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Aula 10 ( Espaço e Simbolismo)

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ESPAÇO E SIMBOLISMO
I Roberto Lobato CorrêaUFRJ,PPGG, pesquisador do CNPq
Opresente texto aborda a dimensão simbólica do es-paço, ratificando não apenas suas múltiplas dimen-
sões como também as necessárias conexões entre elas, nas
quais o econômico, o político e o social estão relacionados
entre si e com o simbólico. A cultura, na qual o simbólico
tem enorme centralidade, está em toda parte, manifestan-
do-se de modo diferenciado no espaço e no tempo. Nesse
sentido, pode-se falar em uma geografia das formas sim-
bólicas.
Essageografia é recente, tendo emergido após 1970 com as
mudanças na geografia cultural de base saueriana. Asdécadas
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seguintes viram um número crescente de estudos a respeito
dos diferentes significados atribuídos pelos vários grupos
sociais aos diversos aspectos da vida. Consulte-se, entre ou-
tros, Corrêa (2003; 2005).
Significados e mapas de significados
Os significados constituem o foco principal da geo-
grafia cultural que, a partir da década de 1970, renova esse
subcampo da geografia (COSGROVE,2000; COSGROVE;
]ACKSON, 2003). São construções intelectuais que visam
dar sentido às diversas esferas da vida. Compreender os
significados criados por nós e pelos outros é construir
um conhecimento mais profundo de um dado aspecto
da realidade, além do conhecimento de sua organização,
constituição e estrutura (CASSIRER,2001). Segundo esse
autor, significados são o fundamento último de todo o
conhecimento.
Eles devem ser considerados de uma perspectiva cons-
trutivista, como resultantes de uma construção ancorada
na experiência dos variados grupos sociais. Desse ponto de
vista, os significados são considerados instáveis, caracte-
rizados pela polivocalidade, isto é, para cada grupo pode
haver significados distintos para os mesmos processos e
fenômenos (HALL, 1997). A polívocalidade, por sua vez,
gera um embate entre ideias políticas, crenças e valores,
que assume um caráter político. Geertz (1989), a propósito,
fala de política de significados.
ESPAÇO E SIMBOLISMO
Criados e recriados pelos diversos grupos sociais, os signi-
ficadosse expressam em símbolos ou formas simbólicas que
constituem traços fundamentais do ser humano. "Todo com-
portamento humano é comportamento simbólico, todo
comportamento simbólico é comportamento humano"
(WHITE,1973, p. 355). Se as formas simbólicas refletem os
significados estabelecidos, elas também criam significados.
Seu papel é duplo, marca e matriz de significados, como
aponta Berque (1998) ao se referir à paisagem cultural, a
mais ubíqua das formas simbólicas materiais.
As formas simbólicas podem ser materiais e não mate-
riais.Entre estas está a linguagem, oral e escrita, na qual as
figurasde linguagem, metáforas, metonímias e sinédoques,
entre outras, constituem meios pelos quais significados
podem ser criados e recriados. As formas simbólicas mate-
riaissão numerosas, como, uma vestimenta e uma [oia, por
exemplo. Os rituais de uma cerimônia e as obras de arte,
também formas simbólicas, podem ser vistos, respectiva-
mente, como metáforas rituais (TURNER,1982) e visuais
(GOMBRICH, 1954). São, assim, linguagens passíveis de
serem submetidas, como os textos escritos, com diferentes
e, por vezes, contrastantes interpretações.
Osmuitos significados criados e recriados pelos distintos
grupos culturais permitiram a construção de importante
metáfora espacial, a dos "mapas de significados", cunhada
pelos membros do Centre for Contemporary Cultural
Studies, da Universidade de Birmingham, durante a década
de 1970 QACKSON,1989). Essa metáfora sugere que a su-
perfície terrestre está recoberta por diversos mapas simbó-
licos que se superpõem no todo ou em parte e, na maioria
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dos casos, justapõem-se. Esses mapas descrevem a diferen_
ciação espacial dos significados, tendo como suporte teórico
o entendimento da cultura como os significados criados e
recriados no âmbito da prática de diferentes grupos cultu,
rais e sua dinâmica. Consulte-se, a respeito, Corrêa (2003).
A visão de cultura como "mapas de significados" pode
ser exemplificada com as proposições de Gallais (2002) a
respeito do espaço vivido nas sociedades primitivas
do mundo tropical, particularmente, do delta interior do
Niger, na África ocidental. O complexo e fragmentado
quadro natural do delta é habitado por grupos étnicos agri-
cultores, pastores ou que vivem da pesca. Para cada grupo,
o espaço é apropriado, vivenciado e representado de modo
distinto, com base nas atividades que praticam e nas rela-
ções entre si e com a natureza. O delta interior do Niger é
recoberto por diversos "mapas de significados" que não se
superpõem. Essa não superposição levou Gallais a propor
os conceitos de distância estrutural, distância afetiva e dis-
tância ecológica. A distância estrutural aproxima os mem-
bros de uma mesma etnia que estão separados por grande
distância métrica; inversamente, afasta grupos étnicos di-
ferentes que, fisicamente, estão próximos entre si. A dis-
tância afetiva diferencia lugares considerados benéficos ou
maléficos, enquadrados nas crenças de cada grupo. A eco-
lógica, por sua vez, refere-se à percepção e à valorização
da natureza: os agricultores, por exemplo, distinguem uma
grande variedade de solos, atribuindo-Ihes valores produ-
tivos diferentes, enquanto, para os pastores, esses' mesmos
solos são considerados indiferenciados.
ESPAÇO E SIMBOLISMO
O espaço vivido é, nesse sentido, a base sobre a qual se
estabelecem "mapas de significados", uma expressão que
denota a diferenciação simbólica do espaço.
Metáforas rituais e visuais e mapas de significados são
conceitos úteis para a geografia das formas simbólicas. Essa
geografia pode ainda incorporar o conceito de forma sim-
bólica espacial.
Formas simbólicas espaciais
As formas simbólicas tornam-se espaciais quando estão
diretamente vinculadas ao espaço, constituindo-se em fixos
e fluxos, isto é, localizações e itinerários, que são os atri-
butos primários da espacialidade. Palácios, templos, cemi-
térios, memoriais, nomes de ruas, shoppings, parques te-
máticos, montanhas, rios, cidades, bairros, ruas, praças e
prédios podem ser vistos como fixos simbólicos. Por outro
lado, procissões, paradas, desfiles e marchas são, em geral,
fluxos impregnados de significados simbólicos. Lugares e
itinerários simbólicos sintetizam os diversos fixos e fluxos
simbólicos.
As relações entre formas simbólicas e espaço são com-
plexas, de mão dupla. De um lado, localizações e itinerários
simbólicos valorizam os locais e trajetos percorridos e, de
outro, incorporam os atributos simbólicos que as localiza-
ções e os trajetos possuem. Veja, por exemplo, as relações
de mão dupla entre o Pão de Açúcar e a cidade do Rio de
Janeiro ou entre a Torre Eiffel e Paris.
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Essasrelações resultam, de um lado, de uma política loca-
cional derivada da intenção, por parte daqueles que conce-
beram as formas simbólicas, de elas desempenharem o mais
eficientemente possível o papel que delas se espera. O sítio,
uma localização relativa perante a acessibilidade e uma loca-
lização relacional diante de outras formas simbólicas dotadas
de sentidos semelhantes ou distintos, resulta dessa política.
Essas relações derivam também da força de determinadas
práticas sociais ou de manifestação do sagrado, a hierofania,
que cria simbolismo em um dado local ou trajeto, passando
a se identificar com essas práticas e sacralidade.
A força do evento ou do personagem a ser celebrado ou
memorializado, assim como os recursos financeiros dis-
poníveis, gera escalas dimensionais e de alcance espacial
que marcam a paisagem e dão um sentido local, regional,
nacional ou global à forma simbólica. Consulte-se, entre
outros, Corrêa (200S).
Os lugares e itinerários simbólicos podem ser desco-
bertos em diferentes contextos culturais, envolvendo es-
paço, tempo e padrões de significados além de, simultanea-
mente, distintas escalas espaciais. Contexto e escala espa-
cial são ingredientes efetivos da espacialidade da cultura,
possibilitando descrevê-Ia, diferenciá-Ia das outras e inter-
pretar o sentido que seus membros atribuem a si mesmos e
aos outros (GEERTZ,1989).
Lugares simbólicos
Manifestações espaciais da cultura, os lugares simbó-
licos estão impregnados de significados políticos, religiosos,
ESPAÇO E SIMBOLISMO
étnicOSou associados ao passado, o que os torna dotados de
uma singularidade simbólica, distintos qualitativamente
dos demais lugares caracterizados por uma diferenciação
quantitativa. Um tipo de centro - como as hierópolis,
ou cidades-santuário - ou uma cidade histórica são pos-
síveis exemplos de lugares simbólicos inseridos em uma
dada rede urbana regional. Um bairro, uma praça ou rua,
ou mesmo um prédio, são exemplos possíveis de lugares
símbóhcos inseridos no complexo espaço urbano, diferen-
ciado em termos econômicos e sociais. Há, na realidade,
escalas espaciais em que os lugares simbólicos podem ser
apreendidos.
Breves considerações serão feitas sobre os lugares sim-
bólicos por meio de exemplos que envolvem uma cidade
no País Basco, bairros em dois contextos socioculturais e
uma praça.
Os lugares simbólicos podem ser considerados, con-
forme argumenta Boyer (1994), lugares retóricos (rhetorical
topoi) e lugares vernaculares (vemacular topoi) de uma pers-
pectiva que os distingue segundo práticas simbólicas ofi-
ciais e práticas simbólicas populares. O primeiro termo re-
fere-se aos lugares de cerimônias cívicas, que "nos ensinam
a respeito de nossas heranças nacionais e responsabilidades
públicas, assumindo que a própria paisagem urbana é a
corporificação emblemática do poder e da memória [...] por
intermédio de construções monumentais e mnemônicas"
(BOYER,1994, p. 321). Nesses lugares, eventos e heróis
nacionais são celebrados, e a população é a audiência do
espetáculo. Os lugares vernaculares, ao contrário, são lu-
gares públicos impregnados de tradições populares locais e
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marcados por uma conexão identitária. Essa distinção de-
marca lugares da cidade de acordo com os sentidos das prá-
ticas simbólicas realizadas.
Os exemplos a seguir podem ser vistos como lugares
vernaculares e lugares retóricos. Os itinerários simbólicos,
apresentados adiante, também podem ser considerados de
acordo com essas categorias.
O sentido simbólico de um lugar, por outro lado, pode
ser construí do tanto por seus moradores quanto por in-
teresses e pessoas externas ao lugar, seja a população em
geral ou um específico segmento dela, seja grupos empre-
sariais ou ainda o Estado. Os lugares simbólicos resultam
de complexo processo de criação, interno ou externo, para
o qual há várias tensões que envolvem diferentes agentes
sociais, criadores e usuários de significados. Desse processo,
resultam a preservação ou a transformação, parcial ou não,
dos lugares simbólicos e a ressignificação de seu status po-
lítico, religioso, étnico ou histórico, que pode ou não in-
cluir sua mercantilização. Nesse caso, é possível falar em lu-
gares simbólicos mercantílizados, cujas paisagens e história
foram valorizadas ou plenamente inventadas.
A pequena cidade de Gernika (Guernica) constitui um
lugar de forte simbolismo, sendo o principal foco de iden-
tidade cultural e territorial basca e sua continuidade, assim
como foco de resistência ao Estado espanhol. Simbolica-
mente, é mais importante que cidades maiores, como Bilbo
(Bilbao), Donostia (San Sebastían), Gasteiz (Vttoríaje truna
(Pamplona). A força de seu nome a qualifica como sinô-
nimo de todo o País Basco (RAENTO; WATSON, 2000).
ESPAÇO E SIMBOLISMO
A importância de Gernika foi se estabelecendo aos
poucos a partir da Idade Média, quando ocupou o posto
de importante centro comercial, manufatureiro e político,
detendo ampla autonomia, mantida na época da formação
do Estado espanhol, no século XV. A perda progressiva de
sua autonomia, concretizada no fim do século XIX, a ex-
clusão do processo de industrialização e o esvaziamento
dernográfíco de sua hinterlândia limitaram seu cresci-
mento. A cidade, contudo, legou do passado o caráter de
foco da identidade basca.
O valor simbólico da cidade foi ampliado em 1937,
durante a Guerra Civil Espanhola. Reduto nacionalista e
republicano, Gernika foi bombardeada pela aviação alemã.
No mesmo ano, a tragédia foi representada por Pablo
Picasso em um mural exposto no pavilhão da Espanha
Republicana, na Feira Internacional de. Paris. Após a
Segunda Guerra Mundial, o quadro foi exibido em diversos
países, ampliando a força simbólica da cidade e projetando
internacionalmente o pintor.
Em nível regional, mais do que em âmbito nacional, a
força simbólica de Gernika se expressa em todo o espaço
urbano, considerado por muitos memorial de guerra. Ma-
nifesta-se, particularmente, no local onde estão protegidos, os
restos de um carvalho, a "Árvore de Gerníka", sob a qual,
no passado, eram tornadas importantes decisões relativas à
autonomia da cidade. Próximos estão o prédio da Assem-
bleia Basca, o monumento "Nire Aitaren Etxea" (A Casa do
Meu Pai) e um carvalho plantado em 1979, quando foi es-
tabelecido, no âmbito do Estado espanhol, a Comunidade
Autônoma Basca. Esse conjunto confere ao local a maior
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densidade simbólica da cidade, onde estão representados o
passado, com as tradições e a autonomia (os restos do velho
carvalho), as raízes rurais bascas (o monumento A Casa do
Meu Pai) e o futuro, com a esperança da autonomia recon-
quistada (RAENTO;WATSON,2000).
O velho carvalho é um poderoso símbolo do mundo
basco, considerado sagrado pelos nacionalistas daquele
grupo étnico. Sua importância se manifesta nos rituais
que junto a ele são realizados, como o juramento solene
dos governantes bascos, ocasião em que o hino nacional
é cantado.
O estudo sobre Gernika sugere a existência de uma hie-
rarquia de lugares simbólicos, a própria cidade e o local
onde se concentra o conjunto dos símbolos de máxima
sacralidade cívica. Sugere também que a importância sim-
bólica de um lugar é ser independente de sua importância
econômica e demográfica. Aforça simbólica de um lugar tem
sua lógica derivada dos significados socialmente construídos
e integrados à vida do grupo social que os construiu.
Os bairros Beacon Hill e NorthEnd, localizados na área
central de Boston, são considerados por seus habitantes
lugares a serem preservados. Estudados por Firey (2006) na
década de 1940, eles revelam como a força dos sentimentos
de seus moradores pode superar os estímulos do mercado
para que neles ocorram mudanças. Por intermédio de prá-
ticas como as de retenção, atração e resistência, a elite in-
telectual de Beacon Híll- preservava os velhos prédios do
começo do século XIX, evitando que fossem comprados
e derrubados por promotores imobiliários. Para essa elite,
Beacon Hill era um lugar simbólico, em que se depositava
ESPAÇO E SIMBOLISMO 143
parte da história da cidade e do país. North End, diferen-
temente, era habitado por imigrantes italianos envelhe-
cidos, que viviam em um bairro deteriorado, cuja segunda
geração, constituída de ítalo-americanos, assim que podia,
abandonava o local. Os velhos imigrantes ali permane-
ciam, mesmo que economicamente pudessem se mudar
para áreas melhores. Isso ocorria porque, no bairro, com a
vida cotidiana com outros italianos, mantinha-se uma íta-
lianicidade que não se queria perder. De modo diferente,
e para grupos sociais distintos, Beacon Hill e North End
são lugares impregnados de sentimentos e de simbolismo
construí dos por seus habitantes e desconhecidos pelos
que habitam fora desses bairros.
La Boca, localizado nas proximidades do centro de
Buenos Aíres, é um exemplo de lugar impregnado de ten-
sões que envolvem o passado e o presente, a paisagem ur-
bana, dois grupos sociais distintos, suas práticas e a me-
mória dos moradores mais antigos (GUANO, 2003).
Trata-se de uma área residencial deteriorada, cuja pai-
sagem é marcada por "conventillos", habitações do fim do
século XIX subdivididas em quartos de aluguel e, original-
mente, habitadas por imigrantes, em sua maioria italianos,
que se tornaram operários em um momento de expansão
da indústria. A ascensão social por parte desses imigrantes
e seus descendentes levou ao abandono do bairro e à reo-
cupação por parte de outros imigrantes, originários do in-
terior argentino e de países limítrofes de língua espanhola.
É em torno desses dois grupos que se estabelecem tensões:
de um lado os descendentes de italianos, que constituem
uma classemédia, branca, religiosa, culta e ordeira; de outro,
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144 OLHARES GEOGRÁFICOS
os novos imigrantes, mestiços, pobres, incultos e conside.
rados perigosos.
Resgatar a italianicidade do bairro é parte do projeto dos
descendentes de italianos que por lá permaneceram. Asfestas
religiosas e a produção artística - a pintura e a música po-
pular, o tango - são meios pelos quais se tenta esse resgate.
A invenção de uma tradição criada na década de 1960, o E1
Caminito, insere-se nessa tentativa bem-sucedida de resgate,
pois tal tradição se transformou em ponto focal do turismo
no bairro. Trata-se de uma via pública ocupando o leito de
um pequeno desvio ferroviário, ladeado por "conventillos"
pintados com cores berrantes e habitados pelos imigrantes
pobres. Na via pública, artistas e vendedores de obras artís-
ticas exibem seus produtos ou sua arte musical. EICaminito,
conforme aponta Guano (2003), é a imagem italiana de La
Boca, uma imagem espacialmente localizada, produzida in-
tencionalmente e incapaz de ocultar as tensões de um bairro
"italiano" e mestiço, que exibe um pouco parte da história e
da geografia de Buenos Aires. O simbolismo do bairro está,
assim, impregnado de tensões entre passado e presente, a
paisagem urbana e os "italianos" e sua memória e os novos
imigrantes.
Se os exemplos anteriores podem ser considerados casos
de lugares vernaculares construídos por seus moradores, o
que se segue é um modelo de lugar retórico em relação ao
qual um processo de contestação redefiniu parte de seu sen-
tido simbólico: a Plaza de Mayo, no centro de Buenos Aíres.
Na realidade, celebração e contestação convivem no.mesmo
lugar por meio de formas simbólicas espaciais antigas e novas
- impressas na paisagem - ou rituais (TORRE,2000).
ESPAÇO E SIMBOLISMO
Tal lugar é considerado o mais importante espaço cí-
vico da capital argentina, a pura representação do poder.
Antiga Plaza de Armas da Buenos Aires colonial, ali estão
localizados a Casa Rosada, sede do governo argentino, a
Catedral, onde está o túmulo de San Martín, o herói da
independência nacional, o prédio do antigo Cabildo, e a
Pirâmide de Mayo, que comemora a independência argen-
tina. No fim do século XIX, no âmbito de remodelação ur-
banística do centro da cidade, foi construída a Avenida de
Mayo, ligando diretamente a Casa Rosada ao Congresso e
ampliando, assim, a centralidade do lugar.
Entre 1976 e 1983, o lugar retórico de manifestação do
poder transformou-se também em espaço de contestação,
passando a ser conhecido como o lugar das Mães da Plaza de
Mayo. O conflito esteve centrado no protesto de mulheres,
viúvas ou mães dos mortos ou desaparecidos durante o re-
gime militar no país. Semanalmente, mulheres portando
um lenço branco na cabeça se reuniam, formando um cír-
culo em torno da pirâmide, no meio da praça. A materia-
lização desse protesto se fez pela construção em cimento
de lenços em torno da pirâmide, corporificando simbolica-
mente o protesto e, ao mesmo tempo, imprimindo a con-
testação na paisagem do lugar retórico (id., ibid.).
Itinerários simbólicos
A produção, a circulação e o consumo de significados
se manifestam publicamente. Os membros de uma dada
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146 OLHARES GEOGRÁFICOS
cultura e suas representações se apresentam e são vistos em
intenso processo de comunicação (GEERTZ,1989). Os itine_
rários simbólicos constituem meios pelos quais essa cornu,
nicação é realizada. Esses itinerários são parte integrante
da espacialidade humana, associados a práticas impregna_
das de simbolismos.
Os itinerários simbólicos se distinguem dos itinerários
da vida cotidiana, como os deslocamentos casa-trabalho_
casa ou, menos comuns, aqueles que articulam residência-
supermercado ou residência-igreja. A primeira distinção
refere-se à frequência. Os itinerários simbólicos são muito
menos frequentes, sejam eles regulares ou não. Os itine-
rários simbólicos regulares ocorrem em datas previamente
definidas, datas festivas, em comemoração a um evento
político, a uma devoção religiosa ou a uma tradição local.
Ocorrem em tempos festivos, sagrados ou não. Os itine-
rários simbólicos de periodicidade irregular, sem definição
prévia de datas fixadas em calendários - por exemplo,
uma marcha de protesto -, apresentam, no entanto, itine-
rários consagrados pela prática, indicando a força de deter-
minados percursos, que dá visibilidade real ou simbólica às
manifestações.
Outra distinção diz respeito à natureza não econômica
dos itinerários simbólicos, para os quais a distância tem
importância secundária ao se tornar irrelevante. É a força
atribuída à manifestação e ao itinerário que justifica o des-
locamento a grandes distâncias, por vezes envolvendo pe-
nosas viagens. Trata-se de itinerários presididos por .Iógíca
distinta daquela derivada de uma relação custo-benefício
monetariamente definida.
ESPAÇO E SIMBOLISMO
Há uma forte relação entre o deslocamento de pessoas
e objetos simbólicos associados à manifestação, como car-
tazes, estandartes, bandeiras e imagens, e os locais por onde
o deslocamento se realiza. Esses lugares são considerados
-portadores de significados que priorizam o deslocamento,
o qual, por outro lado, valoriza os locais por onde passa,
mesmo que isso se verifique uma vez por ano ou ocorra
irregularmente, de modo não previsível. Um templo, uma
prisão, residências de um dado grupo social, prédios que no
passado abrigaram eventos políticos importantes, sedes de
empresas ou de partidos políticos, ou ainda a rua principal
da cidade, entreoutros, são incorporados e incorporam o
deslocamento. A força simbólica do quadro físico cons-
truído e do deslocamento se beneficia mutuamente. Cria-se
um itinerário simbólico impregnado de significados que o
diferenciam, mesmo que temporariamente, dos itinerários
do cotidiano.
Os dois primeiros exemplos podem ser vistos como iti-
nerários simbólicos da retórica, enquanto o terceiro, corno
itinerário simbólico vernacular.
Cosgrove (1998) oferece um exemplo de itinerário im-
pregnado de profundo simbolismo. Em Londres, realiza-se
a cada ano a "abertura" do Parlamento pelo monarca britâ-
nico. Trata-se de ritual que é, em parte, público, utilizando
a paisagem do centro de Londres como cenário. Segundo
Cosgrove:
o monarca, num coche, acompanhado por um cortejo
da elite militar e civil, sai do Palácio de Buckíngham,
desce o MaUe através do Arco do Almirantado - por
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um portão aberto apenas para a passagem da Coroa _
passa pela Trafalgar Square com seus monumentos às
vitórias militares britânicas, seguindo pelo WhitehalI
para o Parlamento. Assim, a Coroa e o Parlamento são
unidos por meio de rota cerimonial, sendo a passagem
marcada por um elaborado e impressionante ritual pú-
blico (1998, p. 144).
Esse é um ritual inscrito em um itinerário simbólico
retórico.
Em uma cidade-estado como Cingapura, no sudeste asiá-
tico, caracterizada pela diversidade étnica, religiosa e lín-
guística (chineses, malaios e, sobretudo, indianos), a parada
comemorativa da independência tem um sentido de criar
a identidade nacional. Rituais inventados e paisagem es-
petacular constituem parte dos meios para a criação dessa
identidade. Desfile militar, fogos de artifício, luzes, música,
seleção dos participantes e dos motivos, tudo isso visa criar
um vínculo emocional com a nação e converter cidadãos co-
muns em orgulhosos cingapurianos (KONG;YEOH,1997).
Entre 1966 e 1993, a parada teve vários itinerários as-
sociados à apropriação Simbólica de antigos espaços pú-
blicos do poder colonial britânico, ou aos espaços centrais
da moderna Cingapura, verticalizada, evidenciando seu
desenvolvimento econômico, ou pelos bairros da cidade,
transformando logradouros da vida cotidiana em "templos
de pompa", ou ainda tendo como referência o estádio de
futebol, local de concentração de grande massa popula-
cional, A parada tanto utiliza itinerários dotados de símbo-
ESPAÇO E SIMBOLISMO 149
lísrno quanto transforma logradouros em itinerários sim-
bólicos. Ao circular por áreas distintas da cidade, a parada
tenta uni-Ias simbolicamente (id., ibid.).
Se os itinerários simbólicos apresentados anteriormente
vinculam-se, de um lado, à tradição e ao poder da coroa bri-
tânica e, de outro, à criação da identidade nacional cíngapu-
ríana, o exemplo a seguir está ligado ao fortalecimento da
identidade étnica e religiosa de um grupo social no bairro de
Williamsburg, no distrito do Brooklyn, em Nova York.
Aporção norte do bairro é habitada por italianos e ítalo-
americanos, com raízes na Itália meridional. As duas paró-
quias católicas e associações religiosas locais organizam pro-
cissões como a da Sexta-feira Santa e em devoção a santos
da tradição religiosa do sul da Itália (SCIORRA,1999). As
procissões, assim como outras manifestações, estão profun-
damente enraizadas na cultura local e constituem marcas
identitárias em um distrito caracterizado pela multietnici-
dade e pelas múltiplas religiões.
Paradas, procissões e outras festividades transformam
viaspúblicasemarenasdeinteressecompartilhado através
da convivência/ou prática religiosa (id., ibid., p. 310).
Mais do que isso, as procissões, paradas e festividades
reforçam laços identitários, articulando grupos dentro da
comunidade italiana, desfazendo ou minimizando ten-
sões históricas entre tais grupos. O caráter identitário das
procissões expressa-se e é reforçado pelo itinerário das pro-
cissões, que não apenas sugerem o controle simbólico das
ruas, mas também demarcam o "território italiano". As
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150 OLHARES GEOGRÁFICOS
procissões circulam pelas ruas onde vivem os italianos, fa~
zendo paradas em pontos significativos da história local.
Em muitos desses pontos, há um altar doméstico, montado
na calçada, onde se reúnem os membros de uma família,
seus vizinhos e conterrâneos (SCIORRA,1999).
O itinerário simbólico das procissões tem, portanto, um
duplo sentido: tornar público o bairro italiano, dernarcan,
do-o simbolicamente, e reforçar os laços internos de seus
habitantes.
Considerações finais
Lugares simbólicos e itinerários simbólicos constituem
dois conceitos-chave da geografia cultural pós-1970. Em
torno deles estão o espaço, os símbolos e os significados.
Certamente, esses dois conceitos não esgotam o elenco con-
ceitual da espacialidade simbólica, mas sua importância é
inegável, oferecendo ao geógrafo instrumentos conceituais
para tornar inteligível a espacialidade humana. E esse que é
o foco principal da geografia.
ESPAÇO E SIMBOLISMO
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