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SOCIOLOGIA GERAL Cinthia Regina Nunes Reis Cosme Oliveira Moura Júnior SOCIOLOGIA GERAL São Luís 2010 Governadora do Estado do Maranhão Roseana Sarney Murad Reitor da UEMA Prof. José Augusto Silva Oliveira Vice-reitor da UEMA Prof. Gustavo Pereira da Costa Pró-reitor de Administração Prof. José Bello Salgado Neto Pró-reitor de Planejamento Prof. José Gomes Pereira Pró-reitor de Graduação Prof. Porfírio Candanedo Guerra Pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação Prof. Walter Canales Sant’ana Pró-reitora de Extensão e Assuntos Estudantis Profª. Grete Soares Pflueger Chefe de Gabinete da Reitoria Prof. Raimundo de Oliveira Rocha Filho Diretora do Centro de Educação, Ciências e Naturais - CECEN Profª. Andréa de Araújo Edição: Universidade Estadual do Maranhão - UEMA Núcleo de Tecnologias para Educação - UemaNet Coordenador do UemaNet Prof. Antonio Roberto Coelho Serra Coordenadora Pedagógica: Maria de Fátima Serra Rios Coordenadora da Produção de Material Didático UemaNet: Camila Maria Silva Nascimento Coordenadora do Curso de Filosofia, a distância: Leila Amum Alles Barbosa Responsável pela Produção de Material Didático UemaNet: Cristiane Costa Peixoto Professor Conteudista: Cinthia Regina Nunes Reis Cosme Oliveira Moura Júnior Revisão: Liliane Moreira Lima Lucirene Ferreira Lopes Diagramação: Josimar de Jesus Costa Almeida Luis Macartney Serejo dos Santos Tonho Lemos Martins Capa: Luciana Vasconcelos Universidade Estadual do Maranhão Núcleo de Tecnologias para Educação - UemaNet Campus Universitário Paulo VI - São Luís - MA Fone-fax: (98) 3257-1195 http://www.uemanet.uema.br e-mail: comunicacao@uemanet.uema.br Proibida a reprodução desta publicação, no todo ou em parte, sem a prévia autorização desta instituição. Reis, Cinthia Regina Nunes. Sociologia geral / Cinthia Regina Nunes Reis, Cosme Oliveira Moura Júnior. - São Luís: UemaNet, 2010. 148 p.: il. 1. Sociologia. 2. Ensino I. Moura Júnior, Cosme Oliveira II. Título. CDU: 316:37 UNIDADE 1 A SOCIOLOGIA COMO CIÊNCIA .............................................. 13 O contexto do surgimento da sociologia enquanto ciência ........ 13 Consolidação da sociedade capitalista e o surgimento da sociologia ................................................................ 14 UNIDADE 2 ESTRUTURA METODOLÓGICA DA SOCIOLOGIA ........................... 23 Sociologia como ciência: complexidade epistêmica ................ 23 Problema social versus problema sociológico ........................ 26 Sociologia versus Filosofia Social ....................................... 28 UNIDADE 3 PRINCIPAIS TEORIAS SOCIOLÓGICAS PARA ANáLISE DA SOCIEDADE CONTEMPORâNEA .......................................................... 31 As teorias clássicas ...................................................... 31 Enfoque coletivista ................................................ 32 A sociologia de Émile Durkheim ........................... 32 A sociologia de Karl Marx ................................... 43 Enfoque individualista ............................................ 57 A sociologia de Max Weber ................................. 57 Novos modelos de explicação sociológica ............................ 73 Escola de Frankfurt ............................................... 74 Nova Sociologia Francesa – Pierre Bourdieu ............. 76 Norbert Elias ................................................ 78 Escola de Chicago ................................................. 79 A sociologia de Georg Simmel ............................. 80 SUMÁRIO UNIDADE 4 ESTRUTURA SOCIAL: noções básicas ................................... 87 Conceito e função de estrutura social ............................... 87 Status ................................................................. 88 Papel ................................................................. 89 Os aspectos que fundamentam o papel e o status ............. 90 Integração e relacionamento papel-status ...................... 90 O indivíduo e a estrutura social .................................. 92 Tipos de estrutura social .......................................... 93 Grupos sociais ................................................ 93 Organizações ou estruturas organizacionais ............. 94 Comunidades .................................................. 94 Instituições .................................................... 94 Categorias sociais ............................................ 94 Estratificação social ..................................................... 95 Legitimação da estratificação: aceitação ....................... 97 Conceito básico para compreensão da estratificação ......... 98 Sociedades abertas e fechadas ..................................100 Os tipos de estratificação social .................................101 Castas ......................................................... 101 Classes ........................................................ 103 Estamento .................................................... 105 UNIDADE 5 INSTITUIçõES SOCIAIS ....................................................109 O que é uma Instituição Social? ......................................109 Família e parentesco ...................................................111 Formas de organização das famílias .............................112 O desenvolvimento da vida familiar .............................115 Mudanças nos padrões familiares ................................116 Economia ................................................................119 O desenvolvimento da agricultura ...............................121 O desenvolvimento da indústria .................................123 O desenvolvimento da economia dos serviços .................127 Religião ...................................................................129 Recreação ...........................................................130 Educação ............................................................131 Política .............................................................132 REFERÊNCIAS ............................................................ 137 íCONES Orientação para estudo Ao longo desta apostila, serão encontrados alguns ícones utiliza- dos para facilitar a comunicação com você. Saiba o que cada um significa. GLOSSÁRIO REFERÊNCIAS ATIVIDADES SUGESTÃO DE FILMES SAIBA MAIS APRESENTAÇÃO A sociologia tem ocupado um papel cada vez mais importante na análise da sociedade contemporânea. É uma das ciências humanas que estuda a sociedade, ou seja, estuda sistematicamente o comportamento humano em seu contexto social, enquanto que o indivíduo na sua singularidade é estudado pela psicologia. A sociologia tem uma base teórico-metodológica, que serve para estudar os fenômenos sociais, tentando explicá-los, analisando os homens em suas relações de interdependência. Compreende, também, as diferentes sociedades e culturas, além de esclarecer o tamanho, a direção e o significado das mudanças sociais, sugerindo formas de tratar os problemas sociais gerados desde o surgimento da sociedade capitalista até os dias atuais. Como problemas atuais, podemos citar a fome, o desemprego, o suicídio entre outros. Esses problemas, embora sejam constantemente analisados, às vezes, são desvinculados de sua base social, sendo interpretados como problemas individuais e, como tais, perdem sua dimensão social, não encontrando respostas adequadas para tratá-los. A sociologia busca justamente olhar para estes e outros problemas que afligem a sociedade contemporânea. É nessa perspectiva que iremos trabalhar neste material. Procuramos não só demarcar uma ciência específica, mas, sobretudo, desvendar algunsproblemas ou fenômenos que nos cercam, e não o percebemos enquanto tais, ou seja, não pensamos neles enquanto fenômenos sociais e científicos. Portanto, caro estudante, desejamos excelente leitura do material e uma proveitosa compreensão do seu conteúdo enriquecendo tanto seus conhecimentos científicos quanto suas vidas pessoais. Bom estudo! PLANO DE ENSINO DISCIPLINA: Sociologia Geral Carga horária: 60 horas EMENTA: A sociologia no campo do conhecimento: origem histórica. Análise da realidade social. Conceitos e proposições teóricas e metodoló- gicas para compreensão dos fenômenos sociais. OBJETIVOS: ¡ Analisar a realidade social tendo em vista a aquisição de uma postura crítica e transformadora frente aos problemas sociais do contexto no qual está inserido; ¡ Compreender o contexto histórico, econômico, político e social do surgimento da sociologia; ¡ Localizar a sociologia no quadro científico; ¡ Relacionar de forma compreensiva as diferentes perspectivas teóricas da sociologia para a análise da sociedade contemporânea; ¡ Apreender o conceito e funções da estrutura social; ¡ Compreender o conceito de instituições sociais, identificando algumas instituições específicas. CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS: UNIDADE 1 A SOCIOLOGIA COMO CIÊNCIA UNIDADE 2 ELEMENTOS PARA ANáLISE CIENTíFICA: epistemologia da sociologia UNIDADE 3 PRINCIPAIS TEORIAS SOCIOLÓGICAS PARA ANáLISE DA SOCIEDADE CONTEMPORâNEA UNIDADE 4 ESTRUTURA SOCIAL UNIDADE 5 INSTITUIçõES SOCIAIS METODOLOGIA: O material deve ser trabalhado de forma concatenada, uma vez que as unidades são correlacionadas. Assim, as unidades 1, 2 e 3 contemplam desde o surgimento da sociologia, sua constituição enquanto ciência, os teóricos clássicos até o desenvolvimento das teorias contemporâneas de explicação sociológica; enquanto as unidades 4 e 5 trabalham as formas como as sociedades se organizam e como os indivíduos estão inseridos nessa organização. As aulas devem ser dialogadas com a participação dos alunos. AVALIAÇÃO: A avaliação deverá acontecer no decorrer do processo de aprendizagem finalizando com trabalhos escritos e apresentados em dupla. No decorrer das aulas deverá ser observada a participação do aluno, sua interação com a aula; também valerão nota as questões levantadas no final de cada unidade, bem como o debate sobre os filmes sugeridos. Para finalizar deverá ser elaborado um trabalho que correlacione duas ou mais unidades. A SOCIOLOGIA COMO CIÊNCIA 1 UNIDADE OBJETIVOS DESTA UNIDADE Conceituar a sociologia a partir de uma análise histórica sobre o surgimento, especialização e oficialização da disciplina enquanto ciência; Dissertar sobre o final do século XIX e anos iniciais do século XX, tendo em vista que este período foi o marco fundador do surgimento (questão social) e da elaboração das bases epistemológicas e metodológicas da sociologia. O CONTExTO DO SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA ENqUANTO CIÊNCIA Nós, seres humanos, sempre tivemos curiosidade pelas origens do nosso próprio comportamento, mas, durante centenas de anos, as nossas tentativas de nos compreendermos dependeram dos modelos de pensar transmitidos de geração em geração, às vezes, seguindo os termos religiosos. Foram em termos religiosos, por exemplo, que justificavam e explicavam, na época, o poder da nobreza feudal e da monarquia. Mas, a teologia, no final do século XVII, paulatinamente foi deixando de ser a forma norteadora do pensamento, cedendo lugar para as indagações racionais. O emprego sistemático da observação e da experimentação como fonte de exploração dos fenômenos da natureza ganhava cada vez mais espaço e acumulava cada vez mais conhecimentos. O pensamento social desse período também realizava seus voos rumo a novas descobertas. A pressuposição de que o processo histórico possui uma lógica passível de ser apreendida abriu novas pistas para investigação racional da sociedade. FILOSOFIA1414 Vico (1668-1744) afirmava que “a sociedade podia ser compreen- dida porque, ao contrário da natureza, ela constitui obra dos pró- prios indivíduos” (apud MARTINS, 1994, p. 19). Porém, foi no século XVIII que um movimento intelectual chamado de Iluminismo nocauteou a influência da religião, da tradição e do dogma no pensamento intelectual, possibilitando a consolidação da ciência como a maneira de pensar o mundo. O estudo objetivo e sistemático do comportamento humano e da sociedade é um desenvolvimento recente, data do início do século XIX, mais precisamente por volta de 1830. Porém, a sua formação constituiu-se em um acontecimento complexo para o qual concor- reu uma constelação de circunstâncias históricas e intelectuais, e determinadas intenções práticas. CONSOLIDAÇÃO DA SOCIEDADE CAPITALISTA E O SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA O surgimento da sociologia confunde-se com a própria ascensão do modo de produção capitalista, melhor dizendo, com um novo paradigma socioeconômico: o capitalismo como modo de vida. Este processo tem como marcos históricos fundamentais movimentos como o Renascimento, o Iluminismo, a Revolução Francesa, a In- dependência dos Estados Unidos e a Revolução Industrial, os quais fizeram emergir novas relações de trabalho, o estado laico, a ciên- cia e a razão experimental como fundamentos para compreensão do mundo. Estes períodos foram assolados por crises, guerras, conflitos inter- classistas, suicídios, perda de referências, desemprego, infanti- cídio etc. Inserida neste turbilhão de problemas sociais, que se tornavam gradativamente globalizados (questão social), surge a sociologia como alternativa para o controle, planejamento e re- constituição do equilíbrio e coesão social. Questão Social - é a generalização dos problemas sociais surgidos com o advento do modo de produção capitalista: desemprego, mendicância, fome, aumento da criminalidade, prostituição, alcoolismo, suicídio, infanticídio, surtos de epidemias etc. SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 1 15 Esse desequilíbrio foi gerado na transição do Antigo Regime econômico para o Capitalismo enquanto modo de produção. Assim, a Revolução Industrial representou o triunfo da sociedade capitalista que foi pouco a pouco concentrando máquinas, terras e as ferramentas sob o seu controle, convertendo boa parte dos indivíduos em despossuídos. Cada avanço com relação à consolidação da sociedade capitalista representava a desintegração de costumes e instituições e a introdução de novas formas de organizar a vida social. A utilização da máquina na produção não apenas destituiu o artesão dos seus instrumentos de trabalho como impôs uma severa disciplina, com novas formas de conduta e de relações de trabalho. A transformação da atividade artesanal em atividade manufatureira e, por fim, em atividade fabril desencadeou uma migração do campo para a cidade, assim como engajou mulheres e crianças em jornadas de trabalho de 12 horas, sem direito a férias ou feriados e recebendo salários inferiores aos dos homens. Essas transformações impactaram o mundo inglês, sobretudo as cidades industriais 15 Fonte: http://images.google.com.br/images?hl=ptBR&source=hp&q=revolu%C3%A7%C3%A 3o%20francesa&um=1&ie=UTF-8&sa=N&tab=wi Figura 1 - MONTAGEM TRANSIçÃO ANTIGO REGIME PARA CAPITALISMO FILOSOFIA16 que apresentaram um elevado crescimento demográfico sem, no entanto, ter uma estrutura de moradia, saneamento, saúde etc. A título de exemplo, Manchester, que no início do século XIX tinha por volta de 70 mil habitantes, cinquenta anos depois apresentava 300 mil. A Revolução Industrial fez emergir o proletariado, vítima das consequênciasnefastas desse processo. Essa nova classe, no entanto, não sofreu de forma impassível, reagiu sob várias formas: destruição das máquinas, atos de sabotagem e explosão de oficinas, roubos, crimes, até evoluir para a criação de associações livres e formação de sindicatos. Com isso, o centro dos confrontos sociais deixou de ser pobres contra ricos, para ser classe operária contra os proprietários dos meios de produção. A profundidade dessas transformações colocou a sociedade num plano de análise, ou seja, ela passou a se constituir como um problema, um objeto que deveria ser investigado. Cabe ressaltar que a Revolução Industrial foi o ponto culminante de uma evolução tecnológica, econômica e social que vinha se processando na Europa desde a Baixa Idade Média, com ênfase nos países onde a Reforma Protestante tinha conseguido destronar a influência da Igreja Católica: Inglaterra, Escócia, Países Baixos, Suécia. Nos países fiéis ao catolicismo, a Revolução Industrial eclodiu, em geral, mais tarde, e num esforço declarado de copiar aquilo que se fazia nos países mais avançados tecnologicamente: os países protestantes. Na França, as novas maneiras de produzir chocavam-se com a monarquia absolutista, isto é, com um regime de governo que assegurava consideráveis privilégios para um grupo de indivíduos improdutivos (nobreza), atrapalhando, sobretudo, a consolidação da livre-empresa. Por isso, a burguesia, ao tomar o poder em 1789, investiu diretamente contra os fundamentos da sociedade feudal, procurando construir um Estado que assegurasse e incentivasse a empresa capitalista. Para tanto, contaram com o apoio dos trabalhadores pobres das cidades. A burguesia que se instalara no poder não constituía um grupo coeso quanto aos seus interesses, havia uma ala mais radical Fonte: http://revistaepoca. globo.com/Revista/ Epoca/0,,E RT60632-15223-60632-3934,00.html Figura 2 - os três estados na frança pré-revolucionária SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 1 17 que pretendia suprimir também as instituições civis. Porém, o grupo burguês, interessado apenas nas transformações necessárias para o livre desenvolvimento empresarial, empreendeu-se em controlar os novos surtos revolucionários que pretendiam modificar toda a estrutura social. Assim, o projeto revolucionário deveria ser superado por outro que conduzisse à “organização” ou aperfeiçoamento da sociedade nascente, isto é, a sociedade capitalista, o que tornou necessário parar a radicalização revolucionária e iniciar-se um processo de reordenação social que possibilitasse o progresso humano (filosofia social positivista Augusto Comte). A sociedade capitalista nascente na França, no início do século XIX, carregava consigo as situações sociais vividas pela Inglaterra no início da Revolução Industrial. A partir da terceira década do século XIX, intensificaram-se na sociedade francesa as crises econômicas e as lutas de classe. A contestação da ordem capitalista pela classe trabalhadora passou a ser violentamente reprimida pela burguesia, via os aparatos do Estado. Mesmo assim, ficava cada vez mais claro que a burguesia não seria capaz de interromper apenas com ações repressivas aquele estado de “desorganização” social e estabelecer uma nova ordem social estável. Por isso, alguns pensadores acreditaram que, para introduzir uma “higiene” social e reorganizar a sociedade, seria necessário fundar uma nova ciência. Quadro 1 - sinóptico - Transição do Antigo Regime para o Capitalismo. ANTIGO REGIME REVOLUÇÕES BURGUESAS E INDUSTRIAIS Explicações do mundo vinculadas às interpretações da Igreja Católica. Revolução técnico-científica: o cien- tificismo. As explicações dos fenô- menos naturais e sociais passam a ser baseados na razão científico-ex- perimental. Escravidão e não existência de de- mocracia. Reforma Protestante, Revolução In- glesa, Revolução Francesa, Indepen- dência dos Estados Unidos. Relações de trabalho servis: senhor- servo; escravidão. Sistema capitalista. Mercantilismo. Relações de trabalho assalariadas, fim da escravidão e servidão. Civilização rural e produções manu- ais e artesanais. Civilização urbano-industrial. FILOSOFIA18 Monarquias absolutistas inexistência de participação popular. Poder político-econômico passa para as mãos da burguesia. Classes sociais definidas por nasci- mento: nobreza e clero. O Estado (política laica) passa a ser definido pela participação da bur- guesia, não mais pela interferência da Igreja. Trabalho artesanal e corporações de ofício. Trabalho assalariado industrial. Sistema de produção artesanal e ma- nufatureiro: predomínio do trabalho manual e baixa divisão das tarefas (divisão social do trabalho). Sistema de produção industrial ou fabril em que se aplica o trabalho humano conjugado ao uso de máqui- nas, provocando o aumento da pro- dutividade. Inexistência de trabalho assalariado. A sociedade passa a ser definida pela riqueza: burguesia (proprietários) e proletários (trabalhadores). Assim, essa nova ciência que deveria ser criada, tinha como objetivo uma aplicabilidade prática, isto é, dar respostas à crise social daquele tempo. A jovem ciência assumia como tarefa intelectual repensar o problema da ordem social. Dessa forma, surgiu a sociologia que deveria, segundo Auguste Comte, orientar-se no sentido de conhecer e estabelecer as “leis imutáveis” da vida social, abstendo-se de qualquer discussão crítica. Comte denominava a nova ciência de física-social, expressando o seu desejo de construí-la a partir dos modelos das ciências físico-naturais, seguindo o pensamento positivista. A oficialização da sociologia (denominação atribuída por Comte) foi, portanto, uma criação do pensamento positivista que pretendia realizar a legitimação intelectual do novo regime, o Capitalismo. Comte acreditava que este novo campo de estudo podia produzir conhecimento acerca da sociedade com base em fatos científicos, uma vez que foi a última ciência a se desenvolver. A Sociologia, para ele, deveria contribuir para o progresso da humanidade, usando seu caráter científico para compreender, prever e controlar o comportamento humano em sociedade. Fonte: www.suapesquisa. com/o_que_e/ positivismo.htm Positivismo – “é uma corrente filosófica que surgiu na França no começo do século XIX. Os principais idealizadores do positivismo foram os pensadores Augusto Comte e John Stuart Mill. Esta escola filosófica ganhou força na Europa na segunda metade do século XIX e começo do XX, período em que chegou ao Brasil. O positivismo defende a ideia de que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro. De acordo com os positivistas somente pode-se afirmar que uma teoria é correta se ela foi comprovada através de métodos científicos válidos”. (www.suapesquisa.com/o_ que_e/positivismo.htm). Figura 3 - Auguste Comte SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 1 19 Nesse sentido, esta sociologia de inspiração positivista não tinha como pretensão questionar os fundamentos da sociedade capitalista, nem alimentar teoricamente as lutas do proletariado. Este (filho da revolução industrial) buscou no pensamento socialista o referencial teórico para embasar suas lutas. Foi nesse contexto que a sociologia adquiriu outra vertente, tornando-se, também, uma teoria crítica da sociedade. A sociologia é um campo de disputas pelo poder de criar discursos que pretendem ser verdades; é uma ciência teórica e prática, pois é base para a produção de políticas públicas e políticas internacionais. Desta forma, sociologia não é puramente filosofia ou abstração pela abstração, mas sim um conjunto deconhecimentos praxeológicos que nos atingem sem que tenhamos consciência de tal. No momento de formação da sociologia, segundo Martins (1994, p. 34-94), existiam as seguintes vertentes sociológicas em gênese: • Sociologia moralista e conservadora: pretendia amortecer os prejuízos socioeconômicos e políticos através de propostas conservadoras que tentavam evitar as mudanças sociais e assim manter um equilíbrio da sociedade em prol do status quo; • Sociologia vinculada a lutas sociais e classes sociais exploradas: a sociologia de Saint Simon, porém esta tem pouca objetividade, apesar das propostas de superação da exploração social. De forma ampla nela se encontram as teorias marxistas; • Sociologia acadêmica: relacionada a Émile Durkheim, procura manter a ordem e compreender os problemas sociais anômicos e normais. • Sociologia das elites: a sociologia revolucionário- burguesa torna-se de elite e procura sintonizar a emergente sociologia ao controle social. FILOSOFIA20 Discorra sobre o momento histórico em que surge a sociologia. Tente enfatizar eventos e transformações históricas que foram fundamentais e que influenciaram na construção da sociologia como ciência. OS MISERÁVEIS (1998) SinopSe: “Os Miseráveis” (1998) é uma adaptação do clássico romance homônimo de Victor Hugo. O filme conta a história de Jean Valjean (Liam Neeson) que, depois de cumprir 19 anos de prisão com trabalhos força- dos por ter roubado comida, torna-se empresário em uma pequena cidade. Valjean, perseguido pelo policial Javert (Geoffrey Rush), foge para Paris com sua filha adotiva. Paris passava por conturbações revolucionárias em meio ao qual surge o romance entre a filha de Valjean e um jovem revolu- cionário, impelindo Valjean a se envolver nas lutas proletárias. Em 1807, para escapar das tropas napoleônicas, o casal se transfere às pressas para o Rio de Janeiro, onde a família real vive seu exílio de 13 anos. Na colônia aumentam os desentendimentos entre Carlota e D. João VI. Direção: Billie August Gênero: Drama elenco: Liam Neeson, Geoffrey Rush, Uma Thurman, Claire Danes, Hans Matheson. TEMPOS MODERNOS (1936) SinopSe: Um operário de uma linha de montagem, que testou uma “máquina revolucionária” para evitar a hora do almoço, é levado à loucura pela “monotonia frenética” do seu trabalho. Após um longo período em um sanatório, fica curado de sua crise nervosa, mas desempregado. Ele deixa o hospital para começar sua nova vida, mas encontra uma crise generali- zada e equivocadamente é preso como um agitador comunista, que liderava uma marcha de operários em protesto. Simultaneamente, uma jovem rouba comida para salvar suas irmãs famintas, que ainda são bem garotas. Elas não têm mãe e o pai delas está desempregado, mas o pior ainda está por vir, 1 SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 1 21 pois ele é morto em um conflito. A lei vai cuidar das órfãs, mas, enquanto as menores são levadas, a jovem consegue escapar. Direção: Charles Chaplin Gênero: Comédia elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Henry Bergman, Tiny Sandford, Chester Conklin. GIDDENS, Anthony. Sociologia. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000. MARTINS, Carlos.B. O que é sociologia. Col. Primeiros Passos. 38. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. TURNER, Jonathan. Sociologia: conceitos e aplicações. São Paulo: Makron Books, 2000. VILA NOVA, Sebastião. Introdução à sociologia. São Paulo: Atlas, 2008. unidade 2 OBJETIVOS DESTA UNIDADE: Discutir e apresentar os aspectos gerais da estrutura epistemológica da sociologia; Estudar e esclarecer ao estudante os principais problemas epistemológicos e de delimitação da sociologia enquanto ciência e área do conhecimento científico. ESTRUTURA METODOLÓGICA DA SOCIOLOGIA SOCIOLOGIA COMO CIÊNCIA: a complexidade epistêmica A sociologia pode ser conceituada como o estudo sistemático e metódico da sociedade. Conforme Durkheim, a sociologia seria o estudo dos fatos sociais. Por outro lado, Weber entende que a sociologia seria o estudo das ações sociais. De modo geral, a sociologia é o estudo de fenômenos sociais: problemas sociológicos e problemas sociais. Mas o que são problemas sociais e problemas sociológicos? O que caracteriza um fenômeno social? É importante destacar que a estrutura epistemológica da sociologia compõe-se, como qualquer outra ciência, de sujeito, objeto e métodos. O que caracteriza uma ciência são formas com que o sujeito cognoscente estabelece a relação de pesquisa ou de estudo com o objeto do conhecimento. Nas ciências humanas, de modo geral, a relação entre sujeito e objeto possui algumas variáveis complexas, que tornam a objetividade da elaboração de leis gerais e universalizantes muito fluida e flexível. Fonte: http://www. clickinformacao.com/fotos/curso- de-ciencias-sociais.jpg Figura 4 FILOSOFIA24 Enquanto nas ciências exatas, principalmente na física, o cientista pode estabelecer e elaborar leis universais concluídas da pesquisa de um objeto inanimado, como a força gravitacional, na sociologia esta relação torna-se muito mais complicada, para não dizer, pra- ticamente inviável. Mas, por que razão a sociologia não estabelece leis universais? A resposta para tal questão reside na estrutura epistemológica da relação sujeito e objeto, melhor dizendo, da natureza de ambos e acima de tudo das peculiaridades e complexidades características do fenômeno social. A primeira resposta pode ser retirada do se- guinte princípio da sociologia: tanto o sujeito quanto o objeto do conhecimento são humanos, são seres ou instituições que podem estabelecer uma relação comunicativa de troca simbólica. Vejamos no exemplo. O sociólogo, William Foote Whyte (2005), estudou um grupo de jovens em uma gangue, tentando compreender o funcionamento e as causas que levavam a juventude de um bairro norte-americano a adentrarem nestes grupos sociais. Para fundamentar a pesquisa, o autor teve que fazer entrevistas, trabalho de campo, e até certo ponto ser aceito e estudado pelo objeto de estudo, os membros da gangue. Neste caso, o trabalho científico do sociólogo só foi possí- vel porque ele dialogou e trocou informações com o objeto, que, de algum modo, também o estudava. Desta rápida descrição, podemos retirar a seguinte inferência: o sucesso de uma pesquisa social requer, em muitos casos, o estabe- lecimento de um diálogo com o objeto de estudo. Agora pensemos no caso da física. Seria possível o físico estabele- cer uma relação dialógica com a lei da gravidade? A lei da gravida- de poderia questionar o físico? Poderia não aceitar a pesquisa? A relação sujeito e objeto na sociologia é caracterizada pela dialo- gicidade, o sujeito e objeto interagem entre si. Desta caracterís- tica temos como corolário fundamental o caráter relacional entre sociólogo e objeto de estudo. O segundo fator de complexidade diz respeito às características humanas, principalmente, ao livre arbítrio. Em fevereiro de 1937, o então jovem economista William Foote Whyte, com uma bolsa de iniciação de Harvard, decidiu estudar um bairro italiano pobre de Boston, a que deu o nome de Cornerville. Um clássico da pesquisa sociológica, o trabalho de Whyte sobre Cornerville tem servido como modelo para a etnografia urbana há quase 70 anos. Utilizando o método de observação participante, o autor revela um mundo de intrincadas relações sociais, considerando pessoas e situações reais. Com seu olhar profundo e detalhista, Whyte mudou a maneira de se compreender a pobreza e a vida nas grandes cidades. (http://www.zahar.com.br/ imprensa/r0922.pdf) SOCIOLOGIAGERAL | unIdAdE 2 25 O livre arbítrio é uma característica humana que possibilita a va- riabilidade em relação a uma lei social geral, ou seja, por mais que haja uma tendência para determinado comportamento, a com- plexidade da razão humana, conjugada com o livre arbítrio, pode gerar um desvio à norma. Já no caso das leis da física - como a lei da gravidade - não cabe livre arbítrio, ninguém escolhe segui-la ou transgredi-la, simplesmente a gravidade atua sobre nós como lei da natureza universal e geral. Neste sentido: A matéria-prima da ciência natural, portanto, é todo o conjunto de fatos que se repetem e têm uma constância verdadeiramente sistêmica, já que podem ser vistos, isolados e, assim, reproduzidos dentro de condições de controle razoáveis, num laboratório. [...]. em contraste com isso, as ciências sociais estudam fenômenos complexos, situados em planos de causalidades e determinação complicados. Nos eventos que constituem a matéria-prima do antropólogo, do sociólogo, do historiador, do cientista político, do economista e do psicólogo, não é fácil isolar causas e motivações exclusivas, mesmo quando o sujeito está apenas desejando realizar uma ação aparentemente inocente e basicamente simples, como o ato de comer um bolo. Pois um bolo pode ser comido porque se tem fome e pode ser comido por motivos sociais e psicológicos: para demonstrar solidariedade a uma pessoa ou grupo, para comemorar uma certa data (DAMATTA, 1997, p.18). Por outro lado, na sociedade, por mais imperativa que seja a norma social, sempre há o desvio; por mais perfeita que seja a organiza- ção social, sempre cabe a transgressão. Talvez por isso Rousseau tenha chegado à conclusão de que a democracia, por mais perfeita que fosse, só poderia ser plena quando exercida por deuses ou por anjos, pois os primeiros construiriam, supostamente, as leis univer- sais, e os segundos seriam desprovidos de livre arbítrio. Outro fator que torna o objeto da sociologia ainda mais complexo é que os fatos sociais não podem ser reproduzidos em laboratório, ou seja, são fatos únicos. Nestes termos, a matéria-prima das ciências humanas são eventos do passado, e o papel dos cientistas humanos é tentar entender tendências por meio da reconstrução racional das relações causa-efeito destes eventos. De modo geral, um fe- nômeno social é único, apesar de possuir tendências. Deste modo: FILOSOFIA26 O problema básico, assim, continua: os fatos so- ciais são irreproduzíveis em condições controladas e, por isso, quase sempre fazem parte do passado. São eventos a rigor históricos e apresentados de modo descritivo e narrativo, nunca na forma de uma experiência. Realmente não posso ver e certa- mente jamais verei uma expedição de troca do tipo kula, tão esplendidamente descrita por Malinowsk (DAMATTA, 1997, p. 21). Destarte, podemos concluir da complexidade dos fenômenos dois grandes corolários fundamentais da estrutura epistemológica da sociologia enquanto ciência humana: 1) a relação sujeito e objeto é relacional; 2) o fenômeno social é relativo, pois varia conforme o espaço, tempo, sociedade e cultura; 3) a sociologia não traba- lha com leis universais, mas com tendências fenomenológicas; 4) o fenômeno humano é flexível, fato que não lhe retira o caráter objetivo e rigoroso, pois há métodos para se trabalhar com as ten- dências fenomenológicas. Agora, voltemos para um segundo questionamento: o papel da so- ciologia é estudar somente os problemas sociais? PROBLEMA SOCIAL VERSUS PROBLEMA SOCIOLÓGICO Muitos imaginam que a sociologia é a ciência que estuda problemas sociais para buscar soluções, ou seja, estuda os problemas, assim como um médico patologista estuda os estados anômicos da socie- dade para criar uma “vacina” e, assim, solucionar a doença e gerar a normalidade social. No entanto, esta é uma concepção muito restrita do que é sociologia que, enquanto ciência, é muito mais que o estudo de estados de anormalidade. Observe: Parece frequente que os que não estão familiari- zados com a sociologia imaginam que esta ciência tenha como objetivo a resolução dos problemas so- ciais, o que é um equívoco. É bem verdade que a so- ciologia nasceu como tentativa de buscar soluções racionais, científicas, de acordo com a pretensão de Comte, para os problemas sociais resultantes da SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 2 27 revolução industrial e de decomposição da ordem social aristocrática na França do início do século XIX. Nos Estados Unidos, a sociologia foi grande- mente estimulada, nos seus primórdios pela pre- tensão análoga, embora como consequência de outras condições sociais, de fazê-la um instrumen- to para a solução científica dos problemas daquela sociedade [..] (NOVA, 2008, p.42). Todo fenômeno social é um problema sociológico, pois se origina na sociedade e desdobra consequências sociais. Temos como exemplo as manifestações populares como o bumba meu ]boi, o carnaval, assim como a pobreza e as relações de trabalho. É importante en- fatizar que os problemas sociológicos não são em si fatos patológi- cos, ou seja, fenômenos que produzem prejuízos à sociedade. Essa última categoria de problemas sociológicos são considerados problemas sociais, que são fenômenos que geram ou tendem a ge- rar prejuízos e estados patológicos na sociedade. Como exemplo, temos a pobreza, o alto nível de criminalidade, o alto nível de cor- rupção, que podem gerar ou geram estados de instabilidade e de prejuízo à sociedade em geral. Portanto, todo problema social é um problema sociológico, mas nem todo problema sociológico é problema social, pois: Imaginar que a sociologia seja uma ciência dos problemas sociais constitui um equívoco análogo ao de supor que a biologia tenha como objeto de estudo apenas as manifestações patológicas, doen- tias, de vida. Ao sociólogo interessam, antes, os problemas so- ciológicos, quer dizer, os problemas de explicação teórica do que acontece na vida social. Neste sen- tido, tanto o funcionamento fluente da família quanto a sua desorganização entram no campo de interesse do sociólogo (NOVA, 2008, p.43). Fica claro que a sociologia não estuda apenas fenômenos patoló- gicos, estados de fragmentação e desintegração do tecido social, mas estuda também estados de normalidade e estabilidade. Nestes dois grandes marcos divisórios do objeto da sociologia (desinte- gração e estabilidade) podemos utilizar a classificação de Augusto Comte: a sociologia estática e a sociologia dinâmica. FILOSOFIA28 A sociologia estática é o campo da sociologia que estuda as insti- tuições, ou seja, os aspectos contínuos das sociedades (estados de normalidade). Enquanto a sociologia dinâmica estuda processos de mudança, que geralmente são momentos compostos por problemas sociais advindos de questionamentos de uma antiga ordem estável da sociedade (lembremos da passagem do antigo regime para o capitalismo). A sociologia estática estuda os fenômenos gerais da sociedade, es- tuda a vida social em si mesma, os aspectos constantes da socieda- de. Este modo estuda as Instituições básicas, ou seja, instituições necessárias para vida social: 1) a propriedade – que permitem aos homens produzirem e acumularem; 2) a família – que educa e en- sina os costumes e tradições aos indivíduos; 3) a linguagem – que possibilita a comunicação e a troca simbólica entre os indivíduos em sociedade. A sociologia dinâmica estuda os processos de trans- formação e evolução da vida social. SOCIOLOGIA VERSUS FILOSOFIA SOCIAL Outra confusão que há no campo da sociologia é a equiparação desta com a filosofia, fato em si um erro epistemológico infantil. Primeiramente, é importante enfatizar o que é conhecimentocien- tífico e o que é conhecimento filosófico. Inicialmente, o conhecimento científico pode ser considerado o produto de um processo racional, sistemático e metódico de observação objetiva de fenômenos, fatos, processos e realidades verificáveis. Nestes termos, a ciência faz-se: racional, verificável, factual, experimental e objetiva. A ciência baseia-se na objetividade (observação sistemática de objetos) para se chegar a verdades provisórias. As verdades são provisórias, pois a realidade é mutável e dinâmica. Desse modo, a ciência acompanha os processos de mudança e é válida até quando suas teorias não são refutadas (princípio da falseabilidade). SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 2 29 Por outro lado, o conhecimento filosófico, apesar de racional, sistemático, rigoroso e lógico, não é verificável, não pode ser testado nem verificado empiricamente: [...] portanto, o conhecimento filosófico é caracterizado pelo esforço da razão pura para questionar os problemas humanos e poder discernir entre o certo e o errado, unicamente recorrendo às luzes da própria razão (LAKATOS, 2008, p.19). Retomemos a sociologia. Esta área do conhecimento é uma ciência, pois seu objeto é verificável e o produto de suas pesquisas são testáveis e falseáveis, pois são empiricamente observáveis. Como exemplo, podemos citar um sociólogo que pretende estudar os comerciantes informais das ruas de uma grande cidade. Tal objeto de estudo é empiricamente observável, com isso o pesquisador não fará um estudo a partir da introspecção, mas sim através de análises teórico-empíricas baseadas no fenômeno. Por fim, fica claro que a sociologia é uma ciência que tem um objeto empírico, verificável e falseável, já o conhecimento filosófico não possui tal estrutura. A análise da Filosofia Social emite juízo de valor, é normativa, especulativa e conjectural; enquanto a sociologia parte da observação de fatos sociais, não é especulativa, é observação sistemática de fatos e não emite juízos de valor. Por que o conhecimento sociológico não é o mesmo que conhecimento filosófico? Falseabilidade (ou refu- tabilidade) é um conceito importante na filosofia da ciência (epistemologia). Para uma asserção ser refutável ou falseável, em princípio será possível fazer uma observação ou fazer uma experiência física que tente mostrar que essa asserção é falsa. Por exemplo, a asserção “todos os corvos são pretos” poderia ser falsifi- cada pela observação de um corvo vermelho. A escola de pensamento que coloca a ênfase na importância da Falseabilidade como um prin- cípio filosófico é conhecida como a Falseabilidade. http://pt.wikipedia.org/ wiki/Falseabilidade 1 FILOSOFIA30 ILHA DAS FLORES (1989) SinopSe: Um ácido e divertido retrato da mecânica da sociedade de con- sumo. Acompanhando a trajetória de um simples tomate, desde a plantação até ser jogado fora, o curta escancara o processo de geração de riqueza e as desigualdades que surgem no meio do caminho. Direção: Jorge Furtado Gênero: Documentário Experimental DA MATTA, Roberto. Relativizando: uma introdução à antropologia social. Rio de Janeiro: Rocco, 1987. KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 2005. LAKATOS, Eva Maria e MARCONI, Marina de A. Metodologia Científica. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2008. SANTOS, Boaventura Sousa. Introdução a uma Ciência Pós- Moderna. Rio de Janeiro: Graal, 1989. William Foote White. Sociedade de esquina: a estrutura social de uma área urbana pobre e degradada. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. VILA NOVA, Sebastião. Introdução à Sociologia. São Paulo: Atlas,2008. ObjetivO deStA unidAde: unidAde 3 OBJETIVO DESTA UNIDADE Apresentar as principais bases da sociologia clássica e suas contribuições para estruturação das análises da sociedade contemporânea, isto é, sociedade capitalista; Tratar as abordagens coletivistas (Émile Durkheim e Karl Marx) e individualistas (Max Weber e George Simmel) com suas concepções dicotômicas da realidade social (indivíduo-sociedade); Discutir as teorias contemporâneas que buscam superar estas antinomias e pensar conjuntamente os aspectos da realidade classicamente apreendidos como antagonistas. PRINCIPAIS TEORIAS SOCIOLÓGICAS PARA ANÁLISE DA SOCIEDADE CONTEMPORâNEA AS TEORIAS CLÁSSICAS A sociologia enquanto herdeira das tradições filosóficas conservou antinomias clássicas desta matriz epistemológica. Em particu- lar, as oposições tradicionais entre idealis- mo e materialismo, sujeito e objeto. Émile Durkheim e Karl Marx, apesar de apresenta- rem diferenças substanciais em seus corpos teóricos, compartilham a abordagem coleti- vista, destacando a estrutura como a unida- de de análise por excelência. Em contraposição a esse pressuposto coletivista, encontram-se os autores que privilegiam como unidade de suas análises as ações subjetivas de atores individuais, pois para este grupo, aqui representado por Weber e Simmel, é a realidade individual que compõe e dá sentido à realidade social. Fonte: http:// sociologiaemrede.ning. com/ Figura 1 FILOSOFIA32 Enfoque coletivista A sociologia de Émile Durkheim O arcabouço metodológico desse autor tem como unidade de análise as estruturas sociais. A visão de Durkheim sobre o objeto e método da sociologia foi moldada pelo pensamento positivista francês remontando, principalmente, a Comte e Saint-Simon. Émile Durkheim Nascimento 15 de abril de 1858 Falecimento 15 de novembro de 1917 Paris, França Nacionalidade Francês Ocupação Acadêmico, sociólogo, antropólogo, filósofo Seu objetivo, segundo Giddens (1999), era encontrar uma resposta aos perturbadores efeitos da vitória alemã sobre a França em 1870-1871. A Revolução do século XVIII, da qual os eventos de 1870-71 foram consequência, acabou com o Antigo Regime, e estabeleceu a sociedade liberal, burguesa, trazendo com ela problemas políticos e sociais de ordem geral, que se tornaram crônicos. O grande problema teria sido o fato da Revolução Francesa não ter estabelecido uma sociedade burguesa ideal, isto é, a combinação de democracia política com hegemonia de uma classe capitalista dominante. Em função disso, a história francesa foi caracterizada por ciclos de revolução e restauração, permanecendo sempre elementos conservadores. Esse fato marcou o pensamento durkheimiano, que se entregou não ao problema da ordem em geral, mas de uma autoridade adequada para a sociedade industrial moderna. Fonte: http://1.bp.blogspot. com/_iFoS7IfVMsg/SInoEBvZQFI/ AAAAAAAAALk/-1W1jfexDM8/ s400/durkheim.jpg Saint Simon Claude-Henri De Rouvroy, Conde de Saint-Simon (nascido a 17 de outubro de 1760 e falecido a 19 de maio 1825, em Paris), foi um dos fundadores do chamado “socialis- mo utópico”. Foi um importante teórico social francês que escreveu a obra Nouveau Christianisme, na qual proclamou uma fraternidade do homem que deve acompanhar a organização científica da indústria e da sociedade. (http://www. cobra.pages.nom.br/fmp-saint- -simon.html) e (Martins, 1994). Figura 2 - Émile Durkheim SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 33 Durkheim aponta os fatos sociais, como o objeto de análise, em sua obra As Regras do Método Sociológico (1895). Esses fatos teriam que ser definidos objetivamente, eles não poderiam ser confundidos com os demais fatos, que caberiam a outras ciências investigarem. Os fatos sociais que serviam de objeto para a sociologia eram percebidos através de sinais exteriores, ou seja, eles se manifestavam por meio de coisas concretas, e teriam que ser tratados como tais. Para Durkheimos fatos sociais são aspectos da vida social que moldam as nossas ações enquanto indivíduos. Deste modo, o autor define fato social como manifestação de algum fenômeno, preponderantemente coletivo, coercitivo e exterior aos indivíduos. Nesta concepção o fato social é algo que está além do individual e acima da psicologia (entenda psicologia como estudo individual da mente humana). Assim, o fato social é dotado de vida própria, independente da vontade individual dos membros da sociedade: [...] consistem em maneiras de agir, de pensar e de sentir, exteriores ao indivíduo e que são dota- das de um poder de coerção em virtude do qual esses fatos se impõem a ele. Por conseguinte, eles não poderiam se confundir com os fenômenos orgânicos, já que consistem em representações e em ações; nem com os fenômenos psíquicos, os quais só têm existência na consciência individual e através dela. Esses fatos constituem, portanto, uma espécie nova, e é a eles que devem ser dada e reservada a qualificação de sociais (DURKHEIM, 1999, p.3-4) Esclarecendo o conceito Durkheim elenca três características básicas e indispensáveis para um fenômeno ser classificado enquanto fato social: • Coerção externa: significa que todo fato social, para ser fato social, tem que coagir o indivíduo caso ele queira ir de encontro à determinação do fato. Essa coerção pode ser violenta ou não, só simbólica, mas que incomode, que constranja o indivíduo; • Generalidade do fato: o fato deve atingir a todos, sem exceção, conforme a sua regra; e, além disso, é produto da própria FILOSOFIA34 coletividade. Assim, deve ser entendido como manifestação de uma totalidade social: consciência coletiva e representações coletivas. “O fato social é público” (DURKHEIM, 1999); • Autônomo à vontade do indivíduo: o fato independe da vontade do indivíduo, este tem que se “submeter”, uma vez que a sociedade (este ser formado por todos os indivíduos, mas que vai muito além destes) está acima dele, pois: [...] esse fenômeno é um estado do grupo, que se repete nos indivíduos porque se impõem a ele. Ele está em cada parte porque está no todo, o que é diferente de estar no todo por estar nas partes (DURKHEIN, 1999, P.9). Para tentar comprovar essas três características dos fatos sociais, segundo Durkheim: Basta observar a maneira como são educadas as crianças. Quando reparamos nos fatos tais como são e como sempre foram, salta aos olhos que Reconhecendo um fato social: a moda Cada um se veste de uma maneira, num determinado momento, porque todos se vestem dessa forma. Não é um indivíduo que origina a moda, mas a sociedade que, partindo de vários pontos, constrói um modo determinado de vestimenta, que varia conforme sexo, idade etc. Caso queiramos ir contra o padrão estabelecido, sofreremos coerção direta e/ou indireta. Basta não estarmos vestidos da forma que foi designada como adequada para adentrarmos em determinados ambientes que somos prontamente barrados, como por exemplo, não podemos entrar em nenhuma repartição pública com trajes de banho. Em outros casos a coerção é indireta, através de olhares recriminadores, risos etc. Mesmo não tendo uma proibição expressa, na nossa sociedade, homem não usa vestido e caso algum queira experimentar essa coerção social, basta sair à rua trajando o referido vestido que, certamente, logo sentirá os olhares, os cochichos e rizinhos que, no mínimo, incomodarão. SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 35 toda educação consiste num esforço contínuo para impor à criança maneiras de ver, de sentir e de agir as quais ela não teria chegado espontaneamente. Desde os primeiros tempos de sua vida a coagimos a comer, dormir e a beber a horas regulares. Coagimo-la à limpeza, à calma, à obediência; mais tarde, coagimo-la a ter em conta os outros, a respeitar os usos, as conveniências, a trabalhar etc. etc. Se, com o tempo essa coação deixa de ser sentida é porque fez nascer hábitos e tendências internas [...] (internalização das regras sociais) (DURKHEIM, 1978, p.89, grifo nosso). Fatos enquanto maneira de ser e de agir Os fatos sociais se manifestam, como no exemplo supracitado, nas maneiras de fazer em cada sociedade, mas não se restringem a isso, pois se manifestam também como maneiras de ser coletivas (DURKHEIM, 1978). Os fatos sociais, enquanto maneiras de agir, podem ser menos consolidados, mais fluidos. Nesse caso, temos as chamadas cor- rentes sociais, movimentos coletivos ou correntes de opinião que nos impelem com intensidade desigual, segundo épocas e lugares, a agirmos de determinadas maneiras. Exemplos desses fatos são as correntes para casamento, suicídio, aumento da natalidade ou sua redução etc. Essas correntes variam conforme mudanças nos contextos sócio-históricos. Os fatos sociais, enquanto maneiras de ser, têm uma forma já cris- talizada na sociedade. Nesse caso temos as regras jurídicas, mo- rais, os dogmas religiosos e sistemas financeiros, o sentido das vias de comunicação etc. Exemplos desse tipo de fato social são os mo- dos de circulação de pessoas e mercadorias, as formas de comuni- car, de negociar, de expressar louvor etc. Exemplificando Nos anos de 1980 surgiu no mundo a AIDS. Esta doença foi aos poucos impondo mudanças nas maneiras de agir nas relações sexuais, isto é, a adoção do uso de preservativo tornou-se um FILOSOFIA36 imperativo inquestionável, uma vez que a ciência comprovou que a única forma de prevenção da doença nas relações sexuais é recorrer ao uso do preservativo. Mas essa mudança, já consolidada no padrão de comportamento das pessoa, ainda não foi aceita pelos dogmas da religião católica. Esta ainda condena qualquer método anticoncepcional, incluindo o uso do preservativo. O método – regras relativas à observação dos fatos sociais A investigação dos fatos sociais deve seguir os passos já determina- dos pelas ciências naturais, embora Durkheim reconheça a particu- laridade do objeto das ciências sociais. Assim, o autor sugere como a primeira regra e mais fundamental: considerar os fatos sociais como coisas, e esclarece: Não dissemos que os fatos sociais são coisas materiais, e sim que são coisas tanto quanto as coisas materiais, embora de outra maneira. O que vem a ser coisa? A coisa opõe a ideia assim como o que se conhece a partir de fora se opõe ao que se conhece a partir de dentro. É coisa todo objeto do conhecimento que não é penetrável à inteligência, tudo aquilo que não podemos fazer uma noção adequada, por simples procedimento de análise mental.[...] Tratar os fatos de uma certa ordem como coisas não é, portanto, classificá-los nesta ou naquela categoria do real; é observar diante deles uma certa atitude mental (DURKHEIM, 1999, p. XVII). Destarte, os fatos sociais são objetos científicos, pois se materia- lizam, ou seja, são verificáveis. Esta característica separa a socio- logia da filosofia, pois a primeira trata de um objeto verificável e a segunda toma as ideias como objeto de estudo. Por outro lado, a sociologia também se preocupa com o que se conhece a partir de fora (social), diferindo-se da psicologia que estuda fenômenos que se conhece a partir de dentro (internos ao indivíduo). A segunda regra que é corolário da anterior consiste em: descartar sistematicamente todas as pré-noções e os preconceitos que nos paralisam quando pretendemos conhecer os fatos sociais cientificamente. Também porque as “coisas” são tudo o que nos é dado, tudo o que se oferece (ou se impõe) à nossa observação, é SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 37 algo exterior a nós. “Mas esta regra não ensina ao sociólogo como este deve apoderar-se dos fatos para proceder um estudo objetivo” (DURKHEIM,1999, p. 35). Para tanto, o sociólogo deve definir e classificar o conjunto de fenômenos que pretende estudar, isto é: [...] definir aquilo que irá tratar para que todos saibam, incluindo ele próprio, o que está em cau- sa. Esta é a primeira e mais indispensável das con- dições para o estabelecimento de qualquer prova e de qualquer verificação (DURKHEIM, 1999, p.35). Para cada categoria de fatos sociais só há uma única causa, por- tanto, uma única explicação. Explicar um fenômeno social, para Durkheim, é procurar sua causa eficiente, é identificar o fenôme- no antecedente que o produziu. Depois de achar a causa, pode-se procurar descobrir a função desse fenômeno na sociedade, a sua utilidade. Se, por ventura, há várias causas para um fenômeno, há vários tipos desses fenômenos. As causas dos fenômenos sociais devem ser procuradas no meio social, no qual eles estão acontecendo, não devem ser procuradas, por exemplo, no passado, como a História faz. Para se verificar se um fenômeno é causa de outro, deve-se comparar os casos e veri- ficar as diferentes combinações de circunstâncias que revelam que um depende do outro: “o social só pode ser explicado pelo social” (DURKHEIM, 2003, p. 112.). Aplicação do Método: o estudo sobre o suicídio Segundo Durkheim, existe para cada grupo social uma tendência específica para o suicídio, que não é explicada nem pela constitui- ção orgânico-psíquica dos indivíduos nem pela natureza do meio físico. Com essa constatação, ele atribui como causa fatores sociais e, assim sendo, constitui-se enquanto um fenômeno coletivo. De acordo com Durkheim, os indivíduos têm certo nível de inte- gração com os seus grupos, o que ele chama de integração social. Níveis anormalmente baixos ou altos de integração social poderiam resultar num aumento das taxas de suicídio. O Suicídio, obra escrita em 1897, é considerada modelo de pesquisa social na qual o método central utilizado é o uso da estatística como instrumento de análise de fenômenos sociológicos. FILOSOFIA38 Os níveis baixos afetam porque a baixa integração social, sendo resultado de uma sociedade desorganizada, leva os indivíduos a se voltarem para o suicídio como uma última alternativa, ou ainda, porque os indivíduos não possuem laços sociais (vínculos sociais) que os impeçam de atentar contra sua própria vida. Os níveis al- tos afetam na medida em que as pessoas preferem destruir a si próprias a viverem sob grande controle da sociedade, ou ainda, suicidam-se para manterem um ideal coletivo ou o bem comum de um grupo social. Partindo da ideia de que um efeito (sinal exterior) só pode ser fruto de uma única causa, Durkheim comparou taxas de suicídio e chegou à conclusão que havia vários tipos de suicídio. Concluiu também que estes tinham como fonte geradora causas diferen- tes, uma vez que um mesmo antecedente (causa) não pode pro- duzir consequências diferentes. Portanto, para classificar os tipos de suicídio, procurou identificar e classificar as condições sociais (causas) que levaram aos suicídios. Com isso, classificou quatro tipos de suicídios: 1. Suicídio anômico: a anomia é um estado onde existe uma fraca regulação social entre as normas da sociedade e o indivíduo, mais frequentemente trazidas por mudanças dramáticas nas circuns- tâncias econômicas e/ou sociais. Este tipo de suicídio acontece quando as normas sociais e leis que governam a sociedade não cor- respondem com os objetivos de vida do indivíduo, uma vez que o indivíduo não se identifica com as normas da sociedade, o suicídio passa a ser uma alternativa de escape. 2. Suicídio fatalista: o fatalismo é o estado oposto à anomia, onde a regulação social é completamente instilada no indivíduo; não há esperança de mudança contra a disciplina opressiva da sociedade. A única forma de o indivíduo ficar livre de tal estado é cometer suicídio. Durkheim viu esta razão nos escravos que cometeram sui- cídio na antiguidade, mas viu uma relevância mínima na sociedade moderna. 3. Suicídio egoísta: o egoísmo é um estado onde os laços entre o indivíduo e os outros na sociedade são fracos. Estando o indivíduo fracamente ligado à sociedade, terminar sua vida terá pouco im- SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 39 pacto no resto da sociedade. Em outras palavras, existem poucos laços sociais para impedir que o indivíduo se mate. Esta foi a causa vista por Durkheim entre divorciados e homens solteiros, que ten- dem ao suicídio mais que os homens casados, uma vez que o casa- mento para os homens gera laços sociais mais estáveis e na intensi- dade ideal; não os oprime da mesma forma como às mulheres, por isso, para estas a relação é inversamente proporcional. 4. Suicídio altruísta: o altruísmo é o oposto do egoísmo, onde um indivíduo está extremamente ligado à sociedade, de forma que não tem vida própria. Indivíduos que cometem suicídio baseados no al- truísmo morrem porque acreditam que sua morte pode trazer uma espécie de benefício para a sociedade. Em outras palavras, quando um indivíduo está tão fortemente ligado à sociedade, ele cometerá suicídio independentemente de sua própria hesitação se as normas da sociedade o levarem a tal. Durkheim viu isto ocorrer de duas formas diferentes: a. quando os indivíduos se veem sem utilidade para a sua socieda- de, tornando-se um peso para a mesma, eles preferem cometer suicídio, como em algumas sociedades indígenas; b. quando os indivíduos veem o seu mundo social (com seus ideais e crenças) mais importante do que a sua própria existência in- dividual, sacrificam a si próprios em defesa do mesmo, como os homens-bomba. Estado normal e patológico Durkheim analisa a sociedade em duas perspectivas: um estado normal e um estado anômico ou patológico. Para definir um estado de normalidade social, basta compreender que as relações sociais estão se reafirmando com os fatos sociais e acontecimentos mais específicos. Como exemplo: o próprio suicídio altruísta que, em certas sociedades, como a japonesa, reforça a tradição social mi- lenar do suicídio ritual. Já o patológico pode ser exemplificado pelo suicídio egoísta, pois esse tipo de suicídio é desencadeado pela perda de referências e desintegração das relações sociais. Neste caso, o suicídio não é FILOSOFIA40 fator de reforço da coesão e consciência coletiva, mas sim de es- facelamento destas. Durkheim e o princípio da integração social A integração social ou coesão social é a questão central que norteia todo o pensamento sociológico de Durkheim. Ele tinha por preten- são encontrar a resposta de como a sociedade é possível. Em ou- tros termos, como pode uma coleção de indivíduos constituir uma sociedade? Durkheim marca o estudo da integração social por meio da noção de solidariedade, e a relação indivíduo/sociedade por meio da no- ção de consciência coletiva. Para Durkheim, a solidariedade garante a coesão social, e, portan- to, garante a sociedade. Ele distinguiu duas formas de solidarie- dade: a solidariedade por semelhança, chamada de mecânica e a solidariedade por diferenciação, chamada de orgânica. Essas duas formas de solidariedade ocorrem conforme o tipo de organização social. Solidariedade mecânica: este tipo de solidariedade acontece nas sociedades tradicionais baseadas em laços por semelhança e pa- rentesco, isto é, nas sociedades em que os indivíduos diferem pou- co uns dos outros. A sociedade tem coesão porque seus membros têm os mesmos sentimentos, os mesmos valores, reconhecem os mesmos objetos como sagrados, os sentimentos são coletivos. Esse tipo de solidariedade é característica das sociedades tidas como simples ouprimitivas, nas quais não há uma complexa divisão do trabalho, os indivíduos são intercambiáveis. Solidariedade orgânica: esta é a forma de agregação característica da divisão social do trabalho. O termo orgânico está referindo-se a um órgão composto por partes especializadas que se agregam por meio da diferença de funções e objetivos comuns, sendo todos indispensáveis à vida. Esta forma de solidariedade é a dita racio- nalização pela divisão do trabalho na cidade, na fábrica e na vida social. Impera, portanto, nas sociedades modernas, industriais. SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 41 A relação entre indivíduo e sociedade marcada pela solidariedade, segundo Durkheim, é caracterizada pela supremacia da sociedade, através da noção de consciência coletiva que é: O conjunto das crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma sociedade forma um sistema determinado que tem vida própria; [...] ela é independente das condições particulares em que os indivíduos se encontram: eles passam, ela permanece. [...] ela não muda a cada geração, mas liga umas às outras as gerações sucessivas. Ela é, pois, bem diferente das consciências particulares, conquanto só seja realizada nos indivíduos (DURKHEIM, 1999, P. 50). A consciência coletiva comporta força de maior ou menor extensão, de acordo com o tipo de sociedade. Nas sociedades mais simples, dominadas pela solidariedade mecânica, a consciência coletiva abrange a maior parte das consciências individuais com seus imperativos e proibições sociais. A força desta consciência coletiva nessas sociedades é extrema, manifestada pelo rigor dos castigos impostos aos que violam as proibições sociais. Quanto mais forte a consciência coletiva, maior a indignação com o crime, isto é, contra a violação do imperativo social. Segundo Durkheim, nas sociedades modernas, nas quais reina a solidariedade orgânica, haveria uma redução da extensão da consciência coletiva, bem como um enfraquecimento das reações coletivas contra a violação das proibições e, sobretudo, haveria uma margem maior na interpretação individual dos imperativos sociais. Os indivíduos, em muitas circunstâncias, teriam a liberdade de crer, de querer e de agir conforme suas preferências. Durkheim para chegar à solidariedade como o elemento de coesão so- cial, recorreu à questão do direito (enquanto regras morais) como seu sinal exterior, tendo em vista que a solidariedade não é algo objetivo, concreto, palpável; é abstrato, apenas seus efeitos são observados e sentidos. Considerando que há duas formas de solidariedade que variam conforme o tipo de sociedade, este autor classificou dois tipos de direito, o direito repressivo e o direito restitutivo. O direito repressivo (penal) impera na solidariedade mecânica, pois o elo de solidariedade ao qual ele corresponde é aquele cuja ruptura se constitui o crime (todo ato que implica ao seu agente FILOSOFIA42 uma reação chamada pena), na medida em que ofende a consci- ência moral do grupo ao qual se refere (ofende as consciências de cada membro), podendo abalá-la ameaçando a coesão social, com- prometendo a própria sociedade. É necessário, portanto, que seja repreendido para a salvaguarda do grupo. O direito restitutivo (civil, processual, comercial etc.) impera nas sociedades em que a divisão social do trabalho é complexa, ou seja, na sociedade industrial, onde a coesão social é estabelecida pela solidariedade orgânica. Neste tipo de sociedade, o delito não fere a consciência coletiva, o agente apenas deixa de cumprir uma função determinada pela sociedade e assumida por ele, logo a re- ação ao seu ato é de restituir o que foi acordado. Segundo Durkheim, os fatos sociais têm vida própria. Como a divisão do trabalho, segundo Durkheim, pode desencadear a integração social nas sociedades modernas? Estabeleça a relação entre consciência coletiva e consciência individual, apontada por Durkheim. 1 2 3 SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 43 A VILA (2004) SinopSe: Em 1897 uma vila parece ser o local ideal para viver: tranquila, isolada e com os moradores vivendo em harmonia. Porém, este local per- feito passa por mudanças quando os habitantes descobrem que o bosque que o cercam esconde uma raça de misteriosas e perigosas criaturas, por eles chamados de “Aquelas de Quem Não Falamos”. O medo de ser a próxi- ma vítima destas criaturas faz com que nenhum habitante da vila se arris- que a entrar no bosque. Apesar dos constantes avisos de Edward Walker (William Hurt), o líder local, e de sua mãe (Sigourney Weaver), o jovem Lucius Hunt (Joaquin Phoenix) tem um grande desejo de ultrapassar os limites da vida rumo ao desconhecido. Lucius é apaixonado por Ivy Walker (Bryce Dallas Howard), uma jovem cega que também atrai a atenção do desequilibrado Noah Percy (Adrien Brody). O amor de Noah termina por colocar a vida de Ivy em perigo, fazendo com que verdades sejam revela- das e o caos tome conta da vila. (http://www.adorocinema.com/filmes/ tempos-modernos/) Direção: M. Night Shyamalan Gênero: Suspense elenco: Bryce Dallas Howard , Joaquin Phoenix , Adrien Brody , William Hurt, Sigourney Weaver. A sociologia de Karl Marx (1818 - 1883) Nascimento 5 de maio de 1818 Falecimento 14 de março de 1883 Londres, Inglaterra Nacionalidade Alemão Ocupação Economista, filósofo, historiador, teórico po- lítico e jornalista O interesse de Marx em estudar as “leis do movimento” capitalista como um sistema econômico pode ter advindo, como sugere Giddens (1998), do fracasso dos levantes ocorridos na Alemanha em 1848, contra a estrutura econômica e social tradicional Fonte: http://utilika.org/pubs/ etc/aa/talk/marx.jpg Figura 3 - Karl Marx FILOSOFIA44 reinante. Quando comparada aos países capitalistas avançados, a Alemanha apresentava um atraso em termos de desenvolvimento econômico e um baixo grau de liberalização política. Era governada pela aristocracia fundiária, sob o poder econômico dos Junker, a burguesia nascente não detinha nenhum poder. Mas, em face às correntes de mudança política que vinham ocorrendo na Europa desde a Revolução Francesa, os intelectuais da época acreditavam que estas mudanças não tardariam a atingir a Alemanha. Imbuído nessa esperança, Marx teria começado seus escritos como uma antecipação da revolução alemã. Ao pensá-la, considerando o atraso alemão na sua estrutura política e econômica, como sugere Giddens, Marx teria problematizado o papel do proletariado na his- tória. Devido a essa particularidade da Alemanha frente aos outros países, a emancipação só poderia ocorrer de forma radical, sendo fruto direto do proletariado: [...] uma classe que é a dissolução de todas as classes, uma esfera da sociedade que tem um caráter universal porque os seus males são univer- sais (GIDDENS apud MARX, 1998, p. 78). Mas parece que Marx não teria prestado atenção ao fato de que o proletariado, na Alemanha, ainda se encontrava em formação. Consciente disso, em 1847, como sugere Giddens (1998), ele teria reformulado, para este momento, o ator da história. Assim, a re- volução iminente na Alemanha seria uma revolução burguesa, logo seguida da revolução proletária. Mas a inoperância dessa burguesia em busca do poder e sua disposição para desperdiçar suas poucas forças em conflitos prematuros com o proletariado, já indicavam o desfecho desse contexto, isto é, o fracasso dos levantes de 1848. Esse fracasso serviu para minar o otimismo de Marx, dos peque- nos grupos socialistas e também dos liberais, que foram coagidos a aceitar medidas que apenas criavam a ilusão de democracia parla- mentar, continuando, assim, o poder tradicional.Esses eventos marcaram a vida de Marx e despertaram o seu inte- resse em entender e explicar a lógica desse novo sistema, o sistema capitalista que, na Alemanha, se instalou por meio de um processo totalmente diferente do ocorrido nos outros países europeus, como sinteticamente acabamos de mostrar. SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 45 Influências sobre o pensamento de Karl Marx Marx, para analisar o sistema capitalista rompeu com o pensa- mento dominante na época, particularmente com os economistas clássicos e os neo-hegelianos. Ele apresentou, efetivamente, a sua metodologia nas obras A Ideologia Alemã (1845-46) e Para a crítica da economia política (1859). Marx, segundo Giddens (1998), começou seu desenvolvimento in- telectual a partir da perspectiva da crítica da religião, derivada da radicalização de Hegel. É em A Ideologia Alemã que Marx de- senvolve essa crítica, travando um diálogo irônico com os neo- hegelianos, tratando com respeito apenas Feuerbach. Para Marx o problema central do idealismo hegeliano estava no do- mínio do pensamento sobre o mundo real, uma vez que para Hegel era o mundo das ideias, pensamentos e conceitos que produziam, determinavam e dominavam o mundo real dos homens. Essa visão era uma contraposição ao pensamento kantiano, que defendia o pressuposto de que o conhecimento se dá pela aparência do fenô- meno apreendido pelos dos órgãos do sentido. Os novos hegelianos, em especial, F. Strauss, Max Stirner, Bruno Bauer e Feuerbach perceberam esse problema, mas não consegui- ram superar o sistema hegeliano por acharem que bastaria criticar apenas um aspecto dessa filosofia, em vez de criticá-la em seu conjunto. Pautados nessa concepção, cada um deles tomou um as- pecto da realidade e o converteu numa ideia universal, passando a deduzir todo o real a partir desse aspecto idealizado. Esse exer- cício dar-se-ia pela substituição da consciência dominante, que continha os verdadeiros grilhões dos homens, por uma consciência nova revelada pelos filósofos. Feuerbach apresentava particularidades em relação a esse grupo. Ele teria “ido mais longe” na crítica ao sistema hegeliano. Sua filosofia assentava-se numa reversão ao idealismo de Hegel, a partir da elaboração de uma própria versão do materialismo. Para Feuerbach, “homem tinha que ser o homem real vivendo em um mundo material real” e não um Espírito Absoluto tratado por Hegel. A aplicação de sua teoria se deu na análise da religião, através da Os economistas clássicos representados principalmen- te por Adam Smith, David Ricardo, John Stuart Mill, entre outros, compuseram a primeira escola moderna de pensamento econômico, denominada de Economia Clássica. A obra A Riqueza das Nações de Adam Smith é geralmente aceita como o marco inaugural do pensa- mento econômico clássico. Seus conceitos giram em tor- no da noção básica de que os mercados tendem a encon- trar um equilíbrio econômico a longo prazo, ajustando-se a determinadas mudanças no cenário econômico (http:// pt.wikipedia.org/wiki/ Economia#Economia_cl.C3. A1ssica). FILOSOFIA46 demonstração de que o “divino era um produto ilusório do real, que Deus era uma projeção idealizada da humanidade”. Dessa forma, a “religião era uma ‘representação’ simbólica das aspirações do homem”, era, em última instância, uma alienação. Feuerbach, conclui que bastaria desmistificar a religião, colocando-a em um nível racional, para eliminar a autoalienação. Marx critica essa leitura, ao afirmar que Feuerbach pecou em fa- lar de um homem em abstrato, pois, para ele, o homem é um ser histórico que se faz diferentemente em condições históricas dife- rentes. Com essa visão, Marx elimina a noção de uma “essência humana”. Além disso, a alienação religiosa era apenas um efeito de outra anterior, segundo Marx, que é a alienação do trabalho, é esta alienação que está na base de todas as outras. Defende ainda que o principal não é interpretar o mundo, mas transformá-lo (XI Tese). A crítica aos economistas clássicos devia-se, sobretudo, ao fato destes aplicarem categorias relativas ao capitalismo em seus estu- dos sobre períodos anteriores e criticava também a adoção de re- presentações idealizadas sobre a realidade objetiva, como ponto de partida no processo de investigação. A população, por exemplo, não poderia funcionar como a referência inicial da investigação (sugerida pelos economistas clássicos), pois é “uma representação caótica do todo” e, se submetida a um processo de análise, produ- ziria conceitos e abstrações simplificados. Assim, Marx, como um intelectual da prática revolucionária, abo- mina a separação entre a produção das ideias e as condições sociais e históricas nas quais essas ideias são produzidas, e seria nesse movimento de separação que se constitui a ideologia, no sentido marxista, isto é, falseamento da realidade. A intenção prática ou de um projeto transformador perpassa todo o pensamento deste autor. Para ele, a produção de um conhecimento puro, no sentido de construção de categorias atemporais com validade universal, não passava de abstrações inexpressivas e vazias, o pensar neces- sariamente tem que estar relacionado historicamente. O termo ideologia foi criado por Destutt de Tracycom significando ciência das ideias. Posterior- mente, esta palavra ganharia um sentido pejorativo quando Napoleão chamou De Tracy e seus seguidores de “ideólogos” no sentido de “deformadores da realidade”. No entanto, os pen- sadores da antiguidade clássica e da Idade Média já entendiam ideologia como o conjunto de ideias e opiniões de uma sociedade. Karl Marx e Friedrich Engels na obra A Ideologia Alemã concebem a mesma como uma consciência falsa, proveniente da divisão entre o trabalho manual e o intelectual. Nessa divisão, surgiriam os ideólogos ou intelectuais que passariam a operar em favor da dominação ocorrida entre as classes sociais, por meio de idéias capazes de deformar a compreensão sobre o modo como se processam as relações de produção. Neste sentido, a ideologia (enquanto falsa consciência) geraria a inversão ou a camuflagem da realidade, para os ideais ou interesses da classe dominante (http://pt.wikipedia.org/wiki/ Ideologia). SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 47 Objeto de estudo Visando o pressuposto da transformação da realidade Marx define como objeto de estudo as estruturas sociais, enquanto as “relações de produção que estruturam classes sociais em conflito e distribuem desigualmente o poder na sociedade” (PRATES, 1991, p. 22). Para ele, a compreensão do processo histórico está condicionada à compreensão da estrutura das sociedades, das forças de produção e das relações de produção, e não adotando como ponto de partida as interpretações do modo de pensar dos homens. Tais relações são necessárias e independentes da vontade dos homens. São necessárias porque garantem a manutenção e a reprodução dos homens e, consequentemente, da própria sociedade. O conjunto dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base concreta sobre a qual se ergue a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas de consciências sociais determinadas. “O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual geral” (Prates, 1991, p.167). A análise da sociedade e principais conceitos marxistas Marx afirmou que toda sociedade é formada por dois níveis de es- truturas distintas: a base econômica, chamada de infraestrutura, e a superestrutura. A Infraestrutura é constituída essencialmente pelas forças e pelas relações de produção (pelo conjuntodo equipamento técnico e pela organização do trabalho utilizados no processo produtivo, bem como pela forma da distribuição dos meios de produção e do produto); A superestrutura é constituída pelas instituições jurídicas e políti- cas, como também pelos modos de pensar, pelas ideologias e filo- sofias, que vão expressar os interesses dos que dominam o sistema econômico, uma vez que, segundo Marx: [...] a estrutura social e o Estado resultam con- stantemente do processo vital de indivíduos deter- minados; mas não resultam daquilo que esses in- FILOSOFIA48 divíduos aparentam perante si mesmos ou perante outros e sim daquilo que são na realidade, isto é, como trabalham e produzem materialmente (QUIN- TANEIRO apud MARX, 2002, p. 36). Porque na produção da vida, os homens criam não só os produtos materiais, mas também as suas representações, ideias, sistemas legais, processos educacionais etc. Esta análise da sociedade centrada no funcionamento e desenvol- vimento do sistema econômico está pautada na Teoria Materialista da História, expressa no conceito de modo de produção, o qual variará conforme as formas e as relações de produção adotadas no decorrer da história, que moldaram o desenvolvimento da vida social, política e intelectual. Para Marx, o motor do movimento histórico é a contradição entre as forças de produção (conjunto dos conhecimentos científicos, dos equipamentos técnicos e da própria organização do trabalho) empregadas pelos homens em cada momento da história para a obtenção de bens necessários para a sobrevivência e as relações de produção (as relações de propriedade e a distribuição da renda) que expressam como os homens se organizam para produzir e consumir essa produção em cada momento da história. Ordenamento jurídico, ideologias, religião, crenças, cultura Estrutura econômica: relações de produção, relações de troca, meios de produção, unidades de produção Características sociais SUPERESTRUTURA INFRAESTRUTURA Materialidade A teoria marxista é considerada materialista por compreender os modos de produção (rela- ções de produção, processos produtivos, técnicas de produ- ção, relações de troca) como substrato material em que a história acontece, em que a história é construída. SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 49 A contradição que caracteriza a sociedade capitalista é dada pela constante evolução das forças produtivas, enquanto que as rela- ções de produção não se transformam no mesmo ritmo. Isso gera uma segunda contradição ou dialética, que é, por um lado, o au- mento cada vez maior de riqueza, e, por outro, o aumento da mi- séria, uma vez que a riqueza gerada fica concentrada nas mãos dos proprietários dos meios de produção e não é distribuída entre a burguesia e o proletariado, entre o capitalista e o trabalhador (ARON, 2000, p. 131). Assim, o caráter contraditório do capitalismo se manifesta no cres- cimento dos meios de produção, que em vez de elevar o nível de vida dos trabalhadores, leva a um duplo processo de proletarização e pauperização (ARON, 2000, p. 131). Essa contradição entre aumento de riqueza e aumento de pauperi- zação demarca a principal característica da sociedade capitalista que é o seu antagonismo interno. Esse antagonismo, por sua vez, vai se expressar no que ele denominou de luta de classes. Para Marx, uma classe social é um grupo que ocupa um lugar de- terminado no processo de produção. Embora Marx reconheça que existam grupos intermediários (camponeses, artesãos, profissionais liberais etc), enfatiza que, na sociedade capitalista, encontra-se um movimento de consolidação das relações sociais em apenas (e somente) duas classes: a que possui a propriedade dos meios de produção e da organização do trabalho, denominada por ele capi- talista ou burguesia; e aquela que é desprovida dos meios de pro- dução, restando-lhe apenas a sua força de trabalho, o proletariado ou assalariado. Essas duas classes, segundo Marx, tenderão atrair para seu polo os outros grupos que compõem a sociedade. A luta de classes trabalhada por Marx na obra Manifesto Comunista (1848) é o fato mais importante da sociedade moderna, sendo as classes os principais atores do drama histórico, na medida em que o conflito existente entre elas relaciona-se diretamente com a possibilidade da mudança social e, consequentemente, com a superação das contradições existente. Esta mudança será desencadeada pela classe que se encontra em desvantagem, isto é, o proletariado. Mas, para que uma classe exista é preciso que FILOSOFIA50 haja uma tomada de consciência da sua unidade e sentimento de separação da outra classe social, haja vista que são, por princípio antagônicas, com interesses divergentes. Em termos conceituais é preciso que a classe em si (membros de uma sociedade que compartilham determinadas condições objetivas ou a mesma posição no processo produtivo) se consolide enquanto uma classe para si (classe organizada politicamente para defender conscientemente seus interesses). Essa tomada de consciência, denominada por Marx de consciência de classe, é um desdobramento da realidade social vivida, uma vez que é a realidade social que determina a consciência dos ho- mens e não o contrário (oposição ao idealismo hegeliano). É essa consciência de classe que leva à formação de associações políticas, tais como sindicatos e partidos, que objetivam a união solidária entre seus membros, visando defender seus interesses (QUINTANEI- RO, 2007, p. 44), e no caso do proletariado, visando, sobretudo, combater seus exploradores. Cabe ressaltar que a burguesia já as- sumira essa posição de desencadeadora da transformação (sistema feudal para o capitalista). Dessa forma, a sociologia de Marx é uma análise dialética das rela- ções entre as forças produtivas materiais, os modos de produção, os quadros sociais e a consciência dos homens, logo é uma análise pautada na determinação do todo social, na qual o ator principal é um ator coletivo, a classe. Portanto, a concepção do capitalismo e da história feita por Marx está associada à combinação dos conceitos de forças de produção, relações de produção, luta de classes, consciência de classes, in- fraestrutura e superestrutura. E assim, Marx esboça as etapas da história humana a partir dos regimes econômicos, em seu termo a partir do modo de produção (do tipo de relações estabelecidas entre os homens que trabalham), as quais seriam quatro, sendo as três primeiras as que se sucederam na história ocidental: a antiga caracterizada pela relação de escravidão, a feudal pela servidão e a burguesa pelo assalariamento. Sendo esta o último modo de produção, que se constituiu a partir da subordinação dos trabalhadores por um grupo SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 51 detentor da propriedade dos meios de produção e do poder político, que, seguindo a lei do desenvolvimento histórico será sucedido, por sua vez, pelo modo de produção socialista. Karl Marx: produção e reprodução da vida material Para Marx, a essência do capitalismo é, antes de tudo, a busca pelo lucro, ideia que ele desenvolverá na sua obra principal denominada O Capital. Mas, qual a origem do lucro? Marx acreditava que a fonte do lucro estava no processo de pro- dução e de troca (circulação) de mercadoria, entendida como a unidade analítica mais simples e expressão mais elementar da ri- queza da sociedade capitalista. Explica, também, como produto- res e comerciantes lucram a partir da teoria do valor e da teoria da mais-valia. Processo de construção do lucro Para Marx o lucro se concretiza na circulação da mercadoria que é,na sua definição: [...] um objeto externo, uma coisa que, por suas propriedades, satisfaz necessidades humanas, seja qual for a natureza, a origem delas, provenham do estômago ou da fantasia. Não importa a maneira como a coisa satisfaz a necessidade humana, se diretamente, como meio de subsistência, objeto de consumo, ou indiretamente, como meio de produção (MARX, 1998, p. 57). A mercadoria carrega consigo um duplo valor relacionado à quali- dade e quantidade do bem. Esses valores são denominados de valor de uso e valor de troca. O valor de uso é referente às características intrínsecas do bem, relativas à sua utilidade (o que desperta a demanda por ela). Assim, o valor de uso de uma mercadoria é importante para que ela seja procurada no mercado, para que ela seja desejada, porém esse valor é difícil de ser quantificável e varia conforme as pessoas, já que os interesses e gostos são individuais. O Capital é um conjunto de li- vros (sendo o primeiro de1867, o único publicado por Karl Marx, os livros II e III foram publicados postumamente por Engels a partir dos manuscri- tos não terminados por Marx) que visa criticar o capitalismo desvelando-o. Muitos con- sideram essa obra o marco do pensamento socialista marxista. Nesta obra existem muitos conceitos econômicos complexos, como mais valia, capital constante e capital variável, uma análise sobre o salário; sobre a acumulação primitiva, resumindo, sobre todos os aspectos do modo de produção capitalista, incluindo uma crítica exemplar sobre a teoria do valor-trabalho de Adam Smith e de outros assun- tos dos economistas clássicos (http://pt.wikipedia.org/ wiki/O_Capital). FILOSOFIA52 O valor de troca é relativo à quantidade do bem. É o que deter- mina quanto (quantitativamente) de uma mercadoria X (com sua qualidade específica) será trocada por uma mercadoria Y (que tem outra qualidade, isto é, que tem outro valor de uso). O valor de troca é o ponto de equivalência entre as mercadorias e esse valor se expressa no preço. Marx vai dizer que esse ponto de interseção entre as mercadorias expresso no seu valor de troca, ou seja, no preço, reside objeti- vamente na quantidade média de trabalho humano despendido para a sua produção. Isto é, trabalho que está inserido, integrado, cristalizado no produto. Assim, a quantidade de trabalho é o único elemento quantificável descoberto na mercadoria para se comparar, por exemplo, o uso de uma caneta com o de uma bicicleta. Trata-se de dois usos estrita- mente subjetivos e, sob esse aspecto, não podem ser comparáveis um com o outro. Portanto, o único valor quantificável é a quantida- de do trabalho que foi empregado na produção de cada uma delas. Mas como medir a grandeza do valor do trabalho humano? Segundo Marx, pelo tempo de sua duração, por frações do tempo, como hora, dia etc. Problema... vamos pensar um pouco? Se o valor de uma mercadoria é determinado pela quantidade de tempo de trabalho gasto durante sua produção, quanto mais pre- guiçoso e inábil for um ser humano, maior será o valor da merca- doria produzida por ele? Não, porque o trabalho que constitui a substância dos valores é o trabalho humano homogêneo, dispêndio de idêntica força de traba- lho. Portanto, é o tempo de trabalho socialmente necessário para produzir-se um valor de uso qualquer, nas condições de produção socialmente normais existentes e com o grau social médio de des- treza e intensidade do trabalho. SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 53 Exemplificando Marx, para exemplificar na prática, recorreu à introdução do tear a vapor na Inglaterra: Na Inglaterra, após a introdução do tear a vapor, o tempo empregado para transformar determinada quantidade de fio em tecido diminuiu aproximadamente a metade. O tecelão inglês que então utilizasse o tear manual continuaria gastando, nessa transformação, o mesmo tempo que despendia antes, mas o produto de sua hora individual de trabalho só representaria meia hora de trabalho social, ficando o valor anterior de seu produto reduzido à metade (MARX, 1998, p. 61). Portanto, o tempo de trabalho requerido na produção de uma mer- cadoria muda com qualquer variação na produtividade do trabalho (grau de desenvolvimento científico e tecnológico, organização so- cial do processo de produção, volume e eficácia dos meios de pro- dução, as condições naturais e destreza média dos trabalhadores). E o valor do trabalho, como é medido? Ele pode ser medido como o valor de qualquer mercadoria, uma vez que a força de trabalho é uma mercadoria como outra qual- quer, embora ela apresente uma particularidade: ser paga pelo seu valor e ao mesmo tempo produzir mais que o seu valor. O salário pago pelo capitalista ao trabalhador assalariado, como contrapartida da força de trabalho que este lhe vende, equivale à quantidade de trabalho social necessário para produzir merca- dorias indispensáveis à reprodução da vida do trabalhador e de sua família. Observem, não se trata exatamente da quantidade de tempo de trabalho necessário para produzir um trabalhador, mas é a quantidade de tempo de trabalho necessário para produzir o valor das mercadorias que o operário e sua família necessitam para sobreviver (ARON, 1999, p. 141). O tempo de trabalho necessário para o operário produzir um valor igual ao que recebe sob forma de salário é inferior à duração efetiva do seu trabalho. O operário produz, por exemplo, em quatro horas um valor igual ao que está contido no seu salário, mas FILOSOFIA54 na verdade ele trabalha oito horas (jornada de trabalho brasileira por dia). Essas quatro horas restantes o trabalhador produz para o seu patrão. Assim, o assalariado trabalha metade do tempo para si mesmo e a outra metade para o dono da empresa. A jornada de trabalho é dividida em duas, uma parte é destinada para produzir o valor cristalizado no salário, chamada de trabalho necessário, e a outra é chamada de sobretrabalho. Essa diferença de tempo que sobra, isto é, o valor produzido durante o sobretra- balho chama-se, segundo Marx, mais-valia. Assim, a mais-valia é a quantidade de valor produzido pelo tra- balhador além do tempo de trabalho necessário para produzir um valor igual ao que recebe sob forma de salário. A taxa de exploração do trabalhador pelo patrão é definida pela relação entre mais-valia e o capital variável, isto é, o capital que corresponde ao pagamento do salário. Quanto maior for a taxa de mais-valia, maior será a taxa de exploração. Assim, a mais-valia que se opera à custa dos assalariados é fruto da exploração destes, e é a fonte de lucro do capitalista. Sendo que este lucro se mate- rializará na circulação da mercadoria. Para Marx existem dois tipos de troca: Um que vai da mercadoria para mercadoria, passando ou não pelo dinheiro. É a troca imediatamente humana, mas que não gera lu- cro ou excedente, uma vez que trocamos um bem que não tem utilidade para nós por outro que precisamos para satisfazer algu- ma necessidade. M-D-M (Mercadoria- Dinheiro- Mercadoria) (MARX, 1998, p. 133). Nesse caso, a venda da mercadoria é para o produtor adquirir em seguida outra mercadoria que necessita, não há sobra na troca. Nas palavras de Marx (1998, p.180): O circuito M-D-M tem por ponto de partida uma mercadoria e por ponto final outra mercadoria que sai da circulação e entra na esfera do consumo. Seu objetivo final, portanto, é o consumo, satisfação de necessidades, em uma palavra valor-de-uso. Contudo, há um segundo tipo de troca, que vai do dinheiro ao dinheiro, passando pela mercadoria, sendo que no final da troca SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 55 haverá umaquantidade superior de dinheiro do que a empregada no início. É essa troca que caracteriza o capitalismo. D-M-D (Dinheiro-Mercadoria-Dinheiro) (MARX, 1998, p. 181). Nesse caso, a um excedente de dinheiro. Nas palavras de Marx: [...] a forma completa desse processo é, D-M-D’, em que D’= D + ∆D, isto é, igual a soma de dinheiro originalmente adiantada mais um acréscimo. A esse acréscimo ou o excedente sobre o valor primitivo chamo de mais-valia (1998, p. 181). Assim, no capitalismo, o empresário não passa uma mercadoria que é inútil para ele para outra que lhe é útil, mas um investimento de capital inicial para um acréscimo de capital no final do processo. Portanto, a essência da troca capitalista consiste em passar do di- nheiro ao dinheiro, passando pela mercadoria. Dessa forma, Marx expõe a origem do lucro e o modo como um sistema econômico em que tudo se troca de acordo com seu valor, pode, ao mesmo tempo, produzir lucro para os empresários (ARON, 1999, 142), isto é, a teoria da mais-valia. A lei brasileira do salário mínimo pode ser entendida en- quanto uma aplicação da proposição de Marx para a teoria do valor do trabalho? Uma das características do Brasil é a persistência de eleva- dos níveis de desigualdade social ao longo de sua história recente. Essa desigualdade manifesta-se de várias formas e estrutura boa parte das relações sociais da população bra- sileira (ENADE 2008). Discuta essa afirmação recorrendo à teoria marxista. Explique porque Marx afirmava que “é a base econômica que determina tanto a forma jurídica quanto política e ide- ológica da sociedade”. 1 2 3 FILOSOFIA56 Karl Marx considerava o capitalismo apenas como um sis- tema econômico, sem considerar seus efeitos sobre fenô- menos tais como ciência, tecnologia, ideologia, política? (Questão baseada na prova do ENADE 2008). qUASE DOIS IRMÃOS (2005) SinopSe: o filme narra a história de vida de dois personagens que constantemente se cruzam. Miguel, filho de médico, frequentava o morro por causa da amizade de seu pai com sambistas, como o pai de Jorge. Quando crianças brincavam juntos embalados ao som do único elemento do filme que propicia uma possível conciliação de classe: o samba. Miguel e Jorge cresceram e cada um seguiu seu rumo, até se reencontrarem duas vezes na cadeia, primeiro como companheiros de cela e, depois, um de cada lado das grades: Jorge, prisioneiro e traficante, e Miguel, livre e já deputado. Direção: Lúcia Murat Gênero: Drama elenco: Werner Shünemann (Miguel), Antônio Pompeo (Jorginho), Maria Flor (Juliana), Fernando Alves Pinto (Peninha), Babu Santana (Pingão), Luís Melodia, Flávio Bauraqui (Jorginho - anos 70), Jefchander Lucas, Caco Ciocler (Miguel - anos 70), Renato de Souza (Deley), Marieta Severo (Helena), Seu Jorge. 4 SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 57 Fonte: http://filipspagnoli. files.wordpress.com/2009/11/ max-weber.jpg Enfoque individualista A sociologia de Max Weber (1864-1920) Nascimento 21 de abril de 1864 em Erfurt, Turíngia Falecimento 14 de junho de 1920 Munique Nacionalidade Alemão Ocupação Economista, sociólogo e filósofo Max Weber, intelectual alemão de formação jurídica e econômica, teve seu pensamento marcado, sobretudo, por uma tensão entre a herança materna (religiosidade protestante e dedicação ao mundo da ciência) e a paterna (busca de poder e uma vida de negócios públicos) (SCAFF, 1996, p. 34). A política sempre esteve presente na vida de Weber. Filho de um proeminente membro do Partido Nacional-Liberal dedicou seus primeiros estudos acadêmicos à propriedade da terra na Roma antiga. Investigando as tensões que se desenvolveram entre a economia agrária das grandes propriedades fundiárias e o comércio e a manufatura emergente, acabou encontrando insights para alguns problemas da Alemanha contemporânea, isto é, a sua transição para o capitalismo industrial dentro de uma ordem social e política autocrática semifeudal, fundada no poder dos latifundiários Junker, numa burocracia de função civil com um corpo de funcionários que contrastava com as constituições mais liberais (GIDDENS, 1998, p. 30 – 33). Para Weber, segundo Giddens (1998, p. 32), os Junkers eram uma classe em decadência, que não poderia continuar monopolizando a política alemã. Mas, por outro lado, não existia uma classe com maturidade política para guiar os destinos de um Estado moder- no. Nem a classe trabalhadora nem a burguesia tinham capacidade para assumir a liderança na Alemanha. A primeira em virtude de ser Figura 4 - Max Weber FILOSOFIA58 conduzida por um grupo (jornalistas) que não tinha vínculo orgâni- co com os seus representados; e a segunda, pelo seu passado apo- lítico, era um grupo passivo. Apesar disso, caberia a esta burguesia economicamente próspera, a tarefa de desenvolver uma consciên- cia política adequada para assumir a liderança da nação no futuro. Weber teria se dedicado a estimular a construção dessa consciência política liberal. Esse teria sido um dos motivos subjacente A ética protestante e o espírito do capitalismo (1904-1905), ensaio no qual procura identificar as fontes históricas desse tipo de “consciência burguesa” e do próprio capitalismo moderno. Seus outros trabalhos sobre epistemologia e metodologia, por exemplo, também refle- tem problemas políticos e/ou pessoais que o afligiam. Max Weber ficou marcado na sociologia por ser considerado precur- sor do estudo da Ação Social ou da Compreensão, ou seja, o sentido e o significado que os indivíduos dão às suas ações em sociedade. A sociologia weberiana é também conhecida como teoria da ação social, e tem como base a formação de tipos ideais: conceitos e exemplos imaginários. O corpo teórico-metodológico de Weber Para Weber, as ciências humanas são animadas e orientadas por questões que os cientistas dirigem à realidade. O interesse das respostas depende amplamente do interesse das questões. Neste sentido, “[...] não é mau que os sociólogos que estudam a política se interessem pela política, e que os sociólogos da religião tenham interesse pela religião” (WEBER apud ARON, 2000, p. 456). Essa sua posição sobre a “ciência” é bastante ilustrativa. Ele acreditava, segundo Scaff (1996, p. 39-40), que a ciência experimental ocidental moderna era historicamente e culturalmente determinada e assim como toda atividade humana é um produto de uma concatenação específica de circunstâncias, não sendo, portanto, só uma busca enraizada na natureza das coisas. Mas, mesmo assim, ainda é a ciência o melhor meio para se buscar a “verdade” sobre nós mesmos, nossa história e o nosso possível futuro, porque seu produto é válido na medida em que é formulado SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 59 por meio de métodos críticos, autocorretivos e padrões racionais de questionamentos, sem, contudo, perder de vista que este é provisório por estar condicionado por valores culturais, interesses pessoais e desenvolvimentos históricos. Essa concepção de ciência como um “devenir da ciência”, isto é, o desprezo às proposições relativas ao sentido último das coisas, tendendo a um objetivo situado no infinito e renovando sem cessar as indagações dirigidas à natureza (ARON, 2000), elaborada por Weber, retrata uma mudança de foco, no qual a ciência deixa de ser pautada numa busca ontológica das coisas, para assumir um caráter epistemológico. A nova concepção de ciência tanto serve para as ciências da natu- reza como, e principalmente, para as ciências humanas ou sociais. Para Weber, a relação entre os dois tipos de ciência, tão debatida no mundo acadêmico, não se pautava nas questões alegadaspelo positivismo de Comte, no qual as ciências sociais seriam simples aplicação das pressuposições e métodos das ciências naturais ao estudo dos seres humanos (GIDDENS ,1994), e que, portanto, não havia diferença. Nem tampouco, adota a visão de seus contempo- râneos Rickert e Windelband, para os quais as ciências naturais e culturais seriam de ordens completamente diferentes. Para estes, os métodos das ciências naturais – que privilegiariam os caracteres gerais dos fenômenos e o estabelecimento de relações regulares ou necessárias entre eles, visando a uma construção de um sistema de leis ou de relações cada vez mais gerais – , não seriam aplicáveis ao estudo do universo das ações humanas, cabendo a este recorrer a processos inexatos e intuitivos (ARON,2000; GIDDENS ,1994). Dessa forma, para estes dois filósofos, segundo Cuin;Gresle (1994, p. 76), “as ciências se distinguem umas das outras não por seu conteúdo, e sim pelo tratamento que dão a seu objeto”. Weber reconhece que há uma diferenciação entre os dois campos científicos e que esta se centra na particularidade do objeto de conhecimento das ciências sociais, que é a ação social. Porém, esse fato não relega a objetividade nas ciências sociais, nem obriga a substituição de uma análise causal por uma intuitiva, como solicitava Rickert. Segundo o positivismo de Comte “as ciências se ordena- riam segundo uma hierarquia empírica lógica, na qual cada ciência dependeria da emer- gência histórica prévia da que é imediatamente inferior na hierarquia” (GIDDENS, 1994, p. 191). Heinrich Rickert e Wilhelm Win- delband foram uns dos maiores representantes da Escola Neokantiana de Baden. Eles defendiam que tanto as ciências naturais, quanto as culturais e a história poderiam ter seus fundamentos conceituais anali- sados criticamente. Windelband considerou que há dois tipos de ciências: as nomotéticas que se preocupam em estabelecer leis universais e as ideográficas que visam descrever os fatos his- tóricos e singulares, incluindo o estudo dos indivíduos Cuin e Gresle (1994). FILOSOFIA60 Weber acredita que a intuição nas ciências sociais ocupa o mesmo lugar que nas ciências naturais e que as proposições das primeiras são de fato proposições que não pretendem atingir verdades essen- ciais, mas, nem por isso, deixam de tratar de fatos observáveis, visando atingir uma realidade definida, isto é, a conduta humana, na significação que os próprios atores lhe dão. Embora Weber enfatize a interpretação compreensiva do sentido subjetivo da ação humana, como o objetivo das ciências sociais, especificamente da sociologia, ele reconhece a importância e a necessidade de uma explicação causal. Para ele, “[...] a análise das determinações causais é um dos procedimentos que garantem a validade universal dos resultados científicos” (WEBER apud Aron, 2000, p. 458). Em se tratando de ciências sociais, Weber determina como regra da metodologia causal a construção da individualidade histórica do fenômeno, ao qual o cientista pretende determinar as causas. Em seguida, o cientista deve, a partir de uma abstração, construir uma experiência mental, na qual ele questiona: o que teria acontecido se um dos elementos co-determinantes do acontecimento real não tivesse presente ou se sofresse uma modificação numa determi- nada direção, o curso dos acontecimentos, obedecendo a regras empíricas gerais, ter-se-ia orientado de maneira diferente? Foi com esse procedimento que Weber construiu sua análise do sur- gimento do capitalismo moderno. Sua questão era saber por que o capitalismo – produção para o mercado, separação da empresa do local de moradia, a organização racional da mão-de-obra formal- mente livre, meios técnicos de contabilidade, cálculo racional de lucros para reinvestimento – só surgiu no Ocidente. Em busca de uma resposta para essa questão, Weber estabeleceu uma relação entre economia e religião, na sua obra A Ética Protes- tante e o Espírito do Capitalismo. Nesta obra, Weber sugeriu que o moderno capitalismo ocidental foi possível em virtude da: [...] capacidade e disposição dos homens em adotar certos tipos de conduta racional. Onde elas foram obstruídas por obstáculos espirituais, o desenvolvi- mento de uma conduta econômica também tem SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 61 encontrado uma séria resistência interna. Porque outros tipos de (...) racionalizações têm existido em todas as culturas, nos mais diversos setores e de tipos mais diferentes (WEBER, 1994, p. 11). Sugere ainda que essa conduta racional teria sido despertada por uma ascese religiosa, característica das seitas protestantes, espe- cialmente do Calvinismo, tendo em vista que a sua doutrina da pre- destinação, dá-se “[...] por decreto de Deus, para manifestação de sua glória, alguns homens e anjos são predestinados à vida eterna e outros são predestinados à morte eterna” (WEBER, 1994, p. 69). Assim, estava eliminada qualquer possibilidade de salvação por meios mágicos como superstição ou pecado, criando nos homens uma necessidade de intensificação da atividade profissional (enten- dida como vocação), na medida em que somente o sucesso econômi- co, advindo do trabalho honesto, poderia indicar a escolha de Deus. Teria sido, portanto, essa ética religiosa voltada para o trabalho e o autocontrole, orientada para o agir aqui e agora, presente nos dogmas protestantes, uma das razões para a emergência e sucesso do capitalismo no ocidente. Weber deixa evidente essa conclusão quando fala que “[...] à medida que se foi estendendo a influência da concepção de vida puritana [...] ela favoreceu o desenvolvimento de uma vida econômica racional e burguesa” Webber (1994, p. 125). Embora tenha sido a chamada consequência não pretendida da ação, Brubaker (1991) afirma que, para Weber, o desenvolvimento do moderno capitalismo pressupôs, por um lado uma racionaliza- ção “externa” do meio ambiente, racionalização esta marcada por avanços tecnológicos, pela administração burocrática, pelo aparato legal (Direito); por outro, uma racionalização interna e uma racio- nalização da personalidade, que promoveram uma transformação nas atitudes tradicionalistas em relação ao trabalho, as quais eram o maior obstáculo interno ao desenvolvimento do capitalismo mo- derno. Tendo-se em mente que o trabalho era visto pelo catolicismo como um castigo de Deus “... comei o pão com o suor do teu rosto”. Assim, a racionalização no âmbito da ciência, tecnologia, direito e administração criou um ambiente externo calculável; a racionalização no âmbito da religião, chamada de secularização FILOSOFIA62 ou desencantamento do mundo e da ética criou uma reorientação interna, disciplinando o indivíduo e centrando-o no trabalho. Com a reunião dessas racionalizações, estavam dadas as pré-condições indispensáveis para o desenvolvimento do moderno capitalismo, que, para Weber, tem como característica a racionalização em todas as esferas da vida social. Desse modo, Weber concluiu que há uma “afinidade eletiva” entre certas crenças calvinistas e a ética econômica da atividade capi- talista moderna. E, com essa conclusão, Weber mostrou que não há uma determinação unilateral do conjunto da sociedade por um elemento, seja ele econômico, como defendia Marx, político ou religioso. A relação causal estabelecida dessa forma é parcial e não global, pois comporta um caráter de probabilidade, e não de determinação necessária. Essa noção da relação causa/efeito expressa a importância que Weber atribui à singularidade dos fenômenos estudados, sem per- der o seu interesse por proposições de carátergeral: As ciências da realidade humana só são ciências na medida em que são capazes de formular proposições gerais, mesmo quando buscam compreender o singular (WEBER apud ARON, 2000, p. 464). Para atingir formulações gerais, Weber concebeu aquilo que se tor- nou o centro da sua doutrina epistemológica, isto é, o conceito de tipo ideal. Tipo ideal é um instrumento criado por Weber para facilitar a com- preensão de questões empíricas, tendo em vista que os conceitos empregados pelas ciências sociais não podem ser diretamente de- rivados da realidade, uma vez que esta é confusa e obscura. Assim, cabe aos sociólogos a tarefa de: [...] tornar inteligível até o limite o que não o foi, de fazer aparecer o sentido daquilo que foi vivido sem que o sentido tenha sido consciente aos que o viveram (WEBER apud ARON, 2000, p. 465). Para tal é necessário fazer uma abstração e combinação de um nú- mero indefinido de elementos que, embora extraídos da realidade, dificilmente serão encontrados sob essa forma específica. SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 63 Por isso, o tipo ideal não é uma descrição da realidade que se dá por meio de uma síntese abstrata de traços comuns a numerosos fenômenos concretos, nem uma hipótese é um tipo puro num sen- tido lógico, sem ser um exemplar da realidade. O tipo ideal como um instrumento utilizado para facilitar a compreensão da realidade foi exemplarmente empregado em A Ética Protestante, quando Weber seleciona, dos escritos de vários autores históricos, características da ética calvinista que foram importantes na constituição do espírito do capitalismo. A noção de tipo ideal expressa a tendência da sociedade capitalista moderna para a racionalização. Segundo Weber, a principal carac- terística da vida moderna é o processo crescente de racionalização em todas as suas esferas, mas este seria, também, o seu grande problema. A radicalização da racionalidade (chamada por Weber de racionali- dade formal), por meio, principalmente da burocracia, seria algo quase que inevitável e seria esse movimento o acontecimento de desarticulação da ordem social moderna. Racionalização e burocratização À proporção que a burocracia racional se expande, a democracia consolida-se. Esta afirmação sintetiza o que Weber prevê como im- portância da burocratização das instituições sociais. Mas por que burocracia seria sinônimo de democratização? Vejamos. Segundo Weber o quadro administrativo das sociedades racionais (baseadas na dominação legal ou racional) é constituído de um cor- po qualificado de profissionais que adentram nas organizações a partir da aprovação em provas de capacidades e mérito. Desta ma- neira, o quadro burocrático racional corresponderia a um corpo de funcionários qualificados pelo mérito. Isso quer dizer que em uma sociedade racionalizada, os quadros de funcionários seriam forma- dos pelos indivíduos mais competentes, pois os critérios de escolha seriam regidos por uma meritocracia legal. Fonte: http://www.guardianboat. com.br/5feira/burocracia.jpg Figura 5 FILOSOFIA64 Um exemplo bem claro deste processo de racionalização na so- ciedade brasileira atual são os frequentes processos de concurso público para adentrar na carreira em instituições estatais. Características do quadro profissional da burocracia racional Burocracia é um mecanismo desenvolvido pela sociedade moderna para o controle e coordenação das atividades humanas nas organizações. Devido à diversidade de organizações que existe no mundo moderno, Weber identificou e classificou os traços gerais que caracterizam um tipo ideal de estrutura burocrática. Assim, as características burocráticas essenciais são: 1- Posições ou cargos cuidadosamente definidos, isto é, todos os cargos, em princípio, existem independentemente dos titulares, os papéis burocráticos são estabelecidos formalmente e podem ser exercidos por quem quer que possua as qualificações apropriadas; 2 - Uma nítida hierarquia de autoridade, isto é, as tarefas na organização são distribuídas como deveres oficiais, com limites nítidos de autoridade e responsabilidade. Uma burocracia parece-se com uma pirâmide, residindo a mais alta autoridade no topo, existindo, ainda, uma cadeia de comando que se estende do topo à base e torna possível a coordenação da tomada de decisões. Cada funcionário de nível mais alto controla e supervisiona o seu subordinado imediato; 3 – A seleção do pessoal é pautada nas qualificações técnicas ou profissionais, isto é, os cargos burocráticos são ocupados, em princípio, por pessoas que demonstram competência para cumprir as obrigações requeridas. Isso contrasta com organizações não burocráticas, nas quais alguns status podem ser ocupados com base em relações O termo burocracia foi utiliza- do pela primeira vez por Gour- nay em 1745, a partir da junção do prefixo “bureau” (que em francês significa escritório bem como a mesa de trabalho ou secretária) com a palavra “cra- cia” derivada do verbo grego governar. A princípio o termo burocracia significava o poder dos funcionários do governo, mas o seu uso foi generalizado gradualmente para as grandes organizações em geral (GID- DENS, 2002, p.350). SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 65 tradicionais ou pessoais, tais como: parentes, amigos etc. Assim, os métodos de seleção numa burocracia são fundamentais, sendo os exames formais uma maneira de garantir um processo impessoal e sistemático de testar os candidatos e têm sido empregados rotineiramente; 4 - As regras e regulamentos que governam as ações e condutas dos funcionários a todos os níveis são escritas oficialmente, isto é, há um corpo de regras explícitas habitualmente codificadas que governa as ações oficiais dos ocupantes dos cargos. Essas definições, muitas vezes, causam reclamações pela sua inflexibilidade, porém, sem elas haveria confusão e ineficiência nas organizações. Por outro lado, essas regras também servem para possibilitar aos funcionários que trabalham juntos certa convivência harmoniosa, independente dos sentimentos pessoais, além de proteger os funcionários subordinados das possíveis ações arbitrárias de seu superior; e 5 – Há uma estabilidade, possibilidade de carreira por promoção na hierarquia e recebimento de remuneração salarial, isto é, para exercerem com competência e imparcialidade suas funções, os funcionários burocráticos gozam, frequentemente, de estabilidade que serve para protegê-los de pressões externas e internas. As promoções estimulam a eficiência e o tempo de serviço na organização. Assim, para Weber quanto mais as organizações se aproximem desse tipo ideal de burocracia, mais eficiente será em atingir os objetivos para os quais foram criadas (CHINOY, 2009, p. 343-346). Apesar dos pontos positivos da burocracia, a radicalização da racio- nalidade, como nos fala Brubaker, levaria a uma constante erosão das restrições costumeiras, religiosas e éticas ao comportamento, que passaria a ser regulado por normas abstratas e gerais pautadas na lógica da ação econômica que não olha em direção às pesso- FILOSOFIA66 as somente em direção à mercadoria, eliminando, assim, as rela- ções humanas espontâneas que são sustentadas por ações pessoais, guiadas pela racionalidade substantiva que será desenvolvida por Georg Simmel (1991, p. 37-38). Esse processo de racionalização e consequente burocratização ra- cional seria o inverso ao que existe no Brasil, consolidado como “jeitinho brasileiro” e corrupção. Conceitos trabalhados por Max Weber A teoria da ação trabalhada por Weber em sua obra Economia e Sociedade, está associada,segundo Aron (2000, p. 468), à sua frus- tração política, cuja aspiração não satisfeita pela ação é uma das molas para o esforço científico. Nesta obra, Weber, segundo Giddens (1994, p. 205), dedica-se às uniformidades da organização econômica e social, dedicando-se, assim, à sociologia propriamente dita. Para este, a sociologia é a ciência que se interessa pela formulação de princípios gerais e conceitos de tipo genérico, relacionados com a ação humana. Esta, por sua vez, deve ser interpretada, compreendida pelo cientista, sendo este o objetivo da sociologia. Nas palavras de Weber, a so- ciologia é “uma ciência que pretende compreender interpretativa- mente a ação social e assim explicá-la casualmente em seu curso e seus efeitos” (WEBER, 2004, p.3). A ação ou conduta social, perseguida pelo cientista, é aquela que, segundo Weber (1991, p.13-14): [...] orienta-se pelo comportamento de outros, seja este passado, presente ou esperado como futuro. Os outros podem ser indivíduos e conhecidos ou uma multiplicidade indeterminada de pessoas completa- mente desconhecidas. [...] Nem todo tipo de contato entre pessoas tem caráter social, senão apenas um comportamento que, quando ao sentido, se orienta pelo comportamento de outra pessoa. Um choque entre dois ciclistas, por exemplo, é um simples acon- tecimento do mesmo caráter de um fenômeno natu- ral. Ao contrário, já constituiriam “ações sociais” as tentativas de desvio de ambos e o xingamento ou a pancadaria ou a discussão pacífica após o choque. Na obra Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda (1995) escrita em 1936, o autor discutiu temáticas historiográ- ficas, psicossociais e socioló- gicas da formação da cultura brasileira. A grande construção teórica deste livro é o conceito de homem cordial. O Homem Cordial é apresentado como um híbrido entre o tipo ideal carismático e tradicional, ou seja, as relações socioculturais são perpassadas pelas tradições familiares e/ou religiosas, e ainda pela capacidade de caris- ma – estimar as pessoas, “ser gente boa”- que os indivíduos conseguem em sociedade. En- quanto no tipo racional, o que prevalece é a impessoalidade e o princípio da igualdade. SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 67 Assim, a ação social implica um significado subjetivo que se refere ao outro indivíduo ou grupo. Esta ação se constitui a trama da vida social, na medida em que o significado atribuído à ação é subjeti- vo, mas é, ao mesmo tempo, intersubjetivo, pois ninguém pode dar um sentido à sua própria ação sem levar em consideração a respos- ta de seus parceiros, que por sua vez deve apresentar um caráter de previsibilidade (BOUDON; BOURRICAUD, 2000, p. 615). É importante destacar que este autor faz uma inversão epistemo- lógica do ponto de partida da análise sociológica, proposta por Durkheim, ou seja, Max Weber parte da compreensão da ação so- cial a partir do indivíduo. Vejamos o esquema abaixo: OBS: Compreensão Ação Sentido ORIENTADO EM RELAçÃO AOS OUTROS O esquema acima mostra um conjunto de indivíduos correndo em certo sentido; estes poderiam estar participando de uma marato- na, de um arrastão, de uma procissão religiosa, ou de um treina- mento do exército. Por que uma maratona poderia ser uma ação social? É uma ação social, pois os indivíduos estão agindo orienta- dos para o sentido de ganhar, ou pelo menos, concluí-la até a linha de chegada. A maratona é um evento esportivo determinado por al- gum comitê organizador (grupo de indivíduos ou instituição). Deste modo, a ação dos indivíduos, acima, não é aleatória ou instintiva, há um sentido claro e calculado, fato que definirá esta como ação racional voltada a um fim determinado. A ação está orientada e delimitada pela ação de outros indivíduos, outros competidores e regras estabelecidas pela instituição organizadora. FILOSOFIA68 Agora podemos falar nos critérios de avaliação de uma ação social, ou seja, será que toda ação humana é social? Algo para ser definido como ação social deve ter as seguintes características: 1) deve ser orientado ou delimitado por outros indivíduos ou grupos; 2) a motivação e a ação atingem outros indivíduos. Vejamos os exemplos: • Um indivíduo lança uma pedra em uma árvore no seu quintal – neste exemplo o indivíduo age sem atingir outro indivíduo ou instituição, portanto, não há uma relação social derivada deste comportamento; • Um indivíduo lança uma pedra em uma árvore no seu quintal e a pedra acerta o vidro da casa do vizinho – neste exemplo a ação inicia sem ser social, porém quando a pedra atinge a vidraça da casa do vizinho, estabelece-se uma ação social, pois ocorreu o prejuízo ou depredação de propriedade alheia, fato que pode desdobrar-se em uma contenda, ou ainda, em um processo judicial. Nos dois exemplos acima fica claro que, para Weber, o sociólogo deve buscar uma análise das ações e tentar interpretá-las segundo o contexto ou a individualidade, história das relações de causalidade. Weber (1991 p. 15) classificou quatro tipos ideais de ação: 1- Ação racional referente a fins é aquela em que o ator conce- be claramente seu objetivo e combina os meios disponíveis para atingi-los, é caracterizada pelo cálculo racional entre os meios adequados para a obtenção de um determinado fim. É a ação típi- ca da sociedade moderna, uma vez que a racionalização é o traço característico do mundo moderno. Assim, a ação racional impera em todos os setores, seja ele no empreendimento econômico ou na gestão estatal (via burocracia); 2 - Ação racional de valor ou valorativa, caracterizada por uma orientação moldada por um ideal dominante, crença consciente no valor-ético, estético, religioso ou qualquer que seja sua interpreta- ção – desprezando todas as outras considerações, inclusive o pró- prio resultado da ação, embora seja uma ação calculada e pensada. 3 - Ação afetiva é executada sob a influência da emoção. Pode ser uma reação desenfreada a um estímulo não-cotidiano. SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 69 4 - Ação tradicional executada sob a influência do costume, do hábito e de crenças, transformadas numa segunda natureza. O ator precisa apenas obedecer a reflexos enraizados por longa prática. Esses dois últimos tipos de ação situam-se na fronteira da conduta significativa com a não significativa. Essa classificação ideal típica, segundo Weber, tem por finalida- de facilitar a interpretação da ação social, servindo como padrão para mediação de desvios irracionais, que ocorrem de forma con- tingente, pois as características da conduta humana são a regulari- dade e a previsibilidade, elementos estes que garantem as relações sociais, por conseguinte, a “sociedade”. Se não houver o entendimento da ação entre o autor e o receptor, não há relação social, e são essas relações sociais travadas em to- dos os momentos que constitui aquilo que se convencionou chamar de sociedade. O caráter de previsibilidade da ação diagnosticado por Weber como um elemento fundamental da mesma, leva-nos a pensar, a princí- pio, em certo tipo de natureza humana, isto é, certo tipo de cons- tância nos indivíduos que permitiria essa previsibilidade. Embora se reconheça a visão histórica e particular que Weber emprega so- bre o fenômeno social. Interpretando a sociedade como sendo nada “mais do que as inte- rações múltiplas dos indivíduos num determinado meio” (WEBER apud GIDDENS, 1994, p. 210), Weber, como já havíamos mencio- nado acima, estabelece a relação social como a materialização da vida social. Para ele: [...] relação social é entendida enquanto comportamento reciprocamente referido ao seu conteúdo de sentido por uma pluralidade de agentes e que se orienta por essa referência. Arelação social consiste, portanto, completa e exclusivamente na probabilidade de que aja socialmente numa forma indicável (pelo sentido), não importando, por enquanto, em que se baseia essa probabilidade (WEBER, 1991, p. 16). Assim, para que haja relação social é preciso haver reciprocidade entre as ações de ambas as partes envolvidas. FILOSOFIA70 As relações sociais podem variar quanto ao grau de estabilidade, existindo aquelas que são mais estáveis, bem como aquelas que tendem à transitoriedade; quanto ao seu caráter de cooperação, uma vez que o conflito é uma das marcas de todas as relações, des- de as mais transitórias até as mais permanentes, como observaram Simmel e Weber. A uniformidade da conduta pressuposta na relação social, segun- do Weber (apud GIDDENS, 1994), pode ser assegurada pelo uso ou costume, conceitos referentes a toda forma de conduta usual, que é habitualmente adotada por um indivíduo ou grupo, embora não seja necessariamente expressa a sua aprovação ou desaprovação pelos demais, neste caso a uniformidade é obtida por um acordo voluntário. Mas, também se tem a uniformidade obtida pela satis- fação subjetiva de interesses próprios, neste caso a relação tende a ser mais instável do que na primeira. A estabilidade das relações sociais é mais firme quando as atitudes subjetivas dos indivíduos são orientadas por crença numa ordem legítima. A legitimidade da ordem pode ser adquirida de forma tra- dicional, baseada na crença de uma santidade das regras e poderes estabelecidos; carismática, baseada numa certa qualidade da per- sonalidade de um indivíduo; legal, baseada na burocracia racional que se estabelece em nome de regras impessoais. Tabela 1 - Desdobramento das ações sociais em tipos de dominação Teoria Racional Tradicional Carismático Política Normas legais, admi- nistração racional, agente público, pre- sidente, democracia, direito positivo. Costumes, tradição, religião, regras cos- tumeiras, direito consuetudinário, te- ocracia, sultanismo, patrimonialismo e pa- triarcalismo Valores sobre-huma- nos, magia, fetiche, fanatismo, governos nazi- fascistas; legiti- mação pela “capaci- dade pessoal de insti- gar as emoções” Religião Sacerdote, padre, pastor- normas, ri- tuais normalizados; formação institucio- nal Feiticeiro – age à sua maneira, não há uma normalização das ce- rimônias, é mais vin- culado ao costumeiro. O profeta- seu poder vem do carisma, vem da capacidade de emocionar. Modernidade Sociedade feudal, conservadora Sociedade de paixões Democracia Teocracia Fanatismo, autorita- rismo SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 71 Embora esses tipos de legitimidade da dominação se misturem, como observou Weber, na sociedade capitalista ocidental há uma predominância acentuada da legitimidade legal, centrada na buro- cracia. Cabe destacar que esses tipos de legitimidade da domina- ção são desdobramentos dos tipos de ação social classificados por Weber. Qual o papel da sociologia para Max Weber? No que ele se difere de Emile Durkheim? Levando em conta o conceito de burocracia racional de Max Weber explique a seguinte afirmação: quanto mais a burocracia se consolida, mais forte fica a democracia. Cite um exemplo para cada tipo de ação social, definido por Max Weber e, explique por que tais exemplos são ações sociais. 1 2 3 FILOSOFIA72 CORRA LOLA, CORRA (1998) SinopSe: Manni (Moritz Bleibtreu), o coletor de uma quadrilha de con- trabandistas, esquece no metrô uma sacola com 100.000 marcos. Ele só tem 20 minutos para recuperar o dinheiro ou irá confrontar a ira do seu chefe, Ronnie, um perigoso criminoso. Desesperado, Ronni telefona para Lola (Franka Potente), sua namorada, que vê como única solução pedir ajuda para seu pai (Herbert Knaup), que é presidente de um banco. Assim, Lola corre através das ruas de Berlim, sendo apresentados três possíveis finais da louca corrida de Lola para salvar o namorado (http://www. adorocinema.com/filmes/corra-lola-corra). Direção: Tom Tykwer Gênero: Ação/Ficção Científica elenco: Franka Potente, Moritz Bleibtreu, Herbert Knaup, Nina Petri, Armin Rohde. A qUEDA - AS ÚLTIMAS HORAS DE HITLER (2004) SinopSe: Traudl Junge (Alexandra Maria Lara) trabalhava como secretária de Adolf Hitler (Bruno Ganz) durante a 2ª Guerra Mundial. Ela narra os últimos dias do líder alemão, que estava confinado em um quarto de segurança máxima (http://www.adorocinema.com/filmes/queda). Direção: Oliver Hirschbiegel Gênero: Histórico elenco: Bruno Ganz , Alexandra Maria Lara , Corinna Harfouch , Ulrich Matthes , Juliane Köhler. SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 73 NOVOS MODELOS DE ExPLICAÇÃO SOCIOLÓGICA Modelos teóricos inovadores, que têm renovado e oferecido ex- plicações valiosas da realidade social no mundo contemporâneo. Estas propostas surgiram na Europa e EUA, sem a preocupação de criar modelos teóricos universais, reavaliaram as teorias clássicas e apresentaram novas propostas metodológicas. De modo geral, tiveram influência da psicologia, psicanálise, lin- guística, semiótica. Incorporaram pressupostos teóricos e métodos de pesquisa que tornaram a sociologia mais interdisciplinar. É o momento em que a sociologia torna-se uma ciência mais madura e afasta-se das ciências exatas e biológicas, aproximando-se das demais ciências humanas. Além disso, busca superar e resolver as dicotomias e/ou antino- mias clássicas como: sociedade x indivíduo dos modelos clássicos (Durkheim, Marx e Weber). É importante destacar que isto não sig- nificou abandonar os modelos clássicos, mas sim sua atualização em uma época de desenvolvimento dos meios de comunicação e da indústria cultural. As novas sociologias buscaram discussões sobre arte, vida urbana, modos de vida urbana e a mente humana, inte- racionismo entre indivíduo e sociedade (a sociedade dos indivídu- os) e de modo geral a crítica à razão instrumental. Deste modo, as novas sociologias buscaram estudar o indivíduo do ponto de vista de sua participação na ação social, elemento que implicou em recortes metodológicos mais reduzidos, teorias de menor abrangência e maior profundidade, métodos mais interpre- tativos, históricos e qualitativos (como história oral e análise de correspondências pessoais). Neste grupo que chamamos de novas sociologias destacamos: Escola de Frankfurt, a nova sociologia francesa de Bourdieu, Norbert Elias e a sociedade dos indivíduos, e a Escola de Chicago (Simmel). FILOSOFIA74 Escola de Frankfurt Contexto: Início do século XX, industrialização da Itália e Alemanha, I Guerra Mundial, Revolução Russa, conflitos entre operários e governo na Alemanha, morte dos líderes Rosa de Luxemburgo e Karl Liebknecht. Esta escola da sociologia relaciona-se com a Fundação do Instituto para Pesquisa Social, ligado à Universidade de Frankfurt, que tinha como destaque para Max Horkheimer, Theodor W. Adorno, Herbert Marcuse, Walter Benjamin, Eric Fromm. Nos primeiros anos, o Instituto foi financiado com doações dos judeus, mas com a ascensão do nazismo, seus pesquisadores tiveram de deixar a Alemanha, devido às perseguições políticas. De maneira geral, os frankfurtianos procuraram rever os princípios marxistas, incorporando conceitos da Sociologia do Conhecimento e da psicanálise. Críticos do nazismo alemão, Horkheimer e Adorno criaram o conceito de indústria cultural (produção tecnológica, lucrativa, planejada, e em série de bens simbólicos) em que discutiam a formação de uma cultura de massa que vendaria os olhos da população com o esvaziamento das ideias e fundamentação de ideologias. Adorno e Horkheimer substituíram a expressão cultura de massa porindústria cultural. Para estes autores, o cinema, o rádio, produção em massa de obras de arte não são uma arte em si, nem cultura tradicional, mas sim um negócio, que transforma a cultura em mercadoria. Este fenômeno fundamenta o termo indústria cultural, pois a cultura e a arte passam a ser mercadorias. Assim, os autores concluem que a indústria cultural tenta reduzir todos os bens culturais em algo consumível por qualquer tipo de consumidor, deste modo reduz a cultura ao mais elementar, tornando-a algo rasteiro e superficial. Em outra geração de Frankfurt, destaca-se Jürgen Habermas, preocupado com as dimensões ideológicas do conhecimento e na identificação de seus múltiplos condicionamentos. Elabora o conceito de ação comunicativa e identifica dois tipos de razão na cultura humana: a razão instrumental (domínio da natureza) e a razão comunicativa (realização e libertação humanas). Habermas critica a sociedade contemporânea pela prevalência da razão instrumental sobre a razão comunicativa. Fonte: http://www.livrariares posta.com.br/fotos/difel_esc_ frank.jpg Figura 6 - Escola de Frankfurt SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 75 Na ideia de mundo da vida, Habermas mostra a ra- cionalidade dos indivíduos mediado pela linguagem e comunicatividade. Esses elementos se constituem em instrumentos de construção racional dos sujeitos cal- cados na estruturação de três universos: o objetivo,o subjetivo e o social. É na esfera do universo da relação dos sujeitos que Ha- bermas parte de sua concepção ontológica para a cons- trução da racionalidade. Na Teoria da Ação Comunicativa, o tema racionalidade das opiniões e das ações é tratado sobre um prisma filosófico e sociológico, a razão é a base do estudo da filosofia. Os gregos da antiguidade, quando estudam a própria razão, fundamentam-se numa base social onto- lógica a partir do que poderíamos chamar de um dis- curso comunicativo. A ação comunicativa busca explo- rar uma sociologia do mundo da relação dos sujeitos, ou seja, uma sociologia da ação comunicativa em que o universo subjetivo, a ação política e a racionalidade dos indivíduos se constituem em elementos estrutura- dos de formação e revitalização da esfera pública na busca da emancipação social. A ação comunicativa que se efetiva na linguagem é uma forma privilegiada de relacionamento entre os sujeitos: permite a articulação de valores, elaboração de normas e o questionamento dos mesmos. Esta é a diferença en- tre o agir comunicativo e o agir estratégico, enquanto no primeiro há a busca do reconhecimento intersubjetivo das pretensões de validade, no segundo, um indivíduo age sobre o outro para atingir os fins que ele a priori definiu como necessários. Numa sociedade emancipató- ria, predominam as ações comunicativas. O processo de emancipação implica, então, um processo de racionali- zação, de evolução simbólica, de diferenciação do mun- do de vida, de aperfeiçoamento da comunicação entre os sujeitos. O mundo emancipado é aquele onde o mun- do vivido tem supremacia sobre o mundo do sistema. O que significa resolução dos conflitos humanos com base em discussões racionais, e evolução material equilibrada com as exigências do meio ambiente. “http://pt.wikipedia.org/wiki/A%C3%A7%C3%A3o_ comunicativa” FILOSOFIA76 Nova Sociologia Francesa – Pierre Bourdieu Pierre Bourdieu Nascimento 1 agosto de 1930, Deguin Falecimento 23 de janeiro de 2002 Paris Nacionalidade Francês Ocupação Sociólogo Destaque para P. Bourdieu, que iniciou sua pesquisa pela análise da educação e do patrimônio cultural das famílias, procurando rever heranças clássicas e conciliar a análise da realidade objetiva com a da subjetividade. Os principais conceitos desenvolvidos por este autor foram a noção de habitus e campo. Habitus: disposições internas do sujeito herdadas da família e estruturadas pela experiência individual e pela educação (habitus primário), que se transforma ao longo da vida, na experiência da vida adulta (habitus secundário). Campo: esferas autônomas da vida social, historicamente constituídas. Noção que rompe com o determinismo econômico marxista e propõe um conceito de sociedade formado por instâncias, autônomas e interdependentes, que mantêm relações de concorrência e poder. Fonte: http://www.diplomatie. gouv.fr/en/IMG/jpg/47s1.jpg Figura 7 - Pierre Bourdieu SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 77 Na agenda teórica proposta à Teoria Sociológica contemporânea, alguns elementos merecem destaque: a releitura dos clássicos, a construção de conceitos e a postura crítica do intelectual diante de uma tomada de posicionamento político, elementos estes amalgamados em sua discussão sociológica. Ao compor, por exemplo, a ideia de campo, Bourdieu dialoga com a ideia de esferas, proposta por Max Weber e, ainda, com o conceito de classe social de Marx. Construtivismo estruturalista ou estruturalismo construtivista Bourdieu, permitindo ter seu pensamento rotulado, adota como nomenclatura o construtivismo estruturalista ou estruturalismo construtivista. Esta postura consiste em admitir que existe no mundo social estruturas objetivas que podem dirigir, ou melhor, coagir a ação e a representação dos indivíduos, dos chamados agentes. No entanto, tais estruturas são construídas socialmente assim como os esquemas de ação e pensamento, chamados por Bourdieu de habitus. Bourdieu tenta fugir da dicotomia subjetivismo/ objetivismo dentro das ciências humanas. Rejeita tanto trabalhar no âmbito do fisicalismo, considerando o social enquanto fatos objetivos, como no do psicologismo, o que seria a “explicação das explicações”. O momento objetivo e subjetivo das relações sociais estão numa relação dialética. Existem realmente as estruturas objetivas que coagem as representações e ações dos agentes, mas estes, por sua vez, na sua cotidianidade, podem transformar ou conservar tais estruturas, ou almejar a tanto (ttp://pt.wikipedia. org/wiki/Pierre_Bourdieu) FILOSOFIA78 Norbert Elias Nascimento 22 de junho de 1897, Breslau Falecimento 01 de agosto de 1990 Amsterdã Nacionalidade Alemão Ocupação Sociólogo Conhecido como o sociólogo do processo civilizador e da vida na corte, Elias concebe a sociedade como um tecido que liga os indivíduos, a cada ação numa direção, todo o tecido se reorganiza (a sociedade dos indivíduos) o sócio-histórico constituído por seres que atuam de forma consciente, por meio de representações abstratas e simbólicas que formam a respeito de si e da situação da qual participam. A sociedade é concebida por Elias como uma teia de relações onde esta se reproduz à proporção que os indivíduos a constroem e são construídas por ela, como na metáfora: os homens estão na sociedade como uma aranha que tece a teia social ao mesmo tempo em que se prendem a ela. Elias busca entender as relações entre a sociedade e o indivíduo dotado de liberdade, vontade e motivação, buscando romper com determinismos e causalidades mecânicas. Desenvolve o conceito de configurações ou habitus: interiorização do mundo exterior, marca que a sociedade imprime na personalidade, agindo sobre os sujeitos. Fonte: http://crl.du.ac.in/ Publication/E-Resources%20 in%20Public%20Domain-Final/ E-Resources/SocioSite%20 FAMOUS%20SOCIOLOGISTS_ files/elias.jpg Figura 8 - Nobert Elias SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 79 Escola de Chicago Contexto: EUA, na passagem do século XIX para o século XX, intensa entrada de imigrantes europeus fugindo de perseguições políticas e religiosas, marginalização, crime, conflitos raciais, minorias, emprego da força policial na resolução destes conflitos (sem efeitos duradouros). A produção científica desta Escola de Sociologia teve seu apogeu entre1915 e 1940 e teve sede na Universidade de Chicago. Buscava soluções para os conflitos, resultando uma sociologia urbana e pragmática. Destaque para o pragmatismo de John Dewey; os estudos sobre motivações, mobilidades e ritmos de vida da cidade de Georg Simmel; o interacionismo simbólico de George Herbert Mead, valorizando o caráter simbólico e subjetivo da ação social. A Escola de Chicago contribuiu com novas técnicas e métodos de pesquisa social, entre eles: depoimentos, testemunho oral, correspondência, análise de documentos, entrevistas. Tornou-se referência em sociologia urbana. Em 1935, outro grupo se destaca em Chicago, tem orientação durkheimiana, estudam os processos de adaptação dos imigrantes poloneses à cidade. Destacam-se Robert Merton e Talcott Parsons. A Escola de Chicago começa a perder seu brilho quando uma outra geração de sociólogos voltam-se para pesquisas quantitativas, visando levantar tendências eleitorais ou preferência da audiência por programas de comunicação, trazendo de volta à cena a contestada postura positivista. Entretanto, verifica-se a disseminação da metodologia da Escola de Chicago em outros centros universitários (Yale, Michigan, Harvard, Columbia). As contribuições da Escola podem ser sintetizadas na preocupação em aplicar métodos etnográficos às análises sociais e à sociologia urbana; na ênfase às pesquisas da vida cotidiana e processos simbólicos. Por tais recortes específicos e bastante centrados em casos, ficou conhecida como microssociologia. Um autor de grande destaque deta escola foi Simmel, que aprofundaremos a seguir. Fonte: http://img. mercadolivre.com.br/jm/ img?s=MLB&f=82822993_6438. jpg&v=E Figura 9 - Escola de Chigago FILOSOFIA80 A sociologia de Georg Simmel Nascimento 22 de junho de 1897, Breslau Falecimento 01 de agosto de 1990 Amsterdã Nacionalidade Alemão Ocupação Sociólogo Georg Simmel (1858 – 1919), alemão de família remediada, teve sua vida, segundo WATIER (1996, p. 72), marcada pela experiência de nascer e morar, por um longo período, numa das maiores cidades do mundo. Essa experiência teria despertado o seu interesse em estudar “as novas relações sociais que indivíduos necessitados desenvolvem quando a maioria de seus negócios é com pessoas que não conhecem, estranhos no sentido mais amplo”. Assim, dedicou a sua vida a capturar o espírito da sua época, a descrever a transformação da alma da sociedade moderna, levantando questões sobre a transformação das grandes cidades e a implicação disso para a vida das pessoas. Para atingir tal objetivo, discutiu sobre valores, dinheiro, cultura, o indivíduo, a personalidade artística e a moda, mas a sua grande contribuição, ao nosso ver, foi procurar as relações que poderiam emergir entre as culturas objetiva e subjetiva, isto é, as relações que os indivíduos constroem dentro de formas de sociação. Simmel compartilha com Weber vários aspectos da sua teoria. E é este que desenvolve a noção de racionalidade subjetiva esboçada por Weber. Para Simmel, cabe à sociologia organizar o real com ajuda de sistemas de categorias ou modelos para que se possa conhecer os fenômenos sociais. Com isso, este autor inaugura a sua sociologia “da forma”. Essa noção tem por base a ideia kantiana da possibilidade do conhecimento, que só é possível porque o espírito projeta formas (a priori) aos fenômenos da natureza e, Fonte: http://upload. wikimedia.org/wikipedia/ commons/4/4f/Simmel_01.JPG Figura 10 - Georg Simmel SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 81 aproxima-se da ideia weberiana de tipo ideal, uma vez que os modelos ou as formas criados por Simmel são construções mentais que permitem interrogar e interpretar a ‘realidade social’, que é caótica (BOUDON; BOURRICAUD, 2000, p. 5000). A formalização da realidade social não é uma atividade exclusiva do cientista, os atores também necessitam de regras normativas para haver interação social e a própria sociação, mesmo que estas não sejam conscientes. Assim, com Weber, Simmel reporta-se à teoria da ação. E, para compreender e interpretar as ações e as interações dos indivíduos, ou seja, como as formas sociais persistem, Simmel criou um modelo que apresenta de um lado a forma e de outro o conteúdo. Os conteúdos são os motivos, impulsos, interesses, instintos que levam os indivíduos interagirem entre si; enquanto as formas seriam as maneiras como serão expressos esses conteúdos. Assim como os conteúdos são múltiplos, as formas tendem a acompanhá-los. Os impulsos que levam os atores interagirem mutuamente, segundo Simmel, não são sociais em si mesmos. Só se tornam sociais através das formas de ações recíprocas praticadas pelos indivíduos. Assim, as ações recíprocas são a realização de uma unidade, de uma sociação. Essa noção nos revela que a sociação é feita a partir de uma teia de relações entre os indivíduos. Como estes se relacionam de várias maneiras, sob inúmeras formas, Simmel prefere conceituar a sociação como um processo que se forma, dissolve e reforma eternamente, isto é, toda vez que há uma interação entre indivíduos. E para que haja ações recíprocas, interações ou sociação, é necessário que os indivíduos tenham a capacidade prática de interpretar e entender as ações recíprocas. E para tal, os mesmos precisam construir o “outro” como uma personalidade, como uma unidade psicológica, permitindo, dessa forma, a compreensão. Assim, toda sociação coloca em jogo mecanismos para a interpretação dos outros e das situações, mecanismo que estão ligados ao funcionamento da mente e que produzem, além das FILOSOFIA82 unidades individuais, uma forma social que serve de modelo para a orientação dos indivíduos. A sociedade, portanto, torna-se possível porque os indivíduos interagem uns com os outros de acordo com certas disposições, imbuindo suas relações com boa vontade, esperança e confiança. A ausência desses sentimentos que são individuais, mas que assumem um caráter social, tornaria as relações sociais impossíveis. Simmel chega a essa conclusão quando, ao investigar o que possibilita e assegura a aproximação e os afastamentos entre indivíduos, isto é, como se dá a interação entre os indivíduos, descobriu que são as relações mais finas pautadas em sentimentos, como gratidão, honra, fidelidade que são as mais firmes. A sua conclusão partiu do “esquema da oferta e do equivalente”, como a base de todas as relações humanas. Mas, para Simmel, segundo COHN (1998), nem tudo pode ter sua equivalência assegurada por coerção legal externa, cabendo, portanto, aos sentimentos tecer esse laço de reciprocidade, equilibrando a relação entre o receber e o dar. Assim, essa relação não pode ser reduzida à troca, aliás, esta quando plenamente desenvolvida, como no mundo moderno, dispensa os homens, assumindo o caráter de conversão da capacidade de reciprocidade dos homens em mero objeto, convertendo a relação dos homens em relação dos objetos. O sentimento inverte esse movimento e, ao fazê-lo, propicia aquilo que importa na constituição e permanência da vida social, isto é, a manutenção da relação para além do momento da sua criação, porque o que persiste é a relação e não o sentimento que a motivou. Com essa análise, Simmel, assim como Weber, segundo COHN (1998), discorda da ideia de que as relações econômicas marcadas pela legalidade racional sejam suficientes para estabelecer vínculos duradouros entre os homens. Também, não seria um tipo de solidariedade social que acompanha a divisão do trabalho, como em Durkheim, tendo em vista que não se trata de interdependência, mas de reciprocidade, aproximando-se do paradigma do dom, de Marcel Mauss. Estaanálise elaborada por Simmel, ao nosso ver, por outro lado, distancia-o um pouco de Weber, na medida em que desloca o ponto Marcel Mauss era um sociólogo e antropólogo francês, sobrinho de Émile Durkheim e considera- do o pai da etnologia francesa. Para Mauss, o elementar das so- ciedades, em todos os tempos históricos, é o intercâmbio e a dádiva. Um de seus focos prin- cipais são as prestações totais, através das quais “tribos” e “metades” intercambiam tudo que lhes é importante: festas, comidas, riquezas, mulheres, crianças etc. As prestações totais agonísticas acontecem quando um chefe ou grupo compete com outro sobre quem pode dar mais. Dar, receber e retribuir são, para Mauss, três momentos distintos cuja diferença é fundamental para a constituição e manutenção das relações sociais. A dádiva opera uma mistura entre amizade e conflito, interesse e desinte- resse, obrigação e liberdade. Também mistura as pessoas que se presenteiam, as coisas e as pessoas, as coisas e os espíritos. SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 83 de persistência das relações sociais, e portanto da “sociedade”, de uma ordem legal, como apontou Weber, para uma ordem subjetiva. Ou em vez de distanciar, pode aproximá-lo, quando se pensa na noção de racionalidade subjetiva esboçada por Weber. A análise de Simmel sobre as possibilidades de manutenção da ordem social, explicitada acima, revela que as formas de interação podem se destacar de seus conteúdos, operando por conta própria. Isso permite pensar a sociedade não diretamente como um conjunto de interações em fluxo constante, mas como um conjunto de formas padronizadas. ALEXANDER, Jeffrey. A importância dos clássicos. In: GIDDENS, A, TURNER, J (Org.). Teoria Social Hoje. São Paulo: Editora UNESP, 1999. ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2000. BALIBAR, Étienne. A filosofia de Marx. 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Da Divisão Social do Trabalho. Martins Fontes. São Paulo, 1999. FILOSOFIA84 GIDDENS, Anthony. Sociologia. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000. __________________. Política, Sociologia e Teoria Social. São Paulo: Editora UNESP, 1998. ___________________. Novas regras do método sociológico. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. HOLANDA, Sérgio. B. de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: HUCITEC, 1986. MARX, Karl. “Para a crítica da economia política”. GIANOTTI, Artur (ed.). Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1982. ____________. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Global Editora, 1990. ____________. O capital: livro 1. 16. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. MORA, José. Ferrater. Dicionário de Filosofia - Tomo IV (Q-Z). São Paulo: Edições Loyola, 1994. PRATES, Antônio. A. Temas contemporâneos de sociologia clássica. Belo Horizonte: UFMG-FAFICH, 1991. 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Economia e Sociedade, v.1. Brasília, DF, Editora Universidade de Brasília, 1991. SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 3 85 Dê exemplos e explique o que Durkheim define como fatos sociais. Cite e explique algumas contribuições de K. Marx para a sociologia. Por que a sociologia de Max Weber era conhecida como sociologia individualista e da ação? 1 2 3 ObjetivO deStA unidAde: unidAde 4 OBJETIVOS DESTA UNIDADE Apresentar o conceito e função da estruturas social; Compreender como os indivíduos estão inseridos na sociedade; Compreender a noção de papel e status; Apresentar a noção de estratificação social e com ela abrir a discussão sobre desigualdade social. ESTRUTURA SOCIAL: noções básicas CONCEITO E FUNÇÃO DE ESTRUTURA SOCIAL Partindo da constatação de que os membros e os grupos de uma sociedade são unidos por um sistema de relações de obrigação, isto é, por uma série de deveres e direitos (privilégios) recíprocos, aceitos e praticados entre si, a estrutura social refere-se à colocação e à posição de indivíduos e de grupos dentro desse sistema de relações de obrigação. Em outras palavras, a estrutura social é o complexo de papéis e status que define o comportamento dos indivíduos e suas relações entre si (CHINOY, 2008). A estrutura tanto permite quanto restringe o que é possível na vida social, isto é, as ações sociais são padronizadas, institucionalizadas conforme as determinações estabelecidas pela estrutura social, que por sua vez, relaciona-se tanto com a cultura quanto com os recursos da organização. FILOSOFIA88 Se um edifício fosse uma sociedade, as fundações, as colunas de sustentação; as vigas seriam a estrutura, que servem tanto pra constranger (limitar) quanto para permitir os vários arranjos espaciais e os tipos de ambiente (que seriam na estrutura social – papéis, organizações, instituições etc.). Nesses termos, qual seria a função da estrutura social? Vejamos abaixo: • possibilitar a interação social; • dar a cada um de nós um sentido para o lugar ao qual perten- cemos, estabelecer o que se espera um do outro conforme o status ocupado e orientar como devemos pensar, agir e sentir; • sem a estrutura social não saberíamos como agir e constan- temente ficaríamos incertos quanto às prováveis reações dos outros; • a maioria das atividades em nossa vida diária é conduzida den- tro de estruturas sociais. A estrutura social de uma sociedade é formada por dois elementos básicos: o status e papel. Status O Status é a posição socialmente identificada que cada um dos indi- víduos ocupa na estrutura social, isto é, é o lugar que ocupamos em um sistema de posições interligadas. Todos nós ocupamos muitos status diferentes, localizados em variadas estruturas. Podemos afirmartambém que o status é uma espécie de cartão de identidade social, que pode ser adquirido ou atribuído. Adquirido quando a pessoa precisa agir diretamente para ocupar aquele status, por exemplo, é preciso casar para ocupar o status de marido ou esposa; já o atribuído deriva de atributos sobre os quais a pessoa não tem controle, por exemplo, os status determinados biologicamente, ou quando se é colocado nessa posição indiretamente, por exemplo, o status de filho. SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 4 89 A noção de status envolve também a noção de poder e hierarquia, uma vez que a posição que cada indivíduo ocupa na estrutura social está relacionada com a distribuição desigual de riqueza, prestígio e poder. Ao conhecermos nosso status, sabemos onde estamos localizados e o que esperar de nós. Exemplos: Status em família (pai, mãe, filho, marido, esposa, sogra, irmão, tio, primo, sobrinho, avó etc.); sta- tus em organizações (aluno, professor, chefe, patrão, empregado, diretor, operário, médico, advogado, juiz, réu etc.). Papel Cada status traz consigo uma série de regras e normas que prescre- vem a maneira pela qual a pessoa que o ocupa deve ou não deve comportar-se em determinadas circunstâncias. Esse grupo de nor- mas e regras é denominado de papel. Quando nos comportamos em um status devemos ter consciência das normas e regras que regulam as ações compatíveis com a posi- ção ocupada. O papel é o aspecto dinâmico do status, é a execução daquilo que foi estabelecido pela estrutura, isto é, a maneira como devemos nos comportar estabelecida previamente. A importância dos papéis sociais não reside apenas na regulamen- tação dos comportamentos, mas também no fato de permitir aos indivíduos que predigam as ações dos outros e, portanto, que mo- delem as suas próprias ações de acordo com essa predição. Portanto, existem relações sociais entre os papéis desempenhados pelos membros de uma sociedade, e tais relações não são definidas apenas indiretamente por padrões gerais de comportamento (cor- tesia, respeito e obediência), mas também por prescrições insti- tucionais específicas, as quais determinam como os ocupantes dos status devem se comportar uns em relação aos outros. FILOSOFIA90 Numa audiência, por exemplo, as partes envolvidas só podem falar quando o juiz faz a solicitação, também há regras para o trata- mento com o juiz (meritíssimo), por outro lado, o juiz não pode privilegiar uma das partes por questão de sexo, raça, credo, idade a não ser que isso seja legalmente definido. Os aspectos que fundamentam o papel e o status Os papéis e status se constroem sobre dois tipos de alicerces prin- cipais: 1. Alicerce biológico – em todas as sociedades se edificam status e papéis diferentes conforme idade e sexo; 2. Alicerce social, porém, é o que determina a maior parte dos status e papéis. Quanto mais complexa a sociedade maior será a quantidade de status e papéis a serem vivenciados pelos seus membros. Integração e relacionamento papel-status É importante destacar que o papel e o status social são dois as- pectos que andam juntos e imbricados, pois ambos correspondem a ações e práticas sintonizadas com situações, ou ocasiões sociais definidas. De modo geral, definem modos de comportamento so- cial. Vejamos: Ao ocupar o status de aluno (que é adquirido), por exemplo, deve- se seguir comportamentos definidos para tal “script” (ir à aula, estudar, fazer prova, participar de atividades da escola, respeitar os professores, prestar a tenção à aula, cumprir as tarefas deter- minadas etc.). Para verificarmos a integração do status e papel podemos utilizar a imagem da representação. Cada ator tem que representar conforme o papel atribuído ao personagem que ele representa, que SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 4 91 por sua vez será estruturado dentro de enredo. Os papéis sociais são apreendidos à medida que adquirimos a cultura do nosso grupo, da estrutura social na qual estamos inseridos. Geralmente, esses papéis são introjetados de tal maneira que pas- sam a fazer parte da personalidade individual e passamos a de- sempenhá-los sem consciência do seu caráter social. Os papéis não são pessoais, são as partes representadas no palco da vida social (padrões de comportamentos). Na vida social não ocupamos apenas um status, transitamos e aprendemos vários. Nós não ocupamos apenas um status, mas es- tamos inseridos num complexo de posições. Esse complexo no qual cada um de nós ocupa várias posições conforme a estrutura é ge- ralmente denominado de conjunto de status. Ao ocuparmos vários status também temos que desempenhar vários papéis. Assim, uma mulher poder ser: mãe, prefeita, funcionária pública, evangélica e ainda torcedora de um time de futebol. Um conjunto de status marca as estruturas às quais pertencemos e os sistemas de cultura aos quais estamos ligados. Dessa forma, estamos todos nos comportando em ocasiões diferentes seguindo o papel estabelecido para cada status particular. Podemos afirmar que o conjunto de status que vivemos ou que ocu- pamos é a rede de relações que estabelecemos com outros indiví- duos ou instituições. É de modo amplo uma das bases elementares da vida social (rede social de relações). Os vários status que ocupamos se ligam uns aos outros de tal forma que nossos papéis em um dado status podem ser afetados por essa ligação, por exemplo, aluno casado com filho pode ter comporta- mento diferente daquele que é apenas aluno e filho. Portanto, podemos apreender muito sobre a pessoa se conseguir- mos mapear todos os status que ocupamos relacionando-os às es- truturas e à cultura nas quais esses status estão inseridos e, com isso, torna-se possível formar um quadro aproximado de “quem somos” sociologicamente. FILOSOFIA92 Como ocupamos vários status e cada um tem um papel específico (padrão de comportamento), às vezes pode haver um conflito entre os papéis. Esse conflito é inevitável nas sociedades complexas em que todos nós ocupamos status diferentes segundo as diferentes estruturas nas quais participamos, uma vez que cada um tem suas próprias exigências. Para amenizar esse conflito é necessário que haja uma separação das diferentes atribuições no tempo e no espaço. É preciso, por- tanto, aprendermos a gerenciar essas fontes de tensão e conflito ou vamos sofrer as consequências. Vejamos o organograma: Esse conjunto hipotético de status de um indivíduo liga-o a comportamentos culturais de alguma forma diferente, composto de crenças e normas que, por sua vez, refletem valores e outros sistemas culturais. Construindo um diagrama semelhante para cada um de nós, podemos aprender muito sobre nós mesmos e sobre os códigos simbólicos que orientam nossos sentimentos, comportamentos e ações. O indivíduo e a estrutura social Cada um de nós é uma peça na engrenagem das formas estruturais. Embora tenhamos inteligência e criatividade, nossas vidas cotidianas são altamente definidas pela estrutura. Nossa vida é um constante e incessante movimento nas estruturas sociais – família, amigos, escola, organização de trabalho, comunidade etc. Indíduo SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 4 93 O que somos como indivíduo é o produto dessa participação nas estruturas. Embora possamos escolher nos deslocar para dentro ou fora das estruturas, não podemos escapar de todas e, por- tanto, podemos apenas escolher quais as que devem ser nossas opressoras. Nossa vida é um trânsito nas estruturas de status e papel, e nos deslocamos na estrutura social definida pela sociedade em que vivemos, conforme escolhas, práticas, costumes etc., que bus- camos fazer em nossasvidas sociais. É importante enfatizar que a escolha que podemos fazer é limitada pelas possibilidades es- truturais que a sociedade permite, ou seja, só podemos escolher exercermos o papel social de professor, caso você tenha passado pela formação legal e normalizada pela sociedade em questão (desse modo seguindo e obedecendo a critérios estabelecidos so- cialmente). Tipos de estrutura social A sociologia identifica os seguintes tipos de estrutura social: grupos, organizações, comunidades, estruturas institucionais e categorias. Grupos sociais Grupos são estruturas sociais pequenas, compostas por um ou al- guns tipos de status, números pequenos de papéis, com ligações densas entre alguns status e claras expectativas culturais sobre o que se espera que as pessoas façam. Os grupos variam em sua durabilidade, podem ir de uma reunião temporária de amigos aos laços permanentes da família. Também variam de tamanho, por isso alguns são classificados de primários (pequenos, unidos e íntimos) e outros de secundários (maiores, e impessoais). FILOSOFIA94 Organizações ou estruturas organizacionais São estruturas maiores e mais formais compostas de uma diversida- de de status que revelam diferenças de autoridade. Organizações são constituídas para satisfazer necessidades humanas, tais como ganhar dinheiro, educar as pessoas, produzir bens e serviços etc. Comunidades Comunidades são estruturas sociais que organizam a residência das pessoas assim como suas atividades no espaço físico, geométrico. As comunidades variam conforme o tamanho. Pode ser uma cidade rural pequena a uma megalópole, um condomínio de poucas casas a grandes estruturas residenciais. Conforme o tamanho, o poder da estrutura varia inversamente proporcional. Instituições São as estruturas criadas para resolver problemas humanos básicos, para manter efetivamente organizada a sociedade, através da regulamentação e do controle da população. Podemos identificá- las como estruturas políticas. Quanto maior a sociedade, maior e mais complexa será a gama de instituições. Categorias sociais São as estruturas criadas e sustentadas em razão do tratamento diferenciado daqueles que revelam características semelhantes. As únicas categorias universais que servem para classificar as pessoas são sexo e idade, mas as pessoas classificam umas as outras em termos de características distintivas e reagem diferentemente umas as outras. SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 4 95 À medida que as sociedades se tornam mais complexas, novos tipos de categorias são criados, a exemplo das categorias de etnia e classe, que surgiram devido ao fato de seus membros receberem, frequentemente, partes desiguais de recursos importantes. Nesse sentido, essa estrutura é denominada de estratificação social. ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL Estratificação social pode ser definida como um modo complexo de manifestação das desigualdades em sociedade, ou seja, a configuração do posicionamento hierárquico dos indivíduos em partes (seções) relativamente homogêneas de contingentes populacionais quanto ao estilo de vida, oportunidades e interesses. Podemos afirmar ainda que a estratificação é o mapa da distribuição desigual de recompensas socialmente valorizadas pela sociedade (poder, honra, prestígio, bens materiais etc.). [...] onde quer que exista sociedade, existe necessariamente algum tipo de desigualdade social entre os indivíduos quanto aos seus direitos e deveres, de acordo com as posições que eles ocupam. Desigualdade de direitos e deveres e diferenciação de posições, porém, não significam o mesmo que estratificação (NOVA, 2008. p.152). Nesses termos, é importante destacar que estratificação social não é a mesma coisa que desigualdade social, mas que a primeira é uma forma complexa da segunda. A desigualdade social está presente em todas as sociedades desde as mais simples, como as pequenas comunidades da áfrica, até as complexas sociedades urbano-industriais. É importante ressaltar que a estratificação não está presente em todas as sociedades. Nas comunidades em que há pouca complexidade no desenvolvimento tecnológico, esse fato não gera a produção de um excedente de bens necessários à sobrevivência: FILOSOFIA96 Nessas sociedades, a divisão do trabalho e o sistema de posições, extremamente simples, tendem a se basear de modo predominante na atribuição de acordo com o sexo e idade dos indivíduos (NOVA, 2008, p.153). A inexistência de bens excedentes e a preocupação com a subsistência faz com que os estilos de vida e oportunidades, nas comunidades mais simples, sejam praticamente os mesmos. Nessas sociedades, portanto, não há estratificação em camadas delimitadas por status, estilo de vida e oportunidades desiguais. Porém, é evidente que nessas comunidades existem desigualdades perpassadas pela divisão de papéis sociais por idade e sexo. O marco fundador de uma sociedade estratificada é quando surge um amplo aperfeiçoamento das técnicas de transformação da natureza de modo que se inicia um aumento da produção e acúmulo de excedentes; daí surge o comércio, a especialização de tarefas, a concentração de riquezas e, por fim, o estabelecimento de camadas sociais. Estas serão amplos setores da população com interesses, estilo de vida, oportunidades, valores, empregos e papéis sociais semelhantes entre si, e desiguais entre outras camadas sociais que também se configuram. As sociedades estratificadas podem ser: sociedades de classe; sociedades estamentais e sociedades de castas. As sociedades podem ser definidas como estratificadas quando se estabelece camadas de população semelhantes internamente, e desiguais entre si. Cada classe social possui um status e interesses diferenciados, cada casta tem prestígio e status diferenciados, assim como nos estamentos. O importante é compreender que a estratificação é a cisão da sociedade em estratos legitimados por valores, leis e normas que definem que essa divisão seria: justa, normal, correta. É importante destacar que nas sociedades estratificadas, os estratos possuem certa homogeneidade, porém há internamente diferenciações de papéis, como no caso da sociedade de classes, em que a classe média é formada por profissionais liberais, pequenos empresários, funcionários públicos etc., esses tipos profissionais diferenciam-se, mas possuem certas semelhanças. SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 4 97 Para identificar o estrato social de uma dada sociedade, Max Weber estabeleceu dois critérios que são: 1) analisar as semelhanças e diferenças nos estilos de vida – desse modo uma camada que possui estilo de vida semelhante, provavelmente, poderá ser um estrato; 2) compreender as oportunidades – se uma dada camada social possui possibilidades de acesso a empregos, riquezas, poder e prestígio semelhantes, possivelmente será um estrato. Assim, é da conjugação de estilo de vida e oportunidades semelhantes que Weber nos ajuda a identificar um estrato social. Legitimação da estratificação: aceitação A estratificação social pode ser analisada como um fato social, ou seja, como algo que é exterior, geral e coercitivo. É exterior, pois independe da vontade individual e perdura de geração a geração; é geral, pois está disseminada nas crenças, valores e práticas sociais de maneira coletiva; é coercitiva, pois ninguém escolhe o estrato social a que faz parte, nem as regras e normas que já foram estabelecidas socialmente. De modo geral, a estratificação social não é apenas a distribuição ou divisão da sociedade em camadas, ela é também composta de um sistema simbólico de crenças, normas e valores que legitimam, regulame interpretam a distribuição desigual de recompensas sociais: O poder de influencia dos homens comuns é circunscrito pelo mundo do dia a dia em que vivem, e mesmo nesses círculos de emprego, família e vizinhança frequentemente parecem impelidos por forças que não podem compreender nem governar. As grandes mudanças estão além de seu controle, mas nem por isso lhes afetam menos a conduta e as perspectivas (MILLS, 1975. p.11). O sistema de estratificação medieval, neste caso estamental, tinha como base as justificativas religiosas como sistema simbólico de legitimação e normalização. Assim, a Igreja dizia que Deus havia distribuído os papéis sociais na humanidade: aqueles que deveriam rezar pela salvação da humanidade, aqueles que deveriam governar e proteger o povo e aqueles que deviam trabalhar para alimentar e sustentar os que governavam e os que rezavam. FILOSOFIA98 Desse modo, os nobres nascem nobres, pois Deus os deu a nobreza e a virtude para comandar e não trabalhar, pois o trabalho seria algo doloroso e produto do pecado que expulsou a humanidade do paraíso divino. O clero seria o responsável pelas orações e salvação dos pecadores e, por fim, os camponeses e artesãos seriam os desprestigiados que deveriam trabalhar para sustentar os estamentos superiores e assim, pagar seus pecados na vida terrena. Este sistema de crenças da religião cristã medieval fundamentou e legitimou a estratificação social em estamentos, de modo que a população como um todo aceitasse que esse sistema era justo, correto e verdadeiro. Esse modelo de configuração social só será questionado e derrubado com o advento do modo de produção capitalista e o estabelecimento de uma sociedade de classes, após as revoluções burguesas (Revolução Inglesa, Francesa, Independência dos Estados Unidos etc.). Conceito básico para compreensão da estratificação Mobilidade social Mobilidade social é toda movimentação ou passagem de um indivíduo de um grupo social (estrato) para outro, ou dentro do seu próprio sistema de posições inter-grupro (posição social) dentro do rol de status e camadas sociais. Podemos definir dois tipos de mobilidades sociais: a vertical e a horizontal. Mobilidade vertical é a passagem de um indivíduo de um grupo inferior para um superior, ou seja, é o movimento ascendente na pirâmide de estratificação. Exemplo: um indivíduo que era de classe média dentro de uma sociedade secularizada e racional (sociedade de classes) consegue melhores postos de trabalho, passa de operacional para superintedente executivo geral de uma grande empresa multinacional. Neste exemplo, o indivíduo não muda apenas de emprego, mas de grupo social a que faz parte, pois gradativamente acessará mais oportunidades e consequentemente Fonte: http://4. bp.blogspot.com/_ UyMJAeDlF9w/SPiniO0t0aI/ AAAAAAAAA7M/56Ep4nHs6dk/ s400/Pir%C3%A2mide+Social.jpg Figura 1 SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 4 99 compartilhará de um estilo de vida mais sofisticado, saindo assim da classe média-baixa para a classe média alta. Há dois tipos de mobilidade vertical, a ascendente em que um indivíduo passa de um estrato inferior em status, oportunidades e acesso aos bens valorizados socialmente, para um estrato superior (ascensão social); e descendente – quando um indivíduo passa de um grupo de maior status para um de status inferior. Um exemplo contemporêneo de mobilidade ascendente está em paralelo com os processos de migração social. No Brasil há uma tendência de vinda de indivíduos do centro-sul, que não conseguiram se estabelecer no mercado de trabalho, para o nordeste, onde há “supostamente” menor quantidade de profissionais qualificados. Nesses termos, assistimos no Nordeste brasileiro uma ampla migração de pessoas que no centro-sul estavam em classes desfavorecidas pela falta de vagas no mercado de trabalho e, ao chegarem no Nordeste, ocupam cargos mais qualificados, saindo, dessa maneira, da esfera de classe estratificamente menos favorecida para alcançar prestígio nessa região. A mobilidade descendente ocorre quando um indivíduo perde o prestígios e o status inerente à sua classe, assim decaindo na pirâmide social. Um exemplo disso pode ser dado na passagem do antigo regime para o sistema capitalista na Europa, onde os nobres e clero eram as camadas sociais de maior prestígio e, após as Revoluções Burgueseas, tornaram-se classes inferiores, enquanto a burguesia tomava as rédeas do processo sócio-histórico. Assim a burguesia: [...] passou a dominar, destruiu as relações feuda- is, patriarcais e idílicas. Dilacerou sem piedade os laços feudais, tão diferenciados, que mantinham as pessoas amarradas a seus ‘superiores naturais’, sem pôr no lugar qualquer outra relação entre os indivíduos que não o interesse nu e cru do paga- mento impessoal e insensível ‘em dinheiro’. [...] Em uma palavra, no lugar da exploração encoberta por ilusões religiosas e políticas ela colocou uma exploração aberta, desavergonhada, direta e seca (MARX; ENGELS, 1988, p. 10). FILOSOFIA100 Nesse tipo de mobilidade o indivíduo muda de status e de camada social. Fato que não ocorre na mobilidade horizontal. A mobilidade horizontal é aquela em que o indivíduo muda apenas de posição social inter-grupo. Essa mobilidade acontece quando o indivíduo muda de status mas não de grupo social. O exemplo bem claro disso é quando um indivíduo exerce a função de professor de Ensino Médio e depois consegue, por mérito e competência comprovada, passar para o cargo de professor de nivel superior. Nesses termos, o indivíduo continuará na classe média, porém com mudança de posição e status dentro do seu próprio estrato social. Conforme Weber, nesne tipo de mobilidade não há alteração no estilo de vida nem no acesso a novas oportunidades. Segundo Nova (2008, p. 155): Se um indivíduo muda de emprego, ou mesmo de ocupação, mas não altera substancialmente as suas oportunidades de vida, mesmo que essa mu- dança tenha resultado em aumento ou diminuição de seus ganhos pecuniários, houve aí mobilidade horizontal. Sociedades abertas e fechadas Sociedades abertas são aquelas em que a organização social é considerada secularizada, ou seja, em que prevalece a racionalidade e o utilitarismo em detrimento da tradição e dos costumes. Nessa configuração social os indivíduos tendem a ter maiores mecanismos que possibilitam oportunidades de mudança de status. Em uma sociedade de classes, sociedade capitalista, há canais em que o indivíduo pode lutar para se mover socialmente: através da qualificação profissional, empreendedorismo, negócios etc. Por outro lado, existem sociedades fechadas, aquelas em que a tradição, os costumes e os laços de sangue são mais importantes do que a obtenção de riquezas como fundamento do status social. Os dois grandes exemplos desse tipo de configuração são as castas e os estamentos. Em ambas, o estrato que um indivíduo pertence é dado pelo nascimento e tradição, nesses termos não há como mudar de camada social. SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 4 101 Porém, é importante destacar que nas sociedades aristocráticas, no caso a estamental, há uma pequena possibilidade de mobilidade, como ocorria na Idade Média (compra de títulos de nobreza, a nobreza de toga). Observe os critérios de estratificação social: • distribuição de renda: desigualdade econômica; • distribuição de capital cultural: acesso a educação e bens culturais; • distribuição de papéis sociais: profissões diferenciadas de acordo com as classes sociais; • divisões por nacionalidade e etnia; • castas ou estamentos: não há mobilidade social; • classes sociais: sociedade burguesa;há a possibilidade de mobilidade. Os tipos de estratificação social Castas O sistema de estratificação por castas fundamenta o que chamamos, anteriormente, de uma sociedade fechada, em que a mobilidade social é interditada pela fundamentação herdada da posição social e status. Desse modo, nesse sistema, as hierarquias e status social são definidos de geração a geração por herança e nascimento. Nas castas o status, oportunidades e estilo de vida serão definidos pelo nascimento e hereditariedade, desse modo quem nasce párea, morrerá párea. Mesmo que um estrato inferior adquira riquezas econômicas, este não terá ascensão social, pois o parâmetro para tal é o prestígio e nobreza herdado de sua família. A configuração em castas mais conhecida é a da índia, chamado de sistema Vama, este estrutura-se: Fonte: http://pt.wikipedia.org/ wiki/Ficheiro:Caste_AS.jpg Figura 2 FILOSOFIA102 • Brahmin (cabeça): é a casta mais elevada e de maior prestígio, representa a cabeça de BRAHMA (entidade religiosa hindu). Esse estrato social é formado por aqueles que, supostamente, possuem maior sabedoria e desapego por terem nascido da cabeça de Brahma. Seriam os sacerdotes, filósofos e professores. • Ksatrya (braços): são os responsáveis pela defesa do povo e dos estratos pensadores, supostamente teriam se originado dos braços de Brahma. Esse estrato social também é dotado de prestígio e grande nobreza, dele faz parte os militares e os governantes. • Vaishya (perna): está é a camada social responsável pelos negócios, trabalho agrícola e comércio, possuem grande capital financeiro, mas menor prestígio e nobreza. Esse estrato tem como origem mitológica as pernas de Brahma, assim, compõe- se de comerciantes e agricultores. • Shudra (pés): é a camada social de menor prestígio e nobreza, são os descendentes dos pés de Brahma, por isso são responsáveis pelos trabalhos manuais considerados de menor prestígio e nobreza. Essa classe é formada pelos artesãos, operários e camponeses. Esse sistema de castas indiano foi abolido com a implantação da Constituição de 1949, porém a força da tradição e dos costumes não foi ainda totalmente superada pela secularização das normas (elaboração do direito positivo, direito de Estado). Destarte, há na índia contemporânea dois sistemas de estratificação: a tradicional casta, e o secular sistema de classes. Por ser um sistema em que o status e prestígio são transmitidos por nascimento, há grandes restrições nos casamentos entre estratos diferentes. Na realidade, é proibido o casamento entre estratos desiguais, assim, um shudra nunca poderá casar-se com um vaishya. Esse sistema de casamentos endogâmicos permite a imobilidade social e a reafirmação do sistema de estratificação. SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 4 103 ANA E O REI (1999) SinopSe: Em 1860, a inglesa Anna Leonowens (Jodie Foster), viúva, viaja até o Sião para ser tutora dos 58 filhos do Rei Mongkut (Chow Yun-Fat). Divergências, choque de culturas e até o início de um romance marcam o relacionamento entre Anna e Mongkut. (http://www.adorocinema.com/ filmes/anna-e-o-rei/) Direção: Andy Tennant Gênero: Drama elenco: Jodie Foster, Chow Yun-Fat, Ling Bai, Tom Felton, Randall Kim, Kay Siu Lim, Melissa Campbell e Keith Chin. Classes A estrutura de classes sociais é típica de sociedades racionalizadas pela secularização gerada pelo modo de produção urbano-industrial. As sociedades abertas são exatamente as sociedades com estratificação em classes sociais. Os fundamentos de uma estratificação em classes sociais é o acesso a riquezas, propriedades de bens e meios de produção. Em uma sociedade de classes a divisão em camadas revela a desigualdade eco- nômica propriamente dita. Como as diferenças de estilo de vida, oportunidades e status têm como elemento fundamental o fator riquezas, abre-se a possibilidade de maior mobilidade social, pois há uma máxima na sociedade capitalista: “se você trabalhar poderá alcançar grandes riquezas”. É lógico que dentro de um sistema de classes as oportunidades de ascensão são mais amplas, porém, não quer dizer que são fáceis. Alcançar os altos setores sociais, as classes altas, requerer janelas de acesso que não são tão amplas. É importante deixar claro que na sociedade de classes há pelo menos a possibilidade, ainda que difícil e restrita, de mobilidade social. Fonte: http://horaderelaxar.com.br/wp-content/ uploads/2008/11/piramede-do-capitalismo-1.jpg Figura 3 FILOSOFIA104 É fácil escutar nos dias atuais que se você buscar qualificação, cur- sos universitários, mestrados, doutorados, alcançará ascensão so- cial. Dentro de uma sociedade de classes, a qualificação profissio- nal pode ser uma via de ascensão, desde que haja um mercado de trabalho com carências nas áreas da qualificação. Em casos em que o mercado de trabalho não está aberto, e nem necessita de maio- res qualificações, a educação acaba por produzir mais frustrações sociais que ascensão. Caso ocorra ascensão social de um setor pobre para um setor elite (ganho de um prêmio na loteria, jogador de futebol) a assimilação e incorporação à classe mais alta, pelo menos no sentido do estilo de vida, não ocorre automaticamente. Esse indivíduo, também co- nhecido como “novo rico”, obterá maiores oportunidades de aces- so aos bens e serviços, mas demandará tempo para sua adaptação ao novo estilo de vida, e não será aceito de imediato. Nas sociedades capitalistas podemos definir três grandes estratos sociais: elite (composta pela elite política e por proprietários dos meios de produ- ção e das maiores fontes de riqueza, poder político e intelectual); classe média (estrato intermediário forma- da por profissionais liberais, médicos, advogados, professores, contadores, altos funcionários públicos); pobres (são os trabalhadores e operários que possuem apenas sua força de traba- lho e vivem de salário). Conforme Marx, as classes são produtos da estrutura econômica, são efeitos da estrutura (ver capítulo 2). É da divisão social do tra- balho que surgiriam as classes. O autor define que classes sociais são divisões da sociedade que surgiram em decorrência de confli- tos e antagonismos gerados pela desigualdade de condições e de propriedade dos meios de produção e riquezas. Desse modo, Marx concebe que em uma sociedade de classes o que move os processos de transformação são conflitos entre classes: luta de classes. Fonte: http://parroquiaicm.files. wordpress.com/2008/07/capitalismo. jpg Figura 4 SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 4 105 A PROCURA DA FELICIDADE (2006) SinopSe: Chris Gardner (Will Smith) é um pai de família que enfrenta sérios problemas financeiros. Apesar de todas as tentativas em man- ter a família unida, Linda (Thandie Newton), sua esposa, decide par- tir. Chris agora é pai solteiro e precisa cuidar de Christopher (Jaden Smith), seu filho de apenas 5 anos. Ele tenta usar sua habilidade como vendedor para conseguir um emprego melhor, que lhe dê um salário mais digno. Chris consegue uma vaga de estagiário numa im- portante corretora de ações, mas não recebe salário pelos serviços prestados. Sua esperança é que, ao fim do programa de estágio, ele seja contratado e assim tenha um futuro promissor na empresa. Porém seus problemas financeiros não podem esperar que isso ac- onteça, o que faz com que sejam despejados. Chris e Christopher passam a dormir em abrigos, estações de trem, banheiros e onde quer que consigam um refúgio à noite, mantendo a esperança de que dias melhores virão. (http://www.adorocinema.com/filmes/a-procura- da-felicidade) Direção: Gabriele Muccino Gênero:Drama elenco: Will Smith, Jaden Smith, Thandie Newton, Brian Howe, James Karen. Estamento Forma de estratificação social típica das sociedades aristocráti- cas. Nela o prestígio tem peso maior que a riqueza; assim, o nobre, mesmo empobrecido, não perde o prestígio recebido por herança. A localização do indivíduo na hierarquia social não é so- mente uma realidade econômica, mas de direito, ou seja, o nobre é superior, pois nasceu nobre, e o plebeu é inferior por nascer plebeu. Nessas sociedades, os di- reitos e deveres dos membros dos estamentos são defi- nidos por lei. Fonte: http://farm4.static.flickr. com/3228/2856323360_caed42b891.jpg Figura 5 FILOSOFIA106 Até o século XVIII, a França estava dividida em três estamentos: nobreza, alto clero e Terceiro Estado. Este último heterogêneo: camponeses, artesãos, comerciantes, banqueiros etc. Dentro dele temos a burguesia, categoria social dedicada às atividades comer- ciais e financeiras, com grande poder econômico, mas sem prestígio político. A Revolução Francesa (1789) extinguiu a diferenciação legal dos indivíduos proclamando a igualdade dos cidadãos perante a lei, o que permitiu à burguesia se afirmar politicamente. Com a extinção da sociedade estamental e ascensão política da burguesia, nasce a sociedade de classes. CASTRO, A. M. de. Introdução ao pensamento sociológico: coletâ- nea de textos. São Paulo: Centauro, 2001. CHINOY, Ely. Sociedade: uma introdução à Sociologia. 20. ed. São Paulo: CULTRIX, 2008. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O manifesto comunista: 150 anos depois. Rio de Janeiro: Contraponto; São Paulo: Perseu Abramo, 1998. TURNER, Jonathan. Sociologia: conceitos e aplicações. São Paulo: MAKRON BOOKS, 2000. VILA NOVA, Sebastião. Introdução à Sociologia. São Paulo: Atlas,2008. WEBER, Max. Economia e Sociedade. Brasília: UnB, 1991. Faça um organograma que descreva a estrutura de status e papel que você faz parte na sociedade. Conceitue e exemplifique os tipos de estrutura social. 1 2 3 SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 4 107 Diferencie os tipos de estratificação social. O sistema de castas da Índia é uma divisão social importan- te na sociedade Hindu, não apenas na índia, mas no Nepal e noutros países e populações de religião Hindu. Embora geralmente identificado com o hinduísmo, o sistema de cas- tas também foi observado entre seguidores de outras re- ligiões no subcontinente indiano, incluindo alguns grupos de muçulmanos e cristãos. A Constituição Indiana rejeita a discriminação com base na casta, em consonância com os princípios democráticos e seculares que fundaram a nação. Barreiras de casta deixaram de existir nas grandes cidades, mas persistem principalmente na zona rural do país. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_de_castas_ da_%C3%8Dndia). Levando em consideração o texto acima, por que o sis- tema de castas na Índia ainda persiste nas regiões rurais, apesar da abolição? Pesquise na internet para fundamen- tar sua resposta. 4 OBJETIVO DESTA UNIDADE: UNIDADE 5 OBJETIVOS DESTA UNIDADE Apresentar o conceito e função de instituições sociais; Apresentar as principais instituições sociais na vida moderna com seus elementos básicos. INSTITUIÇÕES SOCIAIS O que queremos dizer quando falamos que a família, a educa- ção, a religião, o governo, a economia são instituições sociais? Qual a função das instituições sociais em nossas vidas? Nesta unidade pretendemos responder essas questões estudan- do mais detalhadamente algumas das principais instituições presentes em nosso cotidiano. Émile Durkheim, na obra As regras do método sociológico, apre- sentou a sociologia como “ciência das instituições, de sua gênese e de seu funcionamento” Durkheim (apud NOVA, 2000, p. 161). O qUE É UMA INSTITUIÇÃO SOCIAL? Instituições sociais são conjuntos de valores, crenças, normas, status (posições) e papéis referentes a campos específi cos de atividade e necessidade humanas. Elas estabelecem o modo socialmente aceito de satisfazer determinadas necessidades e realizar certas atividades (NOVA, 2000). Assim, elas podem Status é a posição socialmente identifi cada que cada um dos indivíduos ocupa na estrutura social. Isto é, é o lugar que ocupamos nas instituições que pertencemos. Papel é o comportamento normatizado e imposto socialmente que adotamos ao ocuparmos determinados status ou posições em cada instituição a qual pertencemos. FILOSOFIA110 ser vistas como um tipo especial de estrutura social que tem por função responder aos problemas humanos básicos sejam eles sociais ou biológicos, tais como garantir alimentação, abrigo, proteger e socializar as crianças, isto é, para manter efetivamente organizada a sociedade, através da regulamentação e do controle da população (TURNER, 2000). Nesse sentido, podemos dizer que as instituições são componentes que garantem estabilidade às sociedades. Para Nova (2000, p. 16): As instituições são criadas para resolver os proble- mas que cercam os homens, mas acabam ganhando vida própria ao serem impregnadas de símbolos culturais. As instituições tendem a se multiplicar com a complexidade da vida moderna. Além disso, elas são inter-relacionadas. Cabe frisar que, como salientou Nova (2000), quando falamos em instituições não estamos nos referindo a algo concreto, observável diretamente na sociedade. O termo instituição é uma construção teórica. O que observamos no real são grupos (primários como família, ou secundário como escola) que congregam coletividades reais. Nesse sentido, não observamos a família brasileira enquanto instituição, mas como uma amostra estatisticamente significativa de famílias que nos possibilita identificarmos características dos padrões culturais (valores, crenças, normas, comportamentos padronizados) dominantes na organização das relações de parentesco no Brasil. Você pode se perguntar agora: toda família organiza-se da mesma forma como a identificada enquanto família brasileira? A resposta é não. Algumas instituições são universais, existem em termos evidenciais em todos os tipos de organização social, ou seja, em todo tipo de sociedade. Essas instituições universais, chamadas de axiais, segundo Nova (2000, p. 161), “são centrais para a solução de um conjunto de atividades relativas à satisfação de necessidades humanas particulares, tais como família, religião”. Apesar dessas instituições serem universais, isto é, estarem presentes em todas as formas de sociedade, sejam elas urbanas/ industriais, rurais/agrárias, modernas ou tribais, elas variam na SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 5 111 forma de apresentação de sociedade para sociedade, por exemplo, a composição familiar da sociedade brasileira envolvente não é a mesma da família indígena timbira, que por sua vez pode variar de povo para povo, mas, no geral, a família timbira apresenta: casamento monogâmico, implicando na transferên- cia do marido para casa onde vive a mulher. A união se torna estável depois do nascimento do primeiro filho. Mas há ampla liberdade sexual para solteiros e casados. Casas contíguas oriundas do desdobra- mento de uma casa anterior são, por força da re- gra de residência pós-marital, relacionadas entre si por linha feminina e formam uma unidade social. As pessoas nascidas num mesmo segmento de ca- sas desse tipo não casam entre si. Tais segmentos são, pois, exogâmicos (http://www.amazoniama- ranhense.com.br/paggaviao3.html). Considerando que as instituições enquanto tais são abstrações teóricas, iremos apresentar algumas das principais instituições sociais. FAMíLIA E PARENTESCO A família é a primeira instituiçãosocial duradoura na história humana. Ela refere-se, segundo Nova (2000, p. 164), “à orientação e à regulamentação das relações de parentesco, da procriação, das relações sexuais e da transmissão dos componentes intermentais básicos da sociedade”. Ela é “um grupo de pessoas unidas diretamente por laços de parentesco, no qual os adultos assumem a responsabilidade de cuidar das crianças” (GIDDENS, 2000, p. 176). Por laços de parentesco entendemos que são “relações entre indivíduos estabelecidas através do casamento ou por meio de linhas de descendência que ligam familiares consanguíneos” (idem). Enquanto que o casamento pode ser entendido como uma união sexual e econômica entre dois indivíduos adultos, reconhecida e aceita socialmente. Assim sendo, numa perspectiva funcionalista, podemos dizer, segundo Turner (2000, p. 137), que “as relações Timbira é o nome que designa um conjunto de povos: Apanyekrá, Apinayé, Canela, Gavião do Oeste, Krahó, Krinkatí, Pukobyê. Outras etnias timbira já não se apresentam como grupos autônomos: os poucos nume- rosos Krenyê e Kukoikateyê vivem entre os Tembé e Guajajara, que falam uma língua tupi-guarani (Tene- tehara); os Kenkateyê, Kre- pumkateyê, Krorekamekhrá, Põrekamekrá, Txokamekrá, recolheram-se e se dissol- veram entre alguns dos sete povos timbira inicialmente enumerados. Os grupos timbira se localizam no sul do Maranhão, leste do Pará e norte do Tocantins. (http:// www.amazoniamaranhense. com.br/paggaviao.html). FILOSOFIA112 de família e parentesco preenchem certas condições básicas de sobrevivência”, isto é, têm por função garantir a manutenção do grupo social. As relações de parentesco sempre foram de fundamental importância para o funcionamento de outras instituições antigas (economia, educação, religião, política e governo), embora esse vínculo entre elas tenha se afrouxado ao longo dos anos, principalmente nas sociedades ocidentais, pois em algumas culturas mais tradicionais, como a indiana, ele ainda se mantém enraizado e, no caso do Brasil, apesar da nossa legislação vetar, por exemplo, o nepotismo, isto é, prática de empregar no funcionalismo público pessoas com vínculo de parentesco, essa ação ainda persiste. Formas de organização das famílias As formas de organização das famílias variam de sociedade para sociedade, refletindo as necessidades de sobrevivência particulares de cada uma. As regras para o casamento (enquanto criador e sustentáculo da família e dos sistemas de parentesco) são determinadas por normas culturais que definem quando e com quem casar. A escolha do parceiro nem sempre foi livre e em algumas sociedades ainda há situações de imposição. Em alguns sistemas de parentesco o casamento deve ser exogâmico, isto é, ocorrer fora da unidade familiar ou da comunidade, já em outros o que vale é a endogamia, isto é, casamento dentro do grupo específico. No geral as regras que regem o casamento passam pelo filtro da “proibição do incesto”, isto é, interdição do casamento (ou relação sexual) entre pessoas com determinado grau de parentesco. Observe que a interdição se dá baseada na relação de parentesco e não na consanguinidade, portanto, a explicação para a proibição do incesto não pode ser sustentada apenas com base nos problemas genéticos que podem surgir. Nepotismo (do latim nepos, neto ou descendente) é o termo utilizado para designar o favorecimento de parentes em detrimento de pessoas mais qualificadas, especialmente no que diz respeito à nomeação ou elevação de cargos. Originalmente a palavra aplicava-se exclusivamente ao âmbito das relações do papa com seus parentes, mas atualmente é utilizado como sinônimo da concessão de privilégios ou cargos a parentes no funcionalismo público. Distingue-se do favoritismo simples, que não implica relações familiares com o favorecido (http:// pt.wikipedia.org/wiki/ Nepotismo). SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 5 113 Segundo Lobato (1999, p. 15 ): A prevalência dos laços de parentesco sobre os de consanguinidade, na instituição da proibição do incesto, aparece claramente em sociedades cujo sistema de parentesco é unilinear. Com efeito, nessas sociedades a relação tida como incestuosa atinge certos parentes, os primos paralelos (filhos de irmãos do mesmo sexo), que, do ponto de vista da consanguinidade, são idênticos aos primos cruzados (filhos de irmãos de sexo diferente), sobre cujo relacionamento não há nenhuma interdição, uma vez que, de acordo com o sistema unilinear, eles não são parentes entre si, já que cada um deles pertence a um grupo de parentesco diferente. Para uma discussão mais aprofundada sobre o tabu do incesto veja Claude Lévi-Strauss (1970 - 1976). Ele foi um antropólogo, profes- sor e filósofo francês. É considerado o fundador da antropologia estruturalista e o seu livro As estruturas elementares do paren- tesco publicado em 1949 é um dos mais importantes estudos sobre família já realizado. O título é uma paráfrase ao título do livro de Émile Durkheim, As formas elementares da vida religiosa (http:// pt.wikipedia.org/wiki/Claude_L%C3%A9vi-Strauss). Outra referên- cia relevante é o livro A origem da família, propriedade privada e Estado, de Engels, em que se discute o papel da propriedade priva- da nos processo de definição da família enquanto instituição social, e o surgimento da família nuclear burguesa. Assim, uma explicação pautada na biologia não se sustenta. Também não se sustenta uma explicação pautada na psicologia que nos levaria a pensar numa repulsa natural do desejo por determinadas categorias de parentes. Se houve essa naturalização não seria necessário a sociedade estabelecer a norma da proibição. Esta se torna naturalizada por meio do processo de socialização. Segundo Turner (2000, p.138) as regras de parentesco são importantes também para determinar as regras de descendência, isto é, determinar o lado da família que deve ser considerado o mais importante. Neste caso há três possibilidades: 1) descendência patriarcal que se pauta na figura masculina, portanto, é a família do Socialização é a assimilação de hábitos característicos do grupo social ao qual pertencemos. É todo o processo através do qual um indivíduo se torna membro funcional de uma comunidade, assimilando a cultura que lhe é própria. É um processo contínuo que nunca se dá por terminado. Socialização é o processo através do qual o indivíduo se integra no grupo em que nasceu adquirindo os seus hábitos e valores característicos. A socialização é, portanto, um processo fundamental, não apenas para a integração do indivíduo em sua sociedade, mas, também, para a continuidade dos sistemas sociais. Fonte: http://3.bp.blogspot. com/_sgBxk4viPT0/SNKkjSXBJZI/ AAAAAAAAABU/pZrjjV2F3zc/ s1600-h/familia.jpg Figura 1 - A família nuclear FILOSOFIA114 pai a mais importante; 2) descendência matriarcal que é pautada na figura da mulher, sendo os parentes homens das mulheres os principais transmissores da propriedade e da autoridade; e 3) descendência bilateral, em que ambos os lados tem a mesma importância. Outra forma de organização das famílias passa pela composição de seus membros. Dessa maneira, tem-se a chamada família nuclear, composta por dois adultos (figura paterna e materna), vivendo juntamente com seus filhos. Essa é a típica família urbano-industrial. Por outro lado, tem-se a chamada família extensa, composta por duas ou mais famílias nucleares ligadas por consanguinidade, casamento ou agregação, geralmente avós, tios, irmãos etc. Como exemplo desse tipo de composição familiar tem-se as famíliastradicionais agrárias. A composição numérica das famílias geralmente dá-se baseada na necessidade de sobrevivência do grupo, isto é, em muitas sociedades as famílias extensas são unidades de consumo e produção, necessitando, portanto, da força de trabalho de seus membros. Esse é o caso, por exemplo, das famílias extensas no meio rural. Já as famílias nucleares, predominantes nos centros urbanos, são apenas unidades de consumo e o seu tamanho ideal, portanto, deve ser pequeno. A família nuclear é considerada pela teoria funcionalista como o modelo organizacional particularmente apropriado para garantir a sobrevivência da sociedade, uma vez que a sua universalidade e difusão são evidências “da sua capacidade de fornecer a base para a regulação da atividade sexual, a cooperação econômica, a reprodução, a socialização e o apoio emocional” (MURDOCK; PARSONS apud BRYM, 2006, p. 360). A família nuclear pode ser expandida “horizontalmente” através da poligamia ao acrescentar mais de um cônjuge à família. A poligamia ainda é legalmente permitida em alguns países da áfrica e da ásia, no Brasil ela é permitida pela Constituição Poligamia. União conjugal de um idivíduo com vários outros, simultaneamente Fonte: http://acertodecontas.blog.br/wp-content/ uploads/2008/09/j-b-debret.jpg Figura 2 - A família extensa SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 5 115 de 1988 aos grupos indígenas devido o reconhecimento da autonomia de suas regras de parentesco. Porém, a poligamia, onde é aceita, nem sempre é permitida a todos os membros da sociedade, até mesmo entre alguns grupos indígenas brasileiros ela é um privilégio restrito a determinados indivíduos que se encontram no topo da hierarquia social, como, por exemplo, entre os tupinambás, em que a maioria dos homens só possui uma única esposa, mas os grandes guerreiros e caciques podem usufruir da poligamia (RAMINELLI apud BRYM, 2006, p. 360). Cabe ressaltar que o fator econômico é importantíssimo para a prática da poligamia onde ela é aceita, pois na maioria das sociedades poligâmicas as famílias tendem à monogamia (casamento com um único cônjuge) devido à falta de condições materiais para o sustento de muitas mulheres e filhos, no caso da poliginia. Não podemos esquecer que existe também a poliandria, isto é, o casamento de uma mulher com mais de um marido, embora seja muito menos comum. Cabe ressaltar que a família nuclear poligâmica não se confunde com a família extensa, na medida em que esta se expande “verticalmente”, acrescentando à família nuclear membros de outras gerações. O desenvolvimento da vida familiar Segundo Giddens (2002, p. 178), o sociólogo e historiador Lawrence Stone realizou um estudo sobre as mudanças na vida familiar, percorrendo um período de trezentos anos, indo desde as formas medievais europeias até as famílias modernas. Com esse estudo o autor distinguiu três fases de desenvolvimento da família: do início do século XVI a estrutura familiar predominante era a nuclear que vivia numa habitação modesta e inserida em relacionamentos comunitários, incluindo outros parentes. Segundo Stones (apud GIDDENS), nessa época, as pessoas não obtinham intimidades emocionais na vida familiar, nem o sexo no casamento era visto como fonte de prazer, mas apenas como necessário para a procriação. FILOSOFIA116 Também não havia liberdade de escolha do parceiro, tudo estava atrelado a interesses diversos, fossem dos pais, parentes ou da própria comunidade. Stones entendia a família dessa época como “uma instituição flexível, discreta, impassível e autoritária, era, ainda, efêmera devido a morte prematura dos maridos ou esposas”. Do início do século XVII até o início do século XVIII predominou a família nuclear autônoma dos laços de parentesco e da comunidade local, começando a enfatizar o amor conjugal e paternal. Na última fase identificada por Stones, segundo Giddens (2002, p. 178), desenvolveu-se gradualmente o modelo de sistema familiar que se tornou típico nos países ocidentais. Nesse tipo de organização familiar os grupos são formados por laços emocionais, a partir de escolhas pessoais guiadas por atração sexual ou pelo amor romântico que serão exaltados no seio do casamento e não em relações extraconjugais. As famílias possuem alto nível de privacidade e preocupam-se com a criação e educação dos filhos. Mudanças nos padrões familiares Apesar dessa identificação de formas de organização familiar realizada por Stones, existe uma diversidade de arranjos familiares no mundo. Alguns sociólogos funcionalistas, como Popenoe (apud, BRYM, 2006, p. 359) “acreditam na redução da família com base em uniões formais entre homens e mulheres e no aumento da incidência da mãe que trabalha fora como o responsável por muito das “patologias sociais”. Já outro grupo de sociólogos, influenciado pela teoria do conflito e pela teoria feminista, argumenta que não se pode falar em a família (no singular), pois esta instituição social não assume só uma forma. As famílias se estruturam, segundo eles, conforme as exigências das pressões sociais, além disso, esses novos arranjos não levam necessariamente a deterioração da qualidade de vida das pessoas. Muito pelo contrário, pode contribuir para melhorar a vida de homens, mulheres e crianças. Assim sendo, a família nuclear tradicional tende a dividir espaço com outras formas de arranjos familiares. SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 5 117 Um exemplo desses novos arranjos é o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Atualmente oito países (Holanda, Bélgica, Canadá, Hungria, Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Islândia, Espanha e Alemanha) reconhecem a união entre homossexuais, concedendo-lhes os direitos de um casamento legal. Canadá, Holanda e Bélgica foram os três primeiros a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. As famílias homossexuais e heterossexuais diferem, segundo Brym (2006), quanto ao grau de satisfação conjugal quando têm filhos, isto é, casais de lésbicas com filhos têm mais satisfação conjugal do que os casais que não os têm, enquanto que nos casais heterossexuais ocorre o contrário, segundo Koepke e Moran (apud BRYN, 2006, p. 383). Outra diferença apontada pelos autores é o tempo de dedicação das parceiras das mães lésbicas com relação aos parceiros das mães heterossexuais, as primeiras dedicam mais tempo cuidando dos fi- lhos do que os segundos. Além disso, segundo Zinn e Eitzen (apud BRYN, 2006, p. 384), [...] há uma tendência dos casais homossexuais a serem mais igualitários e dividirem com mais igual- dade as decisões e as tarefas domésticas, igualdade essa propiciada pelo fato dessas pessoas terem a mesma socialização de gênero e tenderem a ter renda aproximada. Outro exemplo desses novos arranjos familiares são as famílias chefiadas por mulheres. As famílias que têm a mulher como o provedor e, consequentemente, o chefe, têm aumentado estatisticamente a cada ano. As causas são variadas, mas podemos Fonte: http://1.bp.blogspot.com/_bpRreEwps_g/SaQrLi08z4I/AAAAAAAAB0M/ XjaFI6RTvB8/S660/euaceito.jpg Fonte: http://robotactionboy. blogdns.org/william/gaysimpsons.jpg Figura 3 - Novos arranjos matrimoniais Figura 4 FILOSOFIA118 destacar o movimento de emancipação feminina, cada vez mais as mulheres têm conseguido independência financeira (seja ela por necessidade ou por satisfação pessoal via qualificação profissional), além da necessidade de assumir a responsabilidade da família quando a relação conjugal acaba e o marido desaparece, ou não consegue sustentar os filhos dessa relação. Assim, essas mulheres até ganharam um nome particular,são as chamadas “Pães”. Segundo dados do IBGE, de 1996 a 2006: [...] o número de mulheres que se declararam como a pessoa de referência da família aumentou de 10,3 milhões para 18,5 milhões no Brasil. A taxa de ocupação dos filhos foi maior nas famílias chefi- adas por mulheres: 44,1%, contra 40,3% nas famíli- as chefiadas por homens. Essas são algumas das conclusões da Síntese dos Indicadores Sociais 2007, elaborada na maior parte com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). Os resultados da PNAD (2006) mostraram ainda a tendência já verifi- cada nos últimos 10 anos – crescimento da proporção de pessoas que vivem sozinhas, dos casais sem filhos, das mulheres sem cônjuge e com filhos na chefia das famílias e, também, uma redução da proporção dos casais com filhos. Esse fenômeno é fruto de um conjunto de fatores, tais como: o aumento da expectativa de vida, a redução da fecundi- dade das mulheres e a redução das taxas de mortalidade. Fonte: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 1996/2006. (1) Exclusive a população rural de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará e Amapá. Gráfico 4.1 - Distribuição dos arranjos familiares residentes em domicílios particulares, segundo o tipo de arranjo familiar - Brasil - 1996/2006 1996 (1) 2006 8,0 10,7 13,1 % 15,6 57,4 49,4 15,8 18,1 5,4 6,0 0,3 0,3 SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 5 119 Segundo a pesquisa do IBGE: [...] as famílias do tipo monoparental feminino se destacam nas áreas urbanas e metropolitanas, onde os aspectos culturais propiciam maior liberdade de comportamento. No conjunto do País, a mé- dia, em 2006, foi de 18,1%, mostrando crescimento de quase 3 pontos percentuais em relação a 1996 (15,8%). Nas Regiões Metropolitanas, a proporção variou de 16,6%, em Curitiba, a 25,5%, em Recife. Por outro lado, é surpreendente observar que são elevados os percentuais de arranjos com chefia feminina onde há presença de cônjuge. A média nacional foi de 20,7%, enquanto nas Regiões Metropolitanas os valores variaram entre 17,7%, na do Rio de Janeiro, a 30,5%, na de Fortaleza. Em geral, a representação da pessoa de referência recai sobre os homens. Duas principais hipóteses podem ser formuladas com vistas a explicar o aumento continuado desse tipo de arranjo no momento atual: um aumento de “poder” por parte das mulheres em suas famílias ou o desemprego dos homens. Assim, a sustentabilidade emocional e, mais recentemente, finan- ceira das famílias tem recaído sobre a mulher. Esta tem se sobre- carregado para cumprir com as novas demandas que a sociedade atual tem lhe imposto. A questão da sustentabilidade material das pessoas ronda os homens desde sempre. Numa perspectiva funcionalista, se não houver a garantia da comida as pessoas e a sociedade não sobrevivem. Dessa forma, a economia ocupa um lugar de destaque na vida dos seres humanos e por isso essa instituição tem uma profunda conexão com todas as outras. ECONOMIA A economia é a instituição social que organiza a produção, a distribuição e a circulação de bens e serviços. As atividades econômicas são institucionalizadas à medida que são explicadas por crenças, legitimadas por valores e reguladas Fonte: http://www.usp.br/ espacoaberto/arquivo/2007/ espaco85nov/ilustras/capa04.jpg Figura 5 - Mulher chefe de família FILOSOFIA120 por normas. Assim, em todas as sociedades, para a produção, a circulação e a troca de bens escassos, existem crenças, valores, normas posições e papéis determinados. Máximas de Bejanmini Lembre-se que o tempo é dinheiro. Para aquele que pode ganhar dez shillings por dia pelo seu trabalho e vai passear ou fica ocioso metade do dia, apesar de não gastar mais que seis pence em sua vadiagem ou diversão, não deve ser computada apenas essa despesa; ele gastou, ou melhor, jogou fora. mais cinco shillings. ‘Lembre-se que o crédito é dinheiro. Se um homem deixa seu dinheiro em minhas mãos por mais tempo que o devido, está me dando os juros, ou tudo o que eu possa fazer com ele durante esse tempo’. Isto atinge somas consideráveis quando alguém goza de bom e amplo crédito, e faz dele bom uso. “Lembre-se que o dinheiro é de natureza prolífica e geradora” (WEBER, 2001, p. 178). Todas as economias, segundo Turner (2000), funcionam pautadas na tecnologia (conhecimento sobre como controlar e transformar o meio ambiente), no trabalho (força humana dispendida nas atividades econômicas) e no capital (em forma de instrumentos de produção, bem como, em forma de dinheiro). Para entender essa tríade, vejamos a evolução da economia ao longo da história econômica. A evolução do trabalho ao longo da história humana marca a forma de produção da subsistência e como vivemos a nossa vida. Conforme Marx e Engels, é por meio do trabalho que o ser humano faz-se humano, pois somente por esse meio os indivíduos podem satisfazer suas necessidades e, assim, deixarem de ser alienados (ver capítulo 2). “A história dita universal não é outra coisa que a geração do homem pelo trabalho humano e o devir da natureza para o homem” (MARX,crítica). Tomando como base a citação acima, podemos identificar grandes momentos na evolução das técnicas de trabalho e seu impacto nas revoluções produtivas (reestruturações produtivas). Três SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 5 121 revoluções são identificadas como fundamentais nesse processo: a revolução agrícola, depois a revolução industrial e, por último, a revolução no setor de serviços. O desenvolvimento da agricultura Até por volta de 10 mil anos atrás todos os seres humanos eram nômades, vivendo em tribos que foram se fixando na terra gradativamente com a criação de animais e o cultivo da agricultura, utilizando para tanto ferramentas manuais simples. Somente há 5 mil anos os homens, já agricultores, inventaram o arado e, somando-o aos animais de grande porte, aumentaram substancialmente as áreas cultivadas (BRYM, 2006) Assim, sociedades horticultoras surgiram como dominadoras de conhecimentos sobre sementes, plantas e cultivos (tecnologia); pás, amoladores e outros incrementos manuais (capital); plantio, colheita (trabalho); e organização por parentesco (empresarial). Com o advento e dominação das técnicas agrícolas o homem sedendariza-se e possibilita o estabelecimento fixo de sociedade em regiões próximas aos grandes rios, surgem daí as primeiras civilizações nascidas às margens da Mesopotâmia e meso-américa. As civilizações mesopotâmicas, assim como as pré-colombianas, desenvolveram técnicas que conjugavam o esforço e trabalho humano para dominação da voracidade da natureza e uso desta para satisfação das necessidades de subsistência. Desse modo, as técnicas tornaram-se fatores elementares de desenvolvimento da sociedade. Podemos dizer que a invenção da charrua (arado primitivo), as técnicas de barragens, aterros e a canalização de rios na Mesopotâmia e nas civilizações pré-colombianas deram início ao primeiro grande processo de reestruturação produtiva, em que a humanidade passa de uma economia de coleta e trocas diretas, para uma economia de produção agrícola e sedentarizada. É importante destacar que a partir das técnicas agrícolas em expansão ocorre o fenômeno de utilização de força motriz A horticultura difere da agricultura por não utilizar fontes não-humanas de energia, como trator, escavadeira, motoserra etc. Técnica: sequência de operações definidas de atos coordenados, que chegam a uma transformação desejável das coisas que nos rodeiam, quer dizer, do meio inicial. Re- presenta aquilo que os homens chamam de processos técnicos, ou mais simplesmente técnicas (DUCASSÉ,1955). FILOSOFIA122 de animais e escravos para arar a terra e o gerenciamento de trabalhadores através da divisão de tarefas para as grandes construções, como os canais de irrigação, os canais de transporte (Egito, Astecas, Maias e Incas). Esses se constituíram os primeiros processos de gerenciamento de mão de obra e produção. No período medieval as warcrafts, ou artes de produção de armas, serão outro ponto culminante na evolução das técnicas (uso de metais), juntamente com a implementação de moinhos que utilizavam as forças eólicas e hidráulicas. O advento da sociedade feudal e novas relações de trabalho (servil) e a conjugação de engenhocas com o uso de forças da natureza vai elevar ainda mais o nível produtivo na Europa. Assim, a agricultura representou uma ruptura tecnológica significante em relação à horticultura por utilizar, além da força animal, a energia da natureza (água e vento) nos processos produtivos. Essa ruptura, segundo Turner (2000), estimulou o desenvolvimento tecnológico posterior como o surgimento da metalurgia e a fundição. Também houve um incremento do dinheiro, das ferramentas de metal, das rodovias etc. O trabalho ganhou em especialização e o empresariado mudou, deixando a vila e a família nuclear como forças de organização mais importantes. Essas foram suplantadas e substituídas pelos mercados, estruturas políticas feudais, casas mercantis, associações, ou seja, organizações que germinaram na moderna empresa. É importante destacar que no final da Idade Média há um amplo ressurgimento do comércio com abertura de rotas comerciais, comércio com as índias, surgimento de feiras (burgos), aumento da produção artesanal (corporações de ofício). À proporção que o sistema feudal entra em crise pela explosão populacional da baixa idade média, conjugada com a fome e a peste, devido à crescente decadência da produtividade, emerge o sistema econômico baseado na concepção burguesa de produção e trabalho (capitalismo). Inicialmente, os artesãos unem-se em corporações de ofício e organizam se em oficinas de manufatura (trabalho manual dividido em etapas de produção, o que Marx chamou de modo de produção SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 5 123 manufatureiro ou pré-capitalista). Com transformações estruturais na técnica, ou seja, a invenção da máquina conjugada à divisão do trabalho já operacionalizada nas manufaturas, surge, conforme Marx e Smith, a maquinofatura. A invenção do tear mecânico (na Inglaterra), das ferrovias, da máquina a vapor e mais tarde do motor à explosão, vão aumentar a complexidade das relações de trabalho e aumentar o nível de produtividade na economia, agora sim, capitalista industrial. É a partir das revoluções industriais que o capitalismo torna-se o sistema que aplica a técnica conjugada à ciência e produz um modo de produção preponderantemente tecnológico e tecnocrático (DUCASSÉ, 1955). As relações de trabalho deixam de ser entre o senhor e o servo, entre o senhor e o escravo, e passam a ser entre o patrão e o empregado. A propriedade deixa de ser servil e passa a ser privada, daí surgem as concepções político-econômicas denominadas liberais (nascidas na Inglaterra). A economia deixa de ser predominantemente rural e passa para a economia urbano-industrial. O desenvolvimento da indústria A industrialização é o processo de subordinar o poder inanimado das máquinas a serviço do trabalho em uma fábrica (TURNER, 2000). Esse processo foi iniciado há algumas centenas de anos , mas transformou o mundo. Nas economias industriais recorre-se à tecnologia (em constante aperfeiçoamento) para transformar e controlar o meio ambiente, a formação de capital envolve dinheiro e várias formas de acumulá-lo para investir na produção, o trabalho cada vez mais se especializa e a troca de bens se dá no mercado, incluindo o trabalho que é vendido como qualquer outra mercadoria. Com o estabelecimento da economia industrial, não só surgem as mercadorias, mas o próprio trabalho humano torna-se mercadoria. Nesses termos, Marx define que a sociedade capitalista é, antes FILOSOFIA124 de tudo, guiada pela relação de troca e aplicação de trabalho; o trabalho produz as mercadorias e é vendido como força de trabalho, ou embutido na mercadoria como fator de produção. Desse modo, a economia capitalista é um sistema econômico baseado no capital/trabalho. O capital é o valor econômico que é investido na produção ou em negócios financeiros. A economia capitalista é caracterizada por seu um sistema baseado na indústria, no trabalho assalariado e em uma economia de mercado. Na economia de mercado a propriedade dos fatores e meios de produção são privados e a forma reguladora é o preço definido pela oferta e procura. O capitalismo visa maximizar os lucros através de investimentos e produção. Como já vimos no CAPITULO 1 deste livro, lembremos do processo de surgimento do capitalismo e suas fundamentas características: advento da propriedade privada, trabalho assalariado, produção urbano-industrial e aplicação da ciência em prol do capital. Estamos falando da era da grande indústria fordista que intensifica a aplicação de conhecimento científico na produção em massa. No início até meados do século XX a economia industrial já estava consolidado com o paradigma produtivo denominado de Fordista, uma alusão ao nome de Henry Ford (1863-1947) que aplicou na sua fábrica um conjunto de procedimentos que visavam o aumento da produção com redução de custos. Para isso, ele tomou as ideias de Frederich Taylor (1856-1915), um engenheiro-consultor de gestão americano, centradas na noção de administração científica. TRABALHO MOEDA MERCADORIA VALOR DE TROCA VALOR DE USO SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 5 125 A Administração Científica formulada por Talyor para, inicialmente, o campo industrial, mas que foi adotada nos demais setores da economia, como o de prestação de serviços, comércio etc., tinha como princípios fundamentais: 1 – Separação programada da concepção/planejamento das tarefas de execução, isto é, separação entre trabalho intelectual (que caberia à gerência pensar o processo produtivo) e trabalho manual (que caberia ao trabalhador apenas executar o que a gerência determinasse). Nesse sentido, as iniciativas e o trabalho intelectual foram banidos do “chão de fábrica”, eles cabiam apenas à administração superior; segundo Taylor, “os trabalhadores não são pagos para pensar, mas para executar”. 2 – Intensificação da divisão do trabalho, através do estudo dos tempos e movimentos. O administrador deve juntar todo o conhecimento tradicional adquirido pelo trabalhador e classificar, tabular e reduzir esse saber a regras, leis e fórmulas, devolvendo-as ao trabalhador como “the one best way” (a melhor maneira de se executar uma operação). O objetivo era encontrar maneiras mais rápidas e eficientes para executar as tarefas, eliminando o chamado tempo morto. Cada tarefa corresponde a um posto de trabalho e graças a um criterioso processo de recrutamento era possível destacar-se o operário mais adequado para ocupá- lo (the right men in the rigth place). No período anterior o trabalhador escolhia seu próprio trabalho e treinava-se a si mesmo nas corporações de ofício, por exemplo, mas a partir de então ele deveria ser selecionado “cientificamente”, depois treinado, ensinado e aperfeiçoado nas tarefas que lhes foram atribuídas. Seguindo a mesma linha de Taylor, no que se refere à organização e sistematização da produção e do trabalho, Ford apropriou-se dessa forma de gestão e radicalizou-a. Ele articulou as ideias de Taylor da separação entre concepção/execução a fragmentação/rotinização/esvaziamento das tarefas e implementou-as em 1913, na sua fábrica de automóveis em Detroit, associando-as à noção de um homem/uma tarefa, com FILOSOFIA126 especialização desqualificante atuando numa linha de montagem acoplada à uma esteira rolante, ao controle do tempo de execução das tarefas estritamente orientadas por normas operacionais em um processo onde a disciplina se torna o eixo central da qualificação requerida. A adoção da linha de montagem numa esteira rolante, além de eliminar o tempo morto por evitar que o trabalhador tivesse que se deslocar, mantendo, assim, o fluxo contínuo e progressivo da produção, aumentou a produtividade do trabalho e do volume produzido, além de garantir a cadência do trabalho, passando a regular mecânica e externamente o trabalhador. Com esse novo formato de processo de trabalho e de organização da produção houve um aumento da produtividade industrial, com aumento de salários reais, aumentando, assim, o consumo em massa. Ford acreditava que para a produção em massa (fruto do aumento da produtividade assegurada pela sua forma de organização da produção) era necessário um consumo em massa, um novo sistema de reprodução da força de trabalho que lhe garantisse, pelo menos em parte, ter acesso aos bens produzidos. Assim, caberia à ação do poder corporativo, através do pagamento de salários e da redução da jornada de trabalho, propiciar aos trabalhadores tempo e renda para consumir os produtos que as corporações fabricavam em massa. Assim, Ford aumentou o salário dos seus operários no início da grande depressão de 1929, acreditando poder aumentar a demanda efetiva e, com isso, recuperar o mercado e restaurar a confiança da comunidade empresarial. Essa estratégia, somada com a intervenção estatal que adotou a política keneysiana do pleno emprego e o estabelecimento do Welfare State, foi a saída para a crise econômica de 1929. Com essa aliança entre capital, trabalho e Estado o mundo capitalista vivenciou um período de expansão e prosperidade que foi de 1945 a 1973, chamado pela literatura dos trinta anos gloriosos do capitalismo. SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 5 127 O período TAYLORISTA-FORDISTA pode ser também sintetizado como a era da grande indústria pesada, ou era do automóvel e do pleno emprego. A economia exigia um trabalho especializado, pouco criativo e bastante rígido. Em meados da década de 70, o modelo da grande indústria começa a entrar em crise devido a crise fiscal do Estado e constantes super-produções. A economia da grande indústria parece ter que se re-inventar, fato que será proporcionado pelo novo modelo econômico produtivo em gestação e ampliação: o toyotismo. O desenvolvimento da economia dos serviços O regime de acumulação fordista, apesar de ter sido o responsável em grande parte pela consolidação e expansão do capitalismo enquanto sistema hegemônico, a partir da década de 1960, começou a perder o fôlego. Esse paradigma da produção em massa, verticalizada de produtos padronizados, foi tornando-se obsoleto na medida em que os mercados consumidores foram ficando saturados (entrada do Japão nessa busca de mercados consumidores e dos países em desenvolvimento). Somando-se a isto, a partir dos anos de 1970, veio a crise do modelo econômico do pós-guerra pautado nas políticas de um Estado de bem-estar social na Europa e do new-deal norte americano, levando o mundo capitalista a uma longa e profunda recessão. O estado já não conseguia cumprir suas políticas assistenciais e havia, por outro lado, uma enérgica reação dos trabalhadores fortemente organizados em sindicatos. Esse novo padrão, denominado de acumulação flexível, foi pos- sibilitado, sobretudo, pela adoção de inovações tecnológicas (ci- bernética, biotecnologia, engenharia genética, microeletrônica, informática) chamadas de Terceira Revolução Industrial e foi ins- pirado no modelo japonês de organização do trabalho, denomina- do de Toyotismo. FILOSOFIA128 Esse modelo tem como elementos fundamentais: a economia de escopo, ou seja, produção em lotes menores e mais diversificação de modelos, totalmente voltada para as exigências dos mercados consumidores; as equipes de trabalho (também chamadas por grupos de trabalho ou células de produção) que passaram a ser autônomas para desenvolverem seu programa de trabalho obedecendo à meta fixada pela gerência sob os aspectos da qualidade e quantidade, sendo o trabalhador um elemento fundamental que tem valorizado o seu saber fazer; saber fazer este cada vez mais ampliado, tornando o trabalhador num ser polivalente. Assim, o modelo toyotista de organização do trabalho e da produção tem seu fundamento centrado na noção de flexibilidade que se opõe diretamente à rigidez do modelo fordista. Estamos agora diante de um paradigma que se centra na sociedade dos serviços, ou seja, a economia que antes se preocupava predominantemente com o aumento de produtividade, agora se volta para a invenção de serviços como mercadorias de alto valor agregado e de grande importância para agregar valores na produção. Surge daí uma produção flexibilizada e centrada na vontade e desejo do cliente de maneira personalizada (serviço Vip para agregação de valor ao produto). Atualmente, estamos no que os economistas e sociólogos chamam de economia de consumo de serviços altamente qualificados e de alta qualidade, como isso temos: os softwares de computador, os serviços de telefonia celular, servidores e provedores de internet, a expansão de franquias internacionais (HP, Mac Donald´s etc). Basta você refletir e se perguntar: compro mais mercadorias ou pago serviços? Gasto mais com as contas de celular ou com a compra do aparelho? Fonte: http://farm1.static.flickr. com/1/329966_f1e7e1eac1_m.jpg Mercados são relações sociais que regulam a troca de bens e serviços. Em um mercado os preços são estabelecidos com base na abundância dos bens e serviços (oferta) e em quanto eles são requeridos (demanda). Figura 6 SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 5 129 RELIGIÃO Diz respeito às relações que os humanos estabelecem com o domínio metaempírico (o intangível, o sobrenatural) da realidade, ou seja, com o que está para além da possibilidade de observação. A religião é uma instituição social que estabelece concepções, princípios éticos, normas de modo geral, formas de interpretar a realidade. Conforme Emile Durkheim, em As formas elementares da vida religiosa, a religião é uma instituição que estabelece a moral na sociedade, que fundamenta cosmovisões e assim dá sentido à vida de uma dada comunidade. Nesse sentido, o autor estabelece que não há religiões falsas, mas sim religiões diferenciadas, mas, o que lhes é comum, seria a produção de representações e referencias sócio-simbólicas que dão sentido à vida em sociedade. O principal objetivo da instituição religiosa é explicar os fenômenos existências humanos tentando responder: de onde viemos, para onde vamos e o que há depois da morte. Voltando a Durkheim, fica evidenciado que as religiões é que fun- damentaram as primeiras noções do pensamento coletivo, chama- das representações (noções de espaço, de tempo, de gênero, de número, de causa, de personalidade etc.). A religião tenta respon- der questões que a ciência e a verificabilidade não conseguem, assim tem o poder de ultrapassar o alcance dos conhecimentos empíricos. Acima de tudo, a religião é uma instituição, e as insti- tuições são fatos sociais. A instituição religiosa pode ainda ser definida como o conjunto de crenças baseados em dogmasque definem noções de mundo, realidade e princípios éticos. Esses dogmas têm como base a aceitação por meio da fé de uma comunidade de fiéis, que os seguem por meio da fé e da devoção. Segundo Max Weber, as crenças e valores religiosos têm um papel importante na definição das condutas dos indivíduos em sociedade. FILOSOFIA130 Na ética protestante e o espírito do capitalismo, o autor defendeu que a religião pode exercer uma poderosa influência na conduta prática dos indivíduos, como foi o caso da religião protestante em relação ao modo de produção capitalista. Weber pesquisou e analisou os valores e princípios que fundamentavam a religião protestante e percebeu sua sintonia com a racionalidade econômica inerente a concepção de empreendimento capitalista (tempo é dinheiro, Deus ajuda quem cedo madruga, a parábola dos talentos etc). Por outro lado, os marxistas entendiam que a religião era puro sistema de alienação: “religião é o ópio do povo”. Marx afirmava que as instituições religiosas apenas mascaravam e acomodavam a população à sua situação de pobreza e de explorados. O importante é compreender que a religião é uma instituição fundamental na vida social, ou seja, está presente em todas as sociedades, desde povos primitivos da antiguidade, civilizações mesopotâmicas, até sociedades pós-modernas atuais. Nesses termos é uma instituição axial. Recreação Recreação são as formas de manifestação social que visam aliviar as pressões do dia a dia. Geralmente são consideradas as festas, os rituais de descontração (como a malhação de Judas na semana santa) e as grandes manifestações culturais da população como carnaval, festas juninas, natal e ano novo. Os momentos de recreação vão desde as grandes festas convencionadas até festas de aniversário, casamentos, formaturas e carnavais fora de época. De modo geral são momentos em que a sociedade pára para extravasar as pressões e o estresse da vida cotidiana. No Brasil temos como exemplo: o futebol, o carnaval, as festas juninas, a copa do mundo. Fonte: http://livrepensar.files.wordpress.com/2009/06/ blogue-educacao-aquarela_01.jpg Figura 7 SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 5 131 Educação A educação é uma instituição universal encontrada em qualquer tipo de sociedade humana, não en- tenda que educação é apenas escolar ou formal. Este nível de educação é apenas uma manifesta- ção da educação enquanto instituição axial, nesses termos podemos verificar que em uma sociedade indígena a educação ocorre no processo de sociali- zação do indivíduo a partir do aprendizado da cul- tura, do trabalhar, da religião, dos conhecimentos e práticas tradicionais, independente de escola. Civilizações como as mesopotâmicas e greco- latinas não conheciam a educação escolar, fato que não nega a existência de educação. Na Idade Média os conhecimentos técnicos e profissionais eram passados na prática artesanal nas oficinas, não existia uma escola formal, nesse período as profissões passavam de pais para filho. Embora a escola tenha surgido na Idade Média nas catedrais (com a decadência dos mosteiros), somente na era capitalista a escola torna-se fundamental para a formação de profissionais para o exercício de funções na economia e no mundo do trabalho (revoluções industriais). De modo geral é importante destacar que a escola é apenas uma das diversas formas que a instituição axial educação pode se manifestar nas sociedades. É importante que o aluno consiga verificar que a educação tem como função universal: a manutenção, a continuidade e a transmissão das normas, dos valores, dos símbolos e das crenças: A educação constitui uma instituição universal pelo fato de que em todas as sociedades – das comuni- dades tribais às complexas sociedades urbano-in- dustriais – é necessário garantir não apenas a con- tinuidade biológica, mas, igualmente, a transmissão das normas, dos valores, dos símbolos e das crenças, enfim da estrutura intermental sem a qual nenhuma sociedade pode funcionar (NOVA, 2008, p.183). Fonte: http://www.meninomaluquinho.com.br/ imagensPaginas/mmp465_carnaval.gif Figura 8 FILOSOFIA132 Assim, a educação consiste nos processos de ensinar e aprender socialmente conteúdos culturais com o objetivo de perpetuar e transmitir de geração a geração o conhecimento, modos de ser, interpretar o mundo e práticas de uma dada sociedade. A educação é também um processo de socialização e é exercida nos vários espaços de convívio social, servindo para adequação dos indivíduos à sociedade, grupos e/ou classes a que pertence. De acordo com a Constituição Federal do Brasil e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, é o processo formativo que visa ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o mundo do trabalho. (http:// www.educabrasil.com.br/eb/dic/dicionario.asp?id=250) Política É a instituição social que visa o controle social formal, representação política da população. Política não é concebida aqui, simplesmente, como as formas do jogo do poder, mas sim as normas, as regras, as organizações e legislações que regram e fundamentam o controle social (organização e ordenamento da sociedade). Desse modo, a polícia é uma instituição política, o INSS é uma instituição política, um pajé em uma tribo exerce uma função de controle e regramento social que é política. A política, enquanto instituição axial, pode assumir várias formas que vão desde o estado moderno à organização tribal. É importante que o aluno distinga que a instituição axial política não é simplesmente o que nós ocidentais entendemos como poder público, mas engloba instituições de sociedade não-estatais. Mas o MEC (Ministério da Educa- ção e Cultura): LDB - Art. 1º A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas mani- festações culturais (LEI Nº 9.394, DE 20 DE DEZEMBRO DE 1996). Fonte: http://greenpack.rec.org/citizens_ rights/images/citizens_rights.jpg Figura 9 SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 5 133 que seriam sociedades não-estatais? Respondendo, as populações indígenas brasileiras não são estados-nação (saber mais), ou seja, não são reconhecidas internacionalmente como uma instituição que possui soberania, território, fronteiras definidas; ou ainda são sociedades que não criaram sistemas políticos aos moldes modernos (republicas, monarquias, tiranias), de modo resumido não são países. A instituição axial política resume-se ao caráter universal de controle e regulação das relações sociais, que na civilização ocidental vem sendo exercida pela forma estado-nação e suas formas de governo (monarquia, república e despotismo). Já em sociedades tradicionais e não-ocidentais, podemos verificar a ausência dessas manifestações modernas, fato que não define que são sociedades sem política. Essas sociedades apenas manifestam a instituição política de modo diferente, através das relações de liderança tradicional e tribal. NAÇÃO SEM ESTADO Uma das principais contribuições de Pierre Clastres para a antropologia foi sua crítica à visão, até então dominante, de que sociedades como as dos índios da América do Sul são mais “primitivas” ou “menos desenvolvidas culturalmente” do que sociedades mais hierárquicas, onde a presença do Estado é mais evidente – como no caso das sociedades Maia, Inca e Asteca. Ele procurou demonstrar a falsidade do pressuposto de que todas as sociedades necessariamenteevoluem de um sistema “tribal”, “comunista” e “igualitário” para sistemas mais hierárquicos. As sociedades não-hierárquicas, segundo seus estudos, possuem mecanismos culturais que impedem ativamente o aparecimento de figuras de comando – seja isolando os possíveis candidatos a chefe (como no caso dos Pajés), seja destituindo- os do poder do mando (como no caso dos chefes que só têm poder para aconselhar). Sendo assim, elas não estariam evoluindo em direção à estatização: ao FILOSOFIA134 contrário, configuram-se como verdadeiras sociedades “contra o Estado”, pois sua dinâmica cultural almejaria precisamente impedir a formação de uma classe de dirigentes e outra de dirigidos, (http://pt.wikipedia. org/wiki/Pierre_Clastres) Estado-nação Chama-se Estado-nação quando um território delimitado é composto por um governo e uma população de composição étnico-cultural coesa, quase homogênea, sendo esse governo produto dessa mesma composição. Isso ocorre quando as delimitações étnicas e políticas coincidem. Nesses casos, normalmente, há pouca emigração e imigração, poucos membros de minorias étnicas, e poucos membros da etnia dominante a viver além fronteiras (http://pt.wikipedia.org/wiki/Estado- na%C3%A7%C3%A3o) O que é a família nuclear tradicional e quão prevalente ela é em relação a outras formas de família? O estudo da religião pode enfraquecer ou não tem implica- ções necessárias para a fé religiosa do pesquisador? Qual a função da instituição política? Ela só existe nos mol- des da nossa sociedade? 1 2 3 SOCIOLOGIA GERAL | unIdAdE 5 135 TEMPOS MODERNOS (1936) SinopSe: Um operário de uma linha de montagem, que testou uma “má- quina revolucionária” para evitar a hora do almoço, é levado à loucura pela “monotonia frenética” do seu trabalho. Após um longo período em um sanatório ele fica curado de sua crise nervosa, mas desempregado. Ele deixa o hospital para começar sua nova vida, mas encontra uma crise generalizada e equivocadamente é preso como um agitador comunista, que liderava uma marcha de operários em protesto. Simultaneamente uma jovem rouba comida para salvar suas irmãs famintas, que ainda são bem garotas. Elas não têm mãe e o pai delas está desempregado, mas o pior ainda está por vir, pois ele é morto em um conflito. A lei vai cuidar das órfãs, mas enquanto as menores são levadas, a jovem consegue escapar. (http:// www.adorocinema.com/filmes/tempos-modernos/) Direção: Charles Chaplin Gênero: Comédia elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Henry Bergman, Tiny Sandford, Chester Conklin. KRAMER VS. KRAMER (1979) SinopSe: Ted Kramer (Dustin Hoffman) é um profissional para quem o trabalho vem antes da família. Joanna (Meryl Streep), sua mulher, não pode mais suportar essa situação e sai de casa, deixando Billy (justin Henry), o filho do casal, com Ted, que tudo faz para poder educá-lo, trabalhando e fazendo as tarefas domésticas. Quando consegue ajustar seu trabalho a essas novas responsabilidades, Joanna reaparece exig- indo a guarda da criança. Ted, porém, se recusa e os dois vão para o tribunal lutar pela custódia de Billy.( http://www.adorocinema.com/ filmes/kramer-versus-kramer/) Direção: Robert Benton Gênero: Drama elenco: Dustin Hoffman, Meryl Streep, Jane Alexander, Justin Henry, Howard Duff. FILOSOFIA136 EU TU ELES (2000) SinopSe: É a trajetória de Darlene (Regina Casé), uma bóia-fria do sertão nordestino, que vive uma curiosa relação com seus três maridos (Lima Duarte, Stênio Garcia e Luis Carlos Vasconcelos). Ela tira de cada um o que esses de melhor podem oferecer em meio a difícil vida sertaneja. Direção: Andrucha Waddington Gênero: Comédia elenco: Regina Casé, Lima Duarte, Stênio Garcia e Luis Carlos Vasconcelos. SOCIOLOGIA GERAL | REFERÊNCIAS 137 REFERÊNCIAS LOBATO, Josefina Pimenta Lobato. A proibição de incesto em Lévi- Strauss. Artigo publicado na Revista Oficina: Família, seus conflitos e perspectivas sociais, Belo Horizonte, ano 6, n 9, p.14-20, jun. 1999. ANTUNES, Ricardo. 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Burocracia – tipo de organização hierárquica que adquire a for- ma de uma pirâmide de autoridade. O conceito de burocracia foi popularizado por Max Weber como sendo a forma de organização humana em larga escala mais eficaz. Weber defende que à medida que as organizações se expandem, existe a tendência inevitável para se tornarem cada vez mais burocratizadas. Casamento - é uma união sexual e econômica socialmente aceita entre os membros do grupo. O casamento implica, quase sempre, duas pessoas de sexo oposto, embora em algumas culturas certos tipos de casamento entre homossexuais sejam aceito. O casamento forma normalmente a base de uma família de procriação, ou seja, espera-se queo casal tenha filhos e os eduque. Muitas sociedades permitem a poligamia, na qual um indivíduo pode ter vários cônju- ges ao mesmo tempo. Ciência – no sentido da ciência física, é o estudo sistemático do mundo físico. A ciência implica a ordenação e a disciplina de dados empíricos, a construção de abordagens teóricas que interpretem e expliquem esses dados. A atividade científica reúne a criação de audazes e novos modos de pensamento e o teste cuidadoso de FILOSOFIA140 hipóteses e ideias. Uma das características principais que permitem distinguir a ciência de outros tipos de conhecimento é o principio geral de que todas as ideias científicas estão abertas à discussão e revisão crítica por parte dos membros da comunidade científica. Classe – Embora seja um dos conceitos mais usados em sociologia, não há um consenso sobre o mesmo. Contudo, a maior parte dos sociólogos adota o termo quando se referem às diferenças socio- econômicas entre grupos de indivíduos que criam diferenças em termos de poder e propriedade material. Cultura – Normas, valores, bens materiais característicos de de- terminado grupo. Tal como o conceito de sociedade, a noção de cultura é usada com muita frequência em sociologia e nas outras ciências sociais. A cultura é uma das características próprias da associação humana. Desemprego – Situação em que o indivíduo não possui trabalho com todos os direitos trabalhistas assegurados, assim sendo, o tra- balhador informal pode tem ocupação, mas não um emprego. Divisão do trabalho – Divisão de um sistema produtivo em tarefas ou ocupações laborais específicas, criando interdependência eco- nômica. Todas as sociedades têm formas mais ou menos complexas de divisão do trabalho. As mais simples são baseadas em sexo e idade, com o desenvolvimento da industrialização essa divisão se complexificou. Economia – Sistema de produção e trocas que provê as necessida- des materiais dos indivíduos que vivem em determinada sociedade. As instituições econômicas são fundamentais em todo tipo de so- ciedade, uma vez que o que acontece a nível econômico influencia outras esferas da vida social. Educação – Transmissão de conhecimento e saberes de uma gera- ção para outro através da instrução direta. Embora exista processo educativo em toda sociedade, apenas no período moderno a edu- cação de massa ganhou a forma da escolarização, isto é, instrução em ambientes educacionais próprios nos quais os indivíduos passam vários anos da sua vida. SOCIOLOGIA GERAL | GLOSSÁRIO 141 Estado – Aparelho político (instituições governamentais e funcio- nalismo público) que governa uma dada ordem territorial, cuja au- toridade é baseada na lei e que tem capacidade para usar a força. Nem todas as sociedades se caracterizam pela existência de um es- tado. As sociedades de caçadores-coletores e pequenas sociedades agrárias não têm instituições estatais. O aparecimento do estado marca uma transição na história da humanidade, na medida em que a centralização do poder político, que a formação de estado implica, introduz novas dinâmicas no processo de mudança social. Estado-Nação – Tipo particular de estado, característico do mun- do moderno, no qual um governo detém o poder soberano sobre um território definido e onde a grande massa da população é for- mada por cidadãos que têm consciência de pertencerem a uma única nação. Os estados-nação são relacionados ao aparecimento do nacionalismo, embora as lealdades nacionalistas nem sempre estejam de acordo com as fronteiras dos estados que hoje existem. Eles surgiram primeiramente na Europa e depois se espalharam no mundo todo. Estratificação Social – Existência de desigualdades estruturais en- tre grupos de uma sociedade em termos de acesso a bens mate- riais ou simbólicos e serviços. Embora todas as sociedades tenham formas de estratificação, só com o advento do sistema estatal emergiram diferenças em termos de riqueza e poder. Nas socie- dades modernas a forma clássica de estratificação é o sistema de classe social. Estrutura Social – Padrões de interação entre indivíduos ou grupos. A vida social não acontece de modo imprevisto. A maioria das nos- sas atividades são estruturadas: estão organizadas de uma forma regular e repetitiva. Embora a comparação possa ser duvidosa, é necessário pensar a estrutura social de uma sociedade como algo comparável aos suportes que sustentam e mantêm um edifício. Família – Grupo de indivíduos ligados entre si por laços de sangue, de casamento ou adoção, que formam uma unidade econômica, em que os membros adultos são responsáveis pela educação e sustento das crianças. Todas as sociedades conhecidas têm alguma forma de FILOSOFIA142 sistema familiar, embora a natureza das relações familiares seja muito variável. Nas sociedades modernas a forma clássica é a fa- mília nuclear. Globalização – Interdependência crescente entre pessoas, regiões e países no mundo. Grupos Sociais – Conjunto de indivíduos que interagem sistema- ticamente com outros. Os grupos podem ser de associações mui- to pequenas a organizações em grande escala ou sociedades. Seja qual for o seu tamanho, a característica principal é a identificação comum entre seus membros. Grande parte da vida ocorre em gru- pos, que vão se tornam cada vez mais variados com a complexifi- cação social. Ideologia – Ideias ou crenças partilhadas que servem para justificar os interesses de grupos dominantes. As ideologias são próprias de todas as sociedades em que as desigualdades entre os grupos são enraizadas e sistemáticas. O conceito de ideologia está fortemente associado ao de poder, uma vez que os sistemas ideológicos servem para legitimar o poder que os grupos detêm de forma desigual. Industrialização – Desenvolvimento de formas modernas de indús- tria (fábricas, máquinas e processos de produção em larga escala). A industrialização tem sido um dos processos mais marcantes da vida social nesses últimos dois séculos. As sociedades industriali- zadas têm características bem diferentes das sociedades menos desenvolvidas. Interação Social – Encontro social entre indivíduos. A maior par- te de nossas vidas é povoada por interações. As interações sociais referem-se a situações formais e informais nas quais as pessoas travam conhecimento (comunicação) uma com as outras. Como exemplos temos: uma sala de aula, uma festa, uma briga. Métodos de investigação – Diferentes métodos são empregados para recolher materiais empíricos em sociologia, mas o trabalho de campo (ou observação direta) e a pesquisa com questionário (enquete) são os mais recorridos. SOCIOLOGIA GERAL | GLOSSÁRIO 143 Mobilidade Social – Movimento de indivíduos ou grupos entre di- ferentes posições sociais. A mobilidade vertical refere-se ao movi- mento ascendente ou descendente numa hierarquia de um sistema de estratificação. A mobilidade horizontal é o movimento físico dos indivíduos ou grupo entre regiões. Mudança Social – Alteração nas estruturas básicas de um grupo so- cial ou de uma sociedade. A mudança social é um fenômeno cons- tante na vida de uma sociedade. As origens da sociologia remontam às tentativas de compreender as mudanças pelas quais a nascente sociedade capitalista estava passando. Normas – Regras de conduta que especificam comportamentos con- siderados adequados numa série determinada de contextos sociais. Uma norma pode aprovar ou proibir um determinado modo de com- portamento. Todos os grupos humanos seguem normas definidas, que são sempre reforçadas por sanções de várias ordens, que vão desde a desaprovação informal à punição física ou à pena capital.Organização – Grupo numeroso de indivíduos, envolvendo um con- junto definido de relações de autoridade. Nas sociedades indus- trializadas existem muitos tipos de organizações que influenciam na maioria dos aspectos da vida dos indivíduos. As organizações possuem relações estreitas com a burocracia, muito embora nem toda organização seja burocrática. Papel Social – Comportamento esperado da parte do indivíduo quando ocupa uma determinada posição social. A ideia do papel social deriva do teatro, da representação que os atores desempe- nham no palco. Assumimos diferentes papeis sociais, pois ocupa- mos várias posições no teatro da vida. Parentesco – Relacionamento entre indivíduos através de laços de sangue, de casamento ou adoção. As relações de parentesco estão, por definição, implicadas no casamento e na família, mas envolve muito mais que estas duas instituições. Na nossa sociedade as re- lações de parentesco não envolvem necessariamente obrigações sociais como em algumas outras sociedades nas quais o parentesco é fundamental para maior parte dos aspectos da vida social. FILOSOFIA144 Poder – A capacidade de indivíduos ou membros de um grupo para alcançar seus objetivos ou favorecer os seus interesses. O poder é um aspecto presente em todas as relações humanas. Muito dos con- flitos de uma sociedade são lutas pelo poder, porque quanto mais poder um indivíduo ou grupo detiver, maior será sua capacidade de conseguir o que deseja à custa de outros. Política – Meios através dos quais o poder é entregue de modo a in- fluenciar a natureza e os conteúdos de atividades governamentais. A esfera do político inclui as atividades dos que estão no governo, mas também as ações de muitos outros grupos e indivíduos. Posição Social – Identidade social que um indivíduo detém dentro de um determinado grupo ou sociedade. As posições sociais podem ser de natureza muito geral (como aquelas associadas a papéis de gênero) ou ser muito específicas (como no caso das posições pro- fissionais). Religião – Conjunto de crenças que envolvem símbolos inspirado- res de reverencia e adoração, a que aderem os membros de uma comunidade, bem como práticas rituais em que os mesmos par- ticipam. A religião não implica sempre uma crença em entidades sobrenaturais. A diferença crucial entre magia e religião pode ser assentada no fato da primeira ser praticada essencialmente por indivíduos enquanto que a segunda é o centro de rituais de uma comunidade. Secularização – Processo de declínio na influencia da religião sobre os outros aspectos da vida social, tal como o político, econômico. Socialização – Processos sociais através dos quais as crianças desen- volvem uma consciência da existência de normas e valores sociais e alcançam uma noção própria de eu-social. Embora esse processo seja significativo na infância e adolescência, continua, por toda a vida, uma vez que ninguém está imune às influenciais dos outros, além do que a vida social é uma constante mudança. Sociedade – Este é um dos conceitos sociológicos mais importan- tes. Uma sociedade é um grupo de pessoas que vivem em deter- minado território, estão sujeitas ao mesmo sistema de autoridade SOCIOLOGIA GERAL | GLOSSÁRIO 145 política e estão conscientes de possuir uma identidade própria diferente das dos outros grupos. Algumas sociedades são muito pequenas (como alguns grupos indígenas), enquanto outras são enormes. Sociedades industriais – Sociedades nas quais a grande maioria da força de trabalho encontra-se na produção industrial. Sociologia – O estudo de grupos e sociedades humanas, que dá um destaque particular à análise do mundo industrializado, ou moder- no. A sociologia faz parte de um conjunto de ciências sociais que inclui também a antropologia, a economia, a ciência política e a geografia humana. A distinção entre várias ciências sociais não é nítida, uma vez que todas partilham determinado leque de interes- ses, conceitos, métodos comuns. Status – Honra ou prestígio social conferido a determinado grupo que ocupa um lugar específico na estrutura social. Teoria – Uma tentativa de identificar propriedades genéricas que explicam fenômenos regularmente observados. A elaboração de te- orias é um elemento essencial de todo trabalho sociológico. Embo- ra as teorias tendam a estar relacionadas com abordagem teóricas mais vastas, são também fortemente influenciadas pelos resulta- dos das investigações que ajudaram a criar. Trabalho – Atividade humana na qual os indivíduos produzem rique- za a partir do mundo natural e asseguram a sua sobrevivência. O trabalho não deve ser considerado somente como emprego remu- nerado. Nas culturas tradicionais havia apenas um sistema monetá- rio rudimentar, e poucas eram as pessoas que trabalhavam em tro- ca de dinheiro. Nas sociedades modernas, persistem ainda muitos tipos de trabalho que não implicam pagamento de salário direto. Valores – Ideias de indivíduos ou grupos acerca do que é desejável, descente, bom ou mau. A variação em termos de valores constitui um aspecto fundamental da diferenciação entre as culturas huma- nas. FILOSOFIA146 BOUDON, Raymond. BOURRICAUD, François. Dicionário crítico de sociologia. São Paulo: ática, 2000. BRYM, Robert, LIE,John, HAMLIN, Cynthia Lins, MUTZEMBERG, Remo, SOARES, Eliane Veras, SOUTO MAIOR, Heraldo Pessoa. So- ciologia: sua bússola para um novo mundo. São Paulo: Thomson Learning, 2006. GIDDENS, Anthony. Sociologia. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000. OUTHWAITE, William, BOTTOMORE, Tom. Dicionário do pensamen- to social do século XX. Rio de Janeio: Jorge Zahar Editor, 1996.