança de Herodes com Pilatos “contra</p><p>o teu santo servo Jesus, teu ungido”. Em seguida a comunidade pede</p><p>“valentia para anunciar tua mensagem” e o dom de realizar curas. Faltam</p><p>os tons violentos e repressivos. "</p><p>At 13,33 cita 2,7 aplicando-o à ressurreição de Jesus, na qual cumpre</p><p>Deus a promessa feita a Davi.</p><p>Hb 2,7 e 5,5 cita 2,7 aplicando-o respectivamente à filiação divina de</p><p>Jesus e sua dignidade sacerdotal.</p><p>Ap 2,26-27 cita 2,8-9. O Senhor ressuscitado concederá autoridade e</p><p>cetro, “a mesma que recebi do meu Pai”. Segue a LXX no verbo “regerás”. O</p><p>regime de ferro encaixa bem na construção dramática, na luta de poderes</p><p>típica do Apocalipse.</p><p>Ap 12,5 aplica o regime de ferro ao filho da mulher celeste. Também é</p><p>bélico o contexto, se bem que o inimigo seja o dragão.</p><p>Ap 19,15 cita o mesmo texto apresentando o ginete que vemjulgare lutar.</p><p>O contexto coloca os “reis da terra” como aliados da besta e alude à visão de</p><p>Gog, Ez 38-39.</p><p>Nos relatos do batismo e da transfiguração pode-se ouvir uma alusão a</p><p>2,7, quando o Pai declara acerca de Jesus: “Este é meu Filho” (Mt 3,12 e par.;</p><p>17,5 e par.).</p><p>Nos escritos dos Padres e na liturgia continua ressoando e amplifican­</p><p>do-se a leitura do NT. Como exemplo de conjunto cito um fragmento de</p><p>Gregório de Nissa:</p><p>O salmo segundo anuncia o mistério evangélico. Profetiza o nascimento</p><p>carnal daquele que por nós nasceu hoje (pois “hoje” indica uma fração do</p><p>tempo), daquele que sempre é Filho nascido do Pai, sempre é Deus e sempre</p><p>está com o Pai.</p><p>O salmo segundo anuncia o reino de Cristo e sua soberania sobre os</p><p>homens que antes não estavam submetidos a sua lei, não davam culto a</p><p>Deus, e por isso eram contados como pagãos, independentes de Deus, fora da</p><p>Transposição cristã 147</p><p>lei. Diríamos melhor que eram malvados, porque não tinham aceito a lei de</p><p>Deus e rechaçavam seu jugo.</p><p>Chamados ao reino que domina todos os reinos, aqueles que antes viviam</p><p>sem Deus tornam-se herdeiros de Deus, pela fé naquele que foi gerado hoje</p><p>e foi consagrado para reinar sobre eles. Também eles renascem como reis.</p><p>Com seu cetro de ferro, ou seja, com o seu poder invencível, rompe o que</p><p>neles é terra e argila e os transforma em natureza incorruptível.</p><p>Orígenes interpreta assim a aliança dos reis:</p><p>“Um salvador vem aos homens: para que esse tumulto de nações? Por que</p><p>o povo judeu, que conhecia a lei, empreende esforços vãos contra ele? Os reis</p><p>da terra, sempre em luta entre si, põem-se de acordo contra ele em perversa</p><p>aliança. Não sabiam que sua impiedade ia contra Cristo e contra Deus”.</p><p>Logicamente é o versículo que atrai mais atenção. Nele distinguem</p><p>vários Padres a geração eterna do Filho de Deus e o nascimento temporal</p><p>de Jesus, como, por exemplo, Eusébio, Cirilo de Alexandria. A vara de ferro</p><p>transforma-se em instrumento de contrição (Orígenes) ou de reforma</p><p>(Eusébio, Hilário). A sensatez encontra-se na doutrina evangélica (Hilário).</p><p>Ao fazermos nós a transposição ao tecido da história, temos de</p><p>reconhecer que “o seu reino não é deste mundo”, que não luta com “legiões</p><p>de anjos”, que prova sua autoridade nas boas obras, que vem fazer os</p><p>homens participantes do seu reino.</p><p>O salmo admite também uma projeção escatológica, na linha de</p><p>ICor 15:</p><p>24 ... quando ele entregar o reino a Deus Pai, depois de ter destruído toda</p><p>soberania, autoridade e poder.</p><p>25 Porque o seu reinado tem que durar até pôr todos os seus inimigos</p><p>debaixo de seus pés.</p><p>26 Como último inimigo aniquilará a morte.</p><p>28 E quando o universo lhe tiver sido submetido, então também o Filho</p><p>se submeterá àquele que lho submeteu, e Deus será tudo para todos.</p><p>Salmo 3</p><p>1. Texto</p><p>2 Senhor, quantos são meus adversários,</p><p>quantos se levantam contra mim,</p><p>3 quantos dizem de mim:</p><p>não há salvação para ele em Deus.</p><p>4 Mas tu, Senhor, és meu escudo em torno,1</p><p>minha glória, tu me fazes levantar a cabeça.</p><p>5 Se grito invocando o Senhor,</p><p>ele me escuta desde o monte santo.</p><p>6 Deito-me e durmo,</p><p>desperto, porque o Senhor me sustenta.</p><p>7 Não temerei o exército inumerável</p><p>que me pôs cerco.</p><p>8 Levanta-te, Senhor, salva-me, Deus meu!</p><p>Tu esbofeteaste meus inimigos,</p><p>quebraste os dentes dos malvados.</p><p>9 Tua, Senhor, é a salvação,</p><p>para o teu povo a tua bênção.</p><p>;me escudas em torno</p><p>2. Bibliografia</p><p>E. M. Blaiklock, Psalms ofthe great rebellion (Londres 1970).</p><p>P. Auffret, Note sur la structure littéraire du psaume 3: ZAW 91 ( 1979) 93­</p><p>106.</p><p>N. Tromp, Psalm 3 in drievoud: OnsGleven 62 (1985) 162-166.</p><p>P. Auffret, Note complémentaire sur la structure littéraire des Ps 3 et 29:</p><p>ZAW 99 (1987) 90-93.</p><p>Análise filológica 149</p><p>3. Análise filológica</p><p>2. Inpshy: em redor de mim, melhor do que a mim. Pelo contexto: segue</p><p>no discurso direto a 3a pessoa lw. Assim os gramáticos medievais, que o</p><p>consideram equivalente de b‘bwr npshy ou 7 npshy, citando em confirmação</p><p>Gn 20,13 e Ex 14,3. A mesma coisa gramáticos e lexicógrafos modernos: BL</p><p>pár. 81b, HALAT p. 483, c 6. E os exegetas: Del Briggs, But Gun Kraus Rav.</p><p>Comparado com o ugarítico: Dah I, 15; UT ‘nt III, 2-3.</p><p>yshw‘th: BL pár 65 t-u, Ed. König, Stilistik... p. 279. Forma eufônica:</p><p>ibn Ezra, Briggs; forma poética Rav; forma enfática: “a duplicação realça”</p><p>Qim; aramaísmo Phil.</p><p>lw: com dagesh Berg pár 10 p, BL pár 15 n-p.</p><p>b’lhym: em Deus, junto a Deus: Jerôn Del Phil Duhm Gun Kraus; de</p><p>Deus: Dah But Ray. Briggs suspeita que é glosa.</p><p>4. b‘dy: para mim Joüon pár 103 m, HALAT 13 n 4, König; meu: But.</p><p>Em redor de mim: Ewald, pár 217 m,</p><p>HALAT b‘d 3; cf. DBHE b‘d b) Jerôn</p><p>Ros Del Phil Duhm Gun Briggs Kraus Rav.</p><p>5. qwly: acus de meio ou instrumento Dah III, 427; LXX Jerôn; acus de</p><p>parte. Del citando a Ewald 381c; acus de maior definição Briggs; imitando o</p><p>acus interno enfático König; com valor adverbial But Kraus; segundo sujeito</p><p>Gun citando GK 144 m; Ros e Phil o consideram equivalente de bqwly.</p><p>wy‘nny: wayyiqtol consecutivo de apódose depois de temporal (But) ou</p><p>condicional (Gun) introduzidas sem a respectiva partícula temporal ou</p><p>condicional; cf. Joüon 166a. 167ab. 176 Dah III, 426; a mesma coisa em</p><p>acádico GAG par 160. Os exegetas o traduzem: no presente Del Duh Dah</p><p>Rav; sem definição temporal Ros; no futuro Jerôn But Phil; Briggs a</p><p>temporal no imperfeito de repetição e o wyqtl como ato singular. Corrigem</p><p>em weyiqtol Graetz Budde Gun Kraus.</p><p>6. ’ny: contrasta com o ’th de 4a Briggs e com os inimigos de 3.</p><p>Interpretam o versículo como prótase condicional Gun Dah ou temporal</p><p>Briggs, seguida de apódose em 6b.</p><p>shkbty, hqyçwty: os verbos em qatal: fato repetido Gun citando GK 106</p><p>k; duração até o presente Phil; afirmação geral Ros; coincidência, simulta­</p><p>neidade ou sucessão imediata Rav.</p><p>w’yshnh: consecutivo Del Duhm Kraus Briggs; final But Dah.</p><p>Traduzem três verbos no passado e o último no presente Del Duhm Kraus;</p><p>todos no passado Jerôn Briggs; três no futuro e o último no presente But e Dah.</p><p>7. mrbbwt ‘m: expressão militar, como Nm 20,20 ou Sl 18,44 Rav; ‘m</p><p>com significado militar, como Nm 20,30; Jz 9,43; 2Rs 13,7, Venema citado</p><p>por Ros. Veja-se o acádico ummanu = multidão, exército AHW pág 1413b;</p><p>Die Heb [DBHE] ‘m 11,1 a).</p><p>150 Salmo 3</p><p>sbyb: adverbial, em harmonia com b‘dy.</p><p>shtw: uso militar Gun; intrans GB Zor; trans com complemento</p><p>implícito mlhmh ou mhnh Ges Thesaurus; cf. Qim Ros Duhm; Dah lê shitu</p><p>passivo qal.</p><p>8. ky: causai Jerôn Del Gun Briggs Duhm; enfático Kraus.</p><p>Ihy: acusativo de parte Joüon 126 g; equivale a blhy Qim Phil.</p><p>hkyt e shbrt: qatal: fato passado fundando a confiança atual Ros Del</p><p>Phil Briggs; expressando certeza Duhm Gun; perfeito precativo Dah Rav.</p><p>9. lyhwh: lamed de possessão Jerôn Del Duhm Briggs Rav; bei Jhwh</p><p>Gun Kraus; de procedência HALAT 1-5; de vocativo Dah. “O lamed refere</p><p>a obra ou a ação a seu autor” Ros.</p><p>yshw‘h: salvação em geral, ou vitória no campo militar, cf. GB.</p><p>4. Estudo global</p><p>a) Gênero</p><p>Considero o salmo uma súplica, com expressão de confiança para o</p><p>presente, baseada em experiências passadas. Alguns se perguntam quem</p><p>pronuncia o salmo: Gunkel pensa num indivíduo, Kittel num general,</p><p>Bentzen no rei, o título antigo introduz Davi enfrentando Absalão. Colocar</p><p>um rei é resultado de uma teoria de conjunto anterior à análise; colocar um</p><p>general é tomar à letra o que pode ser linguagem imaginativa. Seguindo a</p><p>leitura davídica, diz engenhosamente Corderius: “a caula ad aulam, a</p><p>plectro ad sceptrum” = “do redil à corte, do plectro ao cetro”.</p><p>A situação será, segundo ele, um perigo geral pessoal ou um cerco</p><p>militar. Alguns, tomando à letra o v. 6, consideram-no salmo de incubação</p><p>no templo, ou seja, o orante passa a noite no templo, esperando a sentença</p><p>libertadora que se pronunciará na manhã seguinte. Não me convence uma</p><p>interpretação tão literal.</p><p>b) Composição</p><p>— Personagens e relações. Dentro do salmo atuam três personagens (o</p><p>triângulo clássico do gênero): o orante, o Senhor e os inimigos. Suas relações</p><p>mútuas, contando a de sujeito e complemento, em teoria podem ser seis; de</p><p>fato são cinco, e a assimetria é significativa. O orante com respeito a Deus é</p><p>sujeito e complemento; os inimigos com respeito a Deus são só complemento,</p><p>se bem que emitam um juízo no qual Deus é sujeito. O sistema de relações</p><p>dá ao poema movimento e dinamismo sem perda da unidade e densidade.</p><p>Estudo global 151</p><p>— Signos estilísticos da composição. Além da oposição em tom enfático</p><p>de “tu” v. 4 e “eu” v. 6, chamam a atenção três ternos com predomínio de</p><p>rima em -y:</p><p>çry mgn b‘dy shkbty</p><p>qmym ‘ly kbwdy ’yshnh</p><p>’mrym Inpshy mrym r’shy hqyçwty</p><p>inimigos, Deus, orante. A rima estende-se a outros versículos, com menor</p><p>valor estrutural, com diversa função sintática.</p><p>Começo pelas colunas segunda e terceira, v. 4 e v. 6: três títulos ou</p><p>predicados de Deus com respeito ao orante, três ações regulares do orante.</p><p>Entre ambos, ligando-os, o v. 5 que vincula em dois hemistíquios a chamada</p><p>do orante e a resposta do Senhor (esquema tradicional). Do central, 4-6,</p><p>estende-se a simetria até em cima e para baixo: 4 corresponde em contraste</p><p>a 2-3,7 prolonga a ação de 6; uma repetição do lexema o manifesta: 2-3 rbym</p><p>rbym, 7 rbbwt.</p><p>Ao acrescentar o v. 8, surge uma disposição binária, que mostrarei</p><p>citando palavras repetidas, sem respeitar a ordem de aparição:</p><p>2 rbw çry 3 yshw‘th b’lhym</p><p>3 rbym qmym ‘ly 8 hwshyny ’Ihy</p><p>7 rbbwt shtw ’ly 9 lyhwh hyshw‘h</p><p>8 Yhwh qwmh</p><p>Creio que a disposição binária tão marcada nos convide a ler o v. 8 como</p><p>o conteúdo ou o texto da oração mencionada no v. 5. Façamos a prova lendo</p><p>verticalmente os dois primeiros hemistíquios e os dois segundos de 5 e 8;</p><p>Se grito invocando o Senhor: “Levanta-te, Senhor, salva-me, Deus meu”,</p><p>ele me escuta desde o seu monte santo. Sim, tu esbofeteaste meus inimigos.</p><p>O clamor do orante, 5,8, ergue-se contra o desafio do inimigo, 3. Deus</p><p>responde com ação, e essa se reserva eficazmente para o final. 9 é um remate</p><p>que generaliza a experiência. Supondo isso, leio os perfeitos de 8 como</p><p>históricos (não precativos). O v. 8 traz a resolução definitiva do começo:</p><p>os inimigos se levantam / o Senhor se levanta</p><p>eles dizem que Deus não salva / o orante pede a salvação a seu Deus</p><p>eles são muitos / o Senhor os fere a todos</p><p>c) Imagens</p><p>— Ordenação espacial. A colocação espacial das personagens dentro do</p><p>poema ajuda a desentranhar o seu sentido. Trata-se de uma visão militar:</p><p>o orante vê-se cercado por uma multidão que acampa a seu redor (vejam-</p><p>se 27,3; Jr 50,29; Jó 19,12) e se levanta para o assalto. O cerco é total e até</p><p>152 Salmo 3</p><p>se podem imaginar os anéis concêntricos no tríplice rb - muitos. Mas entre</p><p>os sitiadores numerosos e o orante solitário interpõe-se outro cerco mais</p><p>próximo e não menos fechado: o Senhor como escudo em redor, em vez de</p><p>muralha defensiva:</p><p>“Uns escudos cobrem uma parte do corpo, outros protegem todo o corpo;</p><p>tu és o meu escudo, que me cobre e protege por todos os lados” (Rosenmüller).</p><p>— Imagem bélica. Em contexto militar, a chamada pode ser um grito</p><p>por auxílio, “sustentar” é enviar reforços decisivos, “levantar-lhe a cabeça”</p><p>é conceder-lhe a vitória, kbwd poderia significar exército (cf. Is 8,7; Mq 1,15;</p><p>lRs 3,13; DBHE, kbwd lb).</p><p>Dentro da projeção espacial da imagem militar, o v. 6 adquire relevo</p><p>extraordinário: cercado de inimigos inumeráveis, dispostos ao assalto</p><p>definitivo, o orante tranqüilamente deita, dorme e desperta. O ciclo da vida,</p><p>em sua função mais indefesa, conserva o seu ritmo fundamental. O sono não</p><p>é símbolo de morte, mas de calma: enquanto eles se levantam, ele deita.</p><p>Mas vem a manhã, e o Senhor haverá de se levantar para salvar o</p><p>orante derrotando o inimigo. A batalha converte-se imaginativamente em</p><p>combate singular, à força de punhos (vejam-se Ex 21,18; Is 58,4). Se o</p><p>símbolo do Deus guerreiro é comum no AT (pode-se consultar o índice</p><p>teológico de nosso comentário aos profetas), a luta pessoal, com seus golpes</p><p>corporais é dado original expressivo, dada a desproporção numérica ponde­</p><p>rada desde o início. Corderius apontou bem a esse aspecto corpóreo:</p><p>“E grande o bofetão de Deus que golpeia... Golpeados por Deus, ou se</p><p>amansam com a dor ou não mais podem ferir com a boca sem dentes”.</p><p>5. Exegese</p><p>1 .0 orante expressa de repente sua primeira impressão: multidões de</p><p>inimigos, qwm 7 pode significar a atitude hostil ou o assalto iminente, mh</p><p>pode estender-se mentalmente aos dois hemistíquios seguintes. O motivo</p><p>da multidão: SI 55,19; 56,3.7.</p><p>2. Com expressão idiomática poderíamos traduzir suas palavras: “Não há</p><p>Deus que o salve”. Usam a designação</p><p>genérica “deus”, enquanto o orante com­</p><p>bina Yhwh e Deus meu. Pode escutar-se a rima: rbym qmym rbym ’mrym</p><p>’Ihym.</p><p>4. Escudo (SI 18,3.31; 28,7; 33,20; 59,12 etc.) Ele me faz levantar a</p><p>cabeça: “não ficarei confundido nem cabisbaixo diante desses inimigos;</p><p>caminharei com a cabeça elevada”, (Qimchi). Sinal de alegria e entusiasmo,</p><p>(Agellius); de vitória, (Jansênio).</p><p>Transposição cristã 153</p><p>5. O monte do templo, Sião; expressão freqüente nos salmos.</p><p>6. Sl 4,9; Lv 26,6; Jó 18,1; Pr 3,24: “tu te deitarás sem alarmes, te</p><p>deitarás e o sono te será doce”. Especialmente nesse versículo apóia-se a</p><p>leitura simbólica cristã, de morte e ressurreição.</p><p>7. Sl 27,3.</p><p>8. Levanta-te: dirigido a Deus (Nm 10,35); referido à arca (Sl 7,7; 9,20;</p><p>10,12; 17,13; 35,2; 132,8). Em outras formas (Sl 12,6; 68,2; 102,14). Salva-</p><p>me: (Sl 6,5; 7,2; 12,2; 20,7; 22,22 etc.).</p><p>9. Jn 2,10 poderá estar inspirado no salmo; Sl 37,39; 62,2.8; Jr 3,23.</p><p>6. Transposição cristã</p><p>Para uma leitura cristã, a tradição nos oferece sugestões importantes.</p><p>Antes de tudo a alusão temática de Mt 27,43: “Confiou em Deus: pois que</p><p>o livre agora, se é que se interessa por ele!”, aparentada com Sb 2,18-20.</p><p>Apoiados na visão de Cristo como cabeça da igreja, alguns autores</p><p>antigos aplicam-no à exaltação de nossa cabeça: na cruz (Jo 12,32) ou na</p><p>ressurreição, como pedra angular (Sl 118,22).</p><p>Dormir e despertar são símbolos costumeiros de morte e ressurreição.</p><p>Entre os numerosos comentários escolho alguns parágrafos de Agostinho:</p><p>“Se tivessem esperado que ia ressuscitar, não o teriam matado. Vêm ao</p><p>caso aqueles gritos: ‘Desce da cruz, se és o filho de Deus’ e ‘A outros salvou</p><p>e a si não pode salvar’. Logo, sequer Judas o teria entregue, se não fosse do</p><p>número dos que desprezavam Cristo dizendo: ‘Já não o protege Deus’.</p><p>Diz expressamente eu, indicando que por sua própria vontade aceitou a</p><p>morte, segundo o dito: ‘O Pai me ama, porque eu me desprendo de minha vida</p><p>para recobrá-la de novo. Ninguém ma tira, eu a dou voluntariamente. Está</p><p>em minhas mãos desprender-me dela e está em minhas mãos recobrá-la’.</p><p>Portanto, diz, ‘não me prendestes e matastes contra a minha vontade, mas</p><p>eu mesmo deitei, adormeci e me levantei’.</p><p>Quebram-lhes os dentes, ou seja, fracassam e caem no pó as palavras dos</p><p>pecadores que, maldizendo, destroçavam o Filho de Deus; tomando dentes</p><p>em sentido de maldições. Desses dentes diz o Apóstolo: ‘Se continuais</p><p>mordendo e devorando uns aos outros, ireis vos destroçar mutuamente’.</p><p>Levantas minha cabeça: quer dizer, ao primogênito da morte que subiu</p><p>ao céu”.</p><p>Segundo Orígenes, o Pai exalta o Filho, como diz F12,9. Explica o sono em</p><p>termos gregos como a separação da alma do corpo na morte de Cristo</p><p>“quando sua alma, sem usar o corpo como instrumento, continuou realizan­</p><p>do salvação”.</p><p>Hilário e Ruperto o relacionam com Gn 49,9.</p><p>Salmo 4</p><p>1. Texto</p><p>2 Quando te chamo, responde-me,</p><p>Deus, meu defensor;</p><p>tu que no aperto me deste largueza,</p><p>tem piedade de mim, ouve a minha prece.</p><p>3 Senhores, até quando se ultrajará minha honra,</p><p>amareis a falsidade e buscareis a mentira?</p><p>4 Sabei: o Senhor distinguiu um seu fiel,</p><p>o Senhor me ouve quando o chamo.</p><p>5 Tremei e deixai de pecar,</p><p>refleti no leito e guardai silêncio;</p><p>6 oferecei sacrifícios legítimos</p><p>e confiai no Senhor.</p><p>7 Muitos dizem: Quem nos fará gozar da felicidade</p><p>se a luz de teu rosto, Senhor,</p><p>se afastou de nós?</p><p>8 No coração me infundiste mais alegria</p><p>do que quando abundam o seu trigo e o seu vinho.</p><p>9 Em paz me deito e logo adormeço,</p><p>porque só tu, Senhor, me fazes viver tranqüilo.</p><p>2. Bibliografia</p><p>L. Dürr, Zur Datierung von Ps 4: Bib 16 (1935) 330-338.</p><p>A. Alpe, Irascimini et nolite peccare: Ps 4,5: VD 22 (1942) 273-276.</p><p>R. Sorg, Hesed und hasid in the Psalms (São Luís 1953).</p><p>J. Meysing, Note d’exégèse: une nouvelle conjecture à propos du Ps 4,7b:</p><p>RSR 40(1966) 154-157,</p><p>B. N. Wambacq, Salmo 4, em Actualidades Bíblicas, ecL S. Voigt (1971).</p><p>Análise filológica 155</p><p>F. Asensio, Salmo 4: Perspectivas de la oración en la exégesis del</p><p>Crisóstomo: EstBib 36 (1977) 153-171.</p><p>Id., iMentir o idolatria?: Greg 61 (1980) 653-675.</p><p>B. Ströle, Psalmen: Lieder der Verfolgten: BiK 35 (1980) 42-47.</p><p>J. des Rochettes, Un versetto di un salmo meditato dai rabbini del</p><p>Talmud: Parola, Spirito e Vita 3 (1981) 73-85.</p><p>O. Wahl, Dü allein, Herr, lässt mich sorglos ruhen; die frohe Botschaft von</p><p>Ps 4, em FS H. Gross (1986) 457-470.</p><p>J. S. Kselmann, A Note on Ps 4,5: Bib 68 (1987) 104-106.</p><p>3. Análise filológica</p><p>2. ‘nny: imperativo; LXX perfeito, a mesma coisa Vg.</p><p>’Ihy çdqy: Deus de minha justiça, que me faz justiça, que defende</p><p>minha causa justa; o constructo indica com freqüência o efeito, como em Gn</p><p>2,9; ls 9,6 Ros.</p><p>hrhbt: perfeito; alguns o mudam em imperativo, sem necessidade.</p><p>3. bny ’ysh: são diversos dos rabbim do v. 7, formam outro grupo.</p><p>Distinguem-se dos bny ’dm como nobres de plebeus, autoridades de plebe: p.</p><p>ex., Sl 49,3; 62,10: Del Phil Gun Duhm Cast Kraus Wei; dos antigos Qim e Cord.</p><p>‘d mh: vocalização de mh normal depois de preposição: GK 37 d, BL 33,</p><p>Joüon 37 f.</p><p>kbuidy Iklmh: construção elíptica, sem cópula: Cord Del Duhm Gun</p><p>Phil Briggs Wei Rav. kbwd é a honra ou prestígio pessoal; ryq e kzb com</p><p>sentido ético.</p><p>4. wd‘w: enfático ou adversativo; de conseqüência Del Gun que remete</p><p>a GK 154 d.</p><p>hplh yhwh hsyd lw: propõem-se diversas leituras:</p><p>— conservando o TM, de plh, “o Senhor distinguiu um fiel seu /</p><p>escolheu um fiel”; ou então, mudando hplh em hpl’ : “fez maravilhoso”; ou</p><p>tomando plh como alógrafo de pl’, a semelhança de qrh/qr’.</p><p>— vocalizando hipla / hipla’yhwh hasdo li: “o Senhor fez um prodígio</p><p>de bondade comigo”.</p><p>— E original a segunda leitura; mais tarde em círculos de hasidim</p><p>vocalizou-se segundo o TM.</p><p>Pela primeira leitura estão Del Phil Kõn Dah Rav; pela segunda com</p><p>variantes: hsdw ly Graetz Duhm Gun But; hsd ly Kraus; hsd Briggs. Prefiro</p><p>a primeira: diante da deslealdade dos nobres, Deus toma a iniciativa em</p><p>favor do seu fiel.</p><p>5. rgzw: o verbo significa genericamente excitar-se, agitar-se; em</p><p>concreto, por temor Qim Zor Phil; por ira: assim o cita Ef 4,26.</p><p>156 Salmo 4</p><p>w’l: w- copulativo, como os dois seguintes, na série de imperativos; nem</p><p>concessivo nem adversativo como propõe Del.</p><p>’mr: equivale a meditar, recapacitar Phil Del Qim.</p><p>wdmw: estar calado, quieto, desistir Qim: “como se dissesse Davi:</p><p>desisti de vossas ações”; ibn Ezra: caluniar.</p><p>7. nsh ‘lynw: de nws: afastou-se a luz [que estava] sobre nós, equivale</p><p>a se afastou de nós; Dah ‘l locus unde. de nsh alógrafo ou alomorfo de ns’,</p><p>imperativo, segundo Nm 6,26: levanta sobre nós Áquila Teodócio Jerôn Ibn</p><p>Ezra Qim Del Phil Duhm Briggs Wei Rav Cast; nsh por ns’ seria forma</p><p>tardia BL 14d e 59c; seria arcaica Duhm. Denominativo de nes - estandarte</p><p>ou de um verbo nss = brilhar: Símaco: LXX Vg Rashi Ros.</p><p>8. m t: min comparativo + ‘t elíptico Del Phil Duhm Gun Kraus Wei</p><p>Cast; a construção completa seria: msmht ‘t ’shr rbw dgnm wtyrwshm Ros.</p><p>O antecedente dos sufixos devem ser os rabbim.</p><p>9. yhdw: Ewald 258 c; “y” Phil; de uma vez Jerôn Eutímio; em seguida,</p><p>imediatamente Briggs, Gun Cast.</p><p>Ibdd: aplicado ao homem: embora só, está seguro em Deus; aplicado a</p><p>Deus: o único que dá segurança. A não ser que o autor jogue com uma</p><p>ambigüidade sugestiva.</p><p>4. Estudo global</p><p>a) Gênero</p><p>Kraus o cataloga como lamentação de um homem injustamente acusa­</p><p>do, segundo a descrição do gênero proposta por L. Schmidt (1927). O orante</p><p>é um homem pobre, de baixa condição, acusado por gente influente,</p><p>enquanto os seus colegas honrados vacilam. Weiser o considera oração de</p><p>confiança, e tem a seu favor as duas menções, em lugares estratégicos, da</p><p>raiz bth. Castellino o considera canto de ação de graças enriquecido com</p><p>elementos sapienciais; como de costume, Castellino oferece uma excelente</p><p>exposição de diversos ensaios de classificação genérica desse salmo. Dahood,</p><p>que não costuma insistir na classificação tipológica, considera-o como prece</p><p>“ad petendam pluviam”: um hasid, piedoso,</p><p>pede ao Senhor a chuva,</p><p>enfrentando gente influente que a pede aos ídolos. Maillol + Lelièvre o</p><p>consideram como prece agrícola.</p><p>Situação. Em função do gênero ou prescindindo dele, outros autores</p><p>buscam para o salmo uma situação como chave de inteligência e interpre­</p><p>tação: histórica e única ou social e típica. Delitzsch, anterior ao estudo dos</p><p>gêneros, aceita o velho título hebraico e pensa em Davi que foge ultrajado</p><p>Estudo global 157</p><p>e perseguido por Absalão, ao passo que seus companheiros vão perdendo a</p><p>esperança. Maillol sugere o exemplo de Moisés no deserto, ultrajado por</p><p>alguns e não apoiado por outros; essa situação é proposta por ele não como</p><p>marco original, mas como exemplo que ilustra.</p><p>Penso que o salmo não se encaixa comodamente em nenhum dos gêneros</p><p>estabelecidos por Gunkel ou refinados por seus sucessores. Empenhar-se por</p><p>catalogá-lo pode ser forçá-lo, reduzi-lo a um gênero pode acabar em reducio-</p><p>nismo. O gênero mais próximo é a oração de confiança, que pode servir como</p><p>marco de referência. O autor não seguiu à letra cânones estabelecidos.</p><p>Quanto à situação histórica, a atribuição a Davi ilustra a tendência</p><p>que busca na história bíblica momentos nos quais enganchar cada salmo</p><p>(prólogos); como exercício histórico, é empenho desacertado. Pode, ao invés,</p><p>ser útil como ilustração, que se poderia propor em outros termos: “imagi­</p><p>nemos um caso como Davi fugindo: como Moisés no deserto...”; algo</p><p>semelhante o salmo reflete. O modelo que ilustra não ata o salmo a um</p><p>momento único. O mais importante de um salmo é sua repetibilidade, pela</p><p>qual pode servir como oração para muitos.</p><p>b) Relação com precedente</p><p>Ambos compartilham da confiança do orante no meio do perigo,</p><p>manifestada no deitar-se e adormecer, apoiada na chamada do orante e na</p><p>resposta de Deus. Daí as repetições, que chamam a atenção de qr’ + ‘nh 3,5</p><p>e 4,2, shkb +yshn 3,6 e 4,9. De menos peso a coincidência em rbym 3,2 e 4,7,</p><p>kbwd 3,4 e 4,3. Esses dados podem ter influído na colocação contígua ao</p><p>serem colecionados. Parece-me exagerado defini-los como oração da manhã</p><p>e da noite. Ademais, aproximá-los serve para ressaltar sua diferença e a</p><p>individualidade irredutível de ambos.</p><p>c) Composição</p><p>O Sl 4 distingue-se por sua tensão dramática. Ao dizer “dramática”,</p><p>refiro-me às relações entre as personagens do poema e mais ainda à tensão</p><p>emotiva que busca e encontra sua resolução.</p><p>Não existe diálogo de personagens, porque fala um só; mas este</p><p>interpela a outros. Se escutamos palavras de outros, é porque o protagonis­</p><p>ta as cita. Ou seja, personagens, relações, colocações e desenlace são</p><p>dramáticos; a prece não é drama, mas peça lírica. O enfrentamento do</p><p>orante com grupos diversos e mesmo opostos cria tensão, que se resolve</p><p>quando ambos convergem na confiança.</p><p>O orante encontra-se entre dois frontes, e daí se dirige a Deus: suplica-</p><p>lhe na segunda pessoa, recorda os seus benefícios, fala dele a outros. Aos</p><p>158 Salmo 4</p><p>inimigos interpela com retórica apaixonada, acumulando interrogativos e</p><p>imperativos; como que os agarrando pelo colarinho e sacudindo-os por</p><p>dentro com suas palavras. A estes não deixa falar. Aos amigos sim, os deixa</p><p>falar, indiretamente, citando em síntese o que dizem. Com tal artifício, os</p><p>“muitos” anônimos entram de passagem na peça, falando, mas com a</p><p>distância da citação, pela mediação compreensiva do protagonista. O que</p><p>a personagem do salmo sentiu e viveu não emerge em pura expressão lírica,</p><p>mas incorporado a um diálogo implícito. Ganha assim relevo o caráter</p><p>pessoal da situação e da experiência.</p><p>A resolução do dramatismo é a confiança, cujo vigor se revela ao</p><p>superar as tensões a que foi submetida. A confiança sustenta um paradigma</p><p>de termos com algum sema ou traço significativo comum: bth twb, smhh,</p><p>shlwm; aos que se opõem pelo menos çrr e rgz.</p><p>Suposto o anterior, podemos esquematizar o desenvolvimento, com o</p><p>risco de congelar o dramatismo:</p><p>2 Introdução em forma de prece ao Senhor</p><p>4-6 Discurso aos nobres: pergunta retórica e sete imperativos</p><p>7-9 Atitude do grupo e testemunho do orante falando a Deus</p><p>d) Os símbolos</p><p>Dois símbolos em concerto prendem o salmo pelo princípio e pelo fim:</p><p>espaço e sono.</p><p>— Espaço. “Tu que no aperto me deste largueza” é mais que simples</p><p>imagem, é símbolo primordial, arquetípico. Partindo da experiência radical</p><p>do homem no espaço, experimenta-se e expressa-se outra experiência não</p><p>espacial, imaterial.</p><p>As situações de estreiteza e largueza são variadas, e nem é preciso</p><p>aludir à experiência do beduíno, segundo Gn 26,22 (Kraus), ainda que esse</p><p>caso esteja subjacente a Is 54 e seja de algum modo exemplar. Devemos</p><p>antes apelar à comum experiência humana, sem fronteiras de região e</p><p>época. O homem vive em relação essencial com o espaço, próximo e remoto.</p><p>Não apenas necessita do espaço estrito que ocupa o seu corpo (chamamos</p><p>de “corpos” os seres no espaço), mas também necessita um espaço mínimo</p><p>para viver, trabalhar, mover-se. A vida na grande cidade apresenta abun­</p><p>dantes situações agressivas a essa necessidade: moradias, apartamentos</p><p>em série, lugar de trabalho, meios de transporte... O cidadão sente a ne­</p><p>cessidade de “espaçar-se”, ao menos de “espaçar” os olhos; pode apreciar o</p><p>passeio por uma larga avenida, o movimento numa catedral “espaçosa”, e</p><p>busca as larguezas do campo, da montanha e do mar: “Aí está o mar: largo</p><p>e dilatado” (Sl 104,25).</p><p>Estudo global 159</p><p>Essa experiência física serve para elaborar — compreender e</p><p>expressar — experiências não físicas: mentais, emotivas, religiosas.</p><p>Sente apertos e estreitezas, sofre estresse, angustia-se (de ang = estrei­</p><p>to), tem consciência estreita ou larga, mentalidade ampla, coração dila­</p><p>tado... Nesse contexto, simplesmente humano, insere-se a preciosa ex­</p><p>pressão do salmo, que, por sua rica brevidade, merece uma pausa con­</p><p>templativa.</p><p>Apresento aqui algumas traduções do sintagma, para que se aprecie o</p><p>que significa respeitar a linguagem poética dos salmos:</p><p>RSV: Thou hast given me room when I was in distress.</p><p>NEB: I was hard pressed, and thou didst set me at large.</p><p>LivB: You have always cared for me in my distress.</p><p>Today’s EV: When I was in trouble you came to my help.</p><p>Piatti: nell’angustia mi scampa.</p><p>Vaccari: tu che nell’angustia mi hai tratto al largo.</p><p>Pléiade: dans la détresse tu m’as mis au large.</p><p>TOB: dans la détresse tu m’as soulagé.</p><p>CEI: dalle angoscie mi hai liberato.</p><p>NC: en la apretura tù me diste holgura.</p><p>O tradutor deveria recriar em sua língua a linguagem imaginativa do</p><p>poema original.</p><p>— Não menos válido é o símbolo do sono. O salmo propõe a experiência</p><p>de um sono fácil em seu sentido próprio. Mas esse sentido se aprofunda com</p><p>ressonância simbólica: pelo contraste com o desvelo dos adversários (v. 5),</p><p>pela retirada da luz (v. 7), pela presença de Deus (v. 9). Em português,</p><p>poderíamos dizer que ao orante os desgostos não conseguem tirar o sono</p><p>nem lhe dão pesadelos. O sono vai além da simples experiência física: ou</p><p>liberta fazendo cessar o sentimento de aperto e angústia, ou abre espaços</p><p>interiores à fantasia. No salmo o símbolo do sono faz acorde com o símbolo</p><p>do espaço.</p><p>— Os símbolos primordiais costumam ser polares, ricos e expansivos.</p><p>A polaridade do espaço podemos observá-la lendo textos em que a imensi­</p><p>dade tem valor negativo, como, por exemplo, Jó 6,1: “as caravanas mudam</p><p>de rota, se adentram na imensidade e se extraviam”; é o deserto, ilimitado</p><p>e ameaçador. A polaridade do sono nos é dada por sua função de descanso</p><p>e sua representação da morte. Sono como morte: Jó 14,12; Jr 51,39.57; sono</p><p>eterno Sl 13,14, livra-me do sono da morte. Sono libertador Pr 3,24. A</p><p>riqueza inclusiva desses símbolos está ligada a seu caráter global, não</p><p>articulado. E uma riqueza potencial, que se expande no uso e na leitura. A</p><p>leitura cristã se apóia principalmente nos símbolos.</p><p>160 Salmo 4</p><p>Introdução</p><p>2 .0 começo é de súplica, como especifica o termo tplh. Três imperativos</p><p>se apertam em breve espaço, contrastando com o solitário perfeito, que</p><p>metri causa.</p><p>No texto atual o ritmo vai se alargando no final: 3+4 4+5.</p><p>Assim termina o salmo na mesma tonalidade do começo, resolvendo</p><p>todas as tensões num acorde perfeito de serenidade e confiança.</p><p>6. Transposição cristã</p><p>Ef 4,26 cita a primeira frase do v. 5, dando a rgzw o sentido específico</p><p>de irar-se, irritar-se, donde parte uma tradição exegética que se ocupa com</p><p>a ira legítima: Eusébio, Crisóstomo, Ambrósio e outros. O mesmo versículo</p><p>de Ef 4 menciona a mentira: pela proximidade da citação, pode-se suspeitar</p><p>de uma reminiscência do Sl 4,3.</p><p>A propósito de ryq, v. 3, fala Gregório Niceno do “vazio” social da</p><p>humanidade, que se deverá preencher com a revelação. Também Agostinho</p><p>o comenta em chave de verdade = revelação. Em seu sentido óbvio presta-</p><p>se ao comentário ético de validez permanente.</p><p>No v. 7b, diversos autores seguiram a tradução da LXX e da Vulgata</p><p>que derivam nsh de nes = estandarte, sinal. O cristão foi “marcado” pela luz</p><p>do rosto divino, que é seu Filho: assim, com variantes, Eusébio, Gregório</p><p>Niceno, Orígenes, Gregório Nazianzeno, Cirilo de Alexandria, Ambrósio,</p><p>Agostinho, Jerônimo.</p><p>O gozo na tribulação, v. 7, nos remete ao testemunho de Paulo e de</p><p>outros escritos no NT:</p><p>2Cor 7,4 Transbordo de alegria no meio de todas minhas penalidades</p><p>G1 5,22 Fruto do Espírito é ... alegria, paz...</p><p>lTs 1,6 apesar de tantas dificuldades, acolhestes a mensagem com a</p><p>alegria do Espírito Santo.</p><p>164 Salmo 4</p><p>Restam-nos os dois grandes símbolos, espaço e sono, sempre abertos e</p><p>disponíveis para novas leituras que os exploram sem esgotá-los.</p><p>— Espaço. Sugiro primeiro quatro textos que abrem janelas à contem­</p><p>plação:</p><p>lRs 8,27: Se não cabes no céu nem no mais alto do céu.</p><p>Sl 139,7-10: Sobre a imensidade de Deus, que abarca e desborda tudo.</p><p>At 17,28: Nele vivemos, nos movemos e existimos.</p><p>E f3,18: Sereis capazes de compreender ... o que é comprimento e a</p><p>largura, altura e profundidade ... o amor do messias.</p><p>Deus nos dá largueza livrando-nos por Cristo da constrição da lei,</p><p>alargando o sentido da Escritura, alargando por dentro a nossa capacidade.</p><p>Dando outro passo, podemos meditar que Deus é nosso espaço, no qual nos</p><p>movemos e existimos: um espaço infinito que haveremos de percorrer</p><p>perpetuamente sem encontrar fronteiras: “seja ele depois dessa vida o</p><p>nosso lugar” (Agostinho comentando o Sl 30, parágrafo 8). Máximo de</p><p>Turim fala de Deus como espaço da Igreja (PL 57,514).</p><p>— Sono = repouso. Basta apontar aqui a morte de Cristo como repouso</p><p>e passagem à vida, que logrou um estupendo comentário artístico no coro</p><p>final da Paixão segundo Mateus de J. S. Bach. E, no seguimento de Cristo,</p><p>o “descansem em paz” de Ap 14,13, recolhido em nossas liturgias dos</p><p>defuntos.</p><p>Salmo 5</p><p>1. Texto</p><p>2 Escuta minhas palavras, Senhor,</p><p>percebe meu sussurro,</p><p>3 dá atenção a meus gritos de socorro.</p><p>Deus meu e Rei meu!</p><p>A ti eu suplico, Senhor:</p><p>4 pela manhã ouve a minha voz;</p><p>pela manhã te exponho minha causa</p><p>e fico aguardando...</p><p>5 Pois tu não és um Deus que queira o mal</p><p>nem o malvado é teu hóspede</p><p>6 nem se manterão os arrogantes diante de ti,1</p><p>Detestas os malfeitores</p><p>7 destróis os mentirosos;</p><p>a sanguinários e embusteiros2</p><p>aborrece-os o Senhor.</p><p>8 Eu, ao invés, por tua grande bondade,</p><p>posso entrar em. tua casa</p><p>e prostrar-me na direção de teu santuário</p><p>com reverência.</p><p>9 Por tua justiça guia-me, Senhor,</p><p>em resposta a meus detratores;</p><p>endireita diante de mim o teu caminho.</p><p>10 Pois em sua boca não há sinceridade,</p><p>sua mente é uma furna,</p><p>sua garganta é um sepulcro aberto</p><p>e adulam com a língua.</p><p>1 em tua presença</p><p>2 traidores.</p><p>11 Condena-os, ó Deus, que fracassem seus planos:</p><p>por seus crimes numerosos, expulsa-os,</p><p>porque se rebelam contra ti.</p><p>12 Que se alegrem os que se acolhem a ti</p><p>com'júbilo perpétuo,</p><p>que se regozijem contigo</p><p>os que amam o teu nome.</p><p>13 Que tu, Senhor, bendigas o inocente,</p><p>o cubras e o rodeies</p><p>com o escudo de tua bondade.</p><p>166 Salmo 5</p><p>2. Bibliografia</p><p>L. Krinetzki, Ps 5: Eine Untersuchung seiner dichterischen Struktur und</p><p>seines theologischen Gehaltes: ThQ 142 (1962) 23-46.</p><p>E. M. Blaiklock, Psalms of the great rebellion (Londres 1970).</p><p>J. Coppens, La royauté de Yahwe dans le Psautier: ETL 53 (1977)</p><p>300-306.</p><p>J. W. McKay, Psalms o f Vigil: ZAW 91 (1979) 229-247.</p><p>3. Análise filológica</p><p>2. ’mry: em posição enfática; a linha é um quiasmo perfeito.</p><p>hgygy: inf qatil (Barth, Nominalbildungen, pár. 85b) de hgg, alomorfo</p><p>de hgh; somente aqui e no Sl 39,4. Veja-se a interpretação judaica tradi­</p><p>cional citada por Ros, e também GB Zor HALAT.</p><p>3. shw‘y: inf. piei de shw‘ Duhm GB Zor.</p><p>ky: causal Del Briggs Duhm Gun Dah Rav; temporal Phil, como Gn 4,12;</p><p>2Sm 7,1; Sl 23,2; 32,8; 37,20; comparativo But. Poderia também ser enfático.</p><p>4. yhwh: unem-no ao hemistíquio precedente Dah Rav; vejam-se LXX</p><p>e Jerôn. Briggs e Gun suprimem yhwh e transladam bqr unindo-o a ’tpll.</p><p>bqr: adverbial Joüon 126 i. Alusão talvez à hora do sacrifício Duhm ou</p><p>da oração Qim.</p><p>’rk: O uso absoluto der&emJz 20,30.33; lSm4,2;2Sm 10,17; Jr 50,9.14;</p><p>lCr 19,11.17 sugere um uso intransitivo de ‘rk com l- de direção (com verbos</p><p>de movimento GB p. 370b), não com sentido de hostilidade como Jr 50,9 ou Sl</p><p>89,7. Supõem um acusativo implícito: a súplica Qim Gesenius Thesaurus,</p><p>Briggs; um sacrifício Duhm; minha causa, com valor forense Dah; minha</p><p>Análise filológica 167</p><p>petição Rav; qwly compl comum a tshnrí e xrk; a pessoa do orante LXX</p><p>parastesomai; Jerôn prseparabor; Vaccari me apresento; Corderius lhe atribui</p><p>um sentido militar. Para o sentido forense, Bovati, Ristabilire la giustizia, 307s.</p><p>5. ygwrk: Qim equivalente de ygwr ‘mk, como em casos parecidos;</p><p>também Del aduzindo Sl 120,5; sufixo dativo But. Gun e Cast atribuem ao</p><p>yiqtol valor modal.</p><p>Q.ytyçbw: estar em pé, firme, à disposição de, a serviço de; Gun remete</p><p>a Pr 22,29. Compare-se com Sl 101,7 yshb /ykwn Ingd ‘ny. Dah o toma em</p><p>sentido forense.</p><p>hwllym: Qim: loucos ou malvados, à semelhança de ISm 21,14 ou de</p><p>Ecl 10,13; Ros seguindo Rüdinger e Michaelis, “insane in peccata ruentes”.</p><p>Duhm supõe um part polel sem m-, jactanciosos. But ímpios ou malvados.</p><p>7. ’ysh dmym wmrmh: cf. Joüon 129j.</p><p>8. ’bw’ bytk: bw’: com acusativo GB Zor HALAT.</p><p>bytk...hykl qdshk: Duhm distingue byt, recinto; hykl, edifício do</p><p>templo; Ros pensa que hykl é o camarim ou sancta sanctorum.</p><p>shwrry: costumam derivá-lo de shwr = olhar, observar: os que esprei­</p><p>tam: Jerôn, Qim citando Nm 24,17 e ISm 18,29; outros pensam num part</p><p>polel sem m- Briggs Duhm; Gun caluniadores, segundo o acádico.</p><p>hwshr: qere hayshar: A favor de ketib estão o K ’wshr de ls 45,2, o árabe</p><p>meridional antigo wtr (AHW 254a), o antigo egípcio wsr (GB 326a).</p><p>Ipny drkk: invertem os sufixos LXX Vg Gun Wei.</p><p>10. ’yn: forma de estado constructo GK pár. 152 o.</p><p>bpyhw: sufixo sgl com valor distributivo lbn Ezra, Ros Del; mescla de</p><p>sgl e pl por razões de estilo Dah; corrigem em bpyhm ou bpymw LXX Jerôn</p><p>Duhm Gun But Kraus Cast Wei.</p><p>nkwnh: adj fem com subst implícito Qim; abstrato em forma fem Duhm</p><p>Gun Cast GK 122 q; part nif fem com significado abstrato GB Zor. Poderia</p><p>significar um elemento singular representando a idéia geral: “não há nem</p><p>uma palavra certa em sua boca”, cf. GAG 60 a sobre o valor original da</p><p>desinência fem. Meyer 42,7 hipotetiza uma aformante do singular, diversa</p><p>em sua origem da desinência fem e posteriormente assimilada a ela.</p><p>hwwt: pl. de grandeza ou intensidade Briggs Gun.</p><p>11. Kshymm: de’shm. De Lagarde lê hif de shmm, destrói-os, cf. ISm 5,6.</p><p>mm‘çwtyhm: com min local LXX Jerôn Kraus; com min causal Ros</p><p>Duhm Cast Dah; cf. GB p. 434 a.</p><p>brb: b- de causa Ros Wei Kraus But; lendo k- segundo a LXX Jerôn Gun.</p><p>12. hwsy bk: constructo seguido de prep Joüon 129 m.</p><p>’hby shmk: part com genitivo Joüon 121 km.</p><p>wtsk ‘lymw: transferem-no para antes de 13b, unido ao “escudo” Briggs</p><p>Gun Kraus Wei; lêem ‘lyw: Gun Kraus.</p><p>168 Salmo 5</p><p>13. kçnh: é o escudo grande, que guarnece todo o corpo Briggs Gun;</p><p>lêem çnyp/çnp = turbante Wellhausen Duhm.</p><p>rçwn: segundo acusativo de</p><p>‘tr, cf. GB Zor; acus instrumental Dah.</p><p>t‘trnw: ou então hif Ibn Ezra, à semelhança de lSm 17,25; Gb GK 53n;</p><p>lê piei Kraus com alguns manuscritos antigos.</p><p>-nw: lê sufixo de prim pess pl LXX.</p><p>4. Estudo global</p><p>a)Gênero</p><p>Um inocente, injustamente acusado ou perseguido, apela ao tribunal</p><p>de Deus no templo, expõe sua causa, aguarda a sentença. O gênero impõe</p><p>o clássico triângulo do orante, dos inimigos e do Senhor; com a oposição</p><p>normal de um inocente a vários inimigos.</p><p>O salmo pode ter sido usado em casos concretos de apelação ao templo.</p><p>Também poderia ser uma composição poética livremente modelada segun­</p><p>do a imagem judicial sacra. Ou seja, pode ter sido usado para apelações</p><p>formais e também para prece pessoal. Na apropriação atual se desprende</p><p>do contexto forense real, do tribunal do templo; ou então o pode recitar um</p><p>inocente injustamente condenado por um-tribunal humano.</p><p>b) Personagens</p><p>— O Senhor tem no v. 3 dois títulos: “Deus meu e Rei meu”. O primeiro</p><p>expressa uma relação pessoal implicando ao mesmo tempo uma profissão de</p><p>fé: és o meu Deus, não tenho outros deuses, contigo mantenho relações</p><p>pessoais. O título de Rei inclui o poder judicial, porque no antigo Israel não es­</p><p>tavam separados o poder executivo e o judiciário, sendo antes uma das tarefas</p><p>principais de governar o julgar. O rei tinha no seu palácio um tribunal ordinário,</p><p>supremo para o reino: p.ex., 2Sm 15,1-6; lRs 3,16-28. Começava-se a despachar</p><p>pela manhã: Jr 21,12 “ide cedo administrar justiça”. Pois bem, o Senhor tem o</p><p>título, as atribuições, as funções de juiz, e o seu tribunal se encontra no templo.</p><p>Como juiz, o Senhor há de ser imparcial, e não neutro. Não pode ser</p><p>indiferente entre o bem e o mal, entre bons e maus. O orante o reconhece e</p><p>proclama, quase com acentuação hímnica, em seis sentenças, três negativas-</p><p>e três positivas, 5-7: não ama, não hospeda, não recebe, detesta, aborrece,</p><p>destrói. As seis se referem ao mal e aos malvados. O Deus supremo, a quem</p><p>o orante venera, ’el, é irreconciliável com a injustiça e com os injustos</p><p>enquanto tais. Tudo isso se pode resumir na çedaqa do v. 9, a justiça que se</p><p>completa e se tempera com a bondade, hesed (compare-se com o Sl 101,1).</p><p>Estudo global 169</p><p>— Os inimigos estão descritos por acumulação e reiteração de traços.</p><p>A abundância de qualificativos, mais do que defini-los com precisão, os faz</p><p>genéricos, réus de culpas multíplices e variadas, o que se poderia dever à</p><p>transposição poética. Sete qualificativos se acumulam em 5-7: maus (se é</p><p>abstrato por concreto), malvados, arrogantes, malfeitores, mentirosos,</p><p>sanguinários, traidores. No v. 10 se descreve em três traços coerentes o seu</p><p>modo de agir em relação com o próximo; o v. 11 os caracteriza por sua</p><p>relação para com Deus, como criminosos e rebeldes.</p><p>Serão esses malvados juizes corruptos de tribunais profanos? Poder-</p><p>se-ia supor que o inocente, prejudicado e ameaçado por autoridades</p><p>humanas, apela em última instância ao tribunal de Deus, o único de quem</p><p>pode fiar-se. Em princípio, é possível, pois os testemunhos histórico e</p><p>profético mencionam com freqüência a corrupção de juizes e governantes.</p><p>De mais a mais, a apelação ao tribunal supremo sagrado poderia sugerir</p><p>que as instâncias inferiores fracassaram. O salmo não oferece elementos</p><p>positivos para prová-lo: os delitos mencionados não são suficientemente</p><p>específicos. O paralelo do Sl 101 ilustra, não prova.</p><p>— O orante não se apresenta com vigor nem clareza, como pode ocorrer</p><p>em outros salmos do gênero. Quase parece que quer apagar-se diante do</p><p>Senhor. Inclui-se a si mesmo num genérico “justo/inocente”, v. 13; entra</p><p>talvez na categoria dos que amam o Senhor e se acolhem a ele, v. 12. Não</p><p>aduz méritos próprios, não descreve tribulações, não protesta inocência.</p><p>Tal atitude dá o perfil individual ao salmo. Já que não o conhecemos,</p><p>podemos observar sua atuação, exemplar no conjunto e nos detalhes.</p><p>Não se enumeram as suas ações em ordem cronológica. Podemos</p><p>reordená-las para reconstruir um ritual ou processo hipotético: entra no</p><p>templo (8a), pede audiência (4a), expõe a causa (4b), suplica (3), fica</p><p>aguardando (4b). Em seu discurso ou súplica enaltece o juiz apelando a seu</p><p>senso de justiça; denuncia os culpados e pede que sejam castigados; porque</p><p>os malvados são violentos contra os homens e rebeldes contra Deus. Os</p><p>honrados celebrarão a vitória do inocente.</p><p>Onde fica ele? Que diz de si? Aqui o salmo se afasta da convenção do</p><p>gênero, de sorte que se torna significativo pelo que não diz. Sua inocência</p><p>está implícita, facilmente perceptível em todo o desenrolar. Diante dos</p><p>inimigos não afirma sua inocência, mas sua reverência ou senso religioso,</p><p>e diz isso dialogando com Deus. Não é sua inocência que o impulsiona a</p><p>entrar no templo, mas a bondade ou lealdade de Deus (brb hsdk). A</p><p>absolvição é pedida implicitamente no verbo ’tpll. Depois pede ao Senhor</p><p>que o encaminhe, que lhe aplaine a sua senda.</p><p>O orante se sabe inocente, mas sente ainda mais confiança sabendo</p><p>que Deus é bondoso e leal. Sabe-se inocente, mas não está seguro do que</p><p>170 Salmo 5</p><p>ocorrerá mais tarde: como se põe nas mãos de Deus para ser julgado, invoca</p><p>o auxílio de Deus para ser guiado para o futuro. Entra confiante, prostra­</p><p>se reverente, sairá dócil e com segurança.</p><p>c) Desenlace</p><p>Por parte do juiz, espera-se uma sentença que os declare culpados</p><p>Kshymm 11, uma execução que os expulse, talvez ao desterro hdyhmw 11.</p><p>A sentença, que implica a absolvição do inocente, tem ressonância social,</p><p>como vitória de todos os fiéis do Senhor. De quantos se acolhem ao Senhor</p><p>(12), em sentido metafórico e genérico ou em sentido próprio, gozando do</p><p>asilo do templo. Prefiro aqui o sentido genérico e não o técnico. Na</p><p>administração da justiça judicial, o Senhor é reconhecido de novo como o</p><p>Deus que protege e bendiz o inocente; a sua proteção soa em sentido militar:</p><p>cobre e circunda como escudo.</p><p>d) Disposição _</p><p>Seguindo a ordem dos versículos, observamos o seguinte desenvolvi­</p><p>mento:</p><p>2-4 Introdução do orante:</p><p>petição em três imperativos: escuta, percebe, dá atenção</p><p>ação em três verbos: suplico, exponho, aguardo.</p><p>5-7 Descreve e exalta a justiça do juiz:</p><p>três traços negativos e três positivos.</p><p>8-9 O orante: entrada com dois verbos</p><p>saída com dois imperativos.</p><p>10-11 Descreve os inimigos: palavras e pensamentos</p><p>pede sua condenação.</p><p>12-13 Júbilo dos fiéis.</p><p>Epifonema.</p><p>O material é distribuído em cinco estrofes de quatro versículos. Fica no</p><p>centro a figura do orante. Cronologicamente, esses versículos formam o quadro:</p><p>entra apelando, sai absolvido. O poema inverte a cronologia para começar com</p><p>a petição insistente. A distância se conjugam o “eu” do v. 8 e o “tu” do v. 13.</p><p>5. Exegese</p><p>2-3. h’zyn e hqshyb são convencionais, não assim bina. Domina o fator</p><p>sonoro: hgyg é murmúrio ou sussurro, shw‘ é o grito. O título de Rei meu não</p><p>é muito freqüente (Sl 44,5; 47,7; 68,25; 74,12; 84,4). Não basta para</p><p>Estudo global 171</p><p>emparentar o salmo com os salmos da realeza divina; o título aparece aí</p><p>para justificar uma petição. Quando Absalão pretende o trono real, prome­</p><p>te julgar com justiça e prontidão (2Sm 15).</p><p>4. Amanhã é o tempo clássico para administrar justiça ou pronunciar</p><p>sentença: p.ex., Ex 18,13s “da manhã à noite”; Sl 101,8; cf. 2Sm 23,4 em</p><p>linguagem imaginativa. Para o verbo ‘rk vejam-se ls 44,7; Sl 50,21; Jó</p><p>13,18; 23,4. No final do v. 4 ocorre uma quebra rítmica, “de pé quebrado”,</p><p>expressiva do gesto de aguardar (Manual de poética hebraica 64).</p><p>5-7. Os malvados entram indiretamente, como objeto da rejeição divina.</p><p>A incompatibilidade é categórica e definitiva, o tempo da sanção fica sem</p><p>definir. O orante ficou “aguardando” e conta com uma solução rápida. O “ódio,</p><p>aborrecimento” ou incompatibilidade com os malvados define o Deus de</p><p>Israel = veja-se 11,5. O homem pode participar dessa atitude 139,21s.</p><p>7. Mentirosos: “ministros do diabo, que é pai da mentira”, Eutímio. Sb</p><p>14,9: “Porque Deus aborrece igualmente ao ímpio e sua impiedade”.</p><p>8. Entrar e prostrar-se é gesto normal (como nossa genuflexão) (Sl</p><p>95,6; 132,7 etc.).</p><p>“Por tua grande bondade” (brb hsdk): recordemos que na invocação</p><p>litúrgica um dos títulos divinos é rab hesed we’emet: Ex 34,6; Jn 4,2; Sl</p><p>86,5.15; 103,8; a ela corresponde a “reverência” yr ’h do orante.</p><p>9. A justiça çdqh de Deus, complementária de sua bondade, é aí densa</p><p>de relações. Tem bastante de judicial, pelo contexto e pela referência aos</p><p>inimigos; é, de mais a mais, uma retidão que guia por um caminho e o</p><p>aplaina para evitar tropeços ao inocente. Não é sentença judicial simples,</p><p>depois da qual cada um segue o seu caminho, mas o juiz continua se</p><p>ocupando com seu cliente. Ao homem cabe deixar-se guiar (Gn 24,27; Ex</p><p>15,13; Sl 27,11; 77,21).</p><p>10. Os dois versículos funcionam com duplo sentido: como descrição</p><p>coerente e com o valor metafórico das peças. Se tomamos cada elemento por</p><p>sua parte, reconhecemo-lo sem dificuldade:</p><p>nekona: dito acertado, reto (Jó 42,7).</p><p>hawwot: desgraça objetiva (Sl 57,2; Pr 19,13); maldade ou perversão (Sl</p><p>52,9; Jó 6,2); sua expressão oral (Sl 38,13; Pr 17,4); cobiça (Mq 7,3; Pr 10,3).</p><p>hhlyq: afagar, adular (Pr 2,16; 29,5).</p><p>Equivalem a uma explicação da mentira e fraude do v. 7: levam dentro</p><p>a maldade como sepulcros, falam adulando com falsidade.</p><p>As peças podem compor um todo imaginativo coerente, sobretudo se</p><p>aceitarmos a etimologia proposta por Delitzsch para hwwt, de hwh = hiare,</p><p>barathrum = fender, cova. Imaginemos uma cova ou um poço em cuja boca</p><p>não existe apoio, cujas paredes estão lisas e resvaladiças: quem cair nela,</p><p>172 Salmo 5</p><p>baixa até o fundo. Apliquemos a imagem: levam uma cova hwwt, aberta</p><p>como uma fossa qbr, em sua boca não existe ponto de apoio nkwnh, e a</p><p>língua faz resvalar hlq. Os dois sentidos se superpõem engenhosamente e</p><p>coincidem.</p><p>A menção do sepulcro, além de ecoar juntamente com “interior” qbr /</p><p>qrb, torna íntimo o perigo mortal que são esses “sanguinários”. (Não são os</p><p>sepulcros evangélicos, cheios de corrupção por dentro).</p><p>11. ’shm, é ser culpável, réu; o hifil é declarar culpado, condenar,</p><p>castigar. O primeiro castigo é o fracasso de seus planos, que eram a</p><p>condenação do inocente. Não se pede sem mais o fracasso das pessoas, mas</p><p>de seus planos iníquos.</p><p>A “expulsão” hdyhmw é também dispersão. Jeremias costuma aplicar</p><p>o verbo ao desterro (8,3; 16,15; 27,10 etc.). O salmo não especifica.</p><p>12. Para o efeito na comunidade veja-se Pr 11,10: “O êxito dos honrados</p><p>é festejado pela cidade”; também Sl 40,17. Se associamos a fórmula “amar</p><p>o Senhor” com o Dt 6,5; 11,1; 13,4, a fórmula “amar o nome” é exclusiva</p><p>deste salmo e Is 56,6; ao invés, é comum o acolher-se.</p><p>13. Se transladamos ao final o sintagma wtsk ‘lymw, o epifonema</p><p>enuncia três ações do Senhor: cobre como uma cortina ou umas asas, rodeia</p><p>ou circunda como um escudo, bendiz. São reflexões genéricas que não</p><p>brotam especificamente do contexto. Poder-se-ia escutar esse epifonema</p><p>pronunciado pela comunidade exultante. Os antigos traduziram ‘tr por</p><p>coroar, em sentido próprio ou metafórico: “arma de vitória e coroa de</p><p>triunfo” (Teodoreto). Para a bênção final do salmo: 28,9; 67,7; 29,11; 128,5.</p><p>6. Transposição cristã</p><p>Na carta aos Romanos, Paulo combina o Sl 5,10 com outros textos para</p><p>descrever a perversão universal: todos, judeus e pagãos, estão debaixo do</p><p>domínio do pecado. Ou seja, generaliza a descrição do salmo, excluindo a</p><p>existência de inocentes. E citação fora de contexto. O esquema original do</p><p>salmo, o inocente perseguido que se acolhe a Deus juiz, deverá ser transpos­</p><p>to segundo a expressão de lPd 2,23: “se punha em mãos do que julga</p><p>retamente”. A exemplo de Cristo, o cristão perseguido, caluniado, injusta­</p><p>mente condenado, pode fazer seu esse salmo, ainda que pedindo a conver­</p><p>são mais do que o castigo dos malvados.</p><p>Vários autores antigos aplicam a Cristo o “entrar no santuário” celeste,</p><p>seguindo Hb 9,12: “entrou uma vez para sempre no santuário, conseguindo</p><p>uma libertação irrevogável”.</p><p>Salmo 6</p><p>1. Texto</p><p>2 Senhor, não me repreendas com ira,</p><p>não me castigues com cólera.</p><p>3 Piedade de mim, Senhor, que desfaleço,</p><p>cura, Senhor, meus ossos deslocados.</p><p>4 Respiro descompassadamente,1</p><p>e tu, Senhor, até quando?</p><p>5 Volta-te, Senhor, põe a salvo minha vida,</p><p>salva-me, por tua misericórdia;</p><p>6 pois no reino da morte ninguém te invoca,</p><p>e no Abismo, quem te dá graças?</p><p>7 Estou esgotado de gemer,</p><p>toda a noite alago meu leito,</p><p>dissolve-se em lágrimas minha cama;</p><p>8 consomem-se irritados meus olhos,</p><p>envelhecem por tantas contradições.</p><p>9 Apartai-vos de mim, malfeitores!</p><p>Pois o Senhor escutou meu pranto,</p><p>10 o Senhor escutou minha súplica,</p><p>o Senhor acolheu meu pedido.</p><p>11 Que fiquem derrotados e desconcertados meus inimigos,</p><p>retirem-se derrotados depressa.</p><p>1minha respiração está descompassada.</p><p>2. Bibliografia</p><p>H. Duesberg, Le Psautier des malades (Maredsous 1952).</p><p>J. Coppens, Les Ps 6 et 41 dépendent-ils du livre de Jérémie?: HUCA 32</p><p>(1961)217-226.</p><p>174 Salmo 6</p><p>J. Schildenberger, Aus Gottes Zorn in Gottes Gnade, Psalm 6 der erste</p><p>Busspsalm: BiKi 19 (1964) 2-4.</p><p>G. W. Anderson, Enemies and Evildoers in the book o f the Psalms: BJRL</p><p>48 (1965-1966) 18-29.</p><p>J. A. Soggin, Osservazioni filologiche ed esegetiche al Salmo 6, em FS</p><p>Rinaldi (Gênova 1967) 293-302.</p><p>R. Martin-Achard, Laprière des malades dans le Psautier: LuV 86 (1968) 25-43.</p><p>N. Airoldi, Note critche al Salmo 6: RivB 16 (1968) 285-289.</p><p>Th. Struys, Ziekhte en genezing in het OT (Kampen 1968).</p><p>E. M. Blaiklock, The Psalms of the great rebellion (Londres 1970).</p><p>H. Chr. Knuth, Zur Auslegungsgeschichte von Psalm 6 (Tubinga 1971).</p><p>K Heinen, Jahwe heile mich. Klage und Bitte eines Kranken. Ps 6: ErAuf</p><p>48 (1972) 461-466.</p><p>N. Airoldi, La consultazione divina nella malattia in Israele: BiOr 15</p><p>(1973) 163-172.</p><p>E. Achtemeier, Overcoming the World. An exposition ofPs 6: Interpr 28</p><p>(1974) 75-88.</p><p>H. W. M. van Grol, Literair-Stilistische Analyse van Ps 6: Bijdr 40 (1979)</p><p>245-264.</p><p>J. Smit Sibinga, Gedicht en getal. Over de compositie van Ps 6: NTT 42</p><p>(1988) 185-207. ~</p><p>Na bibliografia aparecem alguns títulos genéricos, sobre preces de</p><p>enfermos, e outros específicos sobre o Sl 6. Entre esses se destaca o estudo</p><p>histórico de Knuth (1971). Não faltam estudos filológicos, literários e de</p><p>espiritualidade.</p><p>3. Análise filológica</p><p>2. ’I... w’l: separados do verbo negam a modalidade do advérbio GK 152 h,</p><p>Joüon 160 f.</p><p>3. ’mil: vocalizado com patah. Consideram-no adjetivo: Qim o compara</p><p>com Is 44,20; Del patah por causa do acento em ’ny; Storr infin usado como</p><p>adj; partic sem -m Briggs. Substantivo: forma pu‘lal substantivada; forma</p><p>nominal de tipo qutlal Meyer pár 39,1 e 49,1.</p><p>4. ‘d mty: sem verbo. Expressa emoção intensa Phil; fórmula corrente,</p><p>oito vezes sem verbo Soggin. Razão de estilo, fechando estrofe Achtemeier.</p><p>5. shwbh: cessar na cólera, como Ez 32,12; 2Rs 23,26; Jn 3,9 Gun.</p><p>6. ’yn: constructo separado de seu nome regido: GK 152 o.</p><p>bmwt: a morte concebida como lugar e estado Genebrardus.</p><p>zkrk: memória. Abstrato por concreto Dah. Lêem part LXX Cast Rav Kraus</p><p>my: pergunta retórica, em paralelo com ’yn; compare-se Ex 15,11 com</p><p>Sl 86,8: my kmwk...my kmwk / ’yn kmwk...w’yn kmwk.</p><p>Ik: com daghesh Joüon 18 i.</p><p>Estudo global 175</p><p>7. yg‘ty b’nhty: Gun Kraus consideram-no resto de um verso ou glosa.</p><p>Não convence, metri causa não é razão suficiente.</p><p>’shh: segundo Qim (veja-se também ibn Ezra citado por Ros) ou nadar,</p><p>como em Is 25,11, com Jerônimo natare faciam, ou lavar como a LXX Vg;</p><p>o Targum traduz rhs de Gn 43,31 por shy. Briggs pensa num coortativo de</p><p>syh = queixar-se, anulando assim o paralelismo e a vigorosa imagem.</p><p>Note-se o quádruplo b- com diversa função em 7-8</p><p>8. ‘shshh: Qim o considera equivalente derqbh - consumido (cf.Is 50,9).</p><p>Idéia de obscuridade: Targum hshkt; Jerôn caligauit; Michaelis baseado no</p><p>árabe ‘assa - rondar de noite, e na versão siríaca de ‘sh por obscuridade em</p><p>Jó 5,19; Fischer (citado por Ros) aduz Áquila aukhmothe = seco, sujo.</p><p>‘yny: o rosto, o aspecto,</p><p>estar consciente de que sua experiência se refere ao</p><p>acontecimento futuro preciso? Além de viver na angústia e ser libertado,</p><p>Desde Orígenes até Cassiodoro: panorama 21</p><p>tem Davi que estar consciente de que nele prefigura a angústia e a</p><p>libertação do messias? Se o sentido tipológico deve entrar na intenção do</p><p>autor humano, então sim. Teoricamente bastaria que o conheça o autor</p><p>divino, acima da inconsciência do autor humano. Os Padres não se propõem</p><p>com rigor essa questão, se bem que sua maneira de falar tenda a supor a</p><p>consciência reflexa de Davi.</p><p>Como se vê, a tipologia pode sobrepor-se à profecia, acrescentando a</p><p>mediação histórica do fato.</p><p>d) Interpretação alegórica</p><p>Não é fácil distingui-la da precedente. Para delimitá-la, diria que a</p><p>alegoria move-se no campo dos símbolos literários. De personagens e</p><p>acontecimentos enquanto apresentados e representados num texto.</p><p>A Sião do Sl 87 é símbolo da Igreja; por alegoria, interpreto como dito</p><p>da igreja o que o salmo diz de Sião. O Moisés do Sl 106(105), que se põe como</p><p>mediador para fechar a passagem à cólera divina, é símbolo de Cristo que</p><p>intercede pelos pecadores. Por alegoria, refiro a Cristo o que o salmo diz de</p><p>sua personagem Moisés. A alegoria dos Padres é mais ampla e livre, mais</p><p>literária e poética. Também mais perigosa, quando, abandonando a visão</p><p>global do símbolo, perda-se em minúcias, fragmenta-se em correspondên­</p><p>cias de pormenor. Quando da alegoria válida se decai no discutível ale-</p><p>gorismo. Com razão, escritores modernos e antigos rechaçam o alegorismo,</p><p>que é deformação maximalista da alegoria.</p><p>Em rigor, a interpretação alegórica não nega nem exclui o sentido</p><p>histórico do salmo, costuma, ao contrário, apoiar-se nele. Que a Sião do</p><p>salmo simbolize ou signifique a Igreja não quer dizer que a cidade de Sião</p><p>não existiu ou que o salmo deve aboli-la mentalmente. Dado que a</p><p>explicação dos Padres é muitas vezes homilética ou contemplativa, não se</p><p>pode pedir-lhes sempre precisão neste ponto. Contudo, há casos em que o</p><p>comentador nega toda referência do símbolo literário a uma realidade</p><p>empírica de sua época.</p><p>A interpretação alegórica delata em seus praticantes aguda e culti­</p><p>vada sensibilidade para a linguagem simbólica, nem sempre controlada</p><p>por critérios racionais. O leitor de comentários patrísticos dos salmos deve</p><p>sintonizar-se com essa sensibilidade para a linguagem simbólica, pois</p><p>ocorre que a linguagem simbólica é fator dominante na poesia dos salmos.</p><p>Em nome da objetividade, o comentador deve respeitar o seu objeto, não</p><p>menos quando esse é simbólico. Porém não deve confundir a alegoria aqui</p><p>descrita com a figura retórica do mesmo nome.</p><p>22 História da interpretação</p><p>e) Interpretação prosopológica</p><p>Foi estudada recentemente com singular acerto e brilho por M. Rondeau.</p><p>O princípio básico do método é fácil de entender; suas ramificações são</p><p>difíceis de acompanhar. Se o typos procede das artes plásticas, o prosopon</p><p>provém da dramática e da lírica. Em grego, prosopon pode significar a</p><p>máscara do ator, a personagem representada, a personalidade; para a pessoa</p><p>metafísica, os autores preferem o termo técnico hypostasis. Os latinos</p><p>traduzirampersona, que pode significar a máscara teatral, a personagem, a</p><p>personalidade e também a pessoa metafísica, o que produz ambigüidades</p><p>perigosas. Na linguagem teatral, às vezes usam vox em vez de persona.</p><p>Na obra teatral, o autor introduz (eisagei) em cena (schematizei) a sua</p><p>personagem (prosopon); fá-lo falar ou fala por ele. Um mesmo ator pode</p><p>representar (echein, sustinere) diversos papéis ou personagens, segundo as</p><p>obras representadas; uma personagem teatral pode aparecer em diversos</p><p>papéis, como pai, como marido, como comerciante... Também na poesia</p><p>lírica, o autor pode introduzir uma personagem ou várias, pode fazê-las</p><p>falar ou dialogar, pode introduzir mudanças de locutor na cena. Essa é a</p><p>prosopopoia em sentido amplo, em latimpersonificatio. O autor pode ficar</p><p>fora do texto e pode entrar nele como locutor único ou como interlocutor.</p><p>Como se fosse pouco, os interlocutores podem referir-se a terceiros e falar</p><p>deles, podem citar literalmente palavras alheias, dando-lhes a voz em</p><p>estilo direto ou indireto. Um locutor pode falar em nome de outro ou de</p><p>outros, pode incluir como representante uma comunidade inteira. O locutor</p><p>deve falar de modo coerente com a personagem ou o aspecto representado,</p><p>o ator deve adaptar-se à personagem ou assimilar seus sentimentos.</p><p>A arte dramática e a personificação lírica introduzem uma rede de</p><p>relações e suscitam um repertório de perguntas: quem fala, em nome de</p><p>quem (ek prosopou, ex persona, ex voce), a quem se dirige, de quem fala. Um</p><p>crítico acostumado não confundirá autor com locutor ou personagem.</p><p>Desse .capítulo abreviado de uma poética passemos para a interpreta­</p><p>ção patrística dos salmos e entraremos na ramificada interpretação</p><p>prosopológica, que da exegese pode facilmente acender à teologia. Os</p><p>salmos foram compostos por (hipo) o Espírito Santo como autor principal,</p><p>por meio de (dia) Davi. O salmo introduz um sujeito falante, o eu do poema,</p><p>que fala em nome de, como tal personagem (ek prosopou, ex persona, ex</p><p>voce), segundo tal ou qual aspecto, em nome próprio ou de outros ou</p><p>inclusivo. Ao entrar em jogo a figura transcendente de Cristo, o esquema</p><p>dramático se complica, se é o caso.</p><p>Suponhamos que num salmo Davi fala em própria pessoa: o eu do autor</p><p>identifica-se liricamente com o eu do salmo. Pode falar representando o</p><p>Desde Orígenes até Cassiodoro: panorama 23</p><p>futuro messias, ek prosopou Christou. Suponhamos que o falante, o eu do</p><p>salmo, é Cristo, caso freqüente de acordo com os Padres. Pode falar como</p><p>Deus ou como homem, em nome próprio ou de seus membros, ou incluindo</p><p>a ambos, pode dirigir-se ao Pai ou a outros. Existe algum critério para</p><p>definir locutor ou personagem de um salmo ou de uma secção?</p><p>O grande critério é a coerência (harmazon). Existem nos salmos</p><p>expressões, afetivas ou doutrinais, que somente convêm a Cristo em sua</p><p>natureza divina, outras somente em sua natureza humana, outras somente</p><p>a seus membros pecadores, outras a ele como cabeça incluindo os seus</p><p>membros. Dentro de um salmo pode ocorrer mudança de pessoa falante,</p><p>não só no intercâmbio explícito do diálogo, mas também na continuidade</p><p>poética do próprio eu. Se bem que, de acordo com os Padres, boa parte do</p><p>saltério se pronuncie expersona Christi, esse é um princípio a um só tempo</p><p>de unidade e de variedade. O princípio não é uma niveladora que iguale</p><p>monotonamente a variedade dos salmos e de suas personagens.</p><p>Os antioquenos cultivam um método que designam com o nome técnico</p><p>de theoria. Supõe uma análise psicológica: na mente do autor, à referência</p><p>histórica imediata ou próxima se sobrepõe uma imagem futura semelhante</p><p>e maior do que a primeira. O texto significa em sentido próprio a persona­</p><p>gem ou o acontecimento próximo, significa, ademais, por excesso, kath’</p><p>hyperbolen, o acontecimento futuro. Os casos são contados. Parece-me que</p><p>os antioquenos não aplicam o método à interpretação dos salmos.9</p><p>f) Gêneros de salmos e de comentários</p><p>Os comentadores antigos são conscientes dos tipos diversos que se</p><p>encontram no saltério, especialmente louvor e súplica, narração e consolo.</p><p>Também são conscientes da enorme variedade de sentimentos que se</p><p>expressam e que, logicamente, produzem tipos diversos de orações. O que</p><p>não fizeram foi relacionar sistematicamente afetos e temas com formas</p><p>literárias. Por isso, costumam se contentar com enunciar e enumerar, sem</p><p>fazer do estudo dos gêneros fator de interpretação.</p><p>Também são conscientes de diversos gêneros de comentários. Ao lado</p><p>do comentário do estudioso, bem elaborado de pensamento e redação,</p><p>floresce o comentário homilético, destinado à comunidade cristã. Ora</p><p>comentando ocasionalmente um salmo recitado na liturgia, ora pregando</p><p>em série sobre os salmos. Comparem-se os textos parenéticos de Basílio</p><p>com a elaboradíssima explicação de doze salmos</p><p>por metonímia ou pars pro toto Vatablus</p><p>Rüdinger, Fischer, citados por Ros.</p><p>‘tqh: ser removido, segundo Jó 14,18: Áquila (na prim pess como a LXX</p><p>e Jerôn), M. Sarug citado por Rashi, citado por Ros. Ou equivalente de</p><p>yshn = envelhecer: cf. Trg de Lv 25,22, que traduzyshn por ‘tq, LXX, Rashi.</p><p>bkl çwrry: b- equivalente de b‘bwr Qim Rashi Phil, segundo Gn 18,28;</p><p>2Rs 14,6; Lm 2,11. Lêem çarati, segundo SI 31,10 Gun Kraus.</p><p>10. Duplo qatal e um yiqtol: fato e conseqüência Del; yiqtol, forma</p><p>cananéia do passado Dah; ou alternância estilística corrente.</p><p>Wei suprime o primeiro ybshw w -: Gunkel e Kraus suprimem o</p><p>segundo, como variante deyshbw. Duhm tomays/iòu; como auxiliar GKpár</p><p>120 g.</p><p>rg‘: adverbial.</p><p>4. Estudo global</p><p>a) Gênero</p><p>É uma súplica individual; em concreto, a súplica de um doente em</p><p>estado grave. O gênero impõe frases de petição motivada, descrição do</p><p>sofrimento e do perigo, expressão de confiança. Esperar-se-ia que o as­</p><p>sunto se resolvesse entre o orante e Deus; ríão obstante, é freqüente no</p><p>gênero, quase tópica, a referência aos inimigos. Na experiência do orante</p><p>entram: a enfermidade com seus sofrimentos, a angústia interior e o</p><p>temor da morte, a consciência de uma hostilidade perversa, a consciência</p><p>do pecado. As relações entre esses fatores nos permitirão refletir sobre o</p><p>salmo.</p><p>Uma classificação tradicional colocou esse salmo entre os sete salmos</p><p>penitenciais: 6 32 38 51 102 130 143. A razão é temática (Childenberger).</p><p>176 Salmo 6</p><p>A estrutura de superfície é bastante clara e simples. Começam cinco</p><p>versículos de petição, com breve cesura depois do terceiro (w . 2-4.5-6);</p><p>seguem dois versículos em que o orante descreve suas tribulações, e outros</p><p>três referidos aos inimigos 7-8.9-11. Isso nos oferece uma disposição estrófica</p><p>do tipo 3 2 2 3. Domina o poema a regularidade dos paralelismos, com algu­</p><p>mas quebras expressivas e algumas repetições a contrapelo do ritmo binário.</p><p>No v. 2 o paralelismo é rigoroso, salvo o vocativo inicial: a b c / b c. No</p><p>v. 3 é ainda mais rigoroso: imperativo-vocativo -ki motivação, a b c / a b c.</p><p>No v. 4 afrouxa-se a correspondência dos conteúdos, mas se marca o</p><p>contraste napshi ’atta: abc / a d e. O v. 5 rompe a regularidade ao desdobrar</p><p>o primeiro hemistíquio em dois imperativos, e o segundo hemistíquio em</p><p>imperativo e motivação: a b / a c / a d . O v. 6 restabelece o paralelismo</p><p>temático, ainda que variando as funções sintáticas: a ’y n corresponde my,</p><p>ao substantivo zkr o verbo yw dw a b c / b a c. Os w . 7-8 formam uma</p><p>enumeração de cinco peças, cuja simetria provém das ações e suas causas,</p><p>a assimetria do hemistíquio inicial e do hemistíquio final; sua forma vem</p><p>a ser: a b / a f c / b c a / a b c / a g . Nos w . 9-10 domina a assimetria, pois a</p><p>um imperativo segue a motivação em três peças regulares, segundo o</p><p>esquema l : m n / b a c / b a c / a c b . O último versículo apresenta um</p><p>paralelismo temático com uma repartição desigual de peças. No movimento</p><p>rítmico, o poema é bastante regular, se bem que dê lugar a várias infrações.</p><p>O versículo final ata os cabos: do v. 4 recolhe nbhl torcendo sua direção,</p><p>do v. 5 recolhe shwb com mudança de sentido; o rg’ = “ao instante” se opõe</p><p>ao “até quando?” do v. 4. Repetir em dez versículos oito vezes o nome de</p><p>yh w h é proporção abundante. No conjunto, é um poema de boa lavra, denso,</p><p>notável pela força descritiva e expressiva.</p><p>c) Elem entos e relações</p><p>A análise precedente pode resultar extrínseca e formalista, se não</p><p>penetrarmos na estrutura interna, o sistema de relações. (Quase no início</p><p>de meu comentário, no Sl 6, cedi a este exercício de análise, como exemplo</p><p>para outros casos em que explicarei apenas momentos mais significativos).</p><p>Apontei três componentes: dor física, pena interior, inimigos, que</p><p>correspondem ao ser corpóreo, à consciência interior e à condição social do</p><p>homem. Rodeado de hostilidade, encerrado em sua dor, penetrado pela</p><p>angústia, só encontra saída em direção ao Senhor, invocando (oito vezes) e</p><p>suplicando (sete imperativos dirigidos a Deus). A esses fatores se acrescen­</p><p>tam outros dois: morte e pecado. A morte está explícita no v. 6, o pecado está</p><p>implícito no v. 2.</p><p>b) Disposição</p><p>Estudo global 177</p><p>— Quem são os inimigos? São externos ou internos? A petição final e</p><p>o qualificativo “malfeitores” parecem apontar para personagens externas;</p><p>mas poderia ser linguagem metafórica, que engloba tudo o que o orante</p><p>experimenta como hostil, dentro e fora de si.</p><p>Já passou a teoria e discussão sobre os p ‘ly-’wn, supostamente identifica­</p><p>dos como o grêmio dos feiticeiros malignos. A conjetura apoiava-se em</p><p>abundantes exemplos de orações e conjuros acádicos, e a defendeu tenaz­</p><p>mente S. Mowinckel no seu monumental Psalmenstudien I (Oslo, 1921).</p><p>Exemplos acádicos se podem encontrar em M. J. Seux, Hymnes et prières aux</p><p>dieux deBabylonie et d’Assyrie, Paris, 1976. Veja-se também o estudo citado</p><p>de Anderson.</p><p>Sobre os inimigos do enfermo podemos fazer duas observações comple­</p><p>mentares: os rivais se aproveitam da enfermidade e debilidade do pacien­</p><p>te, o paciente se torna mais sensível à hostilidade e rivalidade conhecida.</p><p>— Dor e morte. Dor e enfermidade são adiantamentos da morte.</p><p>Inimigos do corpo e instalados nele. Instalados, de mais a mais, na</p><p>consciência. O animal na sua dor não é consciente da ameaça de morte,</p><p>ainda que aja por instinto; mas o homem o é. A morte se adianta na</p><p>consciência, toma posse dela: na presença invencível da enfermidade, no</p><p>cerco triunfante dos inimigos. E assim se aprofunda e se intensifica a dor: dor</p><p>e enfermidade penhores da morte. E como se a morte intimasse ao enfermo:</p><p>sou tua senhora suprema, final, e aqui estou diante de ti, perto de ti.</p><p>A recordação da morte no v. 6 desata a descrição da dor, física e</p><p>espiritual. Assistimos nos w . 7-8 a um esforço de descrição e introspecção,</p><p>a um esforço de linguagem realista ou hiperbólica. Juntando os w . 3b e 4a</p><p>a 7-8 obtemos: desconcerto de ossos e alento, gemido que fatiga, pranto que</p><p>esgota. A respiração é vida que se consome, as lágrimas desafogam e</p><p>consomem os olhos.</p><p>— Dor epecado. O orante está também consciente de uma relação entre</p><p>enfermidade e culpa. Na dor manifesta-se à consciência o pecado como causa,</p><p>e essa relação pode-se conceber de dois modos: como imanente, ou seja, como</p><p>conseqüência lógica de uma ação; como transcendente, ou seja, intimada e</p><p>aplicada por uma instância superior. No salmo é Deus quem inflige a pena.</p><p>Mas entra o fator tempo: “até quando?”, capaz de diferir o desenlace. A</p><p>enfermidade não é incurável, pelo que pode ter conseqüências favoráveis,</p><p>físicas ou espirituais. O salmo fala do segundo: da enfermidade como aviso e</p><p>escarmento, como castigo saudável. “Saudável” diz saúde, salvação.</p><p>Por essa relação, entra no salmo a linguagem sapiencial do repreender</p><p>e corrigir. Ambos os termos podem ser judiciais, referidos a uma justiça</p><p>social e objetiva, prescindindo e mesmo sacrificando o bem do culpado.</p><p>178 Salmo 6</p><p>Podem ser termos educacionais, buscando o bem do culpado. O orante</p><p>interpreta sua dor e enfermidade em relação com Deus, nela descobre a</p><p>Deus, e se compreende a si mesmo. Assim como a dor nos descobre e avisa</p><p>de uma perturbação orgânica, assim também a enfermidade pode descobrir</p><p>um estado de culpa.</p><p>— Súplica. Uma vez que a visão das relações aflorou à consciência e se</p><p>assegurou, o orante passa à súplica, tepilla. Para doença, cura rp’: para</p><p>culpa, graça thnh; contra inimigos, derrota bwsh.</p><p>Como o sofrimento pode provocar uma conversão do paciente (implíci­</p><p>ta no salmo), a prece quer provocar uma conversão do Senhor, explícita no</p><p>shwba do v. 5: conversão da ira em misericórdia, ’ap/hesed; da cólera em</p><p>piedade, hemma/hanan; da correção e do castigo em libertação e salvação,</p><p>hwkyh + ysr / hlç + hwshy‘. O motivo supremo que fundamenta a súplica</p><p>é a misericórdia ou lealdade, Irrín hsdk (v. 5b). O orante esgrime também</p><p>como argumento o vazio cúltico da morte, como se fosse Deus quem mais</p><p>por Ambrósio, ou as duas</p><p>etapas de Agostinho. Na Antiguidade, era comum o uso da taquigrafia.</p><p>9Pode ver-se uma exposição resumida de alguns pontos precedentes, com bibliografia, em Comentários</p><p>a ia Dei Verbum (BAC 284). “El Antiguo Testamento incorporado al Nuevo”, pp. 532-575.</p><p>24 História da interpretação</p><p>Alguns dos comentários que conservamos, dir-se-ia que são homilias</p><p>pregadas e logo revistas pelo autor quanto a estilo e erudição. Num caso,</p><p>Dídimo, o Cego, conservaram-se as notas de um aluno feitas de exposição</p><p>escolar. Outra variante é o comentário proposto pelo abade ou por mestre</p><p>à comunidade de monges. Essa variedade de gêneros atesta a vitalidade dos</p><p>salmos nas comunidades cristãs antigas.</p><p>No comentário de estudo distinguem às vezes entre o método analí­</p><p>tico (katamerike), que examina o texto versículo por versículo e palavra</p><p>por palavra, e o sintético (epoptike), que busca captar a unidade do salmo</p><p>estudado. E a distinção formulada mais tarde por Proclo (412-485). Às</p><p>vezes se combinam as duas fórmulas, adiantando-se um resumo do</p><p>argumento (hypothesis) antes de analisar cada versículo ou alguns esco­</p><p>lhidos por motivos diversos.</p><p>g) Execução</p><p>Finalmente, os Padres dão atenção à execução do salmo sob aspecto</p><p>material e espiritual. Ambos constituem parte da que Betti chama inter­</p><p>pretação reprodutiva, que é, por exemplo, a do pianista com sua partitura.</p><p>A prática precede à teoria, e às vezes a polêmica ou a controvérsia obrigam</p><p>a esclarecer posições e a aprofundar no problema.</p><p>No terreno da execução material, colocam-se a recitação e o canto.</p><p>Aproveito esse momento para introduzir uma referência sumária ao tema</p><p>do canto, ainda que antecipando dados posteriores. Por um lado, os</p><p>pastores, na prática e na teoria, apreciam a importância do canto como</p><p>forma natural de execução, de apropriação do salmo. Cantando expressam-</p><p>se os sentimentos melhor do que falando; por isso, disse Agostinho: “Qui</p><p>bene cantat bis orat”. O canto unifica sentimento e expressão, manifesta e</p><p>fomenta a harmonia no homem, corpo e espírito, sentidos e emoções. Se é</p><p>coral, o canto unifica em uma melodia a comunidade, convertendo-a em</p><p>instrumento bem afinado. A música pode inclusive simbolizar a harmonia</p><p>do universo e interiorizar e fazer pregustar o gozo celeste. Resta decidir</p><p>como cantar os salmos: em forma simples e plana (planus) ou com ornamen­</p><p>tação, em linguagem técnica “melismática”; com uma fórmula melódica</p><p>para todos os versículos ou variando, com instrumentos ou a capella,</p><p>alternando, jogando um solo com o coro.</p><p>Na liturgia da palavra da igreja latina passou-se do salmo responsorial,</p><p>ainda conhecido por Agostinho, ao “gradual”, que privilegia a música e</p><p>reduz o texto a dois ou três versículos.</p><p>Dois dados emergem da antiga controvérsia. Primeiro, a preferência</p><p>por melodias simples, sem ornamentos; segundo, a oposição ao acompanha­</p><p>Desde Orígenes até Cassiodoro: autores 25</p><p>mento instrumental. As duas podem surpreender a nós que vivemos</p><p>acostumados com riquíssima tradição musical. O texto dos salmos é com</p><p>freqüência complexo, com mudança de vozes e sentimentos: acaso não os</p><p>expressará melhor uma melodia variada e rica de matizes? E, quanto aos</p><p>instrumentos, aí está a série do salmo 150, tutti final que recolhe tantas</p><p>indicações explícitas.</p><p>Também agora me contento com indicar um tema que sai dos limites</p><p>previstos. Seria interessante uma história da interpretação musical dos</p><p>salmos. Desde os octo toni gregorianos (com o tonus peregrinus), à complexi­</p><p>dade dos mestres do contraponto, até à Sinfonia dos Salmos de Strawinsky,</p><p>sem desdenhar as composições austeras de Gelineau ou as melodias popula­</p><p>res que pulularam nos últimos decênios. Também a música é uma forma de</p><p>interpretação dos salmos.10</p><p>Na vertente espiritual, a execução é o que hoje chamamos de apro­</p><p>priação. O cristão que recita os salmos deve fazer seus os sentimentos</p><p>expressos e as palavras do texto, respeitando a prosopologia, harmonizando</p><p>os lábios com o coração e o homem todo com o texto inspirado. A teoria ou</p><p>doutrina é exposta pelos Padres de passagem; o princípio informa vitalmente</p><p>toda a pregação sobre os salmos, e, indiretamente, todo o seu estudo. Pois o</p><p>destino inato dos salmos não é ser estudados ou escutados, mas ser recitados.</p><p>Tendo presente esse mapeamento simplificado de questões, prin­</p><p>cípios, métodos e tendências, podemos seguir agora a história dos</p><p>comentadores sem nos perdermos; ou seja, pondo cada peça em seu lugar</p><p>espiritual.</p><p>5. Desde Orígenes até Cassiodoro: autores</p><p>a) Gregos</p><p>Orígenes (cerca de 185-254). Devemos começar com o genial</p><p>comentador da Escritura, pois, segundo o testemunho de Jerônimo,</p><p>Orígenes foi o primeiro que comentou todos os salmos. Ele o fez de três</p><p>formas: em escólios ou notas breves, em homilias pregadas em Alexandria</p><p>(222-225) e Cesaréia (239-242), nos tomoi ou volumes ou comentários</p><p>compostos cerca de 239-242. De tão ingente trabalho é pouco o que se</p><p>conserva: nove homilias de cunho mais moralizante, traduzidas para o</p><p>latim por Rufino (345-410), setenta e quatro homilias traduzidas e às</p><p>10Para a Antiguidade podem-se consultar duas obras fundamentais: J. Quasten, Musik und Gesang</p><p>in den Kulten der heidnischen Antike und christlichen Frühzeit (1930, 1973; J. McKinnon, Music in</p><p>Early Christian Literature, Cambridge, 1987.</p><p>26 História da interpretação</p><p>vezes adaptadas por Jerônimo, que se conhecem como Tractatus in</p><p>Psalmos de Jerônimo. Acrescentam-se fragmentos correspondentes a</p><p>vinte e sete salmos, conservados em diversas cadeias. (A cadeia é gênero</p><p>exegético secundário que de cada versículo colige, à maneira de elos,</p><p>comentários em série dos Padres). O magistério de Orígenes foi reconhe­</p><p>cido por todos, sua influência foi sem par. Dir-se-ia que seu destino foi</p><p>morrer na terra como semente para multiplicar o seu fruto por todas as</p><p>partes. Bom destino para quem teve tão intensa a preocupação espiritual</p><p>e pastoral.</p><p>Orígenes depende de Filon em seu método alegórico, de gramáticos,</p><p>como Teon e o pseudo-Plutarco, para a prosopologia. Com mudanças</p><p>importantes. A alegoria de Filon interpreta fatos de um texto bíblico como</p><p>símbolo de idéias; Orígenes interpreta fato do texto do AT como símbolos</p><p>de fatos do NT, de Cristo e sua Igreja. Também a teoria dos gramáticos</p><p>sobre as personagens de uma narrativa (por exemplo, Homero), do teatro</p><p>e da personificação lírica servem a Orígenes para encontrar nos salmos a</p><p>pessoa de Cristo como falante, como interlocutor, como representante, em</p><p>seu aspecto humano ou divino. Cita o Cântico dos cânticos como exemplo</p><p>de forma dramática, mas também encontra o uso de várias personagens na</p><p>carta aos Romanos. Sem negar a primazia e centralidade de Cristo, sabe</p><p>identificar diversas personagens no falante, o eu do salmo:</p><p>“Vemos que nos salmos Deus se comove e diz” (Hom. in Num. 7, GCS 30,37).</p><p>“O Profeta diz em nome (ek prosopou) de Deus” (In Rom 9,1: PG 14,1207).</p><p>“O Profeta tinha pregado em nome (ek prosopou) de Jesus: Minha carne</p><p>repousa com esperança” (Sl 15(16), 10: CGS 2,184).</p><p>“A igreja de Cristo tinha dito por meio do Profeta” (CGS 29,43).</p><p>“O salmo 5 se diz em nome (ex persona) da igreja” (CCSL 78,48).</p><p>“Davi fala em nome (expersona) do pecador arrependido” (Sl 37(38),6: CGS</p><p>29,102).</p><p>Orígenes procura também identificar a pessoa a quem se dirige o</p><p>falante. Assim, no Sl 2 Deus fala ao Filho e o Filho convida o Pai ou o Espírito</p><p>Santo (CCSL 78,179). Orígenes pode superpor a perspectiva cristológica à</p><p>histórica: sendo Davi figura de Cristo, inclusive consciente, pode falar em</p><p>nome de e como representante de Cristo. Alternando ou conjugando as duas</p><p>perspectivas, Orígenes pode pôr a exegese a serviço da teologia. Se os salmos</p><p>se pronunciam ex persona Christi, revelam seu mistério: sua divindade e sua</p><p>humanidade, sua alma e psicologia: também sua missão de salvador solidá­</p><p>rio dos homens. Se bem que não de modo sistemático, Orígenes extrai dos</p><p>salmos materiais para uma cristologia, soteriologia</p><p>e eclesiologia.</p><p>Não esqueçamos que, com seus Hexapla, o alexandrino contribuiu</p><p>decisivamente para a crítica do texto bíblico e influiu em traduções</p><p>Desde Orígenes até Cassiodoro: autores 27</p><p>posteriores. Podemos concluir que nas mãos de Orígenes a exegese sistemá­</p><p>tica dos salmos nasce adulta.</p><p>Eusébio de Cesaréia (cerca de 265, f 339). Compôs um comentário</p><p>completo ao saltério, do qual se conserva o correspondente ao Sl 51-95,3 (52­</p><p>96,3). Antes da explicação propõe o argumento (hypothesis). Em suas</p><p>Eclogse propheticas comenta às vezes versículos soltos de salmos. Sua</p><p>tendência a chamaríamos hoje filológica e cristológica. Para o texto se vale</p><p>dos Hexapla de Orígenes; para a inserção histórica de cada salmo busca</p><p>circunstâncias coerentes nos livros de Samuel e Reis. Além disso lê em</p><p>alguns salmos profecias da conversão dos pagãos e da vida da Igreja.</p><p>Preocupa-se por identificar o gênero de cada salmo e colige, com amor de</p><p>antiquário, qualquer dado ou referência histórica. Em sua Demonstratio</p><p>evangelica, cita textos de salmos como profecias do NT. A influência de</p><p>Eusébio foi muito grande.</p><p>Atanásio (cerca de 295, t 373). Embora o seu comentário seja menos</p><p>importante, sua carta a Marcelino exige que nos detenhamos nele. O seu</p><p>comentário adota a forma de “argumento” e glosas breves. Sua interpretação</p><p>é larga: por meio da experiência humana de Davi e de outros, os salmos falam</p><p>de Cristo, da Igreja, dos homens em geral. Neste ponto, introduz um conceito</p><p>novo: ek prosopou anthropotetos = em nome da humanidade. Humanidade é</p><p>coletividade ou conceito abstrato que, para falar, necessita de uma personi­</p><p>ficação, o eu dos salmos, Cristo, assumindo inteira a experiência humana</p><p><exceto o pecado), pode emprestar sua voz à humanidade nas palavras dos</p><p>salmos.</p><p>A carta a Marcelino era destinada, pelo que parece, à vida monástica,</p><p>à piedade e à contemplação. Destaco alguns de seus ensinamentos, já</p><p>maduros no séc. IV.</p><p>2. O livro dos salmos supera a todos os outros porque resume o de todos</p><p>e cantando acrescenta o seu próprio. Por exemplo, Gn no Sl 18(19) e 23(24);</p><p>Ex Nm Dt no Sl 77; 113; 104-105 (78; 114; 105-106); o santuário no Sl</p><p>28(29); Js no Sl 106(107); Reis em 19(20); profecias da vinda de Cristo em</p><p>44 e 86 (45; 87); sua humanidade em 2 e 21(22); sua ascensão em 23(24),</p><p>etc.</p><p>1 0 .0 próprio deste livro: “contém escritos e modelados (diagegrammenas</p><p>kai diatetypomenas) os afetos de cada alma, suas mudanças e emendas; de</p><p>modo que, se alguém quiser tomar e entender deles [como imagem] o que</p><p>quer que seja, para assim se modelar, aí o encontra escrito”. Outros escritos</p><p>expõem a lei, anunciam o messias; esse descreve os movimentos da alma.</p><p>Nesse livro o leitor encontra o modelo das palavras (eikona ton logon)...</p><p>Ensina-nos as palavras do arrependimento, da paciência, da esperança, da</p><p>ação de graças; que dizer na fuga, na perseguição, na libertação; como louvar</p><p>e bendizer. (Está esboçado o tema dos gêneros e da apropriação de sentimen­</p><p>tos e linguagem).</p><p>28 História da interpretação</p><p>11.Em outros livros, o leitor ou ouvinte se distingue e se distancia das</p><p>personagens; nesse pode acontecer o mesmo; porém muitas vezes o leitor ou</p><p>ouvinte se encontra dentro, é a personagem, são suas as palavras que</p><p>pronuncia (hos idious ontas logous anaginoskei).</p><p>13.0 qual é dom de Cristo, que tomou nossa condição humana. Antes de</p><p>habitar entre nós, expressa nos salmos essa condição humana, e também a</p><p>divina, para exemplo do homem.</p><p>14.Toda a Escritura é mestra de virtude e fé. Os salmos apresentam</p><p>modelo de vida espiritual (eikona pos tes diagoges tonpsykhon). Diversifica­</p><p>vam-se em vários gêneros: narração, súplica, colóquio, ação de graças,</p><p>confissão, confissão com narração, com louvor, admonição, profecia, exorta­</p><p>ção, cântico, descrição da virtude... bem-aventurança, demonstração, exor­</p><p>tação ao valor, reprovação, invocação, acusação, gloriar-se em Deus, hi­</p><p>no, canto de júbilo. Em 15-26 aparecem diversas circunstâncias da vida</p><p>espiritual.</p><p>27,Por que se cantam? Não bastam o gosto e o prazer. Exige-o a honra de</p><p>Deus; para expressar a harmonia da alma. Que o homem seja como</p><p>instrumento musical bem afinado a serviço de Deus. A recitação melódica</p><p>dos salmos é imagem e modelo de alma serena e tranqüila (ataraxias kai</p><p>ahymonos).</p><p>Serapião de Tmuis (f depois de 362). Segundo o testemunho de</p><p>Jerônimo. Não se conserva nada.</p><p>Apolinário de Laodicéia (f cerca de 390). Conservam-se fragmentos</p><p>nas cadeias. Representa um comentário científico com curiosidade</p><p>cosmológica e antropológica.</p><p>Basílio (330-379). Conservam-se quinze homilias sobre salmos em</p><p>estilo parenético.</p><p>Astério, o Sofista (ativo até 337-341). Conservam-se cerca de trinta</p><p>homilias sobre os salmos 1-18.</p><p>Teodoro de Heracléia (bispo na Trácia 335-355). Segundo o testemu­</p><p>nho de Jerônimo. Não se conserva nada.</p><p>Gregório deNissa (f 394). Compôs um comentário muito original. Nas</p><p>palavras de Rondeau, Gregório busca “descobrir a estrutura do discurso</p><p>que corresponde a uma estrutura da vida espiritual inscrita numa metafísica</p><p>coerente. Quer estudar centificamente a unidade do livro e de cada salmo</p><p>em função de sua finalidade. O ponto de vista é a ascética e a mística; o</p><p>método é o estudo unitário, mais lógico do que filológico (Orígenes) ou</p><p>histórico (Eusébio).</p><p>Dídimo, o Cego (cerca de 313-389). Os seus comentários se conservam</p><p>parcialmente em cadeias e talvez em notas de um aluno. Pratica exegese</p><p>minuciosa, dedicando bastante espaço à lexicografia, na linha de Orígenes.</p><p>Se seus pensamentos filosóficos são platonizantes, seu instrumental</p><p>crítico é aristotélico. O destino de seu comentário é a vida espiritual do</p><p>cristão.</p><p>Desde Orígenes até Cassiodoro: autores 29</p><p>Os dois antioquenos, Diodoro de Tarso (f 394) e seu discípulo Teodoro</p><p>de Mopsuéstia (t 428) representam a reação crítica ao modo comum de</p><p>interpretar os salmos. De Diodoro se conserva o comentário aos salmos 1­</p><p>50; de Teodoro, bastante material em cadeias. No histórico: rejeitam os</p><p>títulos históricos tradicionais e os substituem por outros da história do povo</p><p>judeu. Admitem quatro salmos como profecia de Cristo em sentido literal;</p><p>2. 8, 22(21), 109(110). As outras citações de salmos no NT são adaptação,</p><p>acomodações do sentido original à nova circunstância. Admitem outra série</p><p>de profecias davídicas, todas referentes a fatos da velha economia. Neles,</p><p>Davi desempenha o papel (ek prosopou) de alguma personagem futura,</p><p>como Ezequias no salmo 26(27) e Jeremias em 34(35). O autor, Davi, cria</p><p>os discursos que põe nos lábios de suas personagens como convém a seu</p><p>caráter. A influência dos dois antioquenos estendeu-se sobretudo à igreja</p><p>síria e oriental. Seu minimalismo teológico foi condenado.</p><p>Evágrio Pôntico (346-399). Os seus comentários se conservam em</p><p>cadeias. Têm a forma de escólios e são obra de um monge para monges;</p><p>portanto, a tendência é ascética e mística. Embora siga Orígenes e Dídimo,</p><p>é original no pensamento e elaboração na dicção, às vezes aforístico, às</p><p>vezes silogístico.</p><p>João Crisóstomo (345-407). Conservam-se do grande pregador 58</p><p>comentários que chama hermenesiai. Parecem tratados, mas poderiam ser</p><p>sermões revistos para a publicação.</p><p>Cirilo de Alexandria (t 444). Pelo pouco seguro que conservamos,</p><p>estimamos um comentário mais erudito, com intenção teológica.</p><p>Teodoreto de Ciro (f cerca de 466). Um dos mais importantes e da mais</p><p>larga influência entre os Padres gregos. Sua grande personalidade parece</p><p>consistir num conjunto de qualidades das quais nenhuma é por si só</p><p>chamativa. E antioqueno e como tal conserva o interesse pelo sentido</p><p>literal, pelo trabalho filológico refinado. Como domina o grego e talvez</p><p>conheça o hebraico, pode controlar o original. Dos alexandrinos quer evitar</p><p>o alegorismo e a abundante alegoria; de seus antecessores antioquenos</p><p>quer corrigir o minimalismo, que lhe parece, como a outros, judaizante;</p><p>segue assim uma linha média muito aceitável. Homem de vasta cultura e</p><p>erudição, aproveita-a sem</p><p>alardes e escreve em estilo breve e claro. Em seus</p><p>comentários retorna o sentido cristão de não poucos salmos, como, por</p><p>exemplo, 15(16), 21(22), 39(40), 108(109); neles reconhece o eu de Cristo.</p><p>Em outros casos, aceita com moderação a tipologia. De todos os Padres</p><p>gregos, Teodoreto é talvez o mais acessível a nós.</p><p>Hesíquio de Jerusalém ff depois de 450). O seu comentário é dedicado</p><p>aos seus monges. O seu estilo é de glosas e de paráfrases seguida, à maneira</p><p>de targum. Em Jerusalém um monge fecha uma época. Atrás virá o</p><p>professor de retórica Procópio de Gaza (cerca de 460-530), que inventa as</p><p>cadeias, seirai ou eklogai. O estudo criativo cessa, e a tradição se salva.</p><p>b) Latinos</p><p>Os Padres latinos oferecem-nos colheita mais modesta. Deixemos os</p><p>que comentam um ou outro salmo em suas homilias ou tratados, como</p><p>Zenão de Verona, Prisciliano, Gregório de Elvira, Cromácio de Aquiléia,</p><p>Máximo de Turim, Pedro Crisólogo. Basta breve alusão aos ressonadores,</p><p>como Eusébio de Verceilas, que traduz, expurgando-o, o comentário de</p><p>Eusébio de Cesaréia; a Ambrósio, que comenta em chave alegórica e</p><p>moral 12 salmos; a Próspero de Aquitânia, que resume Agostinho.</p><p>Restam-nos sete que podem interessar por méritos diversos.</p><p>Hilário (cerca de 315-367). Do seu tratado, que provavelmente era</p><p>completo, conserva-se o comentário a 58 salmos. Parece redação elabora­</p><p>da de sermões pregados. Segue Orígenes com personalidade própria. É</p><p>preciso ler a ampla introdução ao salmo primeiro, em que expõe clara e</p><p>lucidamente os seus princípios:</p><p>“Para entender um salmo, é preciso saber quem fala e a quem”. A pessoa</p><p>que fala pode ser o Pai, de ordinário Cristo. Também é preciso saber “de quem</p><p>se fala”. E embora toda profecia se refira de algum modo a Cristo, “é preciso</p><p>discernir cientificamente quando se refere diretamente a ele”. O critério</p><p>principal é a coerência.</p><p>Jerônimo (347-419) interessa-nos como eco e conservador de Orígenes.</p><p>Segue-o e seleciona em seus Commentarioli, setenta páginas de notas</p><p>concisas e essenciais; traduze-o sem dizê-lo, com algumas incursões pes­</p><p>soais, nos Tractatus (cerca de 400). Se cala nome de Orígenes, deve-se</p><p>talvez à crise origeniana do momento. Mais permanente é o trabalho de</p><p>Jerônimo como tradutor de salmos. Em 384 corrigiu segundo o grego uma</p><p>versão latina em uso; entre 389 e 392 revisa-a segundo os Hexapla: é a</p><p>versão chamada galicana; em 392-393 traduz diretamente do hebraico,</p><p>“iuxta hebraicam veritatem”.11</p><p>Citamos Nicetas de Remesiana (f depois de 414) simplesmente pelo</p><p>seu pequeno tratado De utilitate hymnorum, em que justifica o uso litúrgico</p><p>dos salmos. Em fins do séc. IV estava se formalizando esse uso.</p><p>Juliano de Eclana (418-454) é a única presença antioquena no ociden­</p><p>te, pois adapta segundo suas teorias o comentário de Teodoro de Mopsuéstia.</p><p>Limita a profecia à história judaica e pratica uma exegese literalista.</p><p>30 História da interpretação</p><p>1 'Discute o último C. Estin, Les psautiers de Jerôme à la lumière des traductions juives antérieures, Roma,</p><p>Desde Orígenes até Cassiodoro: autores 31</p><p>O maior dos latinos é Agostinho (354-430). Dos salmos 1-32 nos deixou</p><p>notas que prolongam a tradição precedente. A partir do 33 desdobra o seu</p><p>génio teológico e literário. As suas Enarrationes in Psalmos são uma de</p><p>suas obras exegéticas capitais, talvez o maior comentário escrito sobre os</p><p>salmos. Não pratica exegese filológica, como a de Teodoreto; pratica, ao</p><p>invés, leitura em profundidade e unidade. Dir-se-ia que o comentador se</p><p>submerge numa profundidade de experiência religiosa, de compreensão do</p><p>mistério, da qual o texto é superfície mínima de entrada. Nessa profundi­</p><p>dade, encontra correntes e relações novas, iluminações surpreendentes;</p><p>delas surge com suas descobertas. A unidade ele a encontra na profundida­</p><p>de. Por isso, pode ocorrer que o melhor sobre um versículo de um salmo se</p><p>leia a propósito de outro. Sua maneira de relacionar textos bíblicos pode ser</p><p>discutível em termos filológicos, muitas vezes é certeira e quase sempre</p><p>sugestiva, e às vezes apenas engenhosa. Tudo isso expresso em sua</p><p>admirável prosa latina, de frase breve e límpida, de progresso rigoroso e</p><p>lúcido, de entusiasmo ou afeto entre lírico e retórico. Perdoamos-lhe sua</p><p>complacência ocasional em jogos de palavras; suas escapatórias do tema</p><p>valem a pena. Quem tiver lido atentamente as Enarrationes terá adquirido</p><p>compreensão global e vital dos salmos que depois poderá afinar e precisar</p><p>com outros instrumentos filológicos.</p><p>Rondeau indica três contribuições importantes de Agostinho. Uma</p><p>teológica, a visão do Cristo total, corpo e membros, esposo e esposa, assimi­</p><p>lado aos seus e assimilando-se a eles. Do anterior nasce novo repertório de</p><p>textos do NT relacionados com o saltério: a imagem do corpo, a imagem</p><p>conjugal, a identificação de Paulo com Cristo. De ordem pastoral é a pratica</p><p>de dirigir-se ao povo.</p><p>Cito de passagem Arnóbio, o Jovem (t depois de 455), que segue</p><p>Agostinho, refutando sua teoria da predestinação. E passo ao último,</p><p>chamado o executor testamentário da antiguidade.</p><p>Cassiodoro (485-583). Recolhe elementos tradicionais, especialmente</p><p>de Agostinho, com intenção escolar. Aporta seus conhecimentos de ciências</p><p>profanas, especialmente da retórica. E encerra uma época.</p><p>Dos Padres sírios comentaram os salmos Efrém (t 372) e, já na Idade</p><p>Média, Ishodad (ativo até 850) e Gregório Bar-hebreu (1222-1286).</p><p>Deste exame, creio que terá surgido a riqueza e a variedade da exegese</p><p>patrística dos salmos: o,amplo repertório de questões certeiramente assi­</p><p>naladas e tratadas com rigor, o manejo consciente de métodos de interpre­</p><p>tação, a visão de história, profecia e figura, a união de filologia e teologia,</p><p>o estudo enformado pela piedade e dirigido à vida cristã, a sensibilidade</p><p>desperta para a linguagem simbólica. Desconhecê-los e romper com eles</p><p>parece-me empobrecimento; desprezá-los com superioridade soa arrogân-</p><p>32 História da interpretação</p><p>cia; cobri-los todos juntos com a cobertura de “alegorismo”, como quem</p><p>esconde o lixo debaixo do tapete, não é prova de discernimento.12</p><p>6. Desde Cassiodoro até Nicolau de Lira</p><p>Estamos acostumados a dividir como época histórica a Idade Média. Para</p><p>a história da interpretação dos salmos não me serve a etiqueta ordinária,</p><p>porque pela metade do séc. XIV começa uma revolução exegética. Cassiodoro</p><p>encerra como executor testamentário a antiguidade. O franciscano Nicolau</p><p>de Lira introduz e aclimata entre os cristãos um novo modo de comentar.</p><p>Dentro da etapa é preciso distinguir a época monástica e a escolástica.</p><p>Começo propondo uma lista aproximadamente cronológica:</p><p>Fócio (séc. VI)</p><p>Columbano (f cerca de 615)</p><p>Beda (674-735)</p><p>Ambrósio Autperto (f 778)</p><p>Alcuíno (730-804)</p><p>Walfrido Estrabão (séc. IX)</p><p>Haimo de Halberstadt (f 853)</p><p>Pascásio Radberto (cerca f 859)</p><p>Remígio de Auxerre (f cerca de 908)</p><p>Bruno de Vurzburgo (f 1045)</p><p>Bruno Cartuxo (1030-1101)</p><p>Bruno de Asti (cerca de 1045, f 1129)</p><p>Ruperto de Deutz (t 1130)</p><p>Pedro Lombardo (f 1150)</p><p>Ruperto de Deutz (f 1130)</p><p>Pedro Lombardo (f 1150)</p><p>Gilberto Porretano (f 1154)</p><p>Gerho(1093-1179)</p><p>Eutímio Zigabeno (sees. XI-XII)</p><p>Ricardo de S. Vítor (f 1173)</p><p>Michael Meldensis (f 1199)</p><p>Alexandre de Hales (cerca de 1185­</p><p>1245)</p><p>Hugo de São Caro (f 1263)</p><p>Alberto Magno (cerca de 1200, f 1280)</p><p>Tomás de Aquino (1225-1274)</p><p>Ricardo de Hampoole (f 1349)</p><p>Pedro de Harental (f 1390)</p><p>a) Lectio monastica</p><p>A partir de Cassiodoro, a corrente tradicional se transmite em cadeias,</p><p>na cópia de manuscritos, na vida litúrgica e contemplativa dos cristãos. Da</p><p>corrente emergem alguns autores com nome próprio. Fixo-me em Beda,</p><p>ressonador da Antiguidade em momento de renovação intelectual; em</p><p>Haímo, testemunha da interpretação alegórica e espiritualista; em Walfrido</p><p>Strabão (ou seja, Alfredo, o Estrábico), que põe em marcha o gênero “glosa”,</p><p>iJCf. M. f. Rondeau, Les commentaires patristiques du Psautier (llle-Ve siècles), vol. II: Exégèse</p><p>prosopologique et théologique (Orientalia Christiana Analecta</p><p>220), Roma, 1985; C. Andersen, Zur</p><p>Entstehung und Geschichte der trinitarischen Personenbegriffe, in: ZNTW 52 (1961 ) 1-39; La Bible de tous</p><p>le temps: vol. I, Paris, 1984. Sobre os Padres gregos: vol. II (Paris, 1985). Sobre os Padres latinos: C. Estin,</p><p>Les psautier de Jerôme à la lumière des traductions juives antérieures, Roma, 1984; P. Canivet, Histoire d’une</p><p>entreprise apologétique au Ve siècle, Paris, 1958; W. Hulst, Hymni latini antiquissimi, Heildelberg, 1956; C.</p><p>Emerreau, Hymnographi græci, 1922-1926.</p><p>semelhante à cadeia; a corrente que ele iniciou tomou corpo em vários</p><p>afluentes, que hoje se acham reunidos na Glosa ordinaria.</p><p>Dominam o campo bispos e abades, ou seja, a orientação pastoral e</p><p>espiritual; a qual favorece a interpretação cristã segundo os sentidos</p><p>alegórico, tropológico e anagógico. O estudo filológico e histórico não se abre</p><p>caminho, mas se respeita o testo sem manipulações. Um autor tão criativo</p><p>em seus comentários como Ruperto de Deutz despacha rapidamente os</p><p>salmos, impondo-lhes uma unidade e desenvolvimento doutrinal artificio­</p><p>sos. Seleciono da lista dois nomes como representantes de outros muitos:</p><p>Eutímio Zigabeno, grego, e Gerho, latino.</p><p>Eutímio. Na introdução a seu comentário dos salmos, Eutímio interes­</p><p>sa-se por uma série de problemas tradicionais: quem é o autor? Davi; se</p><p>outros nomes são citados, trata-se de executores. Circunstância histórica de</p><p>composição? Algum fato na vida de Davi. Temas históricos e messiânicos.</p><p>Gêneros: louvor, ação de graças, súplica e votos, de alento (confiança?),</p><p>exortação, instrução moral. Explicação dos títulos. Importância da execução</p><p>musical. Quanto às profecias, inverte a posição de Teodoreto. Esse dizia que</p><p>as profecias são claras quando se observa seu cumprimento. Eutímio diz que</p><p>Davi profetizou obscuramente sobre o messias, para que os judeus não</p><p>destruíssem suas profecias. O princípio da obscuridade converte-se em critério</p><p>ambíguo e perigoso manejado por buscadores de profecias. Finalmente, diz-</p><p>nos que o salmo se pode acomodar (prosarmozein) à vida do cristão.</p><p>Gerho. Escreve para monges, e o seu comentário teve bastante fortuna</p><p>na Idade Média. Nos salmos, busca a inteligência espiritual, encoberta sob</p><p>o véu dos símbolos. Davi é autor dos salmos e é o primeiro profeta a</p><p>testemunhar a Trindade, tema que Gerho desenvolve valendo-se de várias</p><p>passagens do saltério. Depois trata dos temas seguintes: a matéria dos</p><p>salmos é o Cristo inteiro, ou seja, Cristo com sua igreja (seguindo Agostinho);</p><p>a intenção ou finalidade é que os membros se assemelhem à cabeça (enfoque</p><p>ascético, tropológico). Distingue na Bíblia três modos de exposição: narrati­</p><p>vo, quando fala o autor ou personagem explicitamente introduzidas por ele;</p><p>dramático, quando falam diretamente as personagens (como o Cântico dos</p><p>cânticos); mixto, que é apto para expor os mistérios e domina nos profetas e</p><p>nos salmos. O leitor deve apropriar-se os afetos dos salmos:</p><p>“Ut psalmorum effectui nostrum in psallendo iungamus affectum” (como</p><p>faz o ator teatral com sua personagem). “Conformari debemus illorum</p><p>affectionibus quorum verba resonamus... Solus enim David multas in se</p><p>personas (prosopologia), multarum personarum affectiones repraesentat,</p><p>dum omnibus omnia factus, illum [Christum] non solum príecinit, sed etiam</p><p>prasfiguravit” (tipologia). Segue uma enumeração explicada de alguns afetos</p><p>expressos e combinados nos salmos: a mudança e a mistura de afetos dentro</p><p>de um salmo é um fato que se deve respeitar.</p><p>Desde Cassiodoro até Nicolau de Lira 33</p><p>34 História da interpretação</p><p>b) Lectio scholastica</p><p>A escolástica traz um método novo ou um instrumental novo para</p><p>explicar os salmos. E o instrumental da nova ciência, que irrompe no</p><p>ocidente, instala-se, triunfa e produz em cerca de dois séculos obras</p><p>mestras de pensamento. A escolástica aplicada a comentar os salmos dá</p><p>resultados na verdade mais discutíveis, porque é método mais especulativo</p><p>do que filológico.</p><p>Antes de tudo, o escolástico é professor: a lectio scholastica rouba</p><p>espaço à lectio monastica para conviver em paz ou guerra com ela. A divisão</p><p>traz especialização que mal existia antes: o professor pode prescindir do</p><p>aspecto pastoral ou pode contar com que brotará como conseqüência de seu</p><p>discorrer. O professor escolástico acede ao comentário dos salmos com</p><p>sistema de conceitos e categorias que se podem dividir e subdividir e</p><p>organizar logicamente. Ao mesmo tempo pode lançar na liça “quaestiones”,</p><p>perguntas ou problemas que se resolverão com o método consubstanciai.</p><p>Vejamos como funciona o novo método de explicação em mãos de seu</p><p>representante mais extremado, Hugo de São Caro (f 1263). Começo por seu</p><p>comentário ao Sl 1, deixando os seus termos em latim, língua constitucional</p><p>da escolástica.</p><p>A apresentação já nos orienta, pois vem acompanhada de chaves que distri­</p><p>buem logicamente os materiais do salmo depois de transformá-los em conceitos.</p><p>Beatitudo consistit in: immunitate a peccato triplici: Operis “qui non abiit</p><p>operando in concilio impiorum”, Cordis “et in via peccatorum non stetit”. Oris</p><p>“et in cathedra pestilentias non sedit”. In bona voluntate... “voluntas eius”, In</p><p>meditatione legis divinae “et in lege.. In bona operatione... fructum suum</p><p>dabit”, In bona locutione “folium eius defluet”, In perseverantia... “semper</p><p>prosperabuntur”.</p><p>E st beatitudo: Vise Sinistrae: Sal 143... Dextrae... Mt 5. Patriae... Lc 14.</p><p>Ad hanc beatitudinem requiritur: Vitare. Plangere. Non publicare peccatum.</p><p>Futurum. Praeteritum. Praesens. Velle bonum, scire bonum, posse bonum.</p><p>Opere exequi. Discretio. Modéstia. Patientia. Velle bonum “voluntas eius”,</p><p>scire bonum “meditabitur”, posse bonum “lignum plantatum”.</p><p>Não é que o Sl 1 seja um prodígio de imagens originais e felizes, mas em</p><p>certa medida sugere a vitalidade espiritual em termos vegetais de folhagem</p><p>e fruto. O cardeal Hugo, com sua varinha mágica escolástica, transforma a</p><p>folha não caduca em “palavra que não se rebaixa, em modéstia no falar”, e o</p><p>fruto maduro em “execução do bem e discrição”. Transformadas em concei­</p><p>tos, as imagens tornam-se “inteligíveis”, podem agrupar-se em articulações</p><p>lógicas rigorosas ou aproximadas. Vejamos outro exemplo:</p><p>Sl 2,2: “Conjuram-se contra o Senhor e contra o seu Ungido”: Explica</p><p>Hugo: “Contra O Senhor abusam dos dons da natureza, contra o Ungido</p><p>Desde Cassiodoro até Nicolau de Lira 35</p><p>abusam dos dons da graça”. Assim entra no salmo a distinção de natureza</p><p>e graça. Lemos no Sl 18,34: “Dá-me pés de cervo”. Pensando em lJo 2,16:</p><p>“concupiscentia carnis, concupiscentia oculorum et superbia vitae”, explica</p><p>Hugo: “Pedes meos, i.e. affectus meos ut transiliant omnia quae sunt in</p><p>mundo. Cervi enim transiliunt lutosa, spinosa et foveas, per quae tria illa</p><p>sunt in mundo designantur”.</p><p>O comentário de Hugo, em belíssima edição de 1754, ocupa 1432</p><p>colunas de páginas in folio; praticamente de dez colunas, ou vinte páginas</p><p>nossas, por salmo. Não nos enganemos ao lermos à margem “allegorice de</p><p>Christo”, “moraliter”, pensando que persiste a explicação tradicional “per</p><p>sensus”. Persiste como esquema subordinado à conceptualização escolástica.</p><p>Na mesma linha, de conceitos bem articulados, trabalhou santo</p><p>Tomás. Comentando o Sl 46,5: “fluminis impetus laetificat civitatem Dei”,</p><p>descreve três qualidades da cidade que é a Igreja:</p><p>Primum est quod sit ibi multitudo liberorum... Secundum est quod</p><p>habeant sufficientiam per se... Tertium est unitas civium...” Cada qualida­</p><p>de é comprovada com uma citação bíblica: G1 4,31; Sl 65,5; Jo 17,22.</p><p>Mais moderado na distinção, se bem que igual na transmutação de</p><p>imagens em conceitos, é o comentário seguinte, tomado de uma obra</p><p>falsamente atribuída a Boaventura. Descrevendo a teofania, diz o Sl 97,5:</p><p>"os montes se derretem como cera”. Diz a explicação: “Hicostendit superbiam</p><p>unde dicit montes, instabilitatem unde sicut cera fluxerunt”.</p><p>Aplicado o método sistematicamente ao Saltério, desaparece a fanta­</p><p>sia, espiritualiza-se o corpóreo,</p>8. Entrar e prostrar-se é gesto normal (como nossa genuflexão) (Sl 
95,6; 132,7 etc.).
“Por tua grande bondade” (brb hsdk): recordemos que na invocação 
litúrgica um dos títulos divinos é rab hesed we’emet: Ex 34,6; Jn 4,2; Sl 
86,5.15; 103,8; a ela corresponde a “reverência” yr ’h do orante.
9. A justiça çdqh de Deus, complementária de sua bondade, é aí densa 
de relações. Tem bastante de judicial, pelo contexto e pela referência aos 
inimigos; é, de mais a mais, uma retidão que guia por um caminho e o 
aplaina para evitar tropeços ao inocente. Não é sentença judicial simples, 
depois da qual cada um segue o seu caminho, mas o juiz continua se 
ocupando com seu cliente. Ao homem cabe deixar-se guiar (Gn 24,27; Ex 
15,13; Sl 27,11; 77,21).
10. Os dois versículos funcionam com duplo sentido: como descrição 
coerente e com o valor metafórico das peças. Se tomamos cada elemento por 
sua parte, reconhecemo-lo sem dificuldade:
nekona: dito acertado, reto (Jó 42,7).
hawwot: desgraça objetiva (Sl 57,2; Pr 19,13); maldade ou perversão (Sl 
52,9; Jó 6,2); sua expressão oral (Sl 38,13; Pr 17,4); cobiça (Mq 7,3; Pr 10,3).
hhlyq: afagar, adular (Pr 2,16; 29,5).
Equivalem a uma explicação da mentira e fraude do v. 7: levam dentro 
a maldade como sepulcros, falam adulando com falsidade.
As peças podem compor um todo imaginativo coerente, sobretudo se 
aceitarmos a etimologia proposta por Delitzsch para hwwt, de hwh = hiare, 
barathrum = fender, cova. Imaginemos uma cova ou um poço em cuja boca 
não existe apoio, cujas paredes estão lisas e resvaladiças: quem cair nela,
172 Salmo 5
baixa até o fundo. Apliquemos a imagem: levam uma cova hwwt, aberta 
como uma fossa qbr, em sua boca não existe ponto de apoio nkwnh, e a 
língua faz resvalar hlq. Os dois sentidos se superpõem engenhosamente e 
coincidem.
A menção do sepulcro, além de ecoar juntamente com “interior” qbr / 
qrb, torna íntimo o perigo mortal que são esses “sanguinários”. (Não são os 
sepulcros evangélicos, cheios de corrupção por dentro).
11. ’shm, é ser culpável, réu; o hifil é declarar culpado, condenar, 
castigar. O primeiro castigo é o fracasso de seus planos, que eram a 
condenação do inocente. Não se pede sem mais o fracasso das pessoas, mas 
de seus planos iníquos.
A “expulsão” hdyhmw é também dispersão. Jeremias costuma aplicar 
o verbo ao desterro (8,3; 16,15; 27,10 etc.). O salmo não especifica.
12. Para o efeito na comunidade veja-se Pr 11,10: “O êxito dos honrados 
é festejado pela cidade”; também Sl 40,17. Se associamos a fórmula “amar 
o Senhor” com o Dt 6,5; 11,1; 13,4, a fórmula “amar o nome” é exclusiva 
deste salmo e Is 56,6; ao invés, é comum o acolher-se.
13. Se transladamos ao final o sintagma wtsk ‘lymw, o epifonema 
enuncia três ações do Senhor: cobre como uma cortina ou umas asas, rodeia 
ou circunda como um escudo, bendiz. São reflexões genéricas que não 
brotam especificamente do contexto. Poder-se-ia escutar esse epifonema 
pronunciado pela comunidade exultante. Os antigos traduziram ‘tr por 
coroar, em sentido próprio ou metafórico: “arma de vitória e coroa de 
triunfo” (Teodoreto). Para a bênção final do salmo: 28,9; 67,7; 29,11; 128,5.
6. Transposição cristã
Na carta aos Romanos, Paulo combina o Sl 5,10 com outros textos para 
descrever a perversão universal: todos, judeus e pagãos, estão debaixo do 
domínio do pecado. Ou seja, generaliza a descrição do salmo, excluindo a 
existência de inocentes. E citação fora de contexto. O esquema original do 
salmo, o inocente perseguido que se acolhe a Deus juiz, deverá ser transpos­
to segundo a expressão de lPd 2,23: “se punha em mãos do que julga 
retamente”. A exemplo de Cristo, o cristão perseguido, caluniado, injusta­
mente condenado, pode fazer seu esse salmo, ainda que pedindo a conver­
são mais do que o castigo dos malvados.
Vários autores antigos aplicam a Cristo o “entrar no santuário” celeste, 
seguindo Hb 9,12: “entrou uma vez para sempre no santuário, conseguindo 
uma libertação irrevogável”.
Salmo 6
1. Texto
2 Senhor, não me repreendas com ira,
não me castigues com cólera.
3 Piedade de mim, Senhor, que desfaleço,
cura, Senhor, meus ossos deslocados.
4 Respiro descompassadamente,1
e tu, Senhor, até quando?
5 Volta-te, Senhor, põe a salvo minha vida,
salva-me, por tua misericórdia;
6 pois no reino da morte ninguém te invoca,
e no Abismo, quem te dá graças?
7 Estou esgotado de gemer,
toda a noite alago meu leito, 
dissolve-se em lágrimas minha cama;
8 consomem-se irritados meus olhos,
envelhecem por tantas contradições.
9 Apartai-vos de mim, malfeitores!
Pois o Senhor escutou meu pranto,
10 o Senhor escutou minha súplica,
o Senhor acolheu meu pedido.
11 Que fiquem derrotados e desconcertados meus inimigos,
retirem-se derrotados depressa.
1minha respiração está descompassada.
2. Bibliografia
H. Duesberg, Le Psautier des malades (Maredsous 1952).
J. Coppens, Les Ps 6 et 41 dépendent-ils du livre de Jérémie?: HUCA 32 
(1961)217-226.
174 Salmo 6
J. Schildenberger, Aus Gottes Zorn in Gottes Gnade, Psalm 6 der erste 
Busspsalm: BiKi 19 (1964) 2-4.
G. W. Anderson, Enemies and Evildoers in the book o f the Psalms: BJRL 
48 (1965-1966) 18-29.
J. A. Soggin, Osservazioni filologiche ed esegetiche al Salmo 6, em FS 
Rinaldi (Gênova 1967) 293-302.
R. Martin-Achard, Laprière des malades dans le Psautier: LuV 86 (1968) 25-43.
N. Airoldi, Note critche al Salmo 6: RivB 16 (1968) 285-289.
Th. Struys, Ziekhte en genezing in het OT (Kampen 1968).
E. M. Blaiklock, The Psalms of the great rebellion (Londres 1970).
H. Chr. Knuth, Zur Auslegungsgeschichte von Psalm 6 (Tubinga 1971).
K Heinen, Jahwe heile mich. Klage und Bitte eines Kranken. Ps 6: ErAuf
48 (1972) 461-466.
N. Airoldi, La consultazione divina nella malattia in Israele: BiOr 15
(1973) 163-172.
E. Achtemeier, Overcoming the World. An exposition ofPs 6: Interpr 28
(1974) 75-88.
H. W. M. van Grol, Literair-Stilistische Analyse van Ps 6: Bijdr 40 (1979) 
245-264.
J. Smit Sibinga, Gedicht en getal. Over de compositie van Ps 6: NTT 42 
(1988) 185-207. ~
Na bibliografia aparecem alguns títulos genéricos, sobre preces de 
enfermos, e outros específicos sobre o Sl 6. Entre esses se destaca o estudo 
histórico de Knuth (1971). Não faltam estudos filológicos, literários e de 
espiritualidade.
3. Análise filológica
2. ’I... w’l: separados do verbo negam a modalidade do advérbio GK 152 h, 
Joüon 160 f.
3. ’mil: vocalizado com patah. Consideram-no adjetivo: Qim o compara 
com Is 44,20; Del patah por causa do acento em ’ny; Storr infin usado como 
adj; partic sem -m Briggs. Substantivo: forma pu‘lal substantivada; forma 
nominal de tipo qutlal Meyer pár 39,1 e 49,1.
4. ‘d mty: sem verbo. Expressa emoção intensa Phil; fórmula corrente, 
oito vezes sem verbo Soggin. Razão de estilo, fechando estrofe Achtemeier.
5. shwbh: cessar na cólera, como Ez 32,12; 2Rs 23,26; Jn 3,9 Gun.
6. ’yn: constructo separado de seu nome regido: GK 152 o.
bmwt: a morte concebida como lugar e estado Genebrardus.
zkrk: memória. Abstrato por concreto Dah. Lêem part LXX Cast Rav Kraus
my: pergunta retórica, em paralelo com ’yn; compare-se Ex 15,11 com 
Sl 86,8: my kmwk...my kmwk / ’yn kmwk...w’yn kmwk.
Ik: com daghesh Joüon 18 i.
Estudo global 175
7. yg‘ty b’nhty: Gun Kraus consideram-no resto de um verso ou glosa. 
Não convence, metri causa não é razão suficiente.
’shh: segundo Qim (veja-se também ibn Ezra citado por Ros) ou nadar, 
como em Is 25,11, com Jerônimo natare faciam, ou lavar como a LXX Vg; 
o Targum traduz rhs de Gn 43,31 por shy. Briggs pensa num coortativo de 
syh = queixar-se, anulando assim o paralelismo e a vigorosa imagem.
Note-se o quádruplo b- com diversa função em 7-8
8. ‘shshh: Qim o considera equivalente derqbh - consumido (cf.Is 50,9). 
Idéia de obscuridade: Targum hshkt; Jerôn caligauit; Michaelis baseado no 
árabe ‘assa - rondar de noite, e na versão siríaca de ‘sh por obscuridade em 
Jó 5,19; Fischer (citado por Ros) aduz Áquila aukhmothe = seco, sujo.
‘yny: o rosto, o aspecto,por metonímia ou pars pro toto Vatablus 
Rüdinger, Fischer, citados por Ros.
‘tqh: ser removido, segundo Jó 14,18: Áquila (na prim pess como a LXX 
e Jerôn), M. Sarug citado por Rashi, citado por Ros. Ou equivalente de 
yshn = envelhecer: cf. Trg de Lv 25,22, que traduzyshn por ‘tq, LXX, Rashi.
bkl çwrry: b- equivalente de b‘bwr Qim Rashi Phil, segundo Gn 18,28; 
2Rs 14,6; Lm 2,11. Lêem çarati, segundo SI 31,10 Gun Kraus.
10. Duplo qatal e um yiqtol: fato e conseqüência Del; yiqtol, forma 
cananéia do passado Dah; ou alternância estilística corrente.
Wei suprime o primeiro ybshw w -: Gunkel e Kraus suprimem o 
segundo, como variante deyshbw. Duhm tomays/iòu; como auxiliar GKpár 
120 g.
rg‘: adverbial.
4. Estudo global
a) Gênero
É uma súplica individual; em concreto, a súplica de um doente em 
estado grave. O gênero impõe frases de petição motivada, descrição do 
sofrimento e do perigo, expressão de confiança. Esperar-se-ia que o as­
sunto se resolvesse entre o orante e Deus; ríão obstante, é freqüente no 
gênero, quase tópica, a referência aos inimigos. Na experiência do orante 
entram: a enfermidade com seus sofrimentos, a angústia interior e o 
temor da morte, a consciência de uma hostilidade perversa, a consciência 
do pecado. As relações entre esses fatores nos permitirão refletir sobre o 
salmo.
Uma classificação tradicional colocou esse salmo entre os sete salmos 
penitenciais: 6 32 38 51 102 130 143. A razão é temática (Childenberger).
176 Salmo 6
A estrutura de superfície é bastante clara e simples. Começam cinco 
versículos de petição, com breve cesura depois do terceiro (w . 2-4.5-6); 
seguem dois versículos em que o orante descreve suas tribulações, e outros 
três referidos aos inimigos 7-8.9-11. Isso nos oferece uma disposição estrófica 
do tipo 3 2 2 3. Domina o poema a regularidade dos paralelismos, com algu­
mas quebras expressivas e algumas repetições a contrapelo do ritmo binário.
No v. 2 o paralelismo é rigoroso, salvo o vocativo inicial: a b c / b c. No 
v. 3 é ainda mais rigoroso: imperativo-vocativo -ki motivação, a b c / a b c. 
No v. 4 afrouxa-se a correspondência dos conteúdos, mas se marca o 
contraste napshi ’atta: abc / a d e. O v. 5 rompe a regularidade ao desdobrar 
o primeiro hemistíquio em dois imperativos, e o segundo hemistíquio em 
imperativo e motivação: a b / a c / a d . O v. 6 restabelece o paralelismo 
temático, ainda que variando as funções sintáticas: a ’y n corresponde my, 
ao substantivo zkr o verbo yw dw a b c / b a c. Os w . 7-8 formam uma 
enumeração de cinco peças, cuja simetria provém das ações e suas causas, 
a assimetria do hemistíquio inicial e do hemistíquio final; sua forma vem 
a ser: a b / a f c / b c a / a b c / a g . Nos w . 9-10 domina a assimetria, pois a 
um imperativo segue a motivação em três peças regulares, segundo o 
esquema l : m n / b a c / b a c / a c b . O último versículo apresenta um 
paralelismo temático com uma repartição desigual de peças. No movimento 
rítmico, o poema é bastante regular, se bem que dê lugar a várias infrações.
O versículo final ata os cabos: do v. 4 recolhe nbhl torcendo sua direção, 
do v. 5 recolhe shwb com mudança de sentido; o rg’ = “ao instante” se opõe 
ao “até quando?” do v. 4. Repetir em dez versículos oito vezes o nome de 
yh w h é proporção abundante. No conjunto, é um poema de boa lavra, denso, 
notável pela força descritiva e expressiva.
c) Elem entos e relações
A análise precedente pode resultar extrínseca e formalista, se não 
penetrarmos na estrutura interna, o sistema de relações. (Quase no início 
de meu comentário, no Sl 6, cedi a este exercício de análise, como exemplo 
para outros casos em que explicarei apenas momentos mais significativos).
Apontei três componentes: dor física, pena interior, inimigos, que 
correspondem ao ser corpóreo, à consciência interior e à condição social do 
homem. Rodeado de hostilidade, encerrado em sua dor, penetrado pela 
angústia, só encontra saída em direção ao Senhor, invocando (oito vezes) e 
suplicando (sete imperativos dirigidos a Deus). A esses fatores se acrescen­
tam outros dois: morte e pecado. A morte está explícita no v. 6, o pecado está 
implícito no v. 2.
b) Disposição
Estudo global 177
— Quem são os inimigos? São externos ou internos? A petição final e 
o qualificativo “malfeitores” parecem apontar para personagens externas; 
mas poderia ser linguagem metafórica, que engloba tudo o que o orante 
experimenta como hostil, dentro e fora de si.
Já passou a teoria e discussão sobre os p ‘ly-’wn, supostamente identifica­
dos como o grêmio dos feiticeiros malignos. A conjetura apoiava-se em 
abundantes exemplos de orações e conjuros acádicos, e a defendeu tenaz­
mente S. Mowinckel no seu monumental Psalmenstudien I (Oslo, 1921). 
Exemplos acádicos se podem encontrar em M. J. Seux, Hymnes et prières aux 
dieux deBabylonie et d’Assyrie, Paris, 1976. Veja-se também o estudo citado 
de Anderson.
Sobre os inimigos do enfermo podemos fazer duas observações comple­
mentares: os rivais se aproveitam da enfermidade e debilidade do pacien­
te, o paciente se torna mais sensível à hostilidade e rivalidade conhecida.
— Dor e morte. Dor e enfermidade são adiantamentos da morte. 
Inimigos do corpo e instalados nele. Instalados, de mais a mais, na 
consciência. O animal na sua dor não é consciente da ameaça de morte, 
ainda que aja por instinto; mas o homem o é. A morte se adianta na 
consciência, toma posse dela: na presença invencível da enfermidade, no 
cerco triunfante dos inimigos. E assim se aprofunda e se intensifica a dor: dor 
e enfermidade penhores da morte. E como se a morte intimasse ao enfermo: 
sou tua senhora suprema, final, e aqui estou diante de ti, perto de ti.
A recordação da morte no v. 6 desata a descrição da dor, física e 
espiritual. Assistimos nos w . 7-8 a um esforço de descrição e introspecção, 
a um esforço de linguagem realista ou hiperbólica. Juntando os w . 3b e 4a 
a 7-8 obtemos: desconcerto de ossos e alento, gemido que fatiga, pranto que 
esgota. A respiração é vida que se consome, as lágrimas desafogam e 
consomem os olhos.
— Dor epecado. O orante está também consciente de uma relação entre 
enfermidade e culpa. Na dor manifesta-se à consciência o pecado como causa, 
e essa relação pode-se conceber de dois modos: como imanente, ou seja, como 
conseqüência lógica de uma ação; como transcendente, ou seja, intimada e 
aplicada por uma instância superior. No salmo é Deus quem inflige a pena. 
Mas entra o fator tempo: “até quando?”, capaz de diferir o desenlace. A 
enfermidade não é incurável, pelo que pode ter conseqüências favoráveis, 
físicas ou espirituais. O salmo fala do segundo: da enfermidade como aviso e 
escarmento, como castigo saudável. “Saudável” diz saúde, salvação.
Por essa relação, entra no salmo a linguagem sapiencial do repreender 
e corrigir. Ambos os termos podem ser judiciais, referidos a uma justiça 
social e objetiva, prescindindo e mesmo sacrificando o bem do culpado.
178 Salmo 6
Podem ser termos educacionais, buscando o bem do culpado. O orante 
interpreta sua dor e enfermidade em relação com Deus, nela descobre a 
Deus, e se compreende a si mesmo. Assim como a dor nos descobre e avisa 
de uma perturbação orgânica, assim também a enfermidade pode descobrir 
um estado de culpa.
— Súplica. Uma vez que a visão das relações aflorou à consciência e se 
assegurou, o orante passa à súplica, tepilla. Para doença, cura rp’: para 
culpa, graça thnh; contra inimigos, derrota bwsh.
Como o sofrimento pode provocar uma conversão do paciente (implíci­
ta no salmo), a prece quer provocar uma conversão do Senhor, explícita no 
shwba do v. 5: conversão da ira em misericórdia, ’ap/hesed; da cólera em 
piedade, hemma/hanan; da correção e do castigo em libertação e salvação, 
hwkyh + ysr / hlç + hwshy‘. O motivo supremo que fundamenta a súplica 
é a misericórdia ou lealdade, Irrín hsdk (v. 5b). O orante esgrime também 
como argumento o vazio cúltico da morte, como se fosse Deus quem mais

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