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O sofrimento de adolescentes internados e a escuta psicanalítica do cuidar

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Universidade do Estado do Rio de Janeiro 
Centro de Educação e Humanidades 
Instituto de Psicologia 
 
 
 
 
 
 
Selma Correia da Silva 
 
 
 
 
 
 
O sofrimento de adolescentes internados: 
a escuta psicanalítica na clínica do cuidar 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Rio de Janeiro 
2001
Selma Correia da Silva 
 
 
 
 
 
O sofrimento de adolescentes internados: a escuta psicanalítica na clínica do 
cuidar 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Dissertação apresentada, como requisito 
parcial para obtenção do título de Mestre, ao 
Programa de Pós-Graduação em 
Psicanálise, da Universidade do Estado do 
Rio de Janeiro. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Orientadora: Profa. Dra . Sonia Alberti 
 
 
 
 
 
 
Rio de Janeiro 
2001
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CATALOGAÇÃO NA FONTE 
UERJ/REDE SIRIUS/BIBLIOTECA CEH/A 
 
 
 
 
Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial 
desta dissertação, desde que citada a fonte. 
 
________________________________ _____________________ 
 Assinatura Data 
 
S586 Silva, Selma Correia da. 
 O sofrimento de adolescentes internados : a escuta 
 psicanalílica na clínica do cuidar / Selma Correia da Silva. - 2001. 
 112 f. 
 
 
 Orientadora: Sonia Alberti. 
 Dissertação (mestrado) – Universidade do Estado do Rio de 
 Janeiro. Instituto de Psicologia. 
 
 
 1. Psicanálise. 2. Doenças orgânicas crônicas. I. Alberti, 
 Sonia. II. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Instituto de 
 Psicologia. III. Título. 
 
  CDU 159 964 2
Selma Correia da Silva 
 
 
O sofrimento de adolescentes internados: a escuta psicanalítica na clínica do 
cuidar 
 
 
 
Dissertação apresentada, como requisito 
parcial para obtenção do título de Mestre, 
ao Programa de Pós-Graduação em 
Psicanálise, da Universidade do Estado do 
Rio de Janeiro. Área de concentração: 
Pesquisa e Clínica em Psicanálise. 
 
 
Aprovada em 19 de dezembro de 2001. 
Banca Examinadora: 
 
 
_____________________________________________ 
Prof.ª Dra. Sonia Alberti (Orientadora) 
Instituto de Psicologia - UERJ 
 
_____________________________________________ 
Prof. Dr. Marco Antonio Coutinho Jorge 
Instituto de Psicologia - UERJ 
 
_____________________________________________ 
Prof.ª Dra. Ana Cristina de Figueiredo 
Universidade Federal do Rio de Janeiro 
 
 
 
 
 
 
 
Rio de Janeiro 
2001
DEDICATÓRIA 
 
 
 
 
 
À minha mãe pela sua dedicação amorosa, 
cuja atenção me confortou neste período de 
produção. 
 
Ao Dr. Frederico W. de B. Baumann, que, ao 
escutar as queixas clínicas de seus pacientes 
pode auscultar um sofrimento agudo do 
coração. Suas histórias trasmitem a sabedoria 
de um médico que há muito cuida de doenças 
orgânicas. 
 
À Brenda, por retratar o ideal da juventude na 
beleza da adolescência. 
 
À Suzana, irmã e amiga, pela cumplicidade de 
sempre, principalmente na fase final desta 
dissertação, quando o aconchego de sua casa 
favoreceu meus estudos. 
 
Ao meu pai, meus irmãos, Sonia, Solange e 
Sergio, meus cunhados Gilberto e Gloria, pela 
admiração com que cada um, em sua 
particularidade, teceu um fio do meu percurso 
profissional. Às meninas Melina, Clarissa e 
Bárbara, que torceram para o término desta 
dissertação. 
AGRADECIMENTOS 
 
 
Professores do Programa de Pós-graduação em Psicanálise do Instituto de 
Psicologia da UERJ, pela competência e mérito na constituição do Curso de 
Mestrado; Faperj, pelo suporte financeiro à minha pesquisa. 
Professora Sonia Alberti, Coordenadora do Curso de Mestrado, que, ao 
testemunhar meu desejo de sustentar a clínica psicanalítica no hospital, me 
incentivou à realização da pesquisa universitária, orientando-me nesta dissertação. 
Professores Marco Antonio C. Jorge, pela sensibilidade nas aulas, permitindo-
me fazer uma ponte entre a escuta psicanalítica do sofrimento e a arte e Ana 
Cristina Figueiredo, por sugerir a direção de minha pesquisa no eixo 
psicanálise/medicina. 
Professor José Henrique W. Aquino, Coordenador da Enfermaria do Núcleo 
de Estudos da Saúde do Adolescente/NESA, pela ponderação, tolerância e 
sensibilidade no trato não só com os pacientes, mas também com a equipe de 
Saúde Mental – atributos essenciais de um profissional que conduz um espaço 
institucional marcado pelo sofrimento físico e psíquico. 
Serviço de Saúde Mental do NESA: Marília Mello de Vilhena, Simone Pencak, 
Suyanna Linhales Barker, pelo respeito ao meu trabalho e pelo impulso na 
realização deste Mestrado, e Vera Pollo, em particular, pelo apoio na leitura crítica 
deste texto. 
Professores José Augusto da S. Messias, pela transmissão dos ensinamentos 
nas visitas médicas, e Maria Cristina C. Kuschnir, por prestar atenção nas 
intervenções psicanalíticas trazidas para discussão na Enfermaria do NESA, 
principalmente nos casos desta dissertação. 
Professora Eloisa Grossman, Coordenadora da disciplina “Medicina de 
Adolescentes”, que me possibilitou muitos conhecimentos sobre as doenças 
orgânicas crônicas, no Ambulatório de Nefrologia. 
Professora Maria Helena Ruzany, Diretora do NESA, por apreciar meu 
empenho profissional na clínica com os adolescentes; Mariângela Giana de A. G. 
Ribeiro, Coordenadora do Ambulatório do NESA, pelo reconhecimento que atribui ao 
meu trabalho. 
Luiz André Vieira Fernandes, médico, e Mônica Vicente da Silva, assistente 
social, pela competência profissional, cuja saída da Enfermaria do NESA deixou 
saudades; Solange Araújo Câmara, fisioterapeuta, pela parceria nos assuntos 
pertinentes ao cotidiano hospitalar dos adolescentes internados. 
Equipe de Enfermagem, com destaque para os mais chegados, e de 
Recreação do Nível Terciário, pela interlocução do dia-a-dia sobre o ânimo dos 
pacientes; Equipe Multidisciplinar do Nível Secundário, pelo incentivo à minha 
permanência no NESA, em especial os médicos Flávio Roberto Sztajnbok e Isabel 
Cristina da S. Bouzas; Equipe do Nível Primário e Pessoal da Área Administrativa 
do NESA, pelo carinho dos que se fazem presentes. 
Mauro Leonardo S. C. dos Santos, amigo a quem atribuo uma significação 
especial pela incansável escuta durante a fase final do Mestrado e pelas valiosas 
sugestões dignas de um Doutor na Clínica do Cuidar. 
Célia Maria dos Santos, Rejane Maurell, Sandra Berardinelli e Simone 
Pencak, queridas amigas, que souberam, com carinho, esperar o meu retorno aos 
nossos encontros prazerosos. 
Georgina Maria R. F. Cerquise e Yara de A. Lemos, pelo companheirismo 
durante o percurso do Mestrado. 
Magali S. P. R. Penna, pelas palavras de sensatez nas horas difíceis; Mari de 
Souza Gomes e Priscila de S. G. Feitosa, pela paciência no auxílio da digitação 
deste trabalho; Soraya Goulart, pelo refinamento na revisão final do texto. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Numa carta escrita em 10 de maio de 1923 a Lou Andréas-Salomé, 
Freud confessa seu cansaço em relação às agressões físicas 
sofridas por causa de seu câncer de mandíbula que não cessa de se 
espalhar e que ainda lhe acarretaria múltiplas operações dolorosas: 
‘Partilho completamente da sua opinião sobre o desamparo que 
experimentamos diante dos males físicos particularmente dolorosos; 
como você, igualmente, acho-os desesperadores e, se pudéssemos 
atribui-los a alguém pessoalmente, ignóbeis. 
 
Sigmund Freud 
 
 
(cf. MANONI, M. O nomeável e o inomeável: a última palavra da vida.Rio de Janeiro: Zahar, 1995.) 
RESUMO 
 
 
SILVA, Selma Correia da. O sofrimento de adolescentes internados : a escuta 
psicanalítica na clínica do cuidar. 112 f. Dissertação (Mestrado em Psicanálise) – 
Instituto de Psicologia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 
2001. 
 
A possibilidade de uma intervenção psicanalítica na “clínica do cuidar”, bem 
como a escuta de adolescentes cujo sofrimento causado pela doença crônica exige 
a hospitalização, são as duas questões centrais desta dissertação. Nossa pesquisa 
tem início na análise da estrutura da clínica psicanalítica que é sustentada na 
Enfermaria do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente/NESA/UERJ. Faz-se 
um percurso pela teoria lacaniana da fase do espelho, como base da identificação 
especular, para que, em seguida, se possa verificar de que modo o “mandamento do 
amor ao próximo” está presente no ato de cuidar. Com Freud, coloca-se em primeiro 
plano a questão libidinal relativa ao processo da doença física. Destaca-se também 
o conceito freudiano de inibição que fundamenta a explicação das modalidades de 
retração da libido. O debate psicanalítico sobre a influência do inconsciente e as 
alterações que ele provoca no quadro da doença orgânica traz uma contribuição à 
clínica médica. A ausência de investimento libidinal afetivo nas figuras parentais, na 
clínica com adolescentes cujo corpo está adoecido, é o ponto em que este trabalho 
se conclui, demonstrando que para alguns adolescentes esta é a principal razão de 
seu óbito. 
 
Palavras-chave: Psicanálise. Doenças orgânicas crônicas. Clínica do Cuidar. 
Escuta de adolescentes. Tristeza. Equipe multidisciplinar e 
medicina. 
 
 
RÉSUME 
 
 
SILVA, Selma Correia da. La souffrance de l'adolescent hospitalisé: l'écoute 
psychanalytique dans la clinique du soin . 112 f. Dissertação (Mestrado em 
Psicanálise) – Instituto de Psicologia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio 
de Janeiro, 2001. 
 
La possibilite d’une intervention psychanalytique dans la “clinique du soigner”, 
ainsi que l’écoute des adolescents dont la souffrance causée par une maladie 
chronique éxige l’hospitalisation sont les deux questions centrales de cette 
dissertation. Notre recherche commence par l’analyse de la structure de la clinique 
psychanalytique qui se tient dans l’ Infirmerie du Noyau d’Études sur la Santé de 
l’Adolescent / NESA/ UERJ. On fait un parcours dans la théorie lacanienne de la 
phase du miroir comme la base de l’identification spéculaire pour qu’on puisse 
vérifier ensuite le mode dont le “commandement de l’amour di prochain” est présent 
dans l’acte du soigner. Avec Freud, on met au premier plan la question libidinale qui 
tient au processus de la maladie physique. On relève aussi le concept freudien d’ 
inhibition qui fonde l’explication des modalités du retrait de la libido. Le débat 
psychanalytique sur l’influence de l’inconcient et les altérations qu’il promeut dans le 
cadre de la maladie organique apporte une contribution à la clinique médicale. 
L’absense d’un investissement libidinale affectif sur les figures parentales dans la 
clinique avec les adolescents dont le corps est malade est le point sur lequel ce 
travail trouve une conclusion, en démontrant que pour certains adolescents celle-ci 
est la cause majeure de leur décès. 
 
Mots-clés: Psychanalyse. Maladies organiques chroniques. Clinique du soigner. 
Écoute des Adolescents. Tristesse. Équipe multi-disciplinaire. 
Medécine. 
 
SUMÁRIO 
 
 
 INTRODUÇÃO ....................................................................................... 10 
1.1 Psicanálise na Enfermaria de Adolescentes ...................................... 10 
1.2 Psicanálise na “reunião das segundas-feiras” .................................. 15 
1.3 Alice no reino das pedras .................................................................... 18 
2 O AMOR AO PRÓXIMO NA CLÍNICA DO CUIDAR .............................. 25 
2.1 Clínica do cuidar ................................................................................... 25 
2.2 O cuidar como escuta a doentes jovens ............................................ 27 
2.3 O amor ao próximo ............................................................................... 34 
2.4 O próximo-estranho: Fábio precisa de um “pai-drinho” .................. 39 
3 A TRISTEZA NO LEITO ......................................................................... 46 
3.1 Doença e inibição ................................................................................. 46 
3.2 Depressão e sua tristeza ...................................................................... 50 
3.3 “Mais um caso perdido”: Camila no leito 10 ...................................... 53 
4 A DOR QUE PETRIFICA ....................................................................... 58 
4.1 Dor física e dor psíquica ...................................................................... 58 
4.2 Elisabeth: a dor da conversação ......................................................... 63 
4.3 Alice: a dor que petrifica ...................................................................... 71 
5 A DEMANDA PELO GRITO ................................................................... 76 
5.1 Eritromelalgia: psicossomática e literatura médica .......................... 76 
5.2 Eritromelalgia: a sabedoria do corpo e o inconsciente .................... 82 
5.3 O grito da eritromelalgia ...................................................................... 84 
5.4 O grito aspirado de Ricardo ................................................................ 94 
 CONCLUSÃO ......................................................................................... 101 
 REFERÊNCIAS ...................................................................................... 106 
 
10 
 
INTRODUÇÃO 
 
 
1.1 Psicanálise na Enfermaria de Adolescentes 
 
 
Esta dissertação visa a discutir o possível da intervenção psicanalítica na 
clínica com adolescentes afetados pelo sofrimento orgânico crônico, internados na 
Enfermaria do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente/NESA1, do Hospital 
Universitário Pedro Ernesto/HUPE, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 
UERJ. Nossos interlocutores são profissionais que trabalham em filosofia de equipe 
multidisciplinar, tais como: médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, assistentes sociais, 
nutricionistas e recreadores – todos exercendo suas atividades na clínica do cuidar. 
A implantação de atividades psicanalíticas na Enfermaria do NESA 
testemunha uma década de nossa trajetória profissional, que teve início nesse 
Instituto quando éramos alunas do Curso de Especialização, em Psicologia Clínica, 
na UERJ. Em 1991, ao freqüentarmos a disciplina “Psicologia Institucional”, tivemos 
a oportunidade de participar de intercâmbio entre aquele Curso e o NESA. 
Sob a coordenação da Professora Sonia Alberti, três especializandas2 foram 
estagiárias de um projeto piloto3, voltado para o público adolescente, que objetivava 
desenvolver atendimento psicanalítico em nível secundário de assistência – 
Ambulatório –, sem deixar de considerar a possibilidade de ampliá-lo, num futuro, à 
assistência terciária – Enfermaria. 
No final do estágio, fui convidada, por membros do Setor de Psicologia (Dulce 
Maria Fausto de Castro e Suyanna Linhales Barker), a permanecer na Unidade de 
Adolescentes, para dar continuidade ao trabalho, bem como a assumir o 
 
1 O Serviço teve origem como Unidade Clínica de Adolescentes/UCA, em 1974, e, em 1995, passou à 
categoria de Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente/NESA. 
 
2 Selma Correia da Silva, Jane da Rocha Cruz e Hilma H. Silvaestagiaram quatro meses na Unidade 
Clínica de Adolescentes/UCA. 
 
3 Originalmente, aquele projeto intitulava-se “Estudos de alguns fenômenos que tangem o ato e a 
inibição, na psicanálise aplicada à clínica institucional do adolescente, visando à área de psicologia 
do adolescente num curso de especialização”, tendo sido financiado, sob esse título, pela FAPERJ, 
de novembro de 1990 a outubro de 1991. 
11 
 
atendimento nos ambulatórios de especialidades médicas (pré-natal e doenças 
orgânicas crônicas). Esse convite estendeu-se à Enfermaria, onde havia 
necessidade da escuta do sofrimento psíquico dos sujeitos adolescentes. 
Naquela ocasião, a clínica psicanalítica no Ambulatório de Adolescentes já 
contava com o atendimento de uma profissional da área de psiquiatria (Simone 
Pencak). Porém, na Enfermaria, em particular, algumas profissionais da área de 
psicologia e psiquiatria haviam exercido sua clínica, mas lá não permaneceram 
pelos mais variados motivos: dificuldades de integração com a equipe 
multidisciplinar e na escuta dos pacientes; falta de vínculo institucional, dentre 
outros. 
Fomos instigados, então, a pesquisar, através de levantamento bibliográfico, 
como foi a inserção do psicanalista no hospital. Constatamos que, tradicionalmente, 
ele iniciava suas atividades, voltando-se para as áreas da psiquiatria ou para outras 
muito específicas – pacientes terminais e pediátricos –, como mostram as pesquisas 
de Raimbault (1977), no seu livro A criança e a morte. 
O âmbito da pediatria e o da adolescência foram porta de entrada no hospital 
geral para psicanalistas exercerem sua prática, como na França. Françoise Dolto 
(1971), por exemplo, dedica aos pediatras o seu livro Psicanálise e pediatria, no qual 
menciona seus primeiros casos clínicos atendidos na época em que mantinha 
consultas médico-pedagógicas no hospital geral. Já na Inglaterra, Winnicott (1978) 
foi divulgador dessa clínica, como registram os textos de seu livro Da pediatria à 
psicanálise. 
No Brasil, em Belo Horizonte, um grupo de psicanalistas tem inserção no 
Hospital Geral Mater Dei, coordenados por Marisa Decat de Moura, também 
organizadora dos livros Psicanálise e hospital (1996) e Psicanálise e hospital – a 
criança e sua dor (1999). 
Nem sempre é tarefa fácil implantar atividades da clínica psicanalítica numa 
instituição hospitalar, uma vez que exige escuta tolerante, que implica enfrentar 
resistências, frustrações, e confrontos de impossibilidades. O profissional esbarra 
com os limites de sua prática, surgindo muitos questionamentos do tipo “o que faz 
um psicanalista num território alheio ao seu saber?” 
12 
 
Em 16 de fevereiro de 1966, em mesa redonda realizada no Colégio de 
Medicina, na Salpêtrière, Lacan refere-se ao lugar marginal da psicanálise sob o 
ponto de vista da medicina, que atribui ao psicanalista uma função de ajuda 
semelhante à do psicólogo. Assim, caberia ao médico convocar o psicanalista 
quando o seu saber se esgota diante da demanda do enfermo, a qual está para 
além de qualquer resposta possível da medicina. 
Dessa maneira, a psicanálise, inicialmente, fez sua entrada nos ambulatórios 
de especialidades médicas do NESA, sob a ótica da medicina, para “desempenhar 
sua função” de ajudar o médico e os demais profissionais de uma equipe 
multidisciplinar de saúde. Porém, coube-nos decifrar que pedido era aquele; só 
assim poderíamos concernir nossa função não só no Ambulatório, mas também, e 
em especial, na Enfermaria. 
O NESA apresentava uma demanda forte para a realização de grupos com os 
pacientes portadores de doenças orgânicas crônicas. Nossa experiência anterior 
confirmava que tais atividades se mostram comuns em hospitais da rede pública do 
Rio de Janeiro. Na própria instituição, encontramos, durante pesquisas, um 
documento intitulado “Atenção integral ao adolescente” cujo teor se reportava às 
propostas de realização de grupos informativos e de reflexão com adolescentes 
cardiopatas. Nos grupos, os sujeitos são identificados a partir do significante que 
nomeia o diagnóstico – cardiopatia, nefropatia, alergia, etc.; dessa forma, essas 
intervenções velam a estrutura subjetiva que é particular a cada um, como se 
pacientes com o mesmo diagnóstico pudessem vivenciar a doença de forma 
idêntica. 
Após atestarmos a importância da escuta individual, tanto no nível secundário 
quanto no terciário, começamos o atendimento. Daí, os grupos que têm sua eficácia 
terapêutica ficaram a cargo do Serviço Social. Essa questão marca uma posição 
diferenciada do que propomos no NESA. Ressaltamos que a ética da psicanálise – a 
do bem dizer – diz respeito ao sujeito do inconsciente, ou seja, à escuta de sua 
particularidade. 
A colocação de Clavreul (1983) sobre a significação da palavra “sofrimento” 
vem ao encontro de nossas proposições: ela permite abarcar dor física e psíquica, 
pois não há como separá-las. O autor (idem) faz um alerta quanto ao que a medicina 
13 
 
não pode ler no corpo para além do olhar médico, o que levou à indagação com a 
qual iniciamos esta pesquisa: o que é um corpo a partir da psicanálise? 
A partir do conceito de pulsão, a psicanálise concebe a questão do corpo 
referido ao desejo; este não se reduz às necessidades biológicas. Freud (1915) 
teoriza a pulsão como situada entre o psíquico e o somático; ela seria o 
representante psíquico de forças somáticas e de estímulos orgânicos. Em textos 
posteriores, diferencia a pulsão de seu representante psíquico. 
Lacan, nos anos 50, localiza a pulsão em termos de significante, ao dizer que 
o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Em 1953, no “Discurso de 
Roma”, o autor faz menção ao corpo como linguagem: esta antecede ao corpo 
próprio, pois habita os órgãos e lhes dá uma função. O corpo é definido como algo 
que traz a marca do significante. Portanto, a psicanálise tornou possível não 
confundir corpo com organismo. Se o corpo é linguagem, possui a mesma estrutura 
do inconsciente. 
O cotidiano da Enfermaria do NESA vem corroborar tal assertiva lacaniana: 
as doenças, ao irromperem no organismo, afetam o corpo da linguagem, o que 
implica dizer que o sujeito, ao vivenciar o mal físico, experimenta a influência do 
inconsciente. 
A clínica psicanalítica no hospital, principalmente com pacientes portadores 
de doenças orgânicas crônicas, confronta-se com a dificuldade de esses sujeitos 
fazerem demanda de análise. O surgimento de uma doença aliado à internação são 
fatores que interferem, na maioria dos casos, no surgimento das idéias espontâneas 
do paciente, isto é, da associação livre. 
Freud (1924), no texto “O problema econômico do masoquismo”, alerta que 
“uma neurose poderá desvanecer-se se o indivíduo se envolve na desgraça de um 
casamento infeliz, perde todo o seu dinheiro ou desenvolve uma doença orgânica 
perigosa” (Freud, S., idem: 207). Essa afirmação merece um esclarecimento: se, por 
um lado, a doença afasta os sintomas neuróticos, por outro lado, não deixa de 
causar sofrimento psíquico no sujeito, como o luto ou a depressão – formas de dor 
psíquica que podem falar de um sujeito neurótico, mas não sintomas neuróticos. 
Em outros sujeitos, porém, a neurose não desvanece no ato de um 
adoecimento. Ao contrário da observação de Freud, a doença propicia o 
14 
 
desencadeamento de sintomas neuróticos, principalmente quando acrescidos de 
situações de impasse. 
Alberti e Silva (1994), no texto “A demanda do sujeito no hospital”, abordam 
as relações familiares como fator de perturbação na vida do adolescente. É o caso 
de sujeitos que sofrem pela falta de investimento afetivo dos pais. Tal situação 
conflitiva – tão comum na Enfermaria– poderá levá-los a fazer sintoma e, inclusive, 
a alterar o prognóstico do quadro clínico orgânico. Essa evidência exigiu a 
realização de entrevistas com os pais, as quais se constituíram de importância 
fundamental para a continuidade do atendimento aos adolescentes. 
No decorrer de uma década, várias são as demandas avaliadas; por isso, 
conseguimos visualizar a constituição de um trabalho que se faz a cada dia. Sem 
dúvida, o fato de o NESA pertencer a uma Universidade acabou por impulsionar a 
articulação da assistência ao ensino, de modo que a presença de alunos, tanto de 
graduação quanto de pós-graduação, se faz necessária para a transmissão da 
psicanálise no hospital. 
Como o Ambulatório já contava com um mínimo de condições para a 
estruturação de uma clínica psicanalítica, concentramos nossos investimentos na 
Enfermaria, sem deixarmos de estendê-los ao nível secundário. Constituiu-se uma 
equipe, denominada “Saúde Mental4”, composta por estagiários, residentes e 
treinandos de psicologia, que participam das seguintes atividades da Enfermaria: 
 Atendimento clínico individual a vinte leitos de ambos os sexos; 
 Atendimento aos familiares; 
 Supervisão clínica; 
 Leitura e discussão de textos psicanalíticos; 
 Visitas médicas diárias (supervisão dos médicos); 
 Reunião multidisciplinar. 
Porém, dentre tantas atividades das quais participamos na Enfermaria, uma, 
em especial, merece destaque por possibilitar a interlocução entre os diversos 
saberes vigentes: a reunião multidisciplinar – o próximo subitem aqui destacado. 
 
4 A equipe de Saúde Mental da Enfermaria (nível terciário) integra o Serviço de Saúde Mental do 
NESA, composto também pelos níveis de atenção primário (Comunidade de Vila Isabel) e 
secundário (Ambulatório). O Serviço reúne-se, mensalmente, para intercâmbio entre os 
profissionais. Participam desse Serviço: Dulce Maria Fausto de Castro, Marília Mello de Vilhena, 
Selma Correia da Silva, Simone Pencak, Sonia Alberti, Suyanna Linhales Barker e Vera Pollo. 
15 
 
1.2 A psicanálise na “reunião das segundas-feiras” 
 
 
Legitimada pelo NESA desde os seus primórdios, a reunião denominada 
multidisciplinar tem seu espaço na Enfermaria de Adolescentes todas as segundas-
feiras, no horário das 11:00 às 12:00h, sendo coordenada, semanalmente, por um 
diferente representante de cada Setor. 
Segundo Messias (1999), essa reunião tomou como modelo a dos grupos 
Balint, cuja formação se deu na Quarta Clínica Médica da UERJ. Os grupos Balint 
discutiam a relação médico/paciente-adolescente, com a participação de médicos 
(staffs, internos e residentes) e duas psicólogas. A expansão desses grupos deveu-
se às idéias de equipe multidisciplinar, difundidas nos anos 70 e assimiladas pelos 
interessados na abordagem de atenção integral ao adolescente. Assim, a reunião 
multidisciplinar foi ganhando corpo ao longo dos anos, até constituir-se em atividade 
fundamental para o bom funcionamento da Enfermaria; sua origem foi anterior à 
própria fundação do Serviço, possibilitando mesmo os seus primeiros alicerces. 
Através de seus representantes, a psicanálise, desde 1991, tem sua 
participação efetiva na reunião, muito embora enfrente resistências na transmissão 
de seu discurso – o que não se constitui em novidade. Essas resistências têm longa 
data: o próprio Freud já teve de lidar com elas em seu tempo e no decorrer da 
história do movimento psicanalítico. 
Porque a intervenção psicanalítica faz-se presente, é possível identificarmos, 
nos discursos dos profissionais, a função que desempenha o ato de cuidar de 
doentes, principalmente de jovens. Não poderíamos deixar de remeter a Freud 
(1895), que alerta sobre o ato de cuidar, quando se refere aos cuidados que 
Elisabeth, uma de suas pacientes, prestou ao pai: 
 
“Há bons motivos para o fato de que cuidar de doentes desempenhe papel 
tão significante na pré-história de casos de histeria. Alguns dos fatores em 
ação são óbvios: a perturbação da saúde física, decorrente do sono 
interrompido, o desleixo de sua própria pessoa, o efeito da constante 
preocupação com função vegetativa de outra pessoa. Mas, em minha 
opinião, deve-se procurar o determinante mais importante em outra parte. 
Qualquer um cuja mente esteja ocupada pelas inúmeras tarefas de velar 
pelos enfermos, tarefas essas que se seguem uma as outras, em sucessão 
interminável, por um período de semanas e meses, adotará, por outro lado, 
16 
 
o hábito de suprimir todos os sinais de sua própria emoção, e por outro, 
desviará sua atenção de suas próprias impressões, visto não ter nem 
tempo, nem vigor para apreciá-las” (Freud, S., idem: 211). 
 
A citação de Freud revela que o ato de cuidar exige certas condições de 
renúncia daquele que desempenha a árdua função. O autor sublinha a ligação entre 
o ato de cuidar e a histeria. Conforme indica a escuta psicanalítica, podemos ampliar 
as observações freudianas no sentido de que, para alguns membros da equipe de 
saúde do hospital, o cuidar se expressa pelo “mandamento do amor ao próximo”, 
entendido aqui como um sintoma neurótico. 
Aventamos a possibilidade de que certos profissionais se valem desse 
mandamento para suportar o ato de cuidar, pois esta é a maneira mais fácil de 
exercer sua função profissional com doentes jovens. 
A fim de explanarmos mais claramente nossa hipótese, dedicamos, no 
Capítulo II – O AMOR AO PRÓXIMO NA CLÍNICA DO CUIDAR –, as considerações 
tecidas sobre o caso clínico Fábio. 
Fábio, dezoito anos, foi personagem constante trazido pelo discurso de 
muitos para as “reuniões das segundas-feiras”. Despertara, inicialmente, 
sentimentos de piedade por estar paraplégico. Foi “amado” e, posteriormente por 
não corresponder ao amor recebido, foi “odiado”. O desfecho do caso de Fábio, 
causa de muita tensão na Enfermaria fora anunciado, exaustivas vezes, pela 
psicanálise. Ao nos vermos diante da compaixão de alguns, tentávamos intervir com 
o propósito de expressar os possíveis efeitos de “um amor dado sem reflexão”, tal 
como Freud denuncia, em 1930. 
No Capítulo III – A TRISTEZA NO LEITO –, fazemos um contraponto: 
enquanto alguns pacientes ficam em evidência na reunião por serem “rebeldes e 
agressivos” como Fábio, outros podem ficar no anonimato, como é o caso de 
Camila. 
A moça, vinte anos, foi internada na Enfermaria aos quinze anos para tratar 
de complicações secundárias à sua paraplegia. Durante os dois últimos anos de 
hospitalização, defrontou-se, certo dia, com uma perda real, causa de muito 
sofrimento: a morte do pai. 
“Camila é boa moça, pois não causa tumultos na instituição” – discurso mais 
freqüente a refletir seu estado de ânimo no leito, uma vez que dorme mais do que 
17 
 
deveria. Alegavam os médicos que seu estado era terminal e, por isso, a equipe a 
mantinha afastada de ser falada na reunião. Porém, a “psicanálise reivindicou” o 
retorno da paciente para a “reunião das segundas-feiras”, quando poderia ser 
discutido se a paciente apresentava uma tristeza ou uma depressão. Se a tristeza de 
Camila é razão de dúvida quanto o significado da sua dor psíquica, certamente as 
dores conversivas de Elisabeth também o seriam, acaso pudéssemos transpor, 
imaginariamente, a paciente de Freud para a Enfermaria. 
Discorremos sobre Elizabeth no Capítulo IV – A DOR QUE PETRIFICA –, ao 
mesmo tempo em que acrescentaremos algumas considerações sobre o caso Alice 
– um dos temas desta introdução. 
Elisabeth tinha vinte e quatro anos quando foi atendida por Freud, em 1892, 
com quadro de dores conversivas que tinham origem em um reumatismo muscular 
crônico comum. Mais uma vez, levantamos a hipótese de que,se o caso da jovem 
fosse discutido nas “reuniões das segundas-feiras”, ela seria tratada como uma 
“pitiática” e inscrita como aquela que “não tem nada”. O diagnóstico médico de “piti” 
exigiria uma mediação psicanalítica, pois está situado no campo do sintoma 
histérico. Elisabeth, provavelmente, receberia alta o mais breve possível, pois suas 
dores não se enquadrariam na fenomenologia da dor orgânica, como é o caso de 
Ricardo. 
Tema principal do Capítulo V desta dissertação – A DEMANDA PELO 
GRITO –, Ricardo, treze anos, apresentava as conseqüências de ser portador 
de doença orgânica crônica pouco conhecida pela medicina. Sofria fortes dores 
físicas em queimação e também psíquicas. Demandava, em gritos, pela presença da 
mãe, que pouco respondeu ao seu chamado. 
Mais uma vez, perguntamos sobre a função da psicanálise na “reunião das 
segundas-feiras”, frente a um caso em que manifestações fenomenológicas davam 
margem à duvida quanto ao diagnóstico de psicose ou de histeria. 
Sem dúvida, uma questão perpassa todo este trabalho: a escuta psicanalítica 
na clínica do cuidar. A fim de sintetizarmos nosso objetivo maior, não poderíamos 
deixar de discorrer sobre o caso de Alice; ele abarca os temas principais vividos no 
cotidiano da Enfermaria de Adolescentes, onde o sofrimento físico é objeto primeiro 
de intervenção dos profissionais. 
18 
 
1. 3 As dores de Alice no reino das pedras 
 
 
O caso Alice talvez tenha sido um dos mais discutidos e exigiu exaustiva 
“presença” psicanalítica. Deram-lhe muita ênfase na “reunião das segundas-feiras”, 
e a psicanálise teve sua participação de imediato, pois, como veremos, uma questão 
ética se impunha. 
Alice estudou até a terceira série do primeiro grau e, após algumas 
reprovações, desligou-se da escola aos treze anos. Deu início às suas atividades 
laborativas como babá, desempenhando a função até casar-se. Aos dezessete anos 
decidiu viver com Marcelo e fez a opção de demitir-se do emprego para cuidar do 
marido e da casa. Aos dezoito anos (1995), foi internada na Clínica de Ortopedia do 
HUPE, sendo posteriormente transferida para a Enfermaria de Adolescentes. 
Queixava-se de fortes dores na perna esquerda; a descrição detalhada dos 
sintomas não deixava dúvida quanto à fenomenologia da dor orgânica. Estava 
grávida, no terceiro mês, de uma gestação planejada e desejada. 
Na Enfermaria, foi submetida, pela equipe médica, a uma série de exames 
sofisticados e a inúmeras sessões clínicas, das quais participamos. Os resultados 
registraram que o problema não era ortopédico; o diagnóstico diferencial da Clínica 
Oncológica confirmou trombose venosa profunda (obstrução de um grande vaso) e 
câncer do tipo sarcoma de partes moles da coxa esquerda. O sarcoma era de alto 
grau de malignidade e invadia o corpo da paciente, alojando-se na parede do útero, 
ao mesmo tempo em que o feto se desenvolvia. 
A partir do diagnóstico com um prognóstico desfavorável para a adolescente, 
Alice entrou numa via crucis de tratamento que passou a fazer parte de uma rotina 
hospitalar. A interrupção da gestação facilitaria o tratamento, no sentido de poder ser 
instituído de forma mais “agressiva”, inclusive, com radioterapia associada. Também 
facilitaria melhor investigação e acompanhamento com métodos radiológicos. 
Instaurou-se, dessa maneira, uma questão ética: o que seria o melhor para a 
paciente, do ponto de vista da medicina, sem deixar de levar em consideração o 
desejo de Alice em manter a gravidez. 
19 
 
Sugerimos que a medicina deveria “recalcar o sujeito” para obter o 
diagnóstico da doença orgânica. Isso significa tratar e curar o paciente: a prática 
médica faz essa exigência. Nessas horas de impasse, é função da psicanálise 
deixar falar o sujeito junto à medicina. No caso de Alice, foi revelada uma situação, 
que se constituiu num paradoxo entre câncer e desejo. Além disso, tivemos também 
de escutar, com muita atenção, o discurso dos médicos. 
Marcelo, desempregado, acompanhava Alice diariamente na Enfermaria; sua 
presença contribuiu para que ambos tomassem ciência das eventuais complicações 
e riscos que a manutenção da gravidez poderia ocasionar. Porém, não hesitaram, ao 
redigir uma declaração, em manifestar seu consentimento quanto à quimioterapia – 
opção de tratamento menos agressivo. Assim, o desejo de ter o filho foi anunciado e 
ratificado em ato escrito. 
A escuta psicanalítica teve início logo após a conclusão do diagnóstico 
médico. O único caminho a seguir era o que orientava para o bem dizer da paciente: 
ao falar, ela se mostrava desejante pela maternidade. Mas como desejar frente a 
uma experiência tão avassaladora, como o sofrimento de ter um câncer? 
O caso da adolescente não correspondeu integralmente à concepção 
psicanalítica de Freud (1914), quando este menciona a retirada do investimento 
libidinal dos objetos de amor do sujeito, ao ser afetado por uma doença orgânica. 
Por outro lado, ratifica-se sua observação sobre o narcisismo dos pais ou, melhor 
dizendo, sobre o narcisismo de algumas mulheres: 
 
“Mesmo para as mulheres narcisistas, cuja atitude para com os homens 
permanece fria, há um caminho que leva ao amor objetal completo. Na 
criança que geram, uma parte de seu próprio corpo as confronta como um 
objeto estranho, ao qual, partindo de seu próprio narcisismo, podem então 
dar um amor objetal completo” (Freud, S., idem: 106). 
 
O “amor objetal completo”, acima referido por Freud, vinha para Alice 
representado no ideal da maternidade, favorecendo sua adesão ao tratamento 
médico. Podemos dizer que houve uma prevalência da maternidade sobre a doença, 
como ilustra o esquema a seguir: 
 
 Alice SM (SUJEITO MATERNIDADE) 
 SD (SUJEITO DOENÇA) 
20 
 
Apesar disso, a libido dividiu-se entre a luta contra o câncer e o desejo de ser 
mãe. Uma vez identificado à maternidade, o sujeito não deixou de amar enquanto 
sofria. Houve, durante a internação, um enorme gasto de energia psíquica: a 
paciente sofria tanto por dores do câncer, como também por manter-se desejante. 
Ao decidir-se pelo nome de menina, optou por homenagear uma de suas 
médicas, cujo nome lhe fazia lembrar a dedicação da profissional no período em que 
foi tratada de um grande sofrimento. Por saber da gravidade da sua doença, 
expressava-se culpada, ao dizer que não poderia prestar os cuidados maternos à 
criança, juntamente com o marido que tanto amava. Apresentava-se em privação 
diante de um dano real. Sua tristeza acentuou-se ao ter conhecimento de que a 
criança poderia nascer e que ela, provavelmente, não exerceria a maternidade. A 
escolha não lhe passou impune: tomava posse de um desejo que, segundo suas 
palavras, se realizaria “pela metade” – causa de um grande conflito. 
O sofrimento provocado pelas dores do câncer não estava dissociado nem da 
fala da paciente, nem da nossa escuta. Acentuamos ser a função do psicanalista 
escutar o que um sujeito diz para além de uma dor física; porém, quando as queixas 
de sintomas somáticos se repetem com freqüência em nossa escuta, temos de 
remeter os pacientes aos médicos. No caso, isso foi uma constatação, significando 
que, em ocasiões como essa, não temos como escutar um paciente devido à 
intensidade do quadro álgico que faz calar o sujeito. 
Na tentativa de realizar o ideal da maternidade – o “amor objetal” –, a 
paciente esbarrou com a rapidez cronológica de um câncer que levava vantagem 
sobre o tempo lógico do seu desejo. É a partir da clínica que constatamos a 
improbabilidade de um sujeito fazer um câncer, pois se o quisesse desfazer não 
conseguiria. Tal hipótese está voltada para uma visão confusa da abordagempsicossomática e pensamos ser devida à falta de experiência clínica de alguns 
profissionais, no hospital, com pacientes portadores de doenças orgânicas. 
Com o avançar das terapêuticas invasivas, Alice passou a sofrer todas as 
conseqüências de uma quimioterapia. Os cabelos caíram e a paciente os guardou 
num saco plástico; alegou assim proceder por receio de perder o companheiro. Os 
cabelos podiam representar a máscara da feminilidade, que a moça tentava, de toda 
a maneira, preservar. Necessitava, também, reter algo diante de tantas perdas. 
21 
 
Os atendimentos psicanalíticos mantiveram-se mais de uma vez por dia, 
mesmo com a dificuldade de sermos freqüentemente interrompidos pelos vários 
especialistas que atuavam no caso – fato comum no cotidiano hospitalar e desafio 
ao psicanalista para encontrar a melhor estratégia de efetivar-se a escuta. 
O quadro clínico da paciente evoluiu progressivamente com aumento das 
dores, coincidindo, inclusive, com os períodos de ausência do marido que voltou às 
atividades de trabalho e, por isso, não pôde mais participar do tratamento de Alice. 
Um aspecto muito discutido em reuniões clínicas foi a alteração no quadro álgico 
associada a essa ausência. 
Apesar da gravidade da doença, havia como pensar na relação dor-histeria. 
Lembramos que Freud (1895), no caso Elisabeth, menciona alguns quadros 
orgânicos comuns como passíveis de sofrerem alteração, devido à condição 
subjetiva do paciente. Acrescentamos aos ditos freudianos que todo e qualquer 
quadro de dor poderá ser alterado, seja por diminuição, seja por intensificação. 
Já em 1926, no texto “Inibições, sintomas e angústia”, Freud amplia suas 
pesquisas e verifica o desaparecimento até mesmo das “dores físicas mais 
intensas”, caso haja “desvio psíquico por algum outro interesse”. Tais elaborações 
teóricas remetem a outra questão igualmente importante: se “a dor é imperativa”, 
como poderá deixar de surgir? 
As dores de Alice nunca cederam, mesmo com “desvio psíquico” 
representado pelo desejo da maternidade. Em alguns momentos, foram alteradas e, 
através da fenomenologia da dor, os médicos davam subsídios para pensarmos nos 
mecanismos psíquicos da histeria interferindo na dor física. 
Levantamos, assim, uma hipótese: Alice, talvez, estivesse recusando-se a ver 
os riscos que existiam também para o feto. Dar continuidade à gestação significava 
modificar o protocolo de tratamento para esquemas alternativos, além de submeter o 
feto aos riscos de baixo peso, prematuridade, alteração no desenvolvimento 
psicomotor, dependência a opiáceos ou até o óbito. 
Mais uma vez, cabe-nos perguntar: caso essa hipótese fosse confirmada, 
haveria a possibilidade de aparecimento de um sintoma psíquico desencadeado pelo 
conflito entre ter o filho e recusar-se a assumir os possíveis riscos para o feto? 
22 
 
Devido à intensa dor física apresentada pela paciente, foi necessária a 
colocação de um cateter no espaço peridural para analgesia, com morfina e 
marcaína. Os protocolos de quimioterapia eram realizados sem qualquer resposta. 
Perturbada pela dor, num quadro de muita angústia, Alice ora chorava, ora se 
calava. Poderíamos dizer que ela se encontrava diante de um real sem sentido. Na 
verdade, havia uma exigência premente de sentido. Certa feita exclamou: “É tudo 
insuportável”, fazendo um apelo ao Outro, como um tradutor a sustentar seu 
sofrimento: dores físicas e psíquicas misturavam-se numa manifestação de tristeza, 
na vertente de um luto irremediável. 
Alice, embora tenha deparado com várias perdas, não abriu mão de seu 
desejo; pelo contrário, revelou-se como sujeito da enunciação, tentando uma saída 
para a questão que se apresentou de imediato com o diagnóstico de um câncer 
durante a gravidez. O processo de luto iniciou-se no momento em que fora 
comunicada das possíveis perdas conseqüentes. Sua tristeza era uma resposta 
subjetiva, traduzida no olhar de despedida para as pessoas queridas e para a vida. 
A adolescente, ao estar ligada amorosamente aos seus ideais, em especial à 
gravidez, foi experimentando uma profunda decepção e prejuízos psíquicos. 
Ao atingir idade gestacional de trinta semanas, com o feto no peso de um 
quilo, foi-lhe indicada cesariana, em precisão e sabedoria dignas de médicos com 
“mãos de mestres”. A filha nasceu necessitando de prótese ventilatória e apresentou 
sinais de dependência à morfina; ficou um período na incubadora, impossibilitando à 
mãe amamentá-la, o que significava mais uma perda. Ratificamos, na ocasião, a 
necessidade de dar continuidade à escuta, mesmo que a paciente só se 
expressasse por monossílabos. Estava muito triste e, por isso mesmo, insistíamos 
em escutá-la: o falar possibilita, como sabemos, o “ancoramento” da angústia. 
Embora em quadro de profundo sofrimento, a paciente ainda anunciou 
orientação psíquica, com objetivo de concordar com mais uma intervenção invasiva: 
a cordotomia – secção de um dos cordões laterais da medula para fins de analgesia. 
Esse fato remete a uma situação vivida por Freud: ao ser submetido a ato 
cirúrgico, devido ao câncer na mandíbula superior, necessitou da implantação de 
uma mandíbula mecânica. Ao ser entrevistado por George S. Vierek, em 1930, disse 
que detestava aquela mandíbula, mas preferia ter aquele aparelho a não ter 
23 
 
mandíbula, ter sobrevivência à extinção. Encerrou sua prática, após cinqüenta e três 
anos de trabalho, enfrentando o câncer. 
Esgotados todos os recursos médicos a seu favor, Alice viu-se diante de uma 
clínica paliativa, o que nos faz indagar qual a referência psicanalítica diante de uma 
prática médica que passa a ter, como único objetivo, a função de atenuar o 
irremediável de um estado terminal. 
A palavra paliativo, de origem latina, palliatu, apresenta etimologia cuja 
significação é ”coberto com capote”, num indício de disfarce das aparências 
(Ferreira, A. B. H., 1975: 1021). Conseqüentemente, podemos aludir aos cuidados 
paliativos como um “disfarce” necessário para mascarar e amenizar um sofrimento 
que não tem remédio. 
A doença, em sua fase terminal, indicou a proximidade da morte que 
enclausurou a paciente, silenciosamente, no leito. O câncer é um exemplo muito 
claro da necessidade dos cuidados paliativos. Malengreau (1993) aborda o tema no 
artigo “Para uma clínica dos cuidados paliativos”: 
 
“A proximidade de uma morte anunciada é acompanhada de uma restrição 
semântica das palavras; estas tomam uma consistência imaterial que, 
dizem esses pacientes, se impõem a eles numa prova sem recurso” 
(Malengreau, p., idem: 87). 
 
A “morte anunciada” presentifica as perdas que, antes de tudo, foram de cada 
dia na existência do sujeito. No hospital, o paciente depara com a impossibilidade de 
responder; os profissionais confrontam-se com um desafio ético: o que fazer? Falar 
pelo sujeito, já que este quase nada fala? Com certeza, a posição mais imediata de 
alguns membros da equipe de saúde é a assumir a voz do sujeito para tentar dar 
uma significação ao sofrimento dele e isso tem uma eficácia terapêutica na 
instituição. A esta posição Malengreau (1993), na clínica dos cuidados paliativos, 
nomeou como “humana”, contrapondo-a a outra: aquela “aberta ao humano”, que se 
assemelha à proposta psicanalítica. 
Acrescentamos que, enquanto a primeira postura é verificada na clínica do 
cuidar em geral e os profissionais ficam sujeitos ao “mandamento do amor ao 
próximo”, a segunda, referida ao bem dizer e “aberta ao humano”, não deixa de 
possibilitar o alívio do mal-estar. A psicanálise, portanto, não abandona sua 
24 
 
orientação ética, por mais que sejam dolorosas as ocasiões. Empenha-se em 
testemunhar a fala do sujeito, apartir dos significantes outrora pronunciados pelo 
paciente. A ética do bem dizer não adere à significação, quer na clínica do cuidar, 
quer em seu momento mais crítico: quando do período paliativo. Porém, o analista 
deve saber quais os limites de sua clínica, a partir do grau de afetação dos efeitos – 
reais ou subjetivos – da doença sobre o paciente, para que não espere de alguém 
atormentado por dor e mal estar orgânico “grandes produções inconscientes”. 
Não encerraremos aqui o caso Alice; deixaremos para fazê-lo no Capítulo IV. 
Sua história merece ser particularizada pela expressão dos sintomas de dor – tema 
tão comum e importante para quem lida com a pesquisa de doenças orgânicas 
crônicas, principalmente no hospital. 
Entretanto, damos por finalizado este capítulo introdutório, sublinhando a 
relevância da interlocução da psicanálise na “reunião das segundas-feiras”, no que 
tange aos temas pertinentes ao ato de cuidar, à dor física e dor psíquica, ao 
diagnóstico, à demanda, ao corpo pulsional, entre outros, ao trazer o sujeito com o 
corpo adoecido como principal objeto de discussão de todos aqueles que exercem 
suas atividades clínicas na Enfermaria de Adolescentes. 
25 
 
2 AMOR AO PRÓXIMO NA CLÍNICA DO CUIDAR 
 
 
“28. Aproximou-se dele um dos escribas que os tinha ouvido 
disputar, e sabendo que lhes tinha respondido bem, perguntou-
lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos? 
29. E Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os 
mandamentos é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único 
Senhor. 
30. Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e 
de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas 
as tuas forças: este é o primeiro mandamento. 
31. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo 
como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que 
estes. 
32. E o escriba lhe disse: Muito bem, Mestre, e com verdade 
disseste que há um só Deus, e que não há outro além dele; 
33. E que amá-lo de todo o coração, e de todo o entendimento, 
e de toda a alma, e de todas as forças, e amar o próximo como 
a si mesmo, é mais do que todos os holocaustos e sacrifícios. 
34. E Jesus, vendo que havia respondido sabiamente, disse-
lhe: Não estás longe do reino de Deus. E já ninguém ousava 
perguntar-lhe mais nada”. 
 
(cf Bíblia Sagrada; Marcos 12: 28-34) 
 
2.1 Clínica do cuidar 
 
 
Os profissionais de saúde que trabalham no hospital, espaço institucional que 
acolhe sofrimentos como os males físicos, a dor, a morte e o abandono familiar, 
dentre outros, podem assumir, no exercício de suas atividades, diferentes posturas, 
as quais são determinadas por diversas escolhas éticas. 
26 
 
A psicanálise, ao orientar-se pela ética do bem dizer, isto é, pela ética do 
desejo, encontra muitas barreiras para exercer sua clínica no hospital, pois esta 
instituição faz um apelo forte para a prática de um certo bem querer do paciente. O 
bem dizer, ao contrário do bem querer, exige do sujeito trabalho psíquico e não 
promete a felicidade nem a resolução rápida dos conflitos, tão bem vindos no 
hospital. 
Lacan, no Seminário, livro 7: a ética da psicanálise (1960: 266-7), levanta a 
questão do bem e elucida-a como causa de turbulências, por estar “próxima de 
nossa ação”. Sugere, assim, que, a cada dia, questionemos quanto ao “desejo de 
fazer o bem, o desejo de curar”. Define, entretanto, a prática psicanalítica como um 
“não-desejo de curar”. Ao fazer esse alerta, coloca-nos frente ao engodo de querer o 
bem do sujeito. A psicanálise caminha em contramão à posição dos bens, pois, só 
em sua articulação significante, o sujeito emerge como efeito para dizer sobre seu 
“bem maior”: o seu desejo. 
Difícil tarefa para o analista – sustentar, na clínica do cuidar, a ética da 
psicanálise, tão diferenciada das demais. Lembramos que todos os profissionais que 
escutam no hospital já foram convocados à ordem da compaixão5. Se o psicanalista 
não desconhece a compaixão nem mesmo é isento totalmente dela, a ética da 
psicanálise, por sua vez, enquanto ética do desejo, não é referida à compaixão. 
Mas qual lugar da ética da psicanálise na clínica do cuidar? Para 
respondermos a essa questão, faz-se necessário abordar o ato de cuidar no 
hospital. Partiremos do texto “A ética do cuidar”, onde Figueiredo (1999) refere-se ao 
cuidar sob duas perspectivas: “cuidar como diferente de tratar” e “cuidar como 
sinônimo de tratar”. 
Como exemplo do primeiro caso, a autora cita a figura do médico: cabe-lhe 
examinar, medicar e traçar condutas terapêuticas para o paciente, sem, contudo, 
 
5 Uma leitura diacrônica do vocábulo compaixão, de acordo com Santos (2001: 17), “permite, sem 
dúvida, a interpretação dúplice de sentido que se espraia à família de palavras do mesmo etmo. Por 
um lado, compadecer é padecer com, sofrer com, e por outro é apaixonar-se por, apiedar-se de. O 
vocábulo compaixão integra-se, formal e semanticamente, à família de palavras cujos termos 
geradores possuem dois radicais: padecer e paixão, o primeiro de base erudita; o segundo de base 
vernácula. Em compaixão (cf. compadecimento), lêem-se não só piedade, para, como também, 
sofrimento com. Abre-se ainda a interpretação do vocábulo, com entrosamento filosófico ao sentido 
de ter paixão por, ou melhor sofrer paixão por. O que parece ser interessante é o fato de haver, em 
quaisquer das interpretações, um traço de passividade, ou voltando ao vocábulo erudito, de 
padecimento”. 
27 
 
conviver com ele no cotidiano hospitalar. Por outro lado, quem cuida são os 
profissionais que convivem com o paciente, como o enfermeiro, o assistente social e 
o psicólogo. 
No segundo caso, o significado de cuidar torna-se mais abrangente: quem 
trata é quem convive, ao prestar cuidados ao doente, como a equipe que exerce 
suas funções com filosofia multidisciplinar. Assim, Figueiredo (idem: 130) discorre 
sobre alguns “significados correntes” do ato de cuidar. Para esta pesquisa, 
tomaremos apenas um: o “cuidar como escuta”. A partir de nossa clínica no hospital, 
incluiremos o tratamento do médico de adolescentes como um ato de cuidar, já que 
“convive” com o paciente no cotidiano do processo de internação. 
 
 
2.2 O cuidar como escuta a doentes jovens 
 
 
Escutar não é um privilégio da psicanálise. Contudo, o que anunciamos como 
questão é saber o que os demais profissionais fazem na clínica do cuidar com o que 
escutam, principalmente em se tratando de doentes jovens. 
Dentro da realidade com a qual trabalhamos, o cotidiano de uma enfermaria 
de clínica médica e/ou cirúrgica revela que um estado de adoecimento é sempre 
vivido como uma experiência subjetiva que pode alcançar intensidade drástica na 
vida do paciente. As doenças orgânicas crônicas verificam tal fato, pois fazem 
exigências imperiosas de sentido na vida do sujeito. 
Alguns fragmentos de discursos de pacientes internados na Enfermaria de 
Adolescentes corroboram essas observações: 
 
“Doença dá em poste? Não. Dá em coisa que fala, em coisa que late, em 
coisa que mia. Dá em coisa que tem vida” (Bárbara, dezoito anos – 
diagnóstico: esclerose múltipla). 
 
“O que eu queria ser mesmo era doutora da minha doença, estudar o que 
sinto” (Júlia, dezoito anos – diagnóstico: lúpus eritematoso sistêmico). 
 
“Sonhei com minha própria morte” (Regina, dezoito anos – diagnóstico: 
lúpus eritematoso sistêmico). 
 
28 
 
As falas destacadas sinalizam que a irrupção de uma doença introduz um real 
na vida do sujeito que se soma à relação com a castração – falta fundamental da dor 
de existir –, a qual o orienta em suas relações com a vida. O sofrimento queveio de 
fora intensifica a dor da existência, produzindo questionamentos. Eis um campo fértil 
para a clínica psicanalítica: o que poderá ser escutado da subjetividade do paciente 
em contrapartida ao que não é auscultado em medicina. 
A palavra auscultar tem origem “no latim auscultare, isto é, aplicar o ouvido a 
(peito, o ventre, as costas etc.) para conhecer os ruídos que se produzem dentro do 
organismo” (Ferreira, A. B. H., 1975: 161). Ao encostar o ouvido, o médico obterá 
informações sobre o órgão do corpo humano em disfunção. No sentido popular, 
auscultar é escutar. Auscultar, portanto, é escutar de maneira dirigida. 
A partir da etimologia da palavra auscultar, podemos deduzir, numa imagem 
metafórica, que seria de bom alvitre que o médico escutasse, primeiramente, as 
queixas clínicas de seu paciente, já que indicarão o que deverá ser auscultado e, 
conseqüentemente, diagnosticado, tratado e curado. Porém, um cardiologista, por 
exemplo, poderá auscultar uma disfunção do coração não compatível com a escuta 
das queixas clínicas do paciente. Diante desse fato, o médico deveria, inclusive, 
pensar em causas subjetivas que poderiam estar contribuindo para a expressão da 
disfunção. Freud, no texto “Inibições, sintomas e angústia” (1926), identifica o 
coração como um dos órgãos que mais recebem as descargas motoras do afeto de 
angústia, o que pode indicar um enorme estado de desprazer, despertado no sujeito 
por ocasião de uma experiência de dor psíquica. Pensamos nessa constatação do 
autor como um alerta aos médicos quanto à importância da participação do 
inconsciente no corpo. Isso não quer dizer que, caso o médico levante essa 
hipótese, deva possibilitar o surgimento da escuta da subjetividade a qual não está 
habilitado em seu ofício. 
A escuta do médico tem um objetivo e depende de seu conhecimento em 
anatomia associado ao de fisiologia e fisiopatologia, o que lhe possibilita identificar o 
sintoma orgânico e, conseqüentemente, distingui-lo de um psíquico. Portanto, um 
sintoma como signo de uma doença é sempre patológico e tem uma significação 
para o médico a partir de seu saber prévio. Dessa maneira, a escuta em medicina e 
a eficácia terapêutica de um médico não dependem da escuta da subjetividade do 
29 
 
paciente – esta não é fator relevante para o esclarecimento de uma doença 
orgânica. Ousaríamos dizer que “recalcar a subjetividade” de seu paciente deveria 
ser um exercício do médico em sua escuta. Mas essa tarefa não é tão simples 
assim: um sofrimento físico sempre vem acompanhado de sofrimento psíquico, e 
ambos não são vivenciados separadamente no ato de adoecimento. Isso significa 
que o paciente emite suas queixas orgânicas “permeadas de subjetividade”. Porém, 
um “médico experimentado” 6 poderá conduzir seu atendimento de maneira que não 
deixe “emergir a subjetividade” do paciente em detrimento às queixas relacionadas 
ao sofrimento orgânico. Caso contrário, sua ausculta terá interferências e poderá 
desviar-se da excelência de uma prática médica clínica que tem como objetivos 
diagnosticar, tratar e curar. 
A escuta do psicanalista, ao contrário da do médico, não é dirigida; deve 
deixar emergir a subjetividade do paciente para que ele possa falar de seu 
sofrimento psíquico, que pode ter expressão num sintoma, como o que lhe paralisa 
diante de seus laços sociais. 
O sintoma, em psicanálise, é constituinte da estrutura neurótica e, segundo 
Freud (1926), representa a substituição de uma satisfação pulsional que sofreu o 
processo de recalque, quando o eu, por uma ordem externa, não se associou a uma 
catexia pulsional oriunda do id. Para Lacan (1956), o neurótico fabrica, com seus 
sintomas, o recalque, que é “uma língua”. Esta língua poderá ser traduzida pela 
escuta da linguagem inconsciente dos sintomas, os quais revelam a particularidade 
de cada sujeito: a sua verdade. Além dos sintomas, os sonhos, os atos falhos e os 
chistes são efeitos da formação do inconsciente, que expressam a divisão do sujeito 
ao deparar com a castração, da qual não quer nada saber. 
A escuta do sintoma como verdade do inconsciente, ou seja, da subjetividade, 
é peculiar à psicanálise, pelo estabelecimento da relação transferencial – fato que 
exige, segundo Freud (1912), a atenção flutuante do lado do analista em 
contrapartida à associação livre do lado do analisando. A partir da suspensão dos 
motivos que dirigem a atenção do analista, sua intervenção implica um “escutar 
calado”, o que significa que ele não deve destacar nem priorizar elementos dos 
enunciados do paciente. Essa recomendação técnica tem como conseqüência a 
 
6 Expressão utilizada por Freud no texto “Cinco lições de psicanálise” (1910: 14). 
30 
 
espontaneidade do discurso do paciente que poderá falar sobre “o que lhe vier à 
cabeça”, regra fundamental da psicanálise, anunciada por Freud (idem). 
Ressaltamos, porém, que o psicanalista deve ficar atento para os sintomas 
somáticos que se repetem no discurso de determinados sujeitos em tratamento. 
Esse fato deve trazer incômodo à escuta do psicanalista que deverá levantar 
hipóteses quanto à possibilidade de haver alguma disfunção orgânica. Sobre este 
fato, pensamos que Freud (1900) também faz um alerta aos psicanalistas, ao 
comentar uma passagem de sua clínica. 
Certa feita, Freud (1900: 320-1) recebeu uma paciente que estava em 
tratamento há anos com diagnóstico de histeria (sofria de algias e de marcha 
anormal). A partir das indicações que a clínica psicanalítica lhe permitiu conhecer 
sobre as neuroses, pôde excluir a possibilidade de histeria. Procedeu a um rigoroso 
exame físico, diagnosticando um estágio muito avançado de tabes – quarto estágio 
da sífilis, posteriormente tratado por um médico. Os resultados do tratamento, 
segundo Freud, foram bons. 
No NESA, identificamos uma questão muito comum, relacionada à escuta, 
causa de confusões no cotidiano hospitalar: a “escuta paralela” que se destaca e se 
diferencia daquela necessária ao ato de cuidar – a que particulariza o significante 
adolescência como sinônimo de “período de crise do indivíduo”, perda da imagem 
corporal, conflitos em relação à sexualidade, formação de grupos etc. A 
especialidade adolescência “clama” pela escuta ao abrir um flanco sobre os aspetos 
subjetivos da vida do paciente. Constatamos que, desde as origens da Medicina de 
Adolescentes e à história de fundação do NESA, existe uma valorização da “escuta 
paralela” dos adolescentes. 
O vocábulo Hebiatria é um sinônimo de Medicina de Adolescentes; em grego, 
hebe significa mocidade, derivando-se daí o termo. Para a Organização Mundial de 
Saúde, a segunda década da existência humana, de dez a vinte anos, situa o 
período da adolescência. 
Segundo Coates (1993: 3), as origens dessa especialidade são obscuras. No 
final do século XIX e início do século XX, alguns médicos já demonstravam 
“interesse especial no crescimento e desenvolvimento” de pacientes adolescentes e 
de suas doenças. Um estudo clássico de crescimento dessa faixa etária foi 
31 
 
publicado em 1887, por Bowditch, e, em 1888, Dabney descreveu uma epidemia de 
pleurodinia (dor na pleura) entre estudantes. 
Os médicos ingleses foram os primeiros a ter sua atenção despertada para 
adolescentes nas escolas. A eles devem-se o reconhecimento das particularidades 
dos problemas e a responsabilidade pelos cuidados com a saúde daqueles jovens, 
na tentativa de melhoria da qualidade do ambiente das escolas, da assistência 
médica e da prevenção das doenças e dos acidentes. Em 1885, publicaram um 
código de regras, que teve a sua última edição em 1975, vigorando, até hoje, sob o 
título“Manual de Saúde Escolar”. Aqueles médicos eram generalistas e dedicavam 
grande parte de sua prática aos adolescentes, fato que possibilitava a “escuta”. 
Felix Heald (1992), ao pesquisar informações sobre a origem da Medicina de 
Adolescentes, encontra a primeira publicação clássica do psicólogo G. Stanley Hall7 
(1904), intitulada Adolescência – sua psicologia e relação com a fisiologia, a 
antropologia, a sociologia, sexo, crime, religião e educação. 
Hall (idem) baseia seus estudos a partir de uma teoria genética, inspirada no 
conceito de evolução biológica de Darwin. Segundo o psicólogo, o organismo 
humano, ao desenvolver-se, passaria por estágios similares àqueles, “recapitulando” 
os que ocorreram durante a história da espécie da evolução humana. Assim, 
preconiza estágios de desenvolvimentos, nomeando a adolescência (doze anos ao 
status adulto final – vinte e dois a vinte e cinco anos) como um período da “Sturm 
and Drang” – “tempestade e tensão”. 
Voltadas para um vasto estudo sobre a adolescência, as pesquisas de Hall 
(idem) influenciam na formação dos médicos interessados na “escuta” dos 
 
7 Hall era um homem erudito e discorria sobre vários assuntos, caracterizando-se por um certo 
ecletismo, como podemos observar pelo título de sua obra. Pensamos esse ecletismo como um 
ponto de impasse com Freud. Hall até tentou aproximar-se das idéias de Freud e, em 1908, fez-lhe, 
pela primeira vez, um convite para discursar na Clark University, Massachusets, Estados Unidos, 
por ocasião do vigésimo aniversário da instituição. O encontro entre ambos aconteceu em 6 de 
setembro de 1909, quando Freud pronunciou as “Cinco lições de psicanálise”. 
O psicólogo entusiasmou-se com a psicanálise, fato que o fez ministrar cursos sobre o assunto. 
Num primeiro momento, foi evidente a admiração de Freud (idem: 27) pelo Presidente da Clark 
University, ao qual se referia como “o nosso honrado presidente”. Hall tinha sido extremamente 
gentil com o homem que trouxera a “peste” aos americanos. Porém, seus interesses psicanalíticos 
não vingaram por muito tempo, ao voltar-se para a escola de psicologia individual de Alfred Adler, 
primeiro dissidente da história do movimento psicanalítico. 
 
32 
 
adolescentes. O psicólogo foi reconhecido como o primeiro a produzir uma obra 
científica sobre adolescência. 
Verificamos, através da origem da Medicina de Adolescentes, a preocupação 
dos médicos quanto à extensão dos cuidados aos pacientes, fato que possibilitou a 
criação de alguns serviços. Segundo Coates (1993: 4), na década de 40, centros 
pediátricos começaram a atender pacientes até dezesseis anos, dedicando-lhes 
“atenção especial”. Em 1951, foi fundada a Unidade de Adolescentes no Hospital 
Infantil de Boston, que integrou, nos anos 50 e 60, um centro acadêmico para 
desenvolvimento de programa de treinamento, cujas diretrizes foram “a 
individualidade e as diferenças dos adolescentes, com relação aos outros estágios 
de desenvolvimento durante a vida”. O médico convidado para chefiar a Unidade, 
Dr. Gallagher, era autoridade em Medicina de Adolescentes e enfatizou a “escuta” 
dos jovens: 
 
“A abordagem da Medicina de Adolescentes é semelhante à pediatria e à 
geriatria, generalizada e multidisciplinar em que o médico leva em 
consideração o estágio de desenvolvimento, características, necessidades e 
ambientes de seus pacientes, assim como suas doenças. Também se 
tornou evidente que a maioria dos adolescentes responde favoravelmente a 
médicos que os respeitem e que estão querendo escutá-los” (cf. Coates, 
idem: 6). 
 
Destacamos, na fala do Dr. Gallagher, a atenção dispensada, primeiramente, 
para os aspectos da vida do adolescente, diferenciados dos da doença, 
evidenciando a importância da “escuta”. Questionamos: que escuta é essa tão 
valorizada pela Medicina de Adolescentes? 
Messias e colaboradores (1999) narram que o Serviço de Adolescentes da 
UERJ surgiu a partir da “escuta dos aspectos psicológicos” dos pacientes. No início 
dos anos 70, alunos de medicina e de enfermagem, ao escutarem “as angústias 
geradas pela hospitalização” de adolescentes internados nas diversas enfermarias 
do HUPE, deram origem a atividades recreativas com aqueles pacientes. Esse fato 
exigiu, para sua continuidade, supervisão e orientação teórica, que ficaram sob a 
responsabilidade do Dr. Lindemberg Rocha, psiquiatra, e de Maria Tereza da Costa 
Barros, estagiária de psicologia. Posteriormente, outros psiquiatras e estagiários de 
psicologia aderiram ao grupo inicial. Conforme Messias (idem), naquela fase em que 
o Serviço dava seus primeiros passos, uma ocorrência teve destaque fundamental 
33 
 
para que os estudantes reivindicassem um “cuidado especial aos adolescentes”: um 
surto esquizofrênico de um paciente de dezesseis anos, portador de 
esquistossomose mansônica8, após intervenção cirúrgica, causou muita inquietação, 
com destaque para o aspecto psíquico do quadro clínico. 
A relevância atribuída aos fatores psicológicos impulsionou a criação do 
Serviço de Adolescentes da UERJ, em julho de 1974, na Quarta Disciplina de 
Clínica Médica, chefiada pelo professor Aloysio Amâncio da Silva (clínico geral). 
Desde então, o NESA conta com a participação de profissionais da área de 
psicologia e psiquiatria, que formaram, em 1994, um Serviço de Saúde Mental. Se, 
por um lado, a criação de um Serviço específico voltado para a adolescência é 
fundamental para os cuidados dessa faixa etária, por outro, a “escuta paralela” na 
clínica do cuidar pode levar alguns médicos e demais técnicos da área de saúde a 
“escutarem mais do que deveriam”, como se fossem “psicólogos dos pacientes”. 
Chamamos atenção que esse procedimento é fator de interferência na clínica 
psicanalítica, o que nos faz indagar: quem é esse sujeito “chamado” adolescente de 
que trata a psicanálise? 
Alberti (1996) indica que, durante alguns anos, a adolescência foi tratada pela 
psicanálise como um “período de crise do indivíduo”. A autora comenta o erro de 
Marie Bonaparte, discípula de Freud, que, ao traduzir a frase “wo es war soll ich 
werden” como “o ego deve desalojar o id”, contradiz o verdadeiro sentido da 
expressão: “onde isso era devo advir”. A tradução errônea deu margem ao 
tratamento da Psicologia do ego, em que a eficácia terapêutica se baseava no 
apaziguamento da crise pelo fortalecimento do ego. Um ego forte impediria os 
impulsos do id – causa de mal-estar no sujeito. Assim, essa abordagem não 
considera a possibilidade de surgimento do sintoma como revelador da verdade do 
sujeito; se o adolescente tem “crise”, é porque esta crise sinaliza sua divisão, 
condição de sujeito do inconsciente. 
A “crise” poderá emergir no momento do despertar das pulsões que tomam 
força de tempestade no final da latência e início da genitalidade: a adolescência. 
Segundo Freud (1905), nessa fase da existência humana (a qual se referiu como 
puberdade), o sujeito depara com “o buraco da sexualidade” que não faz sentido e, 
 
8 Doença causada por protozoário que é adquirido no contato com água contaminada e transmitido 
através do caramujo, que é seu hospedeiro. 
34 
 
por isso mesmo, gera angústia. Em termos lacanianos, podemos dizer que o Outro 
do sexo – fonte imaginária de garantias do sujeito –, ao revelar-se incompleto, causa 
decepção. Diante desse “desencontro sexual”, a psicanálise, contrária à teoria de 
reforço do ego, propõe que o adolescente deixe falar sua “crise”, possibilidade de 
bem dizer seu desejo. 
Em nossa experiência no NESA, observamos que a “escuta paralela” ao ato 
de cuidar é baseada na teoria de reforço de ego, que consideraaqueles jovens 
como indivíduos in-divisos, que não comportam a divisão do inconsciente; são 
constituídos pelo desenvolvimento de fases que tendem ao fechamento, conforme 
Hall (1904). 
A escuta do indivíduo, portanto, difere radicalmente da escuta do sujeito da 
psicanálise. Quando é acrescentado aos “indivíduos em crise” o sofrimento da 
doença, os profissionais podem ser convocados, como já ressaltado, à ordem da 
compaixão que vem do Outro – representada seja pela máxima cristã, seja pela 
direção de um Serviço de Saúde. O “cuidar como escuta” a doentes jovens é razão 
para alguns sofrerem paixão, expressando-se pelo que identificamos como “o 
mandamento do amor ao próximo9”. 
 
 
2.3 O amor ao próximo 
 
 
A Bíblia, em algumas de suas referências, confere ao próximo extrema 
proteção, atribuindo-lhe um ideal de amor. No Velho Testamento, Deus ordenou a 
Moisés que falasse aos filhos de Israel sobre as diversas leis, dentre as quais a do 
“amor ao próximo”. Disse o Senhor a Moisés: “Não te vingarás, nem guardarás ira 
contra os filhos de teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo: eu sou o 
Senhor” (Levítico, 19: 13). 
 
9 Nos anos de 1996 e 1997, participamos das aulas do Seminário de Romildo do Rego Barros, na 
Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Rio, cujo tema “narcisismo” levou-nos à reflexão e à 
pesquisa psicanalítica sobre o mandamento bíblico “Amarás a teu próximo como a ti mesmo”. 
 
35 
 
No Novo Testamento, por sua vez, o “amor ao próximo”10 vem como o 
segundo mandamento cristão mais importante, semelhante ao primeiro, o do “amor 
a Deus”. Na passagem bíblica intitulada “O Grande Mandamento”, Jesus foi 
interrogado por um fariseu, doutor da lei, sobre qual seria o grande mandamento da 
mesma, ao qual respondeu: 
 
“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e 
de todo o teu pensamento. 
Este é o primeiro e grande mandamento. 
E o segundo semelhante a este é: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. 
Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (cf. Mateus, 
22: 36-40). 
 
Mas quem é o próximo do mandamento cristão? O irmão? O estrangeiro? 
Através da “Parábola do Bom Samaritano” (Lucas, 10: 26-37), Jesus, de acordo com 
a história, contou ao fariseu que um homem, ao sair de Jerusalém com destino a 
Jericó, foi roubado e espancado por salteadores que quase lhe retiraram a vida. 
Todavia, um sacerdote, ao passar pelo mesmo caminho, no qual vira o homem 
quase morto, não foi capaz de socorrê-lo. Da mesma forma procedeu um levita. 
Porém, um samaritano, ao aproximar-se, moveu-se de “íntima compaixão”, 
prestando os cuidados necessários ao judeu. 
É interessante ressaltar que o benfeitor, excluído por definição do direito a ser 
próximo ao judeu, era um herege – homem considerado errado, tanto na doutrina, 
como na prática da religião. O próximo, de acordo com a história, era um estranho e 
alguém fora do grupo que não partilhava a mesma religião do judeu; mesmo assim, 
usou de misericórdia para com o necessitado. 
A partir da leitura psicanalítica, faz-se necessário analisar se é possível a 
realização desse amor preconizado pela Bíblia. Freud (1930) retorna ao 
mandamento “Amarás teu próximo como a ti mesmo” para criticá-lo com muita 
indignação, porque, de um lado, ele é impossível e, de outro, narcísico ao extremo, 
razão de ser um paradoxo. Segundo ele, o amor não deve ser dado sem reflexão, 
devendo ser fonte de interrogação. Mais adiante (idem: 131), contesta a exigência 
do preceito que não leva em consideração a face oculta do próximo e propõe, então, 
 
10 Mandamento também encontrado em outros livros da Bíblia, tais como Lucas (10: 26), Marcos (12: 
31). 
36 
 
que o amor seja retirado do plano geral, pois não deve ser partilhado com todos. 
Apenas determinados seres humanos merecem nosso amor e este não é universal. 
Quando amamos é porque o outro nos atraiu com um “valor” ou “significação”; caso 
contrário, não conseguiríamos amar um “estranho”. 
O mandamento, segundo Freud (idem: 132), deveria ser escrito de uma outra 
maneira: “Ama teu próximo como este te ama”. Além disso, amamos o igual que 
também comporta o estranho, fato que o ”mandamento do amor ao próximo” 
desconsidera. Sobre o termo estranho, Freud (1919) tece um exame lingüístico, para 
além da equação “estranho não familiar”, estudo que auxilia a esclarecer o 
significado da face desconhecida do mandamento. 
O estranho11 tem relação com o que é assustador, com o que causa medo ou 
horror; pode, ainda, assumir uma característica diferenciada do uso corrente da 
palavra, ou seja, é aquele traço do assustador que provoca o conhecido, velho e 
familiar. O exame lingüístico explicita que: 
1º) Nem tudo o que é não familiar é assustador; 
2º) Algumas novidades são assustadoras; 
3º) Algo tem de ser acrescentado ao que é novo e não familiar para torná-lo 
estranho. 
Em alemão, o termo Unheimlich significa o que não é doméstico; isso vem a 
ser o oposto de Heimlich, que tem o sentido de lar, familiar. A palavra Heimlich tem 
diferentes conotações ou significados, dentre os quais um revela-se igual ao seu 
oposto: Unheimlich. Portanto, algo Heimlich é também Unheimlich. 
Algo que é Heimlich tem o significado de familiar e agradável e, também, o 
que está oculto e se mantém escondido, fora do alcance da visão. Mas o termo 
Unheimlich é apenas usado como o oposto do primeiro significado de Heimlich e não 
do segundo. Porém, Unheimlich é tudo o que deveria ter permanecido oculto, mas 
veio à luz12. 
Podemos inferir, através desse estudo freudiano, que o próximo é, ao mesmo 
tempo, o familiar e o estranho. 
 
11 Segundo a Bíblia, os hebreus foram estrangeiros no Egito. O estranho para os hebreus e árabes 
pode ter conotação de demoníaco e horrível. 
 
12 Freud refere-se a Schelling, que deu um novo conceito a Unheimlich (estranho). 
37 
 
Anunciado pela Bíblia13, o mandamento do “amor ao próximo como a si 
mesmo” proclama a anulação da diferença e universaliza os homens como iguais. A 
psicanálise subverte o preceito bíblico a partir da segunda característica do próximo: 
o estranho. A intolerância ao próximo reside no ponto que revela uma 
dessemelhança em relação ao que era igual ao outro especular e que foi excluído no 
processo identificatório. 
Julien (1996: 106) faz referência ao mandamento bíblico, quando menciona 
que “amar ao próximo como a si mesmo” é explorar seu espaço até o fim. O autor 
nomea algumas “zonas do próximo”, com as quais o sujeito depara ao longo de sua 
existência. 
A primeira é aquela na qual o eu se constitui pela imagem do outro especular. 
É na “fase do espelho”14 que encontramos o primeiro próximo, de acordo com a 
imagem e a semelhança. A imagem é constituinte, sede das identificações 
imaginárias pela equivalência entre o eu e o outro, sustentada pela configuração da 
mesma, lugar dos enganos e ilusões. Se o sujeito ama o outro é porque ele se ama 
na imagem desse outro. Julien (1996) dirá que, nessa fase, o “bem do outro é uma 
extensão do amor próprio, e o amor próprio é uma garantia do bem do outro”. Nela, 
um dia, o sujeito vai experimentar a queda da imagem do semelhante, revelando a 
face oculta do próximo. 
A dessemelhança nessa zona demonstra uma delimitação de espaço, que 
desvela a estranheza do próximo. O outro não quer só o bem do sujeito; também 
almeja o seu mal. Verifica-se, na descompletude da imagem, a hostilidade do 
próximo, na qual o sujeito vê-se frente ao horror do qual tem de se defender. Seguir 
adiante