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A morte celular 22- 1. A morte celular programada é um fenômeno comum no organismo A morte das células é um fenômeno comum durante o desenvolvimento embrionário , necessá- rio para remover tecidos provisórios (por exemplo, as membranas interdigitais durante a forma- ção dos dedos), eliminar células supérfluas (como ocorre com quase a metade dos neurônios no curso da neurogênese), originar duetos, formar orifícios etc. Também ocorrem mortes celulares durante a vida pós-natal, quando o organismo necessita remodelar tecidos ou remover células danificadas , desnecessárias, redundantes, envelhecidas ou perigosas para a saúde, como o são as células infectadas, as células tumorais ou as auto-reativas (por exern.,lo, os linfócitos T que reagem contra o próprio organismo). Tendo em vista que as células destinadas a morrer podem perecer para que as restantes do cor- po sobrevivam, podemos dizer que protagonizam um tipo de imolação biológica. Estas mortes celulares fisiológicas ou programadas ocorrem ao final de uma série de alterações morfológicas que recebem o nome de apoptose (do grego, apo, separado de, e ptósis, queda), termo usado para diferenciá-las das mortes celulares acidentais - produzidas por traumatismos, substâncias tóxi- cas, obstruções vasculares etc. - conhecidas como necrose. 22-2. A apoptose produz alterações celulares características As modificações que as células sofrem quando morrem por apoptose são características. São devidas à ativação de certas proteases citosólicas especiais chamadas caspases (do inglês, çysteinyl @Jlartate proteinases) e ocorrem na seguinte ordem (Fig. 22.1): 1) O citoesqueleto se desmonta devido à ruptura de seus filamentos . Como conseqüência, a célula perde contato com suas vizinhas (ou com a matriz extracelular) e se torna esférica . \ Corpo apoptótico Macrófago 22 Fig. 22.1 Modificações celulares que ocorrem durante a apoptose. Observe-se a fagocitose das vesículas apoptóticas a cargo de um macrófago . 350 • A MORTE CELULAR 2) A célula se encolhe porque o citosol e as organelas se condensam sem que suas estruturas sejam afetadas. A condensação é devida à alteração da permeabilidade das membranas celulares. 3) Os filamentos laminares (laminofilamentos) se dissociam, com a conseqüente desintegra- ção do envoltório nuclear. 4) A cromatina se compacta e as moléculas de DNA se seccionam por ação de uma endonucle- ase, o que di vide o núcleo em pequenos fragmentos que se distribuem no citoplasma. 5) Na superfície da célula surgem numerosas protrusões, quase todas com fragmentos nuclea- res no seu interior. 6) Depois as protrusões se desprendem, convertidas em frações celulares chamadas corpos apoptóticos. Cabe assinalar que suas organelas estão relativamente bem conservadas. 7) As fosfatidilserinas das membranas que envolvem os corpos apoptóticos - previamente localizadas na monocamada citosólica da membrana plasmática (Cap. 3-3) - se trasladam para a monocamada externa. 8) Finalmente, atraídos por estas fosfatidilserinas, numerosos macrófagos acorrem ao lugar da apoptose e fagocitam os corpos apoptóticos. Como vemos, diferentemente da necrose, a remoção das células mortas por apoptose preser- va a arquitetura original dos tecidos, já que não dá lugar a reações inflamatórias nem produz ci- catrizes. 22-3. A apoptose é ativada por causas distintas A maior parte das mortes celulares por apoptose ocorre quando: 1) são suprimidos os fatores tróficos que mantêm as células vivas ; 2) substâncias que induzem a morte celular se ligam are- ceptores específicos; 3) o DNA nuclear é afetado por mutações capazes de pôr em perigo o orga- msmo. Em seguida, veremos que estas causas desencadeiam vias de sinais intracelulares diferentes entre si, que convergem para um segmento final comum. 22-4. A apoptose que é ativa.da quando os fatores tróficos são suprimidos é mais generalizada Cada tipo de célula é mantida viva por uma substância indutora específica, chamadafator tró- fico ou fator de sobrevivência, que lhe chega das células vizinhas (Cap. 11-1) (Fig. 11.lB). A maioria das mortes celulares por apoptose ocorre quando se suprimem essas substâncias. Os fatores tróficos mais estudados são as glicoproteínas CSF (do inglês, colony stimulating factors) e o grupo de substâncias chamadas neurotrofinas. As CSF estimulam a sobrevivência, o crescimento e a diferenciação dos glóbulos sangüíneos. Já as neurotrofinas - substâncias segre- gadas pelos tecidos inervados , a cuja família pertence o NGF visto nos Caps. 11-12 e 18-28 - têm por função manter vivos os peurônios e estimular o crescimento de seus axônios. A Fig. 22.2A mostra o modo pelo qual os fatores tróficos interagem com os receptores das células induzidas, situados na membrana plasmática. Cabe esclarecer que embora essa figura ilustre o fator trófico que interage com o receptor que possui atividade de tirosinocinase (Cap. 11-12) (Fig. 11.11) existem fatores que interagem com receptores acoplados às proteínas G13 ou Gi (Cap. 11-20) (Fig. 11.21). Nos Caps. 11-12, 11-14 e 11-20 vimos que, quando ativados, esses receptores se ligam e ati- vam diversas fosfatidilinositol 3-cinases (PI 3-K). Também vimos que com fosfatos de molécu- las de ATP, as PI 3-K ativadas fosforilam o inositol do fosfatidilinositol 4,5-difosfato (PIP2) da membrana plasmática e o convertem em fosfatidilinositol 3,4,5-trifosfato (PIP 3) (Figs. 11.11, 11.21 e 11.22). Em seguida, sem abandonar a membrana plasmática, um PIP 3 se liga à cinase PDKl (do in- glês, phosphatidylinositol dependent-protein kinase) e outro à serina-treonina cinase B, o que faz ambas as enzimas ficarem próximas entre si. A PDKl fosforila a cinase B, que é ativada e se separa do PIP3• Em seguida, a cinase B ativada fosforila uma proteína chamada Bad (do inglês, Bcl-2 antagonist of cell death), que se inativa e se liga à proteína citosólica denominada 14-3-3. Fator trófico A Na condição descrita, a Bad está separada da Bcl-2 (do inglês, B cell leukemia), uma proteína pertencente à membrana mitocondrial externa que se deriva do protooncogene bcl-2. Devemos acrescentar que quando está separada da Bad, a Bcl-2 encontra-se ativa e impede que a célula morra por apoptose. Em seguida, veremos que ela previne a m011e celular porque mantém fechado um canal da membrana mitocondrial interna chamado PTPC (do inglês, permeahility transition por e complex). Vejamos agora como se desencadeia a apoptose. A Fig. 22.2B mostra que, na ausência do fator trófico, a Bad - que carece de fosfato - ativa-se, desvincula-se da proteína 14-3-3 e se liga à Bcl-2 no lado citosólico da membrana mitocondrial externa. Como a Bad inativa a Bcl-2, o PTPC se abre e a passagem de moléculas entre os compartimen- tos da mitocôndria se descontrola, o que distorce a estrutura da membrana mitocondrial externa e permite que dois componentes presentes normalmente no espaço intetmembranoso dessa organe- la - a proteína AIF e o citocrorno c (Cap. 8-11) (Fig. 8.12) - escapem para o citosol. Uma vez no citosol , a AIF (do inglês, apoptosis inducing factor) se dirige à membrana plasmá- tica e inverte a posição das fosfatidilserinas que, corno vimos na Seção 22-2, se transladam para a rnonocarnada externa da membrana e atraem os rnacrófagos . Além disso, a AIF entra no núcleo, induz a condensação da cromatina e ativa a endonuclease que degrada as moléculas de DNA. Com relação ao citocromo e, combina-se com a proteína adaptadora Apaf-1 (do inglês, apoptosis protease activating fa ctor). Isso a une à pró-caspase-9 , que se cinde e se converte em caspase-9. Depois , esta cinde a pró-caspase-3 , que se transforma em caspase-3 e ativa as enzimas que produzem as mudanças apoptóticas enumeradas na Seção 22-2. Devemos acrescentar que nas células moribundas, o Ca2+ citosólico aumenta consideravelmente. Quando se trata de células epiteliais, o Ca2+ fecha as conexões e evita a passagem de elementos que possam danificaras células vizinhas (Cap. 6-14). A MORTE CELULAR • 351 Fig. 22.2 A. Célula mantida viva pela ligação de um fator trófico ao seu receptor. PS, fosfatidilserina; MME, membrana mitocondrial externa; MM!, membrana mitocondrial interna; EIM, espaço intermembranoso. 352 • A MORTE CELULAR Fig. 22.2 B. Apoptose produzida pela supressão do fator trófico. PS, fosfatid ilserina; MME, membrana mitocondrial externa; MM!, membrana mitocondrial interna; EIM, espaço intermembranoso. - Fator trófico -~ Receptor MME EIM MMI --------------= == = == o=:::::=o ();::::::.:::::::::O == e:= ~ e=:= =o = == Bad ativa c:::J~ 6 ~ ~ j s(flj J3va f ~~ = -·=--.=.--~= •-!!ll!!!!l!!!!!!!!!lmpTPC == = == = == = == == ~= Citocromo e-;., • = ~ ~ [jlfl] Apaf-1 ô=~ ~~ P~ó-caspase-9 ílíl -·---•@ caspase-9 l Caspase-3 @ •------ ~ Pró-caspase-3 l APO PTOSE l B 22-5. A apoptose devida à ativação de receptores específicos é mais rápida que a estudada na seção anterior Durante algumas respostas imunes, na membrana plasmática de certas células infectadas e cancerosas, aparecem receptores especiais cuja ativação conduz à apoptose de uma maneira mui- to mais rápida que a analisada na seção anterior. Algo similar ocorre na membrana plasmática dos linfócitos T específicos que sobram ao final dessas respostas imunes. Os receptores que estão sendo analisados chamam-se TNF-R e Fas. São compostos de três subunidades protéicas iguais entre si e pertencem a uma categoria diferente das descritas no Cap. 11-9, já que seus domínios citosólicos - que contêm uma seqüência de aminoácidos conhecida como domínio de morte - ativam as caspases, quer dizer, enzimas proteolíticas. As substâncias indutoras que interagem com esses receptores são chamadas TNF e FasL. Tam- bém são homotriméricas e, como seus nomes sugerem, combinam-se com os receptores TNF-R e Fas, respectivamente. O TNF (do inglês, tumor necrosis factor) é segregado das células situadas na vizinhança - principalmente macrófagos e linfócitos T - por causa de diversas infecções (Figs. 11. lB e 22.3). O ponto de partida da via de sinais induzida pelo TNF é a união de suas três subunidades com os domínios externos das três subunidades do receptor TNF-R (Fig. 22.3). Isso reúne estas últimas - o receptor se trimeriza - e faz com que seus domínios citosólicos se conectem com a proteína adaptadora TRADD (do inglês, TNF receptor-associated death domain) que por sua vez se une a outras três proteínas adaptadoras denominadas FADD (do inglês, Fas receptor-associated death domain ), RIP (do inglês, receptor-interacting protein) e TRAF (do inglês, TNF receptor-associ- atedfactor). As duas últimas proteínas relacionam-se parcialmente com a apoptose, diferentemente da FADD, que se liga a pró-caspase-8, cinde-a e a transfonna em caspase-8. Logo, esta enzima ativa a pró- TRAF TRADD RIP FADO Caspase-s @ •----- Pró-caspase-8 i Pró-caspase-9ílíl -----•@ Caspase-9 i CM-·'?•·--- ~ e<ó<-~·' 1 APOPTOSE 1 caspase-9 e a converte em caspase-9 que, como vimos na seção anterior, cinde a pró-caspase-3 e a transforma em caspase-3. Os passos que seguem até chegar à apoptose são similares aos descri- tos na Seção 22-4. O FasL (do inglês,fascicle ligated) é elaborado por linfócitos T citotóxicos e linfóéitos assas- sinos naturais (natural killer) por causa de alguns cânceres e infecções. Visto que o FasL não é segregado e fica situado na membrana plasmática, para interagir com o receptor Fas é necessário que os linfócitos mencionados entrem em contrato com as células cancerosas ou infectadas (Figs. 11.lE e 22.4) . A via de sinais induzida pelo FasL se diferencia da impulsionada pelo TNF porque é mais cur- ta, já que os domínios citosólicos do receptor Fas se conectam com a proteína F ADD e não por intermédio da TRADD e sim diretamente (Fig. 22.4). 22-6. A apoptose devida a mutações no DNA evita o aparecimento de diferentes tipos de cânceres Outra condição biológica que leva à apoptose ocorre quando o DNA apresenta alterações devi- das ao envelhecimento celular (Cap. 17-9), à replicação (Caps. 17-7 e 17-19), à ação de agentes ambientais (raios -y, raios X, radiação solar ultravioleta, substâncias químicas, vírus etc.) (Cap. 17-18) ou ao acúmulo na célula de peróxido de hidrogênio (Hp 2 ) ou de ânions superóxido (0 2 - ) (Caps. 10-2 e 10-3). · Ante a presença dessas alterações pode intervir a proteína P53, derivada do gene supressor de tumores p53. No Cap. 18-29, dissemos que a proteína P53 estabiliza o ciclo celular na fase G 1 e controla a presença de alterações no DNA para procurar seu reparo. Quando este reparo não tem êxito e a célula é perigosa para o organismo, a própria proteína P53 induz a sua morte, a fim de impedir a transferência do DNA danificado às células-filhas. Para isso, a P53 inativa a Bcl-2, o que põe em marcha o mecanismo que conduz à apoptose e descrito na Seção 22-4 (Fig. 22.2B). O próprio gene p53 está freqüentemente alterado e, por isso, dá origem a uma· proteína P53 defeituosa, incapaz de controlar o estado do DNA e de conduzir a célula "ao suicídio". Por conse- qüência, se se trata de um tipo celular que se divide, as células que dele descendem acumulam alterações ao longo das sucessivas divisões. Este fato é grave quando genes implicados na regula- ção da proliferação celular são afetados, já que podem dar lugar a diferentes tipos de cânceres (Cap. 18-32). A MORTE CELULAR • 353 Fig. 22.3 Apoptose produzida pela ativação do receptor TNF-R. 354 • A MORTE CELULAR LINFÓCITO T CITOTÓXICO OU ASSASSINO NATURAL CÉLULA INFECTADA OU TUMORAL FADD Caspase-8 @ •------ Pró-caspase-8 ! Pró-caspase-9ílíl---- • @ caspase-9 i C,,P"'o·3 t ······ ~ Pffi·ra'P""·3 APOPTOSE J Fig. 22.4 Apoptose produzida pela ativação do receptor Fas. 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