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Resumo Julho.2020 Gomes, E. Elsa Gomes, aluna integrante do quarto e último ano da licenciatura em Osteopatia na ESSCVP – Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa - Lisboa, no ano letivo 2019/2020, matriculada com o número 4503. Trabalho realizado no âmbito da Unidade Curricular Investigação em Osteopatia II, com acompanhamento e supervisão dos Exmos. Professores Doutores Silvia Gomes e João Silva. Email institucional para contacto: elsagomes4503@esscvp.eu Influência do diafragma nos distúrbios de ansiedade, a intervenção da Osteopatia: uma revisão sistemática integrativa Perturbações de ansiedade são dos distúrbios mais comuns entre as diversas patologias do foro mental. Caracteriza-se por uma dificuldade aparente do indivíduo ao nível do autocontrolo no que diz respeito a preocupações relacionadas com eventos dos mais diversos tipos ou origens, acompanhada sempre de sintomas como a ausência da capacidade de descanso, fadiga, défice de concentração, um sentimento de limite, um limiar de irritabilidade mais baixo e tensão muscular evidente. Este diagnóstico acarreta interferências significativas nas atividades do dia-a-dia, laborais e ocupacionais, e ainda, uma diminuição muito expressiva na qualidade de vida. Além disto, algumas condições clínicas são associadas às perturbações de ansiedade, tais como hiperventilação, hipertensão, síndromes dolorosas e ainda distúrbios cardiovasculares e gastrointestinais. Acredita-se que o controlo da frequência respiratória está intimamente associado a relaxamento e a uma diminuição dos níveis de stress, enquanto que, frequências respiratórias mais elevadas, têm vindo a ser associadas a quadros de ansiedade e disrupção emocional. O diafragma é de facto o músculo mais importante no ato de respirar e disfunções no diafragma estão intimamente ligadas a dispneia, e, em caso de dispneia, o diafragma apresenta um comportamento de acordo com a gravidade. Objetivo desta revisão foi, por um lado, esclarecer a relação entre disfunções no diafragma e a condição de hiperventilação associada ao distúrbio de ansiedade, e, por outro lado, estabelecer uma relação entre a intervenção terapêutica manual no diafragma e as consequências desta em pacientes com distúrbios de ansiedade. Métodos Para tal, foi feita uma pesquisa inicial, em bases de dados científicas (PubMed, IJOM e Scholar Google), com aplicação dos conceitos “ansiedade” E “diafragma” OU “respiração” OU “psicossomático” e “diafragma” E “disfunção” OU “relaxamento” OU “terapia”. Após a seleção dos artigos pesquisados foram sujeitos a revisão 36 artigos. Resultados: Este estudo permitiu concluir que existe uma relação bidirecional entre ansiedade e hiperventilação e uma relação estreita entre a segunda e o status do diafragma. Conclusão: Assim, após esta revisão, parece ser sugestivo que as técnicas que incidem sobre o relaxamento, fortalecimento e melhoria da performance do diafragma, inclusivamente técnicas osteopáticas, podem trazer benefícios a pacientes com disfunção respiratória, em especial, os que sofrem de distúrbios de ansiedade. PALAVRAS-CHAVE: Ansiedade; respiração; hiperventilação; diafragma; tratamento; manipulação. Gomes, E. | Relação entre ansiedade e disfunção do diafragma: uma revisão integrativa | 2020 Página 2 de 15 Abstract Anxiety disorders are among the most common disorders among the various mental pathologies. It is characterized by an apparent difficulty of the individual in terms of self-control with regard to concerns related to events of the most diverse types or origins, always accompanied by symptoms such as the absence of the ability to rest, fatigue, lack of concentration, a feeling of limit, lower threshold of irritability and obvious muscle tension. This diagnosis leads to significant interference in day-to-day activities, work and occupational, and also a very significant decrease in quality of life. In addition, some clinical conditions are associated with anxiety disorders such as hyperventilation, hypertension, painful syndromes and also cardiovascular and gastrointestinal disorders. It is believed that respiratory rate control is closely associated with relaxation and a decrease in stress levels, while higher respiratory rates have been associated with anxiety and emotional disruption. The diaphragm is in fact the most important muscle in the act of breathing and diaphragm dysfunctions are closely linked to dyspnea, and in the case of dyspnea, the diaphragm behaves according to gravity. Aim: The purpose of this review was, on one hand, to clarify the relationship between diaphragm dysfunction and the hyperventilation condition associated with anxiety disorder, and, on the other hand, to establish a relationship between manual therapeutic intervention in the diaphragm and its consequences in patients with anxiety disorders. Methods: For this, an initial search was made in scientific databases (PubMed, IJOM and Scholar Google), applying the concepts "anxiety" AND "diaphragm" OR "breathing" OR "psychosomatic" AND "diaphragm" OR "dysfunction" OR "relaxation" OR "therapy". After the selection of the researched articles, 36 articles were reviewed. Results: This study concluded that there is a two-way relationship between anxiety and hyperventilation and a close relationship between the second and the diaphragm status. Conclusion: Thus, after this review, it seems to be suggestive that techniques that focus on relaxing, strengthening and improving diaphragm performance, including osteopathic techniques, may bring benefits to patients with respiratory dysfunction, especially those suffering from anxiety disorders. Gomes, E. | Relação entre ansiedade e disfunção do diafragma: uma revisão integrativa | 2020 Página 3 de 15 Introdução Perturbações de ansiedade e os problemas consequentes associados são dos distúrbios mais comuns entre as diversas patologias do foro mental. [1,2,5] A prevalência desta patologia, a nível mundial, é superior a 3%, chegando a ser maior que os distúrbios mentais associados ao consumo ilícito de substâncias [1,3]. Entre o ano de 2005 e 2015, verificou-se um aumento de 14.9% de casos a nível global, tendo-se terminado este período com 264 milhões de indivíduos diagnosticados com distúrbios de ansiedade [3]. De entre as patologias de âmbito psiquiátrico, apresenta uma prevalência superior a 31%, afetando aproximadamente 3% das crianças e 10.8% dos adolescentes. Verifica-se maior prevalência em adultos não jovens [1], no entanto existe um padrão de decréscimo destes números entre a população mais idosa [3]. A idade de aparecimento dos sintomas é extremamente variável, apresentando uma amplitude que resume praticamente toda a vida (figura1) [3]. figura 1 Estima-se que exista uma contribuição genética entre os em 30% a 50% dos casos, sendo que os fatores ambientais têm um papel importantíssimo no desenvolvimento deste quadro em ambas as etiologias base, inclusive in útero [6]. Infelizmente, é uma condição crónica [6], sub-diagnosticada e sub-tratada, devido, em muito, à moldura repressiva [20], no que trata a distúrbios mentais, que existe na sociedade em geral, mesmo a nível global, e, ainda assim, é-lhe atribuído o sexto lugar no ranking de patologias que não conduzem, per si, a morte do indivíduo, embora causadoras de perda de saúde, em todas as regiões da OMS (Organização Mundial de Saúde). Associa-se mais frequentemente à raça caucasiana e ao sexo feminino, sendo que este apresenta aproximadamente prevalências superiores em duas a três vezes quando comparado com o sexo oposto [1,3]. Caracteriza-se por uma dificuldade Gomes, E. | Relação entre ansiedade e disfunção do diafragma: uma revisão integrativa | 2020 Página 4 de 15 aparente do indivíduo ao nível do autocontrolono que diz respeito a preocupações relacionadas com eventos dos mais diversos tipos ou origens, ocorridos imediatamente antes do episódio de crise até um período de seis meses, acompanhada sempre de sintomas como a ausência da capacidade de descanso com disfunção do ritmo circadiano, fadiga, défice de concentração, um sentimento de limite, um limiar de irritabilidade mais baixo e tensão muscular evidente [1,3,5]. Este diagnóstico acarreta interferências significativas nas atividades do dia-a-dia, e por isso na autonomia dos indivíduos, nas atividades laborais e ocupacionais e ainda uma diminuição muito expressiva na qualidade de vida que reportam. Além disto, algumas condições clínicas são associadas às perturbações de ansiedade, tais como hiperventilação, hipertensão, síndromes dolorosas e ainda distúrbios cardiovasculares e gastrointestinais [1,20], como boca seca, alterações do transito intestinal e náuseas [6]. No que diz respeito à fisiopatologia desta doença, sabe-se que, os distúrbios de ansiedade são resultado da atividade anormal, muitas das vezes, exacerbada, proveniente de uma rede complexa de conexões neuronais. Existem bases que parecem ser comuns a todos os indivíduos com distúrbios de ansiedade, como por exemplo, alterações, especialmente no hemisfério direito [7], ao nível das amígdalas [4,7] - grupos de neurónios que, juntos, formam uma massa esferoide de substância cinzenta com cerca de três centímetros de diâmetro, encontrada nas porções temporais de ambos os hemisférios cerebrais, integrando o sistema límbico, são um importante centro regulador do comportamento e, por isso, das respostas emocionais dadas e da reatividade a estímulos relevantes [4,6]. Mas, não só a amígdala tem vindo a ser implicada nos quadros de distúrbios de ansiedade, estudos demonstram que existem alterações significativas ao nível do córtex cingulado anterior [5,6,7] - parte anterior do córtex cingulado que desempenha um papel importante em várias funções autónomas do organismo, tais como a regulação da pressão arterial, frequência cardíaca e frequência respiratória. A elevação da frequência cardíaca e aumento da sudorese, relacionados intrinsecamente com o aumento atividade simpática e consequente alteração da produção hormonal ao nível do eixo hipofisário são, por isso, alterações reconhecidas, bem como o aumento da frequência respiratória [4,5,6]. Ou seja, uma disrupção da coordenação da atividade cerebral tem vindo a ser mencionada como essencial para a ocorrência destes distúrbios [6,7]. Acredita-se, que o controlo da frequência respiratória está intimamente associado a relaxamento e a uma diminuição dos níveis de stress, enquanto que frequências respiratórias mais elevadas têm vindo a ser associadas a quadros de ansiedade e disrupção emocional [8]. Conhecida a relação da ansiedade com o aumento da frequência respiratória, em particular com a diminuição do volume corrente em cada ciclo respiratório, torna-se pertinente um esclarecimento sobre os mecanismos de controlo respiratórios e a sua associação aos distúrbios de ansiedade. A respiração no ser humano pressupõe a ventilação, a difusão e a hematose alveolar. Para além de outras funções importantes, o sistema respiratório apresenta-se apto para as trocas gasosas Gomes, E. | Relação entre ansiedade e disfunção do diafragma: uma revisão integrativa | 2020 Página 5 de 15 necessárias à oxigenação normal do organismo por completo e à regulação do Ph sanguíneo com o aumento ou redução da frequência respiratória. Estes mecanismos são viáveis graças à existência de recetores periféricos, mas, também centrais. Estes últimos têm localização em neurónios bulbares que estimulam diretamente os músculos da respiração. Apesar da localização dos neurónios bulbares que intervêm diretamente nos atos de inspirar e expirar ser conhecida, a localização daqueles que são responsáveis por controlar o ritmo da respiração ainda não o é. No entanto sabe-se que a hiperventilação pode ser induzida, com referência ao sistema límbico [8,9], através de emoções fortes e suspiros de choro [9] – ações associadas a crises de ansiedade. Os músculos estimulados são, ao nível da inspiração, os intercostais externos, o pequeno peitoral, os escalenos e o diafragma; e ao nível da expiração, os músculos da parede abdominal e intercostais internos [9]. O diafragma é de facto o músculo principal envolvido no ato de respirar [9,10,12,20,27], para além de separar anatomicamente as cavidades torácica e abdominal [10] (figura 2). Apresenta-se com a forma de dupla cúpula [9,10,11,13], sendo que a direita é ligeiramente menos abaulada que a esquerda, devido à presença do fígado [11,13]. Assim, durante a inspiração, a cúpula esquerda atinge o quinto espaço intercostal e a direita a quinta costela. No que diz respeito à irrigação sanguínea, esta é feita por ramos diretos da artéria aorta e da torácica interna, enquanto que a drenagem é feita à através dos ramos diretos da veia frénica superior que drena posteriormente na veia cava inferior [11,13]. Relativamente à inervação, a motora e a sensitiva central é feita através dos nervos frénicos (C3-C5) e a sensitiva periférica é feita pelos nervos intercostais (T5-T11) e pelos subcostais figura 2 1 Gomes, E. | Relação entre ansiedade e disfunção do diafragma: uma revisão integrativa | 2020 Página 6 de 15 (T12) [11,13,20]. O topo das cúpulas é constituído por uma zona plana de tecido conjuntivo chamada de centro frénico. O centro frénico baixa durante a inspiração graças à contração do diafragma, atuando de forma contrária ao longo da expiração [9,13]. Este abaixamento central do diafragma só é possível, graças ao facto das suas porções periféricas estarem fixadas à margem inferior da caixa torácica e às vertebras lombares superiores. Os pilares do diafragma são feixes musculotendíneos que se originam das faces anteriores dos corpos das três vértebras lombares superiores, do ligamento longitudinal anterior e dos discos intervertebrais. O pilar direito, maior e mais longo e o pilar esquerdo, ligam-se ambos ao ligamento arqueado mediano fibroso para formar o hiato aórtico. O diafragma está também fixado, de cada lado, pelo ligamento arqueado medial – espessamento da fáscia que recobre o músculo psoas maior, estendendo-se entre os corpos das vértebras lombares e a extremidade do processo transverso de L1 - e o ligamento arqueado lateral – ligamento que cobre o músculo quadrado do lombo, continuando do processo transverso de L12 até à extremidade da 12ª costela [13]. O diafragma alcança o nível superior máximo quando a pessoa está em decúbito dorsal, tendo a parte superior do corpo mais baixa que a inferior – posição de Trendelenburg. Ao contrário, atinge o limite máximo inferior quando a pessoa está sentada ou de pé [13]. Existem diferenças no processo fisiológico da respiração quando comparadas situações de repouso e quotidianas comuns, com situações de esforço respiratório [9,20]. A contração da musculatura envolvida, inclusive do diafragma, é muito mais acentuada durante situações de esforço, logo há uma necessidade mais precoce de relaxar, encurtando o ciclo respiratório, entrando em hiperventilação [9,20]. Torna-se por isso importante reconhecer as disfunções do diafragma. Estas podem ocorrer por fraqueza, paralisia ou outras [11]. Disfunções por fraqueza ou paralisia são associadas normalmente a atrofia muscular, tipicamente envolvem elevações completas de uma ou ambas as hemicúpulas [11,12]. Por regra, estes são achados incidentais na prática clínica, sendo raros os casos em que os pacientes apresentam já dispneia ou ortopneia. Contudo, exames que permitissem a avaliação da capacidade de expansão da caixa torácica apresentariam alterações consistentes com o achado. De entre as causas mais comuns de disfunção do diafragma encontram-se possíveis alterações aonível do nervo frénico. Ambas as condições podem ser temporárias ou permanentes, consoante a etiologia e o tratamento aplicado [11]. Em resumo, disfunções no diafragma estão intimamente associadas a dispneia [9,10,11,12,13], e, em caso de dispneia, o diafragma trabalha a favor da gravidade [13]. Gomes, E. | Relação entre ansiedade e disfunção do diafragma: uma revisão integrativa | 2020 Página 7 de 15 Métodos Esta revisão baseou-se na pesquisa de artigos científicos e outros documentos tais como teses, relatos de caso, guidelines e NOC’s, com recurso a bases de dados de pesquisa científica (PubMed, IJOM e Scholar Google) e, posteriormente, recorrendo a referências cruzadas, restringindo-se a pesquisa aos seguintes conceitos: “ansiedade” E “diafragma” OU “respiração” OU “psicossomático” e “diafragma” E “manipulação” OU “relaxamento” OU “terapia”.. Os critérios de elegibilidade aplicados foram: textos completos e publicados em língua inglesa e portuguesa. Não foi aplicada uma restrição especifica à amplitude temporal para as publicações elegidas, no entanto, foram selecionados artigos mais recentes em detrimento dos mais antigos, quando apresentavam conteúdo sobreponível. Assim, os artigos que foram revistos viram-se publicados entre 1994 e 2020. A seleção dos artigos, a partir do momento imediatamente após a pesquisa inicial, seguiu a orientação discriminada no PRISMA apresentado (figura 3). figura 3 Gomes, E. | Relação entre ansiedade e disfunção do diafragma: uma revisão integrativa | 2020 Página 8 de 15 Resultados Após seleção criteriosa, foram revistos 36 artigos (tabela 1). Destes, 10 designados como revisões e apenas uma dessas era sistemática; 10 estudos prospetivos, dos quais apenas 4 eram randomizados e apenas dois tinham grupo de controlo com recurso a placebo. Um deles era um estudo de caso. As amostras destes, em específico, variaram entre n=1 e n=80. Para além dos mencionados foram revistos um estudo transversal analítico, dois estudos observacionais e um estudo quase-experimental de análise qualitativa. A integração das informações recolhidas e síntese das mesmas encontra-se descrita na secção “discussão”. AUTORES ANO DE PUBLICAÇÃO TÍTULO DO DOCUMENTO TIPO DE ESTUDO AMOSTRA CONCLUSÕES INFORMAÇÕES Kerr GA. et al14 2001 Feldenkraiss Awareness Through Movement and state anxiety Estudo prospetivo (n=45) O estudo conclui que a terapia baseada no método de Feldenkrais é benéfica na redução dos sintomas associados aos distúrbios de ansiedade. Sardinha A. et al15 2009 Manifestações respiratórias do transtorno de pânico: causas, consequências e implicações terapêuticas Revisão “Há muitas evidências de que, durante crises de ansiedade agudas, a estimulação respiratória é um evento comum em pacientes com tal diagnóstico.” Lima PAL. Et al16 2011 Alterações biomecânicas em portadores de doença pulmonar obstrutiva crônica Revisão Doentes com patologia respiratória apresentam alterações significativas da caixa torácica, inclusive a nível muscular. Sarro KJ. et al17 2005 Análise cinemática dos padrões de movimentação da caixa torácica de nadadores durante a respiração Estudo prospetivo (n=23) Os atletas de alta competição, em comparação com os não- atletas apresentam padrões respiratórios otimizados em situações de esforço. Andrade JD. et al18 2016 Uso da ultrassonografia do diafragma na avaliação da hiperinsuflação dinâmica no portador da doença pulmonar obstrutiva crônica Estudo transversal analítico (n=135) Os doentes com doença pulmonar de base apresentam menor capacidade de expansão da caixa torácica, com menor mobilidade ao nível do diafragma. Ribeiro JBS. et al19 2015 Medidas das pressões do esfíncter esofágico inferior por manobras inspiratórias padronizadas Estudo observacional (n=8) Pacientes com DRGE apresentam menores pressões do EEI, relacionadas diretamente com o diafragma e o processo inspiratório. O treino desta musculatura pode conduzir à normalização das pressões e permitir uma melhoria dos pacientes. Veronese L. et al20 2008 O bloqueio respiratório e as suas consequências sobre a saúde emocional Monografia Existe uma associação direta entre o diafragma e distúrbios de ansiedade, por meio da interferência deste musculo na respiração. Guyon AJAA. et al21 2020 Respiratory Variability, Sighing, Anxiety, and Breathing Symptoms in Low- and High-Anxious Music Students Before and After Performing Estudo observacional (n=65) Foi comprovado, para a amostra testada, uma correlação positiva e de proporcionalidade direta entre diferentes níveis de stress (pré-atuação e pós-atuação) e sintomas respiratórios, entre eles a respiração superficial. Gilbert C. et al22 2020 Emotional sources of dysfunctional breathing Revisão Problemas do foro afetivo, mais e menos graves, promovem alterações ao nível da respiração, entre elas, a mais comum, hiperventilação. Zaccaro A. et al23 2018 How Breath-Control Can Change Your Life: A Systematic Review on Psycho-Physiological Correlates of Slow Breathing Revisão sistemática O autocontrolo da respiração no sentido de manter frequências respiratórias baixas teve resultados positivos ao nível do estado mental dos indivíduos e do seu bem estar geral. Gomes, E. | Relação entre ansiedade e disfunção do diafragma: uma revisão integrativa | 2020 Página 9 de 15 Santana PV. et al24 2018 Músculos respiratórios na DPOC: atenção para o diafragma Revisão A musculatura diafragmática apresenta disfunções associadas a diminuição da capacidade de controlo respiratório em doentes com patologia pulmonar, piorando o seu prognostico e qualidade de vida em comparação com aqueles que apresentam o mesmo diagnóstico clínico sem disfunção do diafragma. Hagman C. et al25 2011 Breathing retraining - A five-year follow-up of patients with dysfunctional breathing Estudo prospetivo (n=50) A abordagem fisioterapêutica ao nível do diafragma mostrou- se benéfica em doentes com disfunção respiratória e sem doença pulmonar de base. Courtney R. et al27 2009 The functions of breathing and its dysfunctions and their relationship to breathing therapy Revisão Uma abordagem terapêutica focada na respiração e no seu ritmo tem potencialidades para se mostrar eficaz no tratamento de pacientes quer com ansiedade, quer com outras condições que impliquem disfunção do ritmo normal respiratório. Vidotto LS. et al26 2018 Stop Thinking! I Can't! Do Attentional Mechanisms Underlie Primary Dysfunctional Breathing? Revisão Existe uma entidade denominada disfunção respiratória primária que pode ser entendida como a base de uma percentagem significativa de casos de distúrbios de ansiedade. Zeni TC. et al28 2009 O relaxamento respiratório no manejo do craving e dos sintomas de ansiedade em dependentes de crack Estudo quase- experimental de análise quantitativa (n=32) Os resultados desta pesquisa demonstraram uma melhoria significativa, ao nível de todas as variáveis em estudo, pelo relaxamento respiratório em indivíduos sujeitos a distúrbios de ansiedade associados ao abuso de substâncias. Taylor AG. et al29 2010 Top-down and bottom-up mechanisms in mind-body medicine: development of an integrative framework for psychophysiological research Revisão As terapias que se focam no bem-estar geral de corpo e mente, mostraram-se benéficas no tratamento de distúrbios de ansiedade, diminuindo os sintomas acompanhantes, entre eles, disfunção do ritmo respiratório. Barreto PH. et al30 2019 Treinamento muscular inspiratório em pacientes com doença do refluxo gastroesofágico Estudo prospetivo randomizado(n=32) O treino da musculatura inspiratória, reduziu os sintomas da doença do refluxo gastroesofágico, aumentou significativamente a PImáx e observou-se aumento significativo da Pressão Intraesofágica. Monnerat CE. et al31 2013 Agulhamento do músculo diafragma e alterações do padrão respiratório: revisão bibliográfica Revisão Medidas de relaxamento e reeducação diafragmática, no caso com recurso a técnicas de acupuntura, permitem a melhoria de sintomas de disfunção respiratória por auxiliarem no uso correto da musculatura implicada. Tweeddale PM. et al32 1994 Breathing retraining: Effect on anxiety and depression scores in behavioural breathlessness Estudo prospetivo (n=36) Pacientes com distúrbios de ansiedade beneficiaram do treino da musculatura da inspiração. Marizeiro DF. et al33 2018 Immediate effects of diaphragmatic myofascial release on the physical and functional outcomes in sedentary women: A randomized placebo-controlled trial Estudo controlado, randomizado com placebo (n=75) A aplicação de técnicas manuais sobre o diafragma mostraram-se benéficas para o aumento da mobilidade e flexibilidade da caixa torácica. Meuret AE. et al34 2004 Respiratory Feedback for Treating Panic Disorder Estudo de caso (n=1) O treino da respiração e consciencialização da mesma no paciente mostraram benefícios na abordagem e tratamento dos distúrbios de ansiedade que apresentava. Macías EL. et al35 Effects of manual therapy on the diaphragm in asthmatic patients: A randomized pilot study Estudo piloto randomizado (n=43) O tratamento manual ao nível do diafragma mostrou-se eficaz na redução dos sintomas associados à asma, por melhorar a capacidade respiratória. González- Álvarez FJ. et al36 Effects of a diaphragm stretching technique on pulmonary function in healthy participants: A randomized- controlled trial Estudo controlado, randomizado com placebo (n=80) O estudo foi capaz de demonstrar que a técnica osteopática denominada diaphragm stretching foi eficaz no aumento da pressão inspiratória máxima e ainda na melhoria da função pulmonar. tabela 1 Gomes, E. | Relação entre ansiedade e disfunção do diafragma: uma revisão integrativa | 2020 Página 10 de 15 Discussão Os distúrbios de ansiedade em geral, e particularmente as crises agudas que estes pacientes apresentam, estão de facto associados a episódios recorrentes de hiperventilação. Chega a usar-se a terminologia de síndroma de hiperventilação (figura 4 34) [15,26,34]. Este tem por base múltiplas e complexas interações entre distúrbios orgânicos, respiratórios, psiquiátricos e fisiológicos. Assim, qualquer transtorno psiquiátrico, tal como os distúrbios de ansiedade, podem ser associados a esta síndrome, bem como a outros padrões respiratórios anormais. Existe por isso uma relação bidirecional entre estas duas entidades [15,29], confirmada pelo facto de indivíduos com hiperventilação idiopática terem scores mais altos em escalas de ansiedade e depressão do que indivíduos saudáveis. A hiperventilação pode, por isso, ser entendida como causa, consequência e sintoma acompanhante dos distúrbios de ansiedade. A hiperventilação aguda pode gerar anestesia, parestesia, ataxia, tremor, zumbido, extremidades frias, hiperidrose palmar, tonturas, perda de consciência, perturbações visuais, dores de cabeça e dores no peito. Sinais e sintomas claramente partilhados por pacientes com distúrbios de ansiedade. A hipótese mais aceite para explicar a sobreposição entre os sintomas da hiperventilação aguda e os dos transtornos associados à ansiedade baseia-se no facto de que pacientes com tal diagnóstico sofrem igualmente de episódios crônicos de hiperventilação, nos quais tendem a apresentar alcalose hipocápnica causada por hiperventilação aguda, e esta induzida por stress, o que gera os momentos críticos que relacionamos às crises agudas e espontâneas. Este estreito relacionamento impele os pacientes numa cascata difícil de interromper. Quando aumentam a frequência respiratória, diminuem fisiologicamente o CO2 presente no organismo – hipocapnia – o que gera sintomas como tonturas, parestesias, náuseas entre outros. Estes sintomas tendem a ser interpretados pelo paciente de forma discordante com o facto de a base ser apenas a hiperventilação forçada, levando-os a aumentar a sensação de medo e de limite, provocando, de forma inconsciente, um aumento ainda maior da frequência respiratória. Isto acontece até em pacientes com doença pulmonar de base. Para além do facto de que estes apresentam valores mais elevados de stress e maior figura 3 Gomes, E. | Relação entre ansiedade e disfunção do diafragma: uma revisão integrativa | 2020 Página 11 de 15 probabilidade de desenvolver distúrbios de ansiedade, é verdade também que isso se prende com o facto de, em momentos de crise, terem uma perceção disruptiva do controlo que têm sobre a doença, levando-os a sentirem medo e ansiedade e consequentemente agirem em conformidade, aumentando igualmente a frequência respiratória [15]. Em patologias crónicas pulmonares, como a DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica), documenta-se uma deterioração da musculatura envolvida no processo respiratório há medida que as crises normais à doença se vão estabelecendo. Durante uma crise, a inspiração torna-se rápida e superficial e a expiração encurtada, aumentando o volume residual de ar nos pulmões a cada ciclo respiratório, impossibilitando assim a saída eficaz do ar, causando a hiperinsuflação pulmonar. Regista-se o rebaixamento das hemicúpulas diafragmáticas resultando numa diminuição da pressão abdominal e, consequentemente, numa menor capacidade de expansão da caixa torácica, levando isto a uma evidente diminuição da mobilidade costal. Este processo resulta no encurtamento dos músculos ventilatórios, consistindo numa desvantagem mecânica para a capacidade de resposta às necessidades respiratórias. O tórax bloqueado, em inspiração, promove uma tensão excessiva e permanente das ligações musculares aponevróticas - tórax em tonel. A coluna cervical apresenta-se em retificação superior, ou seja, verifica-se uma ligeira flexão anterior da cabeça sobre a primeira vértebra cervical, de C1 sobre C2 e desta sobre C3. As regiões dorsal e lombar apresentam- se em lordose, devido a contração excessiva causada pelo pilar do diafragma. Essas alterações promovem encurtamentos e deficiências da musculatura respiratória principal, sendo necessário que entrem em ação bilateral os músculos acessórios - trapézio, peitoral, esternocleidomastóideu e escalenos - caracterizando a respiração torácica superior com grande consumo de energia e aumento da tensão muscular [16,27]. Existe por isso uma marcada diminuição da mobilidade diafragmática nestes casos [16,18,24]. Esta disfunção prende-se com a perceção de dispneia, obstrução de vias aéreas, hiperinsuflação pulmonar, capacidade ventilatória, mas, não foi associada a atividades físicas, ou mais exigentes para o aparelho respiratório, quotidianas [24]. Outras patologias que dependem da pressão da caixa torácica durante o ato de inspirar, como a DRGE (Doença do Refluxo Gastro-Esofágico) parecem também beneficiar de um status otimizado do diafragma e de tratamentos com esse objetivo, uma vez que promovem um aumento dessa mesma pressão [19,30]. Por oposição, é notória a mobilidade deste músculo, bem como a otimização da sua performance, quando observamos atletas de alta competição, sendo estes capazes de otimizar a respiração mesmo em situações de esforço extremo [17]. Em suma, existe objetivamente uma relação estreita entre fraqueza muscular inspiratória e dispneia [24]. Indivíduos que apresentam stress emocional, por se apresentarem sob tensão emocional constante, alteram o seu padrão respiratório de costo-diafragmático para costal, causando disfunções muscularese cervicalgia por aumento da tensão nos músculos acessórios da respiração [31]. Tal tese torna-se muito mais credível quando terapias com base comportamental e física, no Gomes, E. | Relação entre ansiedade e disfunção do diafragma: uma revisão integrativa | 2020 Página 12 de 15 âmbito do relaxamento muscular, se mostram eficazes no tratamento de distúrbio de ansiedade, diminuindo a frequência das hiperventilações, ajudando assim a controlar o aparecimento das crises [14,29,31,32,34]. É exemplo a terapia baseada no movimento que é denominado por Feldenkraiss Method. Segundo Kerr GA. Et al, movimentos repetidos perpetuados no tempo levam ao desenvolvimento de lesões musculares que podem condicionar o aparecimento de outras patologias, tais como distúrbios de ansiedade. Afirmam que este tratamento, com foco no autoconhecimento do corpo e movimento adequado mostrou-se eficaz na redução de estados de ansiedade [14]. “Segurar a respiração é o melhor meio de controlar os sentimentos (…) e impede de exprimir as emoções naturais” [20]. Sendo o bloqueio do controlo sobre a respiração inconsciente e embalado pelo medo e angústia, perigo ou punição, o aparecimento de condições extrapulmonares é expectável, associado precisamente a distúrbios de ansiedade e síndromes de hiperventilação. Quando surge a ansiedade, quer por um evento adverso, quer por meio da sua recordação por acesso a um estímulo sensorial que conecte os quadros – teoria de Pavlov - [22], existe contração muscular, por defesa [20]. Inclusivamente, estudos demonstram que atuações em público, quer no período pré-atuação quer no pós-atuação, os níveis de ansiedade estão mais elevados do que a linha de base normal para os mesmos indivíduos, mas, que os padrões respiratórios anormais acompanham lado a lado estes aumentos [21,34]. “Pode- se então perceber que o trigger se dá com a própria respiração, porém, com a consciência da mesma” [20,23,27]. Isto verifica-se de tal forma que, estudos indicam correlação estabelecida de nível biológico e fisiológico, ao nível da interação dos sistemas límbicos e SNC (sistema nervoso central), capaz de comandar os movimentos autónomos, tais como a respiração não consciente [23]. Assim faz sentido que qualquer terapia baseada no relaxamento e treino diafragmático, com baixas frequências respiratórias, possa ter influência sobre crises de ansiedade [20]. Estudos com pacientes sem doença pulmonar de base, que apresentavam sintomas de disfunção respiratória, sujeitos a tratamentos fisioterapêuticos, com o objetivo de promover uma respiração centrada no diafragma, em diversas posições, sugerem que estes evoluíram no sentido da diminuição dos níveis de stress e ansiedade e do aumento da capacidade adaptativa ao nível do sistema respiratório para atividades quotidianas e até mesmo de exercício físico intenso [25]. Tendo-se assim verificado uma melhoria na qualidade de vida destes pacientes, e, paralelamente, uma diminuição do número de visitas a serviços de urgência [25]. Mais longe foram Zeni TC. et al ao demonstrarem que esta abordagem se mostrou eficiente em pacientes com distúrbios de ansiedade associados ao abuso de substâncias [28]. O território coberto por terapias respiratórias é grande, abrangendo áreas como a psicologia, a fisiologia, a espiritualidade e a biomecânica. E, a aprovação das técnicas descritas dirigidas ao melhoramento do desempenho diafragmático, também levou a que alguns estudos, com base em técnicas osteopáticas, com o mesmo propósito, fossem realizados. Também a osteopatia afirma que se a respiração com altas frequências Gomes, E. | Relação entre ansiedade e disfunção do diafragma: uma revisão integrativa | 2020 Página 13 de 15 for estimulada por períodos prolongados, o diafragma e os músculos acessórios da respiração podem tornar-se cronicamente hipertónicos. O estado de vigilância, provocado por processos mentais e emocionais, contribui para a carga alostática e afeta a capacidade do corpo de manter a sua estabilidade e resposta à mudança. A respiração que responde a sentimentos e pensamentos, em vez de pistas metabólicas de quimiorrecetores, pode não estar alinhada com as necessidades físicas reais do corpo ou as suas necessidades metabólicas. Uma função fundamental de sobrevivência do aumento da unidade respiratória é preparar o corpo para a luta ou fuga. No sentido do restabelecimento da homeostasia, técnicas osteopáticas, como o stretching ao nível do diafragma (figura 5), foram estudadas. No que diz respeito ao aumento da flexibilidade do diafragma e da mobilidade da própria caixa torácica, estas técnicas mostraram-se benéficas e eficazes na redução dos sintomas associados a distúrbios de ansiedade [33,36]. Estes resultados foram inclusivamente estendidos para pacientes com diagnóstico prévio de asma [35]. figura 5 Gomes, E. | Relação entre ansiedade e disfunção do diafragma: uma revisão integrativa | 2020 Página 14 de 15 Conclusão Este estudo permitiu concluir que existe uma relação bidirecional, forte, entre distúrbios de ansiedade e o síndrome de hiperventilação, sendo que este último, pode ser visto como uma causa, uma consequência, ou, ainda, um mero sintoma acompanhante. Permitiu afirmar igualmente a existência de uma relação estreita entre disfunção respiratória, em particular, elevada, e o status do diafragma. Assim, após esta revisão, parece ser sugestivo que qualquer técnica que incida sobre o relaxamento, fortalecimento e melhoria da performance deste músculo, inclusive técnicas osteopáticas, podem trazer benefícios a pacientes com disfunção respiratória, em especial, aqueles que sofram de distúrbios de ansiedade. 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