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1 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 2 2 CONCEITOS GERAIS ................................................................................ 3 2.1 Cultura .................................................................................................. 3 2.2 Identidade cultural ................................................................................ 6 2.3 Memória ............................................................................................... 7 2.4 Arquivos ............................................................................................. 11 2.5 Instituições Arquivísticas .................................................................... 15 3 A SOCIEDADE E A CULTURA BRASILEIRA ........................................... 17 3.1 A Arquivística no Brasil ....................................................................... 19 3.2 O Arquivo Nacional Brasileiro ............................................................. 25 3.3 O Papel dos Arquivistas ..................................................................... 28 3.4 Programa de Modernização Institucional ........................................... 34 3.5 Contexto Atual .................................................................................... 37 4 Usuários de arquivos públicos e internet .................................................. 40 4.1 Lei de Acesso à informação e internet ............................................... 44 5 Disposições gerais .................................................................................... 48 5.1 Distinção entre Arquivo, Biblioteca e Museu ...................................... 51 5.2 Ciclo de Vida dos Documentos ou Teoria das 3 Idades ..................... 54 5.3 Avaliação ............................................................................................ 59 5.4 Tabela de Temporalidade e Plano de Destinação .............................. 60 5.5 Modelo de Tabela de Temporalidade ................................................. 63 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................... 67 2 1 INTRODUÇÃO Prezado aluno! O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 3 2 CONCEITOS GERAIS Fonte: lusoleituras.files.wordpress.com 2.1 Cultura Cultura é constantemente associada à sabedoria, educação e, até mesmo, à sofisticação. Sob esse ponto de vista, cultura significa nível social e educacional, sendo atribuída àqueles considerados letrados; apreciadores e conhecedores das artes, ciências e outros campos do conhecimento. Em “Você tem cultura?”, Roberto da Matta faz uma distinção entre os conceitos de cultura, considerando que o termo também é usado para discriminar – quando os que não têm erudição são considerados “sem cultura”: Cultura aqui é equivalente a um volume de leituras, a controle de informações, a títulos universitários e chega até mesmo a ser confundida com inteligência, como se a habilidade para realizar certas operações mentais e lógicas (que definem de fato a 4 inteligência) fosse algo a ser medido ou arbitrado pelo número de livros que uma pessoa leu, as línguas que pode falar, ou os quadros e pintores que pode, de memória enumerar. (DA MATTA, 1986, p. 122) De acordo com o conceito antropológico, cultura refere-se à personalidade e à vida social do indivíduo. Nesse contexto, cultura é conceituada como o conjunto de características que estabelecem normas comuns de comportamento, identificando um ser ao grupo: Para nós, “cultura” não é simplesmente um referente que marca uma hierarquia de “civilização”, mas a maneira de viver total de um grupo, sociedade, país ou pessoa. Cultura é, em Antropologia Social e Sociologia, um mapa, um receituário, um código através do qual as pessoas de um dado grupo pensam, classificam, estudam e modificam o mundo e a si mesmas. (DA MATTA, 1986) A cultura, para Anna Flávia Rocha e Silva, estabelece, portanto, normas básicas de comportamento, mas ela é regulada por um número finito de regras, permitindo diversas variações dentro de uma única cultura. Esse conjunto de regras define como classificamos o mundo. Uma única cultura possui várias formas de atualização e expressão: “Apresentada assim, a cultura parece ser um bom instrumento para compreender as diferenças entre os homens e as sociedades. “ Essas diferenças seriam resultado das diversas configurações ou relações que as sociedades estabelecem no decorrer de suas histórias. (DA MATTA,1986) Wendy Griswold apresenta exemplos nos quais a cultura é entendida pelas sociedades. A cultura pode ser analisada como o conjunto de costumes nacionais, atividades consideradas elitistas, eventos de entretenimento, e variações no significado de símbolos ou objetos. Assim, constituem aspectos da cultura, a maneira respeitosa como um executivo japonês recebe um cartão de visitas, o hábito de assistir apresentações de música clássica, a situação cotidiana manifestada numa tira de história em quadrinhos, ou a forma distinta como a classe trabalhadora e a classe alta tratam animais de estimação. Assim, Griswold (2003) define cultura, “Cultura refere-se ao lado expressivo da vida humana, em outras palavras, ao comportamento, objetos, e ideias que podem ser entendidas para expressar, ou para significar alguma outra coisa.” Roque de Barros Laraia trata cultura como “uma lente através da qual o homem vê o mundo.” (1986, p.74). Segundo ele, “nenhum indivíduo é capaz de participar de 5 todos os elementos de sua cultura.” - ele pode conservar aspectos de sua cultura e também acolher outros costumes culturais, independentemente de sua nacionalidade. As sociedades estão em constante interação e cada cultura possui sua maneira de funcionar. Se as culturas são entendidas em seus contextos particulares, evitamos conflitos e criação de estereótipos. Todo sistema cultural tem a sua própria lógica e não passa de um ato primário de etnocentrismo tentar transferir a lógica de um sistema para outro. Infelizmente, a tendência mais comum é de considerar lógico apenas o próprio sistema e atribuir aos demais um alto grau de irracionalismo. (LARAIA, 1986, p.90). Essa tendência de condenar o diferente como irracional e bárbaro é um fenômeno universal, chamado de etnocentrismo, o qual Laraia define como um fenômeno universal: O ponto fundamental de referência não é a humanidade, mas o grupo. Daí a reação, ou pelo menos, a estranheza, em relação aos estrangeiros (...) comportamentos etnocêntricos resultam também em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes. Práticas de outros sistemas culturais são catalogadas como absurdas, deprimentes e imorais. (LARAIA, 1986) Já Lévi-Strauss afirma que “a diversidade das culturas é de fato no presente, e também de direito nopassado, muito maior e mais rica que tudo o que estamos destinados a dela conhecer.” (2000) Segundo ele, “duas culturas elaboradas por homens pertencentes a uma mesma raça podem diferir tanto ou mais que duas culturas provenientes de grupos racialmente afastados. As culturas não se diferem do mesmo modo. Para Lévi-Strauss as sociedades humanas nunca se encontram isoladas e o contato entre elas provoca estranhamentos e desejos de oposição: É na própria medida em que pretendemos estabelecer uma discriminação entre as culturas e os costumes, que nos identificamos mais completamente com aqueles que tentamos negar. Recusando a humanidade àqueles que surgem como os mais “selvagens” ou “bárbaros” dos seus representantes, mais não fazemos que copiar-lhes as suas atitudes típicas. O bárbaro é em primeiro lugar o homem que crê na barbárie. (Lévi-Strauss, 2000) Tanto na negação ou aceitação de novos costumes, é no contato com outras culturas que as sociedades reafirmam ou modificam sua própria cultura na construção de sua identidade. 6 2.2 Identidade cultural Na descoberta de novos hábitos, o indivíduo revê, e reafirma ou modifica sua cultura original, identificando-se ou estranhando uma dada cultura. Lévi-Strauss afirma que todo o processo cultural é função de uma coligação entre as culturas: Esta coligação consiste em pôr em comum (consciente ou inconsciente, voluntário ou involuntário, intencional ou acidental, procurado ou obrigado) das possibilidades que cada cultura encontra no seu desenvolvimento histórico; finalmente admitimos que esta coligação era tanto mais fecunda quanto se estabelecia entre culturas mais diversificadas. (Lévi-Strauss, 2000) Manuel Parés i Maicas caracteriza a identidade cultural como o sentimento de pertencer a uma sociedade, relacionada com a reafirmação das raízes. Segundo ele, as características que definem a identidade cultural diferem em cada comunidade, ainda que estas sejam partes da mesma nação. A identificação com um grupo pode ocorrer de acordo com características como etnia, língua, religião, compartilhamento de um território, classe social, entre outras. A identidade cultural está sujeita às mudanças advindas do contato com outras culturas e outras influências externas: A identidade cultural sempre leva implícita em si a ideia de alteridade, e de relação com o outro, a par do sentido de pertencimento ao que consideramos que nos é próprio. Não podemos concebê-la como algo estático, senão como uma obra, um fenômeno mutante. (MAICAS, 1996) Mas esse contato entre diversas culturas, ao mesmo tempo em que reforça a cultura originária, também ressalta a identidade como efêmera. Stuart Hall explica que as sociedades modernas estão em mudança constante e nesse contexto, as sujeitas também assume identidades distintas, “variáveis”, “provisórias” e “problemáticas”, dependendo do momento: Esse processo produz o sujeito pós-moderno, conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma “celebração móvel”: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. (HALL, 1999) Com a diversidade cultural, Hall argumenta que as identidades nacionais também são afetadas pela globalização; antes centradas, hoje elas estão sendo deslocadas: Colocadas acima do nível da cultura nacional, as identificações “globais” começam a deslocar e, algumas vezes, a apagar, as identidades nacionais (...) Os 7 fluxos culturais entre as nações, e o consumismo global criam possibilidades de “identidades partilhadas” – como “consumidores” para os mesmos bens, “clientes” para os mesmos serviços, “públicos” para as mesmas mensagens e imagens – entre pessoas que estão bastante distantes umas das outras no espaço e no tempo. Á medida em que as culturas nacionais tornam-se mais expostas a influências externas, é difícil conservar as identidades culturais intactas ou impedir que elas se tornem enfraquecidas através do bombardeamento e da infiltração cultural. Por sua vez, Everardo P. Guimarães Rocha afirma que a diferença cultural é ameaçadora porque fere nossa própria identidade. Dessa forma, negamos a cultura do diferente para reafirmar a nossa própria identidade cultural, considerando o estranho “atrasado”, o que reforça a identidade do nosso próprio grupo. Contrapondo-se à ideia de etnocentrismo, existe a relativização - quando o diferente é compreendido através dos seus próprios valores e não através do olhar de quem julga: Quando vemos que as verdades da vida são menos uma questão de essência das coisas e mais uma questão de posição: estamos relativizando (...) Relativizar é não transformar a diferença em hierarquia, em superiores e inferiores ou em bem e mal, mas vê-la na sua dimensão de riqueza por ser diferença. (ROCHA, 1984) A relativização é não somente um processo para evitar conflitos e negação da cultura do outro. Entendendo o diferente em seu contexto, reforçamos nossa própria identidade ao reconhecermos nossas raízes culturais. 2.3 Memória “Memória” significa aquisição, formação, conservação e evocação de informações. A aquisição é também chamada de aprendizado ou aprendizagem: só se “grava” aquilo que foi aprendido. A evocação é também chamada de recordação, lembrança, recuperação. Só lembramos aquilo que gravamos, aquilo que foi aprendido. Podemos afirmar, conforme Norberto Bobbio, que somos aquilo que recordamos, literalmente. Izquierdo nos relata que não podemos fazer aquilo que não sabemos, nem comunicar nada que desconheçamos, isto é, nada que não esteja na nossa memória. Também não estão a nossa disposição os conhecimentos 8 inacessíveis, nem formam parte de nós episódios dos quais esquecemos ou os quais nunca atravessamos. O acervo de nossas memórias faz com que cada um de nós seja o que é: um indivíduo, um ser para o qual não existe outro idêntico. Alguém poderia acrescentar: “...e também somos o que resolvemos esquecer”. Sem dúvida; mas não há como negar que isso já constitui um processo ativo, uma prática da memória: nosso cérebro “lembra” quais são as memórias que não quer trazer à tona, e evita recordá-las: as humilhações, por exemplo, ou as situações profundamente desagradáveis ou inconvenientes. De fato, não as esquece, pelo contrário: as lembra muito bem e muito seletivamente, mas as torna de difícil acesso. O passado, nossas memórias, nossos esquecimentos voluntários, não só nos dizem quem somos, como também nos permitem projetar o futuro; isto é, nos dizem quem poderemos ser. O passado contém o acervo de dados, o único que possuímos, o tesouro que nos permite traçar linhas a partir dele, atravessando, rumo ao futuro, o efêmero presente em que vivemos. Não somos outra coisa senão isso; não podemos sê-lo. Se não temos hoje a Medicina entre nossas memórias, não poderemos praticá- la amanhã. Se não nos lembramos de como se faz para caminhar, não poderemos fazê-lo. Se não recebemos amor quando crianças, dificilmente saberemos oferecê-lo quando adultos. O conjunto das memórias de cada um determina aquilo que se denomina personalidade ou forma de ser. Um humano ou um animal criado no medo será mais cuidadoso, introvertido, lutador ou ressentido, dependendo de suas lembranças específicas mais do que de suas propriedades congênitas. Nem sequer as memórias dos seres clonados (como os gêmeos univitelinos) são iguais; as experiências de vida de cada um são diferentes. Uma vaca clonada de outra vaca terá mais ou menos acesso à comida do que a vaca original, ficará prenhe mais ou menos vezes, seus partos serão mais ou menos dolorosos, sofrerá mais a chuva ou o calor que a outra; e as duas não serão exatamente iguais, exceto na aparência física. Memória têm os computadores, as bibliotecas, o cachorro que nos reconhece pelo cheiro depoisde vários anos, os elefantes de quem se diz terem muita (mas ninguém mediu), os povos ou países e, logicamente, nós, os humanos. Mas cada elefante, cada cachorro e cada ser humano é quem é, um indivíduo diferente de qualquer congênere, graças justamente à memória; a coleção pessoal de lembranças de cada indivíduo é distinta das demais, é única. Todos recordamos nossos pais, mas os pais de cada um de nós foram diferentes. Todos recordamos, 9 geralmente vaga, mas prazerosamente, a casa onde passamos nossa primeira infância; mas a infância de uns foi mais feliz que a de outros, e as casas de alguns desafortunados trazem más lembranças. Todos recordamos nossa rua, mas a rua de cada um foi diferente. Eu sou quem sou, cada um é quem é, porque todos lembramos de coisas que nos são próprias e exclusivas e não pertencem a mais ninguém. Nossas memórias fazem com que cada ser humano ou animal seja um ser único, um indivíduo. O acervo das memórias de cada um nos converte em indivíduos. Porém, tanto nós como os demais animais, embora indivíduos, não sabemos viver muito bem em isolamento: formamos grupos. “Deus os cria e eles se juntam”, afirma o ditado popular. Esse fenômeno é tanto mais intenso e importante quanto mais evoluído seja o animal. A necessidade da interação entre membros da mesma espécie, ou entre diferentes espécies inclui, como elemento-chave, a comunicação entre indivíduos. Essa comunicação é necessária para o bem-estar e para a sobrevivência. Nas espécies mais avançadas, o altruísmo, a defesa de ideais comuns, as emoções coletivas são parte de nossa memória e servem para nossa intercomunicação. Os golfinhos ajudam- se uns aos outros quando passam por dificuldades. Os humanos, embora às vezes pareça o contrário, também. Procuramos laços, geralmente culturais ou de afinidades e, com base em nossas memórias comuns, formamos grupos: comarcas, tribos, povos, cidades, comunidades, países. Consideramo-nos membros de civilizações inteiras e isso nos dá segurança, porque nos proporciona conforto e identidade coletiva. Nos sentimos apoiados pelo resto do grupo, chame-se este família, bairro, cidade, país ou continente. Os europeus e os norte-americanos, por exemplo, claramente pertencem à Civilização Ocidental. Mas dentro desta, pertencem de maneira mais entranhável aos grupos que sentem mais próximos porque com eles compartilham uma série de memórias e uma história. É comum que morando, digamos, nos Estados Unidos, os europeus tendam a se associar entre si e os latino- americanos também; geralmente mais do que com os nativos do lugar. A recordação de hábitos, costumes e tradições que nos são comuns leva a preferências afetivas e sociais. A identidade dos povos, dos países e das civilizações provém de suas memórias comuns, cujo conjunto denomina-se História. A França é a França porque seus habitantes se lembram de coisas francesas: Carlos Magno, Napoleão, Victor Hugo, Verlaine. O conjunto dessas lembranças faz com que os franceses se sintam e sejam franceses. O mesmo acontece com os demais países e as memórias em 10 comum de seus habitantes. Nós somos membros da Civilização Ocidental porque nossa história comum inclui Moisés, César, Jesus, o monoteísmo, os gregos, os romanos, os bárbaros, os celtas, os ibéricos, Colombo, Lutero, Michelangelo, as línguas europeias que todos falamos. Fora desse acervo histórico comum a todos, os povos do Ocidente temos uma identidade individual que depende da história de cada um de nós. Assim, espanhóis, ingleses, estadunidenses, brasileiros, paraguaios e argentinos possuímos memórias (histórias) próprias de cada país e que nos distinguem dentro do marco maior da Civilização Ocidental. Como foi dito, ao nos encontrarmos num meio cujo acervo coletivo de memórias é outro, descobrimos elos entre os diferentes grupos, baseados na memória coletiva que promove novas associações. Assim, para um brasileiro na Filadélfia ou em Newark será em geral mais fácil estabelecer amizade com um paraguaio do que com um nativo de Idaho. Em seu sentido mais amplo, então, a palavra “memória” abrange desde os ignotos mecanismos que operam nas placas de meu computador até a história de cada cidade, país, povo ou civilização, incluindo as memórias individuais dos animais e das pessoas. Mas a palavra “memória” quer dizer algo diferente em cada caso, porque os mecanismos de aquisição, armazenamento e evocação são diferentes. Não convém, portanto, entrar no terreno fácil das generalizações e considerar que nossa memória é “igual” a tal ou qual tipo de memória dos computadores. Meu computador tem chips e precisa estar ligado na tomada para funcionar; eu, certamente não. Aliás, se eu colocar os dedos na tomada sofrerei um choque, e aprenderei uma memória da qual meu computador é profundamente incapaz: a de evitar colocar os dedos na tomada. Também não convém fazer demasiadas analogias entre memórias de índole diferente, como a memória individual dos seres vivos pessoas e a memória coletiva dos países. Fora o aspecto mais amplo de sua definição, são coisas diferentes. Os processos subjacentes a cada uma são completamente distintos. A memória humana é parecida com a dos demais mamíferos no referente a seus mecanismos essenciais, às áreas nervosas envolvidas e ao seu mecanismo molecular de operação; mas não no relativo a seu conteúdo. Um ser humano lembra melodias e letras de canções, ou como praticar Medicina; um rato, não. Os seres humanos utilizam, a partir dos 2 ou 3 anos, a linguagem para adquirir, codificar, guardar ou evocar memórias; as demais espécies animais, não. Mas, fora as áreas da linguagem, usamos mais ou menos as mesmas regiões do cérebro e mecanismos moleculares 11 semelhantes em cada uma delas para construir e evocar memórias totalmente diferentes. Os maiores reguladores da aquisição, da formação e da evocação das memórias são justamente as emoções e os estados de ânimo. Nas experiências que deixam memórias, aos olhos que veem se somam o cérebro – que compara – e o coração – que bate acelerado. No momento de evocar, muitas vezes é o coração quem pede ao cérebro que lembre, e muitas vezes a lembrança acelera o coração. 2.4 Arquivos Para a compreensão de determinado objeto, é preciso ter conhecimento acerca de seu significado, que é assimilado a partir de suas características e de seu “corpus de significação” (Franco, 2005). Antes de compreendermos o significado de um objeto, tomamos consciência de sua existência; percepção que se faz imediata. Já o entendimento do conceito é algo mais demorado e envolve diferentes experiências, de modo que as faces desse objeto se apresentem e sejam compreendidas. Observa- se, assim, que significado se constrói ao longo do tempo, sob forte influência de um processo social. Thomassen (2001), afirma que, de modo geral, as noções vagas são suficientes no cotidiano, porém, no âmbito profissional, mais especificamente na arquivística, isso muda na medida em que os: “os arquivistas devem ter uma compreensão clara do que é um arquivo (ou um sistema de arquivos), de quais são suas funções e suas propriedades fundamentais, como elas se relacionam entre si e como a qualidade dos documentos e dos arquivos pode ser acessada e assegurada”. Esse mesmo posicionamento é compartilhado por Heredia Herrera (2007) que afirma ser o uso indiscriminado das palavras uma característica da humanidade, mas aos arquivistas cumpre o dever de defender um rigor terminológico que dê sustentação à disciplina arquivística rumo a sua afirmação na dimensão científica. Outros estudiosos também entendem que a questão terminológica da área é de importância fulcral, na medida em que a convergência terminológica evita interpretações equivocadas (Lodolini, 1993). Um campo científico se legitima a partir da especificação de seu objeto por meio de adequada denominação.12 Nesse sentido, esforços para a consolidação de uma terminologia arquivística acontecem com a criação do Conselho Internacional de Arquivos, que culminou no lançamento, em 1964, do primeiro instrumento terminológico intitulado Elsevier’s Lexicon of Archive Terminology. No Brasil, esses empreendimentos tiveram início na década de 1970, quando da criação da Associação de Arquivistas Brasileiros. Na ocasião, foi elaborado um glossário e apresentado no I Congresso Brasileiro de Arquivologia. Mais tarde, a mesma Associação criou um Comitê de Terminologia Arquivística, que, posteriormente, se uniria à Comissão de Estudos de Arquivologia da Associação Brasileira de Normas Técnicas. Outra iniciativa nesse sentido foi em 1989, quando um grupo de alunos do curso de especialização em arquivologia da Universidade Federal da Bahia elaborou o Dicionário de termos arquivísticos, sob a coordenação do professor Rolf Nagel. Mais tarde, outro grupo de especialistas do estado de São Paulo também se mobilizou em torno dessa mesma questão, e seus esforços culminaram na edição, no ano de 1996, do Dicionário de terminologia arquivística. Nessa obra, a definição do termo arquivo aparece como: 1) Conjunto de documentos que, independentemente da natureza ou do suporte, são reunidos por acumulação ao longo das atividades de pessoas físicas ou jurídicas, públicas ou privadas; 2) Entidade administrativa responsável pela custódia, pelo tratamento documental e pela utilização dos arquivos sob sua jurisdição; 3) Edifício em que são guardados os arquivos; 4) Móvel destinado a guarda de documento [...] (Camargo e Bellotto, 1996). Mais recentemente, o Arquivo Nacional publicou o que chamou de Dicionário brasileiro de terminologia arquivística, no qual encontramos, para o termo “arquivo”, a seguinte definição: 1) Conjunto de documentos produzidos e acumulados por uma entidade coletiva, pública ou privada, pessoa ou família, no desempenho de suas atividades, independentemente da natureza do suporte; 2) Instituição ou serviço que tem por finalidade a custódia, o processamento técnico, a conservação e o acesso a documentos; 13 3) Instalações onde funcionam arquivos; 4) Móvel destinado a guarda de documentos (Brasil. Arquivo Nacional, 2005, p.27). As definições refletem o conhecimento e a compreensão que os teóricos têm acerca do arquivo. É uma representação conceitual particular construída com base em um saber técnico-científico. Tanto a definição do dicionário quanto a terminológica devem apre- sentar como categorias fundamentais para entendimento o gênero e a diferença específica (Finatto, 2002). O sentido da palavra “arquivo” foi mudando ao longo do tempo, em muito devido à evolução de suportes utilizados na elaboração dos documentos (Silva et al., 2002). No caso de gregos e bizantinos, o suporte preferido era o papiro e, consequentemente, usavam o termo chartophilacium para indicar os arquivos, depois passou a ser empregado como chartarium e, mais tarde, “cartório”. Já os romanos se mantiveram fiéis ao termo archeion, significando não “apenas o local de depósito dos documentos, mas o espaço ou serviço onde eram preservados registos antigos, independentemente do tipo de suporte” (Silva et al., 2002). Como destaca Tanodi (1979), o mundo romano vale-se de uma gama de termos relativos à escrita, incluindo o ato de escrever, o material utilizado e mesmo o móvel para guardar: grapharium, chartarium, tabularium, sacrarium, sanctuarium, scrinium etc. Sob essa ótica, é possível afirmar que alguns dos elementos que caracterizam o conceito arquivo, na atualidade, surgiram na Antiguidade; outros foram agregados ao longo do tempo, em razão do uso e da compreensão adquiridos a partir do contexto social. A evolução do conceito de arquivo, portanto, é influenciada por uma série de fatores sociais, jurídicos e de investimentos científicos. De modo geral, é possível identificar três formas de abordagem do termo: a primeira identifica o arquivo com os documentos, a segunda liga o arquivo ao edifício e aos documentos que guarda e a terceira afirma que o arquivo é uma instituição que conserva e utiliza a archivalía* (Tanodi di Chiapero, 1987). Mais recentemente, alguns autores como Silva et al. (2002) propõem a abordagem do arquivo como um sistema de informação (social), o que atende ao paradigma informacional, trazido para o âmbito arquivístico como decorrência da atual conjuntura social. * archivalía - A expressão archivalía é usada para se referir ao conjunto de documentos que são objeto de tratamento da instituição arquivo. Trata-se de “todo material escrito, gráfico (dibujos, mapas, planos), multigrafiado, reprógrafos, sonoro, audiovisual (películas) 14 Trata-se, portanto, da concepção de cada autor e, nesse sentido, Lodolini (1993), com base em estudo que realizou, apresenta uma síntese a respeito das diferentes visões dos autores quanto à natureza e limites do arquivo. 1) O arquivo compreende todos os documentos, desde o momento de sua produção em cada uma das entidades produtoras – também os documentos correntes fazem parte do “arquivo”. Esta é a condição para a existência do arquivo, que os documentos permaneçam nas entidades produtoras; a) os documentos passam a fazer parte do “arquivo corrente” no momento em que são produzidos por uma entidade visando a cumprir com a tramitação dos processos administrativos a que se referem; b) os documentos referentes a assuntos em trâmite encontram-se em fase pré- arquivística; farão parte do “arquivo corrente” somente quando a tramitação for finalizada pela entidade produtora, de cada um dos processos administrativos a que se referem (Tanodi). 2) O arquivo é formado somente pelos documentos que não tenham mais interesse para a entidade produtora deles e que tenham adquirido maturidade arquivística e sejam selecionados para conservação permanente – os documentos correntes não podem, portanto, fazer parte do arquivo, porque entre as condições para existir o arquivo está a de que os documentos não estejam mais na instituição produtora, mas tenham sido transferidos para uma instituição arquivística encarregada por sua conservação. 3) O arquivo é produzido somente por uma autoridade pública; não podem, portanto, existir arquivos privados. 4) Arquivo é tanto aquele produzido por uma autoridade públi-ca como também privada – os arquivos privados são considerados arquivos no sentido pleno do termo; a) por arquivos privados se entendem somente aqueles produzidos por pessoas jurídicas privadas, não os produzidos por pessoas físicas ou famílias (Schellenberg); b) por arquivos privados se entendem somente os produzidos por pessoas físicas ou famílias, não os produzidos por pessoas jurídicas privadas (Ellis); 15 5) O arquivo é constituído também por material não documental, quer dizer, por manuscritos de obras literárias ou científicas. 2.5 Instituições Arquivísticas A instituição arquivística tal como a conhecemos hoje consolidou-se a partir de fatores como a urbanização das sociedades, a formação dos Estados nacionais e o consequente aumento das instituições públicas. O início da era moderna foi marcado por mudanças, tais como um crescimento sem paralelo dos papéis, causado pela então crescente centralização dos governos, e sua instalação em prédios como Versalhes, Escorial, Whitehall, entre outros. Essas mudanças tornaram os arquivos necessários e possíveis. À centralização do governo seguiu-se a dos documentos (BURKE, 2003). Um decisivo passo foi dado no século XVI, quando o aprofundamento das competências do Estado, o reforço do poder central e o aumento de burocracia contribuíram para a concentração de arquivos em depósitos centrais, com arquivistas especializados e suas equipes (DUCHEIN, 1992). Nessa época, os arquivos oficiais ainda mantinham certo caráterprivado. O acesso a eles era estritamente condicionado por seus detentores, muito ciosos de seus documentos, embora haja alguma aceitação de uso para benefício da comunidade. Apesar disso, a noção de arquivo público expandiu-se nesse período, pois diversos monarcas reclamaram o direito de propriedade sobre acervos documentais reunidos por funcionários no exercício de suas funções (FAVIER, 1975). A Revolução Francesa influenciou os arquivos de forma decisiva, pois o golpe no Antigo Regime passava também, inevitavelmente, pelos arquivos. Foram três as principais contribuições da Revolução Francesa, movimento que marcou o início de uma nova era na administração dos arquivos. Estabeleceu-se o quadro de uma gerência de arquivos públicos de âmbito nacional: - O Arquivo Nacional passou a ser um órgão central dos arquivos do Estado, ao qual se subordinaram os depósitos existentes. Pela primeira vez uma administração orgânica de arquivos englobou toda a rede de depósitos. - O segundo efeito importante foi o fato de o Estado reconhecer sua responsabilidade em relação à preservação da herança documental do passado. - O terceiro se refere ao princípio da acessibilidade dos arquivos ao público, de acordo com o art. 37 do decreto de Messidor: “Todo cidadão tem o direito de pedir 16 em cada depósito […] a exibição dos documentos ali contidos”. Pela primeira vez os arquivos eram legalmente abertos e sujeitos ao uso público (POSNER, 1959, p. 7-9). A concepção de instituição arquivística de acordo com o modelo pioneiro criado na França foi amplamente reproduzida na Europa e nas Américas, guardadas as especificidades de cada país; estabeleceu-se um modelo institucional que permaneceu até meados do século XX, pelo qual a “instituição arquivística é aquele órgão responsável pelo recolhimento, preservação e acesso dos documentos gerados pela administração pública, nos seus diferentes níveis de organização” (FONSECA, 1998). Esta concepção modificou-se depois da II Guerra Mundial. À luz da gestão de documentos, que revoluciona a arquivologia tradicional, as instituições arquivísticas ampliaram seu espectro e funções, e foram obrigadas a reformular suas estruturas e a redefinir seu papel (FONSECA, 1998). É preciso diferençar as instituições arquivísticas públicas dos serviços de arquivos internos de uma instituição pública. Nas primeiras, o arquivo é a atividade- fim; estas são instituições cujo objetivo é a gestão dos acervos produzidos por outras instituições públicas de uma mesma esfera de poder, em função das atividades de uma administração, de um governo. No segundo caso, trata-se de atividade-meio; o serviço de arquivo também lida com documentos públicos, mas de uma instituição específica. Tanto a instituição arquivística quanto os serviços de arquivo de uma organização se caracterizam por gerir e disponibilizar um acervo documental com dupla função informativa: a) o apoio administrativo no dia a dia das instituições; b) a pesquisa histórico-cultural. Dessa maneira, os arquivos – produzidos e recebidos no decorrer das atividades de determinada instituição, pessoa ou família – possuem um tipo de conhecimento único, por gerarem representações de trajetórias institucionais e/ou pessoais advindas de conjuntos organicamente tratados e disponibilizados. Os documentos públicos são básicos para o funcionamento de um governo, estejam eles nos órgãos de origem ou em uma etapa posterior nas instituições arquivísticas. No Brasil, essas instituições se encontram em um locus periférico (JARDIM, 1999). O tempo atual é um tempo em que governos e cidadãos coexistem no mesmo ambiente informacional, pela primeira vez na história, e isso é resultado, principalmente da mudança tecnológica. Apesar disso, não será apenas o uso de novas tecnologias de informação e comunicação o suficiente para modificar a cultura 17 de opacidade que caracteriza o Estado e consequentemente as instituições arquivísticas públicas brasileiras. 3 A SOCIEDADE E A CULTURA BRASILEIRA Fonte:3.bp.blogspot.com A cultura brasileira é diversa e tão extensa como o território do país. No exterior o Brasil é, constantemente, classificado como um lugar exótico – conhecido pelas belezas naturais, hospitalidade, futebol e carnaval. Mas em um país que também se manifesta pela multiplicidade de estilos, torna-se difícil definir a identidade brasileira. Ainda que dentro da sociedade brasileira existam grupos diferentes, a nossa identidade pode ser entendida como uma série de características que fazem parte do repertório comum de um brasileiro. Por exemplo, todos nós falamos português e identificamos uma série de características típicas de um brasileiro, ainda que não nos enquadremos a todas essas características. Da Matta exemplifica nossa identidade por meio de um processo de contraste com a cultura estadunidense: 18 Sei, então, que sou brasileiro e não norte-americano, porque gosto de comer feijoada e não hambúrguer; porque sou menos receptivo a coisas de outros países, sobretudo costumes e ideias; porque tenho um agudo sentido de ridículo para roupas, gestos e relações sociais; porque vivo no Rio de Janeiro e não em Nova York; porque falo Português (...) (DAMATTA, 1994, p.16) Para Da Matta, cultura exprime um estilo e um modo de fazer as coisas. Ele alerta que a sua definição foi feita sob um ponto de vista brasileiro e, portanto, reconhecida pelos brasileiros, “usei uma fórmula que me foi fornecida pelo Brasil.” (1994, p. 18) A identidade brasileira também é definida pela noção da família, a proteção dos laços sanguíneos, o lugar da tradição o qual resguardamos. A casa, sendo o local da confiança, é também é o local onde são aceitos agregados que não fazem parte da família, mas são acolhidos no ambiente, como um amigo que passa por dificuldades financeiras ou um velho empregado que não tem para onde ir. (DA MATTA) A rua também é um local importante para os brasileiros. Segundo Da Matta (1994), casa e rua se equilibram, numa perspectiva do mundo complementar: “Todos sabemos, por experiência respeitável e profunda, que na rua não se deve brincar com quem representa a ordem, pois naquele espaço se corre o grave risco de ser confundido com quem é ninguém.” O fator racial é outro ponto presente na cultura brasileira. Da Matta (1994) menciona o padre jesuíta José Antonil que define a estrutura racial brasileira como um triângulo formado por branco, mulato e negro -- associando o branco ao paraíso, o mulato ao purgatório e o negro ao inferno. O Brasil não é um país dual de caráter exclusivo, “ou seja, uma oposição que determina a inclusão de um termo e a automática exclusão do outro”. O mulato representa exatamente esse “conjunto infinito e variado de categorias intermediárias” que existem no Brasil. Ao contrário dos Estados Unidos onde o preconceito é explícito; no Brasil, existe um “preconceito velado”. Ainda sob um olhar brasileiro, a nossa cultura é tomada como a cultura da multiplicidade, na qual se dá importância a valores distintos como à família (local de segurança) e à rua (local de liberdade); ao carnaval (momento de excesso) e às festas religiosas (na manutenção das tradições e do culto). O Brasil é, portanto, o local das possibilidades. Da Matta o caracteriza como um local dividido entre o indivíduo e a pessoa. No primeiro caso, o brasileiro é aquele 19 das leis universais que modernizam a sociedade. No segundo, o brasileiro é o sujeito das relações sociais, que conduz ao polo tradicional do sistema: Entre os dois, o coração dos brasileiros balança. E no meio dos dois, a malandragem, o “jeitinho” e o famoso e antipático “sabe com quem está falando?” seriam modos de enfrentar essas contradições e paradoxos de modo tipicamente brasileiro. (DA MATTA, 1994, p.97) 3.1 A Arquivística no Brasil No Brasil, o poder público é responsávelpela gestão dos documentos arquivísticos públicos, segundo determina a legislação. Compete às instituições arquivísticas, nas suas esferas de atuação correspondentes, promover a gestão, que inclui não apenas os documentos já recolhidos, mas também os que estão nos órgãos de origem, isto é, os documentos em suas três idades. Ressalte-se que a legislação é recente, tem raízes na Constituição de 1988, com dispositivos regulamentados pela Lei nº 8.159, de 9 de janeiro de 1991, ao passo que as instituições arquivísticas remontam a longa data. Para darmos início ao estudo sobre a trajetória e o desenvolvimento da Arquivologia no Brasil, Crivelli e Bizello (2012) consideram como ponto de partida a criação da instituição arquivística mais antiga e mais importante do país, conhecida atualmente por Arquivo Nacional. Não só aqui, mas em diversos outros países, o Arquivo Nacional atua de forma muito importante no sistema arquivístico nacional, em especial no que se refere aos poderes públicos, mas sem abrir mão de orientações e determinações que abarquem também a atividade arquivística das instituições privadas. (CRIVELLI e BIZELLO, 2012) Hoje o Arquivo Nacional exerce atividades neste sentido, o que demonstra considerável maturidade da instituição, em relação ao conhecimento técnico da arquivística e das ações pertinentes à Arquivologia, assim como também relacionado ao papel que lhe cabe frente ao país, enquanto a instituição central de um Sistema Nacional de Arquivos, influente sobre todos os demais arquivos, centros de documentação e memória, entre outras instituições arquivísticas, públicas ou privadas. 20 Razão pela qual os autores supra consideram relevante se utilizar como ponto de partida acerca dessa discussão, a criação do Arquivo Nacional do Brasil, em 1838. Considerações devem ser feitas ao observarmos sua criação, pois o Brasil vivia um momento bastante adverso ao que temos atualmente, seja em suas condições políticas, administrativas, sociais e mesmo cultural. Neste ano de 1838, contavam-se exatos 30 anos que o Brasil havia recebido a transferência da Corte portuguesa em suas terras, em 1808, como consequência das invasões napoleônicas, em ação por toda a Europa. Este acontecimento é elementar para a história do Brasil, pois representa um momento de transição em sua construção estrutural político-administrativa e social, por considerarmos que, desde o ano 1500, o Brasil se via na condição de colônia de Portugal, onde se exercia a atividade econômica exploratória da cana-de-açúcar, plantada em grandes extensões de terra. A administração das terras brasileiras passou por algumas tentativas de pouco sucesso, que inclui também algumas alterações em sua divisão territorial, sendo a mais duradoura o Governo-Geral, que se baseia na nomeação de um responsável por todo o território da colônia, o Governador-Geral ou Vice-Rei, que atende diretamente os regimentos emanados da metrópole. O sistema cobre de 1550 até a vinda da Coroa. (CRIVELLI e BIZELLO, 2012) Desta feita, como o todo território colonizado se encontrava dominado completamente pelos portugueses, o comando burocrático determinava que a documentação aqui produzida, basicamente administrativa, pertencia à Coroa. Em 1808, o Brasil, então, recebe a transferência da Coroa portuguesa, juntamente com toda sua corte, o que viria a exigir a quase total reestruturação do sistema administrativo local, para ter condições de incorporar toda a corte transferida. Relevante mudança se dá com a transferência da capital administrativa do Brasil, até então localizada na cidade de Salvador, na Bahia, para a cidade do Rio de Janeiro. Quando a família real chegou no país, trouxe consigo não só as pessoas que lhes davam suporte, mas, principalmente, todo o Poder Real, antes emanado de Lisboa, agora no Rio de Janeiro, que passa, então, a ser o centro do sistema administrativo do reino, e ganha ainda mais status quando o Brasil deixa de ser entendido enquanto colônia de Portugal, e é promovido à qualidade de Reino Unido. Crivelli e Bizello afirmam que nesse sentido, o Brasil, mais especificamente o Rio de Janeiro, passa a tomar uma proporção burocrática diferente da que tinha anteriormente. Acreditam que existiam lugares onde a administração acumulava seus documentos, entretanto ainda não havia regulamentado um arquivo central da administração real para este fim. 21 Em 1822, Dom Pedro I, filho de Dom João VI, Rei de Portugal, declara a independência brasileira do poder português. O Brasil, a partir daquele momento deixa de ser uma colônia, alçando à condição de país independente, administrado através de um sistema político imperial, onde seu declarante se coloca na posição de imperador. Decorrentes do império de administração autônoma, acontece a implantação do sistema político de base parlamentar, que garantiu a elaboração de uma assembleia constituinte, em 1823, que renderá a primeira constituição brasileira, em 1824. Nesta constituição já se tem o indicativo da existência de um arquivo público, responsável por recolher e abrigar a documentação produzida pela administração pública, dividida em quatro esferas de poder, o Poder Legislativo, Poder Executivo, Poder Judiciário e Poder Moderador. (CRIVELLI e BIZELLO, 2012) Crivelli e Bizello lecionam que mesmo já existindo um Arquivo Público, ele só seria oficialmente levado à feito no ano de 1838, num momento onde o governo brasileiro era regido não pelo seu imperador, pois Dom Pedro I havia se retirado para Portugal, mas por seu filho Dom Pedro II, naquela época ainda uma criança. A administração seria realizada através da regência de membros do Parlamento, enquanto o Príncipe Regente ainda não tinha idade para assumir seu papel de governante. E foi na regência de Pedro de Araujo Lima que, implantou-se o Arquivo Público do Império, vinculado diretamente à Secretaria de Estado dos Negócios do Império, braço do poder Moderador, o que lançava o Arquivo Público a um status bastante interessante, caso este fosse um elemento relevante. Costa (2000, apud CRIVELLI e BIZELLO, 2012) disserta sobre os objetivos do Arquivo Público no momento de sua criação: Criado como um dos instrumentos viabilizadores do projeto político nacional, o Arquivo brasileiro visava, ao mesmo tempo, fortalecer as estruturas do Estado recém-fundado e consolidar a própria ideia do regime monárquico em um continente totalmente republicano. Para alcançar tais objetivos seria necessário recolher não só a documentação produzida pela administração pública, a fim de realizar sua função instrumental em relação ao novo Estado, como também os documentos referentes ao passado colonial, que se encontravam dispersos nas províncias e deveriam subsidiar a escrita da história da nação, a exemplo dos arquivos europeus. Percebe-se assim que, quando de sua criação, o Arquivo Público do Império exercia funções similares às que cabia aos arquivos nacionais europeus, no que tange o auxílio à estruturação do Estado em suas diversas formas, assim como a posterior 22 manutenção. Entre as funções administrativas e históricas, os arquivos nacionais, encabeçados pelos Archives Nationales franceses, seguiam uma linha de atividades que fornecia o suporte administrativo ao governo através do recolhimento da documentação produzida no decorrer de suas atividades administrativas e também agia de forma direta na construção da história nacional ao recolher, organizar, preservar e dar acesso aos documentos que diziam respeito ao país. Explicam Crivelli e Bizello que no Brasil, o Arquivo Público do Império foi construído através dessas ideias desenvolvidas na Europa, com grandes influências portuguesas, justamente ao se considerar que todos os governantes do novo Estado, desde o Imperador até os Parlamentares, se não eram efetivamente portugueses, haviam saído do Brasil paraestudar em Lisboa e Coimbra, os grandes centros que recebiam os moradores da Colônia para sua formação universitária. Era comum os jovens da mais alta classe social do Brasil saírem para estudar em Portugal e retornarem para exercerem atividades políticas, o que fazia com que o sistema de pensamento político sofresse enorme influência portuguesa. Isso também ocorreu com o Arquivo Público. Costa (2000, apud Crivelli e Bizello, 2012) relata acerca da sua idealização, que seguia os pensamentos patrimonialistas aplicados ao governo monárquico português, e do funcionamento do Arquivo da Torre do Tombo, que preservava os documentos para o uso do Rei, sem que as demais pessoas pudessem ter acesso ao material ali preservado. Este sistema de sigilo absoluto das informações governamentais era regra entre todas as nações, sendo finalizado apenas após a Revolução Francesa e a criação de um novo conceito de arquivo público. Mas este novo conceito não chegou a influenciar a construção do Arquivo Público do Império, no Brasil, que ainda recebeu esse pensamento da burocracia centralizada portuguesa, e entendia que os arquivos do governo deveriam ser fechados, sem que a população fizesse uso deste material. Com relação à atuação do Arquivo Público do Império, tinha por objetivos o recolhimento e preservação dos documentos do governo, e auxiliar na construção da história do novo Estado independente. O recolhimento, apesar de ser uma atividade prevista, havia falhas em sua execução, também derivadas desse sistema burocrático herdado que, para fins de segurança e sigilo, demandava aos órgãos e secretarias que mantivessem seus próprios arquivos, e isso se transformava em um complicador para que futuramente essa documentação fosse transferida para o poder do Arquivo 23 Público. Com a ausência de políticas arquivísticas, a forma como se desenvolveram as atividades burocráticas e administrativas do governo não foram devidamente planejadas no que se refere aos seus trâmites e sua produção, deixando a cargo de critérios variados e esporádicos os recolhimentos para o Arquivo Público. Como agravante, a instabilidade existente na divisão territorial por todo o período colonial, que foi responsável por originar a divisão em províncias, com administrações locais próprias, subordinadas ao governo do império. Esta forma de administração territorial poderia simplificar as formas de administração, emanadas do poder central para as províncias, e facilitar a transferência de documentos destas para o Arquivo Público, se fosse o caso, se contássemos com arquivos públicos regionais em cada província para realizar essa gestão. Isso não ocorreu efetivamente até a implantação do governo republicano. Durante o período imperial, apenas três províncias contavam com um arquivo, que são Ceará, Goiás e Paraná. As demais províncias, que passaram a ser entendidas enquanto Estados, terão seus arquivos públicos estaduais implantados de forma fragmentada após o regime republicano (CRIVELLI e BIZELLO, 2012). A tarefa, de agir como auxiliar na construção da história do novo Estado demandou ao Arquivo Público a necessidade de busca pela documentação pertencente à administração durante o período colonial, que se encontrava espalhada entre as províncias e as secretarias. Uma vez que a construção da história de um novo Estado-nação é fundamental para seu sustento e sua permanência enquanto tal, pois será através destes elementos históricos, entre outros, que surgirão os sentimentos de identidade, memória, coesão social e histórica, bases do sentimento de nacionalidade, sem o qual, se instaura um período de crises no Estado, comprometendo inclusive a sua existência. Para os autores, essa consciência existia por parte dos governantes, havendo dedicação do governo para assuntos referentes à construção desse contexto de coesão social, e o fator histórico se mostrava como elementar para que dessem andamento ao trabalho de construção e sustento da Nação. Enquanto instituição central do tratamento de arquivos do governo, o Arquivo Público poderia exercer este papel, entretanto, no mesmo ano de sua implantação, foi criado o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), visando buscar, recuperar e preservar documentos relevantes ao passado do Brasil, e a partir deles, desenvolver a história do país através dos trabalhos historiográficos (Camargo, 1999; Costa, 2000, apud CRIVELLI e BIZELLO, 2012). Por motivos políticos, o IHGB, naquele período, acabou por tomar proporções maiores às do Arquivo Público, o que lhe garantia melhores condições para exercer suas atividades. 24 O IHGB mantinha em sua estrutura, profissionais dedicados a realizar viagens por todo o território brasileiro em busca de identificar documentos importantes para a história do país e realizar a captação destes documentos para comporem o acervo do IHGB. O mesmo acontecia com viagens a outros países, em especial à Europa, para realizar o mesmo trabalho. O IHGB contava com sede própria e corpo profissional exclusivo. Ao Arquivo Público não era revertido, nem mesmo, verba básica. (CRIVELLI e BIZELLO, 2012) Esse contexto apresentado, referente à criação e implantação do Arquivo Público do Império do Brasil reflete como era pensado o sistema de arquivos do governo, ou seja, como não era pensado em termos arquivísticos, e por considerarmos que na Europa essas questões já eram pauta dos governos e das áreas científicas, notamos certo atraso brasileiro neste sentido. Costa (apud Crivelli e Bizello, 2018) nos diz: Estas descobertas conduzem à constatação de que o Arquivo Público foi coadjuvado por outras instituições, em atividades e funções que seriam de sua exclusiva competência. Nesse sentido, a ‘divisão de tarefas’ entre as agências culturais empenhadas no processo de construção da nacionalidade implicou a superposição de funções e a consequente fragilização do Arquivo enquanto principal instituição de guarda dos documentos da administração pública. Somente em meados de 1870 que o arquivo terá um pouco mais de destaque após a implantação de prazos para o encaminhamento de documentos das secretarias e órgãos do governo para o Arquivo Público e uma estratégia de ação na atividade histórica do Arquivo é lançada, com iniciativas de captação de documentos referentes à história e a geografia brasileiras. O que pode ser visto através da primeira publicação feita pelo Arquivo Público do Império, em 1886, intitulada “Catálogo das cartas régias, provisões, alvarás, avisos, portarias, de 1662 a 1821, existentes no Arquivo Nacional e dirigidas, salvo expressa indicação em contrário, ao governador do Rio de Janeiro, e, depois de 1763, ao vice-rei do Brasil.” Após a implantação da República, em 1889, o país por um processo geral de reestruturação. No ano de 1893 o Arquivo Público do Império passa por uma reestruturação, seu regimento é revisto e ele passa a se chamar, então, Arquivo Público Nacional. Dentre as mudanças políticas decorrentes desta transição, uma que interfere diretamente nas ações do Arquivo Público Nacional diz respeito ao conceito de liberdade de acesso à informação do governo por qualquer cidadão da república, antes limitado somente aos poderes da sociedade imperial. 25 3.2 O Arquivo Nacional Brasileiro Uma nova reorganização interna ocorre em 1911, que altera seu nome para Arquivo Nacional (AN). Neste ano é criado o Curso de Tratamento de Arquivos para o Serviço Público, organizado pelo AN para atender a demanda decorrente da estrutura social mais burocratizada do sistema republicano. Este curso visava qualificar funcionários atuantes no sistema público, a fim de otimizarem as atividades administrativas públicas. O Dasp, a FGV e o Arquivo Nacional, durante a administração José Honório, foram ‘lugares da arquivologia’ que, nas décadas de 1940 a 1960, experimentaram processosdistintos nos quais os arquivos alcançaram um lugar na cultura e no projeto de desenvolvimento institucional. O historiador José Honório Rodrigues tomou posse na direção do Arquivo Nacional em 29 de agosto de 1958, com a tarefa de modernizar o órgão, criado em janeiro de 1838 como Arquivo Público do Império, conforme previsto na Constituição monárquica de 1824. Para José Honório, sua missão resumia-se em encaminhar as soluções para a instituição tornar-se “um arsenal da Administração” e pudesse “assegurar ao povo as provas de seus direitos e o acesso legal ao conhecimento e à informação” (RODRIGUES, 1959, apud SANTOS e LIMA, 2016). Três meses após sua posse, José Honório obteve a aprovação do Regimento Interno (Decreto n. 44.862 de 21/11/1958), transformando a estrutura do órgão, que passou a dispor de instrumentos mais compatíveis com a moderna arquivística europeia e norte- americana. Santos e Lima relatam que nos primeiros meses, o intenso trabalho à frente da instituição seria revelado por sua correspondência com historiadores e outros profissionais do Brasil e de fora do país. Em uma carta de setembro, dirigida ao Professor Eurípides Simões de Paula da Universidade de São Paulo, José Honório demonstra preocupação com o quadro de uma “repartição obsoleta” e suas prioridades iniciais: Recebi sua carta de 25 de agosto, quatro dias depois de minha nomeação para o Arquivo Nacional e desde que assumi a 29 não pude mais responder nenhuma carta. Está tudo atrasado e não creio que nestes dois meses de outubro e novembro eu possa cuidar de outra coisa que não seja o Arquivo Nacional, pois encontrei uma repartição obsoleta, na estaca zero, com um regulamento de 1923. Já fiz um novo projeto de regulamento para uma reforma de base da instituição, preparei emendas no orçamento a fim de obter 26 verbas para o ano que vem e estou providenciando maiores acomodações. (RODRIGUES, José Honório, 2004, apud SANTOS e LIMA, 2016). Após um ano à frente da Instituição, José Honório produziu sua peça de resistência e de maior significado político: A situação do Arquivo Nacional. Pela primeira vez em sua história, o Arquivo Nacional contava com um diagnóstico detalhado de sua situação nos diversos aspectos relacionados à organização, recursos técnicos, infraestrutura, quadro de pessoal e orçamento. O problema técnico se resumia à ausência absoluta de uma política de recolhimento, procedimentos de seleção e eliminação de documentos, organização e arranjo do acervo, elaboração de instrumentos, registro e inventário. Superar a condição de “simples depósito de documentos entregues à sua guarda, sem controle técnico” era o desafio da principal instituição arquivística do país, que teria vivido “anos de desinteresse arquivístico, de tentativa de transformação do Arquivo Nacional, em Arquivo Histórico” (RODRIGUES, 1959, apud SANTOS e LIMA, 2016). José Honório não se furtou a apresentar sua visão naquele contexto: “A atividade histórica aí, no momento, deve ser apenas marginal e assessorar a administração do Arquivo. Só depois da solução dos problemas administrativos e arquivísticos é que o Arquivo Nacional deverá cuidar de História” (Rodrigues, 1959, p. 66, apud SANTOS e LIMA, 2016). Quando assumiu o Arquivo Nacional, José Honório possuía como um de seus objetivos contar com a assessoria de técnicos europeus e norte-americanos que pudessem colaborar no estudo e no planejamento da reforma institucional que pretendia imprimir. E foi nesse contexto que ocorreu a vinda do técnico francês Henri Boullier de Branche, diretor dos Arquivos de Sarthe (Le Mans). Boullier colaborou no Curso de Arquivos e dirigiu um grupo de profissionais na elaboração do Inventário Sumário da Secretaria da Marinha. Ele deixou as bases de um método de classificação que, segundo sua análise, a instituição ainda não possuía. E elaborou um “Relatório sobre o Arquivo Nacional do Brasil”, no qual abordava os mais diversos aspectos do planejamento, gestão administrativa e técnica de uma instituição arquivística. Com relação à formação do pessoal, o arquivista francês estabelece uma ligação direta entre a formação de pessoal qualificado e o “futuro dos arquivos brasileiros”. Sem desqualificar o esforço do Dasp na criação de cursos destinados à formação de arquivistas, acompanhados de aulas práticas oferecidas no próprio Arquivo, Boullier afirmava que este esforço só teria prosseguimento e resultado satisfatório se viesse acompanhado da criação de uma escola de arquivistas da qual 27 o Brasil tinha necessidade premente. No segundo semestre de 1959, com a presença do técnico francês acontece o segundo curso em colaboração com o Dasp. Uma das recomendações formuladas por Boullier de Branche, a criação de uma escola ou uma série de cursos regulares para formação de arquivistas, começou a ser posta em prática já em 1960, com a criação do Curso Permanente de Arquivos, de dois anos de duração. Entretanto, nos primeiros anos o curso não funcionou com regularidade em decorrência da falta de recursos financeiros, levando algumas matérias a assumirem características de cursos avulsos. Para José Honório Rodrigues, o quadro de pessoal era um dos problemas mais graves e, por isso, deveria ser considerado uma prioridade. Para solucioná-lo, uma das medidas propostas era a criação de um curso permanente de formação de arquivistas para portadores de diploma do então curso secundário. Sua inspiração era a École des Chartes da França e os cursos universitários europeus e norte-americanos (1959, p. 65). A formação de arquivistas de nível superior ou destinados às tarefas executivas começou efetivamente a ser objeto de cursos regulares ou avulsos, no início da década de 1960. As únicas exceções antes disso foram os dois cursos promovidos pela administração de José Honório Rodrigues em 1959, com apoio do Dasp (SANTOS e LIMA, 2016) José Honório trouxe ao Brasil, em 1960, o vice-diretor do Arquivo Nacional dos Estados Unidos, Theodore Schellenberg, que ministrava cursos de arquivo na American University, de Washington, como parte da estratégia de contar com técnicos estrangeiros que pudessem orientar a reforma institucional que pretendia empreender. Ele estudou com profundidade o problema arquivístico brasileiro, sugeriu a tradução de obras fundamentais da bibliografia arquivística, realizou conferências e cedeu os direitos autorais de seus trabalhos. Produzir uma ‘coleção’ de obras de referência sobre os arquivos era um dos objetivos de José Honório Rodrigues que colocou à serviço deste programa editorial sua experiência e capacidade de interlocução com instituições e profissionais dos Estados Unidos e da Europa. As atividades realizadas pelo Arquivo Nacional durante a gestão de José Honório Rodrigues, ao final dos anos 1950 e começo dos 1960, são consideradas como marcos no desenvolvimento da Arquivologia no Brasil, por servirem de base para os passos futuros dados pela área, em todos os seus modos de atuação. Com relação à estrutura estadual de arquivos, do início da República até a década de 1960, são implantados 11 arquivos estaduais, o que mostra uma ampliação e regionalização das preocupações arquivísticas, seguindo os pensamentos do 28 governo federal. Este fenômeno deveu-se também ao sistema de governo burocratizado, aliado à consciência de acesso público à informação governamental, o que não quer dizer que esta última fosse efetivada. Entretanto, o sistema de arquivos no Brasil ainda era defasado por não contar com legislações que organizassem o tratamento e os trâmites administrativos dos poderes públicos. No ano de 1960 a estrutura administrativa pública do Brasil passou por uma reestruturação, com a construção da cidade de Brasília, desenvolvida e construída para ser a capital do país e centralizar todos os poderes federais, que até então se localizavam noRio de Janeiro, o que demandou a transferência de todos os órgãos para a nova capital. Foi incluído, necessariamente, dentre estes, o Arquivo Nacional. Foi promulgado então o Decreto Nº 48.936, em 14 de setembro de 1960, que “Cria um Grupo de Trabalho com a finalidade de estudar os problemas de arquivos no Brasil e sua transferência da Brasília” A proposta era criar uma unidade do AN em Brasília com a finalidade de dar suporte às tarefas administrativas federais, enquanto a sede continua no Rio de Janeiro, junto com o acervo histórico da instituição. Ao grupo cabe organizar esta transferência e, principalmente, determinar a divisão de seu acervo entre os conjuntos documentais que devem seguir para Brasília e auxiliar na administração e os que continuam na sede. (CRIVELLI e BIZELLO, 2012) O acervo do Arquivo Nacional foi, então, dividido em dois. Em 18 de maio do ano seguinte, foi publicado o Decreto Nº 50.614, que realizou alterações no decreto de 1960, sendo que vale destacar a inclusão de mais uma competência deste grupo de trabalho. Foi incluído ao Artigo 3º, o item VII, com o seguinte teor: “elaborar anteprojeto de lei estabelecendo as diretrizes para uma política de recolhimento de documentos no país”. Tal alteração instituiu as bases para resoluções futuras que atuam no sentido de estabelecer legislações próprias para os arquivos brasileiros, não apenas públicos, como também os privados, e a criação de um sistema nacional de arquivos. 3.3 O Papel dos Arquivistas Na década de 1970, realizam-se, por intermédio do associativismo arquivístico brasileiro, ações de definição de sua forma institucional: criação da Associação dos 29 Arquivistas Brasileiros (AAB) e constituição intersubjetiva de uma comunidade profissional. O associativismo é considerado decisivo para a institucionalização da área no país, reconhecendo, ainda, a falta de pesquisa acadêmica sobre o papel exercido pela a AAB entre 1971 e 1978 na organização do campo arquivístico no Brasil. Os depoimentos recolhidos por Gomes (2011) reafirmam o projeto coletivo de regulamentação da profissão de arquivista como meio de autoafirmação dos profissionais de arquivo e formação de uma comunidade arquivística. Essa ação coletiva com sua mobilização política de conotação corporativista configurou um espaço público no qual se passa a refletir sobre a atividade arquivística, compreendendo que o trabalho arquivístico é de interesse para a sociedade e o Estado. Gomes (2011) afirma que a formação de coletivo entre os profissionais de arquivo revela que os participantes passaram a reconhecer um tipo específico de identidade social que se forjava na apreensão e no exercício da práxis arquivística, dentro de um contexto histórico de repressão política e reconfiguração nos padrões de controle do Estado sobre a organização coletiva no Brasil. Esse associativismo arquivístico se caracteriza para além dos objetivos profissionais de melhoria das condições de vida e bem-estar social da categoria, isso na medida em que são propositivos também diante das condições dos arquivos brasileiros. “As atividades iniciais destas associações tiveram, para além da questão corporativista, a ação direcionada à atuação dos Estados no que se refere às políticas públicas de arquivos” Foi através da mobilização de profissionais de variadas áreas, com atuações voltadas aos trabalhos arquivísticos, que se formou a força política necessária para criar uma associação de classe com condições de ação no cenário nacional. A AAB, que aglutinou uma plêiade de profissionais de documentação e informação do país, com multidisciplinar formação em arquivologia, história, biblioteconomia, ciências sociais, administração, economia, letras, direito, medicina, enfermagem, dentre outras ciências, credencia-se como um dos agentes estruturantes da Arquivologia e da Arquivística brasileiras. (SILVA, Jaime, 2008, apud CRIVELLI e BIZELLO, 2012) O objetivo da Associação era desenvolver uma atuação no cenário nacional com vistas ao desenvolvimento de questões referentes aos arquivos, em decorrência das péssimas condições em que se encontravam os arquivos da época. A valorização dos arquivos em paralelo ao desenvolvimento e sistematização da Arquivologia 30 nacional tomava grande parte das preocupações destes profissionais encabeçados por José Pedro Pinto Esposel, professor do curso de História na Universidade Federal Fluminense, que inaugurou a cadeira de presidente da AAB logo no momento de sua fundação. A AAB dirigia suas ações almejando o desenvolvimento da área através dos profissionais enquanto agentes mobilizadores desta movimentação. Com esse objetivo, a associação desenvolvia debates, mesas-redondas, seminários e outros eventos que objetivavam movimentar as discussões referentes aos arquivos no Brasil. Decorrente deste trabalho, no período de 15 a 20 de outubro de 1972, aconteceu o I Congresso Brasileiro de Arquivologia, organizado pela AAB, na cidade do Rio de Janeiro, com a formidável participação de cerca de 1.300 pessoas, atuantes na área de arquivos em todo o território nacional (Esposel apud Castro, 2008, apud Crivelli e Bizello, 2012). A Revista Arquivo & Administração, uma das primeiras revistas especializadas em arquivos no Brasil, é posta em circulação com a finalidade também de propagar a ação da AAB. De responsabilidade da associação, a revista compilava artigos científicos e textos especializados à área de Arquivologia. Crivelli e Bizello, 2012, ressaltam que no início dos anos 1970, também com forte influência da criação da AAB, foi dado o passo inicial para o desenvolvimento da formação de profissionais arquivistas com qualificação, através da criação do primeiro curso de Arquivologia em nível superior, no Brasil. Em 1973 que o Curso Permanente em Arquivos, do Arquivo Nacional é encampado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UNIRIO) e passa a integrar a grade de cursos de graduação da universidade, com o aval do Conselho Federal de Educação, que já havia autorizado a implantação de cursos de Arquivologia em universidades brasileiras no ano de 1972. A graduação em Arquivologia da UNIRIO, foi o único no Brasil da área no país até o ano 1976, quando então é criado o segundo curso de Arquivologia no Brasil, na estrutura da Universidade Federal de Santa Maria, no município de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e na sequência, em 1978, é aberto o curso da Universidade Federal Fluminense, na cidade de Niterói, no Estado do Rio de Janeiro. No ano de 1974 foi aprovado o currículo mínimo do curso superior de arquivos, determinando a estrutura básica dos cursos de graduação em Arquivologia com um mínimo de 2.160 horas/aula ministradas num período mínimo de 3 anos e máximo de 5 anos, incluindo uma carga horária de 10% do total do curso, não contabilizado no 31 programa didático, para dedicação à realização de estágio supervisionado em instituição arquivística especializada e a redação de trabalho de conclusão de curso. Quanto à grade curricular, estabelecida com base na proposta de programa de ensino apresentado por Astréa de Moraes e Castro juntamente com o projeto do curso superior de arquivos ao CFE, define-se que deverá conter na grade dos cursos, ao menos, disciplinas que englobem os seguintes conhecimentos: Introdução ao Estudo de Direito; Introdução ao Estudo da História; Noções de Contabilidade; Noções de Estatística; Arquivos I-IV; Documentação; Introdução à Administração; História Administrativa, Econômica e Social do Brasil; Paleografia e Diplomática; Introdução à Comunicação; Notariado; Língua Estrangeira Moderna. O currículo mínimo para os cursos de Arquivologia estipula 12 matérias como obrigatórias a todos os cursos do país. Na prática, encontra-se a média de 35 disciplinas obrigatórias nas grades curriculares das escolas de Arquivologia.Esta concentração de disciplinas obrigatórias se justifica por conta da grande carga de disciplinas de conhecimentos gerais, consideradas como necessárias à formação do profissional arquivista, que demanda uma formação humanística, atinada às diversas realidades sociais presentes no país e nas sociedades em geral. História, sociologia, antropologia, filosofia, e conceitos de educação são buscados de modo recorrente nas formações brasileiras, de modo que exija a carga de disciplinas dilatada (Britto, 1999; Jardim, 1999, apud CRIVELLI e BIZELLO, 2012) Em 04 de julho do ano de 1978, diante da grande formação de profissionais arquivistas, foi sancionada a Lei Nº 6.546, que dispõe sobre a regulamentação das profissões de arquivista e técnico de arquivos. Condizente à preparação universitária que recebe nos cursos superiores, compete ao arquivista todos os processos de gestão documental, atividades de preservação, pesquisas e pareceres técnicos relacionados à arquivística, entre outras atividades. Em de 25 de setembro de 1978, é promulgado o Decreto Nº 82.308, a partir do qual o Brasil passa a contar com o Sistema Nacional de Arquivos (SINAR), com a proposta de estabelecer um sistema de tratamento que dispusesse de um controle integrado dos arquivos públicos federais a partir das determinações estipuladas para o funcionamento do sistema. No decreto de 1978, para a implantação do SINAR, é determinado que Art. 1º - Fica instituído o Sistema Nacional de Arquivo (SINAR) com finalidade de assegurar, com vista ao interesse da comunidade, ou pelo seu valor histórico, a preservação de documentos do Poder Público. Para a implantação do Sistema, entendia-se sua atuação direcionada apenas aos arquivos intermediários e permanentes e deixava de lado o tratamento dos arquivos administrativos. Era previsto o tratamento apenas dos documentos do Poder Executivo, sendo autorizada a inclusão dos documentos dos Poderes Legislativo e 32 Judiciário, mediante convênios. Foi instituído como órgão central do SINAR o Arquivo Nacional, subordinado ao Ministério da Justiça. Ainda assim a ideia de um Sistema Nacional de Arquivos é bastante interessante, demonstrando considerável avanço na dedicação governamental quanto ao tratamento documental e a preservação de seus arquivos. Durante toda a década de 1970 houve a intensificação por parte de órgãos governamentais no desenvolvimento de projetos de proteção ao patrimônio cultural nacional. O objetivo principal se voltava à preservação da memória nacional e de referências ao passado, como forma de se construir a história. A partir de 1975, ocorre uma proliferação de centros de documentação, centros de memória e centros de referência, em seguimento ao intento de preservação da memória nacional. Trata-se de um momento onde os arquivos históricos voltam a ter a valorização que lhes é pertinente, enquanto potenciais detentores de memória e fonte informacional para o desenvolvimento de pesquisas históricas, e demais trabalhos de investigação, para segmentos coletivos. (CRIVELLI e BIZELLO, 2012) Há que destacar também outro movimento social que serviu de estímulo para um fenômeno similar. Em meados do século XX, ocorre a intensificação no desenvolvimento de pesquisas científicas, em especial aos campos de tecnologia e de saúde, quando então surge uma demanda informacional ainda não presenciada nos núcleos científicos. O que acabou por acarretar a criação de centros de documentação especializados, desenvolvidos com vistas a atender a demanda informacional por parte do desenvolvimento das áreas. E por se tratar de uma movimentação altamente especializada, que demandaria de um suporte também especializado para atender às suas, viu-se a necessidade da criação destes serviços por parte de instituições de ensino superior, onde começa a se dedicar atenção aos arquivos universitários e científicos. Considera-se como fruto deste momento específico da sociedade, a implantação do Arquivo Edgar Leuenroth (AEL), que entrou em atividade em 1974 na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no Estado de São Paulo, após o recebimento do acervo pessoal do militante anarquista que conferiu nome à instituição. Uma atividade planejada, a absorção do conjunto documental de Edgar Leuenroth foi realizada na intenção mesma de estruturar um local que oferecesse suporte ao programa de pós-graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da universidade, atuando enquanto fonte de informações primárias, elementares ao desenvolvimento das pesquisas no campo em que foi inserido. Desde então, concomitante a 33 esta atividade primeiramente planejada, o AEL amplia sua proposta inicial e passa a agregar diversos conjuntos documentais, que correspondam à proposta estabelecida por suas políticas internas, concernentes a temáticas referentes aos movimentos sociais nacionais, movimentos políticos, atuação da esquerda política, antropologia, história da América Latina, em um amplo espectro. Na mesma instituição, onze anos depois, é criado o Centro de Memória da Unicamp (CMU), com o objetivo específico de resgatar e preservar a memória da Unicamp, da cidade de Campinas, onde se instala a universidade, e de sua região. Outros exemplos interessantes são o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP) da Universidade de São Paulo e o Centro de Documentação e Memória da Universidade Estadual Paulista (CEDEM- UNESP), oriundos de pensamentos similares aos da Unicamp, entre outros exemplos distribuídos por universidades de todo o país. (CRIVELLI e BIZELLO, 2012) Destaca-se também o empenho de instituições autônomas, não necessariamente ligadas a alguma instituição de ensino superior, mas a instituições de ordem pública dedicadas ao desenvolvimento social de alguma área específica, assim como fundações e institutos. Como exemplo, temos no Estado do Rio de Janeiro, a Casa de Oswaldo Cruz (COC-FIOCRUZ), que corresponde a um braço de atuação da Fundação Oswaldo Cruz de pesquisas na área da saúde. Criada em 1985, a COC tinha por projeto inicial a preservação da memória da Fundação a que se relaciona, concomitante com a preservação da memória sanitária no país, por considerar um paralelo à atuação da FIOCRUZ na área da saúde. Crivelli e Bizello, 2012 destacam dentro deste movimento expansionista, a criação, em 1973, do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, ligado à Fundação Getúlio Vargas (CPDOCFGV), com objetivos um tanto desafiadores para a época, mas que acabou por render frutos essenciais no atual contexto arquivístico, político e científico brasileiro. Tinha como propósito o recolhimento, tratamento, preservação e disseminação de acervos referentes às elites políticas do país através dos conjuntos documentais dos integrantes deste grupo. Se propunha, portanto, a trabalhar diretamente com os arquivos pessoais dos políticos atuantes no cenário político contemporâneo (século XX), contando ainda com o uso da história oral, a fim de ampliar o acúmulo de informações dentro de seu contexto de atuação (Ferreira, 2003, apud Crivelli e Bizello, 2012). 34 3.4 Programa de Modernização Institucional Socióloga com curso de doutorado pela Sorbonne, Celina Vargas do Amaral Peixoto foi fundadora do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas e diretora-geral do Arquivo Nacional entre 1980 e 1990. No ano de 1981 Celina Vargas põe em prática o Programa de Modernização Institucional, com esforços de mãos de obra técnica e de desenvolvimento científico partilhado com o CPDOC-FGV, instituição essa também dirigida pela diretora-geral do AN. O Programa de Modernização executado na gestão de Celina Vargas abrangia não somente melhorias estruturais físicas: a revitalização do prédio, adequação às técnicas de conservação, aquisição de novos equipamentos,etc., como também previa a revisão operacional das técnicas e da sistemática de trabalho com o acervo. Posta em prática essa ideia no Arquivo Nacional do Brasil contou com repercussão internacional, chamando atenção de outros arquivos nacionais e demais instituições arquivísticas estrangeiras para as práticas aplicadas no Brasil. A repercussão do Programa chegou ao conhecimento do ICA, que garantiu a atenção dos seus integrantes ao ponto de Charles Kecskeméti, então Diretor-Executivo do ICA, redigir um artigo a fim de comentar tais ações (1988). Dissertam Crivelli e Bizello (2012) que nesse artigo, Kecskeméti afirmou a urgência de realização de um programa de modernização no AN brasileiro, por considerar suas condições físicas e estruturais degradantes, o levando a classificar a situação do Arquivo Nacional como “catastrófica”. Descreve ainda que o AN não contava com suporte federal para se manter, não sendo beneficiado com verba há anos, que se encontrava em uma sede pequena, que não comportava o acervo e não era adequada para um Arquivo Nacional. Possuía um corpo profissional desqualificado, não havia qualquer sistematização nos trabalhos desenvolvidos, nem mesmo políticas de recolhimento de documentação, não havia inventariação de seu acervo, com documentos oriundos do período imperial do país se degradando, nem mesmo a própria instituição tinha conhecimento de seu material. Kecskeméti ainda comenta a presença da arquivística teórica efetivamente instalada no Brasil desde a década de 1960, no entanto, a aplicação de todos estes estudos desenvolvidos até então não foi levada a efeito. Mas sim, durante o Programa de Modernização 35 Institucional, muitos dos desenvolvimentos outrora previstos puderam ser executados, em parceria com o Ministério da Justiça e com o CPDOC-FGV. Em 8 de janeiro de 1991 foi promulgada a Lei Nº 8.159, conhecida como a Lei de Arquivos, que dispõe sobre a política nacional de arquivos públicos e privados. Essa lei vinha regulamentar a estruturação dos arquivos dos poderes municipais, estaduais e federal, no âmbito público, determinar o funcionamento dos arquivos privados e regulamentar a declaração de interesse público para arquivos privados. Determina a lei que ao Arquivo Nacional compete a gestão administrativa dos documentos produzidos pelo Poder Executivo, enquanto os poderes Legislativo e Judiciário contam com arquivos próprios. Dispõe sobre o acesso e o sigilo de documentos de ordem pública. A Lei de Arquivos é um marco na Arquivologia brasileira, uma vez ela responsável por estruturar a ação governamental e os arquivos do país como eles são apresentados hoje. Ela também é responsável por criar o Conselho Nacional de Arquivos (Conarq), órgão vinculado ao Arquivo Nacional, responsável por definir a política nacional de arquivos, ao ponto que substitui o AN como órgão central do SINAR. É com base nesta lei que o SINAR é reestruturado, através do Decreto Nº 1.173, de 29 de Junho de 1994, revogado pelo Decreto Nº 4.073, de 03 de Janeiro de 2002, que é responsável por regulamentar a Lei de Arquivos, de 1991. Com a criação do Conarq, que passa a ser o responsável pelo SINAR, as competências do sistema são reestabelecidas a fim de torná-lo mais eficiente em sua proposta. Como principais diferenças, o novo SINAR não se responsabiliza apenas pelos arquivos intermediários e permanente do Poder Executivo federal, mas abarca em suas disposições todo o fluxo documental, desde sua criação administrativa em Arquivo Corrente até sua destinação final, à eliminação ou ao Arquivo Permanente, e não compreende apenas Poder Executivo Federal, mas também os arquivos dos Poderes Legislativo e Judiciário, em todas as esferas de governo, seja na Federal, nas Estaduais e nas Municipais, o que sistematiza o trâmite documental em todo o país. (CRIVELLI e BIZELLO, 2012) Ao Conarq cabia a função de definir a política nacional de arquivos públicos e privados e dar orientações normativas sobre tratamento documental, com o intuito de garantir o bom funcionamento e a regularização dos sistemas de arquivos no país. O Conarq é responsável por desenvolver diversos estudos que são considerados subsídio básico para a atuação da Arquivologia e da Arquivística brasileiras, como, por exemplo, a publicação da Norma Brasileira de Descrição Arquivística (NOBRAD), adaptação da norma internacional ISAD(G) à realidade arquivística do país. 36 É responsável ainda pela tradução da própria ISAD(G), da ISAAR-CPF, entre outros trabalhos de uso internacional, além de desenvolver produções próprias referentes ao tratamento técnico de documentos especializados, estudos sobre guarda e transferência de documentos e mesmo tabelas de temporalidade para os poderes públicos e normativas para o domínio privado. Uma de suas últimas produções e que merece ser aqui destacado é a publicação do Módulo de Requisitos para Sistemas Informatizados de Gestão Arquivística de Documentos – e-ARQ Brasil, que dispõe sobre a estrutura mínima necessária ao adequado funcionamento de sistemas de gestão eletrônica de documentos arquivísticos, de acordo com os preceitos da Arquivologia em adequação ao novo universo dos documentos digitais. Aliás, a temática dos arquivos digitais e virtuais tem sido ponto de pauta constante junto às atividades dirigidas pelo Conarq. (CRIVELLI e BIZELLO, 2012) Durante a década de 1990 mais três cursos de graduação em Arquivologia foram criados: o da Universidade de Brasília (UNB), em 1991, da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA) ambos em 1998. Crivelli e Bizello destacam duas ocorrências como consequência desta maior formação de profissionais arquivistas: 1) O mercado de trabalho começa a tomar consciência da necessidade pragmática de um profissional com tais qualificações e quais os benefícios que oferecem aos sistemas administrativos, o que vai gerar ainda maior demanda por profissionais. 2) A segunda ocorrência diz respeito ao ingresso de alunos egressos de cursos de Arquivologia em programas de pós-graduação e a consequente formação de um grupo consistente de pesquisadores e docentes de ensino superior com formação inicial em arquivos. Os programas de pós-graduação que de modo mais frequente recebem os egressos de Arquivologia são os programas em Ciência da Informação, geralmente derivados das escolas de Biblioteconomia, já antigas e tradicionais no sistema de ensino superior brasileiro. Durante a década de 1990 ainda são poucos os programas de pós-graduação em Ciência da Informação no Brasil, em maior número são os programas que tem mestrado e em menor número aqueles que também tem o doutorado. Esses programas foram amplamente ampliados a partir dos anos 2000, com a criação de mais cursos de Mestrado e Doutorado em Ciência da Informação. Mesmo que não sejam pós-graduações em Arquivologia, Arquivística ou mesmo em arquivos, a quase totalidade destes programas trabalha com áreas de concentração e linhas de pesquisa que abarca facilmente temáticas referentes a estudos de arquivos, o que 37 coloca à área a maior possibilidade de desenvolvimento e destaque através de suas realizações científicas e geração de conhecimentos arquivísticos. No ano 2000 o Arquivo Nacional é submetido a uma alteração derivada de um Plano de Segurança Pública na esfera Federal, e é transferido da hierarquia do Ministério da Justiça para a Casa Civil da Presidência da República, o que é considerado pela comunidade arquivística brasileira como um dos maiores ganhos ao AN e uma demonstração de sua relevância junto ao cenário nacional. Em 2003 é criado o Sistema de Gestão de Documentos de Arquivo (SIGA) da administração pública federal, através da aplicação e controle de normativas emanadas do Conarq. Possui como principal objetivo atuar diretamente na administração pública federala fim de agilizar o acesso aos documentos e a oferta das informações públicas de forma democrática. No século XXI os cursos de Arquivologia sofrem grande expansão. Na primeira década são criados 9 novos cursos de graduação em Arquivologia, em todas as regiões do Brasil, o que nos coloca, então, com a oferta de 15 graduações em Arquivologia até o final da primeira década do século XXI. Isso abre novos horizontes para a Arquivologia brasileira a partir de todos os estudos gerados em decorrência desta profícua formação de profissionais, bem como a ampliação e dominação do mercado de trabalho, que ainda sofre com a demanda por profissionais de arquivos. 3.5 Contexto Atual A sociedade passa sempre por constantes mudanças, sejam elas culturais, econômicas ou políticas, fazendo com que a formação de ensino superior também passe por transformações, uma vez que o mercado de trabalho exige um profissional capacitado que seja cidadão frente ao meio que está inserido. Isso faz com que a Arquivologia deva ter uma base firme em sua formação profissional dentro das universidades, pois a partir destes espaços de ensino tão importantes que se terá produção de conhecimento arquivístico capaz de dar suporte a adequada atuação de seu profissional, o arquivista. Com base nesse fato, pensa-se a universidade, em relação aos cursos de graduação, antes de tudo como tendo por objetivo: (...) educar seus alunos para o exercício pleno da cidadania deveria implicar propiciarlhes, além das habilidades para o exercício profissional, uma formação geral e humanista, dotada de visão crítica da sociedade em que irão atuar. Significa formar o cidadão ético, comprometido com sua época e 38 local de atuação. É a possibilidade de preparar não apenas recursos humanos capacitados profissionalmente como também agentes da transformação social. (FURLANI, 1998, p. 15, apud FERREIRA e KONRAD, 2014). O primeiro órgão, no país, a se preocupar com a criação de cursos para aperfeiçoamento de seus funcionários foi o Arquivo Nacional. Foi no ano de 1911, por meio do decreto nº 9.197, de 9 de fevereiro, que se instituiu que haveria no Arquivo Nacional, pela primeira vez, um curso de Diplomática, que contava com disciplinas de Paleografia, Cronologia, Crítica Histórica, Tecnologia Diplomática e Regras de Classificação (MONTEIRO, 1988, apud FERREIRA e KONRAD, 2014). Quanto à criação de cursos de graduação em Arquivologia no Brasil, ou seja, o desenvolvimento da Arquivologia no ensino superior brasileiro, segundo Britto (1999, p. 53) “em 1972, o Conselho Federal de Educação (CFE) concedeu às universidades brasileiras, por meio do Decreto nº 212, de 7 de março, o poder de organizar programas de graduação em Arquivologia.” Em 1977, iniciam-se as atividades do primeiro curso de graduação em Arquivologia criado por uma universidade, o da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), nascido em 1976 no Rio Grande do Sul. No ano de 2014, o portal do e-MEC - Sistema de Regulação do Ensino Superior, que é um sistema eletrônico de acompanhamento dos processos que regulam a educação superior no Brasil, apresentou exatamente 16 cursos de graduação em Arquivologia em Instituições de Educação Superior (IES) públicas no Brasil em atividade, sendo todos com grau de bacharelado e modalidade presencial. Além destes cursos, apresentou também um curso em instituição particular, o do Centro Universitário Assunção – UNIFAI, em São Paulo, mantido pelo Instituto Educacional Seminário Paulopolitano. Importante mencionar que destes cursos seis foram criados pelo Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI): o da FURG, o da UFPB, o da UFAM, o da UFMG, o da UFSC e o da UFPA (FLORES; PEDRAZZI; RODRIGUES, 2012, apud FERREIRA e KONRAD, 2014). Visando-se apenas os cursos das IES públicas, tem-se o ensino de Arquivologia no ensino superior distribuído pelo país da seguinte forma: 39 Fonte: FERREIRA e KONRAD, 2014 Quanto à pós-graduação, no ano de 2012 é dado início a um projeto antigo, mas que agora é regulamentado e posto em prática, que corresponde ao Programa de Pós-Graduação em Gestão de Documentos e Arquivos (PPGARQ), com o curso de Mestrado Profissional, e com o conteúdo totalmente dedicado às temáticas da Arquivologia. Este programa está inserido na estrutura da Universidade do Rio de Janeiro (UNIRIO), que também foi a primeira a abrir a graduação em arquivos. Também merece destaque a I Reunião Brasileira de Ensino e Pesquisa em Arquivologia (REPARQ), em 2010, um evento que visou reunir a comunidade acadêmica da área e realizar fóruns de discussão com vistas ao aprimoramento do sistema de ensino em Arquivologia, além da apresentação de trabalhos e pesquisas 40 em andamento, a fim de disseminar o que tem sido pesquisado nos diversos polos acadêmicos e científicos da área. Em 2011 foi realizada a segunda edição. O país conta ainda com outros eventos relevantes, como o Congresso Brasileiro de Arquivologia, o Congresso Nacional de Arquivologia, o Encontro Nacional dos Estudantes de Arquivologia (ENEArq), além de muitos outros eventos e fóruns regionais, mas que também contribuem sobremaneira com o desenvolvimento científico da área no Brasil. 4 USUÁRIOS DE ARQUIVOS PÚBLICOS E INTERNET Fonte:cdn.abcdoabc.com.br Um tema de grande importância para a Arquivologia, que lida diretamente com o público e suas necessidades, é o usuário deste processo, que pretende garantir as respostas de suas angústias durante a fase de um projeto, de comprovação de direitos, curiosidades em geral, entre outros. Guimarães e Silva (1996) define o usuário de arquivo como (...|) todo indivíduo, independente de cor, sexo, religião, nível de renda, escolaridade, profissão etc., habituado ou não a frequentar instituições arquivísticas ou consultar documentos, que apresente uma necessidade vital de uma certa informação que se encontra sob a guarda de um arquivo. 41 Jardim e Fonseca (2000, apud Mariz, 2012) aprofundam mais a questão do perfil dos usuários de arquivo ressaltando que os arquivistas devem mudar o foco do tratamento e disseminação da informação arquivística para o alcance dos pesquisadores, assim, os arquivos seriam direcionados para os usuários e não para os arquivistas. Definindo, assim, de maneira bem clara o papel dos arquivistas, muitas vezes esquecido, qual seja o de servir à sociedade e não aos arquivos, produzindo instrumentos e condições capazes de realizar a transferência da informação contida nestes acervos. No entanto, esta transferência somente se dará através de um bom serviço de comunicação entre o transmissor e o receptor da informação. A transferência da informação é um processo que surge quando o conhecimento que determinada fonte possui, passa a se incorporar ao mundo do usuário que a absorve. Para isso, torna-se necessário uma cadeia de mecanismos capazes de realizar esta relação entre informação e receptor, gerando um novo estado de conhecimento ao último, possibilitando assim o seu desenvolvimento. Esta qualificação do usuário é um fator decisivo para o acompanhamento e entendimento das transformações do fluxo da informação que a cada dia torna-se mais veloz e eficaz com o advento da comunicação eletrônica. Em 2005, no desenvolvimento de pesquisa para a tese de doutorado (MARIZ, 2005), surgiu um questionamento sobre o acesso à internet pelos usuários dos arquivos públicos, que não foi possível esclarecer naquele momento. Dois entrevistados, oriundos de instituições diferentes, fizeram afirmações em direções opostas: um deles afirmou que o usuário de arquivo não teria acesso à internet e, portanto, não teria condições de consultar o acervo da instituição pela rede, enquanto o outro afirmou o contrário, que o usuário de arquivo teria sim, acesso à internet. Os dois expressaram opiniões dissonantese ambos com muita segurança. Também em 2005, por meio de orientação de um aluno da graduação da Unirio, foi empreendida uma pesquisa com o objetivo de verificar o perfil dos usuários de arquivos públicos e em especial seu acesso à internet. Dois arquivos públicos no Rio de Janeiro foram definidos como campo para amostra: o Arquivo Nacional, de âmbito federal, e o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, de âmbito municipal. A coleta de dados deu-se por meio do preenchimento de um questionário pelos usuários que se encontravam nas salas de consulta (OLIVEIRA, 2005, apud Mariz, 2012). Após cinco anos, este questionário foi aplicado novamente, com poucas alterações e os 42 resultados foram comparados. Apresenta-se a seguir parte dos resultados dessa pesquisa. Em 2005 eram 50 questionários divididos da seguinte forma: 36 no AN e 14 no AGCRJ. Em 2010 eram 55 questionários, 30 no AN e 25 no AGCRJ. Foram preenchidos por usuários presentes nas respectivas salas de consulta das instituições, em outubro de 2005 e em abril de 2010. Sobre as informações gerais dos usuários, os que tinham como grau de escolaridade o nível superior completo ou em curso em 2005 eram 94%; já em 2010, eram 88%. Essa queda pode indicar uma popularização do acesso, uma vez que o índice dos que tinham nível médio aumentou em 2010. A faixa etária com maior índice é a de 21 a 40 anos, com 60% em 2005 e 58% em 2010. A classe de 41 a 60 anos teve um aumento significativo, de 16% em 2005 para 29% em 2010. A grande maioria afirmou morar no RJ nas duas ocasiões. Sobre a frequência em Arquivos Públicos, 75% afirmaram ter o costume de frequentar em 2005 e esse índice aumentou para 80% em 2010. Em relação à ocupação, aproximadamente 50% estavam empregados em 2005 e aproximadamente 80% em 2010 - este foi o índice que apresentou o aumento mais expressivo. O objetivo mais apontado da pesquisa no arquivo público foi o “acadêmico”, com 78% em 2005 e 52% em 2010. Apesar de ser o índice mais alto nas duas ocasiões, a pesquisa com fins acadêmicos apresentou uma queda considerável. Por outro lado, a pesquisa com fins profissionais teve um aumento bem expressivo: de 10% em 2005 para 40% em 2010. As principais perguntas voltadas para o acesso à internet foram em relação a possuir computador, a ter acesso à internet e em que lugar ele se dá. Sobre ter computador em casa, 90% tinham em 2005 e 92% em 2010, a grande maioria em ambos os períodos. Sobre o acesso à internet, o que era dúvida em 2005, 94% afirmaram ter acesso. Uma resposta positiva muito expressiva. Em 2010, consequentemente, já não havia dúvidas em relação a este aspecto, mas o índice aumentou para 97%. Portanto, pode-se concluir que o usuário de arquivos públicos tem acesso à internet. Ao perguntar sobre o local de acesso, o resultado mais apontado foi parecido: em casa, 62% em 2005 e 67% em 2010. Porém, no trabalho cresceu de 19% em 2005 para 40% em 2010 e na universidade diminuiu de 38% em 2005 para 16% em 2010. Os que assinalaram em todos os lugares foram 21% em 2005 e 23% em 2010. O aumento 43 de acesso no ambiente do trabalho é coerente com o aumento expressivo no índice dos que têm emprego de 2005 para 2010. Em 2010 foram acrescentadas algumas perguntas ao mesmo questionário. Sobre o tipo de acesso, a banda larga chegou a aproximadamente 86%. Se os usuários consultaram sobre o assunto na internet antes de se dirigirem à Instituição, aproximadamente 80% responderam afirmativamente. Alguns afirmaram terem ido ao Arquivo por causa dessa pesquisa na rede, ou por não terem encontrado nada ou por terem recebido a indicação da instituição. Na mesma época, em abril de 2010, o Arquivo Nacional (sede) atendeu em 19 dias úteis 2265 usuários, assim distribuídos: presencial – 779, representando 34%; à distância – 948, representando 42%; e pelo telefone – 538, ou 24% (VALÉRIO, 2010, apud Mariz, 2012). A consulta à distância, que inclui a internet, representa o maior número de consultas. No mesmo ano, em 2010, o arquivista Wagner Ridolphi realizou pesquisa sobre o perfil dos alunos de Arquivologia na Unirio. Com o intuito de enriquecer o panorama sobre o acesso à internet, foi solicitado que ele incluísse no questionário uma pergunta sobre o acesso à internet a qual todos responderam positivamente. Alguns outros resultados da pesquisa citada deixam clara a importância da internet para os alunos de Arquivologia; tais como: 66% indicaram a internet como a principal fonte para saber sobre as atualidades (a segunda fonte foi telejornal com apenas 8,4%); 77% afirmaram usar a internet frequentemente/sempre e 60% disseram ter experiência em relação ao uso do microcomputador. Dados daquele ano referentes ao uso da internet no Brasil demonstram que em 2010 o número de pessoas com acesso à internet atingiu 73,9 milhões. O que representou um crescimento de 9,6% em um ano, já que no final de 2009 o país tinha 67,5 milhões de internautas. O número considera todo o tipo de acesso: residencial, trabalho, escolas, lan-houses, etc. (Ibope Nielsen) O acesso à internet no trabalho ou em domicílios teve crescimento ainda maior, o total de pessoas com conexão em pelo menos um dos dois ambientes chegou a 56 milhões em fevereiro de 2011, o que significou um crescimento de 19,2% sobre os 47 milhões do mesmo mês do ano anterior. O total de pessoas com acesso à internet em seus domicílios cresceu 24% nesse período e chegou a 52,8 milhões, segundo o Ibope. 44 Apesar do resultado das pesquisas apontar entre 97 e 100% de usuários com acesso à internet, o número de pessoas com acesso no país (cerca de 74 milhões) ainda é pequeno em relação à população de 190 milhões - representa quase 40%. Este número ainda é baixo, menos da metade das pessoas, mas o crescimento tem sido progressivo, aumentando num ritmo cada vez mais acelerado. 4.1 Lei de Acesso à informação e internet A Lei de Acesso à informação, Lei 12.527 de 18 de novembro de 2011, determina procedimentos para assegurar o direito fundamental de acesso à informação e que devem ser executados em conformidade com os princípios básicos da administração pública, e aponta algumas diretrizes. Entre essas diretrizes são citadas a divulgação de informações de interesse público, independentemente de solicitações, e a utilização de meios de comunicação viabilizados pela tecnologia da informação. No Artigo 8º são detalhadas as informações mínimas que devem ser disponibilizadas independentemente de requerimentos e aponta que, para cumprir essa determinação, os órgãos e entidades públicas devem utilizar todos os meios e instrumentos legítimos de que dispuserem, ressaltando a obrigatoriedade da divulgação em sítios oficiais da internet. Em seguida, no parágrafo 3º, explicita os requisitos mínimos aos quais os referidos sítios devem atender, quais sejam: I - conter ferramenta de pesquisa de conteúdo que permita o acesso à informação de forma objetiva, transparente, clara e em linguagem de fácil compreensão; II - possibilitar a gravação de relatórios em diversos formatos eletrônicos, inclusive abertos e não proprietários, tais como planilhas e texto, de modo a facilitar a análise das informações; III - possibilitar o acesso automatizado por sistemas externos em formatos abertos, estruturados e legíveis por máquina; IV - divulgar em detalhes os formatos utilizados para estruturação da informação; V - garantir a autenticidade e a integridade das informações disponíveis para acesso; VI - manter atualizadas as informações disponíveis para acesso; 45 VII - indicar local e instruções que permitam ao interessado comunicar-se, por via eletrônica ou telefônica, com o órgão ou entidade detentora do sítio; e VIII - adotar as medidas necessárias para garantir a acessibilidade de conteúdo para pessoas com deficiência, nos termos do art. 17 daLei n o 10.098, de 19 de dezembro de 2000, e do art. 9 o da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, aprovada pelo Decreto Legislativo n o 186, de 9 de julho de 2008.” Assim como a Lei 12.527, o Decreto 7.724 de 16 de maio de 2012, que regulamenta a Lei de Acesso (nível federal), também menciona várias vezes o uso da internet por meio dos sítios oficiais para a divulgação das informações solicitadas ou não pelo cidadão. O Artigo 7º define o que é transparência ativa, ou seja, o dever que os órgãos e entidades têm de divulgar, independente de requerimento, as informações de interesse coletivo ou geral por eles produzidas ou custodiadas, já determinando que essa divulgação deverá ser feita em seus sítios na internet. Nos parágrafos 1º e 2º fica definido que os sítios devem ter seção específica para a divulgação das informações mencionadas com banner na página inicial, dando acesso a essa sessão e barra de identidade do Governo Federal, contendo ferramenta de redirecionamento para o Portal Brasil e para o sítio principal sobre a Lei 12.527, de 2011, conforme os padrões estabelecidos pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. O parágrafo 3º define que informações devem ser divulgadas na seção específica de que trata o parágrafo 1º: I - estrutura organizacional, competências, legislação aplicável, principais cargos e seus ocupantes, endereço e telefones das unidades, horários de atendimento ao público; II - programas, projetos, ações, obras e atividades, com indicação da unidade responsável, principais metas e resultados e, quando existentes, indicadores de resultado e impacto; III - repasses ou transferências de recursos financeiros; IV - execução orçamentária e financeira detalhada; V - licitações realizadas e em andamento, com editais, anexos e resultados, além dos contratos firmados e notas de empenho emitidas; VI - remuneração e subsídio recebidos por ocupante de cargo, posto, graduação, função e emprego público, incluindo auxílios, ajudas de custo, jetons e 46 quaisquer outras vantagens pecuniárias, bem como proventos de aposentadoria e pensões daqueles que estiverem na ativa, de maneira individualizada, conforme ato do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão; VII - respostas a perguntas mais frequentes da sociedade; e VIII - contato da autoridade de monitoramento, designada nos termos do art. 40 da Lei n o 12.527, de 2011, e telefone e correio eletrônico do Serviço de Informações ao Cidadão - SIC. O Artigo 4º permite que a divulgação seja feita por meio de ferramenta de redirecionamento de página na internet, quando estiverem disponíveis em outros sítios governamentais. E o Art. 8º indica os requisitos que devem ser atendidos pelos sites dos órgãos e entidades na internet: I - conter formulário para pedido de acesso à informação; II - conter ferramenta de pesquisa de conteúdo que permita o acesso à informação de forma objetiva, transparente, clara e em linguagem de fácil compreensão; III - possibilitar gravação de relatórios em diversos formatos eletrônicos, inclusive abertos e não proprietários, tais como planilhas e texto, de modo a facilitar a análise das informações; IV - possibilitar acesso automatizado por sistemas externos em formatos abertos, estruturados e legíveis por máquina; V - divulgar em detalhes os formatos utilizados para estruturação da informação; VI - garantir autenticidade e integridade das informações disponíveis para acesso; VII - indicar instruções que permitam ao requerente comunicar-se, por via eletrônica ou telefônica, com o órgão ou entidade; e VIII - garantir a acessibilidade de conteúdo para pessoas com deficiência. Além da transparência ativa, o decreto determina que o formulário padrão para apresentação do pedido de acesso à informação, seja disponibilizado em meio eletrônico, no sítio da internet, além do meio físico no SIC dos órgãos e entidades (Art. 11 e 68). 47 No sítio também deverá ser publicado anualmente pela autoridade máxima de cada órgão ou entidade o rol das informações desclassificadas nos últimos doze meses e o rol das informações classificadas em cada grau de sigilo (Art. 45). As entidades privadas sem fins lucrativos que receberem recursos públicos para realização de ações de interesse público deverão dar publicidade às informações em seu sítio na internet, o que pode ser dispensado nos casos de entidades privadas sem fins lucrativos que não disponham de meios para realizá-la, mediante justificação (Art.63). Pode-se perceber que a Lei e o Decreto que regulamenta a Lei definem com muita naturalidade que a divulgação das informações seja feita por meio dos sites. Assume como realidade, tanto a existência dos sites dos órgãos e entidades quanto a possibilidade dos interessados terem acesso a eles. Cabe saber se procede. Em relação às instituições arquivísticas, sabemos que muitas ainda não possuem sites. Entre as que já têm os sites cabe verificar em que situação se encontram. Uma vez que a Lei explicita o uso de sites para a divulgação das informações de interesse público, com o objetivo de averiguar a situação atual dos sítios dos Arquivos Públicos Brasileiros no que se refere à Lei de Acesso à Informação, foi feita uma pesquisa entre os sítios das instituições arquivísticas públicas brasileiras estudadas e publicadas no livro A informação e a internet: arquivos públicos brasileiros (MARIZ, 2012, p. 93-96). Dos 47 sítios de instituições arquivísticas públicas constantes naquele estudo, apenas 3 têm seção sobre a Lei de Acesso: o Arquivo Nacional (federal), o Arquivo Público do Espírito Santo (estadual) e o Arquivo de São Carlos (municipal), onde constam informações sobre a própria instituição (transparência ativa). Dois outros sítios de instituições arquivísticas estaduais apresentam links para o Portal de Transparência Estadual: o Arquivo Público do Estado de São Paulo – com link para o Portal da Transparência Estadual do Governo Paulista e o Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul – com link para o site da Transparência do Governo do Estado (RS). No site do Arquivo do Município de São Carlos, observa-se as duas ações: além das informações sobre a instituição, consta também o link para o site de Acesso à Informação da Prefeitura de São Carlos. Assim, são 3 resultados em cada caso, sendo que uma das instituições está nos dois, portanto totalizando 5 instituições com informações ou links para atender à Lei 12527 (levantamento feito no dia 20 de agosto de 2012). 48 5 DISPOSIÇÕES GERAIS Fonte:2.ufpa.br As primeiras instituições arquivísticas tiveram origem na Grécia Antiga. Alguns autores afirmam que a etimologia do termo “arquivo” deriva da palavra grega “archeion”, que se refere ao local de guarda e depósito de documentos. O Dicionário de Terminologia Arquivística elaborado pelo Conselho Nacional de Arquivos: – CONARQ (2005, p. 25) apresenta a seguinte definição para arquivo: Conjunto de documentos produzidos e acumulados por uma entidade coletiva, pública ou privada, pessoa ou família, no desempenho de suas atividades, independentemente da natureza do suporte. O conceito de arquivo constante do artigo 2º do texto da Lei 8.159/1991 é considerado mais completo: 49 Conjunto de documentos produzidos e recebidos por órgãos públicos, instituições de caráter público e entidades privadas, em decorrência do exercício de atividades específicas, bem como por pessoa física, qualquer que seja o suporte da informação ou a natureza dos documentos. Quem pode produzir documento arquivístico? Administração Pública direta e indireta e toda empresa ou pessoa física que possua vínculo com o poder público. Qual documento pode ser considerado público? Aquele produzido ou recebido pelos órgãos, instituições ou pessoas físicase jurídicas no desempenho de atividades públicas. Qualquer informação pode ser considerada documento de arquivo? Não. Será considerado documento arquivístico aquele produzido em decorrência do exercício das atividades orgânicas das instituições. Do conceito apresentado deve-se observar que os arquivos são representados por um conjunto de documentos produzidos e recebidos por: ÓRGÃOS PÚBLICOS (...) produzidos no desempenho de suas atividades... INSTITUIÇÕES DE CARÁTER PÚBLICO ENTIDADES PRIVADAS PESSOAS FÍSICAS OU FAMÍLIAS Para que se possa compreender a estrutura conceitual do termo arquivo, a análise de três elementos básicos de sua formação é essencial: Suporte Representa o material no qual são registradas as informações. 50 Papel Película Fotográfica Papiro Disquete, CD, Informação É o elemento referencial, a noção, a ideia ou a mensagem, contidos em um documento. Documento É a unidade de registro de informações, suscetível de consulta, estudo, prova e pesquisa, em que se comprovam fatos, fenômenos, formas de vida e pensamentos do homem numa determinada época ou lugar. É qualquer informação registrada fisicamente em determinado material (suporte) suscetível de estudo, prova e pesquisa. Polissemia do termo “arquivo” O termo arquivo compreende um conjunto de significados, em que o contexto de uso do termo permite orientar-se pelas seguintes definições: 51 Conjunto de documentos – qualquer que seja a sua data, a sua forma, o seu suporte material, elaborados ou recebidos por um organismo público ou privado, em função do desempenho de sua atividade. Local de guarda – destinado à conservação de documentos devidamente classificados e ordenados. Instituição ou serviço – que tem por finalidade a custódia, o processamento técnico, a conservação e o acesso aos documentos. Móvel – destinado à guarda de documentos. Título de periódicos – geralmente no plural, devido à influência inglesa e francesa. 5.1 Distinção entre Arquivo, Biblioteca e Museu Arquivos, bibliotecas e museus são entidades que compartilham a responsabilidade no processo de recuperação da informação em benefício da divulgação científica, tecnológica, cultural e social, bem como o testemunho jurídico e histórico. Essas instituições cumprem seus objetivos por meio da aplicação de procedimentos técnicos distintos e metodologicamente aplicados. Os fins, em se tratando de biblioteca e museus, serão didáticos, culturais, técnicos ou científicos e os de arquivos serão administrativos e jurídicos. Documentos de arquivo São produzidos ou recebidos por instituição ou pessoa, no curso de sua atividade, guardando esses documentos relação orgânica entre si. São preservados para a consecução de objetivos funcionais, legais e administrativos, visando à utilidade que poderão ter no futuro. Fonte:domesticalegal.com.br 52 Arquivo é órgão receptor (recolhe naturalmente o que produz a administração pública ou privada à qual serve) e em seu acervo os conjuntos documentais estão reunidos segundo sua origem e função. Os objetivos primários do arquivo são jurídicos, funcionais e administrativos e os fins secundários serão culturais e de pesquisa histórica. A fonte geradora é única, ou seja, é a administração ou é a pessoa à qual o arquivo é ligado. (Bellotto, 2007, p. 38) Documentos de museu São provenientes da criação artística ou da civilização material de uma comunidade. Representam o testemunho de determinada época ou atividade, sendo utilizado para informar, de forma visual, educar e entreter. Os documentos museológicos são caracterizados por serem objetos bi ou tridimensionais. Eles possuem os mais diversos tipos, naturezas, formas e dimensões. Fonte:antigoegito.org Museu é órgão colecionador, isto é, a coleção é artificial e classificada segundo a natureza do material e a finalidade específica do museu a que pertence e seus objetivos finais são educativos e culturais. (Bellotto 2007, p. 39) Para facilitar a compreensão segue um quadro comparativo abrangendo as principais características entre arquivo, biblioteca e museu: 53 ARQUIVO BIBLIOTECA MUSEU TIPO DE SUPORTE Documentos manuscritos, impressos, audiovisuais (exemplar único). Documentos impressos, manuscritos, audiovisuais (exemplar múltiplo). Objetos bi/tridimensionais (exemplar único). TIPO DE CONJUNTO Fundos: unidos pela proveniência (origem). Coleção: documentos unidos pelo conteúdo. Coleção: documentos unidos pelo conteúdo ou pela função. FINS DE PRODUÇÃO Administrativos, jurídicos, funcionais, legais. Culturais, científicos, técnicos, artísticos, educativos. Culturais, artísticos, funcionais. OBJETIVO Provar, testemunhar Instruir, informar. Informar, entreter. ENTRADA DOS DOCUMENTOS Acumulação natural: são produzidos em decorrência do desempenho das atividades. Compra, doação, permuta de fontes múltiplas. Compra, doação, permuta de fontes múltiplas. PÚBLICO Administrador e pesquisador. Grande público e pesquisador. Grande público e pesquisador. Características Principais de Cada Tipo de Acervo ARQUIVÍSTICO - A organização espelha a instituição de que tratam os documentos. BIBLIOGRÁFICO A organização do acervo espelha a organização dada às áreas do conhecimento. MUSEOLÓGICO A organização espelha recortes de tempo, de assunto e da memória. Paralelo entre biblioteca e arquivo De acordo com Paes (2004), as características principais entre arquivos e bibliotecas podem ser resumidas da seguinte forma: BIBLIOTECA ARQUIVO GÊNERO DOS DOCUMENTOS Documentos impressos. Audiovisual. Cartográfico. Documentos textuais. Audiovisuais. Cartográficos. ORIGEM Os documentos são produzidos e conservados com objetivos culturais. Os documentos são produzidos e conservados com objetivos funcionais. 54 AQUISIÇÃO OU CUSTÓDIA Os documentos são colecionados de fontes diversas, adquiridos por compra ou doação. Os documentos existem em numerosos exemplares. A significação do acervo não depende da relação que os documentos tenham entre si. Os documentos não são objetos de coleção; provêm tão-só das atividades públicas ou privadas, servidas pelo arquivo. Os documentos são produzidos em um único exemplar ou em limitado número de cópias. Há significação orgânica entre os documentos. MÉTODO DE AVALIAÇÃO Aplica-se a unidades isoladas. O julgamento não tem caráter irrevogável. Preserva-se a documentação referente a uma atividade, como um conjunto e não como unidades isoladas. Os julgamentos são finais e irrevogáveis. Concluindo, pode-se dizer que a biblioteconomia trata dos documentos individuais e a arquivística, de conjuntos de documentos. 5.2 Ciclo de Vida dos Documentos ou Teoria das 3 Idades A teoria arquivística sistematiza o ciclo de vida dos documentos de arquivo em três fases distintas e complementares, caracterizadas por intervalo de tempo e pelo tipo de uso que é dado ao documento em cada idade. A metodologia a ser utilizada na organização dos documentos depende muito da fase em que ele se encontra no chamado ciclo vital, tendo em vista que a frequência de uso e o público alvo são distintos. Teoria segundo a qual os arquivos são considerados arquivos correntes, intermediários ou permanentes, de acordo com a frequência de uso por suas entidades produtoras e a identificação de seus valores primário e secundário. Arquivo corrente ou arquivo de primeira idade Essa é a primeira fase do ciclo de vida dos documentos de arquivo. Ela é composta pelos conjuntos documentais em curso ou que, mesmo sem movimentação, constituam objeto de consultasfrequentes. São arquivos que devem permanecer 55 próximos aos produtores e serem de fácil acesso, pois existem em função do cumprimento de sua finalidade administrativa. ARQUIVO CORRENTE • Primeira fase do ciclo de vida dos documentos; • Documentos consultados frequentemente; • Devem permanecer próximos aos produtores por razões administrativas e técnicas; • Devem ser de fácil acesso; • São absolutamente essenciais ao funcionamento de quem os acumula. Arquivo intermediário Corresponde à segunda fase do ciclo vital. São os conjuntos documentais que, não sendo mais de uso corrente nos órgãos produtores, por razões de ordem administrativa, legal ou financeira, aguardam a sua eliminação ou recolhimento para guarda permanente. Esses arquivos não precisam ficar próximos aos setores de trabalho, pois têm uso menos frequente que os arquivos correntes. Os arquivos intermediários são transitórios e, também, são conhecidos como “limbo” ou “purgatório”. ARQUIVO INTERMEDIÁRIO • Segunda fase do ciclo de vida dos documentos; • Documentos com baixa frequência de consulta; • Conservados por ordem administrativa, legal ou financeira; • Aguardam a eliminação ou guarda permanente; • Podem ser alocados em local afastado, de manutenção barata; • Permanência transitória, por isso, também, são conhecidos como "limbo" ou "purgatório"; • Consulta restrita ao órgão produtor. Arquivo permanente Essa representa a terceira e última fase do ciclo de vida dos documentos de arquivo. É composta pelos conjuntos de documentos de valor histórico, probatório e informativo que devem ser definitivamente preservados pela instituição. Quando o 56 documento chega à fase permanente, deve ser arquivado de forma definitiva e jamais poderá ser eliminado. Nesta fase do ciclo vital ele passa a interessar mais aos pesquisadores (fins científicos, sociais e culturais) do que aos produtores. Os arquivos dessa natureza situam-se em lugares acessíveis e dotados de salas de pesquisas para atender ao público. ARQUIVO PERMANENTE • Terceira fase do ciclo de vida dos documentos; • Conjuntos documentais de valor histórico, probatório e informativo; • O documento permanente perdeu todo o valor de natureza administrativa; • O documento permanente deve ser guardado definitivamente; • Possui fins científicos, sociais e culturais; • Os arquivos permanentes devem ficar localizados em lugares de fácil acesso; • Consulta liberada ao público. Nomenclatura para cada fase ou idade Não há consenso entra a literatura e a legislação arquivística quanto à forma como cada fase do ciclo de vida dos documentos arquivísticos deve ser nomeada. Isso acaba se refletindo nas questões sobre esse tema nas provas de concursos públicos. Para o candidato não ser surpreendido com uma nomenclatura desconhecida, seguem, de forma esquemática, as possibilidades mais cobradas nos certames: ARQUIVO CORRENTE Arquivo de 1ª idade 1ª fase do ciclo vital Arquivo ativo Arquivo de movimento Arquivo de gestão ARQUIVO INTERMEDIÁRIO Arquivo de 2ª idade 2ª fase do ciclo vital Arquivo semiativo Limbo / purgatório Temporário ARQUIVO PERMANENTE Arquivo de 3ª idade 3ª fase do ciclo vital Arquivo inativo Arquivo histórico 57 Valor dos Documentos A atribuição de valor aos documentos de arquivo leva em conta duas facetas distintas: valor primário/administrativo e valor secundário/histórico. Valor primário/administrativo/imediato Refere-se ao valor atribuído aos documentos em função do interesse que eles possam ter para apoiar as atividades rotineiras da instituição produtora, evidenciando, assim, a utilidade administrativa, legal ou fiscal dos documentos de arquivo. São documentos que dão suporte às atividades do dia a dia. O valor primário está diretamente relacionado ao motivo pelo qual o documento foi criado (utilidade administrativa imediata) e é absolutamente característico das fases CORRENTE e INTERMEDIÁRIA. O valor primário representa um valor transitório, que todo documento produzido possui e perde com o passar do tempo. De acordo com o Dicionário de Terminologia Arquivística (2005), valor primário representa: Valor atribuído ao documento em função do interesse que possa ter para a entidade produtora, levando-se em conta a sua utilidade para fins administrativos, legais e fiscais. 58 Valor secundário/histórico/mediato Refere-se ao valor atribuído aos documentos em função do interesse que eles possam ter para fins diferentes daqueles para os quais foram originariamente produzidos. Os documentos com valor secundário são considerados importantes fontes de informações para pesquisadores em geral e para a própria entidade produtora. O valor secundário é característico da fase PERMANENTE e os documentos que possuem esse atributo jamais poderão ser eliminados. Esse é um valor imprescritível. Ressalta-se que apenas uma pequena parcela do acervo produzido detém valor secundário ou histórico. De acordo com a definição do Dicionário de Terminologia Arquivística (2005), valor secundário representa: Valor atribuído a um documento em função do interesse que possa ter para a entidade produtora e outros usuários, tendo em vista a sua utilidade para fins diferentes daqueles para os quais foi originalmente produzido. O valor secundário pode ser subdividido em probatório e informativo, assim como veremos no esquema seguinte: Cabe destacar que todos os documentos possuem valor primário, mas nem todos possuem ou adquirem um valor secundário. Quando os documentos perdem o seu valor primário e não possuem valor secundário, são eliminados. Por sua vez, 59 aqueles que não são mais necessários às atividades rotineiras do órgão ou entidade que os criou, mas apresentam valor secundário (valor probatório ou informativo), serão destinados à guarda permanente para que sejam disponibilizados para a sociedade. 5.3 Avaliação A avaliação constitui atividade essencial do ciclo de vida dos documentos arquivísticos, tendo em vista que ela representa a análise dos documentos da instituição, com a finalidade precípua de estabelecer os prazos de guarda dos documentos nas fases corrente e intermediária bem como a destinação final dos documentos (eliminação ou guarda permanente) a partir do valor primário e do valor secundário. A avaliação dos documentos permite que a documentação considerada sem valor secundário seja eliminada dentro de determinados prazos e que a massa documental de determinada instituição ou pessoa seja reduzida sem que ocorra qualquer prejuízo ao conjunto informacional. A avaliação de documentos constitui-se em um trabalho complexo à medida que deve analisar um conjunto de direitos e obrigações e todo um contexto social, histórico e informativo antes de se definir pela eliminação ou pela guarda permanente um conjunto ou série documental. Em face disso, as instituições ou pessoas responsáveis pela gestão do acervo devem compor equipes técnicas multidisciplinares (também conhecidas como Comissão Permanente de Avaliação – CPAD) para a realização dessa atividade, que, ao seu término, dará origem ao instrumento de gestão documental conhecido como Tabela de Temporalidade. Ressalta-se que todos os prazos de guarda e as ações de destinação final apurados durante a fase de avaliação deverão estar presentes nesse instrumento. Composição recomendada pelo Conselho Nacional de Arquivos – CONARQ – para instituição de uma CPAD: 60 COMPOSIÇÃO DA CPAD • arquivista ou responsável pela guarda da documentação. • servidores das unidades organizacionais, com profundo conhecimento das atividades desempenhadas.• historiador ligado à área de pesquisa de que trata o acervo. • profissional da área jurídica, responsável pela análise do valor legal dos documentos. • profissionais ligados ao campo de conhecimento de que trata o acervo objeto da avaliação (economista, sociólogo, engenheiro, médico e outros). • outros profissionais que possam colaborar com as atividades da comissão. Vantagens do processo de avaliação De acordo com o E-arq Brasil (2006), a aplicação dos critérios de avaliação é feita com base na Teoria das Três Idades e efetiva-se, primeiramente, nos arquivos correntes, a fim de se distinguirem os documentos de valor eventual (de eliminação sumária) daqueles de valor probatório e/ou informativo. Deve-se evitar a transferência para os arquivos intermediários de documentos que não tenham sido anteriormente avaliados, pois as atividades de avaliação e seleção nos arquivos de segunda idade são extremamente onerosas do ponto de vista técnico e gerencial. OBJETIVOS DA AVALIAÇÃO DE DOCUMENTOS ARQUIVÍSTICOS Redução da massa documental. Agilidade na recuperação de documentos e informações. A conservação dos documentos de guarda permanente. A racionalização da produção e do fluxo dos documentos de arquivo. A eliminação dos documentos desprovidos de valor, gerando ganho de espaço físico. A otimização dos gastos com recursos humanos, materiais e financeiros. Incremento à pesquisa. Garantia da constituição do patrimônio arquivístico. 5.4 Tabela de Temporalidade e Plano de Destinação A tabela de temporalidade é um instrumento arquivístico resultante da avaliação dos documentos. Ela tem por objetivos definir os prazos de guarda (tempo 61 necessário para o arquivamento dos documentos nas fases corrente e intermediária, visando atender exclusivamente às necessidades da administração que os gerou) e a destinação de documentos (encaminhamento de documentos para guarda permanente, descarte ou eliminação), com vista a garantir o acesso à informação aos que dela necessitarem, seja a própria instituição ou o público externo. Sua estrutura básica deve contemplar os conjuntos documentais produzidos e recebidos por uma instituição no exercício de suas atividades, os prazos de guarda nas fases corrente e intermediária, a destinação final – eliminação ou guarda permanente –, além de um campo para observações necessárias à sua compreensão e aplicação. Prazo de guarda dos documentos O prazo de guarda dos documentos constante na Tabela de Temporalidade refere-se ao tempo necessário para arquivamento dos documentos nas idades corrente e intermediária, visando atender exclusivamente às necessidades da administração que os gerou (valor primário). Torna-se razoável observar que o referido prazo deve ser expresso, preferencialmente, em anos. Contudo, em alguns casos, ele poderá ser expresso a partir de uma ação concreta que deverá, necessariamente, ocorrer em relação a um determinado conjunto documental. Por exemplo: para conjuntos documentais que envolvam gastos de dinheiro público, é interessante mencionar que o acervo em questão só poderá ser transferido para o arquivo intermediário ou eliminado após a aprovação das contas do governo por parte do Poder Legislativo. Nesse caso, o prazo de guarda na idade corrente poderia ser expresso da seguinte maneira: “até aprovação das contas”. Determinantes na definição dos prazos de guarda: Frequência de uso; Normas; Outras fontes de informações; Prazos precaucionais. 62 Destinação final dos documentos Na Tabela de Temporalidade o campo reservado à destinação final dos documentos pode conter as seguintes destinações: eliminação ou guarda permanente. Esses procedimentos podem ser sistematizados da seguinte forma: ELIMINAÇÃO: destinação dada aos documentos que perderam o valor primário e não apresentam valor secundário. GUARDA PERMANENTE: destinação dada aos documentos que possuem informações consideradas importantes para fins de prova, informação e pesquisa, ou seja, fins culturais, sociais e científicos. Transferência, recolhimento e eliminação dos documentos. São conceitos bastante cobrados em provas de concursos públicos e estão, diretamente, relacionados à destinação dada aos documentos de arquivo. Portanto, é preciso estar muito atento às suas definições: TRANSFERÊNCIA: representa a passagem de documentos do arquivo corrente para o arquivo intermediário. Ela é efetivada por meio da produção do termo de transferência, que é o instrumento legal que define e formaliza a transferência de documentos. RECOLHIMENTO: representa a operação pela qual um conjunto de documentos passa para o arquivo permanente. Ele é efetivado por meio da produção do termo de recolhimento, que é o instrumento legal que define e formaliza o recolhimento de documentos ao arquivo permanente. ELIMINAÇÃO: é a destruição de documentos que, na avaliação, foram considerados sem valor permanente. Ela também é conhecida como expurgo de documentos. O procedimento de eliminação é formalizado após a publicação do edital de ciência de eliminação, que é um ato publicado em periódicos oficiais que tem por objetivo anunciar e tornar pública a eliminação. É importante observar que a inutilização dos documentos poderá ser efetuada por procedimentos diversos, 63 dependendo da quantidade e da natureza do seu suporte. Contudo, há que se observar que é absolutamente desaconselhada (do ponto de vista ecológico) a incineração de papéis, que poderão ser mecanicamente transformados em aparas e doados ou vendidos para instituições que trabalham com reciclagem. * O ato de eliminar, propriamente dito, deve ser feito de forma racional. Os processos mais indicados são: a fragmentação, a maceração, a alienação por venda ou doação. A incineração – processo condenado -, quer pelo aumento do índice de poluição que provoca, quer pela impossibilidade de reciclagem do papel, não deve ser adotada. 5.5 Modelo de Tabela de Temporalidade Fonte: passeidireto.com 64 Diante deste pequeno fragmento de Tabela de Temporalidade elaborado pelo Conselho Nacional de Arquivos e disponibilizado para a administração pública federal é possível fazer os seguintes apontamentos quanto às suas subdivisões: ASSUNTO Neste campo são apresentados os conjuntos documentais produzidos e recebidos, hierarquicamente distribuídos de acordo com plano de classificação de documentos da instituição. PRAZOS DE GUARDA Conforme foi visto anteriormente, referem-se ao tempo necessário para arquivamento dos documentos nas fases corrente e intermediária, visando atender exclusivamente às necessidades da administração que os gerou, mencionado, preferencialmente, em anos. DESTINAÇÃO FINAL Neste campo é registrada a destinação estabelecida que pode ser a eliminação, quando o documento não apresenta valor secundário ou a guarda permanente, quando as informações contidas no documento são consideradas importantes para fins de prova, informação e pesquisa. OBSERVAÇÕES Neste campo são registradas informações complementares e justificativas, necessárias à correta aplicação da tabela. Deve-se observar que a metodologia de criação de uma Tabela de Temporalidade está altamente entrelaçada à Teoria das Três Idades, que define os parâmetros gerais para o arquivamento e para a destinação dos documentos de arquivo. Os documentos sempre serão criados na fase corrente e, após, o cumprimento do prazo de guarda na referida fase, poderão ser eliminados, transferidos para o arquivo intermediário ou recolhidos diretamente ao arquivo permanente. A determinação do que será feito com cada documento constará da Tabela de Temporalidade. Ressalta-se que os documentos recolhidos ao arquivo permanente, independentemente da origem (arquivo corrente ou intermediário),serão tratados, organizados e arquivados para ficarem disponíveis ao público e jamais poderão ser eliminados. 65 Fonte: passeidireto.com Prováveis caminhos para os documentos CORRENTES Após o cumprimento do prazo de guarda na fase corrente, poderão ser transferidos para o arquivo intermediário; Após o cumprimento do prazo de guarda na fase corrente, poderão ser eliminados; ou Após o cumprimento do prazo de guarda na fase corrente, poderão ser recolhidos ao arquivo permanente. Prováveis caminhos para os documentos INTERMEDIÁRIOS Após o cumprimento do prazo de guarda na fase intermediária, poderão ser eliminados; ou Após cumprimento do prazo de guarda na fase intermediária, poderão ser recolhidos ao arquivo permanente. 66 Plano de Destinação de Documentos Os planos de destinação de documentos são instrumentos que servem para instruir o procedimento de quem vai tratar uma massa documental acumulada. Eles contêm informações sobre a tipologia documental existente, os prazos de guarda definidos e as séries em que se dividiu o acervo. Portanto, neles mesclam-se o plano de classificação de documentos e a tabela de temporalidade usados nos arquivos correntes. As massas documentais acumuladas existem porque dos documentos existentes nas áreas de trabalho não foram objeto de tratamento técnico-científico. Um arquivo corrente que seja organizado e que tenha seu ciclo vital determinado por uma tabela de temporalidade não gerará uma massa documental acumulada. 67 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Lei nº12.527 de 18 de novembro de 2011. Regula o acesso a informações previsto no inciso XXXIII do art. 5º, no inciso II do § 3º do art. 37 e no § 2 o do art. 216 da Constituição Federal; altera a Lei n o 8.112, de 11 de dezembro de 1990; revoga a Lei n o 11.111, de 5 de maio de 2005, e dispositivos da Lei n o 8.159, de 8 de janeiro de 1991; e dá outras providências. CALDERON, Wilmara Rodrigues. O Arquivo e a Informação Arquivística [recurso eletrônico]: da literatura científica à prática pedagógica no brasil. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2013. CRIVELLI, Renato. BIZELLO, Maria Leandra. A História Da Arquivologia No Brasil (1838-2012). FUENTES Vol. 6 - Nº 21 - La Paz, Agosto 2012 DA MATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1994. ------- --------------------. 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