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Bob Esponja, a calça é quadrada? Taxonomia das esponjas do estado do Ceará (27- 30 de Agosto de 2019) APOSTILA Realização: Laboratório de Invertebrados Marinhos do Estado do Ceará (LIMCE) Autora: Sula Salani Mota 1-INTRODUÇÃO As esponjas são os animais multicelulares mais primitivos existentes, tendo sua origem no Pré-cambriano. Otavia antiqua (Porifera – encontrado na Namíbia) é considerado o mais antigo fóssil conhecido para um animal (BRAIN et al., 2012). Exclusivamente aquáticas, são dulcícolas ou marinhas, ocorrendo em todos os mares, do entre marés às grandes profundidades oceânicas, e dos trópicos às regiões polares (HOOPER et al., 2002), com aproximadamente 9.176 espécies reconhecidas (VAN SOEST et al., 2019). O grupo Porifera tem um nível de organização simplificado, onde as unidades funcionais são as células (BERGQUIST, 1978; KELLY-BORGES, 1995), notórias por sua totipotência e motilidade (HOOPER et al., 2002). A grande maioria não apresenta tecidos verdadeiros, com exceção do grupo Homoscleromorpha Bergquist, 1978, que possui membrana basal e junções celulares especializadas, além do colágeno tipo IV (ERESKOVSKY et al., 2009). Todas as esponjas possuem células em forma de “T” ou achatadas chamadas de pinacócitos formando uma “pele” – pinacoderme – e em volta dos canais, possui coanócitos (células flageladas com colarinho), que podem estar revestindo microcâmaras, responsáveis por gerar a corrente de água, necessária para atividade de filtração (DE VOS et al., 1990; 1991). A exceção são as esponjas carnívoras, presentes em locais oligotróficos como mares profundos, cavernas geladas, nas quais o sistema aquífero inexiste, ou perdeu a função de filtração (alimentam-se capturando a presa) (VACELET & BOURY-ESNAULT, 1995). Os espaços entre a pinacoderme e os canais e as câmeras é preenchido por uma matriz de colágeno chamada mesoílo, onde são encontradas células móveis, estruturas de suporte como as fibras orgânicas e/ou estruturas esqueléticas (espículas) de cálcio ou sílica (DE VOS opit cit.) (Figura 01). Também é possível encontrar material exógeno ( areia, pedaço de conchas, espiculas de outras esponjas), que auxilia na organização e no reforço do esqueleto, na estabilidade da esponja no substrato não-consolidado e na morfogênese esquelética (e.g. Tectitethya cripta (de Laubenfels, 1949) (CERRANO et al., 2004). As esponjas não possuem tecidos ou órgãos especializados em reprodução (KNOX et al., 1994 apud ETTINGER-EPSTEIN et al. 2007), mas possuem diversas estratégias reprodutivas: assexuada (fragmentação, brotamento) e sexuada (e.g BATTERSHILL & BERGQUIST, 1990). Podem ser gonocóricas (e.g. ETTINGER- EPSTEIN et al. 2007,WHALAN et al., 2007) ou hermafroditas (e.g. FROMONT, 1999); ovíparas (e.g. CORRIERO et al., 1998), vivíparas (MARIANI et al., 2000, LANNA et al., 2007) ou ovovivíparas (GERASIMOVA & ERESKOVSKY, 2007); a fertilização pode ser interna ou externa (esta mais rara) (e.g. SIDRI et al., 2005; RIESGO & MALDONADO, 2009). Os padrões reprodutivos podem ser influenciados por fatores ambientais (MALDONADO, 2006; ETTINGER-EPSTEIN et al., 2007) ou não (SPETLAND et al., 2007). Figura 01: Estrutura geral de uma esponja mostrando o fluxo de água: óstio-ósculo e esponja carnívora se alimentando. A) Fluxo de água através do óstio-osculo; B) Esquema histológico de uma esponja. C) Esponja carnívora se alimentando. Figuras: A) BOURY-ESNAULT & RÜTZLER, 1997; B) HICKMAN et al., 2001; C) VACELET et al., 1995. O comportamento celular durante a embriogênese, bem como estudos moleculares de Porifera corroboram a hipótese de que os poríferos são metazoários basais (e.g. COLLINS, 1998; LARROUX et al., 2006; PHILIPPE et al., 2009; PICK et al., 2010; WÖRHEIDE et al., 2012), e estão significativamente separados dos ramos que compõem as sequências de Fungi, Plantae e eucariotas unicelulares (SCHÜTZE et al., 1999). ECOLOGIA São sésseis, predominantemente filtradoras (VAN SOEST et al.,2012) e membros conspícuos das comunidades bentônicas. Associam-se entre si e a diversos seres como microrganismos, algas e outros animais, servindo de moradia, berçário, camuflagem, alimento, além de competir por espaço (e.g. RIBEIRO et al. 2003; BEZERRA & COELHO, 2006; WULFF, 2006; TAYLOR, 2007; BELL, 2008), sendo provável que a maior parte destas relações seja mediada quimicamente (AMSLER et al., 2009; PAUL & PUGLISI, 2004). A frequência e variedade dessas relações ecológicas se refletem na importante função que as esponjas desempenham na manutenção da biodiversidade, o que decorre em parte do seu papel na estruturação física do ecossistema (VAN SOEST, 1994; HOOPER & LEVI, 1994) (Figura 02). Elas participam, por exemplo, da formação do substrato dos recifes tropicais (erodindo substratos calcários - e.g. esponjas bioerosivas (Cliona)) - ou ajudando-o na sua consolidação – e.g. esponjas psamobiônticas (e.g WULFF, 2001; CALCINAI et al. 2005; BELL, 2008). Figura 02: Relações das esponjas entre elas e outros seres vivos. A) Diferentes formas e espécies de esponjas. B) Desmapsamma anchorata (Carter, 1882). C) Haliclona sp. D) Estrela do mar comendo esponja. E) Caranguejo decorador; F) Cliona delitrix Pang, 1973 (forma gama); G e H) Rodolito com Cliona sp. Fotos: A, B, C, D, E, F - recifes de arenito da praia do Francês, Marechal Deodoro, Alagoas; G, H - Parrachos de Maracajaú, Maxaranguape, Rio Grande do Norte. Foto: A – Eduardo Hajdu; ; F– Mariana de S. Carvalho. Graças à sua participação em diversos ciclos químicos, as esponjas conectam os nutrientes das regiões pelágicas e bentônicas (ver BELL, 2008), contribuindo ainda em alguns casos para o aumento da produção primária e nitrificação em função de cianobactérias ou algas unicelulares simbiontes, frequentemente associadas aos poríferos (RÜTZLER, 1990). Segundo MALDONADO (2005), as esponjas têm uma participação importante no ciclo da sílica, funcionando como um depósito de sílica em recifes. Além disto, elas retêm a matéria orgânica dentro da comunidade recifal, evitando a perda para o mar aberto e disponibilizando-a em sua forma dissolvida (DOM – “Dissolved Organic Matter”) ou como detritos que são consumidos pela fauna recifal bentônica. Estima-se que esta via seja a maior responsável pelo ciclo do carbono no sistema trófico dos recifes (DE GOEJI et al. 2013.; Figura 03). Figura 03: Esquema simplificado dos principais caminhos de transferência do carbono orgânico (milimoles de Cm-2 dia-1) nos recifes de corais em ecossistemas pelágicos (azul), recife bentônico (verde) e sedimento (bege areia). Ciclo –Esponja proposto por DE GOEJI et al. (2013) (seta vermelha), mostrando o ciclo microbiano clássico, GPP- produção primária total. Figura adapta de DE GOEJI et al. (2013). Desde o tempo dos gregos antigos, as pessoas têm reconhecido a utilidade das esponjas marinhas. Devido à sua capacidade para absorverem a água e sua natureza compressível e macia, elas têm sido usadas em uma variedade de formas que vão desde o banho pessoal às aplicações industriais. Historicamente, a oferta de esponjas naturais no mundo foi oriunda do Mar Mediterrâneo (cultura grega) e atualmente, os Estados Unidos (especialmente a Flórida) é um a grande exportador desses animais (STEVELY & SWEAT, 2008). Em relação à utilidade das esponjas de água doce, as comunidades ribeirinhas usam suas espículas (cauxi) para a produção de cerâmicas (VOLKEMER- RIBEIRO & BATISTA, 2007) (Figura 04). Figura 04: Pescaria e usos comerciais de esponjas. A) Barco italiano utilizado para a pescaria de esponjas;B) Mercado do século XIX de esponjas na Flórida; C) Esponjas marinhas utilizadas para pinturas de paredes e telas; D) Desembarque de esponjas para lojas na Grécia nos dias atuais; E) Loja da ilha de Kalymnos (Grécia); F) Estátua feita de argila com cauxi da tribo Tapajós; G) “Sea Pearls”, absorventes femininos feitos de esponjas marinhas; H) Propaganda de esponja marinha de banho (Itália). Fotos: A, H - http://www.rosenfeld.it/en/about-us.html; B) http://edis.ifas.ufl.edu/sg095#FIGURE 2; C)http://pt.aliexpress.com/item/8-Man-made-sea-grass-sponge-roller-for-wall-painting-200mm-art- limitation grass-sea-sponge/673438131.html?recommendVersion=2; D ;E - http://www.sitestory.dk/rejser /kalymnos 2008/fotodoc/23e.htm; F - https://thehippygardener. wordpress.com/2013/09/08/green-your-life-one-period-at-a-time-natural-sea-sponge-tampons/; G - http://desafiandooriomar.blogspot.com.br/2011/02/ desafiando-o-riomar-ceramica-cultura-na.html. As esponjas também são usadas como bioprodutos (remédios, tintas anti- incrustação, dentre outros) (BERLINCK et al., 2004; SIPKEMA et al., 2005; PAUL et al., 2006), devido à sua produção de metabólitos secundários bioativos que são usados principalmente como defesa química contra predação, “foulling”, competição por espaço, entre outras (e.g. BECERRO et al., 1994; SCHUPP et al., 1999; McCLINTOCK & BAKER, 2001; CHAVES-FONNEGRA et al., 2008; RUZICKA & GLEASON, 2008). Um dos primeiros medicamentos para o tratamento com êxito do câncer, a citosina-arabinosídeo, foi isolado a partir de uma esponja do Caribe, a Tectitethya crypta (de Laubenfels, 1949) (SCHWARTSMANN, 2000) (Figura 05). Estudos comprovam as ações antivirais, anti-inflamatória, anti-tumoral e antimicrobiana (bactérias, Plasmodium, Leshmania, e helmintos) das esponjas (e. g. LAPORT et al., 2009; YASHUARA-BEL & LU, 2010; JOSEPH & SUJATHA, 2012; HILL, 2011; MAYER et al., 2013). Como exemplos, algumas drogas importantes nos dias atuais: AZT (anti-SIDA) tem sua origem traçada a análogos sintéticos de moléculas extraídas de esponjas (e. g. espongouridina e espongotimidina) (McCONNELL et al., 1994); Ara-A, distribuído como Vira-A (® Parke-Davis) para o tratamento de infecções por Herpes; e a Citarabina/Ara-C, distribuído como Cytosar-U (® Upjohn) e DepoCyt (® Enzon) para o tratamento de algumas leucemias e linfomas (Tabela 01, para mais informações). Figura 05: Tectitethya crypta e seus compostos. A) Tectitethya crypta in situ; B) Compostos bioquímicos: 1 – espongotimidina; 2 - análogo sintético, adenina-arabinosídeo (ara-A); 3- análogo sintético, citosina- arabinosídeo (ara-C) (anticâncer e antiviral, respectivamente). Fotos: A) http://www.portol.org/guide/sp_35.html; B) COSTA-LOTUFO et al., 2009 Tabela 01: Agentes naturais advindos de esponjas marinhas. Adaptada e aumentada a partir de YASHUARA-BEL & LU, 2010. Composto Esponja Uso Referência Acyclovir Derivado sintético de nucleosideo arabinosil de Tectitethya crypta Antiviral – HSV ELION et al., 1977 Ara-A (vidarabina) Derivado sintético de nucleosideo arabinosil de Tectitethya crypta Antiviral – HSV PRIVAT de GARILHE & de RUDDER, 1964 Ara-C (cytarabina) Tectitethya crypta Antiviral – HSV PRIVAT de GARILHE & de RUDDER, 1964 Azidothymidina (zidovudina) Derivado sintético de nucleosideo arabinosil de Tectitethya crypta Antiviral – HSV, HIV HORWITZ et al., 1964 Caliceramida A-C Discodermia calyx Influenza Neuraminidase NAKAO et al., 2001 Clathsterol Clathria sp. HIV-1 RT RUDI et al., 2001 Crambescidina 826 Monanchora sp. HIV-1 envelope-mediador de fusão CHANG et al., 2003 Dehydrofurodendina Lendenfeldia HIV-1 transcriptase reversa- associada RNA- e DNA- polimerase direta DNA CHILL et al., 2004 Hamigerana B Hamigera tarangaensis Virus Herpes e Polio WELLINGTON et al., 2000 Ilimaquinona Hippiospongia metachromia RNase H Funçãoda transcriptase reversa LOYA & HIZI, 1993 Microspinosamida Sidonops microspinosa HIV-1 CPE RASHID et al., 2001 Neamphamida A Neamphius huxleyi HIV-1 CPE OKU et al., 2004 Petrosina Petrosia similes HIV-1 replicação, formação da célula gigante e da transcriptase reversa recombinante GOUD et al., 2003 Polyacetylenetriol Petrosia sp. HIV-1 RNA- and DNA- dependent DNA polymerase activities of retro viral RT LOYA et al., 2002 Weinbersterol A, B Petrosia weinberg Vírus da leucemia felina da influenza dorato e docorona vírus do rato SUN et al., 1991 Outro fato interessante em relação às esponjas está no relato de dermatites, doenças oculares e estomacais (esta última quando se come em utensílios temperados com cauxi) provenientes da região Norte do Brasil (VOLKMER-RIBEIRO & BATISTA, 2007; CRUZ et al., 2013) (Figura 06). Além disso, outros animais também utilizam as esponjas como ferramentas, como os golfinhos nariz-de-garrafa (Tursiops sp.) do litoral australiano, eles têm usado esponjas em forma de vaso para proteger seus rostros quando escavam a terra e procurar alimentos (MANN et al., 2008) (Figura 07). Figura 06: Problemas oculares causados por espículas. A-B: Nódulo na conjuntiva ocular causado por espículas; C-D: Neovascularização e opacidade na córnea. Fotos: CRUZ et al., 2013. Figura 07: Esponja como ferramenta de forrageio de golfinhos nariz-de-garrafa. A) Esponja marinha Echinodyctium mesenterinum (Lamarck, 1814); B) Golfinho com a esponja no rostro; C) Presa (Parapercis nebulosa).; D) Substrato com a presa escondida Fotos: A, B e D- MANN et al., 2008; C – www.daveharasti.com Tais fatos, quando somados à já mencionada importância estrutural dos poríferos e sua alta diversidade em inúmeros ecossistemas marinhos, fazem do grupo uma das prioridades globais no estudo da biodiversidade do bento marinho (JACKSON, 1997; CARLTON, 1998). Reconhecem-se cinco classes de poríferos, uma das quais exclusivamente do registro fóssil: (a) Archaeocyatha Bornemann, 1884; (b) Calcarea Bowerbank, 1864; (c) Hexactinellida Schmidt, 1870; (d) Demospongiae Sollas, 1885; (e) Homoscleromorpha Bergquist, 1978 (HOOPER & VAN SOEST, 2002a; MANUEL et al., 2002; REISWIG, 2002; GAZAVE et al., 2010, 2012). O grupo Porifera é monofilético, bem suportado de acordo com estudos recentes baseados em análises filogenômicas e cladísticas (PHILIPPE et al., 2009; PICK et al., 2010; WÖRHEIDE et al., 2012) (Figura 08). Figura 08: Relações entre as quatro classes viventes de Porifera. Desenho adaptado de PHILLIPE et al., 2009. Classe Archaeocyatha Bornemann, 1884 - importante grupo de organismos sésseis que habitavam os mares durante o Cambriano e que hoje estão presumivelmente extintos, possuía um esqueleto calcário maciço, em formas de cones invertidos com paredes duplas e cristais de calcita (HOOPER et al., 2002). Classe Calcarea Bowerbank, 1864 - considerada a mais rara do filo, somente com 5% das espécies vivas. São geralmente pequenas e frágeis e seu esqueleto é formado por espículas de carbonato de cálcio, diactinais, triactinais e/ou tretactinais. Também podem possuir esqueletos hipercalcificados. Essas esponjas são todas marinhas (TUZET, 1973), encontradas comumente em ambientes ciáfilos, crípticos e em águas rasas (devido ao aumento da solubilidade do carbonato de cálcio com o aumento da pressão) (BRUSCA & BRUSCA, 1990). Há pelo menos 35 espécies descritas para a costa brasileira (BOROJEVIC & PEIXINHO, 1976; MURICY et al., 1991; KLAUTAU & BOROJEVIC, 2001). Classe Homoscleromorpha Bergquist, 1978 – Compreende cerca de 1% das espécies recentes de esponjas.É caracterizado por possui exo- e endopinacócitos flagelados, um revestimento da membrana basal, coanoderme e pinacoderme, oval, câmaras de coanócitos esféricas com um tipo silábico ou leucocitário. um único tipo de larva cinctoblástula que é incumbada; as espículas, quando presentes, são tetractinas peculiares (caltrops) e derivados através de redução (diodos e triodos) ou através de ramificação de uma a todas as quatro actinas (caltropsias lofosas). Classe Hexactinellida Schmidt, 1870 - compreende aproximadamente 7% das espécies recentes de esponjas. Possuem esqueleto silicoso com espículas hexaradiadas, isoladas ou fusionadas e são conhecidas como esponjas de vidro. Habitam zonas batiais, abissais, hadais e às vezes são encontradas em águas rasas dentro de cavernas do mediterrâneo e na Columbia Britânica no Canadá (REISWIG, 2002). Para o Brasil estão descritas 8 espécies, todas de mares profundos (HAJDU & LOPES, 2007). Classe Demospongiae Sollas, 1885 É a classe mais diversa das esponjas em número de espécies, características morfológicas, espiculares e estratégias de vida. Corresponde a 83% das espécies válidas descritas até o momento (Figura 09) (VAN SOEST & HOOPER, 2002; VAN SOEST et al., 2012). Figura 09: Percentual da diversidade de espécies das quatro classes viventes de esponjas. Legenda: azul - Demospongiae; vermelho - Calcarea, verde - Hexactinellida, amarelo – Homoscleromorpha. As demospongias são encontradas em todos os ecossistemas, possuindo diversas variedades de formas, cores e tamanhos e participam dos ciclos ecológicos já descritos. Estima-se que alguns de seus representantes possam chegar a 2500 anos de idade, como é o caso de algumas Xestospongia muta (Schmidt, 1870), que por sua idade e tamanho, no Caribe, são chamadas de “redwoods of the reef” (MCMURRAY & PAWLIK, 2008) (Figura 10). Esta é a única classe na qual são conhecidos representantes carnívoros do filo (VACELET, 2007). Figura10: Diversidade de cores e formas das Demospongiae. A) Fistulosa – Oceanapia; B) Maciça - Haliclona caerulea; C) Maciça arredondada – Placospongia sp.; D) Maciça, lobada – Ircinia sp.; E) Globular – Tethya sp.; F) Tubular – Xestospongia muta. Local de coleta: A) Guamaré, Rio Grande do Norte; B e E) Mundaú, Ceará; C e D) Maracajaú, Rio Grande do Norte; E) Caribe. Foto: A) André Bispo; D) Mariana de S. Carvalho; E) Retirada: www.undertwater.org. A estrutura esquelética das Demospongiae é composta de espículas silicosas e/ou fibras orgânicas ou fibrilas de colágeno. As silicosas são divididas em megascleras (monaxônicas ou tetraxônicas, nunca triaxônicas), que compõem o esqueleto principal, e microscleras às quais já foram propostas diferentes funções, apesar de não estarem bem esclarecidas. Dentre elas, defesa e sustentação de tecidos moles, uma vez que frequentemente estão envolvendo os canais aquíferos (URIZ et al., 2003). Em alguns grupos (e.g. Agelasidae, Hadromerida, Haplosclerida; (ver Systema Porifera, HOOPER & VAN SOEST (orgs.), 2002)], o esqueleto espicular ou orgânico possui em adição um esqueleto basal calcário que lembra o dos antozoários (Cnidaria) formadores de recifes, como o que ocorre em Ceratopora nicholsoni Hickson, 1911 (WILLENZ & HARTMAN, 1985) (Figura 11). Figura 11: Exemplos de esqueleto e de espículas de Demospongiae. A) Esqueleto himedesmioide formado por acantóstilos. B) Esqueleto reticulado formado por fibras de espongina. C) Ceratoporella nicholsoni Hickson, 1911. D) Esqueleto hipercalcificado de Ceratoporella nicholsoni. E) Exemplos de megacleras monoaxônicas e tetraxônicas. F) Exemplos de microscleras. Fotos: B) PINHEIRO et al., 2007. C) http://www.spongeguide.org/speciesinfo.php?species=128. D) http://en.wikipedia.org/wiki/ Sclerosponge E) e F) VAN SOEST et al., 2012. Ainda há discordância na divisão das subclasses, segundo MORROW & CÁRDENAS (2015), o conflito entre os taxonomistas é se são três (Verongimorpha, Erpenbeck, Sutcliffe, De Cook, Dietzel, Maldonado, van Soest, Hooper, Wörheide, 2012 Keratosa Grant, 1861 e Heteroscleromorpha Cárdenas, Perez, Boury-Esnault, 2012 ou quatro (Verongimorpha, Keratosa, Haploscleromorpha Cárdenas, Perez, Boury-Esnault, 2012 e Heteroscleromorpha), ambas divisões são suportadas molecularmente, porém a morfologia do esqueleto favorece três subclasses, desde que Verongimorpha e Keratosa não tenham (para a grande maioria) esqueletos compostos por espículas e, especialmente, não compartilhem a diversidade de microscleras presente em Heteroscleromorpha e Haplosclerida. Ademais, escolhendo três subclasses, Haplosclerida é restrita as haploscléridas marinhas e estas são inclusas em Heteroscleromorpha, sendo essa última a maior subclasse de Demospongiae (Figura 12). Figura 12: Classificação de Demospongiae de subclasses a ordens. A) Subclasses de Demospongiae; B) As 22 ordens de Demospongiae, com o número de espécies estimadas. (Figura retirada de MORROW & CÁRDENAS, 2015) Histórico Brasil As primeiras descrições de poríferos feitas para a América do Sul realizaram-se no começo do século 19 e baseado em espécimes de água doce (rios Orinoco, Amazonas e Uruguai) (VOLKMER-RIBEIRO, 2007). A fauna marinha da costa brasileira é uma das menos conhecidas, juntamente com a costa pacífica da América do Sul (BOURY- ESNAULT, 1973; HECHTEL, 1976; HAJDU et al., 1992, 1996, 2006). Atualmente são conhecidas cerca de 443 espécies de esponjas brasileira – 390 marinhas e 53 dulcícolas (MURICY et al. 2011). Até a década de 1990 poucos estudos de esponjas utilizavam mergulho autônomo e não havia fotografias nem imagens submarinas dos espécimes in vivo. A maior parte do conhecimento taxonômico de esponjas para a costa brasileira foi gerada por especialistas estrangeiros, estudando materias provenientes de dragagens efetuadas por expedições estrangeiras como as do Challenger, Calypso e Oregon II (POLÉJAEFF, 1884; RIDLEY & DENDY, 1887; SOLLAS, 1888; BOURY-ESNAULT, 1973; COLLETTE & RÜTZLER, 1977). O conhecimento da biodiversidade de esponjas marinhas do Brasil vem crescendo nas últimas décadas graças à atuação de pesquisadores brasileiros, que já conseguiram dobrar o número de espécies registradas em 1976 (p. ex.: MOTHES-DE- MORAES, 1985; SOLÉ-CAVA, et al., 1991; MURICY et al., 1991; HAJDU et al., 1992; MOTHES & BASTIAN, 1993; KLAUTAU et al., 1994; HAJDU et al., 1999; PINHEIRO et al., 2007 ), juntamente com a interação de programas nacionais de conservação de biodiversidade e programas de avaliação de recursos vivos ( e. g. REVIZEE, MURICY et al., 2006). Os estudos de poríferos brasileiros se concentram no sul – sudeste, nos estados de Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro (ex.: DE LAUBENFELS, 1956; MOTHES-DE MORAES, 1987; HAJDU & BOURY-ESNAULT, 1991; MOTHES & LERNER, 1994; CARVALHO & HAJDU, 2001; PINHEIRO & HAJDU, 2001; MURICY et al., 2006; MOTHES et al., 2007) e alguns realizados no nordeste, principalmente nos estados da Bahia e de Pernambuco (HECHTEL, 1976, 1983, MURICY & MORAES, 1998; COSME, & PEIXINHO, 2007; MORAES & MURICY, 2007; PEIXINHO et al., 2007). Ceará O conhecimento de Porifera do estado do Ceará não difere do contexto encontrado no Brasil, onde pesquisadores estrangeiros tiveram grande contribuição no passado e atualmente os principais estudos são realizados por pesquisadores estrangeiros. Até hoje somente 10 publicações citam os poríferos do Ceará. As publicações datam desde 1899, a primeira foi realizada por SCHULZE (1899) descrevendo uma espécie de Hexactinellida, Hyalonema schmidti Schulze, 1889 coletada a 763 m de profundidade na expedição “Albatross” no talude cearense. Na segunda DE LAUBENFELS(1956) cita seis espécies, porém somente cinco espécies válidas de esponjas oriundas da coleção Dias da Rocha coletadas na praia de Camocim entre cinco a oito metros de profundidade. A terceira publicação faz referência a Hyalonema schmidti Schulze, 1889 econsiste em um “check-list” realizado por MELLO- LEITÃO (1961) da espongiofauna brasileira. A quarta foi realizada por JOHNSON (1971) que descreveu 21 espécies de esponjas, duas calcáreas e 19 demosponjas, todas obtidas na arribação (linha-do-deixa) ou dragadas da praia do Mucuripe. O quinto trabalho foi confeccionado por HECHTEL (1976) que estudou as afinidades biogeográficas da fauna de Demosponjas brasileiras, com 156 espécies conhecidas até então. Nesse trabalho foram listadas seis espécies que DE LAUBENFELS (1956) tinha listado. No sexto trabalho, SANTOS et al. (1999) listou 12 espécies que ocorreram nas estações do Ceará e de Pernambuco, obtidos através do programa REVIZEE. As estações foram realizadas em duas profundidades distintas: 43 m e 166m. O primeiro trabalho de bioprospecção foi realizado por JIMENEZ et al. (2004), utilizando oito espécies de demospongiae para avaliar a atividade citotóxica e antimicrobiana dos extratos metanólicos das mesmas. BEZERRA & COELHO (2006) realizou um trabalho de ecologia o qual estudou decápodos (Crustacea) associados a 10 demospongiae que foram utilizadas para trabalhos de bioquímica (FERREIRA et al., 2007). O nono trabalho, realizado por SALANI et al. (2006), foi o primeiro a utilizar microscopia eletrônica de varredura (Mev) e foto do animal in situ para descrever uma espécie - Sigmaxinella cearense Salani et al., 2006. O último trabalho realizado com esponjas do Ceará foi de FERREIRA et al. (2007) que estudou a atividade citotóxica dos hidroetanólicos de extratos de 22 espécies de demospongiae do Ceará obtidas no Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio. É perceptível o estágio precário do conhecimento desta fauna, o que se reflete no achado de grande número de novas ocorrências a cada nova coleta. Considerações Biogeográficas dos poríferos cearenses A espongiofauna cearense tem afinidade biogeográfica com o caribe (63,5% - 33 espécies das 52 utilizadas num estudo biogeográfico), mas também se encontram uma espécie Anfi-Atlântica (1,9%) e 10 espécies supostamente cosmopolitas (19,2%) (SALANI, 2008). Ela possui um baixo grau de endemismo, somente 4 (7,6%) das espécies encontradas e utilizadas no estudo de biogeografia do estado da Ceará são endêmicas (Dictyonella sp.nov, Geodia sp.nov., Sigmaxinella cearense, Hyalonema schmidti) e 4 das espécies são endêmicas da região nordeste Brasil (Aplysina lactuca, A. muricyana, A. solangeae, Echinodictyum dendroides). O baixo endemismo marinho observado no estado do Ceará e o número notável de espécies compartilhadas com o Caribe são indicativos de que a área não se caracteriza como uma província biogeográfica ou área de endemismo SALANI (op. cit.). O fato da espongiofauna cearense ser semelhante à das Índias Ocidentais (Caribe) é corroborado por outros estudiosos de varios grupos zoológicos: octocorais (CASTRO, 1990), crustáceos (COELHO & SANTOS, 1980, CRISTOFFERSEN, 1980; YOUNG, 1987), moluscos (FLOETER & SOARES–GOMES, 1998; FORTES & ABSALÃO, 2004). PALACIO (1982) compilou informações de vários grupos marinhos bentônicos e pelágicos, na grande maioria, dos quais, observou-se a semelhança da comunidade marinha do Nordeste brasileiro com a caribenha. Para PALACIO (1982), pela distribuição de esponjas pela costa brasileira, o Brasil pode ser dividido nas seguintes faixas: norte-nordeste, semelhante com o Caribe; uma faixa de transição entre o Rio de Janeiro (RJ) e Rio Grande (RS); e sul (Magelânica), podendo a salinidade e a temperatura desses mares funcionar como fator determinante dos padrões distribucionais observados. HECHTEL (1976) também comentou da afinidade das faunas do Caribe e do Brasil enfatizando que o Brasil é uma fauna caribenha empobrecida. Tal afirmação foi recentemente contestada por PINHEIRO et al, (2007). O suposto cosmopolitismo de diversas espécies encontradas está relacionado com a taxonomia conservadora (e. g. SOLÉ-CAVA et al, 1991; KLAUTAU et al., 1999), pois os poríferos dentre os organismos marinhos, são os que apresentam as menores taxas de dispersão, associadas à vida planctônica larval curta ou à larva bentônica. A ocorrência de espécies cosmopolitas poderia seria mais plausível nos grupos de esponjas euritermais (por exemplo: Dysidea fragilis; c.f. HECHTEL, 1976). Entretanto, a citação de espécies cosmopolitas pode ser errônea, já que nem todas as identificações são confiáveis, especialmente quando não acompanhadas de descrições formais, HECHTEL (1976) chamou a atenção para esse fator, advertindo que as identificações por fragmentos e materiais de má conservação são falhas. Por outro lado, BURTON (1956) ofereceu uma explicação para o eventual achado de elementos do Indo-pacífico no litoral brasileiro. Esses elementos seriam transportados no entorno da África do sul pela corrente das Agulhas, podendo a partir daí, via disseminadores do tipo “rafting”, ser transportadas pela corrente de Benguela rumo ao norte e daí ao Brasil na continuação do Giro do Atlântico sul. Em alguns casos já está demonstrado que supostas espécies cosmopolitas representam na verdade um grupo de espécies crípticas. Chondrilla nucula, por exemplo, representa um complexo de pelo menos quatro espécies geneticamente distintas no Atlântico Ocidental, das quais três já foram registradas para a costa brasileira (KLAUTAU et al., 1999). Infelizmente não foi possível, ainda, casar os distintos genótipos e os fenótipos observados. 2) OBJETIVO DO CURSO 2.1) Objetivo geral Capacitar jovens pesquisadores para o reconhecimento até o nível de família das principais Demospongiae do Ceará. 2.2) Objetivos específicos Capacitar jovens pesquisadores para coleta, conservação e manutenção em coleções de esponjas marinhas. Ensinar as técnicas necessárias para o estudo de taxonomia de Demospongiae. 3. Procedimentos PROCEDIMENTO A seguir serão apresentadas algumas técnicas básicas que será utilizada neste curso. O aluno antes de proceder a atividade deve ler todo este roteiro. Após preparar as lâminas, a tomada de dados deve seguir como explicado abaixo e para cada espécime, deve-se preencher a ficha aqui apresentada. Por fim, deve-se utilizar as chaves apresentadas no curso e disponibilizadas no modulo ou em arquivo *.pdf. Para cada chave utilizada, deve-se anotar o título da mesma e os passos seguidos. Ok, that`s all...let`s go folks... Traduzido e adaptado de van Soest et al (2002) Técnicas para microscopia ótica -Corte espesso: Estes são necessários para estudo da estrutura esquelética da esponja. No caso de esponjas sem espículas eles são apenas para reconhecimento microscópico. -Deixe a esponja em álcool 70% por no mínimo 24 horas (preferencialmente mais) para endurecer.. -Corte uma fina fatia. Deve-se fazer um corte transversal/frontal (em ângulo reto em relação à superfície), certificando-se de inclui a superfície e ao menos 0,5 cm da região interna. Outro corte deve ser no sentido tangencial à superfície, ou destacar (quando possível) uma fina camada externa da superfície. Incluindo parte da superfície. -Para proceder o corte utilize uma lamina de bisturi ou de barbear. -Cada fatia deve ser transportada para uma placa de Petri ou outro recipiente contendo álcool, preferencialmente 96º, é importante não permitir que as fatias sequem, isto pode danificar a organização do esqueleto. -Transfira as fatiaspara uma placa de Petri ou recipiente raso com tampa e boca larga e adicione alguns mililitros de álcool butílico normal (butanol), adicione o suficiente para que as fatias fiquem por completo submersas e haja uma coluna de ao menos 0,5 cm sobre estes. Mantenha-os assim por 2 horas e repita o processo -Transfira as fatias para uma lamina de vidro e monte com uma lamínula utilizando balsamo do Canadá sintético ou Entellan Merck. -Dissociação de espículas: Dois métodos são apresentados aqui, utilizando água santária e ácido nítrico. A. Preparação com água sanitária: Este é um método "quick and dirty", ou seja, rápido e sujo, adequado para identificação rápida de espécies, incluindo de esponjas calcáreas. -Retire um pequeno fragmento (1mm3 é suficiente) incluindo ectossoma e coanossoma, coloque num eppendorf ou tubo de ensaio de vibro (Lave os utensílios antes de usar nos espécimes.). -Preencha cada tudo até a metade com água sanitaria, deixe reagindo por aproximadamente 30-60 minutos, dependendo da consistência da esponja. Mantenha os tubos com água sanitaria a uma temperature de aproximadamente +40ºC para agilizar o processo. -Retire a maior parte da água sanitária, com absoluto cuidado para não re-suspender o tecido digerido mais as espículas já dissociadas; acrescente água destilada, cuidadosamente, para re-suspender as espículas; deixe então as espículas assentarem por aproximadamente 10-15 minutos; repita este passo algumas vezes. -Retire a maior parte da água destilada, sem re-suspender as espículas, acrescente álcool, preferencialmente 100%, 2x o volume que está no tubo, re-supendendo as espículas. -Utilizando uma pipeta, aspire uma alíquota do álcool e espículas, coloque algumas gotas sobre uma lâmina assentada em chapa aquecedora, ou leve-a para flambar sobre chama de lamparina. Repita este processo até haver um número significativo de espículas sobre a lâmina. B. Preparação com ácido nítrico: esta técnica resultará numa preparação mais limpa, adequada para o exame de microscleras e analise sob microscopia eletrônica de varredura. Não é adequada para esponjas Calcarea. -Corte uma pequena porção do ectossoma e coanossoma, coloque num tubo de ensaio de vidro. -Sobre chama de lâmparina e cuidadosamente (com luvas e sob capela para exaustão de gases), coloque ácido nítrico no tubo, o suficiente para cobrir o fragmento e formar uma coluna com aproximadamente 3 mm. Deixe ferver, sempre fazendo movimento circulares sobre a chama, o tubo deve permanecer sempre, levemente inclinado e nem a boca, nem o fundo devem estar virados para vc. A fervura deve durara o suficiente para que o ácido mude de cor, de ocre para transparente e a fumaça de ocre para branca. - O material no fundo do tubo deve ser por três vezes, lavado em água destilada e centrifugado por dois minutos, cuja velocidade de rotação deve variar de acordo ao tamanho das espículas do espécime (~3000 rpm). A água deve então, por duas vezes ser substituída por álcool farmacêutico (96° GL) ou preferencialmente por álcool P.A. (100%) e centrifugada pelo mesmo número de vezes, pelo mesmo tempo e com a mesma velocidade. Subamostras da suspensão espicular devem ser transferidas para uma lâmina de microscopia, secada em chapa-quente ou flambada sobre chama de lamparina a álcool. A quantidade de espículas desejadas deve ser monitorada a olho nu ou sob microscópio de luz, aplicando por fim o meio de montagem (Entellan ou balsamo do Canadá sintético) e coberto por lamínula. - Se no fundo do tubo as espículas centrifugadas apresentarem uma cor escurecida, pode- se utilizar H2O2, alguns ml, deixando por 1 hora em temperatura ambiente ou 20 minutos a 60ºC. - As pipetas utilizadas para a troca de água, álcool e alicotar as amostras, não devem ser misturadas e cada tubo deve ter uma, que será utilizada para aquele tubo, unicamente, até o final do processo. 4.4) Ficha Guia Para Levantamento De Caracteres Morfológicos Identificação do Espécime (ID/Tombo):______________________________ Morfologia Externa: Forma de Crescimento:____________________________________________ ______________________________________________________________________ ________________________________________________________ Tamanho:_______________________________________________________ Cor:____________________________________________________________ Superfície:______________________________________________________________ ________________________________________________________ Consistência:____________________________________________________ Poros:_________________________________________________________________ ________________________________________________________ Ósculos:_______________________________________________________________ ________________________________________________________ Morfologia Interna: Arquitetura esquelética:____________________________________________ _______________________________________________________________ Ectossoma:_____________________________________________________________ ______________________________________________________________________ _________________________________________________ Coanossoma:____________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ________________________________________________ Espículas / fibras:_________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ________________________________________________________ Observação:____________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ___________________________________ Marcadores morfológicos: Segue uma breve explanação sobre os tópicos contidos na ficha guia de levantamento de caracteres. Forma de crescimento: As Demospongiae possuem um rico escopo de formas e padrões, entretanto devido a sua grande plasticidade, uma mesma espécies pode assumir diferentes formas, possuir mais de um padrão de crescimento, ou ser amorfa. Profundidade, correnteza, nutrição e substrato são alguns dos fatores que influenciam na forma de crescimento. Por outro lado algumas espécies e até mesmo gêneros apresentam uma forma de crescimento definida e pouco mutável. Por exemplo a espécie Tribrachium schmdti, uma esponja psamófila, sempre possui uma base de esférica a hemisférica com um tubo “cloacal”, ou o gênero Radiella que é composto por espécies esféricas ou discóides. Em contra partida a espécies Gedodia giberosa pode ser esférica, hemisférica ou amorfa. Apesar disso a forma é um componente importante na identificação de muitas espécies, por isso não deve ser menosprezado. Tamanho: Tal como a forma, trata-se de caráterplástico para muitas espécies, mas importante. Graças ao largo escopo de formas, há muitas formas de medir um espécies. Deve-se observar o espécie e medi-lo com base na forma geométrica que este mais se assemelha. Por exemplo, pata uma esponja esférica é desejável o diâmetro, já sendo esta hemisférica o maior e o menor diâmetro e a “altura”, sendo ambos concorrentes entre si, ou seja os diâmetros em linhas imaginárias, formariam uma estrela (figura XX). Quando a forma de crescimento é complexa, formada por diferentes padrões geométricos, “altura” X largura X espessura descreveriam em linhas gerais o tamanho do espécime. Pode-se fazer necessária a utilização de medidas complementares, como comprimento X largura de ramos, ápice e base, estas são decididas pelo taxonomista com base na importância destas, no contexto do padrão apresentado pelo grupo. Por exemplo se fossemos medir uma esponja cujo gênero com forma de crescimento estipitado e ramos digitiformes, seria uma medida interessante para entender os limites de variação da espécies e compará-las com as outras espécies do gênero em busca de um padrão espécie específico. Cor: Quando se descreve a cor, existe um problema clássico, subjetividade do descritor, desta forma é interessante utilizar cores simples. Branco, preto, azul, verde, vermelho, marrom, rosa , lilás, amarelo, bege e etc. podendo esta vir seguida outro adjetivo que possa apurar o entendimento da mensagem, entretanto uma fotografia feita com equipamento adequada, ou ajustada para a cor real é condição sine qua non para uma boa descrição / identificação taxonômica. Muitos fatores podem ser responsáveis pela cor de uma esponja: metabólicos secundários da esponja, de simbiontes ou os próprios simbiontes, podendo a cor ser espécie específica ou não, por exemplo, para o gênero Haliclona a cor é um caráter importante na determinação das espécies, vale ressaltar que um caráter não define uma espécies e sim a combinação de um conjunto destes. Superfície: Dentre os marcadores morfológicos a ornamentação superficial e a consistência são os com menos peso na identificação taxonômica, entretanto em muitos casos pode ajudar muito. Muitas esponjas possuem padrões superficiais, como irregularidades, rugosidade e protuberâncias que podem ser específicos do grupo. Por exemplo as espécies do gênero Tethya possuem uma superfície marcada por pequenos cônulos e as espécies de Stelletta costumam ser ásperas. Consistência: Este marcador apesar de simples fornece pistas para uma correta identificação taxonômica, não devendo ser desprezado. Um exemplo é a subordem Petrosina, caracterizada em sua diagnose como sendo firme e dura. Poros e Ósculos: Estes dois caracteres são altamente relevantes, desta forma, é importante uma especial atenção, em muitos espécies um ou ambos podem ser ausentes, ou mesmo não apresentarem um padrão que defina um determinado grupo, entretanto em muitos grupos pode ser diagnostico. Por exemplo a família Geodiidae possui os gêneros separados segundo um esquema de forma e localização dos poros e dos ósculos. Tal proposição é rejeitada por muitos pesquisadores, porém mantém-se em vigor. Aspectos relevantes que devem ser observados em relação aos poros são tamanho, quantidade e padrão de distribuição. Em relação aos ósculos, forma, quantidade, localização e tamanho devem ser anotados. Arquitetura esquelética: A morfologia interna dos poríferos oferece a maior parte das características utilizadas na identificação, classificação, estudo taxonômico e filogenético. O esqueleto tende a apresentar padrões geométricos de organização. Este é, tradicionalmente, a característica mais importante na identificação taxonômica. O esqueleto e composto por duas regiões principais: ectossoma e coanossoma, podendo o primeiro ser indistinguível do segundo. Espículas/fibras: São os principais elementos formadores do esqueleto sendo, também, um marcador de extrema relevância, inclusive na descriminação de espécies. As espículas podem ser classificadas, segundo seu tamanho e função no esqueleto, Megascleras e Microscleras, quanto ao número de raios, Mono-, di-, tri-, tetra-, -actínia, quanto ao eixo, mono-, dia-, tria-, tretra-, -xonida. Alguns grupos não possuem espículas, em substituição possuem fibras organizadas no esqueleto, estas podem ser primarias, secundarias, formar espiculoides, ou ainda terem ornamentações, como agregar ao centro material exógeno, oriundos do ambiente ou serem formadas por camadas lamelares sobrepostas. Estas informações são apenas um parco apanhado de conhecimento que deve ser complementado utilizando a bibliografia de apoio, bem como com os esquemas apresentados para formas de crescimento, esqueletos e espículas, disponíveis em BOURY-ESNAULT & RUTZLER (1997) e HOOPER (2000), HAJDU et al (2011).