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Dor Conceito “Experiência sensorial e emocional desagradável, normalmente associada a uma lesão tecidual real ou potencial, ou descrito em termos desta lesão”. Internacional Association for the study of pain, 2001 Já está bem estabelecido que a dor é uma experiência complexa e que não envolve apenas a transdução de estímulo nocivo ambiental, mas também o processamento cognitivo e emocional pelo encéfalo (CHAPMAN et al., 1999; JULIUS et al., 2001; ALMEIDA et al., 2004). O fenômeno doloroso, portanto, possui dois componentes: um que discrimina o estímulo doloroso em relação ao tempo, espaço e intensidade, chamado de perceptivo-discriminativo (componente sensorial); e outro que atribui emoções à experiência dolorosa, sendo responsável pelas respostas comportamentais à dor. Este é caracterizado por comportamentos defensivos, como a retirada reflexa dos membros ou comportamento fuga/luta, denominado de componente aversivo-cognitivomotivacional (componente motivacional) (MELZACK, 1975; ALMEIDA et al., 2004). Transdução sensorial Começa com a chegada do estímulo no receptor e termina com a geração de potenciais de ação na fibra aferente, que levará essa informação para o sistema nervoso central. Durante a transdução, a intensidade do estímulo sensorial é codificada pelo sistema nervoso. Quanto mais intenso for o estímulo maior será a amplitude do potencial gerador. Quanto maior a amplitude do potencial gerador, maior a frequência de potenciais de ação gerados na fibra aferente. Lembre-se que a intensidade do estímulo é codificada pela frequência de potenciais de ação que chegam ao sistema nervoso central pelas fibras aferentes. A dor é importante, pois é através dela que se pode perceber um sinal de alerta para um perigo iminente, estando assim relacionada com a proteção do organismo, exibindo os limites que não podem ser transgredidos (DIAS, 2007). Apesar das sensações dolorosas serem um aviso do qual o organismo se utiliza para sinalizar um processo de agressão, a problemática da dor acompanha a humanidade na medida em que interfere na homeostasia do indivíduo e da sua relação com os outros (PIRES, 2007). Classificação da dor Quanto ao tempo de duração Dor aguda: episódios breves que podem se repetir ou não. Dor crônica: pode persistir mesmo depois de solucionada a causa orgânica de origem. Costuma ser acompanhada de sintomas depressivos, como distúrbio do sono, anorexia, alterações comportamentais e até suicídio. Quanto à origem da dor Dor tegumentar superficial: se manifesta como dor em pontadas ou punhaladas, de localização precisa e origem superficial. Em geral, de curta duração. Dor tegumentar profunda: dor em queimação, mal localizada, originária de estruturas mais profundas do tegumento. Também pode causar alterações de comportamento. Dor referida visceral: condição em que a dor causada por uma lesão em um órgão interno se apresenta como se estivesse em uma área superficial do corpo, ao invés de ser localizada no próprio órgão de origem. Os pacientes afetados sentem: Dor em tecidos superficiais (pele e músculos); Presença de sensibilidade exagerada a dor; Dor em locais distantes da víscera. Exemplos: endometriose, síndrome do intestino irritável (SII), pancreatite crônica, angina refratária, vulvodínia. Dor nociceptiva: consiste na estimulação persistente de nociceptores, seja térmico, químico ou mecânico. Nesta dor ocorre ativação contínua das vias centrais da dor e pode ser identificada em pessoas com câncer, Herpes zoster, entre outras (MILLAN, 1999). Dor inflamatória: ocorre em casos de lesões teciduais, inflamatórias e envolve a liberação de mediadores químicos (histamina, serotonina, bradicinina). É uma dor crônica. Dor neuropática: oriunda de lesões ou disfunções do sistema nervoso periférico e central. É também uma dor crônica. Dor do membro fantasma e doenças como Diabetes melittus e Parkinson são as principais causas da dor neuropática (BOWSHER, 1999). Dor psicogênica: por sua vez, está relacionada à prevalência de fatores psicológicos na gênese da sensação dolorosa. Esse tipo de dor pode ser observado em distúrbios psicológicos como na depressão e na ansiedade generalizada (FURST, 1999; MERSKEY, 1986). Percepção da dor A percepção da dor ocorre em dois estágios distintos. O primeiro, denominado nocicepção, refere-se à transdução do estímulo doloroso ao SNC por receptores especializados, os nociceptores (FURST, 1999). O segundo estágio é referente ao processamento elaborado dessa informação nociceptiva, levando à percepção consciente da dor (BALDO, 1999). O processo doloroso tem início nos nociceptores, os quais são receptores morfologicamente diferenciados e estão presentes nas terminações livres das fibras nervosas aferentes (FURST, 1999). Eles são sensiblizados quando o estímulo é potencialmente perigoso, ou seja, excede uma determinada faixa considerada fisiológica (estímulo inócuo) (BURGESS et al., 1967; MILLAN, 1999). Os nociceptores, localizados na porção distal dos neurônios aferentes sensoriais (neurônios de primeira ordem), estão amplamente distribuídos na pele, vasos, músculos, articulações e vísceras (JULIUS et al., 2001). Dividem-se em três classes: os mecanoceptores, sensíveis a estímulos mecânicos intensos; os termoceptores, sensíveis a estímulos térmicos (acima de 45°C); e os nociceptores polimodais, sensíveis tanto a estímulos mecânicos e térmicos quanto químicos (TEIXEIRA et al., 1994; BESSON, 1999). Nocicepção Processamento sensorial de estímulos nocivos ou dolorosos que desencadeiam a experiência da dor. A dor é igual para todos? A dor é a sensação mais evidente, mais intensamente estudada, a mais importante do ponto de vista clínico e a menos compreendida. Ativação da dor Limiar nociceptivo Alto o suficiente para não interferir nas atividades normais e baixo o suficiente para que seja evocado antes que ocorra dano tecidual Outros fatores Dor alodinia: quando a dor resulta de estímulos que são geralmente inócuos. Neuralgia pós herpética. Hiperalgesia: quando ocorre uma resposta excessiva aos estímulos nocivos, e a pessoa pode sentir dor até mesmo de maneira espontânea. Em caso de inflamação tecidual, a liberação de mediadores químicos faz com que o limiar de ativação de receptores seja reduzido e a excitabilidade da membrana de terminais periféricos aumente, produzindo aumento de sensibilidade. Quando um estímulo vibratório, por exemplo, é aplicado de modo concomitante ao estímulo nociceptivo, deixamos de sentir a dor por causa da ativação dos mecanoceptores. Talvez isso explique a analgesia produzida pela acupuntura e pelas massagens. Vias da dor Os impulsos gerados nos receptores de dor sobem pela medula espinhal, principalmente pelo trato espinotalâmico lateral. E há dois tipos importantes de fibras nervosas relacionadas com a dor, as fibras do tipo A-delta, que são mielínicas; e as fibras tipo C, mais delgadas e amielínicas. As fibras A-delta representam 20% do total das fibras condutoras de sinais dolorosos, constituem a via da dor em pontada e são associadas a nociceptores mecano e termossensíveis. As fibras C (80% do total) constituem a via da dor contínua ou em queimação, enviam ramificações para a substância reticular do tronco encefálico, em todos os níveis. A dor contínua é também chamada de dor lenta e é percebida somente um segundo ou mais após a ação doestímulo doloroso, e tende a aumentar lentamente durante muitos segundos ou até minutos. Sistemas de controle da dor A comprovação de que a estimulação elétrica de certas regiões do SNC pode reduzir bastante ou até bloquear a dor levou neurofisiologistas a admitirem a existência de um sistema central de controle da dor, ou sistema analgésico central. As encefalinas, β- endorfinas e a 5-HT são substâncias que fazem parte do sistema central de controle da dor. Hoje se sabe que existem vários receptores de opióides nas regiões do sistema analgésico central e vários neuromoduladores envolvidos no controle da dor. Os mecanismos relacionados ao sistema de controle da dor têm finalidade adaptativa e funcionam como um sistema de defesa do organismo, tornando o sistema nervoso apto a resistir à dor e permitir a luta ou fuga nos momentos necessários. A morfina e outros opióides exógenos mimetizam o efeito das endorfinas. Os opióides sintéticos resultam de uma busca constante por drogas analgésicas com o potencial da morfina, mas que sejam livres dos efeitos colaterais típicos da morfina, cujo principal deles é causar dependência. A acupuntura, por exemplo, é uma forma de tratamento da dor não farmacológica, e que envolve a liberação de substâncias do sistema analgésico central, em especial a β- endorfina. Sabe-se que o sistema de controle central da dor é eficiente e extremamente importante durante atividades prolongadas em que há grande gasto energético, pois ele torna a dor suportável. Entretanto, o sistema emocional da pessoa pode interferir nesse sistema protetor, tornando-o inapto para as atividades do dia-a-dia, fazendo com que atividades rotineiras, somadas a pequenos problemas orgânicos, musculares e articulares, se tornem geradores de dores, às vezes, insuportáveis. Insensibilidade congênita da dor A Insensibilidade Congênita a Dor com Anidrose (CIPA) ou neuropatia sensorial autonômica hereditária do tipo IV (NSAH IV) constitui-se em uma desordem de origem genética, autossômica recessiva, que afeta o sistema nervoso central e periférico (ROZA & CHIAPPETA, 2007). Segundo os autores, há uma falha na diferenciação e migração das células da crista neural, tendo como consequência à ausência de fibras desmielinizadas e diminuição das fibras mielinizadas menores, fazendo com que esses pacientes não apresentem reação à dor e temperatura. Além disso, suas glândulas sudoríparas não são inervadas, apesar de se apresentarem normais, levando assim à anidrose. Devido à perda de reação à dor, um dos órgãos mais utilizados pelos pacientes para se automutilarem são os dentes, resultando em risco de lesões à língua, lábios e mucosa oral, podendo ocasionar graves mutilações orais. Na maioria dos casos, estes pacientes começam a morder sua língua ou dedos assim que seus dentes começam a nascer. Alterações sócio-comportamentais causados pela dor Incapacidade física e funcional Dependência Afastamento social e isolamento Alterações na libido Mudanças na dinâmica familiar Desequilíbrio econômico Falta de esperança Alterações fisiológicas resultantes de estados dolorosos Aumento da frequência cardíaca em repouso; Presença de ritmos anormais, como extra-sístoles ventriculares; Alterações na frequência respiratória; Alterações no padrão respiratório, como taquipnéia ou respiração superficial; Redução na formação de urina; Tendência à constipação; Alteração no tempo de preenchimento capilar, até o aparecimento ou manutenção de choque; Hipertensão; Dilatação pupilar – midríase; As dificuldades para quantificação da dor estão relacionadas com o fato de que a dor ocupa uma posição especial nas sensações e sentidos corporais. Sua forma de apresentação será muito diferente entre um indivíduo e outro. A subjetividade do avaliador talvez seja o ponto mais critico. Com a finalidade de minimizar as diferenças entre observadores e tornar o processo de avaliação mais rigoroso e objetivo possível são propostas diversas escalas para o reconhecimento da dor. Essas escalas facilitam o trabalho do avaliador que, aliando à sua experiência clínica, consegue quantificar e qualificar mais precisamente a sensação dolorosa dos animais, bem como exercer esse trabalho em conjunto com os proprietários. Psicossomática e dor Na Antiguidade, o adoecimento era tido como manifestação de forças sobrenaturais. Por isso mesmo, o processo de cura passava muito por rituais religiosos. A literatura médica está cheia de relatos do gênero. Aos poucos, outras visões foram dando conta da necessidade de um equilíbrio e também de tratar a alma. No campo da psicologia, o estudo das doenças psicossomáticas passou a ter bastante importância. É comum, no entanto, parecer que algumas situações são minimizadas quando ouvimos frases como “isso é psicológico” ou que é “apenas algo da sua cabeça". Mas não é justamente na cabeça que reside o cérebro, responsável pelas funções do corpo? Os pesquisadores descobriram que é possível somatizar o estresse - o que começou como um conflito emocional pode virar doença ou sintoma. É o caso de problemas de estômago ou dores de cabeça que resultam de ansiedade. Há, ainda, casos de perda de cabelos. Nesses casos, é preciso identificar a causa do problema, pois apenas a medicação não resolve, já que o fator que desencadeou a doença psicossomática continuará acontecendo. Isso se dá graças à ação do hipotálamo. Essa glândula produz hormônios que controlam funções orgânicas. Quando alteradas pelas emoções e pelos sentimentos, elas acabam reagindo e acarretando doenças, entre elas problemas respiratórios, gastrointestinais, de pele ou mesmo circulatórios. É por isso que, muitas vezes, as pessoas tremem, têm dores de barriga ou rangem os dentes. O mapa da dor crônica no Brasil Resultados apresentados no 4º Congresso da Sociedade Brasileira de Médicos Intervencionistas em Dor (Sobramid). Conduzido pelo IBGE com apoio da Sociedade Brasileira de Estudos da Dor, o trabalho foi feito ao longo de um ano (2015-2016) — 919 pessoas de diversos estados foram entrevistadas. Nas três primeiras colocações do ranking das regiões com mais queixas estão Sul (42%), Sudeste (38%) e Norte (36%). Em seguida, aparecem Nordeste (28%) e Centro-oeste (24%). “Dores de cabeça e nas costas foram as mais citadas pelos participantes”, diz o anestesiologista Paulo Renato Barreiros da Fonseca, um dos autores da pesquisa. Também foi solicitado que os respondentes avaliassem, em uma escala de um a dez, a intensidade do desconforto que sentem. Aí as posições mudaram: no pódio, ficam Norte (6,9), Nordeste (6,7) e, empatados na terceira colocação, Sul e Sudeste (6,5). O Centro-oeste fecha a lista (6,0). “Uma dor acima de seis é moderada e já interfere negativamente nas atividades diárias”, destaca o especialista. De modo geral, 37% dos entrevistados afirmaram que convivem com um incômodo há pelo menos seis meses consecutivos – o dobro do tempo necessário para que o quadro seja considerado crônico. Ao todo, 42% dos indivíduos que responderam ao questionário disseram sofrer com algum tipo dor. “Se a causa de base não for tratada logo e de maneira adequada, o risco de o sintoma se tornar permanente aumenta”, alerta Fonseca. O tratamento oferecido nesses casos é variado e multidisciplinar. Ou seja, envolve profissionais de diferentes áreas, trabalhando em conjunto para garantir mais qualidade de vida.