Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

ANTROPOLOGIA DA SAÚDE
TEREZA ROQUE
A história vêm nos mostrando quão complexo é o fenômeno saúde/doença, o qual deve ser entendido não de forma isolada, mas agregando aspectos sociais, culturais, políticos e econômicos, bem como necessita do olhar de diferentes atores sociais em torno de um bem comum: assegurar a saúde das pessoas.
A medicina científica sempre se apresentou como detentora do monopólio do saber médico, tentando desautorizar práticas populares de agentes como benzedeiras, parteiras, curandeiros, feiticeiras, dentre outros. Todavia, médicos diplomados e agentes de cura popular apesar de conviverem de forma pouco harmoniosa – cada um dentro de suas limitações – também interagem enquanto saber e prática.
Atualmente, apesar da grande intolerância por parte de muitos profissionais da saúde os quais ainda conservam o modelo biomédico no exercício de suas atividades cotidianas, as terapêuticas populares, mágico, religiosas, permanecem vivas nas raízes dos mais variados povos, afinal quem nunca recorreu ao chá de erva-doce ou do boldo a fim de aliviar problemas digestivos ou intestinais? 
Ou quem nunca recorre à espiritualidade quando têm algum problema seja de ordem física, psíquica ou emocional? 
Claramente, vivemos e recriamos crenças e tradições milenares de acordo com o contexto cultural e social em que estamos inseridos.
Nesse sentido, a antropologia da saúde e da doença contribui profundamente para nossa formação enquanto profissionais da saúde, uma vez que, proporciona reflexões em torno do fenômeno saúde/doença, bem como sua relação com aspectos sociais e culturais dos povos, ressaltando que o conhecimento biológico, por si só, não é suficiente para entender a complexidade desse fenômeno.
Portanto, o culto dos santos, a fé nos espíritos das florestas e dos rios, nos pajés e nas parteiras, a confiança nas orações e nos encantamentos, o conhecimento e fé nos remédios caseiros, enfim, todas as crenças sobre a saúde e doença mantidas por diferentes povos no mundo, devem ser consideradas pelos profissionais de saúde que, dentro de suas possíveis limitações, precisam recriar sua prática cotidiana, aproximando-se da linguagem e realidade simbólica dos indivíduos.
Além disso, a antropologia da saúde e da doença oferece possibilidades de se repensar em políticas de saúde menos segregacionistas e voltadas particularmente, às necessidades das classes mais desprovidas. Para tanto, é essencial compreender o contexto social e cultural em que o indivíduo está inserido, considerando que estes usuários transitam de forma tranquila entre os diferentes setores de atenção à saúde, seja a biomédica ou a medicina popular.
No mais, é essencial resgatar a cultura para o centro da relação entre indivíduo e profissionais de saúde, observando que é preciso entender e valorizar as práticas populares de cura dentro de seu contexto. Não se trata de desconsiderar a prática da biomedicina, mas de agregar as contribuições dos dois saberes em prol de programas e políticas de saúde mais eficazes.
Doenças como a Aids, câncer, hanseníase (lepra), tuberculose, são encaradas diferentemente por homens e mulheres de um mesmo grupo, com ou sem diagnóstico biomédico.
Para entender a sexualidade, a compreensão do processo histórico e seu desenvolvimento no Brasil, é condição, sine qua non, bem como, a ética, a ciência e a política, componentes responsáveis pela apropriação dos valores e significados dos modelos masculino e feminino de nossa ambiência.
Novamente, a antropologia da saúde interfere nas interpretações empíricas, factuais, prontas e acabadas da construção de sujeito e objeto, norteando os estudos por meio de reflexões, apresentando as incertezas inerentes ao homem, à sociedade e a espécie.
Sistemas de Saúde: uma Visão Antropológica
	Os sistemas de saúde não podem ser estudados isoladamente da sociedade da qual fazem parte
	O sistema de saúde tem dois aspectos inter-relacionados:
Cultural (conceitual, prático)
Social (organizacional, normativo)
Hegemonia e Pluralismo
	A maioria das sociedades têm um sistema de saúde hegemônico
Porém, ele nunca é único
	Quanto mais complexa for a sociedade, maior a chance de apresentar visões plurais nos cuidados à saúde
Kleinman e os três setores dos cuidados em saúde
Informal (‘Popular’)
Popular (‘Folk’)
Profissional (‘Professional’)
Arthur Kleinman é um psiquiatra americano e professor de antropologia médica e psiquiatria transcultural na Universidade de Harvard. Ele é bem conhecido por seu trabalho sobre doenças mentais na cultura chinesa.
FONTE: Adaptado de Kleinman (1981, p. 50)
Setor Informal
	Autotratamento/automedicação
	Conselhos de conhecidos/parentes
	Atividades de auxílio mútuo e auto- ajuda
	Consulta com leigo que tenha padecido do mesmo problema
Setor Informal
	As mulheres se destacam como cuidadoras
	Crenças populares sobre saúde e doença são importantes
	Envolve também a “promoção da saúde”
	Incompreensões entre paciente e cuidador são relativamente raras
Setor Informal
Fontes de Informação
Doentes experientes
Pessoas com experiência de vida
Paramédicos consultados informalmente
Cônjuges de médicos
Pessoas que interagem com o público
Facilitadores de grupos de auto-ajuda
Membros de igrejas/cultos
Setor Popular
(“folk”)
	Particularmente importante em contextos não industrializados
Envolve curas seculares ou sagradas
	“Intermediário” entre o setor informal e profissional
	Grande variabilidade de cenários e abordagens.
Setor Popular
Rezadeira (quase informal)
Curandeiros
Raizeiros
Pais de santo que façam atendimentos
Curiosas
Setor Popular
No mundo
Xamãs
Injecionistas
Feiticeiros
Parteiras
Setor Popular
	Abordagem holística:
corpo-mente-ambiente-moral-espiritual
	O diagnóstico muitas vezes envolve facetas espirituais
	A maioria dos curandeiros compartilha os valores culturais de suas comunidades
O Xamã
	Curador cuja cura envolve o contato com o mundo espiritual
	A consulta envolve o transe, que pode ser mediado por psicoativos
O “ser doente” pode ser comunitário
Neoxamanismo praticas não convencionais que tentam resgatam a sabedoria dos povos ancestrais, conciliando-a com elementos culturais e filosóficos da época atual.
Setor Popular - Formação
Herança
Sinais ou presságios
Revelação ou ‘Dom’
Aprendizagem
Auto-aprendizagem
Setor Popular
Prós
Envolvimento da família
Envolvimento da sociedade
Visão holística
Não necessariamente se opõem à biomedicina
Setor Popular
Contras
Impedir diagnóstico de patologia que pode ser tratada biomedicamente
Evitar o tratamento de transtornos mentais severos
Risco de lesões
Risco de exploração
Curandeiros e o Sistema de Saúde
	OMS encoraja a harmonização
	Há experiências positivas na incorporação no Sistema de Saúde
SIDA, parteiras, planejamento familiar, reidratação oral, rezadeiras, doença mental etc.
	Associações podem ser recursos interessantes (África)
Medicina Tradicional
	Sistemas médicos originais não- ocidentais:
Medicina chinesa
Medicina ayurvédica
	Seu países de origem as reconhecem como profissionais
Na medicina ayurvédica acredita-se que há energias existentes no corpo, mente e meio que se vive, e, quando há um desequilíbrio energético, causados por problemas emocionais, trauma físico ou má alimentação, por exemplo, são acumuladas toxinas que dão origem às doenças.
Medicina Alternativa e/ou Complementar
	Medicinas tradicionais exportadas para outros países
	Não são hegemônicas, mas são extremamente comuns, inclusive nos países industrializados
Medicina Alternativa e/ou Complementar
Homeopatia
Medicina Antroposófica
Massoterapia, Osteopatia, Quiropraxia
Acupuntura
Reflexologia
Fitoterapia
Naturopatia
Medicina Alternativa e/ou Complementar
Conjuntos profissionalizados
Alternativas de dieta e estilo de vida
Curas ‘Nova Era’ (Reiki, Qi-Dong)
Intervenções ‘mentais’
Bases científicas não convencionais
(ortomolecular, ozonioterapia, auto-hemoterapia, urinoterapia, iridologia)
Medicinas regionalizadasSetor Profissional (‘Formal’)
	Etnomedicina do mundo industrializado
Reconhecido formalmente (lei)
	Nunca dão conta de todas as necessidades da população
	Grandes poderes de intervenção e rotulação
Sistema Médico
	A estrutura de um Sistema Médico de reproduz a estrutura de sua sociedade
	Saúde é direito universal? 
É direito particular? 
É um produto a ser comprado?
Sistema Médico
	As desigualdades sociais costumam estar expostas dentro dos sistemas médicos
	Há diferenças dentro da biomedicina nas diversas sociedades
Ex. Maior intervencionismo nos EUA
Profissão da Saúde
	Profissão: grupo organizado, legalmente constituído, que controla a entrada em seu meio, identifica a certificação de um membro, os protege e, se for o caso, aplica sanções éticas
Profissão da Saúde
	Hierarquização na Saúde: em geral, categoria com maior autonomia e poder (inclusive sua remuneração)
	Subculturas médicas: maior destaque para especialidades que ‘curam’ do que as que ‘cuidam’
O Hospital
Segregação por categorias de doentes
Perda da individualidade
Relações pessoais insatisfatórias
Há também variações culturais
Medicina e Tecnologia
	Fascinação dos clientes
	Encarecimento dos tratamentos
	Novas questões do nascer ao morrer
	A aproximação aos exames e o distanciamento do paciente
Redes Terapêuticas
	Crise na Medicina Ocidental
	Redes complexas e não autoexcludentes de cuidados
	A compreensão e integração destas redes deve ser buscada nos sistemas e serviços de saúde
A importância da antropologia para a compreensão do fenômeno saúde-doença é incontestável. 
Junto com os dados quantitativos e com o conhecimento técnico-científico das doenças, qualquer ação de prevenção, tratamento ou de planejamento de saúde necessita levar em conta valores, atitudes e crenças de uma população.
Enfim pode-se dizer que a concepção de saúde-doença na antropologia da saúde ultrapassa os limites da biomedicina.
Ela reconhece as angústias, os medos, os sofrimentos, as questões filosóficas e culturais que afetam o ser humano.
A antropologia da saúde institui e viabiliza práticas entre pensamentos e ações, teorias e experiências de vida dos doentes. Organiza os símbolos e as categorias das doenças, por meio de fontes produtoras de sentido, sejam, biológicas, políticas, sociais, econômicas e culturais.
Utilizando-se do bom senso entre os paradoxos:
coletivo/indivíduo; 
vida/morte;
ciências médicas/ciências sociais;
objetividade/subjetividade.
A antropologia da saúde/doença, procura desvendar caminhos menos convergentes e construtivismos mais eficientes, num futuro próximo.

Mais conteúdos dessa disciplina