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Resumo por capítulo Eichmann em Jerusalem

Resumo por capítulo de Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt. Expõe a tese da "banalidade do mal" e resume os primeiros capítulos: o local e o julgamento em Jerusalém, o perfil de Eichmann, sua ação na emigração forçada, expulsão, campos de concentração e a "solução final".

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Resumo por capítulo Eichmann em Jerusalem
Hannah Arendt, filosofa alemã e judaica, recebeu grande reconhecimento pelo seu livro “As origens do totalitarismo” e a partir deste reconhecimento, ao se oferecer como correspondente da revista “The New Yorker” para o julgamento de Eichmann, obteve imediata aceitação.  A visão da filosofa ao assistir pessoalmente o julgamento, resultou na obra “Eichmann em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal” que trata do julgamento de Adolf Otto Eichmann, sequestrado na Argentina e julgado perante um tribunal judeu em Jerusalém, devido aos seus crimes com a humanidade durante a Alemanha nazista. Enquanto que a maioria dos espectadores sobre o caso enxergavam o acusado como um “monstro”, Hannah deixou claro em sua obra a sua visão de que se tratava de um medíocre burocrata em que seu maior objetivo era seguir o que lhe era imposto. E logo em sua tese podemos ver o que por ela foi chamado de “banalidade do mal” onde Eichmann e os nazistas em si, renunciaram sua personalidade, que como Eichmann afirmou repetidas vezes somente cumprira ordens, e que praticavam o mal sem qualquer motivo ou razão pessoal. O mal simplesmente era feito seguindo um sistemas e as pessoas nem sequer notavam que ele ainda existia, pois como Hannah mesmo coloca, ele se torna banal. Para estruturar bem seus argumentos Hannah dividiu sem livro em 15 capítulos.
I - Logo em seu primeiro capitulo, titulado de “A casa da justiça” também conhecida como “Beth hamishpath”, Hannah nos descreve a estrutura do local onde ocorreu o julgamento de Adolf Otto Eichmann, com formação de 3 juízes, o promotor com 4 advogados assistentes e o advogado de defesa. Com uma crítica a péssima tradução do idioma hebraico para o acusado. Faz-se aqui uma introdução ao caso, quando o primeiro ministro Ben-Gurion de Israel mandou que raptassem Eichmann para que fosse julgado perante um tribunal de judeus e que a partir desse julgado, pudessem ser encontrados e julgados outros nazistas e quanto a isso se obteve sucesso já que no capitulo nos conta que vários crimes nazistas foram julgados a partir do de  Eichmann.
II - O acusado – Neste capitulo é falado um pouco a respeito de Eichmann e sua vida e sobre seus fracassos nas realizações de suas funções até entrar para a SS(força militar nazista). Hannah enfatiza a posição de Eichmann, que se considera inocente de toda acusação, afirmando que nunca matou uma pessoa, sendo judeu ou não. Sendo assim somente um burocrata que seguia as regras, envolvendo uma questão moral visto que ele sabia que a deportação dos judeus em certo período levaria a morte, mas estava obedecendo as leis vigentes.
III - Um perito na questão Judaica – É narrado aqui a ascensão do acusado, que passou a trabalhar com as questões judaicas pois além de ser um bom burocrata, era entendedor dos assuntos judeus, convertido ao sionismo. Eichmann obteve grande sucesso na questão da “emigração forçada” (aqui os judeus “só” eram expulsos), onde conseguiu emigrar 45 mil judeus em apenas 8 meses, tudo graças a sua criação em que resolvia a questão da emigração no mesmo prédio e mesmo dia, percebendo que a ideia inicial era de deportação e não de extermínio dos judeus.
IV - A primeira solução: expulsão – A escritora aqui relata sobre o que por ela foi chamado de primeira solução na qual consistia na expulsão dos judeus, em que Eichmann estava no comando de deportação em Viena, caso em que ele se vangloriava pois “salvou” milhares de judeus os deportando para fora da Europa.
V - A segunda solução; concentração -  Com o início da guerra a emigração cessou pois não havia mais para onde enviar os judeus, neste capitulo é abordado a questão dos campos de concentração como sendo uma solução para os judeus e com a desculpa de que era uma “administração” e organização por parte do Estado Nazista. Hannah aborda ainda o fato de que Eichmann como um bom sionista já abordado antes, trabalhava em um plano para que os judeus pudessem ter “terra sob seus pés” o “plano Madagascar” o que foi um fracasso por inúmeras razões, mas que serviu de desculpa para ocultar as intenções dos nazistas que era o extermínio total dos judeus, pois os reunia para depois “deporta-los”.
VI - A solução final: Assassinato – Os capítulos IV e V cooperam e culminam de forma importantíssima para esse sexto capitulo onde depois de expulsão e concentração, chegam exatamente onde os nazistas queriam o que veio a se chamar “solução final” onde havia o total extermínio dos judeus, fica claro que esse plano estava esclarecido somente aos altos cargos onde usavam uma linguagem restrita e com códigos sobre o assunto, onde Eichmann foi um dos primeiros de níveis inferiores a saber sobre. Hannah entra aqui com a questão que Eichmann fora enviado para verificação sobre as atividades da solução final, viu os campos de extermínio e se sentia desconfortável com a situação, mas embora não participar diretamente nunca se negou a deixar de fazer o que lhe era mandado mesmo sabendo qual seria o destino final e que o poderia ter feito exigindo transferência, mas não o fez.
Resenha de Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt
A máquina burocrática do mal
A filósofa Hannah Arendt pôde acompanhar o julgamento de um dos mais famosos nazistas em Israel e analisa nessa obra o que viu e ouviu. Ela começa fazendo uma pequena biografia de Eichmann, e o descreve como um aluno medíocre em seus tempos de escola e que não conseguiu terminar os seus estudos, e estava destinado em um emprego sem perspectivas de futuro. Por causa disso, quando Eichmann teve a oportunidade de entrar para uma unidade da SS, ficou muito feliz. Primeiramente foi designado para reunir informações a respeito da maçonaria, mas o trabalho não foi adiante. Foi então mandado para a parte que cuidava dos assuntos judaicos. Passou então a estudar o sionismo e a manter contato com autoridades judaicas sionistas. Eichmann passou a admirar os sionistas porque os considerava idealistas, ao contrário dos assimilacionistas e dos judeus ortodoxos, a quem desprezava. Passou a trabalhar então no centro de emigração dos judeus austríacos, onde sentiu-se bem.
Foram pensadas algumas alternativas para a questão judaica, como a expulsão, a concentração e ,por fim, a solução final: assassinato. Eichmann nesse período assistiu à morte de alguns judeus na câmara de gás e por fuzilamento, mas nunca abandonou o seu posto. Arendt nota que o exército nazista nunca ameaçou de morte alguém que tivesse se recusado a participar de tais eventos, por causa disso, Eichmann não tinha como se desculpar. O programa de extermínio dos judeus havia sido inspirado pelo projeto de eutanásia de 1939, no qual cerca de 50 mil doentes mentais e outros inválidos haviam sido executados na câmara de gás. Na época, esse programa havia sido denunciado pelo arcebispo Von Galen. O programa foi então extinto, mas Von Galen infelizmente iria apoiar a invasão da Rússia pelos exércitos alemães, e isso iria custar a vida de 20 milhões de soviéticos.
Arendt escreve então sobre o pastor Heinrich Grüber, que foi convocado pelo tribunal e parecia ser uma grande testemunha para descrever a personalidade de Eichmann. O resultado foi decepcionante. A descrição do pastor Grüber sobre Eichmann foi errônea e mais, quando confrontado pelo tribunal se havia alertado o réu que suas atitudes( do réu) eram criminosas, disse que nunca o fez, porque considerava os atos como mais significativos do que as palavras. O próprio Eichmann negou que alguém em qualquer oportunidade tivesse dito para ele que o que ele fazia estava errado. Algumas páginas adiante, Eichmann disse que agia de acordo com a noção Kantiana de dever. Ou seja, aja como se sua vontade possa se tornar a lei universal. Arendt defende Kant, e o fato eram que Eichmann distorceu o argumento e considerou sempre que a vontade do Führer deveria ser a lei universal.
A história sobre o comportamento das diversas nações europeias e suas reações a ordem nazista de extraditar os judeus para os campos de extermínio revelama grandeza de duas nações, segundo Arendt: a Dinamarca e a Itália. Nesses países a maioria da população judaica conseguiu sobreviver e seus governos opuseram-se às ordens de Berlim.
***
A tragédia que se abateu sobre os judeus, e o fato de que pela primeira vez desde o tempo dos romanos os judeus poderem julgar eles próprios crimes contra seu povo, e a visão de que aquele julgamento serviria como base para que crimes como esse nunca mais acontecessem, tudo isso esteve presente no julgamento de Eichmann. Arendt percebeu que ele seria condenado à morte desde o princípio. A grande tarefa do tribunal era como mostrar ao réu suas responsabilidades e não permitir que ele se defendesse alegando ser apenas uma peça em uma complicada máquina burocrática, além de ser um cidadão que respeitava as hierarquias e ordens de seu governo. No fim, o mais importante é como definir responsabilidades individuais em crimes cometidos pelo Estado. Foi isso que esteve em julgamento em Jerusalém.
Zygmunt Bauman: Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar
Estamos cada vez mais aparelhados com iPhones, tablets, notebooks, etc. Tudo para disfarçar o antigo medo da solidão. O contato via rede social tomou o lugar de boa parte das pessoas, cuja marca principal é a ausência de comprometimento. Este texto tem como base a ideia do "ser líquido", característica presente nas relações humanas atuais. Inspirado na obra "Amor Líquido" - sobre a fragilidade dos laços humanos, de Zigmunt Bauman. As relações se misturam e se condensam com laços momentâneos, frágeis e volúveis. Num mundo cada vez mais dinâmico, fluído e veloz. Seja real ou virtual.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman é um dos intelectuais mais respeitados da atualidade. Aos 87 anos, seus livros venderam mais de 200 mil cópias. Um resultado e tanto para um teórico. Entre eles, “Amor liquido” é talvez o livro mais popular de Bauman no Brasil. É neste livro que o autor expõe sua análise de maneira mais simples e próxima do cotidiano, analisando as relações amorosas e algumas particularidades da “modernidade líquida”. Vivemos tempos líquidos, nada é feito para durar, tampouco sólido. Os relacionamentos escorrem das nossas mãos por entre os dedos feito água.
Bauman tenta mostrar nossa dificuldade de comunicação afetiva, já que todos querem relacionar-se. Entretanto, não conseguem, seja por medo ou insegurança. O autor ainda cita como exemplo um vaso de cristal, o qual à primeira queda quebra. As relações terminam tão rápido quanto começam, as pessoas pensam terminar com um problema cortando seus vínculos, mas o que fazem mesmo é criar problemas em cima de problemas.
É um mundo de incertezas, cada um por si. Temos relacionamentos instáveis, pois as relações humanas estão cada vez mais flexíveis. Acostumados com o mundo virtual e com a facilidade de “desconectar-se”, as pessoas não conseguem manter um relacionamento de longo prazo. É um amor criado pela sociedade atual (modernidade líquida) para tirar-lhes a responsabilidade de relacionamentos sérios e duradouros. Pessoas estão sendo tratadas como bens de consumo, ou seja, caso haja defeito descarta-se - ou até mesmo troca-se por "versões mais atualizadas".
O romantismo do amor parece estar fora de moda, o amor verdadeiro foi banalizado, diminuído a vários tipos de experiências vividas pelas pessoas as quais se referem a estas utilizando a palavra amor. Noites descompromissadas de sexo são chamadas “fazer amor”. Não existem mais responsabilidades de se amar, a palavra amor é usada mesmo quando as pessoas não sabem direito o seu real significado.
Ainda para tentar explicar a relações amorosas em “Amor Líquido”, Bauman fala sobre “Afinidade e Parentesco.” O parentesco seria o laço irredutível e inquebrável. É aquilo que não nos dá escolha. A afinidade é ao contrário do parentesco. Voluntária, esta é escolhida. Porém, e isso é importante, o objetivo da afinidade é ser como o parentesco. Entretanto, vivendo numa sociedade de total “descartabilidade”, até as afinidades estão se tornando raras.
Bauman fala também sobre o amor próprio: o filósofo afirma que as pessoas precisam sentir que são amadas, ouvidas e amparadas. Ou precisam saber que fazem falta. Segundo ele, ser digno de amor é algo que só o outro pode nos classificar. O que fazemos é aceitar essa classificação. Mas, com tantas incertezas, relações sem forma - líquidas - nas quais o amor nos é negado, como teremos amor próprio? Os amores e as relações humanas de hoje são todos instáveis, e assim não temos certeza do que esperar. Relacionar-se é caminhar na neblina sem a certeza de nada - uma descrição poética da situação.
"Para ser feliz há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis [...] um é segurança e o outro é liberdade. Você não consegue ser feliz e ter uma vida digna na ausência de um deles. Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é um completo caos. Você precisa dos dois. [...] Cada vez que você tem mais segurança, você entrega um pouco da sua liberdade. Cada vez que você tem mais liberdade, você entrega parte da segurança. Então, você ganha algo e você perde algo", afirma o filósofo.
Jurista Nutella não consegue interpretar textos e não entende ironias
Por Lenio Luiz Streck
Subtese da coluna: “O Vesúvio em erupção e o jurista ajeitando o quadro de Van Gogh na parede” ou “a constitucionalização da vaquejada como o maior fiasco jurídico da República ou Janaína Paschoal armada e perigosa ou “estoque alimentos — o caos é inexorável”.
Esclarecimento inicial: chamo de jurista toda pessoa ligada à profissão jurídica. A coluna da semana passada bateu recordes de acesso. No ranking fechado na sexta-feira (10/2, já havia mais de 87 mil. Penso que até hoje deve ter batido a casa dos 90 mil, que, somados a outras formas de acesso, passou fácil de 100 mil. Alegra-me isso.
Foi uma coluna recheada de ironias e sarcasmos. O título confundiu muita gente boa por aí. Os que não leram toda a matéria saíram me criticando. Outros saíram elogiando. Quando leram a coluna toda, trocaram de lado. Bizarro. Como diz Bauman, com o nosso culto à satisfação imediata, muitos de nós perdemos a capacidade de esperar.
Vivemos tempos duros. Obscuros. Direito fragilizado, fragmentação na aplicação, descompromissos com as instituições e extremo individualismo, pelo qual o sujeito (intérprete do Direito, para ficar nos limites propostos) acredita que pode filtrar o Direito — visto como expressão de uma linguagem pública — por sua linguagem particular: a dele, é claro! Eis o solipsismo. Eis o Selbstsüchtiger, o sujeito egoísta moderno, sujeito-de-si-de-sua-certeza-pensante. O externo não consegue constranger a barbárie interior desse sujeito. Resultado: cada um por si. A corrida é pelo poder. Um dos modos de se perceber isso é o niilismo que perpassa o Direito e as instituições. Não há mais nada que possa ser universal ou que tenha objetividade: só existem narrativas. Eis a tal da pós-verdade.
Bom, a coluna é para ser bem curtinha. Já estou usando palavras que parcela da comunidade jurídica não digere. E se irrita. A anterior — a dos 100 mil — provocou comentários que vão do genial ao absurdo. E mostra que, de fato, tenho razão quando denuncio — como faço há décadas — os malefícios do ensino standard prêt-à porter, prêt-à-penser e prêt-à-parler (já compliquei de novo). Não leia mais nada. Quem gosta de drops para por aqui. E sai gritando: na prática, a teoria é outra.
Sigo. Parece que as críticas caem no vazio. O Direito é um mundo de ficção. O país está ardendo e: a) mata-se mais do que na guerra da Síria; b) Judiciário censura jornal; c) juiz proíbe que advogado grave audiência (mas ao mesmo tempo divulga conversas privadas entre dois ex-presidentes da República); d) parte dos críticos vibraram com decisão que impediu Moreira Franco de assumir um ministério (na sequência, ministro do Supremo Tribunal Federal decide certo em manter Moreira... Só que o STF fez o contrário quando se tratou da nomeação de Lula, sendo que, à época, nenhum outro ministropediu para que o caso fosse levado a Plenário: dois pesos, duas medidas); e) discute-se se furto de chiclete é insignificância; f) ministra dos Direitos Humanos se nega a falar sobre o sistema carcerário (afinal, o que uma coisa tem a ver com a outra?); g) aprovada em primeiro turno PEC da vaquejada; h) Romero Jucá faz manobra para antecipar sabatina de indicado ao STF...; i) juiz encarregado da "lava jato" no Rio de Janeiro, quando assumiu a vara, tirou uma Bíblia do bolso e disse: "Este é o principal livro desta vara!" (e eu acreditando que o principal livro era a CF).
Ao mesmo tempo, vejo no Facebook coisas como: a) a protagonista do impeachment, Janaína Paschoal, defendendo o armamento das mulheres (fico imaginando a Janaína armada com duas Colts 45, dizendo I’ll be back — Janaína para ministra da Justiça, a solução definitiva; pergunto: como o porte ilegal de arma é proibido, estaria Janaína fazendo incitação ao crime? — ironia!); b) um professor ministrando curso chamado “cozinhando legal”; c) outro post falando de editora que vende 544 modelos de petições iniciais em matéria criminal, 197 modelos de petições cíveis, 763 modelos de petições previdenciárias (porque esses números quebrados?); d) outro professor vendendo curso de “como funciona nossa memória para concurso”. Genial, não? Concurso é para decoreba. Confessadamente; e) já outro vende curso de audiência de prática judiciária on-line. Tudo isso está no “feicibuki”. Na ConJur, a AGU fala já de robôs-advogados, ou seria advogados-robôs? f) tem também gente oferecendo coaching com certificado em inglês; g) outros oferecem cursinhos com “pessoas reais” ministrando aulas. Sucesso ao alcance de sua mão... Em 1990, em palestra no Rio, eu disse a seguinte frase (tenho gravada): "O Vesúvio em erupção e o jurista ajeitando o quadro de Van Gogh na parede". Já ali avisava.
Tem mais: vi também que agora o aluno não mais precisa ir assistir a audiências ou julgamentos (acho que alguém vai propor uma PEC tratando disso; atenção: sarcasmo!). Pode fazer isso on-line. Há um festejado dispositivo que está no Facebook que resolve o problema da malta. Em Pindorama, logo ensinarão natação oral. Por que você necessita saber nadar, se pode fazer natação on-line? EAD em natação! Por que ler um livro se você pode ler o resumo do resumo vendido aos incautos patuleus que depois não conseguem saber o que é uma ironia ou uma metáfora? Pronto: uma PEC dispensando todos de ler o livro todo. Chamar-se-á de PEC da Orelha. Viva a terceirização epistêmica.
Eis o que liga o que disse acima com a coluna passada. Vou trazer alguns excertos de comentários que simbolizam o estado da arte do senso comum teórico que há décadas corrói o ensino, a doutrina e as práticas jurídicas. Produzimos alunos e profissionais que dizem coisas como estas das quais falarei rapidamente: um comentário à coluna que me chamou especialmente a atenção foi de uma causídica, que já no título mostrava a que veio: “Pela primeira vez vejo contradição no Prof. Lênio”. Disse que ficou triste porque eu estava apoiando a indicação ao STF. Pois é. Já um comentarista que se assina “Professor” dá o título contundente a partir de uma frase minha: "e daí se muitos no STF fazem isso também"! Para o professor, por eu ter dito isso (deve ter lido só essa frase), ele “ficou de boca aberta”. E disse mais algumas coisas que apenas mostra como nossa massa jurídica não sabe interpretar, não sabe o que é uma metáfora ou uma ironia. Poderia ser usado como case para o vestibular.
Há outros comentários à coluna que são (também) de chorar (chorar, aqui, é metafórico). Alguns, repletos de raiva, resumem tudo o que eu disse em dois ou três impropérios. Que pena. Um leitor mostrou-se funcionalmente apedeuta, ao dizer que “usei tom conciliador mal dissimulado” na coluna. Inacreditável. Uma comentarista disse que eu falara mal dos concurseiros e “menoscabava os candidatos”, no que foi apoiada vibrantemente por outro, que acrescentou uma pérola: as palavras difíceis (“nomenclaturas eruditas”) e baboseiras (sic) que pedem nos concursos (sic) são culpa de gente como o articulista (eu). Bingo. Já outro disse que o indicado ao STF deve ser ministro para enfrentar os comunistas da PUC-SP e outros vermelhos (claro: e a culpa é minha também). Um promotor se esmerou, resumindo todo o meu texto ao fato de eu tê-lo escrito por ter dor de cotovelo. Binguíssimo. O AM (Auxílio Moradia) lhe subiu à cabeça. Comentário erudito, como o postado pelo “assessor”, que diz que ninguém se importa com Alexy, Dworkin e Luhmann. Tudo dito com a profundidade dos calcanhares de uma formiga anã. Mas esse é o imaginário jurídico construído em Pindorama. Com muito esforço. Um Direito Nutella. Sim, esse é, verdadeiramente, o Direito Nutella!
Tudo isso mostra a falta que faz a leitura. Aos alunos e demais juristas que não conseguem entender minimamente o que diz um texto e àqueles que não conseguem entender minimamente ironias, metáforas e sarcasmos, sugiro mergulharem nos livros (cuidado: isto tem um sentido metafórico — não mergulhe de verdade; há livros com capa dura que podem causar ferimentos). Chegar no coração do problema não quer dizer que o problema tenha coração. Livros não mordem (até porque não têm dentes — compreenderam? Aqui temos uma catacrese). Para ser um bom jurista e não ser um fabricante de próteses para fantasmas (isto também tem um sentido metafórico — fantasmas não sofrem amputações), há que matar dois leões por dia (ups: também tem um sentido metafórico — por favor, não matem os leões). Diz-se até que matar dois leões é fácil. Difícil é desviar das antas. Ou conviver com as cobras.
Brava gente pindoramense: o que foi feito com o Direito (sim, porque ninguém é filho de chocadeira e não existe grau zero de sentido) e o que foi feito deste país? O que fizeram com os alunos?
Atenção: ironia é dizer sutilmente o contrário do que parece que se está dizendo. A coluna dos 100 mil tinha essa intenção ao falar sobre a dogmática jurídica, seus produtos e produtores. Mas isso só se aprende lendo muito. Não há intelectual bronzeado (isto, no caso, deve ser lido como uma espécie de sinédoque, variação de metonímia). Enfim: palavras e coisas... A palavra “água” não molha, viu? (mais uma catacrese?). Tenho a certeza de que aqueles comentaristas que só conseguem comentar as colunas destilando veneno ficarão em palpos (ou em papos) de aranha (atenção: destilar veneno não é, exatamente, destilação de veneno; e palpos de aranha não tem aranha de verdade envolvida).
Definitivamente, vou estocar comida (estocar, neste caso, não tem o sentido de juntar, guardar alimentos). Significa que... É isso mesmo que você está pensando. Ou não!
Post scriptum: antes que alguém diga que estou reduzindo o problema do Direito a uma caricaturização do imaginário, informo que não desconheço o intenso trabalho de parcela dos juristas (advogados, professores, juízes e membros do Ministério Público) que buscam construir, dia a dia, um Direito para além do que vemos por aí. O que quero mostrar é o buraco em que nos metemos: não conseguimos sequer identificar (e fazer cumprir) o mais prosaico: o Direito. Entre ele e a moral (e/ou a política), temos preferido esta. Resultado: Direito é o que quem tem poder de dizê-lo é. Simples assim.
Lenio Luiz Streck é jurista, professor de Direito Constitucional e pós-doutor em Direito. Sócio do escritório Streck e Trindade Advogados Associados: www.streckadvogados.com.br.
Revista Consultor Jurídico, 16 de fevereiro de 2017, 8h00

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