Daniela Wortmeyer_Introducao perspectiva psicossociologica_REVISADO
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Daniela Wortmeyer_Introducao perspectiva psicossociologica_REVISADO


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INTRODUÇÃO A UMA PERSPECTIVA 
PSICOSSOCIOLÓGICA PARA O ESTUDO 
DAS FORÇAS ARMADAS1 
 
Daniela Schmitz Wortmeyer2 
 
1. Introdução 
 
O que define a identidade de uma organização? O que possibilita a seus 
integrantes identificarem-se e serem identificados como partes do todo 
organizacional, que os transcende? Quais os amálgamas que sustentam, com 
relativa estabilidade, essa entidade coletiva? Haveria um núcleo essencial das 
organizações, ou elas seriam configuradas por uma coleção de elementos? O 
que é necessário para se tornar \u201cum dos nossos\u201d, ou seja, para efetivamente 
ter acesso a uma comunidade organizacional? 
Estabelecer um equacionamento para questões como estas é tarefa 
fundamental para qualquer empreendimento voltado à pesquisa e 
intervenção em contextos organizacionais. Longe de se reduzir a estruturas 
formais, mais ou menos alinhadas ao modelo burocrático weberiano, a 
dinâmica das organizações contemporâneas articula-se em torno de diversos 
elementos, materiais e imateriais, racionais e afetivos, que conferem 
significação ao fazer coletivo e determinam seu campo de possibilidades. 
Elementos que, em consequência, intermedeiam as interações da organização 
com outros grupos e organizações, sua permeabilidade a mudanças, a lógica 
conferida às atividades que executa, entre muitos outros aspectos. 
Para Edgar Schein, 
todas as teorias grupais e organizacionais distinguem dois principais 
conjuntos de problemas com que todos os grupos, não importa seu 
tamanho, têm que lidar: (1) sobrevivência, crescimento e adaptação em seu 
ambiente e (2) integração interna que permita o funcionamento cotidiano e 
a habilidade de adaptar-se. (1992, p.11, tradução nossa). 
 
 
1 O presente artigo corresponde a uma adaptação de capítulos da dissertação de 
mestrado \u201cDesafios da internalização de valores no processo de socialização 
organizacional: um estudo da formação de oficiais do Exército\u201d, orientada pelo Prof. Dr. 
Wilson Moura e defendida no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da 
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em junho de 2007. 
2 Graduada em Psicologia, Mestre em Psicologia Social, Capitão do Quadro 
Complementar de Oficiais do Exército. Atualmente atua na Academia Militar das Agulhas 
Negras. Principais interesses de pesquisa: socialização militar, internalização de valores 
em processos educacionais, cultura organizacional militar. E-mail para contato: 
educacaomilitar@uol.com.br. 
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Esse movimento grupal e organizacional de simultânea adaptação 
externa e interna revela-se como complexo e multifacetado, relacionando-se 
tanto a condições histórico-sociais em nível macro, quanto a aspectos 
psicossociais inerentes à existência humana compartilhada com outros. 
Somem-se a isso as particularidades do projeto comum a ser empreendido 
pelo grupo, que apresentará questões adicionais ligadas à natureza e 
significação da atividade, a serem resolvidas individual e coletivamente. 
Grosso modo, pode-se dizer que a organização dos seres humanos em torno 
de um fazer coletivo não é algo que está programado de antemão, em sua 
carga genética ou algum outro código predeterminado, e sim consiste em um 
grande desafio a ser resolvido na convivência social. 
Uma vez que um grupo conseguiu encontrar soluções para tal desafio, 
estruturando sua interação de modo a garantir a satisfação de determinadas 
necessidades comuns, tende a transformá-las em hábitos, empreendendo um 
processo de institucionalização de condutas que irá conferir estabilidade e 
previsibilidade à convivência social (BERGER; LUCKMANN, 1985). 
Paulatinamente, são construídos códigos que permitem a comunicação e a 
identificação no grupo. Estes se embasam em significados compartilhados, 
que conferem sentido e direção ao empreendimento comum. Temos, assim, a 
sedimentação de um processo de aprendizagem coletiva ao longo do tempo 
em uma cultura, que necessita ser transmitida às gerações vindouras para dar 
continuidade ao modo de vida que se consolidou como o mais adequado para 
aquele grupo. Existe, portanto, a necessidade de aculturação, de socialização 
dos novos membros, para que a cultura e o pacto social se perpetuem. 
O objetivo deste artigo é explorar possibilidades de análise das 
organizações, particularmente das forças armadas, introduzindo a ótica da 
cultura e dos consequentes processos de socialização de seus integrantes, 
segundo uma perspectiva oriunda da psicologia social das organizações. 
Nesse intuito, iniciaremos com uma breve revisão de conceitos originários da 
antropologia acerca da cultura, seguindo com a análise de concepções da 
cultura no campo organizacional e de referenciais teóricos voltados à sua 
interpretação. Por fim, esboçaremos uma interpretação de aspectos da cultura 
das organizações militares, em especial das forças armadas, e sinalizaremos 
implicações dessa perspectiva analítica para projetos de pesquisa e 
intervenção relacionados a este campo. 
 
2. Discussões sobre a substância da cultura 
 
Ao realizar uma revisão dos aspectos fundamentais da cultura 
comumente aceitos pelas principais tendências da antropologia, Omar Aktouf 
identificou que \u201ca cultura implica uma interdependência entre história, 
estrutura social, condições de vida e experiências subjetivas das pessoas\u201d 
(1996, p. 50). Isto é, a noção de cultura compreenderia praticamente tudo o 
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que implica a convivência social: das formas de produção dos bens materiais, 
sociais e imateriais, que incluem desde uma dada estrutura social, com seus 
papéis, normas e padrões de comportamento, conhecimentos e tecnologia, até 
as crenças, mitos, valores e símbolos. 
A cultura seria, portanto, um \u201ccomplexo coletivo feito de 
\u201erepresentações mentais\u201f que ligam o imaterial e o material\u201d(AKTOUF, 1996, 
p. 51). Assim, para compreender a cultura seria necessário considerar esse 
todo, que engloba o modo de vida e as representações da realidade 
compartilhadas por um dado grupo social e que o identifica em relação a 
outros grupos. Ou seja, estamos diante de um fenômeno que é, simultânea e 
indissociavelmente, objetivo e simbólico, e que necessita ser analisado à luz 
do processo histórico em que está inserido. 
\u201cSe deixarmos de lado o aspecto físico, material e concreto de toda 
cultura, teremos ocasião de observar os elementos que exprimem sua 
especificidade e mais a desvendam ao observador externo: os mitos, os ritos, 
os rituais, os valores, os heróis, etc.\u201d(AKTOUF, 1996, p. 52). Dentre os 
diversos elementos que constituem a cultura, Aktouf considera que os mitos 
contribuem profundamente para a constituição de crenças, valores e 
identidade. Eles estão ligados a significados ontológicos, ou seja, 
correspondem a teorias acerca das origens do homem, da natureza e do 
destino da atividade humana, das relações do homem com o mundo e dos 
homens entre si. 
O mito é uma tentativa de explicação das origens e do funcionamento do 
universo. Por intermédio das cerimônias e dos ritos, ele nos lembra 
constantemente quem somos e de onde viemos. Ele é a representação viva, 
através da reatualização cerimonial, do ato primordial. Ele é confirmação da 
identidade e das origens dos que oficiam ou dos que participam de uma 
cerimônia. Ele é, ao mesmo tempo, explicação e lembrança das origens e 
união-reabsorção dos contrários; ele concilia atos e crenças entre si. Ele 
proporciona tanto modelos para a conduta dos homens quanto \u201esignificado e 
valor para a existência\u201f. Ele é sempre, e sobretudo, \u201econsiderado como uma 
história sagrada\u201f e, como consequência, como \u201euma história verdadeira\u201f.\u201d 
(ELIADE, 1963 apud AKTOUF, 1996, p. 54). 
 
Podemos observar, portanto, que o mito conserva relação com a 
experiência cotidiana da comunidade: \u201cExistem relações estreitas entre a 
palavra, o mito, a