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BENZODIAZEPÍNICOS 1. INTRODUÇÃO Os Benzodiazepínicos são um grupo de substâncias, que estão entre os remédios mais utilizados no mundo todo, pois possuem propriedades sedativas, hipnóticas e anticonvulsivante [1]. O consumo dessa classe de substâncias vem crescendo ano a ano, principalmente entre as mulheres e os idosos, porém, seu uso prolongado e sem discriminação pode levar a efeitos como dependência e diminuição da atividade psicomotora [1]. As substâncias deste grupo promovem a ligação do GABA à receptores da membrana dos neurônios, inibindo a atividade neuronal. Com o aumento das doses, podem levar a sintomas como sono, inconsciência, anestesia e coma [2]. Os Benzodiazepínicos também podem levar a quadros de tolerância, que é desenvolvida devido ao uso crônico, como também à quadros de abstinência [2]. A estrutura básica dos benzodiazepínicos consiste em um anel de sete elementos fundido com um anel aromático, com quatro substituintes principais. São os diferentes substituintes que cada um dos benzodiazepínicos apresentem características diferentes [3]. A imagem 1 apresenta as principais substâncias classificadas como benzodiazepínicos. Imagem 1 - Informações cinéticas e farmacológicas dos principais benzodiazepínicos. Fonte: SCHULZ et. al. (2012) Apesar dos benzodiazepínicos serem comumente usados como medicamentos, alguns tipos são usados em tentativas de furto e agressão. Compreendendo a importância do conhecimento sobre eles, para a autopreservação e segurança, este trabalho abordara com maior ênfase o Flunitrazepam, substância conhecida também como Boa Noite Cinderela. 2 FLUNITRAZEPAM 2.1 TOXICOCINÉTICA A absorção do Flunitrazepam é majoritariamente oral, mas pode acontecer de forma intencional, quando ele é utilizado como medicamento, ou de sem intenção, quando ele é colocado em bebidas com a intenção de dopar a vítima de crimes de agressão e furto. A sua absorção é praticamente total, e leva 30 minutos. Em alguns raros casos, o Flunitrazepam é usado na forma de pó em conjunto com a maconha. Por ser altamente solúvel em meio aquoso, este medicamente é rapidamente distribuído por todo o corpo através da corrente sanguínea. Apenas 10 a 15 por cento do que foi consumido é metabolizado durante a primeira passagem no fígado, originando uma biodisponibilidade de 85 por cento. Os principais metabolitos ativos do Flunitrazepam são 7-amino- flunitrazepam e o N-dimetil-flunitrazepam e ambos são eliminados pelos rins após glicuroconjugação. O Flunitrazepam é praticamente todo biotransformado antes da sua excreção pela urina, apenas dois por cento são eliminados na forma intacta. O tempo de meia vida dos metabolitos ativos é de 23 a 33 horas. A imagem 2 apresenta de maneira resumida a toxicocinética do Flunitrazepam. Imagem 2: Toxicocinética do Flunitrazepam. Fonte: Toxicologia Inta (2016). A utilização de benzodiazepínicos em forma constante podem causar sua dependência, tanto físicas quanto psicológica, tendo maiores efeitos em pessoas que ingerem álcool com maior frequência, por esse motivo há casos de abstinências, podendo ser crises simples como dores de cabeça, mialgia, como casos mais graves como ansiedade de forma demasiada, tensão, inquietação, confusão mental e irritabilidade 2.2 TOXICODINÂMICA O ácido gama amino-butírico (GABA) é o principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central[5]. O receptor GABA é o complexo molecular receptor-benzodiazepínico-ácido gamaaminobutírico do tipo A ou GABA-A, sendo assim ele possui uma região específica de ligação para os benzodiazepínicos (BZDs) e para outras moléculas como os barbitúricos e álcool. Não obstante, a ligação entre o GABA e seus agonistas ao recepetor GABA-A modificam a estrutura da abertura dos canais de cloro aumentando o influxo celular deste íon, ou seja ocorre a hiperpolarização da membrana celular, e por conseguinte uma inibição sináptica rápida. Dois tipos de sub-receptores compreendem o cloexo GABA-A, o ômega tipo 1 e o tipo 2. Este está relacionado com a cognição, efeitos ansiolíticos, limiar convulsivos, depressão respiratória, relaxamento muscular e pontencialidade dos efeitos do etanol e a psicomotricidade. Já o sub-receptor ômega do tipo 1 está ligado aos efeitos hipnóticos e cognitivos. Ou seja, agonistas seletivos para essa subunidade exerceria um efeito hipnótico seletivo e efeitos cognitivos negativos. Por isso que drogas agonistas GABA-A ômega 1 e 2 possuem efeitos farmacológicos ansiolíticos, antiepiléticos, relaxante muscular e hipnóticos. Tanto os benzodiazepínicos como os barbitúricos se ligam de forma inespecífica nas subunidades ômega 1 e 2, o que contribui para que o desenvolvimento de agonistas específicos destas subunidades resulte em compostos com efeitos farmacológicos hipnóticos dissociados de efeitos indesejáveis, diminuindo o potencial de tolerância, abuso, dependência e abstinência. Uma vez que o flunitrazempam pode ser usado como uma droga de abuso, ele atua especificamente no sub-receptor GABA ômega 1, provocando alguns dos seus efeitos colaterais como o prejuízo a memória e habilidade motoras e insônia rebote. E, ao agir especificadamente em determinados sítios anatômicos relacionados aos mecanicmos do sono, como os peptídeos hipotalâmicos hipocretinas que atuam no ciclo vigília-sono e na fisiopatologia da narcolepsia, produzem maior especificidade hipnótica e menor potencial de efeitos colaterais. Os mecanismos de ação do flunitrazepam ocorre por conta da sua atuação no sítio específico no sistema nervoso central que fixa o GABA, que será liberado em maior quantidade, mediando a facilidade e potenciação do efeito inibitório e neurodepressor da droga. Dessa forma o flunitrazpam causa a diminuição da pressão sanguínea, sonolência, tonturas, confusão, distúrbios visuais e gastrointestinais, e retenção urinária. Quando utilizado com álcool pode aumentar a sensação de embriaguez e diminuir as inibições. Na imagem 3 representa o receptor GABA-A e seu sítio de fixação. Imagem 3: Receptor GABA-A e seu sítio de fixação. Fonte: Toxicologia Inta (2016). Como é apresentado na imagem 4, tempo de meia vida do fluitrazepam é de 10 a 20 horas, e o tempo para que a droga faça efeito é de apenas 20 a 30 minutos. Imagem 4: Agentes hipnóticos benzodiazepínicos e não benzodiazepínicos. Fonte: Revista Neurociências (2004). A intoxicação crônica do flunitrazepam é decorrente do abuso e consequentemente dependência do medicamento, dessa maneira é de extrema importância analisar a retirada do medicamento evitando a síndrome de abstinência, e avaliar outras alternativas terapêuticas. A intoxicação aguda, como mencionado anteriormente inicia-se dentro de 20 a 30 minutos atingindo seu ápice após 2 horas. Os efeitos podem durar até 12 horas após o consumo, dentre eles a paralização do corpo e amnésia ante retrógrada, na qual o paciente não consegue reter novas informações depois de instalado o quadro. Os efeitos dos Benzodiazepínicos podem ser minimizados atrvés da administração prévia de um antagonista ou inibidor da síntese do GABA, o mais comum é o Flumazenil (nome comercial: Lanexat). 2.3 FASE CLÍNICA 1.3.1 Diagnóstico É feito pela presença de anamnese e com exame laboratorial, buscando benzodiazepínico em cromatografia em camada delgada, que constitui um teste rápido. 1.3.2 Sinas e Sintomas Em doses acima de 4 mg podem aparecer a fadiga, hipotoniamuscular, de forma intravenosa, podem aparecer amnésia temporária ou anterógrada, de forma parenteral diminui pressão arterial e em casos raros excitação aguda, alteração de sono, doenças psicossomáticas. 1.3.3 Tratamento Não há antidoto especifico, o tratamento deve ser feito de forma paliativa, monitorando o avanço de sinas apresentados, mas para evitar uma maior absorção é aplicado carvão ativado. Há um remédio flumazenil, antagonista especifico do receptor benzodiapínico. 3. O USO DE BENZODIAZEPÍNICOS Os benzodiazepínicos podem ser utilizados para uso terapêutico com indicações clínicas e como “rape drugs” (droga do estupro). 3.1 USO TERAPÊUTICO. As indicações são feitas a partir de recomendações médicas a partir de um diagnóstico, levando em consideração as condições físicas e idade do paciente. São indicados para redução de agressividade, pré-anestésico, sedação, indução e manutenção de sono, anticonvulsionante, relaxamento muscular e, principalmente, antiansiolíticos. Entretanto, os pacientes devem ser avisados sobre os efeitos colaterais do medicamento, são eles: Efeito residual; Persistência dos efeitos sedativos no dia seguinte após uso do medicamento é relacionada com a duração da meia vida da droga, tempo de uso da droga (acúmulo) e metabolismo do paciente. Uma meia-vida longa e doses altas produzem efeitos residuais mais intensos[11] Amnésia anterógrada; Lapsos de memória podem ocorrer com qualquer hipnótico benzodiazepínico ou não benzodiazepínico. Quanto maior a dose plasmática da droga, maior a probabilidade de ocorrer amnésia. Quanto mais próximo do pico plasmático, maior a probabilidade de amnésia anterógrada. O paciente não consegue reter novas informações depois de instalado o quadro. Portanto, as pessoas que precisem acordar no meio da noite para realizar alguma tarefa (cuidar de enfermos, atender telefonemas, conduzir veículo, etc..) não devem usar hipnóticos[11]. Insônia rebote; Insônia rebote é a intensificação dos sintomas de insônia para pior do que antes do início do uso da medicação. Pode ser clinicamente muito difícil para o clínico diferenciar se os sintomas que o paciente está apresentando são decorrentes de rebote (com piora) ou a recorrência dos sintomas (sem piora) que desencadearam o início do tratamento. Insônia rebote pode estar acompanhada de ansiedade rebote também, mas necessariamente não há sintomas autonômicos[11]. Entre outros efeitos pode-se destacar, ataxia, falta de coordenação motora, boca seca, confusão mental, diminuição das funções físicas e mentais. É importante ressaltar que uso indiscriminado e em elevadas doses do medicamento pode levar a tolerância, que corresponde a perda do efeito farmacológico em uma dose fixa do fármaco, esta é uma reação homeostática esperada e caracterizada por uma redução do efeito farmacológico com uso continuado da medicação hipnótica ou ansiolítica[12], e a dependência bem como o fenômeno de tolerância, é uma resposta homeostática de adaptação para principalmente usuários crônicos de benzodiazepínicos. A dependência pode se desenvolver dentro de 2 a 20 semanas de acordo com da meia-vida do benzodiazepínico usado e a dose utilizada[13]. A imagem 5, mostra como é comercializado o flunitrazepam, que só pode ser vendido em farmácias mediante apresentação de receita do tipo “B”, de cor azulada, categoria utilizada para substâncias psicotrópicas. Imagem 5: Embalagem do Flunitrazepam, Fonte: Toxicologia Inta. O abuso de tais substâncias tem efeito nocivo sobre os pacientes biológica, social e psicologicamente. Podendo ocasionar em casos extremos overdose. 3.2 “RAPE DRUGS” Os efeitos apresentados pelo flunitrazepam, transfomam este medicamento em um meio para dopar as pessoas, tornando-as alvos fáceis para assaltos e abuso sexual. Como podem ser encontrados na forma de comprimido ou gostas é um medicamento que pode ser administrado de maneira fácil e imperceptível em bebidas alcoólica, pois se dissolvem facilmente, não possuem cheiro, incolor, e de difícil identificação, tornando a vítima inconsciente por até três dias, o que em muitos casos leva a morte por desidratação. A utilização do flunitrazepam como “rape drug” tem se tronado um golpe recorrente em festas e bares, uma vez que seus sintomas iniciais podem ser confundidos com o de embriaguez. Em um segundo momento, o indivíduo sente-se sonolento e com dificuldades de reagir a ameaças físicas e/ou psicológicas, obedecendo basicamente a todos os comandos ditados pelo golpista. Para identificar a droga no organismo das vítimas que suspeitam da intoxicação, os médicos, além de aderir aos protocolos padrão de estupro, devem garantir que uma amostra de urina seja analisada quanto aos metabólitos do flunitrazepam. 4 CONCLUSÃO A partir do exposto sobre os Benzodiazepínicos é possível confirmar sua grande aplicabilidade na indústria farmacêutica e na possibilidade de proporcionar maior conforto para pacientes com problemas relacionados ao sono e distúrbios de ansiedade e estresse. Porém, é claramente confirmado a grande necessidade de cautela e responsabilidade na utilização dessa classe de medicamentos, como também a necessidade de um controle maior da venda dos mesmos, já que drogas dessa classe são dia a dia relacionadas a casos de violência, principalmente contra a mulher. Os medicamentos estão ao nosso dispor para aumentar a qualidade de vida e propiciar a cura, porém esse trabalho enfatiza a importância do uso consciente e responsável. REFERÊNCIAS [1] JÚNIOR, A. C. S. Benzodiazepínicos: O uso indevido e o abuso, uma proposta de intervenção no município de Monte Carmelo – Minas Gerais. Disponível em < https://www.nescon.medicina.ufmg.br/biblioteca/imagem/benzodiazepinicos- uso-indevido.pdf >. Acesso em 07 de junho de 2019. [2] UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO. Sedativos e hipnóticos não barbitúricos. Disponível em < https://www2.unifesp.br/dpsicobio/drogas/hip.htm >. Acesso em 07 de junho de 2019. [3] TOGNI, L. R. Uso da microextração por sorbente empacotado para preparo de amostras em análises toxicológicas envolvendo fármacos benzodiazepínicos. Disponível em < http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/9/9141/tde-24052018- 144335/en.php?fbclid=IwAR08arFMYmgcSVPImPYlgEd3CKkuG18BCoGRnW4 XxN_f2RRK7jy9klGMJrY >. Acesso em 07 de junho de 2019. [4] GREGO, B. H. C. Efeitos agudos do Flunitrazepam sobre o metabolismo. Disponível em < http://www.repositorio.unifesp.br/bitstream/handle/11600/9386/Publico- 126.pdf?sequence=1&isAllowed=y >. Acesso em 12 de junho de 2019. [5] MELDELSON W.B. Hypnotics: Basic Mechanisms and Pharmacology In: Kryger, M.H; Roth.; Dement W.C. Principles and Practice of Sleep Medicine. 3nd edition. WB Saunders, Philadelphia, 2000, p. 407-413. [6] SMITH T.A. Type A Gamma-aminobutyric acid (GABA A) Receptor Subunits and Benzodiazepine Binding: Significance to Clinical Syndromes and Their Treatment. Br J Biomed Sci 2001, 58: 111-121. [7] CRESTANI F, MARTIN J.R, MOHLER, et al. 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