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Morfologia e função A coordenação das atividades dos vários tecidos e órgãos do organismo, ou seja, a manutenção do estado de equilíbrio do organismo (homeostase) é feita principalmente pelos sistemas nervoso e endócrino. O sistema endócrino atua por produção (síntese), armazenamento e liberação de compostos denominados hormônios, produtos que são transportados pela circulação sanguínea. Eles, como mensageiros químicos, têm capacidade de regular a função de determinados tecidos, geralmente mediante estimulação, porém algumas vezes inibindo certas atividades. Os tecidos/órgãos sensíveis a determinado hormônio são os órgãosalvo ou tecidosalvo. Estes reagem aos hormônios porque suas células têm receptores que reconhecem especificamente determinados hormônios e só a eles respondem. Por causa disso, os hormônios podem circular no sangue sem influenciar indiscriminadamente todas as células do corpo. Alguns hormônios atuam diretamente sobre tecidos/órgãosalvo não endócrinos. Outros atuam indiretamente; são os chamados hormônios tróficos, que, depois de produzidos e liberados, modularão a atividade secretora de outra glândula endócrina. Por exemplo, o hormônio estimulante da tireoide (TSH, thyroidstimulating hormone) é produzido na hipófise e age na glândula tireoide. Essas glândulas com funcionamento indireto podem ser consideradas como glândulas endócrinas hipófisedependentes. As glândulas endócrinas são, por sua vez, reguladas pelo sistema nervoso ou por outras glândulas, criando um complexo de interrelações neuroendócrinas. Os mensageiros químicos agem por meio de dois mecanismos. No primeiro, o mensageiro penetra na célulaalvo, combina se com receptores intracelulares e o complexo do mensageiro com o receptor ligase ao ácido desoxirribonucleico (DNA, deoxyribonucleic acid), ativando um ou mais genes, comandando a produção de proteínas específicas. Os hormônios esteroides funcionam dessa maneira em razão de sua solubilidade nos lipídios. No segundo, o mensageiro entra em interação com receptores localizados na superfície externa da membrana plasmática da célula glandular. Esse mensageiro, chamado primeiro mensageiro, induz a formação de mensageiros intracelulares (segundo mensageiro), que iniciam modificações da atividade celular com a finalidade de produzir secreções. Os hormônios polipeptídicos atuam dessa maneira, pois, sendo insolúveis nos lipídios, não atravessam facilmente a membrana plasmática. O sistema endócrino existe na forma de órgãos distintos, tecidos e células isoladas. Os órgãos endócrinos são as glândulas hipófise (pituitária), pineal, tireoide, paratireoide e adrenal. Os tecidos endócrinos (agrupamentos de células endócrinas) associados a glândulas ou vísceras não endócrinas são as células neurossecretoras encontradas no hipotálamo, nas ilhotas de Langhans presentes no pâncreas, as células dos ovários (teca interna, células granulosas, células intersticiais e as células do corpo lúteo) e dos testículos (células intersticiais ou de Leydig) e as miofibras cardíacas atriais produtoras do peptídio natriurético atrial (ANP, atrial natriuretic peptide). As células endócrinas isoladas estão distribuídas no epitélio dos aparelhos digestório e respiratório. Na mucosa digestiva, essas células podem estar localizadas em qualquer nível desde a base das glândulas intestinais até o ápice das vilosidades; na ■ ■ ■ mucosa respiratória estão dispersas individualmente no epitélio ou em agregados. Essas células secretam peptídios e têm características metabólicas comuns, envolvendo a captação de aminas que passam pela descarboxilação no processo de síntese hormonal. Esse mecanismo determinou, inicialmente, o termo consumo e descarboxilação do precursor amínico (APUD, amine precursor uptake and decarboxylation) para essas células. Posteriormente, estudos ultraestruturais tornaram evidente que células secretoras de aminas da mucosa digestiva e de outros órgãos endócrinos (células secretoras da medular da adrenal, células parafoliculares ou “C” da tireoide, células justaglomerulares e células quimiorreceptoras do corpo carotídeo) têm características comuns. Algumas das células APUD são derivadas da crista neural, podendo ser consideradas neurônios modificados. Por essa razão, o termo sistema neuroendócrino difuso passou a ser utilizado para incluir todos esses tipos de células. Várias dessas células têm secreção parácrina, isto é, secretam mensageiros químicos que atuam em células adjacentes. Para as células serem classificadas como parte do sistema neuroendócrino difuso, devem apresentar as seguintes características: produzir aminas ou peptídios com atividade semelhante à de um hormônio ou substância neurotransmissora; ter estruturas semelhantes a vesículas sinápticas ou grânulos do tipo neurossecretores (redondos ou ovoides, envoltos por membrana, centro elétrondenso e halo elétrontransparente); ter funções receptoras e secretoras; e serem de origem neuroectodérmica. Estrutura funcional das glândulas endócrinas As células parenquimatosas (secretoras) dessas glândulas são de origem epitelial e, com o tecido de sustentação interposto (estroma), que é rico em capilares sanguíneos (sinusoides com fenestras) e linfáticos, formam as glândulas endócrinas. As células secretoras têm núcleos arredondados, claros (eucromatina) e com nucléolo proeminente, características que refletem o funcionamento ativo de síntese. A composição do citoplasma é intimamente relacionada com a característica química da secreção produzida por ele. Nas células produtoras dos hormônios polipeptídicos, há abundante retículo endoplasmático rugoso, aparelho de Golgi e grânulos (vesículas) secretores. Nas células que sintetizam hormônios esteroides, é predominante a trama de retículo endoplasmático liso tipo tubular (não há grânulos), porém as células têm corpúsculos citoplasmáticos de lipídios (colesterol). As células secretoras liberam seus produtos hormonais para o espaço intersticial, de onde se difundem rapidamente para o sistema circulatório, que está em íntimo contato com as células. Regulação da secreção e atividade dos hormônios A secreção hormonal pode ser regulada por compostos químicos ou íons no líquido extracelular, por estímulos neurais ou por hormônios de outras glândulas endócrinas. O sistema de feedback (retroalimentação) regula a maior parte. No feedback negativo, que é o mais comum, as respostas das célulasalvo inibem o hormônio regulador. Por exemplo, o hormônio adrenocorticotrófico (ACTH, adrenocorticotropic hormone) estimula a secreção de cortisol, e a secreção sanguínea aumentada de cortisol livre inibe a secreção adenohipofisária de ACTH, ou diretamente ou pela diminuição do hormônio hipotalâmico liberador de ACTH. No feedback positivo, a resposta das célulasalvo estimula o hormônio regulador, que, por sua vez, estimula ainda mais as respostas das célulasalvo. Por exemplo, o aumento da secreção de estradiol pelo ovário influencia a ação hipotalâmica e a secreção do hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH, gonadotropinreleasing hormone) hipotalâmico, resultando em elevação da secreção de hormônio luteinizante (LH, luteinizing hormone). A atividade de um hormônio é amplamente influenciada por sua interação com um ou mais hormônios envolvidos na regulação da mesma função ou a ela relacionados. Na regulação da homeostasia também podem ocorrer dois hormônios agindo antagonicamente. Por exemplo, a secreção aumentada da insulina resulta em hipoglicemia, enquanto o aumento da secreção de glucagon promoveráhiperglicemia. Em alguns casos, a secreção de dois antagonistas pode aumentar em resposta ao mesmo estímulo. A absorção de aminoácidos a partir do intestino estimula tanto a insulina como o glucagon. O aumento do glucagon induzido pela concentração de açúcar no sangue serve para evitar hipoglicemia transitória intensa resultante da ação da insulina. Glândula hipó잒乀se É também conhecida como glândula pituitária. Constituise de estrutura arredondada que está localizada em uma concavidade no osso esfenoide denominada sela túrcica e está revestida pela duramáter. Essa glândula endócrina, portanto, localizase ventralmente ao terceiro ventrículo e ao hipotálamo. A glândula é dividida em partes anterior e posterior e tem origens embrionárias diferentes. A adenohipófise (ou lobo anterior) se forma a partir de evaginação dorsal do ectoderma orofaríngeo • • • • • • • • • (teto da cavidade oral), conhecido como bolsa de Rathke. A neurohipófise (lobo posterior) se forma a partir de protrusão ventral (evaginação) do assoalho do diencéfalo (hipotálamo) e permanece conectada a essa porção do sistema nervoso pelo pedículo pituitário. Parte da adenohipófise, o lobo intermediário, fusionase à neurohipófise e fica separada do resto da adenohipófise pela fenda hipofisária. A adenohipófise consiste em três porções: pars distalis, pars tuberalis e pars intermedia. A pars distalis é a maior porção da pituitária. O parênquima é formado por células epiteliais que formam cordões ramificados e/ou agrupamentos, que têm membrana basal e são circundadas por sinusoides fenestrados. As células secretoras da adenohipófise são classificadas de acordo com a sua afinidade por corantes histológicos. Quando apresentam grânulos citoplasmáticos que têm afinidade pelos corantes histológicos hematoxilina e eosina (H&E), as células são classificadas em cromófilas acidóficas e cromófilas basófilas. Quando não apresentam grânulos citoplasmáticos visíveis ao microscópio de luz clara e, por conseguinte, têm o citoplasma pouco corado pelos corantes histológicos de rotina, são classificadas como células cromófobas. Técnicas imunohistoquímicas (IHQ) específicas subclassificaram funcionalmente as células cromófilas acidófilas conforme seu produto de secreção: células somatotróficas [hormônio do crescimento ou somatotropina (GH, growth hormone)] e células luteotrópicas [hormônio luteotrópico (LTH, luteotropic hormone); prolactina]. As células cromófilas basófilas incluem tanto células gonadotrópicas, que secretam LH e hormônio foliculoestimulante (FSH, folliclestimulating hormone), como células tireotróficas que secretam o TSH. As células cromófobas são células menores e com poucos grânulos não visíveis na microscopia de luz; estas incluem as células da hipófise empenhadas na síntese de hormônio adrenocorticotrófico (ACTH, adrenocorticotropic hormone) e as melanotróficas, que secretam o hormônio estimulante dos melanócitos (MSH, melanocytestimulating hormone). Cada tipo de célula endócrina da adenohipófise parece estar sob controle de um hormônio (“fator”) de liberação (RF, releasing factor), originário do hipotálamo. Para dois hormônios, hormônio do crescimento e prolactina são produzidos hormônios ou fatores tanto da inibição quanto da liberação. Os hormônios liberadores são peptídios pequenos sintetizados por neurônios do hipotálamo. São transportados por processos axônicos, liberados em capilares e conduzidos para células endócrinas específicas na adenohipófise. Cada fator de liberação estimula a liberação rápida de grânulos secretores contendo um hormônio trófico préformado específico. Conforme explicado anteriormente, uma vez que as célulasalvo desses hormônios hipofisários são ativadas, o mecanismo de feedback (positivo ou negativo) controla síntese e liberação adicionais desses hormônios por meio da ação direta em células na adenohipófise ou neurônios no hipotálamo. O controle da secreção dos hormônios da adenohipófise é feito por hormônios estimuladores e inibidores da secreção dos hormônios da adenohipófise, secretados no hipotálamo. Esses hormônios são sintetizados em núcleos hipotalâmicos, transportados para a eminência média pelo transporte axônico e liberados no plexo capilar primário. Eles alcançam a adeno hipófise pelas veias porta hipofisárias longas e curtas e estimulam ou inibem a secreção dos hormônios adenohipofisários. Esses hormônios são chamados hormônios hipotalâmicos hipofisiotróficos. Foram caracterizados os seguintes hormônios: Corticoliberina (CRH, corticotropinreleasing hormone) ou adrenocorticotrófico hormônio (ACTH) Gonadoliberina (LH/FSHRF) ou GnRH Melanoliberina ou fator liberador da melanotropina (MSHRF) Melanostatina ou fator inibidor (do fator liberador) de melanotropina (MSHIF, melanocytestimulatinghormone release inhibiting factor) Prolactoliberina ou fator liberador de prolactina (PRF, prolactinreleasing factor) Prolactostatina, dopamina ou fator inibidor de prolactina (PIF, prolactin inhibitory factor) Somatoliberina ou hormônio liberador do hormônio crescimento (GHRH, growth hormonereleasing hormone) Somatostatina ou hormônio inibidor do hormônio crescimento (GHIH, growth hormoneinhibiting hormone) Tireoliberina ou hormônio liberador da tireotropina (TRH, tyrotropinreleasing hormone). A neurohipófise não tem células secretoras, e, sim, axônios sem mielina oriundos de neurônios localizados nos núcleos hipotalâmicos supraóptico e paraventricular. Apresenta também células de sustentação (pituícitos), que são astrócitos modificados. Os hormônios são produzidos nos corpos neuronais no hipotálamo, chegam à neurohipófise pelo fluxo axoplasmático e, por exocitose, entram na circulação sanguínea. O pedúnculo hipofisário conecta a pars nervosa da hipófise ao hipotálamo suprajacente e também é composto de axônios amielínicos. A hipófise posterior libera dois hormônios, o hormônio antidiurético (ADH, antidiuretic hormone), ou vasopressina, e a ■ ■ ocitocina, os quais atuam diretamente sobre tecidos não endócrinos (músculo liso da parede uterina e túbulos coletores renais). Glândula pineal ou epí잒乀se neural A pineal é uma evaginação do encéfalo que se localiza abaixo da extremidade caudal do corpo caloso do cérebro e é revestida pelas leptomeninges. É composta de lóbulos de células especializadas, separadas por axônios amielínicos. Há dois tipos celulares: pinealócitos, que são as células principais, e células da neuroglia, os astrócitos. Os pinealócitos são neurônios modificados e especializados dispostos em cordões e circundados por capilares fenestrados. Apresentam grânulos citoplasmáticos que contêm melatonina e seu precursor, serotonina. A pineal responde a estímulos luminosos recebidos pela retina, os quais são transmitidos ao córtex cerebral e retransmitidos à pineal por nervos do sistema nervoso simpático. Sob influência luminosa, a secreção de melatonina diminui, influenciando a atividade das gônadas nas espécies poliestrais estacionais, que apresentam ciclicidade ovariana em dias longos (como no caso das éguas) ou nos dias curtos (como a ovelha). Na ausência de luz, ou seja, durante a noite, a secreção de melatonina aumenta, contribuindo para o sono; portanto, podese dizer que a pineal obedece ao ritmo circadiano. Por esse motivo, criações comerciais de poedeiras têm como prática de manejo um programa de luz noturna, prolongando o período diário de atividade reprodutiva das aves. Geralmente, o período total de luz é de 18 h diárias para as aves em fase de postura. Glândula tireoide Na maioria das espécies, a glândula tireoide tem dois lobos e está localizadalateralmente na parte cranial da traqueia. Nos suínos e aves, no entanto, os lobos estão localizados próximo à entrada da cavidade torácica. Os lobos estão envoltos por uma cápsula de tecido conjuntivo fibroso de onde saem septos fibrosos que dividem a glândula em lóbulos. Fibras reticulares também fazem parte do estroma de sustentação. O parênquima da glândula é composto principalmente de folículos tireoidianos (espaços esféricos limitados pelas células epiteliais cuboides), os quais são as unidades funcionais da glândula. O lúmen dos folículos é geralmente preenchido pelo coloide (substância gelatinosa rica em uma glicoproteína, a tireoglobulina). O epitélio repousa sobre uma membrana basal. A estrutura dessas células epiteliais tem todas as características de uma célula que, ao mesmo tempo, sintetiza, reabsorve e digere proteínas – retículo endoplasmático rugoso (RER), mitocôndrias, núcleo esférico com nucléolo evidente, aparelho de Golgi no polo apical, grânulos de secreção, lisossomos e microvilosidades em número moderado na borda “luminal”. As células foliculares da tireoide têm receptores para o TSH, que estimula a célula tireoidiana; no entanto, os hormônios tireoidianos (T3 e T4), por sua vez, inibem a síntese do TSH. Quando a altura média do epitélio do folículo é baixa, a glândula está pouco ativa e, em contraposição, aumento acentuado na altura do epitélio significa hiperatividade deste. O órgão é altamente vascularizado com capilares revestidos por células endoteliais fenestradas. Na síntese dos hormônios tireoidianos participam os seguintes processos: síntese da tireoglobulina [síntese proteica a partir de aminoácidos (tirosina) captados pela borda basal da célula] e glicosilação; captação de iodeto circulante pela borda basal e transporte ativo até o lúmen, no qual é ativado e transformado em iodo; iodação da tireoglobulina (que consiste na combinação do iodo com a tireoglobulina que só ocorre no lúmen folicular); captação do coloide por pinocitose através da borda apical da célula; digestão das gotículas de coloide por lisossomos, liberando triiodotirosina (T3) e tetraiodotirosina (T4 ou tiroxina), que ultrapassam a membrana basal da célula e chegam ao capilar sanguíneo. Na corrente sanguínea, o T3 e o T4 unemse a proteínas plasmáticas e são lentamente liberados para os tecidos. Esses hormônios tireoidianos se ligam novamente a proteínas intracelulares (ativando receptores intranucleares), sendo utilizados lentamente por dias a semanas. Muitos desses receptores são específicos para o T3. Esses hormônios atuam em todos os sistemas do organismo. Nas células, estimulam a transcrição de muitos genes que codificam vários tipos de proteínas, aumentando o metabolismo celular pelo incremento das reações de oxidação (elevação do consumo de oxigênio). Atuam também acelerando a síntese e o catabolismo de proteínas, o metabolismo dos carboidratos, a glicogenólise e a gliconeogênese. No metabolismo dos lipídios, promovem lipogênese e lipólise. No músculo cardíaco, aumentam a transcrição gênica da miosina e dos receptores betaadrenérgicos. No trato digestório, elevam a motilidade intestinal e a secreção de enzimas digestivas e facilitam, por fim, o crescimento dos tecidos muscular e ósseo. Outra célula secretora é encontrada dispersa entre as células foliculares e a membrana basal que envolve as células dos folículos; essas células são chamadas de células parafoliculares ou células “C”. Foram descritas pela primeira vez no cão, no qual apresentam citoplasma grande e não corado, sendo, por isso, denominadas células “C” (células claras). São ■ ■ responsáveis pela síntese de calcitonina. Esse hormônio promove a absorção de cálcio pelo sistema esquelético e inibe a reabsorção óssea pelos osteoclastos. Sua produção é influenciada diretamente pelos níveis plasmáticos de cálcio. Glândula paratireoide Localizase na parte cranial da tireoide ou na entrada do tórax. Geralmente, são pares, mas podem ser encontradas até três ou quatro glândulas. São envolvidas por cápsula delgada de tecido conjuntivo fibroso, a qual projeta finas trabéculas de colágeno para o interior do parênquima, que é constituído por cordões, grupos ou “rosetas” de células epiteliais sustentadas por fibras reticulares e com extensa rede de capilares fenestrados. Os tipos celulares incluem as células principais (claras e escuras) e, em menor quantidade, as células oxínticas, que apresentam citoplasma intensamente eosinofílico cuja função é desconhecida. A célula principal clara é inativa e tem o citoplasma acidófilo (eosinofílico) claro e núcleo grande e vesicular. Essas células predominam nas glândulas paratireoides do ser humano e dos animais domésticos. As células ativas e escuras ocorrem com menor frequência que as células inativas e apresentam núcleo pequeno e vesicular, circundado por citoplasma acidófilo com numerosos grânulos secretores. A glândula é especializada em secretar o paratormônio (PTH), que regula os níveis de cálcio e fosfato sérico. O PTH atua no tecido ósseo aumentando a velocidade de reabsorção osteoclástica e liberando cálcio ósseo para a circulação. Eleva, ainda, a absorção de cálcio pela mucosa intestinal e inibe a reabsorção de fósforo e promove a reabsorção de cálcio nos túbulos proximais dos rins. A produção e a secreção do PTH são estimuladas pela diminuição dos níveis sanguíneos de cálcio. Glândula adrenal As glândulas adrenais são pequenos órgãos localizados cranialmente aos rins. As adrenais estão envoltas por uma cápsula de tecido conjuntivo denso e trabéculas de tecido conjuntivo frouxo que invadem o parênquima até o nível da medula. O estroma de suporte consiste em fibras colágenas finas e fibras reticulares. As glândulas adrenais são altamente vascularizadas e divididas em duas regiões: a cortical e a medular, que diferem na origem embriológica. O córtex tem origem no mesoderma, que corresponde a cerca de 80% do órgão. De maneira semelhante às gônadas, os hormônios esteroides produzidos pelas células corticais da adrenal têm como precursor o colesterol. A medular tem origem no ectoderma, semelhantemente ao sistema nervoso simpático, e pode ser considerada como adjunto altamente especializado desse sistema. O córtex é formado por células poliédricas secretoras que estão organizadas em cordões, quase sempre da espessura de duas células. Os cordões estão orientados radialmente em relação à medular da adrenal. A orientação dos cordões e algumas diferenças citológicas possibilitam a diferenciação das subdivisões corticais: zona glomerulosa ou multiforme, zona fasciculata e zona reticularis. Na zona glomerulosa, os núcleos das células são mais basofílicos e menores que os das demais zonas; além disso, as células se organizam de maneira semelhante a glomérulos. Em equino, suíno e cão, as células têm arranjo arqueado. É responsável pela produção dos mineralocorticoides (aldosterona). A zona fasciculata é a mais larga do córtex e é formada por células poliédricas arranjadas em cordões únicos ou duplos, as quais produzem os glicocorticoides cortisol e corticosterona. A zona reticularis é formada por células que estão dispostas na forma de cordões, que se anastomosam livremente e são responsáveis pela produção de hormônios androgênios. A medular tem células ganglionares prismáticas e células epitelioides intimamente agrupadas. Essas células têm núcleo grande e vesicular e citoplasma basofílico e com pequenos grânulos. Secretam as catecolaminas epinefrina e norepinefrina. Quando o tecido é fixado em sais de cromo, os grânulos de catecolaminas são oxidados, adquirindo cor marrom; por essa razão,o nome célula cromafim foi atribuído à célula secretora da medular da adrenal. O controle da produção da aldosterona pelas células da zona glomerulosa é feito pelas concentrações plasmáticas de sódio e potássio e pelo sistema reninaangiotensina. A renina é produzida no rim e transforma o angiotensinogênio (uma proteína plasmática) em angiotensina I, que é convertida em angiotensina II nos pulmões. A angiotensina II nos pulmões tem ação vasoconstritora e, além disso, estimula as células da zona glomerulosa da adrenal a produzir aldosterona. A função principal da aldosterona é aumentar a reabsorção renal de sódio e, por osmose, também de água, o que resulta em elevação da pressão arterial. Os glicocorticoides produzidos pelas células da zona fasciculata são hiperglicemiantes; eles diminuem a utilização periférica de glicose, aumentando o nível de glicose sanguínea. A dihidroepiandosterona sintetizada por células da zona reticularis é precursora de hormônios sexuais femininos e masculinos. A medular secreta a epinefrina e a norepinefrina, cuja liberação é controlada por neurônios préganglionares do sistema nervoso simpático. Estresses físicos e psicológicos agudos e outros estímulos, como o frio, iniciam a liberação desses hormônios. O hipotálamo secreta o fator liberador de corticotrofina. Sob a ação deste, a adenohipófise secreta o ACTH, que age estimulando a liberação dos hormônios do córtex ■ • • • • • ■ da adrenal. Pâncreas endócrino O epitélio embrionário dos ductos pancreáticos origina as células endócrinas e exócrinas. Durante o desenvolvimento embrionário, as células endócrinas migram e agregamse ao redor de capilares para formar grupos isolados de células dispersos por todo o tecido glandular exócrino. Esses aglomerados são conhecidos como ilhotas de Langhans, formadas por cordões celulares constituídos por células arredondadas ou poligonais, que adquirem coloração mais clara que os ácinos pancreáticos na coloração de rotina. Elas correspondem a cerca de 1,5% do volume pancreático. Por meio da IHQ para a marcação dos hormônios específicos das células, foi possível a identificação de cinco tipos celulares que compõem as ilhotas: células A ou alfa, B ou beta, C, D e F. Células A ou alfa: são células poligonais que apresentam grânulos insolúveis em álcool e secretam o glucagon e a colicistoquinina Células B ou beta: compõem a maior parte da ilhota (mais ou menos de 60 a 80%, mas, em cães, sabese que compõem 75% e, em ovelhas, até 98% das ilhotas). São células poligonais, com grânulos solúveis em álcool; ultraestruturalmente, caracterizamse por apresentar estruturas intranucleares cristaloides de formato variado, sendo responsáveis pela produção de insulina Células C: não apresentam grânulos. Podem ser consideradas como célula A ou B em repouso ou como célula precursora da A Células D: produzem a somatostatina, que inibe a atividade da célula A e da célula B. São consideradas raras nos mamíferos domésticos Células F: sintetizam o hormônio polipeptídio pancreático, que inibe a secreção do pâncreas exócrino, relaxa a musculatura lisa da vesícula biliar e diminui a secreção de bile. O hormônio insulina (hormônio hipoglicemiante) favorece a entrada de glicose nas células (hepatócitos, fibras musculares esqueléticas e adipócitos), diminuindo os níveis plasmáticos de glicose. O hormônio glucagon é o hormônio hiperglicemiante. Para obter glicose, atua nos hepatócitos promovendo a glicogenólise e a neoglicogênese pelo aumento da proteólise e da lipólise. Mecanismo de desenvolvimento da doença endócrina Várias lesões do sistema endócrino são caracterizadas por distúrbios funcionais e alterações patológicas manifestadas por diferentes sistemas do organismo. Tais alterações, que podem ser percebidas inicialmente pelo proprietário do animal e são o motivo pelo qual o animal é levado ao consultório médico veterinário, quase sempre não são facilmente relacionadas com o respectivo distúrbio hormonal. Por exemplo, o animal pode apresentar alopecia e hiperpigmentação como alterações primárias principais. Essas alterações são observadas no hipotireoidismo e no hiperadrenocorticismo, mas outras causas hormonais (hiperestrogenismo associado à neoplasia das células de Sertoli) e causas infecciosas também fazem parte do diagnóstico diferencial. Alterações no sistema urinário, tais como poliúria e polidipsia, ocorrem na diabetes insipidus e no hiperadrenocorticismo. Fraqueza muscular pode ser provocada por hipotireoidismo e hiperadrenocorticismo. Desse modo, os conhecimentos detalhados de todas as alterações individuais causadas por cada defeito hormonal serão muito úteis para direcionar a suspeita clínica ou patológica. Biopsias e testes dos níveis hormonais são essenciais para fazer o diagnóstico da doença endócrina. Hipofunção primária de glândula endócrina Secreção e liberação de um hormônio são subnormais quando há extensa destruição das células secretoras por processo patológico, falha de uma glândula em desenvolverse adequadamente ou defeito bioquímico na rota sintética de um hormônio. Danos imunomediados causam hipofunção de várias glândulas endócrinas, incluindo as glândulas paratireoides, o córtex adrenal e a glândula tireoide. A tireoidite causada por esse mecanismo (tireoidite linfocitária) caracterizase por acentuada infiltração linfoplasmocitária e deposição de imunocomplexos eletrodensos ao longo das membranas basais dos folículos tireoidianos, com destruição progressiva do parênquima secretor dessa glândula endócrina. Outra causa de hipofunção da tireoide é o uso de produtos antitireoidianos, tais como a metiltiouracila e outros derivados ■ ■ ■ ■ do tiouracil (uso proibido por deixar resíduos na carne e por riscos para a saúde humana). Essas substâncias inativam a peroxidase tireoidiana, impedindo a oxidação do iodeto, a fixação do iodo ao radical tirosil da tireoglobulina e o acoplamento das iodotirosinas. Além desse mecanismo, alguns antitireoidianos, como a propiltiouracila, também inibem a transformação da tiroxina em triiodotironina nos tecidos periféricos por bloquear a desiodação. A deficiência induzida de hormônios tireoidianos ocasiona hipersecreção de TSH, que tem ação trófica sobre a tireoide, determinando seu aumento de volume. O hipotireoidismo, provocado no curso da administração desses medicamentos, determina ganho de peso pela retenção de água nos tecidos subcutâneo e muscular e no trato gastrintestinal. Falha no desenvolvimento também resulta em hipofunção primária de uma glândula endócrina. O exemplo clássico desse mecanismo é a falha do ectoderma orofaríngeo em diferenciarse completamente em células secretoras de hormônios tróficos da adenohipófise em cães e resulta em uma síndrome clínica denominada nanismo pituitário. Hipofunção secundária de glândula endócrina Nesse mecanismo, lesão destrutiva de um órgão, como a da glândula pituitária (hipófise), interfere na secreção de hormônio trófico, o que resulta em hipofunção de glândula endócrina alvo. Neoplasias grandes e endocrinologicamente ativas da pituitária em cães e gatos adultos e em outras espécies de animais domésticos podem interferir na secreção de múltiplos hormônios tróficos da pituitária e resultar em hipofunção clinicamente detectável do córtex adrenal, das células foliculares da tireoide e das gônadas. Por exemplo, abscesso ou grande adenoma não funcional da glândula pituitária pode comprimir ou incorporar completamente e destruir a adenohipófise, interrompendo, assim, a secreção de TSH. Isso resulta em atrofia acentuada da tireoide e produção subnormal dos hormônios tireoidianos. Hiperfunçãoprimária de glândula endócrina Na hiperfunção primária de glândula endócrina, células hiperplásicas ou neoplásicas funcionais, frequentemente derivadas da glândula, sintetizam e secretam um hormônio de modo autônomo em quantidades excessivas, que superam a capacidade do organismo em utilizálo e degradálo, resultando em síndrome de excesso de hormônio. Essas síndromes incluem hiperfunção das células principais da paratireoide, das células foliculares e “C” (parafoliculares) da tireoide, das células beta das ilhotas do pâncreas endócrino (ilhotas de Langhans) e das células secretoras da medular da adrenal. Por exemplo, hiperplasia multinodular ou adenoma funcional da glândula tireoide em gatos acarreta hipersecreção autônoma de tiroxina e tri iodotironina. A elevação dos hormônios tireoidianos determina distúrbios de hiperatividade nos indivíduos (ver o item Síndromes Clínicas). Hiperfunção secundária de glândula endócrina Nesse mecanismo patogenético, alteração em um órgão endócrino (p. ex., adenohipófise) libera excessiva quantidade de um hormônio trófico, o que resulta em estimulação prolongada de um órgãoalvo e consequente hipersecreção de hormônio. O exemplo desse mecanismo patogênico em animais é a neoplasia secretora de ACTH derivado de células corticotróficas da pituitária. Adenoma cromófobo corticotrófico (secretor de ACTH) da pars distalis da hipófise é responsável por aumento bilateral das glândulas adrenais. Isso ocorre em virtude da secreção prolongada de ACTH por essa neoplasia endocrinologicamente ativa (funcional), que resulta em hipertrofia e hiperplasia das células secretoras das zonas fasciculata e reticularis no córtex adrenal e em secreção excessiva de cortisol e a síndrome clínica em cães, caracterizada por alopecia progressiva, hiperpigmentação e fraqueza muscular (ver Síndromes Clínicas). Hipersecreção de hormônios ou de substâncias semelhantes a hormônios por neoplasias não endócrinas A hipersecreção de hormônios ou de substâncias “tipo hormônios” (química ou biologicamente semelhantes ao hormônio original) por neoplasias não endócrinas tem sido reconhecida em animais e seres humanos. A maioria dessas substâncias são peptídios. Esteroides e iodotironinas parecem não ser secretados por neoplasias não endócrinas. Exemplo da produção de substâncias tipo hormônios em animais é o adenocarcinoma derivado das glândulas apócrinas do saco anal em cães. Tais neoplasias produzem uma proteína relacionada com o hormônio paratireoidiano (PTHrP, parathyroid hormonerelated protein), que estimula indiretamente os osteoclastos. A resultante mobilização acelerada de cálcio provoca desenvolvimento de hipercalcemia persistente, mesmo que as glândulas paratireoides do animal sejam compostas de células principais atróficas ■ ■ ■ ■ ■ ■■ e inativas. Disfunção endócrina em consequência de resposta insu잒乀ciente da célula-alvo O entendimento mais completo do mecanismo de ação dos hormônios possibilitou o reconhecimento dessa disfunção endócrina. Hormônios esteroides e iodotironina penetram no citoplasma pela membrana da célula, ligamse a receptores no citoplasma e são transportados ao núcleo, onde interagem com o DNA da célula para aumentar a síntese de nova proteína. Hormônios polipeptídicos e catecolaminas ligamse a receptores na superfície das célulasalvo e ativam uma enzima ancorada na membrana que cria um mensageiro intracelular [monofosfato de adenosina cíclico (cAMP, cyclic adenosine monophosphate)] que induz resposta fisiológica. A falha das célulasalvo em responder ao hormônio pode ser decorrente de falta de adenilciclase na membrana celular ou alteração nos receptores hormonais na superfície da célula. Certas formas de resistência à insulina associadas à obesidade em animais e seres humanos resultam do decréscimo no número de receptores na superfície das célulasalvo. Consequentemente, pode desenvolverse quadro de diabetes mellitus. Hiperatividade endócrina secundária às doenças de outros órgãos Bom exemplo que caracteriza essa alteração é o hiperparatireoidismo, que se desenvolve secundariamente à insuficiência renal crônica ou ao desequilíbrio nutricional. O hiperparatireoidismo nutricional desenvolvese em animais com dietas anormais, ricas em fósforo. Carnívoros que recebem carne diariamente, sem suplementação de cálcio, desenvolvem hipocalcemia, que estimula a paratireoide a aumentar sua atividade. Insu잒乀ciência da função endócrina fetal A função subnormal do sistema endócrino do feto, especialmente em ruminantes, pode perturbar seu desenvolvimento normal e resultar em gestação prolongada. Em bovinos Guernsey e Jersey, há insuficiência, geneticamente determinada, no desenvolvimento da adenohipófise, embora a neurohipófise se desenvolva de modo normal. Isso resulta na falta de secreção de hormônios tróficos da pituitária durante o terço final de gestação e consequente hipoplasia dos órgãos endócrinosalvo, especificamente córtex adrenal, gônadas e células foliculares das glândulas paratireoides. O desenvolvimento fetal é normal até cerca de 7 meses de gestação, mas o crescimento fetal subsequente cessa, independentemente do tempo pelo qual o feto viável é retido no útero. Disfunção endócrina resultante de degradação anormal de hormônio Nesse distúrbio, a secreção de hormônio por uma glândula endócrina é normal, porém as concentrações no sangue estão persistentemente elevadas, pois a degradação está diminuída, estimulando hipersecreção de seus respectivos hormônios. A síndrome de feminilização em seres humanos decorrente do hiperestrogenismo, associada à cirrose e à consequente redução na degradação hepática de estrógenos, é exemplo clássico desse mecanismo patogenético. Outro exemplo de degradação anormal de hormônios é a indução das enzimas microssomais hepáticas pela administração de vários químicos ou medicamentos. O aumento da atividade das enzimas microssomais resulta em aumento da excreção de T4 pela bile. Os níveis circulantes de T4 tornamse subnormais e há elevação de secreção compensatória de TSH pela glândula pituitária. A estimulação contínua das células foliculares da tireoide pelo TSH em espécies animais, como ratos de laboratório, predispõem ao desenvolvimento de aumento na incidência de hiperplasia focal e adenomas da tireoide. Síndromes iatrogênicas de excesso hormonal A administração de hormônio, seja direta ou indiretamente, influencia a atividade das célulasalvo e resulta em distúrbios clínicos. A administração diária prolongada de altas doses de preparação potente de corticosteroides exógenos (medicamentos à base de corticosteroides), no tratamento sintomático de várias doenças, reproduzirá a maioria dos distúrbios funcionais associados ao excesso de cortisol, incluindo fraqueza muscular, perda acentuada de pelos (hipotricose e alopecia) e deposição de cálcio na pele (calcinose cutânea). A concentração elevada de cortisol exógeno resulta em atrofia acentuada do córtex adrenal, particularmente das zonas fasciculata e reticularis, por falta de estímulo pelo ACTH. Hipó잒乀se Anomalias do desenvolvimento Falhas no desenvolvimento da hipófise (aplasia e hipoplasia) são relatadas em várias raças bovinas, incluindo Jersey, Guernsey e Holandês, em que a disfunção é geneticamente determinada. A anomalia afeta o eixo hipotalâmicoadeno hipofisárioadrenocortical do feto, resultando em hipoplasia bilateral acentuada do córtex adrenal e consequente falha na produção de cortisol fetal (hormônio essencial no início do trabalho de parto). Clinicamente, a condição se caracteriza por prolongamento da gestação. Os fetos afetados podem apresentar,além disso, anomalias resultantes da deficiência adicional de TSH, GH e outros hormônios hipofisários, incluindo hipoplasia bilateral das glândulas tireoides, defeitos esqueléticos e retardamento no desenvolvimento. Há também casos em que os fetos continuam crescendo in utero até ultrapassarem a capacidade placentária de nutrição do feto, momento em que ocorre a sua morte. Condição semelhante é observada em ovelhas prenhes que ingerem a planta Veratrum californicum (que cresce em certas partes dos EUA) no 14o dia de gestação. Nesses animais, os alcaloides da planta ciclopamina e jervina produzem várias deformidades fetais, em particular da região do hipotálamo e da hipófise. A gestação, nesses casos, estendese indefinidamente, até ser interrompida por cesariana ou o feto morrer in utero. Por fim, hipoplasia pituitária, resultando em falha na secreção dos hormônios tireotróficos, somatotróficos, lactotróficos e, em menor grau, gonadotróficos, também é descrita em cães, seres humanos e camundongos anões, acompanhada ou não por cistos multiloculares da bolsa de Rathke (ver Hipossomatotropismo Congênito ou Nanismo Pituitário para mais detalhes). Cistos não neoplásicos na hipófise (Figura 13.1) podem se desenvolver em remanescentes tanto da porção distal quanto proximal do ducto craniofaríngeo. Os cistos derivados da porção distal do ducto são revestidos por epitélio ciliado cúbico a cilíndrico e contêm mucina. Em cães, principalmente nos de raças braquicefálicas, esses cistos são quase sempre encontrados na periferia de pars tuberalis e pars distalis da hipófise. Às vezes, os cistos se tornam grandes o suficiente a ponto de induzirem atrofia compressiva do infundíbulo, da eminência mediana ou da pars distalis, além de interferência no aporte sanguíneo pelo sistema porta hipofisário. Extravasamento do conteúdo do cisto pode elicitar reações inflamatórias locais marcadas, com subsequente fibrose e interferência no funcionamento glandular normal. Sinais clínicos incluem deficit visuais e diabetes insipidus (considerados, primariamente, reflexo da função hipotalâmica danificada por compressão pela neoplasia pituitária), bem como atrofia gonadal, redução da taxa de metabolismo basal e hipoglicemia (associados ao hipofuncionamento da adenohipófise). A porção proximal do ducto craniofaríngeo pode persistir no aspecto dorsal da cavidade oral em adultos na forma de células indiferenciadas ou de células diferenciadas semelhantes às da adenohipófise. A presença dessa estrutura remanescente, chamada de hipófise faringiana, é descrita em várias espécies animais, em especial em cães e gatos; naqueles, a hipófise faringiana é fisicamente separada da adenohipófise, ao passo que, nestes, essas estruturas podem ser contínuas em razão da persistência do canal craniofaringiano. Em cães, a hipófise faringiana é mais comumente observada nas raças braquicefálicas. Ela consiste em estrutura tubular revestida por epitélio cilíndrico ciliado que está localizada na região mediana da nasofaringe e costuma ser contínua, com um cisto multilocular. O cisto pode medir alguns centímetros de diâmetro, podendo causar distúrbios respiratórios decorrentes do deslocamento ventral do palato mole e da oclusão das narinas. A parede do cisto pode conter osso trançado parcialmente mineralizado, parecendo firme à palpação. O seu conteúdo é, muitas vezes, amareloacinzentado e caseoso, em consequência do acúmulo de queratina e células epiteliais esfoliadas. À microscopia, o cisto é revestido por epitélio escamoso, ciliado, cúbico ou cilíndrico e contém material coloide e detrito celular. Células acidófilas, basófilas e cromófobas semelhantes às da adenohipófise são observadas na sua parede. ■ Figura 13.1 Aspecto ventral do encéfalo de um cão com cisto na hipófise, envolvendo a pars distalis e a pars tuberalis, levando à atrofia da glândula. Alterações in⸸㠵amatórias Inflamações abscedativas da glândula pituitária são as características da síndrome do abscesso pituitário, doença incomum e quase sempre fatal de ruminantes e, raramente, de equinos. Geralmente, os animais afetados são adultos, com mais de 2 anos de idade, mas a doença também pode ser observada em gado jovem, associada ao uso de argolas e tabuletas nasais para desmame interrompido. Os casos costumam ser esporádicos; mesmo durante a ocorrência de surtos, a morbidade é inferior a 2%. Sinais clínicos têm, com frequência, início súbito, e a duração do curso da doença varia, em geral, de 1 dia a várias semanas. O quadro clínico é altamente variável. Os sinais mais comuns estão associados à disfunção assimétrica e progressiva de nervos cranianos, em especial dos nervos trigêmeo e abducente. Os principais achados macro e microscópicos consistem em abscessos pituitários (Figuras 13.2 e 13.3) ou parapituitários que comprimem dorsalmente o tronco encefálico e os nervos cranianos regionais. Em alguns casos, observamse, ainda, osteomielite do osso basoesfenoide, abscessos na substância encefálica e leptomeningite supurativa na superfície ventral do encéfalo e da medula espinal cervical. O mecanismo patogênico específico da síndrome permanece por ser esclarecido. Hipóteses incluem extensão direta de processo inflamatório de estruturas adjacentes (tais como otite interna, sinusite e empiema das bolsas guturais) e disseminação bacteriana por meio de circulação venosa, arterial ou linfática. Em ruminantes, a hipófise é circundada por uma rede vascular complexa formada por veias do seio cavernoso e artérias da rete mirabile epidural rostral ou carotídea (Figura 13.4 A). Essa rede torna a glândula especialmente suscetível à deposição embólica de bactérias de fontes crônicas de infecção, tais como mastite, artrite e pneumonia abscedativa. Trueperella (Arcanobacterium) pyogenes é a bactéria mais comumente isolada das lesões, mas diversas bactérias Grampositivas (Streptococcus spp., Staphylococcus spp. e Corynebacterium pseudotuberculosis) e Gramnegativas (Fusobacterium necrophorum, Bacteroides sp., Pasteurella spp., Pseudomonas spp. e Actinobacillus spp.) têm sido isoladas em cultura pura ou mista de abscessos da pituitária (Figura 13.4 B). Esses microrganismos são causas habituais de processos inflamatórios crônicos, afetando também outros órgãos, dando suporte à hipótese da disseminação via circulatória. Figura 13.2 Corte sagital do crânio de um ovino com síndrome do abscesso pituitário. Um abscesso medindo 3 × 2 cm preenche a sela túrcica. Um abscesso menor (de aproximadamente 0,5 cm de diâmetro) pode ser observado no parênquima na região anteroventral do tálamo. Reproduzida, com autorização, de Barros et al., 2006. Figura 13.3 Imagem ventral do encéfalo de um caprino com abscesso localmente extenso na glândula pituitária acompanhado de leptomeningite. Cortesia do Dr. Jon S. Patterson, Diagnostic Center for Population and Animal Health, Lansing, Indiana, EUA. ■ Figura 13.4 Etiopatogênese de abscessos pituitários. A. O bloco de tecido mostra o gânglio do 5o par de nervos cranianos (G), a rete mirabile carotídea (R) e a hipófise (H). B. Mesmo conjunto de estruturas mostrado na figura anterior. Abscessos (A) podem ser observados na rete mirabile carotídea. A hipófise (H) e os gânglios trigeminais (G) estão identificados. Reproduzida, com autorização, de Barros et al., 2006. Alterações proliferativas Hipertroỿ�a e hiperplasia O tamanho e o número das diversas células da adenohipófise variam de acordo com o estado fisiológico do animal. Hipertrofia e hiperplasia das células lactotróficas (secretoras de prolactina) sãoachados normais em estados avançados de gestação em éguas, cadelas e ovelhas prenhes. Redução na porcentagem de células somatotróficas também é considerada normal em cavalos mais velhos. Alterações proliferativas semelhantes podem ser observadas como resposta à remoção cirúrgica ou à destruição por doença do parênquima de um órgãoalvo endócrino, resultando na ausência de feedback negativo. Achado frequente, mas muitas vezes sem significado clínico em equinos acima de 10 anos de idade, é a hiperplasia multinodular idiopática da pars distalis da hipófise. Somente em casos raros essa alteração está associada à disfunção pituitária (doença semelhante à de Cushing). As alterações fisiológicas e patológicas descritas anteriormente ilustram o fato de que, se a demanda pela secreção de um hormônio trófico persiste por dias ou mesmo semanas, a população específica de células endócrinas da adenohipófise sofre hipertrofia e, eventualmente, hiperplasia, formando pequenas ilhas de células hiperplásicas em meio a parênquima normal. Se o estímulo se estender por meses, o citoplasma das células hipertrofiadas se torna vacuolizado, formando, por fim, um vacúolo grande, que pode deslocar o núcleo para a periferia. Hiperatividade e hipertrofia das células hiperplásicas são completamente reversíveis com o cessar do estímulo hormonal excessivo. Em casos crônicos e graves de hiperplasia, no entanto, as alterações hiperplásicas podem não ser mais reversíveis por completo. Parece ser característica comum da hipófise e das demais glândulas endócrinas que estimulação prolongada da população de células secretoras predispõe a uma incidência de tumores superior à que seria esperada na população controle. A grande maioria dos tumores endócrinos é, entretanto, de caráter benigno. O aumento de lesões proliferativas (cistos, hiperplasia, microadenomas ou adenomas) da pars intermedia da hipófise de cavalos (Figura 13.5) com o avançar da idade parece ser bom exemplo desse processo. Neoplasias da adeno-hipó잒乀se As neoplasias da adenohipófise se originam de células dos lobos maiores da glândula, isto é, da pars intermedia e da pars distalis. As classificações antigas se baseavam nas propriedades tintoriais do citoplasma das células neoplásicas, enquadrando os tumores em três categorias: cromófobos, acidófilos e basófilos. Contudo, essa classificação não reflete a relação entre as características morfológicas das células e a sua produção hormonal, como tem sido demonstrado por meio de técnicas de IHQ. Classificações atuais visam combinar o aspecto citomorfológico dos tumores com a apresentação clínico endocrinológica do paciente. Neoplasias da pars intermedia Adenomas da pars intermedia são os tumores pituitários mais comuns em equinos e os segundos mais usuais em cães (acometendo principalmente raças não braquicefálicas), mas são raros em outras espécies. Em equinos, são a causa principal (juntamente com hiperplasia adenomatosa da pars intermedia) da síndrome denominada disfunção pituitária da pars intermedia (DPPI) – a denominação de doença de Cushing equina para essa doença não é recomendada, levandose em consideração a diferença na localização (pars intermedia vs. pars distalis) dos adenomas pituitários entre equinos e seres humanos. DPPI é uma doença neuroendócrina progressiva e complexa, que afeta múltiplos órgãos e rotas endócrinas em cavalos velhos. A doença é decorrente da perda de regulação dopaminérgica da pars intermedia, resultando em aumento da secreção de hormônios peptídios da região hipofisária afetada. Permanece desconhecido se esse distúrbio endócrino é consequência da perda específica de neurônios dopaminérgicos (doença primária do hipotálamo) ou se surge espontaneamente (doença primária da hipófise). Hormônios melanotróficos da pars intermedia da hipófise sintetizam a próopiomelanocortina (POMC), que é clivada para dar origem ao αMSH, ao peptídio intermediário semelhante à corticotrofina (CLIP) e à betaendorfina (βEND). A síntese e secreção de POMC pelas células melanotróficas são inibidas pelo neurotransmissor dopamina. A perda dessa regulação inibitória dopaminérgica resulta em hipertrofia, hiperplasia e, eventualmente, neoplasia da parte hipofisária intermediária, com produção excessiva de peptídios derivados de POMC. Esse processo pode acabar acarretando DPPI. Cavalos com esse distúrbio endócrino produzem grande quantidade de αMSH e βEND, bem como moderada quantidade de ACTH. αMSH e βEND potencializam o efeito de ACTH, podendo causar disfunção adrenal. Entretanto, em comparação aos seres humanos com doença de Cushing, desenvolvimento de hiperplasia adrenocortical secundária em equinos é relativamente incomum, sendo relatada em média de apenas 20% dos casos. Figura 13.5 Vista ventral do encéfalo de um equino com adenoma da hipófise. Pôneis e cavalos da raça Morgan parecem ter risco maior para o desenvolvimento de DPPI. A idade média dos animais afetados é em torno de 20 anos. Hirsutismo ou hipertricose (Figura 13.6) é o sinal clínico mais clássico da doença. Acredita se que esse achado seja decorrente de falha na queda sazonal cíclica dos pelos. Sudorese excessiva (hiperidrose), observada principalmente sobre as regiões cervical e escapular, é comumente atribuída à resposta termorregulatória à longa pelagem, mas é possível que também seja o resultado direto dos elevados níveis de peptídios derivados de POMC. Perda de peso e massa muscular pode ocorrer, ao menos em parte, em razão do catabolismo proteico resultante do aumento de cortisol. Acompanhando ou mesmo precedendo a perda de massa muscular, há redistribuição da gordura corporal. Animais afetados podem parecer obesos, com pescoço largo e depósitos de gordura na fossa supraorbitária. Animais com DPPI podem se tornar mais dóceis ou letárgicos e apresentar resposta diminuída aos estímulos dolorosos. Acreditase que isso seja resultante de níveis elevados de βEND. Infecções crônicas, tais como sinusite, doença periodontal e abscessos subsolares, e alta infestação por parasitas gastrintestinais são, possivelmente, resultantes do efeito imunossupressor induzido pelo cortisol. Laminite crônica é, talvez, a complicação clínica associada à DPPI mais significativa. A patogenia dessa condição ainda permanece mal compreendida. Poliúria e polidipsia são relatadas com frequência variável; é provável que raramente sejam de significado clínico. Outros sinais clínicos relatados incluem lactação permanente e infertilidade, provavelmente em razão da secreção alterada de prolactina e hormônios gonadotróficos. Distúrbios nervosos (ataxia, cegueira e convulsões) são ocasionalmente observados. Como nenhuma relação foi estabelecida entre o tamanho do tumor e o desenvolvimento desses sinais clínicos, a sua fisiopatologia permanece por ser esclarecida. Figura 13.6 Hipertricose (hirsutismo) em um equino, decorrente da falha na queda sazonal dos pelos, associada a um adenoma da pars intermedia da hipófise. Em cães, a maioria dos adenomas da pars intermedia da hipófise são endocrinologicamente inativos, podendo, no entanto, causar hipopituitarismo e diabetes insipidus pela compressão da hipófise e do hipotálamo. Os poucos tumores localizados nessa região e que secretam ACTH resultam em síndrome de hiperadrenocorticismo hipofisário. Macroscopicamente, adenomas da pars intermedia são esbranquiçados a amarelados e multinodulares, causando compressão e atrofia da pars distalis e invasão de grau variável da pars nervosa da hipófise. Compressão do hipotálamo e do quiasma óptico pode ocorrer por expansão do tumorpela sela túrcica (Figura 13.7). À histologia, o tumor é bem delimitado, parcialmente encapsulado e composto de células fusiformes ou poliédricas arranjadas em cordões e ninhos ao longo de finos septos de tecido conjuntivo. Numerosas estruturas foliculares contendo coloide, revestidas por epitélio cúbico ou cilíndrico simples e, por vezes, ciliado, podem estar presentes em meio às células cromofóbicas neoplásicas (Figura 13.8). Áreas de hemorragia e necrose são incomuns, mesmo em tumores grandes. Figura 13.7 Corte sagital do crânio de um equino com adenoma da pars intermedia da hipófise. O tumor estendese dorsalmente pela sela túrcica, comprimindo o tronco encefálico suprajacente. Cortesia da Dra. Theresa M. Boulineau, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Figura 13.8 Adenoma da pars intermedia (delimitado por setas) de um canino. As células neoplásicas comumente formam estruturas foliculares que acumulam material homogêneo eosinofílico semelhante a coloide. Pars distalis (D) e pars nervosa (N) remanescentes da hipófise. 200×. Cortesia de Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Adenomas secretores de hormônio adrenocorticotró잒乀co (adenomas corticotró잒乀cos ou cromófobos endocrinologicamente ativos) Entre os tumores da adenohipófise endocrinologicamente ativos, os secretores de ACTH são os mais comuns nos animais domésticos, ocorrendo principalmente em cães adultos a senis de diversas raças (em particular, Boxers, Boston Terriers e Dachshunds). A secreção excessiva de ACTH causa hiperplasia adrenocortical bilateral, resultando em síndrome por secreção excessiva de cortisol (hiperadrenocorticismo hipofisário ou doença de Cushing). Macroscopicamente, o adenoma de células corticotróficas é branco ou marromavermelhado e provoca aumento de tamanho da hipófise, podendo invaginar para dentro da cavidade do infundíbulo, causando dilatação do recesso infundibular e do terceiro ventrículo e, eventualmente, compressão do hipotálamo. Ao mesmo tempo, os animais afetados apresentam elevação de espessura do córtex da adrenal decorrente da hiperplasia das células corticais. Microscopicamente, os adenomas se originam da pars distalis ou pars intermedia e são compostos de agregados de células secretoras bem diferenciadas com padrão de crescimento difuso ou sinusoidal (com espaços vasculares proeminentes). Adenomas cromófobos endocrinologicamente inativos Esse tipo de tumor pituitário é mais frequente em cães, gatos e periquitos, sendo raro nas demais espécies animais. Apesar de ser endocrinologicamente inativo, o tumor pode provocar distúrbios endócrinos se for grande o suficiente para ocasionar atrofia compressiva da pars nervosa ou pars distalis da hipófise ou do hipotálamo. As glândulas adrenais dos animais afetados são pequenas, com marcada atrofia da camada cortical. Adenomas acidó잒乀los Tumores derivados de acidófilos granulados são incomuns nos animais domésticos; porém, são relativamente comuns em ratos adultos de várias linhagens. Diversos distúrbios clínicos podem estar associados aos adenomas acidófilos, incluindo atrofia muscular, deficit de nervos cranianos, diabetes insipidus e acromegalia ou gigantismo pituitário. Em gatos, os animais afetados por adenomas pituitários das células somatotróficas da pars distalis (adenomas acidófilos secretores de GH) são quase sempre machos de idade média a avançada. Os sinais clínicos da endocrinopatia estão associados a diabetes mellitus resistente à insulina e a níveis elevados de GH e fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 (IGF1, insulin like growth factor type1). Os primeiros sinais (poliúria, polidipsia e polifagia) estão associados à diabetes. Achados associados ao efeito anabólico do GH incluem aumento de um ou mais órgãos (p. ex., fígado, rins, glândulas adrenais e língua), cardiomiopatia hipertrófica, elevação do tamanho corporal e ganho de peso, prognatismo e artropatia degenerativa. Sinais nervosos (p. ex., torneio, convulsões e alterações de comportamento) estão associados à invasão e à compressão do cérebro pelo tumor pituitário. Insuficiência renal resultante de glomerulonefropatia é, provavelmente, consequência de diabetes mellitus mal controlada e/ou níveis excessivos de GH. As alterações conformacionais observadas em acromegalia possibilitam distinguir essa endocrinopatia do hiperadrenocorticismo; ambos os distúrbios são acompanhados por diabetes mellitus insulinorresistente e associados a adenomas pituitários. Em cães, acromegalia associada ao adenoma acidófilo pituitário é extremamente rara. Nessa espécie, o distúrbio endócrino é mais comumente observado em associação à administração prolongada de progestágenos (em particular, de acetato de medroxiprogesterona) ou com níveis elevados de progesterona durante a fase luteal do ciclo estral. Focos hiperplásicos de epitélio ductal da glândula mamária foram determinados como o local de produção de GH induzida pelos progestágenos em cães. Já em gatos, os progestágenos não parecem estimular a secreção mamária de GH o suficiente para esse hormônio alcançar a circulação sistêmica. Em periquitos australianos (Melopsittacus undulatus), foram descritos adenomas e carcinomas acidófilos induzindo ataxia, dificuldade para voar e cegueira. Macroscopicamente, os tumores caracterizavamse por massas rosadas e macias, com até 1 cm de diâmetro; frequentemente, estendiamse para o interior do encéfalo e invadiam os tecidos moles e duros adjacentes. À análise histopatológica, a glândula pituitária encontravase extensamente substituída pela proliferação neoplásica (Figura 13.9 A). A IHQ fortemente positiva para GH (Figura 13.9 B) confirmou a origem somatotrófica desses tumores. Adenomas acidófilos em ovinos (cuja região pituitária é completamente separada do cérebro pelo diafragma da sela túrcica completo) podem alcançar tamanho considerável, causando grave compressão da adeno e neurohipófise, além de aprofundamento da sela túrcica (Figura 13.10). Hiperplasia de tecido mamário e galactorreia em ovelhas afetadas sugerem a produção excessiva de prolactina pelas células tumorais (característica muito mais comum em ratos do que em animais domésticos com neoplasias pituitárias). Em cães e gatos (cujo diafragma da sela túrcica é incompleto), o principal achado macroscópico em casos de adenomas acidófilos se caracteriza por aumento da hipófise com compressão variada do hipotálamo. À histopatologia, o tumor é, tipicamente, composto de cordões irregulares de células acidófilas granuladas dispostas ao longo de sinusoides. Células neoplásicas comprimem e, por vezes, invadem de maneira limitada a periferia da pars nervosa e do infundíbulo, o que, contudo, não deve ser considerado indicativo de malignidade. Figura 13.9 Melopsittacus undulatus (periquito australiano). A. Adenoma somatotrófico da hipófise. A glândula foi substituída por células em crescimento sólido invadindo a sela túrcica e comprimindo o encéfalo. 100×. B. Imunohistoquímica das células neoplásicas mostradas na figura A fortemente marcadas para GH. 200×. ■ Figura 13.10 Corte sagital do encéfalo de um ovino com adenoma da hipófise. Há extensa compressão do encéfalo suprajacente pelo tumor com crescimento expansivo. Cortesia dos Drs. Ian N. Moore e Christy A. McKnight, Diagnostic Center for Population and Animal Health, Lansing, Indiana, EUA. Adenomas basó잒乀los Esses tumores da pars distalis estão entre os mais raros em todas as espécies animais. São derivados de basófilos tireotróficos,positivos na IHQ para TSH. Quando ativos, esses tumores estão acompanhados por aumento bilateral da tireoide. Já nos casos em que os tumores são inativos, a glândula tireoide é composta de folículos involuídos, revestidos por células foliculares atrofiadas e distendidos por coloide. Craniofaringiomas São tumores geralmente benignos derivados de remanescentes da bolsa de Rathke. São raros em animais domésticos e descritos apenas em cães e gatos. Quase sempre ocorrem em animais de 2 a 4 anos de idade, mas podem ser uma das causas de nanismo em cães jovens quando a redução na secreção de GH e outros hormônios pituitários tróficos sucede antes do fechamento das placas de crescimento. Os sinais clínicos estão associados ao tamanho do tumor e, com frequência, são decorrentes de combinação dos seguintes fatores: ausência de secreção de hormônios pituitários tróficos, resultando em atrofia e funcionamento subnormal do córtex da adrenal e da glândula tireoide; distúrbios no metabolismo da água (diabetes insipidus) pela interferência do tumor na síntese e liberação de ADH; deficit de nervos cranianos e distúrbios do sistema nervoso central em razão da extensão do tumor para dentro do parênquima cerebral suprajacente. Os tumores são grandes e têm localização supra ou infrasselar, podendo incorporar vários nervos cranianos, destruir boa parte das pars distalis e pars nervosa da hipófise e se estender dorsalmente até o hipotálamo e o tálamo. Outra vez, essa forma de crescimento não deve ser considerada evidência de malignidade, e sim extensão tumoral além de áreas de menor resistência. O aspecto histológico dos craniofaringiomas é distinto dos demais tumores intracranianos, com ninhos de células epiteliais cúbicas, cilíndricas ou escamosas com áreas focais proeminentes de queratinização e mineralização se alternando com áreas císticas que contêm detritos de queratina e coloide. Tumores malignos se caracterizam por anaplasia celular grave e invasão óssea. Carcinomas Carcinomas da hipófise são incomuns quando comparados aos adenomas, mas são observados em caninos e bovinos velhos. Esses tumores (carcinomas cromófobos) são quase sempre endocrinologicamente inativos, porém podem causar distúrbios significativos, caracterizados por panhipopituitarismo e diabetes insipidus resultantes da destruição da pars distalis e da neurohipófise. Carcinomas pituitários são tumores grandes (Figura 13.11) e agressivos, com extensa invasão do osso esfenoide e do parênquima cerebral suprajacente (Figura 13.12). Histologicamente, esses tumores se caracterizam por índices de pleomorfismo celular, mitoses e células gigantes mais acentuados do que os observados nos tumores benignos. No entanto, do mesmo modo que em tumores de outras glândulas endócrinas, os aspectos citomorfológicos dos tumores pituitários não devem ser usados como critério único de malignidade. O diagnóstico de carcinoma deve se basear na invasão agressiva das estruturas circunjacentes pelas células neoplásicas (simples projeção do tumor para dentro da pars nervosa e do infundíbulo também pode ser observado em adenomas pituitários grandes) e na presença de metástases, que são raras, mas já foram descritas em linfonodos regionais, baço e fígado. Figura 13.11 Superfície ventral do encéfalo de um canino com carcinoma da pars distalis da hipófise. O tumor resultou em marcado aumento de volume da glândula. Cortesia dos Drs. Vimala Vemireddi e Jose A. RamosVara, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. ■■ Figura 13.12 Corte sagital do encéfalo de um canino com carcinoma da pars distalis da hipófise. Há extensa invasão do tronco encefálico suprajacente pelo tumor. Cortesia da Dra. Vimala Vemireddi, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Neoplasias da pars nervosa Neoplasias da neurohipófise são raras em animais, tendo sido designados como gliomas, pituicitomas ou infundibulomas. O tumor descrito em um cão envolvia o hipotálamo, o infundíbulo e a neurohipófise, causando sinais clínicos de diabetes insipidus e síndrome adiposogenital (aumento e redistribuição da gordura corporal acompanhado por atrofia genital). Já o tumor descrito em um gato era cístico e causava expansão da neurohipófise e compressão da adenohipófise, do hipotálamo, do tálamo e das estruturas adjacentes. Microscopicamente, o tumor era constituído por massa bem vascularizada e não encapsulada, formada por feixes entrelaçados frouxos de células bipolares ou poliédricas. Neoplasias metastáticas na hipóỿ�se Às vezes, a hipófise pode ser destruída parcial ou completamente por metástases de tumores originários de locais distantes. Exemplos incluem: linfoma em bovinos, caninos e equinos; melanoma maligno em equinos e caninos; tumor venéreo transmissível e adenocarcinoma mamário em caninos. A hipófise também pode ser destruída por invasão ou compressão por tumores de estruturas adjacentes, tais como osteossarcomas do osso esfenoide, ependimomas originários do recesso infundibular do terceiro ventrículo e meningiomas da duramáter que reveste a sela túrcica. A maioria das metástases na hipófise é clinicamente silenciosa, constituindo achado incidental na necropsia. Quando causam sinais clínicos, o mais comum deles é diabetes insipidus. Glândula pineal Alterações circulatórias Vasculopatia parasitária caracterizada por protozoários pertencentes ao grupo Coccidia em células endoteliais da glândula ■ ■ ■ pineal (Figura 13.13) foi observada em equino com DPPI. Klossiella equi e Sarcocystis spp. foram considerados como possíveis agentes etiológicos nesse caso, mas a identidade ao nível de gênero ou espécie do parasita não foi determinada. As alterações associadas à presença dos parasitas restringiamse ao infiltrado no espaço perivascular de alguns linfócitos e macrófagos contendo hemossiderina. A ausência de resposta inflamatória mais significativa foi atribuída a possível estado de imunossupressão associado à DPPI. Alterações degenerativas O número total de pinealócitos e a inervação simpática da glândula pineal diminuem com o avançar da idade. É possível que a redução na atividade da glândula (p. ex., redução da produção noturna de melatonina), com a idade, esteja associada a esses processos fisiológicos normais. A glândula pineal de mamíferos e algumas aves contém concreções calcárias, compostas, predominantemente, de sais de cálcio e magnésio e denominadas acervuli ou corpora arenacea. Esses corpúsculos são mais numerosos em indivíduos velhos e há correlação entre a idade do indivíduo e o número de camadas nas concreções maiores. O grau de mineralização parece estar associado a várias doenças, mas, normalmente, a presença das concreções não parece refletir nenhum estado doentio específico. Entretanto, temse observado que o esquilo da Mongólia responde ao estresse induzido pela imobilização aumentando a formação de novas concreções. Especulase que as concreções participem na absorção de cálcio para restringir o aumento fisiológico do influxo celular desse íon. É interessante notar que a glândula pineal de vertebrados inferiores (peixes, anfíbios e répteis) exibe conteúdo elevado de cálcio, mas não há concreções nesses animais. Figura 13.13 Vasculopatia parasitária na glândula pineal de um equino. Algumas das células endoteliais que revestem os vasos (V) da glândula contêm formas parasitárias compatíveis com infecção por protozoário (seta). Alguns macrófagos que contêm hemossiderina e linfócitos infiltramse no espaço perivascular. 200×. Cortesia de VeterinaryMedical Teaching Hospital, University of California, Davis, California, EUA. Alterações in⸸㠵amatórias Pinealite é observada em associação com a uveorretinite autoimune experimental em roedores (modelos da doença em seres humanos) e com uveíte recorrente em cavalos. Nestes animais, áreas septais da glândula pineal apresentavam agregados de células que expressam moléculas do complexo de histocompatibilidade principal (MHC, major histocompatibility complex) classe II, agregados de linfócitos T e deposição aumentada de colágeno. Linfócitos B foram detectados apenas em um caso de uveíte ativa, em que linfócitos T e B estavam organizados em folículos. As alterações inflamatórias parecem sugerir que a pinealite associada à uveíte equina é transitória, assim como a uveíte nesses animais é recorrente. Alterações proliferativas ■■ ■ ■ Neoplasias Neoplasias primárias da glândula pineal são raras. Relatos se restringem à ocorrência em ratos e a casos únicos em uma vaca, cabra, raposa, cavalo e zebra. Os tumores que se originam das células que formam o parênquima são classificados como pineocitoma ou pineoblastoma, com base no grau de diferenciação celular, sendo aquele bem diferenciado, enquanto este é anaplásico. O terceiro tipo de tumor primário da pineal é o da célula intersticial ou glial, denominado de glioma. Esse tipo de tumor ainda não foi diagnosticado em medicina veterinária. Diabetes insipidus é complicação comumente associada aos tumores da pineal, resultando da sua interferência com a estrutura do hipotálamo. Tireoides Anomalias do desenvolvimento Aplasia e hipoplasia A ausência ou a falta de desenvolvimento da glândula tireoide pode ser bilateral em espécies com tireoides pares ou pode ser unilateral (menos comum). Pode ocorrer por falta do hormônio tireotrófico na vida fetal e resultar em nanismo ou outras manifestações precoces do hipotireoidismo. Cistos do ducto tireoglosso Durante o desenvolvimento embrionário, os lobos da glândula tireoide, originados do endoderma e localizados no assoalho da faringe, migram pelo ducto tireoglosso para a região cervical cranial. Na etapa final desse processo, deve haver total fechamento do ducto. Os cistos se desenvolvem quando há falha parcial ou completa no fechamento do ducto. Quando um segmento do ducto não atrofia, o seu epitélio de revestimento secreta muco que distende o ducto até formar um cisto. Histologicamente, os cistos contêm na sua parede múltiplas camadas de células foliculares, epidermoides ou de transição. Folículos tireóideos funcionais ou não funcionais também podem ser encontrados no interior do cisto. Os cistos acontecem com mais frequência no cão e no suíno. O epitélio primitivo do assoalho da faringe é intimamente relacionado com o saco aórtico no seu desenvolvimento. Essa associação resulta na ocorrência usual de parênquima tireóideo acessório (ectópico) no mediastino do cão, o qual pode, ocasionalmente, sofrer transformação neoplásica. Alterações degenerativas A formação de corpos lamelares basofílicos ou grânulos no lúmen dos folículos da tireoide pode ocorrer em qualquer espécie animal, mas são mais comuns no cão. A formação dessas estruturas pode estar relacionada com a precipitação mineral ou com a agregação de coloide anormal. A mineralização do coloide desenvolvese com níveis de cálcio e fósforo normais e aparentemente sem relação com outras alterações. Esses corpos, em geral, não interferem na função. A deposição de amiloide interfolicular já foi relatada em cães, gatos, bovinos e, por vezes, em outras espécies e, geralmente, está associada à amiloidose sistêmica. Em cães idosos com amiloidose sistêmica, depósitos na parede dos vasos da tireoide foram encontrados, juntamente com amiloide vascular cerebral. Em seres humanos, o amiloide é formado em razão da secreção pelas células “C” neoplásicas de moléculas de calcitonina alteradas, as quais foram identificadas por técnicas de IHQ. Amiloide associado ao carcinoma das células “C”, como ocorre em seres humanos, é comumente observado em touros, mas há também relatos em canídeos selvagens (Vulpes vulpes). Os depósitos podem comprimir os folículos adjacentes, mas não o suficiente para interferir com a função. Macroscopicamente, a tireoide pode estar aumentada de volume, vermelhopálida e mais firme que o normal. Atrofia folicular idiopática caracterizase por perda progressiva do epitélio dos folículos e substituição gradual por células adiposas. A glândula quase sempre é vermelhoclara, menor e mais leve. Inicialmente, a parte atrofiada é focal e envolta por folículos normais. Células foliculares individuais ou pequenos grupos com citoplasma eosinofílico e núcleo picnótico estão presentes na parede folicular, coloide e interstício. O estágio avançado da atrofia folicular é caracterizado por perda total de folículos normais e células foliculares hipertróficas remanescentes formam pequenos cordões arranjados ao longo dos capilares. Alterações in⸸㠵amatórias A tireoidite, ou inflamação da glândula tireoide, tem causas infecciosas e imunomediadas, caracterizadas por alguma forma de inflamação. A tireoidite infecciosa pode ser aguda ou crônica. As infecções agudas podem alcançar a tireoide por disseminação hematógena ou invasão direta da glândula. São mais comuns em seres humanos e estão relacionadas com a imunossupressão. Em animais, tireoidite foi diagnosticada associada à infecção por amastigotas de Leishmania em um cão. A análise histopatológica da tireoide revelou infiltrado intenso de macrófagos contendo amastigotas no citoplasma, acompanhado por necrose e perda de folículos seguida de atrofia. Essas alterações, quando extensas, determinam hipotireoidismo primário. Tireoidite linfocitária A tireoidite é um processo imunomediado que pode determinar hipotireoidismo. A tireoidite linfocitária é uma alteração comum em cães, podendo causar hipotireoidismo funcional. Está associada a mais de 50% dos casos de hipotireoidismo canino. Os hormônios tireoidianos (T3 e T4) são simples aminoácidos iodados de baixo peso molecular. A não ser que atuem como hapteno quando ligados a grandes moléculas, como a tireoglobulina ou proteínas séricas de transporte, T3 e T4 não são eficientes antígenos. A tireoglobulina é uma glicoproteína de elevado peso molecular confinada no lúmen dos folículos tireóideos; é altamente antigênica e normalmente não está em contato com o sistema imune. Anticorpos antitireoglobulina são as formas predominantes identificadas em cães com tireoidite linfocitária, enquanto anticorpos contra receptores para o TSH são raros ou inexistentes. Anticorpos antiperoxidase também já foram relatados. Tireoidite linfocitária em seres humanos foi inicialmente descrita por Hashimoto. Autoanticorpos para tireoglobulina foram encontrados no soro de pacientes com a doença e tireoidite autoimune experimental foi induzida em coelhos após imunização com homogenados da tireoide. Algum tempo depois, foi descrita a ocorrência natural da doença em cães Beagle, porém a tireoidite linfocitária não necessariamente é causa de doença clínica, e a destruição completa da glândula nem sempre acontece. A patogênese molecular e imunológica da tireoidite autoimune em cães não foi bem caracterizada, embora tenha sido estudada experimentalmente em coelhos, roedores e cães. Em seres humanos, a destruição das células foliculares ocorre por mecanismos de citotoxicidade celular anticorpodependente. Os linfócitos B no tecido tireóideo com a doença são ativados e ocorre a produção de diversos autoanticorpos contra os antígenos da tireoide. Histologicamente,a doença é caracterizada por infiltrado difuso de linfócitos, plasmócitos e macrófagos no interstício e também no coloide, juntamente com células epiteliais degeneradas (Figura 13.14). Nódulos linfoides com centros germinativos ocasionais podem estar presentes entre os folículos. Em estágios avançados, a estrutura normal da glândula é substituída por tecido conjuntivo fibroso. À macroscopia, glândulas com essa alteração são levemente aumentadas de volume, embora o aumento possa ser localizado em alguns casos. A cápsula está íntegra e bem delimitada das estruturas adjacentes. A superfície de corte é mais pálida que o normal ou acinzentada; é firme e apresenta áreas nodulares. Nos casos em que a fibrose é extensa, a tireoide é intensamente reduzida de tamanho em razão da atrofia. Estudo realizado em criações de cães da raça Beagle detectou elevada prevalência de tireoidite linfocitária (12%) em comparação a outra criação de Beagle (4%). Esse estudo sugeriu causa familiar ou hereditária, mas o modo específico de herança não foi determinado. A variação na prevalência de anticorpos antiglobulina difere entre diversas raças de cães, o que também sustenta a teoria de predisposição hereditária à tireoidite linfocitária. Cães das raças Dobermann, Dogue Alemão, Setter e Sheepdog apresentam, estatisticamente, maior prevalência de anticorpos antitireoide; portanto, a relativa contribuição da tireoidite linfocitária para o hipotireoidismo varia entre as raças. Contudo, tanto em cães como em seres humanos, a tireoidite autoimune nem sempre é progressiva. ■ Figura 13.14 Glândula tireoide de um canino com tireoidite linfocitária e aterosclerose. Há extensa perda do parênquima da tireoide (T) associada a marcado infiltrado linfocítico. Fibrose e linfócitos distendem em grau variável o interstício da glândula remanescente. Notar a expansão segmentar da túnica média e íntima do vaso adjacente (V) por tecido conjuntivo, células inflamatórias e fendas de colesterol, características de aterosclerose. 100×. Cortesia da Dra. Sandra Schöniger, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Alterações proliferativas Hiperplasia e hipertroỿ�a O aumento de volume da glândula tireoide não neoplásico e não inflamatório ocorre em todos os animais domésticos, aves, mamíferos marinhos, primatas não humanos e no homem. O aumento de volume pode ser difuso ou nodular e geralmente reflete comprometimento na síntese de hormônio tireoidiano. A redução na síntese de hormônios tireoidianos resulta em elevação compensatória nos níveis séricos de TSH, que, por sua vez, causa hipertrofia e hiperplasia das células foliculares da tireoide e consequente aumento macroscópico da glândula (bócio). O grau de aumento tireoidiano é proporcional ao nível e à duração da deficiência dos hormônios tireoidianos. Os mecanismos etiopatogênicos que resultam na síntese inadequada de tiroxina e na diminuição, na concentração sanguínea, de T3 e T4 incluem dietas deficientes em iodo, compostos bociogênicos e defeito genético nas enzimas responsáveis pela biossíntese dos hormônios tireoidianos. A concentração baixa dos hormônios é detectada por hipotálamo e hipófise, provocando aumento na produção de TSH, que resulta em hipertrofia e hiperplasia das células foliculares (secretoras). O excesso de iodo, paradoxalmente, também pode acarretar hiperplasia da tireoide em animais. Provavelmente, o excesso de iodo bloqueia a liberação de hormônios tireoidianos (T3 e T4) por meio da interferência na proteólise de coloides pelos lisossomos. Bócio hiperplásico difuso e coloide Deficiência de iodo na dieta provoca hiperplasia difusa na glândula sem evidência de formação de nódulos. Essa condição ocorria com mais frequência antes da adição de iodo ao sal; atualmente, acontece com menor frequência, em surtos esporádicos e com poucos animais sendo afetados. Além de estar associado a dietas com deficiência de iodo, o bócio hiperplásico difuso também se dá na presença de algumas substâncias indutoras do bócio, chamadas “bocígenos”, ou seja, são substâncias bociogênicas. São o tiouracil, as sulfonamidas e as plantas da família Brassicaceae, como repolho, couveflor e nabos, e da família Euphorbiaceae, da qual faz parte a mandioca. Algumas verduras da família Brassicaceae – por exemplo, o repolho – contêm uma substância chamada progoitrina, que é convertida em goitrina, um agente ativo antitireoide. A ingestão excessiva da goitrina pode provocar bócio (“bócio do repolho”, como é conhecido na medicina humana). A mandioca (Manihot esculenta) contém glicosídios cianogênicos que são convertidos no fígado em tiocianetos. Estes são menos tóxicos, porém inibem o transporte de iodeto para o interior da tireoide, provocando o bócio. A Leucaena leucocephala é uma planta altamente nutritiva, mas que contém mimosina, uma substância tóxica que causa alopecia nos animais. Nos ruminantes, a microbiota rumenal transforma a mimosina em 3hidroxi4 (1 H)piridona (3,4DHP), um bocígeno potente. À macroscopia, em casos de bócio hiperplásico, ambos os lobos da tireoide estão uniformemente aumentados de volume, firmes e vermelhoescuros (Figura 13.15). À microscopia, os folículos têm forma e tamanho irregulares e as células epiteliais de revestimento são cilíndricas, com citoplasma intensamente eosinofílico (Figura 13.16). As células hiperplásicas podem formar projeções papilares para o lúmen. No parênquima da glândula, desenvolvese extensa rede capilar. Figura 13.15 Cabeça e região cervical de um feto caprino com bócio no último trimestre de gestação. As glândulas tireoides estão simetricamente aumentadas de volume. Simultaneamente, o feto tem hipotricose e edema subcutâneo generalizados. Cortesia da Dra. Celia Hooper, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Quando os folículos aumentados estão repletos de coloide, o termo bócio coloide é utilizado. As células hiperplásicas produzem coloide, porém a endocitose do coloide, pelas mesmas células, está reduzida. Em consequência, os folículos estão distendidos por coloide intensamente eosinofílico (Figura 13.17). Os lobos da glândula estão difusamente aumentados de volume, entretanto são mais translúcidos e claros que no bócio hiperplásico difuso. Hiperplasia (tipo bócio coloide) bilateral foi encontrada em uma vaca submetida a tratamento hormonal específico e utilizada como doadora de embriões. O animal apresentava ambas as tireoides aumentadas de volume caracterizadas por várias formações císticas de 0,5 a 1 cm de diâmetro (Figura 13.18 A). À análise histopatológica, as tireoides continham folículos de tamanho e formato irregulares e o lúmen estava preenchido por material denso eosinofílico (coloide). O epitélio de revestimento de alguns folículos era composto de epitélio achatado, e outros estavam revestidos por células colunares com núcleo hipercromático basal e citoplasma eosinofílico com gotas de secreção na borda apical (Figura 13.18 B). Figura 13.16 Glândula tireoide de um caprino com bócio hiperplásico difuso. A maioria dos folículos tireóideos tem tamanho e forma irregular e está revestida por uma ou mais camadas de células cúbicas altas ou cilíndricas e destituída de coloide. 200×. Cortesia de Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Figura 13.17 Glândula tireoide de um ovino com bócio coloide. A glândula está composta de folículos de tamanho variado, distendidos por coloide e revestidos por epitélio cúbico baixo ou atenuado. Notar ausência de vesículas endocíticas na interface do coloide e das células epiteliais foliculares.100×. Cortesia de Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Bócio disormonogênico A causa mais provável desse quadro patológico é a diminuição congênita na biossíntese da tireoglobulina. Esse tipo de bócio é documentado em ovinos, caprinos e bovinos. A causa é defeito genético transmitido por um gene autossômico recessivo. Presumese que a doença ocorra por defeito na transcrição ou transporte da tireoglobulina do núcleo para o retículo endoplasmático, por defeito na organificação ou no transporte do iodo ou a perda da atividade da iodotirosinase. Bócio congênito também pode ser ocasionado por defeito no metabolismo do TSH. Clinicamente, manifestase como crescimento subnormal do feto ou neonato, falha no desenvolvimento normal da lã, fraqueza e edema subcutâneo. Muitos cordeiros com bócio congênito morrem logo após o nascimento. A glândula se apresenta simetricamente aumentada em consequência da hiperplasia intensa e difusa dos folículos tireóideos. Figura 13.18 A. Glândulas tireoides de um bovino com hiperplasia cística bilateral. B. À análise histopatológica, observamse numerosos folículos com grande quantidade de coloide. Alguns folículos estão intensamente maiores que o normal e revestidos por epitélio achatado. 400×. Hipotireoidismo congênito do tipo não bociogênico pode resultar de baixos níveis séricos de TSH ou inabilidade da glândula tireoide para responder ao TSH possivelmente por defeitos nos receptores. Esse tipo de hipotireoidismo foi descrito em filhotes de cães da raça Scottish Deerhound. Os animais afetados demonstravam atraso no crescimento, fraqueza, dificuldade de locomoção, depressão mental e sonolência. Hiperplasia nodular da tireoide Caracterizase pela formação de nódulos não neoplásicos na tireoide e já foi relatada em seres humanos, equinos, gatos, primatas e cães velhos. As glândulas afetadas são moderadamente aumentadas de volume e têm forma irregular, com múltiplos nódulos brancos ou marrons e de tamanhos variáveis (Figura 13.19). Na maioria dos animais domésticos, a hiperplasia nodular é uma alteração endocrinologicamente inativa, e, portanto, achado incidental de necropsia. Os nódulos são de ocorrência múltipla, não são encapsulados ou são apenas parcialmente encapsulados e não comprimem o parênquima adjacente à glândula. Ao contrário, adenomas são quase sempre solitários e encapsulados e comprimem o parênquima adjacente. Essas características auxiliam no diagnóstico diferencial entre adenoma e hiperplasia nodular. O aspecto microscópico dos nódulos é variável. As células hiperplásicas são cuboides ou colunares e o citoplasma é eosinofílico e granular. Alguns nódulos apresentam folículos preenchidos por coloide densamente eosinofílico. Projeções papilares do epitélio para o interior do lúmen folicular estão ocasionalmente presentes em folículos maiores. Figura 13.19 Glândula tireoide in situ de felino com hiperplasia adenomatosa. A glândula é difusamente marrom e nodular. Cortesia das Dras. Pamela J. Mouser e Margaret A. Miller, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. A hiperplasia multinodular em seres humanos foi a mais comumente encontrada em regiões endêmicas de deficiência de iodo. Em animais, a verdadeira origem da hiperplasia nodular ainda não foi esclarecida. Hiperplasia das células C da tireoide Hiperplasia difusa e/ou focal das células C costuma preceder a proliferação neoplásica em animais e seres humanos. As células C proliferadas são homogêneas, com citoplasma eosinofílico e granular. Hiperplasia nodular das células C consiste em agregados focais menores que um folículo funcional. Neoplasias As neoplasias da tireoide podem ser epiteliais (benignas ou malignas), originárias das células C (Figura 13.20) ou mesenquimais (fibrossarcoma, condrossarcoma e osteossarcoma). As neoplasias mesenquimais, apesar de serem raras, já foram diagnosticadas em cães. As neoplasias oriundas das células foliculares são encontradas em cães e gatos, em cavalos e raramente em bovinos, ovinos e suínos. Provavelmente, a menor ocorrência desse tipo de neoplasia nessas espécies decorre do abate precoce, uma vez que essas neoplasias são mais comuns em animais velhos. Alterações de hipotireoidismo podem acontecer em consequência da destruição do parênquima da tireoide por um carcinoma. Neoplasias das células foliculares Adenomas São encontrados como nódulos pequenos, brancos e sólidos no parênquima da glândula. O lobo afetado, em geral, está aumentado de volume e com a forma alterada. Quase sempre os tumores são únicos e envoltos por uma fina cápsula de tecido conjuntivo que o separa do parênquima adjacente e comprimido. Histologicamente, são classificados em foliculares, trabeculares, papilares e císticos. Os adenomas foliculares são formados por microfolículos com pequena quantidade ou ausência de coloide (Figura 13.21) ou por macrofolículos irregulares e grandemente distendidos por coloide. O epitélio folicular desses grandes folículos está achatado contra a parede, e também pode haver descamação para o lúmen folicular. Os adenomas ainda podem ser císticos, caracterizados por uma ou mais cavidades cheias de fluido proteináceo (Figura 13.22). Adenomas trabeculares são menos diferenciados que os foliculares. Os adenomas papilares são raros nos animais domésticos quando comparados à sua prevalência em seres humanos; já os adenomas foliculares são os mais comuns em gatos com hipertireoidismo. Em adenomas grandes, há áreas focais de necrose, mineralização e degeneração cística. Figura 13.20 Glândulas tireoides de um equino com adenoma. A da esquerda apresentase normal, enquanto a da direita apresenta proliferação neoplásica bem delimitada, mas expansiva, substituindo o parênquima normal da glândula. Cortesia das Dras. Natalie Fowlkes e Leslie McLaughlin, Louisiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, Baton Rouge, Louisiana, EUA. Figura 13.21 Adenoma folicular da tireoide de um rato com crescimento expansivo e arranjo microfolicular com ausência ou mínima quantidade de coloide. 400×. Figura 13.22 Adenoma cístico das células foliculares da tireoide de um felino. A maior parte da glândula está substituída por neoplasia encapsulada e cística, com pequenos folículos revestidos de células cuboides nas margens. Uma faixa de tecido tireoidiano normal (T) aparece na periferia. A separação entre a neoplasia e a glândula remanescente é um artefato de processamento. 40×. Cortesia do Dr. Daniel Harrington, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Adenoma cístico bilateral foi descrito na tireoide de um bovino. Verificouse elevação de volume da região cervical ventrolateral causando compressão do esôfago, com consequente distensão ruminal. Na necropsia, ambos os lobos da tireoide estavam intensamente aumentados de volume e, ao corte, havia três ou mais cavidades císticas grandes em cada lobo, preenchidas por grande quantidade de coloide. Histologicamente, as formações císticas eram envoltas por uma cápsula de tecido conjuntivo fibroso e preenchidas por material eosinofílico. O revestimento dessas formações císticas era de epitélio cúbico alto, formando várias projeções papilares para o lúmen. As lesões proliferativas benignas, incluindo hiperplasia multinodular, e malignas das células foliculares podem ser funcionais e determinar hipertireoidismo em gatos, cães e cavalos. Carcinomas Neoplasia maligna caracterizada pela proliferação das células folicularescom variados graus de pleomorfismo e extensa celularidade. Esses tumores são grandes, com frequência palpáveis e podem causar dificuldade respiratória ou de deglutição, pois crescem rapidamente e comprimem ou, mais comumente, invadem estruturas adjacentes, tais como traqueia, esôfago e laringe (Figura 13.23). Metástases ocorrem em cerca de 50% dos casos de cães com carcinomas da tireoide. Os alvos mais usuais são os pulmões (Figura 13.24) e os linfonodos cervicais e retrofaríngeos. No cão, carcinomas são geralmente bilaterais e mais habituais que adenomas. Há mais relatos em cães do que em gatos. Em algumas raças de cães, como Beagle, Boxer e Golden Retriever, a frequência de carcinomas de tireoide é maior. Em todas as espécies, os carcinomas acontecem em diversos padrões histológicos. O carcinoma folicular é composto de células cúbicas e colunares altas, formando folículos de variadas formas, tamanhos e conteúdo coloidal. O número de mitoses é mínimo. O padrão folicular está, algumas vezes, mesclado por zonas papilares, e a quantidade de estroma é variável. É considerado o tipo histológico menos maligno, mas já foi relatado causando invasão local na cápsula e em vasos sanguíneos, bem como provocando também metástases em pulmões e linfonodos regionais, particularmente em cães. Nesse tipo histológico, as células produzem tiroxina. Nos carcinomas papilares, as células epiteliais proliferam formando projeções papilares para o interior de espaços císticos. Ocasionalmente, as células são pleomórficas e, às vezes, vesiculares. Quase sempre há invasões vasculares e capsulares. Foram descritos em cão e gato. O carcinoma compacto ou sólido caracterizase pela proliferação de células em agregações compactas ou em cordões sólidos, frequentemente separados por estroma fibroso delgado que divide o tumor em lóbulos (Figura 13.25). Há numerosos capilares nos septos e há pouca ou nenhuma formação folicular. As células estão intimamente arranjadas e têm núcleo arredondado, com cromatina dispersa e citoplasma eosinofílico finamente granular ou vacuolizado. Mitoses são raras. Com frequência, as células invadem a cápsula, a tireoide adjacente e vasos sanguíneos ou linfáticos. Figura 13.23 Carcinoma de células foliculares da tireoide in situ de canino. A. Na região cervical ventral, substituindo ambas as glândulas tireoides, há duas massas neoplásicas multilobulares firmes que medem 10 × 6 × 5 cm e 7 × 3 × 3 cm. As massas neoplásicas causam deslocamento dos músculos cervicais ventrais, do esôfago, da traqueia e dos nervos regionais. B. Na superfície de corte, o tumor apresenta múltiplas áreas cinzaescuras de necrose e áreas brancas em consequência de calcificação. Cortesia da Dra. Lydia L. AndrewsJones, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Figura 13.24 Metástase pulmonar do carcinoma de células foliculares da tireoide mostrado na Figura 13.23. Cortesia da Dra. Lydia L. AndrewsJones, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Figura 13.25 Carcinoma de células foliculares da tireoide de um canino. As células epiteliais estão arranjadas em um padrão sólido lobular, separadas por septos fibrosos delgados com pouca formação folicular. 10×. Carcinomas indiferenciados ou anaplásicos são constituídos por células com ausência de diferenciação e muito pleomórficas. Arranjamse em cordões de células fusiformes dispostos em feixes ou redemoinhos. As células têm núcleo oval, com nucléolo proeminente e citoplasma eosinofílico. O índice mitótico é elevado. Em animais, esse tipo de carcinoma da tireoide é raro. Alguns desses tumores contêm muitas células epiteliais pequenas e difusas, sendo denominados de carcinoma das células pequenas; outros contêm muitas células pleomórficas, anaplásicas e multinucleadas, sendo denominados de carcinoma das células gigantes. Neoplasias das células C (parafoliculares ou medulares) As alterações proliferativas das células C estão relacionadas com as alterações hiperplásicas e neoplásicas (Figura 13.26). Esses processos podem ser iniciados pela prolongada ingestão de cálcio nos alimentos. Em seres humanos, 15 a 20% dos carcinomas medulares fazem parte da síndrome de neoplasia endócrina múltipla (MEN, multiple endocrine neoplasia), que é transmitida geneticamente como traço autossômico dominante em touros e alguns ratos de laboratório. Alta frequência de tumores das células C da tireoide e feocromocitomas é relatada em touros Guernsey, sugerindo padrão de herança autossômica dominante. Tais tumores também são observados em seres humanos, cães, carneiros e outras espécies. Figura 13.26 A. Hiperplasia das células C da tireoide esquerda de um canino. B. Tumor das células C da tireoide contralateral. Em medicina veterinária, a maioria dos casos de MEN foi relatada em cães. Nessa espécie, os casos envolveram combinações de neoplasias foliculares e parafoliculares da tireoide, hiperplasia e neoplasias do córtex adrenal, feocromocitoma, adenomas da pituitária, hiperplasia e adenoma da paratireoide, insulinoma e quemodectoma. Por fim, casos de MEN também foram descritos em cavalos (com ocorrências simultâneas de hiperplasias e neoplasias das glândulas tireoides e adrenais) e em um gato com tumor adrenocortical, insulinoma e adenoma da paratireoide. Desenvolvimento de tumores na síndrome MEN provavelmente representa transformação neoplásica simultânea de múltiplas glândulas endócrinas, cujas células têm origem da crista neural. Adenomas Adenomas das células C costumam aparecer como nódulos pequenos (1 a 3 cm de diâmetro), cinza, únicos ou múltiplos, uni ou bilaterais. São separados do parênquima por uma cápsula fibrosa. O parênquima adjacente é comprimido, mas não invadido pelas células neoplásicas. Em touros, pode haver aumento palpável na região cervical anteroventral. Histologicamente, as células proliferadas formam agrupamentos intercalados por ocasionais folículos preenchidos por coloide e divididos por septos delgados de colágeno (Figura 13.27). As células proliferadas são bem diferenciadas e têm núcleo com cromatina dispersa e um ou dois nucléolos bem proeminentes e citoplasma abundante e fracamente corado. Carcinomas Carcinomas medulares caracterizamse por extensas formações multinodulares uni ou bilaterais que podem causar aumento difuso da região cervical ventral. Os lobos da tireoide podem ser extensivamente invadidos e substituídos pelo tecido neoplásico (Figura 13.28). Pode haver grandes áreas de necrose e hemorragia nas áreas afetadas. Metástases múltiplas podem ocorrer para os linfonodos cervicais e pulmão. Histologicamente, a densidade celular é maior e as células são mais pleomórficas que nos adenomas. As células são poliédricas a fusiformes, com citoplasma sem delimitação evidente, fracamente corado e finamente granular. Os núcleos são vesiculares, redondos ou ovais, e mitoses são comuns. Lesões esqueléticas foram descritas em touros adultos com carcinoma das células C. Essas alterações incluem espondilose deformante, osteófitos, fraturas vertebrais e osteoartrose degenerativa. A secreção de calcitonina pelas células C hiperplásicas e neoplásicas é sugerida como causa dessas alterações ósseas, mas essa relação não está comprovada. As células neoplásicas são quase sempre envoltas por amiloide. Figura 13.27 Glândula tireoide de equino com adenoma de células C. A. Alguns folículos remanescentes do parênquima glandular normal estão circundados por denso agrupamento de células C neoplásicas. 200×. B. As células neoplásicas são positivaspara calcitonina por imunohistoquímica. Método de estreptavidinabiotinaperoxidase, contracoloração hematoxilina de Mayer. 200×. Cortesia do Dr. Michael A. Owston, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. ■■ ■ Figura 13.28 Glândula tireoide de um canino com carcinoma de células C. As células estão densamente arranjadas, invadindo e substituindo o parênquima do órgão. 20×. Neoplasias do ducto tireoglosso remanescente Essas neoplasias são consideradas raras, tendo sido relatadas apenas no cão. A persistência de uma porção do ducto tireoglosso é a origem mais provável desse tipo de neoplasia. São tumores bem circunscritos, flutuantes e móveis, localizados na região cervical ventral média. Ao corte, têm áreas brancas e sólidas intercaladas por cistos múltiplos preenchidos por líquido translúcido proteináceo. Microscopicamente, a neoplasia se caracteriza como carcinoma papilar bem diferenciado. Múltiplas papilas revestidas por várias camadas de epitélio cuboide a colunar alto projetamse da parede cística para o lúmen do tumor. Pode haver metaplasia escamosa do epitélio que reveste a parede do cisto. Podemse observar agregados de pequenos folículos tireóideos com coloide. O crescimento é lento e dificilmente há recidiva depois da retirada cirúrgica. A glândula tireoide estava normal nos poucos casos relatados em cães. Paratireoides Anomalias do desenvolvimento Um caso suspeito de hipoparatireoidismo congênito foi documentado em um gato Himalaio de 6 meses de idade. Resultados laboratoriais se caracterizaram por níveis acentuadamente baixos de cálcio acompanhados por níveis séricos baixos de PTH, indicando resposta inadequada das glândulas paratireoides à hipocalcemia grave. No entanto, as alterações morfológicas glandulares responsáveis pelo quadro clínico não foram determinadas, não sendo possível confirmar o diagnóstico clínico presuntivo. Em cães, casos raros de hipoparatireoidismo, associados à agenesia de ambos os pares da glândula paratireoide, foram relatados em filhotes. Pequenos cistos podem ser notados dentro do parênquima da paratireoide ou nas vizinhanças imediatas da glândula em cães e, ocasionalmente, em outras espécies animais. Os cistos, também conhecidos por cistos de Kursteiner, parecem se desenvolver como resultado da dilatação de remanescentes do ducto que conecta a paratireoide aos primórdios do timo. Eles são geralmente multiloculares, revestidos por epitélio cúbico a cilíndrico pseudoestratificado (muitas vezes ciliado) e contêm material proteináceo. Devese distinguilos dos cistos derivados dos remanescentes do ducto tireoglosso, que são revestidos por epitélio tireoidogênico, quase sempre contendo folículos com coloide. Alterações circulatórias Danos ao aporte vascular das glândulas paratireoides durante cirurgias para a remoção da tireoide é uma das possíveis causas de hipoparatireoidismo. Nesses casos, entretanto, é comum a regeneração do parênquima glandular, com subsequente remissão dos sinais clínicos. ■ ■ ■ Alterações degenerativas Atrofia das células principais da paratireoide pode ser observada associada à hipercalcemia prolongada. Casos em que isso ocorre incluem intoxicação por plantas que acarretam calcificação sistêmica, tais como Solanum malacoxylon e Nierembergia veitchii, e hipercalcemia associada à malignidade. Em razão da marcada redução do volume citoplasmático das células atrofiadas, as glândulas paratireoides nos animais afetados são pequenas e difíceis de serem localizadas ou até mesmo indistintas à macroscopia. As glândulas paratireoides de cães e ratos podem desenvolver células gigantes sinciciais multinucleadas. As células sinciciais parecem se originar da fusão citoplasmática de células principais adjacentes. A localização dessas células dentro da glândula varia; porém, em geral, elas são mais numerosas na periferia. Embora o número dessas células possa corresponder à metade do número das que compõem o parênquima glandular, elas não parecem ocorrer em quantidade suficiente para interferir significativamente na função da paratireoide. Numerosas partículas do vírus da cinomose canina nas células principais da glândula paratireoide podem contribuir para o baixo nível de cálcio em alguns cães com a doença. Alterações in⸸㠵amatórias A perda de número significativo de células principais da paratireoide como resultado de processo inflamatório destrutivo de origem supostamente autoimune representa causa rara de hipoparatireoidismo em cães (em particular nos de raças pequenas, como Schnauzers e Terriers) e gatos. A resultante deficiência na secreção do PTH ocasiona vários problemas metabólicos que se manifestam na forma de distúrbios neurológicos e neuromusculares associados à hipocalcemia. Cataratas lenticulares são alterações adicionais observadas em diversos animais afetados. O achado histológico típico dessa endocrinopatia consiste em infiltrado linfoplasmocitário difuso das glândulas paratireoides. Cerca de 60 a 80% do parênquima glandular é substituído por infiltrado inflamatório composto de linfócitos bem diferenciados e plasmócitos. Nos estádios iniciais da doença, notase, simultaneamente, hiperplasia nodular regenerativa das células principais remanescentes. Em casos mais avançados, o parênquima da glândula é completamente substituído por linfócitos, fibroblastos e neocapilares, restando apenas uma ou outra célula principal viável. Casos crônicos apresentam fibrose glandular. Alterações proliferativas Hiperplasia Hiperparatireoidismo primário Hiperparatireoidismo primário associado à hiperplasia primária da glândula paratireoide é de ocorrência rara em todas as espécies, tendo sido descrita como distúrbio hereditário (possivelmente de caráter recessivo autossômico) em filhotes da raça Pastor Alemão. Animais afetados apresentam hipercalcemia, normo ou hipofosfatemia e níveis elevados de PTH. Sinais clínicos incluem crescimento reduzido, fraqueza muscular, poliúria, polidipsia e redução generalizada da densidade óssea. Achados macro e microscópicos descritos englobam hiperplasia difusa das células principais da paratireoide, hiperplasia nodular das células C da tireoide, osteodistrofia fibrosa, nefrocalcinose e extensa mineralização do parênquima pulmonar e da mucosa gástrica. Hiperparatireoidismo secundário Em pequenos animais, hiperparatireoidismo secundário é uma sequela comum de insuficiência renal crônica. A hiperfosfatemia resultante da capacidade reduzida dos rins de excretarem fósforo induz hipocalcemia pela ligação do íon com cálcio ionizado para formar cristais de hidroxiapatita. Adicionalmente, a lesão renal crônica prejudica a formação de 1,25di hidroxi vitamina D, reduzindo a absorção de cálcio intestinal e contribuindo para a redução do íon no sangue. Hipocalcemia crônica, por sua vez, estimula aumento na síntese e na secreção do PTH. Elevação da reabsorção osteoclástica dos ossos resulta em adelgaçamento do osso cortical, proliferação de tecido conjuntivo fibroso e deposição de osteoide pobremente mineralizado (osteodistrofia fibrosa). As alterações ósseas afetam todo o sistema esquelético, apesar de serem mais acentuadas em certas áreas, como maxila, mandíbula e região subperiosteal dos ossos longos, podendo provocar aumento da dimensão externa do osso (Figura 13.29). Fraturas espontâneas de ossos longos podem acarretar claudicação. Fraturas de corpos vertebrais podem ocasionar compressão da medula espinal e de nervos, provocando distúrbios motores, sensoriais ou ambos. Há afrouxamento e mesmo perda de dentes da cavidade alveolar. Em cães com insuficiência renal e uremia crônicas, podese observar mineralização de tecidos moles,principalmente da musculatura intercostal subpleural, da mucosa gástrica, dos rins, do parênquima pulmonar e da subíntima dos vasos. O fósforo absorvido do intestino (estimulado pelo PTH) excede a capacidade de excreção do néfron e induz a precipitação de microcristais de fosfato de cálcio também no lúmen dos túbulos, no interstício e nos capilares renais. Todas as glândulas paratireoides (tanto externas quanto internas) estão uniformemente aumentadas duas a cinco vezes o normal. Rins vermelhopálidos e encolhidos são característicos de doença renal crônica. As Figuras 13.30 mostram dois casos de hipertrofia e hiperplasia das glândulas paratireoides em cães com displasia renal. Nesses casos, os animais apresentam uremia, indicada por ulcerações orais e gástricas. Figura 13.29 Corte transversal das regiões maxilar e nasal de um equino com osteodistrofia fibrosa. O osso está significativamente aumentado de volume, em razão da proliferação de tecido fibrovascular em substituição ao osso reabsorvido. Cortesia do Dr. James T. Raymond, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. A outra forma de hiperparatireoidismo secundário, em razão dos desequilíbrios nutricionais, é condição rara nos dias atuais, em razão do uso geral de dietas comerciais balanceadas. A doença é observada em animais (inclusive répteis) alimentados exclusivamente com dietas baixas em cálcio, dietas com excesso de fósforo, mas com níveis de cálcio normal ou baixo, e dietas com quantidades inadequadas de vitamina D3. Exemplos de casos de hiperparatireoidismo secundário nutricional incluem cães e gatos alimentados apenas com coração ou fígado; ruminantes, suínos ou, mais comumente, cavalos alimentados com ração de grãos ou farelo com excesso de fósforo, ou então alimentados com certas gramíneas forrageiras, como setária (Setaria spp.), capim buffel (Cenchrus ciliaris), capimcolonião (Panicum maximum var. Trichoglume), quicuio (Pennisetum clandestinum) e Brachiaria spp., ricas em oxalato, que se liga ao cálcio da dieta; e primatas do Novo Mundo mantidos em cativeiro sob dietas com quantidades inadequadas de vitamina D3. Em todos esses casos, observase redução nas concentrações circulantes de cálcio, o que induz aumento na secreção de PTH e subsequente reabsorção óssea. As alterações são semelhantes às observadas em casos de hiperparatireoidismo secundário renal, exceto pela ausência das lesões renais e de uremia. Um caso considerado atípico de extensa mineralização de tecidos moles foi descrito em potro de 3 semanas. Os sinais clínicos (dor articular, claudicação e andar rígido) e os achados de laboratório (níveis elevados de PTH, em especial nas éguas do plantel) eram compatíveis com o diagnóstico de hiperparatireoidismo secundário à ingestão de uma dieta deficiente em cálcio e rica em fósforo. A dieta era composta de farelo e palha de trigo, aveia, feijão e sementes de girassol. Houve resolução dos sinais clínicos 4 semanas após correção da dieta. Figura 13.30 A. Glândula paratireoide de canino com hiperparatireoidismo secundário. Notar a hiperplasia da glândula (*), a qual, neste animal, era secundária à displasia renal. Cortesia da Dra. Vimala Vemireddi, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. B. Glândulas paratireoides de outro canino com hiperparatireoidismo secundário renal decorrente da displasia renal bilateral. Neoplasias Neoplasias da glândula paratireoide incluem adenomas e carcinomas das células principais. Ambos são de ocorrência rara nos animais domésticos, sendo mais comumente verificados em cães e gatos idosos. A maioria dos tumores é benigna. As neoplasias endocrinologicamente ativas secretam quantidades excessivas de PTH, resultando na síndrome clínica de hiperparatireoidismo primário, já descrita. Adenomas causam aumento variável do tamanho da glândula paratireoide afetada. Esse aumento parece ser mais significativo em gatos, nos quais, ao contrário do que é observado em cães afetados, a presença de uma massa cervical palpável parece ser achado clínico relativamente comum. À macroscopia, os adenomas são marrompálidos ou avermelhados e bem demarcados, estando localizados na região cervical, próximo à tireoide ou, nos casos raros em que são derivados de tecido deslocado com o timo durante o desenvolvimento embrionário, dentro da cavidade torácica, próximo à base do coração. À microscopia, os adenomas se caracterizam por massas circunscritas e encapsuladas compostas de pequenos grupos de células bem próximas delimitados por delicados septos de tecido fibroso ricamente vascularizado. Adenomas pequenos são normalmente circundados por parênquima glandular comprimido. ■■ Carcinomas da glândula paratireoide são quase sempre maiores do que os adenomas. A maioria desses tumores malignos é composta de células bem diferenciadas, semelhantes às observadas em adenomas, mas com índice mitótico maior e com características malignas, incluindo invasão da cápsula e das estruturas adjacentes (p. ex., vasos e parênquima glandular da tireoide). Desenvolvimento de metástases é incomum nesses casos, mas, quando ocorre, envolve linfonodos regionais e, com menos frequência, os pulmões. Pseudo-hiperparatireoidismo (hipercalcemia associada à malignidade) A causa mais comum de hipercalcemia em cães é a hipercalcemia associada à malignidade, diagnosticada em 57 a 67% dos animais com hipercalcemia. Em gatos, ao contrário, neoplasias são diagnosticadas em cerca de 30% dos animais hipercalcêmicos. Em cães, hipercalcemia associada à malignidade é mais comumente associada aos linfomas (em particular, com linfomas de células T), adenocarcinomas dos sacos anais e mielomas múltiplos. Em gatos, a maioria dos casos de hipercalcemia associada à malignidade é associada aos linfomas e aos carcinomas de células escamosas da cavidade oral e do conduto auditivo. Já em cavalos, a condição é mais comumente associada aos linfomas e aos carcinomas de células escamosas do estômago. A base molecular de hipercalcemia associada à malignidade ainda não foi muito bem esclarecida, mas muitos tumores expressam o gene do peptídio relacionado com o PTH (PTHrP, parathyroid hormonerelated peptide), cuja estrutura química e atividade biológica são semelhantes às do PTH. Outros mecanismos de hipercalcemia associada à malignidade são mais complexos, incluindo a produção, pelas células tumorais, de várias substâncias que estimulam reabsorção óssea, tais como citocinas [em particular a interleucina 1 (IL1)] e fatores de crescimento, como o fator de crescimento transformante beta (TGFβ, transforming growth factor beta). Em alguns casos, a hipercalcemia pode ser grave o suficiente para provocar distúrbios dos sistemas gastrintestinal, neuromuscular, cardiovascular e renal. Os níveis sanguíneos de cálcio retornam ao normal após a excisão completa do tumor, mas a hipercalcemia persiste em animais com doença metastática ou excisão incompleta do tumor primário. Adrenal Anomalias do desenvolvimento Agenesia unilateral ocorre ocasionalmente em cães, afetando com mais frequência o lado esquerdo. Agenesia bilateral do córtex adrenal é fatal em qualquer espécie, mas a medula não é essencial para a vida. Anomalias ou falhas no desenvolvimento da pituitária fetal – por exemplo, em casos de anencefalia ou aplasia da pituitária – resultam em diminuição da produção ou liberação de ACTH, com consequente atrofia das zonas fasciculata e reticularis. Histologicamente, o córtex da adrenal é delgado, com poucos ninhos de células presentes, sem formação das diferentes zonas. Amedula da adrenal está normal. Córtex adrenal acessório é comum em muitas espécies. Pode ser encontrado no tecido adiposo periadrenal (Figura 13.31) ou perirrenal ou na periferia dos ovários e no testículo em equinos. Focos de células hemocitopoéticas são encontrados incidentalmente nas glândulas adrenais e, geralmente, não são associados à anemia ou a outra evidência de depressão da medula óssea ou mielopoese extramedular. Nos bovinos, são observados, à macroscopia, focos brancos redondos (3 a 4 mm de diâmetro); à histologia, focos de linfopoese são observados no córtex e na medula da glândula adrenal de ovinos e bovinos. ■ ■ Figura 13.31 Glândula adrenal de um equino com nódulos adrenocorticais acessórios. Alterações circulatórias Hemorragias nas adrenais acontecem em recémnascidos de qualquer espécie animal e são relacionadas com partos distócicos. Hemorragia difusa pode se dar na fase de exaustão do estresse. Ocorre também em toxemias (torção intestinal), septicemias (Figura 13.32) e coagulopatias e em animais selvagens que morrem subitamente durante a contenção. Teleangiectasia do córtex adrenal ocorre em animais adultos. Na macroscopia, observamse áreas vermelhoescuras, únicas ou múltiplas na junção corticomedular, que aparecem deprimidas na superfície de corte. É possível que ocorram subsequentemente à degeneração e à perda do córtex, bem como à ectasia dos sinusoides da região. As células corticais que persistem são pequenas e atróficas ou hipertrofiadas e repletas de lipídio. Alterações degenerativas Mineralização da adrenal, caracterizada por extensos depósitos de cálcio, ocorrem quase sempre em gatos adultos e primatas. Em gatos, tem prevalência de 30%; em cães, em comparação, tem prevalência de apenas 6%. A causa é desconhecida e, geralmente, não é associada aos sinais clínicos de disfunção adrenocortical. Glândulas mineralizadas são nodulares, firmes e moteadas, com múltiplos focos brancoamarelados se estendendo do córtex para a medula. Apresentam textura arenosa e são resistentes ao corte. Histologicamente, há extensas áreas de necrose com depósitos minerais (Figura 13.33) e áreas adjacentes de hiperplasia nodular regenerativa que parecem manter os níveis de cortisol em resposta à aparente secreção aumentada de ACTH. Esclerose capsular afeta a glândula adrenal de vacas velhas com ovários císticos. Em touros velhos, as alterações no tecido conjuntivo costumam preceder metaplasia óssea. Deposição de amiloide geralmente envolve apenas o córtex. Dáse em todas as espécies e é, regularmente, parte de amiloidose generalizada em bovinos. A deposição do amiloide acontece ao redor dos sinusoides da zona fasciculata. À macroscopia, os depósitos podem ser visíveis como áreas translúcidas. Sinais de insuficiência adrenocortical quase sempre não ocorrem. Figura 13.32 Glândula adrenal de um potro que morreu devido a um quadro de infecção pulmonar e septicemia. Observam se hemorragias na cortical (A) e, à histopatologia, neutrófilos, hemorragia e numerosas colônias bacterianas (B). 400×. ■ Figura 13.33 Glândula adrenal de felino com mineralização do córtex. Depósitos de cálcio são observados em locais de degeneração vacuolar e necrose das células glandulares. 400×. Cortesia de Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Alterações in⸸㠵amatórias A inflamação da glândula adrenal é denominada adrenalite. Em geral, é parte de uma doença sistêmica ou septicêmica, podendo cursar com variados graus de inflamação e necrose. A cápsula da adrenal, em geral, protege o parênquima da invasão direta de processos inflamatórios em tecidos adjacentes. Bactérias Gramnegativas septicêmicas, principalmente Escherichia coli, podem causar inflamação supurativa com necrose. Tuberculose da adrenal é encontrada, em especial, em bovinos e seres humanos. O protozoário Toxoplasma gondii produz necrose com infiltrado por macrófagos na adrenal em muitas espécies animais. Adrenalite granulomatosa, caracterizada por infiltrado de macrófagos epitelioides, linfócitos, plasmócitos, células gigantes multinucleadas e eosinófilos, é observada em casos de intoxicação por Vicia villosa e polpa cítrica em bovinos. A adrenal é um dos órgãos mais comumente afetados nesses animais. Inflamação granulomatosa também ocorre em consequência da infecção por leveduras dos fungos Histoplasma capsulatum, Cryptococcus neorformans e Coccidioides immitis. Esse tipo de adrenalite acontece nas áreas em que essas doenças fúngicas são endêmicas. Vírus também afetam as adrenais. Geralmente, causam inflamação linfocitária, necrose, hemorragia e, dependendo do vírus, corpúsculos de inclusão intranucleares. Como exemplo, podemse citar herpesvírus suíno tipo 1 (agente da doença de Aujeszky) em leitões, herpes vírus equino tipo 1 (Figura 13.34) e, raramente, o tipo 4 em fetos equinos abortados ou natimortos. Do mesmo modo, o herpesvírus bovino tipo 1 pode ser encontrado em fetos bovinos abortados ou nascidos mortos. ■ Figura 13.34 Glândula adrenal de um feto equino abortado com adrenalite necrosante associada à infecção por herpesvírus equino tipo 1. Adjacentes à área com detrito celular e hemorragia há duas células degeneradas com cromatina marginada e corpúsculo de inclusão eosinofílico intranuclear (setas) indicativas de infecção por herpesvírus. 1.000×. Cortesia de Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Alterações proliferativas Hiperplasia e hipertroỿ�a Hiperplasia nodular do córtex da adrenal é comum em cães, cavalos e gatos idosos. Os nódulos hiperplásicos podem medir até 2 cm de diâmetro, são bem delimitados e localizados no interior do córtex ou aderidos à cápsula. Quase sempre são múltiplos, bilaterais, amarelados e sem evidência de cápsula. As células hiperplásicas podem estar hipertrofiadas. Esses nódulos costumam ser caracterizados como nódulos extracapsulares de hiperplasia cortical que se estendem para o tecido conjuntivo periadrenal. Hiperplasia nodular da zona reticularis aparece como pequenos nódulos que se estendem para a medula, resultando em junção corticomedular irregular. Essa lesão é demonstrada em animais com distúrbios funcionais, sugerindo excesso de andrógeno – por exemplo, aumento da massa muscular, hipertrofia do clitóris, crista bem desenvolvida e involução da glândula mamária. Hiperplasia cortical difusa é caracterizada por alargamento uniforme geralmente bilateral do córtex (Figura 13.35); ocorre em consequência de hipersecreção de ACTH por adenoma corticotrófico da pituitária (Figura 13.36). Em resposta a essa secreção excessiva de hormônio trófico, há hiperplasia e hipertrofia difusa das células das zonas fasciculata e reticularis. As células da zona fasciculata estão vacuolizadas (lipídios) e arranjadas em colunas separadas pelos sinusoides. A zona glomerulosa pode atrofiar em razão da compressão provocada pelas duas zonas corticais internas. Hiperplasia da zona glomerulosa se dá em resposta à angiotensina II. Esta é produto da renina que é liberada pelas células justaglomerulares em resposta às alterações da pressão sistêmica. Estímulos prolongados (diminuição do volume sanguíneo ou redução na pressão sanguínea) resultam em contínua formação de angiotensina II e estimulação da zona glomerulosa para a formação e liberação da aldosterona, a qual atua nos túbulos renais, elevando a reabsorção de sódio e, por conseguinte, de água. Figura 13.35 Superfície de corte da glândula adrenal de um canino com hiperplasia cortical difusa. Figura 13.36 Superfície de corte da glândula adrenal de um equino com hiperplasia cortical difusa associada a um adenomada pars intermedia da hipófise. Notar o acentuado alargamento uniforme do córtex glandular. Cortesia do Dr. Timothy Muench, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Neoplasias Córtex da adrenal Adenomas Adenomas corticais da adrenal caracterizamse pela proliferação benigna das células das camadas do córtex da adrenal. São observados, com mais frequência, em cães idosos (acima de 8 anos) e, esporadicamente, em gatos, cavalos, bovinos, caprinos e ovinos. Em caprinos, machos castrados têm maior prevalência do tumor do que os machos inteiros. À macroscopia, adenomas adrenocorticais caracterizamse como nódulos amarelados (em razão do conteúdo lipídico), bem delimitados, podendo ser únicos e uni ou bilaterais (Figura 13.37). Nódulos maiores podem ter áreas vermelhas na superfície de corte. Adenomas corticais pequenos, muitas vezes, desenvolvemse em conjunto com nódulos hiperplásicos na mesma adrenal. Figura 13.37 Superfície de corte da adrenal de um canino contendo um adenoma cortical (A) brancoamarelado, bem delimitado, entremeado por áreas vermelhas (necrose e hemorragia). Nódulos menores observados em ambas as adrenais representam hiperplasia cortical (H) e formações corticais acessórias (*). Na histopatologia, adenomas corticais são compostos de células produtoras de hormônios esteroides bem diferenciadas, morfologicamente similares às células das zonas fasciculata ou reticularis. As células têm citoplasma abundante, fracamente eosinofílico, quase sempre vacuolizado ou preenchido por muitos vacúolos lipídicos. As células estão arranjadas em cordões ou ninhos separados por pequenos espaços vasculares. Os adenomas são delimitados por cápsula fibrosa (Figura 13.38) de espessura variada e por parênquima adjacente da glândula comprimido. Hematopoese extramedular com megacariócitos e colônias granulocíticas e eritroides são achados característicos em adenomas adrenocorticais. Adenomas são relativamente pequenos e de crescimento lento. Quando funcionais, podem ser associados à hipersecreção de cortisol ou, menos comumente, de outros hormônios esteroides (p. ex., aldosterona ou androgênios). Carcinomas Carcinomas adrenocorticais são constituídos pela proliferação maligna das células epiteliais corticais da adrenal e acontecem menos frequentemente que adenomas. Há relatos de sua ocorrência em bovinos, em cães idosos e, raramente, em outras espécies. À macroscopia, carcinomas são maiores que os adenomas e podem se desenvolver de modo bilateral (Figura 13.39). Em cães, a superfície de corte do tumor é caracterizada por tecido friável, com áreas vermelhoamarronzadas, entremeadas por áreas amareladas (Figura 13.40) ou difusamente amareladas (Figura 13.41). Carcinomas podem invadir tecidos adjacentes, incluindo veia cava caudal. Nos bovinos, podem chegar a 10 cm ou mais de diâmetro e ter múltiplas áreas de ossificação e mineralização. A histopatologia é caracterizada por células com elevado pleomorfismo, as quais são subdivididas em pequenos grupos ou lóbulos por septos fibrosos de espessura variável. Há perda total da arquitetura normal da glândula. As células neoplásicas são grandes e poliédricas, com núcleo vesicular, nucléolo proeminente e citoplasma densamente eosinofílico ou vacuolizado. Em carcinomas corticais anaplásicos, as células podem ser fusiformes, com citoplasma eosinofílico e menos abundante. Áreas de hemorragias são comuns em decorrência do rompimento dos sinusoides. Invasão da cápsula e de vasos sanguíneos e linfáticos, com formação de êmbolos, é comumente detectada nesses carcinomas. Metástases podem ser encontradas primariamente em fígado, rins e linfonodos mesentéricos. Figura 13.38 Adenoma (A) cortical da adrenal de um canino. O nódulo neoplásico está circundado por uma cápsula (C) de tecido conjuntivo fibroso e por parênquima (P) cortical comprimido. 200×. Figura 13.39 Carcinoma adrenocortical bilateral em cão. As superfícies de corte da glândula adrenal esquerda apresentam múltiplas massas encapsuladas vermelhoescuras entremeadas por áreas amareladas. Podem ser observadas ainda áreas corticais comprimidas (c), além de remanescentes da medular (m). A superfície capsular da adrenal direita está aumentada de tamanho e com a forma alterada devido ao carcinoma. Notar também nódulos corticais acessórios na cápsula (*). Figura 13.40 Superfícies de corte e da cápsula da glândula adrenal de canino com carcinoma cortical. A glândula está completamente substituída por uma massa macia e pouco definida, que mede 8 × 6 × 3 cm e tem aspecto moteado vermelho e amarelo. Cortesia da Dra. Kimberly A. Maratea, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Figura 13.41 Superfícies de corte in situ da glândula adrenal direita de canino com carcinoma cortical. A proliferação branco amarelada e macia ocorre a partir da cortical e invade a medular em diferentes locais. Carcinomas e adenomas adrenocorticais, unilaterais e funcionais, podem ser associados à atrofia cortical da glândula contralateral em decorrência da retroalimentação negativa da pituitária (elevados níveis de cortisol) na secreção de ACTH. O córtex atrófico da glândula adrenal consiste, em particular, em cápsula e zona glomerulosa e com apenas algumas células nas zonas fasciculata e reticularis. A medula aparece relativamente mais expandida ou extensa. Mielolipoma É um tumor endocrinologicamente inativo, constituído por tecido adiposo bem diferenciado e quantidade variável de células hemocitopoéticas da linhagem mieloide e linfoide. Em seres humanos, o tumor é relativamente comum, mas, nos animais, é pouco documentado. Na literatura médica veterinária, mielolipomas são descritos em baço, adrenal e fígado de cães, gatos (incluindo felinos selvagens, em especial guepardos) e primatas não humanos e no tecido subcutâneo e fígado de aves exóticas. À macroscopia, o tumor pode chegar a cerca de 4 a 5 cm de diâmetro. A superfície de corte tem áreas amareladas entremeadas por áreas vermelhas e perda da arquitetura normal da glândula. Na histopatologia, observase que a maior parte da massa tumoral é constituída por células similares aos adipócitos bem diferenciados e interpostos por grupos de células de origem mieloide e linfoide (Figura 13.42). Observamse vários megacariócitos e numerosos precursores mieloides em fases de maturação. Em alguns locais, visualizamse linfócitos e neutrófilos. Áreas com focos de necrose, hemorragia e macrófagos com hemossiderina são identificadas. Histologicamente, esse tumor parece ter origem na zona fasciculata do córtex da adrenal, com extensão para a medula. Diversos mielolipomas relatados foram achados incidentais de necropsia. Em seres humanos, há associação entre mielolipoma e síndrome adrenogenital, na qual há hiperplasia adrenal congênita em consequência da deficiência de enzimas (21hidroxilase ou 17alfahidroxilase), responsáveis pela síntese de hormônios adrenocorticais. Secundariamente, há estimulação excessiva da adrenal pelo ACTH, com subsequente hiperplasia do córtex da adrenal e, talvez, influência no surgimento do mielolipoma. As alterações da síndrome adrenogenital associada ao mielolipoma em seres humanos incluem síndrome de Cushing, pseudohermafroditismo, tumores testiculares e obesidade. Em animais, não foram observadas alterações funcionais relacionadas com essa neoplasia na adrenal. Figura 13.42 Mielolipoma da adrenal de um canino. O tumor é composto de células similares a adipócitos bem diferenciados, megacariócitos (*), células mieloides e macrófagos com hemossiderina. 400×. Neoplasias das células secretoras da medula da adrenal FeocromocitomasCaracterizamse pela proliferação neoplásica das células cromafins, secretoras das catecolaminas norepinefrina, epinefrina ou ambas, da medular da adrenal. Estas células têm origem no neuroectoderma. Dos feocromocitomas já estudados, a epinefrina foi o principal componente secretor. Feocromocitomas são os tumores mais comuns da medula da adrenal em animais. São relatados com maior frequência em bovinos e cães (Figura 13.43), sendo pouco frequentes nas demais espécies domésticas. Os tumores podem ser uni ou bilaterais. O tamanho é variável, mas geralmente são grandes e podem chegar a 10 cm de diâmetro ou mais e incorporar toda a adrenal. Feocromocitomas pequenos (Figura 13.44) são circundados por uma faixa de córtex adrenal comprimido. Em tumores grandes, a superfície de corte é multilobular e variegada, com áreas marrons ou marromamareladas, às vezes intercaladas por áreas de hemorragia e necrose. Pequeno remanescente da glândula pode ser encontrado em uma extremidade. Feocromocitomas malignos são envoltos por uma cápsula fibrosa que é invadida em vários locais por células tumorais. Pode haver também invasão da veia cava caudal (Figura 13.45) com extensão para o lúmen (Figura 13.46) e formação de trombos e êmbolos. Figura 13.43 Adrenal direita de um canino com um feocromocitoma caracterizado por área nodular vermelhoescura e macia, com aproximadamente 2 cm de diâmetro, expandindo a medular. Figura 13.44 Superfície de corte da glândula adrenal de um equino com feocromocitoma. Uma massa nodular, marrom escura e bem delimitada expande a medular da glândula. Cortesia da Dra. Janice Lacey, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Figura 13.45 Adrenal esquerda in situ em um canino com feocromocitoma apresentando alteração no formato, aumento de volume acentuado e invasão da veia cava caudal (cabeça de seta). Figura 13.46 Superfície de corte do feocromocitoma (F) da adrenal esquerda do cão da Figura 13.45. Observar a extensão do tumor (*) para o interior da veia cava caudal (VC). Na histopatologia, as células neoplásicas variam de pequenas, poliédricas ou cuboides, a grandes e pleomórficas, com múltiplos núcleos hipercromáticos. O citoplasma é levemente eosinofílico, finamente granular e sem delimitação evidente. Essas células são divididas em pequenos lóbulos por delgados septos fibrosos e capilares. Nos feocromocitomas malignos, há múltiplas áreas de necrose de coagulação e hemorragias. As células neoplásicas pobremente diferenciadas, anaplásicas e com maior número de mitoses podem substituir completamente a medula normal e invadir parte ou todo o córtex adjacente e quase sempre penetram na cápsula da adrenal e invadem o tecido conjuntivo e outras estruturas adjacentes à adrenal (Figura 13.47). As células malignas se arranjam em lóbulos, cordões sólidos ou em paliçada ao redor dos sinusoides. O termo feocromoblastoma é usado para tumores anaplásicos pobremente diferenciados derivados das células secretoras de catecolaminas da medular da adrenal. Feocromocitoma maligno frequentemente é utilizado para designar tumores medulares que invadem a cápsula e tecidos adjacentes (veia cava caudal, tecido adiposo) ou apresentam metástases para fígado, linfonodos regionais ou pulmões. Metástases também são observadas nas vértebras lombares, resultando em osteólise e paraparesia progressiva. Já foi observado também no fêmur de um cão com fratura patológica. Figura 13.47 Feocromocitoma da adrenal mostrada nas Figuras 13.45 e 13.46. As células neoplásicas arranjadas em cordões sólidos infiltraram a cápsula da glândula (*). Em cães, feocromocitomas são geralmente achados incidentais de necropsia ou cirurgias, mas hipertensão e arritmias cardíacas podem ser detectadas em cães com feocromocitomas funcionais diagnosticados antes da morte. Em um macaco rhesus (Macaca mulatta), miocardiopatia foi associada a um feocromocitoma, presumivelmente decorrente da secreção excessiva de catecolaminas pelas células neoplásicas. Miocardiopatia por catecolaminas é causada pela isquemia induzida por oxigênio reativo (radicais livres) liberado após vasoconstrição motora das arteríolas induzida pelas catecolaminas. Na necropsia do primata afetado, as paredes ventriculares do coração estavam delgadas, as câmaras cardíacas estavam dilatadas e havia estrias brancas e coalescentes no miocárdio. À histologia, as lesões cardíacas eram caracterizadas por atrofia de miofibras, perda de miofibrilas, inflamação e fibrose intersticial. O tumor adrenal se caracterizou por sinusoides distendidos por sangue e circundados por células tumorais poliédricas (feocromocitoma angiomatoso). Neoplasias das células do sistema nervoso simpático da medula da adrenal Neuroblastomas se originam de células neuroectodérmicas primitivas. Costumam ocorrer em animais jovens e formam grandes neoplasias intraabdominais, que podem fazer metástases para a superfície peritoneal. As células lembram linfócitos e tendem a formar pseudorrosetas. Neurofibrilas ou fibras nervosas amielínicas podem ser observadas. Ganglioneuromas são tumores benignos, pequenos e quase sempre bem diferenciados que apresentam células ganglionares simpáticas multipolares e neurofibrilas. O córtex adrenal é gravemente comprimido pelo tumor medular. Em ratos, ganglioneuromas costumam ser observados juntamente com feocromocitomas (feocromocitoma complexo). Acreditase que os componentes desse tipo de tumor sejam derivados da diferenciação divergente de uma célula progenitora comum (Figura 13.48). Neoplasias metastáticas nas glândulas adrenais Ocorrem geralmente associadas às neoplasias disseminadas. Êmbolos neoplásicos com frequência atingem ambas as adrenais. Formação de metástase pode ser decorrente da rica rede de capilares sinusoides do parênquima adrenocortical e medular. Estudo retrospectivo investigou tumores metastáticos nas adrenais em caninos, felinos, equinos e bovinos. Em cães, 26 diferentes tumores formaram metástases nas adrenais. Carcinomas pulmonar (Figura 13.49), mamário, prostático, gástrico e pancreático e melanoma maligno (Figura 13.50) foram os principais tumores metastáticos para as adrenais em cães. Hemangiossarcoma e melanoma foram os principais a formarem metástases no equino. Em gatos e bovinos, linfomas predominaram entre os tumores metastáticos na adrenal. Esses dados mostram a importância dos exames clínico e patológico das adrenais em casos de neoplasia maligna disseminada. Figura 13.48 Ganglioneuroma complexo da adrenal de um rato. A medular da glândula está completamente substituída por tumor misto que comprime levemente o córtex (C). O tumor é composto, em parte, de células ganglionares grandes em meio a tecido de sustentação paucicelular, constituído de células que lembram as de Schwann [ganglioneuroma (G)] e, em parte, de manto denso de células poliédricas divididas em pequenos lóbulos por delgados septos fibrosos [feocromocitoma (F)]. 100×. Cortesia de Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Figura 13.49 Superfícies de corte da glândula adrenal de um canino com metástase de carcinoma adenoescamoso pulmonar. Aproximadamente 75% da medular está substituída por massa neoplásica esbranquiçada. Cortesia da Dra. Kimberly A. Maratea, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Figura 13.50 Glândula adrenal de um canino com metástase de melanoma maligno primário da cavidade oral. A metástase se caracteriza por um pequeno nódulo preto na cortical da adrenal direita. O mesmo animal tinha metástases em todas as ■■ outras vísceras torácicas e abdominais e também na medula óssea dos membros e das vértebras.Hipoadrenocorticismo associado às neoplasias metastáticas nas adrenais é pouco comum, pois, apesar de a neoplasia metastática comprometer 90% do córtex da adrenal, hiperplasia compensatória das células remanescentes é observada e a função glandular é preservada. Nos animais domésticos, hipoadrenocorticismo foi diagnosticado em casos raros de linfoma metastático em cães e gatos. No entanto, a função da adrenal nem sempre é avaliada nesses casos. Pâncreas endócrino (ilhotas de Langhans) Alterações proliferativas Hiperplasia A hiperplasia das células das ilhotas pancreáticas é comum nos animais domésticos. É descrita, também, em primatas, camundongos, ratos e hamsters. À macroscopia, as ilhotas hiperplásicas são visualizadas como pequenas áreas brancas e levemente proeminentes. A hiperplasia pode ocorrer de forma compensatória após agressão e perda de parte do pâncreas ou como consequência da ação hormonal antagônica em hiperadrenocorticismo iatrogênico ou natural. Neoplasias das células das ilhotas pancreáticas Neoplasias das células das ilhotas são incomuns, sendo observadas principalmente em cães idosos. Esses tumores podem ser benignos (adenomas) ou malignos (carcinomas) e quase sempre são solitários (80%), mas podem ser múltiplos. Podem secretar mais de um tipo de hormônio, sendo um predominante e responsável pelos sinais clínicos; os principais são insulinoma, gastrinoma e glucagonoma. À macroscopia, esses tumores são cinzapálidos ou vermelhoescuros, firmes, com bordas bem delimitadas e, às vezes, bem encapsulados (Figura 13.51). A presença da cápsula não é indicador de benignidade, pois neoplasias das ilhotas com essa característica podem mostrar metástases nos linfonodos adjacentes e no fígado. Neoplasias das células beta das ilhotas pancreáticas Insulinomas, ou neoplasias das células beta secretoras de insulina, são observados mais comumente no cão, mas também já foram relatados em bovinos idosos, em ferrets (nos quais são os tumores mais comuns, seguidos por tumores adrenocorticais) e em gatos. À macroscopia, o adenoma das células beta aparece como pequena nodulação amarelada a vermelhoescura, única e com 1 a 3 cm de diâmetro. A consistência do tumor é similar à do pâncreas normal ou levemente mais firme. O adenoma está envolto, em geral, por uma cápsula fibrosa delgada. A maioria dos insulinomas no cão é maligna. Carcinomas costumam ser maiores que os adenomas, são multinodulares e invadem o parênquima adjacente. A formação de metástases se dá principalmente em linfonodos regionais e fígado, mas também já foi observada em duodeno, mesentério, omento, baço, coração e medula espinal. Figura 13.51 Cavidade abdominal de um canino com carcinoma das ilhotas pancreáticas. O pâncreas contém uma massa nodular firme e única que mede 2 cm de diâmetro e sobressai da superfície capsular do órgão. O aspecto macroscópico do tumor é benigno, mas a presença de metástases nos linfonodos regionais indicava que ele era de natureza maligna. Cortesia da Dra. Victoria Laast, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. À microscopia, os adenomas são bem delimitados e constituídos por células epiteliais pequenas, cúbicas ou colunares e bem diferenciadas. O citoplasma dessas células é finamente granular. Numerosos septos fibrosos e capilares dividem as células em pequenos lóbulos, conferindo ao tumor o padrão neuroendócrino característico (Figura 13.52). Os carcinomas têm padrão histológico semelhante ao dos adenomas, mas as células neoplásicas do carcinoma têm menor uniformidade no tamanho e na forma quando comparadas às do adenoma. Além disso, há invasão de algumas áreas da cápsula, do parênquima adjacente e dos vasos linfáticos e sanguíneos pelas células neoplásicas. Um insulinoma maligno foi diagnosticado em um cachorrodomato, ou graxaim (Cerdocyon thous), com sinais clínicos que evoluíram para a morte em 2 meses. Macroscopicamente, o insulinoma era constituído por uma massa única multilobulada. A análise histopatológica revelou células poligonais moderadamente pleomórficas e com invasão vascular. A origem celular foi confirmada pela IHQ, a qual mostrou marcação fortemente positiva das células neoplásicas para insulina (Figura 13.53). No caso de neoplasias funcionais das células beta, hipoglicemia grave pode se desenvolver em decorrência do excesso de secreção de insulina. Como a função cerebral depende de suprimento sanguíneo constante de glicose (a mais importante fonte de energia para as células neurais), sinais nervosos, atribuídos à neuroglicopenia, são comumente observados em associação aos insulinomas. Esses sinais clínicos incluem fraqueza, ataxia, andar desorientado, distúrbios visuais e, em casos que determinam hipoglicemia grave, coma e morte. Sinais de neuropatia periférica também podem ser observados, abrangendo diminuição dos reflexos, da sensibilidade e da propriocepção, bem como atrofia muscular. A patogenia dessa alteração ainda não foi estabelecida, porém presumese que ocorra como consequência dos defeitos metabólicos dos nervos periféricos em razão de hipoglicemia, resposta imune resultante do compartilhamento de antígenos entre o tumor e os nervos ou fatores tóxicos, produzidos pelo tumor, com efeitos deletérios nos nervos. Figura 13.52 Pâncreas de ferret com adenoma das células beta das ilhotas de Langhans (insulinoma). O tumor, delimitado por fina cápsula fibrosa, tem aspecto tipicamente neuroendócrino, caracterizado por pequenos lóbulos de células cúbicas ou poliédricas subdivididas por delicados septos fibrosos. 100×. Cortesia de Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Figura 13.53 Pâncreas de um cachorrodomato com carcinoma das células beta das ilhotas de Langhans (insulinoma). Células neoplásicas difusa e intensamente positivas para insulina na imunohistoquímica. Método estreptavidinabiotina peroxidase. 400×. Reproduzida, com autorização, de Malta et al., 2008. Neoplasias das células não beta das ilhotas pancreáticas Gastrinoma ■■ Neoplasias pancreáticas secretoras de gastrina são observadas em caninos, felinos e seres humanos. No cão e no homem, essa neoplasia também pode se originar das células neuroendócrinas secretoras de gastrina da mucosa do duodeno. Nos animais, esses tumores são considerados raros. A hipersecreção de gastrina pode resultar em má digestão, perda de peso, ulcerações e hipertrofia da mucosa gástrica e duodenal. O gastrinoma originado do duodeno pode provocar compressão dos ductos biliares extrahepáticos e obstrução do fluxo biliar. À macroscopia, esses tumores podem ser únicos ou múltiplos e de tamanhos variáveis. São firmes, pois têm maior quantidade de estroma fibroso. Os tumores são potencialmente malignos, podendo invadir o parênquima adjacente e formar metástases nos linfonodos mesentéricos e fígado. À microscopia, as células são arranjadas em padrão neuroendócrino característico. IHQ, utilizando anticorpos para a gastrina, é necessária para se fazer a classificação dessa neoplasia. Glucagonoma Neoplasias originadas das células alfa (células secretoras de glucagon) são consideradas raras em cães e seres humanos, com relatos esporádicos em outras espécies, tais como felinos selvagens e roedores. Aumentos dos níveis sanguíneos de glucagon estimulam a gliconeogênese e a glicogenólise, acarretando hiperglicemia. Sinais clínicos incluem eritema migratório necrolítico, letargia, perda de peso e redução do apetite. Na macroscopia, a pele das patas, dos pontos de pressão dos membros, do abdome, do focinho, das orelhas, da genitália externa e das regiões perioculare perianal dos cães com essa neoplasia está espessa, hiperêmica e coberta com crostas. Em seres humanos e caninos, diminuição dos aminoácidos (hipoaminoacidemia) é relacionada com a síndrome glucagonoma. O glucagon em excesso eleva a conversão hepática dos aminoácidos nitrogenados (arginina, histidina e lisina) para glicose, de modo que concentrações elevadas desse hormônio em animais com glucagonoma são as mais prováveis causas da redução dos seus níveis de aminoácidos. A patogenia das lesões cutâneas em seres humanos e cães, embora não totalmente esclarecida, é relacionada com a diminuição de aminoácidos. Tratamento intravenoso com aminoácidos em seres humanos resolve as lesões cutâneas e cura completa é obtida quando o glucagonoma é retirado por cirurgia. Diagnóstico diferencial deve ser feito com síndrome hepatocutânea (associada a casos de doença hepática terminal) e diabetes mellitus, apesar de esta poder estar em casos avançados de glucagonoma. Neoplasias das demais células das ilhotas, como somatostinoma (células secretoras de somatostatina) e polipeptidoma (células secretoras do polipeptídio pancreático), são esporádicas em seres humanos e cães. Ambas necessitam de confirmação pela IHQ. Síndromes clínicas Hipossomatotropismo congênito ou nanismo pituitário Em cães, deficiência congênita de GH ou nanismo é o melhor e mais impressionante exemplo de deficiência hormonal da adenohipófise. A doença é encontrada mais comumente como anormalidade hereditária simples autossômica recessiva em cães da raça Pastor Alemão, mas já foi descrita em animais de outras raças caninas, tais como Weimaraner, Spitz, Pinscher Toy e Karelian Bear (em que também é hereditária e de transmissão simples autossômica recessiva), bem como em felinos. Acreditavase, inicialmente, que o nanismo na raça Pastor Alemão era decorrente da atrofia compressiva da adenohipófise causada por formação multilocular cística na bolsa de Rathke. Alguns animais afetados apresentaram, entretanto, cistos hipofisários diminutos (menores que 2 mm) ou mesmo ausentes, de modo que é improvável que tenham provocado atrofia compressiva da adenohipófise. Portanto, é mais provável que a doença seja ocasionada por falha primária de diferenciação da ectoderme craniofaríngea em células secretoras de hormônios tróficos normais (hipoplasia pituitária). Acúmulo de material proteináceo e, subsequentemente, de água pode explicar o aumento gradual do tamanho dos cistos. Nanismo pituitário hereditário pode decorrer unicamente da deficiência de GH ou pode ser parte de deficiência combinada de hormônios hipofisários. Em Pastores Alemães afetados, temse demonstrado que não há deficiência somente na secreção de GH, mas também na de TSH e prolactina, acompanhada por secreção reduzida de hormônios gonadotróficos. A secreção de ACTH, ao contrário, parece ser preservada. Deficiência simultânea de vários hormônios hipofisários tem sido descrita também em seres humanos e camundongos. Nessas duas espécies, a deficiência combinada de GH, TSH e prolactina está associada às mutações no gene que codifica o fator de transcrição Pit1. Ainda em seres humanos e camundongos, insuficiência hormonal hipofisária combinada, incluindo, além disso, as gonadotrofinas LH e FSH, está associada às mutações do gene Prop1. Já cães da raça Pastor Alemão com nanismo hipofisário não apresentam mutações em nenhum ■ ■ desses dois genes. A deficiência hormonal nesses animais é provavelmente decorrente de mutação no gene de algum outro fator de transcrição ativo durante o desenvolvimento, que impossibilita a expansão efetiva de uma célulatronco hipofisária depois que ocorreu a diferenciação das células corticotróficas. Os filhotes anões parecem ser normais ao nascimento e até cerca de 1 a 2 meses de idade. Subsequentemente, taxa de crescimento mais lenta que a dos outros filhotes da mesma ninhada, retenção dos pelos secundários (pelagem de filhote) e ausência de pelos primários ou de guarda se tornam gradualmente mais aparentes. Alopecia bilateral simétrica se desenvolve, muitas vezes progredindo até afetar todo o tronco, o pescoço e a região proximal dos membros. A pele é inicialmente normal, mas, com o passar do tempo, tornase hiperpigmentada, fina e enrugada. Infecções bacterianas secundárias da pele e do trato respiratório são complicações quase sempre observadas a longo prazo. Hipogonadismo também pode ser observado, incluindo atrofia testicular, azoospermia e bainha peniana flácida no macho e ausência de atividade estral na fêmea. Acreditase que todas essas alterações clínicas refletem as várias deficiências endócrinas nos animais afetados por nanismo pituitário. Os cistos verificados nos casos de nanismo pituitário são revestidos por epitélio cilíndrico pseudoestratificado, muitas vezes ciliado, intercalado por células caliciformes. Acompanhando essa alteração, observase ausência parcial ou total da adenohipófise. Os cistos são morfologicamente distintos dos que resultam do acúmulo anormal de coloide no lúmen residual da bolsa de Rathke (i. e., do ducto craniofaríngeo), causando subsequente compressão em grau variável da pars distalis e da pars nervosa da hipófise. Hipossomatotropismo adquirido Hipossomatotropismo ou deficiência de GH também pode suceder no animal (cão ou, menos comumente, gato) adulto, sendo o resultado de várias situações: da destruição da hipófise por distúrbios inflamatórios, traumáticos, vasculares ou neoplásicos; da supressão de função do GH associada a alguma doença concomitante; ou de processo idiopático. Sinais clínicos em cães afetados consistem em alopecia simétrica e hiperpigmentação do tronco, pescoço, orelha, cauda e região caudomedial da coxa (dermatose GHresponsiva de início adulto). Deficiências que envolvem também outros hormônios pituitários podem ocorrer, dependendo da etiologia e da extensão da destruição da hipófise. Não há relatos de sinais clínicos associados ao hipossomatotropismo adquirido em felinos. Hipotireoidismo O hipotireoidismo (deficiência de hormônios tireoidianos) é uma doença com sinais clínicos complexos em consequência dos efeitos dos hormônios tireoidianos em vários sistemas do organismo. Muitas suposições sobre determinadas manifestações clínicas e suas relações com o hipotireoidismo ainda não foram devidamente comprovadas ou esclarecidas. Alterações, como diminuição da atividade metabólica, manifestada por obesidade e letargia, são comuns. Manifestações neurológicas, embora incomuns, acontecem claramente em cães hipotireóideos. Anormalidades cardiovasculares podem ocorrer, mas seu significado clínico é questionável. Anormalidades hematológicas e bioquímicas consistentes, que se dão em cães hipotireóideos, são anemia e hiperlipidemia, respectivamente. A relação de megaesôfago, paralisia da laringe, anormalidades oculares e distúrbios gastrintestinais no hipotireoidismo ainda não foi bem esclarecida. Doenças primárias da tireoide, especialmente tireoidite linfocitária (ver Figura 13.14) e atrofia com fibrose (Figura 13.54), são as lesões mais comuns associadas ao hipotireoidismo em pequenos animais (discutidas previamente neste capítulo). As principais manifestações do hipotireoidismo serão discutidas na sequência. Alterações cutâneas estão presentes em 85% dos cães com hipotireoidismo (Figura 13.55). Alopecia ocorre porque os hormônios tireoidianos são requeridos na fase anagênica de desenvolvimento do pelo; este é retido na fase telogênica por longo tempo e tornase seco e sem brilho até se desprender. A alopecia é inicialmente observada na cauda (“cauda de rato”) e pescoço, bem como na parte ventral do tórax e facelateral do abdome. Alopecia simétrica bilateral no tronco e face lateral dos membros é comum com a progressão da doença, mas, às vezes, a alopecia é focal. Hiperpigmentação caracterizada por aumento do número de melanócitos na camada basal da epiderme é usual nas áreas de alopecia. Atrofia da epiderme é relatada em aproximadamente 50% dos casos de hipotireoidismo. Atrofia de folículos pilosos, glândulas sebáceas e atrofia de fibras colágenas tipo III também são verificadas, principalmente no abdome. O hormônio T3, que tem efeito similar ao dos hormônios sexuais, atua sobre os queratinócitos, determinando a diferenciação. Especulase que esse hormônio age indiretamente, pela estimulação do fator de crescimento epidérmico (EGF, epidermal growth factor), ou diretamente, pela indução da expressão de genes responsáveis pela renovação da epiderme. Desse modo, a deficiência compromete a proliferação e a diferenciação das células epidérmicas. Pesquisas comprovam que a associação de hipotireoidismo e castração agrava as lesões cutâneas. Excessiva descamação (hiperqueratose) ou seborreia também é comum e pode ser a primeira alteração cutânea a ser observada em muitos casos. Hiperplasia epidérmica e infundibular podem ocorrer em alguns animais, entretanto epidermite secundária pode contribuir para o desenvolvimento dessa alteração. Na observação histológica, há quase sempre mixedema, na pele de cães hipotireóideos, e, às vezes, é bastante proeminente também no exame físico. A alteração se caracteriza por espessamento da derme em decorrência da acumulação de mucina. Acreditase que o mixedema esteja relacionado com a diminuição da degradação e consequente acúmulo de ácido hialurônico na derme, seguida de retenção de água, pois a substância é hidrofílica e se liga a considerável quantidade de água. O mixedema é mais aparente na cabeça, onde causa espessamento das pálpebras, determinando a clássica expressão facial trágica de animais hipotireóideos. À histologia, a mucina acumulada na derme aparece azulada, fibrilar ou granular, distendendo e rompendo as fibras colágenas e elásticas da pele. Nas secções histológicas coradas com hematoxilina e eosina, a mucina não é bem visualizada. Colorações de ácido periódicoSchiff (PAS, periodic acidSchiff) e de azul de Alcian são recomendadas para melhor identificação da mucina. Figura 13.54 Glândulas tireoides de canino Fila Brasileiro apresentando diminuição de tamanho acompanhada de estrias brancas na cápsula e aprofundadas no parênquima. A análise histopatológica da tireoide revelou perda do parênquima e substituição por tecido adiposo e fibrose. Cortesia do Dr. Saulo Petinatti Pavarini, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS. Figura 13.55 Cão mestiço Labrador com alopecia, hiperpigmentação da pele da cauda (“cauda de rato”), área mediocaudal dos membros pélvicos (A) e face ventral do tórax e abdome (B). O mesmo animal apresentava tireoidite linfocitária acentuada das tireoides. As alterações representam um quadro de tireoidite linfocitária imunomediada e consequente hipotireoidismo. Cortesia do Dr. Saulo Petinatti Pavarini, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS. Anormalidades metabólicas estão presentes em cerca de 80% dos cães com hipotireoidismo. Algumas alterações, incluindo letargia, intolerância ao exercício, depressão da atividade cerebral e do status mental, ocorrem em consequência da diminuição do metabolismo celular e, se não tratadas, podem progredir para estado de demência ou coma mixoedematoso. A baixa atividade metabólica também determina obesidade. Em casos de hipotireoidismo comumente são encontrados hipercolesterolemia, hipertrigliceridemia, anemia não regenerativa leve e aumento de creatinoquinase (CK, creatine quinase) na circulação. Os hormônios tireoidianos estimulam virtualmente todos os aspectos do metabolismo lipídico, incluindo síntese, mobilização e degradação, mas, no hipotireoidismo, a degradação é mais gravemente afetada, resultando em acumulação lipídica. O aumento da CK é presumivelmente relacionado com o decréscimo no metabolismo ou excreção ou pode ser associado à miopatia relacionada com o hipotireoidismo. A anemia, em geral, é leve a mínima e pode ser causada por decréscimo na produção de eritropoetina e/ou perda de um efeito estimulador direto dos hormônios da tireoide. A hipercolesterolemia resulta em uma variedade de lesões secundárias, incluindo aterosclerose (Figura 13.14), lipidose hepática e lipidose glomerular e corneal. Aterosclerose das artérias coronárias e cerebrais pode se desenvolver em cães com acentuado hipotireoidismo e longos períodos de hiperlipidemia. O resultado é necrose isquêmica e hemorragia do miocárdio. As placas de gordura na túnica íntima e a consequente reação dos macrófagos que fagocitam os lipídios, características da aterosclerose, favorecem a formação de trombos no local, sendo responsáveis pela obstrução do lúmen das artérias afetadas. Em cães com hiperlipidemia prolongada, os glomérulos renais podem tornarse preenchidos com lipídio, resultando em progressiva falha renal. Os glomérulos preenchidos por lipídios podem ser observados macroscopicamente como focos brancoamarelados no córtex renal. A acumulação de excesso de lipídios no fígado resulta, com frequência, em graus variados de hepatomegalia, com distensão abdominal e insuficiência hepática. Lipidose corneal é observada ocasionalmente em cães hipotireóideos com hiperlipidemia, em geral coincidindo com uveíte anterior e rompimento da barreira ocular hematógena. Anormalidades reprodutivas na mulher e no homem são consideradas como sinais cardinais do hipotireoidismo. Em cães machos, foi sugerido que essa endocrinopatia causa redução na fertilidade, redução na quantidade de esperma e diminuição da libido, mas isso ainda não foi comprovado. O epitélio germinativo dos túbulos seminíferos está intensamente atrofiado em cães com hipotireoidismo. Nas fêmeas caninas, sugeriuse que o hipotireoidismo causa intervalos estrais prolongados, falha em ciclar, ciclo estral silencioso, perda da libido e sangramento prolongado no estro. Na mulher, a deficiência de hormônios tireoidianos causa irregularidade de ciclo menstrual e ciclos anovulatórios. Em fêmeas gestantes, pode induzir aborto ou originar neonatos de baixo peso e com anomalias congênitas. Estudos em ratas adultas hipotireoidianas (hipotireoidismo induzido) demonstraram que ocorre alteração na foliculogênese ovariana e na morfologia tubárica e uterina nas ratas no metaestrodiestro. O hipotireoidismo reduz o número de folículos secundários e terciários, o número de corpos lúteos, a espessura do endométrio, o número de glândulas endometriais e a altura do epitélio do infundíbulo, mesmo sem alterar a concentração periférica de progesterona e estradiol. O mecanismo de ação dos hormônios T3 e T4 nos órgãos reprodutivos ainda permanece por ser esclarecido. Postulase que atuem indiretamente sobre os ovários, alterando sua resposta às gonadotropinas. Contudo, a presença de receptores para T3 nas células da granulosa de diferentes espécies animais, assim como a proliferação das células da granulosa em resposta à estimulação por T3 sugere a participação direta da tireoide na função ovariana. Alguns estudos relacionam hipotireoidismo com anormalidades neurológicas, porém a patogênese ainda não está claramente definida. As manifestações neurológicas incluem polineuropatia, neuropatia focal e encefalopatias. Os sinais são de fraqueza generalizada, paraparesia, hiporreflexia e diminuição da consciência e da percepção.Algumas vezes, há apenas claudicação do membro pélvico associado à neuropatia periférica unilateral. Quando essa alteração é bilateral, a claudicação é intermitente ou persistente e está associada à dor na palpação e, às vezes, à atrofia muscular. Estudos de condução mostram diminuição da velocidade motora e sensorial, com diminuição do potencial de contratilidade muscular. Alterações histológicas dos nervos evidenciam degeneração da mielina, demonstrando que as alterações neuromusculares são consistentes com denervação. Alguns autores relacionam a alteração de neuropatia com depósitos mixomatosos, principalmente quando a alteração de neuropatia afeta os nervos facial e vestibular. Outra teoria é relacionada com o mecanismo de estimulação da tiroxina na atividade respiratória da mitocôndria na produção de trifosfato de adenosina (ATP, adenosine triphosphate). Na falta de tiroxina, deficiência de ATP e consequente diminuição da ação da enzima adenosinatrifosfatase (ATPase) na atividade da bomba de sódio e potássio, há alteração no transporte axônico bombadependente. É interessante salientar que a relação dessas alterações com o hipotireoidismo foi estabelecida a partir do momento em que cães hipotireóideos com essas alterações responderam ao tratamento à base de tiroxina. Além disso, cães que apresentaram essas alterações neurológicas não necessariamente tinham outras alterações referentes a essa endocrinopatia. Outros problemas neurológicos, incluindo paralisia de laringe, espondilomielopatia cervical e problemas comportamentais, são presumivelmente associados ao hipotireoidismo, mas isso ainda não foi comprovado. Anormalidades da função cardíaca também ocorrem no hipotireoidismo. Estão sempre relacionadas com a diminuição da capacidade cardíaca, caracterizada por diminuição da contratilidade do miocárdio, da função diastólica e do número de receptores adrenérgicos, mas também ainda não foram comprovadamente associadas a essa endocrinopatia. Alterações ósseas, por fim, também são relacionadas com o hipotireoidismo. A diminuição de T3 reduz a aposição óssea. Estudos em ratas adultas com hipotireoidismo induzido por insuficiência de hormônios esteroides sexuais (castração) ■ mostraram que há osteopenia pela inibição da aposição, pela interrupção do crescimento longitudinal e aumento da reabsorção óssea. Hipertireoidismo É um distúrbio endócrino comum em felinos idosos. A síndrome clínica é resultante da concentração sanguínea excessiva dos hormônios ativos da tireoide, triiodotironina (T3) e tetraiodotirosina (T4), produzidos por uma glândula tireoide alterada. A patogenia da doença é desconhecida. É possível que envolva fatores genéticos, nutricionais e ambientais, entre outros. Os fatores de risco incluem: consumo de comidas enlatadas para gatos, que elevam o risco em comparação com a comida seca; idade avançada; sexo (mais comum em fêmeas do que em machos); e uso de areia ou granulado higiênico. Entretanto, mais estudos são necessários para corroborar a relação causaefeito sugerida e para excluir possíveis fatores de confusão. Os sinais clínicos são variáveis e de início insidioso. Gatos hipertireóideos podem apresentar perda de peso apesar de apetite normal ou aumentado, hiperatividade, inquietação, irritabilidade, maior suscetibilidade a estresse, poliúria e polidipsia, arritmia cardíaca e taquicardia (resultante de hipertrofia ventricular esquerda), dificuldade respiratória, vômito e diarreia ou frequência e volume de fezes aumentados (em decorrência do aumento na motilidade gastrintestinal). Acompanhando esse quadro clínico, observase elevação de volume cervical bilateral estendendose desde a região imediatamente caudal à laringe até a entrada do tórax. Animais com hipertensão resultante da taquicardia e aumento do volume sistólico podem, raramente, desenvolver retinopatia hipertensiva, caracterizada por descolamento, hemorragia, edema e degeneração retiniana. As alterações glandulares associadas à doença em felinos são benignas em 98% dos casos, consistindo em alterações multinodulares hiperplásicas (hiperplasia adenomatosa; ver Figura 13.19) ou adenomas (ver Figura 13.22). Proliferações hiperplásicas da tireoide são comumente observadas também em cães senis, mas, nessa espécie, em geral, representam achado incidental, por serem endocrinologicamente inativos. A maioria desses nódulos proliferativos é sólida, porém alguns podem ser císticos. Ao contrário de adenomas, as áreas de hiperplasia nodular não são encapsuladas e não comprimem o parênquima da tireoide circunjacente. À microscopia, os nódulos hiperplásicos consistem em folículos de formato irregular, revestidos por epitélio cúbico e contendo coloide. Esses nódulos podem ser considerados lesões préneoplásicas, por poderem coalescer e formar um adenoma folicular. As lesões na retina são decorrentes da ruptura da barreira endotelial associada à hipertensão arterial, com passagem de plasma para dentro da parede do vaso, seguido de necrose desta (necrose fibrinoide). As alterações cardíacas se caracterizam por hipertrofia da parede ventricular esquerda e do septo interventricular (Figura 13.56). Ao contrário do que se observa em gatos hipertireóideos, nos quais carcinomas da tireoide ocasionando hipotireoidismo são ocorrências raras (1 a 3%), tumores funcionais malignos da tireoide são a causa mais comum da doença em cães. Os carcinomas diferem dos adenomas por apresentarem comportamento invasivo (Figura 13.57) e formação frequente de metástases no pulmão e nos linfonodos regionais. Os sinais clínicos de hipertireoidismo em cães são semelhantes aos descritos em gatos. Uma das principais diferenças clínicas entre hipertireoidismo canino e felino está no tamanho da glândula tireoide responsável pelos sinais. É extremamente raro que donos de gatos hipertireóideos notem a glândula aumentada, ao passo que donos de cães com esse mesmo tipo de lesão costumam dizer ter notado “inchaço” na região cervical. A massa cervical em si ou os sinais clínicos associados à sua presença física (dificuldade respiratória ou disfagia) podem ser os principais motivos para o dono procurar a ajuda de um veterinário em casos de hipertireoidismo canino. ■ Figura 13.56 Superfície de corte do coração do mesmo felino com hiperplasia adenomatosa da tireoide mostrado na Figura 13.19. O ventrículo cardíaco esquerdo está moderadamente hipertrofiado. Cortesia das Dras. Pamela J. Mouser e Margaret A. Miller, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Figura 13.57 Superfície de corte do carcinoma de células foliculares da tireoide de um canino. Grande massa neoplásica (12 × 6 × 5 cm) firme, nodular e marromamarelada, que circunda e invade as cartilagens de laringe e traqueia, incorporou completamente e destruiu as glândulas tireoide e paratireoide esquerdas desse cão. Cortesia do Dr. Anthony M. Fletcher, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Em cavalos idosos, adenomas foliculares da tireoide são relativamente comuns, mas relatos de hipertireoidismo nessa espécie são raros. Quando presentes, os sinais clínicos são semelhantes aos observados em outras espécies com hipertireoidismo, incluindo perda de peso, polifagia, hiperexcitabilidade, taquicardia, taquipneia e anormalidades comportamentais. Níveis de T3 ou T4 livre nesses casos estão elevados de maneira significativa, eventualmente retornando ao normal após excisão cirúrgica do tumor. Hiperadrenocorticismo Hiperadrenocorticismo ou síndrome ou doença de Cushing é uma endocrinopatia de curso longo e insidioso, associada à elevação prolongada natural ou iatrogênicado glicocorticoide cortisol. Em cães, o hiperadrenocorticismo é considerado, por alguns autores, a endocrinopatia mais frequente, sendo a forma iatrogênica (exógena) a mais comum. A forma hipófise dependente (HHD) e a forma adrenaldependente (HAD) também ocorrem. A forma HHD é mais usual que a forma HAD. Alguns raros animais podem apresentar tumores adrenocortical e hipofisário concomitantes. Em outras espécies, hiperadrenocorticismo é considerado raro. A secreção excessiva de cortisol pelas células da zona fasciculata, em casos de hiperadrenocorticismo, geralmente resulta de sua constante estimulação pelo ACTH liberado por adenoma funcional da pars intermedia ou pars distalis da adeno hipófise, com consequente hipertrofia e hiperplasia cortical adrenal bilateral (ver Figura 13.36). Tumores funcionais da zona fasciculata da adrenal são causas menos habituais da doença. Há, ainda, condições em que hiperadrenocorticismo é associado a alguma neoplasia extrapituitária e extraadrenal (síndrome de ACTH ectópico). Em seres humanos, a síndrome de ACTH ectópico é mais comumente observada com neoplasias de pulmão e pâncreas. No cão, a síndrome parece ser rara e está associada ao linfoma, ao carcinoma brônquico e à neoplasia neuroendócrina no pâncreas, com metástases formadas em linfonodos regionais e fígado. O excesso de cortisol acarreta uma série de distúrbios funcionais e lesões, em razão dos efeitos combinados de gliconeogênese, lipólise, catabolismo proteico e tratamento com antiinflamatórios. Os glicocorticoides aumentam a gliconeogênese e a glicogênese e diminuem a utilização de glicose por antagonizar os efeitos da insulina. Desse modo, a associação hiperadrenocorticismo e diabetes mellitus pode ocorrer em alguns animais. A lipólise induzida pelos glicocorticoides provoca elevação na concentração sanguínea de lipídios e colesterol. Nos hepatócitos, estimulam a enzima glicogênio sintetase a aumentar o armazenamento de glicogênio. Assim, há degeneração acentuada por glicogênio nos hepatócitos, o que pode ocasionar danos celulares e consequente liberação de enzimas, como a fosfatase alcalina (FA) e a alanina aminotransferase (ALT), indicadoras de degeneração e necrose hepática aguda. O apetite e a absorção alimentar frequentemente estão aumentados em consequência de efeito direto do cortisol no hipotálamo ou envolvimento do centro do apetite por um tumor da pituitária. Os músculos das extremidades e do abdome estão fracos e atrofiados em razão do catabolismo aumentado das proteínas estruturais. A perda do tônus dos músculos abdominais e músculo do esqueleto axial resulta em expansão abdominal gradual, lordose, fraqueza e atrofia muscular (Figura 13.58). Hepatomegalia decorrente do aumento da deposição de lipídio e glicogênio em hepatócitos também pode contribuir para o desenvolvimento de um abdome pêndulo e distendido. Alterações dermatológicas sucedem em mais de 90% dos cães com essa endocrinopatia. No início, há alopecia na pele do pescoço e dos flancos, atrás das orelhas e sobre as proeminências ósseas. Com a evolução das lesões, a alopecia tornase extensa, com pelagem restrita somente à cabeça e às extremidades distais. A pele tornase mais delgada, os pelos tornamse fracos e opacos e há perda da elasticidade cutânea (Figura 13.59), além de hiperpigmentação pronunciada (Figura 13.60). Mineralização cutânea (calcinose cutânea) é observada em cerca de 40% dos casos de hiperadrenocorticismo em cães (Figura 13.61). Histologicamente, há marcada atrofia da epiderme, dos folículos pilosos e das glândulas sebáceas, acompanhados por perda da elastina e do colágeno da derme e tecido subcutâneo. Essas alterações cutâneas são mais pronunciadas em gatos, que podem ter extensas ulcerações e cicatrizes induzidas por trauma na pele delgada (síndrome de fragilidade cutânea; Figura 13.62). Muitos folículos pilosos estão inativos e na fase telogênica ou distendidos por queratina (comedões). Os depósitos minerais ocorrem ao longo das fibras de colágeno e elastina da derme (Figura 13.63) e provocam elevações na epiderme (Figura 13.61). Essa alteração pode acontecer em decorrência do efeito no catabolismo das fibras proteicas. O consequente rearranjo das fibras colágenas e da elastina e a produção de matriz extracelular possivelmente são atrativos para a deposição de cálcio. Mineralização acentuada também pode ocorrer nos pulmões (na parede alveolar e nos bronquíolos terminais), no músculo esquelético e na parede do estômago. Complicações por infecção bacteriana secundária podem se dar na forma de foliculite, dermatite, cistite, conjuntivite e broncopneumonia supurativa. Figura 13.58 Cão com hiperadrenocorticismo. Notar a expansão abdominal e a lordose associadas à acentuada atrofia muscular nos membros e no abdome, bem como a extensa alopecia com lesões crostosas multifocais no tronco, nos membros pélvicos e na cauda. Cortesia da Dra. J. Catharine ScottMoncrieff, School of Veterinary Medicine, Purdue University, West Lafayette, Indiana, EUA. Figura 13.59 Cão com hiperadrenocorticismo. A pele do abdome está delgada, com alopecia e perda da elasticidade. Figura 13.60 Cão com hiperadrenocorticismo. Podemse observar alopecia e hiperpigmentação na pele da face lateral direita do abdome e alopecia, erosões, crostas e placas brancoamareladas (calcinose cutânea) na pele da face lateral direita do tórax. Cortesia da Dra. Candice Benuck, Peninsula Animal Dermatology, San Carlos, California, EUA. Figura 13.61 A. Visão mais aproximada das alterações cutâneas do tronco do cão da Figura 13.60. As lesões de pele são caracterizadas por extensa alopecia, hiperpigmentação e múltiplas pequenas placas amareladas elevadas e, às vezes, ulceradas. Essas placas correspondem às áreas de mineralização cutânea (calcinose cutânea). Cortesia da Dra. J. Catharine ScottMoncrieff, School of Veterinary Medicine, Purdue University, West Lafayette, Indiana, EUA. B. Visão mais aproximada das alterações cutâneas do tronco de outro cão com calcinose cutânea decorrente de hiperadrenocorticismo. Poliúria e polidipsia quase sempre são os primeiros sinais do hiperadrenocorticismo e podem preceder os sinais cutâneos em até 6 a 12 meses. A densidade urinária está diminuída em razão da diurese elevada estimulada pelos glicocorticoides. Isso acarreta perda contínua de ureia e creatinina pela urina, com diminuição dos seus níveis séricos. Glicosúria ocorre quando o limiar de absorção renal da glicose é ultrapassado. Proteinúria também é encontrada em consequência de glomerulosclerose. Em gatos, esses sinais costumam ser atribuídos à diabetes mellitus, que pode ser observada em até 80% dos animais dessa espécie com hiperadrenocorticismo. Os efeitos dos níveis sanguíneos elevados de corticosteroides no sistema hemocitopoético podem auxiliar no diagnóstico de hiperadrenocorticismo. Há linfopenia significativa, provavelmente em decorrência de lise dos linfócitos, e eosinopenia, em razão de destruição intravascular e sequestro de eosinófilos no baço e no pulmão. Ocorrem, também, neutrofilia e monocitose associadas à diminuição da emigração dessas células inflamatórias dos vasos. Figura 13.62 Felino com síndrome de fragilidade cutânea associada ao hiperadrenocorticismo. A. Há extensa ulceração da pele no tronco do animal. Notar o tecido de granulação subjacente e a pele circunjacente extremamente fina. B. Histologicamente, tornase evidente que a fineza da pele decorria da extrema atrofia epidermal e dermal. Notar a acentuada perda de colágeno na derme. Alterações cutâneas adicionais nesse animal incluem hiperqueratoseortoqueratótica. C. Corte histológico de pele normal para comparação com B. 100×. Cortesia de Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Figura 13.63 Pele de um canino com calcinose cutânea associada ao hiperadrenocorticismo causado por carcinoma adrenocortical. Mineralização multifocal de fibras colágenas da derme, caracterizada por depósitos intensamente basofílicos, acompanhada por fibrose e extenso infiltrado inflamatório mononuclear. A acentuada hiperplasia da epiderme suprajacente é alteração reativa às lesões dermais. 100×. Cortesia de Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Alterações decorrentes de secreção excessiva de hormônios corticais podem desencadear a síndrome adrenogenital, que ocorre quando há aumento da produção dos andrógenos elaborados por células proliferadas da zona reticularis. Esse excesso ■ de andrógenos em cães, cavalos, bovinos e seres humanos resulta em desenvolvimento sexual masculino precoce e na oclusão prematura das epífises dos ossos longos. Nas fêmeas afetadas, há virilização caracterizada por hipertrofia do clitóris, hirsutismo, hipertrofia dos músculos da laringe e anestro. Em éguas, fica evidente o desenvolvimento masculino do pescoço. As glândulas mamárias e o útero se atrofiam. Estudo em cães com carcinoma cortical da adrenal mostrou que esses animais têm elevadas concentrações de hormônios sexuais em comparação com os cães com hiperadrenocorticismo dependentes de tumores da pituitária, adenomas corticais não produtores de cortisol e cães saudáveis. De maneira semelhante, a ocorrência de carcinoma adrenocortical secretor de progesterona ou testosterona (além de aldosterona) tem sido relatada também em gatos. Alguns animais apresentavam concentrações excessivas de hormônios sexuais (progesterona e 17hidroxiprogesterona) e tinham sinais clínicos similares aos com hipercortisolemia, mas a concentração de cortisol era normal. Tais achados sugerem que esses hormônios sexuais atuam como agonistas glicocorticoides. Mensuração dos níveis de hormônios sexuais em cães e gatos suspeitos de hiperadrenocorticismo atípico pode, portanto, ser útil na confirmação do diagnóstico. Hipoadrenocorticismo É uma endocrinopatia incomum, que afeta principalmente cadelas jovens ou de meiaidade. Hipoadrenocorticismo primário, ou doença de Addison, é resultante da atrofia e/ou destruição bilateral de todo o córtex da glândula adrenal, ao passo que hipoadrenocorticismo secundário idiopático é decorrente da atrofia bilateral das zonas fasciculata e reticularis (mas não da zona glomerulosa) da adrenal. Os sinais clínicos e alterações clinicopatológicas (em particular, os distúrbios eletrolíticos caracterizados por hiponatremia e hiperpotassemia) típicos da doença de Addison são decorrentes da secreção inadequada de glicocorticoides e mineralocorticoides (em especial, aldosterona). Nesses casos, observase, geralmente, elevação dos níveis sanguíneos de ACTH, em razão da falta de feedback negativo do cortisol endógeno. A doença é, muitas vezes, atribuída a processo imunomediado caracterizado por atrofia e infiltrado linfocitário adrenocortical bilateral. Alguns cães com hipoadrenocorticismo primário têm, no entanto, níveis eletrolíticos normais (hipoadrenocorticismo atípico). É possível que isso se deva à perda gradual do tecido glandular adrenocortical, em que a secreção de glicocorticoide se torna subnormal antes que a secreção mineralocorticoide seja afetada. Nos casos de hipoadrenocorticismo secundário, a falha na produção de ACTH pela hipófise em razão de lesões (neoplasias endocrinologicamente inativas, inflamação ou trauma) na região hipofisária ou hipotalâmica ou do feedback negativo de certos medicamentos resulta em produção inadequada de glicocorticoide. A secreção de mineralocorticoide é quase sempre preservada, porque ACTH tem pouco efeito trófico na produção de mineralocorticoide. Hipoadrenocorticismo secundário também é associado ao tratamento com glicocorticoides ou progestágenos (acetato de megestrol). Presumese que o mecanismo de ação dos progestágenos seja semelhante ao dos glicocorticoides, isto é, por inibição da síntese e secreção de ACTH endógeno. Hipoadrenocorticismo secundário de origem iatrogênica também acomete cerca de 5% dos cães sob tratamento com o,p’ DDD (mitotano) para hiperadrenocorticismo. Mitotano reduz a produção de cortisol, causando necrose seletiva e atrofia das zonas fasciculata e reticularis do córtex adrenal (Figura 13.64). A zona glomerulosa é relativamente resistente aos efeitos citotóxicos do mitotano, de modo que também, nesse caso, os níveis de mineralocorticoide são geralmente mantidos. Por fim, necrose adrenocortical iatrogênica é raramente associada ao tratamento de hiperadrenocorticismo com trilostano, enquanto outras causas raras de hipoadrenocorticismo primário incluem hemorragia, infarto, inflamação granulomatosa, amiloidose ou neoplasia primária ou secundária das glândulas adrenais. A história e os achados clínicos associados ao hipoadrenocorticismo são vagos, não específicos e, muitas vezes, de caráter intermitente, o que dificulta o diagnóstico da doença. As alterações clinicopatológicas clássicas são hiperpotassemia e hiponatremia (tipicamente com proporção de sódio:potássio menor que 27:1), hipocloridemia, azotemia prérenal, acidose metabólica discreta a moderada e ausência de leucograma de estresse. Hipercalcemia pode ser observada em até 30% dos casos. A avaliação bioquímica sérica em casos de insuficiência adrenocortical secundária quase sempre é sem alterações. A maioria dos animais afetados exibe distúrbios progressivos crônicos presentes por período variável (com duração de até 1 ano), enquanto cães com insuficiência adrenal aguda (crise addisoniana) representam verdadeira emergência médica. Figura 13.64 Glândula adrenal de um canino com atrofia cortical resultante do tratamento com mitotano para hiperadrenocorticismo. Notar a degeneração difusa seletiva das zonas fasciculata e reticularis (F + R). A zona glomerulosa (G) e a medula (M) não foram afetadas pelo tratamento. 100×. Cortesia do Dr. Michael A. Owston, Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. A histomorfologia dos casos de hipoadrenocorticismo primário e secundário inclui degeneração vacuolar e necrose das células de todo o córtex adrenal ou apenas de sua região mais profunda, respectivamente. Nos estádios iniciais de hipoadrenocorticismo primário, costumamse observar também agregados de linfócitos e plasmócitos dispersos entre sinusoides e grupos de fibroblastos. Em casos crônicos, o córtex da adrenal está reduzido a um décimo ou menos da espessura normal, fazendo com que a medula da adrenal pareça mais proeminente. Alterações em outros órgãos englobam hiperpigmentação da pele (supostamente em razão do aumento na secreção de ACTH e possivelmente de MSH resultante da ausência de feedback negativo sobre a hipófise) e hiperplasia linfoide e infiltrado eosinofílico em linfonodos periféricos, associados à elevação do número de linfócitos e eosinófilos circulantes como resultado dos níveis reduzidos de cortisol. Em alguns cães com hipoadrenocorticismo primário, a doença vem acompanhada por outros distúrbios imunomediados. Hipoadrenocorticismo e hipotireoidismo são as combinações mais comumente observadas nesses casos, mas diabetes mellitus ou hipoparatireoidismo ou ambos também podem ocorrer de modo simultâneo. Em felinos, síndromes, sinais clínicos e lesões de hipoadrenocorticismo são semelhantes aosverificados em cães. Casos singulares de hipoadrenocorticismo primário são descritos nessa espécie, na qual a endocrinopatia resultou do envolvimento adrenal bilateral por linfoma multicêntrico. Hipoadrenocorticismo iatrogênico também é relatado em equinos associado à administração prolongada de esteroides anabolizantes; no entanto, casos naturais dessa endocrinopatia ainda não foram adequadamente documentados nessa espécie. Funções adrenocortical e medular reduzidas foram observadas em potros prematuros. Apesar de esses animais terem altos níveis de ACTH endógeno, as suas glândulas adrenais parecem ser refratárias ou não responsivas ao hormônio corticotrófico. Baixos níveis de cortisol também são relatados em associação à infecção crônica, possivelmente em consequência de estresse crônico. Além disso, como as adrenais são um dos órgãos de choque do cavalo, insuficiência adrenocortical nessa espécie poderia, ao menos teoricamente, ser decorrente de extensa destruição e posterior cicatrização tecidual em áreas de hemorragia e necrose do córtex adrenal durante ataques de endotoxemia ou anafilaxia. Suínos podem desenvolver hipoadrenocorticismo iatrogênico associado ao tratamento com carbadox (Mecadox), um agente sintético antibacteriano usado na ração, em alguns países, como promotor de crescimento e tratamento de diarreia. Nesses casos, as alterações adrenais se caracterizam por desorganização da zona glomerulosa e perda da distinção da zona fasciculata. As células da zona glomerulosa desenvolvem degeneração hidrópica, seguida de atrofia, fibrose discreta e infiltrado de células mononucleares. Há fibrose da cápsula, que consistentemente contém células com grânulos citoplasmáticos PASpositivos. As alterações adrenais podem ou não ser reversíveis, dependendo do período de exposição e ■ da dose do medicamento. Animais afetados também apresentam alterações nos rins, caracterizadas por degeneração e descamação do epitélio dos túbulos coletores da medula e do epitélio da pelve. Diabetes mellitus É doença comum em seres humanos e também em cães e gatos. Diferenças na etiologia ocorrem entre essas duas espécies e em relação à doença em seres humanos. A classificação de diabetes em cães e gatos baseiase na classificação humana, mas, especialmente em diabetes canina, muitos aspectos são diferentes. Diabetes no gato, entretanto, assemelhase à diabetes tipo 2 em seres humanos, e a diabetes mellitus no cão ocorre em adultos ou idosos. Há três principais formas de classificação com base na diabetes humana. A primeira forma é similar à diabetes mellitus tipo 1 em seres humanos, que é uma forma insulinodependente em que há destruição autoimune das células beta produtoras de insulina. Cães com essa forma são propensos a desenvolver cetoacidose e precisam de insulina para sobreviver. Anticorpos contra as células beta são fundamentais na patogenia de diabetes tipo 1 em seres humanos, sendo encontrados na maioria dos casos. Em cães, foram achados anticorpos contra células beta em 50% dos casos de diabetes descritos, o que sugere componente imunológico da doença também no cão. Em cão com anemia hemolítica autoimune e diabetes mellitus, também foram detectados anticorpos contra as células beta. Os alvos celulares dos anticorpos na diabetes mellitus canina são desconhecidos. Nos humanos e nos bovinos, foram identificados anticorpos contra a descarboxilase do ácido glutâmico e contra outros componentes das ilhotas de Langhans, e ocorre infiltração linfocitária nas ilhotas, sustentando a teoria autoimune; porém, essa lesão não é observada na maioria dos cães afetados pela doença. Desse modo, sugerese que, nos cães, os anticorpos não estão envolvidos no processo de destruição primária das ilhotas pancreáticas, mas como processo secundário. Presumese que seja um processo secundário, em que animais suscetíveis são expostos aos antígenos exógenos estruturalmente similares a componentes citoplasmáticos das células beta, os quais provocam a resposta autoimune subsequente. Na doença autoimune, as células beta são destruídas por linfócitos T citotóxicos. Em bovinos, diabetes mellitus pode acontecer na infecção natural e experimental pelo vírus da aftosa e pelo vírus da diarreia viral bovina. Quando o vírus atinge o pâncreas, as ilhotas pancreáticas podem desaparecer quase totalmente e, ainda, pode haver necrose e inflamação dos ácinos pancreáticos da porção exócrina. Em gatos, diabetes mellitus tipo 1 não é bem documentada. Embora rara, infiltração linfocítica das ilhotas associada aos sinais clínicos de diabetes foi relatada em gatos. Anticorpos contra células das ilhotas pancreáticas foram identificados em um filhote insulinodependente. Em 30% dos casos, as lesões histológicas encontradas no pâncreas nessa forma de diabetes são de pancreatite crônica reincidente, com substituição do parênquima por tecido conjuntivo fibroso. Em outros casos, há degeneração ou aparente perda total das ilhotas. A segunda forma de diabetes mellitus é diabetes tipo 2, ou não dependente de insulina, que, provavelmente, não tem etiologia única. Os níveis de insulina no pâncreas são quase normais, porém a liberação de insulina pelas células beta em resposta ao aumento do nível plasmático da glicose está diminuída ou a insulina não pode ser utilizada pelos tecidos periféricos. A resistência à insulina pode ser decorrente da falta de receptores para insulina ou falta de moléculas mediadoras intracelulares. Nesses casos, há hiperglicemia e intolerância à glicose, acompanhadas de níveis plasmáticos normais de insulina. Diabetes mellitus tipo 2 é mais frequente em gatos. Exceto pelo fato de que a dependência de insulina e a cetose são mais comuns no gato, a diabetes felina tem muitas características similares à humana. Em ambos, gatos e seres humanos, a função da célula beta está reduzida e a secreção de insulina em resposta ao aumento da glicose é anormal. Em ambas as espécies, o achado histológico mais comum no pâncreas é a deposição, nas ilhotas pancreáticas, de substância amiloide derivada de peptídio localmente produzido (Figura 13.65). Amiloidose das ilhotas ocorre em gatos com mais de 7 anos de idade (correspondendo a 72% dos casos) e em seres humanos idosos. A obesidade é um fator de risco para a diabetes felina e humana, embora muitos gatos não estejam acima do peso quando a diabetes é diagnosticada. Estudos mostraram que a obesidade canina está relacionada com a resistência à insulina, dislipidemia e leve hipertensão sanguínea; no entanto, ainda é desconhecida a exata relação da obesidade como fator de risco para diabetes no cão. Medicamentos hipoglicêmicos orais proporcionam controle glicêmico satisfatório em alguns gatos e em muitos seres humanos com a doença, embora acima de 25% dos seres humanos e a maioria dos gatos afetados eventualmente requeiram insulina. Figura 13.65 Pâncreas de um felino com diabetes mellitus. Material eosinofílico homogêneo extracelular (amiloide) difusamente expande e comprime as células remanescentes das ilhotas de Langhans. 400×. Cortesia de Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. O papel do amiloide na patogênese da diabetes em felinos ainda não está claro porque o amiloide nas ilhotas não é observado apenas em gatos diabéticos. Cerca de 50% de gatos não diabéticos têm amiloide nas ilhotas, o qual é depositado entre os capilares e as células das ilhotas. As fibrilas estão intimamente associadas às membranas celulares das células beta. Terminalmente, as ilhotas são ocupadas, por completo, pelos depósitos de amiloide.Uma terceira forma de diabetes mellitus, observada no cão, acontece em conexão com outras endocrinopatias. É também conhecida como diabetes secundária e se dá em razão do frequente antagonismo entre a insulina e outros hormônios. No cão, está mais associada ao hiperadrenocorticismo e ao uso de progestágenos que aumentam a liberação do hormônio do crescimento na glândula mamária. Esses hormônios antagonizam a ação da insulina, causando resistência periférica nos tecidos insulinodependentes (fibras musculares, hepatócitos e adipócitos). Nesses casos, a intolerância à glicose secundária aos distúrbios endócrinos extrapancreáticos em geral é de grau moderado e, às vezes, pode ser revertida quando o distúrbio endócrino primário é retirado. Corpos lúteos persistentes, ocasionando pseudogestação, também podem causar diabetes proestro na cadela. Os efeitos da progesterona produzida pelas células do corpo lúteo são indiretos. Ela estimula a liberação do GH, que inibe a atividade do receptor da insulina e, por conseguinte, a resposta intracelular à insulina. Em cavalos, casos de diabetes foram associados ao adenoma das células acidófilas do lobo anterior da hipófise, com produção não regulada do GH. Fármacos tóxicos para as células produtoras de insulina também têm sido relatados como causa para o desenvolvimento da diabetes mellitus. Em animais, o composto estreptozotocina (originalmente desenvolvido como antibiótico aminoglicosídeo em 1950), quando administrado a bovinos em condições experimentais, produzia a referida condição clínica. O composto causou o mesmo efeito em roedores, possibilitando a utilização destes como modelos animais para a diabetes mellitus. Posteriormente, o fármaco passou a ser utilizado como medicamento antineoplásico devido à sua ação tóxica contra as células produtoras de insulina. A alteração de necropsia mais notável em diabetes mellitus em cães e gatos é o fígado difusamente aumentado de volume, gorduroso e friável. A obesidade acompanhada por essa alteração hepática é outra alteração importante, em especial na diabetes tipo 2. O pâncreas parece normal, mas pode revelar fibrose pósnecrótica (Figura 13.66) ou pancreatite. As alterações histopatológicas no fígado e no rim são caracterizadas por degeneração gordurosa difusa e intensa nos hepatócitos e nas células epiteliais dos túbulos contorcidos proximais renais. Êmbolos lipídicos podem ser encontrados, por vezes, nos capilares glomerulares. A esteatose hepática se dá pelo aumento da mobilização das reservas lipídicas (lipólise) na tentativa de produção de energia para as células, pois, na dificuldade em utilizar a glicose, as taxas de ATP decrescem bastante. Alterações pancreáticas nem sempre são observadas; quando presentes, em adição à lipidose hepática e renal, podemse observar vacuolização das células das ilhotas (Figura 13.67) e vacuolização do epitélio dos pequenos ductos pancreáticos em razão do acúmulo de glicogênio. Essa é uma lesão específica de diabetes mellitus, mas é encontrada apenas nos casos acentuados e de evolução aguda. Degeneração por glicogênio também é verificada nas células epiteliais da alça de Henle e dos túbulos contorcidos proximais. Glomeruloesclerose difusa ou nodular pode se desenvolver em diabetes de evolução muito prolongada. Figura 13.66 Pâncreas de um canino com fibrose (*) e perda das ilhotas pancreáticas. A alteração crônica no pâncreas desencadeou um quadro de diabetes mellitus. Cortesia de Dr. Saulo Petinatti Pavarini, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS. Figura 13.67 Pâncreas de um felino com diabetes mellitus. Notar a degeneração vacuolar das células das ilhotas pancreáticas. 400×. Cortesia de Indiana Animal Disease Diagnostic Laboratory, West Lafayette, Indiana, EUA. Complicações vasculares e infecciosas comuns em diabetes em seres humanos são raras nos animais domésticos. Pode ser que isso esteja relacionado com o curso menos prolongado dessa doença. Ocasionalmente, podese observar cistite enfisematosa (Figura 13.68), e alguns cães podem ter infecção bacteriana dos tratos urinário e respiratório e da pele. O enfisema decorre da fermentação do açúcar por bactérias como a Escherichia coli, que fermentam a glicose na bexiga urinária infectada. Figura 13.68 Bexiga urinária do cão com pancreatite crônica mostrada na Figura 13.66. A mucosa está hiperêmica e espessa, devido a formações bolhosas, caracterizando cistite enfisematosa associada à diabetes mellitus. Cortesia do Dr. Saulo Petinatti Pavarini, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS. Manifestações oculares de diabetes mellitus (em particular, catarata) ocorrem comumente em cães, porém são raras em gatos, possivelmente em decorrência da diferença no metabolismo do cristalino ou lente. Um estudo demonstrou que 75 a 80% da população canina com diagnóstico de diabetes mellitus desenvolveu catarata no período de 8 a 16 meses. A glicose penetra, com facilidade, no cristalino por meio do humor aquoso. Elevação persistente da glicose satura a via glicolítica anaeróbia normal das fibras do cristalino e o excesso de glicose é convertido em sorbitol e frutose pela redutase aldose. Ambos os sacarídios não se difundem livremente pela cápsula da lente. Como são osmóticos, causam influxo de água, resultando em edema e degeneração das fibras da lente. Essas alterações podem acarretar opacidade da lente e prejuízo na visão, inclusive por uveíte facolítica. Todavia, o rápido controle glicêmico pode resultar na recuperação da transparência lenticular. Prolongada hiperglicemia também provoca danos às células endoteliais da retina e resulta em uma sequência de alterações retinianas, chamada retinopatia diabética. Em seres humanos, perda da visão decorrente de retinopatia ocorre após muitos anos. Alterações de retinopatia em cães e gatos são limitadas à formação de microaneurismas em razão da perda dos pericitos dos vasos retinianos. Animais têm menor possibilidade de perder completamente a visão por causa da retinopatia do que seres humanos. Sinais clínicos da doença se manifestam em cães de 4 a 14 anos, com incidência maior entre 7 e 9 anos. Nessa espécie, as fêmeas são mais afetadas que os machos. Já em gatos, a ocorrência maior é em machos acima de 10 anos e com peso corporal superior a 6 kg. A maioria dos animais afetados apresenta sinais clássicos de poliúria e polidipsia compensatória, alterações causadas pela diminuição da utilização periférica de glicose, a qual acarreta acúmulo de glicose no sangue seguida de diurese osmótica. A insulina é anabólica; assim, insuficiência de insulina resulta em catabolismo proteico, acarretando perda de peso e atrofia muscular. Como consequência do catabolismo proteico, aminoácidos, como a alanina, são utilizados pelo fígado para promover gliconeogênese e, assim, aumentar ainda mais a glicemia. Outro agravante para a glicemia são os hormônios de estresse, tais como cortisol e epinefrina, que estimulam o catabolismo proteico e a glicogenólise, respectivamente. Desse modo, as alterações no metabolismo proteico contribuem para a hiperglicemia associada à diabetes mellitus. A hiperglicemia associada ao estresse é relatada principalmente em gatos. As alterações mais profundas de diabetes são as que ocorrem no metabolismo lipídico. A insulina inibe o sistema lipase hormôniosensitiva, que, na sua ausência, tornase ativado. Dessa maneira, a lipólise aumenta e ácidos graxos não esterificados são assimilados pelos hepatócitos. Com a deficiência de insulina, o metabolismo lipídico no fígado tornasealterado e ácidos graxos são convertidos em corpos cetônicos (ácido acetoácido, acetona e betahidroxibutirato), originando a fase cetônica de diabetes insulinodependente. Nessa fase de cetoacidose de diabetes, a falta de insulina provoca acúmulo de ■■ corpos cetônicos e ácido láctico no sangue, bem como perda de eletrólitos e água na urina, alterações que resultam em desidratação profunda, hipopotassemia, acidose metabólica e choque hipovolêmico. Cetonúria e diurese osmótica em consequência de glicosúria causam perda de sódio e potássio na urina e exacerbam a hipovolemia e a desidratação, que podem determinar azotemia prérenal e diminuição da filtração glomerular. Por conseguinte, pode haver exacerbação da glicemia e da cetonemia. Os altos níveis de glicose e corpos cetônicos podem estimular o centro do vômito, ocasionando náuseas, anorexia e perda de peso. Polineuropatia diabética é manifestação pouco comum da doença em cães e gatos. Os sinais clínicos em cães caracterizam se por paraparesia progressiva simétrica, com postura anormal, diminuição dos reflexos espinais e atrofia muscular. Em casos graves, os membros torácicos também podem ser afetados, resultando em tetraparesia. Em gatos, posição plantígrada provocada por rebaixamento bilateral dos tarsos em diminuição ao reflexo patelar e dos membros pélvicos é considerada característica. As alterações patológicas nos nervos variam com a extensão da doença. Classicamente, há degeneração axônicoprimária e desmielinização secundária. A patogênese da lesão nervosa não é bem entendida, mas há evidências de que possa ser multifatorial. Alterações na permeabilidade decorrentes da redução na atividade da ATPase e glicosilação não enzimática podem estar envolvidas no desenvolvimento dessa lesão. Doenças especí잒乀cas Diabetes insipidus É uma doença decorrente da síntese ou da secreção insuficiente de ADH [diabetes insipidus central (DIC)] ou da falta de resposta renal a esse hormônio [diabetes insipidus nefrogênica (DIN)]. O resultado, em ambos os casos, é a inabilidade (parcial ou completa) do organismo de conservar água e concentrar urina. Os sinais clínicos típicos da doença são poliúria e polidipsia compensatória, com gravidade específica da urina em torno de 1.001 a 1.006 e osmolaridade menor que 290 mOsm/kg (hipostenúria). Em casos graves, a ingestão de água e o volume urinário produzido podem ser enormes. Já na forma parcial ou incompleta da doença, o volume urinário pode estar elevado apenas moderadamente. Em resposta à deprivação de água, a osmolaridade da urina permanece abaixo daquela do plasma em ambas as formas, ao contrário do que se observa em animais normais. A elevação da osmolaridade da urina acima daquela do plasma em resposta ao ADH exógeno na forma central, porém não na nefrogênica, possibilita estabelecer o diagnóstico clínico diferencial entre as duas formas da doença. DIC é resultante da compressão e destruição da neurohipófise, do pedúnculo infundibular ou do hipotálamo. Em um dos relatos da forma congênita da doença, foram observadas lesões vacuolares no trato hipotálamohipofisário (interpretadas como desmielinização), mas, muitas vezes, as alterações associadas a essa forma da doença são desconhecidas. Já lesões adquiridas que resultam na falha da síntese ou secreção de ADH são mais comuns, incluindo tumores intracraniais (principalmente tumores hipofisários primários, mas também craniofaringiomas, meningiomas e tumores metastáticos são identificados como alterações causativas da doença), infecções, infestações parasitárias, cistos e, raramente, traumatismo grave acompanhado de hemorragia e proliferação glial na região da neurohipófise. Outra causa de DIC adquirida, cada vez mais frequente atualmente, é a cirurgia hipofisária. O distúrbio é observado logo após a cirurgia; na grande maioria dos casos, no entanto, ele desaparece espontaneamente após alguns dias ou meses. Essa remissão espontânea da doença ocorre, provavelmente, em consequência da regeneração de axônios danificados no pedúnculo infundibular. Quando nenhuma lesão pode ser demonstrada nas regiões neurohipofisária e/ou hipotalâmica, a doença é dita idiopática. A forma nefrogênica de diabetes insipidus, caracterizada por níveis normais ou elevados de ADH e por incapacidade da célulaalvo nos túbulos convolutos distais e nos ductos coletores renais de responder a esse hormônio, pode ser primária ou adquirida. Nos animais domésticos, a forma primária de DIN é um distúrbio congênito raro em cães e cavalos. Os sinais clínicos típicos de poliúria e polidipsia quase sempre se tornam aparentes entre 2 e 3 meses de idade. Enquanto a causa na maioria dos casos permanece por ser esclarecida, Huskies afetados pela doença congênita com padrão de herança ligada ao cromossomo X apresentam uma mutação que afeta a afinidade pelo ADH do receptor V2 nas célulasalvo. A forma adquirida está associada a várias doenças, que podem ser enquadradas, de modo geral, em três categorias principais: doença renal intrínseca, distúrbios metabólicos e diabetes insipidus induzida por medicamentos (forma iatrogênica). Exemplos de distúrbios renais e endócrinos, que resultam na inabilidade adquirida de concentrar a urina, incluem pielonefrite, piometra, hipercalcemia e hiper e hipoadrenocorticismo. Entre os medicamentos que podem causar poliúria e polidipsia estão glicocorticoides, anticonvulsivantes (p. ex., fenobarbital) e levotiroxina. Convém lembrar, todavia, que se devem excluir primeiro outras doenças mais comuns que cursam com esses sinais clínicos (p. ex., doença renal crônica e diabetes mellitus) antes de investigar a possibilidade de se tratar de diabetes insipidus. Bibliogra잒乀a ALLENSPACH, K.; ARNOLD, P.; GLAUS, T. et al. Glucagonproducing neuroendocrine tumour associated with hypoaminoacidemia and skin lesions. J. Small Anim. Pract., v. 41, p. 402406, 2000. BANKS, W. J. Applied veterinary histology. 3. ed. St. Louis: Mosby, 1993. 527 p. BARKER, I. K.; VAN DREUMEL, A. A.; PALMER, N. The alimentary system. In: JUBB, K. V. F.; KENNEDY, P. C.; PALMER, N. Pathology of domestic animals. 4. ed. 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