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MEDICAÇÃO PRÉ-ANESTÉSICA (MPA) Consiste na administração de um ou mais fármacos que promovam sedação, tranquilização e analgesia. É a fase que precede a indução anestésica, útil para preparar o paciente para a anestesia. A MPA deve ser realizada alguns minutos antes da indução anestésica, podendo ser utilizada as vias intravenosa (IV), intramuscular (IM) ou subcutânea (SC) para administração, a depender do fármaco utilizado. Em animais muito agressivos onde a fixação de um acesso venoso é difícil, é preferível utilizar fármacos de administração IM para evitar maior estresse para o animal, aproveitando o efeito sedativo para proceder a cateterização venosa posteriormente. É comum a associação de um fármaco sedativo ou tranquilizante à um analgésico potente, como um opióide, nos casos de dor pré-existente ou de procedimentos com alto escore de dor. Essa associação é chamada de neuroleptoanalgesia (sedação + analgesia). Objetivos da MPA: • Promover sedação ou tranquilização e analgesia para reduzir a ansiedade e agressividade do paciente de modo a facilitar a indução anestésica; • Promover relaxamento muscular; • Reduzir a dor e desconforto; • Reduzir a incidência de efeitos adversos dos fármacos anestésicos que serão usados posteriormente. • Potencializar a ação dos demais anestésicos, permitindo reduzir as doses; • Promover indução e recuperação suaves; • Reduzir secreções das vias aéreas e salivação; • Garantir melhor contenção e maior segurança para o médico veterinário Diversos fármacos são empregados na MPA. A escolha deles deve ser baseada em diferentes fatores, como o tipo de procedimento cirúrgico, presença de dor pré-operatória, grau de dor trans e/ou pós-operatória, espécie animal, particularidades do paciente (idade, temperamento, gestação, doenças intercorrentes, estado físico, etc). Principais grupos farmacológicos utilizados: • Anticolinérgicos; • Sedativos e Tranquilizantes; • Opióides. ANTICOLINÉRGICOS Antigamente os anticolinérgicos eram utilizados na MPA em quase todos os protocolos anestésicos, com o objetivo principal de redução das secreções do trato respiratório induzidas por outros agentes. Hoje seu uso foi reduzido, uma vez que a maioria dos fármacos atuais não causam tanta irritação no sistema respiratório. Outras justificativas de seu uso são: prevenção ou tratamento de bradicardia pré-anestésica e anestésica, diminuição da secreção salivar e bloqueio dos demais efeitos parassimpáticos indesejáveis. O mecanismo de ação dos fármacos anticolinérgicos é baseado no bloqueio da ligação da acetilcolina nas terminações das fibras colinérgicas do sistema nervoso autônomo, evitando assim seus efeitos muscarínicos. É importante considerar que estes fármacos causam aumento da frequência cardíaca, o que pode ser benéfico na prevenção da bradicardia induzida por outros agentes, porém pode ser deletério para animais com doença cardíaca pré-existente. Portanto, seu uso é contra-indicado em animais cardiopatas. Os principais fármacos desta classe utilizados são a atropina e escopolamina. 1) Atropina • Principais ações: - Broncodilatação e redução da secreção mucosa no trato respiratório; - Diminuição da salivação; - Midríase (dilatação da pupila); - Prevenção do laringoespasmo; - Redução do peristaltismo e da atividade secretora no trato gastrointestinal: reduz a incidência de vômitos e diarreia; - Taquicardia sinusal. • Pode ser administrada nas doses e vias recomendadas: Espécie Dose Via de administração Cães e Gatos 0,02 – 0,04 mg/kg IV ou IM Equinos* 0,02 – 0,04 mg/kg IV ou IM Ruminantes** 0,04 – 0,08 mg/kg IV ou IM Suínos 0,04 – 0,08 mg/kg IV ou IM Fonte: Lumb e Jones, 2017 * Não se recomenda o uso rotineiro de Atropina em equinos, uma vez que a redução do peristaltismo pode predispor à íleo paralítico, resultando em síndrome cólica. ** A salivação é efetivamente inibida em monogástricos, sendo pouco afetada nos ruminantes. Nesta espécie a saliva pode tornar-se mais viscosa, causando maior risco de obstrução das vias respiratórias. Portanto, assim como nos equinos, seu uso rotineiro não é recomendado. Figura 1: Efeitos da Atropina Fonte: Fantoni,2002 2) Escopolamina • Principais ações: - Midríase, ação antiespasmódica e anti-secretora semelhante ou superior à atropina, porém o efeito tem menor duração; - Maior ação sobre as glândulas salivares, brônquicas e sudoríparas, reduzindo as secreções; - Produz taquicardia mais discreta; - Pequena ação sobre o SNC, potencializando a sedação. • Pode ser administrado nas vias e doses recomendadas: Espécie Dose Via de Administração Cães e Gatos 0,01 – 0,02 mg/kg IV, IM, SC Equinos 0,14 – 0,3 mg/kg IV, IM Fonte: Massone, 2011; Ramos, 2012. A escopolamina é mais usada em equinos para prevenção ou tratamento da bradicardia induzida por outros fármacos, como os agonistas dos receptores α2- adrenérgicos, substituindo a atropina. Apesar de também apresentar efeitos antiespasmódicos, estes são de curta duração, reduzindo o risco associado à cólica. SEDATIVOS E TRANQUILIZANTES Os sedativos e tranquilizantes são essenciais na prática anestésica veterinária, sendo usados rotineiramente na maioria das espécies. O uso destes fármacos apresenta vantagens, como: acalmar o paciente, facilitar o cateterismo venoso, proporcionar analgesia, reduzir as respostas simpáticas à estimulação cirúrgica, reduzir a dose necessária dos outros anestésicos, promover indução e recuperação anestésicas suaves e tranquilas. A diferença entre sedativos e tranquilizantes é principalmente em relação ao estado de consciência. Os tranquilizantes produzem sensação de calma, redução da ansiedade, porém não causam alteração da consciência, diferente dos sedativos que a reduzem. As principais classes dos agentes tranquilizantes utilizados são: • Fenotiazinas: Acepromazina; • Benzodiazepínicos: Diazepam, Midazolam; • Butirofenonas: Azaperone; A principal classe de sedativos utilizados é: • Agonistas dos receptores α2-adrenérgicos: Xilazina, Detomidina. Fenotiazinas São muito utilizados em pequenos animais e equinos, com menor utilização em bovinos. Promovem tranquilização que não é dose-dependente, ou seja, o aumento da dose não aumentará significativamente o grau de tranquilização, apenas seus efeitos adversos. Por isso, quando se deseja intensificar a sedação utilizando um fenotiazínico, deve-se associá- lo à outra classe de agentes, como opióides e α-2 agonistas. Os fenotiazínicos exercem seus efeitos por meio do bloqueio de uma ampla variedade de receptores, incluindo adrenérgicos, muscarínicos, dopaminérgicos, serotoninérgicos e histamínicos. Seus efeitos tranquilizantes se devem principalmente ao bloqueio dos receptores de dopamina. 1) Acepromazina • Principais ações: - Tranquilização com relaxamento muscular; - Não possui propriedades analgésicas: em casos de presença de dor pré-existente ou procedimentos dolorosos, deve ser associado um analgésico potente, como um opióide (neuroleptoanalgesia). - Efeito antiemético; - Redução da resistência vascular periférica e consequentemente da pressão arterial: Hipotensão. Este é o principal efeito adverso associado ao uso da Acepromazina. A hipotensão pode persistir e se agravar durante o trans- operatório, uma vez que outros agentes também causam prejuízos cardiovasculares. Não é indicado para pacientes com alterações no sistema cardiovascular, como em casos de choque ou cardiopatias. O uso de doses mais baixas pode prevenir ou amenizar o desenvolvimento de hipotensão. - Priaprismo (prolapso de pênis): o prolapso peniano pode ocorrer em tempo prolongado, predispondo à paralisia peniana ou à traumas no órgão. Por esse motivo, seu uso deve ser evitado em garanhões e touros. - O período de latência (tempo desde a administração até o início dos efeitos)é de aproximadamente 30 minutos quando aplicada via IM, e apresenta longa duração do efeito (mais de 1 hora). • Pode ser administrada nas doses e vias recomendadas: Espécie Dose Via de Administração Cães e Gatos 0,05 – 0,01 mg/kg IV ou IM Equinos 0,02 – 0,05 mg/kg IV Equinos e Bovinos 0,05 – 0,1 mg/kg IM Fonte: Lumb e Jones, 2017 Benzodiazepínicos Os benzodiazepínicos exercem seus efeitos no SNC ao aumentar a afinidade do neurotransmissor GABA pelo seu receptor. O GABA é o principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central. Isso resulta em redução da ansiedade e agressividade, hipnose, relaxamento muscular e efeitos anticonvulsivantes, características normalmente associadas à esta classe farmacológica. Esta classe não confere tranquilização potente quando usados isoladamente, e por isso geralmente são utilizados em associação à outros tranquilizantes ou sedativos. Muitas vezes são usados na MPA quando se deseja aproveitar seu efeito miorrelaxante durante o procedimento cirúrgico. Por exemplo, em uma OSH de cadela ou gata, um benzodiazepínico usado previamente pode facilitar a tração do pedículo ovariano. Alguns fármacos anestésicos, como barbitúricos e propofol, também exercem seus efeitos sobre os receptores do GABA. Por isso, o uso de um benzodiazepínico previamente potencializará a depressão do SNC, reduzindo então a dose necessária para indução anestésica com estes fármacos. O Flumazenil é um fármaco antagonista dos benzodiazepínicos, podendo ser administrado quando se deseja reverter seus efeitos. Os fármacos mais comumente usados na medicina veterinária são o Diazepam e o Midazolam. Estes também são amplamente utilizados em associações na indução anestésica. 1) Diazepam • Principais ações: - Efeito anticonvulsivante potente; - Relaxamento muscular; - Tranquilização leve e ataxia; - Pequena depressão respiratória; - Discreta ação analgésica; - Não exerce efeitos significativos no sistema cardiovascular; - Rapidamente absorvido pelo trato gastrintestinal, apresentando boa biodisponibilidade quando administrado via oral (VO). • Pode ser administrado nas doses e vias recomendadas: Espécie Dose Via de Administração Cães e Gatos 0,5 – 1 mg/kg 1-2 mg/kg IV VO Equinos 0,1 – 0,2 mg/kg IV Fonte: Fantoni, 2002; Lumb e Jones, 2017; 2) Midazolam • Principais ações: - Efeito anticonvulsivante presente, porém menos potente; - Relaxamento muscular; - Tranquilização leve e ataxia; - Pequenos efeitos cardiovasculares: ligeira redução na frequência cardíaca e débito cardíaco, resultando em discreta diminuição da pressão arterial; - Maior potência hipnótica; • Pode ser administrado nas doses e vias recomendadas: Espécie Dose Via de Administração Cães e Gatos 0,2 – 0,5 mg/kg IV, IM Equinos 0,05 – 0,1 mg/kg IV, IM Suínos 0,3 – 1 mg/kg IM Fonte: Fantoni, 2002; Lumb e Jones, 2017; Butirofenonas As butirofenonas são pouco usadas atualmente, entretanto o Azaperone é um fármaco de grande utilidade para tranquilização de suínos. Nesta espécie ele pode ser usado em associação a outros fármacos e à técnicas de bloqueio local para pequenos procedimentos cirúrgicos à campo, como orquiectomia de cachaços. 1) Azaperone • Principais ações: - Tranquilização dose dependente: doses baixas produzem tranquilização leve, e doses mais altas produzem também ataxia, podendo levar ao decúbito; - Redução da ansiedade; - Atividade antiemética potente; - Não apresenta propriedades analgésicas; - Poucos efeitos respiratórios e cardiovasculares, mas pode causar ligeira hipotensão; - Apresenta efeito prolongado, podendo durar até 6 horas. • Pode ser administrado na dose e via recomendada: Espécie Dose Via de Administração Suínos 0,5 – 4 mg/kg IM Fonte: Lumb e Jones, 2017; AGONISTAS DOS RECEPTORES α2-ADRENÉRGICOS Esta classe farmacológica é amplamente utilizada na MPA de diversas espécies, proporcionando sedação, analgesia visceral e relaxamento muscular. Estes fármacos agem pela estimulação dos receptores α2-adrenérgicos. Tais receptores estão distribuídos por diversos tecidos além do tecido neuronal, como na maioria dos órgãos, e por isso exercem uma variedade de efeitos adversos, como: • Efeitos no SNC: - Reduz a frequência de descarga nos tratos do córtex cerebral, resultando em boa sedação; - Liga-se aos receptores em vários pontos das vias nocioceptivas, resultando em analgesia principalmente das vísceras. • Efeitos no Sistema Cardiovascular: - Diminuição significativa da frequência cardíaca = Bradicardia; - Diminuição do débito cardíaco. - Pode causar arritmias, como bloqueio atrioventricular. * Estes efeitos são toleráveis em animais com a função cardiovascular normal. Entretanto deve-se tomar cuidado com os fármacos que serão associados, uma vez que alguns podem também deprimir este sistema, potencializando os efeitos adversos. • Efeitos no Sistema Gastrointestinal: - Redução da motilidade do trato gastrointestinal; - Aumento do tempo de esvaziamento gástrico. • Efeito no Sistema Respiratório - Depressão respiratória dose-dependente. • Outros efeitos: - Prolapso peniano; - Ptose labial; - Ataxia; - Abaixamento da cabeça (principalmente em equinos); - Aumento dos níveis de glicose sanguínea por inibição da secreção de insulina (contra-indicado em diabéticos); Em decorrência dos vários efeitos adversos dose-dependentes associados à esta classe, recomenda-se administrar estes fármacos em associação à outros, como os opióides, para que possamos utilizar doses baixas, reduzindo assim a incidência de tais efeitos. Para esta classe existe um fármaco antagonista chamado Ioimbina. Sua administração reverte os efeitos da estimulação dos receptores α2-adrenérgicos. Os principais fármacos utilizados na rotina veterinária são a Xilazina e a Detomidina. 1) Xilazina • Principais ações: - Boa sedação; - Reduz a dose dos agentes anestésicos utilizados para indução; - Início rápido do efeito (5 a 10 min) e duração da ação por 30-50 min. - Bradicardia persistente com diminuição da pressão arterial; - Pode predispor à arritmias, como bloqueio atrioventricular. Geralmente as arritmias são transitórias, desaparecendo ao fim do efeito do fármaco. Entretanto, podem ser deletérias para animais com doença cardíaca pré-existentes. - Diminuição da frequência respiratória; - Redução do peristaltismo no trato gastrointestinal e das contrações ruminais; - Efeito analgésico e relaxamento da musculatura lisa: muito utilizada na MPA de equinos com síndrome cólica para analgesia visceral do trato gastrointestinal. - Aumenta a produção urinária; - Aumenta o tônus uterino e pressão intrauterina, além de reduzir o aporte de oxigênio para o útero: evitar usar em fêmeas prenhes; - Pode causar vômito em cães e gatos, principalmente nos gatos. • Pode ser administrada nas doses e vias recomendadas: Espécie Dose Via de Administração Cães e Gatos 0,1 – 1 mg/kg IM, IV Equinos 0,2 – 1 mg/kg IM, IV Bovinos* 0,05 – 0,1 mg/kg IM, IV Pequenos Ruminantes 0,015 – 0,025 mg/kg IM, IV Suínos 1-2 mg/kg IM Fonte: Lumb e Jones, 2017; 2) Detomidina • Possui praticamente os mesmos efeitos que a Xilazina, sendo mais potente e por isso as doses são menores. Difere no tempo de ação, com duração dos efeitos de aproximadamente 1 hora. • Pode ser administrada nas doses e vias recomendadas: Espécie Dose Via de Administração Cães e Gatos 0,05 – 0,2 mg/kg 0,1 – 0,4 mg/kg IV IM Equinos 0,01 – 0,04 mg/kg IM, IV Bovinos 0,02 – 0,1 mg/kg IM, IV Pequenos Ruminantes 0,1 – 0,2 mg/kg IM, IV Fonte: Lumb e Jones, 2017; OPIÓIDES São fármacos que interagem com os receptores opióides. Estes receptores estão localizados por todo o corpo, incluindo cérebro, medula espinhal, trato gastrointestinal, trato urinário, útero, etc. Em consequência disso, os efeitossão disseminados após a administração sistêmica destes fármacos. Os principais efeitos farmacológicos vistos são: • Analgesia: os opióides diminuem a liberação dos neurotransmissores excitatórios e hipopolarizam os nociceptores, resultando em diminuição da transmissão na medula espinhal. Isso resulta em analgesia potente. • Sedação: quando administrados isoladamente os opióides produzem um grau de sedação dose-dependente. Entretanto, quando utilizados em associação à outros fármacos, como fenotiazinas e agonistas α2-adrenérgicos, podem produzir sedação profunda. Esta associação é muito utilizada na MPA, uma vez que promove uma sedação de qualidade, com boa analgesia, e permite utilizar menor dose dos fármacos, reduzindo também a incidência de efeitos adversos. • Excitação: o uso de doses altas e administração rápida por via intravenosa pode causar efeito excitatório. Gatos e cavalos possuem maior tendência à este efeito, desenvolvendo excitação transitória, geralmente de curta duração, mas pode também gerar disforia que continua por várias horas, caracterizada por ataxia, vocalização e hipersensibilidade. Por isso, é importante que a administração intravenosa seja feita lentamente, ou opte por uma via de administração intramuscular quando possível. • Depressão respiratória: os opióides podem causar diminuição da frequência respiratória, principalmente quando associados à outros agentes depressores. • Efeitos antitussígenos: agem diretamente no centro da tosse no bulbo. Isso facilita a intubação endotraqueal. • Efeitos cardiovasculares: geralmente os efeitos são mínimos. Pode ocorrer bradicardia discreta. • Motilidade gastrointestinal: pode causar redução do peristaltismo e diminuição das secreções gastrointestinais. Estes efeitos são mais acentuados quando utilizados em associação aos agonistas α2-adrenérgicos. • Efeito sobre a termperatura corpórea: os opióides podem interferir na termorregulação, resultando em hipotermia geralmente em cães, ou em hipertermia em outras espécies, como gatos, equinos, suínos e ruminantes. A Naloxona é um fármaco antagonista opióide, ou seja, pode ser utilizado para reverter os efeitos dos fármacos opióides. Seu uso é indicado nos casos de se querer reverter o efeito sedativo ou alguns efeitos adversos, porém deve-se lembrar que o efeito analgésico também será revertido, resultando no retorno da dor do paciente. Os fármacos opióides mais utilizados na MPA são: Morfina, Meperidina, Tramadol, Butorfanol e Metadona. 1) Morfina • Principais ações: - Analgesia para dor leve à intensa, sendo que quanto maior a dose, maior o efeito analgésico. - Provoca liberação de histamina após a administração, o que leva à vasodilatação periférica e hipotensão; - Provoca náuseas, vômito, defecação imediata; * Deve ser evitada em animais com traumatismo cranioencefálico ou com aumento da pressão intracraniana pelo risco de vômito, uma vez que este provoca aumento da pressão. - Sedação leve. Pode ser usada isolada, mas na maioria das vezes é associada à um sedativo ou tranquilizante; - Pode causar depressão respiratória leve, respiração ofegante após a administração. Isso não é tão importante em animais saudáveis, mas deve ser monitorado com cautela principalmente quando se usa outros fármacos depressores; - Hipotermia; - Bradicardia, porém sem efeito sobre o débito cardíaco em cães saudáveis; - Diminuição da micção e produção de urina. - Risco de excitação quando usada em doses altas em gatos e cavalos; - O início dos efeitos demora cerca de 5 a 15 minutos, com duração de 30 a 45 minutos. • Pode ser administrada nas doses e vias recomendadas: Espécie Dose Via de Administração Cães 0,25 – 0,5 mg/kg 0,25 – 1 mg/kg IV Lento* IM, SC Gatos 0,002 - 0,1 mg/kg IV Lento, IM, SC Equinos 0,1 – 0,2 mg/kg IV Lento, IM, SC Ruminantes** 0,25 – 0,5 mg/kg 0,25 – 1 mg/kg IV Lento IM, SC Suínos** 0,25 – 0,5 mg/kg 0,25 – 1 mg/kg IV Lento IM, SC Fonte: Fantoni, 2002; Lumb e Jones, 2017; * A administração intravenosa deve ser feita lentamente, durante 1 a 2 minutos, para prevenir a ocorrência de efeitos excitatórios. ** A morfina tem uso limitado em ruminantes e suínos, uma vez que são poucos os estudos deste fármaco nestas espécies. 2) Meperidina (Petidina) • Principais ações: - Provoca maior liberação de histamina do que a Morfina, sendo que a administração IV rápida por produzir efeitos adversos cardiovasculares importantes. Por isso a via de administração recomendada é intramuscular. - Efeito inotrópico negativo: reduz a contratilidade do miocárdio, por isso deve ser evitada em animais cardiopatas; - Não provoca vômito e defecação; - Reduz salivação e secreções respiratórias; - Nos equinos pode causar hiperestesia, fasciculações musculares e sudorese, além de efeitos cardiovasculares adversos. - Apresenta potencial analgésico menos potente: não é a melhor escolha para MPA de procedimentos com alto escore de dor; - Possui curta duração do efeito (0,5 a 3 horas em cães e gatos); • Pode ser administrada nas doses e vias recomendadas: Espécie Dose Via de Administração Cães 3 - 5 mg/kg IM Gatos 3 – 5 mg/kg IM Equinos 2 – 3 mg/kg IM Ruminantes 2 – 5 mg/kg IM Suínos 1 – 2 mg/kg IM Fonte: Fantoni, 2002; Lumb e Jones, 2017; Luna et al, 2016. 3) Tramadol • Principais ações: - Efeito analgésico: O principal efeito analgésico do tramadol resulta do metabolismo dele à O-desmetiltramadol, substância que atuará como agonista opióide. Os cães e equinos não produzem quantidades substanciais de O- desmetiltramadol, e, por isso, o efeito analgésico nestas espécies são fracos. Já os gatos produzem quantidades suficientes desta substância, possuindo efeitos analgésicos efetivos. - Poucos efeitos sobre o sistema gastrointestinal, não produz vômito e defecação; • Pode ser administrado nas doses e vias recomendadas: Espécie Dose Via de Administração Cães 0,5 – 4 mg/kg IM, SC Gatos 0,5 - 2 mg/kg IM, SC Equinos 1 mg/kg IM, SC Fonte: Fantoni, 2002; Luna et al, 2016. 4) Butorfanol • Principais ações: - Efeito analgésico dose-dependente, porém menor que o da Morfina. Pode ser usada no controle de dor leve à moderada; - Efeito antiemético: previne o vômito; - Efeito antitussígeno; - Efeito sedativo: pode causar sedação leve quando usado isolado e potencializa a sedação de outros fármacos quando usado associado. - Menor tendência a causar excitação, porém doses altas podem induzir ataxia, excitação ou disforia. - Diminui a motilidade do trato gastrointestinal; - Causa menor depressão respiratória que a Morfina, com pouca interferência nos parâmetros respiratórios; - Provoca mínimas alterações cardiovasculares. • Pode ser administrado nas doses e vias recomendadas: Espécie Dose Via de Administração Cães e Gatos 0,05 – 0,4 mg/kg IV, IM, SC Equinos 0,005 – 0,1 mg/kg IV, IM, SC Ruminantes 0,05 – 0,2 mg/kg IV, IM, SC Fonte: Luna et al, 2016. 5) Metadona • Principais ações: - Efeito analgésico potente, semelhante ao da Morfina ou pode ser mais efetivo para alivio de dor crônica e refratária. - Provoca menor liberação de histamina do que a Morfina. - Não produz vômito; - Pode produzir efeitos depressores cardiovasculares mais significativos que a Morfina. - Pode causar excitação quando usadas doses elevadas. • Pode ser administrada nas doses e vias recomendadas: Espécie Dose Via de Administração Cães 0,25 – 0,5 mg/kg IV, IM, SC Gatos 0,1 – 0,25 mg/kg IV, IM, SC Equinos 0,15 – 0,25 mg/kg IV, IM, SC Fonte: Lumb e Jones, 2017. OUTROS FÁRMACOS Cetamina A cetamina é um anestésico dissociativo muito utilizado na fase da indução anestésica em grandes animais. Entretanto, pode ser usada em associação à outros fármacos na MPA de cães e gatos, principalmente em animais muito agressivos, agitados ou eufóricos,com a intenção de promover imobilização do paciente. O anestésico dissociativo caracteriza-se pela dissociação dos sistemas talamocortical e límbico, resultando em alteração do estado de consciência do animal. Normalmente o paciente entra em um estado de catalepsia, onde permanece com os reflexos oculares, porém não responde aos estímulos externos. • Principais ações: - Sistema cardiovascular: efeito estimulador, aumentando a pressão arterial, frequência cardíaca e o débito cardíaco. Isso pode ser positivo para protocolos onde serão administrados concomitantemente fármacos que deprimem o sistema cardiovascular, porém pode ser deletério para pacientes cardiopatas, uma vez que aumenta o trabalho cardíaco. Por isso deve ser evitada nesses casos. - Sistema respiratório: não provoca depressão respiratória significativa, mas pode provocar alterações no padrão respiratório. Induz à broncodilatação e diminuição da resistência das vias respiratórias, mas aumenta as secreções do trato respiratório e salivação. - Produz analgesia profunda; - Pouco ou nenhum relaxamento muscular. Em alguns casos observa-se rigidez muscular e espasticidade tônica, semelhante à um quadro convulsivo. Pode ser associada à fármacos que garantem relaxamento muscular, como benzodiazepínicos e agonistas α2-adrenérgicos. Não se recomenda a utilização da cetamina de forma isolada. Geralmente é administrada em associação à um opióde, agonistas α2-adrenérgicos, benzodiazepínicos ou acepromazina, o que garante boa imobilização com relaxamento muscular e analgesia. • Pode ser administrada nas doses e vias recomendadas: Espécie Dose Via de Administração Cães 11 - 22 mg/kg IM Gatos 8 - 15 mg/kg IM Fonte: Fantoni, 2002. OBSERVAÇÕES • A MPA é a primeira fase da anestesia geral, seguida pela indução e manutenção anestésica. Entretanto, os fármacos e protocolos citados podem ser utilizados quando se deseja apenas sedar ou tranquilizar o paciente para pequenos procedimentos, como realização de exames de imagem, exames oftálmicos, e manipulação de pacientes mais agressivos. Além disso, podem ser usados em associação à bloqueios locais para procedimentos cirúrgicos, sendo amplamente utilizados em grandes animais, como em orquiectomia de equinos em posição quadrupedal, remoção de tecido de granulação exuberante, manejo de feridas, suturas de pele, descorna em ruminantes, etc. • Em animais de grande porte o decúbito é extremamente prejudicial para diversos sistemas orgânicos. Em decorrência do grande volume das vísceras abdominais, principalmente o trato gastrointestinal, quando o paciente vem a decúbito há grande pressão sobre grandes vasos abdominais e sobre o diafragma, provocado alterações no retorno venoso e prejudicando a amplitude pulmonar e consequentemente a qualidade respiratória. Além disso, em função do peso elevado, o tempo prolongado em decúbito pode resultar em compressão e paralisia de alguns nervos. Por isso, sempre que possível optamos por realizar procedimentos com sedação ou tranquilização + bloqueio local para que o animal possa permanecer em posição quadrupedal, evitando maiores complicações. • Existem inúmeras opções de fármacos para a MPA. Eles podem ser usados isoladamente ou em associação. A associação é benéfica, visto que permite a redução das doses, o que consequentemente reduz os efeitos adversos. Todos os fármacos produzem efeitos adversos, sendo que alguns efeitos podem ser positivos e outros podem ser indesejáveis. Por isso, devemos adequar o protocolo de modo a aproveitar os efeitos benéficos e diminuir ao máximo os efeitos indesejáveis, de acordo com o paciente em questão. Por exemplo, os opióide são analgésicos potentes, que podem ser utilizados na MPA para promoção da analgesia, mas possui o efeito adverso de produzirem sedação ou potencializarem a sedação de outros fármacos. Este é um efeito adverso benéfico e desejável para a MPA. Os α2-adrenérgicos são produzem ótima sedação, associada à relaxamento muscular e analgesia. Entretanto, os fármacos desta classe causam efeitos adversos indesejáveis como depressão cardiorrespiratória. Por isso, podemos utilizar os fármacos dessa classe em menor dose, associando um fármaco que potencialize a sedação (como um opióide), para que os efeitos indesejáveis sejam diminuídos. • Uma consideração importante ao se escolher um fármaco para MPA é seu período de latência e tempo de duração do efeito. Por exemplo, para realizar uma MPA ou procedimentos rápidos em equinos, geralmente optamos por escolher um fármaco da classe dos α2-adrenérgicos, como a Xilazina, pois este fármaco possui baixo tempo de latência (5 minutos) e baixo tempo de duração (o efeito máximo dura cerca de 30 minutos). Se fosse um procedimento de duração intermediária, poderíamos optar pela Detomidina, que a duração do efeito máximo dura até 1 hora. Já para procedimentos mais prolongados, poderíamos usar a Acepromazina, uma vez que o efeito desta dura mais de1 hora, entretanto demora cerca de 30 minutos para o início do efeito.