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Apresentação dos dados biográficos de Edmund Husserl
Bibliografia Básica: FEIJOÓ, A. (2011) “Husserl e a Fenomenologia” A existência para além do sujeito. Rio de Janeiro: Via Verita, pg. 25-34.
 Modulo 1 
 Edmund Husserl nasce em Prossnitz, na Morávia; atual Prostejov, República Tcheca, em 8 de abril de 1859, filho de comerciantes judeus. Em 1876, inicia seus estudos universitários em Leipzig. Concentra-se na matemática, mas estuda também física, astronomia, filosofia e psicologia com W. Wundt. Em 1882, doutora-se na Universidade de Viena com a tese O Cálculo das Variações. Em 1887, pouco antes de casar-se, defende a tese de habilitação Sobre o Conceito de Número: análise psicológica, na cidade de Halle. 
Essa trajetória culmina na Psicologia. Nessa época, a Psicologia era o estudo das faculdades mentais do homem. Até bem pouco tempo, era disciplina especulativa, filosófica. Quando Wundt funda o laboratório de psicologia científica em 1879, começa sua trajetória de ciência aplicada. Husserl acompanhou de perto essa transformação.
 A filosofia do fim do século XIX dividia-se entre duas vertentes: aqueles que defendiam uma base objetiva para o conhecimento e aqueles que o fundamentavam nas faculdades mentais.
 Os Naturalistas defendiam que a objetividade do conhecimento está na realidade objetiva, externa, “fora” do sujeito. Conhecer a natureza significa saber mensurá-la, a fim de revelar suas leis universais. Essas leis universais, as verdades universais, só são acessíveis através de hipóteses. Para isso, esse modelo de conhecimento dispõe da metodologia de observação, mensuração e classificação.
 Como toda a realidade é objetiva, física, também a consciência, da qual fala a Psicologia, deve ser física. Husserl, como grande pensador, leva ao limite as bases desse pensamento para expor sua contradição: se tudo pode ser reduzido à natureza física, também a concepção de que tudo pode ser reduzido à natureza física é apenas mais um processo físico, incapaz de sustentar-se como verdade universal.
 Do outro lado, os Psicologistas defendiam a mente como fundamento último de todo conhecimento. Para eles, a objetividade é dada pelo sujeito “puro” abstrato. As leis objetivas, o real, são convenções subjetivas explicáveis pelo psicólogo. Levando às últimas consequências essa fundamentação, também a Psicologia mina o conhecimento objetivo e científico-natural, pois, para ela, tudo é processo psicológico. As ciências, como a matemática, tornam-se relativas.
 O pensamento de Husserl recebe impulso dessa “crise” insuperável, na tentativa de encontrar solução. Para fundamentar o conhecimento verdadeiro – tarefa da filosofia – Husserl não poderá se apoiar nem no Naturalismo, nem no Psicologismo. A Fenomenologia surge como crítica à pretensão de cientificidade plena das ciências, ao recurso à dedução e à inferência como método de conhecimento (modelo hipotético) e à determinação psicofísica atribuída ao seu sujeito do conhecimento. (Feijoó, 2011)
Atividades recomendadas
sobre a vida e a obra de Edmund Husserl.
3. Acompanhe o exercício abaixo:
Husserl (1859 – 1938) foi o iniciador da fenomenologia. Sua formação acadêmica iniciou-se na matemática, passou pela psicologia filosófica e desembocou na filosofia. A fenomenologia é filosofia. Sobre a fenomenologia elaborada por Husserl, está correto afirmar:
 I – Busca um fundamento seguro para as ciências humanas, as ciências naturais e a filosofia.
 II – Tem como lema o retorno “às coisas mesmas”, que significa um retorno à pesquisa empírica e à experimentação.
 III – A palavra “fenomenologia” é composta por “fenômeno”, que significa “aquilo que aparece”, e “logos”, que significa “sentido imanente”.
 IV – Foi formulada desde 1900 como um modelo de atendimento psicoterápico, que visa a compreensão do outro.
 V – Concebe o mundo como existindo em si mesmo e concebe um método (“método fenomenológico”) para conhecer a realidade que se esconde por trás das aparências.
Estão corretas apenas as afirmações:E) I e III.
 Se você leu atentamente os textos e compreendeu o impulso husserliano à Fenomenologia, foi capaz de identificar a alternativa E como correta. A afirmação II indica como “retorno às coisas mesmas” o retorno à empiria, por isso está incorreta. A proposta da fenomenologia é retornar aos fenômenos no seu aparecer na correlação intencional, isto é, na relação consciência-objeto. A afirmação IV apresenta a fenomenologia como um método psicoterápico, o que está errado, pois surgiu como filosofia primeira, no esforço de fundamentação de todas as ciências. A afirmação V fala de uma “realidade por trás da aparência”. Para a fenomenologia, o que aparece é o que é tal como é.
Introdução ao método fenomenológico e à consciência intencional
Bibliografia Básica: FEIJOÓ, A. (2011) “Husserl e a Fenomenologia” A existência para além do sujeito. Rio de Janeiro: Via Verita, pg. 25-34.
 A ascensão das Ciências Humanas amplia a crise das ciências. Qual seria a validade (verdade universal) das descobertas da antropologia, da sociologia ou mesmo da psicologia? A psicologia, num esforço para assegurar a verdade de suas afirmações, recorre ao método científico-natural de investigação. O teste de medição de inteligência desenvolvido por Alfred Binet (1857 -1911) é um exemplo disso; determina-se a inteligência como mensurável e cria-se um instrumento para a medir.
 Husserl, por outro lado, identifica a carência de fundamentos das ciências-naturais. É o Naturalismo, descrito anteriormente. Seu objetivo é, então, inaugurar um novo fundamento para a lógica, para a teoria do conhecimento e para a psicologia: uma ciência originária, primeira.
 A chave para a fenomenologia vem dos estudos com Franz Brentano (1838 – 1917). Opondo-se a Wundt, Brentano propõe que os atos mentais são experienciáveis, de modo que a psicologia, através da intuição (observação), é ciência empírica.
Brentano apresenta os atos psíquicos como intencionais. Resgata esse conceito da filosofia de Aristóteles. Na tradução latina da filosofia aristotélica, intentio significa dirigir-se a... (Devemos tomar muito cuidado para não confundir este conceito com a ideia comum de “intenção”, que significa desejo, motivação, etc.) Desta ideia, Husserl desenvolve o a priori da correlação: consciência é consciência de... e todo objeto só é enquanto visado por uma consciência. Intencionalidade significa que toda consciência é de algo e todo algo só é enquanto referido à consciência que se tem dele.
 Nessa formulação, Husserl lança mão de um aspecto da Psicologia de Brentano que será característico da fenomenologia e de toda psicologia fenomenológica que nela se inspira: consciência é ato, não é um receptáculo. 
Com o conceito de intencionalidade, Husserl supera o Psicologismo, que prioriza o Sujeito na relação Sujeito-Objeto, e o Logicismo e Naturalismo, que priorizam o mundo objetivo e natural, o Objeto na relação Sujeito-Objeto. Para a fenomenologia, Sujeito e Objeto são intimamente relacionados, indissolúveis. Por isso, Feijoó (2011) afirma que
Com a noção de intencionalidade, portanto, escapa-se das articulações metafísicas a partir da fenomenologia e encontram-se possibilidades outras de se tratar o fenômeno psíquico, sem perder a possibilidade de se falar em sentidos e significados psíquicos de maneira rigorosa. (p.33)
 A Fenomenologia surge como tentativa de elaboração de uma ciência rigorosa, capaz de fundamentar as várias ciências. Por isso, Husserl a chama de Ciência Primeira. O princípio de intencionalidade da consciência rege que toda consciência é consciência de algo e que todo algo só é tal como aparece na consciência. “Consciência”, entretanto, não é um recipiente vazio que se preenche; é um ato. O objeto ao qual se dirige e que surge na relação intencional é sempre significativo.
Entretanto, nós não experienciamos essa relação íntima entre o nosso ver e a coisa vista, entre nossosentir e a coisa sentida, entre nosso perceber e a coisa percebida. Husserl chama de atitude natural a nossa postura cotidiana de encontrar objetos “fora”, no mundo, como se existissem em si mesmos. A atitude natural pode ser descrita como aquela que consiste em pensar que o sujeito está no mundo como algo que o contém ou como uma coisa entre as demais. As ciências naturais operam sobre essa crença de que existem objetos em si no exterior, que podem ser observados, investigados e descritos a partir de suas propriedades imanentes. A atitude natural é a atitude ingênua.
A fenomenologia busca superar a atitude ingênua suspendendo a crença na realidade da existência em si do mundo exterior, resgatando a consciência como condição de aparição do mundo. Essa etapa do método fenomenológico chama-se epoché e pode ser caracterizada como a colocação entre parênteses da realidade independente da consciência, para que a investigação fenomenológica se volte para a fenomenalização dos fenômenos, isto é, seu aparecer na correlação intencional. Pela redução fenomenológica, a consciência se mostra consciência constituinte de mundo.
Atividades recomendadas
3. Acompanhe o exercício abaixo:
Leia atentamente a seguinte afirmação de Husserl:
Mostra-se, pois, por toda a parte, esta admirável correlação entre o fenômeno do conhecimento e o objeto de conhecimento. Advertimos agora que a tarefa da fenomenologia, ou antes, o campo das suas tarefas e investigações, não é uma coisa tão trivial como se apenas houvesse que olhar, simplesmente abrir os olhos. (Husserl, 1907/1990, p.33)
[Referência bibliográfica: Husserl, E. A Ideia da Fenomenologia. Trad.: Artur Morão. 1a ed. 1907. Lisboa: Edições 70, 1990.]
Sobre esta citação está correto afirmar:
I – A passagem se refere à intencionalidade da consciência, que pode ser descrita como a propriedade de toda consciência ser referida a um objeto e todo objeto só ser enquanto referido a uma consciência.
II – Através desta concepção, sujeito cognoscente e objeto conhecido deixam de ser entidades separadas e se revelam co-originários.
III – A fenomenologia é uma tarefa pois exige que se saia da atitude natural em relação ao mundo para poder conhecer sua constituição.
 IV – O fenomenólogo precisa do método fenomenológico para conhecer as intenções da consciência, isto é, o que a motiva.
Estão corretas:D) I, II e III, apenas.
Se você leu os textos indicados e compreendeu os conceitos apresentados, foi capaz de identificar que as afirmações I, II e III apresentam corretamente a intencionalidade da consciência, a correlação intencional (que supera a dualidade Sujeito-Objeto) e a fenomenologia como tarefa, respectivamente. A afirmação IV está incorreta, pois define intencionalidade (intentio) como motivação, deturpando o sentido desse termo na fenomenologia, que é “dirigir-se a...”.
Exercício 1:
Segundo Feijoo (2011),
Para a fenomenologia de Husserl, o psiquismo não possui nenhuma determinação prévia, nem mesmo um eu substancial. A consciência é, para este filósofo, transcendente, nunca se retém em si mesma, mas se vê projetada por seus próprios atos para o campo dos objetos correlatos. (p.31)
A concepção de “eu” de Husserl é de natureza filosófica, mas pode, com muitos cuidados, ser transportada para o contexto de prática do psicólogo. Seguindo tal concepção, está correto afirmar que uma Psicologia fundamentada na fenomenologia de Husserl:
I – Concebe as experiências do paciente/cliente como intencionais, isto é, que a motivação determina os significados experienciados.
II – Busca no paciente/cliente os aspectos essenciais de sua experiência, isto é, a consciência reduzida. A redução fenomenológica possibilita a descrição direta, sem hipóteses, da personalidade do paciente/cliente, pois esta (a personalidade) é o aspecto imutável que permanece além da multiplicidade de experiências.
III – Compreende que os relatos do paciente/cliente referentes às coisas e aos outros ao seu redor revelam como ele os experiencia, pois a consciência é intencional.
IV – Assume o “eu” como um fluxo de vivências intencionais
Estão corretos somente:C)III e IV. 
Exercício 2:
Husserl (1859 – 1938) é o fundador da Fenomenologia, movimento filosófico mais importante do século XX. Após uma breve incursão pela Matemática, o filósofo assume como tarefa tornar a filosofia uma ciência rigorosa, o que o leva a questionar os postulados científicos e filosóficos da época. Sobre esse contexto histórico está correto afirmar: (Feijoo, 2011)
I – A Fenomenologia questiona a pretensão de cientificidade plena das ciências naturais, que falham na compreensão do ser humano. Ao postular a objetividade exterior independente do sujeito, a ciência mina suas próprias bases. 
II – Hipóteses, inferências e deduções são necessários quando se pressupõe a impossibilidade de acesso ao que se quer conhecer. Já a epoché suspende a cisão entre sujeito que conhece e objeto conhecido, tomando-os como uma unidade, de modo que para a Fenomenologia as teorias são prescindíveis. 
III – Husserl é enfático na crítica à Psicologia da época. A atribuição de uma natureza psicofísica à consciência torna todo conhecimento relativo, pois fundado em acontecimentos fisiológicos
IV – Com o conceito de intencionalidade, Husserl mostra que não é possível conhecer a realidade exterior. A consciência só acessa os conteúdos imanentes, isto é, as representações internas da realidade externa.
Estão corretas somente as afirmações:D)I, II e III.
Exercício 3:
O fenomenólogo André Dartigues (1992), comenta a respeito da concepção de consciência de Husserl que ela contém muito mais que a si própria. Para a fenomenologia, a consciência:
C)refere-se ao ato de consciência, que sempre visa um objeto
Exercício 4:
Escreve a fenomenóloga FEIJOÓ (2011):
“Husserl considera desde as suas primeiras obras o caráter intencional dos fenômenos psíquicos. Ele se refere claramente às relações imanentes da subjetividade ou da consciência pura, ou seja, fenomenologicamente reduzidas, diferenciando-as, assim, dos fenômenos materiais em jogo em uma consciência empírica, na qual se pressupõe que essa seja constituída por propriedades e por uma essencialidade específica” (p.30) 
A Fenomenologia desconstrói a formulação teórica de uma consciência pura separada do objeto, representada pelo esquema S – O, através da formulação husserliana da consciência intencional, representada pelo esquema S → O. 
São aspectos que compõem o conceito de consciência intencional:
II – Não considera como a priori do homem ter um psiquismo. 
III – Atos da consciência nunca estão separados dos objetos destes atos. 
IV – A consciência não é em si mesma. Está sempre projetada, em direção ao objeto Estão corretas somente:A)II, III, e IV.
Exercício 5:
O filósofo Stegmüller (1997) resume a concepção de consciência da fenomenologia de Husserl da seguinte maneira: 
[...] a consciência como o entrelaçamento das vivências psíquicas empiricamente verificáveis numa unidade de fluxo de vivência; como a percepção interna dessas próprias vivências e como designação que resume todas as vivências intencionais. (Stegmüller, 1997).
Sobre essa concepção de consciência, peculiar à Fenomenologia, está correto afirmar:
I - A consciência não é uma substância (alma), mas uma atividade constituída por atos (percepção, imaginação, volição, paixão etc.) com os quais se visa a algo. 
II - O traço essencial da consciência é a intencionalidade: toda consciência é consciência de algo.
III - Consciência é sempre de algum objeto e os objetos só têm sentido para uma consciência. 
Estão corretas apenas. C)I, II e III.
Exercício 6:
Segundo a fenomenóloga Feijoó (2011), “Husserl propõe que, frente ao fenômeno, possamos assumir uma atitude antinatural própria à fenomenologia.” (p.29) A psicóloga se baseia na distinção efetuada por Edmund Husserl no livro A Idéia da Fenomenologia (1907). Nesse livro, o filósofo afirma que na atitude natural, “na percepção, por exemplo, está obviamente diante dos nossos olhosuma coisa; está aí no meio de outras coisas, vivas e mortas, animadas e inanimadas, portanto no meio de um mundo que, em parte, como as coisas singulares, cai sob a percepção... (p.39) 
Sobre as atitudes natural e fenomenológica é verdadeiro afirmar que:
I – A atitude natural é o modo como cotidianamente encontramos as coisas no mundo, existindo por si mesmos.
III – A atitude fenomenológica refere-se a um passo metodológico pelo qual a consciência suspende a crença na realidade em si dos objetos do mundo. É a chamada epoché. Surgem, então, os fenômenos.
IV – Embora Husserl não se preocupasse com a prática psicológica, a atitude fenomenológica foi assumida pela Psicologia como uma possibilidade. Tal atitude acontece na prática psicológica como esforço do psicólogo de deixar que o outro revele os significados de sua experiência tal como a experiencia.
Estão corretas apenas as afirmações:C)I, III e IV.
Exercício 7:
No livro A Ideia da Fenomenologia (1907/1990), Husserl distingue a atitude natural da atitude fenomenológica. Na atitude natural, afirma que “na percepção, por exemplo, está obviamente diante dos nossos olhos uma coisa; está aí no meio de outras coisas, vivas e mortas, animadas e inanimadas, portanto no meio de um mundo que, em parte, como as coisas singulares, cai sob a percepção... (p.39) 
[Referência bibliográfica: Husserl, E. A Ideia da Fenomenologia. Trad.: Artur Morão. 1a ed. 1907. Lisboa: Edições 70, 1990.]
Sobre as atitudes natural e fenomenológica está correto afirmar:
I – A atitude natural é o modo como encontramos as coisas no mundo, existindo por si mesmos.
III – A atitude fenomenológica refere-se a um passo metodológico pelo qual a consciência suspende a crença na realidade em si do mundo externo.
 IV – Pela atitude fenomenológica, a consciência revela-se condição de aparição do mundo, isto é, mundo revela-se fenômeno. 
Estão corretas:C)I, III e IV, apenas.
Exercício 8:
O lema da Fenomenologia de Husserl é “voltar às coisas mesmas”. Segundo o estudioso Tommy GOTO (2008), “A fórmula inicial da fenomenologia não tem a pretensão de negar o conhecimento construído na ciência e na filosofia, apenas requer para si o direito de excluir qualquer perspectiva teórica sobre as coisas para que se possa ir espontânea e livremente até elas, i.e., ‘deixar aparecer a coisa mesma’.” (Introdução à Psicologia Fenomenológica. São Paulo: Paulus, p.74)
As afirmações que explicam esta ideia são:
I – As “coisas mesmas” são os fenômenos no seu aparecer na correlação intencional.
 III – Só se chega às coisas mesmas através do método fenomenológico de suspensão (epoché) 
V – As “coisas mesmas” são as coisas tal como e apenas enquanto se manifestam na correlação noético-noemática. 
Estão corretas:D)I, III e V, apenas.
Modulo 2
 Introdução à Fenomenologia Existencial de Martin Heidegger e à Analítica Existencial
O projeto fenomenológico de Heidegger
A constituição ontológica da existência (Dasein)
Bibliografia Básica: DASTUR, F. & CABESTAN, P. (2015) “Analítica existencial e Daseinsanalyse”, cap.I.B., pg.34-56
 O livro de Heidegger, Ser e Tempo, publicado em 1927, tem como tarefa a elaboração da fenomenologia como filosofia. E filosofia é, para ele, perguntar pelo SER, isto é, o que é a realidade?, quem somos nós?, tal como feito por toda a história ocidental. O método fenomenológico exige que se suspendam os pressupostos. Assim, Heidegger “coloca entre parênteses” as definições de SER legadas pela tradição filosófica. Precisa perguntar ao SER mesmo o que é. Para isso, começa seu perguntar pelo “ente que compreende ser”, que é o homem. Isto é, a existência é por ele assumida não como animal racional, nem como psiquismo, mas como abertura para coisas, si mesmo e outros serem. Somente o homem pergunta o que é o mundo?, o que são as coisas?, o que sou eu? A tradição filosófica também deixou definições sobre o que é o homem. As várias abordagens psicológicas são exemplos disso; todas elas definem o que é o humano. Mas a fenomenologia é obrigada a colocar todas essas definições em suspensão. Com isso, Heidegger pergunta ao homem pelo seu ser, que seria o primeiro passo na colocação da pergunta pelo sentido de SER em geral. O livro Ser e Tempo torna-se, assim, uma analítica existencial. Heidegger reserva a este o termo Dasein, “ser-aí”, para diferenciá-lo dos demais entes. Traduzindo ao pé da letra, Da significa aí. Sein significa Ser. Dasein é ser-aí.
 Mas, Heidegger visa descrever não os homens concretos, mas o ser dos homens. Daí a distinção da fenomenologia existencial entre ôntico – que é dos entes históricos, “concretos” (“existenciário”) – e ontológico, que se refere ao ser dos entes (“existencial”). (DASTUR & CABESTAN, 2015, p.40). 
A analítica do Dasein (ou “analítica existencial”) é uma descrição de aspectos essenciais da existência humana. Heidegger chama esses aspectos de “existenciais”, para diferenciar da palavra “categorias”, usada na filosofia para descrever as propriedades do ser de tudo o que não é humano. Ser e Tempo defende que o humano não é como as demais coisas do mundo, pois 1) seu ser está sempre em jogo (ou seja, é uma questão em aberto) e 2) Dasein compreende ser (ou seja, é abertura para ser de coisas, outros e si mesmo). Medard Boss e Ludwig Binswanger, que desenvolvem a Daseinsanalyse, fundamentam os fenômenos encontrados na clínica nos “existenciais” descritos por Heidegger em Ser e Tempo.
 Atividades recomendadas:
3) Acompanhe o seguinte exemplo de exercício:
 Sobre o Dasein, Heidegger escreve que “é próprio deste ente que seu ser se lhe abra e manifeste com e por meio do seu próprio ser, isto é, sendo. A compreensão do ser é em si mesma uma determinação do ser do Dasein. O privilégio ôntico que distingue o Dasein está em ser ele ontológico.” (1927, p.38) 
Nessa afirmação estão presentes dois conceitos essenciais para a compreensão da fenomenologia-existencial e para a implicação das descrições de Heidegger para as ciências do homem. A saber, tratam-se dos conceitos de “ontológico” e “ôntico”, que significam, respectivamente: 
b) “ontológico” é a constituição essencial do ser-aí, enquanto ôntico refere-se aos modos concretos possíveis em que essa constituição se manifesta cotidianamente.
Se você leu os textos e compreendeu a diferença entre ôntico e ontológico, assinalou a resposta B como a correta, pois nela está expresso que “ontológico” se refere à constituição essencial do Dasein, enquanto “ôntico” se refere aos modos concretos de ser. Assim, dizemos que o ser-no-mundo é ontológico – constitutivo de todo ser-no-mundo –, enquanto ser um existente neste contexto histórico-social, nesta família, etc., é ôntico.
A constituição ontológica da existência (Dasein)
Bibliografia Básica: DASTUR, F. & CABESTAN, P. (2015) “Analítica existencial e Daseinsanalyse”, cap.I.B., pg.34-56
 O conceito de Dasein se refere à constituição ontológica do ser que nós somos, costumeiramente chamados de “humanos”. Porém, Heidegger não utiliza o termo “ser humano” ou “homem” pois são termos que carregam significados não fenomenológicos acumulados ao longo da história do Ocidente. “Humano”, por exemplo, deriva de “húmus”, terra fértil, articulando-se com a tradição judaico-cristã de definição de homem. Por isso, Heidegger reserva o termo Dasein para indicar o ser que somos. (Cf. DASTUR & CABESTAN, 2015, p.34)
 No §9 de Ser e Tempo Heidegger escreve: “O ente que temos a tarefa de analisar somos nós mesmos. O ser deste ente é sempre cada vez meu. Em seu ser, isto é, sendo, este ente se comporta com o seu ser.” (1927, p.77) Isso significa que não há uma “essência” ou “natureza” para além dos modos concretos de existência. O livro Ser e Tempo é uma descrição fenomenológica – livre de pressupostos – da constituição ontológica do Dasein. Essa constituição é formada pelos “existenciais”, que são os caracteres ontológicos do Dasein.
 Resumindo a concepção de Dasein de Ser e Tempo, podemos afirmar que o homem é um ser que é aí,no mundo (ser-no-mundo). E ser no mundo significa ser sempre uma relação significativa consigo mesmo, com os outros e com coisas (mesmo que essas relações estejam implícitas). A analítica do Dasein revela que o homem é ontologicamente no-mundo e com-os-outros. Ser e Tempo não se detém nas descrições dos diversos modos concretos em que nos relacionamos com os outros, pois não é essa a tarefa de Heidegger. 
 Sendo inacabado, o Dasein é ontologicamente possibilidade, ele se realiza em possibilidades. Isso significa que ninguém nasce pronto, mas precisa se realizar. Heidegger chama esse existencial de cura ou cuidado (Sorge, em alemão). O “realizar-se” é sempre situado em relação aos demais e à significatividade compartilhada. Não sendo pronto e acabado, o Dasein precisa sempre realizar-se como uma possibilidade; ao Dasein sempre está faltando algo. Heidegger diz que ele é sempre culpado. 
 A palavra culpa, em alemão, é Schuld, que significa também débito. Sendo inacabado, a existência está sempre em dívida consigo mesma de realizar-se. A única possibilidade que encerra a culpa e que só pode ser vivida por cada qual singularmente é sua própria morte. O Dasein se relaciona constantemente com essa sua própria possibilidade. Entretanto, essa possibilidade nunca é vivenciada por cada um, pois, quando acontece, não estamos mais aí para vivenciá-la.
3) Acompanhe o exercício a seguir: 
Escreve o daseinsanalista Pompeia (2004):
Poder existir é uma oportunidade que se renova a cada instante. Pode ser que vivamos só este momento ou por mais alguns dias, anos, até mais de cem anos. Pode, não tem de ser assim, apenas pode. A vida não é um direito nosso, pois pode ser arrebatada a qualquer momento; não é um dever nosso, pois não nos é dada como condição de necessidade, mas é uma contingência. 
Assim, existir emerge como projeto. A partir desse contexto, a afirmação correta abaixo é:
C) A relação entre o homem e sua existência depende do modo como ele enfrenta sua condição de mortal.
Exercício 1:
A personagem Mafalda, do cartunista argentino Quino, exprime uma máxima da fenomenologia da existência de Heidegger, que fundamenta a clínica daseinsanalítica. São eles:
I – Segundo Heidegger, Dasein se relaciona com o ser, se compreende em seu ser e é aberto para ser. Isso significa que toda existência ‘tem’ alguma compreensão de seu ser. 
II – Mafalda exprime a radical singularidade de cada existência. Nenhum outro pode existir por mim.
Estão corretas somente: A)I e II.
Exercício 2:
Segundo a psicóloga fenomenóloga Bilê Sapienza, “As proposições heideggeriana implicam alterações radicais em nosso pensar impregnado pela metafísica tradicional e subverte a costumeira ordem que havia em nossa aceitação tácita (...)” (2025, p.37, grifo meu) Por metafísica Heidegger se refere:
I – À crença numa realidade externa objetiva independente do sujeito (interior), tal como na fenomenologia de Husserl,.
II – Ao fato de que Dasein é ser-no-mundo-com-os-outros, o que significa que a existência está sempre além (meta) de seu corpo (física).
III – Às concepções de homem (interno) e mundo (externo) que fundamentam a Psicologia moderna.
IV – À exigência de um método objetivo para se conhecer a realidade
Estão corretas somente: E)I, III e IV.
Exercício 3:
Segundo a psicóloga fenomenológica Ida Cardinalli (2012), “Na obra Ser e Tempo, o fio condutor do pensamento de Heidegger é o esclarecimento do sentido do ser como tal”. (CARDINALLI, 2012, Daseinsanalyse e esquizofrenia, São Paulo, Escuta, 2012, pag. 53.)
Em relação às ideias de Heidegger acerca do existir humano como Dasein, pode-se afirmar que: 
I – O Da (aí) do Dasein (ser-aí) é a abertura essencial do existir humano, o que significa dizer que ele é esse estar aberto para perceber, compreender, entender e conhecer o que é encontrado no mundo; 
II – A essência do Dasein é a própria existência; 
III – O Dasein nunca é um objeto simplesmente presente
IV – As características que constituem o Dasein podem ser consideradas como categorias ou atributos porque a singularidade deve ser o ponto de partida para o conhecimento dos modos de ser do humano.
Das afirmativas acima, estão corretas apenas: D)I, II e III
Exercício 4:
A noção de Dasein (ser-aí), delineada por Heidegger em Ser e Tempo, é o primeiro passo na direção de elaboração de uma ‘psicologia’ fenomenológico-existencial. Uma primeira apresentação da ‘definição’ de Dasein está no §9 do livro Ser e Tempo, onde o filósofo indica que 1) “a ‘essência’ deste ente [nós mesmos] está em ter de ser” e 2) “O ser, que está em jogo no ser deste ente, é sempre meu.” (Heidegger, 1927/1998, p.78) 
Que nossa existência é Dasein (ser-aí) significa:
 I – O ser-aí é sempre uma possibilidade de ser si-mesmo. Isso significa que o Dasein é as possibilidades existenciais que realiza.
II – Existir significa compreender ser, tanto de si mesmo quanto dos outros e das coisas. 
III – A essência do homem (ser-aí) configura-se a partir do primeiro momento em que aparece no mundo, tornando-se, então, “ser-no-mundo”. 
IV – Para Heidegger, a existência não tem uma essência quididativa (o que é); isto é, Dasein é atravessado pelo Nada, que é a indeterminação ontológica enquanto tarefa de ter-que-ser. 
V – O sentido da existência do Dasein é “tornar-se o que realmente é”, que é o conjunto de potencialidades inatas que a existência pode amadurecer e desenvolver ao longo da vida. 
Estão corretas:D)I, II e IV apenas.
Exercício 5:
Leia o trecho abaixo, extraído da Carta Sobre o Humanismo, de Martin Heidegger.
Do mesmo modo com ‘animal’, zõon [animal], já se pro-pôs uma interpretação da ‘vida’ que repousa necessariamente sobre uma interpretação do ente como zoé [vida] e physis [energia], em meio à qual se manifesta o ser vivo. Além disto e antes de qualquer outra coisa, resta, enfim, perguntar se a essência do homem como tal, originalmente – e com isso decidindo previamente tudo – realmente se funda da dimensão da animalitas [animalidade]. Estamos nós no caminho certo para essência do homem, quando distinguimos o homem e enquanto o distinguimos, como ser vivo entre outros, da planta, do animal e de Deus? Pode-se proceder assim, pode-se situar, desta maneira, o homem em meio ao ente, como um ente entre outros. Com isso se poderá afirmar, constantemente, coisas acertadas sobre o homem. É preciso, porém, ter bem claramente presente que o homem permanece assim relegado definitivamente para o âmbito essencial da animalitas; é o que acontecerá, mesmo que não seja equiparado ao animal e se lhe atribuir uma diferença específica. (...) Um tal pôr é o modo próprio da Metafísica. Mas com isso a essência do homem é minimizada e não é pensada em sua origem. (...) A Metafísica pensa o homem a partir da animalitas; ela não pensa em direção de sua humanitas [humanidade]. (p.352)
Considere as afirmações abaixo sobre a essência do homem para a fenomenologia-existencial:
I – Segundo Heidegger a essência do homem não pode ser pensada a partir da animalidade (animalitas). Com isso ele critica o conceito de animal racional, propondo que o homem deva ser pensado a partir de sua irracionalidade.
II – Pensar o homem a partir da animalitas não é exclusividade da Metafísica. Nós, cotidianamente, pensamos o homem (e nós mesmos) a partir da animalitas a todo momento em que nos compreendemos como um organismo vivo (zoé). 
III – A essência do homem para a Daseinsanalyse não está em sua constituição física, nem psíquica, nem social. A essência do homem é ser-aí (Dasein).
IV – Conceber o homem como bio-psico-social permanece preso à interpretação “do ente como zoé [vida] e physis [energia], em meio à qual se manifesta o ser vivo.” Portanto, não nos aproxima mais da essência do humano.
Estão corretas as afirmações: D)II, III e IV, apenas.
Exercício 6:
O livro Ser e Tempo de Heidegger (1927) traz como epígrafe a citação de Platão, transcrita abaixo:
 ... pois é evidente que de há muito sabeis o que propriamente quereis designar quandoempregais a expressão ‘ente’. Outrora, também nós julgávamos saber, agora, porém, caímos em aporia. [aporia = “caminho inexpugnável, sem saída”, “dificuldade”]
Essa epígrafe está articulada com o projeto de Heidegger nesse livro. Considere as afirmações abaixo, indicando as corretas.
I – Heidegger visa resgatar a questão sobre o sentido do ser, que ele considera que foi esquecida pela filosofia.
II – Heidegger propõe-se a responder o que significa ‘ser’, encerrando esse debate filosófico.
III – No desenvolvimento da questão do ser, Heidegger se depara com vários ‘tipos’ de ser: o ser racional, ser irracional, ser existente, ser afetivo.
IV – Para recolocar a questão do ser, Heidegger precisa desvelar o ser do ente para quem perguntar é uma possibilidade.
V – As considerações de Heidegger em Ser e Tempo influenciam as psicologias de Binswanger e Boss, que fundam a Daseinsanalyse. 
Estão corretas:C)I, IV e V, apenas.
Exercício 7: Em Ser e Tempo, Heidegger afirma que a ‘essência’ do homem reside em sua existência. Para indicar o ser do homem usa o termo Dasein (ser-aí). 
I – O ser-aí é sempre uma possibilidade de ser si-mesmo.
II – Existir significa compreender ser, tanto de si mesmo (Dasein) quanto dos outros e das coisas.
III – A essência do homem (ser-aí) configura-se a partir do primeiro momento em que aparece no mundo físico, tornando-se, então, “ser-no-mundo”.
IV – Do ponto de vista ôntico, ser-aí é ser-no-mundo-com-os-outros.
V – O termo Dasein descreve o aparelho psíquico da existência. 
Estão corretas as afirmações: C)I, II e IV, apenas.
Exercício 8:
Heidegger, em Ser e Tempo (1927), desenvolve uma Analítica do Dasein que servirá de fundamento para a prática terapêutica Daseinsanalítica desenvolvida por Binswanger e Medard Boss. À luz desse contexto teórico, considere as afirmações abaixo e indique as corretas. 
I – Heidegger preocupa-se com a questão sobre o sentido do ser e com isso identifica um modo de pensar ocidental que ele denomina por pensamento metafísico, um modo de pensar que objetiva, substancializa o ser dos entes.
II – O pensamento metafísico caracteriza-se por pensar o ser como abertura de possibilidades.
III – Heidegger, preocupado com a questão sobre o sentido do ser, refere-se ao homem com o termo Dasein, ressaltando que o “da” do “dasein” (o “aí” do ser-aí) é o âmbito onde o ser se dá. 
IV – Heidegger entende que a questão sobre o ser e seu sentido ficou esquecida pelo pensamento metafísico.
V – Heidegger deu continuidade às preocupações de Husserl em relação a busca das essências, ou seja, a uma fenomenologia eidética, visando as evidências apodíticas (demonstráveis) 
Estão corretas somente:.C)I, III e IV
Modulo 3
Módulo 3: A condição humana descrita pela fenomenologia existencial
Temporalidade do Dasein.
Angústia e finitude do Dasein
Temporalidade do Dasein.
Bibliografia básica: SAPIENZA, B.T. Encontro com a Daseinsanalyse: A obra Ser e tempo, de Heidegger, como fundamento da terapia daseinsanalítica. São Paulo: Escuta, 2015, Pg. 48-95.
O conceito de temporalidade é um conceito-chave na fenomenologia existencial. Heidegger escolhe-o para diferenciá-lo do conceito de tempo, que na tradição filosófica e no nosso uso comum já ficou associado ao tempo cronológico, o tempo do relógio. O tempo cronológico é uma sequência linear e infinita de “agoras”, que se inicia no passado e caminha em direção ao futuro. A modo de ser temporal do Dasein é outro.
 Heidegger se depara com essa questão quando se pergunta pela possibilidade de ser todo do Dasein. Ser todo significa: como o Dasein se completa? Dasein se completa quando realizou todas as suas possibilidades. Neste caso, o Dasein só seria todo quando deixa de ser. Porém, deixando de ser, não realiza essa possibilidade. O Dasein que somos pode, por outro lado, experimentar-se como ser finito. É o que Heidegger chama de “decisão antecipadora” da morte. Devemos tomar cuidado com esta ideia, pois não significa que o Dasein imagina a sua morte, menos ainda que a procure. Significa que o Dasein se assume como um ser finito, isto é, que não pode tudo e que "tem" um tempo limitado para ser. Ao fazer isso, abre-se para sua facticidade, isto é, para o ente intramundano junto ao qual já se encontra. Numa interpretação mais livre, podemos dizer que o Dasein reconhece a singularidade e finitude da situação na qual se encontra.
O Dasein existe, então, sendo em relação com o que ele ainda não é, mas pode ser. Um sapateiro, por exemplo, encontra seus instrumentos como instrumentos para o conserto do sapato, que ainda não está consertado, mas “pode” estar. Do mesmo modo, o ser-no-mundo se compreende a partir de possibilidades (futuras) próprias. Antecipa-se a si mesmo. Ao antecipar-se (futuro) presentifica seu mundo, no qual já estava. Um sapateiro, antecipando o consertar e antecipando-se como sapateiro, encontra-se com seu mundo naquela situação. Porvir (o termo que Heidegger usa para se referir ao futuro, protegendo-o das significações já cristalizadas), ser-sido (o termo que Heidegger usa para se referir ao passado, pelo mesmo motivo) e presentificação acontecem juntos; não há separação entre passado, presente e futuro.
Por isso, a analítica do Dasein distinguirá dois modos de temporalização do Dasein: o próprio e o impróprio. Resumidamente, na temporalização imprópria o ser-no-mundo “vem a si”, compreende-se, a partir do que lhe acontecerá. Dessa forma, esquiva-se do peso do ter-que-ser, que a antecipação da morte desvela, esperando algo. Na temporalização própria, Dasein vem a si mesmo como ser finito, lançado e responsável por ser. 
3) Acompanhe o seguinte exemplo de exercício 
Leia atentamente o trecho extraído do livro DUBOIS, C. Heidegger: Introdução a uma Leitura. (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2004) e o poema XIX de Mario Quintana, publicado no livro A Rua dos Cataventos (1940), e considere as afirmações abaixo.
Na relação com a possibilidade da morte, que não me oferece nada de particular para esperar, essa possibilidade se dá como a possibilidade mais própria. (...) Como ser-lançado, o Dasein é portanto, enquanto ser-no-mundo, lançado no ser-para-a-morte: ele o experimenta na angústia, da qual, cotidianamente, decadente, foge. Como? Tranquilizando-se. Morre-se, certamente, mas por enquanto, tudo bem, ainda dá tempo. (...) Ao contrário, o ser-para-a-morte suportado está certo da morte. (...) certeza de si quer dizer: certeza de si como mortal. (...) Sum quer dizer sum moribundus. (DUBOIS, 2004, p.50)
Minha morte nasceu quando eu nasci
Despertou, balbuciou, cresceu comigo...
E dançamos de roda ao luar amigo
Na pequenina rua em que vivi.
Já não tem mais aquele jeito antigo
De rir e que, ai de mim, também perdi!
Mas inda agora a estou sentindo aqui,
Grave e boa, a escutar o que lhe digo:
Tu és a minha doce Prometida,
Nem sei quando serão nossas bodas,
Se hoje mesmo... ou no fim de longa vida...
E as horas lá se vão, loucas ou tristes...
Mas é tão bom, em meio às horas todas,
Pensar em ti... saber que tu existes!
I – Ambos os textos se referem à antecipação da morte. Heidegger utiliza o conceito ser-para-a-morte, enquanto Quintana refere-se a ela como “a Prometida”.
II – Com o conceito de ser-para-a-morte, Heidegger se refere à condição mortal do homem.
III – A finitude do Dasein é o que desvela para si que é substituível na sua existência.
IV – No poema de Mario Quintana, a morte é apresentada como “a Prometida”, o que, do ponto de vista da fenomenologia existencial, revela uma tendência suicida latente de seu Dasein.
Estão corretas: e) I, II e III, apenas.
 Se você leu atentamente a bibliografia indicada, pôde reconhecer que a afirmação I está correta, pois, de acordo com a citação de Dubois, a antecipação da morte revela o ser-para-a-morte constitutivo da existência. No poema de Mario Quintana essa ideia é expressada, em linguagem poética, como a Prometida, uma possibilidade que o acompanha desde sua infância e que um dia acontecerá. Para Heidegger,desde que lançado na existência, o Dasein é ser-para-a-morte. Assim, a afirmação II também está correta.Em Ser e Tempo, a possibilidade da morte aparece como a única na qual ninguém pode ser substituído por outrem. A antecipação da morte singulariza o Dasein, portanto, revelando que sua existência está sob seu encargo exclusivamente. A afirmação III vai de encontro com essa ideia, pois sugere que o ser-para-a-morte revela que cada um é substituível na sua existência. Equivocada também está a afirmação IV. A fenomenologia-existencial trabalha com fenômenos, buscando encontrar neles seu sentido. A ideia de tendências latentes é uma hipótese teórica, que não condiz com o fenômeno. O fenomenólogo não tem base fenomenológica para tal inferência. Pelo contrário, pois no poema Mario Quintana transmite um júbilo por reconhecer sua finitude, que torna os momentos de sua vida únicos e irrepetíveis.
Angústia e finitude do Dasein
Bibliografia básica: SAPIENZA, B.T. Encontro com a Daseinsanalyse: A obra Ser e tempo, de Heidegger, como fundamento da terapia daseinsanalítica. São Paulo: Escuta, 2015, Pg. 48-95.
As considerações de Heidegger acerca da temporalidade se desdobram na finitude do Dasein. Como vimos, a finitude não coincide com a morte. “Antecipação da morte” não significa imaginar-se morrendo. Até o contrário. Antecipação da morte significa assumir-se como um ser único, insubstituível, destinado a ser. Existir é tarefa. Essa ideia de Heidegger se faz presente no Existencialismo de Sartre através da ideia de que o homem é condenado a ser livre.
O conceito de temporalidade, como já vimos, expressa o modo mais originário da existência de lidar com tempo; mais precisamente, de lidar com o próprio tempo. Embora Dasein lide cotidianamente com o tempo como uma sequência infinita de agoras (tempo cronológico), seu tempo mais original é aquele que reconhece sua finitude. Lançada na facticidade, a existência é um intervalo entre dois nadas.
O nada se manifesta na angústia. É a dissolução do mundo, que revela ao Dasein seu ser como cuidado. Como cuidado, existir é tarefa que só se completa quando o Dasein realiza sua derradeira possibilidade. Heidegger lembra que a possibilidade da impossibilidade não pode ser confundida com a morte biológica. Numa passagem de Ser e Tempo, comenta que a morte biológica pode interromper possibilidades, assim como tardar a chegar.
 A temporalidade do Dasein traz muitas implicações para a compreensão dos fenômenos que interessam ao psicólogo. A primeira e mais radical é de que a existência humana não pode ser compreendida como um desenvolvimento linear do passado em direção ao futuro. Isto abre um forte debate com as psicologias explicativas. O pensamento natural-científico faz coincidir o sentido do fenômeno com sua causação temporalmente anterior. Ao observar um fenômeno psicológico, não se interessa por o que ele revela (seu sentido), mas imediatamente pergunta por que se dá dessa maneira, buscando sua resposta na sequencia temporal. 
Se for preciso indicar uma ênfase na temporalidade para a fenomenologia existencial, será o futuro, que Heidegger chama de porvir exatamente para diferenciar das significações já cristalizadas de futuro.
 O porvir é uma possibilidade de ser si mesmo que o Dasein assume como sua. A partir dessa possibilidade advém a si a sua história e os entes pertinentes. Em outras palavras, eu sou o que posso ser. É por isso que as psicologias humanistas, que se inspiram na fenomenologia-existencial (Não confundamos Psicologia Humanista com Daseinsanalyse!!!), enfatizam os projetos do ser humano, ao invés de buscar explicações em seu passado.
 O conceito de temporalidade traz grandes repercussões na psicopatologia. Os primeiros psicopatologistas fenomenológicos (Jaspers, Minkowski) elaboraram descrições das vivências psicopatológicas tendo em vista a temporalidade. Por exemplo, a depressão é um encurtamento no porvir, de modo que para o deprimido vem a ser apenas a perpetuação da dor e da tristeza.
Talvez a mais importante implicação seja a nova ênfase dada aos conceitos de angústia e morte na prática clínica. A Daseinsanalyse coloca esses conceitos como centro de sua preocupação, reconhecendo nos fenômenos “psicológicos” modos de lidar com a própria finitude, antecipada, e com a angústia, enquanto perda de mundo e de si mesmo.
5) Acompanhe o seguinte exemplo de exercício:
Leia o trecho de Kierkegaard, que inspira a compreensão fenomenológico-existencial sobre a angústia desenvolvida por Heidegger em Ser e Tempo, e responda.
A angústia é a possibilidade da liberdade, só esta angústia é, pela fé, absolutamente formadora, na medida em que consome todas as coisas finitas, descobre todas as ilusões. E nenhum Grange Inquisidor dispõe de tão horripilantes tormentos como a angústia, e nenhum espião sabe investir sobre o suspeito com tanta astúcia, justo no momento em que está mais debilitado, ou sabe preparar armadilhas, em que este ficará preso, tão insidiosamente como a angústia, e nenhum juiz sagaz consegue examinar, sim, ‘ex-animar’ [desalentar], o acusado como a angústia, que não o deixa escapar jamais, nem nas diversões, nem no barulho, nem no trabalho, nem de dia nem de noite. (p.164)
[Referência bibliográfica: KIERKEGAARD, S. (1944/2011) O Conceito de Angústia. Petrópolis, RJ: Vozes.]
Sobre a angústia na Fenomenologia Existencial é correto afirmar:
I – Assim como na citação, Heidegger afirma que não há como escapar da angústia, nem mesmo “nas diversões, nem no barulho, nem no trabalho, nem de dia nem de noite” pois a angústia é constitutiva do Dasein (ontológica).
II – A angústia rompe com a familiaridade do mundo, produzindo estranhamento. A fenomenologia existencial busca reconduzir quem vivencia essa estranheza a alguma familiaridade.
III – Para a fenomenologia existencial, a psicoterapia auxilia na profilaxia da angústia, evitando que ela irrompa.
 Estão corretas somente: D) I e II, apenas
 Se você leu atentamente os textos indicados na bibliografia, não deve ter tido dificuldades para compreender a citação de Kierkegaard. Ele escreve sobre o mesmo fenômeno da angústia, descrito por Heidegger, porém, com outra linguagem. Tanto para Kierkegaard quanto para a Heidegger, a angústia – que é o rompimento com a familiaridade com o mundo – é uma possibilidade intrínseca à existência. Portanto, não há como escapar dela. Portanto, as afirmações I e II estão corretas. A afirmação III sugere que há um modo de fugir da angústia; no caso, a psicoterapia. Dado que é uma possibilidade intrínseca, não há como a evitar. Também não há porque a evitar, dado que a angústia revela a cada um que sua existência está sob sua responsabilidade.
Exercício 1:
A experiência da angústia tem destaque na fenomenologia de Heidegger, pois ela possibilita uma visão clara da condição existencial. A respeito dessa experiência no contexto fenomenológico-existencial está correto afirma 
I – Na angústia, o ente intramundano desaba, não sendo mais relevante e significante.
II – A angústia é precisamente a experiência do ser-no-mundo enquanto tal, do próprio mundo.
III – Temor e angústia são diferentes, pois a angústia é “de” alguma coisa e o temor, é temor diante do nada.
Apresenta(m) corretamente as ideias de Heidegger acerca do modo de ser da angústia somente as afirmativas: D)I e II.
Exercício 2:
Sapienza destaca a importância da obra Ser e tempo de Martin Heidegger para a fundamentação da Daseinsanalyse. A prática clínica fundada no pensamento do filósofo alemão propõe uma postura e um olhar novo do terapeuta frente ao seu paciente e à prática clínica. Com base na postura do terapeuta daseinsanalista, assinale a alternativa correta:
I – Fenomenologia requer que estejamos abertos para acolher aquilo que um dado fenomênico conta de si mesmo, em seu mostrar e se ocultar.
II – Para atender em Daseinsanalyse, é necessário estar inteiro no atendimento e sustentar o próprio desamparo como terapeuta, isto é, a insegurança, desabrigo por não contar com uma teoria que“diz o que fazer”.
III – Suspender teorias significa que na prática clínica fenomenológica não se preocupa com rigor, mas importa apenas aquilo que o terapeuta pensa sobre o paciente. 
C)Apenas I e II estão CORRETAS
Exercício 3:
Muitas pessoas procuram psicoterapia em razão de decisões que precisam tomar em suas vidas. As decisões articulam-se com futuro, pois, decidir-se é escolher um futuro possível e abdicar de todos os demais. Entretanto, Heidegger descreve em Ser e tempo que a maioria das vezes a existência não se assume assim, entregando a responsabilidade de seu existir a “a gente”. À luz desse contexto teórico-filosófico está correto afirmar:
I – A fenomenologia-existencial compreende a existência como indeterminada, como poder-ser. Existir é tarefa.
II – Cotidianamente, existimos abrindo mão de nosso ser-aí, deixando de perceber a singularidade das situações que vivenciamos e de nossa própria existência.
D)I e II, apenas.
Exercício 4:
Leia o seguinte poema e a seguir responda a questão: 
Amadurecer e crescer também significa ir, de olhos abertos, em direção à morte.
Nós só somos maduros o tanto quanto estejamos dispostos a aceitar nossa própria mortalidade. A morte nos torna sábios para a vida. Eu me nego, por isto,À fuga ilusória para a superficialidade tentadora e para ocultar o doloroso.Eu quero visualizar conscientemente que a qualquer momento será o meu último dia.E por meio disto estar mais desperto, mais vivo, realizado, sábio e mais grato por cada dia,por cada momento.Em meio à plena paixão pela vida, sou mortal.Um dia virá a ser meu último.Saber disto me faz amadurecer.
(ULRICH SCHAFFER, Crescer, Amadurecer)
Fazendo uma aproximação do poema com a compreensão heideggeriana acerca do ser-para-a-morte, podemos afirmar corretamente que:
D)Neste poema, o poeta expressa uma relação própria/autêntica com a morte, uma vez que a traz para o acontecimento presente e, com isso, abre a possibilidade de ver a si mesmo como um poder-ser. 
Exercício 5:
Em seu texto, Sapienza (2015) apresenta os caracteres existenciais, descritos por Heidegger em Ser e tempo, da abertura constitutiva do Dasein do compreender, disposição e discurso. Com base nesses existenciais, assinale a alternativa correta: 
I – O compreender constitui o poder-ser e é sempre disposto, isto é, determinado por uma disposição.
III – A abertura existencial do Dasein significa o caminho aberto que o existir deve seguir para ser si mesmo, isto é, para alcançar a felicidade.
D)Apenas I e III estão CORRETAS
Exercício 6:
O pensar fenomenológico não considera o homem e os demais entes da natureza da mesma maneira. Enquanto no homem seu ser está em suas diversas possibilidades de se ser-no-mundo, os elementos da natureza e os entes que não são humanos não têm possibilidade de virem-a-ser eles mesmos. No contexto fenomenológico-existencial,
I - O homem é um tempo que se esgota, um intervalo entre o nascimento e a morte, que se emprega, que se empenha, que se reserva, que se omite, enquanto vive;
II - Ao homem cabe desenvolver o conhecimento para garantir sua sobrevivência por meio do controle da natureza;
III) Sendo a.existência possibilidade, cada qual tem que transformar esta possibilidade no seu acontecimento.
A partir da fenomenologia de Heidegger, estão corretas:
E)Apenas I e III
Exercício 7:
Juvenal está em psicoterapia há 6 meses. Nunca falta às sessões. Começou o processo alegando dificuldades na relação com seu chefe, mas estas logo cederam espaço a dificuldades de relacionamento com seu pai quando ele ainda estava vivo. O pai de Juvenal faleceu há 10 meses. O psicólogo que o atende é daseinsanalista e enfatiza em supervisão que o paciente raramente fala a respeito de si mesmo, pois fala do chefe, do pai, da esposa, do filho, sempre como se os outros fossem os causadores de seu sofrimento. Como o psicólogo é daseinsanalista, ele fundamenta sua compreensão em:
I – Juvenal é ek-sistência, que significa que ele é por condição jogado no mundo, aí ‘fora’. Assim, chefe, pai, familiares são mundo de Juvenal e, ao falar deles, fala de seu ser-no-mundo.
II – De acordo com a noção heideggeriana de existência, Juvenal é ser-com-outros. Isso significa que ele é suas relações com chefe, pai, esposa, filho, etc. e deve-se buscar com ele uma compreensão de quem e como ele é nessas relações.
III – A existência pode ser própria ou imprópria. Ao falar o tempo todo dos outros, Juvenal não está se apropriando de sua existência. Pelo contrário, está sendo impróprio, pois só fala dos outros.
IV – A existência de Juvenal pode ser descrita fenomenologicamente como antecipar-se a si mesmo, já no mundo em meio aos entes intramundanos que vêm ao encontro.
Estão corretas somente:
D)I, II e IV.
Modulo 4
Módulo 4: Fenomenologia Existencial da História Pessoal
A concepção de história pessoal (historiobiografia) de Dulce Critell
Historiobiografia e Sentido da Vida
A concepção de história pessoal (historiobiografia) de Dulce Critelli
Bibliografia básica: CRITELLI, D. História Pessoal e Sentido da Vida – Historiobiografia. São Paulo: EDUC, 2012.
A filósofa Dulce Critelli fundamenta suas reflexões nas filosofias de Martin Heidegger e Hannah Arendt, que, por sua vez, fornecem importantes compreensões para psicologia fenomenológica existencial. Para a autora, ambos os pensadores são complementares, mas há uma diferença notável entre eles no que tange ao sentido da filosofia. Enquanto para Heidegger a filosofia exige descomprometimento com a vida cotidiana, para a ex-aluna de Heidegger radicada nos EUA, a filosofia é a capacidade de avaliar a vida e de modificá-la. Para Arendt, a filosofia mantém uma relação íntima com a ação. Segundo Critelli (2012), “Quando pensamos, transformamos nossas crenças e, consequentemente, transformamos nosso jeito de viver.” (p.17)
Por ação, Arendt se refere à condição humana. Existir é ser iniciador. Fiel ao princípio fenomenológico existencial de suspensão radical de quaisquer a priori que substancializam a existência, Arendt concebe o ser-no-mundo-com-os-outros como ação e palavras. A ação inicia algo novo mundo. Seu sentido vai se desvelando nas repercussões, consequências e desdobramentos. Por isso, o sentido de todo gesto humano depende dos outros. Nas palavras de Critelli (2013),
Nossos atos e palavras não são autosignificantes. Se eles ganham impulso nas nossas intenções, raramente as realizam. De um lado, porque à medida que se destinam aos outros (por condição humana, iniciadores como nós), eles podem interferir neles e modificar seu sentido. De outro lado, porque o sentido e o significado de nossos atos e palavras sé se completam pelos efeitos e consequências que provocam. (p.36)
Assim, a existência, que é concomitantemente singular (eu sou) e plural (no mundo com os outros), pode perder a autoria de sua história. Como atora dos próprios gestos, seus significados podem ser transformados pelos outros. A fala é a capacidade de explicitar o sentido intencionado, preservando a autoria da ação.
 Essas reflexões são muito importantes para a psicologia fenomenológica existencial, pois esta suspende as noções de psiquismo, sujeito e indivíduo, reconhecendo o outro como existência singular e plural, no mundo com os outros, constitutivamente estando em jogo a autoria de sua biografia.
4. Acompanhe o exercício abaixo:
Leia as duas frases de Critelli e, considerando a relação entre elas, indique a alternativa correta:
“Os homens experimentam uma necessidade ontológica de compartilhar seus conhecimentos, suas descobertas, seus sentimentos e pensamentos"
POIS,
"para os homens, tudo o que chamamos de real é aberto e sustentado pelo viver em conjunto.” (p.26) Assinale a alternativa correta:
A) As duas asserções são verdadeiras e a segunda é uma justificativa correta da primeira.
Se você acompanhou o texto acima e leu o texto indicado pôde compreender que a existência humana é coexistência, isto é, acontece com-os-outros-no-mundo. Terá assinalado a alternativa A como correta. ParaArendt o existir é político. Sendo assim, ser-aí e mundo são dois polos do mesmo fenômeno, que é o existir com outros. Portanto, ambas as afirmações estão corretas e a segunda é uma justificativa correta da primeira. 
Historiobiografia e Sentido da Vida
Bibliografia básica: CRITELLI, D. História Pessoal e Sentido da Vida – Historiobiografia. São Paulo: EDUC, 2012. A filósofa Dulce Critelli nomeia Historiobiografia a “abordagem terapêutico-pedagógica que tem por intenção a redescoberta do sentido da vida através da compreensão da história pessoal.” (p.12) Esse termo é composto por história e biografia, apontando para dois aspectos fundamentais do existir humano.
História significa tanto o “conjunto de conhecimentos relativos ao passado da humanidade” (HOUAISS, 2013), quanto uma narrativa. Esses dois sentidos de articulam na existência humana. Somos seres históricos, isto é, lançados em contextos significativos históricos compartilhados já dados, e biográficos, isto é, que constituímos nossa história pessoal ao longo do existir. Por isso, quem é alguém só pode ser dito quando já foi; a todo momento nossas ações podem inaugurar novos sentidos, que reverberam no já vivido.
A todo o momento é possível uma reflexão sobre a história que está em andamento. Isso é necessário, pois existir é estar em risco de perder o próprio ser (a autoria da própria vida) nas interpretações do senso comum. Também é fundamental para cuidar das possibilidades porvindouras, realizando a possibilidade humana de lançar-se em direção ao que ainda não é, mas pode ser (POMPEIA, 2012), cuidando para que a vida seja melhor.
 Critelli (2012) indica três “guias de viver”: 1) Relatos, 2) Historietas e 3) Histórias. Diferenciam-se pela abrangência temporal e pela complexidade de cada um. A identidade pessoal se costura pelos fios dessas formas de narrativa.
Referências Bibliográficas
CRITELLI, D. História Pessoal e Sentido da Vida – Historiobiografia. São Paulo: EDUC, 2012.
POMPÉIA, J. A.; SAPIENZA, B. T. Os dos nascimentos do homem: Escritos sobre terapia e educação na era da técnica. Rio de Janeiro: Via Vérita, 2011.
Atividades Recomendadas
4. Acompanhe o exercício abaixo:
Uma psicóloga fenomenológica atendia em seu consultório uma menina. A menina enrolou uma massinha até formar uma cobra. No momento seguinte, pega um instrumento e começa a cortar a cobra em vários pedaços. Sua primeira reação foi de interpretar à luz das concepções psicanalíticas. Mas, antes disso, perguntou à menina, que lhe respondeu: “a cobra estava se sentindo sozinha, então estou lhe dando amigos.” (situação adaptada de FORGHIERI, 2000) Considerando a compreensão da condição humana desenvolvida por Critelli (2012) e a Historiobriografia está correto afirmar:
[Referência bibliográfica: FORGHIERI, Y. C. Psicologia Fenomenológica: fundamentos, método e pesquisa. São Paulo: Ed. Pioneira Thomson, 2000.]
C) A palavra é a possibilidade de explicitar as intenções. A menina pôde, ao dizer o que fazia, explicitar o sentido do cortar.
Se você leu atentamente os textos indicados, pôde ver que a alternativa correta é a C. Para responder esta questão, é necessário ter clareza sobre o que é a Historiobiografia desenvolvida por Critelli, que mostra que as alternativas D e E estão erradas. A alternativa A está incorreta, pois a interpretação inicial da psicóloga estava (de acordo como enunciado!) fundamentada na psicanálise. A alternativa B está errada pois “ir às coisas mesmas” é desvelar o sentido dos fenômenos. Para isso, é necessário articular os significados das ações da menina com a enunciação de suas intenções.
Exercício 1:
Edna procura um psicólogo fenomenológico-existencial. Relata que está em crise no seu casamento. Ela e João "não se entendem mais." Procurou finalmente a psicoterapia devido a uma briga que tiveram na semana passada. Ela preparou um jantar para os dois, mas ele jantou rápido e foi assistir futebol na TV. "Nem elogiou minha comida! Quando eu falei isso para ele, ele explodiu e saiu de casa. Acho que foi ver o jogo num bar lá perto. Voltou de madrugada." 
Com base nas reflexões de Critelli (2012), o psicólogo investiga com Edna o que ela esperava (quais eram as intenções) no momento da briga com João. Ele faz isso, pois: (Assinale a alternativa correta)
A)Os atos de Edna não são autossignificantes. O significado deles aparece nas relações com os outros. Pensando na especificidade da relação com João, o significado das ações de Edna depende de como elas repercutem nele
Exercício 2:
Ana procura um psicólogo fenomenológico-existencial em estado de grande sofrimento. Seu marido faleceu recentemente num acidente de carro. Para ela, essa experiência a fez “perder o chão”. Critelli (2012) mostra, com base no pensamento de Hannah Arendt, que os seres humanos precisam de sentido para viver. Está correto afirmar sobre Ana, fundamentando-se em Critelli (2012) que:
I – Os fatos da vida de Ana precisam ser costurados por um fio de sentido. Sua incompreensão em à morte de João indica que esse fato não está ainda tecido aos nexos de seu existir.
II – Acontecimentos inusitados provocam uma ruptura com o senso comum. 
III – Ana sofre com a perda de seu marido, pois essa situação instala Dasein num processo de luto. Esse processo pode ser descrito quanto às fases evolutivas que o compõem em direção à reestruturação da vida cotidiana. 
Estão corretas somente: C)I e II.
Exercício 3:
Ana procura um psicólogo fenomenológico-existencial. Ele recorre à concepção de Historiobiografia de Critelli (2012) para buscar com ela uma compreensão de sua história. Isso significa que:
I – Na narrativa dessa história pessoal e na sua interpretação, é possível redescobrir os nexos através dos quais se ligam os acontecimentos da existência de Ana e o sentido de ser já realizado. 
II – O sentido do processo psicoterapêutico como Historiobiografia é tornar o próprio destino disponível para ação e autoria.
III – O método fenomenológico exige que Ana suspenda (epoché) as crenças e explicações que tem sobre sua história e seu comportamento. 
IV – Historietas que Ana retome são indicativas de seu perfil, seus sonhos e temperamento e orientam seu posicionamento nas situações de sua vida.
Estão de acordo com a Historiobriografia (Critelli, 2012) apenas as afirmações:
E)I, II e IV.
Exercício 4:
Critelli (2012) afirma:
“A intenção da Historiobiografia é descobrir a personagem que um indivíduo realiza desdobrada no tempo e nas circunstâncias da sua existência. Trata-se do desvelamento de um destino já realizado em nome de um destino em realização. É um processo que favorece aos indivíduos aquisição de lucidez e os prepara para a autoria consciente e responsável na existência.” 
Podemos dizer, a partir dessas reflexões de Critelli, que a Historiobiografia nos dá pistas para a formulação de uma atitude clínica fenomenológica existencial. São aspectos dessa atitude:
I – A importância de refletir sobre as motivações e os significados, tais como o próprio sujeito o compreende.
II – A consideração pelos desdobramentos da ação, para além das intenções e dos significados percebidos pelo sujeito, investigando as repercussões de seus atos junto aos outros e ao mundo.
III – O realce dado aos comportamentos do cliente, bem como à busca de novos comportamentos e sua modificação.
IV – O relevo dado ao papel pedagógico do terapeuta, que compartilha reflexões sobre a condição humana com o cliente.
Estão corretas apenas as afirmações: B)I e II.
Exercício 5:
A Historiobriografia (Critelli, 2012) é uma “abordagem terapêutico-pedagógica que tem por intenção a redescoberta do sentido da vida através da compreensão da história pessoal.” (p.12) Embora não tenha sido elaborada por uma psicóloga (Critelli é filósofa) nem seja prerrogativa do psicólogo, trata-se de uma abordagem que fornece elementos importantes para a formulação de uma atitude clínica fenomenológica existencial. São aspectos dessa atitude:
I – A importância de perguntar ao agente do ato sua intenção. No contextoclínico, isso significa refletir sobre as motivações para ação realizada.
II – A consideração de que o sentido de um ato está “no mundo”, isto é, nos desdobramentos iniciados pela ação. Assim, a atitude clínica considera os testemunhos dos atos. Isso pode acontecer na forma de investigar junto ao “autor” as consequências que ele percebeu e/ou ouvindo dos demais envolvidos como interpretaram esses atos.
Estão corretas apenas as afirmações:A)I e II.
Exercício 6:
Um dos conceitos mais importantes da Psicologia é “consciência”. Entretanto, as várias psicologias discordam quanto a que se refere esse termo. A filósofa Hannah Arendt tece reflexões sobre a “consciência”, apontando-a como um aspecto próprio da condição humana. Na Historiobiografia de Dulce Critelli (2012), consciência é a condição indicada por Platão de sermos dois-em-um. Isso significa:
I – que nosso pensamento pode se desdobrar em dois, tornando-me expectador e avaliador dos meus próprios atos.
II – que é da condição humana ser outro de si mesmo. Funda-se na consciência a possibilidade do diálogo (dia – logos) silencioso consigo mesmo.
III – que na relação com outros, o dois-em-um se unifica, silenciando-se, possibilitando aparecer ao outro como indivíduo (não dividido).
IV – que a consciência é capacidade da existência de compreender seus atos. As intenções, entretanto, escapam-lhe, ficando veladas pela história silenciosa e oculta que cada um é.
Estão corretas apenas as afirmações: E)I, II e III.
Exercício 7:
Leitoras da Revista CLAUDIA escrevem o que, para elas, é o mais importante na vida:
(Fonte: http://claudia.abril.com.br/materia/felicidade-e-2143?p=comportamentoreflexoes)
Felicidade é...
"Estar perto de quem eu amo me deixa nas nuvens. Aconteceu recentemente, na minha formatura. As pessoas mais importantes da minha vida estavam lá, foi um momento único" A lista de ingredientes de anônimos e famosos que já experimentaram o sabor da felicidade é variada, bem temperada e afetiva" - Maristela Ramos, 25 anos, designer gráfica, de Curitiba
"Felicidade é se dar conta dos momentos maravilhosos que a vida oferece. Tive dois inesquecíveis: os dias em que meus filhos nasceram" - Sandra Helena Ramos, 32 anos, analista financeira, de Joinville (SC)
"Minha maior alegria é fazer compras. Outro dia adquiri uma jóia e fiquei radiante" - Josiane Bassoto de Lima, 30 anos, analista de sistemas, de São Paulo
"Dar um mergulho, ficar na areia tomando sol e depois ainda comer frutos do mar! Como moro perto de praias lindas, sigo essa receita todo fim de semana. Aprendi que felicidade é deixar de lado o stress do dia e simplesmente curtir o melhor da vida" - Ana Paula Ramos, 26 anos, designer, de Joinville (SC)
As afirmações dessas leitoras estão imersas no senso comum (Critelli, 2012), que é nossa realidade compartilhada. Sobre isso está correto afirmar:
I – O senso comum é resultante de renovados acordos que os indivíduos tácita ou explicitamente fazem entre si.
II – Na perspectiva fenomenológica existencial de Critelli (2012), fundamentada em Hannah Arendt, o senso comum precisa ser suspendido para que uma verdade apareça.
III – O senso comum é formado pelas respostas que coletivamente damos às perguntas essenciais: Quem sou eu? Qual é o sentido da vida? Que sentido eu faço nela?
IV – As leitoras Josiane Bassoto de Lima e Ana Paula Ramos apresentam o senso comum, pois para elas a felicidade está associada ao consumo e aos prazeres efêmeros, enquanto Maristela Ramos e Sandra Helena Ramos compreendem a felicidade como algo mais profundo, sendo mais autênticas e estando, portanto, além do senso comum.
Estão corretas apenas as afirmações: D)I e III.
Exercício 8:
Leia o trecho da notícia abaixo, retirado do canal de notícias R7 (http://noticias.r7.com/), sobre os desabamentos em Petrópolis (RJ) em 2011.
Psicólogos dizem que vítimas da tragédia precisam reconstruir identidades
Perdas inesperadas de parentes e bens pessoais causam transtornos e traumas
Monique Cardone, do R7, e Gabriela Pacheco, do R7, em Petrópolis | 22/01/2011 às 06h00
“Qualquer barulho lembra aquela noite”. Essa é a sensação do pedreiro Luiz Cláudio Ramos Fonseca, que perdeu a casa onde morava na região conhecida como Buraco do Sapo, em Itaipava, distrito de Petrópolis, uma das cidades da região serrana do Rio de Janeiro mais atingidas pelo temporal do último dia 11. De acordo com os psicólogos, esse tipo de trauma é comum após experiências em situações de desastre, como os deslizamentos e enchentes na serra, que deixaram centenas de mortos e milhares de desabrigados e desalojados.
Segundo o psicólogo Othon Vieira Neto, especialista em emergência e crise, as pessoas que sobreviveram a tragédias como essas têm perdas rápidas e inesperadas de familiares e bens pessoais.
- Cada amigo, parente e até objetos fazem parte da história das pessoas. Quando elas perdem tudo, é como se tivessem perdido a identidade.De acordo com Neto, em relação aos pertences, não são os objetos caros que fazem mais falta.
- As pessoas se emocionavam mais com a perda dos álbuns de fotos do que qualquer outra coisa simples. E isso não dá para recuperar e nem comprar de novo, como uma televisão ou um sofá. (...)
Para a psicóloga Patrícia Adnet, o maior desafio dos profissionais de saúde que vão trabalhar junto com as vítimas é mostrar o sentido de viver novamente após o trauma.
- O psicólogo vai ter que ouvir o desabafo, o choro e acolher esses moradores. Eles vão intervir no sentido de ajudar a construir uma nova identidade porque muitos não querem mais viver porque eles até entendem que podem recuperar a casa, mas não a família que morreu.
Fonte: http://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/noticias/psicologos-dizem-que-vitimas-da-tragedia-precisam-reconstruir-identidades-20110122.html
Critelli (2012) se refere à importância da capacidade de narrar os acontecimentos, pois essa narrativa forma o senso comum, suporte da sensação de realidade. Para a autora, se a realidade for caótica, torna-se insuportável e a reação mais comum é de recusá-la. “Um mundo que não puder ser narrado não pode ser habitado.” (p.33) As tragédias são um modo possível de abalar a sensação de realidade. Nesse contexto, está correto afirmar:
I – Os eventos da vida precisam ser arranjados numa história para lidarmos com eles. Os nexos que os articulam fundam sua compreensibilidade, ao mesmo tempo em que indicam a ‘identidade’ daquele para quem esses eventos são significativos.
II – A matéria apresenta a situação de pessoas que perderam a noção da realidade, por estarem incapazes de articular o ocorrido num nexo de sentido.
III – Segundo a psicóloga Patrícia Adnet, o maior desafio dos psicólogos é “mostrar o sentido de viver após o trauma”. Ou seja, é acompanhar as pessoas cuja realidade ruiu no desvelamento de sentido para esse acontecimento em suas biografias, abrindo-se para o futuro possível, que é condição humana.
IV – A psicologia fenomenológica existencial, por compreender que desastres abalam a existência das pessoas, pode explicar a elas que essa situação logo passará e que, como a existência é abertura para o futuro, em breve retomarão suas vidas.
Estão corretas apenas: D)I, II e III.

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