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“sabe, porém, que por todas essas coisas te trará Deus a juízo” (Ec 11.9b). 1° Uma concessão irônica às vaidades e prazeres da juventude: Alegra-te, jovem, na tua mocidade. Alguns fazem disto um conselho que os ateus e os epicuristas dão ao homem jovem, as sugestões venenosas contra as quais Salomão, na conclusão deste versículo, prescreve um poderoso antídoto. Mas é mais enfático se nós tomamos isto, como é comumente entendido, pelo caminho da ironia, como a de Elias aos sacerdotes de Baal (Clamai em altas vozes, porque ele é um deus), ou como a de Micaías a Acabe (Sobe a Ramote-Gileade e prosperarás), ou como a de Cristo aos seus discípulos: Dormis agora. “Alegra-te, jovem, na tua mocidade, vive uma vida alegre, segue os teus esportes e toma os teus prazeres; e alegre-se o teu coração nos dias da tua mocidade, alegrate com as tuas esperanças sofisticadas e tolas; entretémte com os teus sonhos agradáveis; anda pelos caminhos do teu coração; faze o que quer que tu tenhas em mente fazer, e não te apegues a nada que possa satisfazer o teu apetite sensual. Quicquid libet, licet - Faz da tua vontade a tua lei. Anda pelos caminhos do teu coração, e que o teu coração ande após os teus olhos, um coração divagante após um olho que perambula; faze o que é agradável aos teus próprios olhos, quer isso seja agradável aos olhos de Deus ou não. ” Salomão assim fala ironicamente ao homem jovem para declarar-lhe: (1) Que isto é o que ele faria, e que ele teria deixado de fazer com prazer, no que ele coloca sua felicidade, e sobre o que ele assenta o seu coração. (2) Que ele deseja que todos ao seu redor lhe dêem este conselho, lhe predigam coisas delicadas como estas, e não sigam qualquer conselho ao contrário, mas considerem aqueles seus inimigos quem tentam deixá-lo sóbrio e sério. (3) Revelar a sua loucura e o grande absurdo de um curso de vida maldoso e voluptuoso. A sua descrição exata disso, se os homens pudessem ver as coisas inteiramente e julgá-las imparcialmente, é suficiente para mostrar o quão contrários à razão agem aqueles que vivem essa vida. A própria abertura da causa é suficiente para determiná-la, sem qualquer argumento. (4) Mostrar que, se os homens se entregam a um curso de vida como este, é justo que Deus os entregue a isso, para abandoná-los às cobiças dos seus próprios corações, para que eles possam andar em seus próprios conselhos, Oséias 4.7. 2. Uma restrição poderosa é dada a essas vaidades e prazeres: “Sabe que por todas essas coisas te trará Deus a juízo, e considera-as devidamente, e então vive uma vida luxuosa se tu puderes, se tu tiveres coragem.” Isto é um kolasterion - um corretivo para as concessões precedentes e um puxão nas rédeas que ele tinha posto no pescoço da cobiça do homem jovem. “Sabe então, com certeza, que, se tu tomas uma liberdade como esta, ela será a tua ruína eterna; tu tens que se haver com um Deus que não deixará que isso fique impune.” Note que: (1) Há um julgamento por vir. (2) Nós devemos, cada um de nós, ser trazidos a julgamento, no entanto nós podemos agora deixar esse dia mau longe de nós. (3) Nesse dia, nós devemos levar em conta toda nossa alegria carnal e prazeres sensuais. (4) É bom para todos, mas especialmente para as pessoas jovens, saber e considerar isto, que eles não podem, pelos excessos das suas cobiças juvenis, entesourar para si ira no dia da ira, a ira do Cordeiro. 3. Uma palavra de advertência e exortação inferida de tudo isso, v. 10. Que as pessoas jovens olhem para si mesmas e administrem tanto as suas almas quanto os seus corpos, seu coração e sua carne. (1) Que elas tomem cuidado para que as suas mentes não sejam elevadas pelo orgulho, nem perturbadas com raiva ou qualquer paixão pecaminosa: Afasta a tristeza (versão inglesa KJV), ou ira, do teu coração; a palavra significa qualquer desordem ou perturbação referente à mente. As pessoas jovens têm a capacidade de ser impacientes para verificar e controlar, de afligir-se e irritar-se com qualquer coisa que seja humilhante ou mortificante para elas, e seus corações orgulhosos se levantam contra cada coisa que cruza os seus caminhos e as contradiz. Elas estão tão ligadas ao que é agradável aos sentidos, que elas não podem suportar nada que seja desagradável, mas isso leva tristeza aos seus corações. Seu orgulho freqüentemente as desassossega e as deixa ansiosas. “Põe de lado isso e o amor do mundo, e diminui as tuas expectativas da criatura, e então as decepções não serão motivo de tristeza e raiva para ti.” Por tristeza, alguns aqui entendem a alegria carnal descrita, v. 9, da qual o fim será amargura e tristeza. Que elas mantenham uma distância de tudo o que será tristeza na reflexão. (2) Que elas tomem cuidado para que os seus corpos não sejam maculados pela intemperança, impureza, ou quaisquer cobiças carnais: “Remove da tua carne o mal. e não deixes os membros do teu corpo serem instrumentos de iniqüidade. O mal do pecado será o mal da punição, e aquilo por que tens afeição, como bom para a carne, porque satisfaz o apetite dela, provará ser mau e doloroso para ela, e por essa razão coloca-o longe de ti, quanto mais longe melhor.” 2° . A convocação para a alegria é exposta e pressionada com maiores detalhes em 11:9-12:8. O jovem é confrontado com o anseio pela verdadeira alegria. A preposição ligadora e (e recreie-se o teu coração... e anda... e agradam... e sabe... e afasta... e remove... e lembra-te) nos faz lembrar que os versículos 9s., e a elegia que se segue devem ser entendidos como um todo que se auto-interpreta. O uso de na (hebr. 6) é temporal: a vida deve ser gozada em todos os seus aspectos na juventude. A alegria deve caracterizar a vida interior (oração) e o comportamento exterior (anda, quando usado para indicar o modo de vida de alguém, geralmente se refere ao aspecto exterior).199 A fonte e o meio da alegria é o coração, o centro da vida interior do homem, a fonte dos pensamentos, dos sentimentos, das resoluções, do caráter. “ Não se permite, simplesmente, aqui, a alegria; esta é obrigatória, representando um elemento essencial da piedade” (Hengstenberg). Os olhos são os instrumentos do coração (cf. Jó 28:67; Jr 22:17). O Velho Testamento fala de beleza visual (Gn 2:9, etc.) e ensina que o uso da visão pode conduzir à alegria (Êx 4:14), à sabedoria (Pv 24:32), à êxtase deleitosa (6:5), ou, negativamente, à luxúria (2 Sm ll:2ss.), à cobiça (Js 7:21) e ao desdém (2 Sm 6:22). A alegria há de ser controlada pelo conhecimento do julgamento de Deus, que nos pedirá conta. É provável que Leupold tenha razão em argumentar que o artigo definido (em hebr.) indica um julgamento bem específico, e não um mero julgamento geral da parte de Deus. É verdade que a palavra julgamento é usada noutras passagens neste último sentido (e.g. 3:16, no hebr.); contudo, aqui, o contexto aponta para um evento definido. Julgamento (mispãt) implica em justiça: “ Há um forte sabor de ‘direito’ nesta palavra. Não denota poder nu e desavergonhado, mas poder dirigido para fins corretos... O ‘juiz’ é mais do que simplesmente um governador. É alguém cuja atividade é adequadamente descrita em termos de lei e justiça.” 200 Implica, também em discriminação: julgar é “ discernir entre o bem e o mal” (1 Rs 3:9); em seu pano de fundo legal freqüentemente carrega a noção de decisão entre duas partes diferentes (Gn 16:5), ou do Senhor julgando Seu povo (Is 1:27).201 O pano de fundo da palavra contém não apenas o senso de processo legal, mas também o de realeza: “ Fazer justiça é parte das funções reais” 202 (c/. 1 Sm 8:5), e assim enfatiza o poder e a soberania do Senhor. De modo semelhante, é algo dinâmico, visto que à vista do pecado, Deus deve agir. A atividade judicial de Deus não é “ tipificada pela jovem de olhosvendados segurando uma balança nas mãos” 203 nem pela “ neutralidade fria de um juiz imparcial” ;204 é, ao invés, a energia consumidora pela qual Deus deve promover o “ direito” , indo, pois, além do mero exercício da discriminação, até o estabelecimento judicial do governo real. Sabe, aqui, é mais do que percepção intelectual; trata-se daquela capacidade de agarrar a verdade que consegue corrigir e amoldar a vida. “ Tem um elemento de reconhecimento; mas, tem, ainda, um elemento de emoção, ou melhor, de agitação da vontade” .205 Pelo fato de o Pregador usar um imperativo, um comando, e não uma mera declaração, tira-se a implicação de que há o perigo da indiferença, ou da negligência à realeza de Deus, e Sua atividade judicial. “Porque Deus há de trazer a juízo toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau” (Ec 12.14) A prestação de contas que cada um de nós deve fazer brevemente de si mesmo a Deus; por isso, ele argumentou contra uma rida violenta e voluptuosa (cap. 11.9), e aqui por uma vida religiosa: Deus há de trazer a juízo toda obra. Note que: 1. Há um julgamento porvir, onde o estado eterno de todo homem será finalmente determinado. 2. O próprio Deus será o Juiz, não somente porque Ele tem o direito de julgar, mas porque Ele é perfeitamente adequado para isso, infinitamente sábio e justo. 3. Toda obra, então, há de ser trazida a juízo, será investigada e chamada novamente. Será um dia para trazer à lembrança tudo o que foi feito no corpo. 4. A grande coisa a ser então considerada a respeito de toda obra é se isso é bom ou mau, correspondente à vontade de Deus ou uma violação dela. 5. Até mesmo o que está encoberto será trazido à luz e relatado, no julgamento do grande dia (Rm 2.16); não há bom trabalho, nem mau trabalho, escondido, mas devem então ser manifestos. 6. Em consideração ao julgamento por vir e à severidade deste julgamento, preocupa-nos altamente agora ser muito severos na nossa caminhada com Deus, para que nós possamos fazer nossa prestação de contas com alegria. A base do perfeito juízo é declarada por nosso Senhor Jesus Cristo com as seguintes palavras: “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma; como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.” (João 5.30). Todo juízo justo é aquele que é realizado segundo a perfeita vontade de Deus. Para ser segundo a vontade de Deus deve ser segundo a reta justiça, e não segundo a aparência, conforme assim o expressa o Senhor Jesus em João 7.24. Disto se infere, que o juízo que nos é proibido conforme suas palavras em Mateus 7.1,2 é somente aquele que for temerário, ou seja, precipitado, apressado, e que está baseado em motivações diferentes de um reto juízo que promova a glória de Deus. O Juízo Divino é segundo a verdade: “Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas. Bem sabemos que O JUÍZO DE DEUS É SEGUNDO A VERDADE contra os que praticam tais coisas. Tu, ó homem, que condenas os que praticam tais coisas e fazes as mesmas, pensas que te livrarás do juízo de Deus? Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?” (Romanos 2.1-4) Paulo está reprovando a atitude das pessoas em querer julgar os outros com um nível elevado e a si mesmas com um nível inferior. Em Deus não acontecerá dessa forma, pois o critério usado por Deus será o mesmo em todos os Juízos. Paulo disse: bem sabemos que o juízo de deus é segundo a verdade contra os que praticam tais coisas. Quando o apostolo falou que “o juízo de deus é segundo a verdade”, ele está mostrando o critério imutável do juízo de Deus que é a Palavra. Jesus disse: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” – João 17.17. Esse é o primeiro critério do juízo Divino, nada mais, nada menos que a própria Palavra de Deus. Esse padrão não varia, será sempre o mesmo – segundo a verdade Mas, se a nossa injustiça ressalta de maneira ainda mais clara a justiça de Deus, que diremos? Que Deus é injusto por aplicar a sua ira?… Claro que não! Se fosse assim, como Deus iria julgar o mundo?” (Romanos 3:5-6, NVI) Deus como juiz, que a cada ser humano imputa a responsabilidade de prestar contas em conformidade com Sua lei, é um tema muito repetido nas Escrituras. O apóstolo Paulo fala sobre este assunto em sua carta aos romanos. Pois em Deus não há parcialidade. Todo aquele que pecar sem a Lei, sem a Lei também perecerá, e todo aquele que pecar sob a Lei, pela Lei será julgado. Porque não são os que ouvem a Lei que são justos aos olhos de Deus; mas os que obedecem à Lei , estes serão declarados justos” (Romanos 2:11-13, NVI). Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, RETO JUIZ, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda” (II Timóteo 4.7-8) o Senhor não esquecerá, porque não é injusto para esquecer, e porque a nossa santidade e justiça serão aperfeiçoadas e serão a nossa coroa. Deus a dará como justo juiz e não permitirá que alguém se desvie. Essa coroa da justiça não era somente para Paulo, como se pertencesse somente aos apóstolos, aos ministros famosos e aos mártires, mas para todos os que amarem a sua vinda. Observe: A natureza de todos os santos é amar a vinda de Jesus Cristo: eles amaram a sua primeira vinda, quando Ele apareceu para tirar o pecado pelo sacrifício de si mesmo (Hb 9.26). Eles têm prazer em refletir a respeito dela. Eles aguardam ansiosos pela segunda vinda de Cristo naquele grande Dia. Eles a amam e a aguardam com ansiedade. Em relação àqueles que amam a vinda de Jesus Cristo, Ele virá para a alegria deles. Existe uma coroa de justiça reservada para eles, que na segunda vinda de Jesus Cristo será dada a eles (Hb 9.28). Disso, podemos aprender que, em primeiro lugar, o Senhor é o Juiz justo, porque seu julgamento é de acordo com a verdade. Em segundo lugar, a coroa dos crentes é uma coroa de justiça, comprada pela justiça de Cristo e guardada como recompensa pela justiça dos santos. Em terceiro lugar, essa coroa, que os crentes deverão usar, é depositada para eles. Eles não a têm na era presente, porque aqui eles são somente herdeiros. Ela não é deles como uma posse, e, mesmo assim, ela é certa, porque foi depositada para eles. Em quarto lugar, o justo Juiz a dará a todos que amam a sua vinda, se preparam para ela e anelam por ela. “Ele é o Senhor, nosso Deus; os seus juízos permeiam toda a terra “- (Salmos 105:7)