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AULA 1 COOLHUNTING Profª Hedilaine Zaniboni Rezende 2 TEMA 1 – COMO SURGIU O COOLHUNTING Convidamos você a conhecer um pouco mais sobre este tema tão atual, mas que já existe há muito tempo, negligenciado em muitos setores, mas extremamente necessário em outros. Estamos falando de coolhunting. Poderíamos traduzi-lo grosseiramente como a “caça ao legal”, mas, afinal, o que é isso? A que se refere? Onde e quando se aplica? Qual seu impacto? Para definir coolhunting, vamos parafrasear Rasquilha (2015): é o processo formal, rigoroso, positivista que segue um padrão lógico que combina um conjunto de metodologias a um determinado conjunto de fatores, a fim de se analisar uma tendência. 1.1 Uma breve introdução Nossa história teve início nos anos 1950, em Paris, com a indústria da moda. O objetivo era auxiliar na evolução da indústria têxtil pós-guerra, para ela se adequar às exigências do mercado, conforme explica Rasquilha (2015, p. 18). O mundo pós-guerra desconhecia os anseios dos consumidores, uma vez que diversos setores ficaram paralisados durante a maioria dos anos em que durara tal evento. Bastante compreensível, pois nosso tema está intimamente ligado a tendências e compreensão do comportamento do consumidor diante de determinado produto/mercado, considerando os impactos que essas tendências causarão nos negócios. Na época, surgiram os primeiros coolhunters, ou seja, pessoas que procuravam observar com atenção o mercado, seu público-alvo, a fim de poder antever, isso mesmo, uma possível tendência que viria a mudar um segmento ou uma indústria. Não bastava olhar, observar o consumidor, era preciso enxergar o que estava por detrás de uma manifestação, quais os valores predominantes, crenças, sistemas de poderes representados, qual a mensagem enviada. Entendemos que esses precursores eram ao mesmo tempo “pesquisadores” e os primeiros a adotar essas mudanças. Seu perfil vanguardista nada se relacionava ao nosso estereótipo de pesquisadores atuais, eram normalmente influenciadores da sociedade, bem relacionados, viajados, com ampla visão e influência no segmento ou na mídia qualificada, como jornalistas, por exemplo. 3 Naquela época os objetivos consistiam basicamente em melhorar a qualidade dos produtos padronizados. Atualmente, no entanto, a visão foi ampliada, assim como os segmentos que estão aplicando as técnicas de coolhunting para descobrir tendências e mudanças significativas. O objetivo primordial desse método é oferecer insights promissores sobre o comportamento futuro dos mercados, como uma tendência existente irá se desenvolver e quais outras surgirão. A adoção da técnica em marketing não tem mais de 20 anos. 1.2 Entendendo o cenário da moda dos anos 1950 Para que possamos entender a profundidade do nosso tema, destaco alguns tópicos a fim de traçarmos um breve cenário da indústria da moda dos anos 1950, baseados no artigo de Claudia Garcia (S.d.) para o Almanaque da Folha. Como você pode observar, os impactos das mudanças nesse cenário ainda estão presentes nos nossos dias. Com o fim da Segunda Guerra, os países retomam seu desenvolvimento e as indústrias, os seus negócios, alguns beneficiados pelo conflito, outros nem tanto, como é o caso do segmento moda. Ao contrário do que se imaginava, conforme descreve Garcia (S.d.), após os longos anos de guerra, com racionamento de tecidos, restrição de recursos produtivos, a moda se tornaria mais simplista e prática para o dia a dia e surge uma explosão fashion liderada por Paris, na pessoa de Christian Dior, que consegue perceber os desejos das mulheres. O período de restrições por que haviam passado não tinha apagado o desejo de luxo e sofisticação das mulheres e elas estavam desejosas de se sentirem femininas, jovens e valorizadas. Cuidar do visual era a nova ordem e elas rapidamente aderem à nova tendência Garcia (S.d.). Os principais movimentos, segundo Garcia (S.d.), foram: Em 1947, Dior surpreende apresentando o seu New Look – vestidos amplos, fartos em tecido, com cintura bem marcada e no comprimento dos tornozelos, cujos acessórios eram compostos por luvas, saltos altíssimos, joias e peles, estilo completamente oposto ao esperado e que fez o maior sucesso. Outros segmentos correlatos o seguiram. 4 Empresas como Revlon e Helena Rubinstein investiram grandes somas em publicidade. Biotherm (1952) e Clarins (1954) lançam produtos cosméticos, a base de plantas, na Europa, tendência presente até hoje. Em 1954, o francês Roger Vivier lança o salto agulha; em 1959, o salto choque, e é dele também o bico chato e quadrado. O grupo intitulado Costureiros Associados torna a alta-costura mais difundida e possível. Costureiros importantes de várias maisons, unidos a profissionais de confecção, editam modelos selecionados e os entregam para um seleto grupo de lojas para comercialização. Está iniciado o prêt- à-porter (pronto para vestir). Em 1954, Coco Chanel, aos 70 anos, lança suas peças mais marcantes: seu tailler clássico, o escarpin bege com ponta escura e a bolsa a tiracolo em matelasse. Em 1955, a grife Jean Dessès-Diffusion inicia a fabricação de tecidos em série para algumas lojas da França e da África do Norte. Nos Estados Unidos era aprimorada a indústria de confecção de roupas ready to wear. Este setor americano era forte, com técnicas de produção em massa desenvolvidas e muito especializadas. A grande e rápida diversificação dos produtos que surgiam por meio do sistema de licenças impactava grandemente a estratégia econômica das marcas. Atentemos para o fato de como uma única e assertiva observação a respeito do comportamento de consumo das mulheres dos anos 1950 gerou uma tendência extremamente abrangente, que impactou inúmeras indústrias: têxtil, de sapatos, de confecção, de cosméticos, de licenciamento de marcas e até o segmento publicitário lucraram com isso por mais de uma década. Esse é o efeito de uma tendência. Nos anos 1960 e 1970 sugiram as primeiras agências de pesquisa de tendências, a Promostyl e a Peclers. Situadas em Paris, mas de abrangência global, emitem seus trendbooks detalhados e ilustrados minuciosamente, falando de cores, tecidos, esboços e padrões com antecedência de um ano e meio a dois anos. 5 TEMA 2 – EM BUSCA DO COOL Lembremos Gomes, Lopes e Alves (2016): É através dos padrões comportamentais formados pela expressão individual e coletiva de uma sociedade que se identificam e consolidam mentalidades, ajudando a construir diversas realidades e identidades culturais. O modo como os indivíduos se relacionam com a moda constitui um reflexo das mentalidades de uma determinada sociedade. Assim, compreendemos que o estudo dos padrões comportamentais expressos por uma sociedade nos permite identificar suas ideologias e, dessa forma, construir cenários reais e identidades culturais. O reflexo disso é constatado na forma como os indivíduos se relacionam com a moda. 2.1 Afinal, o que é cool? Quanto à origem do termo, os autores divergem: alguns relacionam o uso de cool ao jazz, outros à gíria utilizada entre os jovens, outros a frio, mas fato é que concordam que, quando utilizado para expressar a ideia de caçada, esse termo se relaciona a itens que são admirados ou desejados. Quando nos remetemos ao setor da moda, em que surgiu nossa técnica, esse termo está relacionado às manifestações/expressões do consumidor, sejam elas comportamentais, sociais, ideológicas e/ou religiosas, que possam gerar uma tendência e servir de insight para um negócio existente ou inovador.Cool, quando adotado é por um indivíduo, este o aceita, usa ou faz de forma espontânea porque realmente se agrada disso. A aderência é voluntária. Para Gladwell (1997), o cool está relacionado ao que ele denomina de cultura de rua, que gera tendências que, quando devidamente captadas pelos coolhunters, renderam bilhões às empresas que adotaram suas ideias. Como exemplo, ele cita o caso da Dee Dee Gordon, uma coolhunter americana, na época atuando na Converse, que compreendeu o desejo dos jovens de simplicidade e autenticidade e levou a Converse a relançar o tênis One Star, um estilo clássico old school que repaginou a marca e a incluiu no clube das marcas cool (o tênis era usado por Kurt Cobain, do Nirvana, referência dessa América cool, como consta na famosa foto do roqueiro morto). Dessa forma, compreendemos melhor porque coolhunting é, para Gladwell (1997), uma coleção de observações espontâneas e prognósticos, 6 diferindo de um momento para o outro e segundo o ponto de vista do coolhunter que a observa. Entretanto, podemos afirmar que o cool é alguma coisa que você não pode controlar, muito embora haja marcas que, ao identificarem uma tendência, tentem manipulá-la, e para isso precisam de uma pessoa que a encontre e a interprete, traduzindo-a para os demais. É aqui que as habilidades do coolhunter fazem a diferença, pois, além de identificar o que de diferente determinado público está usando, ele precisa ser capaz de dizer que aquele diferente é de fato cool e vai gerar uma onda realmente grande, justificando um investimento nela. Fontenele (2004) nos ensina que: A ênfase na busca do cool indica, também, uma passagem da cultura de massas para o mercado de nichos, gerando uma absoluta diversidade a ser explorada em meio a um público cada vez mais heterogêneo. Assim, houve uma mudança de foco metodológico: de padrões sociológicos centrados em paradigmas descritivos de interações e comportamentos sociais, para abordagens mais antropológicas, centradas na observação cultural. Conforme lemos, o foco principal da busca pelo cool reside em observar nichos e não mercado de massas; sendo assim, a observação dos aspectos culturais deve prevalecer sobre comportamentos sociais. Outro ponto interessante a destacar, pois está presente na grande maioria da literatura a respeito do tema, é que a observação está centrada no consumidor jovem, que é influenciador de uma série de setores, a ver: moda, maquiagem, cosmética, tecnologia, automobilístico, de alimentos e bebidas, entre outros. A agência de pesquisa de tendências Look Look possui coolhunters jovens “infiltrados” nessas comunidades/nichos o que permite um tempo de resposta realmente pequeno nas suas pesquisas. O cool não é popular, tampouco facilmente visível, mas sem dúvida passa a estar presente no cotidiano de determinado público ou segmento. Para Rasquilha (2015, p. 29), o cool deve: Ser atrativo/atraente: capaz de despertar a atenção e nos fazer parar; Ser inspirador: capaz de nos fazer sonhar, voar, criar; Demonstrar potencial de crescimento: que possa virar negócio com escala de crescimento. 7 É importante, sem dúvida, considerar aspectos gerais do cenário, economia (macro e micro), fatores influenciadores internos e externos, motivações ou restrições ambientais. Quando identificado algo realmente cool, devemos questionar qual a sua relevância, rentabilidade, quais mudanças essa ideia gera e, se convertida em negócio, como suportá-la e divulgá-la. Esse processo ocorre após a coleta de informações, faz parte da interpretação dos dados. O cool está diretamente relacionado ao conceito de Tendência, e cabe aqui entendermos um pouco mais o que isso significa. Tendência é o movimento capaz de impactar negócios, dissolvendo-os, desenvolvendo-os ou criando novos. Está diretamente ligada à mudança na forma como o consumidor (em massa ou grupo) se relaciona com determinado produto, marca, serviço ou companhia. Como exemplo, podemos citar o consumo do cigarro, o que nos anos 1960 e 1970 era amplamente permitido, divulgado, aceito socialmente e tido como símbolo de status e charme e hoje é visto como vício, algo incômodo e antissocial, sendo rejeitado em bares, restaurantes, outros locais fechados e dentro de transportes públicos (isso mesmo, anteriormente seu uso era aceito em aviões e ônibus rodoviários). TEMA 3 – O COOLHUNTER E SEU PAPEL NO PROCESSO DE TENDÊNCIA MERCADOLÓGICA Para Fontenele (2004), “ser um caçador do cool é tentar chegar às tendências na fonte, descobrir de onde elas estão vindo. Sabendo disso, é possível sair na frente”. Podemos perceber nitidamente a ênfase dada pelo autor ao processo investigativo dessa atividade e que ela possibilita um diferencial competitivo para uma empresa. Já para Rasquilha (2015, p. 36), ”o Coolhunter por definição é o primeiro a mapear, interpretar e adotar um produto inovador, um design ou estilo”. O autor nos oferece uma escala de adoção de uma tendência, que reproduzimos a seguir: 1º lugar: inovadores (2,5%). Aderem rapidamente a uma nova tendência logo que ela aparece, são aventureiros, vanguardistas, arrojados, gostam do risco e entendem rapidamente uma proposta. 8 2° lugar: adotantes iniciais (13,5%). Bem-sucedidos, são reconhecidamente líderes locais e, por serem respeitados, conseguem influenciar a comunidade em que estão inseridos. 3° lugar: maioridade inicial/precoce (34%). São também líderes de opinião, assim como o grupo anterior, desfrutam de projeção e respeito nos seus grupos, como usufruem de algum tipo de liderança. Entretanto, refletem antes de aderir a uma inovação. 4° lugar: maioridade tardia (34%). Adotam uma inovação devido a uma pressão, economia ou necessidade. São céticos, desconfiados e cuidadosos. 5° lugar: reacionários (16%). Não atuam como líderes, tampouco influenciam seu meio; muito desconfiados, suspeitam de todo tipo de inovação. O seu processo de adoção de uma inovação é lento e limitado. Assim, pela visão de Rasquilha (2015), os coolhunters fazem parte do primeiro grupo (inovadores), pois sua sensibilidade à observação os permite saírem à frente, ignorarem a opinião dos outros ao adotarem algo novo (Figura 1). Figura 1 – Ciclo de adoção de tendências Fonte: adaptado de Rasquilha, 2015, p. 32. Entretanto, os coolhunters não são suficientes para propagar uma tendência. Nessa etapa, entram em cena os trendsetters participantes do grupo 9 de adotantes iniciais, que, quando aceitam e adotam uma tendência, a fazem propagar e massificar. Esses são indivíduos influentes e dispostos a pagar para sair na frente. Todavia, foram os coolhunters os responsáveis pela segmentação dos grupos a serem observados, descobriram a tendência, a interpretaram e a transformaram em insight de negócios. Em geral, mas não obrigatoriamente, tanto o coolhunter como o trendsetter participam do mesmo grupo social e esse grupo se caracteriza por ser polissocial, ou seja, aquele que se mistura a outros, de diversas maneiras. É nesse movimento que uma tendência é adotada/imitada por coolhunters de outros grupos distintos e isso ocorre porque o trendsetter de um grupo social é observado pelos coolhunters dos outros grupos sociais com os quais se relaciona. Quando uma tendência se instala, inicia-se um processo de mudança, que não se manifesta de forma linear nas várias camadas da sociedade. Normalmente, essa mudança se inicia timidamente e, ao se dar o processo de sua adoção pelos demais participantes de uma sociedade/segmento, ela ganha corpo, atingindo seu ápice quando adotada pelosde maioridade (mainstreamers), depois vai atingindo outras camadas sociais até que também timidamente se vai. Como podemos constatar, tudo tem início com o coolhunter, que observou, identificou e que primeiro adotou a tendência. Essa observação também se dá por etapas e com técnica, ela é sistemática e metódica, ou seja, os grupos-alvo desse estudo são observados com frequência e método e por um bom tempo e, depois de coletadas as informações, passa-se a uma etapa de reflexão sobre os dados, para em seguida se gerar uma interpretação, ou seja, aí entra o ponto de vista do coolhunter e sua expertise. Baseado nos dados coletados, ele gera uma recomendação, apresentada em um relatório detalhado e ilustrado, que finaliza com os insights gerados para negócios. Esse processo, embora aparentemente simples, leva tempo, tanto para a coleta de informações como para sua análise e interpretação. É um trabalho meticuloso, que exige sensibilidade para captar as pequenas e sutis alterações no gosto e no estilo dos consumidores, que se transformarão na tendência futura que ditará uma evolução ou a emergência de um novo mercado. O observador deve ser perspicaz, pois, quando uma tendência se inicia, a atitude/comportamento e a mentalidade que a originam podem se manifestar em mais de um setor, em geral com características correlatas, como por exemplo 10 moda e mobiliário ou moda e cosméticos. Quando um estilo novo atinge a faixa de mainstreamers, em geral os trendsetters já estarão movendo-se para algo novo, já que o cool atingiu a maioria. Emerge uma nova mentalidade a respeito do produto/serviço/setor. Observamos que identificar uma tendência com precisão é de suma importância para uma empresa nos tempos atuais. Consequentemente, ter profissionais capacitados a fazê-lo é fundamental. TEMA 4 – O COOLHUNTER COMO PROFISSIONAL E SEU FOCO Como citado anteriormente, a prática do coolhunter no meio mercadológico é recente, data dos anos 1990, quando se fez muito importante e significativa a atuação das empresas nos segmentos de mercado e não mais nos mercados de massa, cada vez mais escassos. Conforme discorre Fontenele (2004): [...] enquanto nos anos 1970 ainda se podia pensar em mercados de massa, os anos 1990 se veem com o desafio da segmentação. Assim é que esse novo desafio provoca o nascimento das "coolhunting", empresas "caçadoras do cool", daquilo que pode ser gerador de tendências de consumo. O que essas empresas buscam é fazer uma mediação ainda mais direta entre uma forma de expressão cultural – especialmente da cultura jovem – e uma prática de consumo. Em outras palavras, transformar cultura em mercadoria. (Fontenele, 2004) Nessa época, embora entendido que o conhecimento sobre tendências era extremamente relevante, as empresas em geral não estavam preparadas para tal prática; assim, esse campo, em muitas empresas, foi delegado a profissionais de publicidade e pesquisa. No princípio, no meio da moda, esse profissional era jovem, na sua maioria, e atuava como um “olheiro de futebol”. Ele saía a campo com sua máquina fotográfica e procurava capturar todo tipo de comportamento, cores, formas de expressão e cenas que lhe chamavam a atenção e depois transformava tudo isso em um relatório. Atualmente os consumidores estão absolutamente muito segmentados e seus interesses são diversos, mudam o tempo todo e a uma velocidade altíssima, fruto certamente desse mundo digital e globalizado em que vivemos. Os relacionamentos, os gostos e a fidelidade são líquidos. Picoli (2009) esclarece, em artigo, que os ciclos de vida dos produtos são cada vez mais curtos, com isso as empresas necessitam antecipar as 11 tendências e acompanhar as rápidas mudanças para se manterem competitivas. Esse motivo impulsionou a emergência de um novo especialista, o coolhunter. O coolhunter é um profissional com uma formação consistente, observador astuto e perspicaz do meio e de indivíduos, capacitado a interpretar os cenários que estuda apresentando e comprovando uma tendência que ninguém ainda percebeu. Para exemplificar, cito Deweik (S.d.), pioneira em pesquisa de tendência e coolhunter brasileira: Sou jornalista de formação (PUC-SP) e comecei minha carreira professional no Jornal O Estado de S. Paulo, no Caderno 2. Fiz também dois mestrados: um no Brasil em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e outro na Itália, Milão em Fashion Communication, na Domus Academy. Foi neste ano de 1999 que comecei a enveredar pela área de tendências. Fui pioneira em introduzir em 2000 a metodologia de cool hunting (caçar tendências) no Brasil criando o primeiro curso na área no Instituto Europeu de Design e mais tarde na Escola São Paulo. Foi esta paixão que me impulsionou a trazer para o Brasil o renomado e também pioneiro Future Concept Lab, instituto de pesquisa de tendências e consultoria estratégica com sede em Milão, Itália, do qual fui diretora no Brasil. [...] Em 2015 mergulhei em um profundo processo de observar minhas próprias crenças e julgamentos, com uma formação como Coach Ontológico pela Escola Internacional de Coaching Ontológico Newfield Network (Chile), membro da International Coach Federetion, que há mais de duas décadas vêm formando profissionais na América Latina. (Deweik, S.d.) Essa é a apresentação de Deweik em seu site. Podemos perceber que um curso leva a outro e é necessário manter-se em movimento, pois a multidisciplinariedade o constrói o profissional. Picoli (2009) afirma: “As competências do coolhunter na aplicação das teorias, métodos e técnicas de disciplinas como sociologia, psicologia, antropologia, marketing etc. são determinantes no resultado da pesquisa, bem como a formação profissional”. Um coolhunter não deve se limitar à geografia, deve ir atrás de formação que complemente seu conhecimento e o capacite a compreender cada vez mais o que observa, nos grupos em que atua. Algumas disciplinas facilitam mais que outras, não obrigatoriamente, para alguém se tornar um coolhunter: jornalismo, sociologia, pesquisa, antropologia, psicologia do consumo, design. Vários autores procuram destacar características que devem estar presentes na personalidade de um coolhunter: Curiosidade sem limites; 12 Capacidade de observação aguçada, sem se influenciar; Gosto pela inovação; Gosto por experienciar coisas diferentes; Disposição para correr riscos; Adaptabilidade e flexibilidade; Gosto por recriar-se. Para Rasquilha (2015, p. 76), tais profissionais São pessoas com forte vocação criativa para captar sinais de renovação proveniente das subculturas mundiais. São observadores atentos aos comportamentos e necessidades da sociedade, estão em constante atualização, localizam tendências aplicadas a todas as áreas. São pessoas de sensibilidade extrema, observam, analisam tudo o que lhes desperta os sentidos [...]. (Rasquilha, 2015, p. 76) O profissional ainda deve gostar e saber se relacionar com o grupo que estuda e seus pares em outros segmentos. Com o objetivo de traçar um perfil desse profissional, Picoli (2009) entrevistou dez coolhunters, com entre 24 e 30 anos, sobre suas respectivas formações. Apresentamos a seguir as principais conclusões: [...] 50% dos profissionais têm formação nas áreas de ciências sociais, 30% nas áreas de comunicação social e 20% em moda, marketing e administração. Apesar das diferenças registradas na formação de base, todos possuem características semelhantes: apreciam música, cinema, tecnologias e estar sempre bem informado. Manifestam um particular interesse nas pessoas e em viajar, procurar novidades e observar atitudes. Segundo as suas própriasdescrições, identificam-se como pessoas contemporâneas em busca do novo. Alguns destacam ainda a curiosidade, o bom relacionamento com a sociedade, a percepção de elementos que por alguns passariam despercebidos. (Picoli, 2009) Podemos extrair da pesquisa que 100% dos profissionais têm formação na área de humanas, compartilham diversos interesses comuns, sendo a grande maioria expressões culturais, e ficam confortáveis em estar e conviver em público. Quanto ao mercado de trabalho para esse profissional, embora de extrema importância, ainda é muito limitado. No entanto, grandes empresas de marcas mundiais procuram criar suas próprias áreas de informação e pesquisa. Há ainda a possibilidade de atuação em consultoria, como Sabina Deweik, ou em empresas especializadas em pesquisa de tendência: Science of the Time, AYR Consulting Wordwide (AYRWW), WGSN, Future Concept Lab, Stylesight, Look Look, todas com abrangência mundial, e a brasileira, não menos 13 importante, Box 1824, especializada em caça de tendências no segmento entre 18 a 24 anos. Os setores que mais demandam dessas empresas são: moda e beleza, design de interiores, automobilístico e grandes agências de propaganda. Parece restrito, mas esses setores são influenciadores de diversos outros e normalmente são vanguardistas em tendências. Outro ponto a considerarmos é que, a cada dia, essa necessidade de conhecimento sobre o futuro cresce e novos grupos vão surgindo e, com eles, novas tendências. TEMA 5 – PRINCIPAIS FERRAMENTAS DO COOLHUNTER O coolhunting, como já apresentamos, é uma pesquisa de tendências e capturar o que está presente na mente coletiva é o seu grande desafio. Entendamos aqui por mente coletiva um processo involuntário que se propaga e encontra eco dentro de um grupo ou comunidade, e entendê-lo pode permitir a antecipação de um movimento no grupo ou comunidade que afetará o seu modo de consumo. No ponto de vista de Gladwell (The Merchants, S.d.) sobre coolhunting, isso fica ainda mais evidente: Tem a ver com influência pessoal, influência dentro de redes sociais específicas. Tem a ver com a influência de quem tem o respeito e a admiração e a confiança de seus amigos, e não com uma espécie de inveja de status, que é, para mim, uma noção que vem dos anos 50. É uma noção que não é relevante hoje, e também acontece de ser uma noção que eu acho meio que desagradável. (The Merchants, S.d.) Vemos então que, para ser um profissional dessa área, influência e respeito, entre outros atributos correlatos, no meio/grupo estudado são essenciais, mais que status ou posses. Outro aspecto de grande importância trata-se de se mostrar atualizado em relação ao setor/grupo pesquisado, a sua economia, sistema político, tecnológico e comportamental, e entender o contexto histórico, o zeitgeist (o espírito do tempo, que faz menção a tudo o que está no ar, mas ainda não foi compreendido na sua totalidade; capturando esses sinais, é possível entender a personalidade ou o estilo de uma época) complementa o trabalho. O exemplo que citamos sobre os anos 1950 nos ensina isso, ou seja, o tempo de restrição e a necessidade de atender ao básico suplantaram o 14 supérfluo (a beleza), mas não acabaram com o desejo das mulheres de se sentirem jovens, bonitas e atraentes; ao contrário, assim que a economia demonstrou sinais de estabilização e as carências foram atendidas, os desejos de reconhecimento retornaram e elas se importaram consigo mesmas e com sua aparência. De acordo com Picoli (2009), “os coolhunters são o novo grupo de profissionais que aplicam técnicas etnográficas e sociológicas na pesquisa de mercado”. O método ainda é a observação, mas os processos se aprimoraram. Como técnica investigativa, o coolhunter pode estar inserido no grupo-alvo, mas ele não deve intervir no seu objeto de estudo, deve sim adaptar-se e procurar meios menos invasivos. O coolhunting como método se diferencia das pesquisas tradicionais por ser um processo contínuo e não cíclico. O coolhunting ocorre em meio a redes sociais tanto off como on-line, em blogs, salas de bate-papo, entre outras redes sociais. Considerando o que já foi citado, podemos afirmar que a pesquisa qualitativa, combinada a técnicas de sociologia, antropologia e etnografia, são as ferramentas mais apropriadas aos nossos profissionais. A antropologia nos permite entender mais profundamente comportamentos, motivações, dinâmicas e práticas dos grupos sociais pesquisados, enquanto a etnografia nos permite compreender a realidade por uma lente cultural, nos revela os costumes, as crenças e as tradições de uma sociedade. Por meio da aplicação de entrevistas, de diversas tipologias de observação, de análise documental em busca das pistas, podemos compreender uma rotina, bem como a continuidade de uma determinada cultura ou sociedade. A correta compreensão das tradições de uma população em estudo é essencial para a previsão de futuras tendências. Picoli (2009) ainda nos ensina que “a pesquisa qualitativa, de caráter exploratório, estimula os entrevistados a pensar e falar livremente sobre o tema, objeto ou conceito. Está fortemente ligada ao mercado e o investigador participa do processo”. Rasquilha (2015, p. 76) nos dá uma ideia da rotina de um coolhunter, que elenco em tópicos para mais bem visualizarmos: Ele partilha os valores, as linguagens e os estilos de vida próprios das tribos de consumo. 15 Anota opiniões de desconhecidos que influenciam as atitudes dos grupos. Navega em blogs, websites, redes sociais e comunidades virtuais. Viaja frequentemente. Analisa as vitrines. Frequenta lugares novos para perceber as suas influências e inspirações, baladas, mercados, transportes públicos. Recolhe fotografias, prospectos, programas de shows. Frequenta teatros e galerias, interessa-se por arte. Passa tudo a pente-fino, sempre à procura de novos sinais e novos comportamentos. Após este intenso trabalho de campo, tão importante quanto reunir todo este material compila-lo é interpretá-lo em um relatório que será entregue aos especialistas das empresas. Dessa forma, fica fácil perceber que, na rotina desse profissional, além de uma boa máquina fotográfica e um smartphone, a tecnologia digital é extremamente presente. Networks e redes sociais off (família, colegas de trabalho ou escola, amigos, grupos religiosos que frequenta etc.) e on-line (Facebook, Instagram, YouTube, WhattsApp etc.) são essenciais, pois são neles que se propagam uma ideia, uma informação e uma cultura. Mesmo em blogs de fofoca há o que se observar, pois onde há uma discussão ganhando corpo podem também estar presentes outras informações valiosas. Outra ferramenta importante e que não pode ser esquecida são as redes de coolhunters. Esse trabalho em rede assemelha-se a um crowdsourcing (modelo de interação social baseado na cooperação coletiva para a construção de uma solução que beneficiará a todos), em que há discussão sobre sinais de tendências identificadas por uma rede de indivíduos, os quais compartilham os seus conhecimentos, experiências e opiniões. Conforme Rasquilha (2015), as redes de coolhunters operam utilizando a inteligência e os conhecimentos do coletivo, que se encontra disperso, aproveitando a mão de obra especializada que pretende colaborar para, assim, construir estruturas de inovação. 16 5.1 Coolhunting interno Rasquilha (2015) nos informa ainda que “o coolhunting tem duas grandes áreas de atuação: a observação de mercados externos e a estimulação da inovação interna”. Observar externamente, comojá expressamos, permite uma melhor percepção sobre as áreas em que as empresas devem atuar e em que áreas de negócio investir. Internamente, a técnica permite: Salientar competências escondidas. Auxiliar na reestruturação das equipes de trabalho, para maior produtividade. Aos funcionários propor novas ideias, de forma a aumentar a performance, a eficiência e a criatividade de uma empresa. O processo de inovação, por meio do coolhunting, continua Rasquilha (2015, p. 59), é alcançado mediante quatro passos: 1. Inovação (a nova ideia que altera a vida das pessoas a quem a inovação é aplicada); 2. Canais de comunicação por onde as novas ideias são conduzidas; 3. Tempo e ritmo de adoção da inovação, de forma a estabelecer que inovações se espalharão mais depressa; 4. Como o ambiente social influencia a forma como a nova tendência se espalha. 17 REFERÊNCIAS DEWEIK, S. Experiência. Sabina Deweik Think Forward. Disponível em: <http://sabinadeweik.com.br>. Acesso em: 27 ago. 2018. FONTENELE, I. A. Os caçadores do cool. Lua Nova, São Paulo, n. 63, 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102- 64452004000300007>. Acesso em: 27 ago. 2018. GARCIA, C. Anos 50: a época da feminilidade. Folha Online. Disponível em: <http://almanaque.folha.uol.com.br/anos50.htm>. Acesso em: 27 ago. 2018. GLADWELL, M. The coolhunt: Who decides what’s cool? Certain kids in certain places – and only the coolhunters know who they are. The New Yorker, 17 mar. 1997. Disponível em: <https://www.newyorker.com/magazine/1997/03/17/the- coolhunt>. Acesso em: 27 ago. 2018. GOMES, N. P.; LOPES, M. V.; ALVES, P. E. Coolhunting e estudos de tendências aplicados à moda: modelo de segmentação estratégica. Moda Palavra E-periódico, n. 17, p. 26, jan./jun. 2016. PICOLI, J. I. Perfil do coolhunter. ABC Design, 29 out. 2009. Disponível em: <http://www.abcdesign.com.br/perfil-do-coolhunter/>. Acesso em: 27 ago. 2018. RASQUILHA, L. Coolhunting e pesquisa de tendências: observar, identificar e mapear as tendências e mentalidades emergentes do consumidor. São Paulo: Actual, 2015. THE MERCHANTS of cool. Intervew: Malcolm Gladwell. PBS. Disponível em: <https://www.pbs.org/wgbh/pages/frontline/shows/cool/interviews/gladwell.html>. Acesso em: 27 ago. 2018. AULA 2 COOLHUNTING Profª Hedilaine Zaniboni Rezende 2 Entendendo o Consumidor TEMA 1 – INDIVÍDUO, EU, AUTO-IMAGEM E PAPÉIS SEXUAIS NO CONSUMO Para podermos nos aprofundar e compreendermos mais sobre nosso tema, é fundamental conhecer mais sobre o consumidor, pois afinal é a partir dele que surgem as tendências – ele é o foco do nosso caçador. Quando o consumidor decide adquirir algo, seja bem ou serviço, complexos processos mentais se iniciam. Vem em revista todas as influências a que ele se submeteu, e que irão certamente pesar no tipo de decisão que será tomada. Maluf (2007) concorda que, embora a psicologia não esclareça alguns aspectos dessas influências no comportamento do indivíduo, é sabido que alguns fatores afetam profundamente o comportamento humano. Estudar as necessidades, motivação, percepção, atitudes e personalidade, entre outros, permite melhor compreensão do comportamento do consumidor. Maluf (2007) cita que o interesse em compreender o consumidor e suas formas de consumo não é recente. Todavia, vemos pouca renovação nas teorias explicativas. Ela aponta, por outro lado, que nunca se consumiu tanto (Maluf, 2007): seja pela variedade imensa de produtos e serviços disponíveis, seja pela influência das celebridades em nosso dia-a-dia, seja pelas facilidades que o crédito nos proporciona, seja por apelos emocionais das campanhas publicitárias e das propagandas, seja pela diversificação dos tipos de mídia - a verdade é que todas as teorias sobre o comportamento ainda são insuficientes para explicar as atitudes do consumidor diante de uma situação de compra. Assim, o desejo exagerado pelo "ter" passou a ser objeto de estudo das mais diversas áreas e hoje profissionais de marketing, professores, psicólogos e sociólogos entre outros, buscam respostas para o comportamento de compra do homem moderno, reconhecendo suas necessidades, suas escolhas, suas atitudes e suas decisões de compra tentando compreender suas motivações e expectativas. Como podemos constatar, estamos sob a influência de uma gama muito grande de estímulos: variedade, diversidade, propagandas, mídias etc. O comportamento de consumo do homem moderno tem recebido grande dedicação de profissionais de diversas áreas, visando entendê-lo em variadas frentes, escolhas, atitudes, decisões, motivações e expectativas. Procuraremos, nesta etapa, discutir esses aspectos para entender melhor o comportamento de consumo, para compreendermos melhor a força motora que nos compele a consumir. 3 1.1 O indivíduo e o eu Penso, logo existo. Se existo, quem sou eu? A resposta a essa questão não é tão simples como parece; ao contrário, passa por uma intrincada rede de conceitos, e ainda assim a resposta não é precisa. Em psicologia, o Eu está relacionado ao conhecimento que o indivíduo tem de si mesmo; é a instância dotada de consciência, sinônimo de personalidade. Entretanto, o quanto cada indivíduo conhece de si mesmo? O que o torna único ou igual a todos na multidão? Atualmente, podemos observar o quanto as pessoas têm necessidade de falar de si mesmas, de se sentirem únicas, de se diferenciarem, destacarem-se. Pode ser um resultado do advento das redes sociais virtuais? É fato indubitável que o volume de posts, selfs, vídeos e comentários nas redes, em crescimento constante, alimenta essa percepção. Para Solomon (2011, p. 192) “o crescimento dos serviços de rede social como esses permitem que toda pessoa se concentre nela própria e compartilhe detalhes mundanos ou cintilantes sobre sua vida com qualquer pessoa que esteja interessada.” Assim sendo, quanto mais redes sociais, mais compartilhamento, mas não de algo público ou de utilidade, mas de fatos da vida daquela pessoa – onde ela está, o que faz, compra, como se sente, se está só, com amigos ou família – até o que está comendo e bebendo vira notícias nessas redes. Não contente de participar de uma rede, essas pessoas participam de todas: Facebook, Instagram, Twitter, Youtube, e assim vai. São comentários, posts, vídeos instantâneos e fotos. Tal exposição nos leva a crer que esses indivíduos desejam atenção, desejam ser celebridade, “os 15 minutos de fama”. Esse comportamento, embora extremamente difundido, é mais comum no Ocidente que no Oriente, onde o que importa é o “eu coletivo”. Solomon (2011, p. 192) informa que, para essas culturas, o foco está nas relações que cada pessoa mantém com as demais; é perceptível a interdependência existente nessas sociedades. A cultura do Eu como indivíduo único não é o foco principal, tampouco é estimulada. Na cultura ocidental, ao contrário, os estímulos para diferenciação, originalidade e destaque são cada vez mais incentivados e todos desejam ser singulares. Para ilustrar essas diferenças transculturais, Solomon (2011, p. 192) nos traz o resultado de uma pesquisa realizada pela Roper Starch Worldwide, que 4 comparou consumidores de 30 países a fim de determinar quais eram os mais e os menos vaidosos. Em primeiro lugar, ficaram as mulheres venezuelanas: 65% afirmaram pensar sobre a sua aparência o tempo todo. Na sequência, com alta pontuação (mas não citada), vem Rússia e México. Por outro lado, os escores mais baixos foram Filipinas e Arábia Saudita, com 28%. 1.2 Teoria do autoconceito A ideiade autoconceito ou autoimagem está relacionada ao modo como um indivíduo reconhece a si e seus atributos, e como os avalia. Trata-se de um quadro multifacetado, que está ligado ao sistema de crenças. Apesar de complexo, o autoconceito em geral é positivo na maioria das pessoas; obviamente, a intensidade pode ser diferente dependendo da área em questão. A autoimagem pode ser uma visão distorcida da objetiva, segundo Boone (1995, p. 182). O autor ainda esclarece que a imagem espelhada, o modo como o indivíduo pensa que os outros o veem, pode ser bem diferente da autoimagem, uma vez que as pessoas projetam para os outros uma imagem diferente daquelas que acreditam ser na realidade. Solomon (2011, p. 193) nos esclarece que a autoestima está relacionada com a positividade da autoimagem de uma pessoa. Pessoas com baixa autoestima não creem que se sairão bem, e assim tentam evitar constrangimento, fracasso ou rejeição. As empresas que conhecem a baixa autoestima dos seus consumidores procuram trabalhar essas questões nas suas campanhas e produtos – por exemplo, a campanha da Retratos da Real Beleza (Dove Brasil, 2013) é um exemplo disso. A campanha da Dove resgata a autoestima dos seus consumidores, esclarecendo que eles são mais críticos sobre si mesmos que com os outros; assim, a verdade é que são mais bonitos do que acham. Importante entender que existe o Eu que somos e o que idealizamos. Essa comparação gera uma avaliação que afeta nossa autoestima. Solomon (2011, p. 194) nos esclarece como isso impacta o consumo. “Escolhemos alguns produtos porque achamos que eles são coerentes ao nosso eu real, ao mesmo tempo que compramos outros para nos ajudarem a alcançar um padrão ideal”. Ele ainda nos esclarece sobre o “gerenciamento da impressão”, que é o esforço que fazemos para gerenciar o que o outro pensa de nós; por conta disso, escolhemos 5 estrategicamente roupas e outros produtos que estejam alinhados com a imagem que desejamos transmitir. Tudo que escolhemos e usamos tem ligação com os valores e crenças que compõem nossa autoimagem, e com o desejo que temos de transmitir uma impressão ao outro. 1.3 Os papéis sexuais no consumo O que precisamos saber sobre este tema: A identidade sexual impacta a autoimagem/autoconceito do consumidor. Os papéis sexuais sofrem influência de cultura, crenças e valores, e, portanto, diferem de um lugar para outro. As pessoas, na maioria das vezes, cedem e se adaptam à sua cultura quanto ao modo de agir, vestir e falar. Não existe uma clara visão sobre o quanto das diferenças de gênero são moldadas pela cultura e o quanto são inerentes dos indivíduos, mas é fato que impactam no consumo. A cultura local é um fator extremamente invasivo quanto à sua influência no consumo; por exemplo, o consumo de hambúrguer nos EUA e Índia. É sabido que os sexos são diferentes e determinantes em várias áreas do consumo: Consumo de alimentos; Consumo de bebidas alcoólicas; Consumo de roupas e calçados; Consumo de chocolates; Consumo de acessórios pessoais; Consumo de cosméticos; Consumo de carros. As diferenças de abordagem e forma de socialização dos gêneros também são exploradas pelas empresas para incentivar o consumo. Por exemplo, a campanha da Heineken (2010), Walk In Fridge Closet. Outro ponto é a questão gênero versus identidade sexual: o gênero biológico de uma pessoa não determina sua identidade sexual. Esse tema vem sendo tratado em diversos programas e tem sido expressamente debatido. De que forma isso impacta o consumo? 6 Conforme esclarece Solomon (2011, p. 207), “os sentimentos subjetivos de consumidor a respeito de sua sexualidade também são cruciais.” Ele ainda esclarece que, ao contrário do sexo biológico, masculinidade e feminilidade não são definidas biologicamente: são comportamentais, e comportamentos que são tidos como eticamente corretos em uma sociedade para um gênero, podem não ser aceitos em outras. Por exemplo, homens latinos se cumprimentam calorosamente, se abraçam, mas o mesmo não ocorre entre os americanos e japoneses. A tipificação de produtos (ou seja, definição do gênero para os quais foram feitos) até hoje é muito explorada pelo mercado e pelas empresas. Entretanto, com relação a consumidores andrógenos, cuja orientação de gênero não está definida claramente (ou seja, observa-se a presença de traços femininos ou masculinos nos gêneros respectivamente opostos), as empresas nem sempre sabem como se comportar. Outras empresas buscam criar produtos transgêneros, ou seja, produtos desenvolvidos para um gênero, mas que foram adaptados para atender outro. Exemplificando, temos a criação de ferramentas de manicure para homens que se preocupam com a apresentação das mãos. Solomon (2011, p. 209) nos informa que “as pessoas sexualmente tipificadas em geral preocupam-se mais em confirmar que seu comportamento é coerente com a definição cultural de adequação de gênero. ” TEMA 2 – FATORES QUE INFLUENCIAM O COMPORTAMENTO DE CONSUMO No tema anterior, estudamos a teoria do autoconceito/autoimagem e as questões em relação ao sexo. Agora, vamos discutir outros fatores que são grandes influenciadores no comportamento do consumidor. Boone (1995, p. 168) nos apresenta a seguinte equação: C = f (I, P) Entendemos, assim, que o comportamento do consumidor (C) é uma função (f) da interação de determinantes interpessoais (I), como grupos de referência e cultura, e determinantes pessoais (P), como atitude, aprendizado e percepção. “Tanto a constituição psicológica individual como as influências de terceiros afetam o comportamento de compra”. 7 2.1 Determinantes interpessoais Quando analisamos o comportamento de consumo das pessoas, vemos que elas buscam por produtos, bens e serviços que favoreçam sua imagem. Os determinantes interpessoais envolvidos nessas escolhas são influências culturais, sociais e familiares. 2.1.1 Influências culturais É, por definição, o grupo de valores, crenças, preferências e gostos transmitidos através das gerações. A influência cultural, ainda mais hoje em dia, num mundo globalizado, exerce forte poder no consumo de um país, cidade e povo. Quando uma empresa ou profissional se instala num local diferente daquele de que veio, é imprescindível tomar conhecimento dos aspectos da cultural local – em especial os profissionais de marketing, afim de que encontrem o melhor caminho para se comunicar com o público local. A não observância desse ponto pode acarretar em grande desastre mercadológico, dos quais a história está repleta. Vejamos o problemático caso da Coca Cola, publicado na Revista Exame (Dearo, 2016): A Coca-Cola causou uma grande crise na Ucrânia. Primeiro, a marca colocou em seu anúncio um mapa da Rússia, mas não incluiu a região da Crimeia – que pertence à Ucrânia, mas é território disputado entre os dois países. Após reclamações dos russos nas redes sociais, a marca alterou a imagem e incluiu a Crimeia como território sob comando de Moscou. Mas isso, claro, causou profunda revolta entre os ucranianos, que veem na luta pela região uma afirmação nacionalista e contra a influência de Putin. O exemplo acima nos mostra, além da gafe evidente, que o erro maior foi transparecer desprezo pelos sentimentos dos consumidores a respeito dessa questão. As populações de ambos os países trazem forte sentimento nacional, e sem dúvida seus habitantes e consumidores têm histórias familiares a respeito dessa disputa, nem sempre agradáveis, talvez dolorosas. Entra em cena uma empresa estrangeira e sem conhecimento total do contextocria a polêmica. Cabe também mencionar as subculturas existentes em toda cultura. Elas podem ter em comum etnia, nacionalidade, tipo de alimentação, localização urbana ou rural e religião. É imprescindível conhecer a fundo tais detalhes. 8 2.1.2 Influências sociais São adquiridas nos diversos grupos de que o indivíduo participa ao longo da vida. A experiência de grupo mais primária das crianças é de pertencer a uma família. Conforme Boone (1995, p. 172), “a partir deste grupo, elas procuram satisfação de todas as suas necessidades psicológicas e socias. À medida que crescem unem-se a outros grupos, dos quais adquirem tanto status quanto os papéis.” O status é relativo à posição que se ocupa enquanto membro daquele grupo, e os papéis são uma expectativa dos outros membros do grupo sobre aquele que adotou uma posição específica. Dessa forma, ao longo da vida, os grupos vão suprindo seus membros de papéis e status, o que por consequência influencia o comportamento de compra de consumidos/membros de diversos grupos. Vejamos agora os grupos sociais mais relevantes: Grupos de referência – Aqueles nos quais as estruturas de valores influenciam o comportamento de um indivíduo. Assim, os consumidores adquirem bens, produtos ou serviços que são valorizados nos seus grupos de referências: o objeto da compra precisa ser identificado pelos demais membros dos grupos e precisa ser visível, destacar-se. Quanto maior o valor envolvido na aquisição de um bem, mais importância adquire o reconhecimento pelo grupo de referência. As crianças são especialmente influenciáveis pelos seus grupos de referências. Classes sociais – As divisões de classe dizem respeito a ocupação, renda, educação, local de residência e histórico familiar, mas nem sempre é a renda o fator determinante primário aqui – em diversos países, trabalhadores especializados possuem renda superior a professores universitários. Entretanto, quando consideramos o comportamento de compra, é outra história. Booner (1995, p. 173) nos fala a respeito de pesquisas sociológicas que apontam que mesmo diante de uma situação de crise econômica ou imprevistos que venha a diminuir as receitas das pessoas e por consequência seu consumo, ainda assim as pessoas não se sentem pertencentes a outra classe social. Segundo ele, “quando suas expectativas não são confirmadas pela realidade, elas se frustram e podem baixar seus níveis de despesas, mas nem por isso passam a se considerar de uma classe inferior”. 9 Líderes de opinião – Vanguardistas, adquirem produtos antes dos demais e propagam suas experiências via boca a boca com os demais membros do grupo. Se observarmos bem, todos os grupos têm os seus. Esses membros acabam ocupando posições de destaque ou status dentro do grupo, sendo influenciadores dos demais em assuntos específicos, pois desfrutam de reconhecimento como expert nestas áreas; São tidos como criadores de tendências. Nesse contexto, a influência da família na vida de um consumidor não pode ser desconsiderada, se consideramos sua participação ativa, em especial em famílias latinas, ao longo de muito tempo. Por exemplo, uma jovem que sai de casa para morar só, ou é recém-casada, e passa a utilizar marcas de produtos que sua mãe utiliza ou utilizava. Há autores que inserem outros grupos nessa classificação, mas não há unanimidade quanto aos acréscimos. Ainda assim vale atentar para os papéis domésticos e crianças e adolescentes como agentes influenciadores. Quanto ao primeiro, é importante estarmos atentos para a cada vez mais presente ascensão da mulher profissionalmente, e para a presença dos homens nas atividades domésticas. Há que se considerar a mulher como figura de decisão na família, e o peso de sua opinião em investimentos altos cresce cada vez mais, ao mesmo tempo em que as atividades domésticas que exerce sofrem mudanças, de locais horários (há mais fluxo nos supermercados de noite do que de dia) e frequência. Quanto ao segundo grupo: mais e mais, as crianças estão decidindo o que comer e vestir e que brinquedo querem (certo ou não, é fato!). Os adolescentes são consultados em muitas famílias para comprar itens de tecnologia (de tv a smartphones), e nos lares de pais separados ainda recebem mesadas – ou no mínimo mimos de ambos, o que faz com que possam consumir o que desejam. São decisões de compras influenciados por este grupo: roupa, calçado, alimentos e bebidas, opções de lazer, artigos de tecnologia e beleza. 2.2 Determinantes pessoais Fazem parte deste tema: necessidades individuais, motivacionais, percepções, atitudes e autoconceito, aspectos que já destacamos. 10 2.2.1 Necessidades e motivações O reconhecimento de uma necessidade é o fato que gera todo o processo de decisão de compra. Consideraremos aqui as definições dadas por Boone (1995, p. 175): Necessidade é a falta de algo útil, desequilíbrio entre o estado real do consumidor e o desejado. Motivações são os estados que conduzem uma pessoa a satisfazer uma necessidade sentida. Para estudarmos o tema necessidades, é preciso recorrer a Maslow. Ele desenvolveu uma teoria sobre as necessidades humanas, e conseguiu categorizar e priorizar as necessidades em cinco níveis. As necessidades inseridas em um nível inferior ou básico precisam ser atendidas, ao menos em parte, para que o indivíduo passe a priorizar a satisfação do nível seguinte. A figura a seguir nos auxilia no entendimento da pirâmide. Figura 1 – Pirâmide de Maslow para consumo Fonte: Elaborado com base em Boone, 1995. Vejamos uma descrição de cada uma das necessidades: Fisiológicas – São as primárias, relativas a alimentação, abrigo e vestuário. Segurança – Proteção física e contra situações inesperadas, Aceitação social – Desejo de ser aceito na família, grupo primário, e nos demais grupos. 11 Estima – Mais comum em economias desenvolvidas, com boa renda per capta, desejo por realização e respeito diante da sociedade (reconhecimento). Autorrealização – Necessidade por satisfação, busca realizar através do atingimento máximo do seu potencial. Uso pleno de talentos e aptidões pessoais. 2.2.2 Percepções Tem relação com o que uma pessoa capta através dos sentidos. Tema facilmente compreendido, basta recordarmos a forma como escolhemos comida, bebida, perfumes, cremes etc. É o que uma pessoa capta através dos sentidos. Em outras palavras, escolhas realizadas através de experiências sensoriais, como compra de comida, bebida, perfume, cremes etc. Boone (1995, p. 177) nos informa que “recentemente os pesquisadores reconheceram que o que as pessoas percebem é muito mais o resultado do que elas querem perceber do que aquilo que realmente existe.” Isso se deve, segundo ele, a dois tipos de fatores: os estimulantes (cor, peso, forma, aroma) e os individuais (características do indivíduo, seu processo sensorial e também as experiências com itens similares, expectativas e motivações). A ideia de filtros perceptivos diz respeito à resposta seletiva do consumidor aos inúmeros estímulos que recebe. Não há como afirmar qual o melhor caminho para superar os filtros e se comunicar com consumidor, não há receita – varia de acordo com público, local e produto. Já o conceito de percepção subliminar se relaciona à percepção do cérebro, mas não no nível consciente. A informação é reconhecida no nível subconsciente. A propaganda subliminar é proibida, por ser manipulativa. 2.2.3 Atitude Esse conceito está ligado às avaliações que um consumidor tem desenvolvido a respeito de algum produto.Elas são desenvolvidas ao longo do tempo, através de experiências pessoais ou informações obtidas nos grupos em que se convive. Conforme explica Boone (1995, p. 179), as atitudes podem ser favoráveis ou não. Se elas forem favoráveis, leva à compra, do contrário pode-se propagar má-fama. É foco constante de investigação das empresas. 12 Uma atitude é composta por componentes cognitivos (informação, conhecimento sobre o produto), afetivos (reações emocionais, sentimentos) e comportamentais (relativo a propensão e forma como adquire). A cada compra estes três componentes estão presentes, não de forma proporcional, mas estão lá. As empresas procuram produzir atitudes no consumidor, que favoreçam a compra do produto (degustação no ponto de venda) ou então procuram comunicar-se de maneira a apresentar para o consumidor que está atendendo a sua necessidade. A situação é crítica quando a atitude é desfavorável ao produto. A mudança de atitude ocorre quando uma empresa é bem-sucedida em produzir um desequilíbrio entre as 3 componentes atitudinais, ou seja, criar uma contradição ou dúvida razoável. Esta estratégia é muito comum quando uma marca ocupa uma posição inferior no mercado e desafia o consumidor a experimentar. Muito comum no mercado de bebidas (Pepsi, Kaizer, Antartica). O uso de testemunhais para ganhar credibilidade de marca também é uma estratégia muito utilizada. 2.2.4 Aprendizagem A aprendizagem relaciona-se à mudança no comportamento do consumidor resultante da experiência vivenciada por ele. Boone (1995, p. 181) nos explica que a aprendizagem se dá por: Impulso – Resposta instintiva a um forte estímulo que impele à ação. Resposta – Reação do indivíduo a impulsos e sugestões. Reforço – É o racional subjacente, que recompensa os compradores por sua lealdade. Ou seja, o estímulo à repetição do uso induz à fidelidade da compra, e por isso justifica a recompensa aos consumidores. TEMA 3 – O PROCESSO DE TOMADA DE DECISÃO Gade (1980, p. 167) nos explica que um processo de tomada de decisão, sob a ótica da psicologia, é sempre doloroso, custoso; não é uma simples equação, porque envolve fatores emocionais e sociais: “a decisão frequentemente não se dá apenas em termos de ganhos e perdas e sim em função do que acreditamos que os outros dirão delas ou sofrerão por causa delas”. Certamente não tratamos aqui de decisões de compras corriqueiras, mas obviamente das que 13 envolvem valores significativos. Embora de fato o processo seja muito complexo, procuraremos simplificá-lo. O processo de decisão de compra é composto por cinco passos, a ver: 1. Reconhecimento de um problema – Pode ser abordado também como oportunidade. Nesse estágio, o consumidor se torna ciente de que há um problema, efeito da discrepância entre a situação real e a desejada. Na sequência, ele busca por uma solução. Esse problema pode não ser simplesmente a falta de algo no estoque de rotina, mas por exemplo a limitação de um equipamento que possui para realizar determinada tarefa, a insatisfação com determinada marca de produto que só vem causando problemas ou ainda uma nova fase de vida devido a mudança de status. 2. Busca por alternativas – Esta etapa pode se dar por um processo simples e rápido, ou por pesquisa de modos alternativos para soluções. As fontes podem ser internas, memórias e observações, ou externas, como consultas a amigos e familiares, internet, panfletos e vendedores especialistas. Quanto maior o valor necessário para a solução, maior será a o tempo e o aprofundamento na busca por alternativas. 3. Avaliação de alternativas – Esta etapa pode ou não ocorrer simultaneamente à etapa anterior. Dependerá da complexidade, de valores e das pessoas que serão afetadas. Ao final desta etapa, o consumidor poderá não estar satisfeito e voltar novamente a buscar mais alternativas, ou ele poderá ir em frente. É importante entender quais critérios compõem a avaliação. Eles podem ser muitos ou não (preço, garantia, tamanho, cor, impostos e taxas, desvalorização, aceitação no mercado etc.). 4. Decisão de compra e ato de compra – Esta etapa é autoexplicativa: aqui o consumidor conseguiu elucidar todas suas dúvidas e focou sua decisão em uma alternativa, e agora basta decidir onde comprar. Entram aspectos relativos a relacionamento, credibilidade, atendimento, condições, condições de pagamentos, prazo de entrega, ambiente de loja, comodidade. 5. Avaliação pós-compra – Neste estágio o consumidor irá avaliar todo o processo e o produto; pode ser um resultado satisfatório ou não. Gade (1980) elenca três possíveis situações: a. Terá influência no seu comportamento de compra futuro; 14 b. Pode ocorrer dissonância cognitiva, quando me decepciono com a decisão que tomei voluntariamente e irrevogavelmente diante das alternativas que tinha; será resolvida se conseguir valorizar o que foi adquirido o desvalorizar as demais alternativas; c. E finalmente o comportamento pode ser influenciado por expectativas não satisfeitas (performance do produto prometidas, mas na prática não atingida). O processo todo se dá porque o consumidor busca resolver um gap entre a situação atual e a desejada. A forma como ocorre tal processo e a satisfação durante e após compra definirá o nível de confiança que ele depositará no vendedor, na marca e na empresa, e influenciará na compra futura, quando novamente ele poderá vir a se relacionar com toda a cadeia. TEMA 4 – O CONSUMIDOR E AS TIPOLOGIAS DE TENDÊNCIA Como o consumidor reage a uma tendência? Raquilha (2015, p. 50) nos informa que: “As tendências se manifestam de diferentes formas: umas estão em volta do comportamento do consumidor, outras estão em volta das atitudes do consumidor. Sempre que uma tendência é identificada por consequente, definida, terá de permitir uma análise correta e uma utilização comercial”. O autor alerta ainda que a compreensão dessas informações é importante, a fim de compreendermos a relevância, o potencial de crescimento e a utilidade da tendência em análise, e avaliar se permite a construção de insights. Ele nos propõe as tipologias a seguir. Quanto ao tipo, as tendências podem ser: Comportamentais – Quando os consumidores apresentam mudanças na forma de fazer algo, na quantidade, na frequência, quando e onde o fazem. Impactam diretamente as vendas. Quanto antes percebidas, permitem à empresa maior tempo para se adequar. Atitudinais – Ao contrário das anteriores, não impactam diretamente as vendas, e podem mudar sem alterar as comportamentais. Interferem no posicionamento da marca, nas respostas dos produtos e na previsão dos comportamentos. Indicam metodologias de gestão e relacionamento, permitindo prever como os consumidores irão responder a determinados estímulos. 15 Micro – Direcionadas para um determinado setor ou comportamento, em número reduzido e com abrangência restrita. Podem fornecer pistas para as macro ou podem crescer para se tornar uma. Macro – Poderosas, de grande abrangência demográfica, influenciam uma série de setores e mercados. Direcionadas por atitudes e necessidades dos consumidores. Internacionais – Atingem diferentes territórios, desenvolvendo-se em locais com nível socioeconômico similar, e atravessando fronteiras de forma rápida e simultânea. Nacionais – As tendências se manifestam conforme a cultura local, já que o comportamento e as atitudes dos consumidores são diretamente influenciados por ela. Entender a abrangência de uma tendência é importante, pois ela poderá estar afetando apenas um setor ou diversos.Observemos agora os consumidores, que podem se manifestar: Por gênero – uma tendência normalmente afeta ambos os gêneros, mas de formas diferentes; Por idade – uma tendência que se manifesta de forma diferente entre jovens e sêniores; Por classe social – há tendências direcionadas para certos grupos; Nas relações – ocorrem em grupos definidos, por exemplo família e grupos universitários; Na cultura – tendência segmentadas por etnias e culturas são importantes na cultura ocidental; às vezes, uma tendência étnica acaba atingindo diversos setores. TEMA 5 – O CONSUMIDOR DIGITAL Não é novidade que estamos vivendo num mundo de megacidades e centros urbanos cada vez maiores. Esse contexto promove o distanciamento das pessoas; por outro lado, a tecnologia digital mantém todos conectados. A revolução trouxe com ela conectividade e isso mudou o mundo, e consequentemente o consumidor. Cada vez mais as pessoas se conectam na rede, e o marketing digital promove mais e mais comodidade e conveniência para compras. Não importa onde o consumidor esteja, que horas são ou qual o dia da semana. Os produtos e ofertas estão disponíveis todos os dias do ano, 24h/dia. 16 E o consumo não se restringe só à compra de bens e produtos, mas inclui o consumo de notícias e entretenimento, a prática de esportes, a educação, entre outros. As grandes editoras de jornais e revistas estão fechando ou se reorganizando para acompanhar a onda; com os smartphones, o consumidor pode descobrir a qualquer momento o que está acontecendo no mundo – tudo está a um feed de distância. O comércio foi totalmente revolucionado. Quem tem uma loja física que não tenha uma virtual na internet, uma fan page no Facebook, ou uma página no Instagram? Não se trata só de empresas vendendo ao consumidor final (B2C), pois há ainda o B2B, o comércio entre empresas, e o C2C, o comércio entre consumidores (OLX, Mercado livre, Ebay etc.). No mundo virtual, as relações não têm fronteiras, tanto para se cultivar amigos ou relacionamentos como para as relações comerciais. Quanto a essa expansão: embora esteja presente no mundo todo, a intensidade com que os usuários podem utilizá-las varia de acordo com as nações, suas leis e com a situação econômica que permite acesso à rede. Uma novidade que vem crescendo e ganhando aderência são as criptomoedas, que prometem uma economia unificada, sem impostos ou burocracias. A mais famosa de todas, que já fez milionários no mundo, é a Bitcoin. É a pioneira e a que mais permite transações comerciais. Por outro lado, toda evolução também tem um lado negro – o consumo desenfreado deste mundo digital vem afastando pessoas do mundo real. Com os jogos interativos, muitos jovens passam horas, às vezes dias jogando, ao invés de interagirem com amigos e família no mundo real. Semelhante acontece com profissionais que ficam conectados sempre, resolvendo questões de trabalho, e que acabam por relegar a família a um segundo plano, o que pode culminar em famílias disfuncionais. Até que ponto isso é saudável? Solomon (2011, p. 48) nos propõe uma reflexão: Os profissionais do marketing e os consumidores coexistem em um relacionamento complicado de mão dupla. É quase sempre difícil dizer onde o trabalho de marketing termina e onde “o mudo real” começa. Um resultado dessa indefinição de fronteiras é que já não sabemos mais com certeza (e talvez não nos importemos com isso) onde começa e onde termina a linha que separa o mundo fabricado e a realidade. É um caso de ética: até onde devemos estimular a ilusão ou promover canais de fuga? Somos profissionais e responsáveis por isso, mas quem está olhando? Fato é que não podemos colher laranjas se plantamos abóboras. 17 REFERÊNCIAS BOONE, K. Marketing contemporâneo. Rio de Janeiro: LTC, 1995. DEARO, G. Gafes: 25 ações de Marketing que saíram pela culatra em 2016. Exame, 14 dez. 2016. Disponível em:<https://exame.abril.com.br/marketing/gafe s-25-acoes-marketing-2016>. Acesso em: 4 set. 2018. DOVE Retratos da Real Beleza. Dove Brasil, 15 abr. 2013. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Il0nz0LHbcM>. Acesso em: 4 set. 2018. GADE, C. Psicologia do consumidor. São Paulo: EPU, 1980. WALK In Fridge Closet. Heinekken, 24 jan. 2010. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=hTWq11MzNxw>. Acesso em: 4 set. 2018. MALUF, R. O Consumo nos dias atuais. Portal do Marketing, 8 dez. 2007. Disponível em: <http://www.portaldomarketing.com.br/Artigos/Consumo_nos_dia s_atuais.htm>. Acesso em: 4 set. 2018. RASQUILHA, L. Coolhunting e pesquisa de tendências: observar, identificar e mapear as tendências e mentalidades emergentes do consumidor. São Paulo: Actual, 2015. SOLOMON, M. R. O comportamento do consumidor. Porto Alegre: Bookman, 2011. AULA 3 COOLHUNTING Profª Hedilaine Zaniboni Rezende 2 TEMA 1 – TENDÊNCIAS: COMO IDENTIFICÁ-LAS Uma vez entendido o que é Coolhunting e como atua o profissional dessa área, vamos agora detalhar um pouco mais sobre tendências e suas características. Prever uma tendência, como já vimos, permite uma vantagem competitiva muito grande à empresa, mas, por outro lado, não é um trabalho muito fácil. Uma série de dúvidas nos vem à mente quando falamos de tendências: O que é? Como identificá-las? Quais são os sinais? Como estar certo de que investir nesses sinais resultará em sucesso? Diversos autores apresentam suas definições de tendências e como conseguir detectá-las a tempo. Godoy (2018) comenta que “o estudo do passado e do presente é que determina a direção que leva ao futuro. Em empresas de tendências, os profissionais passam a analisar e pesquisar conexões sobre o que está ocorrendo. O futuro está presente nas ações cotidianas mais frequentes, das quais devemos decodificar a cultura”. Ou seja, para ele é necessário incluirmos uma visão do passado no estudo de tendências. Para outros autores, o futuro está mais relacionado com o presente, o cotidiano. Por exemplo, Faith Popcorn, conhecida por muitos como a “Nostradamus do Marketing”, comenta em entrevista para a revista HSM Management (Cajaraville, 1998) que “o futuro não é repetição do passado”, mas que “as empresas precisam abrir mão de velhas ideias e desenvolver novas”, para que possam entender uma tendência e vir a desenvolver algo para aproveitá-la. Assim, esse processo estaria relacionado ao presente e não ao passado. Godoy (2018) aponta: Identificar tendências significa antecipar as mudanças que necessitam ser feitas de forma que tais mudanças façam parte do cotidiano. Representa a solidificação dos diferentes desejos individuais presentes no inconsciente coletivo, contendo energia, variedade e estabilidade suficiente para continuar avançando no mercado até tornar-se parte do deste. Segundo esse conceito, para identificarmos uma tendência devemos observar quais mudanças que ser realizadas e inseridas na rotina. Godoy ainda relaciona a tendência com a solidificação de desejos, com a concretização de vontades que estão presente no inconsciente coletivo. Ou seja, quando se trata de um desejo compartilhado por muitos indivíduos, há energia suficiente para que a tendência se forme e torne-se parte do mercado. 3 Por outro lado, Rasquilha (2015, p. 16) comenta que “o estudo de tendências é ainda uma disciplina relativamente recente, em que não se estabeleceu uma prática definitiva deste processo de identificar e analisar tendências”. Ele segue afirmando que “a análise de tendências não é uma pseudociência”. Certamente concordamos, dado que, embora não haja um caminho pré-definidocom que todos concordem, exige um processo lógico e formal, que combina metodologias. Conforme nos explica Rasquilha (2015, grifo do original), para entender uma tendência, precisamos distinguir o que onda, moda e tendência: Onda – vêm com um impacto grande, mas dissipam-se rapidamente. As pessoas incorporam-nas sem entender porquê. Exemplos de Ondas tivemos os Crocs ou a Pulseira Power Balance. Moda – incorporada de forma consciente na rotina diária. Não acarreta mudança de comportamentos. Tem um impacto menor do que a onda e dura mais tempo. Temos como exemplos de Modas os Converse All Star ou a Pandora. Tendência – resultado de uma mudança de comportamento. Começa de uma forma mais tímida do que a Onda e a Moda, mas a sua duração é grande e com impactos profundos. Assumida como mentalidade emergente e dominante. Bons exemplos disso são as Havaianas e os Swatch, como acessórios de moda. Kotler e Keller (2012, p. 76) também sugerem uma categorização em três grupos, mas unem onda e moda no que chamam de modismos, e assim temos: Um modismo é “imprevisível, de curta duração e não tem significado social, econômico e político”. Uma empresa pode faturar com modismos como as sandálias Crocs, os bonecos Elmo TMX e os brinquedos Pokémon, mas o sucesso requer sorte e um bom senso de oportunidade. Uma tendência é um direcionamento ou uma sequência de eventos com certa força e estabilidade, mais previsível e duradoura do que um modismo; as tendências revelam como será o futuro e podem prover direção estratégica. Por exemplo, uma tendência à valorização da saúde e nutrição trouxe maior rigor às regulamentações governamentais e publicidade negativa para empresas que estimulam o consumo de comida pouco saudável. Uma megatendência é uma “grande mudança social, econômica, política e tecnológica [que] se forma lentamente e, uma vez estabelecida, passa a nos influenciar por algum tempo — de sete a dez anos, no mínimo”. Como podemos observar, Rasquilha foca seus conceitos em impactos e transformações comportamentais, enquanto Kotler e Keller observam um cenário maior, se atendo a mudanças sociais, econômicas e políticas, conforme o exemplo sobre comidas saudáveis. O importante é entendermos que onda, moda e modismos não são tendências, e seus impactos não causam mudança de 4 comportamento ou direção, enquanto as tendências, diferentemente, provocam uma ruptura no status quo e mudam o curso do mercado, afetando as empresas, os negócios, a política e a economia. Quanto maior for a sua reverberação e estabilidade, maior a tendência, até ser denominada megatendência. Kotler e Keller (2012, p. 76) ainda apontam que, “para ajudar profissionais de marketing a identificar mudanças culturais que possam trazer novas oportunidades ou ameaças, várias empresas oferecem previsões socioculturais” Isso é confirmado pela observação de Grossman (2003): Quando as pessoas cool – um grupo conhecido pelos marqueteiros como consumidores alfa – começam a falar, ou comer, ou fazer compras de um certo modo, as pessoas não cool os seguirão. Ou seja: observe o que os consumidores alfas estão fazendo hoje e você poderá prever o que a maioria estará fazendo amanhã. E, em uma época de competição acelerada, com empresas obcecadas por inovações permanentes, informações que garantam um investimento seguro valem muito dinheiro, o que gerou "uma indústria pequena, mas vigorosa, completamente dedicada a colher informações desse tipo: os observadores de tendências, que entendem o que é e o que não é cool. Em comum, os autores mencionam empresas dedicadas a estudar e compreender tendências, com base em pesquisas de mercado, pesquisas de tendências e coolhunting. TEMA 2 – ENTENDER AS TENDÊNCIAS: FASES DO PROCESSO Das informações que coletamos, podemos observar que toda tendência é um processo de mudança proveniente do consumidor e seu comportamento de consumo. Rasquilha (2015, p. 29) vai além, lembrando que o “processo de mudança que resulta da observação do comportamento dos consumidores origina a criação de novas ideias: de negócios, de produto ou de serviços, de marca ou de ação”. A interpretação dessas observações, devidamente embasadas, gerarão insights para as empresas, que poderão mudar a forma de desenvolver, pensar, produzir e vender um produto/serviço/marca. Poucos autores se detiveram em explicar como ocorre esse processo de observação e descoberta de tendências. Rasquilha (2015, p. 21) , um deles, nos propõe o seguinte processo de tendência: Observação – Fermentação – Interpretação – Transformação. Vamos detalhar primeiramente a fase de observação. Retomando Grossman (2003), temos uma pista, quando fala de pessoas cool ou 5 consumidores-alfa. Esse conceito faz referência àqueles que todos seguem – os alfas. Rasquilha (2015, p. 30) os descreve como “indivíduos que criam e estão permanentemente preocupados com as novidades, estilos inovadores”. Segundo Rasquilha (2015, p. 30), são os innovations lovers. Para identificarmos uma tendência, precisamos descobrir quem são esses indivíduos, no segmento em questão, e observá-los. Embora não seja um trabalho tão simples quanto parece, há características que nos auxiliam: são pessoas que gostam de experiências novas, estão sempre atentos a lançamentos e tecnologias, comportam-se sem se preocupar com a opinião do grupo, são normalmente seguidos – líderes, originais, correm riscos (já comentamos essas características quando falamos do perfil dos coolhunters) A fermentação é o tempo em que uma tendência se desenvolve, tornando- se visível. Quando uma mudança atinge duas ou mais indústrias simultaneamente, tornando-se visível, é sinal que estamos diante de uma “nova tangibilização de uma tendência, que reflete um comportamento e uma mentalidade mapeada e identificada” (Rasquilha, 2015, p. 30). A partir dessa fase, um monitoramento constante é necessário, observando-se o ciclo de adoção pelos demais públicos. Importante mencionar que o processo de adoção de uma tendência pode se diferenciar de acordo com o público adotante (tema que veremos na sequência). O público adotante inicialmente é muito pequeno, e por isso é crucial estar atento aos sinais mais sutis de mudança no comportamento dessas pessoas. A análise de todas estas informações permite uma interpretação do caminho de desenvolvimento e dos impactos possíveis da nova tendência; no entanto, requer acompanhamento, a fim de confirmar tais premissas. Feito isto, é necessário destacar os insights que poderão servir às demais indústrias. TEMA 3 – O CICLO DE ADOÇÃO DE UMA TENDÊNCIA Nas aulas anteriores, vimos a curva de adoção de uma tendência, e os públicos que fazem parte de cada etapa da adoção: 1º lugar – Inovadores (2,5%): aderem rapidamente, são aventureiros, vanguardistas, arrojados, gostam do risco e entendem rapidamente a proposta. 6 2° lugar – Adotantes iniciais (13,5%): bem-sucedidos, são líderes locais, e conseguem influenciar a comunidade em que estão inseridos. 3° lugar – Maioridade inicial/Precoce (34%): são também líderes de opinião, desfrutando de projeção e respeito nos seus grupos; entretanto, refletem antes de aderir a uma inovação. 4° lugar – Maioridade tardia (34%): são céticos, desconfiados e cuidadosos, e resistem para adotar a inovação. 5° lugar – Reacionários (16%): muito desconfiados, suspeitam de todo tipo de inovação. O processo de adoção é lento e limitado. Os títulos dados a cada público podem variar dependendo do autor. Estamos adotando os apresentados por Rasquilha (2015). A figura abaixo exemplifica a forma como uma tendência é propagada nesses públicos– o diamante das tendências. Figura 1 – Modelo diamante das tendências Fonte: Elaborado com base em Rasquilha, 2015, p. 20. Podemos observar o surgimento de alguns novos personagens. Primeiramente, dos os trend followers, que são os que se espelham nos primeiros dois grupos, e influenciados por eles adotam inovações. Depois, conservatives e anti-innovators, são os grupos mais resistentes, conservadores, que não gostam de mudanças e resistem até o fim para adotá-las. 7 Ainda assim, só o fazem diante de muita pressão do cotidiano. Provavelmente, quando esses grupos por fim aderem a uma inovação, no topo do diamante já teve início outra. Rasquilha (2015, p. 38) ainda nos esclarece que, independentemente do grupo de adoção de uma tendência, há cinco fases a observar: 1. Sensibilização – o indivíduo é exposto a inovação mas falta informação completa sobre tal; 2. Interesse – o indivíduo fica interessado na nova ideia e procura informação adicional sobre tal; 3. Avaliação – o indivíduo aplica mentalmente a inovação no presente e antecipa a situação futura, decidindo depois se experimenta ou não; 4. Julgamento – o indivíduo utiliza e experimenta a inovação; 5. Adoção – o indivíduo decide se continua a utilizar a inovação. Essas cinco fases muito se assemelham ao processo de decisão de compra, o que não deve causar estranheza, pois a adoção de uma nova tendência é a compra de uma ideia, mentalidade ou comportamento que está sendo apresentado. Com base nessas informações, precisamos entender que os adotantes iniciais (trend creators e trend setters) passaram por todas essas etapas. Esses grupos normalmente são os mais informados e abastados socioeconomicamente, com mais acesso a mídias/informação. Eles são mais conectados, convivem com outras pessoas de perfil semelhante, tem vida social muito ativa e conseguem conhecer antecipadamente o que está surgindo, o que permite que adotem rapidamente uma inovação. Assim, é fácil deduzir que eles adquiriram informações sobre a inovação e as propagaram, educando assim os grupos seguintes, tornando-se fundamentais para o crescimento de uma tendência. TEMA 4 – COMO AS TENDÊNCIAS SE MANIFESTAM Creio ser importante uma observação neste ponto: conforme esclarecemos, não são muitos os autores que apresentam detalhadamente o funcionamento da pesquisa de tendências e suas etapas. Para este trabalho, optamos por Rasquilha (2015), devido à sua riqueza de detalhes e didática. Entretanto, esse autor trabalha com o conceito de coolhunter não apenas como o profissional que atua na pesquisa, mas como o indivíduo que “caça o cool”, o que é correto mas pode gerar confusão. Assim queremos clarificar essa definição: nem 8 todo coolhunter é um profissional de pesquisa, mas certamente divide com ele o interesse pelo cool. Dessa forma, retomando nosso tema, percebemos o quão importante esse indivíduo é para a sociedade e para a propagação de novas ideias, comportamentos, produto e assim por diante. Rasquilha (2015) nos propõe que para observarmos a manifestações de tendências, é importante descobrir onde estão os coolhunters, como se comportam e como são. Para estudá-los, Rasquilha (2015, p. 39) nos apresenta, o que ele chama de Grupos de Inspiração e Observação de Tendências. 4.1 Grupos de Inspiração e Observação de Tendências São grupos sociais que representam uma sociedade. Rasquilha (2015, p. 39) adverte que cada sociedade tem suas diferenças e inúmeros outros grupos, pois os valores sociais, culturais e antropológico são únicos. Mas, pela sua experiência, os que serão elencados apresentam-se na maioria delas e são os que mais contribuem para o estudo do assunto. Esses grupos destacam-se e se diferenciam da população, por sua linguagem, moda, roupas ou comportamentos. Eles são referência por sua diferenciação na sociedade, e nela propagam novos estilos e comportamentos, segundo o autor. Figura 2 – Grupos de inspiração e observação de tendências Fonte: Elaborado com base em Rasquilha, 2015, p. 40. 9 Vamos detalhar cada um deles conforme a visão de Rasquilha (2015, p. 40), destacando suas principais características: Jovem (menos de 30 anos): os mais jovens; pioneiros na aceitação de novos estilos e gostos musicais; quando estudantes, são essenciais na criação e no desenvolvimento de inúmeras tendências, uma vez que exploram sua identidade/personalidade, não totalmente estabelecida, sendo mais receptivos a experiências e novidades que integrem as suas culturas e subculturas. Designers: grande interesse por criar coisas novas; imaginativos; preferência por variedade; elevada produção de ideias. Artistas: criativos e imaginativos; preferência por variedade; são pioneiros na mudança de estilo das sociedades. De maior poder aquisitivo: estilos mais caros e mais recentes; importante papel no processo de adoção de tendências; mais preocupados com estética, estilo e gostos que com capacidade econômica. Celebridade: criativos; confortáveis com mudanças e com variedade; grande poder de influência na sociedade, com fãs e seguidores. Gays: importante grupo de adoção de tendências; interesses em estilo e design; 10 busca de variedade; mais emocionais; mais empático; mais receptivos a processos de mudança, por apresentar maior sensibilidade. Tribos e outras subculturas: menos tipificáveis, embora possam se preocuparem com estilos e gostos; abertos a mudança. Rasquilha (2015, p. 40) destaca, ainda, que os grupos de criadores de tendências são pequenos e poli sociais, além de heterogêneos, o que permite a propagação das tendências. O sucesso para se identificar uma tendência nova mais rapidamente reside no fato de o profissional estar inserido, nesses grupos, o mais próximo possível da vertente que gera tais mudanças. É nesses grupos que conseguimos identificar os caçadores de cool com mais facilidade. Como vimos, eles podem pertencer a mais de um grupo, e se um ou mais desses grupos aceitarem um novo estilo, é bem provável que estejamos diante de uma tendência que irá percorrer todo o diamante, conforme explica Rasquilha (2015, p. 42). O autor orienta ainda que a observação deve ser simultânea nesses vários grupos, buscando encontrar e entender os pontos de contato entre eles, apesar de “aparentemente não compatíveis”. Rasquilha (2015, p. 43) menciona ainda que existe uma estrutura de observação que requer dois grupos: “Quem se observa” versus “Quem observa”. Ele nos explica: Quem se observa são os consumidores, os inovadores, os influentes, adotantes iniciais... Quem observa são os observadores treinados, os jornalistas, os empresários, os pesquisadores, os acadêmicos. Buscaremos, com base em Rasquilha (2015), esclarecer cada um dos papéis. Os inovadores, segundo o autor, são aqueles que têm uma vertente artística: escritores, designers, artistas, músicos, produtores etc. Eles têm em si uma vocação para adotar o que é novo; estudar seus comportamentos, atitudes e 11 mudanças é um bom caminho para conseguir identificar uma fonte de novas tendências. Os influentes são aqueles que propagam uma nova tendência. É primordial, para um estudo, identificá-los e observá-los. Os adotantes iniciais são os primeiros consumidores, os vanguardistas, a adotarem uma nova tendência. Suas características variam de setor para setor, de indústria para indústria. Não se pode afirmar que o foco seja o estilo ou que sua preocupaçãoseja ser cool. Compram novos produtos de diversos setores. Quanto aos observadores, cabe destacar que muitas vezes é melhor utilizá- los como fonte. São aqueles que por profissão sempre observam (acompanham com interesse) o grupo foco (quem se observa). Por exemplo, observar os jornalistas que cobrem com frequência determinados setores de interesse, pesquisando seus artigos e reportagens, é mais produtivo do que tentar encontrar outras fontes ou se “infiltrar” nos grupos. Entraremos nesse tema mais à frente. TEMA 5 – O QUE ESPERAR DO FUTURO Faith Popcorn, de tempos em tempos, se manifesta expressando previsões sobre tendências futuras que observa e acompanha. É a responsável por identificar, nos anos 80, o que chamou de cocooning, a tendência ao encasulamento. Ou seja, as pessoas manifestavam o desejo de ficar mais em casa, desfrutar do ambiente do lar, que trazia segurança, tranquilidade e conforto. Com base nessa tendência, a indústria de eletroeletrônicos e de utensílios domésticos passou a oferecer produtos que contribuíam com o prazer de ficar em casa. Em sua entrevista para as jornalistas Mercedes Cajaraville e Andrea Reinke (1998), Popcorn já admitira que essa tendência vinha se confirmando, porém evoluindo, apresentando mudanças. O que no início só se manifestava por prazer nos anos 90, indicava também que havia uma necessidade de segurança, de “lugares seguros” como ela menciona. Popcorn explica ainda que: É por esse motivo que elas se refugiam em lugares seguros. Isso é muito importante para as empresas porque reflete a aspiração dos consumidores de que tudo que os rodeia seja parecido com sua casa. Querem carregar com eles uma espécie de casulo que lhes dê segurança. (Cajaraville, 1998) Essa tendência tem se manifestado até hoje, se refletindo nos escritórios e locais de trabalho, em cinemas (o conforto das novas salas), em shopping centers e em espaços para compra e diversão. Ela se destaca na forma como os espaços 12 são pensados, na decoração, no conforto oferecido, na promoção de ambientes seguros, em comodidades como estacionamento cobertos etc. Outra tendência identificada por Popcorn, e complementar ao encapsulamento, é o que ela chamou de clanning, ou a tendência a nos unirmos a clãs, pessoas com interesses comuns aos nossos. Vejamos (Cajaraville, 1998): semelhante ao encasulamento, é a formação de clãs, que denominei clanning. As pessoas gostam de reunir-se com outras que compartilham os mesmos valores, crenças e interesses. Muitos clãs se formam, por exemplo, na Internet, assim como em torno de determinados tipos de atividade que exigem certa afinidade. Existe uma identidade no grupo do qual as pessoas fazem parte e esse seria um bom lugar para desenvolver um produto, porque todos nós gostamos de fazer parte de uma associação. Em inglês esses grupos são chamados de PLU (people like us, ou seja, pessoas como nós) e constituem uma espécie de barreira de proteção e segurança contra o mundo externo ameaçador. Incluiremos, na sequência, um quadro com as tendências apontadas por Popcorn no livro Click, discutido na entrevista de Cajaraville (1998). Como poderemos observar, muitas dessas tendências, apontadas nos anos 90, se concretizaram e ainda têm efeito nos dias de hoje. Tal fato vem comprovar o tempo de efeito de uma tendência. Cajaraville ainda explora outras tendências, como ancoragem e 99 vidas. A primeira, ancoragem, refere-se ao fato de as pessoas buscarem regressar aos valores de suas origens, voltar às raízes, o que as leva a se interessarem por terapias alternativas (ioga, budismo etc.), para estarem conectadas espiritualmente. Essa tendência, conforme explica Popcorn (Cajaraville, 1998), surge como uma maneira de “fugir” ou suportar a outra tendência, 99 vidas, que se refere aos diversos papéis que uma pessoa desempenha na vida moderna, tão atribulada. Afinal, um mesmo indivíduo é pai, filho, marido, empresário, profissional, voluntário, professor e assim por diante. O impacto no mercado se dá por meio da influência desses valores nas escolhas dos produtos a serem consumidos. Dessa forma, as empresas que se atentaram para tais impactos, desenvolveram produtos que vieram a atender tais necessidades, compondo a vida desses consumidores. Nas palavras de Popcorn: “muitas pessoas baseiam a escolha dos produtos nesses valores, e essa é uma informação de grande valor para as empresas. Além disso, a ancoragem é um antídoto para as 99 vidas, mais uma das tendências que identifiquei”. (Cajaraville, 1998) 13 Figura 3 – As 16 tendências que vão moldar o futuro Fonte: Elaborado com base em Cajaraville, 1998. Observem que, conforme explica Cajaraville (1998), Faith Popcorn gosta de neologismos, e assim cria novas palavras para explicar/nominar as novas 14 tendências que observa. Dessa forma, na tradução livre das jornalistas, surgem termos como clanning (formação de clã) / cooconing (encasulamento) / egonomics (egonomia). Explorando um pouco mais essas tendências: será que o smartphones com câmeras melhores, específicas para selfies, foram criados devido à tendência egonomics? O aumento de vendas e o aprimoramento de videogames como o Xbox é uma resposta à fantasy adventure e cooconing? Infelizmente, não temos essas confirmações. Já Rasquilha (2015) e sua empresa apontam outra forma de classificar e monitorar as tendências. Elencaremos as que estão classificadas nos grupos maiores. As tendências fundacionais, aquelas relevantes para o desenvolvimento geral da sociedade (empowerment), e também macros (todas as demais), mentalidades em desenvolvimento com impacto para a vida em sociedade, são apresentadas por Rasquilha (2015, p. 57). Com base nelas, a AYRWW tem mapeado o período de 2015-2020: 1. Empowerment (empoderamento) – o cliente tem o poder e a decisão; 2. Relaxed and spiritual (relaxado e espiritual) – equilíbrio e paz para uma vida melhor; 3. The beatiful people (pessoas bonitas) – beleza sem preconceitos é fundamental; 4. Riding the recession (cavalgando na recessão) – a revalorização do que é essencial; 5. Identities narrated (identidade narradas) – resgate do passado para criar o futuro; 6. Global connection and convergence (conexão global e convergência) – dinamização do varejo; 7. Ecosustentability (ecossustentabilidade) – eficácia para desenvolvimento sustentável; 8. Ação, exigência e esperança – a transformação do consumidor em cidadão. Observamos poucas ou nenhuma convergência entres as tendências monitoradas por Rasquilha e as citadas por Popcorn. Isso pode se dar devido à referência geográfica – Rasquilha é português, enquanto Popcorn é americana. Ambos sofrem influências de suas culturas, valores e economias. Seus pontos de vistas também podem ser um diferencial, pois entendemos que Popcorn está mais 15 focada no comportamental, enquanto Rasquilha tem foco nas empresas. Outro fato relevante é o gap temporal entre as previsões: as tendências elencadas por Popcorn datam dos anos 90, enquanto as de Rasquilha compreendem o período de 2015-2020. Vale apontar ainda que uma tendência pode sofrer evolução enquanto é observada, até atingir seu ápice. De qualquer modo, ambos os autores são bem-sucedidos e respeitados por suas previsões para o mercado. Nosso intuito é dar a conhecer previsões de tendências que observamos e que, de fato, impactam o mercado de consumo e a forma como os consumidores fazem suas escolhas. Essas previsões fazem com que as empresas possam se preparar e aproveitar as oportunidades de crescimento. 16 REFERÊNCIAS CAJARAVILLE,M. R. Do casulo às 99 vidas. HSM Management, p. 140-146, 1998. GODOY, G. Relatório Popcorn. Psicologia, Saúde e Cultura, 29 jan. 2018. Disponível em: <http://www.gilbertogodoy.com.br/ler-post/relatorio-popcorn>. Acesso em: 12 nov. 2018. GROSSMAN, L. Trends: The quest for cool. Time, 8 set. 2003. Disponível em: <http://content.time.com/time/magazine/article/0,9171,1005612,00.html>. Acesso em: 12 nov. 2018. KOTLER, P.; KELLER, K. L. Administração de marketing. São Paulo: Pearson Education do Brasil Ltda, 2012. RASQUILHA, L. Coolhunting e Pesquisa de Tendências: observar, identificar e mapear as tendências e mentalidades emergentes do consumidor. São Paulo: Actual, 2015. AULA 4 COOLHUNTING Profª Hedilaine Zaniboni Rezende 2 TEMA 1 – VISÃO GERAL Como já discutimos em aulas anteriores, conhecer os hábitos e comportamentos de consumo, a forma como seu público-alvo toma a decisão de compra, seus gatilhos, bem como seus bloqueios e resistências são questões fundamentais para o sucesso de uma empresa em seu segmento. Observá-los detidamente com técnicas de coolhunting pode trazer vantagem competitiva quando conseguimos identificar uma tendência no seu nascimento e desta forma poder desenvolver produtos para explorá-la. Entretanto, também vimos que o processo de uma pesquisa de tendência/ coolhunting é demorado e custoso. O que fazer? Em geral, as grandes empresas compram relatórios fornecidos por empresas de pesquisa de tendências (o que também tem um valor significativo) do seu segmento e acompanham fontes de dados secundários de informação. Outras vezes, as empresas têm sua própria equipe de pesquisa e informação. Em todo caso, em muitas ocasiões entender o que está acontecendo naquele momento com o seu consumidor target é crucial, e a pesquisa mercadológica torna-se a ferramenta relevante. Podemos afirmar que toda pesquisa tem um custo elevado, entretanto, a pesquisa mercadológica é acessível a empresas de portes diversos. Nesta etapa, discorreremos mais detalhadamente sobre esta ferramenta. Boone nos traz a definição da American Marketing Association – AMA – para a pesquisa de marketing: Pesquisa de marketing é a função que conecta consumidor, cliente e público ao profissional de marketing por meio de informações. Essas informações são usadas para identificar e definir oportunidade e problema de marketing; gerar, aprimorar e avaliar ações de marketing; acompanhar o desempenho de marketing; e desenvolver a compreensão de marketing como um processo. Além disso a pesquisa ainda especifica informações necessárias para responder a essas questões; projeta o método de coleta de informação, administra e implementa o processo de coleta de dados; analisa os resultados; e comunica as conclusões e suas implicações. (Boone, 1995, p. 142) A AMA nos oferece uma definição bastante completa sobre pesquisa mercadológica, seus diversos públicos, aplicações e etapas. Uma pesquisa mercadológica é extremamente útil ao profissional de marketing porque permite correções de produtos, planejamento e direção, pois pode responder a inúmeras questões, por exemplo, em um dado segmento quantos já experimentaram o produto (penetração)? Quantos repetiram a 3 compra? Com que frequência utilizam? Com que frequência compram? Indicam? Por que compraram? Quais os principais concorrentes? Por que os consumidores compram produtos da concorrência? Qual a avaliação sobre o seu produto e da concorrência? Com uma pesquisa de mercado bem estruturada podemos descobrir qual o potencial, características e penetração de mercado de cada um dos players, qual a frequência de compra dos consumidores, quais os fatores motivadores de compra, nível de satisfação deles, testar conceitos e novas aplicações, ou seja, auxiliar na tomada de decisão de marketing. Segundo Boone (1995, p. 142), “pesquisa de marketing é a coleta e o uso de informação para tomada de decisão em marketing... tomar decisões envolve não apenas a solução de problemas à medida que eles surgem, mas a antecipação e a prevenção de problemas futuros”. De fato, muitas campanhas publicitárias são testadas em pesquisas antes para prever a reação do público, assim também como novos produtos ou seus conceitos. Muitos produtos e campanhas já foram abortados antes do lançamento. Kotler (2012) nos exemplifica: Figura 1 – Suco de laranja Tropicana Fonte: LunaseeStudios/ Shutterstock Compreender o mercado é crucial para o sucesso de marketing. Quando os profissionais de marketing não são consumidores, é comum se envolverem em problemas. Quando a Tropicana redesenhou suas embalagens de suco de laranja, abandonando a imagem icônica de uma laranja espetada por um canudo, ela não testou adequadamente as reações dos consumidores, e os resultados foram desastrosos. As vendas caíram 20 por cento e a empresa restabeleceu a antiga embalagem poucos meses depois. (Kotler, 2012). 4 Se a Tropicana houvesse testado a nova embalagem em pesquisa, teria descoberto o quanto ela desagradava aos seus consumidores e não a teriam lançado, evitando prejuízo. Kotler (2012, p. 103) defende que independente do porte, toda empresa deve buscar se beneficiar desta ferramenta, bastando para tanto encontrar uma forma criativa de implementá-la. A pesquisa de marketing, no entanto, não está limitada a grandes empresas com grandes orçamentos e departamentos de pesquisa de marketing. É comum, nas empresas de menor porte, que a pesquisa de marketing seja conduzida por todos os funcionários — e pelos clientes também. Pequenas empresas podem contratar os serviços de um instituto de pesquisa de marketing ou conduzir a pesquisa de um modo criativo e econômico. (Kotler, 2012, p. 103) O autor segue sugerindo algumas formas de tornar viável esta prática, apresentadas resumidamente a seguir: 1. Envolver estudantes ou professores para elaborar e conduzir seus projetos... 2. Consultar a Internet. Uma empresa pode coletar uma quantidade considerável de informações a um custo muito baixo pela análise dos sites dos concorrentes, monitoramento de salas de bate-papo e acesso a dados publicados. 3. Verificar os concorrentes. Muitos proprietários de pequenas empresas, como restaurantes, hotéis ou lojas de especialidades, visitam rotineiramente os estabelecimentos de seus concorrentes para saber quais mudanças têm sido feitas. 4. Explorar a experiência dos parceiros de marketing. Empresas de pesquisa de marketing, agências de propaganda, distribuidores e outros parceiros de marketing podem querer compartilhar o conhecimento de mercado pertinente que acumularam. (Kotler, 2012, p. 103) As sugestões citadas por Kotler são bastante viáveis e se aplicam com facilidade ao mercado brasileiro. Muitas faculdades fazem parcerias com empresas com intuito de permitir aos alunos vivenciarem uma experiência real enquanto estudam e, para as empresas, significa mão de obra especializada, sob orientação, a um custo muito acessível. A pesquisa utilizando internet deve tornar-se uma prática rotineira dentro das empresas, assim como visitar os estabelecimentos dos concorrentes sempre que possível, assim é possível testar o nível de serviço, atendimento, agilidade especialmente se são locais de atendimento ao público. Quanto aos parceiros de marketing, em geral são sempre abertos a discutir as experiências e informações do segmento que eles detêm, guardadas evidentemente as questões éticas. 5 TEMA 2 – MÉTODOS DE COLETAS DE DADOS TRADICIONAIS – QUALITATIVOS, ENQUETE E INTERNET Muitas são as técnicas de pesquisa e a escolha sobre o método a ser aplicado depende, primordialmente,da questão que se deseja investigar. Entretanto, há alguns fatores que precisam ser considerados quando se decide buscar uma pesquisa mercadológica. Aaker (2001) nos apresenta: • Relevância – uma pesquisa não deve ser realizada por mera curiosidade, a necessidade que a motiva deve ser estratégica; • Tipo e natureza da informação buscada – sugere-se primeiramente buscar em todas as fontes de informações que a empresa tem acesso; caso a busca não seja bem-sucedida, a próxima etapa deverá ser a pesquisa; • Momento – toda pesquisa requer um tempo de preparo/ planejamento, bem como um tempo de execução. Assim, quando uma empresa decide por utilizar esta ferramenta, deve tomar o cuidado de fazê-la com a antecedência necessária para garantir um bom resultado; • Disponibilidade de recursos – dentro do orçamento de qualquer projeto ou produto é importante reservar um percentual para pesquisa; este valor deve ser suficiente para garantir uma apropriada e eficaz execução; • Análise de custo x benefício – o título é autoexplicativo, a grande questão é saber mensurar o valor das informações que serão adquiridas com a pesquisa. Aaker parece mais comedido se comparado a Kotler. Este último sugere fontes alternativas visando tornar acessível a pesquisa para empresas de pequeno e médio portes, enquanto o primeiro pede uma análise reflexiva antes da decisão de realizar uma pesquisa. Quem está correto? Ambos, pois devemos entender que é indubitável a importância da ferramenta de pesquisa para levantamento de informações do mercado e consumidores. Entretanto, realizá-la de forma leviana e sem planejamento poderá trazer mais problemas que solução. Assim, é muito relevante considerar as questões anteriores, bem como buscar meios mais acessíveis de realizar o projeto de pesquisa. Antes de explorar as metodologias, vamos conhecer quais são as etapas para a realização de uma pesquisa mercadológica. Boone nos apresenta 6 passos: 6 1. Definição do problema – é preciso ter claramente definido o problema para garantir um levantamento de informações precisas. O principal problema é não confundir um sintoma com o problema. 2. Condução de pesquisa exploratória – é utilizada para descobrir as principais causas do problema; são consultadas fontes externas e internas. 3. Formulação de uma hipótese – uma tentativa de explicação para o problema, relacionando várias implicações possíveis para testá-las. 4. Criação de um projeto de pesquisa – definição do modelo para condução da pesquisa mercadológica. 5. Coleta de dados – há três métodos: observação, levantamento ou experimento controlado. A escolha deverá considerar a situação particular. 6. Interpretação e apresentação das informações da pesquisa – o relatório deve responder às questões levantadas na etapa da formulação da hipótese, é comum que estes, além de trazerem respostas, apresentam também recomendações e cuidados que deverão ser observados pela empresa cliente. (Boone, 1995, p. 148-161) Definidas as questões que antecedem uma pesquisa, passaremos a explorar as metodologias mais aplicadas. 2.1 Método Qualitativo Os estudos qualitativos nos interessam, particularmente, pois permitem explorar informações não quantitativas, mas profundas, como a forma de pensar, os sonhos, os sentimentos e intenções do consumidor, por exemplo. Aaker (2001, p. 206) nos esclarece que “o propósito da pesquisa qualitativa é descobrir o que o consumidor tem em mente. É realizada para que se possa ter uma ideia de suas perspectivas, e ajuda o pesquisador a compreender o escopo e a complexidade das atividades e preocupações dos consumidores.” Quanto aos métodos para a realização deste tipo de pesquisa, são mais exploratórios se comparado às entrevistas com questionários, exigindo do pesquisador desenvolver com o entrevistado um relacionamento e flexibilidade para chegar às informações desejadas. Conforme menciona Aaker (2001, p. 207), nos esclarece “os dados resultantes tem maior profundidade e riqueza de contexto – o que também significa um maior potencial para novos insights e perspectivas.” Por isso, quando investigamos tendências, este tipo de pesquisa é muito relevante, pois permite um conhecimento mais profundo sobre os consumidores. 7 Segundo Aaker (2001, p. 207), há 3 categorias de utilização para os métodos qualitativos, a ver: 1. Exploração – utilizado para definir problemas com maiores detalhes; sugerir hipóteses a serem testadas em pesquisa subsequente; gerar novos conceitos de produtos ou serviços, soluções de problemas, listas de características de produtos, e assim por diante. 2. Orientação – para compreender o vocabulário e as percepções sobre vantagem dos consumidores; acostumar o pesquisador a um ambiente não familiar (necessidades, satisfações, situações reais e problemas). 3. Clínica – obter insights sobre assuntos que seriam impossíveis de conseguir com métodos estruturados de pesquisa. (Aaker; Kumar; Day, 2001, p. 207) Quanto à execução, uma pesquisa qualitativa pode ser: 1. Entrevista em profundidade – são entrevistas individuais em que o pesquisador, com base ou não em um roteiro pré-definido para orientá-lo, está frente a frente com o entrevistado e vai explorando detalhadamente o tema em questão. 2. Discussões em grupo foco (focus group ou sala de espelho) – neste formato, um grupo de respondentes, que partilham de determinado perfil comum, são colocados em uma sala de observação, com a presença de um moderador que, com base em um roteiro, irá estimular e manter o grupo na discussão do tema em questão; 3. Técnicas de Projeção – geralmente combina a uma entrevista individual exploratória, é utilizada quando se acredita que o entrevistado não conseguirá verbalizar abertamente suas verdadeiras motivações e atitudes. Utilizado em pesquisas com crianças. 2.2 Método de Enquete As enquetes nada mais são que o arquétipo que imaginamos quando nos deparamos, por exemplo, com a palavra pesquisa: um pesquisador com uma prancheta que nos aborda para respondermos um questionário. As enquetes são amplamente realizadas para coleta de dados primários, complementares aos demais métodos, que, por sua vez, não as substitui. Isso porque, uma vez que se recolhe um grande volume de dados sobre o respondente, com um instrumento de pesquisa formatado (questionário), ao final permite resultados estatísticos comparativos entre todos os integrantes do universo pesquisado (uma amostra estatística significativa considera o tamanho 8 total do segmento em questão e busca uma amostra representativa para entrevistar). Para obtenção de resultados significativos, Aaker nos alerta que é preciso alguns cuidados: • Definir corretamente a população; • A amostra ser representativa da população; • Os respondentes selecionados para as entrevistas estarem dispostos a cooperar; • Os respondentes compreenderem as questões; • Os respondentes estarem dispostos a responder e serem capazes disto; • O entrevistador compreender e registrar corretamente as respostas. (Aaker; Kumar; Day, 2001, p. 236) De fato, é fundamental o treinamento aos entrevistadores tanto quanto ao instrumento de pesquisa (questionário) quanto à abordagem dos entrevistados, como o momento adequado e como aplicar o questionário e conduzir a entrevista. 2.3 Pesquisa de Marketing na Internet Utilizar a internet para realização de pesquisas mercadológicas tem se mostrado um ótimo meio com custos muito mais acessíveis que ir a campo. Os provedores, bem como a velocidade vêm constantemente melhorando e agora com os smartphones a penetração demográfica da internet é extremamentealta e não se pode desprezar. A internet é um excelente meio para pesquisa de dados secundários, dados do mercado, população, economia, concorrência, outros estudos publicados e assim por diante. Entretanto, há alguns pontos cruciais a se considerar, quando para pesquisa necessitarmos abordar diretamente um público, como: a precisão do perfil do público que irá responder; a facilidade em declinar, tempo para se conseguir resposta na quantidade amostral necessária etc. Ainda assim, internet é um meio que não pode ser desprezado, sendo necessário maior planejamento nos detalhes e um bom conhecimento dos hábitos de internet do público pesquisado. Outro ponto a considerar para a realização de pesquisa em um determinado público é o uso de softwares/ aplicativos, como o surveymonkey.com ou o surveygizmo.com nos quais, após elaborado o questionário de pesquisa, o pesquisador pode direcionar o link para uma lista de pessoas que se encaixam no 9 perfil desejado, pois recompensar aqueles que responderem ao questionário é uma prática comum e bem-sucedida. Utilizar abordar os indivíduos que acessaram um site ou utilizaram determinado serviço/ aplicativo pode resultar em maior efetividade. Outra vantagem está nas fronteiras, pois, salvo alguns países, a internet permite a realização de pesquisas internacionais, de forma mais cômoda e acessível. Há ainda pesquisas em redes sociais, que veremos mais detalhadamente. Vale ainda lembrar que a cada dia são implementadas melhorias nas ferramentas de mensuração de acesso e clicks e se sua empresa possui público online como prioritário, buscar por estudos atualizados sobre o perfil deste e sua evolução na web é primordial para a elaboração com sucesso de uma pesquisa online. TEMA 3 – REDES SOCIAIS Primeiramente, precisamos pontuar que o tema redes sociais, tratado do ponto de vista sociológico, bem como fenômeno social na web ou em marketing digital, é vasto e não é nossa intenção esgotá-lo. Focaremos em pontos que facilitem o entendimento da rede social como uma ferramenta para pesquisa mercadológica ou de tendência. Quando mencionamos redes sociais, estamos focando nos grupos de pessoas que se relacionam porque há algo em comum que as une (colegas de faculdade, grupos religiosos etc.). Quando associarmos isso ao conceito de internet, estamos unindo o conceito de redes sociais a uma plataforma que permite conexão entre seus membros sem limites geográficos, são formados os sites de redes sociais. Raquel Recuero (2011) nos auxilia neste tema: “redes sociais na Internet são constituídas de representações dos atores sociais e de suas conexões. Essas representações são, geralmente, individualizadas e personalizadas.” E continua: As redes sociais também devem ser diferenciadas dos sites que as suportam. Enquanto a rede social é uma metáfora utilizada para o estudo do grupo que se apropria de um determinado sistema, o sistema, em si, não é uma rede social, embora possa compreender várias delas. Os sites que suportam redes sociais são conhecidos como “sites de redes sociais”. (Recuero, 2009) 10 Gabriel (Gabriel, 2010) diz que redes sociais “relacionam-se a pessoas conectadas em função de um interesse comum... sites de redes sociais, como Facebook, por exemplo, são plataformas que possibilitam, facilitam e potencializam a conexão de pessoas com outras pessoas.” Quando em pesquisa mencionamos rede social, nos importa o grupo social que ali se encontra, entretanto, as plataformas de redes sociais nos permitem encontrar e pesquisar vários destes grupos simultaneamente e ainda fornece ferramentas que monitoraram os relacionamentos da sua base. Importante destacar o fato de que uma rede social formada no mundo físico é bastante limitada que comparada a uma rede social numa plataforma virtual, não há limites geográficos nem de conexões, assim um indivíduo pode estar conectado a centenas ou milhares de outros. O ciberespaço e as ferramentas de comunicação possuem particularidades a respeito dos processos de interação. Há uma série de fatores diferenciais. O primeiro deles é que os atores não se dão imediatamente a conhecer. Não há pistas da linguagem não verbal e da interpretação do contexto da interação. É tudo construído pela mediação do computador. O segundo fator relevante é a influência das possibilidades de comunicação das ferramentas utilizadas pelos atores. Há multiplicidade de ferramentas que suportam essa interação e o fato de permitirem que a interação permaneça mesmo depois do ator estar desconectado do ciberespaço. Esse fato permite, por exemplo, o aparecimento de interações assíncronas. (Recuero, 2009) Podemos estar conectados a pessoas que não conhecemos pessoalmente, e toda a interação se dá por meio da máquina (computador). Outro ponto que Recuero nos revela anteriormente trata da perenidade da comunicação, haja visto que ela não se acaba quando um ou outro ator não está mais online, ao contrário, ela permanece e pode ser recuperada. O que nos leva a questionar: qual a persistência dos temas abordados? Por quanto tempo fica exposto um fato comentado? Como se propagam? Que valor este fato gera ou possui em si mesmo? Existe, atualmente, diversas métricas e softwares que permitem rastrear um tema na web, inclusive mensurar sua propagação, como NodeXL, Flocker, Netlytic ou Gephi, por exemplo (IBPAD, 2016). Não os discutiremos aqui, mas importa que sejam conhecidos. Na sequência, apresentaremos conceitos relevantes, para nosso tema, a respeito de redes sociais digitais. 11 3.1 Quanto às propriedades dos relacionamentos em sites de redes sociais Boyd (2007) é uma acadêmica que pesquisa a interseção entre tecnologia e sociedade. Ela defende que, considerando a premissa de que os sites de redes sociais são espaços mediados (pelo computador) em que e as pessoas podem se reunir publicamente por meio da tecnologia, e em alguns aspectos se comportam da mesma maneira que os públicos não mediados, ou seja, aqueles que se encontram em locais reais (parques, shoppings, cafés etc.), em ambos as pessoas aparecem para se relacionar com amigos ou conhecer novos. Assim, conclui que sites de redes sociais são uma forma de espaço público. Entretanto, destaca Boyd (2007) que os relacionamentos que se dão por meio dos sites de redes sociais têm 4 propriedades exclusivas: • Persistência. O que você diz fica por aqui, ou seja, o que foi dito no espaço digital permanece ali. • Capacidade de Busca (searchability): capacidade que esses espaços têm de permitir a busca/ pesquisa e permitir que os atores sociais e informações sejam rastreados; • Replicabilidade: tudo o que é publicado no ciberespaço pode ser copiado e replicado a qualquer momento, por qualquer indivíduo. Isso implica que essas informações podem ter sido manipuladas e são difíceis de determinar sua autoria; • Audiências Invisíveis: em comunicações da vida real, podemos “escolher” os estranhos/ desconhecidos com quem conversaremos, inclusive selecionando o que dizer. Nos públicos mediados é diferente, por conta das características anteriores. Nem sempre todos os participantes estão visíveis. Há audiências que, surgirão após a publicação das conversações nesses grupos, pois esses deixam rastros que poderão ser encontrados a qualquer tempo. As propriedades relacionadas por Boyd destacam o fato de que no ciberespaço as informações ali trocadas ficam armazenadas, podem ser replicadas e pesquisadas, o que confere grande importância aos sites de redes sociais nele contido. Sob o olhar de pesquisa mercadológica ou de tendências é preciso cuidar com o tempo dos dados pesquisadose informações levantadas para que não haja um viés nas conclusões do estudo. Atentar para a autoria das informações deverá garantir a não manipulação dos dados. Por outro lado, considerando a persistência, as informações históricas estão todas lá, basta rastreá-las. 3.2 Quanto aos tipos de conexões Recuero (2011), sobre a mediação da internet, destaca a “complexificação da interconexão entre os indivíduos”, sendo as conexões 12 das redes sociais amplificadas no ciberespaço, assim as conexões entre atores podem ser de dois tipos: • Emergentes – laços construídos através da comunicação entre os atores (aprofundamento dos laços sociais – redes emergentes); • Filiação ou associação – conexão via software ou site utilizados, pode se dar sem nenhuma interação ou laço social entre os atores (redes de filiação). Assim, um mesmo ator pode ter ambas as redes, com objetivos e estruturas diferentes. 3.3 Quanto à dinâmica Outro aspecto relevante está em entender que a dinâmica de uma rede social é uma consequência direta dos processos de interação entre os atores, sejam eles pacíficos ou de protesto, ordem ou caos, agregação ou não, ruptura, conforme explica Recuero (2009). Segue ainda destacando “emergência, que é o processo que envolve o aparecimento de padrões de comportamento em larga escala, que não são necessariamente determinados em microescala. Isso quer dizer que as propriedades emergentes são aquelas que o sistema possui, mas que não podem ser encontradas em suas partes individualmente.” Tal fato muito deve interessar aos pesquisadores de tendência, pois embora haja influência de um indivíduo sobre o meio, conforme o processo dinâmico emergente, talvez um comportamento/ atitude só possa ser observado sistemicamente e não individualmente. Recuero (2009, p. 80) ainda afirma: “assim, todo processo dinâmico nas redes sociais será considerado como emergente e capaz de impactar a estrutura.” Destaca: • Cooperação, competição e conflito – São processos sociais resultantes da interação social na rede. A cooperação é o processo responsável pelas estruturas sociais, possivelmente motivada por interesses individuais, capital social envolvido e pelas finalidades do grupo. A competição compreende a disputa/ luta, mas não a hostilidade. O conflito pode ser hostil, gerar desgaste e ruptura da estrutura social. Muitas vezes, é associado à alguma forma de agressão/ violência. • Ruptura e agregação – A capacidade de agregar é a expectativa quanto à rede social, deve superar em muito as rupturas; os indivíduos agregadores são chamados conectores, estes são geradores de negócios, moda e tendência. • Adaptação e Auto-organização – Redes sociais (no ciberespaço), portanto, precisam ter capacidade de adaptação, pois têm um equilíbrio dinâmico, constantemente redirecionado entre caos e ordem. Entendendo: a mediação pelo computador gerou novas 13 formas de estabelecimento de relações sociais, as pessoas adaptaram-se, utilizando a rede para formar novos padrões de interação e criando novas formas de sociabilidade e novas organizações sociais. Essas são baseadas em interação e comunicação, assim é preciso que essas informações circulem, afim de que os processos sociais coletivos mantenham a estrutura social e a continuidade das interações. A comunicação mediada por computador permite transportar essas interações para um novo espaço, no ciberespaço, assim novas estruturas sociais e grupos que não poderiam interagir livremente tendem a surgir. (Recuero, 2009) É importante entender que as redes sociais no ciberespaço são dinâmicas, são mutantes e tendem a apresentar comportamentos criativos, inesperados e emergentes com frequência como a propagação de memes, por exemplo. Isto se dá devido à interatividade de seus integrantes e o uso das ferramentas oferecidas, em conjunto com as características já discutidas. Assim, comportamentos emergentes sempre nos surpreenderão, é preciso estar atento. 3.4 Quanto ao Capital Social Não é difícil perceber que os sites de redes sociais podem dar aos seus integrantes uma projeção que estes jamais teriam fora do ciberespaço. Segundo Recuero (2009, p. 108), “os sites de redes sociais amplificam a expressão da rede social e a conectividade dos grupos sociais.” São valores comuns aos sites de rede social e relacionado aos seus atores (Recuero, 2009): • Visibilidade – quanto mais conexões um indivíduo possuir em sua rede, maior chance terá de conhecer determinados tipos de informação que estão circulando na rede e de obter suporte social quando solicitar. • Reputação – relativo à percepção concebida de alguém pelos outros atores. Implica três elementos: o “eu” e o “outro” e a relação entre ambos. • Popularidade – Está relacionado à audiência, que é facilitada nas redes sociais na Internet. Quanto maior o número de conexões de um indivíduo, maior é sua abrangência, influência e popularidade. Também é relacionada ao número de comentários e ao tamanho da audiência de cada blog ou fotolog, pelo número de visitas em um perfil, bem como a quantidade de links. • Autoridade – mede efetivamente a influência de um ator na sua rede social. Assim, autoridade compreende a reputação, mas não se resume a 14 ela. “Autoridade é uma medida de influência, da qual se depreende a reputação.” Conhecedor destas informações e conceito, podemos imaginar a complexidade e riqueza de informações que existem nos sites de redes sociais, disponíveis a pesquisa de tendências e mercadológicas. As metodologias são nossas conhecidas, aplicadas aqui ao meio digital. Pesquisas mercadológicas podem ser realizadas por enquete online ou observação. Por enquete pode-se utilizar a abordagem instantânea, quando o indivíduo acessa o site ou aplicativo, ou envio por e-mail do link de acesso. A primeira forma é a mais utilizada, uma vez que o envio por e-mail implica em baixa taxa de retorno. Por observação, por meio da presença sem interação nestas redes, buscando observar sem interferir ou a pesquisa humanística. Este último método, em particular, que vale explorar pois se assemelha a coolhunting. Aaker (2001, p. 224) nos diz que “a pesquisa humanística é um controverso método que depende fundamentalmente da observação... cada vez mais utilizado em marketing... defende a imersão do pesquisador no sistema a ser estudado, em vez de ser o observador frio exigido pelo método científico tradicional.” Neste método, o pesquisador mantém 2 diários: um de construção teórica (que registra detalhes, ideias, premissas, hipóteses) e outro metodológico (registra datas, eventos, dados). A controversa citada refere-se ao fato de que uma vez inserido no grupo, há interação do pesquisador com o grupo, assim o pesquisador poderá influenciar o grupo ou ser influenciado por ele, perdendo a imparcialidade e objetividade no seu relato. Por outro lado, estando dentro do grupo o pesquisador poderá observar sob um ângulo impossível aos que estão fora, pois sua percepção poderá ser mais aguçada para pontos jamais percebidos àqueles que possuem um olhar externo. Em suma, como plataforma para pesquisa, as redes sociais online não podem ser desprezadas. Em pesquisa recente (24/10 a 13/11 de 2017) realizada pela Inteligência Rock Contente (Vianna, 2017) verificou que 78% dos usuários de internet estão em alguma rede social. É um índice bastante alto. Apesar da pesquisa ter sido realizada também com empresas, vamos aqui priorizar os resultados dos indivíduos. 15 2 – Social Media Trends 2018 Fonte: adaptado de <https://inteligencia.rockcontent.com/social-media-trends-2018/>. Acessoem: 08 out. 2018. Como podemos observar, as redes mais utilizadas dos brasileiros são Facebook, Instagram e Linkedin. A frequência podemos afirmar que é diária (94% dos respondentes acessam diariamente seus perfis), sendo que 38% passam mais de 4h/ dia navegando nas redes. Embora o Facebook apareça na frente em número de perfis entre os usuários, eles declaram que sua rede preferida é o Instagram, com 47% contra 29% Facebook. Sabe-se que 52,9% das mulheres preferem o Instagram enquanto que os homens 41,6%, apenas 25% dos usuários de 40 anos ou mais preferem essa rede, ao contrário entre estes usuários a preferência é pelo Facebook. Como podemos observar, a presença dos usuários nestas redes é muito significativa, o que proporciona um excelente caminho/ meio de alcançá-los, observá-los e/ ou interagir com eles. Quanto mais próximos/ conhecedores dos seus consumidores uma empresa se fizer, maiores chances de sucesso futuro ela terá. TEMA 4 – NETNOGRAFIA Como podemos constatar no tema anterior, redes sociais, a sociedade como conhecemos vem mudando ao longo do tempo e se tornando cada vez mais digital. Para compreendê-la e acompanhá-la, os cientistas sociais e pesquisadores vêm adaptando meios para pesquisá-la utilizando a mediação dos computadores ou outra forma de tecnologia. Primeiramente, precisamos compreender melhor o conceito e área de estudo da Etnografia para na sequência estudarmos Netnografia. 16 Do grego ethos (cultura) + graphe (escrita). É a ciência das etnias. A Etnografia é parte da etnologia, que se ocupa com o estudo descritivo, classificatório e comparativo da cultura material, ou seja, dos artefatos encontrados nas diversas sociedades. É o estudo descritivo da cultura dos povos, sua língua, raça, religião, hábitos etc., como também das manifestações materiais de suas atividades. A etnografia estuda e revela os costumes, as crenças e as tradições de uma sociedade, que são transmitidas de geração em geração e que permitem a continuidade de uma determinada cultura ou de um sistema social. Etnografia é inerente a qualquer aspecto da Antropologia Cultural, que estuda os processos da interação social: os conhecimentos, as ideias, técnicas, habilidades, normas de comportamento e hábitos adquiridos na vida social de um povo. (Significados, 2014) Etnografia, portanto, estuda uma sociedade sobre todos os seus aspectos. Na forma tradicional, a pesquisa etnográfica ocorre pela presença física do observador/ pesquisador dentro desta comunidade/ sociedade e a observação se dá in loco. Entretanto, neste mundo digital a pesquisa etnográfica foi adaptada, mediada por tecnologia, conhecida por netnografia. Conforme Kozinets (2010, p. 9) nos esclarece, “netnografia – uma forma especializada de etnografia adaptadas às contingências específicas dos mundos sociais de hoje mediados por computador.” A aplicabilidade da pesquisa netnográfica em marketing vem ganhando expressão, uma vez que o comportamento do consumidor online é muito diferente do consumidor do mundo offline. O número de opções é muito maior, os buscadores auxiliam nas pesquisas por opções, as decisões costumam ser rápidas, os relacionamentos entre empresas e consumidores são superficiais e voláteis apesar do mundo virtual permitir maior interação. Outro ponto relevante o “boca a boca” online pode fazer uma marca/ empresa crescer ou implodir, pois a repercussão no mundo virtual é muito maior e mais rápida. As conexões nas comunidades virtuais são grandes e intensas de informações. Segundo Kozinets (2010, p. 19), mais de 100 milhões de pessoas no mundo participam regularmente de comunidades online. O autor continua informando que o Facebook, como o MySpace, possuem cada um mais de 100 milhões de assinantes. Estes dados datam da época em que o livro foi escrito, dados do início de 2018 são muito maiores. “Falando em números específicos, começamos 2018 com 4,021 bilhões de pessoas online (53% de todas as pessoas do planeta), um aumento de 7% em relação ao ano anterior. As redes sociais são utilizadas por cerca de 3,2 bilhões de pessoas (42% de todo o mundo),” nos informa Ciriaco (2018) – e dos que utilizam as redes sociais 2,96 bilhões o fazem por smartphones. 17 A grande questão está em como aplicar a pesquisa etnográfica no mundo virtual, uma vez que este estudo pressupõe um testemunho in loco do pesquisador de uma realidade atual. Rocha (2005) em seu artigo discorre sobre este ponto, argumentando que: Uma das possibilidades de se estudar o imaginário virtual e seus atores sociais se faz pelo método da observação. Assim como é comum para a antropologia, a observação no ciberespaço é relevante. Porém devido à natureza desterritorializada do ciberespaço, o que se pergunta é de que forma fazer a observação participante à distância. A premissa básica da aproximação ao objeto de estudo merece, então, um redirecionamento. (Rocha, 2005). Na prática, conforme comenta Rocha (2005), “este método é constantemente utilizado por pesquisadores das áreas da comunicação, do marketing, da antropologia e da sociologia.” Muitos pesquisadores utilizam o monitoramento de sites, blogs, vlogs relacionados às comunidades pesquisadas a fim de entender seus hábitos de consumo, motivações, crenças compartilhadas etc. Podemos entender a pesquisa netnográfica composta de 3 etapas: coleta de dados por observação das conversas e interações entre os integrantes do grupo estudado, fotos, captura de telas, imagens etc.; outra fase entra nas informações colhidas por meio do pesquisador em interações formais com o grupo, com o uso de entrevistas e bate papos; e a terceira é composta do relato do pesquisador das suas experiências enquanto participante e suas notas de observação do grupo quanto às suas práticas. Kozinets (2010) sugere que a pesquisa netnográfica deve ser composta tanto de dados de observação das comunidades como da interação entre o pesquisador e os pesquisados. Para tanto, cyberinterviews, e-mails, board postings, e homepages são apresentados como instrumentos de pesquisas. O autor atenta ainda para o fato de que o monitoramento de sites somente, e entrevistas por e-mails, com dados textuais, é limitado e implica em perda da observação da comunicação não verbal dos entrevistados/ observados. Entretanto, esta situação é contornável quando ao material é mesclado videologs e audiologs. Todos os autores defendem a ética na pesquisa netnográfica, o que, no meu entendimento, aplica-se a qualquer forma de pesquisa. No entanto, na pesquisa netnográfica o pesquisador se insere no grupo estudado e há diversas formas de interação, assim, antes disso, é necessário que se apresente aos 18 membros participantes identificando-se e solicitando as permissões necessárias, por exemplo transcrições de conversas e identificação dos participantes. TEMA 5 – ESTUDO DE CASO O case que será apresentado é real e foi um dos escolhidos para participar do Cannes Lions na categoria Innovation e foi exibido no Meio & Mensagem (Sacchitiello, 2018), site que divulga diversas informações mercadológicas (notícias, novidades, cases etc.). O critério de escolha dos finalistas leva em consideração, conforme explica Sacchiello (2018), se a solução apresentada envolve tendências futuristas e tecnologia. “A divisão do festival avalia as ideias de agências e anunciantes que ainda não foram lançadas, mas que possuem potencial de causar impactos positivos para aquelas empresas, seus consumidores e, muitas vezes, para a sociedade como um todo.” Em 2018, o júri de Innovation selecionou apenas 21, entre todos os trabalhos,para concorrer aos Leões. Entre eles, foram selecionados dois trabalhos de agências brasileiras, “que tiveram em comum meses de dedicação a pesquisas, testes e experimentos tecnológicos e a proposta de levar uma solução a quem vivencia um problema.” (Sacchitiello, 2018) 5.1 Tchau telemarketing A Grey Brasil, a segunda agência brasileira que emplacou um case no Innovation, ao contrário de um problema de saúde, a proposta foi encontrar uma solução para algo danoso à paciência das pessoas. Agência de publicidade do Reclame Aqui, a Grey percebeu que a maior parte das reclamações feitas na plataforma diz respeito ao atendimento das operadoras de celular – especificamente, da dificuldade que é tentar cancelar um serviço pelo telemarketing. “Na primeira quinzena de janeiro, começamos a estudar as ferramentas de inteligência artificial já disponíveis no mercado que poderiam nos ajudar nessa missão”, conta Felipe Paniago, diretor de marketing do Reclame Aqui. A partir daí, agência e marca começaram a construir um robô que, funcionando por meio de um aplicativo, fosse capaz de efetuar o pedido do cancelamento de serviços no lugar do consumidor. 19 Para construir a inteligência artificial do The Canceller, o Reclame Aqui utilizou o Watson, da IBM, a Alexia, da Amazon e também o Google Cloud. O robô foi munido com dados de dez consumidores para um teste inicial. “Inserimos a maior quantidade de informações para que ele fosse capaz de desenvolver uma conversa com o atendente de telemarketing de forma mais natural e precisa”, comenta Paniago. Esse teste deu origem ao case que foi inscrito no Festival. Nessa primeira leva, a inteligência artificial conseguiu cumprir o feito de vencer o telemarketing e efetuar o cancelamento. “O robô é incansável. Ele é programado para ficar na espera e para retornar à ligação caso a linha caia”, comenta o diretor do Reclame Aqui. Para se tornar realidade para todos, no entanto, ainda são necessários alguns ajustes. “O desenvolvimento de toda essa tecnologia teve um custo, mas a essência do Reclame Aqui é ser uma plataforma gratuita ao consumidor. Então, estamos estudando como faríamos essa entrega”, confessa Paniago. Apesar disso, a expectativa em relação à avaliação do júri é positiva. “Estamos bem animados. Para nós, conseguir usar a inteligência artificial de forma ativa e não apenas reativa é uma grande revolução”, comenta. (Sacchitiello, 2018) Figura 3 – Vídeo: Reclame Aqui The Canceller Fonte: ULRICH, 2018 Este case foi escolhido porque envolve a iniciativa da empresa (Reclame Aqui) que, comprometida com sua missão de ser um canal que advoga as causas dos consumidores que a procuram, trabalhou em conjunto com sua agência uma solução para um problema que atinge uma boa parte das queixas em telefonia. Os dados pesquisados estão na própria base da empresa, e não são apenas quantitativos, mas qualitativos também, basta acessar o site para verificar, 20 o que propiciou o entendimento que o telemarketing das operadoras causava aos consumidores. A partir do estudo dos dados foi isolado um problema e desenvolvida uma solução para os consumidores que procuram a empresa Reclame Aqui. Este é o espírito, está fechado um ciclo, e espero sinceramente que o serviço seja disponibilizado em breve. Para finalizar, gostaria de destacar que é preciso fazer da pesquisa uma rotina no cotidiano da empresa, muitas soluções promissoras e lucrativas podem estar disfarçadas de queixas, problemas e barreiras. 21 REFERÊNCIAS AAKER, D. A.; KUMAR, V.; Day, G. S. Pesquisa de Marketing. São Paulo: Atlas, 2001. BOONE, L. E. Marketing Contemporâneo. Rio de Janeiro: LTC - Livros Técnicos e Científicos Editora S. A., 1995. BOYD, D. Social Network Sites: Public, Private, or What? In: Knowledge Tree. Disponível em: <https://www.danah.org/papers/KnowledgeTree.pdf>. Acesso em: 08 out. 2018. CIRIACO, D. Mais de 4 bilhões de pessoas usam a internet ao redor do mundo. Disponível em: <https://www.tecmundo.com.br/internet/126654-4- bilhoes-pessoas-usam-internet-no-mundo.htm>. Acesso em: 08 out. 2018. GABRIEL, M. Marketing na Era Digital. São Paulo: Novatec, 2010. IBPAD. Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais - Metodologias, Aplicações e Inovações. Disponível em: <https://pt.slideshare.net/gabrielishida/monitoramento-e-pesquisa-em-midias- sociais-69594087?next_slideshow=1>. Acesso em: 08 out. 2018. KOZINETS, R. V. Netnografia – Realizando pesquisa etnográfica online. São Paulo: Penso Editora Ltda, 2010. KOTLER, P. K. L. Administração de marketing. São Paulo: Pearson Education do Brasil Ltda, 2012. RECUERO, R. Redes sociais. Porto Alegre: Sulina. Disponível em: <http://www.ichca.ufal.br/graduacao/biblioteconomia/v1/wpcontent/uploads/redes sociaisnainternetrecuero.pdf.>. Acesso em: 08 out. 2018. RECUERO, R. Redes Sociais na Internet, Difusão de Informação e Jornalismo. Disponível em: <http://www.raquelrecuero.com/artigos/artigoredesjornalismorecuero.pdf>. Acesso em: 08 out. 2018. ROCHA, P. J.; MONTARDO, S. P. Netnografia: incursões metodológicas na cibercultura. Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós- Graduação em Comunicação, v. 4, n. 11, pp. 1-22, junho de 2005. 22 SACCHITIELLO, B. Telemarketing e mosquitos: os cases do Brasil em Innovation - Conheça os trabalhos da Grey e da BETC que têm chance de trazer Leões ao Brasil nessa edição do Cannes Lions. Disponível em:: <http://www.meioemensagem.com.br/home/comunicacao/2018/06/08/telemarketi ng-e-mosquitos-os-cases-do-brasil-em-innovation.html>. Acesso em: 08 out. 2018. SIGNIFICADOS. Significado de Etnografia. Disponível em: <https://www.significados.com.br/etnografia/>. Acesso em: 08 out. 2018. ULRICH, L. C. ReclameAqui The Canceller. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?time_continue=91&v=oenevm-u6ko>. Acesso em: 08 out. 2018. VIANNA, I. Social Media Trends 2018. Disponível em: <https://inteligencia.rockcontent.com/social-media-trends-2018/>. Acesso em: 08 out. 2018. AULA 5 COOLHUNTING Profª Hedilaine Zaniboni Rezende 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula trabalharemos o conceito de pesquisa de tendências, que difere da pesquisa mercadológica em tempo e método de execução. Na verdade, a pesquisa de tendências engloba uma série de técnicas e metodologias de pesquisa e análises agregadas. Não são muitos os autores que explicitam ou compartilham a metodologia que utilizam e o seu processo, pois é neste fato que reside o sucesso de uma empresa que atua em consultoria ou pesquisa de tendências. Mas em nosso estudo, tomaremos como base o método usado pela ARYWW, explicitado por Rasquilha (2015). TEMA 1 – CLASSIFICAÇÃO DAS TENDÊNCIAS COMPORTAMENTAIS Como já vimos em tipologia de tendências, as tendências comportamentais são as que mais impactam as empresas, pois afetam diretamente as vendas, uma vez que mudam, em geral, a maneira com que os consumidores venham a consumir determinado produto/serviço, tanto na forma quanto na quantidade. Assim, torna-se essencial entrarmos mais a fundo neste tema e conhecê-lo um pouco melhor. Rasquilha (2015) utiliza o conceito de “cool exemple”. Vejamos: Os Cool Exemples são manifestações comportamentais, ilustrativas de determinado tema, que devidamente registrados e classificados permitem, pela sua perenidade, quantidade, semelhança entre vários e abrangência, identificar, confirmar ou fortalecer uma tendência. (Rasquilha, 2015, p. 55) Estes cool exemples são coletados na fase de observação do mercado/setor/segmento, ao longo de todo o processo, pois desta forma são registradosos eventos, públicos, ocasiões e evoluções da tendência em questão. Essas imagens que servem de referência serão também evidências quando enfim forem apresentadas à empresa para a tomada de decisão. Quanto às tendências comportamentais, estas classificam-se, segundo o autor, em: Tendências fundacionais: movimento de importância para o desenvolvimento da sociedade; 3 Tendências macro: mentalidades observadas e que já estão em desenvolvimento há 5 anos, mas que nos afetarão nos próximos 10 a 20 anos; Tendências micro: padrões de comportamentos emergentes, com natureza incerta, derivados dos grupos anteriores (fundacionais e macro). Figura 1 – As tendências estudadas e sua classificação Fonte: Rasquilha, 2015, p. 57. Anteriormente apresentamos as tendências fundacionais e macro, e agora apresentaremos um breve explicativo das tendências micro (Rasquilha, 2015, p. 61-75): Consumidor racional – o cliente é mais importante que a classe a qual pertence. A discriminação pela classe social aparente dá lugar à valorização da importância do cliente e ao que as marcas podem lhe oferecer. Emergente – a essência das marcas deve ser preservada, mas é preciso adaptá-las às necessidades culturais e gostos locais. Coolpon – pequenos gestos. O consumidor barganha mais, no entanto, valorizam gestos que, embora de baixo custo para a empresa/marca, têm grande valor aos olhos dos clientes pois traduzem atenção, preocupação e respeito. Female up & rising – “mulher alpha”, dedicada em realizar-se profissionalmente em detrimento de sua participação na vida familiar. 4 Neo male – “é bonito ser homem”; preocupação com a imagem e aparência. Meaningful nostalgia – recorrer a referências estéticas ou “recordações fortes”, que dão novo valor às experiências atuais. C2C – de volta ao escambo. Tanto consumidores como empresas, mais conscientes sobre o uso do dinheiro, praticam troca de bens e serviços como forma de aquisição mais apropriada. De geek para cool – a valorização da sabedoria comprovada e profundidade de conhecimento ganham terreno em resposta à superficialidade e frivolidade. Da realidade aumentada para a distorção da realidade – a autenticidade ganha espaço num movimento contrário à fantasia e distorção da realidade criadas no mundo virtual. A valorização do real e autêntico ganha espaço, impactando o design de produtos e marcas. Saudável – promoção e prática de estilo de vida cada vez mais saudáveis. Secrecy – armas contra a superexposição das redes sociais. Experience economy – as experiências passaram de “escapadas” – reais ou virtuais – a verdadeira necessidade, como agente antiestresse. Live the city – o aumento de interesse pelo “espaço onde habitam”, tornando-o mais acolhedor para si e os demais. Online culture –só vive/está presente na internet porque foi criada para ela (linguagem, regras/leis, símbolos, tudo que foi nascido na e para a internet). Crowd everything – de tribos urbanas a tribos de consumidores; quanto maior for o reconhecimento e atenção a estas tribos, maiores e mais duradouros serão os laços da marca com elas. Design = wow good? – evolução do design para maior simbiose entre forma e funcionalidade adaptada aos valores presentes na sociedade, como sustentabilidade, personalização, tecnologia e inclusão. Terapia do excesso – “pequenos pecados” que fazem bem, porque eu mereço – valorização de indulgências. Meaningful compassion – por uma vida melhor. Utilização das nossas capacidades/faculdades para atenuar os problemas sociais. Urban nomads – hábitos e padrões de comportamentos cada vez mais influenciados pela mobilidade e conectividade. 5 Pode-se entender “live the city” como continuidade da tendência de encasulamento apresentada por Faith Popcorn (Cajaraville, 1998). Se analisarmos com cautela, veremos outras que se assemelham ou são evolução daquelas apontadas na década de 1990, que se comprovaram e muitas ainda ativas e em evolução. TEMA 2 – MAPA DE SIGNIFICADO E EVOLUÇÃO A AYRWW, empresa do autor, monitora determinadas tendências, já citadas. Estas são classificadas de acordo com determinados drivers, ou seja, movimentos ou mudanças que já se manifestam no presente, mas que impactarão de forma decisiva o futuro (podem ser econômicos, sociais, políticos ou sociológicos). Outros autores referem-se a elas como megatendências, como Kotler e Keller (2012). Os drivers considerados pela AYRWW são: envelhecimento, ambiente, conectividade global, poder de mudança do Leste (países orientais: China, Índia, Indonésia e Tailândia) e tecnologias GRIN – genética, robótica, internet e nanotecnologia (Rasquilha, 2015). A partir destes drivers são desenvolvidas as timelines de projeção. Foram observadas três grandes transformações, que estão afetando nossa visão da sociedade e mundo (Rasquilha, 2015, p. 56-58): Exigências e movimentos sociais: consumidor cidadão – cada vez mais presente, “exige direitos para cumprir deveres”, deposita maior credibilidade a marcas que a governos. Internet relevante: utilização da internet como forma de benefício à sociedade (transparência, cidadania e educação) e ao indivíduo (pessoal, profissional e social). Tecnologia inclusiva: integração dos “mundos online e off-line, de forma permanente e convergente”. Mudança de “ponto de venda para ponto de compra”. Considerado isto, é feita uma integração entre transformações e tendências para se determinar a relevância destas para os próximos anos. As tendências resultam de comportamentos, o que possibilita classificá-las nos quadrantes de dimensões: aspiracional versus revolucionário e ação versus reação. 6 Esta nova classificação permite melhor análise e interpretação futura, considerando o comportamento do consumidor. Desta base é criado um mapa de significado e seus clusters de agrupamento. Figura 2 – Mapa de significado e evolução Fonte: Rasquilha, 2015, p. 59. Todos os comportamentos são classificados segundo esta matriz e analisados sob a ótica de tomada de decisão. O método apresentado por Rasquilha é complexo e trabalhoso, exigindo atenção detalhada às informações sobre os comportamentos observados. Como exemplo, apresentamos a figura 3 a seguir. As tendências ainda são agrupadas em seis clusters que permitem maior compreensão sobre a atuação de uma tendência na sociedade: 1. Tendências catalizadoras – representam tanto a mentalidade quanto as ações que geram e a capacidade de influenciar e causar alterações em outras tendências. Ex.: empowerment. 2. Tendências confluentes – demonstram constantemente associação e interação entre elas. Ex.: riding the recession; coolpon; the rational consumer. 3. Tendências inclusivistas – o papel e relevância expandiram-se para um espectro populacional bem além daqueles originalmente identificados. Ex..: neo male; female up & rising. 4. Tendências impulsionadas – ganham impulso e relevâncias adicionais, por influência de outras tendências. Ex.: por influência da global connection & convergence e riding the recession: relaxado e espiritual; secrecy; live the city. 5. Tendências estabelecidas –não sofreram mudanças ou variações de monta. Ex.: C2C; terapia do excesso; saudável; entre outros. 6. Tendências emergentes – começaram a se manifestar de forma clara, mas ainda não totalmente massificada. Ex.: online culture; de geek 7 para cool; da realidade aumentada para a realidade distorcida. (Rasquilha, 2015, p. 60) Figura 3 – Transformações de hoje e as tendências por elas originadasFonte: Rasquilha, 2015, p. 58. TEMA 3 – O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE COOLHUNTING Rasquilha (2015, p. 84) nos apresenta um modelo de coolhunting baseado em três Is: identificação, interpretação e implementação. Identificação – composta da observação da mudança e identificação da tendência gerada por ela. Este é o primeiro passo do processo de coolhunting. Para isso, pode-se lançar mão de observação e entrevista informal com os indivíduos em campo, observação a distância, entrevista de profundidade, etnografia, entre outros métodos. Uma vez constatada uma tendência, na etapa seguinte deve-se buscar por outros dados, sondagens e mídias para complementar e comprovar as observações coletadas. Interpretação – o coolhunter analisa e julga a tendência buscando prever como ela deverá se desenvolver. Este é o segundo passo no processo, que é estratégico para predizer o tamanho, efeito e desenvolvimento da tendência observada. O autor nos ilustra com o exemplo: “identificou-se 8 que o consumo de whisky entre os jovens vem aumentando. Precisamos questionar: é passageiro ou alcançará o público mainstream? É só whisky ou associado a outras bebidas? Afetará outros públicos, adultos mais velhos, mulheres?”. Esta etapa é um “processo sistemático, baseado em análise causal”. Requer conhecimentos em sociologia, gestão estratégica, inovação, marketing e ciências sociais. Para predizer o desenvolvimento é necessário estabelecer a longevidade, força, potencial e influência que esta tendência pode causar. Rasquilha sugere o método dos 4 Cs: constância, ciclos, cálculos e caos. Esta é uma longa etapa, pois mesmo depois de interpretada é preciso monitorá-la a fim de verificar se ela se valida. Quanto mais tempo pudermos monitorar uma tendência, mais precisa será a previsão quanto ao seu impacto e potencial. Implementação – faz parte do objetivo de um coolhunter auxiliar a empresa a decidir a melhor estratégia para o futuro. Aqui analisamos o impacto da tendência no setor/segmento. Além de entender as potencialidades a serem exploradas, é preciso também prever as possíveis ameaças e as ações para neutralizá-las. Vencidas estas etapas, tem-se uma preciosa ferramenta para definir as estratégias futuras. Contudo, a empresa precisa despir-se de preconceitos e tradições, estar disposta a novas experiências e promover uma infraestrutura que incentive e permita a implementação dos inputs. Rasquilha (2015, p. 87) nos esclarece que aquilo que diferencia a pesquisa de mercado da pesquisa de tendências é o foco – na primeira questiona-se “por que é que os consumidores estão fazendo isso?”, enquanto na segunda, embora questione a mesma coisa, ainda se questiona “o que farão depois?”. TEMA 4 – RECOMENDAÇÕES AO COOLHUNTER Para desenvolver uma atitude de coolhunter, Rasquilha recomenda: Evite preconceitos e ideias pessoais pré-concebidas – adote uma abordagem neutra/imparcial em relação ao futuro, não se deixando influenciar por ideias pré-concebidas quando se interpreta os dados. É preciso uma visão imparcial livre de “qualquer tipo de moral ou mesmo senso estético” para que se evite contaminar a interpretação e causar um viés errado. O maior desafio é se livrar das ideias pessoais pré-concebidas 9 (morais, culturais, de geração ou gênero). É preciso não julgar e buscar por padrões, positivos ou não. É preciso que sejam verdadeiros. Também é necessário se libertar de quaisquer imposições da sociedade e checar a fonte de uma informação, pois deve-se desconfiar de que ela pode ter sofrido algum tipo de interpretação até chegar a você. Mantenha a mente aberta – a fim de identificar com eficácia uma nova tendência é preciso se abrir para áreas que normalmente não nos afetam ou suscitam interesse, estar receptivo a novas ideias. Ser generalista é uma qualidade bastante vantajosa. Deve estar atento a novas fontes de dados e novas disciplinas. É preciso ser crítico e admitir erros nas análises ou de perspectiva. Seja sistemático – processe dados logicamente, baseando-se em “metodologias estáveis e permanentes”. Documente/grave dados, para rever e até mesmo apresentar a clientes. Mantenha uma biblioteca de tendências digital ou física de indústrias e setores. Observe a cultura da empresa e entenda a sua receptividade. “As empresas mais inovadoras são em geral as mais eficazes na gestão de tendências”. TEMA 5 – TENDÊNCIAS VERSUS INSIGHTS DE NEGÓCIOS Vivemos numa sociedade complexa. São diversos os grupos, tribos e nichos influenciados por diversas ideias e comportamentos que não têm mais fronteiras e se propagam sem pedir licença. Antes era certo que os propagadores de tendência eram os mais ricos e abastados, mas hoje isto não é uma verdade absoluta. É fato que as pessoas continuam a influenciar e serem influenciadas, mas como Gladwell (2013) defende, a tendência se comporta como um vírus que vai contaminando um a um e criando uma grande epidemia se não for impedido. As ideias e hábitos passam de pessoa para pessoa, por aprendizagem ou imitação, e rapidamente se propagam (Rasquilha, 2015). Vamos explorar mais o método utilizado por Rasquilha para, nesta fase, transformar tendências em insights de negócio. Todavia, primeiramente precisamos equalizar alguns conceitos: 10 Drivers ativos – atributos de assistência: simples, barato, visível, comunicável, contínuo, confiável, prático. Não somente as qualidades potencializam esta tendência, mas principalmente a sua capacidade de chamar a atenção do público consumidor. Quanto mais visível, mais consumidores irão copiá-la. Quanto mais cara é uma tendência, menos consumidores irão adotá-la. Quanto mais uma tendência requerer de conhecimento para utilizá-la, mais lentamente será adotada, Uma tendência deverá transparecer segurança e confiança. A deslocação da tendência afeta a velocidade de propagação e consequentemente a sua adoção – contínua (modificação de produto ou serviço já existente), parte-contínua (nova tendência, mas não interfere nos padrões de compra ou uso), descontínua (compatível com a prática dos consumidores, crenças culturais e valores, mas implica na mudança dos padrões de compra e uso). Atributos de necessidade: status, saúde, poupanças, segurança, paz de espírito, excitação, economia de tempo. A facilidade de se propagar até o mainstream de uma tendência é diretamente proporcional à quantidade de qualidades que ela possuir. As decisões de consumo são influenciadas por outros fatores que não apenas funcionalidade. Economia de tempo, dinheiro, benefícios físicos, funcionalidade e as circunstâncias são drivers universais. Benefícios emocionais são drivers emocionais. São drivers específicos: idade, estilo de vida, cultura, gênero, atitudes dos consumidores que afetam seus interesses. Drivers universais não são imunes à mudança. Drivers passivos – as razões passivas estão centradas no ambiente de lançamento de uma tendência e no “modelo linear de dispersão que se inicia com a tendência, mas que passa por um conjunto de ambientes que a moldam e definem em termos de características e sucesso”. 11 Tendência 4 Cs – constância (eterno, inevitável, histórico); ciclos (atitudinal e estilos); cálculo (estimar, predizer); e caos (tecnologia, politica, desastre, criativo) (Rasquilha, 2015). O autor nos explica que são bases para o desenvolvimento e a adoção de uma tendência: Drivers ativos: qualidades facilitadoras ou não da adoção de uma tendência; Fatores de adoção passivos (4Cs). Após identificada a tendência,faz-se necessário definir seu potencial, tamanho e duração. Assim temos duas abordagens a exercitar, segundo Rasquilha: a abordagem numérica, que consiste em dar um “peso” para cada driver identificado e interpretá-lo a fim de criar uma “fotografia da realidade que a tendência enfrenta”; e a abordagem não numérica, que “utiliza o processo de mapa de tendências para construir um conjunto de drivers que poderá ser utilizado como base”. Em ambas as abordagens o processo se inicia com a listagem de drivers e barreiras, seguida da relação de cada tendência com seus relativos fatores ativos de adoção, analisando atributo por atributo. Depois, exercitar a técnica 4Ws + 1H: who – públicos-alvos; what – análise causal; where – setores e territórios receptivos à tendência; when – quanto tempo leva para atingir o mainstram; + how – força, profundidade e velocidade. Concluídas estas análises, é preciso transformá-las em insight de negócios para a empresa em questão. Conforme o autor explica, ainda é um processo baseado em análises causais (não poderia ser diferente), mas também é necessária uma análise de impacto para compreender como a empresa poderá se beneficiar da tendência e quais as implicações para a prática do negócio. Além de uma dose criativa, que certamente é necessária para o exercício de criação de novos produtos a serem propostos ou caminhos estratégicos que nasceram desta análise, é preciso preparar uma apresentação consistente e convincente. Conhecer a audiência e a forma como ela se comporta diante de estratégias e planejamento ajuda muito neste quesito, mas de qualquer forma são necessários dados numéricos e também muitas ilustrações (cool exemples), histórias e exemplos de evolução observados, a fim de clarificar todo o contexto 12 em que a tendência foi identificada e por que suas sugestões estratégicas deveriam ser acatadas pela audiência. Rasquilha sugere uma metodologia que ele define como trendslator (tradutor de significado da tendência). Ela se baseia em seis áreas: 1. Necessidade do negócio: ponto de partida do coolhunting empresarial. 2. Necessidade estratégica: em que o coolhunting deverá acrescentar valor à empresa (vendas, novo mercado, novo negócio, posicionamento ou reposicionamento de marca/produto etc.) 3. Fontes de inspiração: estruturar a observação, montar um grupo/equipe multidisciplinar para observação e pesquisa. 4. Filtros-chaves: ideias – caracterização das tendências que influenciam o processo. 5. Interpretação de 3 e 4: construção da primeira base de interpretações extraídas das pesquisas e observação, a fim de definir caminhos a utilizar no processo de inovação. 6. Resultado de ideias: matriz de inovação – aplicação das tendências às necessidades do negócio. Após todo o trabalho de coolhunting, estrutura-se o trendslator agrupando as tendências elencadas, todas elas possíveis de serem consideradas na estratégia – aquelas que, embora interessantes e relevantes, não são críticas no momento e aquelas que não são recomendadas. Como próxima etapa, o autor sugere que se construa uma “matriz de seleção” com os caminhos estratégicos indicados e conceituados de acordo com o trabalho de coolhunting, e por fim uma “matriz de recomendação” com o desenvolvimento estratégico e conceitual para orientar todo o desenvolvimento estratégico do projeto. “O trendslator é assim a forma de iniciar o processo de tangibilização das tendências resultantes da observação dos movimentos dos consumidores e que se estrutura como a base de lançamento dos processos de inovação empresarial” (Rasquilha, 2015). Assim como a AYRWW desenvolveu uma metodologia, outras empresas neste segmento certamente criaram seus processos e métodos; a diferença é que estes ainda não são conhecidos/divulgados, mas isso não deve estar longe de acontecer. O sucesso do método está presente nos resultados obtidos por estas empresas para seus clientes. 13 REFERÊNCIAS CAJARAVILLE, M. R. Do casulo às 99 vidas. São Paulo: HSM Management, 1998. p. 140-146. GLADWELL, M. O ponto da virada. Rio de Janeiro: Sextante, 2013. KOTLER, P.; KELLER, K. L. Administração de marketing. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2012. RASQUILHA, L. Coolhunting e pesquisa de tendências: observar, identificar e mapear as tendências e mentalidades emergentes do consumidor. São Paulo: Actual, 2015. _____. Viagem ao futuro: a verdade sobre a prospectiva e o foresight. São Paulo: Actual, 2015. AULA 6 COOLHUNTING Profª Hedilaine Zaniboni Rezende 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula, navegaremos um pouco pelo mundo da tecnologia. Não desejamos esgotar este assunto aqui, pois seria impossível, mas dar uma pequena amostra daquilo que podemos encontrar no mercado e que nos dará suporte em pesquisa e negócios. TEMA 1 – TECNOLOGIA COMO SUPORTE À ATIVIDADE DE COOLHUNTING Já discutimos um pouco sobre a importância das redes sociais digitais e netnografia para o trabalho de coolhunting, as quais, sem dúvida, possibilitaram grandes avanços nessa atividade. Desejamos, entretanto, não só destacar a importância da tecnologia para o coolhunting, que entendemos ser fundamental para pesquisar tendências, mas também para a evolução das empresas, ou melhor, a maneira de se fazer negócios. As tendências e, consequentemente, a perpetuação dos negócios estão intimamente ligadas a inovação. Assim, uma empresa precisa estar constantemente monitorando as tendências e procurando se reinventar para enfrentar novos desafios. Há pouco mais de duas décadas, os usuários de computadores sonhavam em poder navegar e contatar pessoas de outros países via internet. Era fascinante enviar um e-mail para o outro lado do mundo e receber uma resposta um ou dois dias depois, às vezes no mesmo dia. Não havia mais a dependência dos correios físicos; era fascinante ser digital e navegar na internet, apesar de não existir wireless e dependermos da internet discada. Atualmente estamos acostumados com respostas ainda mais rápidas, e inclusive perdemos a paciência se enviamos uma mensagem via WhatsApp e a pessoa leva duas horas para visualizar ou responder. Nossa realidade vem sendo transformada muito rapidamente com tecnologias mobile, wireless, GPS, entre outras. E a internet foi apenas a ponta do iceberg. As mudanças sofridas nas relações pessoais devido à tecnologia são também observadas, e talvez ainda mais acentuadas, nas relações profissionais, sendo a área de marketing uma das mais afetadas. As relações mercadológicas mudaram significativamente. Hoje dispomos de varejo e atacado digitais, espaços de barganha e negociação B2C, C2C, C2B 3 e B2B, home office, marketing de busca, QRcodes, bluetooth etc. O coolhunter sem dúvida precisa ser alguém tecnológico e conectado. Monitorar esses diversos mundos paralelos e simultâneos é o grande desafio, não impossível, mas trabalhoso. A boa notícia é que se tornou possível desenvolver a atividade de coolhunting em diversos lugares/setores simultaneamente, sem necessariamente estar presente neles, o que torna mais econômica e acessível tal atividade para as empresas e profissionais. Dada a evolução das plataformas de busca, temos acesso a quase todo tipo de informação, seja ela de arquivo ou on time. Empresas como a AYRWW (Rasquilha, 2015), que já citamos, utiliza um drive para monitorar tendências chamado GRIN – Genética, Robótica, Internet e Nanotecnologia. Mas por quê? Porque tais tecnologias têm a capacidade de mudar comportamentos – a maneira como compramos, vendemos, assistimos, consumimos, nos entretemos– e indústrias – formas de fabricação, produtos, serviços, portabilidade etc. Com a velocidade da evolução dessas tecnologias, o cenário muda muito rapidamente e elas se tornam cada vez mais acessíveis. De todas as tecnologias existentes, apresentaremos a seguir as tendências em TI para os próximos anos, pois impactam diretamente no processamento e obtenção de dados, e, consequentemente, geram impacto na atividade de coolhunting. TEMA 2 – TECNOLOGIAS E TENDÊNCIAS Segundo Luís Gonçalves, vice-presidente sênior de vendas da Dell EMC Brasil Commercial, em entrevista à Computerworld (Tadeu, 2017), há oito tecnologias que causarão grande mudança nos próximos anos, mudando inclusive o tipo de profissional necessário para atuar com elas: A inteligência artificial executará “tarefas de raciocínio” em alta velocidade. Dentro de poucos anos a IA executará "tarefas de raciocínio" orientadas por dados, reduzindo o tempo de debate sobre escopo, cenários e testes de cada inovação, dando maior liberdade à tomada de decisões, com maior velocidade, e evitando descarte de novas boas ideias. A inteligência será incorporada à IoT. A Internet das Coisas (Internet of Things – IoT), sistema que permite conexão de objetos do dia a dia à rede, gera grande expectativa para os próximos anos. É esperado grande avanço 4 na incorporação de inteligência por meio da IoT, atingindo quase que instantaneamente veículos, organizações, casas e cidades conectadas. A possibilidade se dá com a redução do custo de processamento de energia. Assim, num futuro próximo, haverá 100 bilhões de dispositivos conectados, e rapidamente estaremos na casa do trilhão. “A magnitude da combinação de dados, poder de processamento com o poder da inteligência artificial, vai ajudar as máquinas a orquestrarem melhor os recursos físicos e humanos”. Headsets com realidade aumentada. Esta tecnologia permite evolução da força de trabalho ao potencializar a eficiência humana, unindo conhecimento à força de trabalho, bem como ao treinamento. Em alguns setores, a realidade aumentada (RA) já está presente: “equipes de trabalhadores da construção civil, arquitetos e engenheiros usam headsets RA para visualizar novas construções, coordenar esforços com base em uma visão única de desenvolvimento e realizar treinamento remoto dos trabalhadores”. Campos que deverão sofrer grandes impactos com a utilização de RA são os de entretenimento e nas arenas esportivas, que poderão oferecer experiências mais imersivas. São exemplos desta tecnologia HoloLens, da Microsoft, e DreamWorld. Clientes e empresas estarão cada vez mais próximos. “Um estudo da Dell Technologies mostrou que 45% dos líderes de médias e grandes organizações acreditam que elas poderão estar defasadas no prazo de 5 anos e 78% avaliam que startups representam ameaça aos seus negócios”. Priorizar a experiência do cliente ganha cada vez mais importância. A expectativa é que as empresas usarão análise preditiva, aprendizagem de máquina e inteligência artificial para buscar maior compreensão e predição das necessidades dos clientes. Os SACs (serviços de atendimento ao cliente) concentrarão grande interação entre homem e máquina, com o atendimento humano interagindo com agentes virtuais inteligentes, a fim de oferecer melhor atendimento e experiência ao cliente. Imparcialidade garantida pela tecnologia. Segundo Luís, tecnologias como realidade virtual e IA estarão presentes em processos dentro da empresa, permitindo decisões livres de preconceitos ou emoções, e as interações virão quando for necessário um julgamento humano. Ele cita o 5 uso da inteligência artificial para recrutamento e seleção e promoções de cargos, enquanto a realidade virtual será aplicada em entrevistas de promoção para assegurar oportunidades exclusivamente por mérito, garantindo a imparcialidade por meio do uso de um avatar como identidade do candidato. Crescimento do eSports no mercado de mídia e entretenimento. “O mercado gamer será impactado por novos dispositivos de realidade virtual e computação de alta definição, com milhares de jogadores e espectadores sintonizados nas batalhas virtuais”, podendo extrapolar e impactar atividades humanas. Os esportes tradicionais, por exemplo, terão atividades digitalizadas para, a partir da análise de dados, melhorar o desempenho e criar novas experiências para o público, como o VAR (Video Assistant Referee), da última Copa (2018), digitalizado e com realidade virtual. Multi-cloud. “A meganuvem irá tecer várias nuvens privadas e públicas para comportar-se como um sistema coerente e holístico, que oferecerá uma visão unificada e inteligente de todo um ambiente de TI”. Desafios de segurança. Devido a esta nova realidade, com tudo e todos altamente conectados, novos desafios de segurança surgem, uma vez que as invasões e ataques podem ter pequenos sistemas ou dispositivos como portas de acesso. O desenvolvimento de dispositivos e sistemas de segurança serão cada vez mais necessários. A consultoria Gartner (Olhar Digital, 2018), além de corroborar com Gonçalves, fala em “malha digital inteligente, um conjunto de dispositivos, usuários, informações e serviços que estão dinamicamente interconectados.” Ela ainda insere nesse contexto: Blockchain – com escopo muito mais amplificado que a base de moedas virtuais, mas como “base de negócios digitais disruptivos tanto para empresas estabelecidas quanto para startups.” Event driven – “com o uso de agentes de eventos, como IoT, cloud computing, blockchain, gerenciamento de dados na memória e inteligência artificial, eventos comerciais podem ser detectados mais rapidamente e analisados com maiores detalhes”. 6 Em um mundo novo, cheio de possibilidades, como se comportarão os jovens com tantas experiências imersivas disponíveis, como os jogos interativos em rede? Como se darão os relacionamentos interpessoais? Como será a pesquisa de tendências com IA e RA? Imagine cool exemples imersivos para explicar as tendências; tudo o que você desejar poderá ser acessível de qualquer lugar com a meganuvem. A IoT permitirá controle e acesso remoto a seu carro, casa, empresa... e isso não será coisa de filme de 007. Este novo mundo requer novos profissionais e novos empregos. De acordo com Gonçalves (Tadeu, 2017), “nos próximos anos vamos ver essas tecnologias ganharem força e se tornarem cada vez mais comuns, com impacto nos negócios, criação de novas profissões e contribuição para o desenvolvimento da sociedade”. Ele também comenta sobre uma série de restrições: custo da mão de obra, capacitação deficiente e competitividade no Brasil, além de que possivelmente haverá um retardo, pois as empresas estarão um passo atrás, mas no resto do mundo, não. TEMA 3 – TECNOLOGIA DISRUPTIVA E NEGÓCIOS Tecnologia disruptiva, ou, como alguns autores tratam, inovação disruptiva, descreve a inovação tecnológica ou produto/serviço “com características ‘disruptivas’, em vez de evolutivas – ou seja, que provocam ruptura com os padrões, modelos ou tecnologias já estabelecidas no mercado. O termo é uma tradução literal do conceito inglês disruptive e significa aquilo que ‘interrompe o curso normal’, cria descontinuidade, sendo, portanto, transformador ou revolucionário” (Wikipédia, 2018). Segundo Candido (2011) as tecnologias disruptivas originam novos mercados e modelos de negócios, enquanto as tecnologias sustentadoras visam desenvolver produtos e serviços melhores em mercados já estabelecidos. Apesar de tal conceito ter ganhado força recentemente (nos anos 1990), atecnologia disruptiva já é praticada há muitos anos. Todas as vezes que alguém pensou numa maneira totalmente diferente de conseguir determinado resultado, seja porque veio a baratear o processo ou torná-lo mais rápido, prático e/ou eficiente, e, para tanto, rompeu com a realidade conhecida, este novo processo provavelmente foi fruto de uma tecnologia disruptiva. Exemplos são vistos ao longo da história: telefone X telégrafo; VoIP X telefone; e-books X livros impressos. 7 A vantagem competitiva sustentável, idealizada pelas empresas, está cada vez mais difícil de ser conquistada devido à velocidade da evolução de alguns mercados. Sendo assim, na maioria dos casos, o ritmo das alterações no mercado proporciona às empresas vantagens competitivas que são apenas temporárias, devido à entrada de novos concorrentes. Frente ao cenário económico atual, a tecnologia é tida como um fator-chave na definição de melhores níveis de produtividade, qualidade, preço e flexibilidade por parte das empresas. É consensual que para crescer é necessária a tecnologia, contudo, a questão que se coloca em causa é se esta cria ou não processos/produtos inovadores capazes de criar uma vantagem competitiva para as empresas. (Candido, 2011) Candido levanta uma questão importante: a tecnologia cria processos e produtos com vantagem competitiva para uma empresa? Kim e Mauborgne (2005) acreditam que sim, pois incentivam as empresas a redescobrirem processos e saírem do oceano vermelho de confusão, altamente competitivo e com margens de lucro cada vez menores, e a criarem seu oceano azul, um mercado no qual a concorrência seja irrelevante. Figura 1 – Estratégia do oceano vermelho versus estratégia do oceano azul Fonte: Kim; Maubourgne, 2005, p. 17. Os autores apresentam estudos de diversos cases, mas vamos nos ater a um que provavelmente é conhecido por todos – Cirque du Soleil. Este é um exemplo vencedor de uma empresa que rompeu totalmente com a forma clássica de negócio e venceu num setor decadente. Seu fundador saiu do lugar comum e criou seu oceano azul. A fim de explicar a estratégia do Cirque du Soleil, apresentamos a seguir a aplicação dos conceitos presentes na tabela da Figura 1. 8 Figura 2 – Os seis princípios da estratégia do oceano azul Fonte: Kim; Maubourgne, 2005, p. 21. Na coluna da esquerda da figura 2 vemos os princípios da estratégia do oceano azul; e na coluna da direita, os riscos que deverão ser reduzidos ao se aplicar o princípio na formulação do novo mercado. Ao fazê-lo é necessário que se compreenda a estratégia atual utilizada pelos players do setor, observar o que está sendo entregue aos atuais consumidores, considerar como estes se sentem a respeito e, também, explorar os não consumidores, compreendendo o porquê de resistem ao produto/serviço. Feito isto, é necessário criar uma nova curva de valor para o produto/serviço, incluindo os públicos-alvo como um todo (consumidores e não consumidores). Por fim, desenvolve-se o modelo de inovação disruptiva a ser implementado. Cabe destacar que a estratégia do oceano azul tem como principal orientação buscar diferenciação e baixo custo simultaneamente e não excludente. Figura 3 – Modelo das quatro ações Fonte: Kim; Maubourgne, 2005, p. 29. 9 O modelo das quatro ações (figura 3) é uma ferramenta analítica que além de fazer a empresa refletir para responder às perguntas, faz com que se baseie nelas, sendo estimulada a “investigar intensamente os atributos de valor da concorrência setorial”. Esta ferramenta auxilia na criação da nova matriz de avaliação de valor da inovação disruptiva. Vejamos como ficou este modelo em ação para o Cirque du Soleil. Figura 4 – Matriz eliminar-reduzir-elevar-criar: caso do Cirque du Soleil Eliminar Elevar Astros circenses Espetáculos com animais Descontos para grupos Espetáculos em vários picadeiros Picadeiro único Reduzir Criar Diversão e humor Vibração e perigo Tema Ambiente refinado Várias produções Músicas e danças artísticas Fonte: Kim; Maubourgne, 2005, p. 36. Constrói-se a matriz de avaliação de valor inserindo os pontos da matriz eliminar-reduzir-elevar-criar, para ser expressa na forma de curva e comparada aos concorrentes do setor. “Uma estratégia do oceano azul eficaz [...] apresenta três qualidades complementares: foco, singularidade e mensagem consistente. Sem essas qualidades, a estratégia da empresa provavelmente será confusa, indistinta e difícil de comunicar, com uma estrutura de custos alta” (Kim; Maubourgne, 2005, p. 37). Na figura 5, veremos como se comportaram as curvas da matriz de valor do nosso caso. Conforme nos orienta Kim e Maubourgne, precisamos analisar se as curvas respondem à pergunta: o negócio tem condições de ser vencedor? Quando a curva de valor da empresa se distingue das demais concorrentes, atendendo às 3 qualidades (foco, singularidade e mensagem consistente para o mercado), podemos entender que sim, ela está no caminho certo. Indo mais a fundo nos conceitos, o foco refere-se a deixar claro a qual ou quais atributos a empresa se dedicará e será superior (cuidar com o excesso de atributos). Ser singular é fazer bem feito o que as demais estão deixando de fazer. Quanto à mensagem, ela deve ser consistente e também convincente, ou seja, aquilo que foi prometido ao mercado precisa realmente ser cumprido, não pode cair em descrédito. “Uma boa mensagem não só deve ser clara, mas também 10 anunciar uma oferta verdadeira, para que os clientes não percam a confiança e o interesse”. Figura 5 – Matriz de avaliação de valor do Cirque du Soleil Fonte: Kim; Maubourgne, 2005, p. 40. Os autores dão muitas outras recomendações para incluir a implementação da estratégia do oceano azul. Nosso interesse, entretanto, era apenas introduzir o que seria uma tecnologia ou inovação disruptiva, como ela se aplica aos negócios e apresentar exemplos tangíveis para melhor entendimento. TEMA 4 – LEAPFROGGING A hipótese propõe que as empresas que detêm monopólios baseados em tecnologias existentes têm menos incentivo para inovar do que os rivais em potencial e, portanto, eventualmente perdem seu papel de liderança quando inovações tecnológicas radicais são adotadas por novas empresas que estão prontas para assumir os riscos. Quando as inovações eventualmente tornam-se o novo paradigma tecnológico, diz- se que ocorreu o leapfrogging, ou que a pequena empresa realizou um "salto" à frente das empresas que detinham o monopólio. (Wikipédia, 2017) A teoria diz que a maior preocupação de empresas já estabelecidas é se manter no mercado e estimular/atender às demandas dos clientes atuais. Desta forma, utilizar inovação sustentável faz mais sentido do que criar algo completamente novo. Já as pequenas empresas não têm nada a perder, e por isso ousam mais e correm mais riscos. O problema está quando uma inovação disruptiva, por exemplo, começa a ser incorporada no dia a dia dos consumidores, 11 pois, a este ponto, provavelmente já é tarde para as empresas estabelecidas conseguirem entrar no jogo. A história nos apresenta diversos exemplos. Quando Graham Bell ofereceu à Western Union, líder em comunicação a distância com telégrafo nos idos de 1870, a patente do telefone por US$100.000,00, o presidente da empresa recusou a oferta dizendo que se tratava apenas de um brinquedo. Dois anos mais tarde ele comenta que se conseguisse adquirir a patente do telefone por US$25.000.000,00 seria uma barganha, mas ela não estava mais à venda (Fenster; Brinklei, 2006). Este é um caso clássico de leapfrogging:o desconhecido Graham Bell venceu a gigante Western Union. Fato é que estas situações continuam acontecendo e cada vez mais rapidamente com o passar dos anos. Na década de 1990, DVDs e CDs imperavam; hoje, o mercado é liderado por iTunes, Amazon, Spotify e Netflix (Wikipédia, 2017). Downloads e streaming responderam por 55,5% da receita recorde do Reino Unido no primeiro trimestre de 2012, de acordo com o BPI. O grupo de lobby disse que o crescente mercado digital compensou a queda nas vendas de formatos físicos, levando a um aumento de 2,7% na receita total em comparação com o mesmo período de 2011, para £ 155,8 milhões. (Williams, 2012) Além disso, hoje vivemos no mundo das startups. Segundo a revista Exame (Moreira, 2018), “uma startup é um grupo de pessoas à procura de um modelo de negócios repetível e escalável, trabalhando em condições de extrema incerteza.” Os “protótipos de negócios” podem dar certo ou não, no entanto, são muitas as histórias de empreendedores que hoje são empresários de sucesso e que provavelmente fizeram leapfrogging sobre alguma empresa já estabelecida. Este fato reforça a necessidade de pesquisa de tendências nas e para as empresas, a fim de que não sejam surpreendidas e tenham tempo de reação. TEMA 5 – TECNOLOGIAS EMERGENTES Tecnologias como impressão 3D, drones e robôs já são realidade prática em diversas áreas e setores. Elas inovam a forma com vivemos, nos relacionamos e trabalhamos. Abordaremos aqui os impactos esperados dentro do meio mercadológico/ empresarial, uma vez que as tecnologias mencionadas não sofrem alteração, mas sua aplicação torna-se um diferencial. De acordo com Norberto Tomasini, diretor 12 da PWC do Brasil (Borges, 2016), as mudanças tecnológicas exigirão das empresas mudanças em algumas áreas: Estratégia – a fim de suportar o novo cenário, as empresas deverão readaptar suas estratégias de portfólio e de inovação, considerando novas formas de entrar no mercado e estabelecendo parcerias. Engajamento do consumidor – utilizar IA (Inteligência Artificial) para identificar padrões no comportamento de consumidores, por meio do processamento de dados, permitindo à empresa maior engajamento. Operação – há um grande número de tecnologias que poderão ser aplicadas aqui: realidade aumentada, impressão 3D, internet das coisas, robótica etc. Pessoas e talentos – como aspectos positivos, o nascimento e a necessidade de novas profissões e profissionais; por outro lado, as empresas estarão mais automatizadas e um menor número de funcionários será necessário. Compliance – as organizações terão de se adaptar e influenciar os itens regulatórios criados. Algumas questões serão bastante discutidas: Como proteger os dados coletados pelos dispositivos conectados à internet (Internet das Coisas)? De quem é a responsabilidade pelos drones e robôs em áreas urbanas? Como regular o uso dos blockchains? Para o pessoal da Landix (2018), empresa de Uberlândia especialista em softwares para mobilidade corporativa, as empresas precisam se atentar à(ao): Chatbots – “Chatbots são softwares desenvolvidos para aperfeiçoar a comunicação otimizada. Eles são os grandes responsáveis por melhorias no atendimento ao cliente, principalmente em redes sociais e aplicativos de mensagens”. Inteligência artificial – Devido ao conceito abrangente, pode ser aplicada em diversas situações. “Ela trabalha para que dispositivos físicos, softwares e outras soluções digitais consigam agir de maneira mais autônoma e interativa”. Segundo a Landix, a Google já utiliza o recurso para determinar “a ordem de exibição de sites em mecanismos de buscas, conforme o histórico de navegação do usuário e suas interações sociais”. Chamam a atenção, ainda, à vertente machine learning, que desenvolve 13 algoritmos que funcionam sem uma tarefa anteriormente programada. Isto tem sido muito utilizado para prever falhas em equipamentos, falhas no varejo e pontuar riscos de crédito. Tudo baseado em análise, cruzamento e monitoramento de dados. Internet das Coisas – A IoC é uma das grandes inovações do mercado de TI. Até 2020, espera-se que mais de 20 bilhões de objetos estejam conectados a ela. De televisões a torradeiras, por meio de programações via inteligência artificial e machine learning. Assim, o mundo corporativo poderá “aprimorar suas pesquisas de mercado e o marketing de produtos por meio de coleta de dados em tempo real”. As preferências de consumo do cliente ficarão registradas/armazenadas para a empresa identificar ofertas que se encaixem perfeitamente ao perfil do cliente no momento certo. Big Data – O foco é analisar grandes volumes de dados com agilidade para extrair insights e estratégias, alavancando vendas e negócios. “A principal vantagem dessa inovação é o fato de que ela aproveita dados não muito visados em modelos de negócios mais tradicionais, como vídeos e publicações em redes sociais”. Realidade virtual e aumentada – “Os recursos de Realidade Virtual (VR) e Aumentada (AR) são considerados como tecnologias absorventes. O significado desse conceito refere-se ao impacto que elas causam nas interações, operações e aplicações pelas quais seus usuários passam”. Em breve estas tecnologias deverão ser combinadas com outras e utilizadas para “criar novos aparelhos e serviços hiperpersonalizados”. 14 REFERÊNCIAS AS 10 tendências tecnológicas para 2018. Olhar Digital, 28 fev. 2018. Disponível em: <https://olhardigital.com.br/alem_da_infra/noticia/as-10-tendencias- tecnologicas-para-2018/74337>. Acesso em: 3 dez. 2018. BORGES, B. Tecnologias emergentes: como elas influenciarão o modelo de negócios nas empresas? Disponível em: <https://digitalks.com.br/noticias/tecnologias-emergentes-como-elas- influenciarao-o-modelo-de-negocios-nas-empresas/>. Acesso em: 3 dez. 2018. CANDIDO, A. C. Inovação disruptiva: reflexões sobre as suas características. RUN – Repositório Universidade Nova. Disponível em: <https://run.unl.pt/bitstream/10362/6912/1/WPSeries_05_2011ACC%C3%A2ndid o-1.pdf>. Acesso em: 3 dez. 2018. FENSTER, J. M. Inventando o telefone e desencadeando a guerra total de patentes. American heritage events. Disponível em: <http://www.americanheritage.com/events/articles/web/20060307-alexander- graham-bell-telephone-patent-telegraph-elisha-gray-thomas-watson-gardiner- hubbard-western-union-thomas-edison.shtml>. Acesso em: 3 dez. 2018. KIM, W. C.; MAUBOURGNE, R. A estratégia do oceano azul. Rio de Janeiro: Campus, 2005. 5 TECNOLOGIAS emergentes no mercado de TI para ficar de olho. Landix. 15 maio 2018. Disponível em: <http://www.landix.com.br/5-tecnologias-emergentes- no-mercado-de-ti-para-ficar-de-olho/>. Acesso em: 18 dez. 2018. LEAPFROGGING. Wikipédia. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Leapf rogging>. Acesso em: 3 dez. 2018. MOREIRA, D. O que é uma start up? Exame, 1 mar. 2018. Disponível em: <https://exame.abril.com.br/pme/o-que-e-uma-startup/>. Acesso em: 3 dez. 2018. RASQUILHA, L. Coolhunting e pesquisa de tendências – observar, identificar e mapear as tendências e mentalidades emergentes do consumidor. São Paulo: Actual, 2015. TADEU, E. 8 tendências que irão impactar o mercado de tecnologia em 2018. Computer World, 13 dez. 2017. Disponível em: 15 <https://computerworld.com.br/2017/12/13/8-tendencias-que-irao-impactar-o- mercado-de-tecnologia-em-2018/>. Acesso em: 3 dez. 2018. WILLIAMS, C. Digital music sales beat CDs for the first time. The Telegraph, 31 May 2012. Disponível em: <https://www.telegraph.co.uk/technology/news/93022 23/Digital-music-sales-beat-CDs-for-the-first-time.html>.Acesso em: 3 dez. 2018.