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Antropologia do corpo e modernidade - fichamento by Leonídia

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Antropologia do corpo e modernidade, David le Breton – Anotações by Leonídia Pereira
 Um esboço das leituras sobre o corpo na modernidade
Embora o corpo enquanto tema esteja fortemente ligado à origem e à existência do homem, o nosso conhecimento sobre ele e sobre a corporeidade não esteve presente ao longo da história enquanto objeto de estudo de forma regular. Em virtude do reducionismo cartesiano passou a ser concebido como duas partes distintas, o corpo e a mente. Visão ligada ao mundo da ciência e da técnica, legitimada pela cultura vigente. 
A existência é corporal
 “Antes de qualquer coisa, a existência é corporal” (LE BRETON, 2006, p. 7). Nesse viés, enquanto tema, o corpo se apresenta como a raiz identificadora do homem. Sem ele, o homem não existiria.
O tratamento social e cultural de que o corpo é objeto, as imagens que lhe expõem a espessura escondida, os valores que o distinguem, falam-nos também da pessoa e das variações que sua definição e seus modos de existência conhecem, de uma estrutura social a outra (p. 8)
A cultura valora e dá sentido ao corpo
Cada sociedade, no interior de sua visão de mundo, delineia um saber singular sobre o corpo: seus elementos constitutivos, suas performances, suas correspondências etc. Ela lhe confere sentido e valor. As concepções do corpo são tributárias das concepções da pessoa. (p. 8)
As concepções atuais do corpo/as condições sociais
Nossas concepções atuais do corpo estão ligadas ao avanço do individualismo enquanto estrutura social, à emergência de um pensamento racional positivo e laico sobre a natureza, ao recuo progressivo das tradições populares locais, e ligadas ainda à história da medicina, que encarna em nossas sociedades um saber, de certa forma, oficial sobre o corpo. Estas são as condições sociais. (p.9)
O descobrimento do corpo do homem ocidental
Um novo imaginário do corpo desenvolveu-se nos anos de 1960. O homem ocidental descobre-se um corpo, e a novidade segue seu curso, drenando discursos e práticas revestidos da aura das mídias. O dualismo contemporâneo opõe o homem ao seu corpo. (p.10)
O corpo é o signo do indivíduo, o lugar de sua diferença
Em nossas sociedades ocidentais, o corpo é, portanto, o signo do indivíduo, o lugar de sua diferença, de sua distinção; e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, está frequentemente dissociado dele, devido à herança dualista que pesa sempre sobre sua caracterização ocidental. (p. 11)
O status dos deficientes físicos em nossa sociedade
O status dos deficientes físicos em nossa sociedade, a angústia difusa que produzem, e a situação marginal do “louco” ou dos velhos, por exemplo, permitem situar os limites da “liberação do corpo”. Se existe um “corpo liberado”, é um corpo jovem, belo, fisicamente impecável. Só haverá, nesse sentido, “liberação do corpo” quando a preocupação com o corpo tiver desaparecido. Nós estamos longe disso. (p.11)
A ciência e técnica tentam ao mesmo tempo eliminar o corpo e imitá-lo.
A ciência e técnica, fiéis ao seu projeto de domínio do mundo, tentam, no mesmo movimento paradoxal, ao mesmo tempo eliminar o corpo e imitá-lo.
Por um lado, ultrapassar seus limites, reconstruí-lo, interferir em seus processos. Como se a condição humana se assemelhasse, em uma perspectiva gnóstica, a uma queda no corpo, este último tornando-se um membro supranumerário do homem, do qual convém livrar-se o quanto antes. Lugar da precariedade, da morte, do envelhecimento; aquilo que é preciso combater em primeiro lugar para conjurar a perda. Sem consegui-lo, sem dúvida, mas na insistência permanente da esperança. O corpo, lugar do inapreensível cujo domínio deve ser assegurado. (p. 14)
O corpo é uma construção simbólica, não uma realidade em si. (p. 18)
O descobrimento do rosto e do corpo
Simultaneamente à descoberta de si como indivíduo, o homem descobre seu rosto, sinal de sua singularidade, e seu corpo, objeto de uma posse. O nascimento do individualismo ocidental coincidiu com a promoção do rosto. (p.31)
De uma sociedade a outra, as imagens que tentam reduzir culturalmente o corpo se sucedem. Uma miríade de imagens insólitas delineia a presença em pontilhado de um objeto fugaz, inapreensível e, no entanto, aparentemente incontestável. LE BRETON, 1996].
O corpo é fator de individuação – separa um homem do outro
O corpo como elemento isolável do homem, ao qual empresta seu rosto, não é pensável senão nas estruturas sociais de tipo individualista, nas quais os homens estão separados uns dos outros, relativamente autônomos em suas iniciativas, em seus valores. O corpo funciona à maneira de um marco de fronteira para delimitar perante os outros a presença do sujeito. Ele é fator de individuação. (p.32)
O corpo da Modernidade marca a fronteira entre um indivíduo e outro, o encerramento do sujeito em si mesmo
O corpo da Modernidade, aquele que resulta do recuo das tradições populares e do advento do individualismo ocidental, marca a fronteira entre um indivíduo e outro, o encerramento do sujeito em si mesmo. (p. 33)
Ser e ter um corpo
A ambigüidade em torno da noção de corpo é uma conseqüência da ambigüidade que cerca a encarnação do homem: o fato de ser e de ter um corpo. (p. 34)
O corpo é uma construção cultural
O “corpo” existe apenas construído culturalmente pelo homem. (p. 40)
O corpo só adquire sentido com o olhar cultural do homem. (p. 41) 
O corpo da sociedade medieval e a gênese do corpo moderno
O corpo na sociedade medieval, e, a fortiori, nas tradições do carnaval, não é distinguido do homem, como o será, ao contrário, o corpo da Modernidade, considerado como fator de individuação. O que a cultura popular da Idade Média e do Renascimento, recusa é justamente o princípio de individuação, a separação do cosmos, o alheamento do homem e de seu corpo. O recuo progressivo do riso e das tradições da praça pública marca o advento do corpo moderno como instância separada, como marca de distinção de um homem em relação a outro. (p.47)
Corpo adoecido/corpo intocável
Os ideais cristãos/o corpo como tabu
Em um mundo situado sob o signo da transcendência cristã, e onde as tradições populares ainda mantêm seu enraizamento social, o homem (indiscernível de seu corpo) é uma cifra do cosmos, e fazer correr o sangue ainda que se o faça como terapia, equivale a rasgar a aliança, a transgredir um tabu. (p.58)
O corpo adoecido como objeto de estudo 
O médico ocupa a posição, sob todos os aspectos, privilegiados, daquele que supostamente sabe, mas que não se contamina com a impureza do sangue e desdenha das necessidades baixas. (p. 59)
É, com efeito, o distanciamento do corpo que mede o status respectivos dessas diferentes visões sobre o homem doente. O moimento epistemológico e ontológico que conduz à invenção do corpo está em marcha. (p. 59)
As imagens de beleza
A invenção do rosto
 O rosto é a cifra da pessoa
O rosto é a parte mais individualizada, a mais singularizada. O rosto é a cifra da pessoa. Donde seu uso social em uma sociedade na qual o indivíduo começa lentamente a se afirmar. A promoção histórica do indivíduo assinala paralelamente aquela do corpo e, sobretudo, aquela do rosto. O indivíduo não é mais o membro inseparável da comunidade, do grande corpo social; ele se torna um corpo exclusivamente seu. (p. 24)
O corpo como alvo da intervenção específica
“Fator de individuação”, ele se torna o alvo da intervenção específica: a mais notável é a pesquisa anatômica por meio da dissecação operada no corpo humano. O tecido comunitário que reunia há séculos, malgrado as disparidades sociais, as diferentes ordens da sociedade sob a égide da teologia cristã e das tradições populares, começa, portanto, a se distender. 
O homem anatomizado 
A definição moderna de corpo
O corpo é um resto. Ele não é mais o sinal da presença humana, indiscerníve do homem: ele é sua forma acessória. A definição moderna do corpo implica que o homem esteja separado do cosmo, separado dos outros,