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Responsabilidade pelo Vício do Produto ou do Serviço
Conceito: Ao lado da exigência de que os produtos e serviços oferecidos no mercado devem ser seguros (responsabilidade pelo fato do produto e do serviço –para que não ocorram acidentes de consumo, a Lei nº 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor) também se preocupa com a adequada funcionalidade dos bens e serviços, ou seja, a colocação de telhas deve impedir a entrada de chuva, o ar-condicionado deve esfriar o ambiente, o aparelho celular deve receber e efetuar chamadas etc. Assim, o CDC determina que, independentemente da garantia oferecida pelo fornecedor (conhecida como “garantia de fábrica”), os produtos e serviços devem ser adequados aos fins que se destinam, devem funcionar bem, atender às justas expectavas do consumidor. A garantia estipulada diretamente pela lei (art. 18 a 21) não pode ser afastada nem diminuída pelo fornecedor (arts. 24ti 25, 51, I). Os vícios referem-se tanto a produtos (art. 18 e 19) quanto a serviços (art. 20). A sua noção é ampla. Além da ideia de adequada funcionalidade, a lei deixa bem claro que o vício pode decorrer de disparidade, com as indicações constantes da oferta e da mensagem publicitária (art. 18 e 20). Simplificando, pode-se afirmar que o produto é considerado impróprio ao consumo quando, por qualquer movo, se revele inadequado. Nesse caso, pode o consumidor, a sua escolha, exigir o reparo, a substituição do produto por outro, em perfeitas condições de uso, o abatimento proporcional do preço, em razão de eventual diminuição do valor da coisa decorrente do defeito, além de indenização por perdas e danos (art. 18, § 1º, do CDC). Os serviços, de outro lado, são considerados impróprios quando se mostrem inadequados para os fins que razoavelmente deles se esperam, bem como quando não atendem às normas regulamentares de prestatibilidade (art. 20, § 2º). Se o serviço não for adequado, pode o consumidor exigir, alternativamente, a reexecução do serviço, a devolução imediata dos valores pagos ou o abatimento proporcional do preço, além de eventuais perdas e danos. Um aspecto importante diz respeito à responsabilidade solidária entre os fornecedores pelos vícios dos produtos: tanto o fabricante quanto o comerciante ou qualquer outro integrante do ciclo de produção do bem estão, igualmente, obrigados a efetuar os reparos nos produtos, proceder à devolução do dinheiro, substituir o produto ou efetuar abatimento proporcional do preço. Portanto, eventual ação ou reclamação no Procon pode ser dirigida contra o lojista, fabricante distribuidor ou qualquer outro fornecedor da cadeia ou contra ambos (art. 18 do CDC). Outro ponto que precisa ser ressaltado é o critério da vida úl para verificar o limite temporal da contagem do prazo de reclamação em caso de vício oculto (art. 26, §3º), o que significa, em termos práticos, a existência de prazos bastante benéficos ao consumidor. 
Diferenciação entre vicio e defeito
O Código de Defesa do Consumidor (CDC-lei 8.078/90), em termos conceituais, estabeleceu uma confusão ao pretender, como fez, utilizar dois termos distintos: "defeito" e "vício". Os defeitos são tratados nos arts. 12 a 14 e os vícios nos arts. 18 a 20. Para entender "defeito" no CDC é necessário antes conhecer o sentido de "vício". 
Vicio: O termo "vício" lembra vício redibitório, instituto do direito civil que tem com ele alguma semelhança na condição de vício oculto, mas com ele não se confunde. Até porque é regra própria do sistema do CDC. São considerados vícios as características de qualidade ou quantidade que tornem os produtos ou serviços impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam e também que lhes diminuam o valor. Da mesma forma são considerados vícios os decorrentes da disparidade havida em relação às indicações constantes do recipiente, embalagem, rotulagem, oferta ou mensagem publicitária.
Os vícios, portanto, são os problemas que, por exemplo:
a) fazem com que o produto não funcione adequadamente, como um liquidificador que não gira;
b) fazem com que o produto funcione mal, como a televisão sem som, o automóvel que “morre” toda hora etc.;
c) diminuam o valor do produto, como riscos na lataria do automóvel, mancha num vestido ou num terno etc.;
d) não estejam de acordo com informações, como o vidro de mel de 500 ml que só tem 400 ml; o saco de 5 kg de açúcar que só tem 4,8 kg; o caderno de 200 páginas que só tem 180 etc.;
e) façam os serviços apresentarem características com funcionamento insuficiente ou inadequado, como o serviço de desentupimento que no dia seguinte faz com que o banheiro alague; o carpete que descola rapidamente; a parede mal pintada; o extravio de bagagem no transporte aéreo etc.
Os vícios podem ser aparentes ou ocultos. Os aparentes ou de fácil constatação, como o próprio nome diz, são aqueles que aparecem no singelo uso e consumo do produto (ou serviço). Ocultos são aqueles que só aparecem algum ou muito tempo após o uso e/ou que, por estarem inacessíveis ao consumidor, não podem ser detectados na utilização ordinária.
Defeito: O defeito, por sua vez, pressupõe o vício. Há vício sem defeito, mas não há defeito sem vício. O vício é uma característica inerente, intrínseca do produto ou serviço em si. O defeito é o vício acrescido de um problema extra, alguma coisa extrínseca ao produto ou serviço, que causa um dano maior que simplesmente o mau funcionamento, o não funcionamento, a quantidade errada, a perda do valor pago — já que o produto ou serviço não cumpriram o fim ao qual se destinavam. O defeito causa, além desse dano do vício, outro ou outros danos ao patrimônio jurídico material e/ou moral e/ou estético e/ou à imagem do consumidor. Logo, o defeito tem ligação com o vício, mas, em termos de dano causado ao consumidor, é mais devastador. Temos, então, que o vício pertence ao próprio produto ou serviço, jamais atingindo a pessoa do consumidor ou outros bens seus. O defeito vai além do produto ou do serviço para atingir o consumidor em seu patrimônio jurídico mais amplo (seja moral, material, estético ou da imagem). Por isso, somente se fala propriamente em acidente, e, no caso, acidente de consumo, na hipótese de defeito, pois é aí que o consumidor é atingido.
Vejamos agora dois exemplos que elucidam a diferença entre vício e defeito.
Exemplo 1
Dois consumidores vão à concessionária receber seu automóvel zero-quilômetro. Ambos saem dirigindo seu veículo alegremente. Os consumidores não sabem, mas o sistema de freios veio com problema de fábrica. Aquele que sai na frente passa a primeira esquina e segue viagem. No meio do quarteirão seguinte, pisa no breque e este não funciona. Vai, então, reduzindo as marchas e com sorte consegue parar o carro encostando-o numa guia. O segundo, com menos sorte, ao atingir a primeira esquina, depara com o semáforo no vermelho. Pisa no breque, mas este não funciona. O carro passa e se choca com outro veículo, causando danos em ambos os carros. O primeiro caso, como o problema está só no freio do veículo, é de vício. No segundo, como foi além do freio do veículo, causando danos não só em outras áreas do próprio automóvel como no veículo de terceiros, trata-se de defeito.
Exemplo 2
Um consumidor compra uma caixinha longa-vida de creme de leite. Ao chegar em casa, abre-a e vê que o produto está embolorado. É vício, pura e simplesmente. Outro compra o mesmo creme de leite. Abre a caixa em casa, mas o faz com um corte lateral. Prepara um delicioso strogonoff e serve para a família. Todos têm de ser hospitalizados, com infecção estomacal. É caso de defeito. É, portanto, pelo efeito e pelo resultado extrínseco causado pelo problema que se poderá detectar o defeito.
Por fim, lembro que o CDC trata vício de maneira muito diferente de defeito, inclusive no que respeita ao agente que pode ser responsabilizado, aos prazos etc. E o chamado acidente de consumo, naturalmente, está relacionado com o defeito, sendo mais devastador e podendo atingir terceiros que não participavam da relação de consumo como no caso relatadono exemplo 1 acima ou, num outro exemplo, como ocorre numa queda de um avião sobre casas ao redor do aeroporto etc.
Caracterização do Vicio de Qualidade e de Quantidade
Vícios de qualidade dos produtos: São aqueles que tornam impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes diminuam o valor, entendendo-se por impróprios aos uso e consumo os produtos cujos prazos de validade estejam vencidos, os deteriorados, alterados, adulterados, falsificados, corrompidos, fraudados, nocivos à vida ou à saúde, perigosos ou em desacordo com as normas regulamentares de fabricação, distribuição ou apresentação, bem como os produtos que, por qualquer motivo, se revelam inadequados ao fim a que se destinam (art. 18, caput e § 6º, I a III). A inadequação, no vício de qualidade, pode ocorrer, portanto, por impropriedade do produto, diminuição de seu valor ou por disparidade informativa. Considera-se inadequado o produto quando é incapaz de satisfazer os tipos determinantes de sua aquisição, ou seja, a legítima expectativa do consumidor, bem como quando não se mostra conforme outros produtos no mercado ou quando não são observadas normas ou padrões estabelecidos para a aferição da qualidade. Os vícios de qualidade são aqueles que tornam os produtos inadequados ao consumo ou lhes diminuam o valor. Podem ser ocultos ou aparentes. Como exemplo de vícios ocultos pode ser considerado o defeito no sistema de freio de veículos; defeito no sistema de refrigeração; som; etc. A estes se pode acrescentar os vícios aparentes, como os que decorrem do vencimento do prazo de validade, adulterações etc.
b) Vícios de quantidade dos produtos: São aqueles em que, respeitadas as variações decorrentes de sua natureza, o conteúdo líquido é inferior às indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou de mensagem publicitária (art. 19). Há disparidade entre o conteúdo e o peso ou medida indicados pelos fornecedores, sendo que a quantidade inferior causa prejuízos ao consumidor, sem, no entanto, alterar a qualidade do produto. Podemos dizer que, sempre haverá um defeito com um vício, assim, como relata Rizzatto Nunes. "Logo, o defeito tem ligação com o vício, mas, em termos de dano causador ao consumidor, ele é mais devastador". No caso do vício podemos dar como exemplo um eletrodoméstico que não funciona, neste caso ele somente causará um transtorno para o consumidor, sendo, portanto, responsabilidade do fornecedor ressarcir o consumidor pelo dano causado. O autor Sergio Cavalieri Filho exemplifica didaticamente a diferença entre vício e defeito, conforme abaixo: Se A, dirigindo seu automóvel zero-quilômetro, fica repentinamente sem freio, mas consegue parar sem maiores problemas, teremos aí o vício do produto; mas se A não consegue parar, e acaba colidindo com outro veículo, sofrendo ferimentos físicos, além de danos nos dois automóveis, aí já será fato do produto. Se alguém instala uma nova televisão em sua casa, mas esta não produz boa imagem, há vício do produto; mas, se o aparelho explodir e incendiar a casa, teremos um fato do produto. Em relação ao defeito, como mencionado anteriormente, o dano é muito maior, que pode não somente atingir o consumidor no aspecto material, mas também na espera moral, psicológica e estética. O defeito tem como característica um resultado devastador, como por exemplo, quando o consumidor adquire um produto e ele além de não funcionar de forma adequada, causa um acidente na residência do consumidor, como por exemplo, um fogão que pega fogo e queima o consumidor, neste caso, estamos falando de acidente de consumo. Nos acidentes de consumo, os fornecedores de produtos e serviços de terem a responsabilidade objetiva de ressarcimento por danos materiais, tem a obrigatoriedade de ressarcir os consumidores no aspecto moral e estético, sempre respeitando os preceitos básicos do Código de Defesa Consumidor, que é a verossimilhança dos fatos alegados e o nexo de causalidade do dano. O serviço é defeituoso quando houver disparidade com as indicações constantes da oferta. Estes são os vícios de quantidade dos serviços prestados. Ex: Se uma escola oferece um curso, com certo conteúdo, a prestação dos serviços a menor faz com que o aluno possa pleitear a completude da matéria e o serviço deverá ser reexecutado.
Dos Responsáveis por indenizar o consumidor.
Quando o objeto da prestação de serviço for a reparação de um vício, aquele que vier a prestar o serviço tem a obrigação legal de utilizar componentes novos, originais e que atendam as especificações técnicas do fabricante, conforme a previsão do artigo 21, do Código de Defesa do Consumidor. Caso esse prestador de serviço resolva, por sua conta, utilizar-se de componentes diversos, a sua prestação de serviço passa a ser considerada imprópria. Isso só não ocorrerá se o consumidor expressamente autorizar a utilização de peças recondicionadas ou fora das especificações do fabricante.
Espécies de responsabilidade
O CDC prevê duas espécies de responsabilidade: a primeira, pelo fato do produto ou serviço, com regramento previsto nos artigos 12 a 17 e a segunda, pelo vício do produto ou serviço, com previsão legal nos artigos 18 a 25. Primeiramente devemos esclarecer as principais diferenças entre tais modalidades, senão vejamos: Segundo entendimento do professor Rizzato Nunes: "O vício é uma característica inerente, intrínseca do produto ou serviço em si. O defeito é um vício acrescido de um problema extra, alguma coisa extrínseca, que causa um dano maior que simplesmente o mau funcionamento, ou não funcionamento, a quantidade errada, a perda do valor pago".
Assim, quando a anomalia resulta apenas em deficiência no funcionamento do produto ou serviço, mas não coloca em risco a saúde ou segurança do consumidor não se fala em defeito, mas em vício. De acordo com a classificação utilizada pelo CDC, um produto ou serviço apresentará vício de adequação sempre que não corresponder à legítima expectativa do consumidor, ou seja, quando a desconformidade do produto ou do serviço comprometer a sua utilidade. Por outro lado, um produto ou serviço apresentará defeito de segurança quando, além de não corresponder à expectativa do consumidor, sua utilização ou fruição for capaz de adicionar riscos à sua saúde ou de terceiros.
Responsáveis pela indenização do consumidor
Conforme prescreve o artigo 12 do CDC, são responsáveis pelos prejuízos causados: o fabricante, o produtor, o construtor, o importador, ou seja, toda cadeia de produção. Mas algumas observações deverão ser feitas com relação às pessoas responsáveis pela indenização do consumidor. Eles respondem pela reparação dos danos causados aos consumidores independentemente da existência de culpa, que significa dizer que, o fornecedor tendo culpa ou não, deve responder pelo prejuízo causado ao consumidor.
Hipóteses em que o fornecedor não responde pelos prejuízos causados
Sabe-se que o fornecedor de serviços responde independentemente da existência de culpa pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos. Mas nem sempre este deverá ser responsável pela reparação dos danos causados. Hipóteses em que o fabricante, o construtor, o produtor ou importador não respondem pelos prejuízos causados. Conforme §3º do artigo 12 do CDC, o fabricante, o construtor, o produtor ou o importador não deverá ser responsabilizado quando provar que não colocou o produto no mercado, ou que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito inexiste, bem como que a culpa é exclusiva do consumidor ou de terceiros.
Quanto ao comerciante
Frequentemente surgem dúvidas com relação ao comerciante, se este é ou não responsável também pelos prejuízos causados ao consumidor. No entanto, o comerciante responde pelos danos causados somente quando na hipótese de o fabricante, o construtor, o produtor ou o importador não puderem ser identificados ou o produto for fornecido sem identificaçãoclara do seu fabricante, produtor, construtor ou importador, bem como se este não conservar adequadamente os produtos perecíveis.
Prazo para reclamar
O CDC apresenta duas regras distintas para regular o direito de reclamar, conforme se trate de vício de adequação ou defeito de segurança. No entanto, conforme prescreve o artigo 26, o consumidor terá o direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação dentro do prazo de 30 dias tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos não duráveis; e 90 dias quando tratar de fornecimento de serviço e de produtos duráveis. Considera-se produto durável aquele que não desaparece com o uso, por exemplo, os automóveis, os eletrodomésticos, etc., e, não durável é aquele produto cujo uso ou consumo importa imediata destruição da sua própria substância, bens (produto ou serviço) se exaurem no primeiro uso ou em pouco tempo. O prazo para reclamar dos vícios começa a contar a partir do momento em que o consumidor constatar o vício.
Responsabilidade objetiva do fornecedor
Conforme visto no Capítulo 2 deste livro, o simples fato de colocar produto ou fornecer serviço no mercado de consumo já gera o dever de indenizar o consumidor pelos eventuais prejuízos sofridos, quer em razão de um inadimplemento contratual, quer em decorrência da prática de um ilícito. Assim, a responsabilidade prevista no CDC unificou as duas modalidades de responsabilidades até então existentes no Código Civil — contratual e extracontratual — e criou uma nova: a responsabilidade pelo fato e pelo vício do produto ou do serviço. Nesse contexto, o fornecedor será responsabilizado em razão de participar única e exclusivamente da relação jurídica de consumo. Trata-se da chamada teoria unitária da responsabilidade civil do fornecedor no CDC. No tocante à responsabilidade pelo fato do produto e do serviço, as atenções estão centradas basicamente na incolumidade física e psicológica do consumidor. Tal assertiva busca amparo no fato de que a expressão “fato do produto ou do serviço” se refere a acidente de consumo decorrente de um produto ou de um serviço defeituosos. Assim, na mesma linha do exemplo acima pontuado, aquele que compra um Tablet que explode em seu rosto ao ser ligado sofre um acidente de consumo em razão de um produto defeituoso. Nessa modalidade de responsabilidade, a preocupação está mais voltada para a segurança do consumidor. Trata-se de responsabilidade que teve como berço para seu desenvolvimento o direito norte-americano no início do século XX. Sobre o tema, destaca Bruno Miragem o paradigmático caso “McPherson vs. Buick Motor Co., decidido pelo Tribunal de Apelações de New York, em 1916. No caso em questão, discutia-se a extensão da responsabilidade de uma fábrica de automóveis pelos veículos por ela fabricados. Na ocasião, decidiu o tribunal que, tendo em vista se tratar de produtos ‘perigosos’, o fabricante tinha a obrigação de adotar precauções não apenas em relação ao comprador do produto, mas também em relação a quaisquer usuários do automóvel, razão pela qual poderia ser imputada responsabilidade por negligência na hipótese de danos a quaisquer terceiros usuários do bem”.[7] Já em relação à responsabilidade por vício do produto e do serviço, o foco da proteção direciona-se mais para a incolumidade econômica. De fato, quando o Tablet adquirido não liga, configurada está a inadequação do produto aos fins a que se destina. Apesar das semelhanças com os vícios redibitórios do Código Civil, concluiremos em breve tratar-se de institutos distintos.
No entanto, vale ressaltar que inexiste um objetivo exclusivo de proteção. O máximo que pode ser identificado é o predomínio de um objeto tutelado em face de outro. Assim, no acidente de consumo, a integridade física é atingida preponderantemente, mas de forma secundária a econômica também será afetada. O inverso também é verdadeiro. Com efeito, devemos destacar as situações limítrofes em que o vício começa a adquirir proporções tamanhas que acaba por se configurar em risco iminente de acidente de consumo. Em contextos fáticos como estes, a repercussão jurídica é de suma importância, em especial no que toca ao prazo que deverá prevalecer: os da decadência do art. 26 ou o prescricional do art. 27 do CDC? Sobre o tema, segue posição do Superior Tribunal de Justiça no sentido de prevalecer, diante da iminência de acidente de consumo causado por um vício de grandes proporções, o prazo prescricional de 5 anos do art. 27 do Diploma Consumerista.
Responsabilidade pelo fato do produto.
A responsabilidade pelo fato do produto está prevista no caput do art. 12 do CDC, que estabelece: “O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro, e o importador respondem, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação, apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos”. 
Definição de produto defeituoso no CDC: O Código de Defesa do Consumidor definiu no art. 12, § 1º, o produto defeituoso como aquele que “não oferece a segurança que dele legitimamente se espera, levando-se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais: I — sua apresentação; II — o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam; III — a época em que foi colocado em circulação”.
As circunstâncias relevantes para a caracterização do produto defeituoso: O art. 12, § 1º, do Código de Defesa do Consumidor leva em consideração algumas circunstâncias para o enquadramento do produto como defeituoso, dentre as quais: ■ a sua apresentação; ■ o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam; ■ a época em que foi colocado em circulação. No tocante à circunstância primeira, o próprio caput do art. 12 do Código do Consumidor prevê o defeito como decorrência da apresentação, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos. Nesse diapasão, a falha na informação constante da rotulagem, embalagem, mensagem publicitária ou qualquer outra forma de manifestação de oferta poderá tornar o produto defeituoso e, consequentemente, gerar um acidente de consumo. Como exemplo, podemos citar um produto cortante, fabricado com lâminas e tecnologia de última geração, cuja embalagem deverá informar adequadamente sobre os riscos na sua utilização. A segunda circunstância presente no rol exemplificativo do dispositivo legal em estudo envolve os usos e os riscos que razoavelmente dele se esperam. Já foi estudado nos subitens precedentes que, a depender da natureza da periculosidade existente, o produto poderá ser fornecido no mercado de consumo. Referimo-nos à periculosidade inerente ou latente, desde que dentro dos limites da normalidade e previsibilidade que razoavelmente são esperadas pelo consumidor, nos termos do art. 8º do CDC. Ainda assim, vale lembrar, o fornecedor deverá informar de maneira ostensiva e adequada sobre a nocividade e periculosidade existentes (art. 9º do CDC), sob pena de o produto tornar-se defeituoso em razão da falha na apresentação, conforme estudado na circunstância supra. O último exemplo leva em consideração a época em que o produto foi colocado em circulação, isto é, se era possível prever a essa época os riscos que o bem de consumo poderia causar no mercado de consumo. Trata-se da análise dos riscos do desenvolvimento, tema que será estudado juntamente com as causas excludentes de responsabilidade do fornecedor, justamente por existir polêmica em torno do assunto. De qualquer forma, o art. 10, § 1º, da Lei n. 8.078/90 é cristalino ao determinar que o “fornecedor de produtos e serviços que, posteriormente à sua introdução no mercado de consumo, tiver conhecimento da periculosidade que apresentem, deverá comunicar o fato imediatamente às autoridades competentes e aos consumidores, mediante anúncios publicitários”.
Responsabilidade pelo vicio do produto 
Encerrada a responsabilidadedecorrente de acidente de consumo (fato do produto ou do serviço), resta analisarmos a responsabilidade pelo vício, ou seja, pela mera inadequação do produto ou do serviço aos fins a que se destinam. Aqui a preocupação maior do legislador fora predominantemente com a incolumidade econômica do consumidor, conforme pontuado no início deste capítulo.
A responsabilidade pelo vício do produto está prevista no art. 18, caput, do Código de Defesa do Consumidor: “Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis respondem solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da disparidade, com as indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou mensagem publicitária, respeitadas as variações decorrentes de sua natureza, podendo o consumidor exigir a substituição das partes viciadas”. Diferentemente do art. 12 do CDC, quando o legislador optou por especificar cada um dos fornecedores (fabricante, produtor, construtor e importador), no art. 18 foi utilizada a expressão “fornecedores”, fazendo alusão ao gênero, representação maior da solidariedade de todos os que integram a cadeia de fornecedores. Aliás, a solidariedade está expressamente prevista no aludido dispositivo. Assim, poderá o consumidor, por exemplo, reclamar o vício de uma TV que não liga perante o comerciante, sem precisar dirigir-se ao fabricante. Numa interpretação inicial do citado dispositivo, constatamos a existência de duas modalidades de vício do produto: 
■ vício de qualidade (cuja disciplina está no próprio art. 18 do CDC); 
■ vício de quantidade (citado no art. 18 e disciplinado no art. 19 do CDC).
Vício de qualidade do produto: De fato, a análise do caput do art. 18 do CDC nos leva a crer que haverá vícios de qualidade quando tornar os produtos “impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da disparidade, com as indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou mensagem publicitária”.
Está nítida a ideia de que o CDC não proíbe a venda de produtos com pequenos vícios, desde que conhecidos pelo consumidor, ou seja, pelo princípio da boa-fé objetiva e os seus deveres anexos de informação, proteção e cooperação, há a necessidade de ampla divulgação quanto à existência do vício, a ponto de ficar bem esclarecido que o motivo do preço diferenciado decorre justamente de tal impropriedade do produto. Desta forma, roupas com pequenos vícios, por exemplo, deverão: 
■ estar em local separado na loja e jamais no meio das demais peças da loja sem qualquer problema (dever de proteção); 
■ com a respectiva placa indicativa do valor a menor em razão do vício (dever de informar); e 
■ de preferência, com algum selo ou sinal indicativo do local onde se encontra o vício na peça de roupa (dever de cooperação). É evidente que pela principiologia inerente ao Código do Consumidor tais impropriedades deverão estar dentro dos limites do razoável, não sendo admitido, em “nenhuma hipótese, contudo, o vício do produto comercializado nestas condições poderá comprometer toda sua utilidade, nem apresentar riscos à saúde ou segurança do consumidor (qualificando-se como defeito), hipótese em que se estará violando diretamente as normas de proteção prevista no CDC”
O prazo de trinta dias para o fornecedor sanar o vício é o prazo legal que deverá imperar, salvo se as partes da relação de consumo convencionarem de forma distinta. Para evitar a utilização de prazos desproporcionais, o CDC estabeleceu os períodos mínimos e máximos no art. 18, § 2º, in verbis: “Poderão as partes convencionar a redução ou ampliação do prazo previsto no parágrafo anterior, não podendo ser inferior a sete nem superior a cento e oitenta dias. Nos contratos de adesão, a cláusula de prazo deverá ser convencionada em separado, por meio de manifestação expressa do consumidor”.
Parte da doutrina consumerista não se conforma com um prazo máximo convencional tão extenso. Esta é a visão de Rizzatto Nunes, para quem, “Por essa regra, o tempo para que um produto viciado fosse consertado poderia ser elevado para 180 dias! É algo inimaginável. O consumidor adquire um produto; paga por ele; ele não funciona; tem de ser levado para conserto; quando lá chega, o fornecedor responde: ‘volte daqui a 6 meses, que o produto estará novinho em folha!’. Pareceria brincadeira, se não fosse norma”.[56] Apesar de respeitar a indignação do renomado doutrinador, vale lembrar que o próprio CDC exige o preenchimento de alguns requisitos para a efetivação de tal convenção sem a violação dos direitos do vulnerável nas relações de consumo: 
■ nos contratos de adesão, a cláusula de prazo deverá ser convencionada em separado; ■ manifestação expressa de concordância pelo consumidor.
Responsabilidade pelo Vicio do Serviço 
Os vícios de qualidade na prestação de serviços estarão configurados, segundo previsto no caput do art. 20 do CDC, quando os tornarem “impróprios ao consumo ou lhes diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da disparidade com as indicações constantes da oferta ou mensagem publicitária. 
O próprio § 2º do art. 20 do Código de Defesa do Consumidor define o que seria serviço impróprio ao consumo: “São impróprios os serviços que se mostrem inadequados para os fins que razoavelmente deles se esperam, bem como aqueles que não atendam as normas regulamentares de prestabilidade”. Mais uma vez, o CDC valeu-se da relação entre vício e inadequação aos fins a que se destina, no caso, o serviço. Assim, se o serviço de polimento e cristalização de um veículo automotor não atingir a finalidade pretendida, tal serviço será considerado viciado, momento em que o consumidor poderá valer se de uma das opções a seguir analisadas.
As opções conferidas ao consumidor diante do vício no serviço: Ante a constatação de vício no serviço, prevê o Código de Defesa do Consumidor que o vulnerável poderá exigir, alternativamente e à sua escolha: 
■ a reexecução dos serviços, sem custo adicional e quando cabível; 
■ a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais perdas e danos; 
■ o abatimento proporcional do preço. A alternativa do inciso I do art. 20 prevê a reexecução dos serviços, sem custo adicional e quando cabível. No entanto, é comum o consumidor não mais confiar num fornecedor que, por exemplo, transforma seu carro preto num prata com o seu serviço de polimento e cristalização. Pensando em casos como este, dispôs o § 1º do art. 20:
Assim, no exemplo citado, o consumidor poderá levar seu veículo a um funileiro de sua confiança para a realização de um novo serviço, que será custeado integralmente pelo fornecedor originário responsável pelo vício. A segunda alternativa conferida ao consumidor envolve a restituição da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízos das perdas e danos. Nunca é demais destacar que o direito à indenização depende de comprovação efetiva de prejuízos materiais e/ou morais. A última escolha que poderá ser feita pelo vulnerável traduz-se na exigência do “abatimento proporcional do preço”. Muitas vezes o consumidor prefere resolver o problema por conta própria a aguardar a boa vontade de um mau fornecedor. Nestes casos, o abatimento proporcional no preço acaba sendo a melhor saída. Sobre o tema, Bruno Miragem ensina que “a pretensão de abatimento do preço deve respeitar a proporção entre a parcela da prestação efetivamente cumprida, e o comprometimento causado pelo vício do serviço, sem prejuízo do direito à indenização por perdas e danos, quando apurados prejuízos ressarcíeis”.
A Responsabilidade Objetiva Do Fornecedor Pelo Vício De Qualidade, De Quantidade E De Serviço
Apesar da ausência de previsão expressa nos arts. 18, 19 e 20, todos do CDC, a responsabilidade do fornecedor pelo vício é objetiva em nossa opinião, mesmo porque esta é a regra prevista no DiplomaConsumerista. Artigo desta lei que corrobora com tal tese é o 23: “A ignorância do fornecedor sobre os vícios de qualidade por inadequação dos produtos e serviços não o exime de responsabilidade”. O dispositivo trata da irrelevância da alegação de ignorância do vício pelo fornecedor, fato que nos leva a crer que a alegação de culpa ou dolo é irrelevante para configurar a responsabilidade num sistema pautado na modalidade de responsabilização objetiva. Ademais, ainda que o artigo se refira aos “vícios de qualidade por inadequação”, a interpretação deverá ser estendida aos demais tipos de vícios — quantidade e de serviço —, pois a expressão utilizada teve influência de Herman Benjamin e de sua classificação a respeito do tema. Ressalta o renomado autor que a “terminologia vício de qualidade por insegurança e vício de qualidade por inadequação raramente aparece no Código. No art. 23, por sugestão minha, mencionam se, expressamente, os vícios de qualidade por inadequação”.
No entanto, destaca-se que o reconhecimento da responsabilidade objetiva do fornecedor por vício não é pacífico na doutrina. Leonardo Roscoe Bessa nos lembra que tanto “no CC como, com muito mais razão, no CDC, não se perquire se o vício decorre de conduta culposa ou dolosa do vendedor ou de qualquer outro integrante da cadeia de produção e circulação do bem. Constatado o vício, surge a responsabilidade. Portanto, parece desnecessário, como faz parcela da doutrina, discutir se a responsabilidade por vício é objetiva ou subjetiva”.[72] O Superior Tribunal de Justiça, porém, já reconheceu que a responsabilidade do fornecedor pelo vício é objetiva: “Não havendo nos autos prova de que o defeito foi ocasionado por culpa do consumidor, subsome-se o caso vertente na regra contida no caput do artigo 18 da Lei n. 8.078/90, o qual consagra a responsabilidade objetiva dos fornecedores de bens de consumo duráveis pelos vícios de qualidade que os tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes diminuam o valor, impondo-se o ressarcimento integral dos prejuízos sofridos”.
Garantias; Prazos Decadenciais e Prazos Prescricionais no CDC. 
As garantias previstas no Código de Defesa do Consumidor — legal e contratual — estão diretamente relacionadas com os prazos decadenciais previstos no mesmo diploma, razão pela qual optamos por trabalhar em conjunto ambos os temas de tamanha relevância prática nas relações jurídicas de consumo. Questões a respeito da contagem do prazo da garantia legal, se deve ser adicionado ou incluído no prazo da garantia contratual, bem como se as causas obstativas da decadência possuem natureza suspensiva ou interruptiva, são apenas alguns dos temas polêmicos a serem tratados neste capítulo.
O Código de Defesa do Consumidor prevê duas modalidades de garantia: 
■ garantia legal; 
■ garantia contratual. Cada uma das modalidades de garantia previstas no Diploma Consumerista possui características distintas entre si, que serão pontuadas a partir do próximo subitem.
O dispositivo da Lei n. 8.078/90 que trata da garantia legal é o art. 24, que prevê, in verbis: “A garantia legal de adequação do produto ou serviço independe de termo expresso, vedada a exoneração contratual do fornecedor”. Trata-se de modalidade de garantia obrigatória a todos os produtos e serviços colocados no mercado de consumo, inclusive os usados, e independe de termo expresso. Nos termos da citada disposição legal, a garantia não poderá ser afastada por convenção entre as partes envolvidas na relação de consumo, mesmo porque se trata de norma de ordem pública inderrogável pela vontade das partes. Ademais, destaca-se que os prazos para reclamar a garantia legal são os decadenciais previstos no art. 26 do CDC, em breve analisados.
Muito se discutiu na doutrina e na jurisprudência a respeito do alcance de o conceito da garantia contratual ser complementar à legal, conforme previsão expressa no caput do art. 50 do Código de Defesa do Consumidor. O questionamento principal sempre girou em torno de saber se o termo complementar significa somar os prazos da garantia legal ao da contratual ou se o prazo da garantia legal estaria inserido no lapso da garantia contratual. Primeira vertente: somam-se os prazos, por exemplo, de um ano da garantia contratual de uma TV — fornecida facultativamente pelo fornecedor — mais os noventa dias da garantia legal, prazo este previsto no art. 26 do CDC. Segunda vertente: se a garantia contratual no exemplo é de um ano, os noventa dias da garantia legal já estariam aí incluídos.
Na doutrina prevalece o raciocínio de que se a lei estabelece que a garantia contratual é complementar à legal, significa que os prazos devem ser somados. O Superior Tribunal de Justiça também vem se posicionando no sentido de que os prazos decadenciais para a reclamação da garantia legal não correm enquanto não expirar o prazo da garantia contratual: “O prazo de decadência para a reclamação de vícios do produto (art. 26 do CDC) não corre durante o período de garantia contratual, em cujo curso o veículo foi, desde o primeiro mês da compra, reiteradamente apresentado à concessionária com defeitos” (REsp 547.794/PR, Rel. Ministra Maria Isabel Gallotti, 4ª T., DJe 22-2-2011).[2] [3] Concordamos com a visão da doutrina apresentada que está consolidada na jurisprudência do STJ de que a melhor interpretação do alcance de garantia contratual ser complementar à legal é que os prazos não começam a correr do mesmo instante e devem, portanto, ser somados. 
Garantia estendida: Na atualidade, é muito comum o oferecimento por parte do fornecedor direto de uma garantia estendida por um preço adicional. Alguns questionamentos surgem em relação ao tema, como se a prática é vedada pelo CDC, bem como quais seriam as vantagens da contratação de mais esse serviço. Conforme já analisado, todos os fornecedores da cadeia de fornecimento, inclusive o comerciante, respondem pelos vícios do produto e do serviço. Ademais, veremos adiante que não apenas os vícios aparentes recebem proteção do CDC, mas também os ocultos, e, pelo critério da vida útil do produto, inadequação surgida após o prazo de 90 dias e dentro da vida útil do produto também caracterizaria uma relação sob a égide da proteção da Lei n. 8.078/90. Em resumo, não enxergamos vantagem na contratação desse tipo de serviço. No mesmo sentido é o pensamento de Leonardo Roscoe Bessa: “Portanto, não se vê qualquer vantagem em adquirir a garantia estendida. Se a contagem do prazo para reclamar dos vícios do produto for realizada corretamente — considerando o critério da vida útil —, o CDC já oferece proteção adequada e suficiente aos interesses do consumidor. É incorreto, inclusive, falar-se em extensão de garantia. Na prática, todavia, o consumidor possui dificuldades em fazer valer o critério da vida útil do produto, seja por desinformação muitas vezes dos próprios órgãos de proteção ao consumidor, seja por lhe faltar disposição de brigar por seus direitos na Justiça”.[4] Por fim, cumpre ressaltar que a Resolução do Conselho Nacional de Seguros Privados n. 296, de 25 de outubro de 2013, publicada no Diário Oficial em 28 outubro de 2013, dispõe sobre as regras e os critérios para operação do seguro de garantia estendida, quando da aquisição de bens ou durante a vigência da garantia do fornecedor, e dá outras providências.
Prazos decadenciais no CDC: Os prazos decadenciais estão previstos no art. 26 do Código de Defesa do Consumidor e referem-se ao período de tempo que terá o consumidor para reclamar os vícios do produto ou do serviço, isto é, prazo para reclamar o descumprimento da garantia legal. Dispõe o aludido dispositivo: O direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação caduca em: 
I — trinta dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos não duráveis; 
II — noventa dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos duráveis. Nos termos citados, o Diploma Consumerista prevê dois prazos decadenciais distintos, a depender da natureza do bemde consumo viciado: 
■ produtos ou serviços não duráveis = prazo decadencial de 30 dias; 
■ produtos ou serviços duráveis = prazo decadencial de 90 dias. Destaca-se inicialmente que os prazos decadenciais relacionam-se à reclamação de vícios, enquanto o prazo prescricional no CDC refere-se ao acidente de consumo, conforme veremos logo mais ao analisarmos o art. 27 da Lei n. 8.078/90. Na visão de Rizzatto Nunes, “Produto durável é aquele que, como o próprio nome diz, não se extingue com o uso. Ele dura, leva tempo para se desgastar”.[5] São exemplos de produtos duráveis a TV, uma geladeira ou um carro. Já o produto não durável “é aquele que se acaba com o uso”.[6] É o caso de uma bebida ou de um alimento. O mesmo raciocínio poderemos aplicar quando da distinção entre serviços duráveis e não duráveis, com a observação de que a durabilidade dos serviços será calculada no tempo em que irá perdurar o resultado da atividade desempenhada, e não no período que levou para efetivar sua prestação. Nesse sentido, é a lição de Leonardo Roscoe Bessa, para quem em “relação aos serviços, a durabilidade concerne ao resultado e não ao tempo de duração da atividade desenvolvida pelo fornecedor”. Assim, pouco importa se o funileiro vai demorar cinco horas ou cinco dias para desamassar e pintar um veículo, pois se trata de atividade com natureza de serviço durável em relação ao resultado esperado. Estes são os prazos para reclamar a garantia legal. Mas, e a garantia contratual, qual o prazo para a reclamação desta, tendo em vista o silêncio do Código do Consumidor a respeito do tema? Concordamos com a posição já manifestada pelo Superior Tribunal de Justiça no sentido de realizar uma interpretação sistemática para aplicar por analogia os prazos do art. 26, que se referem à garantia legal, ao descumprimento da garantia contratual: “Diferentemente do que ocorre com a garantia legal contra vícios de adequação, cujos prazos de reclamação estão contidos no art. 26 do CDC, a lei não estabelece prazo de reclamação para a garantia contratual. Nessas condições, uma interpretação teleológica e sistemática do CDC permite integrar analogicamente a regra relativa à garantia contratual, estendendo-lhe os prazos de reclamação atinentes à garantia legal, ou seja, a partir do término da garantia contratual, o consumidor terá 30 (bens não duráveis) ou 90 (bens duráveis) dias para reclamar por vícios de adequação surgidos no decorrer do período desta garantia” (REsp 967.623/RJ, Rel. Ministra Nancy Andrighi, 3ª T., DJe 29-6-2009). Trata-se mais uma vez da confirmação da tese de que os prazos das garantias contratual e legal não possuem termo inicial juntos, isto é, devem somar-se, conforme já analisado.
Início da contagem dos prazos decadenciais: O Código de Defesa do Consumidor estabelece em seu art. 26, caput, c.c. o § 1º do mesmo dispositivo, que se o vício for de fácil constatação ou aparente inicia-se a contagem do prazo a partir da entrega efetiva do produto ou do término da execução do serviço. Por outro lado, tratando-se de vício oculto, o prazo decadencial inicia-se a partir do momento em que ficar evidenciado o problema (art. 26, § 3º, do CDC).
A questão polêmica nesse tocante consiste em saber se, enquanto não aparecer o vício oculto, não começa a contar o prazo decadencial, estaríamos diante de uma “garantia legal do CDC eterna”?[8] A indagação é de suma importância, pois imaginem um vício num veículo automotor que resolva aparecer vinte anos após a aquisição do bem. Será que neste caso, após vinte anos, seria possível falar em início da contagem do prazo decadencial em razão do surgimento de um vício oculto? Compartilhamos os ensinamentos de Claudia Lima Marques ao responder que não, “os bens de consumo possuem uma durabilidade determinada. É a chamada vida útil do produto”.[9] Como exemplo, a autora fez alusão à durabilidade de cinco anos de um aparelho de DVD.
Causas obstativas da decadência: Dispõe o art. 26, § 2º, do CDC: § 2º Obstam a decadência: 
I — a reclamação comprovadamente formulada pelo consumidor perante o fornecedor de produtos e serviços até a resposta negativa correspondente, que deve ser transmitida de forma inequívoca; 
II — (Vetado). 
III — a instauração de inquérito civil, até seu encerramento
O inciso vetado previa como causa obstativa “a reclamação formalizada perante os órgãos ou entidades com atribuições de defesa do consumidor, pelo prazo de noventa dias”. As razões do veto voltaram-se basicamente para “a ameaça à estabilidade das relações jurídicas, pois atribui a entidade privada função reservada, por sua própria natureza, aos agentes públicos”.
Reclamação perante órgão/entidade de defesa do consumidor não obsta a decadência.
Com efeito, ressalta-se que o tema mais polêmico a respeito do dispositivo ora analisado consiste em saber qual a natureza dessas causas obstativas, se interruptivas ou suspensivas do prazo decadencial. O assunto é de importância ímpar, pois, se considerarmos como interruptivas tais causas, o prazo decadencial recomeça do zero. Assim, no exemplo em que o consumidor venha a formalizar sua reclamação de vício num produto durável perante o fornecedor no 89º dia, após a resposta negativa e inequívoca deste, o prazo de 90 dias recomeçaria do início. Por outro lado, entendendo tratar-se de causas suspensivas, terminado o prazo decadencial voltará a correr de onde parou — se reclamou no 89º dia, o prazo decadencial terminaria em apenas mais um dia. Na doutrina, há divergência a respeito da natureza das causas obstativas da decadência, com uma tendência majoritária aos que defendem tratar-se de causas suspensivas do prazo decadencial.
Apesar de a interpretação mais favorável ao consumidor ser aquela que entende tratar-se de causas interruptivas da decadência, compreendemos que a mens legis coloca-se no sentido de serem causas suspensivas do prazo decadencial, na medida em que o legislador fixou dois marcos: 
■ marco inicial1 — a reclamação formulada pelo consumidor; e 
■ marco final1 — a resposta negativa do fornecedor. 
■ marco inicial2 — a instauração do inquérito civil; e 
■ marco final2 — o respectivo encerramento.
Prazo prescricional no CDC: O prazo prescricional previsto no art. 27 do Código de Defesa do Consumidor refere-se ao acidente de consumo, nos termos da seguinte previsão: “Prescreve em cinco anos a pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto ou do serviço prevista na Seção II deste Capítulo, iniciando-se a contagem do prazo a partir do conhecimento do dano e de sua autoria”. Conforme visto no capítulo anterior, fato do produto ou do serviço nada mais é do que o acidente de consumo decorrente de produto ou de serviço defeituosos. 
Segundo pontuado no Capítulo 4 deste livro, caso relevante e discutido na oportunidade referia-se a eventual conflito entre o CDC e a Convenção de Varsóvia (modificada pela Convenção de Montreal), da qual o Brasil é signatário, disciplinadora das regras do transporte aéreo internacional. Destaca-se nesse momento do presente trabalho que a discussão não se limita à questão afeta à possibilidade ou não da tarifação da indenização oriunda dos danos decorrentes da falha na prestação desse serviço, conforme exaustivamente trabalhado no capítulo pretérito. O tema afeto ao prazo prescricional também é polêmico, pois na aludida Convenção estipula-se um período de 2 anos para a prescrição da pretensão, enquanto no Código do Consumidor o prazo é de 5 anos. Nesse contexto, qual norma deverá prevalecer? O Supremo Tribunal Federal no ano de 2006 entendeu pelo prevalecimento do prazo prescricional de dois anos da Convenção de Varsóvia sob o fundamento de que nos termos do art. 178 da Constituição Federal devem-se observar os acordos firmados pela União no tocante ao transporte aéreo internacional.
PRATICAS COMERCIAIS
Da oferta: Oferta, no contexto de sociedade massificada e disciplinada pelo Código de Defesa do Consumidor, é, nos ensinamentos de Herman Benjamin, “sinônimo de marketing, significandotodos os métodos, técnicas e instrumentos que aproximam o consumidor dos produtos e serviços colocados à sua disposição no mercado pelos fornecedores. Qualquer dessas técnicas, desde que ‘suficientemente precisa’, pode transformar-se em veículo eficiente de oferta vinculante.” Segundo o citado doutrinador, a disciplina da oferta no CDC representa uma das maiores contribuições à reforma da teoria clássica da formação dos contratos. A principal manifestação de oferta é, sem dúvida, a publicidade, que será analisada em capítulo autônomo. Segundo Silvio Luís Ferreira da Rocha, a oferta poderá manifestar-se por algumas espécies: 
■ “oferta determinada pode ser dirigida a uma única pessoa, chamada, então, de oferta individual, ou, a várias pessoas, facilmente identificadas por uma relação jurídica base (v.g., a todos os portadores de um determinado cartão de crédito, ou a todos os professores de uma dada universidade), denominada de oferta coletiva. ■ A oferta indeterminada é aquela feita ao público e o seu traço característico é, justamente, a indeterminação dos destinatários. A oferta indeterminada interessa-nos mais do que as outras espécies porque ela seria o principal ato pré-contratual nos contratos de consumo”. 
O art. 30 do CDC estabelece uma conotação bem ampla sobre a abrangência que o conceito de oferta deverá ter nas relações de consumo, ou seja, a citada prática comercial — a oferta está dentro do Capítulo V da Lei n. 8.078/90, que trata das “Práticas Comerciais” — não se resume à publicidade, por mais que esta seja a principal manifestação de oferta, conforme já pontuado. Toda e qualquer informação, desde que suficientemente precisa e veiculada, poderá enquadrar-se no conceito de oferta para fins da disciplina do Código do Consumidor. Desta forma, podemos considerar a oferta como gênero do qual a publicidade é uma de suas espécies. Ademais, o dispositivo citado também traz conotação abrangente ao estabelecer que a oferta poderá ser “veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação”. Sobre o tema, leciona Rizzatto Nunes que seguindo “a proposição da redação do art. 30, temos que a norma não estabelece limite ao meio de comunicação no qual a mensagem será transmitida. Toda e ‘qualquer forma ou meio de comunicação’ está prevista. Vale dizer, televisão, rádio, cinema, jornal, revista, mala direta, folheto, cartaz, outdoor, telemarketing etc.”. Com efeito, a informação de um vendedor pode caracterizar-se como oferta, desde que suficientemente precisa e veiculada. Aí outros dois requisitos integrantes da primeira característica de oferta: 
■ precisão da informação ou publicidade; 
■ veiculação da oferta. De fato, se o vendedor diz ao consumidor que determinada corrente de lata dourada é de ouro, estará vinculado a cumprir o ofertado e a vender ao vulnerável pelo mesmo preço inicialmente ofertado uma corrente de ouro. A precisão significa exatidão na informação e relaciona-se com um mínimo de concisão a ponto de influenciar o comportamento do consumidor. Ademais, a oferta deverá ser veiculada, ou seja, exteriorizada, levada ao conhecimento do público consumidor ou, ao menos, de um só consumidor. Assim, panfletos impressos com várias ofertas, porém trancados no armário do fornecedor, não podem ser considerados publicidade para o enquadramento na disciplina do CDC.
PUBLICIDADE NO CDC
A publicidade pode ser conceituada como a informação veiculada ao público consumidor com o objetivo de promover comercialmente e, ainda que indiretamente, produto ou serviço disponibilizado ao mercado de consumo. É, conforme visto no capítulo anterior, a publicidade a principal manifestação de oferta, sendo, porém, a definição desta mais abrangente do que a daquela. Isto é, toda publicidade é manifestação de oferta, mas nem toda oferta se resume à publicidade, pois alberga também qualquer informação suficientemente precisa e veiculada como a do vendedor de uma loja comercial. Dois elementos são facilmente identificáveis na definição de publicidade ora apresentada: 
■ necessidade de veicular a informação; 
■ objetivo comercial da publicidade. Realmente, se a informação não for exteriorizada, não haverá publicidade, nem oferta. Assim, o primeiro elemento é a veiculação de uma informação que, em regra, estará afeta a um produto ou serviço disponibilizado no mercado. 
A finalidade comercial também é imprescindível, sob pena de a confundirmos com propaganda, que tecnicamente tem objetivos diversos da publicidade, conforme analisaremos em breve. O Código de Defesa do Consumidor não define publicidade e também não faz exigência de sua existência como forma de promover produtos e serviços no mercado de consumo. Assim, compartilhamos dos ensinamentos de Herman Benjamin no sentido de que, se a publicidade não é dever, é direito do fornecedor, desde que a veicule por sua conta e risco.
Publicidade vs. Propaganda: Na verdade, nem o legislador constituinte fez diferença entre publicidade e propaganda. O art. 220, § 4º, da CF, ao tratar da restrição às mensagens publicitárias dos cigarros, bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos e terapias, denominou-as “propaganda comercial”, ou seja, informações com conotação comercial denominadas propaganda. Por outro lado, quando foi disciplinar a veiculação da informação sobre atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos, a denominação utilizada foi “publicidade” (art. 37, § 1º, da CF). O mesmo podemos identificar no CDC ao tratar da contrapropaganda. Os arts. 56, XII, e 60 do Diploma Consumerista, ao tratar do tema necessidade de veicular nova publicidade escoimada dos vícios de enganosidade ou de abusividade, não denominou o instituto contrapublicidade, mas contrapropaganda. Por fim, a própria jurisprudência do STJ segue a mesma linha, ao definir a informação veiculada no mercado de consumo com finalidades comerciais ora como publicidade, ora como propaganda (REsp 1.266.937/MG, Rel. Ministro Luis Felipe Salomão, 4ª T., DJe 1º-2-2012). Em última análise, apesar de tecnicamente ser possível diferenciar publicidade de propaganda, na prática ambas as expressões são utilizadas para definir as informações veiculadas no mercado de consumo como finalidades comerciais.
PRINCÍPIOS ESPECÍFICOS DA PUBLICIDADE NO CDC
Princípio da identificação fácil e imediata da publicidade: O Código de Defesa do Consumidor prevê em seu art. 36, caput, que a “publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil e imediatamente, a identifique como tal”. Desta forma, a publicidade só estará em consonância com o princípio ora analisado se o consumidor puder identificá-la de forma imediata e facilmente. Diante desse princípio, alguns tipos de publicidade passaram a ter sua legitimidade questionada, na medida em que suas mensagens nem sempre são captadas imediatamente pelos consumidores no tocante ao seu conteúdo comercial. Referimo-nos à: 
■ publicidade dissimulada: É mensagem com conotação jornalística, de cunho redacional. Nela geralmente ocorre uma entrevista ou pesquisa em que o ator principal da publicidade se passa por um jornalista, mas o objetivo comercial de promover um produto ou um serviço é o seu enfoque principal.
■ publicidade subliminar: É a mensagem que não é percebida pelo consciente, mas é captada pelo inconsciente do
consumidor.
■ publicidade clandestina — merchandising: É a técnica de veiculação indireta de produtos ou serviços por meio da respectiva inserção no cotidiano da vida de personagens de novelas, filmes, programas de rádio ou TV, dentre outros. É o caso do galã da novela que aparece em determinada cena, sentado a uma mesa de bar, tomando certa marca de refrigerante que aparece com seu rótulo no plano central da imagem.
Princípio da vinculação da oferta/publicidade: O dispositivo no CDC responsável pelo princípio da vinculação é o art. 30, ao prever que toda “informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação com relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados,obriga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado”. Trata-se de dispositivo que traz as principais características da oferta e, sendo a publicidade a principal manifestação da oferta, o princípio da vinculação é plenamente aplicável às mensagens publicitárias. Assim, ofertou, vinculou. Ou, nas palavras de José Geraldo Brito Filomeno, “prometeu, tem de cumprir”.
Princípio da proibição da publicidade ilícita: Nos termos do art. 37 do Código de Defesa do Consumidor, é “proibida toda publicidade enganosa ou abusiva”. É evidente que estas duas espécies de publicidade não são as únicas modalidades de peças publicitárias ilícitas. Outras mensagens são coibidas pela Lei n. 8.078/90, como aquelas que violam, por exemplo, os princípios da identificação fácil e imediata da publicidade ou o da vinculação. No entanto, em razão da importância de se disciplinarem as duas manifestações ilícitas mais corriqueiras no mundo publicitário, vem o CDC e expressamente proíbe a publicidade enganosa e a abusiva no mercado de consumo. A publicidade enganosa consiste em “qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços” (art. 37, § 1º, do CDC). A publicidade será considerada enganosa por omissão “quando deixar de informar sobre dado essencial do produto ou serviço” (art. 37, § 3º, do CDC). Já a publicidade abusiva é a antiética, capaz de ferir valores da coletividade, tais como “a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança” (art. 37, § 2º, do CDC). Portanto, o princípio da proibição da publicidade ilícita alberga:
 ■ princípio da veracidade — segundo o qual a publicidade não poderá induzir em erro o consumidor; 
■ princípio da não abusividade — pelo qual a mensagem publicitária não poderá ferir valores da coletividade. Além da publicidade proibida, Bruno Miragem lembra ainda da publicidade restrita nos termos do art. 220, § 4º, da Constituição Federal, que prevê: “A propaganda comercial de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos e terapias estará sujeita a restrições legais, nos termos do inciso II do parágrafo anterior, e conterá, sempre que necessário, advertência sobre os malefícios decorrentes de seu uso”. A lei que regulamenta o aludido dispositivo constitucional é a Lei n. 9.294/96.
Princípio da inversão obrigatória do ônus da prova: No tocante à publicidade, determina o art. 38 do CDC uma modalidade de inversão obrigatória, ope legis, do ônus probante, ao estabelecer, in verbis: “O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária cabe a quem as patrocina”. Com efeito, o ônus de provar que a publicidade não é enganosa nem abusiva será do fornecedor, sendo tal inversão decorrente da lei e, portanto, independentemente do reconhecimento de qualquer requisito pelo magistrado, como ocorre com a inversão do art. 6º, inciso VIII, do CDC — inversão ope judicis —, cujo deferimento se dará ante a presença da verossimilhança das alegações do consumidor ou, caso seja ele o hipossuficiente da relação, conforme estudado no subitem 4.3.9 deste livro. A inversão obrigatória do ônus da prova é corolário dos princípios da veracidade e da não abusividade da publicidade, pois se incumbe ao fornecedor veicular mensagens que não sejam capazes de induzir o consumidor em erro, bem como que não sejam violadoras de valores da coletividade, caberá também a ele — fornecedor — comprovar a veracidade e a correção de sua peça publicitária.
Princípio da transparência na fundamentação publicitária: Dispõe o art. 36, parágrafo único, do CDC que o “fornecedor, na publicidade de seus produtos ou serviços, manterá, em seu poder, para informação dos legítimos interessados, os dados fáticos, técnicos e científicos que dão sustentação à mensagem”.[14] É o princípio da transparência na fundamentação da publicidade, pois deverá tornar acessível aos interessados os dados que fundamentam a mensagem. Muito se discute se esse dever se limitaria ao fornecedor ou também seria estendido à agência de publicidade e aos veículos de comunicação veiculadores da mensagem. José Geraldo Brito Filomeno entende que se cuida “de princípio eminentemente ético, e tem por base o dever que é imposto tanto aos anunciantes, como aos seus agentes publicitários e veículos, que, ao transmitirem alguma característica especial sobre determinado produto ou serviço, e caso haja dúvidas a respeito, que a justifiquem cientificamente”.[15] No entanto, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, quando invocada a apreciar eventual responsabilidade dos veículos de comunicação no tocante às publicidades enganosas ou abusivas, vem posicionando-se no sentido de não reconhecer a responsabilização: “A responsabilidade pela qualidade do produto ou serviço anunciado ao consumidor é do fornecedor respectivo, assim conceituado nos termos do art. 3º da Lei n. 8.078/1990, não se estendendo à empresa de comunicação que veicula a propaganda por meio de apresentador durante programa de televisão, denominada ‘publicidade de palco’” (REsp 1.157.228/RS, Rel. Ministro Aldir Passarinho Junior, 4ª T., DJe 27-4-2011). De qualquer forma, dúvida não há de que o princípio da transparência na fundamentação da publicidade é decorrência do princípio da inversão obrigatória do ônus da prova, na medida em que, se ao patrocinador da mensagem cabe o ônus de demonstrar a sua veracidade e a sua correção, deverá fazê-lo por meio dos dados fáticos, técnicos e científicos que dão sustentação à peça publicitária.
Princípio do dever da contrapropaganda: Determina o art. 60, caput, do Diploma Consumerista que a imposição de contrapropaganda será cominada quando o fornecedor incorrer na prática de publicidade enganosa ou abusiva, sempre às expensas do infrator. Veiculada uma publicidade ilícita, qualquer que seja a sua natureza, o mercado de consumo é acometido imediatamente de danos muitas vezes irreparáveis. Desta forma, para tentar minimizar tais prejuízos, poderá ser imposto em face do fornecedor o dever da contrapropaganda, que possui natureza de obrigação de fazer, isto é, de veicular uma nova mensagem publicitária, só que, desta vez, escoimada dos vícios da enganosidade ou da abusividade. Prevê ainda o CDC que a contrapropaganda para atingir a eficácia pretendida deverá ser veiculada nas mesmas proporções da mensagem viciada, como a única forma de desfazer ou, ao menos, minimizar os malefícios da publicidade enganosa ou abusiva. Nesse sentido, estabelece o art. 60, § 1º, do CDC que a contrapropaganda será divulgada: 
■ da mesma forma, frequência e dimensão; 
■ preferencialmente no mesmo veículo, local, espaço e horário. De fato, se a publicidade enganosa ou abusiva foi veiculada no intervalo de um jornal televisivo de âmbito nacional com duração de cinco minutos, a respectiva contrapropaganda para atingir os efeitos desejados não poderá ser divulgada altas horas da madrugada com tempo de trinta segundos, pois não foi da mesma forma, nem dimensão, ainda que possa ter ocorrido no mesmo veículo de comunicação. É o que frequentemente ocorre com as erratas inseridas na mídia impressa num espaço bem pequenino, no canto de uma folha qualquer do jornal.
Publicidade enganosa no CDC
A disciplina da publicidade enganosa no Código de Defesa do Consumidor está prevista no art. 37, in verbis: Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva. § 1º É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmentefalsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços. (...) § 3º Para os efeitos deste código, a publicidade é enganosa por omissão quando deixar de informar sobre dado essencial do produto ou serviço. Da apreciação do dispositivo supra, podemos constatar a existência de duas modalidades de publicidade enganosa: ■ publicidade enganosa por comissão; ■ publicidade enganosa por omissão.
Publicidade enganosa por comissão no CDC: Na publicidade enganosa por comissão, afirma-se algo que não é real ou mostra-se uma situação que não condiz com a realidade, tudo de forma capaz a induzir o consumidor em erro. É o caso do anúncio de um veículo automotor 2.0 em que a informação veiculada é a de que tal carro consegue atingir a milagrosa marca de 20 km/l no trânsito dos grandes centros urbanos. Até o surgimento de tecnologia capaz de conseguir tal façanha, encontra-se aí um bom exemplo de publicidade enganosa por comissão ao afirmar algo que ainda não existe. Também é a hipótese da publicidade das cervejas, que demonstra sempre um ambiente de muita festa e alegria, realidade muito diferente dos malefícios que tal produto é capaz de causar aos seus consumidores, conforme estudaremos em subitem próprio. 
Publicidade enganosa por comissão = afirmar ou mostrar algo inexistente
Publicidade enganosa por omissão no CDC: Já na publicidade enganosa por omissão, o fornecedor deixa de informar sobre dado essencial do produto ou serviço, ou seja, há ausência de informação sobre dado relevante que, uma vez existente, poderia influenciar no comportamento do consumidor. No mesmo sentido são os ensinamentos de Herman Benjamin ao afirmar que é “considerado essencial aquele dado que tem o poder de fazer com que o consumidor não materialize o negócio de consumo, caso o conheça”. Em suma, dado essencial é aquele que, se existisse, poderia influenciar o consumidor a praticar conduta diversa daquela que praticaria caso não soubesse, por exemplo, dos malefícios de determinado produto. Mais uma vez, o exemplo da publicidade das cervejas faz-se condizente com o contexto de publicidade enganosa por omissão. É evidente que “advertências” do tipo “beba com moderação” não informam sobre dado essencial do produto, em especial sobre os prejuízos que a ingestão imoderada é capaz de causar aos consumidores, aos familiares deste e à própria sociedade.
Publicidade enganosa por omissão = deixar de informar dado essencial.
Publicidade abusiva no CDC
O Código de Defesa do Consumidor trata da publicidade abusiva em seu art. 37, caput, ao proibi-la, bem como no § 2º, da seguinte forma: “É abusiva, dentre outras a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança”. Trata-se, portanto, de rol exemplificativo, na medida em que o aludido dispositivo legal valeu-se da expressão “dentre outras”. Apesar de o CDC não trazer uma definição sobre publicidade abusiva, este tipo de mensagem ilícita é caracterizado por trazer informações que ferem valores da coletividade. Nos ensinamentos de Herman Benjamin, o Direito “ainda não descobriu um critério infalível para a identificação da abusividade. Trata-se de uma noção plástica, em formação. Por um critério residual, em matéria publicitária patológica, pode-se afirmar que abusivo é tudo aquilo que, contrariando o sistema valorativo da Constituição e das leis, não seja enganoso”.
A Responsabilidade pela propaganda enganosa e abusiva
A responsabilidade do fornecedor anunciante é objetiva e dúvida não há a respeito do tema. Contudo, existe muita discussão doutrinária a respeito de se haveria responsabilidade da agência de publicidade, do veículo de comunicação e do próprio artista que grava a mensagem publicitária. E, em caso afirmativo, qual seria a espécie de responsabilidade: objetiva ou subjetiva?
Práticas abusivas no CDC
As práticas abusivas cometidas no mercado de consumo têm total relação com o contexto histórico de supremacia do fornecedor em face do consumidor. A partir do momento em que as relações deixaram de ter a característica da bilateralidade na produção — ambas as partes convencionavam, por exemplo, quais cláusulas iriam compor determinado contrato — e passaram para a unilateralidade na produção, em que o fornecedor estabelece o quê, como e quando produzir — contrato de adesão é exemplo desse contexto —, práticas abusivas começaram a ocorrer, e o Direito Civil da época não estava preparado para tutelar esse novo modelo de relação jurídica. De fato, o Código de Defesa do Consumidor, preocupado com a aludida situação de abuso, elencou uma série de situações exemplificativas de práticas abusivas e as coibiu de maneira absoluta nas relações de consumo. Segundo Herman Benjamin, é “compreensível, portanto, que tais práticas sejam consideradas ilícitas per se, independentemente da ocorrência de dano para o consumidor. Para elas vige presunção absoluta de ilicitude”.[1] Tais comportamentos poderão manifestar-se: 
■ no momento anterior à celebração do contrato (fase pré-contratual); 
■ dentro do próprio contrato (fase contratual); 
■ após a conclusão da relação de consumo (fase pós-contratual). 
Ensina Sergio Cavalieri Filho que “mesmo findo o contrato, supondo que o seu adimplemento tenha sido integral e satisfatório, persiste a fase pós-contratual, durante a qual ainda estarão as partes vinculadas aos deveres decorrentes do princípio da boa-fé e ao cumprimento de obrigação contratual secundária (lealdade, diligência, informação), também chamados de deveres post pactum finitum”. Mas, qualquer que seja o momento de sua manifestação, o abuso estará relacionado com a situação de inferioridade técnica, econômica, jurídica/científica ou informacional do consumidor. Ademais, a violação da boa-fé objetiva e de seus deveres anexos estará presente em práticas como estas e não será possível considerá-la como usos e costumes comerciais, na medida em que o CDC não admite o dolus bonus nas relações de consumo que regulamenta. Sobre o tema, vale lembrar do tratado no Capítulo 4 deste livro. Se por um lado nos deparamos com os deveres principais da relação de consumo, como os deveres do consumidor de pagar o prestador de um serviço e o do fornecedor de prestá-lo, existem também os deveres anexos, laterais ou secundários, relacionados basicamente aos deveres: 
■ de informação; 
■ de cooperação; 
■ de proteção. 
Uma das funções da boa-fé objetiva é a de controle que limita o exercício da autonomia da vontade e, consequentemente, da liberdade negocial, norteando o exercício de direitos dos sujeitos da relação jurídica de consumo. Ensina Ruy Rosado de Aguiar Júnior que, na “sua função limitadora da conduta, a boa-fé se manifesta através da teoria dos atos próprios, proibindo: 
■ o venire contra factum proprium [proíbe o comportamento contraditório, uma vez criada a expectativa legítima na outra parte];
■ vedando o uso abusivo da exceptio non adimpleti contractus, quando o inadimplemento da outra parte, no contexto do contrato, não o autorizava; 
■ impedindo o exercício do direito potestativo de resolução quando houver adimplemento substancial, na linguagem do direito anglo-americano, ou quando o inadimplemento foi de escassa importância, na nomenclatura do Código Civil Italiano [adimplemento substancial do contrato];
■ afastando a exigência de um direito cujo titular permaneceu inerte por tempo considerável incompatível (supressio) [e em sentido contrário a surrectio que envolve o surgimento de um direito]; 
 ■ desprezando a exigência de cumprimento de preceito, feita por aquele que já o descumprira (tu quoque) etc.”.
Prática abusivaem sentido amplo, na visão de Herman de Vasconcellos e Benjamin, “é a desconformidade com os padrões mercadológicos de boa conduta em relação ao consumidor”. Nesse sentido, qualquer que seja o comportamento, se estiver em desacordo com aquilo que se espera no tocante à boa conduta — vista está sob o enfoque da boa-fé objetiva —, haverá prática abusiva. Esta também é a visão de Cavalieri Filho, para quem as “práticas abusivas são ações ou condutas do fornecedor em desconformidade com os padrões de boa conduta nas relações de consumo. São práticas que, no exercício da atividade empresarial, excedem os limites dos bons costumes comerciais e, principalmente, da boa-fé, pelo que caracterizam o abuso do direito, considerado ilícito pelo art. 187 do Código Civil. Por isso são proibidas”.
Classificação das cláusulas abusivas: A doutrina costuma classificar as práticas abusivas valendo-se dos seguintes critérios: 
■ quanto ao momento em que se manifestam no processo econômico;
■ quanto à fase em que se encontra a relação contratual. Quanto ao momento em que se manifestam no processo econômico, as práticas abusivas podem ser produtivas ou comerciais. 
■ As práticas produtivas abusivas estão relacionadas com a fase de produção, como no caso de se colocar, no mercado de consumo, qualquer produto ou serviço em desacordo com as normas expedidas pelos órgãos oficiais competentes ou, se normas específicas não existirem, pela Associação Brasileira de Normas Técnicas ou outra entidade credenciada pelo Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial — Conmetro — (comportamento vedado pelo art. 39, VIII, do CDC). 
■ As práticas abusivas comerciais ocorrem numa fase pós-produção, como no contexto de prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor, tendo em vista sua idade, saúde, conhecimento ou condição social, para impingir-lhe seus produtos ou serviços (conduta proibida pelo art. 39, IV, do CDC).
No tocante à fase em que se encontra a relação contratual, as práticas abusivas podem ser classificadas como pré-contratuais, contratuais ou pós-contratuais.
 ■ As práticas abusivas pré-contratuais, como a própria nomenclatura sugere, ocorrerão antes de se chegar à fase do contrato. É o que acontece, por exemplo, com o comportamento do fornecedor de condicionar o fornecimento de produto ou de serviço ao fornecimento de outro produto ou serviço, bem como, sem justa causa, a limites quantitativos (prática vedada pelo art. 39, I, do CDC). 
■ Práticas abusivas contratuais estão presentes no próprio conteúdo do termo contratual que vem composto por alguma cláusula abusiva, como aquela que impossibilita, exonera ou atenua a responsabilidade do fornecedor por vícios de qualquer natureza dos produtos e serviços ou implique renúncia ou disposição de direitos (cláusulas como esta são consideradas nulas de pleno direito pelo CDC, nos termos de seu art. 51). 
■ Por fim, as práticas abusivas quanto à fase em que se encontra a relação contratual podem ser pós contratuais, ou seja, manifestam-se após a “conclusão” do contrato de consumo. Isto porque, conforme visto acima, mesmo findo o contrato, persistem deveres decorrentes dos princípios da boa-fé e da lealdade, permanecendo as partes vinculadas durante algum tempo. Exemplo clássico dessa prática é repassar informação depreciativa, referente a ato praticado pelo consumidor no exercício de seus direitos (comportamento vedado pelo art. 39, VII, do CDC).
Proteção Contratual
No âmbito dos contratos firmados nas relações de consumo, é notória a presença de abusividades, quanto à forma pela qual esses contratos são elaborados, e para tal forma o Código do consumidor tem estabelecido maneiras de proteger os consumidores de tais abusos. Dessa forma, verificamos que a partir do momento que o CDC passou a possibilitar o consumidor de ter mais vantagens nos contratos de consumo, este obteve uma maior proteção e apreciação de seus direitos com mais facilidade. O dever de informar é uma das maneiras de proteção aos consumidores contra esses abusos, trata-se de um princípio fundamental na Lei n.8.078/90, aparecendo no inciso II do art. 6º, formulando uma nova formatação aos serviços e produtos que são oferecidos no mercado. Esse princípio vem para obrigar o fornecedor a prestar todas as informações necessárias acerca de cada produto e serviço oferecido, dentre elas, o preço, as qualidades, as características, os riscos, entre outras, de forma clara e objetiva, sem falhas ou omissões. Trata-se de um dever exigido, mesmo antes do início de qualquer relação, sem mesmo ter sido efetuado qualquer compra, e a informação passou a ser um componente necessário do serviço e do produto, fazendo com que não possa ser oferecido nada no mercado sem as devidas informações. Dessa maneira, observamos que a informação obrigatória sobre os produtos e serviços oferecidos no mercado de consumo pode ser disponibilizada por duas maneiras: uma acontece anterior a aquisição ou acompanha o bem, e a outra é formalizada no instante da obtenção do bem. Outra maneira de proteção é o princípio da transparência, expresso no caput do art. 4º do CDC, que tem como objetivo a obrigação do fornecedor de prestar ao consumidor a oportunidade de conhecer os produtos e serviços que são oferecidos, fazendo com que gere no contrato a obrigação de fornecer o conhecimento prévio do seu conteúdo. Proibições de práticas abusivas são também formas de proteção ao consumidor, incluindo dentre essas práticas as cláusulas abusivas presentes nos contratos de consumo. Esta norma encontra amparo no inciso IV do art. 6º do CDC, e corresponde basicamente à proibição de abuso de direito por parte dos fornecedores, através das suas práticas, inclusive no conteúdo presente dos contratos, por meio das cláusulas inseridas. O princípio da conservação é uma das formas de proteção ao consumidor adotado pelo CDC, amparado de forma implícita no inciso V do art. 6º, e explícita no § 2º do art. 51. Esse princípio conserva o mesmo contrato, mesmo após a ocorrência de alguma modificação das cláusulas que estabeleçam prestações desproporcionais, bem como também depois do direito à revisão das cláusulas em função de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas. Assim, verificamos que o juiz primeiramente deverá observar a presença de cláusulas abusivas nos contratos de consumo e, se existentes, ocorrerá a nulidade absoluta dessas cláusulas, permitindo assim que as demais disposições contratuais mantenham seus efeitos jurídicos. O CDC tem também como forma de proteção adotada, a boa-fé, através do seu art. 51, inciso IV, que se trata de uma regra de conduta, ou seja, corresponde à forma de agir das partes conforme as atitudes de honestidade e lealdade com o propósito de firmar o equilíbrio nas relações de consumo. Dessa maneira, observamos que a boa-fé objetiva é um dos princípios que norteiam os contratos, e exige das partes que propiciem um ambiente favorável a satisfação de ambos, durante aquele acordo que desejam firmar sobre determinado produto ou serviço.  O princípio da equivalência contratual é outra forma de proteção utilizada pelo CDC, o qual está inserido no art. 4º, inciso III, tendo como função o equilíbrio entre as prestações e contraprestações em relação às partes, devido à forma como o consumidor é vulnerável e hipossuficiente. Outra contorno de proteção adotada pelo CDC é por meio do princípio da igualdade, regra fixada no art.6º, inciso II, que tem como objetivo obrigar os fornecedores a oferecer condições iguais a todos os consumidores, sem nenhuma distinção entre eles, com exceção dos que possuem proteção especial, como nos casos dos idosos, gestantes e deficientes, entre outros. Diante dos contratos estabelecidos nas relações de consumo, o CDC reconhece em seus arts. 4º, I, e 6º, VIII, que o consumidor é vulnerável, devido à desinformação quanto aos serviços e produtos oferecidos no mercado. Dessa forma o consumidor torna-se frágil, devido aos aspectos de ordem técnica e econômica. Por não terconhecimento técnico sobre o conteúdo das cláusulas, o consumidor também é reconhecido como hipossuficiente, pois não detém a sabedoria necessária para identificar o significado das cláusulas impostas nos contratos pelos fornecedores. A inversão do ônus da prova é também um dos meios de proteção ao consumidor, que é a parte mais frágil da relação, segundo o art. 38 do CDC. Em regra, toda pessoa que alega algo contra alguém, tem a obrigação de produzir a prova, mas nos processos originados pelos conflitos das relações de consumo, o Código de Defesa do Consumidor permite ao legislador decidir sobre a inversão do ônus da prova a favor do consumidor, ou seja, no caso que o consumidor alegar algo contra o fornecedor, este tem a obrigação de provar o contrário. Esta regra se aplica apenas por duas maneiras, uma é se o legislador reconhecer a verossimilhança dos fatos alegados pelo consumidor, tendo ele entendimento que seja verdadeiro tal alegação, outra é quanto ao reconhecimento da hipossuficiência do consumidor, no sentido de desconhecimento técnico e informático quanto ao serviço ou produto ofertado. A inversão do ônus da prova se concretiza a partir do momento, que o magistrado reconhece e se manifesta, através de uma ou das duas maneiras permitidas, em um caso concreto.
Cláusulas abusivas: As cláusulas abusivas são encontradas constantemente nos contratos de adesão impostos aos consumidores. Elas são elaboradas pelos fornecedores, de modo que acabam exercendo um abuso de poder por parte destes. Essas cláusulas têm como característica estarem em desacordo com as normas do CDC. Para definir a abusividade da cláusula contratual, existem dois caminhos que podem ser seguidos: um é de uma forma subjetiva, que conecta a abusividade mais com a figura do abuso do direito, caracterizado principalmente pelo uso da malícia, desviando suas finalidades sociais, através de um poder concedido a um agente; o outro é uma forma objetiva, que liga a abusividade aos paradigmas modernos, com a boa-fé objetiva ou a antiga figura da lesão enorme, tendo como principal elemento o resultado objetivo que a conduta do indivíduo causa, o prejuízo sofrido pelo consumidor, o desequilíbrio que a cláusula imposta acaba provocando, e a falta de razoabilidade que o contrato exige. Hoje em dia é importante conectar a abusividade a boa-fé objetiva, de modo a observar e verificar os resultados e efeitos que essas cláusulas impostas podem estar causando ao consumidor, e se estas estão em desconformidade com as regras do CDC.  Dessa forma, observamos que o consumidor tem o direito de invocar uma proteção jurisdicional, por meio de leis e normas já existentes, a qualquer momento, para coibir os abusos praticados pelos fornecedores ao incluir cláusulas abusivas nos contratos de consumo. A sanção é, portanto, uma forma única de negar efeito exclusivamente para aquela cláusula que for abusiva, passando a permitir que o contrato continue em vigência, exceto nos casos que o magistrado verificar que a ausência de tais cláusulas no contrato, prejudique e invalide as obrigações entre as partes e o andamento do negócio jurídico. Outra maneira que o magistrado tem de manter o contrato em vigência, mesmo ocorrendo abusividade em determinadas cláusulas, é através da revisão contratual, verificada constantemente nas cláusulas que estabelecem o preço e a forma de reajuste, verificando o juiz a possibilidade de revisão do valor, tendo como objetivo que o contrato não seja invalidado. As sanções específicas referentes às cláusulas abusivas, que são a nulidade de pleno direito ou nulidade absoluta, podem e devem ser impostas de ofício pelo magistrado, quando este reconhecer a abusividade de tais cláusulas, de forma que não precisa ocorrer o pedido de nulidade por parte do consumidor, ou seja, o magistrado pode decidir quanto a aplicabilidade da nulidade dessas cláusulas, independentemente da formulação do pedido na ação ajuizada. As cláusulas abusivas segundo o CDC são matérias de ordem pública e interesse social, e não há na Lei n. 8.078/90, nenhum prazo para pleitear em juízo uma declaração de nulidade da cláusula abusiva, ou seja, a ação é imprescritível. O CDC, através do caput do art. 51, proíbe quanto a elaborações dessas cláusulas abusivas, presentes nos contratos relativos ao fornecimento de produtos e serviços, passando a expor que são nulas de pleno direito. E em seus incisos traz um rol de hipóteses dessas cláusulas que passam a serem nulas. Dentre as hipóteses de cláusulas abusivas que são nulas, analisaremos os seguintes incisos do art. 51: 
O inciso I, observa que o tipo de cláusula de limitar ou excluir a responsabilidade do fornecedor de indenizar, é vedado devido às normas do Código de defesa do Consumidor serem de ordem pública e de interesse social. A responsabilidade do fornecedor de indenizar, quanto à ocorrência de qualquer vício, decorrentes dos produtos ou serviços oferecidos no mercado, são consequências destes deverem disponibilizar produtos e serviços que consigam atender os seus reais fins. Como por exemplo, num caso de um fornecedor oferecer no mercado um aparelho celular, que logo após ser adquirido apresente um vício. Neste caso, o fornecedor responsável pelo aparelho será responsabilizado e tem o dever de indenizar o consumidor lesado. O fornecedor será responsabilizado também nos casos que tente se eximir das devidas responsabilidades, como ocorre nos casos de atraso na entrega do produto, no qual o consumidor tem a obrigação de efetuar o pagamento do produto no devido prazo, e o fornecedor tenta se isentar da responsabilidade da entrega do produto no tempo estabelecido. Este inciso ainda trata da possibilidade da limitação de responsabilidade, nos casos que o consumidor for pessoa jurídica, mas somente mediante situações que forem justificáveis. Para tanto, o CDC exige a presença de requisitos: a existência de alguma vantagem patrimonial em favor do consumidor e que a cláusula limitadora de responsabilidade seja resultado de negociações entre as partes.
O inciso II trata das nulidades referentes às cláusulas que impossibilitem o direito do consumidor ao reembolso ou restituição de quantia já paga, nos casos que são previstos no CDC. Uma das hipóteses que a Lei 8.078/90 relata é por meio de seu art. 49, que determina o direito ao consumidor de desistir do contrato no prazo de 7 dias, a partir do momento da assinatura do contrato ou recebimento do produto ou serviço, mas somente quando a aquisição ocorrer fora do estabelecimento comercial, nesse caso sendo através de telefone ou a domicílio. Outro caso é estabelecido no art. 18, § 1º, inciso II, que determina o direito ao consumidor de requerer a restituição imediata da quantia já paga, corrigida monetariamente sem prejuízos de eventuais de perdas e danos, somente nos casos que o produto ou serviço apresentar vício que não seja sanado em trinta dias pelo fornecedor, ou comprometa a qualidade, o consumo ou diminuam o seu valor, e também em casos de produtos essenciais.
O inciso III retrata a proibição, quanto aos fornecedores, de incluírem nos contratos de consumo, cláusulas que isentem a sua responsabilidade, ou seja, é proibido que o fornecedor, independentemente da relação que possua com terceiros, transferir a estes a sua responsabilidade no que se refere aos produtos e serviços oferecidos no mercado de consumo. Portanto, se verifica, de acordo com o CDC, a proibição de imposição de cláusulas contratual, na qual o fornecedor tenha o interesse de se eximir de sua responsabilidade, transferindo-a a terceiros, devendo este ser obrigado a se manter na responsabilidade, em relação as suas ofertas.
Quanto ao inciso IV, o CDC regula a vedação de cláusulas que coloquem o consumidor em desvantagens exageradas, ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou equidade, ou seja, diminuindo a capacidade do cumprimento do contrato por parte dos consumidores. Entende-se pelas desvantagens exageradas, quanto à ofensa dos princípios fundamentais do sistema jurídico a que pertence, quantoa restrição dos direitos ou obrigações fundamentais inerentes a natureza do contrato, de forma a ameaçar seu objeto ou o equilíbrio contratual, e quando a cláusula se mostra excessivamente onerosa para o consumidor, considerando-se a natureza e conteúdo do contrato, o interesse das partes e outras circunstâncias peculiares ao caso. Dessa maneira, esse inciso busca promover a lealdade e transparência entre as partes, de forma a busca um equilíbrio econômico, eximindo qualquer lesão ao consumidor, uma vez que proíbe também a imposição exagerada da onerosidade, quanto aos preços determinados pelos fornecedores, causando assim um abuso, pois como consequência provocará a dificuldade do próprio consumidor em cumprir com as suas obrigações contratuais. Dessa forma, verificamos que o inciso IV tem por objetivo, fazer cumprir os princípios da equidade e boa-fé, e consequentemente estabelecer um equilíbrio contratual, no qual esses princípios deverão ser reconhecidos por parte do magistrado, em cada caso específico.
De acordo com o inciso VI, o CDC veda a utilização de cláusulas referentes à inversão do ônus da prova em prejuízo dos consumidores, com o objetivo de proteger a parte mais fragilizada da relação de consumo que é o consumidor, ou seja, é obrigação do fornecedor, a formulação de provas durante a ação ajuizada. Isto de uma forma traz uma facilitação para defesa dos direitos do consumidor, e deverá ser concedido através de apreciação e determinação do magistrado, dependendo da situação, que este verificar a necessidade.
 O CDC em seu inciso VII veda a inclusão de cláusulas que impõem a utilização obrigatória de arbitragem. A opção de uma cláusula contratual referente à utilização da arbitragem, para dirimir as divergências que vierem a surgir, é permitida quando há comum acordo fixado entre as partes. Dessa forma, é impedido o fornecedor de impor essa utilização obrigatória. Excepcionalmente se permite o uso desse tipo de cláusulas, quando se trata da relação com pessoa jurídica, onde este esteja em comum acordo para fixação de tal cláusula.
De acordo com o inciso VIII, o CDC proíbe a utilização de cláusulas referentes a nomeação de representante ou procurador em nome do consumidor, pois poderia ocorrer dele agir contrariamente aos interesses do consumidor, dessa forma é vedado a obrigação cambial assumida pelo representante ou procurador. É vedado esse tipo de cláusula, devido as partes contratuais necessitarem de exercer sua vontade individuais, sem que dessa forma aconteça através de representação.
Segundo o inciso IX, o CDC veda qualquer imposição de cláusula contratual nas relações de consumo, que se destine a permitir que o fornecedor pratique o ato de conclusão do contrato, sendo este direito somente facultado ao consumidor, pois a partir do momento que este está concluindo o contrato, ele está também assumindo as obrigações decorrentes deste. Em nenhum instante, o consumidor poderá ser obrigado a concluir o contrato, e se este não for concluído pelo consumidor, se reconhecerá um enorme prejuízo para ele, pois foi concretizado sem sua vontade.
O CDC por meio do inciso X, proíbe a inclusão das respectivas cláusulas que permitam de forma unilateral ao fornecedor, a variação do preço do produto ou serviço, sem a concepção do consumidor, o que causará dessa maneira um desequilíbrio na relação de consumo. Essa proibição tem como objetivo, que o contrato celebrado anteriormente, através da fixação de preço com conhecimento das partes, não seja alterado pelo fornecedor, fazendo com que o consumidor não sofra prejuízo.
O inciso XI do CDC retrata em seu conteúdo, a vedação das cláusulas que determinam a possibilidade unilateral por parte dos fornecedores de cancelar os contratos celebrados anteriormente pelas partes. Somente é permitido cancelar o contrato com consentimento e vontade bilateral de ambas as partes, ou de modo que estas tenham permissão através de cláusula contratual para rescindir o contrato, ou seja, se não respeitada tal forma, implicará superioridade contratual do fornecedor, o qual a lei busca extinguir.
De acordo com o CDC em seu inciso XII, é proibido a utilização de cláusulas contratuais referentes à obrigação do consumidor em ressarcir os custos de cobrança de sua obrigação, sem que o mesmo seja obrigado ao fornecedor, ou seja, trazendo dessa forma uma desigualdade de tratamento na relação de consumo, e assim possibilita um privilégio maior a parte mais favorecida economicamente, e como consequência gera um resultado de desequilíbrio contratual.
O CDC em seu inciso XIII veda a inclusão de cláusulas que permita de forma unilateral ao fornecedor, a alteração do contrato depois que este já esteja celebrado, ou seja, em nenhum momento se poderá alterar qualquer que seja o motivo, o contrato que já foi celebrado entre as partes. Esse inciso tem também como objetivo, estabelecer o equilíbrio contratual, com exceção de ocorrer à possibilidade de alteração do contrato já celebrado, nas hipóteses que as partes contratantes estiverem em comum acordo.
O inciso XIV do CDC, proíbe a imposição de cláusulas contratuais que infrinjam ou possibilitem a violação das normas ambientais pelas partes contratantes, mesmo em caso que estejam em comum acordo. Esse inciso objetiva preservar o meio ambiente, o cumprimento da legislação ambiental, que são assegurados pela constituição federal. Todo ser humano tem direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, para o uso comum e coletivo essencial a sadia qualidade de vida, impondo ao poder público, que defenda e conserve para as presentes e futuras gerações. Dessa forma as partes contratantes deverão ao celebra um contrato de consumo, respeitar a função social do contrato.
Segundo o inciso XV do CDC, é vedado qualquer tipo de cláusula que esteja em desconformidade, com o sistema protetivo ao consumidor, ou seja, aquelas cláusulas que não cumprirem as regras estabelecidas pelas normas que regulam as relações de consumo. Os direitos dos consumidores não poderão ser afastados mediante cláusulas contratuais, e as leis de proteção ao consumidor devem ser respeitadas integralmente, quanto a elaboração dos contratos. Esse inciso, objetiva coibir as cláusulas contratuais que estiverem em desacordo com o sistema protetivo do consumidor e também um equilíbrio contratual.  
O inciso XVI do CDC, proíbe a utilização de cláusulas que possibilitem a renúncia do direito de indenização por benfeitorias necessárias, no qual essas benfeitorias necessárias têm como objetivo conservar ou evitar que se deteriore a coisa. Ao possuidor de boa-fé a lei civil, lhe assegura o direito à indenização e o direito à retenção pelo respectivo valor.
Do Direito de Arrependimento
Conforme exposto, o consumidor tem o direito de desistir da compra apenas quando ela foi feita de forma não presencial. Ou seja, fora do estabelecimento físico. O prazo, conforme mencionado pela lei, é de sete dias, contados do recebimento do produto ou da prestação do serviço. Ademais, o parágrafo único bem preconiza que os valores já quitados serão restituídos de forma integral. Apesar do art. 49 do CDC não mencionar, as compras pela internet também integram o conceito ‘fora do estabelecimento’. O referido diploma legal não faz menção à internet porque é anterior à disseminação online que o mundo vive hoje. Entretanto, as compras feitas pela internet se tornaram os principais alvos do direito de arrependimento, atualmente. Além dela, também adentram nesse rol de possibilidades:
as vendas externas: em que o fornecedor se dirige à residência do consumidor ou ao seu local de trabalho;
as contratações por telefone ou telemarketing;
as compras por correspondência;
as aquisições pela TV ou qualquer outro meio eletrônico. 
A respeito de todos esses casos, é importante lembrar que os contratos pactuados pela internet estão sujeitos à aplicação tanto do CDC, como também do Código Civil e do próprio Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014). Esta última legislação, em vigor desde 2014, estabeleceprincípios, garantias, direitos e deveres para o uso da internet no Brasil e surgiu justamente para reforçar a aplicação do CDC nas relações online. Isso está preconizado no art. 7º, XIII, da referida legislação. O direito de arrependimento, no entanto, nem sempre é atendido de pronto. Ainda hoje, é comum que algumas empresas responsabilizem o consumidor pelas despesas com serviço postal decorrente de devolução de produtos. Entretanto, o entendimento das Cortes Superiores é de que, nesses casos, o consumidor seja ressarcido integralmente de todas as despesas efetuadas. Até porque atribuir esse ônus ao consumidor seria contrariar diretamente a presunção de hipossuficiência que ele apresenta em relação às empresas fornecedoras.
Conforme já mencionado, o direito de arrependimento não se aplica amplamente em favor do consumidor. Quando a compra é realizada no próprio estabelecimento, por exemplo, o cliente só terá direito à devolução do dinheiro se o produto apresentar defeito e se o problema não for resolvido em até 30 dias. Assim está disposto o art. 18 do CDC. 
Um dos poderes administrativos existentes no ordenamento jurídico pátrio é o poder de polícia, que tem por objetivo maior restringir o exercício de direitos individuais em benefício da coletividade. Trata-se de poder respaldado pelo princípio da supremacia do interesse público sobre o particular, segundo o qual, diante de eventual conflito entre o interesse individual e o coletivo, este prevalecerá, em regra. A defesa administrativa do consumidor é realizada pela Administração Pública com fundamento no poder de polícia que, em última análise, visa regulamentar as relações de sujeição geral — como ocorre na obrigatoriedade de todos os fornecedores, sem exceção, respeitarem as regras previstas no CDC —, sem a necessidade da existência de um vínculo específico que seria aquele existente entre a Administração e o servidor público ou com uma empresa contratada pelo Poder Público fruto do poder disciplinar. Isto significa dizer que a multa imposta pela Administração a um fornecedor que descumpriu o Código de Defesa do Consumidor terá amparo no poder de polícia, e não no poder disciplinar, em razão do vínculo de sujeição geral existente. Um dos atributos do poder de polícia é a auto executoriedade, que legitima atuação direta da Administração na imposição de suas medidas de polícia, independentemente de autorização judicial. Tal atributo não exime o Poder Público de conferir os direitos ao contraditório e à ampla defesa ao fornecedor, mas não precisa aguardar uma autorização judicial para impor as sanções administrativas. De fato, apesar de a penalidade poder ser exigida diretamente, quando se tratar de sanção pecuniária, como a pena de multa, a Administração somente poderá executá-la com o auxílio do Poder Judiciário, por meio da propositura de uma ação de execução fiscal. Em suma, por mais que a sanção administrativa seja exigível diretamente, quando tiver natureza pecuniária dependerá de auxílio do Judiciário para ser executada.
Sanções administrativas previstas no CDC
Sobre o tema sanções administrativas, prevê o art. 56 do CDC: 
Conforme acima analisado, o caput do art. 56 do CDC, ao tratar das sanções administrativas, lançou mão da expressão “sem prejuízo das de natureza civil, penal e das definidas em normas específicas”. No mesmo diapasão, prevê o parágrafo único do aludido dispositivo legal: “As sanções previstas neste artigo serão aplicadas pela autoridade administrativa, no âmbito de sua atribuição, podendo ser aplicadas cumulativamente, inclusive por medida cautelar, antecedente ou incidente de procedimento administrativo”. A conclusão a que se chega da análise dos dispositivos legais citados é a de que, além de sofrer sanções administrativas, o fornecedor poderá ser penalizado nas esferas civil e penal, ao mesmo tempo, sem que a cumulação de todas as penas possa gerar bis in idem, basicamente pelo fundamento de que cada uma das sanções possui natureza distinta da outra. Igualmente, as próprias sanções administrativas poderão ser aplicadas cumulativamente a depender da gravidade da infração.
Vide artigos 58 e 59 do CDC. 
	A Contrapropaganda
Conforme acima analisado, o caput do art. 56 do CDC, ao tratar das sanções administrativas, lançou mão da expressão “sem prejuízo das de natureza civil, penal e das definidas em normas específicas”. No mesmo diapasão, prevê o parágrafo único do aludido dispositivo legal: “As sanções previstas neste artigo serão aplicadas pela autoridade administrativa, no âmbito de sua atribuição, podendo ser aplicadas cumulativamente, inclusive por medida cautelar, antecedente ou incidente de procedimento administrativo”. A conclusão a que se chega da análise dos dispositivos legais citados é a de que, além de sofrer sanções administrativas, o fornecedor poderá ser penalizado nas esferas civil e penal, ao mesmo tempo, sem que a cumulação de todas as penas possa gerar bis in idem, basicamente pelo fundamento de que cada uma das sanções possui natureza distinta da outra. Igualmente, as próprias sanções administrativas poderão ser aplicadas cumulativamente a depender da gravidade da infração. No tocante à auto executoriedade, concordamos com Marcelo Abelha ao lecionar que no “âmbito do CDC, podemos dizer que algumas sanções administrativas são auto executáveis pela Administração, outras não. Todas são, todavia, exigíveis e todas gozam de presunção de legalidade (art. 37, caput da CF/88 combinado com o art. 5º, II da CF/88). À exceção da multa e da contrapublicidade, que dizem respeito a obrigações de dar e fazer impostas pela Administração ao administrado, todas as outras são auto executáveis. Como nestas duas penalidades a execução independe da atividade do poder de polícia, elas não são auto executáveis, ainda que o administrado cumpra imediatamente a sanção imposta pela Administração”. Em última análise, em nossa visão será necessária a intervenção judicial determinando a veiculação da contrapropaganda por intermédio de uma ação de obrigação de fazer, caso não seja veiculada a nova mensagem publicitária escoimada de vício assim que exigida pelo Poder Público. 
A Defesa do Consumidor em Juízo
A Lei nº 8.078 de 11 de setembro de 1990, Código de Defesa do Consumidor, preocupou-se em garantir que o consumidor, como parte vulnerável, não ficasse à mercê do fornecedor. Para tanto, dedicou um capítulo para defesa daquele, conceituando, inclusive, os direitos transindividuais (difusos, coletivos e individuais homogêneos). Neste contexto, o art. 81 do Código de Defesa do Consumidor (CDC) estabelece que o acesso à justiça, diante de lesão ao consumidor, pode ser feito tanto de forma individual quanto coletiva. O exercício da defesa do consumidor de forma coletiva serve para que se evite dano maior. Em regra, o direito do consumidor não tem sua tutela garantida diante do tamanho da lesão, haja vista que a maioria dos consumidores sequer percebe o defeito do produto. Apenas 10% em cada 100 (cem) consumidores sofrem consequências sérias decorrentes da inobservância do fornecedor em colocar um produto defeituoso no mercado. Muitas vezes, o que se verifica é que o fornecedor busca o mais benéfico para ele: corrigir o erro do produto ou colocá-lo, mesmo defeituoso, no mercado e arcar com custos daqueles que venham a sofrer alguma lesão. Se considerado apenas o lado financeiro, para o fornecedor vale mais a pena ressarcir 10% dos consumidores lesionados que eliminar todos os 100 produtos defeituosos do mercado. Em situações como esta, existem dois meios para o consumidor agir: por meio de uma ação individual, onde o consumidor pode recorrer diretamente ao Judiciário, com ou sem a ajuda de um advogado, dependendo do valor e do tipo da causa e através da ação coletiva, onde um grupo de consumidores adentra com uma ação na Justiça. As ações coletivas previstas para atuação em defesa do consumidor vulnerável têm como intuito controlar os atos do fornecedor. A participação do Ministério Público, de associações de defesado consumidor e da defensoria pública, principais legitimados para se valerem da ação coletiva, tem modificado esse quadro na defesa de tais direitos. Entretanto, o consumidor precisa dar conhecimento a essas instituições. A realidade de uma sociedade de consumo em massa, com cada vez mais produtos e serviços inseridos no mercado, tem transformado as atitudes desses consumidores, e cada vez mais se percebe a efetiva garantia de seus direitos.
Mecanismos processuais coletivos e individuais
O CDC tratou com muito cuidado da defesa dos direitos transindividuais, procurando evitar que lesões como cláusulas abusivas ficassem à mercê dos rigorismos processuais e deixassem de ter verificada a sua tutela. Pode-se, portanto, conceituar tais direitos da seguinte forma: interesses ou direitos difusos são aqueles unificados por uma situação fática comum que relacionam toda a coletividade, sem que possam ser mensurados ou identificados os direitos relativos a cada pessoa, transcendendo, portanto, a parcela de individualidade. Cite-se como exemplo o meio ambiente, haja vista a impossibilidade de se mensurar a parcela do ar, da fauna e da flora a que cada ser humano tenha direito. Embora esse seja o exemplo clássico para tal direito, vários são os casos de direitos difusos violados na esfera do consumo, tal como a propaganda enganosa, diante da impossibilidade de se saber ao certo qual parcela da população foi por ela atingida. Já os interesses ou direitos coletivos podem ser classificados como gênero ou espécie. Quando se fala neles como gênero, são os chamados interesses ou direitos transindividuais. Se são identificados como espécie, conforme descrito no CDC, tratam-se de interesses ou direitos coletivos stricto sensu. Tais interesses são indivisíveis e identificam uma relação jurídica em comum que agrega um determinado ou determinável grupo de pessoas, cujo exercício desse direito faz-se conjuntamente. Por fim, o CDC limitou-se a identificar os direitos individuais homogêneos por uma origem comum, sem conceituá-los. Assim, são direitos que podem ser exercidos individualmente pelo consumidor lesado, mas também um grupo desses consumidores pode se unir, dada a origem comum da ação. Identificam-se com os interesses difusos, diante dessa situação fática que é a origem comum. Cite-se, como exemplo, os compradores de um determinado lote de um produto defeituoso. A Constituição Federal de 1988 destacou a importância dos direitos difusos e coletivos, colocando o Ministério Público como instituição legitimada a defender tais interesses, mas a lei também ampliou a legitimação do pólo ativo, conforme Art. 129, III, da Carta Maior, a fim de conferir maior acesso às questões coletivas, já que são de interesse geral. As ações coletivas têm como instituições legítimas para proceder à defesa dos direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos: O Ministério Público; Os entes da federação brasileira; As entidades e órgãos da Administração Pública, direta ou indireta, ainda que sem personalidade jurídica, cuja função resida na defesa do consumidor; As associações de defesa do consumidor; e a defensoria pública (Art. 82, BRASIL, 1990). Não há preferência de um sobre o outro para a legitimação processual. Pode ser exercido por somente um daqueles ou até mesmo todos os elencados no citado artigo, formando um liticonsórcio facultativo. Ressalte-se que a legitimidade da defensoria pública deu-se com a alteração da Lei nº 7.347/85 (Lei da Ação Civil Pública), em 2007, ação esta também responsável por danos causados ao consumidor. Na solução dos conflitos gerados pela economia massificada, quando coletivos, o processo opera como instrumento mediador de conflitos sociais e não apenas solucionador de lides. Estas lides coletivas permitem o acesso mais facilitado ao Judiciário, pelo seu custo diminuído e quebra de barreiras culturais, sociais e econômicas, evitando sua banalização ao invés do ingresso de diversas demandas com o mesmo objeto, sobrecarregando o sistema. Não menos importantes, foram abordadas as demandas individuais também tratadas pelo legislador pátrio com a criação dos juizados especiais cíveis, hoje presentes na maior parte do Brasil e cada vez mais abrangentes em suas áreas de atuação. Quanto aos chamados direitos difusos são aqueles cujos titulares não são determináveis. Os detentores do direito subjetivo que se pretende proteger são indeterminados e indetermináveis. Em que pese tratar-se de uma espécie de direito que apesar de atingir alguém em particular, merece especial atenção porque atinge simultaneamente a uma multidão de pessoas que não se possa precisar a quantidade, onde uma única ofensa pode afetar um número incalculável de pessoas e igualmente a satisfação de um consumidor poderá beneficiar a todos. Quanto aos direitos coletivos, os titulares também são indeterminados, porém determináveis. Os obrigados a respeitar esses direitos são os fornecedores envolvidos na relação jurídica-base, as quais podem existir duas modalidades: aquelas em que os titulares estão ligados entre si por uma relação jurídica e aquela em que os titulares estão ligados com o sujeito passivo por uma relação jurídica, ou seja, há duas relações jurídicas concomitantemente. O bem jurídico protegido é indivisível, não pertencendo a nenhum consumidor em particular, mas a todo conjunto simultaneamente.
CDC e as Garantias Processuais
Como garantia processual, a Lei nº 8.078/90 resguardou a inversão do ônus da prova ao consumidor, prevista no capítulo de direitos básicos do consumidor, Art. 6º, VIII, quando verossímil a alegação ou nos casos de hipossuficiência do consumidor, devendo o juiz decidir nestes casos (BRASIL, 1990). Desta forma, pela a inversão do ônus da prova, atrelada à culpa objetiva do fornecedor, não cabe ao consumidor lesado, que já está em prejuízo, a função de prova a culpa ou dolo do agente causador do dano, visto que aquele que dispõe no mercado produto ou serviço é responsável por este, assim como pelos danos que ele possa provocar. Em sequência, o CDC previu a propositura da ação no domicílio do autor (Art. 101, I, BRASIL, 1990) como outra garantia elencada no diploma, estabelecendo uma regra especial de competência relativa em razão do território, tendo em vista que a Lei nº 13.105/2015 (Código de Processo Civil) estipula, como regra, a competência da propositura da ação no foro do domicílio do réu (caput, Art. 46, BRASIL, 2015). O fundamento para tal surge da hipossuficiência do consumidor, que, como parte mais vulnerável da relação de consumo, não deve se deslocar até o domicílio do fornecedor, para facilitar a defesa de seus interesses, visto que é aquele quem deve arcar com tais custos, por ser o responsável pela inserção do produto ou serviço defeituoso, e ainda, considerando que isto se dá pelo risco de sua atividade, que é absorvido pelo lucro. E, por fim, a regra da coisa julgada erga omnes, exceto quando a ação for julgada improcedente por falta de provas, hipótese em que o legitmado poderá intentar outra ação (Art. 103, I) e quando se estende a todos os lesados o objeto da ação (Art. 103, III). Sendo assim, se sentença for procedente em uma ação coletiva, será garantida à coletividade a extensão desse direito, mas se for improcedente por ausência de provas, poderá ser proposta nova ação desde que novas sejam identificadas (BRASIL, 1990).

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