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Universidade Estácio de Sá – Campus João Uchoa Biomedicina – Genética Forense (2020/1) Prof. Marcelo A. S. Baptista ESTUDO DE CASO (AV1) 1) Na suspeita de casos de estupro, é necessária a realização de exames para constatar a prática do abuso sexual com penetração. Assim sendo, nos serviços de medicina legal, é realizada, entre outros exames, a coleta de esfregaços vaginais com a transferência do material biológico para lâmina de microscopia. Em 1999, duas jovens relataram ao Departamento de Polícia do Rio de Janeiro que haviam sido vítimas de abuso sexual. Um suspeito foi detido e apontado pelas vítimas como o agressor. Apesar das acusações, o suspeito alegou sua inocência. Com objetivo de elucidar os fatos, lâminas de esfregaço vaginal representando as únicas evidências biológicas dos suspeitosos casos de estupro foram enviadas ao laboratório especializado de Genética Forense três meses após o crime. Os protocolos utilizados para recuperação celular e extração de DNA baseiam-se em técnicas preexistentes, porém adaptadas para se obter quantidade de DNA suficiente para realização das análises. A quantidade de células foi suficiente para a utilização da técnica de extração diferencial de DNA, separando as frações feminina e masculina. Após a extração do DNA, uma amplificação por PCR foi realizada usando um kit multiplex com 9 loci de STR mais amelogenina. Os resultados obtidos foram compilados na Tabela 1. [Adaptado de Silva, D. A.; Góes, A. C. S,; Carvalho, J. J.; Carvalho, E. F. DNA typing from vaginal smear slides in suspected rape cases. São Paulo Med. J. 122(2): 70-72. 2004.] Tabela 1. Perfis genéticos de 9 loci de STR mais amelogenina obtidos de amostras questionadas e referências visando identificação criminal em dois casos de estupro. Caso 1 Caso 2 Suspeito Locus Sangue (vítima) Esfregaço vaginal (fração feminina) Esfregaço vaginal (fração masculina) Sangue Esfregaço (vítima) vaginal (fração feminina) Esfregaço vaginal (fração masculina) Sangue Frequência (suspeito) genotípica (suspeito) CSF1PO 8, 10 8, 10 10, 12 8, 8 8, 8 10, 12 10, 12 0,189 TPOX 8, 12 8, 12 8, 9 11, 13 11, 13 8, 9 8, 9 0,093 THO1 7, 9.3 7, 9.3 6, 7 6, 9.3 6, 9.3 6, 7 6, 7 0,090 F13AO1 4, 12 4, 12 4, 5 5, 5 5, 5 4, 5 4, 5 0,034 FESFPS 10, 11 10, 11 9, 11 10, 11 10, 11 9, 11 9, 11 0,062 VW15A 18, 19 18, 19 17, 18 15, 16 15, 16 17, 18 17, 18 0,077 D16S539 10, 11 10, 11 11, 12 12, 13 12, 13 11, 12 11, 12 0,148 D7S820 8, 11 8, 11 10, 12 10, 13 10, 13 10, 12 10, 12 0,093 D13S317 8, 12 8, 12 8, 11 11, 12 11, 12 8, 11 8, 11 0,087 Amelo XX XX XY XX XX XY XY – Frequência genotípica combinada 1 em 3.300.000.000 (A) Qual o objetivo investigativo ao se realizar extração diferencial de DNA a partir de esfregaço vaginal da vítima? O processo foi bem sucedido? Explique. (1,0 ponto) R. A amostra de referência e a amostra de questionada serve para poder comparar o DNA obtido, para então chegar a uma conclusão. Ou seja, se o perfil obtido nas duas amostras forem iguais, falamos que ele apresenta identidade, então é uma prova para o juiz levar em consideração na hora do julgamento. No processo foi constatado que a amostra tem uma probabilidade de ser 3,3 bilhões de vezes mais provável que o suspeito seja o doador das células espermáticas encontrada no material biológico que qualquer outro individuo. (B) Identifique a(s) amostra(s) questionada(s) e a(s) amostra(s) referência(s) analisadas. (1,0 ponto) R amostra questionada- Esfregaço vaginal da vitima 1 e 2. Amostra questionada é toda e qualquer vestígio coletado em local do crime e em pessoa vitimada contendo material biológico humano. Amostra referência- Esfregaço masculino. Amostra referência – amostra biológica coletada exclusivamente para estabelecer o vínculo biológico ou o confronto genético com a amostra questionada. (C) Como foram calculadas as frequências genotípicas por locus e a frequência genotípica combinada referentes ao perfil do suspeito? (1,0 ponto) (D) A comparação direta dos perfis genéticos obtidos a partir das amostras analisadas juntamente com a informação do banco de dados de frequências alélicas da população referencial possibilitou a seguinte interpretação estatística referente ao suspeito: É aproximadamente 3.300.000.000 (três bilhões e trezentos milhões) de vezes mais provável que encontremos o perfil genético observado se considerarmos que as amostras questionadas são provenientes do doador da amostra referência do que se considerarmos que são provenientes de outra pessoa qualquer da população./=== A expressão verbal acima visa quantificar a força da evidência genética (identidade entre o perfil genético da amostra questionada e o da amostra referência) estimando a razão de probabilidades (ou índice de coincidência cumulativo) da evidência genética sob duas hipóteses alternativas mutuamente exclusivas. Quais são essas hipóteses? Qual hipótese deve ser aceita? A que conclusão se chega? Responda em linguagem técnica pericial. (2,0 pontos) As hipóteses são de NOTA TÉCNICA Extração Diferencial de DNA A extração diferencial de DNA é uma técnica de extração modificada que permite a lise seletiva e o isolamento do DNA de uma mistura de espermatozoides e células epiteliais (Figura 1). Amostras forenses, como as coletadas em casos de violência sexual, podem conter espermatozoides (evidência) misturados com células epiteliais vaginais e/ou retais (referência). Técnicas de extração diferencial permitem o isolamento físico seletivo da fração masculina da amostra forense antes da obtenção do perfil genético. Durante a extração diferencial, as células epiteliais são primeiro seletivamente lisadas através da adição de dodecilsulfato de sódio (SDS) e proteinase K. Os espermatozoides são geralmente resistentes à lise por esses produtos químicos. Uma vez que as células epiteliais tenham sido lisadas, a centrifugação é usada para sedimentar seletivamente quaisquer espermatozoides intactos. O sobrenadante contendo o DNA das células epiteliais pode então ser removido para um tubo separado. Os espermatozoides isolados são então lisados pela adição de SDS, proteinase K e ditiotreitol (DTT) (Figura 1). O DTT é um forte agente redutor que desestabiliza as pontes dissulfeto de proteínas presentes nas membranas nucleares do espermatozoide, liberando o DNA das células espermáticas. O DNA na fração epitelial e na fração espermática pode então ser extraído separadamente por métodos orgânicos ou não orgânicos. O método de extração diferencial pode simplificar a interpretação dos resultados do perfil genético em casos de crime sexual, aumentando a probabilidade de obter perfil de DNA exclusivamente masculino isolado da fração espermática (Figura 2). Como a fração epitelial pode conter tanto o DNA feminino quanto eventualmente o masculino (por contaminação com células epiteliais masculinas), um perfil característico de mistura de amostras biológicas, com três ou mais alelos, é passível de ser obtido, a partir da fração não espermática. Isolar/Purificar DNA por Extração Orgânica ou Transferir Fase Sólida Sobrenadante SDS e Proteinase K Incubar e Lisado da Fração DNA Epitelial Centrifugar Epitelial Ressuspender Sedimento Espermático Isolar/Purificar DNA por Extração Orgânica ou Fase Sólida DTT SDS, Proteinase K e Lisado da Fração DNA Espermático DTT Espermática Figura 1. Fluxograma de extração diferencial de DNA. Comumente empregada para o processamento de evidências de violência sexual, as células epiteliais são primeiramente lisadas, deixando espermatozoides intactos, que são facilmente sedimentados por centrifugação. A remoção do lisado de células epiteliais para um tubo separado deixa um sedimento enriquecido de espermatozoides. A desnaturação subsequente das ligações dissulfeto de proteínasda membrana nuclear espermática pelo agente redutor DTT facilita a lise dos espermatozoides para a extração do DNA. Figura 2. Representação esquemática ilustrando os resultados das quatro amostras tipicamente associadas a um caso de violência sexual. Durante a extração diferencial de DNA, a amostra questionada é dividida em duas frações: (a) fração não-espermática ou epitelial e (b) fração espermática. O perfil genético do suspeito (d) é comparado com a fração espermática (b) para averiguar possível identidade. O perfil genético da vítima (c) fornece confirmação da identidade da amostra referência com a fração não- espermática (a). Amostra Questionada (Q) Amostra Referência (R) Fração Epitelial Fração Espermática Vítima Suspeito Extração Diferencial