pagamento em consignação
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CAPÍTULO II
DO PAGAMENTO EM CONSIGNAÇÃO
Pagamentos especiais
	Pagamento, como já foi dito, significa cumprimento ou adimplemento da obrigação e pode ser direto ou indireto. O pagamento é o principal modo de extinção das obrigações. Ao lado do pagamento direto há, porém, outras formas, que podem ser chamadas de pagamentos especiais. Alguns deles são tachados de pagamento indireto, como, por exemplo, o pagamento em consignação, por ser efetuado mediante depósito judicial ou bancário, e não diretamente ao credor. 
	Podemos chamar de pagamentos especiais, além do pagamento em consignação, que é modo indireto de pagamento, o pagamento com sub-rogação, a imputação do pagamento e a dação em pagamento. 
2. Conceito de pagamento em consignação
	O que caracteriza o pagamento, como modo extintivo da obrigação, é a realização voluntária da prestação devida e a satisfação do interesse do credor. No entanto, também ao devedor interessa o cumprimento, para se liberar do vínculo a que se encontra submetido. Se não efetuar o pagamento no tempo, local e forma devido, sujeitar-se-á aos efeitos da mora. Exemplo: consistindo a obrigação na entrega de coisa, enquanto não houver a tradição, permanece o devedor responsável pela guarda, respondendo por sua perda, ou deterioração.
	Todavia, o pagamento depende ainda da concordância do credor, que por diversas razões pode negar-se a receber a prestação ou a fornecer a quitação. Algumas vezes a discordância diz respeito ao quantum devido e ao ofertado pelo devedor, outra, a quem deve receber a prestação; outras, ainda, ao fato de o credor ser incapaz e não ter representante legal, ou encontrar-se em local ignorado. 
	Não se realizando o pagamento pela falta de cooperação e anuência do credor, o devedor não se exonera da obrigação. Em algumas ocasiões realiza ele o pagamento, mas, por não receber a devida quitação, não tem como prová-lo. Contudo, o sujeito passivo da obrigação tem não apenas o dever de pagar, mas também o direito de pagar. O locatário, por exemplo, a quem o credor recusou o recebimento do aluguel por discordar do valor ofertado, tem interesse em não incorrer em mora e em não deixar acumular as prestações, para não correr o risco de sofrer uma ação de despejo.
 
	E é precisamente para atender a situação dessa natureza, como assinala ANTUNES VARELA, \u201csatisfazendo o legítimo interesse do devedor em se liberar do vínculo obrigacional, apesar da falta de cooperação do credor, que a lei permite o pagamento por consignação, como lhe chama o Código Civil (de 1916), ou a consignação em pagamento, como diz o Código de Processo Civil (Arts. 890 e segs.)\u201d..
	O pagamento em consignação consiste no depósito, pelo devedor, da coisa devida, com o objetivo de liberar-se da obrigação. É meio indireto de pagamento, ou pagamento especial.
	Dispõe o Art. 334 do C.C: 	 \u201cConsidera-se pagamento, e extingue a obrigação, o depósito judicial ou em estabelecimento bancário da coisa devida, nos casos e forma legais\u201d.
	A consignação é instituto de direito material e de direito processual. O Código Civil menciona os fatos que autorizam a consignação. O modo de fazê-lo é previsto no diploma processual. (Art.890 e seguintes).
	Embora a lei assegure ao devedor o direito de consignar a coisa devida, tal fato só pode ocorrer na forma e nos casos legais. Se não houve recusa do credor em receber, ou outra causa legal, não pode aquele, sem motivo justificável, efetuar o depósito da prestação em vez de pagar diretamente ao credor. O depósito, nesse caso, será considerado insubsistente e a ação julgada improcedente. 
3. O objeto da consignação
	O Art. 334 do C.C., ao falar em depósito judicial da \u201ccoisa devida\u201d, permite a consignação não só de dinheiro como também de bens móveis ou imóveis. O credor, por exemplo, que se recusar, a receber a mobília encomendada só porque não está preparado para efetuar o pagamento convencionado, dá ensejo ao marceneiro de consigná-la judicialmente. Do mesmo modo possibilita a efetivação do depósito o adquirente dos animais, que se recusa a recebê-los, quando o alienante deseja entregá-los para se libertar do encargo. Também o imóvel pode ser consignado, depositando-se simbolicamente as chaves, como ocorre freqüentemente nas rescisões de contratos de locação.
 Por isso, proclama a jurisprudência: \u201cO direito material permite a consignação, tanto ao devedor de imóveis quanto de dinheiro, de quantidade de móveis, de coisa certa ou de coisa incerta\u201d.
	O fato de a consignação realizar-se por meio de um depósito limita a sua aplicação às obrigações de dar. Como acentua SILVIO RODRIGUES, \u201csomente as obrigações de dar podem ser objeto de consignação, sendo mesmo absurdo imaginar o depósito de uma obrigação de fazer ou de não fazer\u201d.
	O Código Civil distingue, dentre as obrigações de dar, as que concernem a objeto certo e individualizado, das obrigações de dar coisa incerta ou genérica, em que a coisa é determinada apenas pelo gênero e quantidade, faltando, porém, definir a qualidade. Diz o Art. 341 do C.C. \u201cSe a coisa devida for imóvel ou corpo certo que deve ser entregue no mesmo lugar onde está, poderá o devedor citar o credor para vir ou mandar recebê-la, sob pena de ser depositada\u201d. 
	Em se tratando de coisa indeterminada, incerta, faltando a escolha da qualidade e esta competir ao credor, o devedor não será obrigado a permanecer aguardando indefinidamente que ela se realize. Preceitua, com efeito, o Art. 342 do C.C: \u201cSe a escolha da coisa indeterminada competir ao credor, será ele citado para esse fim, sob cominação de perder o direito e de ser depositada a coisa que o devedor escolher; feita a escolha pelo devedor, proceder-se-á como no artigo antecedente\u201d.
 
4. Fatos que autorizam a consignação
	O Art. 335 do C.C. apresenta um rol, não taxativo, dos casos que autorizam a consignação. Outros são mencionados em artigos esparsos, como nos Arts. 341 e 342 do C.C., bem como em leis avulsas (Dec-Lei n. 58, de 10-12-1937, art. 17, parágrafo único; Lei n. 492, de 30-08-1937, arts. 19 e 21, n. III; Dec-Lei n. 3.365, de 21-06-1941, arts. 33 e 34, parágrafo único; Dec-Lei n.1.344, de 13-6-1939, art. 47) e no Código de Processo Civil (Art. 672, § 2º).
	Os fatos que autorizam a consignação, previstos no mencionado Art. 335 do C.C. têm por fundamento:
mora do credor (inciso I e II); 
circunstância inerentes à pessoa do credor que impedem o devedor de satisfazer a sua intenção de exonerar-se da obrigação (incisos III a V).
 
O Art. 335, inciso I do C.C. primeiro fato que dá lugar a consignação é \u201cse o credor não puder, ou, sem justa causa, recusar receber o pagamento, ou dar quitação na devida forma\u201d. Trata-se de uma dívida portável, ou seja, é o devedor que deve procurar o credor para efetuar o respectivo pagamento. E procurado o credor acontece uma dessas 03 hipóteses: a)- Credor não pode por qualquer motivo receber o pagamento, por exemplo: estar viajando; ou b)- Recusa- porque pensa que aquele valor não lhe é devido, pensa que o valor é maior ou ainda pensa em extinguir aquele contrato com fundamento no inadimplemento do devedor e por isso dificulta a vida do devedor no sentido de receber o pagamento; ou ainda finalmente c)- Havendo recusa em fornecer o recibo de quitação, pois esta é a prova de que não pode ser cobrado novamente. 
	O Art. 335, inciso II do C.C. descreve: \u201cse o credor não for, nem mandar receber a coisa no lugar, tempo e condição devidos\u201d. Trata-se de dívida quérable (quesível), em que o pagamento deve efetuar-se fora do domicílio do credor, cabendo a este a iniciativa. Permanecendo inerte, faculta-se ao devedor consignar judicialmente a coisa devida, ou extrajudicialmente a importância em dinheiro, para liberar-se da obrigação.
	
O Art. 335, inciso III do C.C. prevê a hipótese de o credor ser: \u201cincapaz de receber\u201d, ou \u201cdesconhecido\u201d, ter sido \u201cdeclarado ausente, ou residir em lugar incerto ou de acesso perigoso ou difícil\u201d.
	O incapaz, em razão de sua condição, não deve receber