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MANUAL DO CURSO DE LICENCIATURA EM ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 2º Ano Disciplina: ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA COMPARADA Código: ISCED22 – ADMPCFE003 Total Horas/2o Semestre:115 Créditos (SNATCA): 5 Número de Temas: 4 INSTITUTO SUPERIOR DE CIÊNCIAS E EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA - ISCED ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada i Direitos de autor (copyright) Este manual é propriedade do Instituto Superior de Ciências e Educação a Distância (ISCED), e contêm reservados todos os direitos. É proibida a duplicação ou reprodução parcial ou total deste manual, sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (electrónicos, mecânico, gravação, fotocópia ou outros), sem permissão expressa de entidade editora (Instituto Superior de Ciências e Educação a Distância (ISCED). A não observância do acima estipulado o infractor é passível a aplicação de processos judiciais em vigor no País. Instituto Superior de Ciências e Educação a Distância (ISCED) Direcção Académica Rua Dr. Almeida Lacerda, No 212 Ponta - Gêa Beira - Moçambique Telefone: +258 23 323501 Cel: +258 82 3055839 Fax: 23323501 E-mail: isced@isced.ac.mz Website: www.isced.ac.mz mailto:isced@isced.ac.mz http://www.isced.ac.mz/ ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada ii Agradecimentos O Instituto Superior de Ciências e Educação a Distância (ISCED) e o autor do presente manual agradecem a colaboração dos seguintes indivíduos e instituições na elaboração deste manual: Autor Benedito de Álvaro José Manjate - MSc. Em Governação e Administração Pública (UEM) e Licenciado em Administração Pública (ISRI) Coordenação Design Financiamento e Logística Revisão Científica Linguística Ano de Publicação Local de Publicação Direcção Académica do ISCED Instituto Superior de Ciências e Educação a Distância (ISCED) Instituto Africano de Promoção da Educação a Distancia (IAPED) Loide Miguel Elias Cumiguena 2016 ISCED – BEIRA ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada iii Índice Visão geral 1 Benvindo à Disciplina/Módulo de Administração Pública Comparada ............................ 1 Objectivos do Módulo....................................................................................................... 1 Quem deveria estudar este módulo ................................................................................. 2 Como está estruturado este módulo ................................................................................ 2 Ícones de actividade ......................................................................................................... 4 Habilidades de estudo ...................................................................................................... 4 Precisa de apoio? .............................................................................................................. 7 Tarefas (avaliação e auto-avaliação) ................................................................................ 8 Avaliação ........................................................................................................................... 9 TEMA – I: INTRODUÇÃO À ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA (COMPARADA). 11 UNIDADE Temática 1.1. Noção e diferentes sentidos (orgânico e material) ................. 11 Introdução ....................................................................................................................... 11 Sumário ........................................................................................................................... 15 Exercícios de AUTO-AVALIAÇÃO ..................................................................................... 16 UNIDADE Temática 1.2. Evolução e Fim da AdministraçãoPública ................................ 16 Introdução ....................................................................................................................... 16 1.2.2 Orientação para proteger os interesses públicos como o ponto de partida .......................................................................................................... 21 ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada iv Sumário ........................................................................................................................... 27 Exercícios de AUTO-AVALIAÇÃO ..................................................................................... 29 TEMA – II: ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA COMPARADA 30 UNIDADE Temática 2.1 - Noção e Caracterização da Administração Pública Comparada30 Introdução ....................................................................................................................... 30 Sumário ........................................................................................................................... 41 Exercícios de AUTO-AVALIAÇÃO ..................................................................................... 42 UNIDADE Temática 2.2 - A Burocracia como base da comparação ............................... 42 Introdução ....................................................................................................................... 42 Sumário ........................................................................................................................... 45 Exercícios de AUTO-AVALIAÇÃO ..................................................................................... 47 UNIDADE Temática 2.3 - Sistemas administrativos ........................................................ 47 Introdução ....................................................................................................................... 47 Sumário ........................................................................................................................... 56 Exercícios de AUTO-AVALIAÇÃO ..................................................................................... 56 UNIDADE Temática 2.4 - Sistemas administrativos e o contexto moçambicano ........... 57 Introdução ....................................................................................................................... 57 Sumário ........................................................................................................................... 59 Exercícios de AUTO-AVALIAÇÃO ..................................................................................... 59 UNIDADE Temática 3 – Administração pública nos Países Desenvolvidos .................... 60 Introdução ....................................................................................................................... 60 Sumário ........................................................................................................................... 67 Exercícios de AUTO-AVALIAÇÃO ..................................................................................... 68 UNIDADE Temática 4– A globalização e a reforma da Administração Pública .............. 70 Introdução ....................................................................................................................... 70 Sumário ........................................................................................................................... 79 Exercícios de AUTO-AVALIAÇÃO ..................................................................................... 80 ISCED CURSO: AdministraçãoPública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 1 Visão geral Benvindo à Disciplina/Módulo de Administração Pública Comparada Objectivos do Módulo Ao terminar o estudo deste módulo de Administração Pública Comparada deverá ser capaz de abordar diferentes sistemas administrativos, conduzindo a um conhecimento nascido da contextualização temporal e espacial. Conhecer em que consiste o domínio científico da Administração Pública Comparada, bem como as principais características e desafios da administração pública nos países desenvolvidos e em desenvolvimento, com especial enfoque para Moçambique. Objectivos Específicos Compreender as diferentes acepções da Administração Pública e Comparada, tendo em atenção a sua inserção no tempo e espaço; Abordar diferentes sistemas administrativos, conduzindo a um conhecimento nascido da contextualização temporal e espacial; Conhecer o domínio científico da Administração Pública Comparada; Conhecer as principais características e desafios da administração pública nos países desenvolvidos e nos países em desenvolvimento; Compreender o caso moçambicano numa perspectiva comparada. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 2 Quem deveria estudar este módulo Este Módulo foi concebido para estudantes do 2º ano do curso de licenciatura em Administração Pública do ISCED. Poderá ocorrer, contudo, que haja leitores que queiram se actualizar e consolidar seus conhecimentos nessa disciplina, esses serão bem vindos, não sendo necessário para tal se inscrever. Mas poderá adquirir o manual. Como está estruturado este módulo Este módulo de Administração Pública Comparada, para estudantes do 2º ano do curso de licenciatura em Administração Pública, à semelhança dos restantes do ISCED, está estruturado como se segue: Páginas introdutórias Um índice completo. Uma visão geral detalhada dos conteúdos do módulo, resumindo os aspectos-chave que você precisa conhecer para melhor estudar. Recomendamos vivamente que leia esta secção com atenção antes de começar o seu estudo, como componente de habilidades de estudos. Conteúdo desta Disciplina / módulo Este módulo está estruturado em Temas. Cada tema, por sua vez comporta certo número de unidades temáticas ou simplesmente unidades. Cada unidade temática se caracteriza por conter uma introdução, objectivos, conteúdos. No final de cada unidade temática ou do próprio tema, são incorporados antes o sumário, exercícios de auto-avaliação, só ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 3 depois é que aparecem os exercícios de avaliação. Os exercícios de avaliação têm as seguintes caracteristicas: Puros exercícios teóricos/Práticos, Problemas não resolvidos e actividades práticas, incluíndo estudos de caso. Outros recursos A equipa dos académicos e pedagogos do ISCED, pensando em si, num cantinho, recóndito deste nosso vasto Moçambique e cheio de dúvidas e limitações no seu processo de aprendizagem, apresenta uma lista de recursos didácticos adicionais ao seu módulo para você explorar. Para tal o ISCED disponibiliza na biblioteca do seu centro de recursos mais material de estudos relacionado com o seu curso como: Livros e/ou módulos, CD, CD- ROOM, DVD. Para elém deste material físico ou electrónico disponível na biblioteca, pode ter acesso a Plataforma digital moodle para alargar mais ainda as possibilidades dos seus estudos. Auto-avaliação e Tarefas de avaliação Tarefas de auto-avaliação para este módulo encontram-se no final de cada unidade temática e de cada tema. As tarefas dos exercícios de auto-avaliação apresntam duas caracteristicas: primeiro apresentam exercícios resolvidos com detalhes. Segundo, exercícios que mostram apenas respostas. Tarefas de avaliação devem ser semelhantes às de auto-avaliação mas sem mostrar os passos e devem obedecer o grau crescente de dificuldades do processo de aprendizagem, umas a seguir a outras. Parte das terefas de avaliação será objecto dos trabalhos de campo a serem entregues aos tutores/doceentes para efeitos de ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 4 correcção e subsequentemente nota. Também constará do exame do fim do módulo. Pelo que, caro estudante, fazer todos os exrcícios de avaliação é uma grande vantagem. Comentários e sugestões Use este espaço para dar sugestões valiosas, sobre determinados aspectos, quer de natureza científica, quer de natureza diadáctico- Pedagógica, etc, sobre como deveriam ser ou estar apresentadas. Pode ser que graças as suas observações que, em goso de confiança, classificamo-las de úteis, o próximo módulo venham a ser melhoradas. Ícones de actividade Ao longo deste manual irá encontrar uma série de ícones nas margens das folhas. Estes icones servem para identificar diferentes partes do processo de aprendizagem. Podem indicar uma parcela específica de texto, uma nova actividade ou tarefa, uma mudança de actividade, etc. Habilidades de estudo O principal objectivo deste campo é o de ensinar aprender a aprender. Aprender aprende-se. Durante a formação e desenvolvimento de competências, para facilitar a aprendizagem e alcançar melhores resultados, implicará empenho, dedicação e disciplina no estudo. Isto é, os bons resultados apenas se conseguem com estratégias eficientes e eficazes. Por isso é importante saber como, onde e quando estudar. Apresentamos algumas sugestões com as quais esperamos ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 5 que caro estudante possa rentabilizar o tempo dedicado aos estudos, procedendo como se segue: 1º Praticar a leitura. Aprender a Distância exige alto domínio de leitura. 2º Fazer leitura diagonal aos conteúdos (leitura corrida). 3º Voltar a fazer leitura, desta vez para a compreensão e assimilação crítica dos conteúdos (ESTUDAR). 4º Fazer seminário (debate em grupos), para comprovar se a sua aprendizagem confere ou não com a dos colegas e com o padrão. 5º Fazer TC (Trabalho de Campo), algumas actividades práticas ou as de estudo de caso se existirem. IMPORTANTE: Em observância ao triângulo modo-espaço-tempo, respectivamente como, onde e quando...estudar, como foi referido no início deste item, antes de organizar os seus momentos de estudo reflicta sobre o ambiente de estudo que seria ideal para si: Estudo melhor em casa/biblioteca/café/outro lugar? Estudo melhor à noite/de manhã/de tarde/fins de semana/ao longo da semana? Estudo melhor com música/num sítio sossegado/num sítio barulhento!? Preciso de intervalo em cada 30 minutos, em cada hora, etc. É impossível estudar numa noite tudo o que devia ter sido estudado durante um determinado período de tempo; Deve estudar cada ponto da matéria em profundidade e passar só ao seguinte quando achar que já domina bem o anterior. Privilegia-se saber bem (com profundidade) o pouco que puder ler e estudar, que saber tudo superficialmente! Mas a melhor opção é juntar o útil ao agradável: Saber com profundidade todos conteúdos de cada tema, no módulo. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 6 Dica importante: não recomendamos estudar seguidamente por tempo superior a uma hora. Estudar por tempo de umahora intercalado por 10 (dez) a 15 (quinze) minutos de descanso (chama-se descanso à mudança de actividades). Ou seja que durante o intervalo não se continuar a tratar dos mesmos assuntos das actividades obrigatórias. Uma longa exposição aos estudos ou ao trabalhjo intelectual obrigatório, pode conduzir ao efeito contrário: baixar o rendimento da aprendizagem. Por que o estudante acumula um elevado volume de trabalho, em termos de estudos, em pouco tempo, criando interferência entre os conhecimentos, perde sequência lógica, por fim ao perceber que estuda tanto mas não aprende, cai em insegurança, depressão e desespero, por se achar injustamente incapaz! Não estude na última da hora; quando se trate de fazer alguma avaliação. Aprenda a ser estudante de facto (aquele que estuda sistemáticamente), não estudar apenas para responder a questões de alguma avaliação, mas sim estude para a vida, sobre tudo, estude pensando na sua utilidade como futuro profissional, na área em que está a se formar. Organize na sua agenda um horário onde define a que horas e que matérias deve estudar durante a semana; Face ao tempo livre que resta, deve decidir como o utilizar produtivamente, decidindo quanto tempo será dedicado ao estudo e a outras actividades. É importante identificar as ideias principais de um texto, pois será uma necessidade para o estudo das diversas matérias que compõem o curso: A colocação de notas nas margens pode ajudar a estruturar a matéria de modo que seja mais fácil identificar as partes que está a estudar e Pode escrever conclusões, exemplos, vantagens, definições, datas, nomes, pode também utilizar a ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 7 margem para colocar comentários seus relacionados com o que está a ler; a melhor altura para sublinhar é imediatamente a seguir à compreensão do texto e não depois de uma primeira leitura; Utilizar o dicionário sempre que surja um conceito cujo significado não conhece ou não lhe é familiar; Precisa de apoio? Caro estudante, temos a certeza que por uma ou por outra razão, o material de estudos impresso, lhe pode suscitar algumas dúvidas como falta de clareza, alguns erros de concordância, prováveis erros ortográficos, falta de clareza, fraca visibilidade, página trocada ou invertidas, etc). Nestes casos, contacte os seriços de atendimento e apoio ao estudante do seu Centro de Recursos (CR), via telefone, sms, E-mail, se tiver tempo, escreva mesmo uma carta participando a preocupação. Uma das atribuições dos Gestores dos CR e seus assistentes (Pedagógico e Administrativo), é a de monitorar e garantir a sua aprendizagem com qualidade e sucesso. Dai a relevância da comunicação no Ensino a Distância (EAD), onde o recurso as TIC se torna incontornável: entre estudantes, estudante – Tutor, estudante – CR, etc. As sessões presenciais são um momento em que você caro estudante, tem a oportunidade de interagir fisicamente com staff do seu CR, com tutores ou com parte da equipa central do ISCED indigetada para acompanhar as sua sessões presenciais. Neste período pode apresentar dúvidas, tratar assuntos de natureza pedagógica e/ou admibistrativa. O estudo em grupo, que está estimado para ocupar cerca de 30% do tempo de estudos a distância, é muita importância, na medida em que permite lhe situar, em termos do grau de aprendizagem ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 8 com relação aos outros colegas. Desta maneira ficar’a a saber se precisa de apoio ou precisa de apoiar aos colegas. Desenvolver hábito de debater assuntos relacionados com os conteúdos programáticos, constantes nos diferentes temas e unidade temática, no módulo. Tarefas (avaliação e auto-avaliação) O estudante deve realizar todas as tarefas (exercícios, actividades e autoavaliação), contudo nem todas deverão ser entregues, mas é importante que sejam realizadas. As tarefas devem ser entregues duas semanas antes das sessões presenciais seguintes. Para cada tarefa serão estabelecidos prazos de entrega, e o não cumprimento dos prazos de entrega, implica a não classificação do estudante. Tenha sempre presente que a nota dos trabalhos de campo conta e é decisiva para ser admitido ao exame final da disciplina/módulo. Os trabalhos devem ser entregues ao Centro de Recursos (CR) e os mesmos devem ser dirigidos ao tutor/docente. Podem ser utilizadas diferentes fontes e materiais de pesquisa, contudo os mesmos devem ser devidamente referenciados, respeitando os direitos do autor. O plágio1 é uma viloção do direito intelectual do(s) autor(es). Uma transcrição à letra de mais de 8 (oito) palavras do testo de um autor, sem o citar é considerado plágio. A honestidade, humildade científica e o respeito pelos direitos autoriais devem caracterizar a realização dos trabalhos e seu autor (estudante do ISCED). 1 Plágio - copiar ou assinar parcial ou totalmente uma obra literária, propriedade intelectual de outras pessoas, sem prévia autorização. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 9 Avaliação Muitos perguntam: Com é possível avaliar estudantes à distância, estando eles fisicamente separados e muito distantes do docente/turor!? Nós dissemos: Sim é muito possível, talvez seja uma avaliação mais fiável e concistente. Você será avaliado durante os estudos à distância que contam com um mínimo de 90% do total de tempo que precisa de estudar os conteúdos do seu módulo. Quando o tempo de contacto presencial conta com um máximo de 10%) do total de tempo do módulo. A avaliação do estudante consta detalhada do regulamentada de avaliação. Os trabalhos de campo por si realizaos, durante estudos e aprendizagem no campo, pesam 25% e servem para a nota de frequência para ir aos exames. Os exames são realizados no final da cadeira disciplina ou modulo e decorrem durante as sessões presenciais. Os exames pesam no mínimo 75%, o que adicionado aos 25% da média de frequência, determinam a nota final com a qual o estudante conclui a cadeira. A nota de 10 (dez) valores é a nota mínima de conclusão da cadeira. Nesta cadeira o estudante deverá realizar pelo menos 2 (dois) trabalhos e 1 (um) (exame). Algumas actividades praticas, relatórios e reflexões serão utilizados como ferramentas de avaliação formativa. Durante a realização das avaliações, os estudantes devem ter em consideração a apresentação, a coerência textual, o grau de cientificidade, a forma de conclusão dos assuntos, as ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 10 recomendações, a identificação das referências bibliográficas utilizadas, o respeito pelos direitos do autor, entre outros. Os objectivos e critérios de avaliação constam do Regulamento de Avaliação. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 11 TEMA – I: INTRODUÇÃO À ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA (COMPARADA). UNIDADE Temática 1.1. Noção e diferentes sentidos (orgânico e material) Introdução Compreender a Administração, de forma geral, se afigura tarefa de todos nós, visto que ela se insere no contexto do nosso quotidiano. Todavia, ao acrescentar-lhe a expressão “Pública” e “Comparada”, remete-nos a uma amplitude na sua abordagem. Senão vejamos: A administração consiste na função de seconseguir alcançar determinados objectivos, através de uma organização, cooperação, responsabilização e combinação de meios humanos, materiais e financeiros, o que pressupõe fazer as coisas por meio de pessoas e de maneira eficiente e eficaz. Ora, a acepção Administração Pública Comparada nos vai remeter a análise de aspectos positivos de determinada gestão pública e sua possível aplicação em outras realidades, regiões, países. A realidade de cada país e sua situação deve ser um dos critérios a ser levado em consideração na análise da aplicabilidade de programas, projectos e serviços em diferentes contextos. Ao completar esta unidade, o estudante deverá ser capaz de: Objectivos específicos o Compreender as diferenças existentes entre a função administrativa do Estado e Administração Pública; o Explicar o conceito de Administração Pública (Comparada) nos vários sentidos (orgânico ou subjectivo e material ou objectivo); o Entender e aplicar na prática as funções da Administração pública. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 12 1.1.1 Administração Pública – os vários sentidos O foco da administração pública encontra-se na prestação de serviços públicos. Além dos serviços tradicionais (municipal, cuidados de saúde, escola, serviços de transporte etc.), eles também incluem algumas actividades de administração "clássicos" em países avançados, como a emissão de licenças, autorizações, documentos, certificados, fornecendo informações etc. Um número de essas actividades não são mais vistos como um domínio exclusivo do Estado. Algumas experiências mostram que muitas tarefas operacionais, profissionais de tomada de decisão, execução de supervisão, testes, etc. podem ser descentralizadas e transferidas para o auto-governo ou entidades privadas. A complexidade da organização social e da vida em colectividade torna urgente a criação de organismos cuja finalidade seja a de proporcionar a cada um de nós os meios adequados à satisfação das nossas necessidades, individuais e colectivas. Estes organismos podem estar na dependência directa do Estado ou, não o estando, prosseguirem, mesmo assim, a satisfação das necessidades da colectividade. Deste modo, e de acordo com CARVALHEDA (1992), a Administração Pública seria, em sentido lato, o conjunto de actividades conduzidas pelo Estado e por outros organismos públicos que, directa ou indirectamente visam o emprego racional dos meios adequados à satisfação das necessidades colectivas. Assim considerada, a Administração Pública englobaria toda a actividade do Estado. De forma mais restrita, a Administração Pública reside, apenas, nas actividades conduzidas pelo Estado e pelas restantes entidades públicas, com o objectivo de satisfazer as necessidades colectivas de segurança e bem-estar. Portanto, objectivando o conceito de Administração Pública, há que ressalvar a ambiguidade nele existente, donde se pode aferir que, a Administracão Pública será: ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 13 o A actividade conduzida pelo Estado e pelos outros orgãos, no sentido de assegurar a satisfação das necessidades colectivas, ou o O conjunto de órgãos cuja actuação permita a satisfação daquelas necessidades. Desta dicotomia resultam os conceitos de Administração Pública em sentido material e em sentido orgânico. Assim sendo, fala-se de Administração Pública em sentido material, quando se atende às actividades desenvolvidas com o objectivo de satisfazer as necessidades colectivas. Por sua vez, o conceito de Administração Pública em sentido orgânico contempla o conjunto de entidades e organismos cuja actividade permite a satisfação das necessidades colectivas. A Administração Pública será, portanto, “ou o conjunto de serviços, organismos e entidades – administração pública em sentido orgânico ou subjectivo – que actuam por forma disciplinada, regular e contínua para cabal satisfação das necessidades colectivas – administração pública em sentido material ou objectivo...”2 1.1.2 Administração Pública em Sentido Material Anteriormente, referimo-nos ao que se podia designar Administração Pública: o O conjunto de operações e decisões desenvolvidas por diversas entidades, públicas e privadas, com o objectivo de satisfazer necessidades colectivas; nisto consistirá a Administração Pública em sentido material; o O conjunto de órgãos e instituições que desenvolvem aquelas actividades; este aspecto corresponderia à Administração Pública em sentido orgânico. 2 Diogo Freitas do Amaral, Curso de Direito Administrativo, 3ª edição, 2008. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 14 Ora, de acordo com MACIE (2012), a Administração Pública corresponde à actividade desenvolvida pelos órgãos, serviços e agentes do Estado mediante mediante a emanação de actos concretos e executórios para a prossecução directa, indirecta, contínua, regular e imediata do interesse público. Se se assumir que a Administração Pública é desenvolvida não só pelo Estado, como também por outras entidades públicas diferentes dele em termos jurídicos, e/ou pelas entidades privadas que exercem poderes públicos para tal conferidas por concessão. Portanto, a Administração Pública, em sentido material refere-se a actividade típica dos organismos e indivíduos que, sob a direcção ou fiscalização do poder político, desempenham em nome da colectividade a tarefa de promover à satisfação regular e contínua das necessidades colectivas de segurança, cultura e bem-estar económico e social, nos termos estabelecidos pela legislação aplicável. Isto pressupõe dizer que a administração pública se vincula à lei e a técnica. 1.1.3 Administração Pública em Sentido Orgânico Quando se fala de Administração Pública pensamos, imediatamente, no conjunto de tarefas que, coerentemente relacionadas, asseguram a segurança e o bem-estar, social e material, das populações de um país ou região. Todavia, não é possível dissociar tais tarefas dos órgãos que as desempenham e, pensar nos órgãos que desempenham aquelas funções é pensar no sentido orgânico que a Administração Pública pode assumir. Desta feita, tal como Diogo Freitas do Amaral (2008: 34) podemos entender a Administração Pública em sentido orgânico como o sistema de órgãos, serviços e agentes do Estado, bem como das demais pessoas colectivas públicas, que asseguram em nome da colectividade a satisfação regular e contínua das necessidades colectivas de segurança, cultura e bem-estar. É importante referir que este sistema de órgãos, serviços e agentes do Estado distingue-se dos órgãos, serviços e agentes do poder legislativo e judicial, que ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 15 também tem a sua administração, neste caso, administração parlamentar3 e administração da justiça, respectivamente. Em suma, a Administração Pública é o conjunto de órgãos e serviços públicos que asseguram a realização de actividades administrativas, visando a satisfação de necessidades colectivas. Sumário Nesta Unidade temática 1.1 estudamos e discernimos o contexto de abordagem da Administração Pública, nos sentidos materiais e orgânico, em que a sua essência se volta ao conjunto de órgãos e serviços públicos que asseguram a realização de actividades administrativas, visando asatisfação de necessidades colectivas. Vimos, igualmente, que a concepção de administração pública como serviço ao público não significa, por outro lado, uma negação do poder, componente autoritária da administração pública. Este compreende tarefas no domínio da segurança e ordem interna, regulação e aplicação do cumprimento de obrigações legais, a aplicação de ferramentas de supervisão administrativa, a imposição e execução de sanções dentro dos limites da autoridade administrativa etc. O conteúdo material e extensão das tarefas e dos serviços públicos dependem de como a importância de automatismos sociais e a extensão da intervenção do Estado é vista em um período específico, como o equilíbrio entre a liberdade de um indivíduo e sua responsabilidade para si mesmo, por um lado e cuidado solidário da comunidade humana para um indivíduo e responsabilidade para ele, por outro lado operar. Esta é uma questão de protecção e execução de interesses e valores reconhecida pela maioria decisiva dos cidadãos. 3 A administração parlamentar é regida pela Lei número 31/2009, de 29 de Setembro, que regula a orgânica geral da Assembleia da República. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 16 As características básicas da administração pública compreendem o conhecimento dos objectivos heterogéneos e muitas vezes contraditórias que ele é obrigado a defender. No presente período, de principais mudanças sociais e as novas exigências que devem ser garantidos apesar dos recursos financeiros e humanos limitados, a política pública é exposta muito mais à pressão, para fazer a selecção responsável dos objectivos prioritários e redefinir tarefas e funções da administração pública em conformidade com o interesse geral. Um diálogo profissional e política permanente são fundamentais para o processo de definição dessas tarefas e funções, levando a novas soluções económicas, legais e outras. Exercícios de AUTO-AVALIAÇÃO 1. Refira-se à necessidade de criação de organismos cuja finalidade seja a de proporcionar a cada um de nós os meios adequados à satisfação das nossas necessidades, individuais e colectivas; 2. Defina a Administração Pública nos dois sentidos (material e orgânico). 3. Distingue e caracterize os dois sentidos, dando exemplos. 4. Escreva as Caracterize da administração pública comparada? 5. Anuncie as funções da Administração Publica? 6. Busque exemplos práticos da execução orgânica da Administracao Publica UNIDADE Temática 1.2. Evolução e Fim da AdministraçãoPública Introdução A Administração Pública se liga ao interesse público e às necessidades sociais, valendo-se, para tanto, de toda a sua estrutura administrativa, directa ou ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 17 indirecta, bem como das ferramentas que a legislação lhe permite utilizar. Assim, para cumprir a função administrativa, sempre direccionada ao interesse público, o Estado se vale de certas prerrogativas que lhes são asseguradas pela lei. Todavia, tais prerrogativas instrumentais devem ser utilizadas no limite suficiente para o cumprimento dos fins a que se destinam. Ao completar esta unidade, o estudante deverá ser capaz de: Objectivos específicos o Descrever as fases da evolução da Administração Pública; o Entender o fim prosseguido pela Administração Pública; o Explicar os fins da Administração Pública na sua relação com os interesses sociais. 1.2 A Evolução da Actividade Administrativa Tendo assumido que a Administração Pública é a máquina que visa a prossecução das actividades do Estado, de certeza que você concluiu que os dois termos têm evoluído de forma paralela. É nesta tendência que a Administração Pública assumiu diversas configurações e actuações ao longo do tempo, acompanhando a dinâmica e a natureza dos Estados. Fazendo uma análise desse percurso histórico vai entender que o dinamismo da vida foi coberto em três fases essenciais, a saber: 1ª Fase: Administração Pública da Discricionariedade Esta fase remonta desde o surgimento dos Estados até ao fim das Monarquias absolutas, nos finais do século XIX, e apresenta as seguintes características: ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 18 Era uma administração fortemente centralizada, reflectindo a natureza do poder político então vigente, que eram as monarquias absolutas já citadas, que se baseavam, fundamentalmente no princípio de Subserviência e lealdade, portanto: Os súbditos deviam pagar tributos regulares ao rei; Os agentes administrativos do Rei eram designados por servos do Rei e gozavam de um estatuto especial; O acesso aos bens e ou serviços públicos era uma retribuição merecida aos súbditos bem comportados, isto é, àqueles que demonstravam lealdade ao Rei e pagavam tributo com regularidade. Como pode notar, com as características aqui apresentadas, facilmente se conclui que, rigorosamente, nesta fase não havia Administração Pública, mas sim, uma Administração Real. 2ª Fase: Administração Pública da legalidade Esta surgiu nos finais do Século XIX, com a queda das monarquias absolutas e o advento das repúblicas. Apresenta as seguintes características: A Administração Pública passa a ser regida por normas próprias, (normas administrativas), resultantes do surgimento de um Estado de direito, isto é, ultrapassando a fase em que a lei era o Rei; Passam a existir funcionários públicos, que devem lealdade às normas e ao Estado e jamais ao Rei, Os antigos súbditos evoluem para a categoria de cidadãos e, como tal, passam a usufruir de direitos, incluindo políticos, dentre os quais se ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 19 destacam os direitos de eleger e ser eleito, Os cidadãos passam a pagar impostos ao Estado, em vez dos anteriores tributos, pagos ao Rei. 3ª Fase: Administração Pública Sociedade Anónima (SA) Esta é a fase mais moderna e altamente avançada da evolução da Administração Pública, apresentando as seguintes características: A satisfação das necessidades públicas deixa de ser uma recompensa tal como foi na 1ª fase, deixando de ser um direito como foi na 2ª e passa a ser uma exigência dos cidadãos. Estas exigências resultam do alto nível de consciência cívica dos cidadãos, que sabem que o Estado e a Administração Pública foram criados para satisfazer as necessidades públicas (dos cidadãos). São igualmente os cidadãos que elegem os governantes, estes para os servirem e pagam impostos para financiar as actividades da Administração Pública e por último, são também eles os clientes que adquirem os bens e serviços produzidos pela Administração Pública. É por estas razões que os cidadãos, nesta fase, sentem-se como sendo uma espécie de accionistas e simultaneamente clientes da Administração Pública; daí se justifique a razão de fazerem exigências, É uma Administração Pública voltada para o alcance dos resultados que satisfazem as exigências dos cidadãos, de forma eficiente e eficaz, É uma Administração que, em princípio, deve ser menos burocratizada, para simplificar os procedimentos, com uma estrutura simplificada e altamente profissionalizada. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada20 1.2.1 Fim da Administração Pública (a prossecução do interesse público) e formas da actividade administrativa Tal como dissemos atrás, ao falarmos em administração pública tem-se presente todo o conjunto de necessidades colectivas cuja satisfação é assumida como tarefa fundamental pela colectividade, através de serviços organizados e mantidos por esta. É por esta e outras razões que onde quer que exista e se manifeste uma necessidade colectiva, aí irá surgir um serviço público destinado a satisfazê-la, em nome e no interesse da colectividade. Da assumpção acima e, tal como se refere FREITAS DO AMARAL (2008:27) a Administração Pública prossegue o interesse público, como fundamento de toda e qualquer actividade sua. Por esta via, olhando para o nosso contexto moçambicano e à luz do artigo 249, n◦s 1 e 2 da Constituição da República de Moçambique (2004) “A Administração Pública serve o interesse público e na sua actuação respeita os direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos. Os órgãos da Administração Pública obedecem à Constituição e à lei e actuam com respeito pelos princípios da igualdade, da imparcialidade, da ética e da justiça”. Isto, quer em outras palavras dizer que a acção da actividade administrativa é neutra e desinteressada, com responsabilidade técnica e legal pela execução, colocando em prática as opções fundamentais pela função política. Neste contexto, o interesse público é absolutamente indissociável a qualquer actividade administrativa, independentemente de quem for a levá-la a cabo, deixando o interesse público superior a qualquer interesse privado. Ademais, fica claro que a Administração Pública é detentora de meios de acção administrativa para a prossecução do interesse público de segurança, cultura e bem-estar, diferentemente dos privados:o poder administrativo. A administração pública que funcione bem deve proporcionar condições para ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 21 a prosperidade público e privada através da criação de uma infra-estrutura ideal e racional por meio da modernização de redes de comunicação, sistemas de serviços de informação para os cidadãos e das empresas, através do fornecimento de assistência profissional para autoridades de governo próprio bem como através do apoio aos investimentos em interesse público etc. Assim, uma forma racional e eficaz para o funcionamento da administração moderna (pública) é um pré-requisito substancial e insubstituível para o crescimento económico e desenvolvimento social. Outra função importante da administração pública é assegurar e fortalecer as instituições e os mecanismos democráticos. Duas principais direcções do desenvolvimento da democracia política podem ser mencionadas aqui: a) Para o fortalecimento de instituições e mecanismos da democracia representativa, e também b) Para o desenvolvimento de instituições e mecanismos de democracia participativa, ou seja, a participação directa dos cidadãos e suas organizações na gestão e na administração do Estado. A avaliação da administração pública depende do cumprimento das suas tarefas e funções, isto é, como ele contribui para assegurar tarefas sociais e objectivos. O que é importante são os resultados de suas actividades (ou não- actividades). Em seguida, há uma questão de como adequada é a sua organização interna para o desempenho das suas funções, bem como para o suporte da sua eficácia externa. 1.2.2 Orientação para proteger os interesses públicos como o ponto de partida Assumimos que as funções e tarefas da administração pública podem e devem ser derivadas de interesses públicos identificados e reconhecidos ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 22 desde os de proteger que são a razão de sua própria existência. A maneira em que os interesses gerais ou públicos são aceites e satisfeitos é uma secção transversal de tradições históricas, a fase de desenvolvimento concreto da respectiva sociedade, a estrutura institucional existente da administração pública, bem como a ênfase política aplicada. A orientação da administração pública no sentido de garantir o interesse público pode ser entendida como a sua direcção para a solução de problemas concretos dos cidadãos individuais e grupos populacionais e no sentido de garantir o funcionamento da sociedade como um todo. A este respeito, a administração pública está interligada com a ordem pública, cujo objectivo é identificar, expressar e reconhecer os interesses públicos e de escolher os meios adequados de satisfazê-las. Naturalmente, o processo de identificação, reconhecimento e os interesses públicos satisfatórios são sempre influenciados pela interpretação política e ideologicamente afectada. Os interesses públicos identificados e reconhecidos podem se tornar uma boa base para diferenciar as funções da administração pública. Neste sentido, mudanças significativas ocorrem, regra geral, em conexão com a reforma económica, democratização política e com a protecção dos direitos humanos e liberdades fundamentais. 1.2.3 Distinção entre administração pública e administração privada Tanto a Administração Pública, quer a privada consistem numa acção humana visando prosseguir determinados objectivos definidos com vista ao alcance de certos resultados, o que implica a adopção de certos princípios à busca de eficiência. Porém, conhecem dissemelhanças. A expansão do sector público em empresas industriais tem sido, na prática, por algum tempo, um pouco mais de meio século aos dias hodiernos. As organizações do sector público, a fim de funcionar de forma eficiente têm estado a fazer uso do conhecimento do negócio, administração e processo de ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 23 orientação das organizações privadas. No entanto, continua a existir uma diferença considerável entre estas duas práticas administrativas. Seria interessante para aprender sobre as semelhanças e diferenças entre estes dois para chegar a uma melhor compreensão. Vamos primeiro entender as diferenças e ver o que os autores e especialistas no assunto têm a dizer sobre isso. De acordo com Paul H. Appleby a administração pública é diferente de administração privada em três aspectos importantes, o primeiro é o caráter político, em segundo lugar a amplitude de alcance, impacto e consideração e responsabilidade pública. Estas diferenças parecem muito fundamentais e muito válidas na linha de nossa própria exploração do assunto em abordagens acima feitas. Josia carimbo (2000) foi para além das diferenças acima referidas e identificou quatro aspectos, dos quais o único semelhante é o da prestação pública de contas ou responsabilidade pública. Os outros três são os seguintes: Princípio de uniformidade Princípio do controlo financeiro externo Princípio da motivação do serviço Herbert Simon referiu, de forma prática e fácil de entender, diferenças baseadas em crenças populares e imaginação e, portanto, pode parecer mais atraente. Ele disse que a administração pública é burocrática enquanto a administração privada é negócio. A administração pública é política, enquanto a administração privada é apolítico. E finalmente; o aspecto mais saliente é o de que a administração pública é caracterizada pela burocracia enquanto a administração privada é livre dela. O guru da administração Peter Drucker resume a diferença de forma mais abrangente. Ele diz que a própria intuição que regula os dois tipos de administração é diferente umdo outro. Enquanto as funções da ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 24 administração pública centram-se sobre o serviço de instituição, a administração privada segue a intuição de negócios. Eles também têm efeitos diferentes para servir, com diferentes necessidades, valores e objectivos. Ambos fazem diferentes tipos de contribuição para a sociedade também. A forma como o desempenho e os resultados são medidos é diferente em uma administração pública do que a de um privado. Vamos agora entender as semelhanças entre os dois e ver em que medida e em que áreas eles são semelhantes. Qualquer um ficaria surpreso ao saber que existem muitas semelhanças entre as formas pelas quais um público é e uma série de funções de administração de particulares. As semelhanças são muitas que alguns especialistas no assunto e autores como Henry Fayol, MP Follet, Lyndall Urvick não os tratam como diferentes. Fayol disse que todos os tipos de função de administração apresentam um princípio geral, independentemente de serem públicos ou privados. O planeamento, organização, comando e controle são semelhantes para todas as administrações. Os argumentos acima e vários outros pontos sugeridos e ilustradas por outros autores também apontam claramente que há mais semelhanças entre as duas administrações. Os aspectos gerenciais de planeamento, organização, coordenação e controle são as mesmas para a administração pública e privada; Os aspectos contábeis, como manutenção de contas, arquivamento, estatísticas são os mesmos; Ambos têm uma cadeia hierárquica de comando ou de divulgação que a estrutura organizacional; Ambos podem se influenciar, adoptar e reformar suas práticas à luz das melhores práticas dos outros. Eles também compartilham o mesmo circuito de mão-de-obra; E, por último que partilham tipos semelhantes de pessoal e problemas ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 25 financeiros. Em suma, quer isto dizer que a Administração pública prossegue funções públicas, isto é, assuntos da colectividade e dos seus membros – o interesse público. Por exemplo, a segurança, ordem pública, cultura, possibilidade de transporte público acessível. Quem administra coisa pública age em nome alheio, isto é, a Administração Pública é determinada por terceiros e para a utilidade destes. Todavia, a Administração privada prossegue fins pessoais ou particulares: tanto podem ser fins lucrativos ou altruístas, sem vinculação ao interesse geral da colectividade. É verdade que até pode haver actividade privada que, visando a busca de lucros, se confunda com a prestação de interesse público, como fim essencial. Administração Pública Vs Administração Privada Administração Pública Administração Privada Quanto ao Objecto Incide sobre as necessidades colectivas assumidas como tarefa e responsabilidade da comunidade. Incide sobre necessidades individuais ou de grupo, com ou sem fins lucrativos, mas que não dizem respeito à comunidade globalmente considerada. Quanto ao Fim Prossegue sempre o interesse público, respeitando princípios rígidos de actuação legalmente previstos. Prossegue sempre fins particulares, pois não têm uma vinculação directa ao interesse geral da colectividade, podendo ser ou não lucrativos ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 26 Quantos aos Meios Desigualdade entre os intervenientes, havendo poder de comando unilateral por parte das entidades públicas, de forma a prosseguirem o interesse público definido por lei (seja através de actos normativos: os regulamentos administrativos; seja através de decisões individuais e concretas: os actos administrativos). Impera o princípio jurídico da igualdade entre as partes e a liberdade contratual. Os particulares são iguais entre si e não podem impor aos outros a sua própria vontade, salvo acordo entre as partes - o contrato é assim o instrumento jurídico típico das relações privadas. 1.2.4 Formas da actividade administrativa A Ciência da Administração nos têm mostrado que determinados serviços são de exclusiva competência administrativa e outros, de natureza privada, pese embora ambos prosseguirem o interesse geral. Quer isto dizer que o estudo da actividade administrativa de gestão pública ou privada, consiste numa acção humana tendo em vista prosseguir certos objectivos definidos para o alcance de determinados resultados, implicando por via disso adoptar certos princípios à busca da eficiência. Não obstante esse facto, a administração pública visa prosseguir funções públicas (assuntos da colectividade e dos seus membros – o interesse público). São casos elucidativos desse interesse, a segurança, ordem pública, saúde, transporte público, etc. A administração pública funciona mediante o interesse público, agindo em nome alheio (terceiros). Em contraparte, a Administração privada prossegue fins particulares ou pessoais, voltados para o lucro e sem vinculação ao interesse geral da colectividade. Mas vezes há, em que esse interesse pode ser confundido com a prestação de serviços de interesse público, tal como ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 27 sucede com os operadores privados de fornecimento de água. Este papel (prestação de serviço de interesse público) caberia à Administração Pública. Todavia, aqui temos uma aparente prestação pública visto que na mesma, os fornecedores privados de água procuram buscar ganhos pessoais ou lucro, através de cobranças feitas aos utentes pelo fornecimento de água. Sumário Nesta Unidade temática 1.2 ficou claro que pese embora “Administrar” ser, em geral, tomar decisões e efectuar operações com vista à satisfação de determinadas necessidades. É pois uma actividade que se concretiza na junção de meios humanos, materiais e financeiros no seio de uma organização, sendo que a Administração Pública prossegue o interesse público, como fundamento de toda e qualquer actividade sua. Ademais, a administração pública e a administração privada distinguem-se pelo objecto sobre que incidem, pelo fim que visam prosseguir e pelos meios que utilizam. Outrossim, a Administração pública pauta-se pelo respeito de princípios jurídicos especialmente consagrados e que regem a sua actuação. Uma das características fundamentais do Estado moderno é a sujeição da administração pública ao Direito. Esta sujeição consubstancia a ideia de legalidade, ou seja, a Administração necessita de habilitação legal para agir, ao contrário dos privados que apenas estão impedidos de fazer aquilo que a lei proíba, para tudo o resto vale a liberdade de actuação e de autonomia privada. Em suma: 1. A questão básica é como a administração pública cumpre o seu papel, como e quão eficazmente o cumprimento das suas tarefas e funções e como ela é avaliada pelos cidadãos a este respeito. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 28 2. No entanto, um pré-requisito para a acção orientada da administração pública é que ele deve saber o seu papel e as suas funções e que deve ser motivado o suficiente para cumpri-las, e que os cidadãos devem ser familiarizados com eles de uma forma compreensível. 3. A restrição de espaço para a burocracia estatal é ligado emdeclarações políticas com a esperada redução dos serviços públicos, com várias formas de privatização dos serviços públicos, com a operação de mecanismos de mercado, com a descentralização em favor de auto-governo (mas também não precisa ser livre da burocracia, como mostra a experiência) ou com a restrição radical do número de funcionários administrativos. Mas, o real remédio só pode ser alcançado por meio de um sistema bem desenvolvido de "medidas combinadas" no organizacional, pessoal e campos legais (materiais, normas processuais e organizacionais), com apoio eficaz de tecnologias de informação e comunicacao. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 29 Exercícios de AUTO-AVALIAÇÃO 1. Descreva as fases da evolução da Administração Pública. 2. Qual é o fim prosseguido pela Administração Pública? 3. Como é definido o fim da Administração Pública no contexto da Constituição da República de Moçambique (2004)? 4. Distingue a Administração pública da privada quanto ao: Objecto; Meios; e Fins. 5. De que forma a Administração Pública consegue proteger o interesse publico? 6. Quais são as características das formas de administração Privada? ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 30 TEMA – II: ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA COMPARADA UNIDADE Temática 2.1 - Noção e Caracterização da Administração Pública Comparada Introdução Tendo como divisor a década de 1980, que o mundo caminhou de uma administração pública comparada clássica ou tradicional para uma nova Administração pública. Esta última, apoiada na denominada middle-range theory foi estimulada pela necessidade de encontrar respostas para problemas como: eficiência, eficácia, efectividade, legitimidade democrática, impacto das tecnologias da informação na administração, entre outros e por avanços em uma série de disciplinas ligadas à teoria organizacional, ciência política e economia (neo-institucionalismo e public choice). A partir dessas novas idéias procurou-se abandonar a generalização e aproveitar o grande número de informação publicada sobre a administração pública dos mais diferentes países no mundo. Ao completar esta unidade, o estudante deverá ser capaz de: Objectivos específicos o Compreender o conceito e o contexto da emergência da Administração Pública Comparada; o Explicar o conceito de Administração Pública (Comparada); o Caracterizar a Administração Pública Comparada. 2.1.1 Administração Pública Comparada: noção e caracterização As molas impulsoras da “Nova Administração Pública4” utilizam um método comparativo, que busca estudar vários Estados-nação e as semelhanças e diferenças em várias unidades de análise nos níveis de organização, da gestão e da política, tendo em vista a necessidade de encontrar respostas para 4 ou New Public Management ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 31 problemas como: eficiência, eficácia, efectividade, legitimidade democrática, impacto das tecnologias da informação na administração, entre outros. A administração pública comparada deve ser entendida aqui como o domínio do saber que compara padrões de administração pública entre diferentes Estados-nação. Nesse sentido, busca estudar as semelhanças e diferenças entre várias unidades de análise, nos níveis da organização, da gestão e da política (no sentido dado ao termo anglo-saxônico policy), com o propósito de se criar uma base de conhecimento institucionalizado que possa auxiliar a tomada de decisão (Guess, 1998:535; Heredia e Schneider, 2003). Observa-se que os teóricos da administração pública, no passado, se preocupavam em focar os seus estudos nos fenômenos administrativos dentro do seu próprio país, no quadro do seu sistema político-administrativo específico. Esse contexto foi profundamente alterado com a globalização, que trouxe no seu bojo uma maior discussão dos problemas administrativos e das soluções encontradas, bem como uma ampla difusão dos estudos sobre o tema. A globalização fomentou as mudanças na teoria e na prática da administração pública, abandonando as tendências paroquiais que têm permeado a ciência da administração nos diferentes países (Khator e Garcia- Zamor, 1994:10). Para alguns autores, como por exemplo, Caiden (1994:45), essa tendência a olhar para outras realidades traz ainda vantagens científicas já que, ao se adoptar uma perspectiva comparativa e global, evita-se o erro de tecer generalizações apenas com base no estudo de uma realidade administrativa restrita (a administração pública dos EUA, por exemplo). Registe-se que existe uma tendência de que os problemas que muitos países possuem são comuns aos demais, para os quais também se poderão encontrar soluções semelhantes. Assim, despesa pública elevada na economia, baixo nível de eficiência, eficácia e efetividade na administração pública, o crescente nível ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 32 de insatisfação dos cidadãos com a qualidade dos serviços prestados pela administração pública, são problemas inerentes a quase todos os países. Nesse sentido, a utilização do método comparativo nos estudos que visam à resolução desses problemas poderá ser bastante útil na busca de resolver esses problemas comuns. Assumindo que os problemas são, praticamente, iguais em quase todos os países, se mostra óbvio que as soluções encontradas por uns podem ser facilmente as soluções que os outros precisam. Esta tendência fez com que se abandonasse a generalização e aproveitar-se o grande número de informação publicada sobre a administração pública dos mais diferentes países no mundo, fazendo surgir, desta feita, a Administração Pública Comparada. CAIDEN (1994) ao comparar aspectos da administração pública entre diferentes paises, entende, por exemplo, que a administração pública americana poderia influenciar aspectos da administração pública no brasil e América Latina. A questão dos serviços públicos, sua eficácia e eficiência e como seus aspectos mais relevantes podem ser aplicados em diferentes paises. Nesta perspectiva, CAIDEN (1994) define a Administração pública Comparada como sendo a que analisa aspectos positivos de determinada gestão pública e sua possível aplicação em outras realidades, regiões, países. A realidade de cada país e sua situação deve ser um dos critérios a ser levado em consideração na análise da aplicabilidade de programas, projectos e serviços em diferentes contextos. A administração pública comparada é definida como o estudo dos sistemas administrativos de uma forma comparativa ou o estudo da administração pública na definição de outros países. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 33 Importa reter que desta definição, há a acrescentar que a "administração pública comparada" é, também, a "busca de padrões e regularidades em acção administrativa e comportamento". Portanto, a Administração pública Comparada é uma área muito interessante, de estudos em Administração Pública, uma vez que ajuda a compreender as configurações administrativas e de seu funcionamento em vários ambientes e sociedades/ países. Além disso, ela ajuda no aprimoramento de sistemas administrativostornando-os mais eficientes, ajudando no acrescimo e aprimoramento da literatura já existente/teorias da Administração Pública. 2.1.2 Administração Pública Comparada: evolução e caracterização A administração Pública tem uma longa história que é paralela às noções de governação e à evolução da civilização. Reconhecidos sistemas de administração existiram no Antigo Egipto para administrar a irrigação das cheias anuais do rio Nilo e para a construção das pirâmides. A China adoptou, na dinastia de Han, o preceito Confuciano de que o governo devia ser entregue àqueles homens escolhidos, não com base na idade, mas com base na virtude e habilidade e que o seu principal objectivo devia ser a satisfação do povo. Na Europa, os vários impérios - Grego, Romano, Espanhol, etc. - eram, acima de tudo, impérios administrativos controlados a partir do centro por regras e procedimentos. O desenvolvimento de “modernos” estados na Idade Média é apontado por Weber como tendo “desenvolvido concomitantemente com as estruturas burocráticas”. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 34 2.1.2.1 As Reformas do Século XIX Os problemas inerentes às primeiras formas de administração levaram à mudança na última parte do século XIX e às reformas associadas com o modelo tradicional de administração. O início do modelo tradicional de administração é marcado pelo relatório de Northcote-Trevelyan, em 1854, na Grã-Bretanha, que recomendava que o serviço público devia ser realizado através da admissão para os seus níveis hierárquicos inferiores de homens jovens cuidadosamente seleccionados através do estabelecimento de um sistema apropriado de avaliação antes da sua indicação. O relatório recomendava a abolição do proteccionismo aos funcionários e a substituição do recrutamento por concurso aberto sob supervisão de um júri central; a reorganização dos funcionários dos departamentos centrais em grupos/classes para enquadrar trabalhos de natureza intelectual e os de natureza mecânica; o preenchimento dos postos de chefia e direcção com base no mérito. O relatório de Northcote-Trevelyan marcou o início da designação dos funcionários públicos com base no mérito e um gradual declínio do proteccionismo e nepotismo. As reformas dos meados do século XIX na Grã-Bretanha influenciaram a opinião nos EUA. O movimento para a reforma foi tão forte que chegou a levar ao assassinato do Presidente Garfield em 1881. Em 1883, a Lei do Serviço Civil (The Pendleton Act) inspirada nas reformas Britânicas do serviço civil. A lei estabelecia três grandes princípios: (i) a necessidade de todos os candidatos ao serviço civil serem objecto de concurso; (ii) a necessidade nos postos de chefia e direcção os mais bem classificados nas provas de exame dos concursos;(iii) a necessidade de um período probatório antes da admissão ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 35 efectiva; O movimento das reformas teria como activistas Woodrow Wilson, nos Estados Unidos da América, e Max Weber, na Europa. De Weber veio a teoria da burocracia, a ideia de um distinto serviço público profissional, recrutado e designado por mérito, politicamente neutro, o qual se previa que se mantivesse em exercício sejam quais fossem as mudanças dos governos. De Wilson veio a ideia de que os políticos deviam ser responsáveis por fazer a política pública, enquanto a administração deveria ser responsabilizada por implementar essa política. Dos dois se derivou a noção de que a administração devia ser instrumental e técnica, abstraída da esfera política. Por outro lado, a observação de dados, suas fontes e contextos, como por exemplo, municipal, países, regiões; estabelecimento de conceitos comuns, etc., pode levar e conduzir a aplicabilidade dos instrumentos práticos de acção nacional e regional, promoção de inovações, auto-avaliação de práticas administrativas entre outros aspectos; o que faz da Administração Pública Comparada a sua razão de ser. Pese embora, as múltiplas vantagens da Administração Pública Comparada, vários problemas podem emergir em decorrência da analise comparativa. Entre estes problemas, pode-se destacar: 1 – Nível de generalidade; 2 - Escolha dos conceitos aplicáveis a um número de países e 3 -Sua mensuração. Vários estudiosos, dos quais (Guess, 1998:535; Heredia e Schneider, 2003) entendem, igualmente, que a Administração Pública Comparada deve ser entendida como o domínio do saber que compara padrões de administração pública entre diferentes Estados-nação. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 36 Nesse sentido, busca estudar as semelhanças e diferenças entre várias unidades de análise, nos níveis da organização, da gestão e da política (no sentido dado ao termo anglo-saxônico policy), com o propósito de se criar uma base de conhecimento institucionalizado que possa auxiliar a tomada de decisão. Este entendimento decorre do facto de os teóricos da administração pública, no passado, se terem preocupado em focar os seus estudos nos fenómenos administrativos dentro dos seus próprios países, no quadro do seu sistema Político-administrativo específico. Esse contexto foi profundamente alterado com a globalização, que trouxe uma maior discussão dos problemas administrativos e das soluções encontradas, bem como uma ampla difusão dos estudos sobre o tema, em especial, os relatórios e trabalhos elaborados pela OCDE, FMI, BIRD, American Society for Public Administration e European Group for Public Administration. A globalização fomentou as mudanças na teoria e na prática da administração pública, abandonando as tendências paroquiais que têm permeado a ciência da administração nos diferentes países (Khator e Garcia-Zamor, 1994:10). Tal como referimo-nos acima, alguns autores, como Caiden (1994:45) e outros, entendem que essa tendência de olhar para outras realidades traz ainda vantagens científicas já que, ao se adotar uma perspectiva comparativa e global, evita-se o erro de tecer generalizações apenas com base no estudo de uma realidade administrativa restrita (a administração pública dos EUA, por exemplo). Note-se que existe uma tendência de que os problemas que muitos países possuem são comuns aos demais, para os quais também se poderão encontrar soluções semelhantes. Assim, despesa pública elevada na economia, baixo nível de eficiência, eficácia e efectividade na administração ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 37 pública, o crescente nível de insatisfação dos cidadãos com a qualidade dos serviços prestados pela administração pública, são problemas inerentes a quase todos os países. Nesse sentido, a utilização do método comparativo nos estudos que visam à resolução desses problemas poderá ser bastante útil na busca de resolver esses problemas comuns. 2.1.3 EVOLUÇÃO COMPARATIVA DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA Apesar de vários estudos comparativos terem sido desenvolvidos até a data, as primeiras abordagens da administração remontam à era Aristotélica onde vários estudiosos foram enviados para diferentes partes do mundo para estudar seus sistemas políticos, baseando-se num sistema comparativo da Administração Pública. Em 1884 foi desenvolvido um ensaio comparativista, em que Wilson (o chamado comparativista 1º) procura comparar os sistemas a fim de conhecer as fraquezas e virtudes administrativas,mediante comparação de uns com outros. E, ele afirmou que a administração é a melhor e mais segura perspectiva de estudos comparativos como as técnicas e os procedimentos administrativos são semelhantes em quase toda parte e, de facto, podemos aprender muito através da comparação. No entanto, não foi levado tão a sério devido à ênfase na conceptualização e estruturação bem como no facto da definição de Administração Pública naquela época era a principal prioridade. Os teóricos e administradores, bem como os governos estavam ocupados em compreender a sua própria configuração administrativa antes que eles pudessem partiu em uma comparação com os outros. Assim, enquanto este estava sendo contemplada a Primeira Guerra Mundial eclodiu e com o seu fim e o estabelecimento da Sociedade das Nações, foram levantadas várias questões sobre a necessidade de compreender as necessidades dos países que não estavam tão desenvolvidos. Este estudo comparativo tomou um rumo filosófico durante o curso da segunda guerra mundial e suas consequências, só apareceram com o fim do ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 38 imperialismo e do colonialismo bem como o surgimento de muitos estados independentes, uma iniciativa conjunta pelos países desenvolvidos no âmbito das Nações Unidas (anteriormente chamado de “Sociedade das Nações") cuja égide estava voltada para reformar e desenvolver países do terceiro mundo, bem como para desenvolver a sua própria economia danificada pela guerra. Por outro lado, não vamos esquecer o início da Guerra Fria entre as duas superpotências EUA e da União Soviética, que desempenhou um papel importante nesse movimento, onde ambos olharam para hegemonia política e económica que representavam a nível mundial. Os EUA assumiram a liderança em estudos administrativos e também na prestação de ajuda financeira, bem como técnica aos países em desenvolvimento, a fim de aumentar a sua quota de mercado e também para conter o comunismo, que era um produto da União Soviética. Os EUA foram o centro destes estudos uma vez que os países ocidentais não tinham as capacidades institucionais e administrativas para implementar seus planos de desenvolvimento pós 2ª guerra, das Nações Unidas e diversas instituições privadas, bem como empresas patrocinando programas de assistência técnica variados que permitiram ao público, administradores, professores de administração pública e profissionais para estudar o mesmo em profundidade, bem como viagens ao exterior e juntar esforços na experiência e construir uma teoria comparativa universal da administração pública. A primeira organização formalmente constituída para formular uma teoria comparativa universal da administração pública foi o Grupo Comparativo de Administração (CAG) em 1960, que era uma divisão da ASPA, financiado pela Fundação Ford para estudar métodos para melhorar a administração pública nos países em desenvolvimento, sob a presidência de Fred W. Riggs. Mais do que fornecer técnicas administrativas este grupo tornou-se um fórum de intelectuais para entender por que os países em desenvolvimento diferem tanto na prática da administração e ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 39 não são capazes de sustentar os princípios da teoria clássica de administração nos seus sistemas, embora os teóricos clássicos de administração como Fayol e Weber, etc. apregoaram que seus princípios e modelos de administração eram universais no seu elemento e podiam ser aplicados em qualquer lugar com maior sucesso. A CAG deu a idéia de estudos científicos e enfatizou (factores sociais, culturais e históricos) empíricos e ecológicos concebidos a partir de estudos de vários sistemas administrativos. Igualmente, em 1968, a primeira Conferência Minnowbrook foi realizada sob a presidência de Dwight Waldo, falou também sobre a necessidade de estudo e análise comparativa da Administração Pública. 2.1.4 ABORDAGENS PARA O ESTUDO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA COMPARADA: 1) Abordagem Ideal ou burocrática: Especificações burocráticas são estudadas para se chegar a conclusões e desenvolver a compreensão. Sob esta abordagem estruturas das organizações são analisadas em termos de diferenciação horizontal, a diferenciação vertical, amplitude de controle, etc. Procedimentos e regras são analisados e âmbito de funcionamento é determinado. Especificações de trabalho e descrições são analisados e algum entendimento é alcançado com base elaborateness e grau de especialização em comparação em relação aos diferentes sistemas administrativos. A limitação desta abordagem é que embora tenha sido considerada simples, não explica as estruturas e suas funções na sociedade e dá uma observação muito geral. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 40 2) Abordagem Funcional/ Estrutural -: É considerada como uma abordagem muito popular para comparar vários sistemas administrativos e foi implementado por Fred W. Riggs, em seu estudo para o desenvolvimento de seus modelos sociais. Esta abordagem analisa a sociedade em termos de suas várias estruturas e suas funções para se chegar a um entendimento quanto ao seu posicionamento e funcionamento. A limitação dessa abordagem é que tem de haver uma correcta identificação das estruturas antes de prosseguir para analisá-las. 2.1.5 Situação actual da administração pública comparada: Após o declínio do Grupo de Administração Comparativa (CAG) no início da década de 1970, houve uma calmia neste campo devido a muitos factores, como estudo teórico e baseado no facto de não haver problemas na aplicabilidade desses modelos e os EUA foram passando por uma fase não boa na guerra do Vietiname, o que fez com que os fundos tiveram que ser desviados. No entanto, ele teve um impulso, mais uma vez, quando estudiosos como Robert Dahl, James Cloeman, Rapheli, Dwight Waldo etc propagaram e afirmaram que sem a comparação nunca pode haver uma ciência da administração. Também a escola de pensamento comportamental estava trazendo uma enorme atenção para o facto das teorias do homem administrativo e administração pública comparativa ressurgirem. Nos anos 80 e 90 estudos em administração pública comparada ressurgiram, mas com um novo objectivo, filosofia e orientação do que seus antecessores haviam constatado. Ela (administração pública comparada) começou a estudar vários arranjos como Estado de Direito, a boa governação, etc em diferentes países. Ela começou se concentrando na análise de tais operações de sistemas administrativos que afectam o funcionamento de várias sociedades. O que se segue pode ser visto como as recentes tendências nos estudos da administração pública comparada: ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 41 1) Estudar a situação dos direitos humanos nas nações dos problemas associados com os direitos humanos. 2) Estudar o estatuto de Estado de Direito e de analisar as barreiras, se houver. 3) Estudar a presença de instituições da sociedade civil e do seu papel e contribuição nos arranjos administrativos das sociedades. 4) Estudar o nível de participação e envolvimento na implementação de esquemas relacionados com o bem-estar das pessoas. 5) Estudar a presença de arranjos através dos quais a responsabilidade dos políticos e administradores poderia ser assegurada em relação ao público através dos mecanismos estabelecidos e disponíveis,como as cartas dos Cidadãos, Provedor de Justiça, Auditoria Social, etc. Sumário Nesta Unidade temática 2.1 ficamos a saber que a génese da Administração Pública Comparada prende-se com o facto da assumpção de que os problemas são, praticamente, iguais em quase todos os países, se mostrando óbvio que as soluções encontradas por uns possam ser facilmente as soluções que os outros precisam. Foi esta tendência que fez com que se abandonasse a generalização e aproveitar-se o grande número de informação publicada sobre a administração pública dos mais diferentes países no mundo, fazendo surgir, desta feita, a Administração Pública Comparada. Portanto, a Administração Pública Comparada deve ser entendida como o domínio do saber que compara padrões de administração pública entre diferentes Estados-nação. Ela é caracterizada pela observação de dados, suas fontes e contextos, como por exemplo, municipal, países, regiões; estabelecimento de conceitos comuns, etc., que podem conduzir a aplicabilidade dos instrumentos práticos de acção nacional e regional, promoção de inovações, auto-avaliação de práticas administrativas entre outros aspectos; o que faz da Administração Pública Comparada a sua razão de ser. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 42 Igualmente, busca estudar as semelhanças e diferenças entre várias unidades de análise, nos níveis da organização, da gestão e da política (no sentido dado ao termo anglo-saxônico policy), com o propósito de se criar uma base de conhecimento institucionalizado que possa auxiliar a tomada de decisão. Exercícios de AUTO-AVALIAÇÃO 1 Refira-se à génese emergencial da Administração Pública Comparada; 2 Defina e caracterize a Administração Pública Comparada. 3 Refira-se a alguns dos problemas que podem emergir em decorrência da análise comparativa da Administração Pública. 4 A globalização fomentou as mudanças na teoria e na prática da administração pública. Argumenta. 5 Faça uma abordagem clara e elucidativa em torno da génese construtivista da Administração Pública Comparada. 6 Anucie o pressuposto da abordagem funcional. UNIDADE Temática 2.2 - A Burocracia como base da comparação Introdução A burocracia é uma forma de organização humana que se baseia na racionalidade, isto é, na adequação dos meios aos objectivos (fins) pretendidos, a fim de garantir a máxima eficiência possível no alcance desses objectivos. O seu estudo pela Administração pública é visto dentro do mais amplo contexto social e focaliza a interacção das instituições públicas, como um todo. Em vista de um impacto mais explícito de culturas políticas na natureza administrativa e características das instituições públicas, a burocracia é usada de forma comparativa na Administração moderna. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 43 Ao completar esta unidade, o estudante deverá ser capaz de: Objectivos específicos o Compreender o contexto comparado da burocracia na Administração Pública; o Explicar a aplicabilidade do modelo burocrático no contexto comparado da Administração Pública; 2.2.1 Origens da Teoria da Burocracia A Teoria da Burocracia desenvolveu-se dentro da Administração ao redor dos anos 40, em função principalmente dos seguintes aspectos: a) A fragilidade e parcialidade tanto da Teoria Clássica como da Teoria das Relações Humanas, ambas oponentes e contraditórias entre si, mas sem possibilitarem uma abordagem global, integrada e envolvente dos problemas organizacionais. Ambas revelam dois pontos de vista extremistas e incompletos sobre a organização, gerando a necessidade de um enfoque mais amplo e completo, tanto da estrutura como dos participantes da organização. b) Tornou-se necessário um modelo de organização racional capaz de caracterizar todas as variáveis envolvidas, bem como o comportamento dos membros dela participantes, e aplicável não somente à fábrica, mas a todas as formas de organização humana e principalmente às empresas. c) O crescente tamanho e complexidade das empresas passou a exigir modelos organizacionais mais bem definidos. Alguns historiadores verificaram que a "indústria em grande escala depende da sua organização, da Administração e do grande número de pessoas com diferentes habilidades. Milhares de homens e mulheres devem ser colocados em diferentes setores de produção e em diferentes níveis hierárquicos: os engenheiros e administradores no alto da pirâmide e os operários na base. Devem executar tarefas específicas, devem ser dirigidos e controlados. Tanto a Teoria Clássica ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 44 como a Teoria das Relações Humanas mostraram-se insuficientes para responder à nova situação, que se tomava mais complexa. d) O ressurgimento da Sociologia da Burocracia, a partir da descoberta dos trabalhos de Max Weber5, o seu criador. Segundo essa teoria, um homem pode ser pago para agir e se comportar de certa maneira preestabelecida, a qual lhe deve ser explicada com exatidão, muito minuciosamente e em hipótese alguma permitindo que suas emoções interfiram no seu desempenho. A Sociologia da Burocracia propôs um modelo de organização e os administradores não tardaram em tentar aplicá-lo na prática em suas empresas. A partir daí, surge a Teoria da Burocracia na Administração. 2.2.2 Características da Burocracia Segundo o conceito popular, a burocracia é visualizada geralmente como uma empresa ou organização onde o papelório se multiplica e se avoluma, impedindo as soluções rápidas ou eficientes. O termo também é empregado com o sentido de apego dos funcionários aos regulamentos e rotinas, causando ineficiência à organização. O leigo passou a dar o nome de burocracia aos defeitos do sistema (disfunções) e não ao sistema em si mesmo. O conceito de burocracia para Max Weber é exactamente o contrário. A burocracia é a organização eficiente por excelência. E para conseguir essa eficiência, a burocracia precisa detalhar antecipadamente e nos mínimos detalhes como as coisas deverão ser feitas. Segundo Max Weber, a burocracia tem as seguintes características principais e disfunções: 5 Max Weber (1864-1920), sociólogo alemão, foi o criador da Sociologia da Burocracia. Foi professor das Universidades de Friburgo e de Heidelberg e ficou famoso pela teoria das estruturas de autoridade. Com a tradução de alguns de seus livros para a língua inglesa, por Talcott Parsons, tomou corpo nos Estados Unidos a Teoria da Burocracia em Administração. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 45 Características da Burocracia Disfunções da Burocracia 1. Caráter legal das normas 2. Caráter formal das comunicações 3. Divisão do trabalho 4. Impessoalidade no relacionamento 5. Hierarquização da autoridade 6. Rotinas e procedimentos 7. Competência técnica e mérito 8. Especialização da administração 9. Profissionalização 1. Internalização das normas 2. Excesso de formalismo e papelório 3. Resistência a mudanças 4. Despersonalização do relacionamento 5. Categorização o relacionamento 6. Superconformidade 7. Exibição de sinais de autoridade 8. Dificuldades com clientes Previsibilidade do funcionamento Imprevisibilidade do funcionamento As causas das disfunções da burocracia residem basicamente no facto de que a burocracia não leva em conta achamada organização informal que existe fatalmente em qualquer tipo de organização, nem se preocupa com a variabilidade humana (diferenças individuais entre as pessoas) que necessariamente introduz variações no desempenho das atividades organizacionais. Em face da exigência de controle que norteia toda a atividade organizacional é que surgem as conseqüências imprevistas da burocracia. Sumário Nesta Unidade temática a discussão em torno da burocracia assumiu um conjuto de arranjos instituicionais para a execução política que está fora da sincronização com o que actualmente tem sido desenhado e adoptado pelo Governo. Este tema demonstrou as ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 46 complexidades estruturais de quaisquer esforços para controlar a burocracia. Um dos desafios mais importantes e persistentes do governo moderno é como reconciliar a procura da democracia com os imperativos da burocracia. Em muitos países a volta do mundo, amolgam frequentemente os politicos e a jurisprudência “Burocratas”, em nome da governação popular (Suleiman 2003). Os Burocratas, entretanto, muitas das vezes parecem proteger sua tomada de decisao da interferência não informada e polémica por amadores que procuram influenciar sem ter os conhecimentos ou experiência para assegurar assuntos políticos tecnicamente complexos. Burocracias são instituições hierárquicas que podem providenciar a capacidade e conhecimentos para realizar tarefas sociais complexas, mas elas são frequentemente caracterizadas como não democráticas e até mesmo ameaçando a democracia. Democracias são sistemas do governo que estão baseados directamente ou indirectamente no princípio do controlo popular. Eles participam no deferimento das medidas para princípios da lei da maioria e defesa para a perspectiva do interesse intenso entre o público. Mas como tal, eles precisam não necessariamente mostrar atenção viva aos valores da eficiência, efectividade, ou conhecimento especializado. Daí que a Burocracia pode ser imaginada como instrumento do governo para exercer coesão e como um instrumento para acção produtiva. A carga burocrática é um fenómeno geral, em certa medida e a luta contra ele é uma tarefa que nunca termina. Sua natureza e extensão, no entanto, estão adquirindo tais dimensões, tanto que eles põem em perigo objectivos sociais e básicos. A burocracia e corrupção são consideradas um obstáculo de dissuasão para os negócios dos investidores estrangeiros e parceiros de negócios, bem como por empresários nacionais, especialmente as pequenas e médias empresas. A restrição de espaço para a burocracia estatal é ligada em declarações políticas com a esperada redução dos serviços públicos, com várias formas de privatização dos serviços públicos, ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 47 com a operação de mecanismos de mercado, com a descentralização em favor de auto-governo (mas também não precisa ser livre da burocracia, como mostra a experiência) ou com a restrição radical do número de funcionários administrativos. O real remédio só pode ser alcançado por meio de um sistema bem desenvolvido de "medidas combinadas" no organizacional, pessoal e campos legais (materiais, normas processuais e organizacionais), com apoio eficaz de tecnologias de informação e comunicação. Exercícios de AUTO-AVALIAÇÃO 1. Explique a relevância da burocracia num contexto de instituições democráticas. 2. A burocracia leva consigo disfunções que podem concorrer para o não alcance dos propósitos previamente definidos. Explique duas dessas disfunções. 3. Caracterize a funcionalidade da burocracia nas instituições moçambicanas. 4. Quais as vantagens intitucionai do uso da burocracia? 5. Quais as origens da teoria Burocrática? 6. Qual é o fundamento teórico da Burocracia? UNIDADE Temática 2.3 - Sistemas administrativos Introdução O modo jurídico típico de organização, funcionamento e controlo da administração pública em função do tempo e do espaço, servem de base para melhor se perceber como a é que a Administração Pública ao longo dos tempos e espaços se foi organizando, se estruturando e funcionando. É desta ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 48 feita que Procura-se discer nesta unidade temática a Administração Pública na monarquia absoluta dos Séculos XVII e XVIII, seguindo-se os sistemas que nascem nos pós revolução francesa e que perduram até aos dias hodiernos, finalizando com a abordagem do contexto moçambicano. Ao completar esta unidade, o estudante deverá ser capaz de: 2.3.1 Sistemas administrativos: generalidades Ao longo da abordagem acima feita, ficou claro que a função Administrativa é aquela que, no respeito pelo quadro legal e sob a direcção dos representantes da colectividade, desenvolve as actividades necessárias à satisfação das necessidades colectivas. Esta acção só encontra a razão suficiente para o seu enquadramento, tendo em conta que tal como João CAUPERS6 se refere, os Sistemas Administrativos compreendem “o modo jurídico típico de organização, funcionamento e controlo da administração pública, no tempo e no espaço”. Esta visão é secundada por vários estudiosos, ao afirmarem que, por derradeiro o Sistema Administrativo é um modo jurídico típico de organização, funcionamento e controlo da Administração Pública. 6 CAUPERS, João; Introdução ao Direito Administrativo; Âncora editora, 2001; p. 43 Objectivos específicos o Definir os sistemas administrativos; o Tipificar e explicar os sistemas administrativos; o Relacionar os diferentes tipos de sistemas administrativos; e o Enquadrar os sistemas administrativos no contexto moçambicano. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 49 2.3.2 Tipos de Sistemas administrativos Existem três tipos de sistemas administrativos: o sistema tradicional; o sistema administrativo judicial ou tipo britânico (ou de administração judiciária) e o sistema tipo francês (ou de administração executiva). 2.3.2.1 Sistema administrativo tradicional Trata-se de um sistema que tem a sua génese e vigência aquando da monarquia absoluta, na Europa, baseado na concentração de poderes e na confusão entre a vontade do Rei e da Lei. Este sistema assentava nas seguintes características: a) Indeferenciação das funções administrativas e jurisdicional e, consequentemente, inexistência de uma separação rigorosa entre os órgãos do poder executivo e do poder judicial e, muito menos o Estado de Direito. Todo o poder de administrar e julgar encontra-se nas mãos da coroa. b) Não subordinação da Administração Pública ao princípio da legalidade e consequentemente, insuficiência do sistema de garantias jurídicas dos particulares face à administração. Quer isto dizer que a Administração Pública está subordinada à vontade do monarca não havendo possibilidade de os particulares invocarem quaisquer direitos contra o poder, pois estão na posição de súbditos: insuficiência de garantias jurídicas dos particulares face à Administração Pública. O advento do Estado de Direito, com a Revolução Francesa, modificou esta situação: a Administração Pública passou a estar vinculada a normas obrigatórias, subordinadas ao Direito. Isto foi uma consequência simultânea do princípio da separação de poderes e da concepção da lei– geral, abstracta e de origem parlamentar – como reflexo da vontade geral. A partir desta época, a actividade da Administraçao Pública é conferida um carácter jurídico, ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 50 com as necessárias consequências daí advenientes. Foi desta feita, que nasceram dois sistemas típicos: o judiciário ou do tipo britânico, ou de jurisdição única e outro de contencioso administrativo, o sistema executivo ou do tipo francês. Em resultado desta modificação, a actividade administrativa pública, passou a revestir carácter jurídico, estando submetida a controlo judicial, assumindo os particulares a posição de cidadãos, titulares de direitos em face dela. 2.3.2.2 Sistema administrativo judicial ou britânico É um sistema que tem a sua origem no Reino Unido, tendo-se estendido, actualmente, pela maioria dos países com raízes anglo-saxónicas (os países da CommonWealth e Estados Unidos da América, com particularidades). É o chamado sistema de controlo judicial, em que todos os litígios de natureza administrativa ou privada (entre particulares) são resolvidos pelos tribunais comuns, com a aplicação do direito privado. Este sistema apresenta as seguintes características: a) Separação dos poderes: o Rei fica impedido de resolver, por si ou por concelhos formados por funcionários da sua confiança, questões de natureza contenciosa, por força da lei da “Star Chamber”, e foi proibido de dar ordens aos juízes, transferi-los ou demiti-los, mediante o “Act of Settelement”; b) Estado de Direito:culminando uma longa tradição iniciada na Magna Carta,os Direitos, Liberdades e Garantias dos cidadãos britânicos foram consagrados no Bill of Rights.O Rei ficou desde então claramente subordinado ao Direito em especial ao Direito Consuetudinário, resultante dos costumes sancionados pelos Tribunais (“Common Law”); c) Descentralização:em Inglaterra cedo se praticou a distinção entre uma administração central e uma administração local. Mas as autarquias locais ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 51 gozavam tradicionalmente de ampla autonomia face a uma intervenção central diminuta; d) Sujeição da Administração aos Tribunais Comuns: a Administração Pública acha-se submetida ao controle jurisdicional dos Tribunais Comuns; e) Sujeição da Administração ao Direito Comum: na verdade, em consequência do“rule of law”, tanto o Rei como os seus conselhos e funcionários se regem pelo mesmo direito que os cidadão anónimos; f) Execução judicial das decisões administrativas: de todas as regras e princípios anteriores decorre como consequência que no sistema administrativo de tipo britânico a Administração Pública não pode executar as decisões por autoridade própria; g) Garantias jurídicas dos administrados: os particulares dispõem de um sistema de garantias contra as ilegalidades e abusos da Administração Pública. Em suma, este sistema é caracterizado pela separação de poderes, Estado de Direito, descentralização, sujeição da Administração pública aos tribunais comuns e ao Direito comum, execução judicial das decisões administrativas (as decisões da Administração Pública não são exequíveis de per si, senão acompanhadas por uma sentença judicial nesse sentido), plena jurisdição face à Administração pública e aos particulares (o juiz pode anular as decisões ilegais e impor o seu cumprimento que, em caso de desacato, podem dar lugar à prisão da autoridade em causa) e garantias jurídicas dos particulares. 2.3.2.3 Sistema administrativo de tipo francês ou de administração executiva Alguns autores chamam a este de sistema de contencioso administrativo, cujo berço é a França, donde se propagou para o resto do mundo. Este sistema é consequência da luta que se travou no caso da Monarquia entre o ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 52 Parlamento, que então exercia funções jurisdicionais, e os independentes, que representavam as administrações locais. Segundo MACIE (2012), dessa luta resultou que: i. As funções judiciárias são distintas e permanecerão separadas das funções administrativas. Não poderão os juízes, sob pena de prevaricação, perturbar, de qualquer maneira, as actividades dos corpos administrativos: separação da justiça da Administração Pública; ii. Firmou-se o sistema de Administrador-juíz, isto é, os tribunais, em particular, os comuns, não podem invadir as funções administrativasou mandar citar, perante eles, comparecerem, os administradores, por actos funcionais: a decisão final dos litígios entre a Administração pública e os particulares é da competência dos órgãos superiores da Administração activa, proferindo, ao invés de sentença, um parecer, que é ou não homologado pelo poder executivo. As características iniciais do sistema administrativo Francês são as seguintes: a) Separação de poderes: com a Revolução Francesa foi proclamado expressamente, logo em 1789, o princípio da separação dos poderes, com todos os seus corolários materiais e orgânicos. A Administração ficou separada da Justiça; b) Estado de Direito: na sequência das ideias de Loke e de Montesquieu, não se estabeleceu apenas a separação dos poderes mas enunciam-se solenemente os direitos subjectivos públicos invocáveis pelo o indivíduo contra o Estado; c) Centralização: com a Revolução Francesa, uma nova classe social e uma nova elite chega ao poder; d) Sujeição da Administração aos Tribunais Administrativos: surgiu assim uma interpretação peculiar do princípio dos poderes, completamente diferente da que prevalecia em ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 53 Inglaterra, se o poder executivo não podia imiscuir-se nos assuntos da competência dos Tribunais, o poder judicial também não poderia interferir no funcionamento da Administração Pública; e) Subordinação da Administração ao Direito Administrativo: a força, a eficácia, a capacidade de intervenção da Administração Pública que se pretendia obter, fazendo desta uma espécie de exército civil com espírito de disciplina militar, levou o“conseil d’ État” a considerar, ao longo do séc. XIX, que os órgãos e agentes administrativos não estão na mesma posição que os particulares, exercem funções de interesse público e utilidade geral, e devem por isso dispor quer de poderes de autoridade, que lhes permitam impor as suas decisões aos particulares, quer de privilégios ou imunidades pessoais, que os coloquem ao abrigo de perseguições ou más vontades dos interesses feridos; f) Privilégio da Execução Prévia: o Direito Administrativo confere, pois, à Administração Pública um conjunto de poderes“exorbitantes” sobre os cidadãos, por comparação com os poderes “normais” reconhecidos pelo Direito Civil aos particulares nas suas relações entre si. De entre esses poderes “exorbitantes”, sem dúvida que o mais importante é, no sistema Francês, o “privilégio de execução prévia”, que permite à Administração executar as suas decisões por autoridade própria; g) Garantias jurídicas dos administrados: também o sistema administrativo Francês, por assentar num Estado de Direito, oferece aos particulares um conjunto de garantias jurídicas contra os abusos e ilegalidades da Administração Pública. Mas essas garantias são efectivadas através dos Tribunais Comuns. Estas, características originárias do sistema administrativo de tipo francês – também chamado sistema de administração executiva – dadaa autonomia aí reconhecida ao poder executivo relativamente aos Tribunais. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 54 Este sistema, nasceu em França, vigora hoje em quase todos os países continentais da Europa Ocidental e em muitos dos novos Estados que acederam à independência no séc. XX depois de terem sido colónias desses países europeus. 2.3.3 Confronto entre os sistemas de tipo britânico e de tipo francês Na análise entre os dois sistemas, podemos encontrar vários traços específicos que os distinguem nitidamente: – Quanto à organização administrativa, um é um sistema descentralizado. O outro é centralizado; – Quanto ao controlo jurisdicional da administração, o primeiro entrega-o aos Tribunais Comuns, o segundo aos Tribunais Administrativos. Em Inglaterra há pois, unidade de jurisdição, em França existe dualidade de Jurisdições; – Quanto ao direito regulador da administração, o sistema de tipo Britânico é o Direito Comum, que basicamente é Direito Privado, mas no sistema tipo Francês é o Direito Administrativo que é Direito Público; – Quanto à execução das decisões administrativas, o sistema de administração judiciária fá-la depender da sentença do Tribunal, ao passo que o sistema de administração executiva atribui autoridade própria a essas decisões e dispensa a intervenção prévia de qualquer Tribunal; – Enfim, quanto às garantias jurídicas dos administrados, a Inglaterra confere aos Tribunais Comuns amplos poderes de injunção face à Administração, que lhes fica subordinada como a generalidade dos cidadãos, enquanto França só permite aos Tribunais Administrativos que anulem as decisões ilegais das autoridades ou as condenem ao pagamento de indemnizações, ficando a Administração independente do poder judicial. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 55 Em suma, pode se dizer que devido à globalização que se assiste na actualidade, as diferenças entre os dois sistemas tem vindo a ser atenuadas, porém, o núcleo duro dos sistemas mantém-se, nomeadamente: Quanto ao direito e forum aplicáveis à Administração Pública: no sistema executivo, encontramos a Administração Pública subordinada ao Direito Administrativo e aos tribunais administrativos, enquanto no sistema judicial, este continua subordinado ao Direito comum e aos tribunais comuns. As garantias jurídicas no sistema judicial são mais eficazes que no sistema executivo. Todavia, apesar destas diferenças, quanto aos princípios fundamentais dos dois sistemas, há a notar algumas aproximações, sendo de destacar: Na execução das decisões administrativas: é possível, no sistema executivo, o particular dirigir-se aos tribunais para solicitar a suspensão da eficácia de uma decisão da Administração Pública, desde que se verifique alguns pressupostos, tais como: de que a execução da decisão seja susceptível de causar prejuízo irreparável ou de difícil reparação para o requerente ou para o interesse que com o recurso pretenda acautelar. Na organização administrativa: actualmente, o sistema judicial tende a centralizar-se e o executivo a descentralizar-se. No sistema executivo, assiste-se, actualmente, à tendência de privatização da Administração pública, e no judicial à publicização da Administração pública. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 56 Sumário Nesta Unidade temática foi abordado que os sistemas administrativos compreendem ao modo jurídico típico de organização, funcionamento e controlo da administração pública em função do tempo e do espaço. Na sua tipificação, três sistemas foram caracterizados, nomeadamente: o sistema tradicional; o sistema administrativo judicial ou tipo britânico (ou de administração judiciária) e o sistema do tipo francês (ou de administração executiva). Na caracterização destes sistemas, sobretudo, o de administração judiciária e do tipo francês podem ser encontradas algumas diferenças e semelhanças, devidamente arroladas acima. Contudo, das aproximações entre ambos há a destacar: a execução das decisões administrativas; a organização administrativa, em que actualmente, o sistema judicial tende a centralizar-se e o executivo a descentralizar-se; bem como o facto de no sistema executivo, assistir-se, actualmente, à tendência de privatização da Administração pública, e no judicial à publicização da mesma. Exercícios de AUTO-AVALIAÇÃO 1. Dê a noção de Sistemas administrativos. 2. Refira-se às tipologias dos sistemas administrativos. 3. Caracterize cada um dos tipos de sistemas administrativos. 4. Indique os pontos de convergência e de dissonância entre o sistema de administração judiciária e do tipo francês. 5. Quais são as características do sistema administrativo de tipo francês ou de administração executiva? 6. Quais são as características do sistema administrativo tradicional? ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 57 UNIDADE Temática 2.4 - Sistemas administrativos e o contexto moçambicano Introdução Não obstante conhecermos os diferentes tipos de sistemas administrativos, é bastante útil analisarmos a caracterização do nosso sistema no contexto do sistema administrativo moçambicano, para melhor percebermos a que sistema nós pertencemos, recorrendo em grande medida à nossa lei-mãe (Constituição da República de Moçambique, revisão de 2004). Ao completar esta unidade, o estudante deverá ser capaz de: Objectivos específicos o Caracterizar o sistema administrativo moçambicano; o Enquadrar o sistema moçambicano no contexto das tipologias de sistemas referidos na unidade anterior. 2.4.1 Sistema administrativo moçambicano:caracterização Moçambique foi colonizado por Portugal durante várias décadas, até ao alcance da sua independência a 25 de Junho de 1975. Este facto histórico de extrema relevância remete-nos, inegavelmente a assumnpção de que o nosso sistema foi influenciado pelas características normativas portuguesas. Todavia, ao compulsarmos a nossa Constituição da República (CRM, 2004), sobre Moçambique, encontramos que ela estabelece: a. Um Estado de Direito Democrático (artigo 3); b. Um Estado unitário descentralizado administrativamente (artigo 8) c. A garantia de acesso aos tribunais (artigo 62); d. A separação e interdependência de poderes (artigo 134); e. Um fórum especializado para o controlo da legalidade dos actos administrativos, da aplicação dos ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 58 regulamentos, das despesas públicas – tribunais administrativos (artigo 228) f. Como princípios fundamentais da estruturação da Administração Pública, a descentralização e desconcentração (artigo 250); g. O respeito pelos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos na actuação da Administração Pública (artigo 249); h. Direitos e garantias dos administrados através do recurso contencioso perante o Tribunal Administrativo (artigo 253); i. O Provedor da justiça (artigo 256 e seguintes). Em outros diplomas legais, para além da CRM, podemos encontrar os seguintes traços fundamentais do sistema, tais como, o privilégio de execução prévia ou poder de execução forçada, como sendo a capacidade legal de executar actos administrativos definitivos e executórios, mesmo perante a contestação ou resistência físicados destinatários (alínea f) do artigo 1 do Decreto número 30/2001, de 15 de Outubro, sobre Normas de Funcionalismo público). Face aos dispositivos acima referidos, caracterizando o sistema administrativo moçambicano, devemos partir da análise e entendimento de que se trata de um sistema do tipo judicial ou executivo, ou ainda híbrido. Vários estudiosos argumentam que, hodiernamente, não existe um sistema, eminentemente, puro, ou seja, nenhum país aplica um sistema de controlo puro, seja através do poder judiciário, ou ainda através de tribunais administrativos. A questão é, será esse o nosso caso? De facto. O que ocorre é a predominância das características deste ou daquele sistema, o que caracteriza um sistema de tendêncial ou predominância Xou Y. Mas também, não repugna a hibridez de um sistema, pois é responder aos novos ventos que sopram na actualidade: a globalização. É assim que o nosso sistema, tal como o executivo originário, foi inspirar-se ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 59 no sistema judicial, trazendo daquele, embora com inovações necessárias, a suspensão de eficácia e a descentralização. Portanto, o nosso sistema é fortemente executivo. Sumário Nesta Unidade temática, ao procuraramos perceber o sistema administrativo moçambicano ficou notório que à luz da nossa Constituição da República (CRM,2004) vários dispositivos nos ajudam a caracterizar melhor a nossa inserção, para concluirmos que tal como o executivo originário, foi inspirar-se no sistema judicial, trazendo daquele, embora com inovações necessárias, a suspensão de eficácia e a descentralização. Portanto, o nosso sistema é fortemente executivo. Exercícios de AUTO-AVALIAÇÃO 1. Refira-se aos dispositivos normativos à luz da CRM (2004) que melhor fundamentam a caracterização do sistema administrativo moçambicano. 2. Diga e fundamenta a que sistema administrativo Moçambique pertence. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 60 UNIDADE Temática 3 – Administração pública nos Países Desenvolvidos Introdução A Administração Pública nos Países Desenvolvidos é marcada pela era do conhecimento e da informação (Lastres, 1999), caracterizada por um período de grandes transformações tecnológicas, sociais e econômicas, que impõem novos padrões de gestão às organizações públicas e privadas. Trata-se de um processo de reestruturação produtiva apoiado no desenvolvimento científico e tecnológico e na globalização de mercados. Nesse contexto, parece haver um consenso entre estudiosos da teoria organizacional de que o sucesso de uma organização é, cada vez mais, influenciado pela sua capacidade de implementar formas flexíveis de gestão que possam fazer face às mudanças do mundo contemporâneo. Ao completar esta unidade, o estudante deverá ser capaz de: Objectivos específicos o Caracterizar a Administração Pública nos Países Desenvolvidos; o Comparar os modelos da Administração pública nos países desenvolvidos com outros países; o Descrever as reformas emergentes da globalização nos países desenvolvidos. 3.1 A administração nos países desenvolvidos: debate teórico e conceptual A explicação de que as instituições importam reformas tanto para o êxito ou o fracasso conquistou considerável espaço nas pesquisas da administração pública comparada (Pollitt e Bouckaert, 2000; world Bank, 1997). Quando observados comparativamente, os países desenvolvidos foram decisivamente marcados por reformas ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 61 segundo os modelos gerenciais, nos quais a ideia de downsizing (o encolhimento da quantidade de funcionários) e a orientação por desempenho adquirem contornos mais intensos. Os ataques ao problema fiscal, em países como os EUA e a Inglaterra, tornaram-se paradigmáticos. Os casos alemão e francês representaram movimentos “dissonantes” em grande medida, dada a sua reduzida voracidade em questões como a redução do tamanho e o envolvimento do Estado nas políticas sociais e económicas. Todavia, Rezende (1996 e 2002) mostra que os Estados mais ricos continuam a exibir padrões marcados por forte intervenção social e económica, a despeito de uma retórica de reforma. A era das reformas, conforme discutiremos adiante, não recolocou “os Leviatãs no lugar”, conforme pretendiam as reformas ambiciosas no início dos anos 90. Reformar padrões de gastos e modelos institucionais de políticas públicas não constitui tarefa fácil, e não é menos complexa em países de maior renda. A experiência comparada mostra que os países em desenvolvimento, por contraste, são aqueles nos quais se realizaram maiores mudanças estruturais no perfil de gestão e gastos públicos. Outro ponto de grande interesse para a comparabilidade é a forte adesão a novos modelos e paradigmas de delegação e de controles burocráticos. Esse novo paradigma – o paradigma pós-burocrático – propõe a criação de padrões de articulação entre formulação e implementação de políticas públicas, regulados pelo desempenho. Esse tem sido um dos principais eixos organizadores dos processos de reforma, centrados na ideia de que as organizações e instituições do sector público possam funcionar dentro de padrões de eficiência como os adoptados pelas organizações privadas, a depender dos incentivos internos que modelam a produção, o gerenciamento e a provisão de serviços. Excepto para os casos de provisão de bens, que se aproximam dos chamados “bens públicos puros” (produção das regras e das políticas, planeamento, coordenação de políticas, fisco etc.), os governos podem ser orientados pelo ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 62 desempenho, com resultados perfeitamente mensuráveis. Baseados nas recentes teorias do agente-principal e do novo institucionalismo económico, os defensores do gerencialismo público têm buscado consolidar um novo modelo de gestão pública em que modelos tradicionais de responsabilização (rule-based) sejam progressivamente substituídos por modelos voltados para os resultados operacionais (performance-based accountability). No limite, os modelos gerenciais propõem novos padrões de implementação de políticas a partir de incentivos e mecanismos de controle que privilegiem o desempenho e a orientação por resultados. A experiência comparativa nos países ricos mostra que as chances de êxito desses novos modelos organizacionais – conhecidos como PBO – têm sido reduzidas no mundo real, e que não tem sido fácil mensurar e avaliar resultados em diversas áreas de intervenção do governo. Quanto ao financiamento dos programas de reforma, deve-se fazer uma diferenciação importante. Nos países de maior renda, os processos de reforma quase sempre são financiados com recursos internos, o que dá maior autonomia e estabilidade em termos da condução, implementação e orientação dos resultados a serem perseguidos com tais políticas. Por contraste, nos países em desenvolvimento, as políticas de reforma são financiadas por meio de projectos (sectoriais ou multissectoriais) apoiados por agências multilaterais, tais como o Banco Mundial ou o FMI. Por exemplo, nos anos 2000, em que se intensificou a difusão das reformas nos países em desenvolvimento (a reforma moçambicana, por exemplo, foi iniciada com o apoio de agências multilaterais) onde os empréstimos aprovados tinham como destino reformas institucionais, queenvolviam iniciativas voltadas para a transformação no papel do Estado e o desenvolvimento de capacidades na gestão pública. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 63 Comparativamente, os resultados da mudança institucional são tímidos. Raros são os casos em que ambiciosas mudanças propostas foram implementadas a contento, embora os desafios políticos, institucionais e técnicos para conseguir a cooperação, com os objectivos da reforma gerencial, continuem intensos. Reformas gerenciais não encontram cooperação espontânea dos actores para criar uma cultura orientada pelo desempenho. Por outro lado, em reduzidos casos as performance-based organizations, a pedra de toque no novo modelo gerencial, foram criadas a contento. Mesmo nos casos em que mudanças foram introduzidas, grandes são os desafios para definir, monitorar e controlar os padrões de desempenho. Existe, ainda, grande dissenso entre o que significa o desempenho, sobretudo porque o Estado e a administração pública contemporânea são, na realidade, compostos de grande diversidade de agências com objectivos altamente heterogêneos, o que dificulta estabelecer padrões comparáveis de desempenho. As reformas gerenciais ainda estão longe de ter introduzido um padrão coerente e aceitável de administração pública. Os estudos de caso disponíveis sobre as experiências nacionais e internacionais revelaram que as reformas encontram dificuldades para transformar a burocracia e o seu modus operandi. Em grande parte dos países desenvolvidos, apesar dos resultados obtidos, dos avanços e dos impasses no plano da implementação, as reformas gerenciais ainda têm um longo caminho a percorrer – e dilemas cruciais a enfrentar. Um dos principais dilemas reside em uma contradição que as reformas gerenciais trazem em si, qual seja: o equilíbrio delicado entre desempenho e controle. Se, por um lado, os modelos de reforma propõem a redução dos controles burocráticos, nos moldes descentralizados de delegação, é facto que problemas de coordenação e regulação são característicos nos modelos existentes sobre a relação entre formulação e implementação. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 64 Nos casos inglês e americano, ainda persistem os dilemas de como delegar responsabilidade sem criar mais controle. No caso dos países em desenvolvimento, com uma frágil tradição de controle, a regulação ainda constitui um problema decisivo. Por outro lado, como nos adverte Schwartzman (1996), “não é a simples eliminação dos controles burocráticos suficiente para garantir o bom desempenho e a correção no uso dos recursos públicos por parte das instituições governamentais”. Segundo ele nos adverte e sugere, o controle é fundamental ao desempenho das instituições e requer a combinação de dois elementos: a legitimidade política das elites reformadoras e a competência técnica dos gestores públicos. Isso demanda, fundamentalmente, uma mudança de cultura política e administrativa em torno dos princípios da reforma gerencial. Rezende (2001), por sua vez, considera que especial atenção deve ser dada para o fenómeno que ele chama de Problema do Controle, o qual produz incentivos contraditórios sobre a cooperação dos actores aos objectivos programáticos da reforma gerencial: “se por um lado o ajuste fiscal demanda mais controle, as mudanças institucionais, especialmente aquelas que demandam mais descentralização e sofisticados mecanismos de delegação e responsabilização, demandam menos controle”. Essa contradição em relação ao controle torna problemático obter a cooperação para os dois objetivos da reforma gerencial. Para além dos resultados alcançados em dimensões sectoriais das reformas, é necessário pensar seriamente sobre como o desenho das reformas incorpora tal dilema, crucial para a implementação da reforma gerencial. É bom pensar, por outro lado, que o desempenho e a redução dos controles burocráticos atendem aos interesses de grande parte da burocracia, dos quais os resultados últimos não são a provisão de serviços ao cidadão, mas sim a “produção de controles”. Mesmo nas experiências de reforma mais bem- sucedidas – e como tendência geral –, a implementação de modelos flexíveis e descentralizados fez, paradoxalmente, elevar os custos burocráticos com mais auditorias e sistemas de controles. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 65 Pode-se inferir que, a despeito dos esforços em construir uma nova lógica de organização e novos tipos de controle, as mais poderosas burocracias sectoriais nas administrações públicas modernas dependem do controle – e de mais controle “tradicional” para atingir os seus resultados. Se considerarmos que a eficiência e a efectividade da acção pública dependem dos controles, a reforma gerencial pode estar completamente equivocada em seu confronto com a realidade quando considera a “quebra dos controles” como ponto central de um novo paradigma de administração pública. Reinventar os controles não constitui – conforme demonstra a experiência recente – uma tarefa simples. O ponto nodal reside em como criar os incentivos selectivos para que os grupos burocráticos cooperem gradualmente com um novo modelo de controle orientado pelo desempenho, o que depende de capacidade e de poder político. 3.2 Desafios da Administração Pública em sociedades desenvolvidas Os países desenvolvidos são identificados por certos parâmetros como economia altamente desenvolvida, maior infra-estrutura técnica, elevado Produto Interno Bruto (PIB) e da renda líquida per capita, nível de industrialização e também o nível de vida das pessoas. Ora, o desenvolvimento e modernização de um estado tem um impacto evidente e significativo sobre a sua política, cultura e sociedade, visto que, essas mudanças encontram suas maneiras em várias outras instituições importantes como o sistema judicial, executivo e legislativo. Os EUA têm sido uma das nações, que têm testemunhado grandes mudanças e reformas em sua história administrativa devido à industrialização, duas guerras mundiais e os vários estudos académicos e experimentais realizados nas áreas de ciências sociais e comportamentais. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 66 É em face das questões acima referidas que vamos, também, olhar para as características gerais da administração pública nos países desenvolvidos antes de prosseguir para o estudo sobre os desafios que enfrentam. As organizações governamentais são significativamente diferenciadas e funcionalmente específicas. As burocracias são enormes, a executar uma miríade de funções especializadas e são do tipo weberiano; Há enorme especialização interna dentro dos papéis e a selecção das pessoas é baseada no mérito; O processo de tomada de decisão é legal e é, em grande medida racional; As instituições governamentais estão presentes em todas as esferas da vida dos cidadãos; Desde que não haja interesse popular nos assuntos públicos, existe uma relação directa entre o poder político e legitimidade. Por outro lado, vemos que os problemas da administração pública nos países desenvolvidos também são complexos. O primeiro problema que é básico, prende-se com a falta de coerência entre várias agências prestadoras de serviços e órgãos reguladores. Outro problema tem a ver com as áreas de actuação, a nível local, onde as autoridades projectam seuspróprios programas e também correm os programas financiados pelas autoridades nacionais. O outro exemplo pode ser o domínio dos políticos em assuntos de domínio especializado da burocracia. A maioria dos estados desenvolvidos, especialmente da Europa são chamados Unidos Administrativo e suas burocracias executam determinadas funções específicas. RUMKI BASU(2007) em seu livro Administração Pública: conceitos e teorias explica estas funções. Segundo ela, a administração pública nestes países executa funções de regulação, assegurando simultaneamente a execução da lei e da ordem, a cobrança das receitas e a defesa nacional contra a agressão. A administração pública oferece uma gama de serviços como educação, ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 67 saúde, cultura, seguros, habitação, subsídios de desemprego e comunicação e transporte. Eles também desempenham um papel importante em trazer aspectos sobre o crescimento económico do país por indústrias que operam, dando empréstimos etc. Os desafios actuais da Administração pública nos países desenvolvidos são, principalmente, económicos. A depressão económica colocou imensas pressões sobre os serviços prestados pelo governo. Uns conjuntos de reformas têm sido propostas em que os recursos do Estado estão sendo estreitamente administrados. A retirada de certos benefícios deixou a administração pública dos países expostos a uma série de críticas e bandeira das pessoas comuns. O papel regulador dos organismos públicos também está sob escrutínio por seu fracasso para evitar que grandes transtornos ocorram. Para que as coisas melhorem, o papel e os desafios da administração pública deve mudar mais uma vez. Sumário Nesta Unidade temática, ficou claro que a Administração Pública nos Países Desenvolvidos é marcada pela era do conhecimento e da informação (Lastres, 1999), caracterizada por um período de grandes transformações tecnológicas, sociais e econômicas, que impõem novos padrões de gestão às organizações públicas e privadas. Por outro lado, os países desenvolvidos foram decisivamente marcados por reformas segundo os modelos gerenciais, nos quais a ideia de downsizing (o encolhimento da quantidade de funcionários) e a orientação por desempenho, apesar dos resultados obtidos, dos avanços e dos impasses no plano da implementação, as reformas gerenciais ainda terem um longo caminho a percorrer – e dilemas cruciais a enfrentar. Contudo, o desenvolvimento e modernização continuam alicerces fortes na construção da administração pública dos estados desenvolvidos, o que tem um impacto evidente e significativo sobre a sua política, cultura e sociedade, visto que, ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 68 essas mudanças encontram suas maneiras em várias outras instituições importantes como o sistema judicial, executivo e legislativo. Vimos, igualmente, neste nesta unidade temática características gerais da administração pública nos países desenvolvidos, das quais se pode destacar a enorme especialização interna dentro dos papéis e a selecção das pessoas baseada no mérito; a legalidade e a racionalidade no processo de tomada de decisão, bem assim a presença em todas as esferas da vida dos cidadãos das instituições governamentais. Por outro lado, vimos que os problemas da administração pública nos países desenvolvidos também são complexos. O principal problema que é básico, prende-se com a falta de coerência entre várias agências prestadoras de serviços e órgãos reguladores. Outro problema tem a ver com as áreas de actuação, a nível local, onde as autoridades projectam seus próprios programas e também correm os programas financiados pelas autoridades nacionais. O outro exemplo pode ser o domínio dos políticos em assuntos de domínio especializado da burocracia. Exercícios de AUTO-AVALIAÇÃO 1. Defina a Administração Pública nos países desenvolvidos e faça a sua caracterização. 2. Quais são os problemas da Administracão Publica nos países desenvolvidos? 3. Compare de forma clara os modelos da Administração pública nos países desenvolvidos com outros países (não desenvolvidos). 4. Aponte as principais reformas que deveriam ser tomadas em conta para uma maior e melhor funcionalidade da Administração pública nos países desenvolvidos. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 69 5. Explique como podem ser superados os dilemas que enfermam a Administração pública em grande parte dos países desenvolvidos. 6. Relacione os problemas da Administração pública Moçambicana com as dos países desenvolvidos. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 70 UNIDADE Temática 4– A globalização e a reforma da Administração Pública Introdução Alguns países têm se beneficiado muito mais da globalização do que outros e os sistemas de administração têm respondido diferencialmente ao desafio da globalização. Muitos dos países em desenvolvimento se beneficiaram menos da globalização, porque eles têm desvantagens consideráveis no mercado global, além de público e sistemas de administração muito fracos. Esses países têm menos recursos e sistemas económicos ou políticos menos eficazes, sobretudo, na sua colocação junto do mercado global. A preocupação é a natureza da globalização e os sistemas globais de mercado, para além do público e sistemas de administração, bem como das limitações da administração pública em responder a esses factores Ao completar esta unidade, o estudante deverá ser capaz de: Objectivos específicos o Definir e Caracterizar a Globalização o Comparar os modelos da globalização nos países desenvolvidos com outros países no contexto da Administração Pública o Descrever as reformas e os efeitos emergentes da globalização nos países desenvolvidos no contexto da Administração Pública. 4.1 A GLOBALIZAÇÃO E A REFORMA DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 4.1.1 Mas o que é globalização exactamente? O conceito de globalização é dado por diferentes maneiras conforme os mais diversos autores em Ciências Sociais, ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 71 Economia, Filosofia, Geografia, História, entre outros, que se pautaram em seu estudo. Em uma tentativa de síntese, podemos dizer que a globalização é entendida como a integração com maior intensidade das relações socio- espaciais em escala mundial, instrumentalizada pela conexão entre as diferentes partes do globo terrestre. No entanto, esse conceito não se refere simplesmente a uma ocasião ou acontecimento, mas a um processo. Isso significa dizer que a principal característica da globalização é o facto de ela estar em constante evolução e transformação, de modo que a integração mundial por ela gerada é cada vez maior ao longo do tempo. Há um século, por exemplo, a velocidade da comunicação entre diferentes partes do planeta até existia, porém ela era muito menos rápida e eficiente que a dos dias actuais, que, por sua vez, poderá ser considerada menos eficiente em comparação com as prováveis evoluções técnicas que ocorrerão nas próximas décadas. Podemos dizer, então, que o mundo encontra-se cada dia mais globalizado. O avanço realizado nos sistemas de comunicação e transporte, responsável pelo avançoe consolidação da globalização actual, propiciou uma integração que aconteceu de tal forma que tornou comum a expressão “aldeia global”. O termo “aldeia” faz referência a algo pequeno, onde todas as coisas estão próximas umas das outras, o que remete à ideia de que a integração mundial no meio técnico-informacional tornou o planeta metaforicamente menor. 4.1.2 A origem da Globalização Não existe um total consenso sobre qual é a origem do processo de globalização. O termo em si só veio a ser elaborado a partir da década de 1980, tendo uma maior difusão após a queda do Muro ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 72 de Berlim e o fim da Guerra Fria. No entanto, são muitos os autores que defendem que a globalização tenha se iniciado a partir da expansão marítimo- comercial europeia, no final do século XV e início do século XVI, momento no qual o sistema capitalista iniciou sua expansão pelo mundo. De toda forma, ela foi gradativamente apresentando evoluções, recebendo incrementos substanciais com as transformações tecnológicas proporcionadas pelas três revoluções industriais. Nesse caso, cabe um destaque especial para a última delas, também chamada de Revolução Técnico-Científica- Informacional, iniciada a partir de meados do século XX e que ainda se encontra em fase de ocorrência. Nesse processo, intensificaram-se os avanços técnicos no contexto dos sistemas de informação, com destaque para a difusão dos aparelhos eletrónicos e da internet, além de uma maior evolução nos meios de transporte. Portanto, a título de síntese, podemos considerar que, se a globalização iniciou-se há cerca de cinco séculos aproximadamente, ela consolidou-se de forma mais elaborada e desenvolvida ao longo dos últimos 50 anos, a partir da segunda metade do século XX em diante. 4.1.3 Características da globalização / aspectos positivos e negativos Uma das características da globalização é o facto de ela se manifestar nos mais diversos campos que sustentam e compõem a sociedade: cultura, espaço geográfico, educação, política, direitos humanos, saúde e, principalmente, a economia. Dessa forma, quando uma prática cultural chinesa é vivenciada nos Estados Unidos ou quando uma manifestação tradicional africana é revivida num outro país, temos a evidência de como as sociedades integram suas culturas, influenciando-se mutuamente. Existem muitos autores que apontam os problemas e os aspectos negativos da globalização, embora existam muitas polémicas e discordâncias no cerne http://brasilescola.uol.com.br/geografia/guerra-fria.htm ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 73 desse debate. De toda forma, considera-se que o principal entre os problemas da globalização é uma eventual desigualdade social por ela proporcionada, em que o poder e a renda encontram-se em maior parte concentrados nas mãos de uma minoria, o que atrela a questão às contradições do capitalismo. Além disso, acusa-se a globalização de proporcionar uma desigual forma de comunicação entre os diferentes territórios, em que culturas, valores morais, princípios educacionais e outros são reproduzidos obedecendo a uma ideologia dominante. Nesse sentido, forma-se, segundo essas opiniões, uma hegemonia em que os principais centros de poder exercem um controle ou uma maior influência sobre as regiões economicamente menos favorecidas, obliterando, assim, suas matrizes tradicionais. Entre os aspectos positivos da globalização, é comum citar os avanços proporcionados pela evolução dos meios tecnológicos, bem como a maior difusão de conhecimento. Assim, por exemplo, se a cura para uma doença grave é descoberta no Japão, ela é rapidamente difundida (a depender do contexto social e económico) para as diferentes partes do planeta. Outros pontos considerados vantajosos da globalização é a maior difusão comercial e também de investimentos, entre diversos outros factores. É claro que o que pode ser considerado como vantagem ou desvantagem da globalização depende da abordagem realizada e também, de certa forma, da ideologia empregada em sua análise. 4.1.4 Efeitos da Globalização Existem vários elementos que podem ser considerados como consequências da globalização no mundo. Uma das evidências mais emblemáticas é a configuração do espaço geográfico internacional em redes, sejam elas de transporte, de comunicação, de cidades, de trocas comerciais ou de capitais especulativos. Elas formam-se por pontos fixos – sendo algumas mais ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 74 preponderantes que outras – e pelos fluxos desenvolvidos entre esses diferentes pontos. Outro aspecto que merece destaque é a expansão das empresas multinacionais, também chamadas de transnacionais ou empresas globais. Muitas delas abandonam seus países de origem ou, simplesmente, expandem suas actividades em direcção aos mais diversos locais em busca de um maior mercado consumidor, de isenção de impostos, de evitar tarifas alfandegárias e de angariar um menor custo com mão-de-obra e matérias-primas. O processo de expansão dessas empresas globais e suas indústrias reverberou no avanço da industrialização e da urbanização em diversos países subdesenvolvidos e emergentes. Outra dinâmica propiciada pelo avanço da globalização é a formação dos acordos regionais ou dos blocos económicos. Embora essa ocorrência possa ser inicialmente considerada como um entrave à globalização, pois acordos regionais poderiam impedir uma global interação económica, ela é fundamental no sentido de permitir uma maior troca comercial entre os diferentes países e também propiciar acções conjunturais em grupos (Yergin e Stanislaw 2002 396). A globalização é, portanto, um tema complexo, com incontáveis aspectos e características. Sua manifestação não pode ser considerada linear, de forma a ser mais ou menos intensa a depender da região onde ela se estabelece, ganhando novos contornos e características. Podemos dizer que o mundo vive uma ampla e caótica inter-relação entre o local e o global, o que pressupõe assumir que a globalização é dividindo dramaticamente o mundo em países poderosos e impotentes em relação à tecnologia da informação, comércio e economia, o vencedor e o perdedor no mercado global. Enquanto isso, os sistemas de administração pública aparecem para ajudar alguns países a ter muito mais benefícios do que outros, mesmo que muitos http://brasilescola.uol.com.br/economia/empresas-multinacionais.htm http://brasilescola.uol.com.br/geografia/classificacao-dos-blocos-economicos.htm http://brasilescola.uol.com.br/geografia/classificacao-dos-blocos-economicos.htm ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 75 cientistas sociais acreditam que a economia internacional e sistemas políticos têm desempenhado um papel mais significativo em ajudar alguns países para obter muito mais benefícios do que outros. Sistemas de administração pública em países desenvolvidos e em desenvolvimento tendem a reagir de maneira diferente ao desafio de forças globais. Por que alguns países beneficiaram muito mais com a globalização do que outros? Será devido à administração pública ou a governação? Se assim for, por quê e como os países desenvolvidos e em transição devem desenvolver sistemas de administração pública voltados para responder de forma diferenciada os desafios para uma maior eficiência, agilidade e transparência, preservando valoresdemocráticos na era da globalização? Se não, o que levou alguns países a obter muito mais benefícios da globalização do que outros? Estas questões de pesquisa devem ser directamente ou indirectamente respondidas. Depois de discutir como a globalização mudou a administração pública, precisamos explorar os sistemas de administração como públicos em mais países desenvolvidos e menos desenvolvidos para melhor responder às forças globais. 4.1.5 Globalização e Administração Pública Forças globais estão penetrando em todos os níveis de governo, por um lado, e uma política nacional ou local em um determinado país tem muitas vezes efeitos globais, por outro. Pressões globais, de facto, têm desempenhado um papel significativo na ajuda às burocracias públicas nos países desenvolvidos, sobretudo, europeus e norte-americanos ocidentais traduzindo-se numa maior agilização de seu pessoal, orçamentos e organizações através da privatização, terceirização, subcontratação, desregulamentação, downsizing, ou até reestruturação de funções do governo e Serviços. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 76 Funções e serviços governamentais estão realmente sendo terceirizados em todos os níveis do governo, e a incidência de terceirização em agências governamentais é continuamente crescente, apesar de funções e serviços governamentais terceirizados variarem substancialmente. Por exemplo, todos os níveis de governo têm sofrido uma terceirização de recursos humanos, funções e serviços de pessoal (Siegel 2000, 228-229). Além disso, os governos centrais e locais têm contratado a maior parte de seus programas de serviços sociais, e a propagação de relações horizontais em substituição da autoridade hierárquica tradicional com "redes construídas formalmente através de contratos e outros acordos jurídicos, traçadas às vezes informalmente através de relações de trabalho pragmáticas " (Kettl 2000, 494). As forças de mercado e princípais modelos de mercado tem estado a tornarem cada vez mais os serviços da administração pública como "gerenciais". Assim como a administração de empresas, a administração pública tem sido cada vez mais com foco na eficiência, eficácia, produtividade, desempenho, responsabilidade, capacidade de resposta e flexibilidade por meio de técnicas usadas, principalmente, em corporações. Os pressupostos weberianos de um tipo ideal de burocracia não são mais compatíveis com a gestão das organizações públicas modernas. Espera-se que os governos nacional e local sejam mais eficientes, eficazes, ágis e responsáveis por meio de ajustes estruturais e comportamentais ou adaptações. Enquanto isso, dos funcionários e outros colaboradores, espera- se que façam mais com menos, fazendo prevalecer a equidade social, a justiça, a legitimidade e diversidade. Por exemplo, o sistema de remuneração por desempenho procura garantir a produtividade, responsabilidade e flexibilidade através da compensação dos trabalhadores na sua contribuição para a organização. Todavia, a medição e performances de compensação, contribuições e os méritos dos funcionários públicos, continuam vistos como ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 77 ambíguos. A globalização oferece mais liberdade e discrição para o baixo nível de governo devido à revolução da tecnologia da informação. Para atrair investimentos ou promover o comércio, governos locais trabalham directamente com governos estrangeiros e grandes corporações, e assim, criar mais empregos e estimular a economia local. Além disso, os programas e serviços locais são fornecidos e gerenciados de forma mais eficiente via e- governo, embora governos locais dependem fortemente de transferências do estado para manter programas municipais (por exemplo, transferências representam 30 a 50 por cento do total dos pagamentos municipais em grande parte dos Municípios em Moçambique). 6.1.6 A Respostas da Administração Pública para as Forças Globais Forças globais exigem alterações fundamentais do social, económica, política e Sistemas administrativos ao longo dos países. O impacto das forças globais em administração pública, no entanto, é notavelmente diferente entre os países, especialmente entre os países ocidentais e não-ocidentais, entre mais e menos desenvolvidos países e entre países cristãos e não-cristão. A Administração Pública dos países em desenvolvimento respondem diferentemente às forças globais, enquanto que o ambiente internacional continua afectando cada vez mais as burocracias dos estados em desenvolvimento. O primeiro tipo de burocracias nacionais tende a acontecer em países desenvolvidos (por exemplo, a Western North Europeu e Países da América) onde a globalização leva a sistemas de administração pública fortes que por sua vez respondem positivamente a globalização. No segundo tipo de burocracias nacionais, onde as elites religiosas ou autoritárias ou partes individuais são mais propensos a controlar os fluxos de informação, no entanto, estes efeitos interativos positivos entre globalização e da administração pública não são bastante eficazes. Exemplos: estão ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 78 desenvolvendo Países africanos, asiáticos e sul-americanos, os países muçulmanos (por exemplo, Irão, Arábia Saudita e Síria), e os estados socialistas (por exemplo, China, Coréia do Norte e Cuba). Esses países abertos à globalização procuram manter a sua cultura, normas e políticas, enquanto que as actividades técnicas, científicas, financeiras e económicas são afectados e alterados por forças globais. O papel da administração pública sobre a globalização nesses países é limitado. A Administração pública em muitos países em desenvolvimento é susceptível de ser controlada ou manipulada, sobretudo, no que tange à distribuição do poder, uma vez que o governo procura controlar informações para manter o seu regime em detrimento do interesse público. Em contramão, e utilizando tecnologia da informação, os cidadãos em nações ocidentais são mais propensos a ter acesso as informações do governo, ao passo que os cidadãos de nações não-ocidentais não têm de forma acessível a informação do governo (Welch e Wong 1998, 46). Quer dizer, o sistema de informação está, geralmente, disponível em países desenvolvidos, enquanto muitos dos países em desenvolvimento estão limitados na aplicação de tecnologia de informação avançada no contexto da gestão pública. O último tipo de burocracias nacionais acontece em países em rápido desenvolvimento, incluindo os países da Ásia Oriental e dos países da Europa de Leste, onde a economia está crescendo e a tecnologia da informação está emergindo. No entanto, permanece questionável se esses países se beneficiarão da globalização devido ao seu sistema de administração público. Mas, para além disso, enquanto os sistemas de administração de empresas em países emergentes têm permitido, significativamente, forças globais para alterar as formas de gestão das corporações, os sistemas de administração pública não foram notavelmente penetrados e alterados pelas forças globais. ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 79 Em comparação com a gestão empresarial, a gestão pública nesses países é menos provável de ser responsável perante os interesses públicos, opiniões públicas, e às necessidades dos clientes, devido à burocracia,rigidez, resistência a mudanças, ou corrupção. Por outro lado, a falta de profissionalismo e racionalidade que não são, institucionalmente estabelecidos nessas burocracias públicas, a gestão pública torna-se menos provável à princípios de eficiência, eficácia e produtividade, transparência e justiça. Isto mostra, claramente, que quando a administração pública não é separável da política, os interesses políticos podem substituir os interesses públicos. As pressões globais, as forças de mercado e a tecnologia da informação precisam manter a administração pública separada da política nos países emergentes, embora a administração pública deverá ser mais pró-activa. Os países europeus e norte-americanos ocidentais têm se beneficiado mais da globalização, enquanto um grande número de países, especialmente os países do Terceiro Mundo, mantiveram-se afastados da globalização e o impacto da globalização sobre burocracias públicas e sistemas políticos desses países é mínima. Sumário Nesta Unidade temática, ao procuraramos perceber a globalização e a Administração pública ficou notório que a globalização é entendida como a integração com maior intensidade das relações sócio-espaciais em escala mundial, instrumentalizada pela conexão entre as diferentes partes do globo terrestre. Os países abertos à globalização procuram manter a sua cultura, normas e políticas, enquanto que as actividades técnicas, científicas, financeiras e económicas são afectados e alterados ISCED CURSO: Administração Pública; 20 Ano Disciplina/Módulo: Administração Pública Comparada 80 por forças globais. O papel da administração pública sobre a globalização nesses países é limitado. A Administração pública em muitos países em desenvolvimento é susceptível de ser controlada ou manipulada, sobretudo, no que tange à distribuição do poder, uma vez que o governo procura controlar informações para manter o seu regime em detrimento do interesse público. Em contramão, e utilizando tecnologia da informação, os cidadãos em nações ocidentais são mais propensos a ter acesso as informações do governo, ao passo que os cidadãos de nações não-ocidentais não tem de forma acessível a informação do governo (Welch e Wong 1998, 46). Quer dizer, o sistema de informação está, geralmente, disponível em países desenvolvidos, enquanto muitos dos países em desenvolvimento estão limitados na aplicação de tecnologia de informação avançada no contexto da gestão pública. Exercícios de AUTO-AVALIAÇÃO 1. Refira-se à globalização na sua relação com a Administração Pública. 2. Que desafios se reservam para o fenómeno da aldeia global no processo de desenvolvimento e modernização da Administração pública. 3. Quais os modelos da Administração Pública na era da globalização podem ser úteis a Moçambique? 4. De que forma a Administração Pública na época moderna pode ser manipulada? 5. Que de forcas globais podem alterar ou desestruturar a Administração Pública? 6. Anucie os efeitos da globalização na Administração Pública Moçambicana?