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FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 1 Problema 1 Só dói quando respira # Objetivos # 1-Rever a anatomia da caixa torácica (vasos, pleuras, pulmões). 2-Discorrer sobre os mecanismos da dor traumática aguda. 3-Diferenciar os tipos de dor (traumática e pleurítica) semiologicamente. 4-Descrever os mecanismos de ação das medicações tópicas (visão crítica). 5-Discutir sobre as implicações da automedicação. 6-Discorrer sobre a conduta em caso de hemotórax. Objetivo 1: ➢ Anatomia do tórax: O tórax é um cilindro de forma irregular com uma abertura estreita (abertura torácica superior) superiormente e uma abertura relativamente grande (abertura torácica inferior) inferiormente. A abertura torácica superior não se fecha, permitindo a continuidade com o pescoço; e a abertura torácica inferior é fechada pelo diafragma. A parede músculo-esquelética do tórax é flexível e consiste em vértebras dispostas de maneira segmentar, costelas, músculos e o esterno. A cavidade torácica, encerrada pela parede torácica e diafragma, subdivide-se em 3 compartimentos maiores: - Uma cavidade pleural esquerda circundando o pulmão esquerdo; - Uma cavidade pleural direita circundando o pulmão direito; - Mediastino. O mediastino é composto por um conjunto de partes moles, espessas e flexíveis orientadas longitudinalmente em uma posição sagital mediana. Contém o coração, o esôfago, a traqueia, os grandes nervos e os grandes vasos sistêmicos. As cavidades pleurais são completamente separadas entre si pelo mediastino. Portanto, eventos anormais em uma cavidade pleural não afetam necessariamente a outra cavidade. Isto também significa que se pode entrar no mediastino cirurgicamente sem abrir as cavidades pleurais. Outra característica importante das cavidades pleurais é que se estendem acima do nível da costela 1. Como consequência, eventos anormais na raiz do pescoço podem envolver a pleura e o pulmão adjacentes, e os eventos na pleura e pulmão adjacentes podem envolver a raiz do pescoço. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 2 • Funções: 1.Respiração: Uma das mais importantes funções do tórax é a respiração. O tórax não somente contém os pulmões, mas também fornece o maquinário necessário (o diafragma, a parede torácica e as costelas) para movimentar efetivamente o ar para dentro e para fora dos pulmões. Os movimentos do diafragma para cima e para baixo e as variações nas dimensões laterais e anteriores da parede torácica, causadas por movimentos das costelas, alteram o volume da cavidade torácica e são elementos-chave na respiração. 2.Proteção dos órgãos vitais: O tórax abriga e protege o coração, os pulmões e os grandes vasos. Devido à forma em cúpula do diafragma, a parede torácica também oferece proteção a algumas vísceras abdominais importantes. Grande parte do fígado situa-se abaixo da cúpula direita do diafragma e o estômago e o baço situam-se abaixo da esquerda. As partes posteriores dos pólos superiores dos rins situam-se abaixo do diafragma e são anteriores à XII costela, à direita, e a XI e XII costelas, à esquerda. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 3 3.Conduto: O mediastino atua como conduto para estruturas que atravessam completamente o tórax de uma região do corpo a outra e para estruturas que ligam órgãos no tórax a outras regiões corporais: - O esôfago, os nervos vagos e o ducto torácico atravessam o mediastino e têm um trajeto entre o abdome e o pescoço; - Os nervos frênicos, que se originam no pescoço, também atravessam o mediastino, penetrando e inervando o diafragma; - Outras estruturas, como a traquéia, a aorta torácica e a veia cava superior têm um trajeto dentro do mediastino a caminho dos grandes órgãos viscerais no tórax e provenientes deles. • Parede torácica: A parede torácica consiste em elementos esqueléticos e músculos: - Posteriormente, é composta por 12 vértebras torácicas e seus discos intervertebrais interpostos; - Lateralmente, a parede é formada por costelas (12 a cada lado) e 3 camadas de músculos planos, que cobrem os espaços intercostais entre costelas adjacentes, movimentam as costelas e dão suporte para os espaços intercostais; - Anteriormente, pelo esterno, que consiste no manúbrio do esterno, no corpo do esterno e no processo xifoide. O manúbrio do esterno, angulado posteriormente no corpo do esterno na articulação manubrioesternal, forma o ângulo do esterno, que é um importante ponto de referência de superfície usado por clínicos na realização de exame físico do tórax. A extremidade anterior (distal) de cada costela é composta pela cartilagem costal, que contribui para a mobilidade e elasticidade da parede. Todas as costelas se articulam com as vértebras torácicas posteriormente. A maioria das costelas (II a IX) tem três articulações com a coluna vertebral. A cabeça de cada costela articula-se com o corpo de FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 4 sua própria vértebra e com o corpo da vértebra acima. Como estas costelas curvam-se posteriormente, cada uma também se articula com o processo transverso de sua vértebra. - Costelas I a VII = Articulam-se com o esterno; - Costelas VIII a X = Articulam-se com as margens inferiores das cartilagens costais acima delas. - Costelas XI e XII = São chamadas costelas flutuantes porque não se articulam com outras costelas, cartilagens costais ou com o esterno. Suas cartilagens costais são pequenas, apenas cobrindo suas extremidades. A estrutura esquelética da parede torácica fornece extensos pontos de fixação para músculos do pescoço, abdome, dorso e membros superiores. Muitos destes músculos se fixam a costelas e funcionam como músculos respiratórios acessórios; alguns deles também estabilizam a posição da primeira e da última costela. 1.Irrigação arterial: Os vasos que irrigam a parede torácica consistem principalmente em artérias intercostais posteriores e anteriores, que passam em torno da parede entre as costelas adjacentes nos espaços intercostais. Estas artérias se originam da aorta e das artérias torácicas internas (que originam-se das artérias subclávias na raiz do pescoço). Em conjunto, as artérias intercostais formam um padrão em cesta de irrigação vascular em torno da parede torácica. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 5 1.1.Artérias intercostais posteriores: As artérias intercostais posteriores originam-se de vasos associados à parede torácica posterior. As 2 primeiras artérias intercostais posteriores a cada lado são derivadas da artéria intercostal suprema, que desce no tórax como ramo do tronco costocervical no pescoço. O tronco costocervical é um ramo posterior da artéria subclávia. Os nove pares restantes de artérias intercostais posteriores originam-se da superfície posterior da aorta torácica. Como a aorta está no lado esquerdo da coluna vertebral, aqueles vasos intercostais posteriores que passam no lado direito da parede torácica atravessam a linha média anteriormente aos corpos das vértebras e, portanto, são mais longos que os vasos correspondentes à esquerda. 1.2.Artérias intercostais anteriores: As artérias intercostais anteriores originam-se direta ou indiretamente como ramos laterais das artérias torácicas internas. As artérias intercostais anteriores, que irrigam os 6 espaços intercostais superiores, originam-se como ramos laterais da artéria torácica interna, enquanto as que irrigam os espaços inferiores originam-se da artéria musculofrênica. Em cada espaço intercostal, há geralmente 2 artérias intercostaisanteriores: - Uma passa abaixo da margem da costela superior; - Uma passa acima da margem da costela inferior e une-se a um ramo colateral da artéria intercostal posterior. 2.Drenagem venosa: A drenagem venosa da parede torácica, em geral, é paralela ao padrão de irrigação arterial. Centralmente, as veias intercostais finalmente drenam para o sistema ázigo de veias ou para as veias torácicas internas, que se ligam às veias braquiocefálicas no pescoço. Muitas vezes, as veias intercostais posteriores superiores no lado esquerdo unem-se e formam a veia intercostal superior esquerda, que desemboca na veia braquiocefálica esquerda. Semelhantemente, as veias intercostais posteriores superiores, no lado direito, podem unir-se e formar a veia intercostal superior direita, que desemboca na veia ázigo. • Diafragma: O diafragma musculotendíneo veda a abertura torácica inferior. Em geral, as fibras musculares do diafragma originam-se radialmente, a partir das margens da abertura torácica inferior, e convergem para um grande tendão central. A fixação posterior do diafragma é inferior à fixação anterior. O diafragma não é plano; faz um "balão" superiormente tanto à direita quanto à esquerda, formando cúpulas. A cúpula direita é mais alta que a esquerda, chegando até a costela V. À medida que o diafragma se contrai, a altura das cúpulas diminui e o volume do tórax aumenta. O esôfago e a veia cava inferior penetram o diafragma; a aorta passa posteriormente ao diafragma. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 6 • Mediastino: O mediastino é uma porção espessa na linha média que se estende do esterno (anteriormente) até as vértebras torácicas (posteriormente), e da abertura torácica superior à abertura torácica inferior. Um plano horizontal que passe pelo ângulo do esterno e pelo disco intervertebral entre as vértebras TIV e TV separa o mediastino em: - Superior; - Inferior (subdividida pelo pericárdio); - Médio (constituído pelo pericárdio e pelo coração; - Anterior (situa-se entre o esterno e o pericárdio); - Posterior (situa-se entre o pericárdio e as vértebras torácicas). • Cavidades pleurais: As 2 cavidades pleurais estão situadas a cada lado do mediastino. Cada cavidade pleural é completamente revestida por uma membrana mesotelial chamada pleura. Durante o desenvolvimento, os pulmões crescem para fora do mediastino, ficando cercados pelas cavidades pleurais. Como resultado, a superfície externa de cada órgão é coberta por pleura. Cada pulmão continua fixado ao mediastino por uma raiz formada pelas vias aéreas, vasos pulmonares, tecidos linfáticos e nervos. A pleura que reveste as paredes da cavidade é a pleura parietal, enquanto a que reveste superfícies dos pulmões é a pleura visceral. Normalmente, existe apenas um espaço potencial entre a pleura visceral, cobrindo o pulmão, e a pleura parietal que reveste a parede da cavidade torácica. O pulmão não preenche completamente o espaço potencial da cavidade pleural, resultando em recessos, que não contêm pulmão e que são importantes para acomodar alterações do volume pulmonar durante a respiração. O recesso costodiafragmático, que é o maior e clinicamente mais importante, situa- se inferiormente entre a parede torácica e o diafragma. 1.Recessos pleurais: Os pulmões não se enchem completamente nas regiões inferiores anterior ou posterior das cavidades pleurais. Isto resulta em recessos nos quais duas camadas de pleura parietal se tornam opostas. A expansão dos pulmões nestes espaços geralmente ocorre apenas durante a inspiração forçada; os recessos também fornecem espaços em potencial nos quais os líquidos podem ser aspirados. São eles: - Recessos costomediastinais; - Recessos costodiafragmáticos. • Pulmões: Os dois pulmões são órgãos da respiração que se situam a cada lado do mediastino, cercados pelas cavidades pleurais direita e esquerda. O ar entra nos pulmões e sai deles através dos brônquios principais, que são ramos da traqueia. As artérias pulmonares oferecem aos pulmões sangue desoxigenado proveniente do ventrículo direito do coração. O sangue oxigenado retorna ao átrio esquerdo através das veias pulmonares. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 7 O pulmão direito normalmente é um pouco maior que o esquerdo por causa do mediastino médio que, contendo o coração, desvia-se mais para a esquerda do que para a direita. Cada pulmão tem uma forma de meio cone, com 1 base, 1 ápice, 2 faces e 3 margens. - A base assenta-se no diafragma; - O ápice projeta-se acima da costela I e entra na raiz do pescoço; - 2 faces: * Face costal situa-se imediatamente adjacente às costelas e aos espaços intercostais da parede torácica. * Face mediastinal situa-se contra o mediastino anteriormente e a coluna vertebral posteriormente e contém o hilo em forma de vírgula do pulmão, através do qual as estruturas entram e saem. - 3 margens: * Margem inferior do pulmão é aguda e separa a base da face costal. * Margens anterior e posterior separam a face costal da face mediastinal. Diferentemente das margens anterior e inferior, que são agudas, a margem posterior é lisa e arredondada. Os pulmões situam-se diretamente adjacentes às demais estruturas contidas no tórax. O coração e os grandes vasos formam abaulamentos, no mediastino, que indentam as faces mediastinais do pulmão; as costelas indentam as faces costais. Patologias, como os tumores, ou anormalidades em uma estrutura podem afetar a estrutura relacionada. 1.Pulmão direito: O pulmão direito tem 3 lobos e 2 fissuras. Normalmente, os lobos são livremente móveis um contra o outro porque são separados, quase no hilo, por invaginações de pleura visceral. Estas invaginações formam as fissuras: - A fissura oblíqua separa o lobo inferior do lobo superior (no pulmão esquerdo) e separa o lobo inferior do lobo médio (no pulmão direito); - A fissura horizontal separa o lobo superior do lobo médio (presente apenas no pulmão direito). A face mediastinal do pulmão direito situa-se adjacente a algumas estruturas importantes do mediastino e na raiz do pescoço: - Coração; - Veia cava inferior; - Veia cava superior; - Veia ázigo; - Esôfago. 2.Pulmão esquerdo: O pulmão esquerdo é menor que o pulmão direito e tem 2 lobos separados por 1 fissura oblíqua. A fissura oblíqua do pulmão esquerdo é um pouco mais acentuada que a fissura correspondente do pulmão direito. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 8 A maior superfície do lobo superior está em contato com a parte superior da parede ântero-lateral, e o ápice deste lobo projeta-se para a raiz do pescoço. A face costal do lobo inferior está em contato com as paredes posterior e inferior. A parte inferior da face mediastinal do pulmão esquerdo, diferentemente do pulmão direito, tem uma incisura devido à projeção do coração na cavidade pleural esquerda a partir do mediastino médio. Na superfície anterior da parte inferior do lobo superior, uma extensão em forma de língua (a língula do pulmão esquerdo) projeta-se sobre o abaulamento do coração. A face mediastinal do pulmão esquerdo situa-se adjacente a algumas estruturas importantes no mediastino e na raiz do pescoço. Estas incluem: - Coração. - Arco aórtico, - Aorta torácica, - Esôfago. A artéria e a veia subclávias esquerdas fazem arco sobre o lobo superior do pulmão esquerdo e estão relacionadas com ele ao passarem sobre a cúpula da pleura cervical e entrarem na axila. 3.Árvore bronquial: A traqueia é um tubo flexível que se estende do nível da vértebra CVI ao nível vértebra TIV/V onde se bifurca em brônquios principais direito e esquerdo. A traqueia é mantida abertapor peças de cartilagem em forma de C contidas em sua parede (a parte aberta do "C" está voltada posteriormente). A parede posterior da traqueia é composta principalmente por musculatura lisa. Cada brônquio principal entra na raiz do respectivo pulmão e atravessa o hilo, para o interior do próprio pulmão. O brônquio principal direito é mais largo e assume um trajeto mais vertical do que o brônquio principal esquerdo. Portanto, corpos estranhos inalados tendem a alojar-se mais frequentemente no lado direito que no esquerdo. O brônquio principal divide-se dentro do pulmão em brônquios lobares (brônquios secundários), e cada um dos quais supre um lobo. Os brônquios lobares ainda se subdividem em brônquios segmentares (brônquios terciários), que suprem os segmentos broncopulmonares. Dentro de cada segmento broncopulmonar, os brônquios segmentares dão origem a múltiplas gerações de divisões e, finalmente, a bronquíolos, que ainda se subdividem e suprem as superfícies respiratórias. As paredes dos brônquios são mantidas abertas por placas cartilaginosas alongadas descontínuas, mas estas não estão presentes nos bronquíolos. Brônquios principais → Brônquios lobares → Brônquios segmentares 4.Artérias e veias bronquiais: As artérias e veias bronquiais constituem o sistema vascular "nutriente" dos tecidos pulmonares (paredes e glândulas bronquiais, paredes dos grandes vasos e pleura visceral). Interconectam-se, dentro do pulmão, com ramos das artérias e veias pulmonares. As artérias bronquiais originam-se da aorta torácica ou de um de seus ramos. As artérias bronquiais correm nas superfícies posteriores dos brônquios e ramificam-se nos pulmões para irrigar os tecidos pulmonares. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 9 As veias bronquiais drenam para: - As veias pulmonares ou o átrio esquerdo; - A veia ázigo à direita ou para a veia intercostal superior ou a hemiázigo à esquerda. Objetivo 2: ➢ Nomenclaturas: - Dor = Experiência sensitiva desagradável associada à lesão atual ou potencial; - Dor referida = Distante da área da lesão; - Limiar de dor = Menor intensidade de estímulo que leva à percepção da dor; - Neuralgia = Dor na distribuição do nervo que pode ou não ser acompanhada de sinais; - Hiperalgesia = Aumento da resposta ao estímulo que normalmente é doloroso; - Hiperestesia = Aumento da sensibilidade ao estímulo; - Hiperpatia = Síndrome dolorosa caracterizada por aumento da reação ao estímulo, especialmente se for repetitivo; - Hipoestesia = Diminuição da sensibilidade ao estímulo, excluindo os sentidos especiais; - Hipoalgesia = Diminuição da sensibilidade ao estímulo nóxico; - Analgesia = Ausência de dor ao estímulo nociceptivo; - Anestesia dolorosa = Dor em região adormecida; - Neurite = Inflamação do nervo; - Neuropatia = Distúrbio da função ou alteração patológica do nervo; - Alodínia = Dor ao estímulo que normalmente não provoca dor; - Parestesia (formigamento) = Sensação anormal, espontânea ou evocada nem sempre desagradável; - Disestesia = Sensação anormal, espontânea ou evocada sempre desagradável. ➢ Classificação da dor: A dor pode ser classificada em relação à: - Fisiopatologia; - Duração; - Localização; - Etiologia; - Dependência do sistema simpático; - Região afetada; - Síndrome. • Fisiopatologia: - Nociceptiva = Trauma, infecção, degeneração articular, invasão de tumor em osso: 1. Funcional: 1.1. Somática (cãibra): * Superficial. * Profunda. 1.2. Visceral (enxaqueca): FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 10 2. Orgânica: 2.1. Somática: * Superficial (infecção em pele). * Profunda (artrite). 2.2. Visceral (tumor). - Neuropática = Neuralgia pós-herpética, neurite traumática, síndrome complexa de dor regional (SCDR), neuralgia do trigêmeo: 1. Funcional (SCDR tipo I); 2. Orgânica: 2.1. Central (pós-AVC, lesão medular). 2.2. Periférica (neuropatia diabética, neuralgia pós-herpética). - Psicogênica. • Duração: - Aguda = Desaparece junto com a lesão; - Crônica = Permanece e tem duração maior que 3 a 4 meses. • Localização: - Somática = Artrite, tumor ósseo, tendinite, bursite: * A dor somática cutânea é fina, bem localizada em áreas superficiais, em pontada ou queimação. * A dor somática profunda é surda, menos localizada, mais difusa e profunda. - Visceral = Infarto do miocárdio, obstrução intestinal, tumor no pâncreas. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 11 • Etiologia: - Trauma; - Cirurgia; - Herpes-zóster; - Câncer; - Hérnia de disco; - Infecção; - Isquemia; - Espasmo. • Dependência do sistema simpático: - Mantidas pelo simpático = SCDR, neuralgia, dor inflamatória, dor central, dor fantasma. • Região afetada: - Cefálica; - Cervical; - Torácica; - Abdominal; - Lombar; - Pélvica; - Dos membros. • Síndrome: - Lombalgia e lombociatalgia; - Cervicobraquialgia; - Miofascial; - Fibromiálgica; - SCDR; - Central; - Neuropatia; - Trauma. ➢ Fisiopatologia da dor nociceptiva: A dor pode ser nociceptiva (resultante da ativação de nociceptores) ou neuropática (resultante de alteração ou lesão do sistema nervoso). Nocicepção é um termo neurofisiológico que se refere aos mecanismos neurológicos mediante os quais um estímulo lesivo é detectado. O primeiro passo para originar a dor é a transformação de um estímulo lesivo em potencial de ação (transdução), que será transmitido ao SNC através de fibras nervosas periféricas. A partir de um potencial gerado nos nociceptores (viscerais, osteoarticulares, musculoesqueléticos ou tegumentares), o estímulo seguirá pelas fibras aferentes primárias até a medula espinal e, através de FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 12 vias ascendentes, será projetado no córtex (onde ocorre a percepção consciente da dor), após conexões com estruturas (tálamo e formação reticular). A lesão tecidual provoca formação e liberação de substâncias que sensibilizam e ativam os nociceptores, seguidas de transmissão do impulso para a medula espinal e para os centros supra- espinais. - Nociceptores = São terminações nervosas livres de fibras A-delta e fibras C, que respondem aos estímulos mecânicos, térmicos ou químicos e responsáveis pela transmissão da dor. Existem 3 classes de nociceptores: 1- Mecanoceptores = Sensíveis a estímulo mecânico intenso; 2- Termoceptores = Ativados por temperaturas extremas; 3- Polimodais = Respondem a estímulo térmico, mecânico e químico. Diferenças das fibras: - Fibras A-delta (primeira dor): * Pouco mielinizadas. * Com maior velocidade de condução que as fibras C. * Responsáveis pela primeira dor. - Fibras C (segunda dor): * Amielínicas. * Responsáveis pela segunda dor. • Mediadores periféricos da dor: Os nociceptores polimodais são os que mais respondem aos estímulos térmicos, mecânicos e, principalmente, químicos. Existem nociceptores silenciosos ou latentes que normalmente não respondem ao estímulo intenso, mas passam a exibir atividade espontânea na presença de mediadores inflamatórios (gerados por lesão tecidual, vasos, células imunológicas, nervos sensitivos e simpático). A lesão é responsável por liberação ou formação de diferentes substâncias que sensibilizam ou ativam os nociceptores. Essas substâncias agem por meio de receptores e canais presentes na membrana dos nociceptores: FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 13 - Cininas (bradicinina e calicreína) = Agem por meio da ligação a receptores B1 e B2, provocandodor e hiperalgesia na inflamação. A bradicinina causa dor por estimulação direta de nociceptores por meio da ativação de receptores B2 encontrados nas fibras C e fibras A-delta, bem como sensibilização por meio da interação sinérgica com outros algógenos (prostaglandinas, serotonina, citocinas e histamina); - Serotonina (5HT) = Causa excitação de neurônio por aumento da permeabilidade ao íon sódio, agindo em receptores 5HT1, 5HT1D, 5HT2 e 5HT3; - Histamina = É liberada por ação de substância-P (SP), IL-1 e fator de crescimento neural (NGF), e age por meio da ligação dos receptores H1, causando aumento da permeabilidade ao íon cálcio; - Prostaglandinas (PG); - Citocinas = A liberação de TNF-alfa e IL-1-beta por células imunológicas (macrófagos e leucócitos) e a liberação de prostaglandinas, provocam hiperalgesia; - ATP, Adenosina e AMPc = O ATP causa a ativação direta de neurônios sensitivos provocando dor. A hidrólise rápida de ATP forma adenosina, que causa dor e hiperalgesia pela ação em receptores A2. A adenosina ativa os receptores A1, acarretando diminuição da excitabilidade por bloquear a permeabilidade ao íon cálcio ou aumentar a permeabilidade ao íon potássio. O monofosfato de adenosina cíclico (AMPc) gera redução da permeabilidade ao íon potássio com hiperexcitabilidade; - Íons diversos; - Óxido nítrico (NO) = A lesão, a inflamação e a ativação de neurônio sensitivo geram NO que causa ativação das fibras sensitivas, provocando liberação de péptide relacionado ao gene da calcitonina (CGRP); - Prótons (ácido lático) = Causam ativação direta de nociceptores e aumento da permeabilidade a íons, com ativação de nervo e aumento da sensibilidade. A percepção da dor reflete a ativação de nociceptores e a transmissão do estímulo para a medula espinal e para os centros supra-espinais. Existem mecanismos periféricos e centrais para aumentar ou inibir a transmissão da dor. A mensagem da dor que atinge o córtex cerebral pode ser alterada e essa plasticidade ou capacidade de mudança na transmissão da dor e de sua modulação varia nas diferentes síndromes dolorosas. • Sensibilização periférica: A dor resulta da ativação de nociceptores periféricos por estímulos térmicos, mecânicos ou químicos potencialmente lesivos. A informação é transmitida para o SNC através de fibras A-delta e fibras C. Estímulos intensos e prolongados provocam liberação de substâncias responsáveis por inflamação que pode durar horas ou dias; a persistência do estímulo causa alterações no SNC. A lesão provoca alterações na sensibilidade das fibras nervosas, denominada sensibilização periférica, com aumento da atividade espontânea neuronal, diminuição do limiar necessário para ativação dos nociceptores e aumento da resposta a estímulos. A sensibilização periférica provoca hiperalgesia, que é uma resposta exagerada aos estímulos dolorosos. A hiperalgesia ocorre no local da lesão, enquanto a secundária ocorre ao redor da lesão. Os nociceptores silenciosos normalmente não são sensíveis aos estímulos; porém, na presença de sensibilização, passam a responder de maneira intensa, mesmo a estímulos não-nociceptivos. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 14 A resposta inflamatória que ocorre após a lesão tissular é caracterizada pela liberação de substâncias como prostaglandinas e leucotrienos, que provocam diminuição do limiar de excitabilidade dos nociceptores. Diversas substâncias são responsáveis pela ativação ou sensibilização dos nociceptores (já vistos): - Bradicinina; - Serotonina; - Histamina; - Íons hidrogênio e potássio; - ATP; - Substância P (SP); - Prostaglandinas (PGE-1, PGE-2, PGI-1, PGF-2-alfa); - Leucotrieno B-4 (LTB-4); - IL-6, IL-8, TNF-alfa e NGF; - Noradrenalina; - NO; - Adenosina. Os mediadores inflamatórios desencadeiam a produção de ácido araquidônico, cujo metabolismo leva à formação de: - Prostaglandinas pela via da cicloxigenase (COX); - Leucotrienos pela via da lipoxigenase. A COX-1 está presente em diferentes tecidos e tem função essencial para o balanço eletrolítico renal e para a citoproteção da mucosa gástrica. A COX-2 é produzida na inflamação, mas também tem função importante nos rins. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 15 • Medula espinal: A maior parte dos neurônios que transmitem dor entra na medula espinal via raiz dorsal, mas 20 a 30% das fibras são ventrais. Na medula espinal, a inter-relação entre neurônio espinal, excitabilidade e inibição determina a mensagem que é transmitida para centros supra-espinais (tálamo, formação reticular, sistema límbico e córtex). Nesse processo, estão envolvidos diversos neurotransmissores: - Excitatórios: * Substância-P. * Glutamato. * Neurocinina-A. * Aspartato. - Inibitórios: * Encefalina. * Serotonina. * Noradrenalina. * GABA. * Glicina. * Acetilcolina. Os neurotransmissores excitatórios são liberados nas terminações nervosas aferentes e ativam receptores neurocinina, AMPA e NMDA, resultando em aumento da entrada de íons cálcio na célula, desencadeando uma série de eventos responsáveis pela sensibilização central. A estimulação dos nociceptores periféricos causa liberação de neurotransmissores excitatórios no corno dorsal da medula espinal, que resulta na ativação do segundo neurônio da dor e das vias ascendentes que transmitem dor para centros supra-espinais. A sinapse das fibras periféricas com o segundo neurônio é feita 2 a 3 metâmeros (segmentos) acima do local de entrada na medula espinal, após as fibras periféricas terem feito parte do trato de Lissauer. Esse feixe está localizado na região periférica da medula espinal e é constituído de fibras aferentes periféricas e de neurônios da medula espinal. As fibras A-delta e as fibras C terminam no corno dorsal da medula espinal, nas lâminas I, II e V de Rexed. O corno dorsal é dividido em 6 lâminas de acordo com as diferenças de neurônios. Nas lâminas I e V, estão a maioria dos neurônios que fazem parte das vias ascendentes da dor. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 16 Diversos neurotransmissores são responsáveis pela transmissão da dor da periferia para os SNC, em especial o glutamato e a substância-P. A transmissão sináptica envolve a ação dessas substâncias em receptores AMPA (alfa-amino-3-hidroxi-5-metilisoxasol-5-propionato) e receptores NMDA (N-metil-D- aspartato). Estímulos repetidos provocam ativação de receptores NMDA, seguida de despolarização maciça (wind up). Os estímulos que atingem a medula espinal também ativam neurônios do sistema simpático e motor, com vasoconstrição e contratura muscular. • Sensibilização central: Há mecanismos tanto para diminuir quanto para aumentar a transmissão da dor. Entendendo os eventos espinais que podem aumentar a resposta dos neurônios aos estímulos aferentes, pode-se explicar a transmissão da dor em diversas síndromes, em que há alteração da relação entre estímulo e resposta. A base para essa ausência de relação entre estímulo e resposta é a geração da hipersensibilização central. Com estimulação persistente de nociceptores, observa-se diminuição do limiar de sensibilidade, com surgimento de dor espontânea, dor aos estímulos normalmente não-dolorosos (alodínia) e hiperalgesia, que persistem mesmo após resolução da lesão tissular, mostrando que a sensibilização periférica não é responsável por todas as alterações. Para que ocorram alterações na medula espinal, é necessário que a ativação dos aferentes periféricos resulte na liberação de substâncias (substância-B, neurocinina-A, glutamato, aspartato, etc.), gerando potenciais pós-sinápticos pela ação em receptores AMPA, neurocinina, metabotrópicose NMDA. Estímulos frequentes de fibras C resultam em aumento intenso e duradouro da atividade de certos neurônios da medula espinal. Estímulos repetidos de intensidade suficiente podem aumentar o evento excitatório espinal. Há liberação de péptides e neurotransmissores em grande quantidade e durante períodos prolongados (maior que durante estimulação nóxica aguda). Como consequência, ocorre ativação de receptores NMDA e hiperexcitabilidade de neurônios do SNC denominada sensibilização central. A liberação de substância-P é importante na sensibilização central porque causa diminuição do limiar de excitabilidade da sinapse, com desmascaramento de sinapses normalmente silenciosas e sensibilização de segundo neurônio da medula espinal. A substância-P também pode difundir no corno dorsal, sensibilizando os neurônios a alguma distância, com aumento da extensão da dor, denominada expansão de campo receptivo. Essas alterações resultam em dor mais intensa e prolongada. A sensibilização central é desencadeada por impulsos sensitivos transmitidos pelas fibras C e é caracterizada por aumento da atividade espontânea, diminuição do limiar, despolarização prolongada após estímulos repetidos e expansão de campos receptivos periféricos. Essas mudanças resultam em transmissão da dor através de fibras sensitivas A-beta, que normalmente não conduzem dor. Após sensibilização, a sensação não-nociceptiva será percebida como dolorosa (alodínia) e o estímulo nociceptivo, como mais doloroso (hiperalgesia). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 17 Dentre os muitos outros fatores causais para hipersensibilidade, a alteração de fenótipo e a alteração anatômica diminuem o limiar do neurônio e permitem o acesso a diferentes impulsos para transmissão. Entretanto, como um mecanismo que aumenta a transmissão sem necessitar de alteração na barragem da aferência, o wind up é de suma importância. • Fenômeno wind up: Wind up é o aumento da resposta de certos neurônios nociceptivos de maneira súbita e marcante, tanto em intensidade quanto em duração da atividade. Estímulo repetido de fibras C de intensidade constante causa wind up em neurônio medular. O wind up depende da frequência de estímulos; estímulos repetidos produzem aumento cumulativo da despolarização. Possivelmente, estímulo intenso de fibras A-delta também cause wind up. Para que ocorra esse fenômeno, são necessárias a ativação de receptores NMDA por glutamato, a remoção de íons magnésio (que bloqueiam o canal) e a ação moduladora de taquicininas. A despolarização provocada por taquicininas causa deslocamento de magnésio de receptores NMDA, com passagem de cálcio para o interior dos neurônios, desencadeando uma cascata de eventos. O wind up pode explicar como um estímulo persistente de nervo periférico pode causar alodínia, hiperalgesia e dor persistente. Uma vez instalado o wind up, as respostas de todos os neurônios estarão aumentadas. Esse aumento da resposta a estimulo constante repetido é evento importante para hipersensibilidade. Os estímulos intensos ativam os receptores NMDA e os receptores AMPA (participam da transmissão espinal para eventos nóxicos e não-nóxicos). Os receptores NMDA têm função no aumento do processamento espinal de informação dolorosa. Os receptores AMPA são ativados por estímulo de fibras A-delta e fibras C, mas somente a estimulação de fibras C causa liberação de péptides. Os péptides podem provocar a despolarização necessária para remover o bloqueio e permitir a ativação de receptores NMDA. O início de wind up depende da somação de despolarização prolongada, como a mediada por péptides como substância-P, que com frequência apropriada de estimulação é capaz de produzir FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 18 despolarização cumulativa suficiente para remover bloqueio de íon magnésio de receptores NMDA. Para ocorrer wind up, é necessária a despolarização lenta duradoura. • Vias ascendentes: As vias ascendentes e as estruturas encefálicas envolvidas na dor são complexas. As principais vias para transmissão da dor são: - Neoespinotalâmica = Constituída principalmente por fibras A-delta e, após atingir os núcleos talâmicos laterais, faz projeção no córtex somatossensorial (giro pós-central do lobo parietal). É responsável pela transmissão da primeira dor; - Paleoespinotalâmica = Constituída principalmente por fibras C e faz sinapse no sistema límbico na região medial do tálamo, com projeção cortical difusa. As alterações emocionais da dor estão relacionadas a essa via; - Espinorreticular = É uma via alternativa importante para a transmissão da dor e raramente se projeta além do nível pontobulbar; - Espinomesencefálica. Algumas vias foram descobertas recentemente: - Espino-hipotalâmica; - Espinoparabraquial-amidaloide = Parece estar envolvida nas seguintes reações em eventos nocivos: * Autonômicas (respostas cardiorrespiratórias e adrenocortical, micção e dilatação pupilar). * Afetivo-emocionais (medo e memória da agressão). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 19 * Comportamentais (vocalização, defesa, fuga, sensação de frio). - Espinoparabraquial-hipotalâmica = Está envolvida nas seguintes reações: * Motivacional (defesa afetiva, alimentação e área sexual). * Energética (metabolismo de tecido adiposo marrom). * Adaptação neuroendócrina (eixo adenocorticotrófico). Embora a maioria das fibras que participam das vias ascendentes cruze a linha média antes de atingir os centros supra-espinais, algumas fibras são ipsilaterais. As vias ascendentes são principalmente ântero-laterais e apenas uma pequena parcela das fibras é póstero-lateral. • Modulação da dor: A dor provocada por estímulos semelhantes é percebida de maneira distinta em cada pessoa. O estímulo doloroso é modulado em diversos níveis no SNC por meio de sistemas anatômico e neurofisiologicamente diferentes. A mensagem original pode ser modificada (aumentada ou diminuída) a cada sinapse. A dor é modulada em sua transmissão ascendente e descendente (via córtex, tálamo SCPA, núcleo da rafe, locus ceruleus e subceruleus). Os principais mediadores da inibição da dor no nível espinal são: - Serotonina; - Noradrenalina; - Encefalina; - GABA; - Glicina; - Acetilcolina. As regiões do encéfalo envolvidas na inibição descendente são: - Hipotálamo anterior; - Área septal inferior; FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 20 - Núcleo centro-mediano do tálamo; - Cápsula interna; - Substância cinzenta periaqueductal; - Núcleo da rafe. O controle da transmissão da dor é feito por aferências periféricas e por diversas estruturas supra- espinais. Objetivo 3: ➢ Dor pleurítica: Dor torácica é queixa comum em pacientes com doença respiratória. Ocorre devido à inflamação ou tração de estruturas contínuas, principalmente a pleura parietal, as artérias pulmonares, os grandes brônquios e a traqueia. Estruturas como a pleura visceral, os brônquios intrapulmonares e o parênquima pulmonar são desprovidos de receptores dolorosos, sendo incapazes de produzir dor quando estimulados. Grande parte dos casos de dor torácica decorrente de doenças do aparelho respiratório ocorre pelo acometimento da pleura parietal, sendo denominada dor pleurítica. A dor pleurítica possui características típicas: - Tem início abrupto; - É referida como uma “pontada”; - É intensa; - Geralmente é unilateral; - É mais intensa nas porções inferior e lateral do tórax; - Bem localizada, seguindo a distribuição dos nervos intercostais; - É intensificada pela inspiração profunda ou pela tosse;- É aliviada pela pausa respiratória. A dor pleurítica deve ser diferenciada da dor de origem musculoesquelética, que também pode ser ventilatório-dependente. A dor musculoesquelética: - Varia com o ciclo respiratório; - Não é tão intensa; - É intensificada pela extensão, abdução ou adução do braço e ombro, ou pela flexão do trapézio ou dos músculos peitorais; - A presença de dor à palpação é característica da dor musculoesquelética. Doenças respiratórias que causam dor torácica: - Derrame pleural; - Pneumonia; - Tuberculose pulmonar; - Tromboembolismo pulmonar; - Neoplasia intratorácica; - Pneumotórax; FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 21 - Pneumomediastino; - Hipertensão pulmonar; - Outras. ➢ Dor nociceptiva: A dor nociceptiva causada pela ativação dos nociceptores e pela transmissão dos impulsos gerados por vias nociceptivas até as regiões do SNC, onde são interpretados. A dor após a agressões externas (picada de um inseto, fratura de um osso, corte da pele), a dor visceral (cólica nefrética, apendicite), a neuralgia do trigêmeo, a dor da artrite e da invasão neoplásica dos ossos são exemplos de dor nociceptiva. A dor nociceptiva começa simultaneamente ao início da atividade do fator causal, o qual pode ser, em geral, identificado. A remoção do fator causal culmina com o alívio da sensação dolorosa. Nenhum déficit sensorial é identificado nesses pacientes, e a distribuição da dor corresponde à das fibras nociceptivas estimuladas. - Quanto menor é o número de segmentos medulares envolvidos na inervação de uma estrutura, mais localizada é a dor (somática superficial); - Quanto maior o número de segmentos medulares, mais difusa é a dor (visceral e somática profunda). A dor nociceptiva pode ser espontânea ou evocada: - Espontânea = Sugere lesão tissular e pode ser expressa com as mais variadas designações: pontada, facada, agulhada, aguda, rasgando, latejante, surda, contínua, profunda, vaga, dolorimento; - Evocada = Pode ser desencadeada por algumas manobras como: manobra de Lasegue (na ciatalgia), a dor provocada pelo estiramento da raiz nervosa, a dor obtida pela elevação do membro inferior afetado, a dor estando o indivíduo em decúbito dorsal, e lavar o rosto e escovar os dentes, nos pacientes com neuralgia do trigêmeo. Esse tipo de dor reproduz a sentida pelo paciente. Objetivo 4: ➢ Medicações tópicas: O tratamento da dor envolve a utilização de analgésicos opioides, analgésicos comuns, AINH's (anti-inflamatórios não hormonais) e analgésicos adjuvantes. Tradicionalmente, estes fármacos são administrados por via sistêmica ou no neuroeixo. Entretanto, quando aplicados por estas vias, estão associados a efeitos colaterais importantes, os quais podem inviabilizar o seu uso. Farmacologicamente, sabe-se que os analgésicos têm por mecanismo de ação principal a atuação em sítios específicos localizados no SNC e na periferia. Esta observação levou à realização de trabalhos que propunham a administração tópica de fármacos como AINH's, anestésicos locais, capsaicina, antidepressivos tricíclicos, cetamina, clonidina, opioides e canabinoides. A aplicação tópica destes fármacos possibilita elevadas concentrações nos sítios efetores periféricos em contraposição a baixos níveis séricos dos mesmos. Desta forma, torna-se pouco provável a ocorrência de efeitos colaterais indesejáveis. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 22 • Aplicação tópica X transdérmica: Existem medicações que são aplicadas diretamente na pele, no entanto, exercem seus efeitos predominantes no SNC, utilizando a pele apenas como veículo de administração (a exemplo do fentanil transdérmico). O que se pretende com isto é fornecer uma liberação lenta e gradual da medicação para a corrente sanguínea, mantendo assim níveis séricos relativamente constantes por um determinado período de tempo. Em contrapartida, os fármacos de administração tópica exercem seus efeitos na periferia, próximo ao seu sítio de aplicação. Por definição, formulações tópicas são aquelas que, quando aplicadas na proximidade da área afetada, exercem ação analgésica, estando associadas ao aumento da concentração no tecido alvo e à reduzida concentração sérica. • Anti-inflamatórios Não Hormonais (AINH’s): Os AINH's são os agentes tópicos mais utilizados na prática clínica. Seu mecanismo de ação consiste na inibição da enzima COX I e II com consequente redução da síntese de prostaglandinas e redução da sensibilização de terminações nervosas nos tecidos periféricos, sítio comum de dor e inflamação. Sua aplicação tópica é interessante por promover concentrações terapêuticas no tecido alvo, mantendo níveis séricos insuficientes para gerar reações adversas. Sua utilização sistêmica está associada a importantes efeitos colaterais hepáticos, cardiovasculares, gastrointestinais e renais. AINH's tópicos produzem elevada concentração na derme, na sinóvia, nos tecidos musculares e nas cartilagens articulares, porém sua biodisponibilidade é baixa, variando entre 5% a 15% da observada após a administração sistêmica. Diferenças na resposta analgésica e na exposição sistêmica podem ocorrer, dependendo da origem da dor, das características da pele e do tecido musculoesquelético de cada paciente. Não existem dados concretos que correlacionem a concentração sistêmica e tecidual dos AINH's, o que faz sua utilização ser feita ainda de forma empírica, de acordo com a resposta de cada paciente. Formulações que facilitem sua penetração nos tecidos podem melhorar a eficácia em sítios mais profundos, como articulações. No entanto, isso pode acarretar maior absorção sistêmica deste grupo de fármacos. Estudos têm comprovado a eficácia dos AINH's tópicos nas diversas síndromes dolorosas musculoesqueléticas. Além de reduzir a síntese de prostaglandinas no local da dor, estas medicações suprimem o processo inflamatório através da: - Inibição da aderência e da função leucocitárias; - Redução da agregação plaquetária; - Modulação da resposta linfocitária; - Inibição da produção de citocinas; - Supressão da síntese de proteoglicanos no tecido cartilaginoso; - Diminuição da lise celular mediada pelo sistema complemento; - Inibição da formação de radicais livres. • Anestésicos locais: Os anestésicos locais aplicados topicamente podem aliviar a dor neuropática através da redução das descargas de nervos somáticos superficiais em áreas de dor localizada. Os anestésicos locais se FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 23 ligam a canais de sódio anormais que estão suprarregulados nos nervos periféricos lesados, suprimindo assim sua atividade anormal e espontânea que pode iniciar ou manter estados de dor neuropática. Estão disponíveis na forma de patch de lidocaína a 5% e como uma mistura eutética de anestésicos locais, Eutectic Mixture of Local Anesthetics (EMLA) na forma de creme (contendo prilocaína a 2,5% e lidocaína a 2,5%). Nos Estados Unidos, o patch de lidocaína 5% é licenciado para uso em pacientes com neuralgia pós-herpética. Eles contêm 750 mg de lidocaína, das quais apenas 5% é liberada. Mesmo com múltiplas aplicações do patch de lidocaína, os níveis sistêmicos deste fármaco permanecem baixos. A administração tópica do path de lidocaína a 5% tem se mostrado bastante segura e isenta de efeitos colaterais importantes. Não foi observada, nos pacientes, perda de sensibilidade no sítio de aplicação, porém alguns pacientes apresentaram leve eritema local. O creme de EMLA tem sido utilizado para anestesia da pele para punções venosas, para punção lombar, para injeção intramuscular e para circuncisão. Alguns trabalhos têm explorado a utilizaçãode creme de EMLA na neuralgia pós-herpética, mas poucos têm demonstrado eficácia. Estudos mostraram que a aplicação diária de EMLA produziu redução significativa nos paroxismos de dor, na alodínia e na hiperalgesia. • Capsaicina: A capsaicina é um composto proveniente do extrato da pimenta chilli. Seu mecanismo de ação consiste na ligação a nociceptores, observando-se: 1- Inicialmente um estado de excitação neuronal e período de aumento da sensibilidade local. Nesta fase identificam-se sensações de queimação, picada e prurido, associados à vasodilatação cutânea. Estas manifestações são atribuídas à estimulação de fibras aferentes do tipo C e a liberação de substância-P; 2- Em seguida, ocorre um período refratário, com redução da sensibilidade, que se torna persistente após aplicações repetidas, em função da depleção de substância-P e da degeneração de fibras nervosas periféricas. Esta degeneração pode ser significativa em poucos dias de uso de capsaicina a 0,075%. Entretanto, com a interrupção deste fármaco, há reinervação das fibras nervosa dentro de 6 semanas (após 3 semanas de tratamento). Não se conhece os possíveis efeitos do seu uso prolongado. Os efeitos adversos da capsaicina, cuja intensidade depende da concentração da formulação, decorrem principalmente de sua aplicação local e são queimação, ardência e eritema. Estas reações podem comprometer a adesão ao tratamento. Estima-se que para cada 10 pacientes, 1 tende a abandonar a terapêutica devido à presença de sintomas locais. Ademais, por causa destes efeitos irritantes, torna-se difícil realizar ensaios clínicos duplo-cego com esta medicação. Apesar de efeitos sistêmicos serem raros estudos têm demonstrado que alguns pacientes desenvolvem hiperreatividade do trato respiratório por inalação de partículas da capsaicina. A capsaicina é eficaz no tratamento da dor neuropática e da dor associada a condições como osteoartrite, artrite reumatoide e psoríase. Seu efeito tem sido observado em condições como neuropatia diabética, neuralgia pós-herpética, polineuropatia periférica crônica e dor cirúrgica neuropática. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 24 Objetivo 6: ➢ Hemotórax: A causa mais comum de hemotórax (< 1 .500 mL de sangue) é a laceração pulmonar ou a ruptura de um vaso intercostal ou da artéria mamária interna devido a trauma penetrante ou trauma fechado. As fraturas da coluna torácica também podem levar ao hemotórax. Geralmente esse sangramento é autolimitado e não necessita de tratamento cirúrgico. O hemotórax agudo suficiente para aparecer na radiografia de tórax deve ser tratado com um dreno de tórax de grosso calibre (36 ou 40 French). O dreno de tórax remove o sangue, diminui o risco de formação de coágulos e serve como método de monitoração do sangramento. A evacuação de sangue ou líquidos contidos na pleura permite também uma avaliação mais precisa de potenciais lesões diafragmáticas. Embora muitos fatores estejam envolvidos na decisão de operar ou não um doente com hemotórax, os mais importantes são o estado fisiológico do doente e o volume de sangue eliminado pelo dreno de tórax. A exploração cirúrgica deve ser considerada: - A drenagem inicial for igual a 1.500 mL de sangue; - Sempre que ocorrer drenagem de mais de 200 mL/h durante 2 a 4 horas; - Quando tornar-se necessária a transfusão contínua de sangue. A decisão final para realizar a toracotomia de emergência é o estado hemodinâmico do doente. Um hemotórax simples não evacuado completamente pode resultar num hemotórax coagulado e retido com encarcera mento pulmonar e, se infectado, transformar-se em empiema (acúmulo de pus em qualquer cavidade do organismo). O acúmulo de sangue e líquidos em um hemitórax pode provocar esforço respiratório pela compressão do pulmão e pela limitação da ventilação normal. O acúmulo maciço de sangue pode resultar em hipotensão e choque. • Circulação: - O pulso do doente deve ser avaliado quanto à qualidade, à frequência e à regularidade. Nos doentes hipovolêmicos, os pulsos radiais e pediosos podem estar ausentes em decorrência da redução do volume sanguíneo; - A pressão sanguínea e a pressão de pulso são aferidas; - A circulação periférica é avaliada pela observação da coloração e da temperatura da pele. As veias do pescoço devem ser avaliadas quanto a distensão, lembrando-se de que as veias não estarão distendidas quando o doente estiver hipovolêmico, em casos de tamponamento cardíaco, pneumotórax hipertensivo ou lesão traumática do diafragma; - Deve-se instalar um monitor cardíaco e um oxímetro de pulso no doente. Os doentes com trauma torácico (especialmente na área do esterno ou decorrente de desaceleração rápida) são suscetíveis a contusão miocárdica, que pode levar a arritmias. A hipóxia e/ou acidose aumentam essa possibilidade; - As lesões mais críticas que comprometem a circulação e que devem ser diagnosticadas e tratadas durante a avaliação primária incluem pneumotórax hipertensivo, hemotórax maciço e tamponamento cardíaco; FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 25 - Tanto o pneumotórax hipertensivo quanto o hemotórax maciço estão associados à diminuição do murmúrio vesicular na ausculta. A diferenciação no exame físico é feita pela percussão: * Hipertimpanismo confirma um pneumotórax. A traqueia está desviada no pneumotórax hipertensivo e o hemitórax do lado afetado pode estar hiperexpandido e sem movimento respiratório. * Macicez confirma um hemotórax maciço. • Hemotórax maciço: O hemotórax maciço resulta do rápido acúmulo de 1.500 mL de sangue ou de 1/3 ou mais do volume de sangue do doente na cavidade torácica. É causado por ferimentos penetrantes (que dilaceram os vasos sistêmicos ou hilares) e por trauma contuso. Nos doentes com hemotórax maciço, as veias do pescoço podem estar colabadas (devido à grave hipovolemia) ou distendidas (quando existir um pneumotórax hipertensivo concomitante). Em casos raros, os efeitos mecânicos de um hemotórax maciço podem deslocar o mediastino a ponto de causar a distensão das veias cervicais. Um hemotórax maciço é diagnosticado pela associação de choque com ausência de murmúrio vesicular e/ou presença de macicez à percussão de um dos hemitóraces. A perda sanguínea é complicada pela hipóxia. O hemotórax maciço é tratado inicialmente por reposição do volume sanguíneo e descompressão da cavidade torácica, realizadas simultaneamente. Após conseguir rápido acesso venoso com cateter calibroso, inicia-se a infusão de cristaloide e, assim que possível, administra-se sangue tipo-específico. O sangue removido através do dreno de tórax deve ser coletado em um dispositivo que permita a autotransfusão. Insere-se um único dreno de tórax (nº 36 ou 40 French) geralmente ao nível do mamilo, anteriormente à linha axilar média, e continua-se com a reposição volêmica rápida à medida que se completa a descompressão da cavidade torácica. Se houver suspeita de hemotórax maciço, deve-se preparar-se para a autotransfusão. Se o volume drenado imediatamente for de aproximadamente 1.500 mL, é muito provável que seja necessária uma toracotomia de urgência para o doente. Alguns doentes que apresentam débito inicial menor do que 1.500 mL, mas continuam sangrando, podem necessitar de toracotomia. A decisão não é baseada apenas no volume de sangue que continua drenando por hora (200 mL/h por 2 a 4 horas), mas também no estado fisiológico do doente. A necessidade persistente de transfusões sanguíneas constitui-se em indicação de toracotomia. Durante a reanimação do doente, para o cálculo da reposição total de fluidos, deve-se contabilizar o volume de sangue perdido imediatamente após a drenagem acrescido do volume que continua drenando a seguir. A coloraçãodo sangue (arterial ou venoso) não é um bom indicador para avaliar a necessidade ou não de toracotomia. Os ferimentos torácicos penetrantes anteriores e mediais à linha dos mamilos ou posteriores e mediais às escápulas devem alertar o médico para a eventual necessidade de toracotomia, pela possível lesão dos grandes vasos, das estruturas hilares e do coração, com risco potencial de tamponamento cardíaco. A toracotomia não é indicada, a não ser que esteja presente um cirurgião qualificado por seu treinamento e por sua experiência. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 26 • Drenagem torácica: - Determinar o local da drenagem usualmente no nível do mamilo (5 o espaço intercostal) imediatamente anterior à linha axilar média do lado afetado. Em caso de hemotórax, pode ser usado um segundo dreno torácico; - Preparar cirurgicamente o tórax no local predeterminado para a inserção do dreno e cobrir com os campos cirúrgicos; - Anestesiar localmente a pele e o periósteo do arco costal; - Fazer uma incisão transversa (horizontal) de 2 a 3 em, no local predeterminado, e dissecar de forma romba as partes moles junto à borda superior do arco costal; - Perfurar a pleura parietal com a ponta de uma pinça hemostática e introduzir o dedo enluvado na incisão para evitar lesões de outros órgãos e para remover aderências, coágulos, etc. Quando o tubo estiver no local adequado, remover o clampe do tubo; - Pinçar a extremidade proximal do dreno de toracostomia e introduzi-lo no espaço pleural na extensão desejada. O tubo deve ser direcionado posteriormente junto à parede interna da caixa torácica; - Observar o embaçamento do tubo torácico com a expiração ou prestar atenção para verificar se existe fluxo de ar. Conectar a extremidade do dreno de toracostomia a um sistema de selo d'água; - Fixar o dreno no local com fio de sutura; - Aplicar um curativo oclusivo e fixar o dreno ao tórax com esparadrapo; - Fazer uma radiografia do tórax; - Obter gasometria arterial e/ou conectar um monitor de oximetria de pulso, se necessário. Objetivo 5: ➢ Implicações da automedicação: Medicamentos são importantes bens sociais. Sua utilização pela população brasileira é alta e influenciada por vários fatores. Dentre estes fatores, o aumento da expectativa de vida da população e o consequente aumento da carga de doença crônica, o surgimento de novas e velhas doenças transmissíveis, o aumento da prevalência dos transtornos de humor, as doenças resultantes da degradação do meio ambiente, da poluição ambiental e das mudanças climáticas, e os crescentes investimentos financeiros por parte do governo brasileiro para garantir o acesso universal aos serviços de saúde. Apesar dos avanços, persistem dificuldades de acesso, demora e baixa qualidade do atendimento nos serviços de saúde do setor público e do privado. Soma-se a esses aspectos, a veiculação de FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 27 propagandas de medicamentos isentos de prescrição, a presença da farmacinha caseira nos domicílios e a crença de que os medicamentos resolvem tudo, constituindo fatores importantes para a prática da automedicação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define automedicação como a seleção e o uso de medicamentos sem prescrição ou supervisão de um médico ou dentista. A automedicação é um fenômeno mundial e sua prevalência difere em função da população estudada, do método e do período recordatório utilizado. No Brasil, poucos estudos traçaram o padrão de consumo de medicamentos da população brasileira como um todo. Alguns estudos revelam a prevalência de utilização de medicamentos pela população maior de 18 anos de 49,0% e a automedicação, de 24,6%. Nesse contexto, considerando os poucos estudos publicados, a Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização Promoção do Uso Racional de Medicamentos (PNAUM), desenvolvida pelo Ministério da Saúde, possibilita avaliar a situação da automedicação no País como temática relevante, dado os riscos inerentes à sua prática (intoxicações medicamentosas e reações adversas) e o possível aumento dos gastos em saúde. Atualmente, o Brasil passa por muitas transformações na área da saúde, que possui investimentos financeiros e de infraestrutura para aumentar a oferta de serviços de saúde, principalmente na área da atenção primária, com a Estratégia Saúde da Família, e na área da assistência farmacêutica para garantir o acesso gratuito e uso racional dos medicamentos pelos profissionais e comunidade em geral. Essas transformações ocorrem de forma diferente entre as regiões, mas, mesmo com as desigualdades regionais expostas, o maior acesso aos serviços médicos pode estar promovendo menor automedicação. Pode-se também considerar que a automedicação esteja dentro de uma faixa de magnitude considerada aceitável, pois constatou-se o uso de medicamentos por automedicação limita-se a tratar doenças agudas autolimitadas, como problemas no estômago ou intestino, febre, dor, gripe, resfriado ou rinite alérgica, náusea e vômito, entre outros, e na maioria das vezes com produtos isentos de prescrição (65,5%). A classificação econômica não apresentou associação significante com a prática da automedicação. Isso pode ser explicado pelo fato de os medicamentos mais consumidos serem de baixo custo, de fácil acesso e de prescrição frequente inclusive aqueles disponíveis tanto pelo Sistema Único de Saúde, de forma gratuita, como subsidiado na Farmácia Popular (como ocorre com a dipirona, o paracetamol e o ibuprofeno). Foi constatado que a automedicação é mais praticada pelas mulheres. Isso se deve pelo fato de as mulheres sofrerem mais com dores de cabeça, dores musculares e condições dolorosas crônicas, como a enxaqueca, e utilizarem desde muito cedo analgésicos e relaxantes musculares para o alívio da dor durante a menstruação ou dismenorreia. A automedicação também está associada com as diversas faixas etárias, com maior destaque para os de idade entre 20 e 39 anos. Esse resultado pode ser atribuído ao tipo de problema de saúde que envolve doenças agudas autolimitadas, comuns a todas as idades, e ao tipo de medicamento consumido, sendo os analgésicos o principal grupo terapêutico utilizado na prática da automedicação independentemente da população alvo investigada e do tempo recordatório. Este fato também poderia explicar a associação positiva da prática da automedicação com as várias regiões do País e entre pessoas com doenças ou condições crônicas, já que, de maneira geral, os analgésicos/antipiréticos aparecem como o segundo medicamento mais utilizado no Brasil e nas cinco regiões do País, perdendo apenas para os anti-hipertensivos. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 28 O elevado uso de analgésicos na prática da automedicação reflete a alta prevalência de dor na população em geral, motivada por tensão, situação estressante ou demanda física, prejudicando a qualidade de vida das pessoas. O uso abusivo de analgésicos pode levar à cronificação da cefaleia. Por outro lado, o mesmo analgésico que alivia a dor é o que trata os quadros febris de doenças virais ou bacterianas ou inflamatórias. Os AINHs também são atrativos por terem ação múltipla: analgésica, antipirética e anti-inflamatória. Outro aspecto que favorece e influencia esse consumo é a propaganda da indústria farmacêutica veiculada na mídia em geral16. Apesar de a grande maioria dos medicamentos consumidos serem isentos de prescrição, não se pode menosprezar as possíveis intoxicações e efeitos adversos que eles podem causar a seus usuários. No caso dos analgésicos e AINES, pode-se citar, entre outros, os distúrbios gastrointestinais, reações alérgicas e efeitos renais.• Referências: - Dor – Guias de Medicina Ambulatorial e Hospitalar da UNIFESP-EPM; - ATLS – 9ª edição; - Anatomia para Estudantes – Gray’s; - Semiologia Médica – Porto; - Causas pulmonares de dor torácica – José Wellington Alves dos Santos – Rev. AMRIGS – 2002; - Analgésicos tópicos – Murilo Pereira Flores – Rev. Brasileira de Anestesiologia – 2012; - Prevalência da automedicação no Brasil e fatores associados – Paulo Sérgio Dourado Arrais – Rev. Saúde Pública – 2016. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 1 Problema 2 Dor de garganta # Objetivos # 1-Rever a anatomia da boca e da orofaringe. 2-Descrever o mecanismo da dor inflamatória. 3-Descrever o quadro clínico das tonsilites (virais e bacterianas) e as complicações (abcesso → tratamento e diagnóstico do abcesso). 4-Discutir o uso inadequado dos antibióticos e anti-inflamatórios (tratamento das tonsilites). 5-Discutir a conduta ética do caso. 6-Discutir a diferença de anestésico, analgésico e anti-inflamatório. Objetivo 1: ➢ Anatomia da região oral: A região oral compreende a cavidade oral, os dentes, a gengiva, a língua, o palato e a região das tonsilas palatinas. A cavidade oral é o local onde o alimento é ingerido e preparado para digestão no estômago e no intestino delgado. O alimento é mastigado pelos dentes, e a saliva proveniente das glândulas salivares facilita a formação de um bolo alimentar macio. A deglutição é iniciada voluntariamente na cavidade oral. A fase voluntária do processo empurra o bolo da cavidade oral para a faringe, a parte expandida do sistema digestório, onde ocorre a fase involuntária (automática) da deglutição. • Cavidade oral: É na cavidade oral que se sente o sabor dos alimentos e das bebidas e que o alimento é mastigado e manipulado pela língua. A cavidade oral (boca) tem 2 partes: - Vestíbulo da boca = É o espaço semelhante a uma fenda entre os dentes e a gengiva e os lábios e as bochechas. O vestíbulo comunica-se com o exterior através da rima (abertura) da boca. O tamanho da rima é controlado pelos músculos periorais como o orbicular da boca (o esfíncter da rima da boca), o bucinador, o risório e os depressores e elevadores dos lábios (dilatadores da rima); - Cavidade própria da boca = É o espaço entre as arcadas ou arcos dentais maxilar (superior) e mandibular (inferior) (arcos alveolares maxilar e mandibular e os dentes que sustentam). É limitada lateral e anteriormente pelos arcos dentais. O teto da cavidade oral é formado pelo palato. Posteriormente, a cavidade oral comunica-se com a parte oral da faringe (orofaringe). Quando a boca está fechada e em repouso, a cavidade oral é totalmente ocupada pela língua. • Lábios e bochechas: Os lábios são pregas musculofibrosas móveis que circundam a boca, estendendo-se dos sulcos nasolabiais e narinas (lateral e superiormente) até o sulco mentolabial (inferiormente). Eles contêm o FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 2 músculo orbicular da boca que controla a entrada e saída da boca. Os lábios são cobertos externamente por pele e internamente por túnica mucosa. Os lábios são usados para apreender o alimento, sugar líquidos, manter o alimento fora do vestíbulo da boca, produzir a fala e osculação (beijo). As artérias labiais superior e inferior (ramos das artérias faciais), anastomosam-se entre si nos lábios para formar um anel arterial: - O lábio superior é irrigado por ramos labiais superiores das artérias facial e infraorbital; - O lábio inferior é irrigado por ramos labiais inferiores das artérias facial e mentual. As bochechas têm estrutura quase igual à dos lábios, com os quais são contínuas. As bochechas são as paredes móveis da cavidade oral. Anatomicamente, a face externa das bochechas constitui a região bucal, limitada anteriormente pelas regiões oral e mentual (lábios e queixo), superiormente pela região zigomática, posteriormente pela região parotideomassetérica e inferiormente pela margem inferior da mandíbula. A proeminência da bochecha ocorre na junção das regiões zigomática e bucal. Os principais músculos das bochechas são os bucinadores. Várias pequenas glândulas bucais situam-se entre a túnica mucosa e os músculos bucinadores. Superficialmente aos músculos bucinadores há coleções encapsuladas de gordura; esses corpos adiposos da bochecha são muito maiores em lactentes, provavelmente para reforçar as bochechas e evitar seu colapso durante a sucção. As bochechas são supridas por ramos bucais da artéria maxilar e inervadas por ramos bucais do nervo mandibular. • Gengiva: As gengivas são formadas por tecido fibroso coberto por túnica mucosa. A gengiva propriamente dita está firmemente presa aos processos alveolares da mandíbula e da maxila e aos colos dos dentes: A gengiva propriamente dita normal é rósea, pontilhada e queratinizada. A túnica mucosa alveolar é normalmente vermelho-brilhante e não queratinizada. • Dentes: Os dentes estão inseridos nos alvéolos dentais, são usados na mastigação e ajudam a articulação. Um dente é identificado e descrito como decíduo (primário) ou permanente (secundário), o tipo de dente e sua proximidade da linha mediana (p. ex., incisivos mediais e laterais; o 1º molar é anterior ao 2º). A face vestibular (labial ou bucal) está voltada externamente, e a face lingual está voltada internamente. As crianças têm 20 dentes decíduos; os adultos normalmente têm 32 dentes permanentes. Os tipos de dentes são identificados por suas características: - Incisivos (margens cortantes finas); - Caninos (cones proeminentes únicos); - Pré-molares (bicúspides) (duas cúspides); - Molares (três ou mais cúspides). • Palato: O palato forma o teto curvo da boca e o assoalho das cavidades nasais. Separa a cavidade oral das cavidades nasais e da nasofaringe. O palato tem duas regiões: o palato duro (anterior), e o palato mole (posterior). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 3 1.Palato duro: O palato duro é côncavo e o espaço é ocupado principalmente pela língua quando está em repouso. Os 2/3 anteriores do palato têm um esqueleto ósseo formado pelos processos palatinos da maxila e as lâminas horizontais dos palatinos. A fossa incisiva é uma depressão na linha mediana do palato ósseo posterior aos dentes incisivos centrais, na qual se abrem os canais incisivos. Medial ao 3º dente molar (dente serotino), o forame palatino maior perfura a margem lateral do palato ósseo e permite a passagem de vasos e nervos. Os forames palatinos menores, situados posteriormente ao forame palatino maior, perfuram o processo piramidal do palatino e dão passagem aos nervos e vasos palatinos menores até o palato mole e estruturas adjacentes. 2.Palato mole: O palato mole é o terço posterior móvel do palato e fica suspenso na margem posterior do palato duro. O palato mole não tem esqueleto ósseo mas é reforçado pela aponeurose palatina, que se fixa à margem posterior do palato duro. A aponeurose tem a parte anterior espessa e a parte posterior fina, na qual se funde a uma parte muscular posterior. Na parte posteroinferior o palato mole tem margem livre curva da qual pende um processo cônico, a úvula. Na parte lateral, o palato mole é contínuo com a parede da faringe e é unido à língua e à faringe pelos arcos palatoglosso e palatofaríngeo, respectivamente. Há algumas papilas gustativas no epitélio que cobre a face oral do palato mole, a parede posterior da parte oral da faringe e a epiglote. As fauces são o espaço entre a cavidade e a faringe. As tonsilas palatinas, frequentemente denominadas “as tonsilas”, são massas de tecido linfoide, uma de cada lado da orofaringe. Cada tonsila está localizada em uma fossa (seio)tonsilar, limitada pelos arcos palatoglosso e palatofaríngeo e pela língua. • Língua: A língua é uma massa de músculos esqueléticos coberta com membrana mucosa. Os músculos extrínsecos da língua (aqueles que se inserem na língua) movimentam a língua lateralmente e para fora. Só os 2/3 anteriores da língua encontram-se na cavidade oral e o 1/3 restante encontra-se na faringe e está preso ao osso hioide. Massas arredondadas de tonsilas linguais estão localizadas na superfície superior da base da língua. A face inferior da língua está conectada ao soalho da boca, ao longo da linha mediana, pelo frênulo da língua. Músculos extrínsecos da língua: - Genioglosso; - Hioglosso; - Estiloglosso; - Palatoglosso. Músculos intrínsecos da língua: - Longitudinal superior; - Longitudinal inferior; - Transverso; - Vertical. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 4 Na superfície da língua encontram-se numerosas e pequenas elevações chamadas papilas. As papilas dão à superfície da língua uma rugosidade nítida que ajuda a controlar o alimento e também possuem calículos gustatórios que respondem aos estímulos químicos: doce, salgado, azedo e amargo. Três tipos principais de papilas estão presentes na superfície da língua: - Filiforme = São sensíveis ao toque, apresentam extremidades afiladas, são as mais numerosas e não possuem calículos gustatórios; - Fungiforme = São maiores e arredondadas, dispersas entre as papilas filiformes; - Circunvalada = As poucas papilas circunvaladas estão dispersas em forma de V na parte posterior da língua. As artérias da língua são derivadas da artéria lingual (originada da artéria carótida externa). Todos os músculos da língua, com exceção do palatoglosso, recebem inervação motora do NC XII, o nervo hipoglosso. O músculo palatoglosso é um músculo palatino inervado pelo plexo faríngeo. • Glândulas salivares: Três pares de glândulas salivares que se encontram fora da cavidade oral produzem a maior parte da saliva que é transportada à cavidade oral por ductos salivares. São elas: - Glândula parótida = É a maior de todas. Está localizada abaixo e na frente da orelha, entre a pele e o músculo masseter. A saliva produzida pela glândula parótida drena pelo ducto parotídeo (de Stensen). A infecção desta glândula caracterizada pelo seu inchaço constitui a caxumba; - Glândula submandibular = Encontra-se inferiormente ao corpo da mandíbula e está recoberta pelo músculo milo-hioideo. A saliva produzida por essa glândula drena através do ducto submandibular (de Wharton), que se abre ao lado do frênulo da língua; - Glândula sublingual = Encontra-se debaixo da túnica mucosa do soalho da boca. Cada glândula contem vários ductos sublinguais pequenos (de Rivinus) que se abrem no soalho da boca, posteriormente à carúncula do ducto submandibular. As glândulas salivares são inervadas por ambas as divisões do sistema nervoso autônomo: - Simpático = Estimula a secreção de pequenos volumes de saliva viscosa; - Parassimpático = Estimula a secreção de grandes volumes de saliva aquosa. • Faringe: A faringe é um tubo que começa nas coanas e estende-se para baixo no pescoço. Ela se situa logo atrás das cavidades nasais e logo a frente às vértebras cervicais. Sua parede é composta de músculos esqueléticos e revestida de túnica mucosa. A faringe funciona como uma passagem de ar e alimento. A faringe é dividida em 3 regiões anatômicas: - Nasofaringe = A porção superior da faringe, denominada parte nasal ou nasofaringe, tem as seguintes comunicações: 2 com as coanas, 2 óstios faríngeos das tubas auditivas e com a orofaringe. A tuba auditiva se comunica com a faringe através do óstio faríngeo da tuba auditiva, que por sua vez conecta a parte nasal da faringe com a orelha média; FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 5 - Orofaringe = A parte intermediária da faringe, situa-se atrás da cavidade oral e estende-se do palato mole até o nível do hioide. A parte da orofaringe tem comunicação com a boca e serve de passagem tanto para o ar como para o alimento; - Laringofaringe = estende-se para baixo a partir do osso hioide, e conecta-se com o esôfago (canal do alimento) e anteriormente com a laringe (passagem de ar). Como a parte oral da faringe, a laringofaringe é uma via respiratória e também uma via digestória. As tonsilas palatinas situam-se nas paredes laterais da orofaringe. A cada lado há uma grande coleção ovoide de tecido linfoide na mucosa que reveste o músculo constritor superior e entre os arcos palatoglosso e palatofaríngeo. As tonsilas palatinas são visíveis através da cavidade oral, imediatamente posterior aos arcos palatoglossos. • Tonsilas: Acúmulo de tecido linfoide na mucosa da faringe em volta das aberturas das cavidades nasais e oral fazem parte do sistema de defesa do corpo. As maiores coleções formam massas distintas (tonsilas). Elas ocorrem principalmente em 3 áreas: - Tonsila faríngea = Conhecida como adenoide (quando aumentada de volume), fica na linha média do teto da nasofaringe; - Tonsilas palatinas = Estão a cada lado da parte oral da faringe, entre os arcos palatoglossos e palatofaríngeos, em posição imediatamente posterior ao istmo das fauces. São visíveis através da boca quando a língua é abaixada; - Tonsila lingual = Refere-se a numerosos nódulos linfoides no terço posterior da língua (raiz da língua). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 6 Objetivo 2: ➢ Dor inflamatória: A dor pode ser definida como a percepção desagradável de uma sensação nociceptiva. Da mesma forma que a visão e a audição, a dor tem um sistema neuronal próprio, denominado sistema nociceptivo. De maneira simplista, poderíamos dizer que há 2 tipos de dor: - A primeira informa rapidamente que os estímulos do meio ambiente agridem ou colocam em perigo a integridade física do indivíduo; - A segunda informa a presença de algum a disfunção orgânica, ou seja, uma inflamação ou uma neuropatia. A dor de origem inflamatória resulta basicamente da interação entre o tecido danificado e os neurônios sensoriais nociceptivos periféricos por meio da participação de mediadores inflamatórios. A dor inflamatória aguda (declarada) resulta da ação de um estímulo desencadeante (mecânico, químico ou térmico) ou de um mediador inflamatório que ativa esses neurônios periféricos sensibilizados. Já a hiperalgesia/hipernocicepção inflamatória é o resultado de modificações funcionais nos neurônios aferentes primários nociceptivos. Essas modificações ocorrem por meio de uma ativação metabotrópica em todo neurônio sensitivo, ou seja, mudanças metabólicas nos neurônios facilitam a sua ativação. Essas modificações funcionais da excitabilidade neuronal são induzidas por mediadores inflamatórios liberados diretamente pelas células danificadas pelo trauma tecidual ou pelo reconhecimento de um elemento estranho ao organismo por células residentes (p. ex. macrófagos). Dessa forma, quando nos referimos atualmente aos nociceptores, não estamos apenas nos referindo às suas extremidades periféricas, mas sim à fibra neuronal inteira, pois a hipernocicepção é um fenômeno que envolve todo o neurônio sensorial. Para que possamos chamar a dor de sensação, é necessária a presença de uma parte do sistema nervoso que seja especializada nesse processo. Esse sistema é denominado sistema nociceptivo e possui fibras nervosas características distribuídas nos tecidos. As fibras nociceptivas conhecidas como fibras A- delta e fibras C estão associadas à inflamação e, quando sensibilizadas, são capazes de transduzir estímulos mecânicos, térmicos ou químicos em impulsos elétricos, que serão transmitidos ao SNC: - FibrasA-delta = São mielinizadas. Assim, devido à presença da bainha de mielina, elas transmitem estímulos mais rapidamente (cerca de 12 a 30 m/s); - Fibras C = Não são mielinizadas. Assim, devido à ausência da bainha de mielina, elas são neurônios de transmissão lenta (cerca de 0,5 a 2 m/s). Atualmente, tem-se grande atenção voltada a um grupo de fibras C, denominadas nociceptores silenciosos, que seriam “acordados” durante o processo inflamatório, passando a participar da condução da dor inflamatória. As fibras sensoriais periféricas se dirigem para o SNC de forma organizada, e o centro metabólico de cada neurônio está localizado em seu corpo celular, presente no gânglio da raiz dorsal (GRD). De cada GRD sai um prolongamento axônico que se divide em 2 troncos: - Um deles se dirige para os tecidos periféricos; - O outro se dirige para a medula espinal (nervos espinais) ou para o tronco encefálico (nervos cranianos). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 7 Dessa forma, a informação sensorial percorre um longo caminho desde a estimulação periférica, passando pelo GRD e chegando à medula espinal, por onde terá acesso aos centros superiores de processamento. As fibras sensoriais entram na medula espinal pelo lado dorsal e se comunicam com neurônios secundários (ou de segunda ordem) em regiões medulares bem definidas, conhecidas como lâminas de Rexed. Além disso, os diferentes tipos de neurônios (fibras A-delta e fibras C) terminam em diferentes locais da medula. Dependendo da camada medular, são ativadas distintas vias secundárias de transmissão. Por exemplo, grande parte dos neurônios nociceptores associados à inflamação termina nas lâminas mais superficiais (camadas I e II - área conhecida como substância gelatinosa). Os neurônios secundários pertencentes a essas camadas são especializados em transmitir informações provenientes de estímulos nocivos, sendo chamados de neurônios nociceptores específicos. Já as outras camadas medulares possuem neurônios secundários que transmitem informações de diferentes tipos, ou seja, conduzem eventos nocivos, mas também conduzem a informação sensorial normal, como tato e temperatura. A essas camadas mais profundas da medula espinal também chegam: - Fibras A-beta = São fibras de grosso calibre envolvidas por grande quantidade de mielina, que conduzem a informação a velocidades rápidas (cerca de 30 a 70 m/s). Elas são especializadas em detectar estímulos de baixa intensidade (embora também possam detectar estímulos nociceptivos). Tais fibras, desencadeiam respostas rápidas e são importantes para a manutenção da integridade do indivíduo. A informação sensorial que chega a essas camadas da medula espinal é transmitida para os centros superiores de processamento por neurônios secundários, conhecidos como neurônios de ampla faixa dinâmica (WDR – wide dynamic range neurons), os quais são capazes de conduzir informações geradas por estímulos de diferentes naturezas. Além disso, a presença de interneurônios na medula espinal auxilia na modulação (tanto positiva quanto negativa) da informação proveniente da estimulação periférica. No corno dorsal da medula, os neurônios aferentes primários fazem sinapse com os neurônios secundários nas lâminas de Rexed. Tal comunicação sináptica se dá por meio da liberação de neurotransmissores, como o aminoácido excitatório glutamato (GLU) ou a substância P. A ativação dos neurônios subsequentes conduz a informação até o SNC supra-espinal, onde será analisada e interpretada em locais específicos no córtex. Essa informação poderá ser processada e relacionada com vias nervosas neurovegetativas (relacionadas aos órgãos) e outros núcleos centrais (sistema límbico, amígdala, etc.), que definirão a tonalidade afetiva da dor. Atualmente, a interpretação (consciência) da experiência de sensação da dor é entendida como função cortical: que analisa a informação recebida em áreas especializadas em detectar, localizar e determinar a intensidade do estímulo (como o parietal anterior) e em áreas corticais responsáveis pela interpretação (consciência) do processo doloroso (parietal posterior). Existe um retardo dos sinais entre as áreas de detecção do estímulo doloroso e aquelas relacionadas à sua percepção (consciência). É provável que tal retardo se deva a uma reação reflexa imediata protetora da integridade do organismo, permitindo que a percepção, com toda a sua história cognitiva, construa mais lentamente comportamentos mais elaborados. Agentes estranhos ao organismo ou restos teciduais resultantes de danos são reconhecidos pelas células fagocíticas (principalmente macrófagos), dando início à resposta inflamatória e constituindo um componente importante da resposta imune inata. Os primeiros sinais dessa resposta inflamatória são o FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 8 calor, o rubor e o edema, decorrentes da dilatação arterial, do recrutamento de territórios vasculares adicionais e do extravasamento de plasma das veias. Esses eventos iniciais podem facilitar a remoção do agente injuriante (p. ex., toxinas e bactérias), aumentando o fluxo de líquido intersticial, a ativação endotelial e migração de células de defesa para o local da lesão. A ativação do sistema da calicreína e do sistema complemento leva à formação, no líquido intersticial, de bradicinina e de fatores do complemento (C5a e C3a). Além disso, esses mediadores levam ao desenvolvimento de um denominador comum aos processos inflamatórios: o aumento da sensibilidade neuronal a estímulos que normalmente não produzem ou produzem pouca dor. A nomenclatura introduzida em 1982 pela Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) redefiniu a sensibilização dos nociceptores em 2 categorias: - Alodínia = Resposta dolorosa a um estímulo que antes não era doloroso; - Hiperalgesia = Resposta dolorosa aumentada a um estímulo previamente doloroso. É interessante notar que a alodínia é uma característica das neuropatias, nas quais ocorrem lesões neuronais, fazendo com que estímulos de pouca intensidade e pequena duração passem a causar dores fortes ou sensações de queimação contínua ou mesmo dores espontâneas intensas sem qualquer estimulação. A sensibilização neuronal que ocorre durante a inflamação será referida, neste resumo, como hipemocicepção inflamatória ou simplesmente hipemocicepção. Um ponto importante é que a liberação dos mediadores respeita uma ordem temporal de liberação e de ação. Se realizarmos uma análise do exsudato inflamatório colhido em uma fase tardia de um processo inflamatório agudo, é possível detectarmos um a “sopa” de mediadores intermediários e finais. Porém, se for realizada uma análise temporal desse exsudato, observaremos uma sequência definida de liberação. E por essa razão que podemos, ao bloquearmos um passo dessa sequência, inibir o desenvolvimento de determinados eventos, sinais e sintomas do processo inflamatório, inclusive a dor A Figura 19.1 ilustra as principais vias biológicas ativadas pelo estímulo inflamatório, culminando a hiperalgesia inflamatória. No que se refere à dor, os mediadores inflamatórios liberados durante a resposta imune inata podem ser divididos em 2 grupos: - Mediadores hiperalgésicos intermediários = São liberados no início e durante a inflamação, sendo responsáveis pela liberação de outros mediadores intermediários; - Mediadores hiperalgésicos finais = Estes mediadores (prostaglandinas [PGs] e aminas simpáticas) atuam em determinados receptores, presentes na membrana dos neurônios nociceptivos aferentes primários, e sua ativação estimulará vias de sinalização intracelular (como a AMPc e das proteínas quinases A-PKA e C-PKC), levando ao desenvolvimento da sensibilização neuronal. A ativação dessas proteínasquinases reduz o limiar de ativação de vários canais iônicos (como os de sódio, de potássio e de cálcio), presentes na membrana e nas organelas do citoplasma. Isso facilita a ação de estímulos que antes eram pouco efetivos. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 9 Entre os mediadores intermediários, podemos destacar as citocinas e as quimiocinas como os mediadores mais característicos da dor inflamatória. A família das citocinas consiste em pequenas proteínas e glicoproteínas que permitem a comunicação intercelular. Esses mediadores, que a princípio pareciam ser importantes apenas no recrutamento de leucócitos (neutrófilos) para o foco inflamatório, foram reconhecidos como relevantes na gênese da sensibilização nociceptiva. As citocinas mais importantes no que se refere à hipernocicepção são: - TNF-alfa; - IL-1 = Estimula a liberação de PGs; - IL-8 = Estimula a liberação de aminas simpáticas (adrenalina, noradrenalina e dopamina). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 10 É interessante notar que, dependendo do cenário experimental ou inflamatório, mediadores intermediários também podem comportar-se como mediadores finais. Uma das características das respostas imunes inatas é “abrir caminho” para uma resposta imune adaptativa. Durante a resposta imune adaptativa, há o envolvimento de citocinas hipernociceptivas que atuam como mediadores intermediários da imunidade inata, ou seja, dependendo da duração, da intensidade e das lesões provocadas por um a resposta imunológica adaptativa, há o desencadeamento de um a resposta tecidual com dor característica de um a resposta inflamatória aguda (p. ex., artrite reumatoide). A dor periférica que se cronifica (persistência ou renitência) pode ocasionar a sensibilização de neurônios centrais do circuito nociceptivo e mesmo de centros associados à percepção da nocicepção, causando a amplificação do estímulo periférico. Esses eventos complementares sempre dificultam a terapêutica da dor inflamatória crônica. • Mecanismos não-neuronais: 1.MEDIADORES HIPERALGÉSICOS INTERMEDIÁRIOS, liberados pelas células residentes e pelas células do sistema imune, que migram para o local da inflamação: Geralmente os mediadores hipernociceptivos finais não são liberados diretamente a partir do reconhecimento do estímulo inflamatório, mas sim após a estimulação por outros mediadores liberados previamente que são os mediadores hiperalgésicos intermediários. Entre mediadores intermediários, os mais importantes são: - Citocinas (TNF-alfa, IL-1 e IL-8) e quimiocinas; - Bradicinina; - Fatores do complemento C3a e C5a, de origem peptídica e provenientes do plasma. O reconhecimento de resíduos tissulares (de vírus ou bactérias) ou seus produtos por macrófagos, inicia a resposta imune inata (com presença de calor rubor e edema), com a subsequente chegada de neutrófilos e desencadeamento da dor inflamatória. A persistência da resposta inata serve para ativar a resposta adaptativa. As citocinas e as quimiocinas induzem a migração celular, febre e dor. Atualmente sabe-se que, após a indução de uma inflamação por endotoxina, o TNF-alfa: - É a primeira citocina a ser liberada, sendo a citocina-chave do processo inflamatório; - Induz a secreção de IL-1-beta pelas células presentes e, consequentemente, de prostaglandinas (PGs), que produzem hiperalgesia; - Estimula uma outra via biológica dependente da liberação das quimiocinas IL-8/C XC L8 as quais são responsáveis pela ativação do componente simpático da hiperalgesia inflamatória, ou seja, promovem a liberação de aminas simpáticas (Fig. 19.2). Esse processo biológico é hierárquico, afastando a ideia inicial de que os sintomas inflamatórios resultam de uma “sopa de mediadores” liberados de maneira desordenada durante o processo inflamatório. Isso nos permite entender porque a inibição de uma (IL-1-beta ou TNF-alfa) ou várias citocinas (pelo uso de drogas glicocorticóides) causa analgesia. Assim, o sucesso clínico das terapias anti- TNF-alfa na artrite reumatoide resume bem esse conceito e permite que novos alvos terapêuticos para o controle da dor inflamatória sejam propostos. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 11 A resposta imune adaptativa deve ser descrita em 3 tipos: - Resposta imune celular do tipo Th1 = São respostas celulares com produção de interferon-gama (IFN- y) e consequente ativação de fagócitos (macrófagos), sendo muito importante no controle de infecções bacterianas intracelulares. Os linfócitos também são importantes na produção de citocinas pró- inflamatórias (como o TNF-alfa, a IL-6 e a IL-12), que amplificam a resposta imune adaptativa e são responsáveis pelo recrutamento de outras células, com o os neutrófilos. Esse tipo de resposta está associado a doenças inflamatórias autoimunes, com o a artrite reumatoide, por exemplo; - Resposta imune do tipo Th2 = São caracterizadas pela produção de IL-4 e IL-5 que induzem a produção de imunoglobulina E (IgE), induzem a degranulação de mastócitos e a ativação/migração de eosinófilos (reconhecem e destroem helmintos sem fagocitá-los). Essas atividades estão relacionadas a doenças inflamatórias como asma e outros tipos de alergia; - Respostas humorais (principalmente pela produção de anticorpos pelos linfócitos B). Outro grupo de citocinas parece ser importante para a gênese da hiperalgesia inflamatória de origem imune, como a IL-15 e a IL-18. 2.Leucócitos e dor inflamatória: Os neutrófilos são as primeiras células do sistema imunológico a chegarem ao local do dano e são responsáveis pela eliminação do agente infeccioso. Entretanto, em certas ocasiões, ocorre perda do FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 12 controle do recrutamento de neutrófilos, tornando-as responsáveis também pela formação de lesões teciduais, com o as observadas em certas doenças inflamatórias (artrite reumatoide, gota, vasculites, etc.). Isso acontece porque, no local da inflamação, são ativadas pelos mediadores produzidos localmente e começam a produzir substâncias como radicais livres, enzimas proteolíticas e prótons, que são tóxicas para os tecidos. Até o presente momento, ainda não há certeza sobre qual é o papel principal dos neutrófilos no estabelecimento da hiperalgesia inflamatória, embora algum as hipóteses tenham sido levantadas: - Os neutrófilos podem ser a fonte dos mediadores finais, como, por exemplo, as PGs. - Os neutrófilos podem liberar algum outro mediador com papel-chave que, ao atuar em sinergismo com outros mediadores, como as PGs, promoveriam a hiperalgesia inflamatória. De qualquer forma, os neutrófilos desempenham papel fundamental para a hiperalgesia, que, sem essas células, não se desenvolve. Pode-se sugerir, então, que a utilização de drogas que inibem a migração de neutrófilos para o foco inflamatório provavelmente seria uma alternativa para o controle da dor, já que tais substâncias também são potencialmente capazes de modificar o processo fundamental de certas doenças inflamatórias que levam à lesão dos tecidos. A importância da presença dos neutrófilos na inflamação mostra a necessidade do desenvolvimento de drogas de ação imediata de curta duração (para não bloquear totalmente a defesa imunológica inata) para o controle dos sintomas e das lesões de várias doenças crônicas de origem imune. • Mecanismos neuronais: 1.MEDIADORES HIPERALGÉSICOS FINAIS: Os mediadores hiperalgésicos finais atuam diretamente em receptores nas membranas dos neurônios periféricos nociceptivos e induzem os mecanismos moleculares responsáveis pela sua sensibilização (Figs. 19.1 e 19.2). Entre osmais importantes estão: * Eicosanóides (prostaglandinas e prostaciclinas). * Aminas simpáticas. * Leucotrienos. * Fator de agregação de plaquetas (PAF). * Histamina. * Serotonina. Os eicosanoides (p. ex., PGs) são produzidos pela ação das enzimas cicloxigenases (COX), que utilizam o ácido araquidônico com o substrato. Os eicosanoides exercem funções fisiológicas importantes e tem papel relevante em processos inflamatórios. Em condições normais, o ácido araquidônico encontra- se esterificado nos fosfolipídeos da membrana celular, e esses fosfolipídeos são mobilizados durante o processo inflamatório pela ação da enzima fosfolipase A2 (PLA2), ativada por estímulos químicos, mecânicos e produtos microbianos. Na visão atual, as PGs são consideradas mediadores finais da dor inflamatória, pois são capazes de sensibilizar diretamente os nociceptores, ou seja, as células neuronais expressam receptores específicos para as PGs que são ativados sem depender da liberação de outros mediadores. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 13 Além das PGs, há um componente simpático na sensibilização dos nociceptores durante o processo inflamatório. Substâncias com o as aminas simpáticas (p. ex., noradrenalina, adrenalina e dopamina). Além disso, experimentos que demonstravam a inibição parcial da hiperalgesia inflamatória mecânica por drogas inibidoras da liberação das aminas simpáticas ou por antagonistas de receptores adrenérgicos indicaram uma via alternativa para a indução de hiperalgesia. Outras substâncias também são capazes de sensibilizar diretamente os nociceptores. Entre elas, destacam-se as endotelinas e a substância P. As endotelinas são substâncias com potente atividade vasoconstritora e envolvidas no controle do tônus vascular e também possuem importante papel na gênese da dor inflamatória, em processos isquêmicos e em doenças vasculares. Já a substância P é um modulador da transmissão nociceptiva, atuando principalmente na medula espinal, controlando o fluxo de informações transmitidas pelos neurônios primários aos centrais. Com relação ao SNP, há evidências de que ela pode ser liberada durante o processo inflamatório pelas terminações nervosas livres dos tecidos inflamados, contribuindo para o aparecimento do processo denominado inflamação neurogênica e atuando de maneira autócrina nessas terminações, sensibilizando- as. • Bases moleculares da hipernocicepção inflamatória: Após a ativação dos receptores presentes nos nociceptores pelos mediadores inflamatórios finais (p. ex., PGs e aminas simpáticas), iniciam-se os mecanismos periféricos neuronais da dor inflamatória, representados por vias metabólicas de sinalização intracelular, com a participação de enzimas e de segundos mensageiros intracelulares, resultando na modulação da atividade de canais iônicos. Os receptores das prostaglandinas (receptores do tipo EP) e das aminas simpáticas (receptores simpáticos beta1/beta2) são expressos nos neurônios nociceptivos primários e fazem parte de um a família de receptores celulares acoplados à proteína G. Esses receptores são chamados receptores metabotrópicos, pois estão ligados às vias metabólicas de transmissão intracelular de sinal. A expressão desses receptores está mais associada a fibras nociceptivas não-mielinizadas (fibras do tipo C). A ligação dessas substâncias nos seus respectivos receptores ativa a proteína G, levando à estimulação de várias vias de sinalização diferentes (Fig. 19.3). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 14 O primeiro segundo mensageiro a participar da dor inflamatória é o AMPc. O AMPc é produzido pela adenilato ciclase (AC - enzima intracelular importante presente na membrana plasmática dos neurônios) que é ativada pelas subunidades da proteína G. A produção do AMPc é necessária para que ocorra amplificação do processo que se iniciou na membrana da célula neuronal. O AMPc ativa a proteína quinase dependente de AMPc (PKA) e a proteína quinase C (PKC). A PKC está associada ao aumento das concentrações intracelulares de cálcio, de trifosfato inositol (IP3) e de diacilgliceróis (DAG). As proteínas quinases são assim denominadas devido à sua capacidade de acrescentar um grupo fosfato em outras proteínas, modificando sua funcionalidade. Nesse sentido, a PKA e a PKC e têm sido implicadas na modulação da atividade de canais iônicos que apresentam resíduos de proteínas que podem ser fosforiladas por essas enzimas. Uma vez fosforilados, a atividade desses canais é alterada, de forma que podem se tornar mais ativos ou menos ativos (Fig. 19.3). Ao serem estimulados, os receptores de membrana (EP e beta1/beta2) de um neurônio ativam vias de sinalização intracelular que levarão à diminuição do limiar de disparo de potenciais de ação dos neurônios, facilitando a ativação neuronal. As vias bioquímicas envolvem a ação de proteínas quinases (PKC e PKA) e a fosforilação (fechamento/abertura) de canais iônicos permeáveis aos íons sódio (Nav 1.8), potássio (Kv – voltagem-sensíveis) ou cálcio (TRPV1): - PKC: * Fosforila (fecha) os canais de potássio (Kv). * Fosforila (abre) os canais de sódio (Nav 1.8) e de cálcio (TRPV1); - PKA: * Fosforila os canais de sódio (Nav 1.8) e de potássio (Kv), facilitando o disparo de atividade elétrica da membrana neuronal, que é um a característica da hiperalgesia/hipernocicepção. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 15 Ainda em relação à modulação de canais iônicos que levam à hiperalgesia, cabe lembrar o fenômeno da sensibilização retrógrada, no qual receptores NMDA parecem ter papel importante para a manutenção da hiperalgesia. Os receptores NMDA são ativados pelo GLU, liberado pelos neurônios na sinapse. Os neurônios nociceptores periféricos possuem um mecanismo de feedback, no qual o próprio neurônio mantém seu estado sensibilizado por causa da liberação de GLU, que, atuando de maneira autócrina em receptores NMDA pré-sinápticos (como em um processo de retroalimentação), manteria o neurônio em estado sensibilizado. Tal fenômeno seria importante para a duração da dor aguda e para a cronicidade da dor. • Canais iônicos: A excitabilidade do neurônio é controlada por canais iônicos presentes em sua membrana plasmática, ou seja, sua modulação é a etapa final na sensibilização dos nociceptores. Como mencionado anteriormente, a ativação das vias intracelulares neuronais leva, em última instância, à fosforização de canais iônicos que diminuem o limiar de ativação da célula neuronal, aumentando sua excitabilidade. Os principais canais iônicos implicados na sensibilização dos nociceptores são os canais catiônicos. De uma forma simplista, poderíamos dizer que: - Canais de potássio (K) e canais de cálcio (Ca) são mais relacionados à alteração do potencial de repouso neuronal; - Canais de sódio (Na) são associados à diminuição do limiar de ativação do nociceptor. Objetivo 6: ➢ Controle farmacológico periférico da dor inflamatória: Com base nos eventos celulares e moleculares envolvidos na sensibilização dos nociceptores durante um processo inflamatório e no aparecimento da hiperalgesia inflamatória, podem os classificar os fármacos de ação periférica em 2 tipos principais: - Fármacos que previnem a sensibilização dos nociceptores (antálgicos); - Fármacos que atuam diretamente, bloqueando o curso da sensibilização dos nociceptores já instalada (analgésicos). 1.Fármacos que previnem a sensibilização dos nociceptores (antálgicos): Conforme já mencionado, a sensibilização dos nociceptores se deve à ação de mediadores inflamatórios liberados no tecido inflamado sobre os nociceptores. Dessa forma as drogas que inibem a produção desses mediadoressão capazes de prevenir a sensibilização e a consequente hiperalgesia. Nesta classe temos: - Inibidores da síntese de mediadores hiperalgésicos finais (AINHs); - Antagonistas de receptores dos mediadores finais, simpatolíticos e antagonistas dos receptores de bradicinina; - Bloqueadores da liberação ou da ação de citocinas (corticoides). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 16 1.1.Inibidores da síntese de mediadores hiperalgésicos finais (AINHs): Os AINHs são provavelmente a classe de drogas mais utilizada no mundo. O mecanismo de ação dessas drogas (conhecidas com o aspirin-like, ou do tipo da aspirina) está ligado à inibição da síntese de PGs por inibição COX (produz PGs a partir do ácido araquidônico). Dessa forma, por bloquearem a formação de mediadores hiperalgésicos finais, essas drogas previnem a sensibilização dos nociceptores e a consequente hiperalgesia inflamatória. O uso prolongado de AINHs está associada a graves efeitos adversos, que limitam seu uso. Isso se deve à inibição da COX (que participa do processo inflamatório e também desempenha um papel importante na fisiologia de certos sistemas fisiológicos). Os principais efeitos colaterais observados são lesões gástricas e intestinais, devido ao importante papel fisiológico que as PGs desempenham no controle da liberação de suco gástrico e de muco. Com a descoberta da existência de duas isoformas de COX (COX-1 → mais relacionada a processos fisiológicos e COX-2 → mais relacionada aos processos inflamatórios), houve uma busca por moléculas que inibissem seletivamente a COX-2, prevenindo os efeitos colaterais dos AINHs. Assim, no final da década de 1990, uma nova classe de drogas foi introduzida no mercado, os inibidores seletivos de COX-2. Os inibidores seletivos da COX-2 surgiram como uma milagrosa classe de drogas para controlar a dor durante doenças inflamatórias crônicas (p. ex., artrite reumatoide) substituindo os AINHs convencionais. No entanto, essas drogas também apresentaram efeitos colaterais como ataques cardíacos e outros eventos cardiovasculares e a formação de trombos. Atualmente, essa classe de drogas, antes considerada insubstituível, tem sido questionada e o controle da dor inflamatória continua um grande desafio. 1.2.Bloqueadores da liberação ou da ação de citocinas (Glicocorticoides): Os glicocorticoides são hormônios esteroides responsáveis pela regulação de diferentes processos fisiológicos, como o metabolismo lipídico e a resposta inflamatória. Os glicocorticoides endógenos (produzidos pela glândula adrenal) têm participação importante no controle de uma inflamação severa. Com base nisso, os glicocorticoides são utilizados constantemente na terapia anti-inflamatória. Vários são os mecanismos anti-inflamatórios dos glicocorticoides: quando o glicocorticoide (GC) entra em uma célula e se liga aos seus receptores do citoplasma (GR), o complexo glicocorticóide-receptor de glicocorticóide (GC-GR) pode migrar para o núcleo celular e ligar-se a elementos responsivos aos glicocorticoides no DNA, induzindo a expressão de diferentes moléculas anti-inflamatórias como: - IL-10; - IKB = Inibe a produção de mediadores inflamatórios, de COX-2 e de lipoxigenase (enzima responsável pela produção de leucotrienos); - Anexina-1 = Inibe a produção de PGs. Os glicocorticoides não são capazes de inibir a hiperalgesia induzida pelos mediadores finais da dor inflamatória, como as PGs. Os glicocorticoides também apresentam muitos efeitos colaterais relacionados principalmente com sua função hormonal endógena, o que limita seu uso crônico. Nesse sentido, existem novas drogas que podem inibir seletivamente a síntese ou a ação das citocinas como: - Anticorpos; FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 17 - Receptores solúveis para TNF-alfa (Infliximab e Etanercept); - Antagonistas dos receptores de IL-1 (Anakinra). Estas drogas, além de serem capazes de inibir o processo fundamental responsável pela lesão tecidual observado nas doenças inflamatórias, ainda são capazes de causar analgesia. O tratamento com essas novas drogas também possui desvantagens como o alto custo e a facilitação da instalação de infecções oportunistas. Também existem outras drogas que podem interferir na liberação de citocinas pró-inflamatórias, com o a talidomida e a pentoxifilina. Ambas alteram a meia-vida do RNAm para produção do TNF-alfa, reduzindo sua produção. 1.3.Citocinas anti-inflamatórias: Observou-se que, durante um processo inflamatório, além das citocinas pró-nociceptivas, ocorria também a liberação de outras citocinas, que modulavam negativamente o processo inflamatório e a consequente dor inflamatória, sendo consideradas citocinas antinociceptivas. O efeito modulador dessas citocinas sobre a dor inflamatória parece estar associado com a inibição da liberação dos mediadores hiperalgésicos intermediários (citocinas pró-nociceptivas) e inibição da liberação dos mediadores hiperalgésicos finais (PGs). As principais citocinas antinociceptivas caracterizadas até o momento são: - IL-4; - IL-10; - IL-13; - Antagonista endógeno da IL-1 (a IL-1ra), capaz de formar um complexo estável com a citocina, prevenindo a ativação de receptores celulares. 2.Fármacos que atuam diretamente, bloqueando o curso da sensibilização dos nociceptores já instalada (analgésicos): Nesta classe temos: - Estimuladores da enzima óxido nítrico (NO) sintase neuronal (morfina de ação periférica: codeína, dipirona); - Mistos (AINHs e estimuladores da NO sintase neuronal): dipirona, alguns anti-inflamatórios não- esteroidais (diclofenaco ou ketorolaco) e opioides periféricos; - Bloqueadores da excitabilidade dos neurônios primários (antagonistas de canais de sódio TTX-r). Essas drogas são capazes de reverter a sensibilização dos nociceptores já estabelecida. Podemos destacar: - Opioides de ação periférica (dipirona) = O efeito analgésico dos opioides eram associados a ações no SNC, mas na década de 1970 descobriu-se que também poderiam ter ação periférica. Os opioides inibem a ação de segundo mensageiro (AMPc); - AINHs (diclofenaco). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 18 • Anestésicos locais (não faz parte do tratamento da dor inflamatória, apenas está aqui para completar o Objetivo 6): Anestésico local pode ser definido como uma droga que pode bloquear de forma reversível a transmissão do estímulo nervoso no local onde for aplicado, sem ocasionar alterações no nível de consciência. Os anestésicos locais bloqueiam a ação de canais iônicos na membrana celular neuronal, impedindo a neurotransmissão do potencial de ação. A forma ionizada do anestésico local liga-se de modo específico aos canais de sódio, inativando-os e impedindo a propagação da despolarização celular. Porém, a ligação específica ocorre no meio intracelular, por isso é necessário que o anestésico local em sua forma molecular ultrapasse a membrana plasmática para então bloquear os canais de sódio. É provável que exista um segundo mecanismo de ação dos AL, que envolve a inativação dos canais de sódio pela incorporação de moléculas de AL na membrana plasmática (teoria da expansão da membrana plasmática). As fibras nervosas possuem sensibilidades diferentes aos anestésicos locais, sendo as fibras pequenas mais sensíveis que as grandes, e as fibras mielinizadas são bloqueadas mais rapidamente que as não mielinizadas de mesmo diâmetro. O bloqueio das fibras nervosas ocorre gradualmente, iniciado com a perda de sensibilidade à dor, à temperatura, ao toque, à propriocepção e finalmente perda do tônus músculo esquelético. Por essa razão os indivíduos podem ainda sentir o toque no momentoem que a dor já está ausente após aplicação do anestésico local. Os anestésicos locais podem ser tóxicos de acordo com a dose aplicada e o grau de absorção sistêmica. Todos podem ser perigosos, principalmente a bupivacaína. A toxicidade clínica está relacionada FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 19 aos efeitos da droga em outras membranas excitáveis no SNC e cardiovascular. Os efeitos centrais incluem parestesia nos lábios, dificuldade na articulação das palavras, redução do nível de consciência e convulsões. As múltiplas alterações em canais iônicos cardíacos, podem levar à arritmias e redução da contratilidade miocárdica. No caso da bupivacaína os efeitos cardíacos são de difícil tratamento pelo alto grau de ligação proteica desse anestésico, tornando difícil sua remoção do miocárdio. Em contrapartida, a lidocaína pode ser usada clinicamente por seus efeitos cardíacos antiarrítmicos. Em pacientes que apresentem alterações na farmacocinética dos anestésicos locais pela presença de comorbidades como a insuficiência cardíaca ou hepática (redução do metabolismo da droga), por alterações de proteínas plasmáticas ou pela interação com outras drogas, deve-se estar mais atento à possibilidade de toxicidade do AL. Cada droga possui seus efeitos colaterais específicos. O PABA pode desencadear reações alérgicas. A prilocaína pode causar meta-hemoglobinemia em indivíduos suscetíveis. A cocaína é um potente vasoconstritor e pode ocasionar sérios problemas em pacientes que utilizam outras medicações com propriedades vasoconstritoras, como os inibidores da monoamino oxidase (IMAO). Objetivo 3: ➢ Amigdalites agudas/Faringotonsilites/Faringoamigdalites/Tonsilites: As infecções das vias aéreas superiores (IVAS) têm prevalência elevada e são causas comuns de consultas médicas. Dor de garganta é a terceira principal queixa entre pacientes que procuram serviços de emergência, e as faringotonsilites agudas são responsáveis por aproximadamente 5% das consultas médicas. As faringotonsilites são IVAS de ocorrência frequente e autolimitadas. As principais funções das tonsilas são: atuar como tecido imunocompetente local, secretando imunoglobulinas nas criptas (são capazes de produzir as 5 classes de imunoglobulinas - IgA, lgG, lgM, lgD e lgE) e, com isso, impedindo a replicação bacteriana e viral no trato respiratório superior, o que representa a primeira linha de defesa contra doenças infecciosas na região; e produzir cadeias J, que completarão a estrutura molecular das imunoglobulinas A e que, posteriormente migram para outras áreas do trato respiratório superior. O Streptococcus viridans (faz parte da microbiota normal da boca) é a bactéria mais encontrada nas tonsilas de indivíduos sem infecção aguda, corroborando a importância da flora normal da cavidade orofaríngea para a interferência bacteriana, que é a ação de certas bactérias em relação à inibição do crescimento ou aderência de outras, potencialmente patogênicas. Nunca é demais lembrar que o uso repetido de antibióticos pode levar a um desequilíbrio dessa flora, além de contribuir para o aparecimento de resistência bacteriana. Antes dos 3 anos de idade, a prevalência das infecções bacterianas de orofaringe é baixa em virtude da proteção fornecida pela lgG materna. As faringotonsilites por estreptococos beta-hemolítico do grupo A (EBHGA) são mais frequentes na faixa de 3 a 15 anos de idade, e a preocupação em relação a essa etiologia deve-se ao seu potencial de causar infecções purulentas e invasivas, escarlatina, glomerulonefrite e febre reumática, sendo altamente transmissível e capaz de disseminar-se rapidamente em creches e escolas. Aspectos da história e do exame físico podem sugerir a etiologia viral ou bacteriana, infelizmente com baixa especificidade e sensibilidade: FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 20 - Infeção por vírus = Coriza, obstrução nasal, espirros, rouquidão, aftas (Coxsackie ou herpes) e sintomas gastrintestinais associam-se frequentemente a doenças virais, acompanhados ou não de elevações da temperatura corporal; - Infecção por EBGA = Início súbito, febre ≥ 38°C, dor de garganta e achados no exame físico que incluem hiperemia, hipertrofia e exsudato tonsilar, junto com linfadenopatia cervical anterior e subângulo mandibular doloroso. Sinais de envolvimento mais extenso das vias aéreas superiores (coriza, espirros, etc.) não costumam estar presentes nas infecções pelo estreptococo. • Classificação: As anginas são inflamações da faringe. Anginas eritematosas são as mais frequentes (90% dos casos) e podem ser de origem viral ou bacteriana. Ao exame observa-se: - Mucosa orofaríngea arroxeada; - Amígdalas edemaciadas e aumentadas de volume. Anginas eritematopultáceas são menos frequentes. Ao exame observa-se: FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 21 - Mucosa orofaríngea arroxeada; - Amígdalas edemaciadas e aumentadas de volume; - Exsudato esbranquiçado puntiforme ou confluente, que se desprende facilmente da mucosa ao ser manipulado com o abaixador de língua. • Amigdalites virais: As amigdalites virais correspondem a 75% das faringoamigdalites agudas, são mais comuns nos primeiros anos de vida (2 e 3) e menos frequentes na adolescência. Reavaliar o paciente em 48 a 72 horas nos casos em que não houver remissão da febre. • Amigdalites bacterianas: As amigdalites bacterianas correspondem a 20 a 40% das faringoamigdalite agudas: - Etiologia = O agente mais comum é o estreptococo beta-hemolítico do grupo A. Sua importância em Saúde Pública decorre da sua alta frequência e das suas complicações (febre reumática e glomerulonefrite difusa aguda); - Quadro clínico = Usualmente afeta crianças a partir dos 3 anos (com pico de entre 5 e 10 anos), podendo acometer qualquer idade. Manifesta-se com dor de garganta intensa, disfagia, otalgia reflexa, febre de intensidade variável, que pode ser acompanhada de queda do estado geral. - Exame físico = Revela hiperemia, aumento de tonsilas e exsudato purulento, adenomegalia em cadeia jugulodigástrica (observada em 60% dos casos). No hemograma observamos leucocitose com desvio à esquerda. - Diagnóstico = Apesar do diagnóstico da faringoamigdalite aguda bacteriana ser basicamente clínico, é possível a utilização de métodos diagnósticos para a confirmação da etiologia estreptocócica. A cultura de orofaringe é considerada o padrão ouro, mas apresenta como desvantagem o tempo prolongado (18 a 48 horas) para obtenção do resultado do exame e com isso a espera para a introdução da medicação adequada. Outros testes para detecção do estreptococo (ELISA, imunoensaios ópticos ou sondas de DNA), apresentam a vantagem do diagnóstico rápido (cerca de 15 minutos). Essas provas se apresentam na forma de kits e podem ser realizadas no consultório. Quando comparados à cultura de orofaringe, apresentam sensibilidade de 30 a 90% e especificidade de 95%, tendo, portanto, um valor elevado de falsos-negativos. Na impossibilidade de efetuar a cultura ou teste rápido para detecção do EBHGA (conduta ideal), recomenda-se reavaliar em 48 a 72 horas todo paciente com quadro clínico de faringotonsilite aguda. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 22 - Tratamento = Analgésicos, anti-inflamatórios, corticosteroides e antibioticoterapia. O uso correto de antibióticos até 9 dias após o início do quadro infeccioso é capaz de impedir a febre reumática nas infecções por EBHGA. Os antibióticos de 1 ª escolha são a penicilina e a amoxicilina. Para prevenir a febre reumática, a penicilina ou a amoxicilina devem ser administradas oralmentepor 10 dias, inclusive quando o paciente ficar assintomático após os primeiros dias de tratamento. A penicilina G benzatina por via intramuscular está indicada para os que não aderem ao tratamento oral pelo prazo recomendado. • Complicações das faringoamigdalites: 1.Febre reumática: - Os sinais e sintomas aparecem de 2 a 3 semanas após a faringoamigdalite estreptocócica; - Acometem crianças entre os 5 e 15 anos; - Para o diagnóstico utilizamos o critério de Jones modificado, sendo confirmado na presença de 2 critérios maiores ou 1 critério maior e 2 menores, associados à evidência de infecção estreptocócica recente. 2.Escarlatina: - Decorrente da ação de endotoxinas; - Apresenta-se com rash cutaneopapular e eritematoso, deixando a pele áspera, linfonodomegalia, vômitos, febre e eritema de orofaringe. Pode manifestar os sinais de Filatov (palidez perioral) e Pastia (presença de petéquias e hiperpigmentação em linhas de flexão. 3.Glomerulonefrite: - Ocorre após infecção faríngea ou de pele; - Acomete 24% dos pacientes expostos a cepas nefritogênicas (correspondem a 1% do total); - O paciente evolui com síndrome nefrítica de 1 ou 2 semanas após a infecção. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 23 4.Síndrome do choque tóxico: - Pode ocorrer após infecção ou colonização estreptocócica de qualquer sítio (faringe, pele); - O paciente apresenta hipotensão associada a pelo menos 2 dos seguintes fatores: * Insuficiência renal. * Coagulopatia. * Alterações na função hepática. * Síndrome da angústia respiratória do adulto. * Necrose tecidual. * Rash eritematomacular. 5.Complicações supurativas: - Abscesso periamigdaliano = A teoria mais aceita para explicar sua formação seria a extensão da infecção localizada na amígdala para estruturas do espaço periamigdaliano, inicialmente como celulite evoluindo para a formação do abscesso. * Etiologia = Geralmente causado por microbiota mista (composta por germes aeróbios e anaeróbios, sendo o Streptococcus pyogenes o mais comumente isolado). * Quadro clínico = O paciente com amigdalite aguda evolui com odinofagia acentuada e unilateral, piora da disfagia e da halitose, salivação, alteração no timbre da voz e trismo (constrição mandibular devido à contração invonluntária dos músculos mastigatórios). * Exame físico = Observa-se edema dos tecidos localizados superiormente e lateralmente à amígdala envolvida e deslocamento da úvula. * Tratamento = Antibioticoterapia (penicilina cristalina + metronidazol; amoxicilina + clavulanato, clindamicina) associada a anti-inflamatórios e punção para coleta de material para cultura e drenagem. Não é recomendada a realização de amigdalectomia (“a quente”) durante o processo infeccioso. - Abscesso parafaríngeo = O acometimento desse espaço ocorre por meio da disseminação bacteriana a partir das infecções amigdalianas e faríngeas. Apresenta-se com edema no ângulo da mandíbula, disfagia e dor de garganta; - Infecções do espaço retrofaríngeo. ➢ Amigdalites virais: • Mononucleose infecciosa: - Epidemiologia = Doença sistêmica que acomete principalmente adolescentes e adultos jovens; - Etiologia = Causada pelo vírus Epstein-Barr (EBV), transmitida pelo contato direto com gotículas salivares; - Quadro clínico = Febre acompanhada de astenia (perda ou diminuição da força), angina, poliadenopatia, hepatomegalia em 10% dos casos e esplenomegalia em 50% dos casos. A angina pode ser eritematosa, eritematoexsudativa ou pseudomembranosa. A evolução do quadro costuma ser favorável, com resolução espontânea após semanas ou meses. Essa etiologia deve ser considerada quando o paciente não apresenta melhora com o uso de antibióticos; - Diagnóstico = O diagnóstico é realizado pelo quadro clínico associado aos resultados dos exames laboratoriais: FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 24 * Inespecíficos, hemograma = linfocitose com 10% ou mais de atipia linfocitária e aumento de transaminases. * Sorologias = *Paul-Bunnel-Davidson: positiva após 10 a 20 dias de doença, com sensibilidade de 90% e especificidade de 98%. * Pesquisa de Ac IgM ou IgG contra antígenos do capsídeo viral: detecção de Ac IgM desde o início do quadro, atingindo seu pico entre 4 e 6 semanas. - Tratamento = É baseado em medidas de suporte (hidratação e analgésicos), evitando-se o uso de ampicilina, pelo risco de provocar o aparecimento de rash cutâneo morbiliforme. O uso de corticosteroides permanece controverso; - Diagnóstico diferencial (DDx) = Lembrar que outros agentes etiológicos podem simular um quadro de mononucleose infecciosa. “Síndrome mononucleose like”, como citomegalovírus, o vírus da rubéola, Toxoplasma gondii, HIV, entre outros. • Anginas vesiculosas: De origem viral, caracterizam-se pelo acometimento da faringe e mucosa oral por vesículas, podendo ser múltiplas e disseminadas, que rompem com facilidade, dando lugar a ulcerações superficiais recobertas por exsudato esbranquiçado. • Vírus herpes simples tipos 1 e 2: A infecção primária é geralmente uma gengivoestomatite, mas pode se manifestar como uma faringite aguda. - Epidemiologia = Ocorre entre os 10 meses e 3 anos de idade; - Transmissão = A transmissão viral se dá por perdigotos e contato com as lesões ativas; - Quadro clínico = Após o período de incubação (2 a 12 dias), surgem as lesões vesiculosas acompanhadas de linfonodomegalia cervical e submental. Após a regressão do quadro, o vírus pode ficar latente em gânglios nervosos por longos períodos, e manifestar-se em situações de queda de imunidade; - Diagnóstico = Clínico, microbiológico (cultura viral), microscopia eletrônica e imunológico (ELISA); - Tratamento = Sintomático. O aciclovir (antiviral) pode ser utilizado nos casos mais severos, na dose de 200 mg, 5 vezes ao dia, de 7 a 10 dias. • Herpangina: - Etiologia = Vírus Coxsackie A, Coxsackie B e Echovírus; - Quadro clínico = Caracteriza-se por uma angina eritematosa com pequenas vesículas em palato mole, úvula e pilares amigdalianos, que ao se romperem deixam ulcerações esbranquiçadas circundadas por halo eritematoso espalhadas por toda orofaringe, poupando a região jugal. Frequente em crianças, principalmente no verão, acompanhada de febre, cefaleia, micropoliadenopatia cervical, disfagia e vômitos. Resolução espontânea entre 5 a 10 dias; - Tratamento = Sintomático e medidas de suporte. ➢ Amigdalites bacterianas: • Difteria: - Epidemiologia = Acomete principalmente crianças entre 1 e 7 anos de idade. Vai-se tornando cada vez menos frequente, devido ao uso difundido da vacinação antidiftérica. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 25 - Etiologia = Causada pelo Corynebcterium diphteriae, um bacilo Gram-positivo produtor de endotoxinas e exotoxinas, responsáveis pelos fenômenos locais e sistêmicos da doença; - Quadro clínico = Apresenta-se de forma insidiosa, com período de incubação variando de 2 a 4 dias, febre, queda do estado geral, pulso rápido, linfonodomegalia cervical, palidez, hipotensão, adinamia e albuminúria; - Exame físico = Observa-se pseudomembranas branco-acinzentadas, aderidas à mucosa, resistentes ao descolamento com espátulas, deixando o leito sangrante quando removidas, localizadas sobre as amígdalas, pilares amigdalianos, úvula e podendo se estender até ocupar todo o trato aerodigestivo, resultando em obstrução das vias aéreas. A exotoxina diftérica pode levar a arritmia cardíaca, hipotensão, dores abdominais e acometer pares cranianos, podendo causar diplopia e paralisia do véu palatino. - Diagnóstico = Sugerido pelo quadro clínico e confirmado pelo exame bacterioscópico direto e pela cultura de exsudatos faríngeos oude fragmentos de pseudomembrana em meios de Klebs-Loeffler; - Tratamento = O paciente deverá ser internado e iniciar soro antidiftérico 50.000 a 100.000 unidades, por via intramuscular ou subcutânea o mais precocemente possível. A penicilina deve ser utilizada para a erradicação do foco infeccioso; - Vacina antidiftérica = Para os contactantes de um caso de difteria não vacinados, inadequadamente vacinados ou vacinados há mais de 5 anos, deverão receber a vacina antidiftérica e submetidos à coleta de material de orofaringe para cultura. No caso de a cultura mostrar-se positiva para o bacilo, está indicada a quimioprofilaxia com eritromicina. • Angina de Plaut-Vincent: - Epidemiologia = Adolescentes e adultos jovens; - Etiologia = Causada pela simbiose entre o bacilo fusiforme Fusobacterium plautvincenti e o espirilo Spirochaeta dentuim (saprófitos normais da cavidade bucal), que adquirem poder patogênico quando associados. A má higiene bucal e o mal estado dos dentes e gengivas facilitam tal associação; - Quadro clínico = Disfagia e odinofagia unilateral, geralmente sem elevação de temperatura e queda do estado geral; - Exame físico = Evidencia-se ulceração na amígdala, recoberta por pseudomembrana, facilmente desprendida e friável acompanhada de eliminação de odor fétido. - Diagnóstico = Sugerido pela unilateralidade das lesões e pela presença de lesões gengivais concomitantes próximas ao terceiro molar superior e confirmado pelo achado bacterioscópico fusoespiralar; - Tratamento = Antibioticoterapia (penicilina via parenteral ou metronidazol), gargarejos com soluções anti-sépticas, tratamento sintomático e tratamento dentário; - Diagnóstico diferencial (DDx) = Cancro sifilítico e tumor de amígdalas. • Diagnóstico diferencial (DDx) das amigdalites agudas: - Leucemia aguda = Características para DDx: * Angina com estomatite (inflamação na cavidade oral) e com tendência a sangramento e fenômenos necróticos. * Linfonodomegalia. * Febre. * Anorexia. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 26 * Dores ósseas. * Hemograma e mielograma são necessários para confirmação diagnóstica. - Agranulocitose = Características para DDx: * Angina varia de um simples eritema à ulceração e necrose da mucosa orofaríngea. * Hemograma apresenta acentuada leucocitopenia. Objetivo 5: ➢ Conduta ética: • Código de Ética Médica (CEM) – Capítulo VII (Relação entre médicos): É vedado ao médico: Art. 50. Acobertar erro ou conduta antiética de médico. Art. 52. Desrespeitar a prescrição ou o tratamento de paciente, determinados por outro médico, mesmo quando em função de chefia ou de auditoria, salvo em situação de indiscutível benefício para o paciente, devendo comunicar imediatamente o fato ao médico responsável. • Referências: - Anatomia Orientada para a Clínica - Moore; - Anatomia para Estudantes – Gray’s; - Anatomia Humana – Graaff; - Dor Princípios e Prática – Onofre; - Rotinas em Otorrinolaringologia – Piltcher; - Guidelines IVAS; - Código de Ética Médica (CEM). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 1 Problema 3 “Em casa de ferreiro, o espeto é de pau” # Objetivos # 1-Descrever a fisiopatologia da dor visceral. 2-Descrever a conduta diante da dor espasmódica. 3-Descrever nefrolitíase: * Como o cálculo é formado. * Quadro clínico. * Diagnóstico. * Tratamento. Objetivo 1: ➢ Dor visceral: As dores relacionadas às vísceras torácicas e abdominais nos acompanham desde a infância precoce, em situações como cólicas intestinais e infecções. Continuam na idade adulta na dor do parto e em lesões estruturais de vísceras ocas (gastrite, úlcera gástrica, colelitíase, cálculos renais, apendicite, etc.). Finalmente, costumam acompanhar várias doenças comuns na velhice, tais como infarto do miocárdio, neoplasias abdominais, entre outras. Um dos motivos que justificaria o número restrito de estudos sobre a dor visceral considera a dificuldade de estudá-la em seres humanos, tendo em vista a localização profunda em que se encontram. Os estudos em animais são baseados em respostas pseudoafetivas que apenas sugerem, mas não garantem que o estímulo aplicado seja de natureza dolorosa. Além disso, as pesquisas demonstram que nem todas as vísceras respondem à dor. Alguns locais, como os parênquimas pulmonar, hepático e renal, são praticamente insensíveis à dor, mesmo quando estímulos altamente lesivos são aplicados. As vísceras ocas (estômago, intestino, ureteres e bexiga) são, em condições normais, praticamente insensíveis ao corte e à queimadura, mas são dolorosos quando ocorrem distensão, isquemia ou inflamação. Isso significa que, quando se estudam as vísceras, existe uma diferença entre estímulos lesivos (nociceptivos) e aqueles que produzem dor. Os estímulos que produzem dor superficial são diferentes dos estímulos que produzem dor visceral e estes incluem: - Estímulos elétricos; - Distorção mecânica; - Isquemia; - Aplicação de substâncias irritantes (algogênicas). A dor visceral tem algumas características que a torna, ao mesmo tempo, complexa e única. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 2 Uma dessas características é a pouca capacidade que o ser humano tem em identificar com precisão a origem da dor visceral. A dor tem localização difusa nas proximidades do órgão afetado ou à distância. Isso pode ser explicado pelo fato de que os estímulos viscerais penetram em diferentes segmentos da medula espinal, onde se juntam com fibras oriundas de estruturas somáticas. Por isso mesmo, a dor visceral provoca um fenômeno de sensibilização dessas estruturas somáticas superficiais, que resulta em hiperalgesia. Demonstra-se a ocorrência de maior sensibilidade à dor cutânea e dor miofascial nos músculos do mesmo segmento espinal. Sendo assim: - Uma dor de origem cardíaca pode se manifestar na região do membro superior esquerdo; - Uma dor pancreática pode se manifestar no ombro esquerdo; - Uma dor relacionada à vesícula biliar pode se manifestar na região do ombro direito ou interescapular à direita. Outra característica das dores viscerais é a intensidade variável, como em onda, com períodos de piora seguidos de melhora. Correspondem aos períodos de contração do músculo liso. Os exemplos clássicos ocorrem nas cólicas intestinais e na dor do parto. Outra característica das dores viscerais é a associação com fenômenos neurovegetativos, tais como palidez, mal-estar, sudorese e aumento do peristaltismo. Ocasionalmente, uma doença que acomete uma víscera pode se alastrar, passando a acometer nervos somáticos (p. ex., na pleura e no peritônio). Quando isso ocorre, a dor que antes era difusa, pode se tornar mais localizada. Um exemplo clássico ocorre na apendicite, que, em uma fase inicial, tem localização abdominal difusa, passando a se localizar na fossa ilíaca direita após comprometimento peritoneal. Tal fato provavelmente se explique pela existência de nociceptores silenciosos que não manifestam atividade em situações normais, mas são ativados pela presença de substâncias químicas liberadas na região afetada. A distensão mecânica nas vísceras ocas produz dor. Os processos inflamatórios nas vísceras ocas produzem dor. Nas infecções de vias urinárias, o simples fato de urinar já se torna doloroso, assim como na esofagite e úlcera gástrica ocorrem desconforto e dor relacionados à alimentação. A isquemia nas vísceras ocas produz dor, como as isquemias que ocorrem no infarto agudo do miocárdio ou na isquemia mesentérica. Provavelmente, o mecanismo de geração de dor se deva à liberação de substâncias algogênicas, das quais a mais estudada éa bradicinina. As vísceras apresentam receptores (aferentes) que se projetam para o SNC através do sistema nervoso simpático e parassimpático. Alguns desses aferentes possuem função regulatória (autonômica) enquanto outros geram respostas sensitivas (particularmente de dor). Esses aferentes são formados por fibras nervosas finas A-delta (pouco mielinizadas) ou C (amielinizadas). A maior parte das fibras aferentes viscerais, antes de se dirigirem à medula espinal, trafegam para gânglios simpáticos pré-vertebrais e paravertebrais: - Gânglios simpáticos pré-vertebrais = São representados pelos gânglios celíaco e gânglios mesentéricos superior e inferior; - Gânglios simpáticos paravertebrais = São representados pelos gânglios cervicais superior, médio e inferior, gânglio estrelado, gânglios toracolombares, gânglio sacral e gânglio ímpar coccígeo (gânglio de Walther). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 3 Uma pequena parte dos estímulos dolorosos trafega por nervos do sistema nervoso parassimpático. As fibras aferentes somáticas são numerosas e penetram na medula espinal em determinado segmento. Já as fibras aferentes viscerais são poucas e penetram no corno posterior da medula espinal em vários níveis, o que justifica a pouca localização espacial dessas dores. Na medula espinal, as fibras se dirigem principalmente para a lâmina superficial (lâmina I de Rexed) e a outras mais profundas (V e X). Daí, os estímulos são transmitidos pelas mesmas vias da dor superficial. A maioria das fibras cruzam a linha média e ascendem pelo trato espinotalâmico lateral até os núcleos ventrais do tálamo e daí ao córtex cerebral. Outras vias como a espinorreticular e a espinomesencefálica, devem ter papel importante em fenômenos associados (o alerta à dor) e aos fenômenos neurovegetativos que o acompanham. • Coração: A estimulação mecânica do coração é indolor. O principal evento desencadeador de dor cardíaca certamente é a isquemia, como na angina e no infarto. A dor é descrita como sensação de constrição ou aperto na região retroesternal, mas pode se irradiar para o pescoço, mandíbula e membro superior esquerdo. Em neuropatias (p. ex., neuropatia diabética) muitos pacientes podem apresentar isquemia sem dor. Isso ocorre porque a área afetada tem pouca inervação, em especial na região subendocárdica. O coração apresenta dupla inervação, pelo nervo vago (gânglio nodoso) e pelas fibras aferentes simpáticas, e daí penetram na medula na região cervical e na região torácica alta. • Pulmão: O parênquima pulmonar e a pleura visceral são praticamente insensíveis a dor. Por causa disso, muitos problemas, como contusões traumáticas e neoplasias, podem passar despercebidos, aparecendo dor apenas quando atingem a pleura parietal ou os brônquios. É possível, no entanto, que, em situações de dispneia (como em situações de exercícios extenuantes) ou no edema agudo, algumas fibras aferentes do pulmão possam gerar sensação de pressão torácica. Outras sensações, como a pressão relacionada à hiperinsuflação, são decorrentes de estimulação da parede torácica. • Vias aéreas: Processos irritativos nas vias aéreas são descritos como sensação de desconforto e queimação. Os aferentes têm inervação vagal (gânglios nodoso e jugular) e simpática. O papel das fibras simpáticas é menor, sendo relacionadas à cadeia simpática torácica, que se dirigem à medula espinal nos níveis torácicos superiores. • Esôfago: O esôfago pode manifestar dor ou desconforto frente a situações diversas (como ingestão de alimentos quentes ou frios, processos inflamatórios e distensão mecânica). Na prática clínica, a esofagite de refluxo se localiza na região retroesternal; por essa razão, se confunde com a dor de origem cardíaca. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 4 Apresenta poucos aferentes vagais, com fibras aferentes simpáticas se dirigindo para múltiplos níveis, predominantemente na região torácica. • Estômago: Em condições normais, o estômago é praticamente insensível ao corte e aos estímulos elétricos. O principal estímulo doloroso ocorre quando há distensão mecânica, que é descrito pelos pacientes em situações com o a insuflação de ar durante procedimento de endoscopia. Em situações em que existe reação inflamatória, como na gastrite e úlcera, existe resposta dolorosa à pressão local, como na ingestão de alimentos. A dor localiza-se na região epigástrica, mas pode se irradiar à região torácica e até mesmo dorsal. Recebe inervação predominantemente simpática, com aferentes trafegando para a região torácica por meio da cadeia simpática torácica e gânglio celíaco. • Intestino: Os intestinos delgado e grosso não respondem a estímulos táteis ou nocivos (com o corte ou coagulação de suas paredes), porém respondem a distensão mecânica (sensação de plenitude e desconforto), estiramento e aumento do peristaltismo (dor tipo cólica). Processos inflamatórios também produzem dor. As fibras vagais (nervo vago) parecem ter mais relação com mecanismos reflexos. As fibras simpáticas estão relacionadas a dor. Nas regiões mais distais (principalmente reto) a sensibilidade aumenta, sendo maior ainda na região do ânus. • Pâncreas: O pâncreas apresenta grande aferência dolorosa, gerando dor intensa em situações como neoplasias, pancreatite ou obstrução de seus ductos. A aferência vagal parece ter pouco papel na transmissão da dor, sendo que as fibras simpáticas são o principal meio de transmissão da dor. Na prática clínica, as neoplasias de pâncreas respondem muito bem a bloqueios e neurólise (alcoolização) do gânglio celíaco. • Fígado: O parênquima hepático é praticamente insensível ao corte ou à destruição por processos neoplásicos. Tal fato se confirma na clínica, quando, mesmo na presença de múltiplas metástases, a dor hepática é quase nula. No entanto, quando existe distensão significativa em grandes tumores, nos abscessos ou nas hepatites, existe dor, provavelmente mediada pela distensão da cápsula ou pela compressão de vias biliares. • Vias biliares: A vesícula biliar e suas vias de drenagem demonstram muita sensibilidade à dor, em especial às situações de distensão mecânica ou espasmos. As dores costumam ser referidas como em ondas FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 5 (cólicas), localizadas no hipocôndrio direito, podendo irradiar para todo o abdome superior, dorso e ombro direito. • Rins: A secção cirúrgica do rim não provoca dor em indivíduos sob anestesia local. No entanto, a distensão decorrente de obstrução de suas vias é extremamente dolorosa. As fibras aferentes são vagais e simpáticas, essas últimas relacionadas aos nervos esplâncnicos, se dirigindo ao plexo celíaco e daí para penetrar nos níveis da transição toracolombar. • Ureteres: A dor se deve à dilatação proximal das vias urinárias decorrente do deslocamento de um cálculo. A dor da cólica renal localiza-se geralmente na região lombar, porém comumente se irradia à fossa ilíaca, indo até a bolsa escrotal ou os grandes lábios. • Bexiga: A bexiga é sensível aos aumentos de volume em seu interior (distensão). Em volumes crescentes, passam de uma sensação de pressão à dor. Caso exista infecção, a dor aumenta e mesmo pequenos volumes de urina podem gerar sintomas, localizados na região do hipogástrio. • Útero/ovários: O útero é inervado pelo parassimpático e pelo simpático, trafegando pelos nervos hipogástricos. O útero é particularmente sensível à existência de contraturas repetidas (como no parto) e na fase de expulsão, outros locais também produzem dor, decorrente da distensão da vagina e com pressão de estruturas da paredeabdominal. A menstruação, processos inflamatórios e endometriose também provocam dores. Os ovários podem manifestar dor leve durante a ovulação, mas clinicamente a maior causa de dor ocorre durante os processos inflamatórios e as neoplasias volumosas. • Testículos/órgãos reprodutores masculinos: O testículo e o epidídimo são ricamente inervados, com presença de fibras polimodais (respondem a estímulos mecânicos, térmicos e químicos). Com isso, ocorre dor acentuada em traumas, processos inflamatórios ou neoplásicos. Objetivo 3: ➢ Nefrolitíase: O cálculo renal é uma massa cristalina que se forma nos rins e tem tamanho suficiente para ser clinicamente detectável, seja pelos sintomas que provoca ou por visualização por meio de técnicas de diagnóstico por imagem. Os cálculos podem ser formandos em outras partes do trato urinário e não apenas nos rins. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 6 FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 7 FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 8 Com menor frequência, os cálculos podem ser compostos por medicamentos, como o aciclovir, o indinavir e o triamterene. Os cálculos de cálcio são mais comuns em homens e a média etária fica entre a terceira e a quarta décadas (entre os 30 a 40 anos). Os cálculos de ácido úrico são responsáveis por 5 a 10% dos cálculos renais e são também mais comuns em homens. Cerca de 50% das pessoas que formam um único cálculo de cálcio irão formar um outro no transcorrer dos próximos 10 anos, e alguns formam múltiplos cálculos recorrentes. O tempo médio para a formação de novos cálculos nos formadores recorrentes e de aproximadamente 1 cálculo a cada 3 anos. • Patogenia dos cálculos: Na urina, existem vários elementos químicos que, ao se combinarem, podem produzir sais insolúveis, levando à formação de cristais (microlitos). Os cálculos renais se originam do crescimento e agregação desses cristais. Condições que favorecem a supersaturação da urina e a consequente formação dos cálculos: - Hiperexcreção de solutos; - Volume urinário reduzido; - Alterações do pH; - Deficiência dos inibidores da cristalização; - Alterações anatômicas (facilitam a formação de cálculos ao produzirem estase urinária, p. ex., duplicidade pielocalicial, rim esponjoso medular, rim em ferradura, ureterocele, etc.). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 9 O primeiro pré-requisito para a formação de cristais urinários é a Supersaturação. Dizemos que a urina está supersaturada de algum sal (p. ex., oxalato de cálcio), quando o produto da concentração de seus componentes individuais (neste caso, Cálcio x Oxalato) está acima de um determinado valor → o “produto de solubilidade”. Este produto sofre influência do pH urinário: - Uma urina com pH > 7,0 (alcalino) favorece a supersaturação do fosfato de cálcio (hidroxiapatita) e do fosfato de amônio magnesiano (estruvita); - Uma urina com pH < 5,0 (ácido) favorece a supersaturação do ácido úrico e da cistina; - A solubilidade do oxalato de cálcio não é afetada pelo pH urinário. O processo de formação dos cristais chama-se Nucleação, e pode ser de 2 tipos: - Homogênea (primária) = Quando o cristal é “puro” (p. ex., apenas cálcio e oxalato). A nucleação homogênea exige concentrações muito elevadas dos elementos envolvidos, bem acima de seu produto de solubilidade. Na realidade, as concentrações iônicas devem estar acima de outro valor → o “produto de formação de cristais”; - Heterogênea (secundária ou epitaxial) = Quando o cristal é formado sobre a superfície de outro cristal de composição diferente. Temos como exemplo os cristais de oxalato de cálcio que se formam sobre cristais de fosfato de cálcio (hidroxiapatita) ou ácido úrico. A nucleação heterogênea pode ocorrer com concentrações levemente acima do “produto de solubilidade”. Eventualmente, a nucleação heterogênea pode ter como “nicho” elementos orgânicos, como debris celulares. Depois que os cristais são formados eles podem ou não se transformar em cálculos macroscópicos. Perceba que nem todas as pessoas com cristais detectados no exame elementos e sedimentos anormais da urina (EAS) apresentam nefrolitíase. O fluxo urinário pode eliminar os cristais antes que eles cresçam e se tornem cálculos renais verdadeiros. Formado o cristal, ocorrem outros 2 processos: Crescimento e Agregação. Alguns cristais se formam aderidos à superfície do epitélio, geralmente nas papilas renais. Uma matriz proteica contida nos cálculos pode servir como “âncora” para fixação a essas estruturas. A adesão mecânica garante tempo suficiente para o crescimento e agregação – daí ser tão frequente encontrarmos os cálculos “nascendo” na nos cálices renais, antes de migrar para a pelve. 1.Inibidores fisiológicos: O principal inibidor fisiológico da formação de cálculos urinários é a água. Uma urina diluída reduz a concentração de todos os seus elementos químicos, diminuindo a chance de nucleação (cristalização). A ingestão de água faz com que a concentração iônica se torne inferior ao “produto de formação de cristais” e, às vezes, ao “produto de solubilidade”. A diluição urinária também aumenta o fluxo de urina, facilitando a eliminação dos cristais recém-formados. Ou seja, o aumento da ingesta hídrica inibe TODAS as fases de formação de um cálculo renal (nucleação, crescimento e agregação). O citrato e o magnésio são importantes inibidores da NUCLEAÇÃO do oxalato de cálcio, pois o magnésio se liga ao oxalato (formando oxalato de magnésio), e o citrato se liga ao cálcio (formando citrato de cálcio), ambos são substâncias bastante solúveis. O pirofosfato é outro inibidor fisiológico do CRESCIMENTO e AGREGAÇÃO dos cristais de cálcio. Diversas proteínas urinárias inibem o CRESCIMENTO e a AGREGAÇÃO dos cristais de oxalato de cálcio, como é o caso da proteína de Tamm-Horsfall (secretada pelos túbulos renais). Alguns formadores FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 10 crônicos de cálculos parecem ter uma atividade inibitória reduzida desta proteína. A nefrocalcina (glicoproteína ácida produzida pelo rim) e a uropontina (glicoproteína fosforilada) também podem estar alteradas em alguns pacientes, exibindo função inibitória deficiente. • Manifestações clínicas dos cálculos: Quando os cálculos crescem sobre a superfície das papilas renais ou no sistema coletor, eles não produzem sintomas. Os cálculos assintomáticos podem ser descobertos durante a realização de exames radiográficos realizados por motivos não relacionados. Os cálculos constituem uma causa comum de hematúria isolada. Os cálculos se tornam sintomáticos quando penetram no ureter ou ocluem a junção ureteropélvica, causando dor e obstrução. Algumas pessoas podem eliminar pequenas concreções arenosas com quase nenhuma dor, enquanto outras podem apresentar sintomas graves de obstrução ureteral, determinando uma clássica síndrome clínica conhecida como cólica nefrética. Felizmente, na maioria das vezes, os cálculos (por serem pequenos) impactam apenas de forma transitória, migrando para a bexiga e sendo eliminados na urina. Os cálculos renais costumam obstruir o sistema coletor em 3 pontos principais, conhecidos como pontos de constrição fisiológica do ureter: - Junção ureteropélvica (mais comum); - Terço médio do ureter (cruzamento com os vasos ilíacos internos); - Junção vesicureteral. 1.Deslocamento do cálculo → Cólica nefrética: Quando um cálculo migra da pelve renal para o ureter, o paciente experimenta uma dor variavelmente intensa, ocasionadapela impactação do cálculo nos pontos de constrição fisiológica do FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 11 ureter. Na tentativa de forçar a passagem do cálculo o ureter se contrai de maneira espasmódica e repetitiva, justificando as típicas crises de dor em cólica que duram entre 20 a 60 minutos. Se essa impactação provocar obstrução importante ocorre um grande aumento na pressão do trato urinário, gerando distensão aguda da cápsula renal. Isso justifica a presença de punho-percussão lombar positiva (sinal de Giordano), ao exame físico. Em tais casos a dor é insuportável, necessitando de analgesia opioide parenteral. Apesar de poder haver dor abdominal, não se espera a presença de irritação peritoneal na cólica nefrética. Se houver sinais como descompressão dolorosa (sinal de Blumberg) será preciso investigar patologias intra-abdominais ou pélvicas. Manifestações neurovegetativas como náuseas, vômitos, sudorese fria e síncope costumam acompanhar a dor. Também há taquicardia e hipertensão arterial. É curioso ressaltar que a localização da dor se relaciona com a topografia do cálculo impactado. - Um cálculo na junção ureteropélvica provoca dor em flanco e sinal de Giordano precocemente positivo; - Um cálculo próximo à porção média do ureter provoca dor abdominal com irradiação para o ligamento inguinal e/ou testículo/grande lábio ipsilateral; - Um cálculo na junção vesicureteral podem ser confundidos com cistite bacteriana, cursando com disúria, polaciúria (aumento da frequência de micções com volume de urina reduzido), urgência e dor uretral (no homem: dor peniana). Pode ou não haver sinal de Giordano nos cálculos presentes na junção vesicureteral. A dor pode mudar suas características no decorrer do tempo, o que denota a movimentação do cálculo ao longo do ureter. Pacientes com história prévia de nefrolitíase sintomática muitas vezes conseguem nos dizer em que porção do trato urinário o cálculo se encontra, prevendo com relativa acurácia quando o mesmo está prestes a ser eliminado. A maioria dos cálculos ureterais com < 0,5 cm de diâmetro será eliminada espontaneamente. 2.Hematúria: A nefrolitíase é a segunda principal causa de hematúria (a primeira principal causa é infecção urinária), que pode ser macro ou microscópica. A hematúria é detectada em 90% dos pacientes que apresentam cálculo renal. Algumas vezes pode ser o único sinal da nefrolitíase. 3.Obstrução: Quando o cálculo impacta no ureter, geralmente causa uma obstrução apenas parcial. Eventualmente, contudo, a obstrução pode ser total, acarretando hidronefrose (acúmulo de urina no rim) progressiva e perda do parênquima renal (semanas a meses se não houver infecção), caso a obstrução não seja desfeita. 4.Cálculos coraliformes: Os cálculos de estruvita, de cistina e de ácido úrico crescem até alcançarem dimensões tão avantajadas que impedem sua penetração no ureter. Eles preenchem gradualmente a pelve renal e podem estender-se até os próprios cálices. Os cálculos coraliformes muito volumosos podem, surpreendentemente, produzir poucos sintomas e acarretar a perda da função renal. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 12 5.Nefrocalcinose: Os cálculos de cálcio crescem nas papilas. A maioria sofre ruptura, seus fragmentos se soltam e causam cólicas, mas podem permanecer no local, fazendo com que sejam encontradas múltiplas calcificações papilares ao exame radiográfico, condição denominada nefrocalcinose. A nefrocalcinose papilar é comum na acidose tubular renal (ATR) distal hereditária assim como em outros tipos de hipercalciúria significativa. Na doença do rim esponja medular a calcificação pode ocorrer nos ductos coletores distais dilatados. 6.Infecções: A ITU não é uma consequência direta da nefrolitíase, mas pode ocorrer após instrumentação e cirurgia do trato urinário. A obstrução de um rim infectado por um cálculo pode resultar em sepse e acarretar um extenso dano do tecido renal, pois transforma o trato urinário proximal em um espaço fechado, que pode se tornar um abscesso. Os cálculos podem conter bactérias em sua matriz, dando origem a uma infecção recorrente do trato urinário e a infecção produzida por bactérias que possuem a enzima urease pode causar cálculos que contém estruvita. 7.Atividade da doença calculosa: Na doença ativa novos cálculos estão sendo formados ou cálculos pré-formados estão crescendo. São necessárias radiografias sequenciais para documentar o crescimento ou o aparecimento de novos cálculos e para se ter certeza que os cálculos eliminados são de fato recém-formados e não preexistentes. • Diagnóstico: A tomografia computadorizada helicoidal (TC) sem radiocontraste constitui atualmente o procedimento radiológico padrão para o diagnóstico de nefrolitíase, possuindo as seguintes vantagens: - Identificação dos cálculos de ácido úrico além dos cálculos radiopacos tradicionais; - Ausência de exposição ao risco dos radio contrastes; - Possível diagnostico de outras causas de dor abdominal em um paciente com a suspeita de estar tendo uma cólica renal induzida por cálculos. A ultrassonografia (USG) não e tão sensível quanto o exame TC na identificação dos cálculos renais ou ureterais. As radiografias abdominais podem ser usadas para monitorar os pacientes para a possível formação e o crescimento de cálculos renais, pois elas são menos caras e comportam uma menor exposição actínica que os exames TC. Os cálculos de cálcio, cistina e estruvita são radiopacos nas radiografias padronizadas, enquanto os cálculos de ácido úrico são radiotransparentes. A maioria dos pacientes com nefrolitíase sofre de distúrbios metabólicos corrigíveis que causam cálculos e podem ser identificados pelas análises químicas do soro e da urina. Os adultos com cálculos urinários recorrentes e as crianças até mesmo com um único cálculo renal devem ser avaliados. Uma avaliação ambulatorial consiste em 2 coletas de urina de 24 h, com 1 amostra de sangue correspondente. Devem ser feitas as seguintes mensurações: - Séricas = Cálcio; FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 13 - Urinárias = Cálcio, ácido úrico, eletrólitos e creatinina, juntamente com pH, volume, oxalato e citrato. Sabendo-se que os riscos relacionados com os cálculos variam com a dieta, a atividade e o meio ambiente, pelo menos 1 coleta de urina deve ser feita em um fim de semana quando o paciente está em casa e 1 em um dia de trabalho. Quando possível, a composição dos cálculos renais deve ser determinada, pois o tratamento depende do tipo de cálculo. Independentemente dos distúrbios identificados, cada paciente deve ser aconselhado a evitar a desidratação e a beber grandes quantidades de água. A eficácia da alta ingestão de liquido foi confirmada em um estudo prospectivo dos indivíduos que haviam formado cálculos pela primeira vez. O aumento do volume urinário para 2,5 L/dia resultou em uma redução de 50% na recidiva dos cálculos, em comparação com o grupo de controle. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 14 • Tratamento: A conduta para os cálculos já presentes no rim ou no trato urinário requer uma abordagem clínica e cirúrgica combinada. O tratamento específico depende da: - Localização do cálculo; - Extensão da obstrução; - Natureza do cálculo; - Função dos rins afetados e não afetados; - Presença ou ausência de infecção do trato urinário; - Progressão da passagem do cálculo; - Riscos cirúrgicos ou da anestesia tendo em vista o estado clinico do paciente. Para os cálculos pequenos, os bloqueadores alfa1-adrenérgicos orais relaxam o músculo ureteral,reduzem o tempo necessário até a eliminação do cálculo e reduzem a necessidade de remoção cirúrgica. A obstrução grave, a infecção, a dor refratária e o sangramento significativo são indicações para a remoção de um cálculo. Os avanços na tecnologia urológica tornaram a cirurgia convencional para os cálculos em um evento raro. Existem agora 3 alternativas para a remoção do cálculo: - Litotripsia extracorpórea = Causa a fragmentação in situ dos cálculos no rim, na pelve renal ou no ureter em virtude de sua exposição as ondas de choque. Após múltiplas ondas de choque, a maioria dos cálculos terá sido reduzida a um pó que se desloca através do ureter e penetra na bexiga; - Nefrolitotomia percutânea = Torna necessária a introdução de um nefroscópio na pelve renal através de uma pequena incisão feita no flanco. A seguir os cálculos são rompidos por um pequeno transdutor ultrassônico ou laser de hólmio; - Ureteroscopia com ruptura do cálculo utilizando um laser de hólmio = Em geral, a ureteroscopia é usada para os cálculos localizados no ureter e também na pelve renal. ➢ Tratamentos específicos: • Cálculos de cálcio: 1.Hipercalciúria idiopática: - Esta condição é a anormalidade metabólica mais comum encontrada nos pacientes com nefrolitíase; - É um traço familiar e provavelmente poligênico; - Diagnosticada pela presença de hipercalciúria sem hipercalcemia e pela ausência de outros distúrbios sistêmicos que afetam sabidamente o metabolismo mineral; - A hiperatividade da vitamina D ou a quantidade excessiva do receptor da vitamina D, é uma explicação provável para a hipercalciúria em muitos pacientes; - A hipercalciúria contribui para a formação dos cálculos por elevar a saturação da urina com relação ao oxalato de cálcio e ao fosfato de cálcio; - Tratamento = É feito com tiazídicos. A hipopotassemia induzida pelas tiazídicos deve ser tratada agressivamente, pois essa condição reduziria o citrato na urina (um importante inibidor da cristalização do cálcio). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 15 2.Hiperuricosúria: Cerca de 20% dos formadores de cálculos de oxalato de cálcio são hiperuricosúricos, principalmente por causa de uma ingestão excessiva de purina proveniente da carne e dos peixes. O mecanismo de formação dos cálculos envolve provavelmente a precipitação do oxalato de cálcio pelo urato. - Tratamento = Uma dieta pobre em purinas é desejável, porém muitos pacientes têm dificuldade em adotá-la. A alternativa e o alopurinol. 3.Hiperparatireoidismo primário: O diagnóstico desta condição é estabelecido pela hipercalcemia sem explicação e acompanhada por concentrações séricas elevadas de paratormônio. A hipercalciúria habitualmente presente eleva a supersaturação da urina (com fosfato de cálcio e/ou oxalato de cálcio): - Formam-se cálculos de oxalato de cálcio sobre a placa de apatita intersticial; - Forma-se cálculos de fosfato de cálcio em cristais de apatita, causando obstrução dos ductos coletores. O diagnóstico imediato de hiperparatireoidismo é importante, pois a paratireoidectomia deve ser realizada antes que ocorram cálculos recorrentes ou lesão renal. 4.Acidose tubular renal distal: - O defeito nesta condição está no néfron distal, que não consegue estabelecer um gradiente normal do pH entre a urina e o sangue, resultando em acidose hiperclorêmica; - O diagnóstico é sugerido por um pH mínimo da urina > 5,5 na presença de acidose sistêmica; - A hipercalciúria, a urina alcalina e o nível urinário baixo de citrato aumentam a saturação da urina com relação ao fosfato de cálcio; - Haverá a formação de cálculos de fosfato de cálcio, nefrocalcinose, osteomalácia ou raquitismo. Formam-se depósitos de apatita nos ductos coletores da medula interna, causando extensa nefropatia intersticial tubular medular, que pode levar a uma redução da função renal; - A acidose tubular renal pode ser genética, secundária a uma doença sistêmica, ou pode ser causada por algum medicamento. O topiramato, um fármaco comumente utilizado para o tratamento das convulsões e da enxaqueca, inibe a enzima anidrase carbônica e pode causar nefrolitíase de cálcio. - Tratamento = É feito com álcalis que reduzem a hipercalciúria e limita a produção de novos cálculos. A forma preferida de álcali é o citrato de potássio. 5.Hiperoxalúria: - O oxalato é um produto final metabólico dos seres humanos e provem da dieta (cerca de 40 a 50%) e da produção metabólica endógena; - A excreção de oxalato acima do normal é de 40 a 50 mg/dia; - Uma hiperoxalúria leve (50 a 80 mg/dia) é causada pela ingestão excessiva de alimentos ricos em oxalato (espinafre, nozes e chocolate). Além disso, as dietas pobres em cálcio podem promover a hiperoxaluria, pois haverá menos cálcio disponível para ligar-se ao oxalato no intestino; FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 16 - A hiperoxaluria entérica é uma consequência da doença do intestino delgado que resulta em má absorção das gorduras. Com frequência, a excreção de oxalato é > 100 mg/dia. A hiperoxaluria entérica pode ser causada por uma derivação jejunoileal para o tratamento de obesidade, insuficiência pancreática ou extenso acometimento do intestino delgado pela doença de Crohn. Com a má absorção de gorduras, o cálcio no lúmen intestinal liga-se ácidos graxos e não ao oxalato, que fica livre para ser reabsorvido no colo. A chegada no colo de ácidos graxos e sais biliares não absorvidos provoca lesão da mucosa colônica e exacerba a absorção de oxalato. A cirurgia bariátrica para a obesidade, que envolve o desvio de segmentos intestinais (como o bypass gástrico em Y de Roux e derivações biliopancreáticas) pode levar a hiperoxalúria, que pode causar insuficiência renal e cálculos renais; - A hiperoxalúria primária é uma doença autossômica recessiva rara que causa uma hiperoxalúria grave. Os pacientes se apresentam com cálculos recorrentes de oxalato de cálcio durante a infância. É classificada em hiperoxaluria primária tipo 1 e tipo 2; - Tratamento: * Hiperoxalúria leve a moderada = Os pacientes devem ser tratados com uma dieta pobre em oxalato e com uma ingestão normal de cálcio e de magnésio para que seja reduzida a absorção de oxalato. * Hiperoxalúria entérica = Pode ser tratada com uma dieta pobre em gorduras e em oxalato, além de suplementos de cálcio, fornecidos com as refeições, para fixar o oxalato no lúmen intestinal. * Hiperoxaluria primaria = Inclui uma alta ingestão de líquidos, fosfato neutro, citrato de potássio e piridoxina (25 a 200 mg/dia). Até mesmo com a terapia agressiva, pode ocorrer uma insuficiência renal irreversível. O transplante de fígado, para corrigir o defeito enzimático, combinado com um transplante renal, foi utilizado com sucesso em pacientes com hiperoxaluria primaria. 6.Hipocitratúria: - O citrato na urina previne a formação de cálculos de cálcio pela criação de um complexo solúvel com o cálcio, reduzindo efetivamente o cálcio livre na urina; - A hipocitratúria é encontrada em 20 a 40% dos formadores de cálculos. Ela pode ser secundária a distúrbios sistêmicos (como ATR, enfermidade diarreica crônica e hipopotassemia), ou pode ser um distúrbio primário, caso em que recebe a designação de hipocitratúria idiopática; - Tratamento = É feito com álcalis, que aumentam a excreção de citrato na urina. 7.Litíase idiopática decorrente de cálcio: - Alguns pacientes não possuem uma causa metabólica para os cálculos, apesar de uma avaliação metabólica abrangente; - Tratamento: * Alta ingestão de líquidos = O melhor tratamento parece ser uma alta ingestão de líquidos, para que a gravidade especifica (densidade) da urina se mantenha em ≤ 1,005 durante o dia e a noite. * Diuréticos tiazídicos e citratos = Podemajudar a reduzir a cristalização dos sais de cálcio, porém não foram conduzidos ensaios prospectivos nessa população de pacientes. * Fosfato oral = Pode reduzir o cálcio e aumentar o pirofosfato urinário, reduzindo, a taxa de recorrência. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 17 • Cálculos de ácido úrico: A urina persistentemente ácida constitui o principal fator de risco para a formação de cálculos de ácido úrico. As causas comuns de urina ácida e de cálculos de ácido úrico incluem: - Síndrome metabólica; - Estados diarreicos crônicos; - Gota; - Litíase de ácido úrico idiopática. À medida que a prevalência da obesidade vai aumentando, a síndrome metabólica está se tornando uma causa cada vez mais importante de formação de cálculos de ácido úrico A hiperuricosúria, quando presente, aumenta a supersaturação, porém uma urina com um pH baixo pode ser supersaturada com ácido úrico, mesmo com a taxa de excreção diária normal. As síndromes mieloproliferativas, a quimioterapia para tumores malignos e a síndrome de Lesch- Nyhan causam produção tão maciça de ácido úrico e, consequentemente, uma hiperuricosúria que os cálculos e lama de ácido úrico serão formados até mesmo com um pH normal da urina. A obstrução dos túbulos coletores renais por cristais de ácido úrico pode causar insuficiência renal aguda. - Tratamento: * Elevar o pH da urina. * Baixar a excreção urinária excessiva de ácido úrico para <1 g/dia. • Cistinúria e cálculos de cistina: Nesse distúrbio hereditário, o transporte tubular proximal e o transporte jejunal dos aminoácidos dibásicos, cistina, lisina, arginina e ornitina são defeituosos, e ocorre perda de quantidades excessivas dessas substancias na urina. A doença clínica é causada exclusivamente pela insolubilidade da cistina. Os cristais de cistina causam obstrução dos ductos coletores terminais e pode haver crescimento de cálculos e extensão desses tampões. - Patogenia = A cistinúria ocorre por causa do transporte defeituoso dos aminoácidos dibásicos pelas bordas em escova do túbulo renal e das células epiteliais intestinais. Foram identificadas mutações responsáveis pela doença na cadeia pesada e na cadeia leve de um transportador heteromérico dos aminoácidos encontrado no túbulo proximal do rim; - Diagnóstico = Os cálculos de cistina são formados somente por pacientes com cistinúria, porem 10% dos cálculos nesses pacientes não contem cistina; portanto, cada formador de cálculos deve ser submetido a uma triagem para a possível presença dessa doença. O diagnóstico é feito por exames de urina e pelo teste do nitroprussiato de sódio. - Tratamento: * Alta ingestão de líquidos, até mesmo durante a noite. O volume diário de urina ˃ 3 L. * Elevação do pH urinário com álcalis, desde que o pH da urina seja ˃ 7,5. * Dieta pobre em sal (100 mmol/dia) pode reduzir a excreção de cistina em até 40%. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 18 • Cálculos de estruvita: Esses cálculos são o resultado de uma infecção urinária com bactérias, habitualmente das Proteus species, que possuem a urease (enzima que degrada a ureia para amoníaco e gás carbônico). A estruvita não é formada na urina na ausência de infecção, pois a concentração de NH4+ (amônio) é baixa em uma urina que se tornou alcalina em resposta a estímulos fisiológicos. Uma infecção crônica por Proteus pode ocorrer em virtude da drenagem urinária comprometida, de uma instrumentação ou cirurgia urológica e especialmente com o tratamento antibiótico crônico, que pode favorecer a dominância de Proteus no trato urinário. - Tratamento: * Remoção completa do cálculo por nefrolitotomia percutânea. * Esterilização do trato urinário. Objetivo 2: ➢ Conduta na dor espasmódica: • Paracetamol: - É o metabólito ativo da fenacetina; - Eleva o limiar ao estímulo doloroso, exercendo efeito analgésico; - Está disponível para venda sem prescrição e é utilizado como analgésico doméstico comum; - É uma alternativa eficaz ao AAS como analgésico-antipirético, mas seus efeitos anti-inflamatórios são muito fracos (não pode substituir o AAS em condições crônicas); - É bem tolerado e tem baixa incidência de efeitos colaterais no trato gastrointestinal; - A overdose aguda pode causar lesão hepática grave; - Mecanismo de ação = Tem efeitos analgésicos e antipiréticos similares ao do AAS e efeitos anti- inflamatórios fracos. Acredita-se que tenha pequena capacidade de inibir a COX na presença de altas concentrações de peróxidos, como observados nos locais de inflamação. Já se sugeriu que a inibição da COX pode ocorrer de forma mais alta no cérebro, explicando sua eficácia antipirética; - É adequado para uso analgésico e antipirético, é o analgésico de primeira linha na osteoartrite e útil em pacientes que não podem utilizar AAS; - A dose oral convencional é de 325 a 650 mg a cada 4 a 6 horas, sendo que as doses totais não devem exceder 4.000 mg (2.000 mg/dia em alcoólatras crônicos). A dose de 10 mg/kg pode ser usada em crianças; - Efeitos adversos = Exantemas e outras reações alérgicas. Relatou-se lesão renal e hepática em overdose proeminente; - A ingestão aguda de mais de 7,5 g de paracetamol ou uso repetido de doses supraterapêuticas pode resultar em toxicidade. O efeito adverso agudo mais sério da overdose é uma necrose hepática potencialmente fatal (via metabólito NAPQI). A depleção de GSH torna o hepatócito altamente suscetível ao estresse oxidativo e à apoptose. Necrose tubular renal e coma hipoglicêmico também podem ocorrer; - Os sinais clínicos de lesão hepática manifestam-se em 2 a 4 dias após a ingestão de doses tóxicas, como dor subcostal direta, hepatomegalia dolorosa, icterícia e coagulopatia. Pode ocorrer lesão renal ou insuficiência renal franca. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 19 • Hioscina (Escopolamina): - É um antagonista dos receptores muscarínicos (são fármacos parassimpatolíticos → o músculo liso [exceto dos vasos] contrai em resposta aos agonistas muscarínicos e relaxa na atuação dos antagonistas muscarínicos), competitivos. Também conhecido como substância anticolinérgica; - É utilizada como antiespasmódico, principalmente em casos de úlcera do estômago, úlcera duodenal e cólica; - A hioscina é um alcaloide encontrado em plantas da família das solanáceas. A exemplo da atropina (beladona) age como bloqueador colinérgico predominantemente ao nível dos receptores muscarínicos da acetilcolina, apresentando efeitos antidismenorreico, antiarrítmico (parenteral), antiemético e antivertiginoso; - Em doses baixas causa sedação intensa até amnésia. Os efeitos da escopolamina sobre o músculo ciliar do cristalino, o esfíncter do olho, as glândulas salivares, bronquiais e sudoríparas são mais intensos do que o observado com a atropina. Sua eliminação é renal; - Efeitos adversos = Sonolência, sensação de mal-estar, perda da memória, alterações do sono, confusão, náuseas, sensação de desmaio e dor nos olhos. • Beladona (Atropina): - É um alcaloide encontrado na planta Atropa belladonna (beladona) e outras de sua família, que interfere na ação da acetilcolina no organismo. É um antagonista muscarínico não seletivo, bem absorvido por via oral; - Efeitos = Inibição de secreções (as glândulas salivares, lacrimais brônquicas e sudoríparas são inibidas por doses muito baixas e deixam a pele e a boca seca. A pressão gástrica é discretamente reduzida. A atropina causa taquicardia por meio do bloqueio dos receptores muscarínicos cardíacos, levando a inibição do tônus parassimpático. A pressão arterial não costuma ser grandemente afetada porque a maioria dos vasos de resistência não possueminervação colinérgica; - Sobre os outros músculos lisos provoca relaxamento da musculatura da árvore brônquica e dos seus tratos biliar e urinário. A broncoconstrição reflexa é impedida. A incontinência devida a excesso de atividade da bexiga é reduzida pelos antagonistas muscarínicos; - A atropina produz principalmente efeitos excitatórios sobre o SNC. Em doses baixas causa leve inquietação. Em doses altas causam agitação e desorientação; - Podem reduzir movimentos involuntários no mal de Parkinson e cumprir função antiemética; - Efeitos adversos = Retenção urinária, visão turva e boca seca. • Referências: - Dor Princípios e Prática – Onofre; - Medicina Interna – Harrison; - Medcurso 2017 – Apostila 6 de Nefrologia; - Farmacologia – Rang e Dale. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 1 Problema 4 Dor no peito é fogo! # Objetivos # 1-Descrever sobre os fatores de risco da síndrome coronariana. 2-Descrever a fisiopatologia da dor desencadeada pelo IAM (dor isquêmica). 3-Discorrer sobre os diagnósticos diferenciais (DDx) de dor precordial: * Tromboembolismo pulmonar (TEP). * Pneumotórax. * Dissecção da aorta. * Ansiedade. * Angina. * IAM. * Patologias do esôfago. * Patologias do estômago. 4-Discorrer sobre como a ansiedade exacerba a dor precordial no IAM. 5-Discorrer sobre os exames complementares no DDx de dor precordial: * Arteriografia pulmonar. * Cinecoronariografia. * Aortografia. 6-Descrever a fisiopatologia da dor referida e da dor irradiada. Objetivos 3 e 5: ➢ Dor ou desconforto torácico: O desconforto ou dor torácica na emergência representa um grande desafio para o médico, pois, além de queixa frequente, compreende uma variedade de causas, com ampla gama de implicações clínicas, algumas potencialmente fatais se não prontamente reconhecidas. Por isso, o diagnóstico deve ser rápido e preciso, com objetivo de reconhecer e tratar as condições que oferecem risco de morte ao paciente. Não podemos, contudo, pedir todos os exames complementares para todos os pacientes, pois nenhum sistema de saúde, mesmo privado, é capaz de suportar os custos. Uma característica do pronto-socorro é a presença de pacientes com situações de risco iminente de morte, com pacientes estáveis e ambulatoriais. Isso pode dificultar o reconhecimento de pacientes realmente graves. As síndromes coronarianas agudas representam quase 1/5 das causas de desconforto torácico nas salas de emergência. A abordagem inicial desses pacientes deve ser feita sempre com a finalidade de confirmar ou afastar esse diagnóstico, sem, entretanto, esquecer de outras causas potencialmente catastróficas. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 2 • Etiologia e fisiopatologia: Dor ou desconforto torácico representa 5% das consultas em uma emergência geral. A dor ou desconforto pode resultar de 2 mecanismos (Tabela 1): - Fibras somáticas = p. ex., inervação de pele, estruturas superficiais e pleura parietal; - Fibras viscerais = p. ex., coração, esôfago e pleura visceral. Em relação à etiologia, considera-se 5 variáveis anatômicas (Tabela 2): 1- Coração (e pericárdio); 2- Pulmão (e pleura); 3- Vasos (aorta e grandes vasos); 4- Musculoesqueleto; 5- Trato gastrintestinal (esôfago e abdome superior). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 3 • Achados clínicos: Pacientes que procuram o PS referindo dor ou desconforto torácico devem ser submetidos a história e exame físico minuciosos; pode-se falar com certeza que esses dados, na maioria das vezes, são mais importantes e valiosos do que os exames complementares. Veja a tabela: FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 4 1.Dor torácica isquêmica: História e exame físico, na maioria das vezes, são a primeira etapa na avaliação de dor torácica: - A característica anginosa da dor será o dado com maior valor preditivo de doença coronariana aguda; - Cuidado = 30 a 42% dos pacientes com IAM não apresentarão dor ou desconforto no peito típico e podem ter como sintomas palpitações, síncope, hipotensão, dor epigástrica, dispneia, confusão (idosos), vômitos ou diaforese (transpiração intensa). Em alguns casos, esses sintomas podem aparecer sem a existência da dor e são chamados de equivalentes isquêmicos; - Os pacientes que mais têm sintomas atípicos de doença coronariana são: idosos, diabéticos e doença psiquiátrica de base (Tabela 4): * Homens = Cerca de 30% dos casos de SCA ocorrem sem dor ou desconforto torácico. * Mulheres = Cerca de 40% dos casos de SCA ocorrem sem dor ou desconforto torácico. Em relação à descrição da dor torácica, devemos avaliar (Tabela 5): - Qualidade; - Intensidade; - Caráter; - Localização; - Duração; - Irradiação; - Fatores desencadeantes (de alívio e de piora); - Sua forma de apresentação e evolução. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 5 Nessas circunstâncias, sugerem isquemia miocárdica (Tabela 6). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 6 - Dor, desconforto, queimação ou sensação opressiva localizada em região precordial ou retroesternal, que pode irradiar para ombro e/ou braço esquerdo, braço direito, pescoço ou mandíbula, acompanhada frequentemente de diaforese, palpitações, náuseas, vômitos ou dispneia; - Dor em aperto, pressão, queimação, desencadeada por estresse físico ou emocional, aliviada com repouso; - A dor pode durar alguns minutos (geralmente entre 10 e 20 minutos) ou mais que 30 minutos, no infarto; - Cuidado = Em algumas ocasiões, a dor pode se localizar em região epigástrica e cessar com eructações (arrotos), acompanhada de indigestão, sendo erroneamente interpretada e tratada como dispepsia. Na presença de sintomas associados e de fatores de risco para doença arterial coronariana, devem ser investigados (Tabela 7): - O fato de o paciente apresentar lesões ateroscleróticas comprovadas em outras áreas, como claudicação intermitente ou acidente vascular cerebral (AVC) prévio, reforça a possibilidade de isquemia miocárdica; - Doenças associadas, uso prévio de medicações, alergia medicamentosa, contraindicações ao uso de anticoagulantes ou de trombolíticos; - Não esquecer = Uma dor torácica mais intensa e com duração acima de 20 minutos, acompanhada de dispneia, sudorese, palidez cutânea e náuseas, frequentemente representa IAM. O exame físico em casos de de doença coronariana é inexpressivo, mas algumas características podem aumentar sua probabilidade, como: - Presença de quarta bulha; - Sopro carotídeo; - Diminuição de pulsos em membros inferiores; - Aneurisma abdominal; - Achados de sequelas de AVC. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 7 2.Outras dores cardiogênicas: - Pericardite: * A dor geralmente é pleurítica, retroesternal ou em hemitórax esquerdo. * A dor piora quando o paciente respira, deita ou deglute. * A dor melhora com a posição sentada ou inclinada para a frente. * Podem surgir febre e atrito pericárdico, frequentemente precedidos por um quadro gripal. * A dor é em geral mais aguda que a da angina e tem caráter contínuo. * Quando é acompanhada de miocardite podem surgir sintomas de insuficiência cardíaca. Em ambas as situações podem surgir sintomas cardíacos e sistêmicos (febre, mialgia, artralgia e rash cutâneo). - Dor torácica semelhante à dor anginosa pode surgir na estenose aórtica (EAo) e na miocardiopatia hipertrófica (MCH). Soproejetivo em foco aórtico e sobrecarga ventricular esquerda podem surgir nas 2 situações. O diagnóstico é confirmado por ecocardiograma transtorácico. 3.Dor da dissecção aguda de aorta: A dissecção aguda de aorta é uma doença rara, embora seja uma das mais letais existentes. Muitos casos só serão diagnosticados na autópsia, pois simulam várias outras doenças. A dissecção de aorta deve sempre ser lembrada na abordagem de qualquer paciente com dor torácica na sala de emergência. Pacientes podem se apresentar com: - Dor torácica isolada ou associada a outros sinais e sintomas (Tabela 8); - Insuficiência cardíaca (por insuficiência aórtica aguda); - Choque (tamponamento pericárdico, sangramento para pleura ou retroperitôneo, ruptura da aorta); - Dor abdominal (isquemia mesentérica); - Oclusão arterial aguda (membros, AVC, paraplegia, isquemia renal e infarto agudo do miocárdio). A dor da dissecção aguda de aorta costuma ser de início súbito, de forte intensidade desde o início (diferente da dor anginosa, que em geral ocorre de forma crescente) e pode ser insuportável, fazendo que o paciente se contorça, caia no chão ou se torne inquieto e agitado. Quando a dor migra de seu ponto de origem para outros pontos, seguindo o percurso da aorta (ocorre em até 70% dos casos), presença de sinais autonômicos (palidez cutânea e sudorese profusa) deve levantar a suspeita imediata de dissecção aguda de aorta. Além da própria dissecção em si, várias complicações podem surgir: - Ruptura de vasos = Da aorta (é a principal causa de óbito), para saco pericárdico (tamponamento), pleura (derrame pleural esquerdo), mediastino e retroperitônio; - Insuficiência aórtica aguda = Extensão em direção à valva aórtica produzindo distorção de suas comissuras; - Dissecção das coronárias = Geralmente à direita, produzindo IAM; - Extensão para vasos cervicais = Pode causar AVC; - Outras = Isquemia mesentérica, de isquemia de membros superiores ou inferiores (insuficiência arterial periférica aguda), isquemia medular (paraplegia) ou renal. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 8 Fatores predisponentes: - Hipertensão arterial sistêmica (é o fator mais importante e está presente em mais de 90% dos pacientes); - Idade avançada; - Sexo masculino; - Doenças do tecido conectivo (Marfan e Ehler Danlos) costumam associar-se à dissecção em idade jovem; - Doenças congênitas (coarctação da aorta, valva aórtica bicúspide); - Arterite temporal; - Uso de cocaína; - Gestantes e puérperas. 4.Dor de origem pulmonar: - Embolia pulmonar = Dispneia é o sintoma mais frequente e ocorre em até 73% dos pacientes. A dor torácica em geral é súbita e ocorre em 66% dos pacientes (Tabela 9); - Pneumotórax espontâneo = Dor torácica localizada no dorso ou nos ombros e acompanhada de dispneia: * Um pneumotórax hipertensivo pode produzir insuficiência respiratória e/ou colapso cardiovascular. * No exame físico, poderemos encontrar dispneia, taquipneia e ausência de ruídos no hemitórax afetado. - Dor torácica também pode surgir em doenças do parênquima pulmonar (pneumonia, câncer e sarcoidose) e pode ter várias apresentações. Pode agravar-se com a respiração e ter sintomas associados como febre, tosse e fadiga; FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 9 - Hipertensão pulmonar = A dor torácica pode ser muito parecida com a angina típica e pode dever-se a isquemia de ventrículo direito ou dilatação das artérias pulmonares. 5.Dor esofágica e gastroduodenal: Dor em doenças esofágicas pode mimetizar a doença coronariana aguda e crônica. Pacientes com refluxo gastroesofágico podem apresentar: - Desconforto torácico, geralmente em queimação (pirose), às vezes definido como uma sensação opressiva, retroesternal ou subesternal; - Pode irradiar para pescoço, braços, dorso, associado por vezes a regurgitação alimentar; - A dor pode melhorar com a posição ereta, com uso de nitratos, antiácidos, bloqueador de canal de cálcio ou com repouso; - A relação da dor com a alimentação pode ser um indicativo dessa etiologia. A dor da úlcera péptica possui as seguintes características: - Localiza-se em região epigástrica ou no andar superior do abdome, mas às vezes pode ser referida em região subesternal ou retroesternal; - Geralmente ocorre após uma refeição, melhorando com o uso de antiácidos. A ruptura de esôfago (síndrome de Boerhaave) é grave e pode ser causada por vômitos intensos ou trauma. A dor possui as seguintes características. - A dor é angustiante; - Localização retroesternal ou no andar superior do abdome, geralmente acompanhada de um componente pleurítico à esquerda; - Apresenta alta mortalidade e é fatal se não tratada; - O diagnóstico pode ser sugerido pela presença de pneumomediastino; - Aproximadamente 27% dos pacientes terão enfisema subcutâneo. 6.Dor psicogênica (ansiedade): A dor psicogênica é bastante comum no pronto-socorro e costuma acometer pacientes com depressão e com transtornos da ansiedade. A dor possui as seguintes características: - Costuma ser difusa e imprecisa (o paciente utiliza de comparações do cotidiano para descrever a dor); FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 10 - Pode estar associada com o uso abusivo de analgésicos; - Representa 1/3 de todos os pacientes que procuram a emergência. • Exames complementares e diagnósticos diferenciais: É fundamental que o pronto-socorro esteja organizado de forma a priorizar o atendimento de pacientes com dor ou desconforto torácico. Deve-se sempre pensar na síndrome coronariana aguda (SCA), sem esquecer das causas potencialmente catastróficas. O tratamento precoce dos pacientes com IAM é uma medida salvadora de vidas e deve ser iniciado em até 30 minutos a partir da chegada do paciente no hospital para trombólise química, e de 60 a 90 minutos para angioplastia primária. Da mesma forma, mesmo que os pacientes tenham contraindicações para receber o trombolítico ou não haja angioplastia, eles se beneficiarão de tratamento medicamentoso para isquemia. 1.Eletrocardiograma (ECG): O ECG é fundamental e deve ser feito até 10 minutos após a chegada ao PS (Tabela 10). - Ele será normal na maioria dos pacientes que se apresentam com dor torácica; - Desses pacientes com ECG normal, 5% terão síndrome coronária aguda; - A sensibilidade do ECG na internação para IAM é de 45% a 60% (supra de ST) (Tabela 11); - Assim, metade dos pacientes com IAM não é diagnosticada com um único ECG realizado na internação; por isso são importantes a monitorização e os ECG seriados; - Um segundo ECG deve ser obtido com intervalo de no máximo 3 horas após o primeiro ou a qualquer momento em caso de recorrência da dor torácica ou surgimento de instabilidade clínica. Avaliação inicial do ECG: - O ECG mostra uma elevação do segmento ST ˃ que 1 mm em 2 ou mais derivações contíguas = O diagnóstico provável é SCA com elevação do segmento ST; - O ECG não mostra elevação do segmento ST ˃ 1 mm em 2 ou mais derivações contíguas = Nesse caso, está-se diante de uma SCA sem elevação do segmento ST, e as enzimas cardíacas seriadas FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 11 mostrarão se o caso é uma angina instável (AI - Se não houver aumento de enzimas cardíacas) ou se é um IAM sem elevação do segmento ST (IAM – sem supra ST, se houver aumento de enzimas cardíacas); - O ECG é essencial, traz informações prognósticas de grande valor, especialmente ECGs seriados, sobretudo quando há um ECG prévio; - ECG completamente normal não descarta uma doença coronariana; - Alterações dinâmicas do segmento ST com sintomas sãode grande relevância, geralmente indicando isquemia aguda e doença coronariana grave. 2.Papel diagnóstico do nitrato sublingual: Um dos critérios tradicionalmente usados para o diagnóstico de angina é a melhora da dor com o repouso ou com nitrato. No pronto-socorro, quando o paciente apresenta melhora da sua dor com o nitrato sublingual, é indício de doença cardíaca isquêmica. Entretanto, estudos recentes não têm confirmado esse valor diagnóstico do nitrato sublingual. Por isso, é importante lembrar: - Não dê nitrato sublingual antes de um ECG: se o paciente tiver um infarto de parede inferior com infarto de ventrículo direito, pode evoluir para grave choque; - Após o ECG inicial, pode-se usar o nitrato sublingual e repetir o ECG com o objetivo de detectar alterações dinâmicas no ECG; - O alívio da dor pode ocorrer tanto em doença coronariana quanto em doença não coronariana; - Não prescrever nitrato se houver uso de medicamentos para disfunção erétil recentemente (p. ex., sildenafil). Portanto, não podemos confirmar ou afastar a presença de síndrome coronariana aguda com base numa resposta positiva ao nitrato sublingual. 3.Marcadores de necrose do miocárdio: As troponinas cardíacas T e I são os marcadores laboratoriais mais sensíveis e específicos de lesão miocárdica. Em média, a troponina T tem sensibilidade de 96,9%, especificidade de 94,5%, valor preditivo negativo de 99,8% para o diagnóstico de IAM. Por isso, é o melhor marcador para o diagnóstico FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 12 de infarto do miocárdio, superando a CKMB. Além de diagnóstica, a troponina tem informação prognóstica; Aumento de troponina implica um risco 3 vezes maior de óbito (Tabela 12). A melhor conduta é dosar troponinas na internação e repetir após 6 a 12 horas do início da dor. A troponina: - Começa a elevar-se em 4 horas; - Pico em 12 a 48 horas; - Permanece aumentada por 10 a 14 dias. Ocasionalmente, a troponina eleva-se, mas não é pela doença coronariana aterosclerótica; troponina isoladamente não faz diagnóstico de infarto (Tabela 13). A mioglobina é o marcador mais precoce disponível: aumenta em 2 a 3 horas após o infarto, tem pico entre 6 e 12 horas e normalização em 24 horas. É um marcador sensível, mas pouco específico, tendo pouco papel no departamento de emergência. A CKMB tem um papel possivelmente para diagnóstico de reinfarto (já que a troponina poderá ficar elevada por 10 a 14 dias) ou em centros sem a disponibilidade de troponinas. Marcadores de necrose miocárdica devem ser solicitados em todos os pacientes com suspeita clínica de síndrome coronária aguda; uma dosagem na chegada e outra entre 6 e 12 horas da dor precordial são necessárias. Troponina é o marcador de escolha para o diagnóstico definitivo de IAM nesses pacientes. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 13 4.Radiografia de tórax e Tomografia de tórax: - Radiografia de tórax = Maior utilidade em diagnósticos diferenciais de dor torácica não isquêmica: * Pneumonia, pneumotórax, câncer de pulmão, derrame pleural, etc. * Pode sugerir derrame pericárdico, embolia pulmonar (raro), hipertensão pulmonar etc. - TC de tórax = Mais sensível e específica que a radiografia de tórax para diagnóstico de doenças pleurais, do parênquima e vasculatura pulmonar. Tem maior utilidade no diagnóstico de: * Embolia pulmonar. * Dissecção de aorta. 5.Teste de esforço (TE)/Ergometria: A maior utilidade do TE é descartar doença coronariana significativa em pacientes com dor torácica e de baixo risco. Pacientes com teste negativo têm menos de 2% de chance de apresentar um evento cardíaco grave em 6 meses. Não existe um consenso sobre a melhor estratégia, embora o uso do TE no pronto-socorro, em pacientes com dor torácica de baixo risco, seja eficaz, seguro e de baixo custo. Evite indicar TE em pacientes de muito baixo risco, pois isso implicará gastos e procedimentos desnecessários. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 14 6.Cintilografia miocárdica de repouso: Exame caro e pouco disponível na maioria dos PS do Brasil. Uma cintilografia normal implica baixíssima probabilidade de eventos cardíacos nos próximos meses. Pode ser útil em pacientes nos quais não é possível realizar um teste de esforço (Tabela 14). 7.Ecocardiograma (ECO): Síndrome coronariana aguda: - O papel do ECO de repouso na avaliação do paciente com dor torácica ainda não está bem estabelecido. Sua sensibilidade para diagnóstico de IAM varia de 70% a 95%, mas tem alta taxa de falsos positivos. Em pacientes com dor torácica e ECG não diagnóstico, a sensibilidade do ECO para diagnóstico de IAM ou angina instável varia entre 40% e 90%, e o valor preditivo negativo varia entre 50% e 99%. Nesses pacientes, um ECO normal não agrega informação diagnóstica significativa, além daquelas fornecidas pela história e pelo ECG. Portanto, um ECO negativo não deve afastar um IAM ou angina de alto risco; - O ECO com dobutamina ou cintilografia fica reservado para os casos em que o teste ergométrico foi inconclusivo ou quando não pôde ser realizado (Tabela 14). Outras doenças: - O ECO tem grande importância no diagnóstico de várias doenças e é recomendado nos casos de: * Derrame pericárdico. * Estenose aórtica e valvopatias. * Cardiomiopatia hipertrófica. * Dissecção de aorta. Exames complementares na dissecção de aorta: - Radiografia de tórax = Raramente é diagnóstica e pode mostrar: * Aumento do mediastino, sinal do cálcio (separação da calcificação da íntima de mais de 1 cm da borda do arco aórtico), derrame pleural (em geral à esquerda). * Em contrapartida, 12% dos pacientes não terão nenhuma alteração radiográfica. - Eletrocardiograma = Também é muito inespecífico e pode mostrar: * Hipertrofia ventricular esquerda, infarto de parede inferior ou alterações de repolarização. * ECG é normal em 1/3 dos pacientes. A confirmação diagnóstica imediata é essencial. Não há ainda um método ideal, mas em linhas gerais a tendência é (Tabela 15): FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 15 1- Indicar o ECO transesofágico para pacientes mais graves na sala de emergência; 2- Tomografia ou ressonância magnética para os pacientes estáveis; 3- Em alguns casos pode ser necessária a aortografia. Após confirmar o diagnóstico, deve-se definir o tipo e a duração da dissecção e imediatamente solicitar avaliação cirúrgica: - Dissecção proximal = Caso acometa a aorta ascendente (tipos I e II de De-Bakey e tipo A de Stanford). Cerca de 65% dos pacientes têm dissecção da aorta ascendente. - Dissecção distal = Não acomete a aorta ascendente (tipo III de De-Bakey e tipo B de Stanford). A dissecção da aorta descendente ocorre em 20% dos pacientes. * Aguda = Menos de 2 semanas do início dos sintomas (2/3 dos pacientes). * Crônica = Mais de 2 semanas do início dos sintomas (1/3 dos pacientes). Outros exames complementares - Ressonância magnética = Método muito promissor, embora caro e raramente disponível na maioria dos PS do Brasil; - Endoscopia digestiva alta = Pode ser útil no diagnóstico de lesões esofágicas e doença ulcerosa péptica; - Ultrassonografia abdominal = Confirmação de abscessos subfrênicos, colecistite, etc; - Outros exames deverão ser solicitados conforme a suspeita clínica. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 16 8.Arteriografia pulmonar/Angiografia pulmonar: Na angiografia pulmonar introduz-se um cateter por via endovenosa na artéria pulmonar proximal e o contraste é injetado rapidamente. Atécnica oferece uma elevada resolução espacial, permitindo avaliar diretamente o sistema arterial pulmonar. O defeito de enchimento de contraste é típico de tromboembolismo pulmonar (TEP). Todavia, a angiografia pulmonar é um método invasivo, com 5% de riscos de complicações cardíacas e pulmonares e mortalidade de 0,3%. A angiografia pulmonar com medida das pressões da artéria pulmonar e do coração direito, é um procedimento seguro e aceitável quando realizada em uma instalação que assegure o monitoramento adequado dos pacientes. Os resultados da angiografia pulmonar podem estabelecer o diagnóstico específico de embolia pulmonar quando um nível aceitável de certeza não pode ser obtido por cintilografia V/Q não invasiva. As indicações gerais de angiografia pulmonar incluem: - Casos com probabilidade “baixa” ou “intermediária” de achados da cintilografia V/Q, particularmente quando há uma alta suspeita clínica de embolia pulmonar, mas a anticoagulação é considerada arriscada ou contraindicada; - Circunstâncias em que um diagnóstico específico (isto é, embolia pulmonar) for considerado necessário para o controle apropriado do paciente; - Quando for considerada uma tromboendarterectomia; - Antes da colocação de um filtro de veia cava inferior. 9.Cinecoronariografia: A cinecoronariografia representa elemento central na avaliação e tomada de decisão terapêutica em pacientes com Infarto Agudo do Miocárdio com Supradesnivelamento de ST (IAMCST). Este exame deve ser realizado para: - Instituir um procedimento de revascularização; - Determinar o grau de comprometimento das artérias coronárias; - Estabelecer a presença e extensão do dano miocárdico. O número de vasos e a extensão do acometimento aterosclerótico podem ajudar na classificação de risco e na tomada de decisão sobre a melhor estratégia de tratamento desses pacientes. No entanto, a cinecoronariografia no IAMCST possui algumas peculiaridades que precisam ser observadas. O procedimento é indicado nas seguintes situações: - Quando se dispõe de limitada informação sobre antecedentes pessoais; - Presença de comorbidades. Atenção especial deve ser dispensada a pacientes: - Idosos; - Diabéticos; - Com disfunção miocárdica/renal prévia; - Pacientes já revascularizados; - Pacientes com baixo ou muito elevado peso corpóreo FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 17 Outras questões relevantes a serem avaliadas antes da realização deste exame referem-se à via de acesso para sua realização, ao tipo de contraste a ser utilizado e à terapêutica farmacológica adjuvante em uso. 10.Aortografia/Angiotomografia da aorta: Atualmente, a angiotomografia (ATG) multislice é o exame de eleição para o diagnóstico e avaliação topográfica da aorta, pois está disponível em muitos centros e apresenta altas sensibilidade e especificidade, além de ser realizada de forma rápida e pouco invasiva. A ATG pode fornecer informações sobre: - Estruturas adjacentes à aorta; - Espessura da parede ventricular; - Presença de calcificação das coronárias; - Derrame pericárdico; - Dimensão e extensão da aorta comprometida; - Presença de trombos; - Características da parede aórtica, suas delimitações, hematomas, ulcerações, principais ramificações e oclusões. O estudo angiográfico do arco aórtico, aorta torácica descendente e aorta abdominal evidencia alterações como estenoses, dilatações, ulcerações e variações anatômicas, porém está associado a maior morbidade e menor definição de imagem para determinação da presença de calcificações, tortuosidades e estenoses ostiais, quando comparada com a angiotomografia (ATG). • Tratamento: Para tentar minimizar o problema de internações desnecessárias, foram criadas as Unidades de Dor Torácica (UDT), uma estratégia útil e custo-efetiva. Dentro dessas unidades são elaborados protocolos de abordagem diagnóstica e de risco, com a finalidade de estratificar os pacientes que realmente se beneficiarão de internação mais prolongada. Não é necessária a aquisição de nenhuma tecnologia adicional para instalação de uma UDT. O ponto central é a disponibilização de uma quantidade de leitos exclusivos para atendimento de pacientes com dor torácica, equipados com monitor cardíaco, material padronizado para RCP, aparelho de ECG e laboratório capaz de dosar enzimas cardíacas CKMB, troponinas e mioglobina. O objetivo básico das UDT é promover o reconhecimento imediato do IAM e oferecer pronta terapia de reperfusão. Outro objetivo é afastar outras condições clínicas com elevado potencial de risco de morte (angina instável, dissecção de aorta, embolia pulmonar, pneumotórax hipertensivo, ruptura do esôfago, úlcera perfurada e pancreatite aguda). Numa situação de emergência é importante a utilização de algoritmos, para que o tempo para tomada de decisões seja reduzido. Uma vez na UDT, há várias possibilidades (Algoritmo 1). - ECG com elevação do segmento ST > 1 mm em 2 derivações contíguas, indicar trombólise ou angioplastia primária e transferi-lo para uma unidade coronariana (UCO). Da mesma forma, pacientes com FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 18 aumento de enzimas (IAM sem elevação do segmento ST) e angina de alto risco devem ser internados em UCO; - Pacientes com diagnóstico de dor torácica não isquêmica devem ser avaliados para uma causa específica (embolia pulmonar, pneumonia etc.). Esses pacientes terão alta da UDT e serão encaminhados conforme a causa (alta hospitalar, tratamento antimicrobiano, outros exames complementares etc.); - Pacientes com baixo risco deverão ser submetidos a um TE (ou cintilografia se não for possível realizar o TE – Tabela 13); e se normal, terão alta hospitalar. Eles poderão ter alta hospitalar e realizar o TE em até 72 horas. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 19 FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 20 FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 21 Objetivo 1: ➢ Fatores de risco da Síndrome Coronariana: Diversos fatores, agindo de forma combinada ou não, estão associados à presença de placas ateroscleróticas no leito coronário, vasos cerebrais e periféricos. Os fatores de risco convencionais para doença aterosclerótica coronária incluem tabagismo, hipertensão arterial sistêmica, hiperlipidemia, diabetes melito e intolerância à glicose, resistência à insulina, obesidade, vida sedentária e estado hormonal (deficiência de estrógeno). Além desses, outros fatores também estão associados a risco elevado de eventos coronários: níveis altos de homocisteína, fibrinogênio, lipoproteína (a) (um composto de LDL, apo B-100 e apo-A), fator tissular ativador do plasminogênio (t-PA), inibidor do plasminogênio ativado (PAI 1) e proteína C reativa. • Tabagismo: O tabagismo é um fator de risco independente para doença coronária em homens e mulheres. Nos homens que fumam pelo menos 20 cigarros por dia a incidência de IAM aumenta 3 vezes em relação aos não-fumantes; nas mulheres esse risco é de 6 vezes em relação às não-fumantes. O risco aumenta linearmente com a quantidade de cigarros fumados e também é maior nos fumantes passivos. Na angina instável, as mulheres tabagistas, independentemente da quantidade de cigarros inalados, apresentavam risco de placa aterosclerótica coronária grave (= 70%), 4,5 vezes maior do que as não-tabagistas. Com o abandono do tabagismo observa-se aumento da sobrevida e diminuição na taxa de reinfarto. • Hipertensão: A hipertensão arterial e a hipertrofia ventricular esquerda são dois fatores derisco bem estabelecidos para doença coronária, morte por doença coronária, insuficiência cardíaca e AVC. De acordo com o estudo de Framingham, a hipertensão sistólica isolada está relacionada a doença coronária e AVC. De todas as pressões, a que mais se associa com risco coronário é a pressão de pulso, definida como a diferença entre a pressão sistólica e a pressão diastólica. Há associação entre a pressão de pulso mais alta e os pacientes que tiveram diagnóstico de isquemia. No estudo de Framingham, a pressão de pulso foi um preditor mais potente de eventos cardiovasculares que a pressão diastólica ou a sistólica isoladamente. De acordo com o estudo de Framingham, pacientes com padrão eletrocardiográfico definitivo de hipertrofia ventricular esquerda apresentam mortalidade de 59% em 12 anos; risco 3 vezes maior de desenvolver insuficiência coronária grave em 14 anos; risco 6 vezes maior de morte súbita nos homens e 3 vezes nas mulheres e aumento de 10 vezes na evolução para insuficiência cardíaca em 16 anos. O risco de insuficiência cardíaca é independente da idade e diretamente relacionado ao nível pressórico e a hipertrofia ventricular. O sistema renina-angiotensina-aldosterona cardíaco contribui para o desenvolvimento da hipertrofia ventricular e que a hipertensão arterial também pode levar à fibrose intersticial, com os dois fatores determinando alterações na função diastólica ventricular. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 22 Além desse sistema, a endotelina, as proteínas G, a predisposição genética, a viscosidade sanguínea e o tipo de hipertrofia (concêntrica ou excêntrica) são fatores associados com o desenvolvimento de hipertrofia ventricular e disfunção cardíaca. Além de todos esses fatores, a redução do fluxo coronário subendocárdico e da reserva de fluxo (pela própria hipertrofia (elevação da pressão diastólica final), pelo aumento do tono coronário, pelo aumento da resistência periférica) são todos fatores associados com isquemia miocárdica, contribuindo também para deterioração da função ventricular nos pacientes hipertensos. • Dislipidemia: Estudos apontam que o risco de doença coronária aumenta com o aumento do colesterol total. Outros estudos demonstraram a importância das frações do colesterol na determinação do risco coronário. Pacientes com valores de: - LDL ˃ 160 mg/dl são de alto risco; - LDL de 130 a 159 mg/dl são de médio risco; - LDL ˂ 130 mg/dl são de baixo risco. Com relação à fração HDL (lipoproteína de alta densidade) existe uma relação inversa entre o seu nível e a doença coronária. Uma diminuição da HDL de 5 mg/dl aumenta o risco de IAM em 25% tanto em homens como em mulheres. A relação entre a taxa de colesterol total e a fração HDL colesterol é outro índice eficiente de estimativa de risco coronário. Nos homens com taxa de 6,4 ou mais e nas mulheres com 5,6 ou mais está relacionada à elevação do risco de evento coronário. Os triglicérides isoladamente parecem desempenhar papel mais importante nas mulheres, principalmente nas diabéticas. Ao contrário dos homens, o aumento do colesterol total e da LDL (lipoproteína de baixa densidade) tem baixa correlação com doença arterial coronária em mulheres e, nestas, apenas em idade inferior a 65 anos. Na mulher, o fator mais importante é o nível de HDL-colesterol. Um aumento de 10 mg nos níveis de HDL reduz o risco de doença coronária nas mulheres em 40% a 50%. Nas mulheres, os níveis de HDL são mais elevados que nos homens e diminuem pouco durante a fase após a menopausa; a LDL é mais baixa nas mulheres e aumenta progressivamente com a idade, particularmente a partir da menopausa até os 70 anos. • Diabetes mellittus, intolerância à glicose e resistência à insulina: A doença coronária é a principal causa de morte em pacientes diabéticos (75% dos casos). Não há dúvida de que os pacientes diabéticos se beneficiam com o controle dos fatores de risco para doença coronária, já que nessa população específica existe associação de vários fatores de risco com pior prognóstico. Resistência à insulina, hiperinsulinemia, hiperglicemia e intolerância à glicose são todas associadas a processo aterogênico difuso e acelerado. O diabetes é um fator de risco para doença coronária em homens e em mulheres, mas em mulheres é mais potente mesmo antes da menopausa. A coronariopatia é uma complicação maior do diabetes tipo 1 e do tipo 2. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 23 Em estudo comparando mulheres diabéticas e não diabéticas com angina instável ou IAM sem supradesnivelamento do segmento ST demonstramos que as mulheres diabéticas apresentaram lesões em 3 e 4 vasos, artérias com obstrução total e fração de ejeção menor do que as não diabéticas. • Insuficiência renal crônica: A doença arterial coronária é também a principal causa de morte em pacientes renais crônicos em tratamento dialítico. Isso ocorre em parte pela idade avançada e pela proporção de pacientes diabéticos com essa complicação. Cerca de 35% dos pacientes com insuficiência renal crônica, em diálise, têm diabetes. A aterosclerose acelerada desses pacientes é multifatorial. Alterações lipídicas, hipertrigliceridemia, intolerância à glicose e resistência à insulina ocorrem cedo nos pacientes renais crônicos, independentemente de serem ou não diabéticos. Outros fatores ligados ao processo aterosclerótico incluem deficiência de carnitina, hipertensão arterial, hiperparatireoidismo secundário, alterações no sistema fibrinolítico e nas plaquetas, com consequente aumento na formação de trombo e deposição plaquetária. Todos esses fatores contribuem para tornar essa população de alto risco para eventos coronários. • Obesidade: A obesidade é um fator de risco independente para doenças cardiovasculares. Essa relação é mais proeminente na presença de obesidade androide (aquela que predomina no abdome e na parte superior do corpo), com uma razão entre as medidas das circunferências da cintura e do quadril ˃ 0,95 nos homens e ˃ 0,85 nas mulheres. Esse tipo de obesidade está associado, de forma independente, à hipertensão, dislipidemia e diabetes, caracterizando-se a síndrome de resistência à insulina quando todos esses fatores estiverem presentes. • Atividade física: A atividade física habitual diminui o risco de doença coronária. Mesmo exercícios moderados apresentam efeito protetor contra doença coronária e morte por qualquer causa. O exercício físico associa- se com maior diminuição de risco no sexo feminino, sendo o sedentarismo um fator de risco independente e mais prevalente nas mulheres. O exercício físico se associa a uma série de benefícios como: - Elevação da fração HDL-colesterol; - Redução dos níveis pressóricos; - Redução da resistência à insulina; - Perda de peso. • Deficiência de estrógeno: A mulher após a menopausa está sob maior risco de eventos coronários. Acredita-se que isso ocorra pela deficiência de estrógeno característica dessa fase. O estrógeno atua no perfil lipídico diminuindo a fração LDL-colesterol e sua oxidação e aumentando a fração HDL-colesterol. Além disso, estudos demonstraram a ação benéfica dos estrógenos na função endotelial, em moléculas de adesão, na função fibrinolítica e no metabolismo da glicose. Apesar FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 24 desse benefício, alguns efeitos indesejáveis são relatados com o uso de estrógeno por via oral em mulheres jovens: trombose venosa profunda, embolia pulmonar, IAM e AVC. Esses efeitos ocorrem principalmente em mulheres tabagistas. • Novos fatores de risco para doença coronariana: Várias substâncias dosadas no sangue têm demonstrado relação com risco coronáriomaior. Entre essas, as mais estudadas são: - Homocisteína; - Lipoproteína (a); - Marcadores da função fibrinolítica (PAI-1, t-PA e d-dímero); - Fibrinogênio; - Marcadores inflamatórios (proteína C reativa, IL-6, fatores de adesão celular [ICAM-1] e TNF-alfa). Objetivo 2: ➢ Fisiopatologia da dor isquêmica: Na fisiopatologia da cardiopatia isquêmica 2 processos estão implicados: a oferta e a demanda de oxigênio pelo miocárdio. A isquemia miocárdica ocorre quando há desequilíbrio na oferta e na demanda de oxigênio. Por outro lado, 2 situações alteram a oferta de oxigênio para o miocárdio: a isquemia e a hipoxemia. - Esforço físico, estresse emocional, taquicardia ou hipertensão arterial associados à obstrução coronária alteram não só a demanda como a oferta de oxigênio, desencadeando isquemia miocárdica; - A hipoxemia, por sua vez, caracteriza-se pela redução da oferta de oxigênio, mas com perfusão sanguínea adequada. Exemplos de hipoxemia são as cardiopatias congênitas cianóticas, asfixia, a insuficiência respiratória hipoxêmica e a intoxicação por monóxido de carbono. Fatores que alteram a demanda e a oferta de oxigênio, portanto, são os responsáveis pela evolução do paciente para síndrome coronária aguda e angina crônica estável. O grau de obstrução da artéria responsável pelo episódio agudo, a ocorrência de lesões em outros vasos e o grau de circulação colateral são os determinantes mais importantes da diminuição da oferta. A pressão arterial, a FC e a hipertrofia e contratilidade ventricular são as variáveis mais importantes na determinação da demanda de oxigênio. A aterosclerose coronária é o fator mais importante na fisiopatogenia da cardiopatia isquêmica. O processo aterosclerótico é insidioso, iniciando-se na adolescência com as placas gordurosas e progredindo para complicações trombóticas na idade adulta e na população geriátrica. Quando o fluxo sanguíneo para um tecido é bloqueado, o tecido em geral fica muito dolorido em poucos minutos. Quanto maior for a intensidade do metabolismo desse tecido, mais rapidamente a dor aparece. Por exemplo, se manguito de esfigmomanômetro for colocado ao redor do braço e for inflado até a interrupção do fluxo sanguíneo, o exercício dos músculos do antebraço algumas vezes pode causar dor em 15 a 20 segundos. Na ausência de exercício muscular, a dor pode não aparecer antes de 3 a 4 minutos, mesmo que o fluxo sanguíneo para o músculo permaneça zero. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 25 Uma das causas sugeridas para a dor durante a isquemia é o acúmulo de grande quantidade de ácido lático nos tecidos. O ácido lático se forma em consequência do metabolismo anaeróbico (metabolismo sem oxigênio). Também é provável que outros agentes químicos, como a bradicinina e as enzimas proteolíticas, sejam formados nos tecidos por causa do dano celular. A bradicinina e as enzimas proteolíticas juntamente com o ácido lático, estimulam as terminações nervosas para a dor. Objetivo 6: ➢ Dor referida e dor irradiada: • Dor referida: A dor referida pode ser definida como uma sensação dolorosa superficial, que está distante da estrutura profunda (visceral ou somática) responsável pela dor. Obedece à distribuição metamérica. A explicação mais aceita para esse fenômeno é a convergência de impulsos dolorosos viscerais e somáticos superficiais e profundos para neurônios nociceptivos comuns localizados no corno dorsal da medula espinal (sobretudo na lâmina V). O tegumento (pele e anexos) apresenta um suprimento nervoso nociceptivo muito mais exuberante do que o das estruturas profundas somáticas e viscerais. Com isso, a representação talâmica e cortical do tegumento é muito maior do que as estruturas profundas somáticas e viscerais. Por conseguinte, os impulsos dolorosos provenientes das estruturas profundas seriam interpretados pelo cérebro como oriundos do tegumento e o paciente apontaria a dor neste local. São exemplos de dor referida: - Dor na face medial do braço (dermátomo de T1) em pacientes com IAM; - Dor epigástrica ou periumbilical (dermátomos de T6-T10) na apendicite = O apêndice parece não ser origem de dor visceral verdadeira. Na apendicite, a dor começa na região epigástrica ou periumbilical (dor referida) e, posteriormente, por irritação do peritônio parietal suprajacente, passa a ser sentida na fossa ilíaca direita (dor somática profunda); - Dor no ombro (dermátomo de C4) em indivíduos com doença diafragmática ou irritação do nervo frênico = A irritação do diafragma ou do nervo frênico é comum nas doenças de órgãos torácicos e do andar superior do abdome. Quando ocorre essa irritação, o paciente apresenta dor referida no ombro (dermátomo de C4) porque o nervo frênico (responsável pela inervação do diafragma) origina-se predominantemente do 4º segmento medular cervical. Porém, as afecções da vesícula biliar (colecistite, colelitíase), que não têm qualquer relação com o diafragma, também podem cursar com dor referida no ombro. Neste caso, ela é explicada pela participação do nervo frênico na inervação nociceptiva da vesícula biliar. • Dor irradiada: A dor irradiada caracteriza-se por ser sentida a distância de sua origem, porém ocorre obrigatoriamente em estruturas inervadas pela raiz nervosa ou em nervo cuja estimulação nóxica é responsável pela dor (a dor percorre um dermátomo). Um exemplo clássico é a ciatalgia, provocada pela compressão de uma raiz nervosa por uma hérnia de disco lombar. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 26 Objetivo 4: ➢ A relação da ansiedade com a piora da dor torácica: Fatores comportamentais, psiquiátricos e psicológicos são mediadores da relação entre DAC e os sintomas resultantes e incapacidade. A angústia emocional é correlacionada com relatos de dor no peito em paciente com DAC e naqueles livres de sintomas cardíacos. O desgaste psicológico generalizado é maior em pacientes com dor no peito (com coronárias normais) do que naqueles com DAC. Humor e atividades diárias podem justificar tanto a variabilidade da dor precordial relatada pelos pacientes no ambulatório como a depressão do ST indicativa de isquemia. O nível de incapacidade em pacientes com dor precordial clinicamente não esclarecida é associado com a presença de morbidade psiquiátrica. Vários fatores psicológicos tendem a diferenciar os pacientes com dor precordial com ou sem doença cardíaca demonstrável. Quando pacientes com angiografia ou teste ergométrico normais são comparados com aqueles com testes positivos, verifica-se que o primeiro grupo é formado por indivíduos mais jovens, com mais mulheres que apresentam angústia psicológica e prevalência mais alta de distúrbios psiquiátricos diagnosticáveis. Pacientes com dor precordial, clinicamente não esclarecida, têm maior prevalência de distúrbios de ansiedade e de depressão, do que é esperado. Quando comparados com pacientes com dor precordial e achados positivos para angiografia, eles tiveram elevadas taxas de distúrbios do pânico (35 a 50% versus FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 27 5%) e distúrbios depressivos maior (cerca de 35 a 40% versus 5 a 8%). É evidente que os distúrbios cardíacos e psiquiátricos não são mutuamente exclusivos e podem ocorrem concomitantemente. Então, 5 a 23% dos pacientes com angiografia e evidências de DAC, também têm distúrbio do pânico. Esses casos de comorbidades psiquiátricas e cardíaca apresentam dilemas que dificultam o diagnóstico, e é neles que o distúrbio do pânico é mais comumente atípico no caráter clínico e acompanhado de palpitações, tonturas, parestesias e outros sintomas somáticos múltiplos.• Referências: - Emergências Clínicas: Abordagem Prática - USP; - Tratado de Fisiologia Médica - Guyton; - Semiologia Médica – Porto; - Medicina Interna – Harrison; - Cardiopatia isquêmica – Antônio C. C. Carvalho – Rev. Brasileira de Hipertensão – São Paulo – 2001; - Diagnóstico por imagem do tromboembolismo pulmonar agudo – C. Isabela S. Silva – Jornal Brasileiro de Pneumologia – 2004; - Dor torácica aguda: Suspeita de embolia pulmonar – Michel A. Bettmann – Colégio Brasileiro de Radiologia; - V Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Tratamento do Infarto Agudo do Miocárdio com Supradesnível do Segmento ST – 2015; - Avaliação da realização pré-operatória da angiotomografia associada a angiografia convencional versus angiotomografia apenas no tratamento endovascular das doenças da aorta – Patrick Bastos Metzger – Radiol. Bras. – 2013. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 1 Problema 5 Cirurgia e dor # Objetivos # 1-Explicar sobre a dor pós-operatória. 2-Relacionar a alta complexidade do processo cirúrgico com a dor pós-operatória. 3-Descrever o tratamento da dor pós-operatória. 4-Explicar o que é decorticação e quando a utiliza. 5-Discorrer tudo sobre a avaliação pré-anestésica. 6-Explicar a utilização de sedativos no pré-operatório (visão crítica). Objetivos 1, 2 e 3: ➢ Dor pós-operatória: O período pós-operatório não é um evento isolado, devendo ser compreendido como parte do período perioperatório com importantes repercussões clínicas. É necessário realizar o controle de doenças coexistentes, vigiar a temperatura corpórea, o delírio e os fenômenos tromboembólicos, para que o alívio efetivo da dor ocorra com técnicas apropriadas, produzindo conforto e satisfação. Os tratamentos são mais efetivos quando os anestesiologistas compreendem que a dor pode ser rapidamente controlada por meio de uma equipe treinada, pela reavaliação dos doentes e pela modificação dos cuidados diante dos efeitos colaterais relacionados aos analgésicos e/ou dos efeitos decorrentes do procedimento cirúrgico (como hipotensão e redução da motilidade intestinal) que limitam, em alguns casos, a modificação das modalidades de analgesia ou o aumento das doses. Para alcançar o alívio da dor no período pós-operatório é necessário atuar em diferentes etapas das vias de condução dos estímulos nociceptivos (analgesia balanceada ou multimodal), como a utilização de fármacos com diferentes mecanismos de ação e redução das disfunções orgânicas decorrentes da inflamação e da manipulação cirúrgica (como hipertensão arterial sistêmica, taquicardia, síndrome da hipercoagulação, trombose venosa profunda, hipermetabolismo, íleo paralítico, disfunções pulmonares e síndrome da resposta inflamatória sistêmica. A ansiedade e a apreensão, mais do que a própria nocicepção, acentuam as reações hipotalâmicas e, consequentemente, a secreção de catecolaminas (adrenalina e noradrenalina), de cortisol, de renina, de angiotensina II e de corticoides. Os efeitos podem ser graves especialmente em doentes com baixa reserva cardíaca (com risco de eventos isquêmicos e de infarto do miocárdio). Além disso, ocorre ativação de respostas imunitárias, alteração da viscosidade sanguínea, do tempo de coagulação e da agregação plaquetária. O procedimento cirúrgico e o consequente aumento de catecolaminas circulantes provocam vasoconstrição renal, e esta, quando associada à hipovolemia, pode levar à insuficiência renal aguda. A reposição hídrica adequada é fundamental para evitar danos à função renal. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 2 Essas repercussões (Quadro 43.1) têm início durante o procedimento cirúrgico, e, para reduzir sua frequência e seu impacto o mais rápido possível, estão indicadas intervenções com agentes e fármacos apropriados para diferentes procedimentos cirúrgicos (Quadro 43.2). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 3 Os analgésicos utilizados para o alívio da dor pós-operatória podem ser prescritos utilizando-se a Escada Analgésica da Organização Mundial da Saúde (OMS) para dor crônica e adaptada para dor aguda pós-operatória (Fig. 43.1). Os opioides, os anestésicos locais e os anti-inflamatórios não-hormonais (AINHs) são os agentes mais utilizados para o tratamento e o alívio da dor aguda pós-operatória. A eficácia analgésica desses diferentes fármacos varia com a potência, a duração do seu efeito e a possibilidade de produzir efeitos indesejáveis que limitam sua continuidade. O controle da dor e suas repercussões envolvem diferentes métodos e vias de infusão de drogas (sistêmica e regional) além de medidas físicas e psicológicas (Quadro 43.2). As complicações decorrentes dos diversos procedimentos cirúrgicos são mais comuns em doentes críticos e em grandes procedimentos cirúrgicos. O espasmo muscular produzido por atividade reflexa motora pode prolongar a dor. Na parede torácica e no abdome, dor e espasmo muscular podem comprometer a função respiratória. A redução do volume pulmonar é grave e ocorre mais nos FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 4 procedimentos cirúrgicos do tórax e do abdome superior. A redução da motilidade intestinal é uma complicação de procedimentos cirúrgicos intra-abdominais e prolonga o período de internação hospitalar. Assim, a associação correta entre os diferentes fármacos analgésicos pode facilitar a recuperação, a deambulação precoce e o alívio das dores espontânea e dinâmica. As técnicas de anestesia e de analgesia regional incluem instilação e infiltração de anestésicos locais (no local da ferida operatória) e bloqueio de nervos periféricos (único ou com cateteres) e espinal (único ou com cateteres). Os opioides são administrados por diferentes vias e associações. Entretanto, atualmente, a analgesia controlada pelo paciente (ACP) é um conceito de infusão de analgésicos que tem sido introduzido na prática clínica para minimizar os efeitos da variabilidade farmacocinética e farmacodinâmica desses fármacos entre os diferentes doentes, além de apresentar disponibilidade de uso por outras vias, como espinal, plexular e articular. A dor aguda pós-operatória é persistente em 10 a 50% dos pacientes após procedimentos cirúrgicos rotineiros (herniorrafia inguinal, toracotomia e mastectomia, amputação de membros e revascularização com enxertos). A dor crônica pós-operatória ainda é pouco conhecida e diagnosticada. Fatores genéticos, idade avançada, dor preexistente e ausência de controle da dor durante o procedimento cirúrgico agravam a dor pós-operatória (Tab. 43.1). Quando a dor não é controlada, o paciente torna-se predisposto à sua cronicidade. A dor crônica pode ser intensa em 2 a 10% desses pacientes. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 5 • Tipos e mecanismos de dor pós-operatória: O alarme para diferentes estímulos térmicos, químicos e mecânicos é conhecido com o nocicepção. Ela é modulada por neurônios específicos que sinalizam respostas imunológicas e simpáticas para a defesa da integridade tecidual e a proteção fisiológica. Os procedimentos cirúrgicos provocam lesões teciduais, modulando receptores sensitivos periféricos e centrais com consequente redução do limiar de excitação e da sensibilização central (alodínia e hiperalgesia). A dor reconhecida pelo cérebro nesse momento é conhecida como inflamatória. A dor inflamatória regride à medida que cicatriza a ferida operatória, e com medidas protetoras é possível reduzir a sensibilidade periférica e central. A dor neuropática pode ocorrer a partir delesões dos nervos periféricos encontrados nos tecidos envolvidos no procedimento cirúrgico e após sensibilização central. Os estímulos nociceptivos provenientes dos tecidos lesados após um procedimento cirúrgico provocam sensibilização das vias periféricas e centrais de transmissão da dor, iniciando um a cascata de eventos no sistema somatossensitivo com aumento das respostas neuronais. Essas alterações aumentarão as respostas dos estímulos subsequentes (Fig. 43.2). Assim, a dor se amplificará, reduzindo o limiar de excitação. Traumatismos e inflamações geram estímulos mecânicos, térmicos e químicos que ativam os nociceptores das fibras finas A-delta (pouco amielinizadas) e fibras C (amielinizadas) do sistema nervoso periférico (SNP) e conduzem a informação nociceptiva para a medula espinal. Após o procedimento cirúrgico, as lesões teciduais provocam respostas inflamatórias e sensibilizam nociceptores com liberação de substâncias (como substância P, prostaglandinas, serotoninas, bradicininas e histamina), com consequente modulação e aumento das respostas do SNP e SNC. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 6 A sensibilização dos neurônios do corno posterior da medula espinal (CPME) resulta em hiperalgesia e alodínia. Dessas estruturas, a informação nociceptiva é transmitida para o hipotálamo e para as áreas corticais envolvidas no processamento da sensibilidade e nas reações emocionais da nocicepção. A transferência das informações nociceptivas sofre profundas alterações devido à participação de grande número de influências inibitórias sobre a dor no SNC: - Endorfinérgicas; - Encefalinérgicas; - Neurotensinérgicas; - Gabaérgicas; - Serotoninérgicas; - Noradrenérgicas; - Colinérgicas; - Glutamatérgicas; - Dopaminérgicas; - Calcitoninérgicas; - Histaminérgicas. A dor pode ser produto do excesso de estímulos nociceptivos (p. ex., dor inflamatória, traumática) ou da hipoatividade do sistema supressor (p. ex., neuropatias periféricas ou centrais), com sintomas como dor persistente e paroxística associada a alodínia, hiperalgesia e hiperpatia. Essas respostas são previsíveis em todos os procedimentos cirúrgicos e, para evitá-las, é preciso bloquear completamente todos os estímulos inflamatórios e cirúrgicos até a recuperação completa da ferida operatória. Dessa forma, com a analgesia balanceada, é possível aliviar os estímulos nociceptivos, interferindo em diferentes etapas de sensibilização dos nociceptores. O estresse e o medo agravam-se logo após o término da anestesia. Nesse momento, a dor pode manifestar-se com intensidade maior do que a esperada, tornando o doente irritado e agitado. A insegurança agrava a ansiedade, especialmente naqueles doentes que ignoram o que pode ocorrer após a operação. A insegurança é aprofundada com o contato com equipamentos estranhos, frascos de infusão e outros elementos presentes nas unidades de recuperação anestésica ou de terapias intensivas. Essas experiências aumentam a ansiedade, tornam os pacientes vigilantes e ansiosos, reduzem o limiar da dor e acentuam as percepções das sensações desagradáveis. Elas criam o ciclo vicioso dor-ansiedade, agravado pela sensação de pânico. Os pacientes imobilizam-se, evitam movimentos que acentuam a dor, tornam-se incapazes de cuidar de si mesmos e apresentam hipertonia muscular localizada ou generalizada e anormalidades neurovegetativas, que resultam na instalação ou agravamento da síndrome dolorosa miofascial ou da dor traumática. Vários fatores podem contribuir para agravar a dor: - Privação do sono; - Anormalidades dos padrões do sono; - Excessivos estímulos sonoros e visuais; - Sons inadequados; - Conversas inapropriadas; - Falta de comunicação; - Ausência de janelas; FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 7 - Dissociação entre as atividades do indivíduo e do ciclo noite-dia; - Falta de informação sobre as condições ambientais e climáticas; - Incapacidade de concentração. • Medidas da intensidade da dor aguda pós-operatória: Um grande esforço é realizado pelas equipes de saúde para implantar o 5º sinal vital, pois a dor é difícil de ser medida, em virtude das características de cada indivíduo, além do fato de envolver aspectos sensitivos, psicológicos e institucionais. As medidas da intensidade da dor aguda pós-operatória são utilizadas há décadas, e o que melhor representa as mensurações são os relatos dos doentes em medidas verbais, numérica visual em centímetros e analógica visual. Nos doentes cuja comunicação não é verbal, procura-se por sintomas indiretos de dor (como estimulação do sistema nervoso simpático ou escalas psicocomportamentais), observando-se expressão facial, postura ou vocalização, etc. As avaliações no período pós-operatório são realizadas pelos médicos e enfermeiros e contemplam as participações de psicólogos quando indicadas. Convém lembrar que as medidas físicas são importantes para a completa reabilitação dos doentes, e, por isso, é importante a participação constante da equipe de fisiatria e fisioterapia na equipe hospitalar. A mensuração da dor é um processo que faz parte dos cuidados com os doentes com dor, portanto, conhecer os resultados e seus efeitos é medida importante para avaliar a qualidade de atendimento e o controle. A avaliação da qualidade do sono, das condições da movimentação, de deambulação, da amplitude e da FR, da PA, da FC, da ansiedade e da agitação psicomotora aferem os prejuízos da ocorrência da dor e quantificam a qualidade da analgesia. Quando são utilizados opioides, deve-se dar atenção especial aos sinais de sedação e de depressão respiratória. O uso de escala de sedação facilita o controle. A escala analógica visual (EAV) é uma boa opção e de fácil aceitação. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 8 • Analgesia preemptiva: A analgesia preemptiva é empregada no período pós-operatório com o objetivo de proteger o SNC e o SNP das consequências das lesões teciduais iniciadas com os procedimentos cirúrgicos, terminando com a recuperação completa da ferida operatória e com a reabilitação dos doentes. É possível a redução da sensibilização dos sistemas periféricos e centrais impedindo que dores persistentes ou crônicas se instalem. A analgesia preemptiva apresenta resultados positivos com o uso de opioides e antagonistas dos receptores N-metil-D-aspartato (NMDA) tanto na inibição quanto na excitação das alterações neuroplásticas após os procedimentos cirúrgicos. Diversos agentes analgésicos são utilizados na prática clínica para a obtenção do alívio da dor no perioperatório: - O uso de AINHs isoladamente não é capaz de inibir profundamente a nocicepção; - A infiltração subcutânea de anestésico local não é suficiente para cobrir toda a área de inervação cirúrgica; - A anestesia espinal (peridural ou subaracnóidea) pode falhar em bloquear todos os dermátomos correspondentes. Existem, portanto, controvérsias a respeito da eficácia da analgesia preemptiva na prevenção da sensibilização neuronal. E provável que essas medidas resultem mais no prolongamento da analgesia operatória do que na prevenção dos mecanismos que levam à sensibilização. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 9 • Tratamento na prática clínica: Os cuidados com o doente com dor pós-operatória passam por avaliações frequentes antes, durante e após os procedimentos cirúrgicos, pois o controle adequado da dor conduz os doentes à redução da ansiedade, à satisfação com o resultado cirúrgico e ao retorno para as suas atividades normais o mais breve possível. Logo após os procedimentos cirúrgicos,diversas reações (sonolência, náuseas, vômitos e instabilidade hemodinâmica) e comorbidades (obesidade, doenças cardíacas, insuficiência renal, diabete, etc.) podem limitar a efetividade dos fármacos e das medidas no período pós-operatório. Assim, a escolha das técnicas, as atitudes e os diagnósticos precisos abreviam a dor e os efeitos colaterais e provocam menor número de prescrições. A rotina típica de um doente submetido à cirurgia deve começar por sua recepção na unidade de internação pelo enfermeiro para anamnese e orientações pré-operatórias e as visitas do cirurgião e do anestesiologista antes do procedimento cirúrgico: - Enfermeiro = Esclarece que o procedimento cirúrgico pode provocar dores e que, para tratá-las, haverá analgésicos prescritos pela equipe médica de acordo com a intensidade esperada, podendo ser solicitadas novas doses de analgésicos se julgar necessário; - Cirurgião = Esclarece todos os procedimentos executados: * A extensão da incisão cirúrgica. * A presença de drenos e sondas. * O aparecimento de dores e suas irradiações. * O tempo esperado de internação. * A presença de outros membros da equipe de saúde (fisioterapeutas, nutricionistas). * A troca de curativos. * A alta hospitalar. - Anestesiologista = Cabe informar e esclarecer os procedimentos pré-operatórios: * O uso de ansiolíticos. * Os procedimentos anestésicos, seus efeitos e tratamentos esperados, além das diferentes possibilidades de métodos de analgesia pós-operatória para diferentes tipos de cirurgias. * Escolher e auxiliar o doente a optar pela melhor forma de mensuração da dor. * Informar ao enfermeiro o método indicado e aceito pelo doente. • Vias de administração de analgésicos: 1.Sistêmica: 1.1.Oral: - Uso no pós-operatório = Principalmente para procedimentos ambulatoriais ou na fase tardia dos procedimentos de médio e grande porte para a manutenção do alívio da dor. Dentre as diversas vias de administração de analgésicos, a via oral (VO) é a menos invasiva e a mais efetiva, mas não é recomendável quando o doente apresenta vômitos, obstrução gastrintestinal, disfagia ou confusão mental. A absorção dos analgésicos depende de fatores como a superfície de contato, o fluxo sanguíneo local, o estado físico do medicamento e a sua concentração no local de absorção. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 10 A combinação de opioides + AINHs é benéfica para reduzir a quantidade total do consumo de opioides no pós-operatório, promovendo controle da dor com menor incidência de efeitos indesejáveis. Os efeitos adversos decorrentes do uso dos AINHs são inúmeros, incluindo: - Ulceração gástrica; - Distúrbios da coagulação; - Redução da função renal; - Piora de quadros clínicos de broncoespasmo. Com isso, o uso de AINHs deve ser evitado em pacientes em que o risco de qualquer um desses eventos estiver elevado. Os inibidores seletivos da COX-2 apresentam menor incidência de efeitos adversos, especialmente o da redução de sangramento gástrico. 1.2.Venosa: - Uso no pós-operatório = Controle rápido da dor aguda. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 11 Os opioides (morfina, fentanil e tramadol) são a primeira escolha para o tratamento das dores moderadas a intensas + AINHs. Para dores leves, os AINHs produzem alívio satisfatório, mas para dores moderadas a intensas, isoladamente são insuficientes. Então, a associação com opioides ou anestésicos locais é necessária. Doses iniciais elevadas de opioides geralmente alcançam níveis plasmáticos terapêuticos que podem ser mantidos por reduzidas doses subsequentes, intermitentes ou contínuas, com ou sem bombas de infusão ou com dispositivo para injeção de opioides (como ACP). 1.3.Intramuscular: - Uso no pós-operatório = Uso inapropriado. A via intramuscular (IM) apresenta grande variabilidade de latência, de intensidade e de duração da analgesia induzida pelos analgésicos, além do desconforto da dor provocado pelas injeções. Por isso é inapropriada para o controle rápido da dor aguda e pós-operatória. No período pós-operatório, pode o correr hipotermia e hipovolemia, que modificam a absorção dos agentes analgésicos opioides ou anti- inflamatórios, além do risco de infecção e lesão de nervos periféricos. 1.4.Subcutânea: - Uso no pós-operatório = Pouco utilizada, sendo reservada para casos em que há dificuldade para punção venosa. Todos os opioides podem ser administrados por essa via de acesso com agulhas 25 ou 27G com infusão intermitente ou contínua, e podem ser efetivos mesmo durante 5 ou mais dias, desde que não haja sinais de inflamação ou de infecção. 1.5.Transdérmica: A via transdérmica oferece a oportunidade de utilização de analgésicos através da pele intacta e evita a passagem da droga pela absorção gastrintestinal. Entre os opioides, o fentanil é útil por essa via porque apresenta baixo peso molecular e alta solubilidade em gorduras e em água. Esse método não pode ser comparado à infusão venosa. 1.6.Sublingual e transmucosa: - Uso no pós-operatório = Controle da dor leve a moderada. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 12 As via sublingual (SL) apresenta a vantagem de evitar a primeira passagem pelo fígado, porque a drenagem venosa da boca é direcionada para a veia cava superior, evitando-se, assim, a degradação gastrintestinal que ocorre com o uso da via oral. Dessa forma, deve-se evitar a deglutição dos comprimidos, porque pode o correr inativação pela mucosa gastrintestinal. Por causa do rápido início de ação e da maior biodisponibilidade da substância ativa, pode ocorrer alta incidência de sedação, de náusea e de vômito. Para o uso dessas vias, incluem-se analgésicos com o a buprenorfina que é um opioide lipofílico semissintético, com tempo de ação de aproximadamente 6 horas, que se mostrou efetiva no controle da dor pós-operatória leve a moderada. Porém, em cirurgias de grande porte, a necessidade de aplicação mais frequente após 6 horas e a consequente elevação da incidência de efeitos colaterais tornam seu uso pouco vantajoso. 1.7.Intranasal: - Uso no pós-operatório = Raramente utilizada. A via intranasal permite a absorção de analgésicos opioides através de sua superfície altamente irrigada e pela biodisponibilidade dos opioides como o fentanil, que pode alcançar rapidamente concentrações plasmáticas eficazes para o alívio da dor, embora seja raramente utilizado no período pós- operatório. 1.8.Espinal: A via espinal tornou-se popular e rotineira para anestesia e tratamento de dores aguda e crônica com a utilização de diversos fármacos. Logo após a identificação dos receptores opioides no SNC, a sua presença na medula espinal e o efeito analgésico potente, derivado da estimulação, levaram à utilização destes pela via espinal. Os opioides se difundem através das meninges e a aracnoide é a principal barreira entre o espaço peridural e o subaracnóideo (90% da resistência à difusão da droga). A dura-máter composta de colágeno e fibras elásticas possui amplos espaços que permitem a passagem da droga. A aracnoide é composta de 6 a 10 camadas sobrepostas de células epiteliais conectadas entre si. Nessa composição se alternam membranas hidrofóbicas e regiões aquosas, e isso explica porque drogas de lipossolubilidade intermediária são mais difusíveis do que drogas altamente lipofílicas: - Drogas altamente lipofílicas = Tenderão a permanecer nas membranas celulares difundindo-se pouco para o citoplasma e retardando o tempo de alcançar a próxima membrana, continuando assim a difusão; - Drogas hidrofóbicas = Tenderão a permanecer no citoplasma aquoso das células, não ultrapassando a barreira. Além disso,a administração da droga por via peridural oferecerá às moléculas da droga uma variedade de microambientes onde ela poderá se alojar (gordura peridural, meninges, líquor, substância branca, mielina, membranas axonais, substância cinzenta medular, líquido extracelular, organelas intracelulares, etc.). Portanto, as drogas que se ligam a outras estruturas além da substância cinzenta medular (na qual se encontram os receptores opioides), terão baixa biodisponibilidade e pouco efeito. O conceito de que opioide no neuroeixo minimiza a dose e o efeito colateral tem sido verdade somente para a morfina. A administração de morfina no neuroeixo reduz bastante a dose necessária para FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 13 o tratamento da dor pós-operatória. O uso de opioides lipofílicos (fentanil ou sufentanil) peridural contínuo não apresenta vantagens quando com parado à via venosa. Utilização da morfina: - Administração subaracnóidea: * Doses = 0,05 a 0,2 mg. * Início da analgesia = Após 15 a 30 minutos. * Duração da analgesia = 8 a 24 horas. - Administração peridural: * Doses = 1 a 2 mg. * Início da analgesia = Após 20 a 40 minutos. * Duração da analgesia = 6 a 12 horas. A associação de opioides + anestésicos locais resultam em melhora expressiva da analgesia e combina 2 vantagens: - A analgesia mais rápida e o bloqueio mais eficaz dos anestésicos locais; - A analgesia mais prolongada dos opioides. A analgesia espinal com anestésico local envolve redistribuição de grande volume sanguíneo, o que pode levar à hipotensão significativa no idoso. A PA sistêmica é dependente do débito cardíaco e da resistência vascular sistêmica. O bloqueio induzido por anestésico local das fibras simpáticas pré- ganglionares lombares reduz a resistência vascular sistêmica, provocando um represamento de sangue periférico, o que reduz o retorno venoso e a pré-carga. A redução da pré-carga leva à redução do volume sistólico e do débito cardíaco, promovendo hipotensão sistêmica. A infusão contínua de anestésicos locais + opioides parece ser mais segura quando comparada às injeções intermitentes em bolo, entretanto não há dados suficientes para demonstrar essa hipótese. A infusão contínua é estimada e não há regras para o seu cálculo quando utilizado com ACP. A posição do cateter peridural deve estar relacionada aos dermátomos correspondentes a lesões ou incisões cirúrgicas para melhor aproveitamento e controle da analgesia segmentar. Nessas circunstâncias, não há necessidade do uso de concentrações e de volumes elevados de solução analgésica. Deve-se lembrar que a hipotensão é o resultado do bloqueio do sistema nervoso simpático com vasodilatação e depressão da contratilidade miocárdica. Assim, pode ocorrer hipotensão mesmo em baixas doses, sabendo-se que as fibras simpáticas são as primeiras a serem bloqueadas. A associação de clonidina + anestésicos locais + opioides para o período pós-operatório potencializa a hipotensão e a sedação. Os efeitos colaterais produzidos pelos opioides espinais são os mesmos observados por outras vias: náusea, vômito, prurido, sedação, obstipação e depressão respiratória. A analgesia peridural com anestésico local reduz a mortalidade pós-operatória após cirurgias eletivas e é importante no alívio da dor pós-operatória. As principais preocupações a respeito dos bloqueios de nervos periféricos no idoso referem-se à ação dos anestésicos locais nas estruturas neurais. Alterações neurais e perineurais no idoso podem alterar a ação dos bloqueios: FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 14 - Diminuição do diâmetro e do número de fibras mielinizadas das raízes nervosas dorsais e ventrais; - Diminuição do espaço entre as células de Schwann e as fibras mielinizadas, disponibilizando maior quantidade de receptores para os anestésicos locais e causando a deterioração dos mucopolissacarídeos dos tecidos conectivos, permitindo uma maior infiltração de anestésicos locais. 2.Local: O uso do anestésico local no alívio da dor pós-operatória está associado à sua ótima qualidade de analgesia e a redução do consumo de opioides e consequente melhora na cognição dos doentes, com menos náusea e prurido. É vantajoso para as cirurgias ambulatoriais e para os idosos submetidos aos procedimentos cirúrgicos diversos. O delírio prolongado pós-cirúrgico em idosos é devido à idade e ao uso de opioides. Os nervos tornam-se mais sensíveis aos anestésicos locais com o avanço da idade, em função de um declínio na população neural e da lentificação da condução nervosa. Pode ocorrer toxicidade cumulativa nos idosos devido à redução global do clearance das drogas, devendo-se evitar grandes doses de anestésicos locais. Ao injetarem-se repetidas doses, deve-se fazê-lo com cautela. • Tratamento: 1.Opioide: Opioide é o analgésico-padrão para o período pós-operatório e é utilizado sob diversas vias de administração (oral, venosa, espinal, subcutânea, intramuscular, transcutânea, etc.). Morfina, fentanil, oxicodona, tramadol e codeína são utilizados nas cirurgias ambulatoriais e nas de grande porte. Doses iniciais elevadas são necessárias para alcançar níveis plasmáticos terapêuticos, os quais podem ser mantidos por doses subsequentes reduzidas, intermitentes ou contínuas, através de bombas de infusão (com o ACP). Os intervalos de administração podem ser variáveis dependendo de outros efeitos (náusea, vômito, sonolência e prurido ou complicações clínicas diversas). Para os idosos, doses reduzidas são recomendadas em função dos níveis sanguíneos mais elevados e dos efeitos colaterais mais pronunciados quando com parados aos jovens. A infusão contínua depende da necessidade horária de opioide no período pós-operatório imediato. Para o doente usuário crônico, a infusão contínua poderá ser adotada precocemente em função das respostas aos diferentes estímulos nociceptivos. Depois de obtido o controle da dor durante a permanência na sala de recuperação pós-anestésica (Fig. 43.5), quando indicado, poderá ser associada infusão contínua à velocidade de 0,5 a 1 mg/h de FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 15 morfina ou doses de outros agentes opioides. O ajuste das doses é realizado sempre que ocorrerem efeitos indesejáveis ou dor > 4/10 (EAV). Os opioides promovem uma profunda inibição na motilidade gastrintestinal, efeitos observados durante administração sistêmica de opioides (IV e IM) e espinal. A oxicodona, analgésico potente, está presente no Brasil apenas para administração oral de liberação cronogramada. Assim, promove-se a liberação constante do analgésico e contribui-se para manter níveis plasmáticos estáveis para o controle efetivo da dor. O analgésico não deve ser triturado ou dividido ao meio. Aplicações repetidas pela via intramuscular devem ser evitadas pois podem causar fibrose, abscessos ou lesões neurais. Não alivia a dor em cerca da metade das situações clínicas e cirúrgicas encontradas. A via subcutânea é apropriada para doentes no período pós-operatório quando o acesso venoso é restrito. As concentrações plasmáticas dos opioides pela via subcutânea permanecem estáveis e semelhantes à via venosa. Sua absorção inicia-se quase imediatamente, e a circulação local é o fator limitante. A via transdérmica torna-se ideal para doentes crônicos usuários de opioides de uso contínuo. O período pós-operatório tem curta duração e requer rápido ajuste das doses, o que torna essa medida impossível nessa modalidade de infusão de opioide. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 16 2.Anti-inflamatórios não-hormonais (AINHs):Os AINHs apresentam propriedades analgésicas, antipiréticas e anti-inflamatórias e são utilizados com segurança no período pós-operatório de procedimentos cirúrgicos ambulatoriais e de grande porte, desde que respeitados curtos períodos de tempo de uso de acordo com cada fármaco separadamente. Suas concentrações plasmáticas analgésicas ocorrem após 30 minutos e alcançam pico máximo em aproximadamente 120 minutos e são insuficientes para o alívio da dor intensa quando utilizados isoladamente. Os AINHs são metabolizados no fígado e excretados pelos rins e nas fezes. Durante períodos curtos de tempo (2 a 7 dias), não há aumento dos efeitos colaterais. Cuidados especiais devem ser adotados com o uso de AIHNs em hepatopatas, nefropatas, gestantes, hipoprotrombinêmicos, plaquetopênicos e em doentes com avitaminose K, doença péptica prévia ou ativa, hipertensão arterial ou insuficiência cardíaca esquerda (retenção de água e sódio a longo prazo) ou história de reação alérgica aos AINHs. Diante do risco de doença péptica, o acetaminofeno, a dipirona ou os inibidores específicos de COX-2 são recomendados. Os inibidores da bomba de prótons (omeprazol: 10 a 20 mg, 2 a 3x/dia e o misoprostol: 100 a 200 mg 4x/dia) exercem efeito protetor satisfatório contra a doença péptica. A associação de AINHs + opioides pode reduzir a incidência de íleo paralítico em doentes submetidos a procedimentos cirúrgicos abdominais. Os AINHs bloqueiam a conversão de ácido araquidônico em prostaglandinas pela inibição das cicloxigenases (COX) tipos l (constitutiva) e 2 (induzida), com consequente redução dos mediadores da resposta inflamatória aguda e lesão tecidual. Neurônios espinais também podem produzir prostaglandinas em resposta a lesão tecidual periférica, e a inibição central da COX reduz a ativação dos receptores NMDA e AMPA, prevenindo a sensibilização central. No período pós-operatório, em ambiente hospitalar, está indicado acesso venoso periférico para cirurgias de pequeno e médio portes ou acesso venoso central para procedimentos de grande porte e pacientes críticos. A via intravenosa promove analgesia mais rápida, e hoje, no Brasil, estão disponíveis FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 17 diversos fármacos AINHs, como tenoxicam, cetoprofeno, cetorolaco e o parecoxibe (único inibidor venoso específico da COX-2) (Tab. 43.3). O cetorolaco (AINH COX tipo 1 e 2) apresenta efeito analgésico comparável aos opioides, entretanto podem ocorrer efeitos indesejáveis (lesão da mucosa gastrintestinal e disfunção dos túbulos renais e plaquetários). Os inibidores específicos da COX-2 (como o parecoxibe) apresentam efeitos menos pronunciados sobre o sistema gastrintestinal e plaquetário. 3.Anestésico local: O anestésico local como analgésico pode ser utilizado como técnica única para anestesia ou associado à anestesia geral para o controle da dor durante o procedimento cirúrgico, reduzindo as doses dos anestésicos, ou para o tratamento da dor no período pós-operatório, poupando opioides e outros analgésicos. Os métodos para injeção incluem as vias: - Espinal; - Plexular; - Intra-articular; - Local; - Intracavitária; - Perineural. Anestésicos locais de longa duração também são utilizados por meio de cateteres para o prolongamento da analgesia nos casos de doentes com dores complexas em pós-operatório de grandes cirurgias. As principais vantagens dos anestésicos locais são completo alívio da dor, ausência de distúrbio cognitivo, facilidade para mobilização do doente no leito para a troca de curativos e a realização de exercícios de reabilitação. Os anestésicos locais podem ser associados aos: - Opioides agonistas dos receptores µ; - Bloqueadores de canal de cálcio; - Agonistas alfa2-adrenérgicos; - Antagonistas de NMDA; - Inibidores da colinesterase; - AINHs; - Outros agentes adjuvantes. As técnicas de realização dos bloqueios anestésicos incluem a pesquisa por parestesia no local de punção, a utilização de estimuladores de nervos periféricos e a USG. Os anestésicos locais utilizados para procedimentos anestésicos e analgésicos para o alívio da dor pós-operatória incluem: - Lidocaína (0,5 a 2%); - Bupivacaína (0,05 a 0,4%); - Ropivacaína (0,1 a 0,4%); - Levobupivacaína (0,1 a 0,4%). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 18 4.Cetamina: A cetamina é um antagonista do receptor NMDA (receptor envolvido no processo de hiperexcitabilidade dos nociceptores da medula espinal, por meio da estimulação das fibras C). A cetamina inibe canais de sódio e potássio e reduz a receptação de serotonina e de dopamina na fenda sináptica. A grande incidência de efeitos colaterais (náuseas, sedação, depressão respiratória e o desenvolvimento de tolerância à medicação, mesmo durante o início do tratamento com opioides), move o interesse por drogas adjuvantes, incluindo a cetamina. A associação de pequenas doses de cetamina (250 µg/kg) + morfina endovenosa promove analgesia rápida e sustentada no período pós-operatório. Esta associação promove redução no consumo de opioides e menor incidência de náusea e prurido. 5.Clonidina: Os fármacos agonistas alfa-2, como a clonidina, apresentam efeitos anti-hipertensivos em função da redução da resistência vascular sistêmica e do efeito cronotrópico negativo. Seu efeito analgésico é exercido pela ação agonista em receptores alfa-1, podendo ser administrada pelas vias oral, endovenosa, transdérmica e intracecal e peridural (mais recentemente). Contudo, seus efeitos adversos (hipotensão, bradicardia e sedação) podem limitar seu uso rotineiro. 6.Bloqueadores dos canais de cálcio: O uso dos bloqueadores do canal de cálcio no tratamento da dor pós-operatória tem demonstrado que a associação com a ziconatida parece ter papel importante na redução das doses de morfina usadas para o tratamento da dor pós-operatória. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 19 7.Anticonvulsivantes: O uso de anticonvulsivantes, particularmente da gabapentina, são motivados pela redução de hiperalgesia e alodínia. A gabapentina apresenta uma ação analgésica e promove redução no consumo dos opioides quando utilizada no período pós-operatório. 8.Outros métodos e técnicas: Métodos e técnicas de analgesia não-invasiva ou medicamentosa inclui a TENS e o relaxamento. A aplicação de TENS mostrou-se uma técnica eficaz e segura, com redução da dor, melhora da função pulmonar, acompanhados de PaO2 maior, PCO2 menor e aumento da capacidade vital forçada e da FEV (volume expiratório final em um segundo). • Procedimentos específicos para tratamento da dor pós-operatória: 1.Analgesia controlada pelo paciente (ACP): A ACP é um conceito de analgesia que utiliza doses de opioides venosos de forma intermitente ou contínua ou ambas em intervalos de tempo determinados pelo médico, permitindo que o paciente controle a administração do fármaco por meio de um disparador e de um a bomba de infusão microprocessada. A ACP pode ser aplicada por diversas vias (subcutânea, oral, espinal, plexular, intra-articular) e não é necessária a presença de equipamento sofisticado para sua administração. A ACP deve ser iniciada na sala de recuperação pós-anestésica no momento que o doente refere dor ou de acordo com plano inicial antes do procedimento cirúrgico. Isto poderá levar algum tempo antes que o paciente seja transferido para o leito, portanto, o ajuste da ACP, em um primeiro momento, pode demorar. Alguns problemas são comuns com o uso de ACP. A dose inicial na sala de recuperação pós- anestésica, é importante para alcançar o nível plasmático mínimo de analgesia da droga utilizada. A dose de demanda ou doseem bolo depende da latência da maioria dos opioides e pode variar de 6 a 12 minutos (para a morfina) com duração de até 6 horas. Deve-se prescrever opioides sempre em formulários próprios. A necessidade de cada paciente pode variar. Se possível, não se deve introduzir infusão contínua basal: - Se a dose for muito baixa, os pacientes perderão a confiança no método e recusarão aumentar a frequência de demandas apesar da analgesia insuficiente; - Se as doses forem excessivas, os efeitos colaterais (sedação, náusea e vômito) poderão ser intensos. O intervalo entre as doses é outro ajuste importante: - Se muito longo, a concentração plasmática mínima efetiva não poderá ser obtida e o controle da dor será insuficiente; - Se muito curto, a analgesia poderá ser eficaz, mas aumentará o risco de acúmulo da droga e dos efeitos colaterais. O paciente deve estar acordado e alerta para compreender o uso do ACP. O objetivo final é que o doente esteja com a dor controlada; contudo, monitorar a sedação pode evitar depressão respiratória e promover e facilitar a recuperação e reabilitação dos pacientes com fisioterapia adequada. A monitoração FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 20 da intensidade da sedação deve fazer parte da rotina de avaliações sempre que qualquer opioide estiver sendo utilizado por qualquer via. 2.Controle inadequado da dor: A dose inicial é necessária para pacientes com dor intensa. Deve-se utilizar um mesmo opioide agonista até o controle da dor com mínimos efeitos colaterais. Caso ocorram efeitos indesejáveis sem o controle satisfatório da dor, é possível: - Reduzir o intervalo entre as doses; - Aumentar a dose em 25%; - Trocar o opioide por outro agonista (fentanil, morfina, tramadol). Não se deve associar opioide agonista + opioides mistos (nalbufina ou buprenorfina). Na presença de outros efeitos, deve-se: - Reduzir a infusão do opioide em 25%, caso a dor seja leve; - Deve-se retirar a infusão contínua, caso tenha-se decidido prescrevê-la; - Aumentar o intervalo entre as doses. Se o paciente apresentar: - Retenção urinária = Utilizar sondagem vesical, se necessário; - Náusea e vômito = Deve-se utilizar alizaprida 100 mg venosa a cada 6 horas, ou ondansetron 4 mg venoso a cada 4 a 6 horas, ou então deve-se considerar a troca de analgésico; - Prurido = Geralmente não necessita de tratamento. A incidência de sedação nos pacientes geriátricos é mais elevada do que em adultos jovens, ultrapassando 20% dos casos. 3.Bloqueio de nervos periféricos: Os bloqueios de nervos periféricos promovem analgesia intensa e localizada e estão associados à baixa incidência de efeitos colaterais quando comparados às demais modalidades de analgesia pós- operatória. A infusão contínua de anestésicos locais através de cateteres prolonga ainda mais esses benefícios. Essas vantagens facilitam a recuperação, a alta hospitalar e reduz os custos hospitalares perioperatórios. 4.Infusão contínua de anestésicos locais: A infusão contínua de anestésicos locais através de bombas elastoméricas promovem analgesia eficaz no período pós-operatório, sendo que o efeito analgésico pode persistir até 48 horas após a remoção do cateter. Além disso, há redução no consumo de opioides, sem aumento significativo nos riscos de infecções ou complicações. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 21 Objetivo 5: ➢ Avaliação pré-anestésica: A avaliação pré-anestésica deve ser feita antes de toda e qualquer anestesia mesmo que de urgência, preferencialmente pelo anestesiologista que a executará. Ao final da avaliação pré-anestésica para uma cirurgia eletiva deve-se responder à pergunta: “Está o paciente nas melhores condições possíveis para ser submetido à cirurgia proposta?” Se a resposta for “não”, a cirurgia deve ser adiada. Se a cirurgia for de urgência, a questão que se impõe é: “Os riscos de operar o paciente agora são maiores do que os de não operar?” Em outras palavras, comparam-se os riscos e os benefícios da cirurgia naquele momento. O paciente pode ser encaminhado previamente pelo seu médico ao anestesiologista que o avaliará sob a forma de clínica pré-anestésica. Isto pode ser extremamente benéfico diminuindo sua ansiedade sobre a cirurgia e a anestesia, identificando problemas potenciais, determinando sua etiologia, encaminhando-o a um outro especialista para uma interconsulta, se necessária. Esta opção diminui cancelamentos e complicações, melhora a relação médico-paciente e a nossa imagem de médico. A avaliação pode ser feita através de questionários de triagem escritos, telefônicos ou automatizados (Health Quiz). Deve ser feita de modo profissional e sem pressa. Para que o paciente possa se sentir mais à vontade, os visitantes e parentes devem aguardar em outro ambiente, exceto no caso de crianças ou naqueles com problemas mentais. No caso de crianças, deve-se sentar e conversar no mesmo nível de seus olhos ao invés de permanecer em pé e de modo dominador. O cirurgião, a família do paciente e a enfermagem devem participar desta preparação. Técnicas de relaxamento, livretos e audiovisuais explicativos têm sido preconizados para reduzir a ansiedade. Os principais objetivos da avaliação pré-anestésica são: - Captar a confiança do paciente orientando-o sobre a anestesia, os cuidados perioperatório e tratamento da dor para reduzir a ansiedade e facilitar a recuperação; - Determinar sua condição física e exames complementares e interconsultas necessários; - Estimar o risco anestésico-cirúrgico do procedimento; - Escolher a anestesia. Isto é feito através da anamnese, do exame físico e da verificação de exames complementares. Os dados obtidos devem ser registrados em ficha apropriada. • Anamnese: Pode-se iniciar com a pergunta: “Além do problema que o leva a ser operado(a), tem alguma doença?” A seguir, utilizando linguagem acessível ao paciente, indagam-se os seguintes itens aprofundando-se mais conforme a resposta mostrar possibilidade de patologia associada. 1.Anestesia anterior: FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 22 Perguntar se já foi submetido a algum tipo de anestesia mesmo que local, para que procedimento, que impressão ficou, se houve intercorrências (náuseas, vômitos, despertar demorado, agitação, hipotensão etc.), verificar a ficha de anestesia anterior (se possível); indagar sobre problemas com anestesia em sua família (hipertermia maligna, anormalidades da colinesterase etc.). 2.Hábitos: - Tabagismo = Está presente num grande número de pacientes. O risco depende da quantidade e de há quanto tempo fuma. A presença de enfisema e bronquite crônica leva à maior incidência de complicações respiratórias no pós-operatório (P.O.). Pode haver inibição da resposta imunológica, indução enzimática, maior acidez e volume gástricos e maior incidência de algumas neoplasias. O fumo torna as vias aéreas superiores irritáveis a um corpo estranho (como o tubo traqueal ou a sonda de aspiração). Sua suspensão por um curto período de tempo (48 horas) diminui os níveis de carboxiemoglobina para o normal, abole o efeito estimulante da nicotina sobre o sistema cardiovascular, melhora o transporte mucociliar e aumenta a disponibilidade de oxigênio para os tecidos ao desviar a curva de dissociação da hemoglobina para a direita. Melhor ainda, deve ser suspenso 6 semanas antes; na pior das hipóteses, não fumar no dia da cirurgia; - Alcoolismo = Nem sempre é fácil de ser detectado e quantificado. O uso crônico de bebidas alcoólicas pode levar à indução enzimática com maior metabolismo hepático e daí à maior necessidade de anestésicos no alcoólatra que está sóbrio; nafase aguda do alcoolismo ocorre o contrário. É comum o uso de álcool com outras drogas psicoativas. A função hepática pode estar deteriorada até graus extremos com varizes de esôfago, coagulopatia etc; - Uso crônico de opioides = Evidencia os fenômenos de tolerância, dependência física e síndrome de abstinência. Evitar o uso de substâncias com efeitos antagonistas como buprenorfina (Temgesic), nalbufina (Nubain), naloxona (Narcan) etc.; - Cocaína = Inibe a recaptação de noradrenalina, daí o risco de arritmias e resposta exagerada a vasopressores. Evitar medicamentos disritmogênicos (halotano ou pancurônio) e/ou simpatomiméticos (cetamina). O crack é uma forma de cocaína; - Maconha = Provoca redução da CAM do halotano, inibição das colinesterases e indução enzimática; É comum o uso de várias drogas pelo mesmo paciente. Lembrar a possibilidade de AIDS e hepatite nos usuários de drogas injetáveis. Se perguntarmos com naturalidade: “Usa alguma droga?” Teremos menor dificuldade em obter respostas positivas. 3.Alergia: Indagar alergia a medicamentos, antissépticos, esparadrapo etc. Avaliar cuidadosamente os pacientes com história de alergia; muitos podem se julgar alérgicos, mas na realidade apresentam uma reação adversa previsível com determinado fármaco. Profissionais da área de saúde, e pessoas com alta exposição ocupacional ou industrial às proteínas do látex e crianças com espinha bífida, anormalidades urogenitais, cateterizações frequentes e múltiplos procedimentos cirúrgicos têm maior risco de reação alérgica ao látex. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 23 Alimentos como banana, abacate, quiwi, mamão e castanha possuem proteínas antigenicamente semelhantes às proteínas do látex natural e, quando ingeridos, podem desencadear reações alérgicas nestes pacientes. Há possibilidade de sensibilidade cruzada a cefalosporinas (cefalotina, cefazolina e ceftriaxona) em pacientes alérgicos à penicilina. 4.Data da última menstruação (DUM): Está ou existe possibilidade de estar grávida? Este dado é importante para mulheres pelo risco de teratogênese particularmente durante o 1º trimestre da gravidez quando ocorre a organogênese. 5.Sistema cardiovascular: Perguntar sobre dispneia, tosse seca, palpitações, arritmia, edema, hipertensão arterial, doenças vasculares cerebrais e periféricas, dor precordial, história antiga ou recente de infarto do miocárdio (esperar de 4 a 6 semanas após infarto para realizar uma cirurgia eletiva) etc.; é importante avaliar o grau de atividade física e alterações recentes nos sintomas. 6.Sistema respiratório: Indagar sobre dispneia, tosse, expectoração, chiadeira, história pregressa de asma brônquica (alguns medicamentos podem desencadear broncoespasmo) etc. Embora discutível, parece mais prudente adiar uma cirurgia eletiva em paciente com resfriado comum ou outro tipo de infecção aguda das vias aéreas superiores; particularmente nas crianças há maior risco de laringoespasmo, broncoespasmo e dessaturação. Após um episódio de asma, a hiper-reatividade de vias aéreas persiste várias semanas. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 24 Os fatores de risco para complicações pulmonares pós-operatórias incluem tabagismo, doença pulmonar crônica, cirurgia de emergência, cirurgia torácica ou de abdome superior, idade superior a 70 anos e tempo de anestesia ≥ 180 minutos. A maioria dos pacientes portadores de síndrome de apneia obstrutiva do sono não é diagnosticada e, se indagados, a resposta será negativa. Tipicamente são do sexo masculino, obesos e com idade superior a 40 anos, mas também é possível em pacientes magros, de ambos os sexos e em todas as idades. Cuidado com a perda do controle das vias aéreas após indução de anestesia geral. Crianças com hipertrofia de amígdalas também podem estar sob risco. 7.Sistema endócrino: - História de diabetes = Pode haver dificuldade de movimentação do pescoço no diabetes tipo 1; gastroparesia com retardo no esvaziamento gástrico; é mais comum a isquemia miocárdica silenciosa; - Doenças da tireoide = No hipotireoidismo a língua pode ser excessivamente grande, dificultando a intubação. 8.Sistema hematológico: O problema mais comum é a anemia e ela impõe um estresse ao sistema cardiovascular que pode exacerbar uma isquemia miocárdica ou agravar uma insuficiência cardíaca. A anamnese é muito importante no diagnóstico de coagulopatias. Pode-se perguntar: “Quando se corta ou se machuca para de sair sangue normalmente ou demora muito?” Extração dentária ou outra cirurgia recente sem hemorragia é dado favorável. Epistaxe, sangramento gengival, menorragia e antecedente familiar positivo podem estar ligados a coagulopatias. 9.Sistema gastrointestinal e hepático: Indagar sobre náusea, vômito, refluxo gastroesofágico, sintomas de disfagia, icterícia, hepatite, etc. Lembrar a possibilidade de aspiração nas doenças do esôfago e na obstrução intestinal, bem como de coagulopatia nas hepatopatias. 10.Sistema urinário: Perguntar sobre cálculos, infecção urinária, insuficiência renal, diálise etc. 11.Sistema musculoesquelético: Indagar história de dor lombar ou articular, artrite, dificuldade de acesso venoso na artrite reumatoide etc. 12.SNC: Perguntar sobre cefaleia, convulsões; avaliar eventuais alterações neurológicas; neuropatia com alteração recente é contraindicação para anestesia regional. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 25 13.Medicamentos utilizados pelo paciente: Veremos adiante. • Exame físico: Durante a anamnese e o exame físico, devem ser usados os sentidos de visão, audição, olfato e tato para procurar indícios de doença. Para as crianças, explicar antes e claramente o exame que iremos fazer. 1.Altura: Quanto maior a altura, maior deverá ser o volume de anestésico local por metâmero na anestesia peridural; junto com o peso nos dá ideia do biotipo. 2.Peso: Para cálculo das doses por quilo de peso. 3.Constituição física: Obesidade, “tórax em barril”, “pescoço de touro” podem trazer problemas ventilatórios; observar alterações esqueléticas. A obesidade traz também dificuldade de relaxamento abdominal e a gordura armazena anestésicos inalatórios e tiopental (Thionembutal, Thiopental) retardando o despertar. A obesidade frequentemente é associada com diabetes, hipertensão arterial e aumento do conteúdo gástrico. 4.Estado nutricional: No desnutrido, há maior fração livre dos fármacos, há diminuição da resposta imunológica, da capacidade vital (por diminuição da massa muscular), maior risco de edema pulmonar e intersticial, maior sensibilidade aos relaxantes musculares. 5.Coloração da pele e mucosas: Cianose, palidez, icterícia, petéquias, tatuagens, etc. 6.Boca, nariz e orofaringe: Permeabilidade nasal, dentes frouxos (avisar que poderão cair durante a intubação) ou ausentes, próteses dentárias, arcadas dentárias protrusas, língua grande, tamanho das amígdalas (se muito grandes podem obstruir as vias aéreas na indução), alterações anatômicas, patologia que impeça a abertura da boca, etc. 7.Previsão de intubação difícil: Existem situações associadas à dificuldade na intubação traqueal (trauma de vias aéreas ou face, instabilidade da coluna cervical, pequena abertura da boca, boca pequena, pescoço curto e musculoso, sequelas de queimaduras, anormalidades congênitas, tumores, abscessos, trismo, história de intubação difícil etc). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 26 Entretanto, há pacientes nos quais a dificuldade não é tão óbvia, mas a intubação poderá ser árdua,inesperada (se não foi prevista), eventualmente complicada por dificuldade de ventilação tornando a situação ainda mais dramática e com maior possibilidade de aspiração pulmonar. Mallampati e colaboradores, em 1985, mostraram que naqueles pacientes nos quais em posição sentada, boca totalmente aberta e língua totalmente protraída, não são visíveis a úvula e os pilares da orofaringe (mas apenas o palato mole), a intubação provavelmente será difícil ao contrário daqueles nos quais estas estruturas são facilmente visíveis. O observador deve estar de frente para o paciente e no nível de seus olhos. Há 4 classes para o teste de Mallampati: - Classe I = Palato mole, fauce, úvula e pilares visíveis; - Classe II = Palato mole, fauce e úvula visíveis; - Classe III = Palato mole e base da úvula visíveis; - Classe IV = Palato mole totalmente não visível. O índice de Wilson leva em conta peso (menor que 90 ou maior que 110kg), movimento da cabeça e pescoço, movimento da mandíbula, retração ou não da mandíbula, dentes protrusos ou não. O índice de Arné e colaboradores considera prévio conhecimento de intubação difícil, patologias associadas com intubação difícil, sintomas clínicos de patologia de vias aéreas, distância entre os incisivos e luxação de mandíbula, movimento máximo de cabeça e pescoço, classe no teste de Mallampati. Se com a cabeça totalmente estendida: - A distância entre o bordo inferior do mento e a proeminência da cartilagem tireoide (também chamada de espaço mandibular) for menor que 6 cm (aproximadamente a largura de três dedos), provavelmente a intubação será difícil; - A distância entre o bordo inferior do mento e o bordo superior do esterno, for de 12,5 cm ou menos, provavelmente a intubação será difícil. A previsão de intubação difícil deve ser realizada em todos os pacientes mesmo que a anestesia não seja geral. Isoladamente os exames podem não prever uma intubação difícil devido aos falso-positivos FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 27 e falso-negativos. Entretanto, quando vários deles apontam para dificuldade na intubação, isto deverá ser real. Na dúvida, sedar levemente o paciente e fazer a laringoscopia antes da indução e do relaxamento muscular. 8.Sistema respiratório: Roncos, sibilos, estertores, etc. 9.Sistema cardiovascular: Pressão arterial (medida nos 2 braços; se diastólica ≥ 110mmHg, deve ser controlada antes da cirurgia), FC, ausculta e palpação precordial, arritmia, sopro (verificar se representa ou não valvopatia significante) etc. 10.Veias periféricas: Para administração de líquidos, anestesia venosa regional, etc. 11.Exame da coluna para anestesias espinais ou de outras regiões para outros bloqueios anestésicos: Verificar facilidade de palpação da coluna ou identificação de pontos anatômicos para outros bloqueios. 12.Estado psicológico: Pacientes pusilânimes (medroso, fraco, covarde) não são os melhores para bloqueios. • Exames complementares: Frequentemente são essenciais. Entretanto, vários estudos têm mostrado a falta de utilidade de baterias de exames feitos por “rotina”. Os principais problemas disso são: estes exames não são um bom instrumento de pesquisa de doenças; sua adoção envolve custos; acrescentam um novo risco para o paciente, aumentam o risco médico-legal para o médico; tornam ineficientes as salas de cirurgia. Por estas razões os exames devem ser solicitados com base na anamnese e no exame físico cuidadosos, bem como na natureza do procedimento. Na escolha destes exames, particularmente nas cirurgias ambulatoriais, a “técnica” mais nova é talvez a mais antiga: julgamento clínico. A repetição de alguns exames cujos resultados foram normais nos 2 meses anteriores não parece trazer benefícios. Antes de concluir que nenhum exame pré-operatório seja necessário é prudente lembrar que a detecção de problemas subclínicos nos grupos de alto risco e a otimização de terapia podem resultar em menor morbidade e menores mudanças no planejamento peroperatório. Para os cardiopatas, nenhum exame deve ser realizado se não for provável que vá influenciar no seu tratamento. Os principais exames são: - Hematológico (hemoglobina e hematócrito) = Acreditava-se que hemoglobina ˂ 10g/dl não seria permitida uma cirurgia eletiva porque diante da hipotensão arterial, queda do débito cardíaco, hemorragia, entre outros, estaria diminuída a reserva de transporte de oxigênio. Isto tem sido questionado considerando-se o porte da cirurgia, possibilidade de sangramento etc., pode-se anestesiar pacientes com FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 28 valores menores de hemoglobina. O hematócrito alto pode representar desidratação, poliglobulia, situações que aumentam a viscosidade sanguínea e o risco de tromboembolismo; - Urina I = Importante em paciente em uso de diuréticos, em diabéticos, em nefropatas, em procedimentos geniturológicos, na infecção geniturinária recente, etc.; - Radiografia de tórax = Permite visualização da circulação pulmonar, aumento de cavidades cardíacas, desvio da traqueia, etc. Importante em portadores de asma ou DPOC debilitantes ou com mudança nos sintomas ou com episódio agudo nos últimos 6 meses ou procedimento cardiotorácico etc.; - ECG de repouso e/ou esforço = Pode mostrar arritmias cardíacas, sobrecarga de câmaras, bloqueios, insuficiência coronariana, distúrbios eletrolíticos, ação de medicamentos, etc.; - ECO = Avalia tamanho das cavidades, funções sistólica e diastólica dos ventrículos, espessura do miocárdio, presença de valvopatias ou outras cardiopatias, etc.; - Química sanguínea (ureia, creatinina, glicose, sódio, potássio, proteínas, etc.) = São importantes nas doenças renais, adrenais ou tireoidianas, no uso de diuréticos, na quimioterapia, etc.; - Provas de hemostasia (TS, TC, TP, TTPa, etc.); - Outros exames específicos = Vai depender do ASA do paciente (ver adiante). • Medicamentos utilizados pelo paciente: Muitos pacientes tomam regularmente um ou mais medicamentos aos quais se acrescentarão outros 5 a 10 durante a anestesia. A incidência de reações adversas é 7% se o paciente recebe 6 a 10 fármacos e 40% com 10 a 20. Os idosos são os maiores consumidores de medicamentos e, por isso, sujeitos a maior risco. O importante é reconhecer a possibilidade de uma interação medicamentosa antes que ela ocorra. Prevê-la não é fácil já que múltiplos fatores interferem: os fármacos administrados, o tempo de exposição, a doença de base, a idade, o peso, o débito cardíaco, o componente genético, o nível de indução enzimática, etc. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 29 • Avaliação de riscos ligados ao ato anestésico: Entre os fatores de risco ligados ao ato anestésico, há os decorrentes da atividade do anestesiologista e os inerentes à anestesia em si. Assim, a seleção inadequada de técnica e/ou de agentes pode aumentar o risco. A duração da anestesia também contribui não só pela agressão farmacológica continuada como pela fadiga que se apossa de todos os participantes levando à desatenção e aos erros. Há inúmeras variáveis influenciando o risco anestésico-cirúrgico e não dispomos de uma classificação internacionalmente aceita. Goldman e colaboradores publicaram, em 1977, um índice multifatorial de risco cardíaco para procedimentos cirúrgicos não-cardíacos. A classificação é a seguinte: - Goldman I = 0 a 5 pontos; - Goldman II = 6 a 12 pontos; - Goldman III = 13 a 25 pontos; - Goldman IV = 26 ou mais pontos. Este índice não se difundiu tanto porque os fatores de risco pré-operatório não são os únicos determinantes da sobrevida. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º PeríodoMódulo: Dor Thálisson Ramos Leite 30 • Avaliação do estado físico: É diferente de risco anestésico-cirúrgico. Uma classificação de estado físico considera a mortalidade secundária à anestesia e as condições clínicas pré-operatórias associadas. Objetivo 6: ➢ Medicação Pré-Anestésica (MPA) – Sedação: A MPA consiste na administração de uma série de medicamentos antes da anestesia, com a finalidade de tornar o ato cirúrgico mais agradável para o paciente por meio da indução de sedação física FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 31 e psíquica, e de assegurar condições mais favoráveis para o trabalho do anestesiologista. As finalidades da MPA são as seguintes: - Redução da ansiedade; - Sedação; - Amnésia; - Analgesia; - Redução das secreções das vias aéreas; - Prevenção de respostas a reflexos autonômicos; - Redução do volume do conteúdo gástrico e aumento do seu pH; - Efeito antiemético; - Redução das necessidades de anestésicos; - Facilitação de indução suave da anestesia; - Profilaxia de reações alérgicas. O estresse pré-operatório pode provocar inquietação, insônia, arritmias, hipertensão arterial e crise de angina. Por isso, atualmente o principal objetivo da MPA é aliviar o medo e a ansiedade. A ansiedade depende de expectativas diante da cirurgia (maior nas mutiladoras, nas castradoras ou nas amputações) e da doença, de eventos econômicos e familiares, de informações prévias sobre a cirurgia e a anestesia, de preparo psicológico inadequado, da influência negativa de outras pessoas, de medo, incerteza, desamparo. A incidência de ansiedade varia de 11% a 80%. Quanto mais completo e detalhado for o questionário de avaliação mais facilmente se encontra a ansiedade. Ela é maior nas mulheres, particularmente se o peso for maior que 70kg, e naquelas pessoas que nunca se submeteram a uma anestesia permanecendo constante da noite anterior até o período pré-operatório imediato. Sonolência não deve ser confundida com efeito ansiolítico e pode coexistir com ansiedade e excitação. O manuseio anestésico do paciente começa com a preparação psicológica pré-operatória e se necessário utiliza-se a MPA. Sua escolha é baseada nas mesmas considerações do que na escolha da anestesia. Todo esforço deve ser feito para que a MPA atinja o efeito desejado antes da chegada do paciente à sala de cirurgia e não após a indução da anestesia. Alguns pacientes não devem receber medicamentos depressores antes da cirurgia: - Aqueles com pouca reserva fisiológica; - Aqueles nos extremos de idade; - Aqueles com trauma de crânio; - Aqueles com hipovolemia. Se o paciente tem um acesso venoso, não é preciso usar outra via para administrar a MPA. A MPA ideal, particularmente em pediatria, deve ser indolor, confiável em 100% dos casos, ter latência e duração curtas e não comprometer o sistema cardiovascular ou pulmonar. Entretanto, todas elas têm algum inconveniente: hipoventilação, dessaturação, desconforto na administração (picada, gosto ruim, queimação e defecação) ou tempo excessivo entre a administração e a sedação máxima. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 32 Objetivo 4: ➢ Decorticação pulmonar: O termo decorticação significa retirada de córtex ou “casca” envolvendo o pulmão. Classicamente, a operação consiste na remoção de uma camada fibrótica que envolve a pleura visceral e restringe a expansão pulmonar (fibrotórax). A “deloculação” que é a limpeza da cavidade pleural não constitui uma decorticação propriamente dita, pois não há tempo para ocorrência de encarceramento pulmonar. Para efeito prático é comum a aceitação de ambas como um procedimento terapêutico único. Originalmente, a decorticação é realizada por meio de toracotomia póstero-lateral. Todavia, o advento de técnicas cirúrgicas menos invasivas na década de 1990 possibilitou o desenvolvimento da cirurgia torácica vídeo-assistida (VATS). Principal indicação da decorticação pulmonar: - Empiema pleural (pus na pleura) provocado por infecções, broncopneumonia e derrame pleural. • Referências: - Dor Princípios e Prática – Onofre; - Anestesiologia – SAESP. - Conduta cirúrgica do derrame pleural parapneumônico em adultos – Denis Reis Waisberg – Rev. Med. – São Paulo – 2011. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 1 Problema 6 Dor oncológica # Objetivos # 1-Estudar etiologias da dor neoplásica. 2-Descrever o mecanismo fisiopatológico da dor neoplásica. 3-Estudar o tratamento farmacológico e não farmacológico da dor neoplásica. 4-Discutir o acompanhamento do paciente terminal. 5-Discutir a reação comportamental do paciente terminal frente a morte (eutanásia/distanásia). Objetivos 1, 2 e 3: ➢ Dor no câncer: Apesar da crescente melhora no controle da dor nos últimos 15 anos, a dor relacionada ao câncer continua afetando, significativamente, a saúde pública. De todos os sintomas que o paciente com câncer apresenta, a dor é sempre o sintoma mais temido. O sofrimento desses pacientes é resultado da interação da percepção dolorosa associada à incapacidade física, ao isolamento social e familiar, às preocupações financeiras, ao medo da mutilação e da morte. Cerca de 1/3 dos pacientes com câncer apresenta dor no momento do diagnóstico, enquanto 2/3 com a doença em estágio avançado classificam sua dor como de intensidade moderada a severa. O não controle da dor no câncer está associado com o aumento dos níveis de depressão, ansiedade, hostilidade e somatização. Pacientes com dor causada pelo câncer apresentam mais distúrbios emocionais que os pacientes com câncer sem dor, embora estes últimos respondam menos ao tratamento e morram mais cedo. A dor psíquica, ou sofrimento, tem um importante papel na qualidade de vida do paciente e ignorar esse tipo de dor é tão perigoso quanto ignorar a dor somática. A dor física e a dor psíquica estão intimamente relacionadas, o que demonstra a importância da interdisciplinaridade na abordagem do paciente com dor oncológica. Apesar da moderna tecnologia empregada no intuito de diagnosticar precocemente as neoplasias, do desenvolvimento de novas drogas antineoplásicas e de técnicas de radioterapia e cirurgia para tratar o câncer, pouca atenção vem sendo dada ao controle adequado da dor, principalmente nos países subdesenvolvidos. Em 1990, esse fato levou a Organização Mundial de Saúde (OMS) a decretar que a dor associada às neoplasias constitui uma emergência médica mundial. • Epidemiologia: O câncer é considerado um sério problema de saúde pública e pode atingir a todos (jovem e velho, rico e pobre, homens, mulheres e crianças). A cada ano são diagnosticados 11 milhões de novos casos em todo o mundo. O câncer é uma doença com elevada morbidade e mortalidade. A mortalidade da neoplasia maligna é de 7 milhões a cada ano. Estima-se, para 2020, o diagnóstico de 16 milhões de FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 2 pessoas com câncer. As razões para o aumento da mortalidade por câncer são conhecidas, como o tabagismo, as dietas insalubres, a redução da atividade física e o aumento da expectativa de vida. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (INCA), órgão normativo do Ministério da Saúde, estimou, para 2006, 234.570 novos casos de câncer para o sexo masculino, sendo os de maior incidência os cânceres de: - Pele não-melanoma (55 mil); - Próstata (47 mil); - Pulmão (18 mil); - Estômago (15 mil); - Cólon e reto (11 mil). Foram estimados 237.480 novos casos para o sexo feminino, sendo os de maior incidência os cânceresde: - Pele não-melanoma (61 mil); - Mama (49 mil); - Colo do útero (19 mil); - Cólon e reto (14 mil); - Pulmão (9 mil). • Etiologias: Infelizmente, o diagnóstico de câncer é em fase avançada na realidade brasileira, havendo uma alta incidência de pacientes com síndrome dolorosa relacionada ao câncer. A etiologia da dor crônica relacionada ao câncer pode ser mais difícil de ser caracterizada, pois muitos pacientes, principalmente aqueles com doença avançada, possuem múltiplas etiologias e várias fontes de dor. As etiologias da dor no câncer são as seguintes: 1.Dor causada pelo tumor (correspondem a 62 a 78% das síndromes dolorosas): 1.1.Infiltração óssea: A infiltração óssea tumoral é a causa mais comum de dor no câncer, podendo manifestar-se localmente ou à distância pelo mecanismo de dor referida. As metástases ósseas mais comuns são as provenientes dos tumores de mama, próstata e pulmão. A dor óssea é comum nos pacientes com mieloma múltiplo. A dor óssea ocorre pela estimulação nociva nos nociceptores do periósteo. A dor óssea se manifesta com sensação de dor constante, profunda, às vezes contínua, e surge com os movimentos (dor incidental). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 3 O crescimento tumoral ou as fraturas secundárias podem ocasionar lesão, compressão, tração ou laceração das estruturas nervosas, ocasionando dor isquêmica, dor neuropática periférica ou dor mielopática. 1.2.Compressão ou infiltração de nervos periféricos: A infiltração ou compressão de troncos, plexos e/ou raízes nervosas, linfonodos e/ou fraturas ósseas metastáticas pode provocar dor aguda de forte intensidade, resultando em plexopatia, radiculopatia ou neuropatia, ou seja, dor na distribuição da estrutura nervosa acometida, com apresentação de dor em queimação, contínua, hiperestesia, disestesia e perda progressiva da sensibilidade. As neoplasias de cabeça e pescoço ou as metástases para os linfonodos cervicais podem comprimir os plexos cervicais, ocasionando dor local lancinante com disestesia, irradiada para a região da nuca ou retroauricular, ombro ou mandíbula. O comprometimento do plexo braquial ocorre em 2,5 a 4,5% dos pacientes com tumores de mama, ápice de pulmão e linfomas (metátases axilares e supraclaviculares), ocasiona dor no ombro e braço no dermátomo das raízes nervosas de C8-T1. O diagnóstico diferencial deve ser feito entre plexopatia induzida pelo tumor ou plexopatia induzida pela radiação. A plexopatia sacrolombar é comum em neoplasias de colo uterino e próstata, sarcoma da pelve e metástases de tumores distantes. Essa plexopatia produz dor caracterizada como sensação de peso, pressão e queimação, inicialmente na região sacral, região posterior da coxa e região perineal (associada ou não a alterações da função esfincteriana anal e vesical) e posteriormente na panturrilha e calcanhar. Nesses casos, estão envolvidos mecanismos de dor nociceptiva, gerado por persistente estímulo nocivo (lesivo) mecânico de alta intensidade pela expansão tumoral e mecanismos de desaferentação pela lesão dos nervos e membranas nervosas. 1.3.Infiltração do neuroeixo (SNC): Pode ocorrer dor por invasão tumoral na medula espinal, no encéfalo e nas meninges. A primeira manifestação do comprometimento raquimedular é a dor mielopática localizada e a dor fantasma. A dor radicular surge por compressão ou infiltração da medula espinal com alteração motora, sensitiva e autonômica distais ao local da lesão. A compressão medular é uma urgência médica, necessitando de tratamento de radioterapia ou descompressão cirúrgica ao menor sinal de compressão da medula (fraqueza de membros inferiores, diminuição do tato e disfunção de esfíncteres); devendo ser diagnosticada por meio da identificação do local da compressão e invasão do canal raquidiano pela TC, RM ou perimielografia. A cefaleia insidiosa e progressiva surge como manifestação das metástases encefálicas. Se ocorrer hemorragia pela lesão causal, a dor instala-se subitamente, agravando-se ao deitar, com a tosse ou com o espirro, piora durante o sono, melhora com a postura ortostática e vem acompanhada de náuseas e vômitos. Com o progredir da lesão encefálica, podem ocorrer sonolência, confusão mental, convulsões e coma. A carcinomatose das meninges manifesta-se em 3 a 8% dos pacientes com neoplasias, especialmente de mama, pulmão e melanomas, sob forma de cefaleia e comprometimento das funções dos nervos cranianos e espinais, em 50 a 75% das vezes. É diagnosticada pelo exame do canal raquidiano e pelo exame do líquor (evidencia hiperproteinorraquia, hipoglicorraquia e/ou hipercitose), pela TC ou RM do encéfalo. Tem prognóstico sombrio pela natureza agressiva do tumor e de suas metástases. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 4 1.4.Infiltração e oclusão de vasos sanguíneos e linfáticos: As células tumorais podem infiltrar e/ou ocluir os vasos sanguíneos e vasos linfáticos, ocasionando vasoespasmo, linfangite e possível irritação nos nervos aferentes perivasculares. O crescimento tumoral próximo aos vasos sanguíneos leva à oclusão desses vasos parcialmente ou totalmente, produzindo: - Estase venosa = Produz edema nas estruturas supridas por esses vasos, determinando distensão dos compartimentos faciais e de outras estruturas nociceptivas; - Isquemia arterial = Produz oclusão arterial que provoca dor e claudicação. A oclusão arterial produz isquemia e hipóxia com destruição celular; - Ambos. 1.5.Infiltração de vísceras ocas ou invasão de sistemas ductais de vísceras sólidas: A oclusão de órgãos dos sistemas digestório, urinário e reprodutivo (estômago, intestinos, vias biliares, ureteres, bexiga e útero) produz obstrução do esvaziamento visceral e determina contratura da musculatura lisa, espasmo muscular e isquemia, produzindo dor visceral difusa (tipo cólica) constante, com sensação de peso ou pouco localizada, referida nas áreas de inervação da víscera comprometida. Órgãos como linfonodos, fígado, pâncreas e suprarrenais (vísceras sólidas) podem apresentar dor devido à isquemia ou distensão. Nos tumores de fígado, baço, rim e ósseos, o edema e a venocongestão ocasionam distensão das estruturas de revestimento e estruturas nociceptivas. Nos tumores de cabeça e pescoço (boca, orofaringe, lábio e face), tumores do trato gastrintestinal e geniturinário, podem ocorrer ulceração das membranas mucosas, infecção e necrose, e ulceração determinando dor intensa. 2.Dor causada pelo tratamento do câncer (correspondem a 19 a 28% das síndromes dolorosas): 2.1.Dor pós-cirúrgica: Determinadas intervenções cirúrgicas têm alta incidência para o desenvolvimento de dor aguda e crônica: - Fase aguda = A dor decorre do processo inflamatório traumático de cirurgias (como toracotomias, esternotomias, amputações e mastectomias); - Fase crônica = A dor ocorre devido ao câncer recidivado localmente. O trauma ocorrido em estruturas nervosas durante o procedimento cirúrgico provoca dor persistente além do normal, chamada neuralgia pós-cirúrgica. Tem origem traumática na sua grande maioria e, em um menor número de casos, decorre de fibrose cicatricial ou compressões. As dores incisionais e cicatriciais são frequentes após toracotomias, laparotomias, e amputações de membros, de reto e de mama. O tratamento intenso da dor aguda pós-operatória, tanto no procedimento anestésico- cirúrgico como no pós-operatório imediato, faz diferença para a dor crônica pós-cirúrgica. A dor-fantasma ocorre geralmente após amputação de um membro ou em outra estrutura somática do corpo, surgindo em menos de 5 % dos casos de amputação. A dor-fantasma pode ocorrer imediatamente ou anos após a amputação. Tem como característica a presença da imagem do órgãoamputado, com dor em queimação e sensação de formigamento e latejamento. Se o paciente vivenciou dor intensa previamente à amputação, ocorre o fenômeno de sensibilização central. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 5 Também existe o fenômeno-fantasma, que é um a sensação da existência da região que foi amputada, sem que o paciente sinta dor. Ocorre em 25 a 98% dos pacientes que sofreram amputação. O tratamento deve ser iniciado precocemente na tentativa de prevenir a dor fantasma. A administração de anestésico local e/ou opioide por via epidural antes da amputação diminui a sua incidência. A terapia para reabilitação precoce com uso de prótese parece ter benefícios. 2.2.Dor pós-radioterapia: A dor pós-radioterapia apresenta-se como exacerbação aguda de dor crônica relacionada ao posicionamento para a terapia, queimaduras cutâneas, neuropatia actínica, mielopatia actínica, sinal de Lhermitté (desmielinização transitória da medula cervical ou torácica), mucosite bucal, esofagite, produção de tumores primários de nervos periféricos secundários à radiação, obstrução intestinal parcial e infarto ou isquemia intestinal. Nos tumores localizados na região pélvica, é comum a neuropatia plexal lombossacral e nos tumores de mama e pulmão, é comum a neuropatia plexular braquial; isso ocorre devido à neuropatia actínica. Após a radioterapia, pode ocorrer fibrose de forma lenta e progressiva, ocasionando lesão nas adjacências dos nervos, com dor em queimação e disfunção do sistema somatossensorial. A mielopatia actínica que acontece de forma temporária ou progressiva e permanente, surge mais na medula cervical e dorsal. 2.3.Dor pós-quimioterapia: A dor pós-quimioterapia pode ocorrer por polineuropatias periféricas, causadas por drogas imunossupressoras (oxaliplatina, paclitaxel, docetaxel, vincristina, carboplatina, cisplatina, doxorrubicina e capecitabina), podendo ser transitória ou definitiva. Pode ocorrer: - Mucosites (oral, faríngea, gastroduodenal e nasal) induzidas por leucopenia ou irradiação junto com a candidíase do sistema digestório e a esofagogastroduodenite; - Espasmos vesicais e a necrose asséptica da cabeça do fêmur, causados por corticoides; - Pseudo-reumatismo esteroidal surge após a retirada dos esteroides, sendo que alguns pacientes apresentem mialgias e artralgias difusas, sem sinais inflamatórios objetivos, que regridem com a reintrodução da terapia esteroide; - Neuralgia herpética (fase aguda) com características da doença inflamatória, pode surgir pela imunossupressão, aumentando sua incidência em função da idade avançada e do sexo. Essa situação tende a tornar-se crônica em 10% dos casos e a converter-se em neuralgia pós-herpética (fase crônica) com dor em queimação, alodínia, disestesia, parestesia, paroxismos de dor tipo choque e perda de sensibilidade na região. 3.Dor não relacionada ao câncer ou ao seu tratamento (correspondem a 3 a 10% das síndromes dolorosas): As síndromes dolorosas que não estão relacionadas nem ao tratamento nem ao tumor podem ser causadas por: osteomielite, cefaleia tensional, osteoartrite, osteoporose, neuropatia diabética, pós- alcoolismo, pós-hanseníase, protrusão discal, hérnia discal, síndrome pós-laminectomia miofascial, entre outras. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 6 • Tipos de dor: As síndromes dolorosas podem ser agudas ou crônicas, nociceptivas, neuropáticas, psicogênicas e/ou mistas. A dor no câncer tem as características da dor crônica ou persistente, sendo decorrente de processo patológico crônico, podendo envolver estruturas somáticas ou viscerais e estruturas nervosas periféricas e/ou centrais, isoladas ou em associações, cursando com dor contínua ou recorrente por meses ou anos. A dor nociceptiva somática é descrita como latejante, pulsátil ou opressiva. A dor visceral é descrita como cãibra ou cólica, aperto ou latejante. A intensidade da dor relaciona-se ao estágio da doença, podendo apresentar períodos de remissão (com a terapêutica neoplásica) e períodos de piora (com recidivas e progressão da doença). Pode cursar com episódios de dor aguda, resultantes de procedimentos diagnósticos, cirurgias paliativas, fraturas, obstruções viscerais ou arteriais e agudizações da doença. A dor pode ser um dos primeiros sinais da doença, não sendo necessário aguardar o diagnóstico definitivo (p. ex., o resultado histopatológico de uma biópsia já realizada para dar início à terapia antálgica). Retardar o tratamento causa mais sofrimento ao paciente. A dor por excesso de nocicepção (nociceptiva) é a mais comum no câncer. É causada por estímulos aferentes de grande intensidade (nocivos ou lesivos), produzidos por processo inflamatório ou infiltração do tumor nos tecidos, atingindo o alto limiar de excitabilidade do nociceptor e gerando a dor. A dor nociceptiva ocorre como resultado da ativação e sensibilização dos nociceptores em tecidos cutâneos e profundos, localizados na pele, músculo, tecido conjuntivo, osso e víscera torácica ou abdominal. A dor é neuropática se a avaliação sugerir que a dor é mantida por processos somatossensoriais anormais no SNP ou SNC. Ela surge quando há disfunção do SNP e/ou do SNC, por invasão tumoral ou pelo tratamento do câncer (cirurgia, radioterapia e/ou quimioterapia). A dor neuropática é uma das 2 principais manifestações dolorosas crônicas, não havendo nenhum dano tecidual (mas há dano neural). O que ocorre é uma disfunção das vias que transmitem dor, levando a uma transmissão crônica dos sinais dolorosos. A injúria neural que produz dor neuropática, pode ser óbvia ou oculta, podendo ocorrer em qualquer nível das vias nociceptivas periféricas ou centrais. A função dos nervos e das unidades centrais precisam ser mantidas íntegras, para que o processamento central da informação nociceptiva ocorra de modo adequado. Havendo qualquer modificação na função das terminações nervosas periféricas e nas vias centrais de processamento da informação nociceptiva (estimulação aferente), é comum que a dor espontânea ou por estímulos não-nocivos venha a se manifestar. Como a dor por desaferentação não aparece em todos os pacientes com lesões similares, admite-se que haja fatores genéticos envolvidos em sua ocorrência. Um exemplo disso é a dor do membro-fantasma, que pode ocorrer após uma amputação. O diagnóstico da dor neuropática é baseado na descrição verbal de dor do paciente, no exame físico e na suspeita de lesão nervosa. A dor é descrita pelos pacientes como ardor, formigamento ou choque elétrico. A dor pode ser definida como dor psicogênica se houver evidência positiva de que os fatores psicológicos predominam na manutenção da dor sem nenhuma evidência de causa orgânica. O evento conhecido como dor incidental ou breakthrough pain ocorre quando o controle da dor basal é alcançado, e, ainda assim, o paciente apresenta episódios de dor em picos, de início súbito e agudo. Pode ocorrer espontaneamente, pode estar relacionado aos movimentos (pacientes com infiltração óssea) e pode ocorrer por prescrição analgésica com doses e intervalos inadequados. Essa condição leva o paciente à apreensão e à descrença no tratamento. O tratamento consiste na administração de doses de analgésicos de ação rápida, reavaliação do esquema regular, fornecimento de opioide de ação curta antes FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 7 de atividades dolorosas, evitando falha da última dose. E necessário encontrar um equilíbrio entre a melhor dose analgésica e a presença de efeitos colaterais suportáveis. • Vias de administração de medicamentos: No tratamento da dor no câncer, podem ser utilizadas as mais diversas vias de administração: intravenosa(infusão contínua, utilização de bombas de infusão ou uso de sistema PCA [pacient control analgesia]), intramuscular, oral, subcutânea, transdérmica (através da utilização de patchs), retal ou peridural. A via de administração é escolhida levando-se em conta as condições clínicas e/ou características do tumor, as condições socioeconômicas do paciente, as condições do serviço onde ele é atendido e se esse atendimento é hospitalar, ambulatorial ou domiciliar. A via de administração de escolha para o tratamento da dor oncológica sempre que possível deve ser a oral por ser mais segura, menos invasiva, apresentar boa tolerabilidade, promover analgesia satisfatória e ter baixo custo. Opioides parenterais podem ser administrados por: - Via intravenosa (IV); - Subcutânea (SC) = Se a via IV não estiver disponível, a via SC é satisfatória, apesar de os níveis séricos não serem estáveis e de depender da absorção e perfusão local. A via SC estabelece o limite do volume da medicação que deve ser administrada, desse modo, volumes ˃ 10 mL/h podem causar irritação local e má absorção. Existem alguns cuidados na utilização da via SC, como observar diariamente sinais de inflamação, hematoma ou suspeita de infecção local. O tempo médio de um mesmo sítio é de 2 a 3 dias, mesmo sem sinais de alterações. Contudo, a infusão exclusiva de morfina permite a manutenção no mesmo local de punção por até 2 semanas. Os principais sítios de punção estão situados na região peitoral, deltoide, mesogástrica e coxofemoral; - Intramuscular (IM) = Deveria ser proscrita (não utilizada) por ser irritante, dolorosa, poder causar necrose tecidual, sendo desaconselhável a sua utilização. • Tratamento: O tratamento da dor do câncer consiste inicialmente no tratamento primário do câncer nas suas diversas modalidades; como cirurgia, radioterapia, quimioterapia e/ou hormonoterapia isoladas ou combinadas (na maioria das vezes). O tratamento com analgésicos é baseado na utilização da escada analgésica da OMS, com a utilização de analgésicos AINHs, opioides fracos e fortes (associados ou não a drogas coadjuvantes). Também são utilizados métodos não-farmacológicos (ver adiante). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 8 1.AINHs: Os AINHs são utilizados em todos os degraus da escada analgésica da dor. O mecanismo de ação é baseado na inibição reversível ou irreversível da cicloxigenase (COX), existindo atualmente grande interesse na utilização de fármacos mais específicos para a inflamação e a dor. Como visto anteriormente, essas drogas podem ser utilizadas isoladas ou associadas a outras drogas adjuvantes, opioides fracos e fortes, nas várias fases da dor. A associação de AINHs + opioides é bastante benéfica, tornando possível a redução da dose do opioide, a melhora da dor e a redução dos efeitos colaterais. Na dor oncológica, os AINHs são benéficos no tratamento de: - Dor somática (principalmente a de caráter inflamatório) como nas metástases ósseas; - Pode aliviar a dor-fantasma; - Dor pós-operatória; - Cefaleias; - Mialgias; - Dor incidental. A maioria dos AINHs apresenta efeitos colaterais relacionados ao trato gastrintestinal (TGI), ao sistema renal, cardiovascular e hematológico. São divididas em: - Drogas que inibem reversível ou irreversivelmente a COX (como a aspirina); - Drogas seletivas da COX-1, COX-2 ou COX-3. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 9 Os AINHs menos seletivos têm maior índice de complicações como sangramentos, úlceras gástricas, hipertensão arterial, disfunção renal, mas apresentam grande eficácia terapêutica. São exemplos: cetorolaco, diclofenaco, nimesulida, aspirina, ibuprofeno, cetoprofeno, tenoxican, piroxican, meloxican (mais seletivo da COX-2). Os AINHs seletivos da COX-2 têm menor incidência de úlceras e sangramentos, mas continuam os efeitos adversos renais e uma incidência aumentada de infartos no seu uso crônico. São exemplos: parecoxibe, o celecoxibe e o eritocoxibe. Os AINHS seletivos da COX-3 possuem efeitos colaterais diminuídos e são excelentes analgésicos de nível central: - Paracetamol = É bastante utilizado associado a opioides fracos (como o tramadol e a codeína), tornando-se hepatotóxico quando utilizado acima de 6g por dia; - Dipirona = É capaz de diminuir a dose de morfina quando utilizada na dose de 4 a 6g por dia; a probabilidade de agranulocitose (redução dos leucócitos granulócitos) é muita baixa e menor que nos outros AINHs. 2.Opioides: O tratamento analgésico com opioides constitui o sustentáculo da terapia da dor no câncer. Devido à sua eficácia, disponibilidade em todo o mundo e baixo custo, a OMS considera a morfina com o droga- padrão para o tratamento da dor no câncer. Os opioides são classificados quanto à sua: - Origem: * Naturais (morfina, papaverina, codeína e tebaína). * Semi-sintéticos (heroína, hidromorfona, hidrocodona, buprenorfina e oxicodona). * Sintéticos (levorvanol, butorfanol, metadona, pentazocina, meperidina, fentanil, sufentanil e alfentanil). - Potência: * Fracos (codeína, tramadol). * Fortes (morfina, metadona, oxicodona, buprenorfina, fentanil). 2.1.Codeína: - Opioide fraco, com analgesia leve a moderada; - Derivado natural do ópio com fórmula semelhante à da morfina; - Tem baixa biodisponibilidade oral (40%); - Meia-vida plasmática de apenas 3 horas, necessitando de intervalos de até 4 em 4 horas; - Efeitos adversos incluem constipação e náuseas; - Seu efeito teto é de 360 mg/dia e tem apenas 1/10 da potência da morfina; - Melhora sintomas de dispneia, assim como outros opioides (morfina, oxicodona e fentanil); - É encontrada na forma de comprimidos de 30 e 60 mg e solução oral de 3 mg/mL, como também associada ao paracetamol e ao diclofenaco, promovendo analgesia multimodal. 2.2.Tramadol: - Opioide fraco; - Opioide sintético de ação central atípico; - Possui capacidade de ligação aos receptores alfa2-adrenérgicos; FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 10 - Produz analgesia por meio de mecanismos opioides e não-opioides; - Cerca de 70% da droga está disponível após administração oral pela taxa de absorção e primeira passagem hepática; - Seu início de ação é de 30 minutos e sua meia-vida plasmática é de 5 horas; - Seu efeito teto é de 400 mg/ dia, preferencialmente administrada a cada 6 horas; - Tem metabolismo hepático e excreção renal. No caso de alterações nesses órgãos é necessário reduzir a dose; - 100 mg de tramadol corresponde a 10 mg de morfina oral; - Produz pouca constipação e elevada incidência de êmese (vômito); - A ocorrência de depressão respiratória, sedação excessiva, tolerância e dependência é pouco frequentes. 2.3.Morfina: - Opioide ideal para dor moderada a forte, sendo a droga de escolha na maioria dos serviços; - Opioide hidrofílico, uma exceção entre os opioides, que apresentam alta lipossolubilidade; - Apresenta baixa biodisponibilidade por via oral. Após administração oral, apenas 30% da dose é encontrada no plasma; - Tem limitado volume de distribuição; - Baixa ligação plasmática, especialmente à albumina; - Dificuldade na passagem através da barreira hematoencefálica, porém é rápida a absorção após injeção IM ou SC; - No metabolismo hepático são formados 2 metabólitos importantes: * Morfina-3-glicuronídeo (M-3-G) = Responsável por vários efeitos colaterais da morfina (ansiedade, hiperalgesia, constipação e possivelmente no fenômeno de tolerância) e não tem efeitos analgésicos. * Morfina-6-glicuronídeo (M-6-G) = Possui ação analgésica significante, porém meia-vida maior que a própria morfina. - Bem tolerada nos pacientes hepatopatas; - A ação da morfina dura de4 a 5 horas em pacientes hígidos; - A excreção é feita principalmente por via renal. Nos pacientes com função renal comprometida, a morfina possui efeito mais intenso e duração prolongada devido ao acúmulo de metabólitos ativos (M-6-G); - Não tem efeito teto, e sua dose máxima depende da relação entre o nível analgésico ótimo e o aparecimento de efeitos colaterais intoleráveis. A dose inicial deve ser calculada com o intuito de promover alívio superior aos analgésicos que estavam sendo utilizados. Pequenas doses com reajustes frequentes sempre que houver necessidade, pois haverá menor incidência de efeitos colaterais; - A dose habitual de morfina por via oral é de 10 a 60 mg/4-6 h, sendo 0,3 m g/kg para crianças; - A morfina de liberação controlada (30 e 60 mg) só deve ser iniciada após controle da dor de 12/12 h; - A morfina é encontrada em solução oral, comprimidos de liberação imediata e lenta, além de formulação injetável (ampolas de 2 mg/2 mL e 10 mg/mL). 2.4.Metadona: - Opioide sintético; FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 11 - Ação de bloqueio em receptores NMDA e alguma ação em receptores 5-HT (bloqueando a recaptação da serotonina). Por atuar em receptores opioide e NMDA, tem indicação na dor somática e na dor neuropática; - Altamente lipossolúvel, com grande volume de distribuição e depósito em gorduras; - Tem boa disponibilidade oral, cerca de 90% da dose oral é repassada ao plasma; - Sua meia-vida plasmática varia de 8 a 80 horas, com grande variação entre os pacientes, necessitando de monitoração frequente e acréscimo vagaroso de dose, permitindo intervalo entre doses de 12 a 24 horas, com níveis plasmáticos estabilizados após 7 a 14 dias de uso; - Possui excreção renal (60%) e hepática (40%). Em casos de disfunção renal, a eliminação poderá ser com pensada pelo fígado, e vice-versa; - Deve ser utilizada com cuidado nos pacientes idosos e debilitados por apresentar riscos de acumulação; - Alguns serviços de dor têm a metadona como droga de primeira escolha; - Está disponível em comprimidos de 5 e 10 mg e ampolas de 10 mg/mL para uso injetável. 2.5.Oxicodona: - Opioide forte e sintético, derivado da tebaína; - Como a morfina, tem rápido início de ação por via oral (10 a 15 min.); - Duração entre 3 e 6 horas; - Diferentemente da morfina, mostra menos efeitos colaterais; - 50 a 75% mais forte que a morfina, a depender das doses equipotentes; - Em paciente com insuficiência renal, pode haver acúmulo, necessitando um cuidado maior; - Em alguns serviços, essa droga é utilizada no 2º degrau da escada analgésica apesar de ser um opioide forte; - Parece ter menor incidência de tolerância e efeitos adversos; - No Brasil, a oxicodona é comercializada em comprimidos especiais, que liberam a primeira carga da substância no meio ácido gástrico e no tubo digestivo ela é liberada aos poucos. Estes comprimidos não podem ser mastigados ou triturados; - Pode ser utilizada no tratamento das dores crônicas benignas; - São encontrados comprimidos de 10, 20 e 40 mg, administrados de 12 em 12 horas; - O consumidor necessita de receita em 2 vias, diferente dos outros opioides fortes; - Não está disponível em comprimidos de liberação rápida ou formulação injetável; assim, é necessário utilizar morfina de liberação rápida para as doses de resgate. 2.6.Fentanil: - Opioide 75 a 125 vezes mais potente que a morfina; - Apresenta rápido início de ação e duração de efeito curto; - Empregado para analgesia prolongada em regime ambulatorial ou hospitalar, via bombas de infusão, cateteres peridurais, ou como adesivos por via transdérmica; - O fentanil transdérmico patch tornou-se popular no tratamento da dor oncológica. A droga encontra-se disponível em adesivos de 25, 50, 75 e 100 mcg/h; - Apesar de alguns estudos utilizarem a droga no tratamento da dor aguda, seu uso é mais recomendado para o tratamento da dor crônica; FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 12 - O fentanil transdérmico promove analgesia de até 72 horas e, após instalar o patch, seu início de ação é lento (8 a 10 horas) e, após retirado, seu efeito ainda persiste por 8 a 12 horas; - Recomenda-se iniciar a utilização de fentanil transdérmico após controle da dor com opioides de curta duração, por via oral ou parenteral, com a finalidade de verificar a eficácia e a tolerância aos opioides; - Na prática, recomenda-se a utilização da via transdérmica principalmente para os pacientes com tumores de cabeça e pescoço, tumores da região abdominal superior, doença metastática óssea, pacientes impossibilitados da ingestão de analgésicos por via oral e pacientes com oclusão ou suboclusão intestinal. Crianças e pacientes com efeitos adversos à morfina também se beneficiam com a analgesia transdérmica. 2.7.Efeitos colaterais dos opioides e sua abordagem terapêutica: Quando se fala da terapia com opioides, é impossível não mencionar os seus efeitos adversos. Esses efeitos estão relacionados à ligação dos opioides nos diversos tipos de receptores, à formação de metabólitos tóxicos, à sobredosagem, além do fenômeno de tolerância. O efeito mais comum dos opioides é a constipação (que não melhora com o tempo) devido à diminuição da motilidade do trato gastrintestinal e hipertonia dos esfíncteres. Assim que é instituído o tratamento opioide (principalmente morfina), é necessário prevenir a constipação. Dessa maneira, dá-se preferência aos formadores de bolo fecal (alimentos ricos em fibras, substâncias não-absorvíveis) e aos emolientes fecais (óleo mineral, lactulona, glicerina). As náuseas e os vômitos podem ser contornados pela troca da via de administração do opioide com auxílio dos analgésicos adjuvantes ou pela administração de antieméticos (antidopa, neurolépticos, corticoides, anti-5-HT3). Também pode ocorrer queixas centrais como hipertermia, hiperidrose (transpiração excessiva), alterações comportamentais e convulsões. A tolerância é a necessidade de doses maiores de opioides para manter a analgesia inicial. A sedação excessiva e a depressão respiratória são os efeitos colaterais mais temidos. A sedação excessiva é um sinal de aviso que antecede a depressão respiratória. Nos casos de urgência, é necessário proteger as vias aéreas, administrar oxigênio e ventilação e reverter a depressão com o antagonista opioide (a naloxona). 3.Tratamento não farmacológico: No tratamento não-farmacológico da dor oncológica, destacam-se a atuação de vários profissionais para melhora da dor e da qualidade de vida dos pacientes. A abordagem multiprofissional tenta lidar com o paciente como um todo: O psicólogo da dor pode atuar auxiliando o paciente no melhor entendimento do processo de sua doença, enfocando no discernimento dos fatores biológicos (sensoriais), psicológicos (afetivos, cognitivos), comportamentais, sociais e culturais. Os pacientes com dor oncológica possuem elevada incidência de transtornos depressivos, ansiosos e somatoformes. Várias intervenções psicoterápicas podem ser instituídas: - Modelo biopsicossocial para compreensão do processo de cronicidade da dor; - Biofeedback; - Treinamento de relaxamento; - Dessensibilização. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 13 O fisioterapeuta atua na dor, por meio da medicina física e da reabilitação. Existem os meios físicos para atuar na dor, como: - Termoterapia (forno de Bier, parafina, laser, infravermelho, tanques, crioterapia, banho de contraste, ultrassom); - Correntes analgésicas; - Cinesioterapia (contrações musculares, exercícios, alongamento muscular); - Implantação de órteses e próteses de membros, protegendo o corpo de fraturas patológicas e disfunção corporal;- Acupuntura também é útil na dor do câncer, pois ela pode atuar na dor somática e neuropática e na melhora dos sintomas do câncer e sua terapia. Outros profissionais têm importância no tratamento: enfermeiro, assistente social, odontólogo, terapeuta ocupacional e nutrólogo. Existem vários procedimentos que podem ser utilizados nos pacientes com dor oncológica. Ultimamente, esses procedimentos têm sido considerados como o 4º degrau da escada analgésica. Por serem procedimentos invasivos, devem ser bem avaliados quanto aos benefícios e efeitos adversos: - Bloqueios nervosos temporários e os definitivos = A maioria desses bloqueios é apenas um paliativo, pois existe falha do procedimento (taxa de sucesso de 70 a 80%) que é o reagrupamento neural. No geral, pode-se reduzir em 30% a dose dos analgésicos com melhora no quadro doloroso do paciente. Pode ser feito bloqueio hipogástrico superior, bloqueio do gânglio estrelado, e bloqueio do gânglio de Gasser. Dos procedimentos neurocirúrgicos, existe a neurectomia a céu aberto (nervos periféricos), a rizotomia a céu aberto ou percutânea (uso de radiofrequência), a ganglionectomia (gânglios dorsais das de raízes espinais), a cordotomia (trato espinotalâmico), a ablação intracraniana, a neuroestimulação (nervos periféricos e centrais) e os sistemas implantáveis de infusão de fármacos (cisternal, intratecal e epidural); - Administração de radiofármacos = Estão indicados na diminuição da progressão de metástases, principalmente as ósseas e de tumores com grande número de mitoses e crescimento rápido (como câncer de mama, próstata, pulmão, suprarrenal e tireóide). São tumores que estão relacionados com dor óssea e por meio da terapia com radiofármacos, cerca de 80% dos pacientes obtém analgesia parcial a significativa. A terapia consiste em administração de substância radiativa (emissão de raios beta de curta penetração tecidual) com instalação próxima ao tumor ou metástases, promovendo ação analgésica por 3 meses. Samário-153 e Estrôncio-89 combatem a dor das metástases ósseas e o Iodo-131 age nos tumores de tireoide e das células de cromafins. A excreção desses fármacos é renal, têm meia-vida de 48 horas e há riscos de hiperalgesia (20% dos pacientes por 1 a 2 dias), anemia, plaquetopenia e aplasia medular; - Bloqueio neural simpático; - Radioterapia paliativa. 4.Drogas adjuvantes: São considerados analgésicos adjuvantes drogas que não têm a dor como indicação primária, embora sejam analgésicas em algumas situações dolorosas. São bastante diferentes dos analgésicos tradicionais como os AINHs e os opioides, compondo um grupo diversificado de drogas. São eles: - Analgésicos polivalentes: * Antidepressivos (para dor neuropática). FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 14 * Agonistas alfa-2 (para dor neuropática e nociceptiva). * Neurolépticos. * Anestésicos locais. - Analgésicos para síndromes dolorosas neuropáticas: * Antidepressivos. * Anticonvulsivantes. * Agonistas GABA. * Bloqueadores NMDA. - Analgésicos para dor óssea: * Corticoides (anti-inflamatórios potentes). * Bisfosfonatos. * Calcitonina. Objetivo 4: ➢ Acompanhamento do paciente terminal: Segundo a definição da OMS, “Cuidado Paliativo é uma abordagem que promove a qualidade de vida de pacientes e seus familiares, que enfrentam doenças que ameacem a continuidade da vida, através da prevenção e alívio do sofrimento. Requer a identificação precoce, avaliação e tratamento da dor e outros problemas de natureza física, psicossocial e espiritual”. • Prevalência da dor e de outros sintomas: Segundo a OMS, o doente com câncer apresenta uma média de 10 sintomas ao mesmo tempo. A dor é o que mais afeta a qualidade de vida e é um grande fator de sofrimento. • Princípios dos cuidados paliativos: 1- Promover o alívio da dor e outros sintomas desagradáveis; 2- Afirmar a vida e considerar a morte como um processo normal da vida. O Cuidado Paliativo resgata a possibilidade da morte como um evento natural e esperado na presença de doença ameaçadora da vida, colocando ênfase na vida que ainda pode ser vivida; 3- Não acelerar nem adiar a morte; 4- Integrar os aspectos psicológicos e espirituais no cuidado ao paciente. A doença, principalmente aquela que ameaça a continuidade da vida, costuma trazer uma série de perdas, com as quais o paciente e família são obrigados a conviver, quase sempre sem estarem preparados para isto. As perdas da autonomia, da autoimagem, da segurança, da capacidade física, do respeito, sem falar das perdas materiais (emprego, poder aquisitivo e status social), podem trazer angústia, depressão e desesperança, interferindo na evolução da doença, na intensidade e frequência dos sintomas que podem apresentar maior dificuldade de controle; 5- Oferecer um sistema de suporte que possibilite o paciente viver tão ativamente quanto possível, até o momento da sua morte; 6- Oferecer sistema de suporte para auxiliar os familiares durante a doença do paciente e a enfrentar o luto; FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 15 7- Abordagem multiprofissional para focar as necessidades dos pacientes e seus familiares, incluindo acompanhamento no luto; 8- Melhorar a qualidade de vida e influenciar positivamente o curso da doença; 9- Deve ser iniciado o mais precocemente possível, juntamente com outras medidas de prolongamento da vida, como a quimioterapia e a radioterapia e incluir todas as investigações necessárias para melhor compreender e controlar situações clínicas estressantes. • Estratégias para o manejo da dor: 1.Manejo terapêutico: O manejo terapêutico implica a consideração de 3 aspectos: - Tratamento da causa da dor quando possível; - Adoção de medidas não-farmacológicas (físicas e comportamentais); - Analgesia de amplo espectro. 2.Monitoração: Ficar esperto para aparecimento de novos focos de dor, revisar as respostas aos fármacos, ajustar sua posologia, agregar fármacos adjuvantes, adaptar a via de administração. 3.Princípios gerais do uso de analgésicos: - Selecionar e titular individualmente as doses de opioides. Terapia crônica com opioides é feita nos casos de dor modera a intensa no câncer. Etapas para rodízio de opioides: * Calcular a dose diária total do opioide nas 24 horas incluindo a dose de manutenção e a de resgate. * Utilizar as tabelas de doses de equivalência analgésica para calcular a dose do novo opioide. * Estabelecer a dose de manutenção. * Prescrição de doses resgate (10% da dose diária total). * Avaliar regularmente. - Uso preferencial da via oral, sem esquecer as outras. A outra via alternativa mais utilizada é a via subcutânea, por sua efetividade e facilidade de uso; - Doses sistemáticas; - Usar drogas adjuvantes; - Os medicamentos adjuvantes são usados com o objetivo de aumentar a eficácia analgésica dos opioides, previnem e tratam sintomas concomitantes que exacerbam a dor e melhoram a dor neuropática. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 16 Objetivo 5: ➢ Eutanásia, Distanásia e Ortotanásia: - Eutanásia = Entendida como uma prática para abreviar a vida, a fim de aliviar ou evitar sofrimento para os pacientes. A prática é ilegal no Brasil, porém é aceito em alguns países, como a Holanda e a Bélgica; - Distanásia = Entendida como uma morte difícil ou penosa, usada para indicar o prolongamento do processo da morte, por meio de tratamento que apenas prolonga a vida biológica do paciente, sem qualidade de vida e sem dignidade. Também pode ser chamada de obstinação terapêutica; - Ortotanásia = Entendida como uma boa morte ou morte digna. Traduz a morte desejável, na qual não ocorre o prolongamentoda vida artificialmente, o que altera o processo natural do morrer. • Referências: - Dor Princípios e Prática – Onofre; - Eutanásia, distanásia e ortotanásia: Revisão integrativa da literatura – Zirleide Carlos Felix – Revista Ciência e Saúde Coletiva – 2013. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 1 Problema 7 “Dor nas cadeiras” # Objetivos # 1-Descrever a anatomia da medula espinal e raízes nervosas. 2-Discorrer sobre fisiopatologia da dor por compressão radicular. 3-Caracterizar a dor por compressão radicular. 4-Discorrer a semiologia da dor por compressão radicular. 5-Descrever a conduta na dor por compressão radicular. Objetivo 1: ➢ Anatomia da medula espinal e raízes nervosas: Medula significa miolo e indica o que está dentro. Assim temos a medula espinhal dentro do canal vertebral. A medula espinhal é uma massa cilindroide de tecido nervoso situada dentro do canal vertebral sem ocupá-lo completamente. No homem adulto ela mede cerca de 45 cm sendo um pouco menor na mulher. Cranialmente a medula limita-se com o bulbo (próximo ao nível do forame magno do osso occipital). O limite caudal da medula tem importância clínica e no adulto situa-se geralmente em L2. A medula termina afinando-se para formar o cone medular que continua com um delgado filamento meníngeo, o filamento terminal. • Forma e estrutura da medula: A medula é achatada no sentido ântero-posterior. Seu calibre não é uniforme, pois ela apresenta 2 dilatações denominadas de intumescência cervical e intumescência lombar. Estas intumescências medulares correspondem às áreas em que fazem conexão com as grossas raízes nervosas que formam o plexo braquial e lombossacral, destinados à inervação dos membros superiores e inferiores respectivamente. A formação destas intumescências se deve pela maior quantidade de fibras nervosas que entram ou saem da medula: - Intumescência cervical = Estende-se dos segmentos C4 até T1 da medula espinhal; - Intumescência lombar (lombossacral) = Estende-se dos segmentos de T11 até L1 da medula espinhal. A superfície da medula apresenta sulcos longitudinais, que percorrem em toda a sua extensão: - Sulco mediano posterior (ou dorsal); - Fissura mediana anterior (ou ventral); - Sulco lateral anterior (faz conexão com as raízes ventrais dos nervos espinais); - Sulco lateral posterior (faz conexão com as raízes dorsais dos nervos espinais); FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 2 - Na medula cervical existe ainda o sulco intermédio posterior que se situa entre o sulco mediano posterior e o sulco lateral posterior e que se continua em um septo intermédio posterior no interior do funículo posterior. Na medula, a substância cinzenta localiza-se por dentro da branca e apresenta a forma de uma borboleta ou de um “H”. No centro da substância cinzenta localiza-se o canal central da medula. Na substância cinzenta distinguimos de cada lado, 3 colunas: - Coluna anterior; - Coluna posterior; - Coluna lateral (só aparece na medula torácica e parte da medula lombar). A substância branca é formada por fibras, a maioria delas mielínicas, que sobem e descem na medula e que podem ser agrupadas de cada lado em 3 funículos ou cordões: - Funículo Anterior = Situado entre a fissura mediana anterior e o sulco lateral anterior; - Funículo Lateral = Situado entre os sulcos lateral anterior e o lateral posterior; - Funículo Posterior = Situado entre o sulco lateral posterior e o sulco mediano posterior, este último ligado a substancia cinzenta pelo septo mediano posterior. Na parte cervical da medula o funículo posterior é dividido pelo sulco intermédio posterior em fascículo grácil e fascículo cuneiforme; - Conexões com os Nervos Espinhais = Nos sulcos lateral anterior e lateral posterior fazem conexão com pequenos filamentos nervosos denominados de filamentos radiculares, que se unem para formar as raízes ventrais (sulco lateral anterior) e dorsais (sulco lateral posterior) dos nervos espinhais. As duas raízes se unem para formação dos nervos espinhais, ocorrendo à união em um ponto situado distalmente ao gânglio espinhal que existe na raiz dorsal. Existem 31 pares de nervos espinhais aos quais correspondem 31 segmentos medulares assim distribuídos: - 8 cervicais (encontramos 8 pares de nervos cervicais e apenas 7 vértebras cervicais porque o primeiro par de nervos espinhais sai entre o occipital e C1); - 12 torácicos; FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 3 - 5 lombares; - 5 sacrais; - 1 coccígeo. • Topografia da medula: A um nível abaixo de L2 encontramos apenas as meninges e as raízes nervosas dos últimos nervos espinhais que estão dispostas em torno do cone medular e filamento terminal, formando a cauda equina. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 4 Como as raízes nervosas mantém suas relações com os respectivos forames intervertebrais, há um alongamento das raízes e uma diminuição do ângulo que elas fazem com a medula. Estes fenômenos são mais pronunciados na parte caudal da medula, levando a formação da cauda equina. Ainda como consequência da diferença de ritmos de crescimento entre a coluna e a medula, temos o afastamento dos segmentos medulares das vértebras correspondentes. Assim, no adulto, as vértebras T11 e T12 correspondem aos segmentos lombares. Para sabermos qual o nível da medula cada vértebra corresponde, temos a seguinte regra: entre os níveis C2 e T10, adicionamos o número 2 ao processo espinhoso da vértebra e se tem o segmento medular subjacente. Aos processos espinhosos de T11 e T12 correspondem os 5 segmentos lombares, enquanto ao processo espinhoso de L1 corresponde aos 5 segmentos sacrais. • Envoltório da medula: A medula é envolvida por membranas fibrosas denominadas meninges que são: - Dura-máter = É a mais espessa e envolve toda a medula, como se fosse uma luva, o saco dural. Cranialmente ela se continua na dura-máter craniana e caudalmente ela termina em um fundo-de-saco ao nível da vértebra S2. Prolongamentos laterais da dura-máter embainham as raízes dos nervos espinhais, constituído um tecido conjuntivo (epineuro), que envolve os nervos; - Aracnoide = Dispõem-se entre a dura-máter e a pia-máter. Compreende um folheto justaposto à dura- máter e um emaranhado de trabéculas aracnoideas, que unem este folheto à pia-máter; - Pia-máter = É a membrana mais delicada e mais interna. Ela adere intimamente o tecido superficial da medula e penetra na fissura mediana anterior. Quando a medula termina no cone medular, a pia-máter continua caudalmente, formando um filamento esbranquiçado denominado filamento terminal. Este filamento perfura o fundo-do-saco dural e continua até o hiato sacral. Ao atravessar o saco dural, o filamento terminal recebe vários prolongamentos da dura-máter e o conjunto passa a ser chamado de filamento da dura-máter. Este, ao se inserir no periósteo da superfície dorsal do cóccix, constitui o ligamento coccígeo. A pia-máter forma, de cada lado da medula, uma prega longitudinal denominada ligamento denticulado, que se dispõem em um plano frontal ao longo de toda a extensão da medula. Os dois ligamentos denticulados são elementos de fixação da medula e importantes pontos de referencia em cirurgias deste órgão. Entre as meninges existem espaços que são importantes para a parte clínica médica devido às patologias que podem estar envolvidas com essas estruturas (hematoma extradural, meningites etc.): - Espaço epidural (extradural) = Situado entre a dura-máter e o periósteo do canal vertebral; - Espaço subdural = Situado entre a dura-máter ea aracnoide, é uma fenda estreita contendo uma pequena quantidade de líquido; - Espaço subaracnoideo = Situado entre a aracnoide e a pia-máter e contém uma quantidade razoavelmente grande de líquor. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 5 Objetivos 2, 3, 4 e 5: ➢ Lombalgia: - Radicular = Relativo a raiz nervosa ESPINHAL; - Radiculopatia = Doença da raiz de um nervo; - Raquialgia = Acometimento de toda a coluna vertebral; - Algias da coluna vertebral = Presença de dor em qualquer segmento da coluna vertebral: * Cervical (cervicalgia, braquialgia e cervicobraquialgia). * Dorsal (dorsalgia). * Lombar (lombalgia, ciatalgia e lombociatalgia). * Região sacra (sacralgia e sacroileite). * Região coccígea (coccigodínea e cisto pilonidal). - Irradiação da dor e eventual parestesias na lombociatalgia: * L4-L5 = Dor irradiada pela região ântero-lateral da coxa e perna atingindo o hálux. * L5-S1 = Dor irradiada pela região póstero-lateral de coxa e perna, atingindo 4º e 5º dedo do pé. A lombalgia aguda é uma condição autolimitada, e 90% dos pacientes recuperam-se espontaneamente no período de 4 a 7 semanas. Apesar da recuperação relativamente rápida, há tendência de recorrência dos sintomas dolorosos: - Mais de 50% dos pacientes com episódio agudo de lombalgia apresentarão um novo episódio em 1 ano; - Cerca de 40 a 44% dos pacientes apresentam-se na fase crônica; FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 6 - Entre 1 a 3% requerem tratamento operatório; - Cerca de 50% dos indivíduos com ciática (ciatalgia) por hérnia de disco apresentará recuperação espontânea em 4 a 6 semanas; A história natural da hérnia discal é a resolução espontânea. A regressão do material discal já pode até ser visualizada no primeiro mês. Contudo, a persistência da dor lombar pode ser decorrente de fatores psicossociais, de distúrbios vasculares e da neuromodulação central da dor. A lesão tecidual ou a inflamação podem causar estímulos nociceptivos contínuos que se dirigem à medula espinal. Isso determina o aumento da atividade no corno posterior da medula espinal, com períodos prolongados de descarga de longa duração que persistem mesmo após a cessação dos estímulos nociceptivos. A repercussão clínica desse fenômeno é que os pacientes podem continuar a sentir dor por tempo prolongado, mesmo após a resolução da causa primária da dor. A sensibilização de neurônios no corno posterior da medula espinal (sensibilização central), caracteriza-se pela redução do seu limiar de disparo, provocando alodínia, aumento das descargas espontâneas e aumento da resposta aos impulsos aferentes, determinando a hiperalgesia, o aumento da resposta a estímulos repetidos e a expansão dos seus campos receptivos. Os pacientes podem, então, apresentar uma experiência dolorosa desproporcional à causada pela lesão tecidual, caracterizada pelos fenômenos de hiperalgesia, hiperpatia e até mesmo alodínia. • Fatores de risco: Fatores de risco que influenciam na ocorrência das lombalgias: - Fatores ocupacionais: * Levantar pesos. * Empurrar objetos pesados. * Permanecer na posição sentada por tempo prolongado. * Realizar tarefas monótonas ou que exijam a flexão e a rotação do tronco. * Expor-se a estímulos vibratórios por períodos longos. * Estar descontente com sua atividade ocupacional. - Fatores constitucionais (individuais): * Ganho de peso. * Obesidade. * Altura. * Má postura. * Fraqueza dos músculos abdominais e espinais. * Falta de condicionamento físico. - Fatores psicossociais: * Depressão. * Hipocondríase. * Histeria. * Alcoolismo. * Fumo. * Divórcio. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 7 A história prévia de lombalgia representa um forte indicador de riscos futuros, especialmente se os episódios anteriores foram graves e frequentes e houve necessidade de tratamento operatório. Os principais fatores de risco envolvidos na cronicidade da dor lombar são classificados em: - Fatores ocupacionais: * Insatisfação com o trabalho. * Levantamento de peso durante ¾ da jornada de trabalho. * Retorno não gradual ao trabalho. - Fatores constitucionais (individuais): * Obesidade. * Baixo nível educacional. * Elevados níveis de dor e de incapacidade. - Fatores psicoafetivos: * Depressão. * Somatização. * Ansiedade. • Anatomia funcional: Funcionalmente, a coluna lombar pode ser dividida em compartimentos anterior, médio e posterior. Cada compartimento constitui uma unidade mecânica funcional: - Compartimento anterior = É constituído dos corpos vertebrais e do disco intervertebral. Está adaptado à absorção de choques e à sustentação de peso; - Compartimento médio = É formado pelo canal medular e pelos pedículos; - Compartimento posterior = Protege os elementos neurais e é o responsável pelo direcionamento das unidades funcionais nos movimentos de flexão anterior e extensão, flexão lateral e rotação. A quantidade de força aplicada ao segmento lombar depende do tipo de atividade e da postura do indivíduo. O disco intervertebral sofre maior pressão na posição sentada com flexão do tronco. O suporte dinâmico da coluna lombar é realizado por 4 grupos musculares: os extensores, os flexores anteriores, os flexores laterais e os rotadores. Em condições normais, os músculos extensores e os rotadores são os principais responsáveis pelo suporte da coluna vertebral. Os músculos eretores da espinha, os semiespinais e os interespinais resistem à ação da gravidade na posição ereta. No movimento de flexão anterior, produz-se uma compressão da parte anterior do disco e uma expansão da parte posterior do disco, e, ao mesmo tempo, separam-se as facetas articulares das articulações posteriores. No movimento de extensão, as modificações são inversas. O movimento de flexoextensão se realiza em sua quase totalidade a expensas da coluna lombar e cervical. As flexões laterais determinam uma separação da metade lateral do disco e das facetas das articulações posteriores do lado da convexidade e uma aproximação do lado da concavidade. Esse movimento está limitado pelos ligamentos intertransversos e pelas costelas. As rotações são possíveis graças à disposição das fibras do anel e estão limitadas pela situação do plano das articulações posteriores. A maior parte dos movimentos da coluna está limitada pelos ligamentos que unem as vértebras entre si: - Ligamento longitudinal anterior = Estende-se do crânio até o sacro, ao longo da face anterior da coluna. Sua face interna profunda está aderida ao corpo vertebral, e não ao disco; FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 8 - Ligamento longitudinal posterior = Está situado na face posterior dos corpos vertebrais, dentro do conduto raquídeo e diferentemente do ligamento anterior, insere-se nos discos; - Ligamentos amarelos = Inserem-se na superfície articular de uma lâmina e na borda superior da lâmina imediatamente inferior; - Ligamentos intertransversos = São constituídos por conexões fibrosas entre as apófises transversas; - Ligamentos interespinais = Unem a base das apófises espinhosas com a borda superior da correspondente à vértebra inferior; - Ligamento supra-espinal = É uma corda fibrosa contínua que se adere ao vértice dos processos espinhosos. Os forames de conjugação (forames intervertebrais) são espaços limitados superiormente pela borda inferior e inferiormente pela borda superior do pedículo de 2 vértebras contíguas. Posteriormente, pela articulação interapofisária coberta por sua cápsula e reforçada pelo ligamento amarelo. Anteriormente, pela face posterior da vértebra suprajacente,pela reborda superior da vértebra inferior e pela face posterior do disco intervertebral recoberta pela expansão lateral do ligamento longitudinal posterior. Nos forames de conjugação, estão situados os nervos raquídeos, os vasos e ramos nervosos destinados ao osso e outros elementos do canal vertebral. As alterações discais ou das articulações posteriores podem repercutir sobre esses elementos provocando um comprometimento radicular. A estabilidade da coluna depende dos ligamentos e da ação muscular. Para a manutenção da posição de equilíbrio, um conjunto sinérgico e antagônico de esforços musculares determina as curvas de adaptação no sentido ântero-posterior (lordose lombar) contra as cargas oriundas dos membros inferiores. O disco intervertebral tem papel importante na absorção de energia mecânica, sofrendo deformações elásticas frente aos esforços. As sobrecargas são menores sobre o canal raquidiano e sobre os pedículos vertebrais. Essas estruturas não sofrem forças nem de compressão nem de tração. As articulações interapofisárias são elementos primordiais na estabilização e no equilíbrio da coluna. Os discos intervertebrais mais sobrecarregados estão entre L4-L5 e L5-S1. Esses discos sofrem enorme ação FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 9 mecânica por serem os principais locais de movimento da coluna no sentido ântero-posterior e látero- lateral. • Classificação: As lombalgias podem ser classificadas de acordo com a duração, o padrão e a etiologia: - Duração: * Agudas = Tem início súbito e duração inferior a 4 semanas. * Subagudas = Tem duração entre 4 e 12 semanas. * Crônicas = Tem duração maior que 12 semanas. Obs.: Apesar de essa classificação ser bastante intuitiva, na maioria das vezes o paciente apresenta um problema recorrente que não se encaixa em nenhuma categoria. Foi sugerido um modelo de lombalgia recorrente, que é aquela que reaparece após período sem dor. - Etiologia: * Específicas = Hérnias discais, espondilolistese, estenose do canal medular, instabilidade definida acima de 4 a 5 mm no estudo radiológico dinâmico de flexão e extensão, osteoporose, fraturas vertebrais, tumores, infecções e doenças inflamatórias no nível da coluna lombar. Menos de 15% das pessoas com lombalgia apresentam a do tipo específica. * Inespecíficas = As queixas de dor lombar ocorrem sem uma causa anatômica ou neurofisiológica identificável. • Avaliação clínica: 1.Anamnese: A história do início e da evolução dos sintomas, o tipo e a localização precisa da dor, a sua irradiação, os fatores predisponentes e desencadeantes do quadro, assim como os fatores de piora ou de melhora, devem ser investigados. Deve-se investigar sobre os diversos aparelhos, a história familiar e os antecedentes pessoais. Os hábitos do paciente, incluindo o tabagismo, a posição de dormir, o tipo de colchão e de travesseiro, as principais posições assumidas durante o trabalho, o estudo, o lazer e as atividades esportivas, além da satisfação pessoal e no trabalho, são importantes para a elucidação diagnóstica e também para evitar a perpetuação do quadro doloroso após o tratamento. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 10 As características da dor lombar de origem neurológica são: - Início súbito; - Forte intensidade; - Caráter lancinante; - Tipo queimor, choque e latejamento; - Inicia na coluna lombar e irradia-se para o membro inferior, atingindo a extremidade distal; - Piora com a tosse e o espirro. As características da dor lombar de origem mecânica são: - Irradia-se para os membros inferiores; - Pode ou não acompanhar a distribuição nervosa; - Geralmente é agravada pelo movimento da coluna lombar. As características da dor lombar de origem vascular são: - Claudicação intermitente; - Acompanhada por alterações na temperatura e na coloração do tegumento e por alteração trófica. Os distúrbios da sensibilidade (como a queixa de parestesias ou áreas de anestesia), da motricidade, dos movimentos autonômicos e do controle esfincteriano também podem auxiliar no diagnóstico etiológico. Nas lombalgias, é importante o diagnóstico diferencial de fraturas, tumores ou metástases, infecção, espondilolistese, estenose do canal medular, espondilite anquilosante ou hérnia do disco lombar. Nessas situações clínicas, há a necessidade de tratamento específico. Devido à natureza benigna das lombalgias agudas inespecíficas, 90% melhoram espontaneamente, e é importante reconhecer a reduzida porcentagem das lombalgias específicas. Estudos apresentam um guia para a avaliação e o tratamento das lombalgias agudas. Baseiam-se na identificação de sinais de alerta para a presença de possíveis quadros específicos. Indivíduos com idade acima de 50 anos, com queixa dolorosa por mais de 1 mês, com antecedente pessoal de tumor maligno, perda inexplicável de peso, dor noturna e ausência de melhora clínica após um 1 mês de tratamento conservador devem ser investigados quanto à presença de quadros malignos. No nível da coluna lombar, são frequentes as metástases de processos tumorais primários de mama, próstata, tireoide, pulmão e rins. Os sinais de alerta para a osteomielite (inflamação óssea) espinal são presença de infecções no tegumento, uso de drogas endovenosas, febre persistente, sudorese noturna ou internação prévia em UTI. A infecção medular também pode ocorrer, e os mesmos sinais de alerta chamam a atenção. As fraturas e as compressões devem ser suspeitadas em idosos com história de traumatismos ou uso de corticoides. Em pacientes acima de 50 anos, com queixas de claudicação neurogênica, deve-se suspeitar de estenose do canal medular. O principal dado da anamnese de pacientes com hérnias discais é a história de ciática. Queixas de anestesia em sela (anestesia na região do corpo que entra em contato com a sela do cavalo), distúrbio esfincteriano de instalação recente e déficit neurológico progressivo permitem a suspeita clínica de síndrome da cauda equina. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 11 Os pacientes com espondilite anquilosante geralmente iniciam suas queixas com idade inferior a 40 anos e apresentam lombalgia com duração superior a 3 meses (que não melhora na posição supina), acompanhada de rigidez matinal no nível da coluna lombar. 2.Exame físico: Os exames físicos dirigido e objetivo auxiliam na confirmação ou exclusão das possibilidades diagnosticas formuladas durante a anamnese. O exame inclui a inspeção estática e dinâmica, a palpação, os testes neurológicos e as manobras especiais provocativas. 2.1.Inspeção: Observam-se os seguintes aspectos: - Constituição física do paciente; - Presença de deformidades; - Espasmos musculares; - Amiotrofias; - Crescimento anômalo de pelos; - Marcas de nascimento; - Manchas café-com-leite e lipomas; - Simetria dos ombros, das espinhas ilíacas e do trocânter maior; - Aumento ou a redução das curvas fisiológicas; - Escoliose (inclinação lateral para um dos lados e hérnia discal); - Proeminência abdominal. A inspeção dinâmica permite a visualização dos movimentos da coluna lombar, da marcha, da coordenação e do equilíbrio. A mobilidade da coluna lombar deve ser avaliada nos 6 planos cardinais (flexão anterior, a extensão, a inclinação lateral para os lados direito e esquerdo e as rotações laterais). A marcha com o calcanhar (músculos flexores dorsais – L4) e na ponta dos dedos (músculos flexores plantares – S1) auxilia na avaliação da força muscular. O agachamento repetido durante 2 a 3 vezes e o retorno à posição ortostática sem dificuldades sugere a integridade do sacro, do quadril, dos joelhos e dos tornozelos. O teste de Schöber permite a avaliaçãoda rigidez da coluna lombar. Inicialmente, o teste é realizado com o paciente na posição ereta. Demarca-se a junção lombossacral com uma linha que une a espinha ilíaca póstero-superior a uma marca 10 cm acima. Solicita-se ao paciente que realize a flexão anterior da coluna lombar e mede-se a distância entre as duas marcas. A distância normal é de 15 cm. 2.2.Palpação: A palpação muscular sistemática na busca de pontos-gatilho miofasciais (trigger points) ou pontos de dolorimento local, espasmo muscular e dos pontos de reparos ósseos (apófises espinhosas e transversas), ligamentares (ligamentos supra e interespinais) e articulares (articulação sacroilíaca) deve ser realizada de rotina. A palpação e a percussão dolorosa na região dos processos espinhosos vertebrais, associadas a redução na mobilidade da coluna lombar, febre e queda do estado geral, podem sugerir quadros infecciosos locais. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 12 Os ligamentos supra-espinais unem os processos espinhosos das vértebras lombares e devem ser palpados de rotina. Geralmente, encontram-se dolorosos e pode-se notar a redução entre eles. Os principais músculos a serem palpados na região lombar são os espinais, o quadrado do lombo, os glúteos, o piriforme e os abdominais. Foi desenvolvida uma técnica de palpação muscular que permite a avaliação detalhada de músculos superficiais e profundos. Segue o acrônimo das iniciais das palavras da língua inglesa: “POSTAIRE”. Para cada par de letras, a primeira significa uma ação a ser realizada, e a seguinte, o objetivo a ser alcançado: - Position to Open = Colocar em posição para expor (Position to Open) o músculo; - STretch = Alongar (STretch) para induzir tensão; - Activate e Identify = Ativar (Activate) o músculo para identificá-lo (Identify) de acordo com a sua função; - Relax to Examine = Relaxá-lo para examinar (Relax to Examine). A palpação abdominal pode ser importante no diagnóstico de aneurisma de aorta abdominal. A palpação dos pulsos arteriais periféricos e os sinais de insuficiência vascular podem identificar as doenças vasculares periféricas. 2.3.Testes neurológicos: É necessária a avaliação clínica da força muscular, a pesquisa dos reflexos tendíneos profundos (patelar [L4], aquileu [S1] e isquiotibial medial [L5]), o sinal de elevação da perna estendida e a avaliação da sensibilidade. A pesquisa da força muscular deve ser realizada de forma objetiva: - Flexores do quadril para L1 a L3; - Extensores do joelho para L2 a L4; - Flexão dorsal do tornozelo e extensão do joelho para L4; - Extensão do hálux para a pesquisa de L5; - Flexão plantar do tornozelo e do hálux para S1. O mapa dos dermátomos parece ser o mais adequado na avaliação das alterações decorrentes de processos dolorosos: - L4 é responsável pela inervação do hálux, do maléolo medial, da região medial do pé e da perna e a região anterior do joelho; - L5 é responsável pela inervação da região dorsal dos dedos centrais e da região lateral da perna; - S1 é responsável pela inervação do dedo mínimo, da região lateral da superfície plantar do pé, do maléolo lateral e da região posterior lateral da perna e da coxa; - S2, S3 e S4 são responsáveis pela inervação da bexiga; - Os dermátomos sensitivos localizam-se em anéis concêntricos ao redor do ânus, sendo S2 o mais externo e S4 o m ais interno. 2.4.Manobras especiais provocativas: As manobras especiais provocativas podem ser didaticamente divididas naquelas que estiram a medula espinal, a cauda equina ou o nervo ciático e as que aumentam a pressão intratecal ou mobilizam a articulação sacroilíaca. - Teste da elevação da perna estendida (Teste de Lasègue) = Avalia o comprometimento do nervo ciático e a flexibilidade dos músculos isquiotibiais. O teste é positivo se a elevação da perna estendida provoca dor em todo o trajeto do nervo ciático (inclusive abaixo do joelho) em uma elevação de 30 a 70° FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 13 de flexão do quadril ou de até 80° entre a perna e a mesa de exame. A manobra da elevação da perna estendida contralateral (sadia) que provoca dor no membro comprometido sugere hérnia do disco lombar. Quando a dor reproduzida nesses testes ocorre apenas na região posterior da coxa ou em graus de elevação acima dos referidos, suspeita-se de retração dos músculos isquiotibiais. Para potencializar essa manobra, o examinador simula o exame do joelho, enquanto subitamente estende a perna com o tornozelo em 90°. A manobra pode, ainda, ser realizada na posição sentada. Nesse caso, os músculos isquiotibiais estarão relaxados, e o diagnóstico diferencial pode ser realizado com facilidade; - Teste do estiramento do nervo femoral = O paciente que apresenta compressão radicular inclina-se posteriormente para reduzir a compressão sobre a raiz nervosa acometida. O teste avalia as compressões radiculares no nível de L4 ou em níveis superiores. Este teste é realizado em decúbito ventral, com a elevação da coxa a partir da mesa de exame, realizando-se a flexão do joelho em até 90°; - Teste de Hoover = Auxilia nos casos de impossibilidade de elevar a perna estendida. Enquanto o paciente eleva a perna estendida, o examinador deve segurar o calcâneo do pé oposto e sentir uma pressão local. Nos casos de simulação, essa pressão não é percebida porque o doente não está realmente elevando a perna; FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 14 - Teste de Kernig = Estira a medula, reproduzindo a queixa de dor. O examinador realiza a flexão anterior da coluna cervical no paciente que está deitado em decúbito dorsal. Nos casos positivos, o doente queixa- se de dor, o que pode ser indicativo de irritação meníngea ou irritação da raiz nervosa. A localização da dor durante essa manobra pode precisar a etiologia do quadro doloroso; - Manobras de Milgram, Naffziger e Valsalva = São utilizadas para avaliar possível comprometimento tecal. Na manobra de Milgram, o paciente deve elevar a perna estendida até cerca de 5 cm acima da mesa de exame durante 30 segundos, sem queixa de dor. A impossibilidade de completar o teste ou a presença de dor durante a manobra sugerem doença intra ou extratecal. No teste de Naffziger, o examinador comprime as veias jugulares do paciente durante 10 segundos e solicita que ele tussa. Já no teste de Valsalva, solicita-se ao paciente que realize esforço para evacuar. Essas manobras aumentam a pressão intratecal; - Testes de Gaenslen, Patrick ou Fabere e a compressão nas espinhas ilíacas ântero-superiores = Sugerem comprometimento da articulação sacroilíaca. No teste de Gaenslen, solicita-se ao paciente que flexione ambos os joelhos, em direção à região anterior do tórax. O examinador aproxima a região sacroilíaca da borda da mesa de exame e deixa o membro inferior acometido pendente, enquanto o joelho oposto permanece fletido. A queixa de dor na região sacroilíaca é sugestiva de comprometimento da região sacroilíaca. No teste de Patrick ou de Fabere, o calcâneo do membro acometido é colocado sobre o joelho oposto. A articulação do quadril está em flexão, abdução e rotação externa. O examinador deve colocar uma de suas mãos sobre o joelho fletido e a outra sobre a espinha ilíaca súpero-anterior do lado FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 15 oposto e deve comprimir a região como se estivesse abrindo um livro. O agravamento da dor na articulação sacroilíaca sugere o seu comprometimento. Para o teste da compressão das espinhas ilíacas ântero-superiores, o examinador comprime a pelve em direção à linha média, com as mãos sobre as cristas ilíacas eos polegares nas espinhas ilíacas ântero-superiores, com o paciente em decúbito dorsal. A dor na região sacroilíaca durante essa manobra também sugere o com prometimento dessa articulação. • Avaliação funcional: • Etiologia: 1.Lombalgias inespecíficas: Apesar de não haver uma causa definida nas lombalgias inespecíficas, algumas possíveis causas são reconhecidas na rotina ambulatorial: FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 16 1.1.Lombalgia degenerativa: A lombalgia degenerativa quase sempre está acompanhada de comprometimento discal e interapofisário, que são do tipo artrodial. A manifestação clínica consiste em dor na região lombar de instalação súbita ou lenta, que bloqueia os movimentos, determinando rigidez da coluna lombar. O processo degenerativo das pequenas articulações posteriores pode provocar irritação das raízes L3, L4, L5 e S1, provocando aparecimento de dor no seguimento comprometido. A acentuação da lordose por aumento do ângulo lombossacral ou por fraqueza do músculo glúteo e abdominal, provocando dor. A assimetria das facetas articulares lombares também pode ser a sede da dor. 1.2.Lombalgia de etiologia mecânica: A lombalgia de etiologia mecânica é um termo que descreve a dor lombar decorrente de esforço físico e é aliviada pelo repouso no leito. Esse tipo de dor é geralmente causado por distúrbios em músculos posteriores, tendões e ligamentos. Geralmente, pode ser atribuída a atividades como levantar pesos e permanecer na posição sentada ou em pé por tempo prolongado. A dor tem características crônicas, em peso e dolorimento local. O início é insidioso, o paciente apresenta-se sedentário, obeso, com fraqueza dos músculos abdominais, dos posteriores da coluna lombar e dos glúteos e encurtamento dos músculos isquiotibiais. Geralmente, piora no final do dia devido às atividades e aos esforços físicos. Não há sinais neurológicos associados, e a tosse ou os espirros não exacerbam os sintomas. A falta de condicionamento físico também pode provocar algum tipo de sintomatologia, como a dor lombar do tipo mecânica. 1.3.Síndrome dolorosa miofascial: Uma vez descartados todos esses processos, vamos nos deparar com uma enorme gama de pacientes (cerca de 90%) com dor de origem vertebral de difícil diagnóstico por apresentarem exames laboratoriais e de imagem normais. A síndrome dolorosa miofascial está presente na grande maioria dos pacientes com lombalgia como fator primário ou como um componente dos quadros de sensibilização segmentar. O diagnóstico é realizado pela história e pela presença de pontos-gatilho nos músculos comprometidos. Os principais músculos acometidos são os paravertebrais, os abdominais, os glúteos, o piriforme, o quadrado lombar, o iliopsoas e os multífidos. Apesar de os mecanismos etiopatogênicos ainda não estarem totalmente esclarecidos, acredita-se que a síndrome dolorosa miofascial seja uma manifestação à sensibilização espinal. A plasticidade neuronal espinal determina a hipersensibilidade dolorosa. A prevenção e o tratamento da sensibilização central poderão auxiliar esses pacientes. A técnica microanalítica de microdiálise permite o registro do ponto-gatilho miofascial em fibras musculares humanas. O ponto-gatilho miofascial ativo apresenta aumento de prostaglandinas, bradicinina, serotonina, norepinefrina, TNF-alfa, IL-1, peptídeo gene relacionado à calcitonina e à substância P e redução do pH quando comparado ao ponto-gatilho latente ou em controles normais sem dor miofascial. Desse modo, pontos-gatilho ativos não tratados podem ser focos periféricos secundários de dor capazes de iniciar, amplificar e perpetuar a sensibilização central. Procedimentos simples, como o agulhamento seco ou a inativação dos pontos-gatilho com anestésicos locais, salina ou AINHs, podem tratar a síndrome. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 17 2.Lombalgias específicas: 2.1.Espondilolistese: É o deslizamento anterior do corpo vertebral em relação à vértebra inferior. A espondilolistese pode ser classificada em 5 grupos, conforme sua causa: - Grupo I = Está a espondilolistese congênita ou displásica. Esta se deve a uma anomalia das facetas articulares do sacro ou das apófises articulares inferiores de L5 (Fig. 47.3); - Grupo II = É o da espondilolistese ístmica, a clássica espondilolistese decorrente de espondilólise (descontinuidade do segmento intervertebral); - Grupo III = É o da espondilolistese traumática, consequente de uma fratura do istmo; - Grupo IV = Está a espondilolistese degenerativa, que é produzida por artrose das articulações posteriores; - Grupo V = Estão as espondilolisteses patológicas, por estreitamento ou ruptura do pedículo após uma enfermidade óssea como osteogênese imperfeita, a acondroplasia e a neoplasia. A lise do istmo parece não ser congênita, pois ocorre entre 10 e 18 anos e raramente progride a partir dos 20 anos. A localização mais frequente é entre L5-S1. Acredita-se que a espondilolistese ístmica decorre de uma fratura de fadiga semelhante às que ocorrem em outras partes do esqueleto. A espondilolistese e a espondilólise podem ser assintomáticas. Quando aparece dor lombar em um indivíduo com espondilolistese, esta nem sempre é a causa da dor. Sintomas dolorosos estão geralmente relacionados a escorregamentos acima de 25%. A dor pode localizar-se na região lombar, às vezes nas nádegas e na face posterior da coxa (zonas habituais de dor referida de origem lombar). É uma dor do tipo mecânica que se inicia ou se exacerba com a atividade e melhora com o repouso. A lombalgia sem irritação da ciática pode ter outras causas, como degeneração discal de outros níveis, hiperlordose, degeneração discai na transição toracolombar, síndrome dolorosa miofascial, síndrome ileolombar, entre outras. Na espondilolistese, ocorre a retração dos músculos flexores da coxa. Como consequência, o paciente assume uma postura característica de flexão de joelhos e quadris, pelve inclinada para trás, retificação da lordose lombar e passo curto (pelve roda para um lado e outro sucessivamente a cada passo). O tratamento conservador consiste em repouso relativo, uso de órtese lombossacral e tratamento reabilitacional. O tratamento operatório é a artrodese sem descompressão, está indicado dependendo do grau da listese e dos sintomas. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 18 2.2.Protrusão e hérnia discal: A protrusão discal consiste em um abaulamento localizado ou difuso do disco produzido por uma alteração degenerativa do anel fibroso. A hérnia discal é formada quando o material do núcleo pulposo desloca-se por meio da ruptura do anel fibroso. De acordo com o grau de deslocamento do núcleo, pode haver 3 tipos de hérnias: - Hérnia prolapsada = Há ruptura do anel fibroso, porém o ligamento longitudinal posterior continua íntegro, de modo que o núcleo só se insinua no ligamento; - Hérnia extrusa = Quando o ligamento longitudinal posterior se rompe e o núcleo pulposo degenerado migra para o canal vertebral, ficando extruso; - Hérnia sequestrada = Quando o material do núcleo pulposo migra para dentro do canal (para cima e para baixo) ou no interior do forame, têm-se a hérnia sequestrada. A hérnia discal ocorre com maior frequência no adulto jovem em relação ao idoso, porque, embora haja ruptura do anel fibroso pela degeneração, o núcleo ainda conserva a sua turgência. A parte póstero-lateral do disco é o local mais frágil. As alterações mecânicas que constituem a hérnia de disco são as possíveis causas de dor, pela compressão da raiz nervosa. Existe uma inter- relação funcional entre o disco e as articulações interfacetárias, os ligamentosintervertebrais (ligamentos longitudinal anterior, posterior e amarelo) e os ligamentos interespinais. Qualquer alteração da morfologia ou da função do disco repercute sobre as demais estruturas. A hipermobilidade discal provoca diminuição da altura do disco, gerando sua incongruência ou subluxação. O quadro clínico consiste em: - Dor lombar e lombociatalgia com grau variado de intensidade de dor; - Escoliose antálgica; - Déficit motor; - Alteração da sensibilidade; - Dificuldade na flexão do tronco; - Reflexo profundo diminuído ou ausente; - Teste de elevação da perna estendida positivo (Teste de Lasègue) = O sinal de elevação da perna estendida é considerado positivo até 60° de elevação do membro inferior em decúbito dorsal. Às vezes, ocorre Lasègue contralateral, que indica hérnia extrusa ou sequestrada. A hérnia discal lombar é a principal causa de lombociatalgia mecânica. O diagnóstico é clínico em mais de 90% dos casos e pode ser confirmado com TC, RM e eletroneuromiografia. Outras causas de lombociatalgia com sinais neurológicos discretos ou ausentes incluem a estenose do canal medular, a espondilolistese, os distúrbios da articulação sacroilíaca, as síndromes dolorosas miofasciais dos músculos glúteo mínimo, longíssimos, psoas e piriforme, os abscessos epidurais, os quadros arteriais obstrutivos e a fibromialgia. 2.3.Estenose do canal medular: Estenose do canal meduar consiste no estreitamento do diâmetro ântero-posterior e do recesso lateral, podendo atingir um ponto crítico em que o canal não pode acomodar o seu conteúdo. Qualquer movimento do segmento lombar pode produzir sintomatologia de compressão radicular ou da cauda equina. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 19 A estenose do canal adquirida pode ser secundária a degeneração discal difusa com as suas alterações segmentares características. Pode ainda ser iatrogênica, por desenvolvimento excessivo de um enxerto ou por pseudoartrose. A estenose do canal vertebral lombar pode se manifestar como uma simples lombalgia ou até uma ciatalgia semelhante à da hérnia discal, porém distingue-se desta pela história de claudicação intermitente neurogênica quando a dor começa ou se intensifica progressivamente com a marcha. O paciente necessita parar e sentar-se por 10 a 20 minutos, durante o percurso. A extensão da coluna lombar aumenta os sintomas. Difere da claudicação de origem vascular periférica por apresentar dor maior na raiz da coxa, parestesias em perna e pé, sensação de fraqueza e não ceder simplesmente ao permanecer de pé, o paciente necessita permanecer agachado ou sentado. Após esses procedimentos, o paciente consegue caminhar mais uma distância. Dor atípica nos membros inferiores e síndrome da cauda equina crônica podem ser manifestações clínicas. Nos exames radiológicos, os sinais mais frequentes são a redução do canal medular. A comprovação exata deve ser feita após TC ou RM. 2.4.Anomalia da transição lombossacral: A vértebra lombar se apresenta com característica de vértebra sacral (sacralização) ou a vértebra sacral com característica de vértebra lombar (lombarização). Pode ser uni ou bilateral, simétrica ou assimétrica. A apófise transversa de L5 pode estar aumentada de tamanho (megatransversa) e contatar com a asa do sacro, formando, às vezes, uma articulação verdadeira (neoartrose transverso sacral), ou pode estar fundida com o sacro (sinostose uni ou bilateral). Ao exame físico, o paciente apresenta pontos-gatilho nos músculos quadrado lombar, glúteo médio, glúteo mínimo e piriforme. 2.5.Espinha bífida: A espinha bífida consiste na falta de união dos dois hemiarcos posteriores no nível das apófises espinhosas. A zona de separação pode estar na linha média ou deslizada para um dos lados. Em geral, localiza-se em L5 e S1. A incidência é de 5 a 10% da população. A espinha bífida oculta, localizada no sacro, não acarreta nenhum transtorno. O achado radiológico é casual na maioria das vezes. 2.6.Lombalgia em gestantes: Cerca de 20 a 50% das gestantes apresentam quadro de dor lombar durante algum período da gestação. Alguns fatores como o trabalho pesado, a paridade e a história prévia de lombalgia parecem constituir fatores de risco nas gestantes. Já o aumento do peso corpóreo materno ou do feto não parece ser fator de risco de lombalgia em gestantes. O comprometimento da articulação sacroilíaca durante a gestação parece estar relacionado com a produção de hormônios que ocasionam frouxidão articular, inflamação, dor e desconforto articular. A dor noturna, cerca de 2 a 3 horas após o deitar-se, pode estar correlacionada à estagnação sanguínea no plexo venoso vertebral ou à compressão da veia cava pelo feto. Também a postura hiperlordótica adotada pela gestante pode acometer os músculos paravertebrais, resultando no desequilíbrio entre os músculos abdominais e paravertebrais. Em gestantes, recomendam-se calor superficial (infravermelho, forno de Bier, compressas quentes, etc.) e massagem do tecido conjuntivo ou da zona reflexa quando o teste de zona de Head estiver FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 20 presente. A acupuntura também está indicada, porém devem-se evitar pontos que estimulem as contrações uterinas. 2.7.Lombalgia em atletas: Incidência acima de 75% já foi relatada em atletas jovens. A coluna lombar é o principal local de lesões em ginastas, futebolistas americanos, levantadores de peso e nos praticantes de canoagem, natação, golfe amador, balé, jogadores de tênis, beisebol e basquetebol. As sobrecargas na coluna lombar são fatores de risco de lesões e lombalgia. Anormalidades radiológicas decorrentes de traumatismos diretos e de distúrbios do crescimento podem sugerir vulnerabilidade da coluna durante o período de crescimento. Desse modo, a idade de início da atividade esportiva e o grau de sobrecarga mecânica no esqueleto são fatores importantes para o desenvolvimento de tais anormalidades. 2.8.Outras causas: As doenças que acometem a medula espinal podem também ter causas traumáticas, tumorais, viscerais, infecciosas e psicogênicas da cauda equina, os abscessos, as malformações vasculares e os cistos medulares. As lesões extramedulares e intradurais incluem o ependimoma do cone medular, o meningioma, as carcinomatoses meníngeas e os abscessos epidurais. Outras lesões radiculares são as fraturas vertebrais com luxação decorrentes de processos traumáticos ou tumorais. Há também as afecções viscerais com dor lombar referida por lesões ginecológicas, urológicas e vasculares, com dor na coluna torácica baixa (doenças gastroduodenais ou pancreáticas) e com dor na coluna torácica alta (tumor dos brônquios). • Diagnóstico: 1.Diagnóstico por imagem: O estudo radiológico simples só deve ser solicitado na presença de: - Sinais de alerta após 7 semanas de falha no tratamento conservador; - Nos casos em que o exame físico evidencie deformidades inexplicáveis ou déficit motor significativo. Geralmente, as incidências de frente e perfil são as mais importantes, reservando-se a oblíqua aos pacientes com suspeita clínica de espondilólise, espondilolistese, fratura de estresse ou pseudoartrose. A mielografia computadorizada pode ser utilizada para avaliar as anormalidades intratecais. A TC com contraste endovenoso é empregada para evidenciar o tecido fibrótico e as hérnias residuais que podem ocorrer após procedimentos operatórios. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 21 Embora o seu custo seja mais elevado, a RM constitui o exame de escolha para a avaliação da hérnia discal. A RM permite a boa visualização de partes moles intra e extradurais, além do diagnóstico precoce dedoenças ósseas e discais, permite a avaliação de disco degenerado, edema, acúmulo de fluidos anormais, massas extradurais, disco sequestrado, fibrose, estenose do canal, hematoma epidural, infecções e tumores dentro do canal vertebral. Indica-se a RM quando há suspeita clínica de infecção, neoplasia, disfunção neurológica progressiva e lesão traumática aguda grave. Nos casos inespecíficos, sugere-se a sua indicação apenas quando os sintomas dolorosos não melhoram após 7 semanas. A RM com contraste permite a diferenciação entre fibrose e recidiva da hérnia discal. A cintilografia óssea deve ser indicada na suspeita clínica de tumores, infecções e fraturas ocultas quando a sua localização ainda não está bem definida, uma vez que o estudo por RM é limitado a uma região. Esse exame não deve ser indicado em gestantes. 2.Estudos eletrodiagnósticos: A eletroneuromiografia fornece informações sobre o estado funcional da unidade motora, permitindo a avaliação do comprometimento do SNP, da junção neuromuscular, do axônio, da bainha de mielina ou do próprio músculo, disfunção aguda ou crônica da raiz nervosa e lesão e o grau de disfunção nervosa. Esse exame fornece dados para o diagnóstico e o prognóstico da lesão. Associando-se ao exame clínico e aos estudos de imagem, a eletroneuromiografia auxilia na identificação do nível da anormalidade anatômica e funcional. A vantagem é a detecção precoce da anormalidade quando outros exames ainda se mostram normais, principalmente nas radiculopatias periféricas. 3.Exames laboratoriais: São importantes no diagnóstico diferencial das lesões tumorais e infecciosas e para avaliar as condições clínicas antes da cirurgia. O hemograma, o VHS e os exames de urina permitem a avaliação inicial. Podem ser eventualmente realizados a glicemia, a eletroforese de proteínas e as dosagens séricas de cálcio, fósforo e lipídeos. O estudo da condição metabólica e hormonal, assim como da possibilidade de infecções ou infestações parasitárias, permite a avaliação de fatores perpetuantes. Após os 50 anos de idade e nas crianças com dor lombar, a pesquisa diagnostica por meio dos exames laboratoriais e de imagem deve ser realizada de forma mais expressiva. Da mesma forma, nos casos de dor crônica, o rastreamento diagnóstico e o estudo do perfil psicossocial devem ser realizados com mais propriedade. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 22 • Tratamento: 1.Lombalgia aguda: Com base na história natural da lombalgia aguda inespecífica, é importante permanecer ativo e evitar o repouso no leito. O tratamento nessa fase visa ao alívio sintomático da dor e da inflamação e à orientação para a proteção das estruturas acometidas, evitando posturas ou atividades que exacerbem a dor por sobrecarga mecânica sobre a coluna lombar. No entanto, se a dor for muito intensa e o repouso propiciar alívio temporário da dor, é recomendável usar-se a posição de semi-Fowler. Devido ao fato de a posição sentada com a flexão anterior do tronco proporcionar uma maior sobrecarga para a coluna lombar, recomenda-se que o paciente levante e caminhe no próprio ambiente domiciliar ou de trabalho. Ele deve ser orientado, ainda, a evitar as posições que aumentem as pressões intradiscais lombares (movimentos torcionais e de flexão anterior devem ser evitados). O retorno precoce às atividades funcionais será de acordo com a tolerância de cada indivíduo, para não aumentar o risco de dor e de efeitos deletérios do imobilismo. As faixas ou coletes lombares podem ser utilizados por breve período de tempo, no intuito de lembrar o paciente de que não realize movimentos abruptos e inadequados (como a flexão anterior e a rotação lombar). Ele deve ser encorajado a deambular e iniciar a atividade física, permanecendo o mínimo de tempo possível na posição sentada ou de desconforto. Exercícios aeróbios de baixo impacto (como deambular, nadar e pedalar bicicleta), proporcionam mínima sobrecarga sobre a coluna lombar e podem ser iniciados durante as primeiras 2 semanas. Orienta- se alternar a deambulação durante 20 a 30 minutos para cada 3 horas de repouso no leito em posição adequada. O repouso prolongado no leito por mais de 4 dias parece levar a maior debilitação, provocando atrofia muscular, o descondicionamento cardiopulmonar, a perda mineral óssea com hipercalcemia e hipercalciúria e risco de tromboembolismo pulmonar. Após o início da dor lombar, há 1 a 1,5% de perda da massa muscular por dia, 15% de perda da capacidade aeróbia em 10 dias e mais de 70% de perda da força muscular do tronco em 6 meses. Além disso, os efeitos sociais devem ser considerados. Nessa fase, está indicado o uso de analgésicos (como o acetaminofeno), de AINHs e de relaxantes musculares. O uso de termoterapia superficial é eficaz e parece ser até superior ao anti-inflamatório e ao acetaminofeno. A vantagem da termoterapia superficial e das compressas de gelo é o fato de poderem ser utilizadas em casa. A realização de protocolos padronizados de exercícios terapêuticos específicos (como os de fortalecimento muscular, alongamento, ganho de flexibilidade, extensão e flexão lombar) são tão eficazes quanto o não-tratamento ou outras modalidades terapêuticas. Se a dor persistir apesar das medidas anteriormente citadas, pode-se considerar a realização da manipulação vertebral. Esse procedimento mostrou ser eficaz, evidenciando uma redução de 1 cm na escala analógica visual. Os pacientes com suspeita de hérnia discal acompanhada de sinais clínicos de síndrome da cauda equina e/ou déficit motor devem ser encaminhados para procedimento operatório de urgência. Nas fases aguda e subaguda, o procedimento operatório permite a resolução mais precoce do quadro radicular doloroso do que as outras modalidades terapêuticas. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 23 Programas de exercícios intensivos iniciados nas 4 a 6 semanas seguintes ao pós-operatório de descompressões discais são eficazes sobre o estado funcional e o retorno mais precoce ao trabalho. Esses exercícios não aumentam o risco de nova herniação discal ou a necessidade de novas intervenções operatórias. 2.Lombalgia subaguda: Os pacientes com lombalgia na fase subaguda merecem cuidado especial. Uma abordagem excelente seria a profilaxia da cronicidade do quadro doloroso, assim como das recorrências. Os principais objetivos são a restauração de amplitude completa de movimentos sem dor, a restauração da força, da resistência e da coordenação neuromuscular e o retorno às atividades normais. O condicionamento aeróbio pode ser realizado de modo semelhante ao da fase aguda. 3.Lombalgia crônica: O cuidado dos pacientes crônicos envolve a elucidação diagnóstica, afastando-se o comprometimento das estruturas ósseas, articulares, nervosas e ligamentares locais e as patologias sistêmicas que comprometem o segmento lombar. O objetivo nessa fase é a recuperação progressiva da capacidade funcional. Devido ao pior prognóstico dessa fase, o tratamento conservador deve ser mais agressivo. O uso de analgésicos de ação central pode auxiliar o desempenho do sistema supressor de dor. Antidepressivos tricíclicos + neurolépticos fenotiazínicos minimizam a dor, auxiliam na normalização do ritmo do sono e estabilizam o humor. A EENT convencional e a do tipo acupuntura (baixa intensidade e alta frequência) podem ser úteis para os pacientes com lombalgia crônica inespecífica, pelo menos em curto prazo. A vantagem sobre as demais modalidades de medicina física é que a EENT pode ser utilizada debaixo da vestimenta durante as atividades laborais. Para alguns pacientes, a EENT pode ser um substituto da medicação analgésica. A massagem terapêutica é benéfica para os indivíduos com lombalgiasubaguda ou crônica inespecífica. Apesar do alto custo do procedimento, este pode ser reduzido devido à diminuição do número de consultas médicas ou de outros programas terapêuticos. Os efeitos benéficos da massoterapia podem durar por até 1 ano após o término de sua aplicação. A abordagem multidisciplinar biopsicossocial intensiva, superior a 100 horas, visa a restauração funcional de pacientes com lombalgia crônica grave e incapacitante. O principal objetivo do tratamento é o retorno ao trabalho e às atividades usuais. A associação das diversas opções terapêuticas para promover o alívio sintomático da dor pode facilitar esse processo. A terapia cognitivo-comportamental reduz a dor, além de melhorar o estado funcional e comportamental dos pacientes com lombalgia crônica. O principal objetivo deste tratamento é reduzir a ansiedade e evitar a realização de atividades pelo medo. As outras modalidades terapêuticas avaliadas incluíram os AINHs, o AAS, os analgésicos simples, as compressas quentes, a termoterapia superficial de infravermelho, os programas educativos e ergonômicos, as modificações comportamentais e o agulhamento seco dos músculos acometidos. Os exercícios de extensão da coluna lombar aliviam a dor pela redução da sobrecarga sobre a raiz nervosa. Os exercícios de extensão devem ser iniciados na posição de decúbito ventral, colocando-se um travesseiro sob a região abdominal para manter a coluna lombar em posição neutra. Progressivamente e FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 24 de acordo com a tolerância à dor, solicita-se ao paciente que retire o travesseiro e assuma a posição de extensão da coluna lombar, apoiando-se sobre os cotovelos fletidos e depois sobre a palma da mão com os cotovelos bem estendidos. Os exercícios de extensão devem ser evitados quando agravam os sintomas dolorosos nos casos de diagnóstico de estenose do canal medular, espondilolistese ou escoliose moderada. A prevenção da recorrência da dor lombar é importante em qualquer programa terapêutico. A escola de coluna constitui um programa educacional de orientação em grupo aos pacientes que tem por finalidade o melhor esclarecimento sobre a doença e a sua relação com o aumento da sobrecarga mecânica sobre a coluna por meio de orientações quanto a ergonomia, hábitos alimentares, fatores emocionais, exercícios domiciliares, esporte e lazer. Os exercícios terapêuticos, a terapia comportamental e os programas de tratamento multidisciplinares são as opções terapêuticas mais eficazes para o tratamento da lombalgia crônica inespecífica. Parece que os analgésicos, os AINHs, as escolas de coluna no ambiente de trabalho e a massagem associada a programas educativos e aos exercícios terapêuticos podem ser benéficos para esses pacientes. Já o biofeedback, as injeções facetárias e a tração vertebral provavelmente são ineficazes para esses doentes. • Referências: - Dor Princípios e Prática – Onofre; - www.auladeanatomia.com.br FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 1 Problema 8 Dor neuropática # Objetivos # 1-Estudar as fibras nervosas condutoras da dor, anatomia do nervo periférico, dermátomos e sua importância para o exame neurológico. 2-Descrever a fisiopatologia da dor neuropática. 3-Descrever a neuropatia periférica: * Pós-herpética. * Diabética (sensitiva, motora e autonômica [só conhecer]). 4-Discorrer sobre o tratamento da dor neuropática. Objetivo 1: ➢ Anatomia do nervo periférico e Dermátomos: O sistema nervoso pode ser separado em partes, com base na estrutura e na função: - Estruturalmente, pode ser dividido em: * Sistema Nervoso Central (SNC) = Composto por encéfalo e medula espinal. * Sistema Nervoso Periférico (SNP) = Composto por todas as estruturas nervosas fora do SNC que unem o SNC ao corpo. Consistem em nervos espinais e cranianos, nervos e plexos viscerais e sistema entérico. - Funcionalmente, pode ser dividido em: * Somático. * Visceral. • Sistema Nervoso Periférico (SNP): O SNP é organizado em nervos que unem a parte central às estruturas periféricas. Uma fibra nervosa é formada por um axônio, seu neurolema, e circunda o tecido conjuntivo endoneural. O neurolema é formado pelas membranas celulares das células de Schwann (circundam o axônio, separando de outros axônios). Um nervo consiste em: - 1 feixe de fibras nervosas fora do SNC ou fascículos (fibras maiores); - 1 revestimento de tecido conjuntivo que circunda e une as fibras nervosas e os fascículos; - Vasos sanguíneos (vasa nervorum) que nutrem as fibras nervosas e seus revestimentos. Os nervos são fortes por causa do revestimento de tecido conjuntivo: - Endoneuro = Delicado, circunda as células no neurolema e os axônios. - Perineuro = Denso, envolve um fascículo de fibras nervosas e protege contra penetração de substâncias. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 2 - Epineuro = Espesso, circunda e encerra um feixe de fascículos e forma o revestimento externo do nervo + tecido adiposo, vasos. Os nervos são organizados como um cabo telefônico: - Os axônios assemelham-se a fios individuais isolados pelo neurolema e endoneuro; - Os fios isolados são reunidos pelo perineuro; - Os feixes são circundados pelo epineuro, que forma o revestimento externo do cabo. - Fibras aferentes (sensitivas) = Conduzem impulsos nervosos dos órgãos dos sentidos (p. ex., os olhos) e dos receptores sensitivos em várias partes do corpo (p. ex., na pele) para o SNC; - Fibras eferentes (motoras) = Conduzem impulsos nervosos do SNC para os órgãos efetores (músculos e glândulas). 1.Nervos cranianos: Os nervos cranianos saem da cavidade craniana através de forames no crânio, sendo que 11 se originam no encéfalo e o XI par (nervo acessório) se origina da parte superior da medula espinal. - Nervo olfatório (I par) = Aferente/sensitivo; - Nervo óptico (II par) = Aferente/sensitivo; - Nervo oculomotor (III par) = Eferente/motor; - Nervo troclear (IV par) = Eferente/motor; - Nervo trigêmeo (V par) = Aferente/sensitivo e eferente/motor; - Nervo abducente (VI par) = Eferente/motor; - Nervo facial (VII par) = Aferente/sensitivo e eferente/motor; - Nervo vestibulococlear (VIII par) = Aferente/sensitivo e eferente/motor; - Nervo glossofaríngeo (IX par) = Aferente/sensitivo e eferente/motor; - Nervo vago (X par) = Aferente/sensitivo e eferente/motor; - Nervo acessório (XI par) = Eferente/motor; - Nervo hipoglosso (XII par) = Eferente/motor. FACULDADES SANTO AGOSTINHO Medicina – Turma IV – 5º Período Módulo: Dor Thálisson Ramos Leite 3 2.Nervos espinais: Cada nervo espinal é conectado à medula espinal por raízes posteriores e anteriores: - Raiz posterior = Contém os processos de neurônios sensitivos que trazem informações ao SNC. Os corpos celulares dos neurônios sensitivos agrupam-se em um gânglio espinal na extremidade lateral da raiz posterior, geralmente no forame intervertebral; - Raiz anterior = Contém mais fibras nervosas que conduzem impulsos para longe do SNC. Os corpos celulares dos neurônios motores primários estão em regiões anteriores da medula espinal. Medialmente, as raízes posteriores e anteriores dividem-se em radículas, que se fixam à medula espinal. Um segmento espinal é a área da medula espinal que dá origem a radículas posteriores e anteriores, que formarão um par único de nervos espinais. Lateralmente, as raízes posterior e anterior, a cada lado, formam um nervo espinal. Cada nervo espinal divide-se, ao emergir de um forame intervertebral, em dois ramos maiores: um pequeno ramo posterior e um grande ramo anterior: - Ramos posteriores = Inervam apenas músculos intrínsecos