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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS CELLY COOK INATOMI A ATUAÇÃO DO PODER JUDICIÁRIO NAS POLÍTICAS DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO ESCRAVO RURAL NO BRASIL CONTEMPORÂNEO CAMPINAS 2016 UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS A Comissão Julgadora do trabalho de Defesa de Tese de Doutorado “A atuação do Poder Judiciário nas políticas de erradicação do trabalho escravo rural no Brasil contemporâneo”, composta pelos professores doutores a seguir descritos, em sessão pública realizada em 8 de março de 2016, considerou a candidata Celly Cook Inatomi aprovada. Prof. Dr. Oswaldo E. do Amaral Prof. Dr. Frederico Normanha Ribeiro de Almeida Prof. Dr. Valeriano Mendes Ferreira Costa Profa. Dra. Débora Alves Maciel Prof. Dr. Eduardo G. Noronha A Ata da Defesa, assinada pelos membros da Comissão Examinadora consta no processo de vida acadêmica da aluna. Dedico este trabalho ao Chris e à Piaf, com muito carinho Agradecimentos Começo expondo meus sinceros agradecimentos ao Andrei, que há mais de 10 anos aceitou a tarefa de me orientar, desde a monografia ao doutorado, sempre com muita sabedoria, paciência e amizade. Agradeço por seu apoio, pelas oportunidades de participação em seus projetos, e pela confiança em mim depositada nas vezes em que fui sua monitora no Programa de Estágio Docente na Unicamp. Agradeço também aos professores membros da banca de qualificação, Prof. Dr. Eduardo Noronha e Profa. Dra. Walquíria Domingues Leão Rêgo, pelas críticas, observações e sugestões que contribuíram para a finalização deste trabalho e para o seu aperfeiçoamento. Sou grata à CAPES pela bolsa de doutorado concedida, sem a qual eu não poderia ter me dedicado exclusivamente para a realização desta pesquisa. Agradeço também aos funcionários do IFCH, especialmente à Priscila Gartier, da Secretaria da Pós-Graduação de Ciência Política, e ao Sandro Carmo, da biblioteca, pela forma tão solícita, gentil e competente com a qual sempre trabalharam. Sou grata aos alunos dos PEDs em que fui monitora na Unicamp, pela experiência enriquecedora de dar aula e pelo respeito com que me receberam. Sou grata especialmente aos queridos Murilo Polato e Ana Clara Rocha, pela docilidade e incentivo com que sempre me trataram. Agradeço imensamente ao Thiago Trindade, a seu pai Edi Aparecido Trindade, e ao Coordenador do Curso de Direito da Faculdade de Jaguariúna Prof. Fabrízio Rosa, pela oportunidade concedida de trabalhar como professora. Agradeço aos meus alunos pelas experiências e pelo crescimento que tenho vivenciado enquanto docente. Agradeço às minhas queridas amigas da pós-graduação da Unicamp, Marcia Baratto e Ariana Bazzano, que foram apoio constante em diversos momentos. Agradeço pelo ombro amigo tantas vezes cedido, pelos conselhos, pela sabedoria e conhecimento e pelas tantas risadas e comilanças que já compartilhamos juntas. Sem vocês, tudo teria sido muito mais difícil, solitário e sem graça. Agradeço também à minha querida amiga Karen Sakalauska, que com seu entusiasmo e fé inabalável, mostrou-se sempre disposta a ajudar e a dar o seu melhor. Agradeço pelas vezes que me recebeu tão bem em sua casa, pelas tantas mensagens só para saber se estava tudo bem, pelas conversas e discussões filosóficas (nem sempre harmoniosas), mas que me ensinam constantemente o real valor do respeito às diferenças de pensamento. Você me faz querer ser uma pessoa melhor, uma professora melhor e uma amiga melhor. Obrigada também por ter trazido a linda Clarinha ao mundo, que veio para alegrar a vida de todos. Agradeço também aos meus queridos amigos de graduação, Marcio Scherma, Sara Lima, Thelma Belo, Ciça Ferrarezzi e Renato Pereira, que mesmo distantes, continuam presentes em minha vida até os dias de hoje, seja em pensamento ou em uma mensagem de saudade. São todos amigos iluminados, que levo como referência de seres humanos extraordinários. Sou grata também à minha querida amiga de sempre e de todas as horas Juliana Bertazzo, que com sua generosidade abundante esteve sempre a postos para conversar, ajudar e alegrar. Agradeço por sua amizade sempre e invariavelmente sincera, calorosa e presente. Amizade preciosa e difícil de encontrar, um tesouro que quero levar por toda a vida. Agradeço à família Inatomi (pai, mãe, Satye, tia Margo, tia Anézia, tio Roberto, tia Amélia, Cristina, Hugo, Danilo e Daniel), à família Pierotti dos Santos (José Camilo, Eva Catalina, Thomas e Cristiane), à família Cook (Vó Meire, tia Neca, tia Tuca e tia Cheila), e a inúmeros amigos, pelo carinho, pelos presentes recebidos, pela ajuda, e por terem me proporcionado, ao fim da redação desta tese, uma semana de férias (tão gostosa!), da qual nunca vou me esquecer. Agradeço aos queridos José Camilo e Eva Catalina pelas ajudas que deram sempre que necessário ao longo de todos esses anos, e pelo tratamento tão carinhoso que dão a minha querida Piaf. Quanto à minha família, meu pai Mario, minha mãe Miriam, e minha irmã Satye, não há palavras que possam expressar a minha gratidão por tudo que já fizeram e ainda fazem por mim. Vocês são o início e o fim de tudo, minha base e meus princípios, e objeto constante das minhas orações. Por fim, agradeço ao meu querido Chris e a minha linda cachorrinha Piaf. A ela agradeço pela alegria e companheirismo sempre presentes, e por aparecer em minha vida como um verdadeiro presente de Deus. Ao Chris agradeço por seu coração sempre generoso e aberto, por sua paciência, pelo café na madrugada, por sentar comigo e me ajudar a pensar e organizar as ideais, por me acalmar, e por me levar para ver flores. Eu amo vocês. Agradeço, sobretudo, a Deus e a nossa senhora, pela saúde, pelo teto, pelo alimento e pela força concedida. Resumo O objetivo da tese é o de analisar a atuação do Poder Judiciário nas políticas de erradicação do trabalho escravo rural no Brasil contemporâneo, de forma a verificar seus entendimentos acerca do trabalho escravo, suas formas de argumentação e seus posicionamentos frente à necessidade das políticas de erradicação do trabalho escravo rural. Para tanto, a tese empreendeu uma análise em profundidade e em fluxo de três casos que trataram do tema do trabalho escravo rural no Brasil, sempre sob o olhar conjunto de três dimensões de análise: individual ou do jogo político, institucional e estrutural. A tese possibilitou verificar que o Poder Judiciário atuou de forma mitigada no quadro das políticas de erradicação do trabalho escravo rural, apresentando mais limitações do que possibilidades de apoio a essas políticas. Cada caso analisado mostrou que há uma coexistência entre fatores de ordem individual, institucional e estrutural que permitiram fortalecer a tese sobre a atuação mitigada do Poder Judiciário, embora cada caso tenha revelado um fator como mais expressivo que os demais. Palavras-chave: Poder Judiciário – trabalho escravo rural – direitos de cidadania – estudos de caso Abstract This thesis provides an analysis of the actions taken by the Judiciary in the framework of rural slave labor eradication policies in contemporary Brazil. The key aim of the research work was to determine the understanding held by the Judiciary of what constitutes slave labor, as well as to identify the arguments made by members of the judiciary and stances taken by them in the framework of rural slave labor eradication policies. For that purpose, the research work presented in this thesis produced an in-depth flow analysis of three casestudies that dealt with rural slave labor in Brazil, under three simultaneous analytical dimensions: individual (or political game), institutional and structural. The research work generated a central thesis that the Judiciary had limited action in the framework of rural slave labor eradication policies, invariably presenting more limitations than indications of support to such policies. Each case studied revealed the coexistence of individual, institutional and structural factors corroborating the thesis about the limited action of the Judiciary, even though a different key factor stands out in each of the three cases. Keywords: Judiciary – rural slave labor – citizenship rights – case studies Sumário Introdução ................................................................................................................... 15 Apresentação do tema e relevância da pesquisa .................................................... 15 Objetivos ................................................................................................................. 18 Tese e argumentos ................................................................................................. 19 Metodologia de pesquisa ........................................................................................ 23 Estrutura da tese ..................................................................................................... 24 PARTE I...................................................................................................................... 26 Capítulo 1 – Dimensões para uma análise política do Poder Judiciário ...................... 28 1.1 – Introdução ...................................................................................................... 28 1.2 – A dimensão individual: os interesses políticos dos atores .............................. 31 1.3 – A dimensão estrutural: a função e a contradição do direito ............................ 45 1.4 – A dimensão institucional: as regras do jogo político ....................................... 51 1.5 – As análises do Poder Judiciário no Brasil e o despertar da multidimensionalidade............................................................................................. 55 1.6 – Conclusões: “Let a hundred flowers bloom” ................................................... 60 Capítulo 2 – Um panorama das políticas governamentais de erradicação do trabalho escravo rural ............................................................................................................... 62 2.1 – Introdução ...................................................................................................... 62 2.2 – Primeiras denúncias e sua visão sistêmica (1970-1984) ................................ 63 2.3 – Políticas embrionárias e o jogo político (1985-1995) ...................................... 77 2.4 – Reconhecimento público e as limitações institucionais (1995-2002) .............. 91 2.5 – Políticas integradas, “consensos” e as contradições do direito (2003-2012) 105 2.6 – Conclusões .................................................................................................. 124 PARTE II ................................................................................................................... 127 Preliminares para os estudos de caso ...................................................................... 128 Critérios para a escolha dos casos ....................................................................... 128 Os casos escolhidos ............................................................................................. 135 Critérios para a análise dos casos na Justiça ....................................................... 144 Capítulo 3 – O Caso do “gato”: aquele que “cai sempre em pé” (1996-2015) ........... 146 3.1 – Introdução .................................................................................................... 146 3.2 – A fuga, a denúncia e as fiscalizações (1996-2004) ...................................... 146 3.3 – O Caso no Judiciário (2004-2015) ................................................................ 155 3.4 - Conclusões ................................................................................................... 173 Capítulo 4 – O Caso do Senador João Ribeiro: um “homem do campo” (2004-2014)176 4.1 – Introdução .................................................................................................... 176 4.2 – A denúncia e a fiscalização .......................................................................... 176 4.3 – O caso entra no Judiciário ............................................................................ 182 4.3.1 – O Caso do Senador João Ribeiro na Justiça do Trabalho ..................... 184 4.3.2 – O Caso do Senador João Ribeiro no Supremo Tribunal Federal ........... 197 4.4 – Conclusões .................................................................................................. 207 Capítulo 5 – O Caso Pagrisa: “modelo internacional” (2007-2015) ........................... 212 5.1 – Introdução .................................................................................................... 212 5.2 – A denúncia e a fiscalização .......................................................................... 212 5.3 – Senadores se rebelam e o caso entra no Judiciário ..................................... 229 5.4 – O caso no Judiciário ..................................................................................... 265 5.4.1 – O Caso Pagrisa na Justiça do Trabalho ................................................ 266 5.4.2 – O Caso Pagrisa na Justiça Federal ....................................................... 280 5.5 – Conclusões .................................................................................................. 304 Conclusões ............................................................................................................... 311 Tese e resultados ................................................................................................. 311 Diálogos teóricos e metodológicos ........................................................................ 314 Desdobramentos ................................................................................................... 319 Referências Bibliográficas ........................................................................................ 321 Apêndices ................................................................................................................. 345 Apêndice 1 – Relatórios produzidos sobre trabalho escravo após 2003 ............... 345 Apêndice 2 – Espectro dos casos nas políticas de erradicação do trabalho escravo346 Apêndice 3 – Espectro temporal do Caso do “gato” .............................................. 347 Apêndice 4 – Lista de notícias sobre o Caso do Senador João Ribeiro ................ 355 Apêndice 5 – Espectro temporal do Caso Pagrisa ................................................ 356 Apêndice 6 – Lista de notícias sobre o Caso Pagrisa no Senado ......................... 368 Lista de Tabelas Tabela 1 - Medidas Formais para o Trabalho Rural e para o Trabalho Escravo (1940- 1969) .......................................................................................................................... 66 Tabela 2 - Medidas Formais para o Trabalho Rural e para o Trabalho Escravo (1985- 1994) .......................................................................................................................... 79 Tabela 3 - Medidas Formais para o Trabalho Rural e para o Trabalho Escravo (1995- 2002) .......................................................................................................................... 93 Tabela4 - Medidas Formais para o Trabalho Rural e para o Trabalho Escravo (2003- 2012) ........................................................................................................................ 107 Tabela 5 - Operações de Fiscalização e Inclusões na "Lista Suja" do Trabalho Escravo (1995-2012) .............................................................................................................. 111 Tabela 6 - Atividades rurais com trabalho escravo que foram parar no TST ............. 130 Tabela 7 - Atividades rurais com trabalho escravo que foram parar no STJ ............. 131 Tabela 8 - Autores das ações sobre trabalho escravo no TST .................................. 131 Tabela 9 - Autores das ações sobre trabalho escravo julgadas pelo STJ ................. 132 Tabela 10 - Tempo de duração dos processos no TST em função dos autores das ações ........................................................................................................................ 133 Tabela 11 - Tempo de duração dos processos do STJ em função dos autores das ações ........................................................................................................................ 133 Tabela 12 - Respostas do TST em função dos autores das ações ........................... 134 Tabela 13 - Respostas do STJ em função dos autores das ações ............................ 134 Tabela 14 - Espectro do cenário do trabalho escravo nos casos escolhidos ............. 135 Tabela 15- Trabalhadores resgatos por estado federativo (1995-2014) .................... 136 Tabela 16 - Operações de Fiscalização realizadas no Caso do "gato"...................... 148 Tabela 17 - Quadro de Inquéritos Policiais abertos para o Caso do "gato" ............... 154 Tabela 18 - Quadro Geral de Processos na Justiça para o Caso do "gato" .............. 156 Tabela 19 - Características Gerais dos Processos Judiciais no Caso do "gato" ........ 157 Tabela 20 - Redesignação de Audiências, Motivos e Autores - Caso do "gato" ........ 160 Tabela 21 - Natureza dos motivos de redesignação de audiências - Caso do "gato" 161 Tabela 22 - Natureza dos argumentos dos juízes - Caso do "gato" .......................... 172 Tabela 23 - Quadro Geral de Processos na Justiça para o Caso do Senado João Ribeiro ...................................................................................................................... 184 Tabela 24 - Características Gerais dos Processos na Justiça Trabalhista no Caso do Senador João Ribeiro ............................................................................................... 184 Tabela 25 - Natureza dos argumentos dos juízes trabalhistas - Caso do Senador João Ribeiro ...................................................................................................................... 185 Tabela 26 - Características Gerais dos Processos no STF no Caso do Senador João Ribeiro ...................................................................................................................... 197 Tabela 27 - Natureza dos argumentos dos ministros do STF - Caso do Senador João Ribeiro ...................................................................................................................... 198 Tabela 28 - Quadro Geral de Processos na Justiça para o Caso Pagrisa ................. 266 Tabela 29 - Características Gerais dos Processos na Justiça Trabalhista no Caso Pagrisa ..................................................................................................................... 267 Tabela 30 - Redesignações de audiências na Justiça Trabalhista de 1º Grau - Caso Pagrisa ..................................................................................................................... 268 Tabela 31 - Motivos das Redesignações de audiências na Justiça Trabalhista de 1 º grau - Caso Pagrisa .................................................................................................. 269 Tabela 32 - Redesignação de audiências na Justiça Trabalhista - Caso Pagrisa ...... 272 Tabela 33 - Natureza dos argumentos dos juízes trabalhistas - Caso Pagrisa .......... 273 Tabela 34 - Redesignação de Audiências, Motivos e Autores - Caso Pagrisa .......... 275 Tabela 35 - Características Gerais dos Processos na Justiça Federal para o Caso Pagrisa ..................................................................................................................... 281 Tabela 36 - Natureza dos argumentos dos juízes da Justiça Federal - Caso Pagrisa282 Lista de Figuras Figura 1 - Atividades rurais em que foi encontrado trabalho escravo ........................ 129 Figura 2 - Mapa dos trabalhadores escravos resgatados .......................................... 138 Figura 3 - Mapa do índice de probabilidade de escravidão e resgates em 2007 ....... 139 Figura 4 - Fluxos dos trabalhados escravos .............................................................. 140 Figura 6 - Trabalho escravo e a cana-de-açúcar ....................................................... 142 Figura 7 - Trabalho escravo e pecuária..................................................................... 143 15 Introdução Apresentação do tema e relevância da pesquisa Como nos mostra a socióloga Maria de Nazareth Baudel Wanderley (2011), o tema do trabalho escravo rural no Brasil contemporâneo não é novo na literatura brasileira das ciências sociais, pois está entre os diversos temas abordados pelos estudos rurais que vieram se desenvolvendo desde os anos 1960 até os dias de hoje. Podemos encontrar, assim, diversos trabalhos, especialmente no campo da Sociologia, que buscaram entender as causas desse fenômeno, e que acabaram por fornecer contribuições muito importantes para o entendimento de processos macroestruturais da sociedade brasileira, tais como o avanço do capitalismo no meio rural e seu consequente processo de modernização conservadora. São trabalhos, portanto, que nos ajudam a entender a conformação da cidadania no meio rural brasileiro. Juntamente a esses avanços acadêmicos em direção a um entendimento mais macroestrutural, o tema também vem sendo abordado em outras direções. Desde meados dos anos 1980, diversos órgãos públicos e organizações da sociedade civil vêm produzindo uma série de relatórios de caráter mais técnico e denunciativo. Os relatórios mais descritivos e técnicos, em grande medida produzidos por órgãos públicos, possuem uma ênfase mais institucionalizada. Eles abordam questões de infra-estrutura e de organização das instituições para lidar com o problema, e também comentam as políticas de erradicação implementadas pelo governo federal. Já os relatórios de caráter mais denunciativo, produzidos por organizações da sociedade civil, possuem uma visão mais voltada para o processo político e para o sistema econômico. Ou seja, voltam seu olhar para a relação entre as expectativas sociais por cidadania e justiça e as ações tomadas pelas autoridades políticas e as diretrizes econômicas. O ponto em comum entre esses dois tipos de relatórios, no entanto, é que ambos batem na tecla da falta de um consenso acerca do que é e como se identifica o trabalho escravo rural hoje. Argumenta-se que a 16 falta desse consenso prejudica a atuação das instituições e, consequentemente, possibilita que a questão seja definida e manipulada de acordo com os valores e interesses particulares dos atores envolvidos. Como aponta José de Souza Martins (1999), a confusão sobre a definição do trabalho escravo rural vem, de fato, permitindo sua manipulação de acordo com interesses particulares e, com isso, constituindo um problema para a atuação das instituições. Mas o autor ressalva que enfatizar somente essa questão é deixar de olhar para algo mais importante, que é a ação e a capacidade das instituições políticas de lidar com aexploração do trabalho no campo em seu sentido mais genuíno e amplo. Segundo o autor, essa discussão sobre o trabalho escravo rural, pautada em sua definição, fragmenta o sentido de cidadania, pois acaba estabelecendo gradações acerca do que é uma exploração aceitável (uma questão “apenas” trabalhista) e o que é uma exploração inaceitável (que atinge o ser humano em sua dignidade). Assim, a busca indiscriminada por uma definição única pode ser tão problemática quanto a sua própria inexistência, pois as instituições podem deixar de fora novas situações de exploração do trabalho rural que não se encaixam em definições previamente estabelecidas e que precisam igualmente de uma constante atenção e atuação das autoridades públicas. A questão central, portanto, não está na definição, mas no entendimento que as instituições sustentam acerca das relações e das condições de trabalho no campo. Como argumenta o autor, as relações de trabalho e de produção no campo estão em constante modificação e, com elas, também caminham diferentes formas de exploração do trabalhador, no que a atuação institucional deveria ter a postura crítica de tentar acompanhar essas mudanças, de modo a evitar que a exploração ocorra em qualquer nível. No entanto, Martins (1999) aponta que quase nada tem sido feito em termos de pesquisas mais sistemáticas que possibilite acompanhar e analisar a atuação das instituições políticas, inclusive a atuação das instituições do Judiciário. É certo que os relatórios dos órgãos públicos têm fornecido informações sobre as instituições, descrevendo seus desempenhos e dificuldades. No entanto, como já vimos, são relatórios que estão mais preocupados em mostrar 17 dados acerca da infra-estrutura e dos resultados das políticas governamentais, não adentrando de forma mais crítica na lógica de funcionamento e de atuação das instituições. São relatórios que atribuem os problemas institucionais existentes à falta de recursos ou à falta de leis objetivas e claras que definam o que é o trabalho escravo rural. Os relatórios das organizações da sociedade civil, por sua vez, quando falam das instituições, acabam personalizando-as na figura de atores particulares, de modo a mostrar a correlação de forças e de interesses no jogo político, tratando a questão da erradicação do trabalho escravo majoritariamente como uma questão de vontade política. Com isso, acabam desconsiderando a ideia de que as vontades particulares dos sujeitos podem não se traduzir necessariamente na atuação das instituições. Ou seja, acabam negligenciando o caráter organizativo e coercitivo das instituições sobre a vontade particular dos indivíduos. Assim, tanto os relatórios dos órgãos públicos quanto das organizações da sociedade civil se apresentam de forma claramente parciais e engajadas, constituindo materiais empíricos a serem analisados e não pesquisas sistemáticas sobre a atuação das instituições políticas no problema do trabalho escravo rural. É nesse ponto que a tese, no campo da ciência política, pode apresentar algumas contribuições. Claramente que não se trata de analisar a atuação do Judiciário sobre todo tipo de exploração do trabalho no campo no passado e no presente, até mesmo porque o intuito é um focar sobre a instituição do Judiciário e não sobre a exploração do trabalho em si. Não é intuito, portanto, tentarmos ver como o Judiciário acompanha as transformações da exploração do trabalho no campo, até mesmo porque isso demandaria uma pesquisa empírica muito mais abrangente temporalmente. No entanto, pensamos que focar sobre a controvertida questão do trabalho escravo rural contemporâneo não nos impossibilita de ver a atuação do Judiciário perante a exploração do trabalho rural como um todo e mais historicamente. Por se tratar de uma questão controversa no universo político-jurídico, sendo alvo de muitas discórdias e desentendimentos entre os atores e as instituições políticas, é uma questão que acaba sendo definida através de comparações e diferenciações com 18 outras situações de exploração mais reconhecidas e sedimentadas, como as questões trabalhistas e o nosso antigo sistema escravista. Assim, o estudo sobre a atuação do Judiciário sobre o trabalho escravo rural no Brasil contemporâneo pode facilmente fornecer pistas sobre sua atuação (ou ao menos sobre seu pensamento) em outras questões de exploração do trabalho no campo. Mais importante, trata-se de um tema que nos permite expandir os estudos empíricos sobre o Judiciário brasileiro e sobre o seu papel na defesa e garantia dos direitos de cidadania. Objetivos O objetivo central da tese é o de realizar uma análise de caráter exploratório através do estudo de três casos de trabalho escravo rural de expressividade teórica e que foram parar nas instâncias do Poder Judiciário. Escolhemos três casos de trabalho escravo cujas atividades rurais em questão são significativamente representativas no quadro do trabalho escravo rural no Brasil, e nos quais os acusados possuem perfis distintos ou capacidades litigatórias variáveis. Os casos compreendem, assim, acusações de trabalho de escravo no setor sucroalcooleiro e no setor pecuário; e tem por acusados um “gato” (o Caso do “gato”), um senador da República (o Caso do Senador João Ribeiro) e uma grande empresa do setor sucroalcooleiro (o Caso Pagrisa)1. O intuito é o de realizar uma incursão em profundidade e em fluxo nos casos selecionados, de forma a delimitar e analisar as formas pelas quais o Poder Judiciário vem pautando suas decisões e atuando no cenário das políticas de erradicação do trabalho escravo rural no Brasil contemporâneo, especialmente entre 1995 e 2012, quando as políticas se tornam mais institucionalizadas. Queremos saber que avanços, retrocessos ou interferências ele tem empreendido nesse cenário; como vem entendendo esse problema crítico da 1 Os critérios de seleção dos casos encontram-se detalhados nas “Preliminares para os estudos de caso”, expostas na Parte II da tese. 19 exploração do trabalho no campo; e que instrumentos e ações institucionais vem apresentando para lidar com esse problema. Queremos identificar e analisar, também, as respostas que ele tem dado às expectativas de outros atores e instituições; a que ou a quem sua atuação tem propiciado ganhos diretos ou indiretos; e de que formas vem respondendo e se alinhando às políticas governamentais implementadas. Queremos, ainda, explorar e compreender os argumentos e critérios que ele tem se valido para justificar sua atuação. Em resumo, queremos saber como que o Judiciário vem se apresentando e se portando neste quadro, e se nele podemos enxergar possibilidades de entendimentos mais críticos sobre a exploração do trabalho no campo, que considerem seu aspecto sistêmico e que permitam romper com a reprodução de padrões desiguais de cidadania. Tese e argumentos A hipótese de pesquisa trabalhada pela tese resultou da realização de duas explorações empíricas preliminares (que serão expostas ao longo da análise), e que auxiliaram, inclusive, na opção pelo método dos estudos de caso e também na própria delimitação dos casos analisados. Na primeira exploração empírica realizada (exposta no Capítulo 2 da tese), foi feita a leitura e análise de um conjunto de documentos legislativos, políticas, relatórios e pesquisas elaborados por diversos atores políticos e sociais acerca do tema do trabalho escravo rural e acerca das políticas governamentais implementadas. E na segunda exploração empírica (exposta nas Preliminares para os estudos de caso na Parte II da tese), foi realizado o levantamento e análise de alguns processos judiciais envolvendo o tema do trabalho escravo rural em função de variáveis gerais de análise. Esses dois momentospreliminares de exploração empírica nos possibilitaram perceber não apenas a complexidade de fatores que envolvem a questão do trabalho escravo rural, como também a diversidade de dimensões analíticas que são necessárias para obtermos uma compreensão mais completa da atuação do Poder Judiciário. Ambos os momentos nos deram ilustrações empíricas primárias da tese de que o Poder Judiciário vem atuando 20 de forma mitigada sobre o tema, apresentando mais limitações do que possibilidades de apoio às políticas de erradicação do trabalho escravo rural. Tais ilustrações primárias foram problematizadas e fortificadas pelos estudos de caso empreendidos, que nos mostraram de forma ainda mais clara a atuação mitigada do Poder Judiciário e a importância de se considerar diferentes dimensões de análise para se compreender as possíveis razões dessa atuação. No que tange às possibilidades de apoio às políticas de erradicação por parte do Poder Judiciário, os estudos dos casos nos mostraram que embora tenha sido possível encontrar sentenças e entendimentos judiciais que considerassem os aspectos mais sistêmicos acerca da exploração no campo, tais entendimentos acabaram se dando de forma isolada e provisória, na medida em que foram ou questionados ou anulados através de recursos julgados por instâncias judiciais superiores. Tais situações, no entanto, apresentaram um ponto positivo importante, no sentido de que as sentenças e entendimentos mais amplos acabaram servindo como instrumentos de mobilização por parte de outros atores políticos, especialmente pela mídia ativista no campo. No que tange às limitações, por sua vez, os estudos dos casos nos mostraram que elas se apresentaram das mais variadas formas. Pudemos encontrá-las nos retrocessos que o Judiciário empreendeu no entendimento da exploração do trabalho no campo, minimizando e ponderando as situações de exploração encontradas. Pudemos vê-las nas interferências que ele realizou ao questionar a legitimidade de ações e medidas punitivas tomadas por outros atores e instituições políticas. Também estiveram presentes na falta de responsividade do Judiciário às expectativas por justiça de outros atores políticos e sociais, deixando-lhes o sentimento de impunidade em função da morosidade e do prolongamento dos processos até a prescrição dos crimes. Ligadas a isso, também pudemos observar a existência de decisões e argumentações diferenciadas que o Judiciário deu aos casos em função de seus réus e de sua relevância no cenário político-econômico, apontando a permeabilidade da Justiça às pressões de ordem externas. Além disso, as 21 limitações também puderam ser observadas nos diversos argumentos que o Judiciário mobilizou para justificar sua atuação. Tais argumentos se mostraram de forma explícita (como nos casos citados de amenização da exploração encontrada e de questionamento de medidas de outras instituições) e também de forma implícita à sua lógica de funcionamento institucional (como nas tergiversações processuais e na postergação dos casos até serem amenizados ou anulados). Assim, na medida em que fomos ganhando mais contato com os materiais empíricos e, simultaneamente, com os diversos estudos e abordagens de análise sobre o Poder Judiciário (apresentadas no Capítulo 1 da tese), também fomos percebendo a importância de vê-lo a partir de lentes ou dimensões mais variadas de análise. Fomos percebendo que uma hipótese e uma explicação dicotômica, que simplesmente mostrasse a atuação do Judiciario como sendo o resultado de um fator ou outro, poderia não dar conta de diversos elementos trazidos por nossos materiais empíricos. Ou seja, fomos percebendo que explicar a atuação do Judiciário somente em função do conservadorismo dos juízes, ou somente em função de problemas internos institucionais, ou somente em função da estrutura social e econômica histórica brasileira, poderia negligenciar fatores importantes. Como apontamos, trata-se da existência tanto de limitações quanto de possibilidades de sustentação, sobre as quais supomos uma predominância das limitações e não uma simples exclusão das possibilidades de sustentação das políticas de erradicação por parte do Judiciário. Julgamos relevante, assim, construirmos nossa argumentação através da ênfase conjunta em três dimensões de análise: uma voltada para o processo político ou para a ação dos atores envolvidos, uma segunda de ordem estrutural, e uma terceira dimensão institucional. Ou seja, pensamos e nos questionamos sobre a contribuição ou peso explicativo de cada dimensão, de forma a empreendermos um estudo aprofundado da atuação do Poder Judiciário sobre o problema do trabalho escravo rural. Para nós, ver o Judiciário a partir da lente do processo político ou individual é enxergá-lo a partir da ação dos juízes e de suas relações com 22 outros atores envolvidos. É identificar e caracterizar esses atores, seus entendimentos, objetivos, demandas, expectativas, estratégias, decisões, poderes e relações. É olhar mais de perto as coalizões de forças, de ideias e de programas de ação. É se voltar para as aproximações e distanciamentos entre os atores, e para a sua inserção no cenário conflitante das políticas de erradicação do trabalho escravo rural. É ver que as polarizações resultantes de um olhar mais estrutural podem ser esmiuçadas e detalhadas em suas nuances e efeitos. É olhar o resultado final dos processos macro-estruturais a partir de uma lupa, para vermos as possibilidades abertas no seio das relações entre os atores, para entendermos como elas são pensadas e alcançadas, e de que forma podem impactar no posicionamento de outros sujeitos e no próprio cenário de políticas voltadas para o combate ao trabalho escravo rural. Ver o Judiciário a partir de uma lente estrutural, por sua vez, nos possibilita resgatar, com auxílio da bibliografia, a ideia de função do Judiciário nas mudanças estruturais das relações sociais e do desenvolvimento da cidadania no campo no Brasil. É entender seu papel hoje em função de sua inserção em importantes marcos históricos da ordem política, econômica e social brasileira no passado. É recordar, por exemplo, o papel atribuído ao Judiciário para lidar com as consequências diretas da política desenvolvimentista do regime militar, do processo de redemocratização no final dos anos 1980, e das reformas neoliberais implementadas a partir dos anos 1990. É lembrar, portanto, do seu papel no avanço da empresa capitalista no campo, na acentuação da concentração da propriedade da terra e na expulsão de camponeses de suas terras e sua consequente submissão a condições indignas e degradantes de trabalho. É recordar também a sua função de repressão institucional sistemática das mobilizações renovadas por reforma agrária, e a sua função de criminalização dos movimentos sociais rurais. Assim, ver o Judiciário a partir de uma lente mais estrutural é vê-lo a partir de sua funcionalidade para a defesa e manutenção desses marcos históricos fundamentais, ajudando na conformação de uma cidadania de caráter peculiar no meio rural. 23 Por fim, olhar para o Judiciário a partir de uma dimensão institucional é entendê-lo como uma instituição política que possui independência e autonomia perante os sujeitos e os processos macroestruturais. Ou seja, é vê- lo enquanto dotado de regras, organização e lógica próprias de funcionamento e de atuação. É entendê-lo na complexidade de suas relações intra- institucionais que regem a ação de seu corpo de funcionários. Trata-se de uma dimensão que nos permite, por exemplo, trabalhar as inovações das instituições judiciais, especialmente no que diz respeito à sua independência, prerrogativas e aos instrumentos de promoção de cidadania adquiridos após 1988 e, mais fortemente, após a reforma judicialde 2004. Isso, por sua vez, nos possibilita estudar as relações conflituosas que se abriram com os outros poderes do Estado do ponto de vista da formulação e da implementação de políticas públicas. O que essa dimensão nos traz de essencial, portanto, é um maior conhecimento da “máquina” judicial brasileira e de seus efeitos sobre o processo político. Podemos observar, assim, que são três dimensões de análise que nos chamam atenção para elementos igualmente importantes para explicar as possibilidades e as limitações (bem como suas relações) da atuação do Judiciário brasileiro na questão do trabalho escravo rural no Brasil contemporâneo. Metodologia de pesquisa A tese se pautou centralmente pela metodologia dos estudos de casos e da análise de fluxo dos processos judiciais selecionados2, mantendo um diálogo com os achados empíricos preliminares e com as diversas abordagens analíticas sobre o Poder Judiciário. Entendemos que os estudos de casos nos permitem analisar o problema com maior profundidade, no que podemos levantar e trabalhar com variáveis que abordem as três dimensões de análise citadas. A análise de fluxo, por sua vez, nos permite acompanhar os processos 2 Os critérios de seleção, assim como os critérios de análise dos casos, encontram-se detalhados nas “Preliminares para os estudos de caso”, expostas na Parte II da tese. 24 em toda a sua trajetória, percursos, atalhos, interferências e pausas. Assim, acompanhamos cada caso desde a denúncia até o julgamento e sentenciamento, passando por diferentes esferas e graus do Judiciário. Trata-se, sobretudo, de um estudo de caráter exploratório, que não busca dar explicações fechadas ou unilaterais sobre a atuação do Poder Judiciário, mas sim levantar elementos que, em conjunto, permitem entender essa atuação em fluxo e em profundidade. A partir do estudo exploratório não se toma uma variável única que seja capaz de explicar todo e qualquer caso de trabalho escravo rural, muito embora seja possível estabelecer alguns critérios gerais e comuns de análise, que tomam forma particular em função do fluxo singular a cada caso. Estrutura da tese A tese foi divida em duas partes. Na Parte I (formada pelos Capítulos 1 e 2), colacionamos um conjunto de questões e respostas, tanto no plano teórico e metodológico quanto no plano empírico, que ajudam a compreender a atuação política do Poder Judiciário na questão do trabalho escravo rural. Assim, no Capítulo 1 apresentamos um mapeamento de várias abordagens teóricas sobre o Poder Judiciário, em que tentamos identificar quais dimensões analíticas cada abordagem enfatiza e que relações ela estabelece com as demais dimensões. Procuramos, ainda, verificar as metodologias de pesquisa mobilizadas e suas possibilidades analíticas. No Capítulo 2, traçamos um panorama das políticas de erradicação do trabalho escravo rural no Brasil, de forma a descrever as caracterizações e os entendimentos institucionais acerca do problema e de que forma essas políticas e entendimentos foram avaliados por diferentes atores políticos e sociais. Na Parte II, por sua vez, voltamo-nos inteiramente para os estudos de caso, que se dispõem ao longo dos Capítulos 3, 4 e 5. No Capítulo 3, analisamos o Caso do “gato”, em que o Judiciário tratou de um caso sem repercussão política, e no qual sobressaiu a importância de fatores de ordem institucional para a compreensão da atuação do Poder Judiciário. No Capítulo 25 4, por sua vez, analisamos o Caso do Senador João Ribeiro, em que já se nota uma repercussão política bem maior, não apenas em função da posição pública do senador, mas também em função da manifestação de posicionamentos individuais dos juízes sustentando concepções conservadoras e naturalizadoras das condições degradantes de trabalho no campo. No Capítulo 5, por fim, analisamos o Caso Pagrisa, que é o caso mais de descrição mais longa, mais complexo e de maior repercussão política entre os três casos estudados, e no qual se mostrou de forma mais evidente a importância de fatores de ordem estrutural sobre o andamento do caso na Justiça, dada a visível permeabilidade dos juízes às influências de ordem socioeconômica exercidas pela empresa. Nas conclusões, por fim, fazemos um resgate dos resultados apresentados nos estudos dos casos em função da tese defendida, assim como também procuramos “fechar” diálogos teóricos e metodológicos abertos no Capítulo 1 da tese em função dos resultados obtidos com os estudos de caso. E procuramos, ainda, traçar algumas possibilidades de desdobramentos da tese para a realização de pesquisas futuras. 26 PARTE I 27 Esta primeira parte da tese está voltada para a discussão de questões e respostas que podem ser levantadas em uma análise política da atuação do Poder Judiciário. Essa discussão é feita aqui em dois momentos. Primeiramente, no Capítulo 1, o debate é realizado no plano teórico e metodológico, de forma a estudar as questões, respostas e metodologias desenvolvidas por diferentes abordagens analíticas para o estudo político do Poder Judiciário. Num segundo momento, no Capítulo 2, a discussão já é feita através dos primeiros movimentos exploratórios e empíricos da tese, em que traçamos um panorama das políticas de erradicação – de forma a apresentar os problemas em voga e as soluções institucionais dadas pelas políticas governamentais – e procuramos analisar as avaliações de diferentes atores políticos e sociais sobre as políticas implementadas – de forma a verificar as questões e avaliações que foram feitas inclusive sobre a atuação do Poder Judiciário. Assim, tanto o primeiro quanto o segundo capítulo nos ajudam a colacionar questões e possíveis respostas sobre a atuação política do Poder Judiciário no quadro das políticas de erradicação do trabalho escravo rural, apontando, especialmente, para a necessidade de considerarmos uma multiplicidade de fatores ou dimensões analíticas para a compreensão mais completa do problema. 28 Capítulo 1 – Dimensões para uma análise política do Poder Judiciário 3 “It’s the vague people who are the pioneers” (Richard Rorty) 1.1 – Introdução O objetivo deste capítulo é o de apresentar o esquema teórico- metodológico que nos auxilia neste trabalho e que resulta de um esforço em discutir a importância de diferentes dimensões analíticas para se pensar o Poder Judiciário brasileiro. Para tanto, destinamos boa parte deste capítulo para discutir o debate norte-americano em Ciência Política sobre o Poder Judiciário. A essencialidade deste debate reside na sua própria formação e desenvolvimento, que nos mostra um embate constante entre diferentes abordagens analíticas com diferentes explicações sobre a atuação do Poder Judiciário. A exploração desse debate nos ajuda não apenas a entender suas possibilidades e limites como também a entender as possibilidades e limites do debate brasileiro, que, em sua maioria, incorporou alguns pressupostos do debate norte-americano de forma acrítica, especialmente através das teses da judicialização da política. Apresentamos o debate norte-americano de forma a tornar menos nítidas as linhas teórico-metodológicas que separam as diferentes abordagens analíticas presentes nesse debate. Expomos uma visão mais abrangente das abordagens, saindo do que lhes é padrão e nuclear para caminhar em direção às suas margens e, assim, ver os contatos que estabelecem com outras abordagens. O intuito, portanto, é o de verificar os pontos de semelhança, de continuidade ou mesmo de complementaridade entre as diversas perspectivas, mostrando que o debate pode ser apresentado menos como um jogo de oposições e mais como um diálogo fluido de trocas teóricas e metodológicas.3 Este capítulo é o resultado resumido de um trabalho mais extenso sobre o debate norte- americano em ciência política sobre o Poder Judiciário, trabalho no qual os autores e obras citadas ao longo do capítulo se encontram resenhados e analisados com maior profundidade e correlação. 29 Defendemos a tese de que conhecer esse debate para além do que lhe é padrão nos ajuda a perceber que a adoção de uma abordagem analítica particular para estudar o Poder Judiciário não deve necessariamente nos prender a uma linha única de pensamento, pressupostos e métodos de trabalho. Isso acontece justamente porque as abordagens conversam muito mais entre si do que geralmente se reconhece, extrapolando os esquemas teórico-metodológicos por demais rígidos e fechados. A reconstrução do debate em termos mais abrangentes possibilita verificar a existência de uma margem de ação para o pesquisador transitar de forma mais livre e exploratória entre as diversas abordagens analíticas sobre o Poder Judiciário, buscando realizar tentativas de síntese e não o aprofundamento de análises unilaterais. A identidade que cada abordagem sustenta no campo dos estudos judiciais norte-americanos geralmente é construída e defendida em oposição às abordagens já existentes, até mesmo para que ela se coloque como diferente e inovadora. Esse processo de diferenciação se dá através da defesa ou da ênfase de uma dimensão de análise específica: algumas abordagens defendem que para entendermos a atuação política do Judiciário é preciso que nos voltemos para as ações dos juízes, para os seus valores e preferências políticas particulares, levando-nos, assim, para dimensões individuais de análise; outras abordagens, por sua vez, defendem que a atuação do Judiciário só pode ser inteiramente compreendida se conseguirmos descobrir a sua função dentro de uma determinada sociedade, fazendo-nos pensar em dimensões analíticas mais estruturais; e outras, ainda, defendem que uma análise sobre o Poder Judiciário tem que levar em conta suas regras e formas de funcionamento, no que é preciso reconhecer a importância da dimensão institucional. O que podemos perceber, no entanto, é que, embora as abordagens sempre apresentem uma ênfase sobre uma dimensão de análise em particular, e embora elas sejam reconhecidas, agrupadas e compreendidas por isso, elas se entrelaçam de maneiras diversas, extrapolando não somente os limites internos de suas próprias abordagens como também dos conjuntos de abordagens no qual se inserem, a dizer, individualistas, estruturalistas e 30 institucionalistas. Podemos encontrar, por exemplo, abordagens individualistas, mas que apresentam características teórico-metodológicas que se desviam do padrão de uma análise individualista, trazendo argumentos de caráter institucional ou estrutural e, com isso, desenvolvendo análises mais multidimensionais. O que se pode perceber é que até mesmo as abordagens mais “puras” ou mais unidimensionais possuem trabalhos ou estudiosos que fogem à regra e empurram os limites de suas próprias abordagens, testando ao extremo sua capacidade analítica. Para realizar o que estamos propondo, este capítulo se divide da seguinte forma. Na primeira parte, discutimos um conjunto de abordagens norte-americanas que enfatizam a dimensão individual para analisar o Poder Judiciário. Falamos sobre as abordagens mais tipicamente ou puramente “individualistas”, como o Modelo Atitudinal e o Modelo Estratégico; e sobre as abordagens mais abrangentes, como o Realismo Jurídico, a Jurisprudência Política e a Mobilização do Direito. Além disso, mostramos que até mesmo dentro das abordagens mais puramente individualistas, como no Modelo Atitudinal e no Modelo Estratégico, é possível encontrar exemplos que não somente se aproximam das abordagens individualistas mais abrangentes, como também extrapolam os limites do próprio conjunto de abordagens individualistas, caminhando em direção a considerações de caráter mais institucional e/ou estrutural. Na segunda parte do capítulo, discutimos os trabalhos norte-americanos de cunho estruturalista vindos do movimento dos Critical Legal Studies, novamente pensando em termos de trabalhos mais puros e mais abrangentes. Dentre os mais puros, vemos o posicionamento radical das teses da “indeterminação” do direito. Dentre as mais abrangentes, vemos o posicionamento de trabalhos que se aproximam tanto das abordagens individualistas quanto dos trabalhos estruturais de origem marxista. Na terceira parte, discutimos a abordagem do Institucionalismo Histórico, de forma a mostrar as ligações e semelhanças com os conjuntos de abordagens vistas anteriormente. Ao compararmos o Institucionalismo Histórico com as demais abordagens, relembramos, com base nas análises anteriores, 31 que ele não foi o único e nem o primeiro a tentar fazer uma síntese analítica entre as três dimensões de análise. Na quarta e última parte, por fim, buscamos fazer alguns apontamentos sobre o debate brasileiro de acordo com o que foi discutido nos itens anteriores, de forma a entender as possibilidades e os limites das abordagens mais recorrentes sobre o Poder Judiciário brasileiro, bem como as questões trazidas por novos trabalhos. Nas conclusões, por fim, recuperamos algumas considerações centrais feitas ao longo do capítulo, para mostrar que o desenvolvimento das diferentes abordagens analíticas se deu não apenas através de um jogo de oposições, mas também através de uma fluidez significativa de questões, pressupostos e metodologias, que acabam ofuscando a nitidez das linhas que separam as abordagens em quadros rígidos e fechados de análise e abrindo um campo grande de perguntas de pesquisa. 1.2 – A dimensão individual: os interesses políticos dos atores Na Ciência Política norte-americana, as abordagens de cunho individualista são geralmente identificadas como behavioristas ou como abordagens que têm por unidade de análise os indivíduos ou grupos de indivíduos, cujas ações, comportamentos, interesses e valores particulares são os elementos que explicam o jogo político. Em outras palavras, são abordagens que procuram explicar a política através do comportamento ou da ação dos indivíduos, ação esta voltada para a realização de objetivos particulares. Para essas abordagens, as instituições, assim como as regras mais estruturais de uma sociedade, seriam basicamente reflexos sedimentados dessas preferências individuais em ação e em interação; e funcionariam auxiliando os indivíduos com informações ou previsões sobre como melhor agir para alcançar seus objetivos. Essa identificação das abordagens individualistas como behavioristas também é comum entre os estudos políticos norte-americanos sobre o Poder Judiciário, e isso se deve, em grande medida, à quebra teórica e metodológica 32 que o behaviorismo trouxe para o campo dos estudos judiciais (Pritchett, 1968; Smith, 1988; March e Olsen, 1989; Whittington, 2000; Maveety, 2003b; Segal, 2003), dividindo-o em “estudos judiciais no Direito” (Public Law) e “estudos judiciais na Ciência Política” (estudos do Judicial Process). O behaviorismo representou um marco importante da “emancipação” da Ciência Política frente ao Direito. Se antes os cientistas políticos se encontravam de alguma forma dependentes do Direito e das categorias jurídicas e institucionais para analisar o Judiciário, aparecendo como meros “comentadores” de leis e de decisões judiciais, eles passam, agora, a constituir um campo próprio de estudos, construindo uma teoria e metodologia própria. A ideia central que se funda, portanto, com a emergência do “behaviorismo judicial”, particularmente através do Modelo Atitudinal e do Modelo Estratégico, é a ideia de análise “política” do Judiciário, análise esta que requer uma mudança radical de foco, métodose materiais empíricos de pesquisa (Schubert, 1963). A atuação do Judiciário e as decisões judiciais não podem mais ser explicadas com base nas regras e normas jurídicas, ou com base na ideia do legalismo jurídico de que os juízes são meros “aplicadores” das leis, neutros e apolíticos. Agora, a atuação do Judiciário e as decisões judiciais somente se explicam em função dos valores e das preferências políticas particulares dos juízes. O juiz passa a ser visto como um verdadeiro ator político, que tem na decisão judicial a sua possibilidade de ação política; ele não decide conforme as regras, mas conforme seus interesses políticos particulares (Schubert, 1963; Segal e Spaeth, 1993; Segal, 2003). As regras jurídicas só tem importância para a análise caso exerçam alguma influência sobre o comportamento dos juízes, que podem instrumentalizar tais regras de forma estratégica para atingir seus objetivos (Schubert, 1964, 1974b; Segal e Spaeth, 1993, 1996a, 1996b; Rohde, 1972a, 1972b; Rohde e Spaeth, 1976; Murphy, 1964; Epstein e Knight, 1998). O que ocorre, assim, é uma mudança completa de foco, que sai da visão extremamente formal e institucional do Direito para uma visão individualista e comportamentalista da decisão judicial. Juntamente com a mudança de foco, 33 também se dá uma mudança no método e no material empírico de pesquisa. O cientista político não deve mais se voltar para uma análise descritiva do conteúdo das leis, códigos e constituições, limitando-se a comentar as diferentes interpretações que foram dadas pelos juízes em contextos políticos distintos. Agora, ele deve observar os votos que os juízes deram e suas frequências em uma massa de decisões, quantificando as vezes em que deram votos liberais e votos conservadores4. O importante é localizar o juiz no jogo político, verificar de que “lado” ele está, e mostrar, através de métodos quantitativos cada vez mais sofisticados5, que a atuação política do Judiciário deve ser entendida unicamente a partir do comportamento político dos juízes. Isso seria fazer uma análise “política” e “científica” do Judiciário, análise esta que configuraria o mainstream dos estudos judicias na Ciência Política norte- americana. Nesse processo de construção de uma análise “política” do Judiciário ou de fortalecimento dos estudos judiciais em Ciência Política frente aos estudos judiciais no Direito, o Modelo Atitudinal e o Modelo Estratégico tiveram cada qual papéis importantes e, sob nosso ponto de vista, complementares. Se o Modelo Atitudinal foi o responsável por firmar a ideia do “juiz político”, que decide conforme seus valores e preferências políticas particulares, o Modelo Estratégico procurou resgatar para a análise behaviorista a importância de se olhar novamente para as normas e para as regras institucionais, de forma a enfatizar que os juízes podem atuar de forma estratégica frente a elas para alcançar seus objetivos particulares. Em seus desenvolvimentos mais recentes, inclusive, os trabalhos estratégicos (agora reconhecidos como do “Neo- 4 Esses estudos produziram um grande conjunto de bases de dados estatísticas para demonstrar o caráter político da atuação dos juízes da Suprema Corte dos Estados Unidos. Para exemplos, consultar Spaeth (1999a, 1999b) e Segal e Spaeth (2000). 5 Um das técnicas mais comumente utilizadas é a scalogram analysis, através da qual o estudioso pode dispor as atitudes individuais dos juízes (os votos) em uma escala unilear, acumulativa e contínua de valores, de forma a verificar a consistência dessas atitudes ao longo de diversas decisões. Trata-se de uma escala gradativa de valores, do extremo mais progressista ao extremo mais conservador, que permite verificar que um juiz vota sempre a favor daqueles valores que vão até o limite crítico de valores que os separam de outros. Essa técnica é importante na medida em que permite explicar as diferenças encontradas nos votos dos juízes de decisão para decisão, mostrando uma lógica maior por trás de votos que se diferenciam, mas que acabam caindo dentro um grupo único de valores. 34 Institucionalismo da Escolha Racional”) analisam o envolvimento de elites governamentais na formulação e na alteração das regras constitucionais e de funcionamento das instituições judiciais, mostrado o caráter político do próprio direito e as suas relações com o comportamento estratégico dos juízes e de outros atores políticos (Ginsburg, 2003; Helmke, 2004, Hirschl, 2004; Finkel, 2008). A ideia de estratégia, contudo, não é exclusividade ou pioneira do Modelo Estratégico ou do Neo-Institucionalismo da Escolha Racional, muito embora o contrário seja propagado pela literatura6. Emprestada de teóricos da escolha racional ou de teorias econômicas da política (Downs, 1957; Riker, 1962; Elster, 1986), a ideia de estratégia já se encontrava presente entre os primeiros trabalhos do Modelo Atitudinal, influenciando de forma significativa não apenas o desenvolvimento dos próprios trabalhos atitudinalistas7, como também o nascimento dos trabalhos estratégicos, alguns inclusive em parceria com os atitudinalistas8. A diferença entre uma abordagem e outra parece se dar muito mais no plano da “gradação” do que da “inovação”: enquanto entre os atitudinalistas a ideia de estratégia aparece de forma rarefeita e esparsa, para explicar casos em que a preferência política particular do juiz não se encontrava tão explícita na decisão judicial, entre os estratégicos, a ideia ganha estatuto de “conceito”, permitindo explicar tais “contra-casos” de forma mais sistemática. 6 Como mostram Epstein e Knight (2000), é em função da questão estratégica e da consideração de questões institucionais para a análise comportamental dos juízes que o Modelo Estratégico é geralmente entendido e se porta como um movimento revolucionário diante do Modelo Atitudinal. 7 Glendon Schubert (1964, 1974a, 1974b), considerado o pai fundador do Modelo Atitudinal, preocupava-se, assim como os estratégicos, com questões de caráter institucional, de forma a mostrar o comportamento estratégico dos juízes diante dessas questões. Para incorporar tais elementos à análise comportamental, Schubert procurou aperfeiçoar gradativamente os métodos quantitativos de pesquisa, de modo a considerar as regras e outros elementos de forma sistemática, quantificável e não mais de forma descritiva. 8 A semelhança entre o Modelo Atitudinal e o Modelo Estratégico são reconhecidas pelos próprios estudiosos estratégicos (Epstein e Knight, 2000), reconhecimento este que também pode ser visto nas parcerias de pesquisa e em publicações conjuntas desde o início do desenvolvimento dos trabalhos estratégicos (ver, por exemplo, Pritchett, Murphy e Epstein (2002 [1961]). 35 Tanto para os atitudinalistas quanto para os estratégicos, portanto, a ideia de estratégia se encontra presente, e, em ambas as ocasiões, para manter a análise com foco na dimensão individual ou na questão comportamental. O uso da ideia de estratégia lhes possibilitou considerar elementos institucionais, mas sem abandonar a dimensão individual de análise, que era o diferencial de seus trabalhos frente às pesquisas no Direito. Assim, não se trata de olhar para as regras e para as instituições de forma independente, mas sempre tendo como referência primeira o comportamento dos juízes. Por isso dizemos, portanto, que tanto o Modelo Atitudinal quanto o Modelo Estratégico ajudaram a estabelecer e a fortalecer a ideia padrão de análise “política” do Judiciário, diferenciando os estudos judiciais na Ciência Política dos estudos judicias no Direito. Seu olhar voltado para o comportamento individual, assim como sua metodologia quantitativa sofisticada, conformaram na CiênciaPolítica norte-americana um padrão “científico” a ser seguido e implementado. Contudo, podemos encontrar entre os próprios modelos behavioristas, trabalhos atitudinalistas e estratégicos que fogem a esse padrão e apresentam outras formas de se fazer uma análise política do Judiciário, alargando os limites de suas abordagens e dialogando com outras dimensões analíticas. Existem trabalhos atitudinalistas e estratégicos que dizem que, para entendermos a atuação política do Judiciário, não basta olharmos para os juízes, para os seus valores e comportamentos. É preciso também olhar para os aspectos institucionais e estruturais como elementos independentes das vontades e das estratégias individuais, e que cercam e limitam de fato a atuação do juiz. Entre esses trabalhos, encontramos estudos que defendem que a atuação política do Judiciário deve ser compreendida também a partir da função do juiz e do Judiciário dentro de um sistema ou “espírito” democrático (Pritchett, 19489; Howard, 1968). É preciso não apenas mostrar quais são os 9 Para alguns, o caráter multidimensional de Pritchett é visto como ambíguo e como um resquício da crise inicial (teórica e metodológica) que a Ciência Política enfrentou para se desvencilhar do Direito (Schubert, 1963; Maveety, 2003; Segal, 2003). Embora Pritchett seja 36 valores políticos que guiam o comportamento decisório dos juízes, mas também investigar como que se formam tais valores (Pritchett, 1948, 1968; Danelski, 1960). O juiz e o Judiciário, dentro de um sistema democrático, teriam funções políticas específicas, normativamente estabelecidas, no que as regras jurídicas poderiam sim formar e guiar seu comportamento. Assim, um juiz que decide intervir no Executivo ou no Legislativo em defesa dos direitos e das liberdades individuais pode resultar não diretamente de seus valores políticos particulares, mas antes da sua própria função dentro de um sistema constitucional democrático, cujas regras lhe dão independência e poder político para esse tipo de intervenção. Também encontramos trabalhos behavioristas que questionam a ligação direta que se faz entre os valores particulares dos juízes e as decisões judiciais, mostrando que a direção e a intensidade desse link mudam ao longo do tempo, especialmente em função de constrangimentos institucionais (Ulmer, 1969, 1979b). São estudos que se voltam, por exemplo, para a análise das regras de funcionamento das cortes, de outros momentos do processo decisório (Ulmer, 1972, 1979a; Ulmer, Hintze e Kirklosky, 1972), das regras judiciais de acesso aos tribunais (Ulmer, 1978), e da pressão exercida por grupos e lideranças dentro da Corte sobre o comportamento dos juízes (Danelski, 1960; Ulmer, 1963). Tudo para mostrar que esse comportamento varia conforme questões outras que não somente os valores políticos particulares dos juízes10. Outros estudos behavioristas questionam um problema central dos atitudinalistas e estratégicos padrões, que é a separação que eles fazem entre “direito” e “política”. Passa-se a questionar se “decidir conforme as regras” é de fato diferente de “decidir conforme valores e interesses políticos”, observando- reconhecido como o precursor do Modelo Atitudinal (Maveety, 2003), seu trabalho não é visto como o que de fato “quebrou” com o Legalismo Jurídico e seus pressupostos institucionais. 10 Ulmer reconhece a importância das abordagens tradicionais (institucionais) e se coloca mais numa posição de complementaridade do que de oposição a elas. Bradley (2003) cita, inclusive, uma passagem de um livro de Ulmer em que ele confirma essa ideia: “A abordagem behaviorista não substitui outras perspectivas, mas complementa o conhecimento que tem sido e continua a ser a marca de modelos analíticos mais tradicionais” (Ulmer, 1961: I apud Bradley, 2003: 109). 37 se que as próprias regras ou que o próprio direito é um elemento político em si e não apenas uma roupagem que é estrategicamente utilizada ou instrumentalizada pelos juízes para alcançarem seus objetivos particulares. Alguns estudos mostram “a política no direito” ao enfatizarem a importância dos valores culturais e políticos de uma sociedade na formação não somente do comportamento dos juízes, como também das próprias regras de funcionamento das instituições judiciais. Encontramos, assim, preocupações com a questão da socialização judicial e com as experiências profissionais e políticas dos juízes, que estruturam e institucionalizam padrões de comportamento (Cook, 1971). Também encontramos análises sobre as relações entre os tribunais com a opinião pública e as expectativas culturais e sociais sobre o papel do juiz e do Judiciário (Cook, 1977, 1979). Vemos, ainda, trabalhos em que se demonstra a importância dos valores políticos, culturais e sociais de uma sociedade na formulação das regras de seleção dos juízes da Suprema Corte dos Estados Unidos11, mostrando que os valores manifestos nas decisões dos juízes podem ser culturalmente e institucionalmente selecionados (Cook, 1977, 1981, 1982, 1984). Vemos, assim, que são trabalhos que procuram mostrar que, embora haja uma relação entre valores políticos pessoais dos juízes e suas decisões, há muitas outras questões institucionais e estruturais anteriores e contínuas ao processo decisório que influem na efetivação dos valores pessoais dos juízes. Assim, existiria uma muldimensionalidade latente na atuação política do Judiciário, que deve ser estudada a partir de um entrelaçamento de questões individuais, institucionais e estruturais, de modo semelhante ao que apontam os estudos do Neo-institucionalismo histórico12. 11 Cook mostra o processo de aceitação da primeira mulher como juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos. Segundo seus estudos, isso só foi possível quando a cultura política do país se alterou e passou a considerar plausível a presença de uma mulher na Suprema Corte. 12 Como apontou Epstein e Matther (2003: 186), o interesse de Beverly Blair Cook em diferentes dimensões da atuação política do Judiciário “moveu intelectualmente as barreiras do atitudinalismo, incorporando em uma explicação do ato de julgar as normas jurídicas e o contexto social, que são os mesmos fatores enfatizados pela abordagem alternativa do institucionalismo histórico ao estudo do comportamento judicial”. 38 Do ponto de vista metodológico, esses trabalhos behavioristas não- padrões ajudam a quebrar com a ideia que se fundou com o Modelo Atitudinal de que uma análise “política” e “científica” do Judiciário requer obrigatoriamente um foco unidimensional sobre o juiz, juntamente com a aplicação de uma metodologia quantitativa sofisticada. Ainda que o uso desta metodologia não tenha sido descartada, e em alguns casos tenha sido estimulada e aperfeiçoada, o reconhecimento de outras dimensões analíticas e a utilização de metodologias qualitativas parece ser um traço comum entre esses estudos13. Eles vêm conquistando espaço e importância crescentes no mainstream dos estudos judiciais na Ciência Política norte-americana, dada a capacidade de mostrar os limites das análises políticas padrões e a possibilidade de inaugurar novas hipóteses, agendas de pesquisa, e até mesmo novas abordagens analíticas. Assim, se entre as abordagens individualistas puramente behavioristas nós podemos encontrar tantos trabalhos que fogem ao padrão, vejamos o que acontece entre as abordagens individualistas que não são behavioristas, ou que podemos chamar de “mais abrangentes”, como o Realismo Jurídico, a Jurisprudência Política e a Mobilizaçãodo direito. Através delas podemos encontrar trabalhos que tratam a relação entre política e direito não apenas pela chave da instrumentalidade (pressupondo a centralidade do juiz e a separação entre direito e política), mas também pelo seu caráter histórico e constitutivo, considerando cada vez mais a importância das dimensões institucionais e estruturais de análise para se entender a atuação politica dos juízes e do Judiciário como um todo. É a partir de seus trabalhos que podemos ver semelhanças e diálogos cada vez mais claros tanto com o Marxismo e com 13 Destaca-se, por exemplo, a capacidade dos métodos qualitativos como os estudos de caso de realizar uma espécie de “anatomia” do processo judicial, permitindo ver a existência de manipulações e constrangimentos de grupos de interesses sobre o juízes (Pritchett, 1968; Pritchett, Murphy e Epstein, 2002). Aponta-se também a importância das análises descritivas de Howard sobre os fluxos de litigação, agendas de julgamento, bem como das biografias e entrevistas de juízes como meios de se analisar a questão estratégica (Maveety e Maltese, 2003). E, no extremo da desvinculação da pesquisa a uma metodologia pré-estabelecida, aponta-se, como fez Beverly Blair Cook, a importância de deixar o problema e o objeto de pesquisa ditar a metodologia necessária e não o contrário (Epstein e Matther, 2003). 39 os Critical Legal Studies, quanto com o Neo-institucionalismo Histórico e com o próprio Legalismo Jurídico. Ou seja, é a partir dessas abordagens individualistas mais abrangentes que podemos ver que as tentativas de “despolarização” ou de “des-unidimensionalização” (que vimos entre alguns atitudinalistas e estratégicos não-padrões) ganham ainda mais força. Não se pode negar que todas as três abordagens possuem trabalhos que insistem na unidimensionalidade e na chave da instrumentalidade (na importância das ações individuais dos juízes) para entender e explicar a atuação política do Judiciário. Contudo, todas as três abordagens são caracterizadas por uma marcante diversidade interna, que é onde se abrem e se mostram os avanços em direção a pesquisas multidimensionais e a um diálogo com abordagens de cunhos diferenciados. No Realismo Jurídico, foi onde a unidimensionalidade e a ideia de instrumentalidade se deu de forma mais ampla, ao passo que foi com o advento das análises realistas que se introduziu pela primeira vez (antes mesmo do surgimento do behaviorismo judicial em Ciência Política, com o Modelo Atitudinal) a dimensão individual no campo dos estudos judiciais, tomando o juiz como um ator político, que julga conforme seus interesses próprios e não conforme as regras e as leis (Holmes, 1897; Llewellyn, 1930). Contudo, alguns trabalhos realistas importantes não incorporam acriticamente a ideia de que as atitudes individuais dos juízes explicam por si as decisões judiciais e a atuação do Poder Judiciário. Argumenta-se que, por trás das atitudes e valores individuais, há a presença consciente ou inconsciente de uma ideologia dominante. Os interesses e os comportamentos individuais dos juízes refletem interesses e comportamentos dos grupos nos quais eles estão inseridos. Esses grupos, por sua vez, estão mergulhados em seus próprios interesses materiais e econômicos, que, por fim, influenciam no tempo e no espaço a formulação das leis e o funcionamento das instituições governamentais como um todo (Bentley, 2008 [1908]; Beard, 2006 [1938]). Dessa forma, questões de caráter estrutural se fazem igualmente necessárias para desvendar e entender a “realidade” que está por trás das decisões 40 judiciais14. Mantem-se uma certa relação de instrumentalidade e de importância das ações do indivíduo ou de um grupo de indivíduos, mas enfatiza-se questões estruturais, materiais e econômicas, e também ideológicas, como sendo os elementos que estão por trás das ações e das próprias regras jurídicas, formando-as e constituindo-as, no que “decidir conforme as regras” não se diferencia de “decidir conforme valores”. Na Jurisprudência Política, a ideia de instrumentalidade também aparece, na medida em que se colocam os interesses individuais ou das elites como as forças motoras que constroem, mantêm e transformam as regras e as instituições judiciais ao seu favor. O elemento da escolha ou da decisão dos indivíduos continua a ser um elemento central para o estudo político judicial (Shapiro, 1963)15. Contudo, não se pode esquecer que os estudos da Jurisprudência Política não surgiram em completa concordância com o behaviorismo judicial (Danelski, 1983; Stumpf, 1983), mas como uma alternativa entre o institucionalismo do Legalismo Jurídico e o individualismo do behaviorismo judicial16. Para os estudos da Jurisprudência Política, caberia uma dupla preocupação: em função do legado deixado pelo behaviorismo judicial, não se poderia mais seguir acreditando que os juízes eram meros “aplicadores” das 14 Fisher, Horwitz e Reed (1993), ao empreenderem o que chamam de uma “visão generosa” sobre o Realismo Jurídico, analisam a diversidade analítica presente na abordagem, mostrando seus diversos desdobramentos e suas diferentes formas de definir e entender o que é a “realidade” por trás das decisões judiciais. 15 Segundo Martin Shapiro (1963: 295), que cunhou o nome da abordagem (Political Jurisprudence), “a nova jurisprudência compartilha com todo o pensamento jurídico americano moderno [realistas e behavioristas] a premissa de que os juízes fazem mais do que simplesmente descobrir a lei. Sem essa premissa, não poderia existir nenhuma jurisprudência política, pois uma das preocupações centrais da política é o poder, e o poder implica na escolha. Se o juiz não tem nenhuma escolha entre alternativas, se ele simplesmente aplica as regras fornecidas pelas compilações jurídicas e chega a uma conclusão comandado por uma lógica jurídica inexorável, ele não seria de mais interesse político do que uma máquina da IBM que poderia substituí-lo em breve”. 16 Como descreve Stumpf (1983), a Jurisprudência Política sustenta uma visão de indivíduo distinta do behaviorismo judicial. Este último defende uma visão mais psicológica dos juízes, estudando-os como seres humanos, e relacionando seus comportamentos a um corpo teórico mais geral sobre o comportamento humano em momentos de escolha ou de decisão. A Jurisprudência Política, por sua vez, sustenta uma visão mais sociológica de indivíduo, pensando-o mais enquanto integrante de determinados grupos inseridos em instituições políticas, que, por sua vez, estão inseridas num determinado sistema governamental. 41 regras jurídicas; contudo, as análises políticas também não poderiam mais seguir fazendo economia de conceitos jurídicos (Shapiro, 1963). Seria preciso pensar nos elementos que ocupam o espaço existente entre esses dois pólos de explicação, de forma a entender e a ver a política não somente no comportamento dos juízes, mas na própria história de criação, manutenção e transformação das regras e das instituições jurídicas, vendo-as também como agências políticas governamentais (Shapiro, 1986). Em função dessa dupla preocupação, a Jurisprudência Política pode ser vista e entendida a partir de diferentes perspectivas, denotando a multidimensionalidade presente em seus estudos. Alguns a vêem como uma abordagem behaviorista por manter a centralidade e a importância das escolhas individuais (Smith, 1988); outros a vêem como uma abordagem funcionalista, dada a ênfase que seus estudos dão ao caráter funcional das regras e instituições judiciais para determinados grupos políticos (McCann, 2010); e outros, por fim, a vêem como uma clara abordagem institucionalista e precursora do Institucionalismo Histórico, dadaa recuperação histórica e política da criação das regras e das instituições judiciais, sem desconsiderar, contudo, a importância das ações estratégicas dos grupos governamentais (Gillman e Clayton, 1999; Kritzer, 2003; Gillman, 2004). Na Mobilização do Direito, por fim, a ênfase na dimensão individual e instrumental também se mantém, mas, agora, a partir de uma visão “de baixo para cima”, ou seja, não apenas considerando os valores, interesses e ações de juízes e de governantes, mas também daqueles que mobilizam o direito, os “usuários” da Justiça (McCann, 2008, 2010). Alguns vão se preocupar em traçar uma tipologia dos litigantes para verificar as ligações entre as suas capacidades (financeiras e jurídicas) e as possibilidades de instrumentalizar o direito e as cortes ao seu favor (Galanter, 1974; Epp, 1996, 1998). Outros vão se preocupar em mostrar como que os indivíduos e grupos de indivíduos instrumentalizam as cortes como mais uma arena possível (e não única e nem definitiva) de luta política pelo significado e conquista de direitos (McCann, 1994). O que se observa, no entanto, é que esses dois tipos de trabalhos sustentam visões distintas sobre o direito e sobre o Judiciário e, 42 consequentemente, sobre o sentido e resultado das suas relações com os indivíduos, recorrendo ora a questões de caráter institucional, ora a questões de caráter estrutural (Zemans, 1982, 1983; Scheingold, 2004 [1974], 2008; McCann, 2008). O primeiro tipo de estudo toma o direito como uma entidade mônada e separada dos sujeitos, que podem instrumentalizá-lo caso tenham as capacidades e as oportunidades necessárias de assim fazê-lo. Se as decisões judiciais geralmente favorecem aqueles que possuem melhores condições, não é tanto em função das preferências particulares dos juízes, mas em função dos obstáculos institucionais que se colocam ao acesso dos cidadãos com poucas condições. Estando eliminados ou contornados esses obstáculos institucionais, através de reformas de ampliação do acesso à Justiça e de diminuição das desigualdades de capacidades, os valores particulares dos juízes já não importam tanto. A pressão exercida pelas demandas individuais por direitos, associada a uma maior abertura institucional do Judiciário, leva a uma mudança nas agendas de julgamento das cortes, resultando em uma “revolução dos direitos” (Epp, 1998). O Judiciário pode, assim, produzir mudanças sociais, tendo como condição o aumento crescente das demandas dos indivíduos por direitos e uma estrutura institucional adequada para ajudá- los. As críticas centrais que foram direcionadas a esse primeiro tipo de trabalho se deram, principalmente, em função de eles enfatizarem mais a questão do acesso do que da “saída” ou dos resultados concretos das decisões judiciais, que acabam mostrando que as Cortes ou que o Poder Judiciário como um todo não são capazes de produzir mudanças sociais (Rosenberg, 1991). Não se poderia negar a importância das mobilizações e das possibilidades de sucesso judicial, mas seria um erro tomar esses ganhos judiciais como a palavra final que leva de fato a uma mudança social, ou como uma decisão que coloca um ponto final em situações de disputas na sociedade e de destituição de direitos17. Os processos judiciais seriam apenas parte de 17 Rosenberg (1991) analisa, por exemplo, o caso de uma decisão histórica (Roe vs. Wade) da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre a legalização do aborto. Segundo o estudioso, 43 um funcionamento político maior das instituições, e sobre eles agiriam constrangimentos de caráter estrutural ou sistêmico, como a falta de prerrogativas e de poderes do Judiciário que lhes possibilite de fato implementar transformações sociais. Segundo essa crítica, portanto, os ativistas e as mobilizações sustentariam uma esperança ingênua nas táticas judicias, caindo no que ficou conhecido como o “mito dos direitos” (Scheingold, 2004 [1974]). Diante disso, o segundo tipo de estudos da Mobilização do direito se coloca no limiar entre o primeiro tipo e a crítica a ele dirigida, como que dizendo “nem tanto ao céu nem tanto à terra”. Influenciados, sobretudo, pelos trabalhos do “indeterminismo” dos Critical Legal Studies (que veremos mais adiante entre as abordagens estruturalistas), esses trabalhos vão dizer que as decisões judiciais, de fato, não são o ponto final ou o fim dos conflitos e das disputas na sociedade. Mas vão argumentar que elas nem poderiam ser o ponto final dos conflitos, na medida em que o direito comporta dentro de si uma constante disputa entre princípios conflitantes, que perpassam não apenas o processo judicial, como a ordenação e a constituição da sociedade como um todo. O importante é ver, em função das mobilizações populares, de seus entendimentos e de seu histórico de lutas políticas por direitos, qual é o significado e o que representa a mobilização judicial. Seria preciso, inclusive, relativizar o que é visto como “sucesso judicial”, na medida em que apenas o ato de entrar com uma ação na Justiça já poderia representar uma conquista simbólico-concreta para os movimentos sociais, fazendo as instituições da Justiça olharem para os seus problemas, e catalizando ou impulsionando lutas e mobilizações em outras arenas políticas (McCann, 1994)18. O direito e as embora a decisão da Corte de anular leis restritivas sobre o aborto do Texas e da Geórgia tivesse resultado na alteração de diversas legislações estaduais, a contra-mobilização aumentou igual ou ainda mais fortemente no país, acirrando ainda mais os conflitos e as lutas pela criminalização do aborto. A decisão, embora impactante e histórica, não teria transformado de fato a sociedade. Ela seria apenas mais um momento no processo de luta política. 18 Ao estudar o movimento das mulheres pela igualdade salarial nos Estados Unidos, McCann (1994) fala sobre a importância da mobilização judicial para o aumento dos movimentos e dos debates políticos. Ele fala, por exemplo, de uma decisão judicial que mudou o foco de tratamento da equidade salarial, que retirou o foco individual sobre a questão para colocá-la no plano do que seria não mais uma discriminação individual, mas uma discriminação sistemática 44 instituições judiciais não seriam, assim, apenas um mito, pois teriam significado e impactos tanto simbólicos quanto concretos para os indivíduos e para os seus movimentos; o direito constituiria significados, valores e comportamentos distintos, e seria por eles constituído. Do ponto de vista metodológico, este último tipo de estudo resgata um debate travado pelos Critical Legal Studies, que levanta questões que perpassam grande parte da discussão vista anteriormente e que veremos também nos itens posteriores. Uma das questões metodológicas centrais levantadas recai sobre as diferenciações e as consequências de se tentar fazer uma análise explicativa ou uma análise exploratória. Uma análise explicativa procuraria traçar relações de causa e consequência, construir leis gerais ou mostrar o que é comum e padrão na atuação do Judiciário e nas decisões judiciais. Uma análise exploratória, pelo contrário, não demonstraria relações de causa e consequência, mas a heterogeneidade constituinte nas relações encontradas entre sociedade, política e direito. Enquanto que uma análise explicativa mostraria a existência de uma variável independente, a partir da qual se explicariam a atuação do Judiciário e os resultados das decisões judiciais, uma análise exploratória mostraria diversas variáveis em interação, de forma a mostrar as configurações resultantes possíveis (McCann, 1996). Assim,o que podemos perceber é que, diante dessa divisão entre tipos de análise, e diante dos estudos que até agora fizemos das diversas abordagens individualistas, é que à medida que os trabalhos procuram incorporar dimensões distintas de análise, que colocam questões e limites a teses puramente individualistas, eles caminham em direção à construção de análises mais exploratórias do que explicativas. Embora esse efeito da multidimensionalidade possa ser visto enquanto um problema do ponto de vista da capacidade explicativa das abordagens19, ele também pode ser visto das mulheres no mundo do trabalho. Essa decisão gerou argumentos suficientes para impulsionar os movimentos, novas leis e a mobilização judicial pelo reconhecimento desse caráter sistemático e institucional da discrimação contra as mulheres, ainda que as respostas judicias por vezes fossem “negativas” às mobilizações. 19 Quando não se tratou o Realismo Jurídico e a Jurisprudência Política a partir de uma visão padronizada, mas reconhecendo-as como abordagens altamente diversificadas, tomou-se a variedade como mais um motivo para as abordagens serem criticadas, na medida em que não 45 enquanto um ponto positivo, na medida em que não ignora questões institucionais e estruturais importantes para o debate; explora a relação entre política e Judiciário em maior profundidadade; e permite não somente o questionamento de velhas hipóteses, como também a construção de novas agendas de pesquisa e um diálogo mais aberto com outras abordagens analíticas. 1.3 – A dimensão estrutural: a função e a contradição do direito As abordagens de cunho estruturalista são aquelas que têm por unidade de análise o quadro de condições econômicas, sociais, culturais e históricas que estrutura as relações entre os indivíduos e as relações destes com as instituições. São abordagens que procuram explicar a política não mais diretamente através do jogo político entre os atores e através dos seus cálculos com relação aos constrangimentos institucionais e estruturais, mas através de uma determinada ordenação da sociedade que estabelece os termos em que o jogo político deve se dar e que as instituições devem atuar, moldando e limitando tanto uma coisa quanto a outra. Assim, tanto o comportamento dos indivíduos quanto o funcionamento das instituições, e a própria interação entre eles, seriam, em grande medida, produtos ou reflexos desse ordenamento, e acabariam funcionando, de um modo ou de outro, como elementos legitimadores (conscientes ou inconscientes) dessa determinada ordenação, nem sempre coerente, da vida em sociedade. Se aquilo que podia ser visto por alguns individualistas apenas como constrangimentos que são levados em conta nos cálculos racionais dos indivíduos ou grupos, agora é tido como o elemento estruturador e constitutivo, e por vezes contraditório, dos seus comportamentos e de suas escolhas. teriam conseguido conformar um corpo teórico e metodológico próprio, nem análises com valor explicativo e prescritivo, mas apenas descritivo (O’Brien, 1983). A ideia de “indeterminação” e de análise exploratória utilizada por McCann (1996) foi uma resposta dada pelo autor às críticas que seu trabalho de 1994 havia sofrido por parte de Rosenberg (1996), que ressaltou questões como a falta de capacidade explicativa, na medida em que McCann (1994) teria estudado apenas um caso, de maneira muito interpretativa e sem mostrar de fato as relações de causa e consequência entre uma coisa e outra, entre as decisões judiciais e o aumento das mobilizações. 46 No campo dos estudos judiciais norte-americanos, a construção de trabalhos de cunho estruturalista se deu, sobretudo, com a emergência do movimento dos Critical Legal Studies (CLSs), que se apresentou como a vanguarda de uma virada radical na forma e no conteúdo da crítica que até então vinha se fazendo ao Legalismo Jurídico (Hunt, 1986). Posicionados no ápice de uma linha crítica evolutiva ou progressiva, os CLSs seriam “a crítica da crítica da crítica” ao Legalismo Jurídico: as tentativas menos bem sucedidas de crítica viriam, sobretudo, do Realismo Jurídico; as tentativas medianamente bem sucedidas viriam dos trabalhos de cunho estruturalista, sobretudo de origem marxista, que também criticaram o Realismo; e os CLSs, por fim, constituiriam a crítica mais profunda e completa ao Legalismo Jurídico, questionando as críticas feitas tanto pelo Realismo Jurídico quanto pelo Marxismo. No que diz respeito às limitações do Realismo Jurídico para criticar o Legalismo Jurídico, os CLSs defendem que os teóricos realistas acabaram caminhando mais para uma afirmação do modelo legalista do que propriamente para o seu desmantelamento (Kairys, 1998; Gordon, 1998). Argumenta-se que, embora eles tenham mostrado que o “direito na prática” é diferente do “direito nos livros”, denunciando a realidade por trás da “mentira” e da “ilusão” que seria o processo decisório judicial e a ideia de imparcialidade do juiz, os realistas jurídicos teriam deixado de perceber o caráter problemático da própria ideia de “direito nos livros”. Para os realistas, o problema central estaria no fato de o juiz se desviar do “raciocínio jurídico objetivo” para se utilizar do “raciocínio político subjetivo”, como se de fato existisse uma metodologia jurídica ou processo objetivo que permitisse alcançar resultados “corretos”. Com isso, eles não teriam se dado conta de que o próprio “direito nos livros” congrega muitos valores conflitantes e contraditórios, no que o problema essencial da decisão judicial não seria o fato de o juiz se desviar das regras jurídicas para julgar de acordo com seus valores particulares, mas o fato de a escolha do juiz ser, inevitavelmente, uma escolha entre valores, esteja ele seguindo estritamente as regras ou suas preferências particulares, pois as regras são elas mesmas constituídas de valores e interesses (Kairys, 1998). 47 Para os CLSs, portanto, os realistas críticos não teriam visto um problema no direito em si, mas no que os homens fazem dele na prática; e com isso ainda mostrariam acreditar na existência de uma separação entre direito e política. Segundo os críticos, a escola realista continuaria presa à ideia ingênua e idealizada do “direito nos livros”, na medida em que deixariam subjacente em suas análises que, se esse direito ideal não fosse desviado e subvertido em função dos interesses diversos dos juízes, ele continuaria sendo capaz de solucionar conflitos de uma forma lógica, coerente, e objetiva. Assim, estando os realistas jurídicos ainda presos nessa ilusão, os CLSs depreendem que eles teriam sido incapazes de romper com o liberalismo, constituindo um movimento de caráter crítico “simplesmente evolutivo” (Kairys, 1998; Gordon, 1998). No que diz respeito às limitações da crítica marxista ao Legalismo Jurídico, os CLSs apontam que os trabalhos marxistas teriam alcançado um estágio avançado de “declínio científico” (Hutchinson e Monahan, 1984: 220). Embora os marxistas tivessem dado um passo à frente muito importante no quadro progressivo da crítica ao Legalismo Jurídico, eles, assim como os realistas jurídicos, também teriam deixado de perceber a totalidade do caráter problemático do próprio direito. Se os realistas não viram os problemas postos no “direito nos livros”, continuando a entender esse direito como algo dotado de lógica, coerência e, principalmente, de objetividade, os trabalhos marxistas teriam dado um passo à frente ao reconhecer que o “direito noslivros” também é dotado de valores e de subjetividade. Contudo, os marxistas continuariam a alegar que esse direito seria dotado de lógica e de coerência interna, não em função de um “bem geral” transcendental, mas, agora, em função dos interesses materiais das classes dominantes, mantendo-se, assim, uma explicação de caráter instrumentalista do direito (Kairys, 1998; Gordon, 1998). Segundo os CLSs, os marxistas ficariam “orbitando” em torno da metáfora da “base/superestrutura”, utilizando-a para dizer que o direito e suas instituições seriam, de uma forma ou de outra, determinados pela base econômica, sendo apenas reflexos dessa base. Qualquer que seja o grau de sofisticação elaborado pelos marxistas para explicar a relação posta por essa metáfora, desde a mais mecanicista ou mais ortodoxa (como Friedman, 2005 48 [1973]) até as mais heterodoxas (como Collins, 1982 e Althusser, 1985)20, eles continuariam propagando uma visão do direito liberal como algo lógico, coerente, e também funcional, deixando de perceber suas contradições internas. Como resultado, os marxistas acabariam caindo numa busca insensata pela ciência e metodologia positivista, tentando sempre traçar relações claras de causa e consequência para demonstrar o caráter lógico, coerente e funcional do direito e de suas instituições (Douzinas e Warrington, 1986). Tendo em vista essas limitações tanto do Realismo Jurídico quanto do marxismo para criticar o Legalismo Jurídico, os CLSs vão defender que uma “verdadeira” crítica procura mostrar que o direito e as regras jurídicas que regem as relações sociais numa sociedade capitalista podem ser ainda mais perversas e difíceis de serem desmanteladas, na medida em que não seria tarefa simples identificar os diversos valores postos nessas regras. O direito carregaria em si valores e princípios variados, muitas vezes contraditórios e conflitantes entre si, no que a atuação do juiz ou o ato de julgar seria um ato profundamente contraditório e indeterminado. A era moderna seria marcada pela presença contraditória e conflitante de dois princípios distintos e opostos de ordenamento da sociedade, o individualismo e o altruísmo, no que o direito comportaria ao mesmo tempo normas concretas e normas abstratas inssociáveis (Kennedy, 1976). Tais princípios não seriam meros artefatos jurídicos, meras mentiras ou ilusões, pois solucionariam, ainda que provisoriamente, os conflitos. Contudo, eles permaneceriam em constante disputa, pois sempre estariam representando visões “rivais” da associação humana (Unger, 1983). 20 Os trabalhos que citamos aqui são exemplos de trabalhos marxistas que utilizaram a metáfora da base/superestrutura para falar mais especificamente (embora não apenas) da relação entre a base econômica e o direito e suas instituições. Collins (1982), por exemplo, não apenas tratou teoricamente dessa relação, como fez um apanhado empírico de alguns casos de decisões judiciais em que a tese mecanicista entre base/superestrutura era contrariada, de forma a propor uma análise mais elaborada da metáfora. E o autor recupera, ainda, uma discussão acerca das razões pelas quais os marxistas não falam ou evitam falar em uma “teoria marxista do direito”, que seria uma precaução contra cair no que eles chamam de “fetichismo do direito”, pois o direito e suas instituições, em essência, não teriam uma história própria, mas sempre relacionada, ainda que em última instância, à base econômica da sociedade. 49 Assim, o direito e suas instituições não seriam coerentemente funcionais e legítimos a interesses e valores únicos, e nem as decisões judiciais seriam sempre a manifestação prática dessa funcionalidade ou instrumentalidade. O direito, nos livros ou na prática, “solucionaria conflitando” interesses e princípios distintos, tendo, assim, legitimidade não apenas entre as classes dominantes, mas também entre as classes dominadas. Existiria aí uma questão ideológica, de constituição de crenças e comportamentos, e de institucionalização muito mais profunda do que se pressupõe numa relação mecânica e determinista entre certos interesses materiais e o direito e suas instituições. Assim, a “função” do direito não seria tão facilmente identificada. Com isso, os objetivos da verdadeira crítica não seriam mais os da ciência, construindo respostas e procurando descobrir os interesses ou a base material por trás das regras jurídicas; seus objetivos seriam, agora, os da filosofia, fazendo desta a sua “alma”, e questionando teoricamente a própria natureza das noções de “indivíduo” e de “realidade” que os estudiosos apresentam em suas análises, de forma a distinguir um “bom conhecimento” do “mau conhecimento” (Hutchinson e Monahan, 1984: 200). O que se percebe, contudo, é que os CLSs fazem uma leitura limitada e, por vezes, injusta, tanto do Realismo Jurídico quanto dos trabalhos marxistas. Por fazerem essa leitura parcial, os críticos tendem a deixar de lado as semelhanças que compartilham com aqueles que criticam. Se voltarmos às considerações que fizemos anteriomente sobre o Realismo Jurídico, podemos ver que os seus trabalhos foram muito mais além do que julgam os CLSs. Eles não se preocuparam somente em mostrar o abismo existente entre o “direito nos livros” e o “direito na prática”, dizendo apenas que são os valores subjetivos e individuais dos juízes que corrompem um direito tido como “ideal”. Os realistas também mostraram que o próprio direito é problemático em si na medida em que suas regras também são dotadas de subjetividade e de valores, como mostraram Bentley (2008 [1908]) e Beard (2006 [1938]). É certo que não falam no aspecto central para os CLSs, que é o aspecto contraditório e não somente subjetivo e valorativo do direito. Todavia, falam na questão ideológica como constituindo uma intermediação 50 importante no processo de legitimação social dos interesses e dos valores de grupos dominantes, aspecto igualmente importante para os teóricos críticos. Nesse sentido, portanto, a crítica feita pelos CLSs se assemelha consideravelmente à crítica feita pelo Realismo Jurídico, não sendo este último apenas uma crítica frágil e inacabada posta no início da linha crítica progressiva, mas uma abordagem crítica igualmente ou semelhantemente fundamental. No que tange aos trabalhos marxistas, podemos observar que os CLSs fazem uma leitura no mínimo injusta ao nivelar diferentes desenvolvimentos marxistas sob o rótulo de “instrumentalistas”, como fizeram Douzinas e Warrington (1986). Seria injusta, principalmente, porque os próprios CLSs podem ser passíveis dessa mesma crítica, na medida em que possuem dentro de seu movimento uma ampla faixa de trabalhos reconhecida como sendo a “ala revisionista” do marxismo (Hutchinson e Monahan, 1984; Hunt, 1986). Encontram-se, por exemplo, trabalhos que afirmam que o direito, nos livros e nas práticas, é mobilizado pelas classes dominantes, que detêm o poder do Estado para favorecer seus interesses (Abel, 1998), sem fazer considerações acerca das contradições do próprio direito liberal. Encontram-se também trabalhos que procuram traçar paralelos temporais sucessivos entre cenário econômico e o direito (Gabel e Feinman, 1998). Embora esses trabalhos possam ser interpretados na chave da “crítica progressiva”, constituindo uma crítica inicial e incompleta ao Legalismo Jurídico, eles continuariam sendo e se auto-reconhecendo trabalhos dos CLSs, demonstrando a co-existência de formas de crítica distintas dentro de uma única abordagem21. No mínimo, o que podemos perceber, portanto, é que embora os CLSs não sejam uma abordagem individualista, eles se nutrem e guardam muitas semelhanças com o Realismo Jurídico, uma abordagem individualista abrangente; e embora os CLSs também não sejam detodo uma abordagem estruturalista, eles bebem amplamente das fontes marxistas e de seus 21 Segundo Hutchinson e Monahan (1984: 221), a visão dos CLSs sobre essa ala revisionista não é a de que ela faz simplesmente uma crítica distinta da crítica feita por eles, mas a de que “nem todos estavam de fato comprometidos a construir um caminho diferenciado”. A ala revisionista seria apenas “mais do mesmo”. 51 argumentos de cunho estrutural. Eles se colocavam num meio termo entre essas duas correntes (Hutchinson e Monahan, 1984). Assim, ainda que possuam algo único e essencial, como a questão do “indeterminismo” do direito, eles também compartilham diversas outras questões trazidas por abordagens que enfatizam outras dimensões de análise. 1.4 – A dimensão institucional: as regras do jogo político As abordagens que enfatizam a dimensão institucional têm por unidade de análise, como o próprio nome já diz, as instituições, tomando-as como entidades autônomas e cujas características, funcionamento, organização e história são elementos essenciais para a explicação dos fenômenos políticos. São abordagens que procuram explicar a política através da atuação das instituições ou através das formas pelas quais elas limitam as ações dos indivíduos e conformam padrões de comportamento. Aqui, as instituições não são mais vistas apenas como instrumentos construídos, moldados e mobilizados pelos sujeitos, ou apenas como instrumentos de legitimação de uma determinada ordenação ou estrutura social. As instituições, agora, também moldam os indivíduos e modificam as estruturas sociais. No campo dos estudos políticos judiciais norte-americanos, nós podemos encontrar trabalhos que enfatizam a dimensão institucional, sobretudo, na abordagem do Institucionalismo Histórico, que vem procurando não apenas resgatar e enfatizar fatores institucionais para a análise política do Judiciário, como também vem tentando realizar uma síntese analítica entre as três dimensões de análise, pensando as instituições entre as ações individuais e as estruturas sociais. Ao tentar empreender tal tarefa, os institucionalistas históricos bebem grandemente de trabalhos que já tentaram realizar essa síntese sob diferentes perspectivas. A literatura reconhece, sobretudo, a influência da abordagem da Jurisprudência Política, especialmente dos trabalhos de Martin Shapiro (Gillman e Clayton, 1999; Gillman, 2004; Kritzer, 2003; Maveety, 2003b). Tal influência é marcante na medida em que a Jurisprudência Política não apenas 52 trouxe o direito e as instituições de volta para a análise política do Judiciário, como também não descartou a importância da dimensão individual. Para a Jurisprudência Política, como vimos, a dimensão individual ou a questão da escolha individual é central, pois não haveria como negar que o juiz (por ser um poder político) faz escolhas, não podendo ser substituído por uma máquina programada para simplesmente aplicar regras (Shapiro, 1963). Contudo, como também já vimos, os estudos da Jurisprudência Política não sustentavam a mesma visão de indivíduo que o behaviorismo judicial. Se os behavioristas entendiam o individuo sob a chave do cálculo e da racionalidade, os estudiosos da Jurisprudência Política o entendiam sob a chave do social. Embora não se pudesse mais afirmar que o juiz é um mero aplicador de regras, também não se podia afirmar que ele está isolado com sua racionalidade, pois ele se insere em instituições específicas, com regras e historicidade política próprias. Ideias semelhantes a essas nós podemos ver também em outros trabalhos de cunho individualista, muito embora sua influência sobre o Institucionalismo Histórico seja menos reconhecida pela bibliografia. Através dos trabalhos de atitudinalistas como Charles Herman Pritchett e Beverly Blair Cook, principalmente, nós pudemos ver tentativas de relativizar a ideia de indivíduo puramente calculador e estratégico, não apenas levantando a questão ignorada pelos behavioristas puros sobre como se formam os valores dos juízes, como também levantando hipóteses e estudos que procuravam mostrar esses mecanismos de formação dos valores individuais, inserindo os juízes não apenas no universo institucional das cortes, como também no âmbito maior da estruturação e ordenação política e cultural da sociedade (Epstein e Matther, 2003). Se nos voltarmos especificamente para os trabalhos produzidos pelos estudiosos do Institucionalismo Histórico, a influência e semelhança tanto da Jurisprudência Política quanto dos autores atitudinalistas citados se mostram de forma ainda mais clara. Valendo-se, sobretudo, de estudos de caso e análises comparativas sobre o tema do judicial empowerment, os institucionalistas históricos procuram mostrar que a questão individual estratégica é importante, mas insuficiente para explicar tanto a atuação do 53 Judiciário quanto as transformações institucionais por ele sofridas, sendo necessário averiguar outras questões. Suas investigações empíricas sugerem que se deve olhar com mais atenção para a história e para as experiências passadas dos países estudados de forma a verificar suas influências e impactos. Sugerem também que é importante olhar para as ideias ou para os mapas conceituas existentes nesses países no momento em que as regras e os tribunais foram elaborados e transformados, de forma a mostrar que as escolhas de criação e transformação das instituições judiciais são também possibilidades histórico e socialmente construídas, e não apenas frutos de uma manipulação estratégica espontânea das regras pelos indivíduos (Hilbink, 2008b, 2009; Hilbink e Woods, 2009). Para os institucionalistas históricos, a adoção da revisão judicial, por exemplo, não seria apenas uma forma de garantir “segurança política” e “preservação econômica” dos governos que se encontram sob ameaça futura de suas oposições, assim como sugerem autores estratégicos (Ginsburg, 2003; Hirschl, 2004; Finkel, 2008). Os institucionalistas históricos vão mostrar, por exemplo, que o processo de adoção da revisão judicial pode emergir não necessariamente da iniciativa momentânea das instituições majoritárias ou dos interesses relacionados à política eleitoral, mas do próprio Poder Judiciário, através de um processo longo de transformação das ideias dos juízes acerca de sua própria função num regime de rule of law, saindo de uma ideia positivista de autolimitação para uma ideia liberal de atuação pelos direitos (Woods, 2003, 2009). Outros argumentam que a revisão judicial pode ser adotada por questões de identificação ideológica (e não de mera instrumentalização estratégica) dos partidos com os pressupostos e os impactos dessas medidas (Erdos, 2009). Outros, ainda, vão procurar mostrar que não existe apenas uma questão de defesa contra a oposição, mas uma ideia de “missão” de governos que não se encontram sob ameaça, mas que procuram traçar diretrizes específicas de desenvolvimento (Shambayati e Kirdis, 2009). Outros, por fim, olham para o desfecho dos processos de adoção da revisão judicial para ver o que os juízes fizeram com esse poder, mostrando a influência das ideias positivistas sobre a percepção dos juízes acerca de seu 54 próprio papel, fazendo-os agir e decidir de forma contrária às suas preferências políticas particulares (Hilbink, 2007, 2008a)22. Nesses trabalhos, nota-se que o papel das ideias é fundamental, na medida em que elas são fatores importantes que permitem diferenciar o modo do Institucionalismo Histórico de retomar instituições para a análise política dos modos do Legalismo Jurídico e do behaviorismo judicial padrão, aproximando- se, em grande medida, dos Critical Legal Studies. Quando os institucionalistas históricos concluem em suas pesquisas que osjuízes “atuam conforme as regras”, eles não estão dizendo com isso que os juízes são meros aplicadores das leis. Ou seja, eles não estão retirando o caráter político da atuação dos juízes. O que esses estudiosos estão fazendo é acrescentando uma recuperação da história das regras em discussão, não apenas para mostrar os valores políticos e o jogo político em torno delas, mas também para mostrar o seu impacto constitutivo sobre as concepções, valores e comportamentos dos juízes. Dessa maneira, são trabalhos que, assim como os estudos da Jurisprudência Política e dos atitudinalistas não-padrões, tensionam diferentes dimensões de análise de forma constante, ora pendendo mais para a questão estratégica, ora mais para a questão estrutural, mas agora com um olhar e uma teorização ainda mais forte sobre a importância de se verificar o contexto histórico em que as ideias e as instituições se formaram e se transformaram (Pierson, 2004; Steinmo, 2008). O recurso à história das instituições judiciais, bem como dos interesses individuais dos juízes e do quadro conceitual de ideias, passa a ser uma “palavra de ordem”, pois tudo teria uma historicidade. Ou seja, esses três elementos tem uma trajetória percorrida desde o seu surgimento; e essa trajetória conta muito dos entrelaçamentos possíveis entre eles, e das possibilidades de mudança nesse entrelaçar ao longo do tempo. Seria o que seus autores reconhecem como sendo o seu conceito-chave, que é o conceito de “dependência da trajetória” (Thelen, 1999; Hall e Taylor, 2003; 22 Woods (2003, 2009) se voltou para o estudo da revisão judicial em Israel; Erdos (2009) no Reino Unido e no Canadá; Shambayati e Kirdis (2009) na Turquia; e Hilbink (2007, 2008a) no Chile. 55 Pierson, 2004; Bennett e Elman, 2006; David, 2007): o que os valores, as instituições e as estruturas são hoje dependem do que eles foram ontem e assim por diante. Assim, a história não é uma cadeia de eventos independentes, que podem ser buscados como ilustrações de teses e hipóteses. Levar a história a sério significa se manter sempre cético com relação à noção de uma variável ou dimensão explicativa independente. Reconhecer a importância da história sugere uma preocupação explícita de que diversas dimensões importantes podem, e com frequência, formar umas as outras, numa interdependência constante e mutável (Steinmo, 2008). Do ponto de vista metodológico, os trabalhos do institucionalismo histórico enfrentam as mesmas críticas que as abordagens com as quais eles se assemelham. Por tentarem mobilizar diversas dimensões de análise e métodos que não permitiriam generalizações científicas, suas conclusões acabariam caminhando para um ecletismo a-teórico, na medida em que não conseguiriam alcançar explicações de caráter generalizado, mas apenas de caráter pontual. Com isso, seriam trabalhos mais exploratórios do que explicativos. Como já vimos, contudo, as análises de caráter exploratório apresentam possibilidades de estudos em profundidade, que ajudam não apenas a mostrar as limitações das análises explicativas de causa e consequência e unidimensionais, como também constituem um verdadeiro “celeiro” de hipóteses de pesquisa de âmbito geral. Ou seja, são pesquisas que abrem caminho para outras, à medida que mostram os limites do que já foi feito e do que ainda está por fazer. 1.5 – As análises do Poder Judiciário no Brasil e o despertar da multidimensionalidade Como aponta Andrei Koerner et al (2013), é possível reconhecer três grupos distintos de análise sobre o Poder Judiciário na Ciência Política brasileira. O primeiro grupo volta-se para uma análise do modelo institucional 56 do Poder Judiciário após a Constituição de 1988, reconhecendo um processo de “judicialização da política” ou de “protagonismo do Poder Judiciário”, para o qual os trabalhos vão direcionar críticas negativas ou positivas. O segundo grupo de estudos, por sua vez, volta-se para a realização de pesquisas empíricas que procuram mostrar os limites das teses da judicialização da política, não em termos conceituais, mas em termos concretos a partir de análises de decisões judiciais e de suas relações com o direcionamento político do Poder Executivo federal. O terceiro grupo, por sua vez, retoma a tese da judicialização, mas para ressaltar os papéis políticos em que são investidos os tribunais nas novas democracias. Nós ainda reconhecemos um quarto conjunto de estudos, no qual se encontram trabalhos de outros estudiosos que vêm questionando a tese da judicialização não somente em termos aplicativos para o caso brasileiro, mas em termos conceituais-analíticos. Segundo o primeiro grupo de estudos, o pós-1988 foi marcado pelo processo de “judicialização da política” ou de um crescente “protagonismo do Poder Judiciário”, processo este que foi visto, por alguns estudos, como negativo, e, por outros, como positivo para a democracia brasileira. Os estudos que vêem a judicialização da política como negativa para democracia brasileira o fazem sob uma perspectiva fortemente normativa e institucional, na medida em que analisam o Poder Judiciário e sua atuação com base numa visão legalista acerca do direito e do que seria o papel “adequado” dos juízes e do Judiciário num sistema democrático. Para esses estudos, o Poder Judiciário numa democracia possuiria duas atribuições centrais: controlar e equilibrar os outros Poderes políticos para evitar o abuso de poder e assim garantir as liberdades individuais dos cidadãos, não interferindo em temas sociais e políticos. Com a Constituição de 1988, esse modelo “adequado” não apenas não teria sido seguido, como teria sido substituído por outro modelo institucional, que atribuiu poderes excessivos ao Poder Judiciário, permitindo-lhe interferir não apenas no abuso de poder para a defesa dos direitos individuais, como 57 também, e principalmente, em políticas governamentais, atuando no jogo político partidário e interferindo em questões de políticas públicas. Esse “empoderamento judicial” seria negativo na medida em que daria abertura institucional para a utilização do Judiciário por todo e qualquer tipo de demanda, inchando as varas e tribunais de processos; e daria abertura para o ativismo judicial ou para a “atuação política” dos juízes, levando-os a se posicionarem sobre políticas governamentais e políticas públicas e, com isso, passando por cima do processo político democrático majoritário (Sadek, 2004). Os resultados desse processo logo se mostrariam na ineficiência e na incapacidade institucional do Poder Judiciário de atuar para a cidadania, conformando uma instituição morosa e injusta ou o que chamam de uma instituição em “crise” (Sadek, 2001, 2004). A saída ou solução para a crise, segundo esses estudos, estaria claramente numa mudança desse modelo institucional trazido em 1988, fazendo as reformas necessárias para que se construam mecanismos de melhoria na eficiência dos tribunais e de controle sobre os juízes, evitando, assim, o ativismo judicial. Por seu turno, os estudos que vêem o fenômeno da judicialização da política no Brasil como positivo, o fazem a partir de uma perspectiva macro acerca das mudanças nas democracias contemporâneas. A utilização do Judiciário para solucionar cada vez mais tipos distintos de problemas políticos e sociais seria uma demonstração de que a democracia estaria passando de sua forma majoritária para a forma da participação ampliada. Assim, o fortalecimento ou o protagonismo do Judiciário em temas sociais e políticos seria positivo, na medida em que constituiria mais um espaço de participação e de possibilidade de efetivação de direitos (Vianna et al, 1999). O segundo conjunto de estudos, por sua vez, vai olhar com desconfiança para as tesesdo primeiro conjunto, apontando que no Brasil não ocorreu o fenômeno da judicialização da política. São estudos que vão tentar especificar mais a atuação do Judiciário no pós-1988 para verificar se ocorreu de fato a judicialização da política ou se os juízes de fato interferiram em questões políticas governamentais. O que de mais interessante essas pesquisas fazem é mostrar os limites do argumento puramente formal ou 58 institucional. Eles buscam mostrar, através de uma análise mais detalhada, que não basta a promulgação de um modelo institucional de atuação (como o que foi colocado pela Constituição de 1988) para que os juízes atuem de acordo com ele. Haveria neste entremeio um elemento estratégico, que pode ser visto, sobretudo, nos resultados heterogêneos das decisões judiciais, ou nos resultados que não interferem em políticas governamentais. Assim, embora a Constituição de 1988 tenha conferido muitos instrumentos e poderes para os juízes interferirem politicamente, os juízes poderiam certamente escolher se utilizar ou não desses poderes, judicializando ou não judicializando a política (Castro, 1997; Carvalho, 2005; Pacheco, 2006). O terceiro conjunto de estudos, por sua vez, compartilha da tese da judicialização da política do primeiro conjunto, mas não sob o ponto de vista formal negativo ou positivo, mas sob o ponto de vista estratégico. São estudos que vão enfatizar que, nas novas democracias como o Brasil, o papel do Judiciário é investido politicamente, ou seja, ele tem caráter político, tendo independência para atuar e decidir sobre políticas públicas. Ele não é o Poder Judiciário descrito pelas avaliações negativas. O Poder Judiciário faz parte do sistema político e é utilizado estrategicamente, dada a sua independência, por atores políticos em seus embates, que levam ao Judiciário aquilo que não podem e que não querem resolver em suas esferas de poder, ou aquilo que querem retardar ou deslegitimar. Com isso, a atuação política dos tribunais teria um alto grau de heterogeneidade, variando de acordo com os temas julgados e com o jogo político entre os atores (Taylor, 2008). O quarto conjunto que identificamos, no entanto, congrega trabalhos que não apenas tecem críticas à tese da “judicialização da política” enquanto conceito analítico, como também procuram trabalhar de forma menos unidimensional ao pensar o Poder Judiciário, conciliando o argumento normativo com o argumento estratégico e, com isso, configurando um quadro mais multidimensional para estudar o Poder Judiciário brasileiro (Maciel e Koerner, 2002; Freitas, 2010). Em primeiro lugar, esses estudos apontam que tanto as teses normativistas quanto as teses estratégicas não consideram diversos pontos ou 59 discussões teóricas sobre a relação entre direito, política e sociedade que são importantes para a análise de decisões judiciais, tomando-as ou como os reflexos de regras jurídicas previamente estabelecidas ou como objetos instrumentalizáveis pelos juízes e outros atores políticos para atingirem objetivos específicos. Para o quarto conjunto de estudos, essas duas coisas não se separam a não ser enquanto linguagem, pois as normas jurídicas são políticas traduzidas em linguagem jurídica. Assim como um olhar normativo deve considerar o aspecto político das normas jurídicas, um olhar estratégico deve considerar o aspecto jurídico das estratégias políticas, não fazendo “economia de conceitos jurídicos”, como apontou Shapiro (1963) ao defender a importância da abordagem da Jurisprudência Política. É preciso sempre considerar que a decisão judicial “ao mesmo tempo em que dá ganho de causa a um sujeito, determina o significado da norma geral para o caso particular” (Koerner et al, 2013: 84). Em segundo lugar, esses novos estudos apontam que uma análise política do Judiciário precisa considerar que a tarefa de resolução de litígios, a tomada de decisão judicial, é apenas um dos papéis que são atribuídos ao Poder Judiciário e aos juízes nas democracias constitucionais contemporâneas. É preciso entender que a decisão judicial é mais um momento da produção normativa ou da determinação do significado das normas e de afirmação da autoridade política que a está fazendo, no que a contraposição entre a forma diática de resolução de conflitos no legislativo com a forma triádica de resolução de conflitos no Judiciário pode até ajudar a enxergar posicionamentos políticos, mas constitui ferramenta limitada de análise, pois ainda há muito processo de produção normativa antes e depois da decisão judicial. Em terceiro lugar, apontam que é preciso considerar que as relações entre decisões judiciais, normas jurídicas e sociedade não se definem em termos instrumentais, em relações de causa e consequência ou comando e obediência. É preciso considerar o aspecto constitutivo do direito e da construção do mundo social, na medida em que as normas jurídicas fazem parte da ordenação das relações sociais e das ideias do que os indivíduos 60 consideram justo dentro de uma determinada formação social. As regras não estão disponíveis como vasos vazios a serem preenchidos pelos interesses. Por fim, esses estudos também apontam que é preciso pensar em novos modelos de análise para se pensar o Poder Judiciário em detrimento dos tão utilizados termos da “judicializaçao da política” ou do “ativismo judicial”, que, além de não servirem para explicar o caso brasileiro, tem problemas conceituais e teóricos de grandes dimensões, na medida em que separam política e direito e mantem uma visão idealizada e formalista sobre este último. Para o caso brasileiro, seria preciso, antes de tudo, adotar uma perspectiva histórica e empírica, de forma a incentivar a pesquisa de outros períodos anteriores a 1988, de forma a levantar mais elementos de análise, sobretudo institucionais e sistêmicos, para pensarmos o formato institucional que temos hoje e o papel político do Judiciário e dos juízes. São estudos que apontam a necessidade de mais pesquisas exploratórias sobre o Poder Judiciário brasileiro, de forma a desfazer a dualidade que vem se criando com o uso recorrente do termo da judicialização da política. 1.6 – Conclusões: “Let a hundred flowers bloom” Buscamos mostrar através dessa breve exploração bibliográfica que é possível fazer uma leitura mais abrangente e menos padrão das diversas abordagens de análise presentes no debate norte-americano sobre o Poder Judiciário, apontando semelhanças e pontos de contato que se dão especialmente em função da maneira pela qual as abordagens mobilizam as diferentes dimensões de análise. Vimos que praticamente todas as abordagens individualistas, até mesmo as behavioristas judiciais mais padrões, apresentaram trabalhos que não se contentam com a explicação centrada na escolha e nas preferências políticas individuais, buscando levantar e responder novas questões, e assim adentrando em dimensões institucionais e estruturais de análise. Vimos também que os trabalhos de cunho estruturalista, que tendem a não dar autonomia para o indivíduo, acabaram compartilhando visões instrumentalistas 61 das instituições, dando importância aos interesses individuais e, assim, aproximando-se de pressupostos de abordagens de cunho individualista. Vimos, por fim, que o despertar de recentes trabalhos empíricos de cunho institucionalista nos mostraram a importância e o legado das análises de caráter exploratório e não somente explicativo, ou seja, daqueles individualistas, estruturalistas e institucionalistas que romperam as margens de suas abordagens e desenvolveram noções mais abrangentes de indivíduo, de instituição e de estrutura. Embora reconheçamos que os trabalhos que se aventuram pelo caminho da multidimensionalidade ou da análise exploratória apresentam limites claros do ponto de vistada ciência positivista, não produzindo teorias, leis gerais e nem relações claras de causa e consequência, tais críticas parecem um tanto deslocadas ou sem sentido na medida em que não se questiona se esses trabalhos tinham por objetivos os nortes traçados pela ciência positivista. Mesmo que eles assim almejassem, o reconhecimento da importância teórica de análises exploratórias, como estudos em profundidade e das análises de caso, já é uma discussão bastante desenvolvida, no que o debate em termos de oposição (como fez Gerald Rosenberg ao criticar o trabalho do Michael McCann), chega a parecer ultrapassado. É importante reconhecer que ambos tipos de análise, unidimensional e multidimensional, explicativa e exploratória, são passos importantes e ao mesmo tempo limitados para o entendimento do que é, do que faz e de que como atua o Poder Judiciário. Mas o que esse pequeno estudo procura argumentar é que, embora as análises multidimensionais e exploratórias tenham limitações do ponto de vista científico positivista, elas são demonstrativas de que a troca teórica e metodológica entre as diferentes abordagens é inevitável, levando-as a sair de esquemas teóricos e metodológicos rígidos e fechados. 62 Capítulo 2 – Um panorama das políticas governamentais de erradicação do trabalho escravo rural 2.1 – Introdução O objetivo deste segundo capítulo é o de apresentar um panorama das políticas de erradicação do trabalho escravo rural, de forma a mostrarmos a existência de períodos que se diferenciam pelas ações e políticas implementadas, bem como pelas avaliações e críticas feitas às medidas governamentais implementadas ao longo dos anos. A ideia central é a de descrevermos as definições e caracterizações sobre o trabalho escravo feitas por cada política, as suas aproximações e distanciamentos com relação a outros entendimentos existentes, e de que maneira elas se modificam ao longo do tempo. Trata-se, sobretudo de um exercício exploratório que nos permite excursionar dentro do tema escolhido e sugerir a importância de determinadas questões para pensarmos posteriormente na atuação do Poder Judiciário em cada caso analisado. Defendemos a tese de que, do ponto de vista político institucional ou formal, é possível observar uma linha “evolutiva” no quadro das políticas governamentais que vem sendo implementadas desde meados dos anos 1980 até os dias de hoje para a erradicação do trabalho escravo rural. É possível identificar a existência de períodos distintos, cada qual constituindo “um passo à frente” na expansão e fortalecimento do dos direitos de cidadania no ambiente rural brasileiro. É possível observar a criação e a implementação de medidas institucionais cada vez mais integradas, estruturalmente fortalecidas e amplamente apoiadas por governantes e diversos setores da sociedade. É possível observar que a erradicação do trabalho escravo torna-se gradualmente o norte e a prioridade não somente dos governos, mas das instituições estatais (do Executivo, Legislativo e Judiciário) e da sociedade brasileira como um todo, no que a defesa da cidadania e da dignidade humana 63 é encontrada tanto na fala quanto nos diferentes projetos e propostas, como num grande uníssono ou apelo nacional. Contudo, também podemos observar que esse quadro institucional “evolutivo” “co-avança-retrae” com um acirrado jogo político que adiciona diálogos e atuações truncadas entre diferentes atores e seus respectivos “projetos” de cidadania para o campo. Esse jogo político, por sua vez, expressa ou demonstra as contradições historicamente presentes na expansão dos direitos de cidadania, especialmente dos direitos trabalhistas, no ambiente rural brasileiro. Assim, podemos ver um entrelaçar constante entre aspectos institucionais, aspectos ligados aos interesses particulares, e aspectos estruturais. Para mostrar isso, este capítulo está dividido em quatro partes. Primeiramente, descrevemos o período entre 1970 e 1984, no qual se registram as primeiras denúncias de trabalho escravo e as avaliações sistêmicas e estruturais feitas pelo clero progressista sobre o projeto desenvolvimento do regime militar e o avanço do capitalismo no campo. Num segundo momento, descrevemos o período entre 1985 e 1994, no qual surgem as primeiras políticas ou as políticas embrionárias voltadas para a questão do trabalho escravo no contexto político da abertura política e da transição democrática. Num terceiro momento, descrevemos o período entre 1995 e 2002, marcado, sobretudo, pelo reconhecimento público do trabalho escravo e pelo comprometimento governamental frente ao cenário internacional e frente às pressões internas. Na última parte, descrevemos o período entre 2003 e 2012, conformado pelo avanço de políticas institucionalmente integradas e fortalecidas e pelas pressões e embates em torno da caracterização do que é o trabalho escravo. 2.2 – Primeiras denúncias e sua visão sistêmica (1970-1984) Entre o início dos anos 1970 e fins dos anos 1980, o quadro é marcado, sobretudo, pelo encaminhamento das primeiras denúncias de trabalho escravo rural, e pelo acirramento das lutas políticas no campo. Em 10 de outubro de 64 1971, dom Pedro Casaldáliga, em sua carta pastoral “Uma Igreja na Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social”, denuncia as formas pelas quais o regime militar combinava de maneira perversa seu projeto nacional desenvolvimentista com políticas de incentivos fiscais para o setor privado, que levavam a uma crescente concentração de terras e a uma consequente expulsão e marginalização de grandes massas de camponeses. Entre os diversos problemas que Casaldáliga identifica como sendo os resultados da expansão do capitalismo e da agropecuária sobre a região amazônica, ele dedica uma seção especial de sua carta para falar da questão da mão-de-obra que era empregada na derrubada da mata para a construção de pastos e plantações, descrevendo de forma ampla e detalhada a situação e as condições de vida e de trabalho dos que ele chamou de “peões escravos”: “o método de recrutamento é através de promessas de bons salários, excelentes condições de trabalho, assistência médica gratuita, transporte gratuito, etc. (...). Os peões, aliciados fora, são transportados em avião, barco ou pau-de-arara para o local da derrubada. Ao chegar, a maioria recebe a comunicação de que terão que pagar os gastos da viagem, inclusive transporte. E já de início têm que fazer suprimento de alimentos e ferramentas nos armazéns da fazenda, a preços muito elevados. (...). Para os peões não há moradia. Logo que chegam, são levados para a mata, para a zona da derrubada, onde tem que construir, como puderem, um barracão para se agasalhar, tendo que providenciar sua própria alimentação. As condições de trabalho são as mais precárias possíveis. (...). Os medicamentos quase sempre são insuficientes e em muitas vezes pagos, inclusive amostras grátis. Por tudo isto, os peões trabalham meses, e ao contrair malária ou outra qualquer doença, todo o seu saldo é devorado, ficando mesmo endividados com a fazenda. (...). Esse trabalho pesado, e nestas condições, é executado por gente de toda idade, inclusive menores. (...). Não há com os peões nenhum contrato de trabalho. Tudo fica em simples combinação oral com o empreiteiro. Os pagamentos são efetuados ao bel-prazer das empresas. Muitas vezes, usa-se o esquema de não pagar, ou pagar só com vales, ou só no fim de todo trabalho realizado, para poder reter os peões. (...). Muitos, doentes, sentindo-se sem forças e temendo morrer naquelas condições, não conseguindo receber o que lhe é de direito, fogem para sobreviver. Outros ainda fogem por se verem cada vez mais endividados. E nestas fugas são barrados por pistoleiros pagos para tanto” (Casaldáliga, 1971: 19-20). O que podemos notarnesta descrição, bem como no teor da carta escrita por dom Pedro Casaldáliga é que ela abrange um conjunto amplo de 65 características que ajudam a configurar não apenas as situações de exploração extrema, mais difíceis de negar (como as que se dão através do não- pagamento e do uso da violência física e vigilância armada), mas também as situações “propiciadoras” dessa exploração extrema, que vulnerabilizam e submetem, tanto quanto a violência, os trabalhadores rurais ao trabalho escravo (como o seu aliciamento e deslocamento para locais ou estados muito distantes de sua residência, as condições degradantes de habitação, alimentação e de saúde, e o endividamento com o fazendeiro). Para Casaldáliga, o uso da violência física claramente aparece como um elemento importante para a caracterização do trabalho escravo rural na contemporaneidade; porém, a sua ausência de modo algum descaracteriza a situação enquanto tal. Ela é “apenas” o instrumento mais extremo e visível da expansão do capitalismo aliado ao latifúndio. Essa caracterização feita por Casaldáliga sobre a situação da exploração do trabalho rural e sua denominação como “trabalho escravo” marcou uma diferenciação muito importante frente a outras caracterizações e denominações já existentes e formalmente reconhecidas pelas instituições políticas brasileiras. Tal importância se deu, sobretudo, por ela ter “holofotizado”, no momento de ápice do projeto agrário do regime militar, as contradições perversas desse projeto, e por ter iniciado uma delimitação de entendimentos e posicionamentos políticos acerca do trabalho escravo rural que se acirram até os dias de hoje. De 1940 até a publicação da carta-denúncia de dom Pedro Casaldáliga em outubro 1971, podemos encontrar cerca de 8 medidas institucionais brasileiras relacionadas às condições de trabalho do trabalhador rural e 5 relacionadas especificamente à questão do trabalho escravo. 66 Tabela 1 - Medidas Formais para o Trabalho Rural e para o Trabalho Escravo (1940-1969) Ano Medida 1940 Art. 149 do Código Penal estabelece a pena de 2 a 8 anos de reclusão para quem "reduzir alguém a condição análoga à de escravo" 1957 Ratificação da Convenção nº 11 da OIT (Direito de Sindicalização na Agricultura) Ratificação da Convenção nº 12 da OIT (Indenização por Acidente de Trabalho na Agricultura) Ratificação da Convenção nº 29 da OIT (Trabalho Forçado ou Obrigatório) Ratificação da Convenção nº 99 da OIT (Salário Mínimo na Agricultura) Ratificação da Convenção nº 101 da OIT (Férias Remuneradas na Agricultura) 1963 Estatuto do Trabalhador Rural 1965 Ratificação da Convenção nº 110 da OIT (Condições de Emprego dos Trabalhadores em Fazendas) Ratificação da Convenção nº 105 da OIT (Abolição do Trabalho Forçado) 1966 Promulgação da Convenção sobre a Escravatura de 1926 Promulgação da Convenção Suplementar sobre a Abolição da Escravatura de 1956 1969 Ratificação da Convenção nº 117 da OIT (Objetivos e Normas Básicas da Política Social) 1971 Criação do PRORURAL (Programa de Assistência Técnica e Extensão Rural) e de sua agência executiva, o FUNRURAL (Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural) O que podemos observar é que a maioria dessas medidas, em conjunto, ajuda a conformar uma diferenciação entre trabalho escravo e trabalho forçado ou obrigatório, direta ou indiretamente. O trabalho escravo propriamente dito seria a antiga forma de mão-de-obra do sistema escravista, chancelada por um ordenamento jurídico, ainda que ele pudesse ser encontrado até início do século XX e não mais amparado juridicamente. O trabalho forçado ou obrigatório, por sua vez, seria o que de fato encontraríamos na contemporaneidade, tendo por fator essencial não mais um “sistema escravista”, mas ocorrências “particularizadas”, embora massivas, a serem enfrentadas com um avanço progressivo dos direitos do trabalhador. Seriam situações extremas de violação das leis e normas trabalhistas, nas quais um indivíduo se vê forçado ou obrigado a realizar um trabalho contra a sua vontade, sob imposição, ameaça ou violência. Vejamos isso dentre as medidas por nós listadas. 67 As Convenções nº 29 e nº 105 da OIT, ratificadas pelo Brasil em 1957 e 196523, assim como a “Convenção sobre a Escravatura de 1926”, promulgada no país em 196624, falam justamente em “trabalho forçado ou obrigatório”, até então caracterizado como “todo trabalho ou serviço exigido de um indivíduo sob ameaça de qualquer penalidade e para o qual ele não se ofereceu de espontânea vontade”. Não se trata de um “sistema” de trabalho forçado, mas de situações em que ele ocorre, e contra as quais os países signatários das convenções devem promover medidas para a sua erradicação completa25. Sendo central a questão da voluntariedade, ou seja, sendo o trabalho forçado somente o trabalho para o qual o trabalhador não se apresentou por livre e espontânea vontade, mas obrigado ou sob ameaça, os países signatários devem tomar todas as medidas necessárias, como as estabelecidas pelas Convenções de nº 11, 12, 99, 10126, 11027 e 11728 da OIT e pelo “Estatuto do 23 A convenção nº 29 foi aprovada pela OIT durante a 14ª Reunião da Conferência Internacional do Trabalho, em Genebra, em 10 de junho de 1930; e entrou em vigor no plano internacional a partir de 01 de maio de 1932. No Brasil, foi aprovada através do Decreto Legislativo Nº 24, de 29/05/1956, do Congresso Nacional; ratificada em 25/04/1957; promulgada através do Decreto 41.721, de 25/06/1957; e passou a ter vigência nacional a partir de 25/04/1958. A convenção nº 105 foi aprovada pela OIT durante a 40ª Reunião da Conferência Internacional do Trabalho, em Genebra, em 05 de junho de 1957. E ela entrou em vigor no plano internacional a partir de 17/01/1959. Ela foi aprovada no Brasil através do Decreto Legislativo Nº 20, de 30/04/1965, do Congresso Nacional. Foi ratificada em 18/06/1965, e foi promulgada através do Decreto 58.822, de 14/07/1966. Passou a ter vigência nacional a partir de 18/06/1966. 24 Promulgada pelo Decreto n. 58.563, de 1º de junho de 1966. 25 A convenção nº 29 era mais restritiva que a de nº 105. Ela não proibia por completo e em todas as suas formas a utilização de trabalho forçado ou obrigatório, mas apenas descrevia os casos e as condições para que ele fosse utilizado, de modo a não ocorrerem “excessos” nessa exploração. Ele poderia ser aplicado por autoridades públicas sobre indivíduos condenados e julgados pela Justiça, desde que justificada a finalidade pública e coletiva do serviço, que não ultrapassasse o período de 60 dias dentro de um ano, que houvesse remuneração, que as horas de trabalho e a remuneração se dessem nas mesmas bases de um trabalhador livre, que houvesse indenização por acidente de trabalho, que o trabalhador não fosse transferido para lugares distantes e muito diferentes de seu habitat, e caso assim ocorresse que as autoridades propiciassem todas as condições de adaptação. Já a convenção nº 105 proibia toda e qualquer forma de trabalho forçado ou obrigatório. 26 Ratificadas pelo Brasil através do Decreto 41.721, de 25 de junho de 1957. 27 Promulgada pelo Brasil através do Decreto 58.826, de 14 de julho de 1966. 28 Promulgada pelo Brasil através do Decreto 66.496, de 27 de abril de 1970. 68 Trabalhador Rural” de 196329, para evitar o abuso de poder por parte dos empregadores. O interessante a se notar nessas medidas, sobretudo nas Convenções nº 29 e 105, e na Convenção sobre a Escravatura de 1926, é que elas mostram a importância de se regularizar algumas situações descritas por dom Pedro Casaldáliga. Elas dizem, por exemplo, que é preciso regularizar os contratos de trabalho, evitar os deslocamentos dos trabalhadores para longe de suas residências, garantir e regularizarpagamentos e salários, e garantir condições de habitação, alimentação e saúde adequadas, ainda que nada fosse realizado em termos concretos. Contudo, diferentemente de Casaldáliga, essas Convenções apontam que a ausência ou a precariedade dessas condições de trabalho são apenas “propiciadoras” e não “características” de trabalho forçado e, muito menos, de trabalho escravo. O que é determinante para a configuração de um quadro de trabalho forçado é a presença da violência, da imposição, da exigência de trabalho de um indivíduo contra a sua vontade. Para Casaldáliga, no entanto, as condições “propiciadoras” podem, por si mesmas, caracterizar um quadro de imposição, pois elas são tão ou mais mais capazes que a violência de retirar dos indivíduos sua autonomia e capacidade de escolha de um determinado trabalho. Aqui, a ideia de que os trabalhadores são livres para escolher um trabalho é contestada, dadas as condições de miséria, de marginalidade e de extrema necessidade, que reduzem as opções de sobrevivência para esses trabalhadores. Se nos voltarmos mais atentamente para o “Estatuto do Trabalhador Rural” de 1963, podemos extrair algumas considerações importantes acerca das condições propiciadoras. Do ponto de vista do avanço dos direitos dos trabalhadores rurais, o Estatuto pode ser considerado um avanço formal significativo, na medida em que foi o documento que regulamentou, pela primeira vez, as relações de trabalho no setor agrícola, reconhecendo direitos trabalhistas aos assalariados rurais, e fixando as condições do exercício do trabalho agrícola e proteções especiais aos trabalhadores (Wanderley, 2013). 29 Lei nº 4.214, de 2 de março de 1963. 69 Contudo, do ponto de vista do que significou a “proletarização” no campo, e do ponto de vista do que o Estatuto deixou de regular, ele se apresenta como um atestado de entendimentos e posicionamentos parciais acerca da exploração do trabalhador rural e da expansão dos direitos de cidadania no campo. Como nos mostra Margarida Maria Moura (1988), por exemplo, a regulamentação jurídica e a defesa judicial do trabalhador rural assalariado abriu um caminho de cidadania contraditório e perverso para uma grande massa de camponeses30. O projeto desenvolvimentista do regime militar, que incluía a expansão das fronteiras agrícolas através de incentivos fiscais para a iniciativa privada, resultou na saída ou na expulsão, sobretudo, de agregados e de posseiros do campo. Nesse quadro, as possibilidades que se abriram para esses camponeses foram duas, ficar ou sair das terras em que trabalhavam, possibilidades estas que, para Moura, levaram ambas a uma situacão crescente de marginalização e precariedade sistêmicas. Para aqueles que ficavam, dois caminhos eram possíveis: ficar nas terras sob um acordo informal, oral, com o proprietário, mantendo relações de favor para com ele e, assim, mantendo-se sob uma situação de insegurança, ao passo que podiam ser novamente expulsos em casos de mudança de proprietário e de rompimento do acordo feito; e o outro caminho seria ficar nas terras, mas, agora, sob a chancela jurídica de um contrato de trabalho, em que o camponês, inevitavelmente, acaba por abdicar de seus direitos sobre a terra para reivindicar acesso aos seus direitos enquanto trabalhador rural assalariado. Para aqueles que saíam, também se abriam dois caminhos: sair, mas tentar conseguir através de um processo judicial uma pequena indenização pelo tempo de serviço prestado ao proprietário, e depois tentar conseguir um pedaço de terra e sobreviver sob condições precárias, dada a falta de incentivos estatais e a concorrência desleal com os grandes produtores rurais financiados pelo Estado; e o outro caminho seria deixar a terra sem qualquer 30 A autora estuda os conflitos de terra e de trabalho vivenciados pelos trabalhadores rurais do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais nos anos 1970 e 1980. 70 direito, ressarcimento ou indenizacão, ficando submetido à busca por trabalhos temporários e precários, conformando o que ficou conhecido por trabalhadores “bóias-frias”, trabalhadores volantes, ou como chamou Casaldáliga, por “peões escravos”. Diante desses diferentes caminhos, especialmente para aqueles que ficaram nas fazendas sob contrato de trabalho e para aqueles que saíram em busca de trabalhos temporários, o que significava o “Estatuto do Trabalhador Rural” de 1963? Para aqueles sob contrato de trabalho, o Estatuto, como já apontamos, tinha um sentido dúbio. Ele constituía o documento oficial da transformação do camponês no que José Graciano da Silva (1981) chamava de “proletário rural”, no tipo de trabalhador necessário às novas exigências do processo produtivo. Essa transformação, formalizada pelo Estatuto em 1963, seria, alguns anos depois, reafirmada e complementada pelo regime militar, com a criação, em maio de 1971, do “Programa de Assistência Técnica e Extensão Rural”, o PRORURAL, juntamente com sua agência executiva, o “Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural”, o FUNRURAL31, poucos meses antes da publicação da carta pastoral de dom Pedro Casaldáliga. Como aponta Peter Houtzager (2004), com esse programa o regime militar consolidava seu projeto agrário, incorporando a legislação e a justiça trabalhista, bem como a sindicalização dos trabalhadores rurais, como instrumentos e estratégias centrais de integração nacional e de fortalecimento do Estado no campo, desmobilizando ou fragmentando a luta por terras. Por outro lado, no entanto, o Estatuto de 1963 e, especialmente o PRORURAL e o FUNRURAL de 1971, acabavam se apresentando como mecanismos ou instrumentos importantes de defesa dos direitos dos trabalhadores rurais frente aos proprietários empregadores, ainda que isso fosse, ao fim, funcional para o projeto agrário do regime militar. O Estatuto estabelecia regras sobre a remuneração e sobre o salário mínimo, de forma a garantir o pagamento em dinheiro e evitar as relações com base no favor; 31 Instituídos pela Lei Complementar nº 11, de 25 de maio de 1971. 71 estipulava que a jornada máxima de trabalho não deveria ultrapassar oito horas diárias; garantia o repouso semanal e as férias remuneradas; e estabelecia normas de segurança no trabalho. O PRORURAL e o FUNRURAL, por seu turno, e de forma efetiva, implementavam uma série de benefícios sociais, como pensões por aposentadoria, assistência médica e dentária, pensões para aposentados e deficientes físicos, ajuda financeira para funerais e, mais importante, não exigia a contribuição direta dos trabalhadores ao programa, recorrendo a um mecanismo de transferência da área urbana para a área rural. Assim, era apresentado aos camponeses, agora “trabalhadores rurais assalariados”, um “jogo” que eles não teriam como se recusar a jogar, dados os custos ainda maiores da sua não adesão, ainda que as medidas apresentassem limitações mesmo do ponto de vista da defesa dos direitos dos trabalhadores. O Estatuto de 1963, por exemplo, mantinha a possibilidade do empregador realizar descontos dos salários dos trabalhadores para gastos com moradia e com alimentação32. Tratava-se de uma limitação na medida em que a possibilidade do desconto salarial, como denunciada por Casaldáliga, acabava se tornando um instrumento de retenção dos trabalhadores contra a sua vontade, dado o seu envidamento para com o empregador, no que o Estatuto apresentava um entendimento limitado acerca de um dos principais mecanismos de submissão e vulnerabilização do trabalhador rural. Além disso, o Estatuto também apresentava algumas regulamentações dúbias acerca das condições de moradia e de higiene. Ele estabeleciaque as habitações deviam respeitar os “mínimos preceitos” de higiene, mas que deviam, ao mesmo tempo, levar em consideração “as condições peculiares de cada região”33. Como veremos mais para frente, o argumento acerca das condições locais, “normais” ou “culturais” de cada região será utilizado por atores políticos contrários às políticas de erradicação para defender a tese de que não se pode exigir que os empregadores rurais disponibilizem as mesmas condições que 32 Ver Capítulo III do Estatuto, que dispõe sobre regras para remuneração e salário mínimo. 33 Ver Capítulo VII do Estatuto, que dispõe sobre regras de higiene e de segurança no trabalho. 72 são exigidas para as áreas urbanas desenvolvidas. Para o campo, seria preciso pensar numa cidadania diferenciada, adequada às condições de cada região. As limitações dessas medidas se apresentavam de maneira ainda mais forte se analisados os seus efeitos para aqueles que saíam das fazendas à procura de trabalhos temporários ou sazonais, sem qualquer tipo de vínculo ou contrato de natureza trabalhista com o empregador. Como aponta Maria Conceição D’Incao e Mello (1976), o Estatuto, tal como foi promulgado em 1963, simplesmente não apresentava qualquer tipo de medida ou garantia para o trabalhador “bóia-fria”, que se tornava cada vez mais a “solução menos onerosa para o empresário rural”34. O mesmo poderíamos dizer acerca do PRORURAL e do FUNRURAL do regime militar. Além disso, a exclusão não se constituía em ocorrências particularizadas, mas sim de forma sistêmica, dada a importância e funcionalidade crescente dessa marginalidade ou dessa massa de trabalhadores rurais excluídos para o andamento do projeto desenvolvimentista que se desenvolvia a todo vapor quando Casaldáliga escreveu suas denúncias. Nas palavras da autora: “[...] o “boia-fria”, pelo caráter intermitente do seu trabalho, se define como Exército Industrial de Reserva, no processo global da economia rural da região. Resultando do processo de liberação de mão de obra, por efeito do desenvolvimento do sistema capitalista de produção no campo, ele é reabsorvido como mão de obra mais barata e consequentemente mais vantajosa para a acumulação do capital. A sua participação no processo de produção se faz, portanto, através da depreciação dos salários ou do valor pago à força de trabalho. Esse fato o leva a vivenciar uma situação de extrema miserabilidade...” (D’Incao e Mello, 1976: 136) Dessa forma, portanto, o Estatuto, assim como a maioria das medidas tomadas pelo Brasil até a denúncia de Casaldáliga, conformavam um entendimento parcial acerca das formas pelas quais o trabalhador rural era explorado, e acerca das medidas necessárias para erradicá-las. Por isso afirmamos que a definição e a caracterização trazida por Casaldáliga em sua 34 A autora realizou estudos sobre os trabalhadores assalariados na região da Alta Sorocabana, no estado de São Paulo. 73 carta pastoral trazia uma inovação importante. A utilização do termo “escravo” não se apresentava, ao menos naquele momento e para o seu autor, como um recurso estilístico, de exagero ou, como alguns dirão, de “sensacionalismo”, mas que apontava o aspecto “sistêmico” da exploração do “peão escravo”, do “bóia-fria” ou do “trabalhador volante”. Tratava-se de uma nova forma de descrever um novo tipo de escravidão, e não ocorrências particularizadas do uso da violência ou da ameaça para reter trabalhadores contra a sua vontade. A submissão dos trabalhadores rurais se dava por meio de um processo mais arraigado à própria marginalização social e ao próprio processo institucional de defesa dos direitos dos trabalhadores rurais, que corria “descolado” (D’Incao e Mello, 1976) dos trabalhadores “peões”. Assim sendo, não seriam os critérios da violência e da vontade os critérios determinantes da submissão dos trabalhadores rurais. É certo que algumas medidas dentre as que listamos anteriormente, como o artigo 149 do Código Penal brasileiro de 194035 e a promulgação em 1966 da Convenção Suplementar sobre a Abolição da Escravatura de 195636, traziam alguns elementos complementares em suas definições e/ou descrições. Contudo, não rompiam efetivamente com os entendimentos institucionais padrões. O artigo 149, muito breve, delimitava a pena de 2 a 8 anos de retenção para quem reduzisse alguém a condição “análoga à de escravo”, sem descrições ou tipificações sobre essa analogia. Além disso, o reconhecimento da “semelhança” com o trabalho escravo em nada ajudava a mudar o entendimento que já se tinha com o uso do termo “trabalho forçado”. Continuava-se a não reconhecer o caráter sistêmico da exploração que vinha sendo denunciada. Perpetuava-se o entendimento formalista de que não se poderia falar em “trabalho escravo” por não haver mais um regime jurídico que o chancele, ou por não se tratar de uma prática sistêmica e ordenadora da vida em sociedade. O trabalho “análogo à de escravo” poderia ser encontrado em 35 Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. 36 Promulgada pelo Decreto n. 58.563, de 1º de junho de 1966. 74 “situações” de exploração, que ocorrem dentro de um ordenamento jurídico que não mais aceita a escravidão37. A Convenção Suplementar, por seu turno, já reconhecia em seu texto uma das formas centrais de submissão do trabalhador, a servidão por dívida, que não dependia unicamente da violência, mas do processo de endividamento do trabalhador com seu empregador em função de descontos para alimentação, moradia, saúde e equipamentos de proteção no trabalho. Contudo, ainda que reconhecesse esse mecanismo, tomava-o como uma manifestação de trabalho forçado e obrigatório, não de trabalho escravo, e assim como uma ocorrência particularizada e não sistêmica de submissão do trabalhador rural. O trabalho escravo continuava a ser entendido apenas como aquele que ocorreu nos períodos de Império, dentro de um sistema escravista. Com isso, a carta pastoral de Casaldáliga constituiu marco significativo, e sua repercussão política não foi pouca, dada a sua representatividade enquanto uma verdadeira “declaração formal de guerra” (Vargas, 2003) ao projeto agrário do regime militar. Essa grande repercussão acabou por colocar luzes sobre os entendimentos e posicionamentos das autoridades acerca do problema. Na mídia, por exemplo, Águeda Aparecida da Cruz Borges (2007) nos mostra que foram várias as manifestações contrárias à carta já nos dois primeiros meses após sua publicação. Borges destaca, por exemplo, os editoriais “A má fé e a demagogia deste bispo”, do jornal “O Estado de São Paulo” (13/11/1971) e “A injustiça do documento sobre a Amazônia” do “Jornal da Tarde” de São Paulo (15/11/1971), ambos defendendo os latifundiários e tomando-os como os “desbravadores” do país. Destaca também a reação de algumas autoridades políticas. A Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), através do Cel. Igrejas Lopes, disse ao jornal “A Folha do Norte” do Pará (11/11/1971), que a carta pastoral de Casaldáliga era um documento “subversivo” e “caluniador”; e também declarou no “Jornal do Brasil” do mesmo 37 Como veremos mais adiante, a questão da analogia permanece no plano normativo brasileiro, muito embora os entendimentos tenham se diversificado entre os próprios juristas e outros atores políticos, gerando muitos debates até os dias de hoje. 75 dia que o assunto tratado na carta já era de conhecimento dos organismos de segurança do país, e que o Brasil era um país democrático, que garantia terra para todos, “latifúndios ou minifúndios”. Outras manifestações,ainda, vieram do governador do estado do Mato Grosso, José Fragelli, que disse ao jornal “O Globo” (16/11/1971), que o bispo havia exagerado e que suas denúncias eram injustas; e do senador do estado Correa da Costa, que alegou para a “Folha de São Paulo” (11/11/1971), não ter conhecimento de trabalho escravo no Mato Grosso. A autora também cita alguns jornais e publicações que, se não deram apoio explícito, ajudaram a divulgar as denúncias feitas por Casaldáliga, como seriam os casos do Jornal “O São Paulo” da arquidiocese de São Paulo (23/10/1971 e 20/11/1971); o “Jornal do Brasil” e a Tribuna da Imprensa”, do Rio de Janeiro (11/11/1971); “O Globo” (16/11/1971); a “Folha de São Paulo” (11/11/1971); e outros38. Em termos de formulação de medidas governamentais imediatas para a resolução dos problemas apontados por Casaldáliga, a grande repercussão da carta na mídia não teve efeitos concretos imediatos, até mesmo porque não se reconhecia entre as autoridades a existência do problema, ao menos não nos termos e nas caracterizações feitas pelo bispo. O Presidente do Incra, José Francisco Cavalcanti, chegou até a admitir, no “Jornal do Brasil” de 12/11/1971, que as denúncias representavam uma realidade que deveria ser modificada, mas não foi além das palavras. Por outro lado, contudo, no plano dos conflitos políticos no campo, à carta seguiu-se uma forte demarcação dos posicionamentos, em pressões políticas crescentes por parte da Igreja, e na perseguição e repressão violenta por parte dos fazendeiros e do Estado, quadro que se acirra exponencialmente durante os anos 1980. As denúncias de Casaldáliga em 1971 oficializam a ruptura entre a Igreja Católica brasileira e o Estado, resultando numa transformação importante em suas atividades pastorais (e também políticas) e 38 Essas notícias e jornais, assim com outros títulos, encontram-se disponíveis para consulta digital no site da Biblioteca Nacional Digital: http://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx. 76 na criação, em 1975, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), entidade que se tornaria a maior responsável pelo encaminhamento das denúncias de trabalho escravo rural no Brasil, e uma das entidades mais importantes na tarefa de catalogação e realização de pesquisas e relatórios sobre o tema. Entre 1970 até 1985, a CPT, assim como os setores mais progressistas da Igreja Católica, conformaram o único canal aberto de oposição ao regime militar, assumindo um papel importante como “incubador institucional” (Houtzager, 2004: 139), patrocinando a formação de novas organizações políticas dos trabalhadores rurais e uma nova visão e representação sobre seus direitos e necessidades. Ainda que tivessem, inicialmente, se pautado nas reivindicações trabalhistas por meio da legalidade, do que era admitido pelo regime militar, passaram depois a criar e a incentivar a criação de reivindicações e de organizações de trabalhadores rurais independentes do Estado (o que ficou conhecido por “novo sindicalismo”) e que conseguissem expulsar a capilaridade que o regime militar atingia no campo através de suas instituições trabalhistas. Calcado numa estrutura ideológica que mesclava “catolicismo profético e marxismo popularizado” (Houtzager, 2004: 142), o clero progressista, propagaria, ao menos até meados da década de 1980, uma interpretação e visão estrutural e sistêmica sobre a exploração do trabalho no campo, como a que vimos na carta-marco de dom Pedro Casaldáliga. Mas, como veremos, conforme a abertura política vai avançado, as visões da CPT vão se mesclando com as visões de novos participantes políticos e conformando parcerias de atuação e reivindicações institucionais e estruturais em comum. Seus relatórios, publicados anualmente desde 1985, vão expressando esse quadro de mudança. Ela mantem sua interpretação sistêmica acerca do trabalho escravo rural, mas também começa a focar gradualmente na atuação das instituições políticas brasileiras, sobretudo do Judiciário, enfatizando os interesses em disputa e a falta de vontade política. 77 2.3 – Políticas embrionárias e o jogo político (1985-1995) Entre 1985 e 1995, as políticas voltadas para a questão do trabalho escravo rural expressam de modo visível a crescente disputa de interesses em torno da questão agrária, resultante do processo de abertura e de redemocratização das instituições políticas. Ao mesmo tempo em que observamos o nascimento de políticas voltadas para a repressão do trabalho escravo rural, incorporando, ao menos no âmbito formal e programático, algumas propostas de mudanças estruturais no campo, também percebemos a permanência de medidas, e dessa vez concretas, voltadas para a adequação ou submissão daquelas propostas a interesses e projetos remanescentes do regime militar. Em geral, essas políticas, como frutos do pacto da transição, incorporaram em sua formulação os interesses e os entendimentos de vários atores políticos. Ao menos enquanto formulação, enquanto medida no papel, não houve restrições na adoção da definição do problema como “trabalho escravo”. Posteriormente, contudo, essas políticas foram reformuladas antes mesmo de serem implementadas ou durante sua própria implementação, na prática. São nessas reformulações ou adaptações que se mostraram definições distintas e, até mesmo, a simples negação de “trabalho escravo”, sem qualquer justificativa ou caracterização alternativa, bloqueando ou impedindo o avanço de medidas de caráter mais estrutural, como a reforma agrária, e medidas mais severas de punição de proprietários de terra que utilizavam mão de obra escrava. Além disso, à inefetividade das políticas, devido à sua curvatura aos interesses do grande latifúndio e com a chancela dos poderes do Estado, seguem greves de trabalhadores rurais, manifestações, ocupações e, com elas, a forte repressão no campo, exercida tanto pelos proprietários quanto pelo próprio Estado, contra trabalhadores rurais, movimentos, sindicatos, e padres e membros da CPT. As denúncias e críticas à inefetividade das políticas e à inoperância e falta de vontade política dos atores estatais, especialmente do Poder Judiciário, tornam-se o foco central dos documentos e relatórios produzidos neste 78 período, principalmente pela CPT e por periódicos e revistas de movimentos de trabalhadores rurais. Nesses documentos, podemos encontrar, sobretudo, uma preocupação em identificar o posicionamento do Judiciário e dos juízes no jogo político de interesses, para verificar “de que lado” do conflito eles estavam. Os órgãos internacionais, por sua vez, cobravam maior comprometimento político do Estado brasileiro, resultando, ao final do período, no reconhecimento público, por parte do presidente da República, da existência de trabalho escravo no Brasil, após denúncias levadas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH-OEA) e à Organização das Nações Unidas (ONU). Vejamos o quadro desse período através de uma breve descrição das políticas e das críticas e relatórios publicados por alguns atores políticos centrais. 79 Tabela 2 - Medidas Formais para o Trabalho Rural e para o Trabalho Escravo (1985-1994) Ano Medida 1985 Criação da Coordenadoria de Conflitos Agrários do Ministério da Reforma e Desenvolvimento Agrário e do Trabalho (MIRAD) Plano Nacional de Reforma Agrária 1986 Firma-se um Protocolo de Intenções para conjugar esforços no PA, MA e GO, com a participação da CONTAG e da CNA para coibir violações dos direitos sociais dos trabalhadores rurais Termo de Compromisso para erradicar o trabalho escravo entre o Ministério da Justiça, Polícia Federal, governos estaduais e respectivas forças policiais 1987 Mutirão Contra a Violência presidida pelo ministroda Justiça Paulo Brossard 1988 Constituição de 1988 - afirma a igualdade de direitos entre trabalhadores urbanos e rurais e estabelece a "função social da propriedade" 1990 Ratificação da Convenção nº 135 da OIT (Proteção de Representantes de Trabalhadores) 1991 Instituída uma Comissão Especial de Inquérito no âmbito do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, do Ministério da Justiça, com a finalidade de investigar os casos de violência no campo e as denúncias de trabalho escravo. 1992 Programa de Erradicação do Trabalho Forçado e do Aliciamento de Trabalhadores (PERFOR). 1993 É criada uma Subcomissão e um Grupo de Trabalho na Câmara dos Deputados, composto por pela CPT, CONTAG, Procuradoria da República, e outras instituições, para elaborar um projeto de lei voltado para a conceituação mais precisa do crime, a competência para investigá-lo, processá-lo e julgá-lo, e a previsão de aplicação de penalidades mais severas. 1994 Ratificação da Convenção nº 141 da OIT (Organizações de Trabalhadores Rurais) Instrução Normativa Inter secretarial de 24/3 no âmbito do Ministério do Trabalho, contendo normas procedimentais para a atuação da fiscalização no meio rural É assinado um Termo de Cooperação entre o MTE, o MPF, o MPT e a PF para garantir a conjugação de esforços no sentido de prevenção, repressão e erradicação do trabalho escravo As reivindicações com relação ao trabalho escravo rural foram incorporadas dentre uma das primeiras medidas tomadas pelo novo governo civil. Em abril de 1985, foi criado o Ministério Extraordinário para o Desenvolvimento e a Reforma Agrária (Mirad), fruto de uma aliança feita entre o Movimento Sindical dos Trabalhadores Rurais e a Aliança Democrática, na qual o Movimento concedia apoio à Aliança em seu projeto de transição em troca de apoio governamental para um programa de reforma agrária nacional (Figueira, 1999; Houtzager, 2004). O objetivo central do Mirad seria não somente o de dar andamento a esse programa, como também, posteriormente, de concentrar recursos e esforços institucionais para o encaminhamento de 80 denúncias de trabalho escravo rural e para a realização de fiscalizações, chegando, inclusive, a propor o corte de incentivos fiscais e a desapropriação das terras onde fossem encontrados trabalhadores escravos. No que tange à reforma agrária, o governo abriu, em maio de 1985, um prazo de 30 dias para apresentação de sugestões ao Plano Nacional de Reforma Agrária, possibilitando que diversas organizações, tanto de trabalhadores rurais quanto de fazendeiros e proprietários, participassem do processo. Os principais pontos do Plano residiam na desapropriação por interesse social (tendo por meta assentar 1,4 milhões de famílias entre 1985 e 1989), e na indenização através do Imposto Territorial Rural (ITR), com valor abaixo do mercado (Oliveira, 2007). No que tange ao trabalho escravo rural, o Mirad, junto ao Ministério do Trabalho, e com o apoio da Confederação Nacional de Agricultura (CNA) e da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), prometeu concentrar recursos para a fiscalização onde ocorressem as denúncias; e decidiu que os proprietários de fazendas “flagrados no uso de escravos ou em condições muito irregulares de mão-de-obra, além de serem processados criminalmente”, poderiam também perder os incentivos fiscais e, em casos extremos, seriam desapropriados. Com isso se firmou o Protocolo de Intenções e o Termo de Compromisso em 1986, e se criou o “Mutirão Contra a Violência” em 1987. Na prática, contudo, essas medidas se alteraram significativamente ou nem saíram do papel. Com relação à reforma agrária, além de ter-se estendido o prazo para a apresentação de sugestões, em função de pressões exercidas pelos fazendeiros, a primeira redação do “Plano Nacional de Reforma Agrária” foi significativamente alterada depois de diversas redações até a definitiva em outubro de 1985, que, segundo a CPT (1985: 21), “ficou a cargo de homens de absoluta confiança dos latifundiários, como, por exemplo, o jurista Célio Borja”. Além disso, ao Plano foi anexado outro documento chamado “Política Nacional de Desenvolvimento Rural”, que colocava a reforma agrária como uma medida auxiliar do desenvolvimento (CPT, 1985: 13). A desapropriação foi colocada como medida secundária (Oliveira, 2007); o Plano não mais tinha por objetivo 81 “mudar a estrutura fundiária”, mas apenas “contribuir para modificar o regime de posse e uso da terra”; não foram decretadas as áreas prioritárias para a reforma agrária, remetendo a escolha para o nível regional, mais susceptível às pressões políticas locais (Ramos Filho, 2008); ficaram muito mais flexíveis as regras e os critérios para considerar as terras como improdutivas (Medeiros, 2003); e as metas de assentamento foram cumpridas apenas em 8,9% (Santos, 2009 apud Vecina, 2012: 4). Posteriormente, ainda, com a vigência da Constituição de 1988, que decretava que as indenizações deveriam ser feitas mediante prévia e justa indenização, os ruralistas conseguiriam, com o início dos anos 1990, enfraquecer as discussões em torno da reforma agrária e fazer os valores das indenizações serem baseados de acordo com o mercado e não mais de acordo com o Imposto Territorial Rural (Medeiros, 2003). Segundo a CPT (1986), esse quadro de inefetividade das medidas de reforma agrária piorava quando posto na prática, ao passo que o Poder Judiciário atuava em favor dos fazendeiros, anulando as poucas e frágeis desapropriações feitas pelo Poder Executivo e reprimindo as reações dos trabalhadores rurais, gerando mais conflito e violência no campo. Essa mesma crítica se repetia entre o Movimento dos Trabalhadores sem Terra, que dizia haver sempre “dois pesos e duas medidas” para o cumprimento da lei, tanto por parte da Polícia quanto por parte do Poder Judicíário: “Quando um delegado diz que vai “intimar” posseiros a depor, sua frase pode ser traduzida por trazê-los presos, deixá-los passar a noite na cadeia, e fichá-los antes de tomar os depoimentos. No caso de um fazendeiro, a intimação transforma-se em convite, pois “é certo que cedo ou tarde o fazendeiro irá comparecer e não irá fugir”, explica o delegado de Conceição do Araguaia. [Por sua vez], As decisões do Poder Judiciário estão muito mais sujeitas ao humor e interesses pessoais de juízes e promotores que às leis em vigor no país” (MST, 1986a: 10). Em outros momentos, ainda, o MST acusaria o Poder Judiciário de ser “controlado” pelos latifundiários e de tornar a tramitação dos processos “muito complicada e demorada” (MST, 1986a: 6). Essas avaliações continuaram 82 presentes ao menos até o fim dos anos 1980, como se pode ver nas edições do Jornal dos anos seguintes, sobretudo em 1987 e 198939. A crítica ao Poder Judiciário não vinha somente por parte da CPT e dos movimentos dos trabalhadores rurais, mas também do próprio Poder Executivo, que tentava argumentar que a reforma agrária não se concretizava por causa dos obstáculos postos pelo Poder Judiciário, como mostravam as declarações do ministro do Mirad (MST, 1986b: 11). Contudo, tal justificativa não convenceu a CPT e os movimentos dos trabalhadores rurais, muito embora eles reconhecessem no Judiciáro e nos juízes brasileiros grande parcela de responsabilidade pela impunidade e pela violência no campo, como mostra a CPT em seu relatório de 1992: “Sem excluir a responsabilidade de outros setores e sem cair no absurdo de responsabilizar apenas e tão somente o Judiciário por toda a situação de violência no campo, é preciso ressaltar que, dos Poderes do Estado, talvez seja ele o que mais tenha contribuído para que a violência perdure. É do Judiciário o poder e a competência, portanto, a responsabilidade para dizer o direito, aplicar e distribuir justiça na solução dosconflitos. Porém, o que se tem constatado é que a sua atuação resulta em mais intranquilidade social; em mais conflitos” (CPT, 1992: 31). Tanto a CPT quanto os movimentos dos trabalhadores rurais falavam da inoperância governamental como um todo, questionavam os números de desapropriações apresentadas pelo ministro, e ressaltavam, assim como a ABRA (Mello, 1986: 55) que a falta de vontade política vinha de diversas autoridades públicas e já se colocava na alteração significativa do Plano Nacional de Reforma Agrária. Com relação às medidas para o trabalho escravo rural, por sua vez, o quadro não foi muito distinto. Segundo Ricardo Rezende Figueira (1999), a participação da parte patronal (da Confederação Nacional de Agricultura) nas fiscalizações colocou impedimentos para os flagrantes, na medida em que as fazendas denunciadas podiam ser alertadas com antecedência. Nesse caso, o 39 As edições do Jornal dos Trabalhadores Sem Terra estão disponíveis para consulta em: http://www.docvirt.com/WI/hotpages/hotpage.aspx?bib=HEMEROLT&pagfis=11219&pesq=&url =http://docvirt.no-ip.com/docreader.net. http://www.docvirt.com/WI/hotpages/hotpage.aspx?bib=HEMEROLT&pagfis=11219&pesq=&url=http://docvirt.no-ip.com/docreader.net http://www.docvirt.com/WI/hotpages/hotpage.aspx?bib=HEMEROLT&pagfis=11219&pesq=&url=http://docvirt.no-ip.com/docreader.net 83 Mutirão Contra a Violência também se mostrou ineficaz e enviesado, dada a recusa, por parte do ministro da Justiça, Paulo Brossard, em aceitar a participação de trabalhadores vítimas, de sindicalistas e de membros da CPT para atuarem na investigação e fiscalização. O resultado foi que nenhum imóvel foi desapropriado por utilizar mão-de-obra escrava. O Jornal dos Trabalhadores Sem Terra, em sua edição de abril de 1986, relavata casos de trabalho escravo no estado de Rondônia, denunciados pela CPT e por trabalhadores fugidos, para os quais as autoridades não apresentaram qualquer solução, demonstrando inoperância e falta de vontade política. Na edição de junho, o jornal trazia outro caso em que um juiz e promotores locais não entenderam que os trabalhadores eram escravos, mas “simples vagabundos” (MST, 1986c, n. 53: 16). Segundo o MST, os “latifundiários escravizadores” eram protegidos pelo próprio Poder Judiciário, que impedia a continuação dos processos e das investigações, mesmo quando as denúncias de trabalho escravo feitas pela CPT se confirmavam com as fiscalizações (MST, 1986c: 8). Em 1991, a Comissão Especial de Inquérito reforçou tais críticas, concluindo que as principais razões da violência no campo estavam diretamente ligadas à ação enviesada ou à completa omissão do Estado, especialmente do Poder Judiciário (CPT, 1992: 31)40. 40 Essa é uma das poucas informações que conseguimos encontrar sobre os resultados da Comissão Especial de Inquérito. Esta Comissão, assim como outras medidas tomadas pelo governo entre 1985 e 1995, quase não apresentam relatórios claros e sistemáticos para consultas sobre fiscalizações, libertações, pagamentos de indenização e outras ações. Tanto que é assim que, quando os relatórios da CPT, ou mesmo os jornais do MST, e a literatura em geral, citam medidas como essa da Comissão Especial de Inquérito, do Mutirão contra a Violência e outras do período em questão, a citação não é seguida de qualquer referência a documentos e nem dados sobre os resultados de suas atuações, mas fundamentalmente de notícias. Os poucos números que encontramos sobre denúncias, fiscalizações e outras ações para esse período, são contabilizados e registrados, sobretudo, pela CPT em seus relatórios anuais. De outra maneira, é possível encontrar dados dispersos e sem fontes seguras. Sabemos que o Mirad, a primeira das medidas voltadas para o encaminhamento de denúncias e fiscalizações, foi um dos poucos que produziu relatórios, que se encontram disponíveis para consulta física no Arquivo Edgard Leuenroth (AEL) da Unicamp. Em consulta, localizamos um total de 37 caixas ainda não catalogadas e arquivadas contendo documentos variados do Mirad. Até o momento, não achamos os relatórios específicos sobre as denúncias e fiscalizações feitas pelo Ministério, que nos ajudaria a verificar de modo mais específico o que o órgão estava entendendo por “trabalho escravo”. Achamos apenas as diversas cartas de cidadãos e de organizações diversas que foram enviadas ao Presidente José Sarney como sugestões ao Plano Nacional de Reforma Agrária. 84 Essas mesmas críticas foram direcionadas à inefetividade das medidas tomadas pelo governo entre 1992 e 1994, especialmente a Instrução Normativa Intersecretarial nº1 de 24 de março de 1994. A Instrução pode ser vista, ao menos no plano formal, como a medida mais avançada do período, na medida em que procurou implementar regras institucionais para o reconhecimento do trabalho escravo pelos agentes governamentais, de forma a impedir que seus interesses ou visões particulares decidissem o que era e o que não era trabalho escravo rural. Além disso, tratava-se de uma medida mais progressista, na medida em que a caracterização que propunha para o trabalho escravo ou “análogo à de escravo” não tinha por critério único a constatação do uso da violência. Ela levava em conta também a constatação das práticas de endividamento do trabalhador rural, que só acontecia em função da sua situação econômica precária ou de sua marginalidade social. Para a Instrução, os indícios de que um trabalhador era “reduzido a condição análoga à de escravo” estavam em situações de “dívida, retenção de salários, retenção de documentos, ameaças ou violência que impliquem o cerceamento da liberdade dele e/ou familiares, o abandono do local onde presta seus serviços, ou mesmo quando o empregador se nega a fornecer transporte para que ele se retire do local para onde foi levado, não havendo outros meios de sair em condições seguras, devido às dificuldades de ordem econômica ou física na região” (Figueira, 1999: 192). Contudo, e mesmo com medidas de reforço voltadas para a punição dos infratores, discutidas no seminário “Trabalho Escravo Nunca Mais” em agosto de 1994, os problemas não foram superados e as críticas sobre a impunidade continuaram. Segundo Ricardo Rezende Figueira (1999), a Instrução não foi capaz de impor um entendimento acerca do que era trabalho escravo rural, continuando a cargo dos agentes governamentais. O autor relata que mesmo quando as autoridades se mostravam empenhadas em fiscalizar, em ouvir testemunhas e a CPT, acabava ocorrendo discórdias com relação às situações encontradas. Os delegados do trabalho, assim como outras autoridades, não 85 viam como trabalho escravo o trabalho obrigatório por dívida41, e algumas vezes faziam vista grossa até mesmo para casos em que eram constatados espancamentos e vigilância armada. Além de não constatarem as situações como trabalho escravo, repreendiam a atuação da CPT, que era quem geralmente fazia as denúncias. Segundo o autor, três razões centrais poderiam explicar a inefetividade de medidas como a Instrução Normativa, mas uma com maior destaque: novamente, a omissão e os interesses particulares dos agentes governamentais. Figueira reconhece que o medo era um fator importante, na medida em que a violência no campo era extremada e os agentes ficavam receosos de investigar e punir fazendeiros escoltados por jagunços e pequenas milícias particulares. O autor também reconhece que a falta de estrutura física e pessoal para realizar as fiscalizações e tomar as medidas punitivas cabíveis era precária, situação que só foi melhorar um pouco após a criação do Grupo Móvel de Fiscalização em 1995. Contudo, para o autor, assim como vinham apontando a CPT e o Movimento dos TrabalhadoresSem Terra desde o início de 1985, o fator imperante era a omissão, a falta de vontade política, ou os interesses particulares dos agentes governamentais. Muito embora essa crítica sobre a omissão estivesse presente, como já vimos, desde 1985 entre os relatórios da CPT e do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra; e, muito embora a insistência sobre essa tecla para 41 Em encontros organizados pelo Ministério Público do Trabalho dos estados do Espírito Santo e de São Paulo em 2012 e 2014, autoridades públicas presentes falaram sobre a dificuldade de definição e caracterização das situações que eram encontradas pelos auditores fiscais e delegados do trabalho nas fiscalizações feitas no período. Não se tinha um consenso na época (muito longe disso) de que o “trabalho degradante” ou a “servidão por dívida” eram situações de “trabalho forçado” e muito menos de “trabalho escravo”. Para muitos, não havia que se falar em “trabalho escravo” e sim em “trabalho forçado”; e este último somente seria detectável caso fosse constatada a violência e o impedimento de ir e vir. Tal entendimento, ainda que com alterações, permanece presente entre diversas autoridades públicas até os dias de hoje. No encontro realizado em 2014, o procurador do trabalho aposentado José Cláudio Monteiro de Brito Filho, que integrou as primeiras equipes de fiscalização móvel do trabalho escravo dos anos 1990, defende que nem naquela época e muito menos hoje em dia se pode falar em “trabalho escravo”, pois não há regime jurídico que o chancele. O que se teria seriam situações de “trabalho forçado ou análogo à de escravo” e situações de “trabalho degradante”. Segundo o procurador, não se poderia sair chamando qualquer situação degradante de “análoga à de escravo” se não constatado o impedimento de ir e vir ou a servidão por dívida. A lei precisaria especificar mais. 86 pressionar o governo ao longo de todo o período 1985-1995 não tenha repercutido em medidas institucionais efetivas de punição e de erradicação do trabalho escravo rural, ela foi importante por ocasionar mudanças no jogo político de intereses. Ela desencadeou uma mudança fundamental na atuação política da CPT, principalmente a partir dos anos 1990, que, por sua vez, levou a uma transformação do quadro de forças a pressionar o governo por medidas mais efetivas, resultando no reconhecimento público do problema em 1995 e na abertura de um novo período ou momento (1995-2002) das políticas governamentais voltadas para a erradicação do trabalho escravo rural. Entre 1985 e início dos anos 1990, a CPT, como já visto em algumas de nossas citações, fala recorrentemente na questão da omissão e dos interesses desviantes dos agentes governamentais como sendo as causas centrais da inocuidade das medidas que vinham sendo implementadas e, por conseguinte, da manutenção do trabalho escravo rural. Ao mesmo tempo, contudo, a CPT também procurava manter (ou não perdia de vista) uma interpretação sistêmica acerca do trabalho escravo rural, que tem como causa central a expansão do sistema econômico capitalista sobre o campo e não os desvios de comportamento de alguns agentes governamentais. Em outras palavras, no período em questão, a CPT mantém uma narrativa e uma crítica conflitiva entre esses dois tipos de explicação para a persistência do trabalho escravo rural. Diferentemente do que mostrava a carta pastoral de Casaldáliga, bem como o caráter oposicionista do clero progressista no início dos anos 1970, o posicionamento e as críticas da CPT entre 1985 e 1990 não sustentavam mais um argumento “puramente” sistêmico ou estrutural. A conjuntura política que se abriu com o fim do regime militar e com a emergência de novos atores políticos, passou a chamar a atenção da entidade para diversos elementos, como o conflito de interesses e seus impactos sobre a criação e funcionamento das instituições. Não se tratava mais de apenas mostrar a funcionalidade das instituições para um sistema econômico, de forma “profético-fatalista”, abstrata e impessoal, muito embora esse olhar se mantivesse de alguma forma em diversos de seus relatórios do período. Mas agora se adicionava uma visão mais micro das relações econômicas e políticas, uma preocupação em “dar 87 nomes”, em identificar agentes estatais e seus interesses particulares, e pressionar as instituições democráticas por mudanças. Parecia que a CPT começava a passar por um conflito interno, que resultaria em parcerias com organizações e movimentos mais institucionalizados. Afinal, continuaria sendo essencial eliminar a expansão capitalista no campo e suas defesas jurídicas, sem se deixar cair na “ilusão de que o Estado brasileiro podia promover transformações” através de suas instituições (CPT, 1989: 19)? Ou as instituições, assim como as leis, poderiam até serem efetivas caso alguns agentes conservadores (juízes, delegados, procuradores, legisladores e outros) fossem substituídos, ou caso alguns desses agentes atuassem de forma progressista? Por isso a necessidade de apontar e de denunciar os agentes “desviantes”, de fazer com que os interesses dos trabalhadores rurais chegassem às instâncias decisórias, e de exigir que as instituições democráticas fizessem seu papel? “Não é nos governantes e tecnocratas que colocamos nossa esperança. Confiamos no crescimento da força dos pobres. Mas um governo democrático poderia colaborar um pouquinho mais, poderia jogar algumas escadas para os pobres saírem do fundo do poço que ele mesmo está cavando cada vez mais. Afinal, é preciso que ele dê contas de suas responsabilidades. Sem isso, ele ficará responsável pelos sofrimentos, violências e mortes que se multiplicam no campo e nas cidades. Esperamos que a sociedade, a imprensa, os partidos, as entidades de trabalhadores encontrem aqui material para refletir e agir; reconhecer as coisas que estão brotando do chão para apoiá-las; usar todos os meios para combater a degradação humana a que os pobres estão sendo violentamente jogados. Aumentar as cidades é inviável. Viver no campo é um direito!” (CPT, 1991: 4) Os relatórios anuais da CPT desse período podem ser vistos como demonstrativos desse conflito e embrionários de um novo posicionamento a partir dos anos 1990: se não é mais possível interromper o avanço do capitalismo no campo, que ele seja amenizado ou controlado por medidas de proteção aos trabalhadores rurais, e que os agentes governamentais e estatais tomem “responsabilidade” e cumpram seu papel dentro do que se espera de um regime democrático (ainda que capitalista), garantindo e defendendo o respeito à “função social da propriedade” e à igualdade de direitos entre 88 trabalhadores rurais e trabalhadores urbanos, como posto pela Constituição de 1988. Se antes as causas de todas as mazelas do campo se encontravam no processo econômico de transformação estrutural do campo pelo capitalismo, agora elas são encontradas, sobretudo, na impunidade, na atuação enviesada dos agentes estatais, especialmente, dos juízes, que, ao contrário de “zelar pela aplicação da lei, tem, com muita frequência, demonstrado parcialidade, deixando-se instrumentalizar por latifundiários ou por chefes políticos locais, agindo ativa e passivamente em defesa de uma estrutura fundiária concentradora de terras, de um lado, e de miséria, do outro” (CPT, 1992: 31). Outro fator importante que se nota no novo posicionamento da CPT sobre o trabalho escravo é o enfoque recorrente sobre a questão da violência. Tal ênfase é perfeitamente compreensível quando vista a partir do contexto de acirramento das lutas políticas no campo e do aumento do número de ameaças e assassinatos de camponeses e trabalhadores rurais sem terra. Mas, ao mesmo tempo, ela nos mostra o caráter estratégico da mudança de atuação política que aCPT passa a apresentar a partir de 1990 ao tomar a “impunidade” como o mal a ser combatido (vista como o resultado da omissão dos agentes estatais) e ao recorrer aos órgãos internacionais de defesa dos direitos humanos e do trabalho para denunciar tal omissão. Dessa postura, ou melhor, desse enfoque na violência, resultam duas consequências que se refletem de forma concreta nos acontecimentos políticos a partir de 1992, com as denúncias aos órgãos internacionais, e após 1995, com o reconhecimento público da existência de trabalho escravo e com a formulação de medidas institucionais mais comprometidas com a questão. A primeira consequência de se enfatizar a questão da violência reside na propagação de uma avaliação menos rigorosa acerca das “condições propiciadoras” (que eram apresentadas por Casaldáliga em 1971 como elementos tão ou mais característicos do trabalho escravo que a violência). Ou seja, coloca-se em segundo plano a visão mais sistêmica sobre a exploração do trabalho rural e sobre as suas transformações, e dá-se uma aproximação com atores e organizações políticas que caracterizam o problema enquanto 89 “trabalho forçado”, como um fenômeno particularizado e conformado pelo uso da violência. Embora o contato entre atores que possuem uma visão sistêmica com atores que possuem uma visão particularizada tenha mudado também a atuação dos segundos (como veremos nos relatórios da OIT nos anos 2000), a visão particularizada e do critério da violência se enraíza e perdura entre os argumentos oportunistas de fazendeiros, empresários rurais e de autoridades públicas até os dias hoje, que os utilizam para amenizar as situações encontradas nas fazendas quando não se faz recurso à violência. A segunda consequência, por outro lado, de se enfatizar a questão da violência é a sua possibilidade, justamente em função do contato e do jogo político com outros atores e visões políticas, de se ter um olhar mais micro dos conflitos e, com isso, uma visão mais apurada acerca das possiblidades de luta pela via institucional, bem como das oportunidades estratégicas de influenciar ou mudar a visão de outros atores. O resultado mais visível da mudança de ênfase ao se falar no trabalho escravo (com ênfase no trabalho forçado ou violência) foi a conquista de apoios institucionais42 que ajudaram a pressionar o governo43 a tomar medidas. Uma das aproximações importantes se deu com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), que, como demonstrou Ivan Ervolino (2011) vinha sendo capaz de pressionar os governos signatários de suas convenções e, com isso, exercer impactos significativos sobre a produção de leis internas para diversas questões relacionadas ao trabalho, inclusive para o que a Organização chamava de “trabalho forçado”. 42 Em 1992, a CPT foi convidada pela Federação Internacional dos Direitos Humanos para fazer um pronunciamento sobre o trabalho escravo na Subcomissão de Direitos Humanos da ONU em Genebra; em 1993, é convidada pela Diretoria da OIT no Brasil para iniciar um trabalho conjunto; e, em 1994, é convidada pela Anti-Slavery International a reiterar as denúncias de trabalho escravo na 19ª Sessão do Grupo de Trabalho sobre Formas Contemporâneas de Escravidão nas Nações Unidas (Figueira, 1999; BRASIL/SDH, 2013). 43 Em 1992, a OIT, em sua conferência anual, cobra explicações do Governo brasileiro acerca das diversas denúncias encaminhadas a ela desde 1985 e apresenta dados relativos a 8.986 denúncias de trabalho escravo no Brasil. E, ainda em 1992, a Central Latino-Americana de Trabalhadores apresenta reclação contra o Brasil por inobservância das Concenções 29 e 105 da OIT (BRASIL/SDH, 2013). 90 É esse o quadro que podemos ver a partir de 1992, quando a CPT, com outros atores políticos, encaminham denúncias para os organismos internacionais de defesa dos direitos humanos44; realizam fóruns de discussão que conseguiram recuperar, ao menos no plano formal das medidas, um entendimento mais sistêmico e estrutural do trabalho escravo (como foi o caso da Instrução Normativa Intersecretarial nº1 de 1994); e abrem caminho para um novo período de políticas. A utilização do termo “trabalho escravo”, mas com sentido de “trabalho forçado”, ou com ênfase na violência, torna-se uma estratégia política para chamar atenção dos órgãos internacionais e, com isso, pressionar o governo brasileiro a se comprometer com a efetivação de suas próprias medidas. É como se a utilização do termo “trabalho escravo” com sentido sistêmico não fosse capaz de gerar pressão e nem de resultar em políticas governamentais, constituindo apenas uma pressão “inócua” e muito “academicizada”. O importante era sair da inércia e da inoperância, dado o grau que atingia a violência no campo. Tanto é assim que as Convenções da OIT (que enfatizavam a violência) foram, e ainda são, as medidas mais mobilizadas por diferentes atores políticos para reivindicar ações do governo, como se fossem medidas protocolares; e as denúncias encaminhadas entre 1992 e 1994 aos órgãos internacionais, diziam sempre respeito a casos de trabalho escravo marcados pela violência, como foi o famoso “Caso José Pereira”, cuja repercussão levou o Brasil a admitir a existência de trabalho escravo em suas fazendas e a se comprometer politicamente com a elaboração e implementação de medidas voltadas para a erradicação do trabalho escravo, inaugurando um novo período de medidas institucionais. 44 Em 1992 e novamente em 1994, a CPT, junto das ONGs Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL) e Human’s Rights Watch, encaminham denúncias de trabalho escravo à CIDH-OEA; além de reiterar, também em 1994 as denúncias na ONU. 91 2.4 – Reconhecimento público e as limitações institucionais (1995- 2002) O período de políticas que se inicia em 1995, com o reconhecimento e comprometimento público da existência do trabalho escravo no país pelo Presidente da República Fernando Henrique Cardoso, representa um passo à frente significativo com relação ao período anterior. Ele é marcado por um maior comprometimento e responsividade do governo federal às pressões internacionais dos órgãos de defesa dos direitos humanos e do trabalho, por um envolvimento de mais instituições estatais, internacionais e da sociedade civil na formulação e implementação das medidas, pelas primeiras desapropriações e condenações, pelas primeiras leis delimitando o crime de trabalho escravo, pela elaboração de um plano nacional com objetivos, metas e prazos a serem cumpridos pelas instituições e, principalmente, pela elaboração de relatórios mais sistemáticos por parte do governo, que permitiram uma maior transparência e avaliações mais detalhadas sobre as limitações ou deficiências das políticas implementadas. A partir das avaliações e das críticas que foram dirigidas às políticas do período, contudo, a tônica da inefetividade se mantém. Ainda que se reconheça os avanços com relação ao período anterior, aponta-se que as políticas entre 1995 e 2002, de modo geral, não foram capazes de reprimir o uso do trabalho escravo rural, obtendo apenas resultados pontuais e dispersos, sem efeitos generalizados. A diferença das críticas, agora, é que elas enfatizam não apenas a questão da omissão e dos interesses enviesados de agentes governamentais particulares (foco das críticas feitas às políticas do período anterior), mas também a questão das deficiências de caráter institucional como sendo responsáveis pela inefetividade. A ideia que se passa é que, se determinados agentes estatais atuam de modo desviante, fazendo vista grossa às violações dos direitos dos trabalhadores rurais, é porque as instituições ainda são frágeis e dão abertura para tal comportamento.A conclusão das avaliações e críticas, portanto, acaba apontando para a necessidade de reformas e de fortalecimento das instituições políticas. 92 Primeiramente, seria preciso formular leis precisas sobre o que é trabalho escravo rural, para evitar manipulações das leis. Definidas as leis, seria necessário delimitar que instância do Judiciário deve ter competência para julgar os casos de trabalho escravo, para evitar as remessas estratégicas infinitas entre uma esfera e outra por conflito de competência, que alonga o processo até a prescrição dos crimes. Seria preciso também instituir regras de ação coordenada e conjunta entre as diversas instituições, para evitar conflitos interinstitucionais e, com isso, a inoperância. Seria necessário, ainda, destinar recursos e estruturas para que as ações de fiscalizações, investigações e judiciais ocorressem sem demoras e obstáculos, e que garantissem a segurança dos agentes e das vítimas. Por fim, seria necessário implementar políticas sociais no campo, para evitar que o trabalhador escravo resgatado não fosse novamente aliciado. Contudo, juntamente com essas avaliações de caráter institucional, dá- se um “renascimento” de posicionamentos mais críticos por parte da CPT, que, já tendo conquistado maior capilaridade política entre as instituições estatais e parcerias com os órgãos internacionais no período anterior, volta a associar a falta de comprometimento político dos agentes e a inefetividade institucional a um quadro maior de circunstâncias econômicas, marcado agora pelo neoliberalismo e pelas políticas generalizadas de flexibilização dos direitos trabalhistas. Tal reposicionamento político, como veremos, também encontrará respaldo entre outros órgãos. A OIT, a partir dos anos 2000 se preocupa não somente em realizar uma análise mais apurada acerca das condições econômicas do país, como também não baseia mais suas definições e caracterizações apenas sobre o critério da violência, ao menos para o caso brasileiro, incorporando a “servidão por dívida” como uma forma de “escravidão contemporânea”. Esse reposicionamento crítico se reflete nos tipos de exigências feitas ao governo federal. Há uma clara exigência por melhorias institucionais e, novamente, por um maior comprometimento político do governo e dos agentes estatais em diminuir a inoperância e a impunidade, mas aparecem também propostas exigindo medidas que interfiram no poder econômico dos 93 fazendeiros e empresários rurais. É neste período, por exemplo, que surgem propostas voltadas mais para a “expropriação” do que para a “desapropriação”, como a famosa PEC 438/2001, conhecida como “a PEC do trabalho escravo”, que mostrará seus resultados apenas no período seguinte (2003-2012). Vejamos essas considerações, agora, em mais detalhes, através da descrição das políticas implementadas entre 1995 e 2002, e depois através da descrição das avaliações direcionadas a essas políticas. Tabela 3 - Medidas Formais para o Trabalho Rural e para o Trabalho Escravo (1995-2002) Ano Medida 1995 Criação do Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM) Criação do Grupo Executivo para Erradicação do Trabalho Forçado (GERTRAF) 1997 Fernando Henrique Cardoso assina a desapropriação da Fazenda Flor da Mata, em São Félix do Xingu, no Pará 1998 Lei do Trabalho Escravo, que alterou os artigos 132, 203 e 207 do Código Penal, que compõem a chamada "cesta de crimes" relacionados ao trabalho escravo Justiça Federal, primeiro grau, faz a primeira condenação de um fazendeiro (Antonio Barbosa de Melo) por trabalho escravo Governo desapropria mias três fazendas, duas no Pará e uma em Goiás 2002 Comissão Especial no âmbito do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, do Ministério da Justiça, que resultou, em 2003, no I Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo PNDH II – Meta 396: determina a continuação da implementação das Convenções 29 e 105 da OIT; Meta 403: sensibilização dos juízes federais para a necessidade de manter no âmbito federal a competência para julgar crimes de trabalho forçado. Instituída a Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (CONAETE), no âmbito do Ministério Público do Trabalho Instituiu o seguro-desemprego especial para os comprovadamente resgatados de situações nas quais fossen explorados em trabalho forçado ou condição análoga à de escravos Após ter reconhecido publicamente a existência de trabalho escravo no Brasil e ter se comprometido a tomar as medidas necessárias para erradicá-lo, o presidente Fernando Henrique Cardoso deu início a um conjunto de medidas voltadas para quatro objetivos: integração institucional (desde o debate até a sentença judicial); fiscalização e punição; superação da omissão do Judiciário; e reinserção social dos trabalhadores resgatados (Figueira, 1999). 94 Dentre as medidas de integração institucional, o governo criou três medidas centrais: o Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM)45 e o Grupo Executivo para Erradição do Trabalho Escravo (GERTRAF)46, ambos em 1995; a Comissão Especial no âmbito do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH) do Ministério da Justiça47, em 2002; e a Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (CONAETE), no âmbito do Ministério Público do Trabalho, também em 2002. O GERTRAF integrava o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) com diversos outros ministérios48, assim como com a OIT, com o objetivo central de implementar ações articuladas entre as várias áreas do governo, desde a elaboração e fiscalização até a coordenação de um programa integrado de repressão ao trabalho forçado; e também com o objetivo de propor atos normativos que fossem necessários para a implementação do programa elaborado. Como braço operacional, o GERTRAF teria o GEFM, que, por sua vez, integraria as ações do MTE com os Ministérios Públicos (Federal e do Trabalho), com a Polícia Federal e com as Delegacias Regionais do Trabalho (DRTs), para centralizar o comando das operações de fiscalizações e garantir a padronização dos procedimentos (padronização esta que iria desde a caracterização do que é trabalho forçado até as ações cabíveis se constatados o crime). O GEFM, mais especificamente, pode ser visto como a principal ou mais importante medida do período e dos dias atuais também (claramente com algumas mudanças), na medida em que se tornou o autor por excelência das operações de fiscalização. Sua existência conformou uma espécie de “quadro protocolar” das operações de fiscalizações, através do qual se convencionaram 45 Portarias nº 549 e 550, de 14 de junho de 1995, do Ministério do Trabalho e Emprego. 46 Decreto 1.538, de 27 de junho de 1995. Disponível em: http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1995/decreto-1538-27-junho-1995-435619- ublicacaooriginal-1-pe.html. 47 Resolução nº 5, de 28/01/2002. 48 Com o Ministério do Trabalho e Emprego; Ministério da Justiça; Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal; o Ministério da Agricultura, do Abastecimento e da Reforma Agrária; Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo. http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1995/decreto-1538-27-junho-1995-435619-publicacaooriginal-1-pe.html http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1995/decreto-1538-27-junho-1995-435619-publicacaooriginal-1-pe.html 95 as condições mínimas necessárias para que as operações pudessem de fato ocorrer. Em primeiro lugar, as fiscalizações não poderiam mais ser feitas por um único agente ou agência governamental, como era antes através dos fiscais ou delegados das Delegacias Regionais do Trabalho (DRTs). Agora, cada operação compreenderia, no mínimo, a presença de 3 fiscais do trabalho, 1 médico, 1 engenheiro, agentes da PolíciaFederal e, eventualmente, representantes dos Ministérios Públicos, do IBAMA, FUNAI e outros, além de também poderem convidar representantes de outras entidades privadas ou públicas. Tratava-se não apenas de uma questão de segurança, mas de união e integração de esforços de diferentes agências estatais, e também uma questão de efetividade, na medida em que imprimia maior rapidez aos trâmites necessários ao constatar os flagrantes, e ao passo que não se confiava a apenas um agente a responsabilidade de dizer e relatar o que foi encontrado. Em segundo lugar, as fiscalizações recebiam uma espécie de roteiro de como proceder, de forma a padronizar as operações e evitar erros e contestações, bem como relatos distorcidos acerca do que foi encontrado. Nesse sentido, a principal forma de padronização do GEFM residia no prévio estabelecimento do que deveria ser procurado pelos fiscais durante as operações, ou do que deveriam ser considerados indícios de trabalho forçado, que, por sua vez, listava não apenas o critério da violência, mas também as “condições propiciadoras”. Assim, o Grupo deveria procurar e registrar (por meios escritos e audiovisuais): o número de trabalhadores encontrados sob situação de trabalho forçado; as condições de trabalho; a existência de pontos de venda de alimentos, medicamentos e de equipamentos de segurança no trabalho dentro da fazenda; cadernetas ou registros de dívidas dos trabalhadores para com os “gatos” e proprietários; a existências de armas na fazenda; a constatação ou relatos de vigilância armada, bem como de violência física e omissão de socorro. Em terceiro lugar, por fim, já no ato da fiscalização, o Grupo poderia fazer as autuações necessárias, exigir o pagamento de verbas rescisórias e de dívidas do empregador com os trabalhadores, acertando tudo na hora, e resgatar os trabalhadores que quisessem sair da fazenda. Logo após a 96 fiscalização, o Grupo ficaria responsável por produzir um relatório da operação a ser encaminhado aos MPFs e MPTs para a propositura de ação judicial nos seus respectivos âmbitos de competência, em casos de “fortes indícios” de trabalho forçado. Para isso foi sancionada, mais tarde, em 1998, a “Lei do Trabalho Escravo”49, que alterou os artigos 132, 203 e 207 do Código Penal, que compõem a hoje chamada "cesta de crimes" relacionados ao trabalho escravo (exposição da vida ou a saúde das pessoas a perigo direito e iminente; frustrar direito assegurado pela legislação trabalhista mediante fraude ou violência; aliciar trabalhadores e conduzi-los de uma para outra localidade mediante fraude). As outras medidas voltadas para a integração institucional, por sua vez, a Comissão Especial da CNDDPH do Ministério da Justiça, bem como a Coordenadoria Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo (CONAETE)50, procuravam unir esforços entre as agências estatais e as entidades da sociedade civil, promovendo debates, relatórios, programas nacionais de enfrentamento ao trabalho escravo, e projetos de lei e de emenda constitucional voltados para a normatização, tipificação penal e reinserção social dos trabalhadores resgatados. A Comissão Especial do Ministério da Justiça, por exemplo, contou com a participação de 35 agentes, vindos de diversas áreas do governo e da sociedade civil, unidos na elaboração do I Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, lançado em 2003 no período seguinte51. No plano das medidas voltadas especificamente para a fiscalização e punição, o governo apresentou duas medidas, o próprio GEFM e a Lei do 49 Lei nº 9.777, de 29 de dezembro de 1998. 50 Portaria 231, de 12/09/2002. 51 Dentre os participantes estavam agentes da Polícia Federal Rodoviária, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, da Secretaria Nacional de Justiça do Ministério da Justa, do MTE, do MPF, da Associação dos Juízes Federais do Brasil, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), da CPT, da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (José de Souza Martins), do MPT, do INSS, do Movimento Nacional dos Direitos Humanos, da OIT, do Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL) e da OAB. 97 Trabalho Escravo de 1998. O GEFM mostrou seus primeiros resultados entre 1997 e 1998, quando os seus relatórios de fiscalização serviram de base para que o governo federal realizasse as primeiras desapropriações de terra por causa de trabalho forçado, e para que a Justiça Federal de 1ª instância realizasse a primeira condenação de um fazendeiro por trabalho forçado52. Em todos os casos, as situações descritas pelos relatórios de fiscalização envolviam aliciamento de trabalhadores com falsas promessas, mecanismos de endividamento dos trabalhadores, descontos e retenções de salários, e a presença de vigilância armada. A Lei do Trabalho Escravo, por seu turno, buscou tipificar e aumentar a pena para a “cesta de crimes” que envolvem o trabalho escravo: a exposição da vida ou a saúde das pessoas a perigo direto e iminente; frustrar direito assegurado pela legislação trabalhista mediante fraude ou violência; aliciar trabalhadores e conduzi-los de uma para outra localidade mediante fraude. No que tange à omissão e inoperância do Poder Judiciário, o governo lança em 2002 o II Plano Nacional de Direitos Humanos, estabelecendo metas (401 e 403) para “sensibilizar” os juízes com relação ao trabalho escravo e diminuir o conflito de competência utilizado por eles para não julgar os crimes que chegam às suas mãos; e metas voltadas para uma nova redação do artigo 149 do Código Penal, de forma a tipificar mais precisamente o que é o trabalho escravo, e assim evitar os conflitos de interpretação que também dificultavam o andamento dos processos e o sentenciamento de uma pena (meta 405). A necessidade de sensibilizar os juízes é um ponto permanente e dos mais importantes nesse quadro, na medida em que o descaso ou desinteresse dos juízes em não julgar e ao julgar os casos de trabalho escravo, é problema que se estende para o período seguinte das políticas de erradicação e até os dias de hoje. No período anterior das políticas, alguns atores sociais criticaram 52 Em 1997, o Presidente Fernando Henrique Cardoso assinou o Decreto de 28/11/1997, desapropriando a Fazenda Flor da Mata no Pará (Folha de São Paulo, 28/11/1997). E em 1998, assina mais um decreto (Decreto de 13/05/1998), desapropriando mais duas fazendas no Pará e uma em Goiás (Folha de S. Paulo, 14/05/1998). Ainda em 1998, a Justiça Federal de 1ª instância condena o fazendeiro e proprietário Antônio Barbosa de Melo pela prática de trabalho escravo (Folha de S. Paulo, 24/02/1998). 98 a atuação do Judiciário, especialmente da Justiça Trabalhista, por ela agir em nome de fazendeiros e grandes latifundiários, tornando-se mais um “segurança particular” de seus interesses do que propriamente defensor dos direitos trabalhistas. Por fim, no que tange à preocupação com a reinserção social do trabalhador resgatado, o governo instituiu o seguro-desemprego especial para os comprovadamente resgatados de situações nas quais fossem explorados em trabalho forçado ou condição análoga à de escravos53, de forma a evitar o ciclo da exploração e casos de reincidência. Com isso, é possível perceber que as políticas implementadas entre 1995 e 2002 constituíram um passo à frente com relação às políticas do período anterior, na medida em demonstraram um maior comprometimento político com o problema, preocuparam-se em dar respostas às pressões exercidas pelos órgãos internacionais e nacionais de defesa dos direitos humanose do trabalho, tentaram integrar diversas agências estatais em ações conjuntas para evitar a omissão ou o comportamento “desviante”, e mostraram uma maior transparência e publicização das medidas e dos resultados que elas vinham apresentando. Foi justamente em função deste último ponto que foi possível engrossar o corpo das avaliações e das críticas direcionadas às políticas governamentais, no que podemos encontrar relatórios não somente da CPT e organizações de trabalhadores, mas agora também das próprias instituições estatais, como do Ministério Público Federal e do Ministério Público do Trabalho, além dos relatórios conjuntos produzidos pela OIT em parcerias com o governo e com a CPT. Vejamos alguns pontos centrais dessas avaliações e o que elas podem significar para o jogo político, em termos da continuação das políticas, e em termos do entendimento do trabalho escravo rural. Como já dissemos, a ênfase generalizada das críticas presentes nos diferentes relatórios produzidos sobre as medidas implementadas no período recai, sobretudo, nas limitações institucionais e na sua consequente 53 Lei nº 10.608, de 20/12/2002. 99 incapacidade de controlar os comportamentos “desviantes” dos agentes estatais. Neste ponto, as fontes de descontentamento são diversas, no que abordaremos, sobretudo, os relatórios e publicações da CPT, OIT, MPF e OEA. A CPT (1997: 58), bem no início do período, já se preocupava em relatar e criticar as limitações das medidas institucionais até então implementadas. Em seção intitulada “Limites do governo brasileiro na luta contra o trabalho escravo”, a CPT se dedicou a avaliar particularmente a atuação do GEFM, apresentando seus aspectos positivos e negativos. Dente os aspectos positivos, a CPT elogiou as “operações de fiscalização bem articuladas, rápidas e eficientes nas grandes fazendas" realizadas pelo Grupo no sul do estado do Pará entre 1996 e 1997. Dentre os aspectos negativos, destacou um conjunto de problemas inter-relacionados, como: a falta de estrutura, a falta de coordenação entre as agências e agentes, as fortes pressões políticas exercidas sobre o Grupo, e o problema da “prescrição” dos crimes e da demora do Judiciário para julgar os casos envolvendo trabalho escravo, aumentando a impunidade. No que tange à falta de estrutura, a CPT, assim o Ministério Público Federal (BRASIL/MPF, 2002), reclama da ausência de uma equipe da Polícia Federal própria (selecionada e formada) para acompanhar o GEFM, bem como a ausência de seus delegados nas operações, o que acabava dificultando “muito a qualificação penal do trabalho escravo e a instauração do inquérito policial”. Com relação à questão de coordenação, a CPT apontou que o GEFM atuava muitas vezes sem coordenação com as equipes das Delegacias Regionais do Trabalho (DRTs), “inclusive por rivalidade e oposição”. As DRTs realizavam fiscalizações independentes do Grupo Móvel e que se mostravam posteriormente inefetivas, dado que as fazendas por eles fiscalizadas acabavam sendo alvo de novas denúncias de trabalho escravo. No que tange às pressões políticas, a CPT aponta que, agravada a situação em função da falta de equipe da Polícia Federal para acompanhar as operações, e dadas as relações de proximidade das DRTs com os fazendeiros e políticos, o Grupo ficava sujeito a todo tipo de pressão política, exercida tanto no momento das fiscalizações, quanto em manifestações da Câmara dos Deputados. Entre os 100 fazendeiros e políticos se encontravam, sobretudo, aqueles que já haviam sofrido algum tipo de intervenção, como no caso da Fazenda Flor da Mata, que estava em vias de ser desapropriada pelo governo, e políticos que viriam a ser acusados por trabalho escravo, como o deputado federal João Ribeiro54. Por fim, no que tange à lentidão judicial e à prescrição dos crimes, a CPT apontava que “os processos criminais sobre trabalho escravo (art. 149 do Código Penal) são, muitas vezes, arquivados antes de chegar ao julgamento e, às vezes, mesmo antes da denúncia ou da pronúncia, devido à prescrição”. A crítica da CPT sobre a inoperância das instituições e sobre as pressões exercidas por fazendeiros e políticos também aparecem em relatórios da OEA e da OIT no período. O “Relatório sobre a situação dos direitos humanos no Brasil” da OEA, em 1997, fala na atuação de “juízes e promotores cerceados pelas complexidades de um sistema processual inoperante e pelo temor de represálias, caso tomem decisões judiciais mais efetivas; autoridades federais distantes e com um interesse objetivo inconstante a respeito do problema, sempre adotando medidas débeis e ineficientes” (OEA, 1997: 132 apud Figueira, 1999: 184-185). A OIT, por sua vez, acrescenta aos fatores “inoperância” e “pressão política”, o fator do “dois pesos duas medidas” para falar que as punições, quando ocorrem, não atingem quem deveria ser atingido: “embora em 1999 mais de 600 pessoas tenham sido resgatadas de condições de trabalho forçado por equipes do Grupo de Fiscalização Móvel, no mesmo ano só se registra a prisão de duas pessoas responsáveis por esse tipo de trabalho. Embora o governo tenha mencionado a necessidade de sanções realmente severas [fazendo menção à declaração de Fernando Henrique Cardoso ao desapropriar fazendas em 1998] nada indica que isto esteja acontecendo. A impunidade desfrutada pelos responsáveis, a lentidão dos processos judiciais e a falta de coordenação entre órgãos governamentais acabam favorecendo os infratores no Brasil e em outros lugares. Além 54 “A Justiça Federal de Marabá comunicou, no dia 22 de agosto de 1997, a relação de 11 processos criminais ligados à prática de trabalho escravo nas fazendas fiscalizadas: dos 11, 7 processos foram arquivados por prescrição, e um não foi cadastrado. Só 3 estavam em andamento”. [...]. A situação dos processos de trabalho escravo que foram iniciados na Justiça comum, é ainda pior. Não temos conhecimento de nenhum julgamento. Todos os processos estão paralisados, principalmente na Comarca de Santana do Araguaia. Alguns desapareceram, como por exemplo o processo da Fazenda Arizona na Comarca de Redenção” (CPT, 1997: 60). 101 disso, nos poucos casos de condenação dos responsáveis por esse tipo de delito, trata-se, ao que parece, de intermediários ou de pequenos proprietários, ao invés de donos de grandes fazendas ou empresas” (OIT, 2002a: 43) Nos anos seguintes, a CPT torna a apontar as limitações institucionais, dizendo existir um “verdadeiro recuo político” ou um esfriamento da vontade governamental de acabar com o trabalho escravo (CPT, 1999: 65). Os problemas relacionados à falta de recursos, de coordenação, de pressões políticas e da prescrição dos crimes se mantêm (CPT, 1999, 2000, 2001), mas agora acrescidos de conflitos sobre a competência entre Justiça Federal e Justiça comum para julgar os casos de trabalho escravo, da inefetividade da condenação feita pela Justiça Federal em 1998, bem como das desapropriações feitas pelo governo em 1997 e 1998, do valor das multas aplicadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego e os acordos que ele realiza com os fazendeiros. Com relação ao conflito de competência, preocupação também presente entre os relatórios de atividades do Ministério Público Federal de 2001 e 2002, a CPT (1999, 2000, 2001) aponta que o Judiciário tem se resguardado na questão da indefinição e das dúvidas quanto a esfera que deve julgar os crimes de trabalho escravo para postergar ad infinutum os processos, num jogo de remessas e de retornos entre um vara e o outra, levando à prescrição e à impunidade. Em 2000, a CPT relata o caso específico da Fazenda Flor da Mata, que havia sido desapropriada pelo governo em 1997, e que respondiaprocesso criminal na Justiça Federal de 1ª instância. Segundo a CPT, a decisão da Vara Federal representou um “gravíssimo retrocesso”, pois o processo já se encontrava em fase de alegações finais quando o juiz federal se declarou incompetente para julgar o caso, enviando-o para a Justiça comum, no que o processo voltou “à estaca zero”. Durante a I Jornada de Debates sobre Trabalho Escravo, realizada pela OIT em setembro de 2002 nas dependências do Superior Tribunal de Justiça (STJ), diversas autoridades se manifestaram acerca da questão do conflito de competência que vinha se travando dentro do Poder Judiciário, e afirmaram a 102 importância e necessidade de levar os crimes de trabalho escravo à Justiça Federal. Para o Presidente do STJ, o ministro Nilson Naves, o conflito de competência não podia ocorrer, na medida em que a própria Constituição de 1988 já determinava que os crimes contra os direitos humanos deveriam ser julgados pela Justiça Federal. Segundo o ministro, “nenhum membro do Poder Judiciário pode ficar indiferente a este grave problema ou deixar de pautar sua atuação por total repúdio a este crime... Em caso de patentear-se a existência do crime, o julgador deve procurar a imposição da pena mais rigorosa, tendo em mente que, sendo a lei ruim, cabe ao juiz corrigi-la mediante uma sábia aplicação” (OIT, 2002c: 3). Na mesma ocasião, o ministro da Justiça, Paulo de Tarso Ramos Ribeiro, aborda a questão não pela questão do comprometimento dos juízes, mas a partir da “crise” institucional interna a qual o Poder Judiciário e o sistema de justiça como um todo vinham passando, apontando para a necessidade de reformas tanto nas leis relacionadas ao trabalho escravo quanto nas regras de funcionamento e de competência para o seu julgamento e punição. Segundo o ministro, seria preciso racionalizar a atuação do Judiciário, de modo a torná-lo mais permeável, adequado e eficiente às demandas sociais. Em suas palavras, “o sistema de administração da justiça no país vive uma crise (...) entre um conflito... medeia um procedimento confuso e, por vezes, bastante ineficaz, seja porque não profere decisões, seja porque, quando as profere, profere a destempo, de modo que a sociedade fica com a sensação de impunidade. (...). É um sistema que tem dificuldade em razões do número de protagonistas e de uma formulação quase obsessiva do formalismo processual, que nos leva muitas vezes a uma situação onde o custo da não-decisão é maior do que o custo de uma eventual decisão errada” (OIT, 2002c: 50-51). No que tange às desapropriações feitas pelo governo federal, a CPT (1999) aponta que a pena de desapropriação “virou piada: mais bem se tornou um prêmio exorbitante” (CPT, 1999: 65). Neste caso, a CPT está fazendo referência à primeira desapropriação feita pelo governo federal, a Fazenda Flor da Mata. Aponta que, embora tenha sido o primeiro caso da aplicação dessa pena em razão do trabalho escravo, o valor da indenização pago ao proprietário pelo governo foi visto como demonstrativo do total 103 descomprometimento do governo federal com a erradicação do trabalho escravo, na medida em que pagou uma indenização superfaturada, no valor de 2,5 milhões de reais, quando o proprietário havia comprado a fazenda há três anos antes pelo valor de 100 mil reais. Por fim, uma das últimas limitações institucionais apontadas pelos relatórios dizia respeito ao “simulacro de justiça” que eram as penas e os acordos determinados pelo MTE nas fiscalizações, bem como as condenações que estavam sendo feitas pelo Judiciário, quando os processos conseguiam chegar a uma conclusão (CPT, 1999, 2000). Em 1998, como vimos, ocorreu a primeira condenação por trabalho escravo e com apenas 10 meses corridos entre a prática do crime e a sentença, quando o normal era o arquivamento dos processos por prescrição dos prazos antes mesmo da denúncia ou da pronúncia de uma sentença (Figueira, 1999). Contudo, a pena aplicada, como ressalta a CPT, foi “a mera entrega de cestas básicas”. No que tange ao MTE, aponta-se que as penas, assim como os Termos de Ajustamento de Conduta aplicados pelo MTE eram insignificantes diante do poder econômico e político dos fazendeiros e empresários rurais, aumentando os casos de reincidência e mantendo o quadro de impunidade. Para algumas dessas avaliações e críticas, contudo, o problema da inefetividade das políticas do período não era de fundo completamente institucional, mas também de fundo econômico. Essa percepção se observa, de maneira geral, nas formas de caracterizar o trabalho escravo ou nos tipos de diagnósticos feitos acerca da impunidade e das medidas que passam a ser exigidas. A partir daqui, percebemos, sobretudo, mudanças importantes no posicionamento de dois atores políticos igualmente importantes no cenário histórico das políticas de erradicação do trabalho escravo rural, a CPT e a OIT. Com relação à CPT, nós podemos observar um “retorno” às críticas de caráter estrutural do clero progressista dos anos 1970, mas agora direcionados ao neoliberalismo. No período anterior (1985-1994), a CPT enfatizou, sobretudo, o critério da violência para caracterizar o trabalho escravo e conseguir a atenção dos órgãos internacionais de direitos humanos e direitos do trabalho, deixando de lado o apelo mais crítico e sistêmico acerca do que 104 significava o avanço do capitalismo no campo. O intuito parecia ser o de entrar no jogo institucional de forças políticas, marcar presença, e pressionar o governo a tomar medidas que representassem os interesses dos trabalhadores rurais no processo de redemocratização e que lhes garantissem direitos diante do avanço do capitalismo. No período em questão (1995-2002), no entanto, a CPT, já havia conquistado apoios políticos importantes – como o da OIT, que tinha grande legitimidade desde os anos 1930 no país (Ervolino, 2011) – e uma capilaridade significativa entre as agências estatais. Ao analisar as razões da inefetividade, destacou, para além das questões institucionais já vistas, o “capitalismo selvagem” da era FHC e os seus impactos no campo, no que a CPT reassumiu seu “apoio à luta pela mudança radical deste modelo neoliberal dominante”, de forma a contribuir para a construção de um projeto popular” (CPT, 2001b: 2). Esta luta não deveria abrir mão dos espaços institucionais conquistados, exigindo melhorias e maior comprometimento político. Contudo, dever-se-ia sempre ter em mente que as instituições, como o Judiciário, não são o ponto final dos conflitos e não pautam sua atuação pela neutralidade, “seguindo regras”, não bastando, portanto, reivindicar mais leis. O Judiciário faz parte do jogo político. Não se poderia cair no “mito da neutralidade”, devendo-se sempre levar em consideração que as reivindicações não seguem apenas pela via institucional (CPT, 1995: 13). Com relação à OIT, por sua vez, é possível observar uma mudança de posicionamento em sua caracterização do que é o trabalho escravo, ressaltando questões de fundo econômico e não apenas institucionais. Sua definição “oficial” (através das Convenções) sempre foi de trabalho forçado e continuou sendo no período em questão. Mas a caracterização do que pode constituir trabalho forçado passa a abranger características outras, de caráter econômico e sistêmico, que se aproximam da caracterização feita por Casaldáliga durante os anos 1970. O ponto central dessa nova forma de caracterizar o trabalho forçado no Brasil é através do que a OIT (2002a: 27) chamou de “servidão por dívida”. Nesta caracterização, não é mais necessário a presença ou a constatação da violência, nem que o trabalhador não tenha se 105 oferecido voluntariamente para o trabalho. No Brasil, a questão da voluntariedade do trabalhador não é um fator que permite identificar a situação como detrabalho livre. É preciso olhar para o quadro estrutural econômico e político que se impõe sobre trabalho e sobre as condições de vida no ambiente rural. Segundo a OIT, a servidão por dívida no Brasil se explica em grande medida pelo histórico de abandono dos problemas crônicos e estruturais, como a questão da reforma agrária e do avanço das fronteiras agrícolas (OIT, 2002a: 96). Um dos resultados mais visíveis da união de preocupações institucionais com um entendimento mais estrutural acerca do trabalho escravo rural foi, sobretudo, a exigência ou a formulação de medidas punitivas de impacto econômico, voltadas para a expropriação (e não desapropriação), como é o caso da famosa PEC 438/2001, e voltadas para o boicote econômico através do corte de empréstimos públicos em caso de denúncias comprovadas pelas fiscalizações, como é o caso da controversa “Lista Suja do Trabalho Escravo”. Essas duas políticas serão implementadas, junto com outras exigidas até então, no período seguinte, conformando um novo quadro no cenário das políticas de erradicação do trabalho escravo. 2.5 – Políticas integradas, “consensos” e as contradições do direito (2003-2012) O período que se inaugura em 2003 se caracteriza por avanços quantitativos e qualitativos nas políticas governamentais voltadas para a erradicação do trabalho escravo rural. Políticas que surgiram no período anterior, especialmente voltadas para a integração institucional e para as operações de fiscalização, foram ampliadas e melhoradas; e os aspectos problemáticos remanescentes das políticas passadas, bem como aqueles ignorados por elas, passaram a ser alvo de novas medidas, voltadas não somente para a melhoria institucional, mas também para medidas que procuram atingir economicamente fazendeiros e empresários rurais denunciados por trabalho escravo. 106 No curso das avaliações e críticas feitas às políticas deste período, encontramos um quadro diferenciado dos períodos anteriores. Sobretudo a partir de 2005, o Brasil é reconhecido pela OIT como um país-exemplo no combate ao trabalho escravo; e suas políticas governamentais são citadas e comentadas em relatórios globais sobre o trabalho escravo e em outros documentos produzidos pela OIT em parceria com o governo federal, com a CPT e com organizações não-governamentais, como a Repórter Brasil, que surge neste período como um ator político essencial para a produção de relatórios e pesquisas, bem como para a publicização das fiscalizações e processos judiciais envolvendo casos de trabalho escravo. Para além dos pontos positivos, contudo, permanece nesses relatórios a tônica da impunidade, resultante, sobretudo, de limitações institucionais e processuais ou mesmo da omissão do Poder Judiciário com relação ao trabalho escravo rural. Com isso, é comum encontrar a ideia de que é preciso “sensibilizar” os juízes quanto ao trabalho escravo rural, para que os defeitos existentes nas leis não lhes servissem de justificativa para não decidirem. Em paralelo, também aparecem entendimentos cada vez mais abrangentes acerca do trabalho escravo rural no Brasil, levando alguns relatórios e documentos a analisar a política agrária encabeçada no período, bem como o avanço do agronegócio sobre o campo. É na manifestação desses entendimentos mais amplos, bem como em sua transformação em políticas concretas que assistimos às reações recorrentes de parlamentares da bancada ruralista de utilizarem até mesmo as medidas mais importantes do período, como a PEC 438/2001 ao seu favor, tendo o Judiciário aí um papel fundamental. Vejamos isso de forma mais detalhada. 107 Tabela 4 - Medidas Formais para o Trabalho Rural e para o Trabalho Escravo (2003-2012) Ano Medida 2003 Lançamento do I Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo Instituída a Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (CONATRAE), sob coordenação da Secretaria Nacional de Direitos Humanos Solução Amistosa com a CIDH-OEA: o caso José Pereira Criação da relação de empregadores escravizadores, do Ministério da Integração Nacional Alteração do art. 149 do Código Penal, que trata do crime de redução da pessoa à condição análoga a de escravo 2004 Aprovada PEC 438 em 1º turno na Câmara dos Deputados Criação da Lista Suja do Ministério do Trabalho e Emprego 2005 Assinado um Termo de Cooperação entre MTE e MDS para priorizar a inserção dos egressos do trabalho escravo no programa Bolsa Família MDA e INCRA lançam seu próprio Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo 2006 STF (RE 398041) “pacifica” a controvérsia e reconhece a competência da Justiça Federal para processar e julgar o crime. MTE lança Agenda Nacional do Trabalho Decente 2007 Informe nº 105 do MDS, promovendo o termo de cooperação assinado com o MTE para a inserção dos trabalhadores resgatados no programa Bolsa Família 2008 Lançado o II Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo 2012 É aprovada a PEC 438 em 2º turno na Câmara dos Deputados MPF cria um roteiro para a atuação do Grupo Móvel para evitar a impunidade. Cria Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar a exploração do trabalho escravo ou análogo ao de escravo, em atividades rurais e urbanas, de todo o território Em janeiro de 2003, a OIT, em parceria com a CPT, o Ministério Público do Trabalho (MPT), a Procuradoria Federal dos Diretos do Cidadão (PFDC) e o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho (SINAIT), organizam a Oficina “Trabalho Escravo, uma chaga aberta”, no III Fórum Social Mundial em Porto Alegre. Como marco de uma nova etapa no combate ao trabalho escravo rural, a Oficina ampliou o entendimento acerca do problema, adotando de vez o termo “trabalho escravo” e não mais “trabalho forçado”. Como já vimos, essa mudança vinha se articulando nos próprios relatórios da OIT desde o período anterior, quando a Organização passou a caracterizar a situação brasileira como “servidão por dívida”, que seria uma modalidade de “trabalho forçado”, anteriormente reconhecido apenas quando constatada a involuntariedade do trabalhador ao aceitar o trabalho e o uso da violência para mantê-lo preso nele. A partir dos debates travados na Oficina, a servidão por dívida se torna uma 108 “nova forma de escravidão” ou simplesmente “trabalho escravo”, para resumir. O entendimento e a caracterização do problema passam a abarcar questões de caráter econômico, semelhantes aos de Casaldáliga e da CPT, que seria o quadro essencial para se entender a exploração, a degradação ou a escravização do trabalhador rural. As palavras do juiz do trabalho Hugo Cavalcanti Melo Filho, presente na Oficina, ilustram bem esse “novo” entendimento ou esse “renascimento” de uma compreensão mais ampla do problema: “Será que somente aqueles que estão a ferros, no interior do Tocantins e do Pará, aqueles que são impedidos de se retirar dessas fazendas, aqueles que se prendem a essa atividade por servidão por dívida, só esses seriam classificados? (...) Na minha avaliação, grande parte da população brasileira, dos trabalhadores brasileiros, se encontra em determinado estágio de servidão. Porque sempre que não se observam no Brasil, e em qualquer lugar, as regras mínimas de proteção do trabalhador, sempre que alguém no Brasil está trabalhando em condições inferiores àquele mínimo absoluto que é colocado pela lei trabalhista, eu não tenho dúvida de afirmar que eles estão em situação degradante e que ele está em estágio de servidão. Porque ninguém se submete a um trabalho dessa natureza se não for por extrema necessidade” (OIT, 2003: 33). Essa compreensão mais ampla do problema se fará sentir, poucos meses depois, na primeira medida governamental implementada no período, que foi o lançamento do I Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo. Para alémdas preocupações recorrentes com questões de integração institucional e de destinação de recursos e estruturas para a realização das operações de fiscalização, o Plano estabelece uma série de outras metas ressaltando a necessidade, por um lado, de punir mais energicamente (atingindo o poder econômico de fazendeiros e empresários rurais) e, por outro, de prevenir que os trabalhadores rurais fossem aliciados e escravizados. Nas ações punitivas, o Plano fala, por exemplo, na inclusão dos crimes de trabalho escravo na lei de crimes hediondos (Ação 6); na aprovação da PEC 438/2001 para que os proprietários fossem expropriados e não mais desapropriados e indenizados (Ação 7); na inserção de cláusulas nos contratos das agências de financiamento que impedissem a obtenção ou manutenção de crédito rural e de incentivos de financiamento (Ação 9); novamente, na ação de sensibilização 109 dos juízes federais e do trabalho para a aplicação de penas mais duras e multas com valores mais altos (Ação 11). Nas ações preventivas, por sua vez, o Plano aponta, por exemplo, a necessidade de inserção em programas sociais do governo dos municípios de estados “fornecedores” e “receptores” desses trabalhadores, como Maranhão, Mato Grosso, Pará, Piauí, Tocantins e outros (Ação 4). A intenção do Plano era a de efetivar o que no período passado havia ficado no papel ou na intenção. Os primeiros resultados concretos do Plano se deram já em julho de 2003, com a criação da Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (CONATRAE)55, responsável por acompanhar o cumprimento do Plano Nacional e propor as alterações necessárias. Ela também deveria acompanhar a tramitação de projetos de lei no Congresso Nacional referentes ao combate ao trabalho escravo; acompanhar e avaliar os projetos de cooperação técnica firmados entre o governo e órgãos internacionais; bem como propor a elaboração de estudos e pesquisas56 e incentivar a realização de campanhas relacionadas à erradicação do trabalho escravo. Para tanto, a Comissão deveria abarcar e integrar diversos Ministérios e agências do Estado57, assim como representantes de entidades privadas e não- governamentais envolvidas no combate ao trabalho escravo. Logo que a CONATRAE iniciou suas tarefas, o governo assinou, em 18 de setembro de 2003, o acordo de “Solução Amistosa” para o caso “José Pereira” (CIDH/OEA, 2003), que havia levado o Brasil a ser denunciado na CIDH-OEA e na ONU e, depois, a ter reconhecido publicamente a existência de trabalho escravo no Brasil. No acordo firmado junto à CIDH-OEA, o Estado brasileiro reconheceu sua responsabilidade diante da omissão de seus órgãos e agentes, assumiu o compromisso de continuar com os esforços para o 55 Decreto de 31/07/2003. 56 Ver Apêndice 1 – Relatórios produzidos sobre o trabalho escravo rural entre 2003 e 2012. 57 A CONATRAE é integrada pelo Secretário Especial dos Direitos Humanos; pelos ministros da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, da Defesa, do Desenvolvimento Agrário, do Meio Ambiente, da Previdência Social, do Trabalho e Emprego; e por dois representantes do Ministério da Justiça, sendo um do Departamento da Polícia Federal e outro do Departamento da Polícia Rodoviária Federal. 110 cumprimento dos mandados judicias de prisão contra os acusados, comprometeu-se a implementar ações e propostas de mudanças legislativas, bem como defender a competência da Justiça Federal para julgar os casos de trabalho escravo, a realizar uma gestão conjunta ao Judiciário para garantir punição aos infratores, e determinou o pagamento de uma indenização no valor de 52 mil reais à vítima. Após a assinatura da solução amistosa com a CIDH-OEA, o governo, através do Ministério da Integração Nacional, cria, em 18 de novembro de 2003, a relação de empregadores e de propriedades rurais acusados e fiscalizados pelo Grupo Móvel do Ministério do Trabalho e Emprego por trabalho escravo58. O objetivo era o de encaminhar semestralmente a relação de empregadores aos agentes financeiros com a recomendação que se abstenham de conceder financiamentos ou qualquer outro tipo de assistência com os recursos sob a supervisão do Ministério da Integração Nacional para as pessoas ou empresas constantes na lista. Em complemento, o Ministério do Trabalho e Emprego criaria, mais tarde, em 15 de outubro de 2004, a famosa “Lista Suja do Trabalho Escravo” 59, que tornava pública a relação de empregadores. O empregador seria inserido na relação após encerrado o processo administrativo no MTE em consequência de flagrante pelo Grupo Móvel de Fiscalização. O nome seria mantido por dois anos e retirado quando os débitos trabalhistas e multas fossem quitados, e desde que os empregadores não reincidissem nas infrações. Com essa medida, o governo recomendava uma espécie de boicote econômico e social aos fazendeiros e empresários rurais acusados, na medida em que a relação funcionaria como um selo de qualidade e de legalidade trabalhista dos empreendimentos rurais. Abaixo, estão alguns dados referentes às atuações de fiscalização e as inclusões na “Lista Suja”. 58 Portaria nº 1.150, de 18 de novembro de 2003, do Ministério da Integração Nacional. 59 Portaria nº 540, de 15 e outubro de 2004, do Ministério do Trabalho e Emprego. 111 Tabela 5 - Operações de Fiscalização e Inclusões na "Lista Suja" do Trabalho Escravo (1995-2012) Ano Operações Fazendas Trabalhadores Resgatados Inclusões na Lista Suja 1995 11 77 84 - 1996 26 219 425 - 1997 20 95 394 - 1998 17 47 159 - 1999 19 56 725 - 2000 25 88 516 - 2001 29 149 1.305 - 2002 30 85 2.285 - 2003 67 188 5.223 2 2004 72 275 2.887 22 2005 83 187 4.273 8 2006 103 199 3.308 12 2007 114 203 5.963 14 2008 158 301 5.016 20 2009 156 350 3.769 10 2010 142 310 2.628 43 2011 164 331 2.428 45 2012 62 119 952 104 Fonte: Tabela produzida a partir de dados do Sistema Federal de Inspeção do Trabalho SFIT/SIT/MTE. Ainda no mesmo ano, em dezembro de 2003, é aprovada a lei que dava nova redação do artigo 149 do Código Penal60, dando forma mais precisa à tipificação do crime de trabalho escravo ao considerar a jornada exaustiva, a restrição da liberdade em razão de dívida e o trabalho degradante como forma de trabalho escravo, adequando a definição à realidade brasileira. Agora, o entendimento mais amplo que se formava nos encontros e relatórios de avaliação das políticas também é incorporado pela legislação. Na ocasião da aprovação dessa medida, muitos parlamentares e produtores rurais se manifestaram, recorrendo à Convenção nº 29 da OIT para alegar que o conceito brasileiro de trabalho escravo estava contrariando a Convenção, na medida em que esta apenas reconhecia o trabalho forçado em caso de involutariedade do trabalhador para o serviço e do uso da violência para mantê-lo (BRASIL/SDH, 2013). Assim, muito embora a OIT já tivesse 60 Lei 10.803, de 11 de dezembro de 2003 – Altera o art. 149 do Decreto-lei nº 2.848 de 7 de dezembro de 1940. 112 modificado seu entendimento e seus termos para caracterizar a situação da exploração do trabalho no campo brasileiro, as regras que anteriormente eram mobilizadas por defensores dos direitos dos trabalhadores rurais passam agora a ser mobilizadas pelos acusados de explorá-los. O entendimento da OIT se alterou, mas não suas convenções e a letra de suas normas, e isso se repercute até mesmo em entendimentos e caracterizações feitas por juízes e mesmo ministros do STF, que, como veremos, também acabam mobilizando as Convenções para alegar a não existência de trabalho escravo rural no Brasil. O ano de 2004 se abre com a violenta reação por partede fazendeiros e proprietários rurais contra as ações que vinham sendo tomadas pelo governo, especialmente contra as operações de fiscalização do Grupo Móvel, culminando no que ficou conhecido pela “Chacina de Unaí”. Na ocasião, três auditores fiscais do trabalho e um motorista do Grupo Móvel foram assassinados quando fiscalizavam fazendas de feijão em Unaí (MG) no dia 28 de janeiro de 2004. Segundo a CPT (2004), o quadro de violência que se apresentou no campo em 2004 foi acentuadamente maior do que do ano anterior, em parte em função do aumento das reivindicações por reforma agrária, em parte pelos métodos contravertidos do governo em lidar com essas reivindicações. Como veremos, mais adiante, a CPT passa, a partir de 2004, a sustentar um olhar “decepcionado” e crítico com relação ao governo Lula, que implementaria políticas contraditórias no campo: por um lado, ele fechava o cerco contra os fazendeiros e proprietários rurais acusados de trabalho escravo e, por outro, implementava políticas voltadas para a monocultura do agronegócio (da cana, da soja e da pecuária) fortalecendo grandes proprietários e não os pequenos proprietários e trabalhadores sem terra. No mesmo ano, passados mais de 2 anos da sua data de apresentação, a Proposta de Emenda Constitucional nº438 de 200161, de autoria do senador Ademir Andrade (PSB-PA) foi aprovada em 1º turno na Câmara dos Deputados. Esta PEC, que ficou conhecida como a “PEC do Trabalho Escravo” se tornou uma das principais bandeiras de reivindicação por medidas contra o 61 O texto integral da PEC pode ser encontrado em http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=36162. http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=36162 113 trabalho escravo, ao passo que ela não falava em desapropriação com indenização ao proprietário (como as que foram feitas no período anterior), mas em expropriação, ocasionando a perda da propriedade sem qualquer indenização. Assim sendo, a PEC também foi alvo de diversas mobilizações por parte de fazendeiras e políticos. Em pronunciamento na Câmara dos Deputados, no dia 2 de março de 2004, Severino Cavalcanti (PP-PE) faz apelo aos parlamentares, de modo a “alertá-los” sobre os rumos do que pretendia a PEC do trabalho escravo: “Ora, senhoras e senhores deputados. Vamos parar de hipocrisia, de fingir que somos a França, os Estados Unidos ou a Alemanha e que podemos acompanhar suas avançadas legislações trabalhistas. [...] Não vamos resolver os problemas do campo e do desemprego ameaçando produtores e fazendeiros com o confisco de terras no caso das muitas e controversas versões de trabalho escravo” (Pronunciamento do Deputado Federal Severino Cavalcanti na Câmara dos Deputados, 2/03/2004, apud CPT, 2004: 121). No Senado, outro pronunciamento viria por parte do senador João Ribeiro, na época julgado e condenado pela Vara do Trabalho de Redenção, no sul do Pará, por trabalho escravo em sua Fazenda Ouro Verde, que pediu as fiscais do trabalho “complacência para com aqueles homens rudes do campo que ainda não se adaptaram aos novos tempos”. Antes de ser aprovada em 1º turno na Câmara dos Deputados, a proposta já havia recebido emendas, especialmente por parte da deputada federal Kátia Abreu, que buscava garantir o “direito do contraditório” e o respeito ao devido processo legal antes que as expropriações fossem decretadas, de modo a não tornar a medida inconstitucional e não se cometer injustiças com os fazendeiros e produtores rurais. A deputada defendia a necessidade de as expropriações só serem realizadas após sentença judicial, de modo a não tornar a emenda uma norma inconstitucional e injusta para fazendeiros e produtores rurais, que poderiam não ter o direito de se defender, ficando à mercê das interpretações dos auditores fiscais acerca do que viram em suas operações. Segundo a deputada, 114 “a exploração de trabalho escravo, na maior parte das vezes, demanda maior controvérsia quanto aos fatos. A qualificação do trabalho escravo e o descumprimento das obrigações trabalhistas pelo proprietário do imóvel revelam matéria que, certamente, exige maior dilação probatória. Constitui, portanto, providência que resguarda os direitos da pessoa humana assegurar ao acusado o exercício dos direitos à ampla defesa e ao contraditório previamente à expropriação do imóvel. Negar ao proprietário do imóvel o direito de defesa em juízo, especialmente no caso de exploração do trabalho escravo, determinando a “imediata” expropriação do bem, dará ensejo a incontáveis injustiças, em decorrênca, sobretudo, de defecções na correta elucidação dos fatos” (Transcrição do Pronunciamento da Deputada Federal Kátia Abreu na Câmara dos Deputados, 26/03/2004). Em outro momento, ainda, da tramitação da PEC 438/2001, a deputada enfatiza a necessidade da emenda por ela proposta, defendendo a importância do agronegócio para o país e os riscos de se manchar a sua imagem em função de poucos, fazendo diferenciações entre situações que podem ser encontradas pelos fiscais, e apontando qual deveria ser a função “adequada” do Grupo Móvel: “Está havendo uma confusão entre infração trabalhista, trabalho degradante e trabalho forçado e escravo...são três situações completamente diferentes, embora as três estejam erradas. [Trabalho escravo] “é obrigar alguém a estar onde não quer” (Transcrição do Pronunciamento da Deputada Federal Kátia Abreu na Câmara dos Deputados, 26/05/2004). Dizendo repetir as palavras do ministro Lelio Bentes Corrêa do Tribunal Superior do Trabalho em entrevista dada à TV Câmara, a deputada defende que: “os auditores fiscais não tem a função de escrever em seu relatório se o trabalho é escravo ou não. Os auditores tem que se limitar a escreverem o que viram, descrever a situação da propriedade, a situação dos trabalhadores. Cabe a Justiça ver isso [verificar o trabalho escravo]” (Transcrição do Pronunciamento da Deputada Federal Kátia Abreu na Câmara dos Deputados, 26/05/2004). O importante, para a deputada, era garantir que uma definição precisa fosse estabelecida antes de se fazer qualquer expropriação. Enquanto essa 115 definição legal não chegasse, caberia ao Poder Judiciário decidir, e não ao Grupo Móvel de Fiscalização; e mesmo quando ela chegasse, o Poder Judiciário ainda deveria garantir o contraditório e avaliar as ações e interpretações do Grupo Móvel. O interessante a se observar durante os pronunciamentos para o tratamento da PEC do Trabalho Escravo é que tanto aqueles que eram favoráveis à PEC quanto aqueles que eram contra a ela, como a deputada Kátia Abreu, colocavam “esperanças” e pressões sobre o Poder Judiciário, alegadas as falhas na legislação. Assim, enquanto os primeiros procuravam e esperavam uma maior “sensibilização” dos juízes (como meta do próprio Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo e de medidas presentes até os dias hoje), os segundos esperavam que o Poder Judiciário exercesse sua função e garantisse os direitos constitucionais do contraditório e do devido processo legal. Uns esperavam um certo “ativismo” dos juízes, que eles agissem com consciência social e soubessem adaptar as falhas na legislação a decisões socialmente comprometidas; e outros esperavam não um ativismo, mas o simples “cumprimento” das normas constitucionais, ou da adaptação das falhas das leis em defesa da propriedade e do direito de defesa. Para ambos, a alteração do artigo 149 do Código Penal em dezembro de 2003, ainda havia deixado lacunas, e quem deveria resolvê-las seria a jurisprudência. Após a aprovação em 1º turno da PEC do Trabalho Escravo na Câmara dos Deputados, o Ministério do Desenvolvimento Agrário e o Incra lançam, em maio de 2005, seu próprio Plano Nacional para a Erradicaçãodo Trabalho Escravo (BRASIL/MDA/INCRA, 2005), voltado, sobretudo, para uma estratégia preventiva. Com base na caracterização do trabalho escravo em função da servidão por dívida, o Plano estabelece ações voltadas para o aumento da oportunidade de emprego e renda nas localidades de origem dos trabalhadores escravizados, de forma a lhes garantir cidadania e dignidade, e assim evitar o aliciamento e a consequente escravização. Dentre as ações, estavam as de promoção e implementação de projetos de assentamentos de trabalhadores 116 sem terra, de reforma agrária, de aumento do crédito rural, e de apoio ao associativismo62. Para a CPT, contudo, as políticas que vinham sendo implementadas até o momento eram inefetivas, tanto do ponto de vista preventivo (como pretendia, sobretudo, o Plano do MDA/INCRA) quanto do ponto de vista punitivo, como as diversas outras medidas até então implementadas. A CPT (2005a) reconhecia e atuava em conjunto com o Grupo Móvel de Fiscalização, e também elogiava “a atuação corajosa” de alguns juízes do trabalho, mas apontava a falta de condenações criminais como um sério problema a ser enfrentado, impunidade que reforçava de maneira perversa e silenciosa projetos inefetivos de reforma agrária e de avanço da monocultura e do agronegócio no campo. No que tange à impunidade, a CPT cita o caso envolvendo o deputado Inocêncio Oliveira, que se encontrava parado no STF a espera de uma decisão de aceitação da ação desde 2003, dadas as dificuldades e divergências entre os ministros para caracterizar o trabalho escravo. Para a ministra Ellen Gracie, calcada sobretudo na Convenção nº 29 da OIT, o caso envolvendo o deputado Inocência Oliveira não se tratava de um caso de trabalho escravo, na medida em que os trabalhadores não se encontravam “algemados”. Com ela, concordou e votou o ministro Eros Grau, e depois o processo ficou parado em função de um pedido de vista do ministro Joaquim Barbosa. Para a CPT, as condenações por trabalho escravo só acontecem, assim, quando o juiz tem “coragem” de assim o fazer, ultrapassando conflitos de competência e de falhas nas leis. A condenação e a diminuição da impunidade acabam dependendo das atitudes dos juízes individualmente, e isso seria muito pouco, dado que para a CPT (2004), a violência podia vir do próprio Judiciário: “...é a violência do Poder Público, do Judiciário, que tem aumentado em intensidade nestes dois anos do governo Lula. Um aumento de 10,8% no número de prisões, 421 presos, e de 5,5% no de famílias despejadas, 37.220, o maior número desde que a CPT começou a efetuar os registros. Uma família, em cada 5,8 envolvidos em conflitos, recebeu ordem de despejo. É como se o Poder Judiciário 62 Outras medidas foram alcançadas através, por exemplo, do Termo de Cooperação entre MTE e MDS para priorizar a inserção dos egressos do trabalho escravo no programa Bolsa Família. 117 tivesse caminhado ao recado que veio das urnas nas eleições de 2002” (CPT, 2004: 8). No que tange às políticas de prevenção, que vão desde a geração de empregos nas áreas rurais até a implementação da reforma agrária, a CPT passa, a partir da realização do II Congresso da CPT em meados de 2005, a defender um posicionamento cada vez mais crítico às políticas governamentais para o campo, que, sob seu ponto de vista, eram contraditórias às outras políticas governamentais voltadas para o social, assim como para a erradicação do trabalho escravo rural. Segundo a CPT, além da “decepção” com o governo Lula em função da crise política que se instaura em 2005 com as denúncias de corrupção, pesava a política de expansão e de incentivo da monocultura e do agronegócio, sobretudo do etanol, que levava, novamente, à expansão de novas fronteiras e a consequente utilização de trabalhadores escravos, de desmatamento, e de outras irregularidades. Assim, o que vemos nas edições anuais dos Cadernos “Conflitos no Campo”, sobretudo entre 2006 e 2011, bem como em outras publicações feitas em parceria com outras instituições63, é uma crítica à política agrária do governo Lula, e uma “constatação” de que a realidade do trabalhador no campo muda muito lentamente. A OIT (2005a, 2005b), por seu turno, buscava traçar uma avaliação do I Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo de modo a verificar o que teria sido cumprido pelo governo, que seria algo em torno de 77,7% das metas estabelecidas. A OIT reconhece os esforços governamenais e aponta o Brasil como um país exemplo a ser seguido em suas políticas de erradicação. Contudo, lança críticas em duas frentes: primeiramente, melhorar institucionalmente as políticas já implementadas, visando, sobretudo, a aprovação da PEC do Trabalho Escravo e uma maior sensibilização e comprometimento dos juízes; e em segundo lugar, impulsionar a geração de 63 Ver CPT, Grito dos Excluídos, Continental, Jubileu Brasil, Campanha Contra a ALCA, Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, Serviço Pastoral dos Migrantes (2006). A OMC e os efeitos destrutivos da indústria da cana no Brasil; CPT, Rede Social de Justiça e Direitos Humanos (2007). Agroenergia: mitos e impactos da América Latina; e CPT, Rede Social de Justiça e Direitos Humanos (2008). Os impactos da produção de cana no Cerrado e Amazônia. 118 emprego no campo e a reforma agrária, concordando, assim, com as críticas e avaliações feitas pela CPT ao governo. Sobre as dificuldades institucionais que o governo ainda enfrentava, a OIT (2005a, 2005b) apontava a falta de recursos humanos, o baixo valor das multas e o conflito de competência entre a Justiça Federal e Estadual, o baixo número de ações e de condenações criminais, e o longo tempo de tramitação dos processos judiciais. Sobre os problemas de ordem estrutural, a OIT aponta que o Brasil não conseguiu avançar significativamente nas metas de promoção de cidadania, de geração de emprego e de reforma agrária, sobretudo nas regiões fornecedoras de mão-de-obra escrava. Em resumo, para a OIT, “é preciso ultrapassar a primeira etapa, ligada à sensibilização da sociedade64 e à atuação dos grupos móveis e centrar esforços diretamente nas causas do problema. Ou seja, de um lado combater a impunidade e de outro garantir acesso à terra e gerar emprego e renda para impedir o êxodo de trabalhadores de sua terra natal” (OIT, 2005a: 100). Em 2006, uma decisão do STF tentou colocar um fim a uma das causas principais que foram apontadas pelos relatórios como geradoras de impunidade, os conflitos de competência entre a Justiça Federal e a Justiça Comum. Contudo, a decisão não foi suficiente para acabar com as interpretações divergentes acerca da questão65. Por maioria de votos, o STF 64 Imbuídos desse intuito, a OIT, em parceria com a ONG Repórter Brasil e com o Instituto Ethos, desenvolvem e lançam, ainda em 2005, o “Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo”, com adesão inicial de 80 empresas que se comprometeram a cortar relações comerciais com quem constasse na “Lista Suja” do Trabalho Escravo. 65 Uma das manifestações jurídicas mais exemplares e atuais de que a decisão do STF não pacificou o conflito de competência pode ser vista no “reerguimento” de alguns juízes do trabalho, bem como de procuradores do trabalho, que vêm defendendo não apenas a competência penal da Justiça do Trabalho para o crime de trabalho escravo, como também a necessidade de se criar e praticar um “novo direito do trabalho”. Em recente simpósio organizado pelo Ministério Público de São Paulo, algumas autoridades, entre juízes e procuradores do trabalho, apontaram a importância dos juristas e “operadores” do direito olharem para o direito do trabalho não mais comoum direito individual, mas como um direito coletivo. A violação dos direitos do trabalho é sempre uma violação coletiva, na medida em que afeta toda a “cadeia” ou rede de produção, de obrigações com as instituições trabalhistas e também de capacidade competitiva. O trabalho seria o elemento estruturador da sociedade, assim como o modo de produção. Assim, seria a Justiça do Trabalho que deveria se ocupar das violações trabalhistas e olhar para as violações não como crimes individuais, mas como manifestações de um modo de produção que gera e possibilita tais crimes como numa cadeia ou sistema. A Justiça do Trabalho se modificaria junto com a mudança do olhar sobre o direito 119 decidiu na ocasião pela competência da Justiça Federal para julgar os crimes de trabalho escravo, sob o argumento de que, no caso analisado, o crime afrontou não apenas a liberdade individual dos trabalhadores, mas a própria organização do trabalho ou a dignidade humana, devendo, portanto, ser julgado pela Justiça Federal. Contudo, os votos dos ministros apresentaram justificativas distintas para justificar o crime contra a organização do trabalho. Para os que estavam em maioria, pode-se encontrar a justivativa de que se tratava de um crime contra a organização do trabalho e contra a dignidade humana na medida em que eram vários trabalhadores e todos submetidos a condições indignas de trabalho e, principalmente, à violência física. Para os que foram votos vencidos, as justificativas recaíam sobre o argumento de que o crime de trabalho escravo tinha por objeto jurídico a liberdade individual e não coletiva, ou sobre o argumento de que a Justiça Federal era escassa no país e não seria capaz de receber e responder a todas as demandas. Com isso, firmavam-se vários questionamentos acerca de como reconhecer se o crime do trabalho escravo feria ou não feria a organização do trabalho: seria preciso contar quantos trabalhadores se encontravam na situação? Qual seria o critério ou limite? Ou, ainda, o que seriam as condições indignas de trabalho? As dúvidas, assim, ainda permaneciam, inclusive sobre o que é o trabalho escravo, no que também permanecia nas políticas governamentais seguintes, assim também como nos relatórios e críticas, a necessidade de se “sensibilizar” os juízes para julgarem da forma mais socialmente comprometida possível, independente e acima das falhas nas leis. Tendo em vista as limitações das políticas até então implementadas, o governo lança em 2008, com a coordenação de Leonardo Sakamoto, da ONG Repórter Brasil, o II Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, novamente enfatizando a questão da impunidade, que permanecia, e a do trabalho, na medida em que as penas aplicadas não se restringiriam a prisões ou multas irrisórias, mas que atingissem a capacidade financeira de empresários e proprietários de terras e que os fizessem alterar o modo de produção aplicado em suas propriedades. 120 necessidade da reforma agrária e de geração de empregos no campo, reivindicações constantes tanto entre a CPT, quanto entre a OIT e a ONG Repórter Brasil. Nesse quadro, as ações se voltavam para a aprovação da PEC do Trabalho Escravo e para a uma atuação mais “sensível” por parte dos juízes e do Judiciário como um todo. A PEC seria o “instrumento que os especialistas apontam como decisivo para erradicar de vez essa mácula que envergonha o país” (BRASIL/SEDH, 2008); e as tentativas de sensibilizar os juízes para o tema seria a medida mais urgente enquanto a PEC não fosse aprovada66. A aprovação da PEC, contudo, em 2º turno na Câmara dos Deputados em 2012, configuraria um quadro de condições para a efetividade da PEC que poucas vezes é comentado por quem comemorou o acontecimento como uma medida efetiva imediata. Nas votações em 1º e 2º turno na Câmara dos Deputados, os votos a favor da PEC foram surpreendente e estranhamente quase consensuais, assim como foram as votações no Senado, especialmente se pensarmos no tempo de tramitação da proposta. Segundo o senador Aloysio Teixeira, que questiona a homogeneidade de quem votou “sim”, prevalece “a certeza de que na Câmara foi encenada uma obra de ficção, que lembra a “Comédia de Erros” de Shakespeare, sob a direção do Senhor Deputado Marco Maia, visando sobretudo a agradar a galeria e a produzir um fato para valorizar ainda mais sua invejável biografia. Nas notas taquigráficas da sessão de 24 de maio [quando a PEC foi remetida ao Senado], encontramos roteiro precioso de meias verdades, contradições e falsos argumentos, que nos ajudam a desvendar a realidade política subjacente à aprovação da PEC pela Câmara” (Parecer Reformulado do Senador Aloysio Ferreira, 21/05/2013, p. 16-17). Como exposto durante as discussões no Senado já no processo de leitura do relatório da PEC, havia sido estabelecido um acordo entre alguns deputados federais contrários a PEC com o Senado, antes de ela ser aprovada 66 O Ministério Público Federal lança em 2012 o “Roteiro para atuação dos Grupos Móveis de Fiscalização na constatação do delito de redução a condição análoga à de escravo”, com o intuito de tornar as descrições feitas nos relatórios de fiscalização os mais claros possíveis, servindo-se de fotografias da local e do que for necessário registrar referente às condições de trabalho e de moradia, de relatos gravados dos trabalhadores e funcionários da fazenda. A ideia central é a de que quanto mais claros e inquestionáveis os relatórios, mais difícil de os juízes “não-sensibilizados” alargarem o processo por falta de documentos, relatos etc. 121 em 2º turno na Câmara. Segundo o senador Aloysio Ferreira, tratava-se de um acordo em que o Senado garantia aos deputados contrários à PEC (a exemplo, o deputado Marco Maia) uma emenda que requisitasse formalmente a devida regulamentação de uma lei especificando o que é o trabalho escravo, projeto que ficaria sob a guarda de uma Comissão já composta pelos deputados federais contrários a proposta em conjunto com alguns senadores, tornando ainda mais tardias e limitadas as possibilidades de efetividade da PEC. Assim, é possível encontrar quem votou não em 1º turno e sim em 2º turno, como foi o caso da deputada Kátia Abreu. O senador Aloysio Teixeira se questiona pelo fato da Câmara dos Deputados não ter sequer esboçado no texto da proposta que foi ao Senado uma lei definindo o que é o trabalho escravo. Ele mesmo conclui: “Ao Presidente da Câmara interessava, contudo, criar fato político no mês que fora promulgada a Lei Áurea. Promoveu ele, encontro no Gabinete da Senadora Marta Suplicy, que presidia interinamente o Senado, com líderes partidários da Câmara e do Senado, para dar efeitos midiáticos a proposta, onde foi assumido o compromisso que o Senado Federal resolveria questões que a outra Casa deixaria pendentes. Para tanto, o senhor Marco Maia comprometeu-se a fazer gestão para que fosse constituída comissão de deputados e senadores para discutir a regulamentação da PEC. Feito isso, todos posaram para fotos, e o senhor Marco Maia nunca mais falou no assunto” (Parecer Reformulado do Senador Aloysio Ferreira, 21/05/2013, p. 21). Assim foi que ocorreu. Em 26 de novembro de 2013, é encaminhada uma emenda à PEC estabelecendo que as propriedades só poderiam ser expropriadas depois da promulgação de uma lei definindo o que é o trabalho escravo, que já estaria sob os cuidados da comissão especial estabelecida no acordo. Assim, no dia 27 de maio de 2014, dia de votação em 1º turno do Senado, as manifestações de aprovação de senadores da bancada ruralista com relação às condições que ainda são necessárias paraque haja uma expropriação em função de trabalho escravo: “Nós vamos colocar o Brasil numa posição de destaque na reunião da OIT que ocorrerá proximamente como um país que avançou na definição e na coibição do trabalho escravo, agora deixando claro que o enquadramento, a definição, a categorização do trabalho escravo 122 está dependendo de uma lei complementar que ainda está em discussão e que, muito em breve, vai ser definida para se completar a obra. Todavia, nós estamos dando um passo muito importante...O nosso voto será “sim”, de forma entusiástica” (Senador José Agripino, DSF, n. 75, 28/05/2014, pp. 654). “Quero aqui declarar, Sr. Presidente, não só como Presidente da CNA, não só como senadora da República, mas como cidadã, que não há no mundo quem concorde com essas questões e com esses quesitos. Essas pessoas não são representadas pela CNA; essas pessoas não são protegidas pelo Senado Federal. Ao contrário, aqueles que praticam, de fato, a escravidão, segundo a Convenção nº 29 da OIT, merecem ser punidos radicalmente. Por isso, nós estamos aqui votando, por unanimidade, a PEC do trabalho escravo. Ela será regulamentada e lei, sob análise de comissão especial já criada” (Senadora Kátia Abreu – PMDB/TO, DSF, n. 75, 28/05/2014, pp. 655). “é bom esclarecermos aos nossos produtores rurais que vamos votar ainda uma lei ordinária que vai definir o que, de fato, é trabalho escravo, tendo em vista que essa é uma preocupação...Quero dizer aos nossos produtores rurais que não vai haver nenhuma expropriação de forma irresponsável, até porque, só após a aprovação dessa lei ordinária, vamos definir, de fato, o que é trabalho escravo” (Senador Jayme Campos – DEM/MT, DSF, n. 75, 28/05/2014, pp. 657). Embora a votação pela PEC tenha sido unânime, houve rejeição por parte de 4 senadores com relação à emenda proposta à PEC, que apontaram a inocuidade que a PEC acabaria caindo tendo em vista a demora que poderia chegar a aprovação da lei que definiria o que é o trabalho escravo: “essa subemenda me deixou muito preocupado, à medida que joga para a regulamentação da lei a aplicação das medidas que nós acabamos de aprovar. Preocupo-me pela delonga, pela demora da aprovação e como será feito a aprovação da regulamentação dessa lei. (...). Nós temos uma resistência de nossas elites, infelizmente, de garantir esses direitos e de honrar aquilo que é necessário e colocar este País na moderidade, colocar este País no século XXI. A minha expectativa é que essa PEC pudesse ser imediatamente aplicada. Mas, lamento, com essa subemenda, eu tenho a impressão de que vamos ainda aguardar muito tempo. (João Capiberibe – PSB/AP, DSF, n. 75, 28/05/2014, pp. 657). Por fim, a PEC 57-A é aprovada, em 27 de maio de 2014, por unanimidade. Hoje se aguarda a regulamentação da lei definindo o que é o trabalho escravo. O que se pode perceber de todo o relato da PEC do Trabalho Escravo é que as pressões exercidas pela CPT, OIT e pela ONG Repórter 123 Brasil, bem como por alguns órgãos governamentais, para a aprovação da PEC serão transferidas agora para a aprovação da lei definindo o que é o trabalho escravo, como num ciclo sucessivo de uma regulamentação “salvadora”. A PEC do Trabalho Escravo é demonstrativa de que o problema central não estaria tão somente voltado para a questão da impunidade e da não realização de reformas estruturais no campo, mas também na diversidade de “usos” do direito e do Judiciário. O que se reconhece como o instrumento jurídico mais radical para erradicar o trabalho escravo e acabar com a impunidade é transformado em instrumento jurídico de questionamento e de postergação das punições; da mesma forma, enquanto alguns esperam e tomam medidas de conscientização e sensibilização dos juízes, para que eles atuem com consciência social, independente da indefinição ou das falhas das leis, outros esperam e tomam medidas para que sejam os juízes a terem que lidar com a questão do trabalho escravo, sob a alegação de que eles devem simplesmente agir de acordo com os princípios constitucionais do direito do contraditório e do devido processo legal, adiando a aplicação de medidas punitivas mais radicais. A espera pela definição jurídica do que é trabalho escravo ocorre para as duas partes, demonstrando a disputa política em torno do significado das normas. O andamento da PEC, portanto, nos dá instrumentos para suspeitar que o problema está muito além de um controle ou de uma sensibilização dos juízes ou da necessidade de reformas estruturais (como se a atuação do Judiciário e dos juízes fossem se alterar após essas reformas), no que o Judiciário não poderia ser pensado apenas em termos dos valores individuais dos juízes ao julgar os casos de trabalho escravo, nem em termos de que o Judiciário como um todo é funcional para um determinada estrutura econômica e que muda conforme esta se altera. O conflito político pelo significado perpassa não somente as esferas do Poder Legislativo e Executivo, mas também a esfera do Judiciário, no que seria preciso levantar mais variáveis para se pensar o quadro de razões que levam a uma atuação limitada do Poder Judiciário. 124 2.6 – Conclusões Na Introdução deste trabalho, apresentamos nossa hipótese de pesquisa com relação à atuação do Poder Judiciário nas políticas de erradicação do trabalho escravo rural, no que defendemos a tese de que o Judiciário vem apresentando mais limitações do que possibilidades para erradicar o trabalho escravo rural e garantir os direitos de cidadania no campo. No primeiro capítulo, por sua vez, apresentamos diferentes visões através das quais podemos estudar a atuação do Judiciário no tema em questão: se do ponto de vista das ações individuais dos juízes e outros atores políticos; se do ponto de vista das regras institucionais que guiam e limitam as ações individuais; se do ponto de vista do sistema ou estrutura onde o Judiciário está inserido; ou, ainda, e especialmente, através desses diversos pontos de vista em relação. O estudo realizado neste segundo capítulo mostra que as diferentes avaliações feitas das políticas já implementadas dão ilustrações primárias da nossa hipótese de pesquisa. Por um lado, críticas e decisões judiciais mostraram que o Judiciário atuou em todos os períodos de forma limitada, e, por outro lado, os agentes tinham expectativas opostas quanto à maneira pela qual o Judiciário iria tornar efetivas as medidas de combate. Enfim, ao colocarem em relevo aspectos de dimensões distintas para a atuação favorável do Judiciário – os valores e formas de ação dos juízes, o seu formato institucional e as suas relações com a estrutura social. Como podemos observar, contudo, as análises e explicações para a atuação limitada do Poder Judiciário foram distintas e mudaram ao longo do tempo, no que as avaliações de cada período específico agregam mais elementos possíveis de explicação e nos apontam a força de determinadas dimensões analíticas para o nosso tema de pesquisa. 125 Período O que mantém o trabalho escravo rural? Como erradicar o trabalho escravo rural? Como atua o Poder Judiciário 1970-1984 - capitalismo /desenvolvimentismo - impunidade - impedir o avanço do capitalismo no campo - punição - a favor do capitalismo e do direito de propriedade 1985-1995 - falta de vontade política - impunidade - pressões internacionais - punição - imparcialidade e independência dos juízes - expansão dos direitos trabalhistas no campo - reforma agrária - controlado por latifundiários 1995-2002 - impunidade - limitações institucionais - neoliberalismo - não-realização da reforma agrária - punição - sensibilização/ativismo dos juízes - federalização dos crimes contra os direitos humanos - reforma agrária - condenações pontuais e limitadas - limitadoinstitucionalmente - conflito de competência - sem leis claras 2003-2012 - impunidade - limitações institucionais - agronegócio - não-realização da reforma agrária - punição - sensibilização dos juízes - reforma agrária - condenações trabalhistas - condenações criminais não executadas - limitado institucionalmente - conflito de competência - leis deficientes - em favor de interesses divergentes; contradições do direito O primeiro período, num contexto de fechamento político, foi marcado por avaliações que enfatizam a dimensão sistêmica e estrutural do trabalho escravo rural, no que as regras, convenções e estatutos acerca dos direitos do trabalhador rural manifestavam funcionalidade para o projeto desenvolvimentista capitalista sobre o campo. Já o segundo período, de abertura política e de transição para a democracia, o jogo político se torna mais visível, no que as avaliações passam a identificar os posicionamentos dos diversos agentes estatais e governamentais no jogo político da transição para a democracia, mostrando quem ainda mantinha posicionamentos “conservadores” e desfavoráveis para os trabalhadores rurais. Assim, era preciso pressionar por comprometimento político, que ajudaria a colocar um fim na impunidade. Ao mesmo tempo, ainda que se reconhecessem as instâncias jurídicas como parciais a favor dos latifundiários, os trabalhadores rurais não deixavam de reivindicar seus direitos trabalhistas, ainda que isso significasse a abdicação de seus direitos sobre a terra ou a sua “desclassificação” como camponês para se tornar trabalhador 126 rural assalariado. A questão institucional aparecia como uma reinvindicação importante, ainda que limitada. No terceiro período, por sua vez, as limitações institucionais é que se tornam foco das avaliações, mostrando a importância de se fortalecer as instituições para impediram o desvio de comportamento dos agentes estatais, “sensibilizando” os juízes para julgarem com “consciência social” ainda que as leis não fossem claras e as instituições frágeis. Ao mesmo tempo, contudo, enfatizava-se a necessidade permanente da reforma agrária, sem a qual o comprometimento político e as melhorias institucionais conseguiam apresentar apenas condenações judiciais pontuais e limitadas, dependentes de juízes “ativistas”. No quarto período, por fim, reforçam-se as limitações institucionais e a necessidade de enfatizar o comprometimento individual dos agentes, necessitando ainda sensibilizar os juízes para atuarem de forma mais progressiva, independente das falhas das leis. Além disso, permanece a visão sistêmica ou estrutural acerca das políticas econômicas e agrárias no campo, que seguiriam uma linha imutável de defesa da monocultura e da empresa rural, agora reconhecida no agronegócio, e que seria a responsável pelas mudanças no campo se darem de maneira tão lenta. O mais importante é que fica evidente a contradição do direito e das medidas institucionais jurídicas, ao passo que elas passam a ser mobilizadas tanto por fazendeiros proprietários acusados de trabalho escravo quanto pelos agentes políticos denunciantes da situação da exploração. O que vemos, portanto, é que não é possível identificar uma dimensão que explique sozinha a atuação do Poder Judiciário na questão. O que podemos fazer é tentar entender de que forma essas diferentes dimensões de análise se entrelaçam em alguns casos particulares de trabalho escravo, para que possamos entender as limitações do Judiciário para efetivar mudanças sociais em toda a sua complexidade. 127 PARTE II 128 Preliminares para os estudos de caso Esta segunda parte da tese está inteiramente voltada para a análise dos três casos escolhidos de trabalho escravo rural que foram parar no Poder Judiciário. Mas, antes de adentramos na análise de cada caso, convém apresentarmos os critérios que embasaram a escolha dos casos, uma breve descrição dos casos escolhidos, e os critérios utilizados para a sua análise. Critérios para a escolha dos casos Os casos que foram selecionados para a análise são casos que possuem o que podemos chamar de “expressividade teórica”, na medida em que congregam elementos relevantes para o tema do trabalho escravo rural e ajudam a questionar a atuação do Poder Judiciário sobre casos de trabalho escravo rural. Basicamente, foram dois os critérios que auxiliaram na escolha dos casos: 1) o critério da expressividade da atividade rural envolvida em cada caso no quadro maior do trabalho escravo rural no Brasil, de forma a ver como que o Poder Judiciário atua em casos típicos de trabalho escravo rural e, geralmente, de grande importância econômica; e 2) o critério do perfil dos acusados em cada caso, de forma a ver se o Poder Judiciário atua de modo diferenciado dependendo da importância social e/ou política dos acusados. O olhar sobre a atividade rural como um critério para a escolha dos casos resultou da análise feita no Capítulo 2, da leitura do “Atlas do Trabalho Escravo no Brasil” (da ONG Amigos da Terra), e da análise de um pequeno conjunto de decisões judiciais sobre trabalho escravo. Juntos, esses três momentos exploratórios apontaram a importância de olharmos para a correlação existente entre o avanço do capitalismo no campo (especialmente para regiões amazônicas através do agronegócio) e as ocorrências de trabalho escravo rural. Os relatórios e as avaliações analisados no Capítulo 2 foram importantes, ainda, na medida em que chamaram atenção para a atuação até então mitigada e limitada do Poder Judiciário frente ao avanço do agronegócio e dos problemas trabalhistas dele resultantes, sendo alvo de sucessivas 129 críticas e de políticas voltadas para a “sensibilização dos juízes” para com o tema. De acordo com o “Atlas do Trabalho Escravo” – que confirmou as preocupações expostas no Capítulo 2 acerca da relação entre trabalho escravo e determinadas atividades do agronegócio –, quase 50% das propriedades fiscalizadas pelo Grupo Móvel entre 1995 e 2006 estavam voltadas para a atividade pecuária, seguidas pelas atividades de desmatamento (19%), carvoaria (12%) e cultivos variados (11%) dentre os quais se destaca o cultivo da cana-de-açúcar e da soja. Figura 1 - Atividades rurais em que foi encontrado trabalho escravo Fonte: ONG Amigos da Terra, 2012, p. 37. (dados referentes ao período de 1995 a janeiro de 2007). A correlação dessas atividades com o trabalho escravo também foi constatada através da leitura preliminar de decisões tomadas pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST) e pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) entre 130 1995 e 2010 sobre casos de trabalho escravo rural67. Como mostra a tabela abaixo, das 27 decisões julgadas pelo TST no período, foi possível averiguar que 6 (22%) trataram de casos de trabalho escravo na atividade pecuária, seguidos pelas atividades de colheita de café e de corte de cana-de-açúcar, ambas com 3 ações (11%) cada uma. Tabela 6 - Atividades rurais com trabalho escravo que foram parar no TST Atividades Ocorrências % Pecuária 6 22% Não mencionado 5 19% Colheita de café 3 11% Corte de cana-de-açúcar 3 11% Plantio de algodão 2 7% Empreiteira rural 2 7% Agropecuária 1 4% Roçagem 1 4% Produção de carvão 1 4% Colheita de laranja 1 4% Extração de madeira 1 4% Cultivo de soja 1 4% Total Geral 27 100% No STJ, por sua vez, permanece a importância das atividades de corte de cana-de-açúcar e da pecuária, com uma leve inversão. Das 27 ações julgadas pelo STJ, 6 (22%) diziam respeito a casos de trabalho escravo na atividade canavieira, e 5 (19%) na atividade pecuária. 67 Através de uma busca no sistema de consulta processual do TST e do STJ através daspalavras-chaves “trabalho escravo” e “trabalho em condições análogas a de escravo”, foi possível encontrar um total de 27 casos em cada esfera tratando de trabalho escravo rural. Dos 27 casos encontrados em cada Tribunal, foram contabilizadas entre 90 e 100 decisões judiciais em cada Tribunal, entre decisões de mérito e inúmeros tipos de recursos. Para a delimitação dos casos, selecionamos a última decisão tomada por cada Tribunal em cada um dos 27 casos encontrados até o início de 2011, resultando na análise de 27 decisões do TST e 27 decisões do STJ. A escolha por esses dois tribunais resultam, sobretudo, de razões de ordem teórica e metodológica, na medida em que os processos judiciais em primeira instância, seja na esfera trabalhista ou na esfera federal, não se encontram disponíveis para consulta da forma homogênea em que se encontram no TST e no STJ, e dois dos casos escolhidos tramitam em ambas as esferas. 131 Tabela 7 - Atividades rurais com trabalho escravo que foram parar no STJ Atividades Ocorrências % Não encontrado 6 22% Corte de cana-de-açúcar 6 22% Pecuária 5 19% Coleta de palmito 2 7% Produção de carvão 2 7% Derrubada de juquira 2 7% Desmatamento 2 7% Produção de soja 1 4% Extração de madeira 1 4% Total Geral 27 100% O critério do perfil dos acusados, por seu turno, resultou também da análise empreendida no Capítulo 2, assim como da análise do pequeno conjunto de decisões judiciais envolvendo trabalho escravo rural. A análise dos relatórios e avaliações do Poder Judiciário já apontava para a existência de uma atuação parcial dos juízes em favor de fazendeiros, no que os casos resultavam sempre em impunidade e na inefetividade das políticas de erradicação do trabalho escravo rural. A análise do pequeno conjunto de decisões judiciais sobre trabalho escravo, contudo, questiona preliminarmente a ideia de que o Judiciário decide em favor de proprietários e fazendeiros. Das 27 ações julgadas pelo TST, 15 (56%) foram de autoria dos proprietários e 9 (33%) foram de autoria do MPT. As demais foram ações propostas por empreiteiras, que foram responsabilizadas pelos proprietários pelo trabalho escravo, e uma ação proposta pela VT, que pedia exame do TST com relação a conflitos de competência. Tabela 8 - Autores das ações sobre trabalho escravo no TST Autores das ações Ocorrências % Proprietário 15 56% MPT 9 33% Empreiteira 2 7% VT 1 4% Total Geral 27 100% No STJ, por seu turno, a maioria das ações julgadas (17 ou 63%) também foram propostas pelos proprietários, seguidos pela Justiça Estadual 132 pedindo a verificação de conflitos de competência. A diferença é que agora os “gatos” aparecem, ainda que de forma tímida, como autores de ações na Justiça. Tabela 9 - Autores das ações sobre trabalho escravo julgadas pelo STJ Autores das ações Ocorrências % Proprietário 17 63% Justiça Estadual 5 19% Gato 2 7% MPF 1 4% Diretor 1 4% Justiça Federal 1 4% Total Geral 27 100% Poderíamos supor a partir desses dados que as instâncias trabalhistas e federais inferiores teriam dado mais decisões negativas mais para os proprietários do que para os demais autores, fazendo-os recorrer aos Tribunais superiores. Ou também poderíamos supor que esses dados mostrariam apenas a capacidade de litigação dos proprietários, que conseguem chegar até às instâncias superiores ainda quando as ações de 1º e 2º graus se encontram em andamento, de forma a tentar suspendê-las. No que tange ao tempo de duração dos processos em função dos autores das ações, é possível perceber que embora os processos sejam, em sua maioria, decididos em menos de 6 meses, os processos que duram mais de 1 ano ou que atingem os maiores picos de duração dos processos são processos de autoria dos proprietários. No TST, os proprietários são os únicos a conseguirem fazer um processo durar mais de 2 anos, por exemplo, chegando ao pico de duração de mais de 7 anos. 133 Tabela 10 - Tempo de duração dos processos no TST em função dos autores das ações Tempo de processo Autores das ações Total % Proprietário MPT Empreiteira VT até 6 meses 8 30% 4 15% 1 4% 1 4% 14 52% 6 meses a 1 ano 1 4% 1 4% 0% 0% 2 7% 1 ano - 1 ano e meio 0% 1 4% 1 4% 0% 2 7% 1 ano e meio - 2 anos 0% 3 11% 0% 0% 3 11% 2 anos - 2 anos e meio 2 7% 0% 0% 0% 2 7% 2 anos e meio - 3 anos 2 7% 0% 0% 0% 2 7% 3 anos e meio - 4 anos 1 4% 0% 0% 0% 1 4% 7 anos - 7 anos e meio 1 4% 0% 0% 0% 1 4% Total Geral 15 56% 9 33% 2 7% 1 4% 27 100% No STJ, por seu turno, é possível perceber que os proprietários são os que mais conseguem fazer um processo se prolongar por mais de 1 ano, ao lado de um diretor e da Justiça Estadual e da Justiça Federal. Note-se que das 2 ações apenas que foram movidas pelos “gatos”, elas foram rapidamente decididas pelo Tribunal. Tabela 11 - Tempo de duração dos processos do STJ em função dos autores das ações Tempo de processo Autores das ações Total Geral Proprietário Justiça Estadual Gato MPF Diretor Justiça Federal até 6 meses 9 1 2 12 6 meses a 1 ano 3 2 1 6 1 ano - 1 ano e meio 1 1 2 1 ano e meio - 2 anos 2 2 2 anos - 2 anos e meio 2 1 3 2 anos e meio - 3 anos 1 1 3 anos - 3 anos e meio 1 1 Total Geral 17 5 2 1 1 1 27 No que tange, agora, aos resultados das decisões judiciais do TST e do STJ em função dos autores das ações, é possível verificar que os proprietários receberam em ambas as esferas mais respostas negativas do que positivas, no que poderíamos contrariar, ao menos provisoriamente, as teses apresentadas pelos diversos relatórios analisados no Capítulo 2 de que o Judiciário atua a favor dos fazendeiros ou proprietários. No TST, os proprietários tiveram 13 (87%) das 15 ações de sua autoria no Tribunal, sendo 11 de indeferimento e 2 por prejuízo da ação. Se olharmos, contudo, o número de indeferimentos dados ao MPT, é possível observar proporção semelhante a dos proprietários, no que podemos pensar que o TST, aqui, não está tratando de decisões de mérito, mas de decisões de caráter 134 processual, em que ambas as partes podem estar pedindo a revisão de aspectos omissos ou contraditórios em decisões anteriores. Tabela 12 - Respostas do TST em função dos autores das ações Respostas Autores das ações Total % Proprietário MPT Empreiteira VT Deferido 2 13% 1 11% 0% 1 100% 4 15% Positivo Total 2 13% 1 11% 0% 1 100% 4 15% Indeferido 11 73% 6 67% 1 50% 0% 18 67% Não-conhecido 2 13% 1 11% 1 50% 0% 4 15% Prejudicado 0% 1 11% 0% 0% 1 4% Negativo Total 13 87% 8 89% 2 100% 0% 23 85% Total Geral 15 100% 9 100% 2 100% 1 100% 27 100% No STJ, por sua vez, a proporção de respostas negativas para os proprietários é ainda maior que no TST. Das 17 ações propostas pelos proprietários, 16 receberam respostas negativas, sendo 12 decisões de indeferimento, 3 de não conhecimento e uma por prejuízo da ação. Os “gatos”, como pode se ver, tiveram suas duas únicas ações indeferidas. Tabela 13 - Respostas do STJ em função dos autores das ações Respostas Autores das ações Total % Proprietário Justiça Estadual Gato MPF Diretor Justiça Federal Positivo 1 6% 5 100% 0% 1 100% 0% 1 100% 8 30% Deferido 1 6% 5 100% 0% 1 100% 0% 1 100% 8 30% Negativo 16 94% 0% 2 100% 0% 1 100% 0% 19 70% Indeferido 12 71% 0% 2 100% 0% 1 100% 0% 15 56% Não-conhecido 3 18% 0% 0% 0% 0% 0% 3 11% Prejudicado 1 6% 0% 0% 0% 0% 0% 1 4% Total Geral 17 100% 5 100% 2 100% 1 100% 1 100% 1 100% 27 100% Embora esses dados apontem para possibilidade de questionar a ideia de atuação parcial do Judiciário em favor dos proprietários e fazendeiros,podemos questionar se tais respostas de fato nos dizem algo sobre o posicionamento político dos dois Tribunais sobre o tema do trabalho escravo rural. Ainda que ampliassemos o número de decisões analisadas, o olhar apenas sobre os resultados não nos mostraria o entendimento dos juízes ou dos Tribunais acerca do trabalho escravo. E o aumento do número de decisões judiciais poderia levar a dificuldades de monta para o mapeamento dos entendimentos existentes e do fluxo dos acontecimentos em cada caso. E 135 lembrando que as decisões aqui analisadas são as últimas decisões tomadas pelo TST e pelo STJ nos casos encontrados, sabemos que existe todo um fluxo processual anterior a elas, que poderiam ajudar na investigação sobre o andamento dos casos na Justiça. Os casos escolhidos Foi com base nos critérios expostos que escolhemos, assim, casos em que foram encontrados trabalhadores rurais no ramo canavieiro (mais especificamente na atividade do corte de cana-de-açúcar) e no ramo pecuário (mais especificamente da preparação do solo para pasto). E escolhemos casos em que pudemos analisar em maior profundidade as respostas e a atuação do Poder Judiciário para diferentes perfis de acusado: para um “gato”, para um político brasileiro, e para uma grande empresa produtora de etanol no país. Os casos escolhidos congregam, assim, exemplos de expressividade teórica, na medida em que aconteceram em ramos da atividade rural de expressividade no quadro do trabalho escravo e tencionam a relação existente entre os resultados das decisões judiciais e o perfil dos acusados de trabalho escravo. Tabela 14 - Espectro do cenário do trabalho escravo nos casos escolhidos Cenário Caso do “gato” (1996-2015) Casa do Senador João Ribeiro (2004-2014) Caso Pagrisa (2007-2015) Onde ocorreu? RJ PA PA De onde vêm os trabalhadores? MG TO MA e PI Qual o ramo de atividade? Cana-de-açúcar Pecuária Cana-de-açúcar Além dos casos escolhidos serem representativos das atividades rurais em que mais são encontrados trabalhadores escravos, eles também são representativos do ponto de vista dos estados onde ocorreu o trabalho escravo e do ponto de vista do estado de origem dos trabalhadores rurais que foram escravizados. Dos três casos por nós analisados, dois deles, o Caso do Senador João Ribeiro e o Caso Pagrisa, ocorreram no estado do Pará, que é histórico e estatisticamente apontado pelas pesquisas e pelos dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) como o que apresenta o maior 136 número de trabalhadores escravos resgatados pelo Grupo Especial de Fiscalização Móvel68. Segundo dados do MTE, entre 1995 e 2014, o Grupo resgatou um total de 48.584 trabalhadores em todo o Brasil, sendo que 12.677 (26%) foram somente no estado do Pará, como mostra a tabela abaixo. Tabela 15- Trabalhadores resgatos por estado federativo (1995-2014) Fonte: Tabela produzida a partir de dados do MTE e da ONG Repórter Brasil (http://reporterbrasil.org.br/dados/trabalhoescravo/). Em vinte anos de fiscalização, como podemos observar destacado em amarelo, o estado do Pará apareceu em primeiro lugar ao menos em treze, tendo o ano de 2007 como seu maior expoente. Do total de 1.923 trabalhadores resgatados nesse ano, 1.064 (mais de 50%) foram unicamente na Fazenda Pagrisa, que teve suas dependências fiscalizadas pelo Grupo Móvel justamente no ano de 2007. À época, tal resgate ficaria conhecido como o maior já realizado pelo Grupo, ganhando grande destaque na mídia, e 68 Vale recuperar, inclusive, como já exposto no Capítulo 2, que foi no Pará que ocorreu o caso de trabalho escravo que levou Dom Pedro Casaldáliga a denunciar o Brasil a instâncias internacionais de proteção ao trabalhador e aos direitos humanos, e que resultou no início de políticas institucionais mais concretas em torno do problema. 137 causando muito alvoroço entre os três Poderes, especialmente entre o Senado e o Ministério do Trabalho e Emprego, como veremos mais tarde. Já no Caso do Senador João Ribeiro, cuja fiscalização foi feita no ano de 2004, o número de trabalhadores resgatados foi bem menos expressivo que no Caso Pagrisa, somando um total de 25 trabalhadores, menos de 1% dos 909 trabalhadores resgatados no Pará naquele ano. Mas foi número suficiente, como veremos, para que deputados e senadores se manifestassem nas instâncias do Poder Legislativo a favor do senador, questionando a atuação do Grupo Fiscalização e o seu entendimento do que seria o trabalho escravo. Os dados sobre trabalho escravo no estado do Pará se tornam ainda mais claros no “Atlas do Trabalho Escravo no Brasil”, que confirma o que os números do MTE já mostraram. Conforme podemos observar nos mapas abaixo, o estado do Pará desponta como o “campeão” em número de trabalhadores resgatados de trabalho escravo, antes mesmo do caso recorde da Pagrisa. 138 Figura 2 - Mapa dos trabalhadores escravos resgatados Fonte: ONG Amigos da Terra, 2012, p. 24. No Atlas, inclusive, o município de Ulianópolis, local onde fica a Fazenda Pagrisa, aparece em destaque em número de trabalhadores resgatados, especialmente em função da operação de fiscalização empreendida em 2007, de onde foram resgatados mais de 90% (1.064) do total de 1.113 trabalhadores resgatados em todo o município naquele ano. 139 Figura 3 - Mapa do índice de probabilidade de escravidão e resgates em 2007 Fonte: ONG Amigos da Terra, 2012, p. 78. O outro caso, por sua vez, o Caso do “gato”, ocorreu no estado do Rio de Janeiro durante os anos 1990, quando o Grupo de Fiscalização Móvel contava com recursos escassos para a realização das fiscalizações, e quando ainda não se tinham relatórios estatísticos sedimentados acerca das operações. O que se sabe é que no quadro geral e anual do número de trabalhadores resgatados pelo Grupo Móvel, o estado do Rio de Janeiro aparece bem abaixo do estado do Pará, apresentando 1.555 trabalhadores resgatados entre 1995 e 2014 (3% do número total). A operação de fiscalização empreendida no caso do “gato”, que se deu em 1996 no município de Cabo Frio, resgatou cerca de 140 trabalhadores. 140 Nos três casos analisados, os trabalhadores que foram encontrados pelas fiscalizações foram aliciados de outros estados da federação ou migraram voluntariamente à procura de emprego fora de seus estados de residência ou de naturalidade. No “Caso do Senador João Ribeiro” e no “Caso Pagrisa”, os estados de onde vieram os trabalhadores encontrados figuram como estados “fornecedores” de trabalhadores escravos, sobretudo para o estado do Pará, onde ocorreram ambos os casos referidos. Como nos mostra o mapa abaixo, os fluxos que saem do estado do Maranhão e do Tocantins para o Pará são os mais fortes de todo o território nacional, sobretudo os que saem do Maranhão. Figura 4 - Fluxos dos trabalhados escravos Fonte: ONG Amigos da Terra, 2012, p. 26. No “Caso Pagrisa”, a grande leva de trabalhadores resgatados pela fiscalização era de trabalhadores vindos dos estados do Maranhão e do Piauí, como migrantes a busca de emprego e não aliciados por “gatos”. No “Caso do 141 Senador João Ribeiro”, por seu turno, os trabalhadores foram aliciados no estado de Tocantins, que figura como o segundo estado “fornecedor” de trabalhador escravo. No Caso do “gato”, por sua vez, os trabalhadores foram aliciados no norte de Minas Gerais. Por fim, todos os três casos tratam de atividades rurais que, como já vimos, possuem expressividade no mapa do trabalho escravo rural no Brasil, dois deles ocorrendo no setor sucroalcooleiro (o Caso Pagrisa, no Pará, e o Caso do “gato”, no Rio de Janeiro), especificamente na atividade de corte da cana-de-açúcar para a produção de álcoole açúcar; e o outro (o Caso do Senador João Ribeiro, no Pará) no setor pecuário, na derrubada de juquira para a preparação de pasto. A essencialidade estrutural desse fator se explica quando visto a partir da sua importância no quadro mais amplo do cenário econômico brasileiro e de seus projetos de desenvolvimento ou de avanço do capitalismo no campo, avanço hoje conhecido por “agronegócio”. O “Atlas do Trabalho Escravo” apresenta, inclusive, mapas exclusivos para as principais atividades rurais onde foram encontrados trabalhadores escravizados, com destaque para o crescimento da produção de cana-de- açúcar e para a criação de gado, especificando a presença das atividades nos estados e municípios, onde podemos encontrar nossos casos representados. Com relação, particularmente, aos casos de trabalho escravo que se deram no setor sucroalcooleiro, o Caso Pagrisa e Caso do “gato”, lembremo- nos de que ocorreram, respectivamente, nos estados do Pará e do Rio de Janeiro. 142 Figura 5 - Trabalho escravo e a cana-de-açúcar Fonte: ONG Amigos da Terra, 2012, p. 41. Conforme mostra o mapa acima e é descrito no Atlas, o estado do Rio é considerado, juntamente com a Zona da Mata, interior de São Paulo, norte do Paraná, Espírito Santo, e toda a região litorânea do nordeste, região tradicional no cultivo de cana. O estado do Pará, por sua vez, vem despontado, ainda que de forma bem menos expressiva69, mas juntamente com outros estados do centro-norte, como novos produtores do setor sucroalcooleiro e da levada da produção de cana para as frentes pioneiras. Com relação, por fim, ao caso de trabalho escravo que se deu no setor pecuário, o Caso do Senador João Ribeiro (no Pará), está dentro da camada 69 Veremos mais adiante que a Fazenda Pagrisa, no Pará, mesmo com a “timidez” do estado na produção de cana, despontava em 2007 como uma das maiores empresas agrícolas produtoras de álcool e derivados da cana, chegando a ter entre suas principais compradoras a Shell e a Petrobrás. 143 de atividades na qual estão quase 50% das propriedades onde foram encontrados trabalhadores escravos. Conforme o Atlas do Trabalho Escravo, a atividade pecuária vem formando um grande arco (semelhante ao arco do desmatamento) ao sul da região norte, como podemos ver através dos círculos de cores quentes no mapa. O Pará, onde ocorreu o Caso do Senador João Ribeiro, encontrasse neste arco, através do qual se expande a atividade pecuária cada vez mais a região amazônica. E o que o Atlas chama atenção é que o crescimento da pecuária nessas novas regiões coincide com o crescimento dos casos de trabalho escravo, fazendo com que a atividade seja responsável por quase 50% dos trabalhadores resgatados. Figura 6 - Trabalho escravo e pecuária Fonte: ONG Amigos da Terra, 2012, p. 40. Segundo a literatura, a alta concentração de trabalho escravo no setor sucroalcooleiro, assim como no setor pecuário, explica-se, em grande medida, 144 em função dos sucessivos ciclos de projetos econômico-desenvolvimentistas e de integração nacional que vem se dando desde os anos 1970 no país. Em sua essência, tais projetos tornar-se-iam conhecidos e criticados por dois fatores centrais e aparentemente contraditórios: defendem e empreendem uma expansão constante das fronteiras agropecuárias para regiões cada vez mais próximas da região amazônica, sob a justificativa de levar desenvolvimento para os recantos “esquecidos” do Brasil; mas, ao mesmo tempo, implementam a exploração em grande escala de monoculturas e de produção de carne para exportação, tornando-se responsável tanto pela alta concentração de terras (expulsando os pequenos agricultores), quanto pela formação de uma grande massa de trabalhadores volantes, que ficam submetidos a trabalhos temporários, mal remunerados e sujeitos a todos os tipos de arbitrariedades (Teixeira, 2015). Critérios para a análise dos casos na Justiça Os estudos dos casos selecionados procuram combinar uma análise segundo variáveis mais gerais do andamento dos casos e uma análise segundo o fluxo particular de cada caso analisado. Dentre as variáveis de caráter mais geral, procuramos identificar, sobretudo, as esferas e instâncias da Justiça onde os casos se desdobraram, o número de processos e ações autuadas em cada caso, os autores, as datas de entrada, as datas de julgamento, o tempo de duração das ações na Justiça e os resultados das decisões judiciais em função dos autores. Na análise de fluxo, por seu turno, tratamos de “variáveis” internas e externas aos processos judiciais que impactam no andamento dos casos, mas que somente são percebidas quando olhamos com atenção para os detalhes dos andamentos processuais dos casos na Justiça, quando lemos a íntegra das decisões tomadas pelos juízes, e quando nos voltamos para os eventos externos e paralelos ao andamento dos casos. Quando saímos do plano das variáveis mais gerais e adentramos no curso de cada caso é que percebemos não apenas a natureza dos argumentos dos atores e dos juízes, como também 145 os impactos exercidos por fatores externos nos processos e nas próprias decisões judiciais. Nos fluxos dos casos podemos encontrar, sobretudo, o impacto dos pedidos de redesignação de audiências, que adiam significativamente o julgamento das ações. Encontramos também omissões, contradições e divergências jurisprudenciais ocasionando “confusão” entre as decisões judiciais e a abertura de infinitos recursos para questionar problemas de ordem processual e, com isso, postergar a resolução dos casos. E também nos deparamos com o impacto da atuação de outros atores políticos e sociais no desenrolar das perícias judiciais e na tomada das decisões pelos juízes. 146 Capítulo 3 – O Caso do “gato”: aquele que “cai sempre em pé” (1996-2015) 3.1 – Introdução O Caso do “gato” é, dos casos escolhidos para análise, o mais simples e, ao mesmo tempo, o mais questionador, na medida em que derrubou ou ao menos relativizou alguns pressuspostos previamente estabelecidos. Ao contrário do que inicialmente supomos ao delimitarmos os casos para análise, o Caso do “gato” não se mostrou como o mais rapidamente solucionado pela Justiça, sendo, pelo contrário, o mais longo de todos. Ao todo, desde a fiscalização, ele já dura mais de 18 anos. Somente na Justiça, já se foram mais de 10 anos de duração do caso, que ainda se encontra em andamento na Vara Federal de São Pedro da Aldeia. Relacionado a isso, o caso também não confirmou o pressuposto inicial de que os “gatos” teriam pouca capacidade litigatória, não conseguindo entrar com recursos em instâncias superiores. O “gato” conseguiu entrar com recursos até o Superior Tribunal de Justiça, atingindo a prescrição de diversos crimes que a ele foram imputados. Veremos, contudo, que a capacidade litigatória do “gato”, ainda que chegue até o STJ e consiga prolongar o caso até a prescrição de crimes, demonstrará fragilidades importantes não apenas da defesa a ele disponibilizada, mas também do próprio Judiciário, que, juntas, levam o caso a “passos mornos” para a impunidade, quase sem nenhuma manifestação de mérito por parte dos juízes e sem atuações marcantes por parte do Ministério Público Federal. Vejamos como o caso de iniciou e como foi tratado na Justiça. 3.2 – A fuga, a denúncia e as fiscalizações (1996-2004) No início do ano de 1996, um trabalhador fugido de uma das fazendas da empresa AGRISA, localizada em Cabo Frio, no Rio de Janeiro, ligou para a Federação dos Trabalhadores Rurais de Minas Gerais para denunciar as 147 condições de trabalho que ele e outros trabalhadores aliciados no norte de Minas vinham vivenciando no trabalho de corte de cana-de-açúcar na referida fazenda70.Após a denúncia do trabalhador, diversas visitas e operações de fiscalização foram realizadas na AGRISA, em diferentes ocasiões, e por diferentes órgãos do Estado e associações. O Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM) do Ministério do Trabalho e Emprego, que em teoria seria o órgão primeiro e por excelência a fiscalizar o caso, figurou como apenas “mais um” dentre os demais, conformando um quadro distinto das operações de fiscalização que temos atualmente e, mais propriamente, a partir de meados dos anos 2000, em que o GEFM passa a ocupar cada vez mais um lugar de destaque e de protagonismo nas fiscalizações, como veremos acontecer nos outros casos analisados. A situação de “pluralidade” na fiscalização ou de não-protagonismo do GEFM no Caso do “gato” ilustra de forma muito clara a fragilidade institucional e política do Grupo na época em que a denúncia havia sido feita, quando contava com apenas 6 meses de existência (e muitos problemas). Como já vimos no Capítulo 2, o Grupo Móvel foi criado em meados de 1995, e, pelo menos até meados dos anos 2000, enfrentou dificuldades com relação à falta de estrutura e à falta de legitimidade e reconhecimento perante outros órgãos do Estado. Foi criticado não somente pela falta de estrutura, como também por não ter mecanismos que estabelecessem uma coordenação com os demais órgãos estatais. A falta de coordenação interinstitucional fazia com que o Grupo atuasse, na maioria das vezes, sem a presença da Polícia Federal (tornando o Grupo alvo de ameaças de fazendeiros e capangas) e sem 70 As informações e depoimentos narrados acerca da denúncia do trabalhador e da fiscalização feita pelo Grupo Móvel só se encontraram disponbilizadas na denúncia que o Ministério Público Federal encaminhou para a Vara Federal de São Pedro da Aldeia para a abertura da Ação Penal. A denúncia do MPF pode ser consultada através do link: http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:omooh4R- 6n4J:www.prrj.mpf.mp.br/institucional/prdc/atuacao/atuacao-extrajudicial-1/recomendacoes- tacs-e-outros/criminal/denuncia-contra-cinco-envolvidos-em-trabalho-escravo-nas-empresas- agrisa-e-fontes-que-exploram-cana-de-acucar-em-cabo- frio/at_download/documento+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br. http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:omooh4R-6n4J:www.prrj.mpf.mp.br/institucional/prdc/atuacao/atuacao-extrajudicial-1/recomendacoes-tacs-e-outros/criminal/denuncia-contra-cinco-envolvidos-em-trabalho-escravo-nas-empresas-agrisa-e-fontes-que-exploram-cana-de-acucar-em-cabo-frio/at_download/documento+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:omooh4R-6n4J:www.prrj.mpf.mp.br/institucional/prdc/atuacao/atuacao-extrajudicial-1/recomendacoes-tacs-e-outros/criminal/denuncia-contra-cinco-envolvidos-em-trabalho-escravo-nas-empresas-agrisa-e-fontes-que-exploram-cana-de-acucar-em-cabo-frio/at_download/documento+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:omooh4R-6n4J:www.prrj.mpf.mp.br/institucional/prdc/atuacao/atuacao-extrajudicial-1/recomendacoes-tacs-e-outros/criminal/denuncia-contra-cinco-envolvidos-em-trabalho-escravo-nas-empresas-agrisa-e-fontes-que-exploram-cana-de-acucar-em-cabo-frio/at_download/documento+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:omooh4R-6n4J:www.prrj.mpf.mp.br/institucional/prdc/atuacao/atuacao-extrajudicial-1/recomendacoes-tacs-e-outros/criminal/denuncia-contra-cinco-envolvidos-em-trabalho-escravo-nas-empresas-agrisa-e-fontes-que-exploram-cana-de-acucar-em-cabo-frio/at_download/documento+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:omooh4R-6n4J:www.prrj.mpf.mp.br/institucional/prdc/atuacao/atuacao-extrajudicial-1/recomendacoes-tacs-e-outros/criminal/denuncia-contra-cinco-envolvidos-em-trabalho-escravo-nas-empresas-agrisa-e-fontes-que-exploram-cana-de-acucar-em-cabo-frio/at_download/documento+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br 148 os delegados das Delegacias Regionais do Trabalho (dificultando a qualificação penal do trabalho escravo e a instauração dos inquéritos policiais). Falava-se, inclusive, que os diferentes órgãos estatais acabavam realizando operações de fiscalização independentes do Grupo – como faziam as Delegacias Regionais do Trabalho (DRTs) – gerando, assim, uma pluralidade de relatórios e pareceres que não somente atrasavam a abertura das ações sobre trabalho escravo na Justiça, como resultavam em impunidade e reincidência das denúncias. No Caso do “gato”, pudemos encontrar diversas dessas dificuldades para a atuação do GEFM e para o encaminhamento dos inquéritos e da Ação Penal na Justiça, começando pelo número de fiscalizações que foram realizadas. Ao todo, o Caso do “gato” perpassou por um total de seis operações de fiscalização, contando com apenas uma do GEFM, como mostra o quadro abaixo. Vejamos quando e como cada operação se deu, e o que fora relatado. Tabela 16 - Operações de Fiscalização realizadas no Caso do "gato" Data da fiscalização Atores da Fiscalização 15/02/1996 - Associação dos Trabalhadores na Agricultura - Secretaria de Saneamento da Prefeitura de Cabo Frio - OAB/RJ - Fetag - CPT 24/07/1996 Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM) Meados de 1999 - Subsecretaria do Trabalho - Secretaria de Segurança Pública - Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cabo Frio 30/06/2003 - DRT - MPT - PF 03/07/2003 - DRT - MPT - PF 12/08/2003 - DRT A primeira fiscalização foi realizada em 15 de fevereiro de 1996 por uma comissão composta pelo então Presidente da Associação dos Trabalhadores na Agricultura, por profissionais da Secretaria de Saneamento da Prefeitura de 149 Cabo Frio, representantes da OAB do Rio de Janeiro, representantes da FETAG e de integrantes da CPT. Segundo os relatos dos integrantes dessa comissão, a visita à AGRISA foi marcada por hostilidade e violência por parte do então proprietário e diretor da AGRISA, Demétrio Fontes Tourinho, que, acompanhado por cinco “capatazes ostensivamente armados” procurou expulsar a comissão de sua fazenda, chegando, inclusive, a agir com ameaça e violência com a representante da CPT então presente, agarrando-a fortemente pelo braço ao afirmar que nenhum trabalhador sairia de lá. (BRASIL/MPF, 2003: 3). Diante da situação, o Presidente da FETAG, também presente na ocasião, procurou ajuda da Polícia Civil local e pediu para que os acompanhassem até a fazenda, conseguindo, com isso, retirar os trabalhadores e leva-los até o fórum de Cabo Frio (BRASIL/MPF, 2003: 3-4). Além da hostilidade com que foi recebida, a comissão, quando no interior da AGRISA, relatou que a denúncia feita pelo trabalhador se confirmava, tendo em vista a constatação das condições precárias de trabalho, que se mostravam impróprias “até mesmo para animais irracionais”. Os trabalhadores estavam todos amontados em um alojamento sem qualquer condição de higiene, e que também não dispunha de instalações sanitárias básicas, tais como banheiro e chuveiro (BRASIL/MPF, 2003: 3). O relato dessa primeira visita à AGRISA foi confirmado no relatório de vistoria feito na mesma oportunidade pelo Serviço de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde de Cabo Frio, que apontou que as condições higiênicas, bem como a qualidade da alimentação e do manuseio das refeições, eram de tal modo precário e inadequado que nem encontravam termo para definir o que viram (BRASIL/MPF, 2003: 4). E relataram, ainda, que os trabalhadores não tinham qualquer tipo de assistência médica, muito embora o diretor da Agrisa tivesse dito que existia um médico contratado pela empresa para atender aos trabalhadores. Alguns dias depois, em 26 de fevereiro de 1996, o então Presidente da 20ª Subseção de Cabo Frio da OAB – que também participara da primeira150 visita à AGRISA, levou o caso ao conhecimento de autoridades competentes (como GEFM, MPF, DRTs e MPT), descrevendo em suas palavras o que disseram diversos dos trabalhadores resgatados, e confirmando, mais uma vez, a situação encontrada pela pequena comissão. Descreveu como “engôdo” e como “absolutamente perversas” as condições de trabalho a que estavam submetidos cerca de 140 trabalhadores na Agrisa. Novamente se faz o relato acerca das acomodações precárias, da comida de péssima qualidade e da falta de assistêcia médica, situação que era piorada em função do trabalho extenuante e dos pagamentos muito abaixo do que fora prometido, principalmente em razão de descontos resultantes de dívidas dos trabalhados em uma “venda” de propriedade do gato Mario Rubens Viana Higino, protagonista do nosso caso. Segundo os relatos, o gato cobrava dos trabalhados um valor de 30 a 45 reais por 15 dias de refeições, que, por sua vez, eram de tão baixa qualidade que acabavam forçando os trabalhadores a comprarem alimentos na venda do próprio gato, no que acabavam individados. Depois de passados 5 meses da primeira visita de fiscalização, o Grupo Especial de Fiscalização Móvel realizou a sua vistoria, em 24 de julho de 1996. Sua fiscalização, no entanto, não foi feita nas instalações da AGRISA, mas sim nas instalações da empresa FONTES Agropecuária, localizada, como a outra, no distrito de Cabo Frio. Propriedade do mesmo dono e diretor da AGRISA (Demétrio Fontes Tourinho), a empresa Fontes também havia sido denunciada por condições degradantes de trabalho pelos trabalhadores resgatados pela pequena comissão, ensejando, portanto, a realização da fiscalização em suas dependências. O gato Mario Rubens prestava seus serviços tanto numa empresa quanto na outra, aliciando trabalhadores de outros estados e se responsabilizando por sua alimentação. A situação encontrada pelo GEFM na FONTES Agropecuária se apresentou semelhante a que foi presenciada na AGRISA anteriormente, configurando o que o Grupo chamou de condições de trabalho “rigorosamente degradantes”. Além dos problemas já constatados na AGRISA, o GEFM relatou que a empresa nem sequer fornecia água potável nas frentes de trabalho, no 151 que os trabalhadores acabavam se reutilizando de embalagens vazias de agrotóxicos para levar a sua própria água. Além disso, os trabalhados se encontravam todos sem registro na Carteira de Trabalho. A terceira e a quarta fiscalização, por sua vez, foram realizadas, respectivamente em 30 de junho de 2003 e 3 de julho de 2003, pela DRT e pelo MPT da região, dessa vez com o apoio da Polícia Federal. Aparentando possuir mais recursos a sua disposição para coletar provas e depoimentos, essas duas fiscalizações apresentaram mais relatos acerca das condições de trabalho na AGRISA. Mesmo após 7 anos da denúncia feita pelo trabalhador fugido, com 2 fiscalizações já realizadas e pelo menos 3 Inquéritos Policiais abertos (que veremos logo adiante), os órgãos fiscalizadores constataram que a situação degradante dos trabalhadores na AGRISA ainda continuavam as mesmas. Em seus relatos, apontaram que se depararam com um “quadro dantesco”, em função da “condição subumana” dos alojamentos dos trabalhadores; da péssima qualidade das instalações sanitárias; da água fornecida aos trabalhadores, que vinha de um poço a céu aberto e com proliferação de algas nocivas; da convivência com esgoto a céu aberto e pocilga; do pagamento de salários irrisórios; das jornadas exaustivas de trabalho; dos descontos salariais e da “exploração escrava” de dívida progressiva na aquisição de alimentos pelos trabalhadores. (BRASIL/MPF, 2003: 7). Apenas um mês depois dessas duas fiscalizações, foi realizada, em 12 de agosto de 2003, a sexta e última fiscalização na AGRISA, e também na empresa FONTES, pelo MPT, DRT, PF, MPF e INSS. Mais uma vez, as autoridades constataram a permanência das condições degradantes em que viviam os trabalhadores dentro das referidas empresas. Na ocasião, os gatos, incluindo o Mario Rubens, foram conduzidos para a Delegacia da Polícia Federal em Macaé, no Rio de Janeiro, para prestarem esclarecimentos. Mesmo com todas essas fiscalizações sustentando um reconhecimento quase uníssono das situações degradantes encontradas, demorou cerca de 8 152 anos para a abertura da Ação Penal na Justiça. Quais seriam as possíveis razões para essa demora? Duas explicações podem, de início, nos ajudar a compreender esse aspecto, uma de ordem institucional e outra de ordem institucional-estratégica. A primeira possível explicação está relacionada a uma questão que já levantamos anteriormente, e que diz respeito ao caráter plural e fragmentado do quadro fiscalizatório na época da denúncia. Talvez o problema, por melhor dizer, não esteja na pluralidade de fiscalizações, na medida em que elas não divergiram muito uma da outra, mas na atuação fragmentada, ou melhor, destituída de uma coordenação central, para que as irregularidades e os crimes fossem constatados de uma única vez, e encaminhados também de uma única vez às autoridades competentes para a abertura dos Inquéritos Policiais e das Ações na Justiça. Nos outros casos, como veremos, em que o GEFM já tem um maior protagonismo no quadro fiscalizatório, não houve tanta demora na abertura (ressalte-se que somente na abertura) dos processos na Justiça71. O maior protagonismo do Grupo, contudo, não significou que se extinguiu a pluralidade, na medida em que as suas melhorias institucionais consistiram justamente na incorporação dessa pluralidade para o seu interior, através da participação conjunta e coordenada de outros órgãos estatais, e também de associações, nas operações de fiscalização, facilitando o trabalho de investigação, de enquadramento penal e de encaminhamento de inquéritos e ações na Justiça. No Caso do “gato”, a pluralidade de fiscalizações não se desdobrou em descrições que contradiziam o GEFM, nem em descrições muito distintas das que ele fez. Pelo contrário, todas reconheceram e apresentaram elementos que caracterizavam o quadro degradante ao qual estavam submetidos os trabalhadores. Porém, as fiscalizações não estavam integradas nem coordenadas. E uma ilustração disso se encontra não apenas nas descrições ou pontos que eram adicionados a cada fiscalização, como também se refletia 71 Ver Espectro dos Casos nas Políticas de Erradicação do Trabalho Escravo, no Apêndice 2 da tese. 153 na abertura “pingada” dos diversos Inquéritos Policiais para investigar cada hora um crime, retardando a investigação do caso como um todo e a propositura da Ação Penal na Justiça. Ou seja, não havia uma integração e coordenação nem entre as fiscalizações, nem entre elas e as aberturas dos Inquéritos Policiais. Como podemos ver no quadro abaixo, o primeiro Inquérito Policial aberto em 15 de agosto de 1996 buscava investigar a responsabilidade dos acusados apenas no crime de aliciamento de trabalhadores de um estado para o outro do território nacional. Outros fatores que foram apresentados pelas fiscalizações até então feitas não foram incorporadas pelo Inquérito, no que as descrições acerca das condições degradantes de trabalho não foram abrangidas pela primeira investigação. O segundo Inquérito Policial, por sua vez, aberto em 18 de agosto de 1999 já incorporava a preocupação relatada nas fiscalizações acerca do trabalho escravo. Como vemos, contudo, esse reconhecimento se deu após 3 anos da denúncia e das fiscalizações até então realizadas. Mais tarde, em 20/09/20003, é aberto mais um Inquérito Policial, desta vez para investigar o crime de frustração, mediante fraude ou violência, de direito assegurado pela legislação trabalhista. Foram, neste último inquérito, quase sete anospara investigar um crime que foi um dos mais claramente relatados pelas fiscalizações feitas desde o início. 154 Tabela 17 - Quadro de Inquéritos Policiais abertos para o Caso do "gato" Data da fiscalização Atores da Fiscalização 15/02/1996 - Associação dos Trabalhadores na Agricultura - Secretaria de Saneamento da Prefeitura de Cabo Frio - OAB/RJ - Fetag - CPT 24/07/1996 Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM) 15/08/1996 – Inquérito Policial (0034573-16.1996.4.02.5108) Apuração do crime previsto no art. 207 – Aliciamento de trabalhador para um estado para o outro do território nacional Meados de 1999 - Subsecretaria do Trabalho - Secretaria de Segurança Pública - Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cabo Frio 18/08/1999 – Inquérito Policial (0652077-78.1999.4.02.5108) Apuração do crime previsto no art. 149 – redução à condição análoga à de escravo Apuração do crime previsto no art. 197 – constranger alguém mediante violência ou grave ameaça 25/09/2000 – Inquérito Policial (0001457-77.2000.4.02.5108) Apuração do crime previsto no art. 203 – frustração por meio de fraude ou violência de direito assegurado por legislação trabalhista 30/06/2003 - DRT - MPT - PF 03/07/2003 - DRT - MPT - PF 12/08/2003 - DRT 17/09/2003 – Inquérito Policial (0001286-18.2003.4.02.5108) Apuração de responsabilidade da empresa AGRISA e FONTES Trata-se de um quadro muito distinto, como veremos, do encontrado nos outros casos analisados, em que as fiscalizações já se pautam pela concepção de que existe uma “cesta de crimes” do trabalho escravo, isto é, quando se fiscaliza denúncias de trabalho escravo, fiscaliza-se um conjunto de crimes que, com frequência, aparecem juntos nas denúncias e nas investigações, como é o caso do crime de aliciamento de trabalhadores de um estado para o outro do território, do crime de exposição da vida ou da saúde do trabalhador a perigo direto e iminente, e do crime de frustração, mediante fraude ou violência, de direito assegurado por legislação trabalhista, todos os crimes que foram investigados no Caso do “gato” cada qual por um Inquérito separado. Essa investigação “em goteira”, ou esse entendimento ainda não sedimentado nas instituições acerca do trabalho escravo e das circunstancias que os cercam podem ser, também, resultantes do que chamamos de um “problema de lei” somado aos usos estratégicos da lei – e aí nós já entramos na segunda possível explicação para a demora na abertura da Ação Penal na Justiça. 155 A maioria das fiscalizações e dos inquéritos policiais do Caso do “gato” foi realizada antes da promulgação da Lei 10.803, de 11 de dezembro de 2003, que, como já vimos no Capítulo 2, incrementou o artigo 149 do Código Penal, que versava sobre o crime de trabalho escravo, para facilitar a sua identificação pelos agentes fiscais e outros órgãos do Estado. A frase então genérica “redução à condição análoga à de escravo” foi consubstanciada em três possibilidades concretas: o trabalho forçado ou jornada exaustiva, a servidão por dívida, e o trabalho em condições degradantes. No Caso do “gato”, todas essas três possiblidades foram relatadas pelas diferentes fiscalizações, porém, quando elas foram denunciadas, fiscalizadas e investigadas, o artigo 149 ainda estava em seu formato genérico, deixando aos sujeitos que a mobilizaram preencherem e disputarem o seu significado. Assim, a demora e as dificuldades para o ajuizamento da Ação Penal na Justiça podem ter resultado também da generalidade da lei na época, tanto que a Ação Penal só foi ajuizada em 7 de janeiro de 2004, quando a lei genérica do trabalho escravo já havia sido consubstanciada nas possibilidades concretas já citadas para adequar as “condições degradantes”, que tantas vezes apareceram nos relatórios de fiscalização. 3.3 – O Caso do “gato” no Judiciário (2004-2015) No Poder Judiciário, o Caso do “gato” se desenvolveu integralmente nas instâncias da Justiça Federal, contabilizando um total de sete processos: a Ação Penal do MPF na Vara Federal de São Pedro da Aldeia (RJ); cinco processos do gato no Tribunal Regional Federal da 2ª Região, sendo dois pedidos de Habeas Corpus, um Mandado de Segurança e dois Recursos em Sentido Estrito; e um Habeas Corpus no Superior Tribunal de Justiça. 156 Tabela 18 - Quadro Geral de Processos na Justiça para o Caso do "gato" Nº do Processo/Ação Autor Esfera Instância Data de Autuação Ação Penal (0000019-79.2004.4.025108) MPF JF VF 07/01/2004 Habeas Corpus (2004.02.01.001840-3) Gato JF TRF 2 18/02/2004 Habeas Corpus (2005/0013066-5) Gato JF STJ 31/01/2005 Mandado de Segurança (2005.02.01.004629-4) Gato JF TRF 2 23/05/2005 Recurso em Sentido Estrito (2005.51.08.000129-0) Gato JF TRF 2 14/09/2005 Recurso em Sentido Estrito (2005.51.08.000019-0) Gato JF TRF 2 22/03/2013 Habeas Corpus (2014.02.01.008105-2) Gato JF TRF 2 12/09/2014 Como podemos observar no quadro abaixo, o Caso do “gato” ainda se encontra em andamento na Justiça Federal de 1º grau. Embora alguns crimes imputados ao gato tenham, obviamente, prescritos, ele ainda continua a responder pelo crime de trabalho escravo. Como veremos, o Caso do “gato” é o mais longo de todos os três casos escolhidos para análise. Somente no Poder Judiciário, já são mais de 10 anos de andamento; e se considerarmos o tempo entre a denúncia feita pelo trabalhador no início de 1996 e a última movimentação na Vara Federal de São Pedro da Aldeia, aí se vão mais de 18 anos de existência do caso. 157 Tabela 19 - Características Gerais dos Processos Judiciais no Caso do "gato" Nº do Processo/Ação Autor Instância Data de autuação Data de Julgamento Tempo Resposta Ação Penal (0000019- 74.2004.4.02.5108) MPF VF 07/01/2004 Em andamento Até 16/06/2015: 11 anos, 5 meses e 8 dias Até 16/06/2015: - prescrição com relação aos crimes previstos pelos arts. 207 e 288; - prosseguimento com relação ao crime previsto pelo art. 149 (trabalho escravo) Habeas Corpus (2004.02.01.001840-3) Gato TRF 2 18/02/2004 18/05/2004 2 meses e 28 dias INDEFERIDO (UNANIMIDADE) Embargos de Declaração Gato TRF 2 14/06/2004 03/08/2004 INDEFERIDO (UNANIMIDADE) Habeas Corpus (2005/0013066-5) Gato STJ 31/01/2005 19/05/2005 3 meses e 15 dias INDEFERIDO (UNANIMIDADE) Embargos de Declaração Gato STJ 22/06/2005 18/08/2005 INDEFERIDO (UNANIMIDADE) Mandado de Segurança (2005.02.01.004629-4) Gato TRF 2 23/05/2005 30/05/2005 3 meses e 13 dias PREJUDICADO (DECISÃO MONOCRÁTICA) Agravo interno Gato TRF 2 07/06/2005 06/09/2005 INDEFERIDO (MAIORIA DE VOTOS) Recurso em Sentido Estrito (2005.51.08.000129-0) Gato TRF 2 14/09/2005 26/10/2005 1 ano, 7 meses e 26 dias PREJUDICADO (DECISÃO MONOCRÁTICA) Agravo interno Gato TRF 2 16/11/2005 13/01/2006 DEFERIDO (DECISÃO MONOCRÁTICA) Embargos de declaração Gato TRF 2 25/01/2006 22/02/2006 INDEFERIDO (MAIORIA) Embargos infringentes Gato TRF 2 23/06/2006 26/02/2007 INDEFERIDO (UNANIMIDADE) Recurso Especial Gato TRF 2 29/03/2007 15/05/2007 DEFERIDO (DECISÃO MONOCRÁTICA) Recurso em Sentido Estrito (2005.51.08.000019-0) Gato TRF 2 22/03/2013 17/09/2013 5 meses e 24 dias INDEFERIDO (UNANIMIDADE) Habeas Corpus (2014.02.01.008105-2) Gato TRF 2 12/09/2014 16/09/2014 1 mês e 29 dias INDEFERIDO (DECISÃO MONOCRÁTICA) Liminar Gato TRF 2 12/09/2014 11/11/2014 DEFERIDO (MAIORIA DE VOTOS) Um ponto interessante a se observar é que, embora as decisões dos juízes de primeiro grau não entrem na avaliação do crime de trabalho escravo, mesmo com tanto tempo de processo, elas nos dizem muito a respeito da atuação do juiz e do papel exercido por alguns princípios do processo penal acusatório para a condução do processo pelo juiz. Além desse aspecto, as decisões e o andamento do processo em primeiro graunos mostram como que outras questões, como deficiências institucionais da Vara e o descaso ou desleixo dos advogados dativos, influem no seguimento do processo e imprimem uma sensação de mornidão no tratamento que o Judiciário e os atores jurídicos deram ao caso em questão, levando à prescrição de vários crimes. Os processos na segunda e terceira instâncias, por sua vez, já nos mostram alguns posicionamentos de desembargadores e ministros que entram um pouco mais na questão do tema do trabalho escravo e da comprovação de sua materialidade para o Caso do “gato”. Como veremos, contudo, as 158 estratégias protelatórias dos acusados e de suas defesas em primeiro grau acabarão ajudando a conformar o andamento e o tom dos argumentos dos juízes também na justiça de 2º e 3º graus. Vejamos, primeiramente, como o caso de desenvolveu em 1ª instância. Em 7 de janeiro de 2004, depois de 8 anos da denúncia feito pelo trabalhador, diversas fiscalizações e Inquéritos em “goteira”, finalmente é autuada a Ação Penal (0000019-74.2004.4.02.5108)72 do MPF contra o proprietário e gatos da AGRISA e FONTES na Vara Federal de São Pedro da Aldeia. O gato Mario, particularmente, foi incurso em três crimes: o de aliciamento de trabalhadores de fora do estado, o de constituir organização criminosa e o de reduzir os trabalhadores à condição análoga à de escravo. Em sua denúncia, o MPF resgata partes dos relatórios produzidos pelas diversas fiscalizações que foram feitas nas empresas AGRISA e FONTES, de forma a fortalecer as evidências de que a situação encontrada era claramente a de trabalho escravo. Sobre o gato Mario, fez a seguinte descrição e acusações: “Mario Rubens Viana Higino, que trabalha na AGRISA há cerca de 20 anos, além de exercer as funções de “gato”, vez que foi, por exemplo, quem, pessoalmente, aliciou o trabalhador Manoel Pereira dos Santos em Santa Maria do Salto/MG, é o responsável pela alimentação precária dos trabalhadores, dos quais cobra a quantia de R$ 45,00 por quinzena. É, ainda, proprietário de uma “venda” localizada nas dependências da AGRISA, existente desde 1996, através da qual comercializa a preções extorsivos produtos de higiene (papel higiênico, sabonete, creme dental etc...) e comida necessária para suprir a péssima alimentação por ele próprio fornecida. O raciocínio é simples, porém perverso: como a comida é de baixíssima qualidade, os trabalhadores, diante da inexistência de outra alternativa, se vêem obrigados a adquirir produtos da “venda”. Ao final de cada quinzena, o parco salário recebido não é suficiente para pagar os produtos adquiridos, donde se inicia um processo contínuo de endividamento, que acaba por impedir que o trabalhador se desligue, porque devedor, da empresa” (BRASIL/MPF, 2003: 10). Depois de finalmente autuada essas denúncias na Justiça para tratar do crime de trabalho escravo, o que vemos curiosamente, daqui em diante – pelo 72 O andamento processual da Ação Penal não se encontra disponível para versão pdf e nem link, dado que se mostra o link geral de busca de processos do TRF2, mas não o andamento processual específico. 159 menos na instância de 1º grau – é justamente a não discussão dessas denúncias e da caracterização do trabalho escravo. No máximo, encontramos uma tentativa dos acusados, em 28 de setembro de 2004, de questionar a competência da Justiça Federal para julgar o caso, em que foram contrariados pela Vara Federal, que se declarou competente para contenda. Ressalte-se que o problema da competência é característico (mas não exclusivo) desse período, na medida em que a decisão do STF determinando a competência da Justiça Federal para julgar os crimes de trabalho escravo foi tomada apenas em 2006, dando um norte, mas não um fim aos conflitos de competência. De resto, o que vemos acontecer na Justiça Federal de 1º grau é um longo processo marcado por uma série de acontecimentos de ordem burocrática e de natureza processual, especialmente relacionados a designações e redesignações infinitas de audiências, que acabaram durando mais de 10 anos e ainda se encontram em andamento. Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, esses acontecimentos de ordem burocrática e processual nos trouxeram novos elementos para entender como que o Judiciário pode tratar um caso de trabalho escravo. Os cancelamentos e redesignações de audiências apresentaram-se como os principais acontecimentos que prolongaram a Ação Penal73 ao longo dos mais de 10 anos de processo, no que pudemos contabilizar, conforme mostra a Tabela abaixo, pelo menos 25 cancelamentos e redesignações de audiências que foram deferidas pelo diferentes juízes que passaram pelo caso. Os cancelamentos e as redesignações se estenderam desde o ano de autuação da Ação Penal, em 2004, até o ano de 2013, quando prescreveu a maioria dos crimes imputados ao gato Mario. 73 Ver Espectro Temporal do Caso do “gato” no Apêndice 3. 160 Tabela 20 - Redesignação de Audiências, Motivos e Autores - Caso do "gato" Data do cancelamento Data marcada Data(s) redesignada (s) Motivo da Redesignação Autor do pedido 1 13/04/2004 Não informado Não informado Não informado Um dos acusados 2 02/05/2005 Não informado Não informado Testemunhas de acusação não foram devidamente notificadas MPF 3 25/08/2005 25/08/2005 Diversas Ausentes dois acusados e suas defesas – não foram devidamente notificados Gatos 4 03/11/2005 03/11/2005 16/03/2006 Ausente um acusado – licença médica Gato 5 02/12/2005 02/12/2005 Não informado Ausente um acusado – licença médica Gato 6 28/03/2006 28/03/2006 19/05/2006 Substituição de testemunha de acusação MPF 7 19/05/2006 19/05/2006 Não informado Ausente um acusado e sua defesa – impossibilidade do defensor dativo de comparecer Gato 8 04/08/2006 Não informado Diversas Repetição de depoimentos – acusados e suas defesas não foram devidamente notificados Gatos 9 18/10/2007 25/10/2007 06/11/2007 Não informado Não informado 10 12/03/2008 23/04/2008 13/05/2008 Feriado Juiz 11 26/05/2008 Não informado 22/07/2008 Não informado MPF 13 30/09/2008 Não informado 09/12/2008 Não informado Não informado 14 09/12/2008 Não informado 03/03/2009 Testemunhas não encontradas Juiz 15 17/12/2008 Não informado Diversas Repetição de depoimentos – acusados e suas e suas defesas não foram devidamente notificados Gatos 16 03/02/2009 Não informado 03/03/2009 - Testemunhas não encontradas - Ausentes as defesas dos réus – por impossibilidade do defensor dativo comparecer Gatos 17 02/03/2009 02/03/2009 06/05/2009 Suspensão do atendimento ao público Juiz 18 09/03/2009 06/05/2009 12/03/2009 Ausência de testemunhas Juiz 19 12/03/2009 Não informado 07/04/2009 Ausente a defesa do gato – por impossibilidade do defensor dativo comparecer Gato 20 31/03/2009 Não informado 07/04/2009 Ausente a defesa do gato – por impossibilidade do defensor dativo comparecer Gato 21 30/04/2009 Não informado 09/06/2009 Ausente a defesa do gato – por impossibilidade do defensor dativo comparecer Gato 22 09/08/2010 Não informado 31/08/2010 Necessidade de readequação de pauta Juiz 23 31/08/2010 Não informado 16/11/2010 Coincidência de audiências Juiz 24 08/10/2012 - Diversas Repetição de depoimentos: - as defesas não foram devidamente informadas; - não designação de advogados dativos; - as testemunhas não foram devidamente notificadas Gatos 25 08/05/2013 08/05/2013 16/06/2013 Ausentes as defesas dos réus – por impossibilidade do defensor dativo comparecer - A defesa não foi devidamente notificada Gatos Como podemos observar, 12 das 25 vezes em que houve cancelamentos e redesignações de audiências, o pedido partiu dos acusados, em conjunto ou, por algumasvezes, sozinhos. E os motivos alegados e reconhecidos pelo juiz para os cancelamentos apresentaram naturezas diversas, sobretudo relacionadas a problemas de ordem institucional e de ordem pessoal/institucional, como a falta de interesse ou de comprometimento dos advogados dativos que fizeram a defesa dos gatos, inclusive a do gato Mario. 161 Tabela 21 - Natureza dos motivos de redesignação de audiências - Caso do "gato" Natureza dos motivos Motivos Ocorrências Institucional Necessidade de repetição de depoimento de testemunhas, pelos acusados e suas defesas não terem sido devidamente notificados pela Vara 3 Ausência de acusados e/ou de suas defesas na audiência, por não terem sido devidamente notificados pela Vara 2 Necessidade de repetição de depoimento de testemunhas, pelas testemunhas não terem sido devidamente notificadas pela Vara 1 Necessidade de repetição de depoimento de testemunhas, pela demora por parte do juiz em designar advogado dativo substituto 1 Pessoal/Institucional Ausência de acusados e/ou de suas defesas, pela impossibilidade do comparecimento da defesa 6 Pessoal Ausência de acusados, por motivo de saúde 2 Estrutural Testemunhas não encontradas, por possível mudança de endereço 1 Dentre os motivos de natureza institucional, encontramos os problemas relacionados às falhas da Vara Federal no processo de notificação das partes sobre as audiências; e também relacionados aos problemas com a demora na designação de outros advogados dativos para substituir as tantas ausências dos advogados dativos dos gatos. Nos pedidos de adiamento em função de falhas nas notificações, argumentou-se ou que estas não eram feitas de forma clara às partes, dificultando o conhecimento sobre as audiências, ou que elas não eram feitas em tempo hábil para o comparecimento na data estabelecida. Os pedidos de repetição de depoimentos decorrentes principalmente das falhas nas notificações levaram à redesignação de diversas audiências para a oitiva de testemunhas, ao passo que os juízes de primeiro grau reconheciam tais falhas e acatavam os pedidos do gato, prolongado consideravelmente o andamento processual74. Nessas ocasiões em que a repetição de depoimentos em função das falhas nas notificações foi aceita pelo juiz, este alegou a necessidade de não se violarem “os direitos dos réus ao contraditório e à ampla defesa”. O curioso é que esse mesmo argumento foi encontrado em diferentes períodos do andamento do processo: seja em 2006, quando o processo ainda estava em seu “início”, seja mais para frente, em 2008, seja em 2012 (!), um ano antes de vários crimes prescrevem. 74 Ver Espectro temporal do Caso do “gato” no Apêndice 3. 162 Ou seja, depois de passado cerca de 8 anos da entrada da Ação Penal, com diversos depoimentos já prestados em juízo, e com várias petições reclamando (estrategicamente) de falhas nas notificações, estas continuaram a ocorrer e a serem reconhecidas pelo juiz até 2012, fazendo com que, neste período, ainda estivessem ocorrendo audiências de oitiva de testemunhas, ou mais adequadamente, de repetição dessas oitivas. Em decisão do dia 8 de outubro de 2012, por exemplo, o juiz deferiu o pedido dos gatos para a repetição de depoimentos de 30 testemunhas em função de alegadas falhas nas notificações. E, contraditoriamente, apontou que deferia o pedido de repetição dos depoimentos, mas que era preciso “ponderar os fatos e as razões, com o objetivo de evitar nulidades que frustrem todo o esforço deste Juízo no sentido da razoável duração do processo, de modo a evitar a prescrição”. É certo que o juiz indeferiu diversos pedidos dos acusados para a repetição de depoimentos, porém, quando o fez, logo depois reconsiderou o pedido, ou o fez em período muito próximo ou posterior às prescrições. É certo também que o processo, sendo tão longo, passou pelos olhos de diversos juízes substitutos, que também deram decisões de indeferimento aos pedidos dos gatos, mas que foram posteriormente reconsiderados por outros juízes. E, ao fim, os indeferimentos aos pedidos protelatórios dos gatos não exerceram impacto suficiente para que, de fato, fosse respeitada a tal “razoável duração do processo”, como atestam as tantas postergações de audiências deferidas. Antes da decisão de 8 de outubro de 2012, por exemplo, – quando o juiz em questão aceitou repetir o depoimento de 30 testemunhas – ele já havia indeferido o mesmo pedido três meses antes, em 11 de julho de 2012, quando apreciou pedido de embargos de declaração dos gatos. Ao indeferir o pedido de repetição de depoimentos, que vinha sendo posto desde 27 de abril de 2011, o juiz alegou que não havia a necessidade de ouvir as testemunhas novamente, na medida em que, ainda que as notificações não tivessem sido feitas da forma mais exemplar, elas sempre foram publicadas pelo órgão oficial e comunicadas através de cartas precatórias, sendo ônus e interesse das próprias partes o acompanhamento dos trâmites. Argumenta, ainda, que os 163 gatos estavam querendo garantias de defesa maiores que as previstas em lei, e muito além do que a Vara de São Pedro da Aldeia poderia arcar, dado o “seu acervo sabidamente elevado (certa de 16 mil processos), bem como a elevadíssima distribuição (cerca de 450 processos/mês)”. Segundo o juiz, não havia de se falar em prejuízo para a ampla defesa quando todas as garantias legais haviam sido cumpridas, e quando os acusados tiveram seguidas oportunidades dadas por ele e por outros juízes, através das redesignações, para acompanharem as audiências. Depois de argumentar tudo isso, o mesmo juiz muda sua opinião na já comentada decisão de 8 de outubro de 2012, reconsiderando redesignar novas audiências para ouvir as 30 testemunhas que já haviam sido ouvidas em juízo, sob a alegação de que os depoimentos em questão não puderam de fato serem acompanhadas pelos gatos, seja em função de falhas na notificação das audiências, seja em função da demora do próprio juízo em designar um novo advogado dativo para o gato Mario, que já não contava com a presença de sua advogada dativa há muitas audiências. Como podemos notar no quadro das motivações dos adiamentos, vemos que o problema da ausência dos advogados dativos nas audiências constituiu um problema de significativa importância para o andamento do caso. Os gatos acusados neste processo, inclusive o gato Mario, foram todos defendidos por advogados dativos, indicados pelo juiz (provavelmente) em função da impossibilidade dos gatos em contratarem um advogado particular. E o que vemos acontecer no Caso do “gato” é a realização de uma defensoria frágil em argumentos, muitas vezes desinteressada, porém estratégica nos recursos, na medida em que o advogado não chega de fato a “defender” o gato das acusações, mas simplesmente a se utilizar estrategicamente das falhas da Vara e dos princípios do contraditório e da ampla defesa, para evitar, até mesmo, a realização de audiências de depoimentos de testemunhas, tantas vezes redesignadas. O interessante, contudo, é que ainda que esses advogados tenham atuado de modo frágil enquanto “defesa” das acusações feitas, eles acabaram alcançando um resultado favorável não só para os gatos, como também para o 164 próprio proprietário da AGRISA, cujo advogado particular não precisou fazer muito esforço (além de comparecer às audiências) para defender o seu cliente. Mesmo parecendo desinteressados em realizar a defesa dos gatos – como denotam as suas sucessivas ausências–, o desinteresse e a fragilidade dos advogados dativos acabou se coadunando com fatores institucionais ligados à Vara (falhas nas notificações) e de atuação (variável) dos juízes de primeiro grau (com relação aos princípios da ampla defesa e da razoávelduração do processo), que, em conjunto, imprimiram a forma pela qual o caso transcorreu na Vara: adiamentos de audiência até a prescrição. É como se o caminho aqui tivesse se dado pelo caminho “mais fácil” para a impunidade. Não foram precisos fortes argumentos e nem eloquentes contestações das provas e das acusações. Em 25 de outubro de 2013, após tantos cancelamentos e redesignações de audiências, o juiz então responsável pela Vara declarou a prescrição para os crimes de aliciamento de trabalhadores de um estado para o outro, de formação de organização criminosa e de frustração, através de fraude ou violência, de direitos assegurados por legislação trabalhista, que eram atribuídos a todos os gatos e ao proprietário da AGRISA. Na mesma decisão, o juiz também determinou o seguimento da Ação Penal para o crime de trabalho escravo atribuídos ao gato Mario e a proprietário da empresa. O interessante é observar que após a prescrição desses crimes, a defesa do gato Mário continuou firme em sua estratégia de postergação das audiências, pedindo, em meados de 2014, não somente a repetição dos depoimentos de todas as testemunhas de defesa – alegando omissão do juízo com relação aos seus pedidos de reinquirição de testemunhas em função de falhas nas notificações – como também a renovação da produção de prova pericial, 10 anos depois de aberta a Ação Penal, e cerca de 18 anos depois da denúncia feita pelo trabalhador. Seu pedido foi indeferido pela Vara Federal em 8 de agosto de 2014, sob a justificativa de que (finalmente) a fase de produção de provas estaria encerrada. E quanto à perícia no local, o juiz ressaltou a impossibilidade de se realizar uma vistoria na fazenda da AGRISA. 165 Após essa decisão, como veremos, o gato obteve uma decisão favorável no TRF da 2ª Região, em 11 de novembro de 2014, que deferiu o pedido do gato para a renovação dos depoimentos de testemunhas, fazendo com que a Vara tomasse as providencias necessárias para a repetição das audiências. Ainda hoje a Vara se encontra na tarefa de designar audiências de oitiva de testemunhas e enviar cartas precatórias e intimações sobre a realização de audiências, não sendo muito difícil imaginar o fim dessa Ação Penal. Vejamos agora como que se deram os processos no TRF da 2ª Região e no TST, que transcorreram ao longo do andamento da Ação Penal em primeira instância. A primeira vez que o gato Mario levou o caso ao Tribunal Regional Federal da 2ª Região se deu logo após a autuação da Ação Penal na Vara Federal de São Pedro da Aldeia. Em 18 de fevereiro de 2004, o TRF da 2ª Região autuou um pedido de Habeas Corpus (2004.02.01.001840-3)75 do gato, que buscava o trancamento da ação penal, sob alegação de descabimento da denúncia. Em sua defesa, alegava que sua conduta não se encaixava nos crimes dos quais estava sendo acusado, na medida em que não constituía crime algum possuir um comércio dentro da fazenda da AGRISA. Em 18 de maio de 2004, seu pedido foi indeferido por unanimidade pelo TRF da 2ª Região76, que se arvorou na denúncia feita pelo MPF para apontar que as condutas estavam bem tipificadas e comprovadas, criticando inclusive a argumentação rasteira com a qual o gato e sua defesa haviam formulado seu pedido de Habeas Corpus. Nas palavras do desembargador relator Raldênio Bonifácio da Costa, “... é óbvio que a denúncia não acusa o paciente de ter cometido qualquer crime simplesmente por “manter uma venda” mostrando-se, para dizer o menos, ingênuo e superficial a argumentação da Impetrante a este respeito. De fato, de uma leitura serena e equilibrada do contexto da denúncia facilmente percebe-se como a 75 Para a consulta do andamento processual, ver: http://www.trf2.gov.br/cgi- bin/pingres?proc=200402010018403&mov=1. 76 BRASIL. Tribunal Regional Federal da 2ª Região. 5ª Turma. Acórdão no Habeas Corpus 2004.02.01.00184-3. Relator: COSTA, Raldênio Bonifácio. Publicado no DJ de 07/06/2004. http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres?proc=200402010018403&mov=1 http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres?proc=200402010018403&mov=1 166 acusação feita ao paciente com base na “venda” por ele mantida não é de que seria crime explorar aquele comércio, mas sim a de que, integrando ele uma organização estável voltada para explorar trabalhadores em situação análoga à de escravos, utilizam-se os negócios daquela “venda” – como é sabido e notório acontecer em situação em que se verifica a moderna “escravidão” – para criação e manutenção de um vínculo indelével que faria com que os trabalhadores ficassem “aprisionados” à empresa (...)” (BRASIL. Tribunal Regional Federal da 2ª Região. 5ª Turma. Acórdão no Habeas Corpus 2004.02.01.00184-3. Relator: COSTA, Raldênio Bonifácio. Publicado no DJ de 07/06/2004, p. 4). Como podemos observar, o voto dado pelo desembargador, que foi seguido por unanimidade pelos demais desembargadores do TRF, já incorpora claramente o entendimento de que o trabalho escravo também se consubstancia no que ele chama de “moderna escravidão”, que é a servidão por dívida, reconhecendo o papel exercido pelo gato e sua venda nesse novo processo de submissão do trabalhador. Inconformado com a decisão, o gato entrou com um pedido de Embargos de Declaração no TRF, alegando que o Juízo em questão havia sido omisso sobre a matéria do descabimento da denúncia. E novamente, em 3 de agosto de 2004, o gato teve seu pedido indeferido, mais uma vez por unanimidade77. O relator da decisão, o mesmo da decisão anterior, argumentou que, além de não ter tido qualquer omissão por parte do juízo, o gato estaria se utilizando dos instrumentos processuais errados para dar andamento a sua “irresignação”, dando a entender que o gato e sua defesa queriam apenas protelar o andamento do processo, como vinham de fato fazendo no processo em primeiro grau. Tendo seu pedido de Habeas Corpus negado no TRF, o gato entrou com o pedido no Superior Tribunal de Justiça (HC17.233 - RJ ou 2005/0013066- 5)78, mais uma vez pedindo o trancamento da ação sob a alegação de que a 77 BRASIL. Tribunal Regional Federal da 2ª Região. 5ª Turma. Acórdão no Embargos de Declaração 2004.02.01.00184-3. Relator: COSTA, Raldênio Bonifácio. Publicado no DJ de 16/08/2004. 78 Para consulta do andamento processual, ver https://ww2.stj.jus.br/processo/pesquisa/?src=1.1.3&aplicacao=processos.ea&tipoPesquisa=tip oPesquisaGenerica&num_registro=200500130665. https://ww2.stj.jus.br/processo/pesquisa/?src=1.1.3&aplicacao=processos.ea&tipoPesquisa=tipoPesquisaGenerica&num_registro=200500130665 https://ww2.stj.jus.br/processo/pesquisa/?src=1.1.3&aplicacao=processos.ea&tipoPesquisa=tipoPesquisaGenerica&num_registro=200500130665 167 denúncia do MPF era descabida, confusa, insuficiente para a comprovação de sua conduta criminosa, e limitadora a sua defesa, dado que a tipificação do que havia sido cometido não estava clara. Autuado em 31 de janeiro de 2005, o pedido foi negado por unanimidade pelo TST em 19 de maio de 200579. A relatora da decisão ministra Laurita Vaz colocou-se ao lado da denúncia feita pelo MPF – assim como fez o desembargador relator do TRF – apontando que as condutas criminosas do gato haviam sido satisfatoriamente descritas, inclusive o crime de trabalho escravo em função de endividamento dos trabalhadores com a venda de propriedade do gato: “Com efeito, a conduta típica imputada ao paciente – art. 149, do Código Penal – foi individualizada e pormenorizada pelo Ministério Público Federal, o qual demonstrou que os negócios explorados pelo denunciado, no interior da empresa, na realidade era exercido para criar e manter um vínculo indelével entre os trabalhadores o estabelecimento empregador, de modo que, ao final, os trabalhadores permaneceriam“aprisionados” à empresa, em razão da dívida contraída” (BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. 5ª Turma. Acórdão no Habeas Corpus nº 17.233/RJ. Relatora: VAZ, Laurita. Publicado no DJ de 20/06/2005, p. 5-6). Contra esta decisão, o gato entrou em 22 de junho de 2005 com embargos declaratórios, alegando omissão por parte do STJ, que, por sua vez, novamente indeferiu por unanimidade o seu pedido em 18 de agosto de 200580. A ministra Laurita Vaz, em seu voto, alega que o gato apenas procurava postergar o processo, na medida em que tentava rediscutir matéria já suficientemente demonstrada, sem sequer se importar com a via jurídica através da qual empreendia sua tentativa. No entremeio da decisão do STJ e o posterior questionamento do gato, este entrou com mais um recurso em 23 de maio de 2005, através de uma 79 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. 5ª Turma. Acórdão no Habeas Corpus nº 17.233/RJ. Relatora: VAZ, Laurita. Publicado no DJ de 20/06/2005. Disponível em: https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ITA&sequencial=550 679&num_registro=200500130665&data=20050620&formato=PDF. 80 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. 5ª Turma. Acórdão nos Embargos de Declaração nº 17.233/RJ. Relatora: VAZ, Laurita. Publicado no DJ de 03/10/2005. Disponível em: https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ITA&sequencial=570 641&num_registro=200500130665&data=20051003&formato=PDF. https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ITA&sequencial=550679&num_registro=200500130665&data=20050620&formato=PDF https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ITA&sequencial=550679&num_registro=200500130665&data=20050620&formato=PDF https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ITA&sequencial=570641&num_registro=200500130665&data=20051003&formato=PDF https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ITA&sequencial=570641&num_registro=200500130665&data=20051003&formato=PDF 168 Liminar em Mandado de Segurança (2005.02.01.004629-4)81 no TRF da 2ª Região, desta vez para questionar decisão da Vara Federal de São Pedro da Aldeia que havia rejeitado, ainda em 2004, os pedidos do gato alegando incompetência da Justiça Federal para o processamento e julgamento do caso. O pedido foi julgado prejudicado em 30 de maio de 2005, por meio de decisão democrática do desembargador Marcello de Souza Ferreira Granado82. Em sua decisão, o desembargador alegou perda de objeto, na medida em que o gato já havia aberto processo de Habeas Corpus no STJ com o mesmo fim e objeto, pedido este que havia sido indeferido por unanimidade pelo referido Tribunal, restando, portanto, prejudicado o mandado de segurança. Mais uma vez inconformado, o gato interpôs, em 7 de junho de 2005, um agravo interno ao TRF questionando a decisão monocrática do desembargador Marcello de Souza Ferreira Granado. Segundo o gato, o objeto dos dois recursos não eram os mesmos, argumentando, ainda, que o desembargador estaria negando a prestação jurisdicional e violando o princípio do duplo grau de jurisdição. Mais uma vez, porém, o gato teve seu recurso indeferido, em 6 de setembro de 2005, mas dessa vez por maioria de votos83. Em 14 de setembro de 2005, é autuado um Recurso em Sentido Estrito (2005.51.08.000129-0)84 no TRF da 2ª Região, em que o gato tenta por mais uma vez contrariar a decisão democrática do Desembargador Granado, que, sob seu ponto de vista do “gato”, violou seu direito ao duplo grau de jurisdição. Seu pedido é novamente rejeitado por decisão democrática da Juíza Liliane Roriz, em 26 de outubro de 2005, sob a mesma alegação dada anteriormente 81 Para consulta do andamento processual, ver: http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres- allen?proc=200502010046294&mov=1. 82 BRASIL. Tribunal Regional Federal da 2ª Região. 2ª Turma. Decisão Monocrática em Liminar no Mandado de Segurança 2005.02.01.004629-4. Relator: GRANADO, Marcello Ferreira de Souza. Publicado no DJ de 02/06/2005. 83 BRASIL. Tribunal Regional Federal da 2ª Região. 2ª Turma. Acórdão no Agravo interno 2005.02.01.004629-4. Relator: DIEFENTHAELER, Guilherme. Publicado no DJ de 15/05/2006. 84 Para consulta do andamento processual, ver: http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres- allen?proc=200551080001290&andam=1&tipo_consulta=1&mov=3. http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-allen?proc=200502010046294&mov=1 http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-allen?proc=200502010046294&mov=1 http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-allen?proc=200551080001290&andam=1&tipo_consulta=1&mov=3 http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-allen?proc=200551080001290&andam=1&tipo_consulta=1&mov=3 169 sobre perda de objeto85. A mesma juíza, no entanto, ao decidir sobre o já esperado recurso do gato (agravo interno autuado em 16 de novembro de 2005), respondeu, em 13 de janeiro de 2006, com o seu deferimento, argumentando que por um “lapso, na ânsia de colocar o serviço em dia” acabou incorrendo no erro de achar que havia prejudicialidade em função da identidade de objetos em diferentes recursos86, permitindo que o gato continuasse a questionar a decisão da Vara Federal. E assim ele o fez. Após essa decisão, o gato entrou com mais três ações para questionar a decisão da Vara Federal no TRF, mas não obteve sucesso final em nenhuma das ocasiões. O que vemos acontecer depois, entre meados de 2007 e março de 2013 é um “silêncio” do gato nas instâncias de segundo e terceiro graus, ao mesmo tempo em que se destaca na Justiça de primeiro grau a “enxurrada” de cancelamentos e de redesignações de audiência, acompanhadas de pedidos do gato para a repetição de depoimentos, sob o princípio da ampla defesa e do contraditório. É somente em março de 2013 que o gato volta a entrar com um Recurso em Sentido Estrito (2004.51.08.000019-0)87 no TRF da 2ª Região, autuado em 22/03/2013. Dessa vez, o gato pedia a renovação da produção de provas periciais, que havia sido indeferida pela Vara Federal. O gato entra com esse recurso no TRF mesmo depois da Vara Federal ter aceitado, em 8 outubro de 2012, o pedido de repetição de depoimentos de 30 testemunhas. O pedido foi indeferido pelo TRF por unanimidade, sob a alegação de não haver nenhuma previsão legal que permitisse reanalisar as provas88. 85 BRASIL. Tribunal Regional Federal da 2ª Região. 2ª Turma. Decisão Monocrática no Recurso em Sentido Estrito 2005.51.08.000129-0. Relatora: RORIZ, Liliane. Publicado no DJ de 07/11/2005. 86 BRASIL. Tribunal Regional Federal da 2ª Região. 2ª Turma. Decisão Monocrática no Agravo interno 2005.51.08.000129-0. Relatora: RORIZ, Liliane. Publicado no DJ de 19/01/2006. 87 Para consulta do andamento processual, ver: http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres- allen?proc=200451080000190&andam=1&tipo_consulta=1&mov=3. 88 BRASIL. Tribunal Regional Federal da 2ª Região. 2ª Turma. Acórdão no Recurso em sentido estrito 2004.51.08.000019-0. Relatora: SILVA, Marcelo Pereira da. Publicado no DJ de 01/10/2013. http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-allen?proc=200451080000190&andam=1&tipo_consulta=1&mov=3 http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-allen?proc=200451080000190&andam=1&tipo_consulta=1&mov=3 170 Em última tentativa no TRF, em 12 de setembro de 2014, o gato entra com um pedido de Habeas Corpus (2014.02.01.008105-2)89 requisitando que fosse suspenso em sede liminar do processo e/ou de audiência marcada na Vara Federal até que seu habeas corpus fosse julgado e que fosse aceito seu pedido de redesignação de audiências na Vara Federal. Mais uma vez, o gato alegou haver problemas no processo de notificação das partes para as audiências, falha que o teria prejudicadopor diversas vezes, na medida em que se encontrou não representado quando da coleta de depoimentos importantes de acusação. Narrou, ainda, ter encaminhado à Vara Federal diversos requerimentos arguindo a nulidade das audiências (já realizadas e que ainda iria realizar sem a devida notificação da defesa), mas que só obteve indeferimento da Vara Federal. Foi em 11 de novembro de 2014, então, que o TRF da 2ª Região reverteu o “histórico” de indeferimentos que o gato vinha obtendo em segundo e terceiro graus, e colocou-se na esteira do caminho estratégico-protelatório do gato e de sua defesa. Por maioria de votos, o TRF deferiu o pedido do gato para determinar que a Vara Federal redesignasse novas datas para a repetição das audiências de oitiva e encaminhasse as devidas cartas precatórias e intimações para notificar a defesa, sob a alegação de que havia tido falhas de fato no processo de notificação de audiências e que tal deveria ser corrigida a fim de se respeitar a ampla defesa do acusado90. Em voto vencido, o desembargador André Fontes argumentou que, além dos documentos anexados ao processo comprovarem que o gato e a defesa foram notificados das audiências, não caberia ao instrumento do habeas corpus reconhecer nulidade das audiências coletadas nem mesmo determinar a sua renovação. Segundo o desembargador, o juízo de primeiro grau já havia tomado todas as providencias saneadoras para garantir o respeito à ampla defesa do acusado, resultando, inclusive, na realização de uma “longa 89 Para consulta do andamento processual, ver: http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres- allen?proc=200451080000190&andam=1&tipo_consulta=1&mov=3. 90 BRASIL. Tribunal Regional Federal da 2ª Região. 2ª Turma. Acórdão no Habeas Corpus 2014.02.01.008105-2. Relator: FONTES, André. http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-allen?proc=200451080000190&andam=1&tipo_consulta=1&mov=3 http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-allen?proc=200451080000190&andam=1&tipo_consulta=1&mov=3 171 instrução criminal”. Argumenta, ainda, que uma das evidencias de que as notificações para as audiências haviam sido devidamente realizadas, foi o acompanhamento sem faltas por parte do proprietário e de sua defesa nas audiências. Para o desembargador vencido, tratava-se apenas de mais uma tentativa do acusado de ensejar “o retrocesso da manobra processual”. O que percebemos então? Percebemos que – embora os desembargadores e magistrados tenham tratado, em algumas decisões, da questão de mérito, dando-nos indícios sobre como se posicionavam mais propriamente em torno da questão do trabalho escravo – os inúmeros recursos impetrados pelo gato Mario e sua defesa acabaram ajudando a imprimir a discussão do caso, mais uma vez, em uma discussão de procedimentos e de processo, mas agora nas instâncias de segundo e terceiro grau, que, por sua vez, deram o sopro final para o crime de trabalho escravo caminhar para a prescrição. 172 Tabela 22 - Natureza dos argumentos dos juízes - Caso do "gato" Nº do Processo/Ação Autor Grau Data de autuação Data de Julgament o Tempo Resultado Arg./Juiz Natureza Habeas Corpus Gato TRF 2 18/02/2004 18/05/2004 2 meses e 28 dias INDEFERIDO (UNANIMIDADE) - conduta de trabalho escravo comprovada; - servidão por dívida MÉRITO Embargos de Declaração Gato TRF 2 14/06/2004 03/08/2004 INDEFERIDO (UNANIMIDADE) - não ouve omissão do juízo PROCESSUAL Habeas Corpus Gato STJ 31/01/2005 19/05/2005 3 meses e 15 dias INDEFERIDO (UNANIMIDADE) - conduta de trabalho escravo comprovada; - servidão por dívida MÉRITO Embargos de Declaração Gato STJ 22/06/2005 18/08/2005 INDEFERIDO (UNANIMIDADE) - via processual errada PROCESSUAL Mandado de Segurança Gato TRF 2 23/05/2005 30/05/2005 3 meses e 13 dias PREJUDICADO (DECISÃO MONOCRÁTICA) - perda de objeto; - coincidência de objeto com outro processo PROCESSUAL Agravo interno Gato TRF 2 07/06/2005 06/09/2005 INDEFERIDO (MAIORIA DE VOTOS) - perda de objeto; - coincidência de objeto com outro processo PROCESSUAL Recurso em Sentido Estrito Gato TRF 2 14/09/2005 26/10/2005 1 ano, 7 meses e 26 dias PREJUDICADO (DECISÃO MONOCRÁTICA) - perda de objeto; - coincidência de objeto com outro processo PROCESSUAL Agravo interno Gato TRF 2 16/11/2005 13/01/2006 DEFERIDO (DECISÃO MONOCRÁTICA) - direito à dupla jurisdição PRINCÍPIOS/ PROCESSUAL Embargos de declaração Gato TRF 2 25/01/2006 22/02/2006 INDEFERIDO (MAIORIA DE VOTOS) - não ouve omissão do juízo PROCESSUAL Embargos infringentes Gato TRF 2 23/06/2006 26/02/2007 INDEFERIDO (UNANIMIDADE) - celeridade - não cabe discussão de competência a essa altura INSTITUCIONAL PROCESSUAL Recurso Especial Gato TRF 2 29/03/2007 15/05/2007 DEFERIDO (DECISÃO MONOCRÁTICA) - presença de pré- requisitos para o recurso PROCESSUAL Recurso em Sentido Estrito Gato TRF 2 22/03/2013 17/09/2013 5 meses e 24 dias INDEFERIDO (UNANIMIDADE) - não cabe o recurso PROCESSUAL Habeas Corpus - Liminar Gato TRF 2 12/09/2014 16/09/2014 1 mês e 29 dias INDEFERIDO (DECISÃO MONOCRÁTICA) - inexistência do perigo iminente PROCESSUAL Habeas Corpus Gato TRF 2 12/09/2014 11/11/2014 DEFERIDO (MAIORIA DE VOTOS) - FALHAS NO PROCESSO DE NOTIFICAÇÃO PARA AUDIÊNCIAS; - CONTRADITÓRIO - AMPLA DEFESA PROCESSUAL Se no início do Caso do “gato” a demora em seu andamento poderia ter como uma de suas explicações possíveis a generalidade da lei do trabalho escravo na época e as dificuldades resultantes para o enquadramento penal das condições degradantes que foram encontradas pelas fiscalizações, quando o Caso entra na Justiça, a demora permanece e a questão sobre o trabalho escravo e as condições degradantes mal são mencionadas, com exceção de algumas decisões. A tônica pela qual o caso se desdobra e se desenvolve o desgarra do plano das definições e leva o Judiciário para um campo aparentemente neutro (não menos político) de discussão de um caso de trabalho escravo. O Caso do “gato” nos mostra, assim, como o Poder Judiciário 173 pode atuar num caso de trabalho escravo sem nem mesmo ter que falar sobre ele. Trata-se de um caso, portanto, em que, tanto no plano teórico quanto metodológico, não é simples reconhecer “lados” nem “posicionamentos” dos juízes, como pretendem muitos estudiosos atitudinalistas “puros” ao olhar para as decisões judiciais simplesmente em função dos resultados e das atribuições de valores às decisões dos juízes. Inclusive, se olharmos para os tantos indeferimentos que o gato obteve em segunda e terceira instância, poderíamos (erroneamente) concluir, que o TRF e o TST colocaram-se “ao lado” ou a favor das políticas de erradicação do trabalho escravo, quando na verdade pouco entraram na questão do trabalho escravo e, ao fim, numa decisão variante das anteriormente dadas, o TRF tomou decisão que postergou o caso até os dias de hoje, tudo com base em argumentos de procedimento e de processo. 3.4 - Conclusões O Caso do “gato”, como já exposto na Introdução deste Capítulo, foi um caso ao mesmo tempo simples e complexo, na medida em que permitiu relativizar pressupostos previamente estabelecidos em torno da capacidade de litigação do acusado e os resultados obtidos. O caso colocou em evidência a maneira pela qual as fragilidades institucionais, seja do GEFM, das leis, ou do próprio Judiciário, podem ser estrategicamente mobilizadas até mesmo por litigantes com capacidades de defesa limitadas como o “gato”, que mesmo através de uma defesa frágil e pobre em argumentos conseguiu levar crimes à prescrição. O caso colocou em evidência, ainda, a “mornidão” da atuação judicial e também dos órgãos de acusação durante os processos judiciais,na medida em que poucas vezes os juízes se manifestaram acerca do mérito das questões e o MPF raramente se manifestou contra as sucessivas tentativas de postergação do caso por parte do “gato”, que foram, em sua maioria, corroboradas e levadas adiante pelos juízes. Um fator curioso de se notar é que a “mornidão” das decisões judiciais em torno do Caso do “gato”, que se mantiveram no campo aparentemente 174 neutro de discussão de um caso de trabalho escravo, poderia relativizar outro pressusposto acerca da atuação do Judiciário de acordo com o perfil do acusado e com a repercussão do caso. É possível supor que os argumentos de ordem processual e procedimental poderiam ser utilizados pelos juízes mais em casos de grande repercussão, de forma a se salvaguardarem politicamente. O que veremos nos dois outros casos analisados, contudo, que são de grande repercussão, é que embora os juízes continuem se utilizando de argumentos de ordem processual e procedimental, eles proferem mais decisões de mérito, apresentando o seu entendimento de trabalho escravo e o seu posicionamento com relação às políticas de erradicação. Da mesma forma, o MPF atua de forma mais incisiva e questionadora. Por que, então, num caso de pouca repercussão como o do “gato”, o Judiciário atuou de forma estritamente processual e as instituições acusatórias de forma tão desinteressada? Quer o Judiciário ou a União ganhar holofotes? Ou simplesmente é menos importante tratar de um caso envolvendo um “gato”? O interessante é pensar que o “gato” é uma figura limiar no quadro do trabalho escravo rural, na medida em que ele não é o proprietário da fazenda ou da empresa, embora exerça alguma autoridade dentro dela, mas ele também não é o trabalhador escravizado, embora possa viver na mesma linha de pobreza que ele. O “gato” ocupa uma posição-chave e estruturante nas formas das relações trabalhistas no campo. O “não-olhar” dos juízes sobre o “gato” também pode ser visto como uma limitação do entendimento desses juízes acerca da própria posição ocupada pelo “gato”, para além da descrição comum de ser aquele que alicia, vigia e cobra os trabalhadores. O “gato” é arregimentado pelo proprietário como um “braço direito”, mas que pode ser na primeira chance acusado pelo proprietário de ser o responsável pelos trabalhadores escravizados. Em função da “mornidão” em torno do caso não foi possível identificar de forma explícita um entendimento judicial acerca do que é o trabalho escravo nem um posicionamento da Justiça com relação às políticas de erradicação. Tal entendimento e posicionamento, no entanto, traduziram-se em outra forma de decisão, em que os juízes trataram de um caso de trabalho escravo sem 175 nem mesmo ter que falar sobre ele. O posicionamento fica mais claro na medida em que o caso transcorre por anos sempre sob a mesma justificativa das deficiências institucionais e da necessidade de se garantir a ampla defesa aos acusados, caminhando-se para a prescrição. Mas para perceber esses nuances possíveis do posicionamento dos juízes no caso, contudo, foi necessário olharmos para além dos resultados superficiais das decisões judiciais e adentrarmos em suas justificativas e processamentos ao longo de todo o caso. Como atuou, então, o Poder Judiciário no Caso do “gato”? O estudo do caso nos mostrou que fatores de ordem institucional marcaram significativamente a atuação dos juízes, mas que foram estrategicamente mobilizados pela defesa para adiar audiências até a prescrição dos crimes. Ou, como já apontamos anteriormente, o desinteresse e a fragilidade dos advogados dativos acabou se coadunando com fatores institucionais ligados à Vara (falhas nas notificações) e de atuação (variável) especialmente dos juízes de primeiro grau (com relação aos princípios da ampla defesa e da razoável duração do processo), que, em conjunto, imprimiram a forma pela qual o caso transcorreu na Vara. O “gato”, conhecido como aquele que “cai sempre em pé”, mais uma vez “caiu em pé”, ainda que através de uma defesa frágil e desinteressada, que, por sua vez, colocou em destaque as próprias deficiências institucionais do Judiciário. 176 Capítulo 4 – O Caso do Senador João Ribeiro: um “homem do campo” (2004-2014) 4.1 – Introdução O Caso do Senador João Ribeiro foi um caso de grande repercussão política, não apenas em função da posição pública do acusado, mas principalmente em função de suas declarações conservadoras e preconceituosas acerca do trabalhador do campo no Senado e na imprensa, que foram, inclusive, reproduzidas por ministros do STF, o que aumentou ainda mais a quantidade de holofotes sobre o caso, que foi amplamente divulgado por diversos órgãos estatais, jornais e sites de grande circulação e/ou visitação91. A atuação do GEFM enfrentou forte embate por parte do senador, questionamento que também se reproduziu no Judiciário, que recebeu ações em todas as instâncias da Justiça Trabalhista e também no STF. Na Justiça do Trabalho, foram três processos, um em que cada instância trabalhista. E no STF foram dois processos, que tiveram impacto significativo na repercussão política do caso. Vejamos como tudo isso começou e se desenvolveu. 4.2 – A denúncia e a fiscalização No dia 27 de janeiro de 2004, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) da Diocese de Araguaína (TO) encaminhou ao Grupo Especial de Fiscalização Móvel do Ministério Público do Trabalho e Emprego (MTE) uma denúncia recebida via telefone de um trabalhador dizendo que: “Ele juntamente com mais 24 trabalhadores estão já há 08 dias trabalhando na Fazenda Ouro Verde (tem dúvida quanto ao nome) município de São Geraldo (Povoado Boa Vista – PA), de propriedade de João Ribeiro, Senador do Tocantins. Segundo R. estão trabalhando em péssimas condições, sendo que trabalham 10 horas 91 Consultar lista de notícias sobre o Caso do Senador João Ribeiro no Apêndice 4. 177 por dia a uma diária de R$ 10,00 (dez reais). Foram levados para lá pelo gerente chamado Osvaldo que os contratou em Araguaína, dando uma entrada de R$ 100,00 (cem reais). O trabalho realizado é derrubada de juquira, o alojamento é barraco de palha, a água de beber é suja da represa, mesmo local de tomar banho, a alimentação é de péssima qualidade e 3 trabalhadores estão bastante doentes e não receberam nenhum atendimento, nem remédio e “não podem sair porque estão devendo. O trabalho deve durar mais uns 20 dias, mas acham que não vão aguentar porque as condições estão muito difíceis” (BRASIL/MTE/SIT, 2004: 3). Entre os dias 10 e 13 de fevereiro de 2004, o Grupo Móvel, contando com a presença de auditores fiscais do trabalho, de procuradores do trabalho e de delegados da Polícia Federal, realizou uma operação de fiscalização na fazenda do senador, de forma a averiguar o que havia sito dito na denúncia. O que pudemos constatar das informações do relatório produzido pelo Grupo é que ele não somente confirmou o conteúdo da denúncia, como registrou uma série de outros elementos que agravavam a situação denunciada. Para o Grupo, o que foi encontrado na fazenda do senador eram registros claros e inegáveis de trabalho escravo, na medida em que os trabalhadores não só tinham seus direitos trabalhistas violados, como também se encontravam submetidos a condições “infra-humanas” e “degradantes” de trabalho, moradia, alimentação e saúde. No que tange às irregularidades trabalhistas, o relatório apresenta diversos depoimentos de trabalhadores, colhidos pelo Grupo Móvel, de forma a mostrar que o senador incorria em diversas irregularidades que são geralmente encontradas nas relações informais de trabalho, tais como a não-assinatura das carteiras de trabalho, o não-recolhimento de INSS e FGTS, o não-registro das horas de trabalho,jornadas excessivas que ultrapassavam os limites estabelecidos pelas leis trabalhistas, a não-concessão de descanso semanal remunerado, o não-fornecimento de equipamentos de segurança e de instrumentos de trabalho, e o uso de mão de obra de menores de idades. Mas o que se pode perceber é que a verdadeira tônica do relatório está na apresentação de elementos que, somados às irregularidades trabalhistas, tornam as condições de trabalho extremamente penosas e degradantes para 178 os trabalhadores, configurando, para o Grupo, a situação de trabalho escravo. Por um lado, o Grupo argumenta que a Lei 10.803/0392 constituiu um avanço para o tratamento criminal dos casos envolvendo trabalho escravo, na medida em que estabeleceu a equivalência entre trabalho degradante e trabalho análogo ao de escravo, tentando dar um fim a uma discussão infindável entre as autoridades públicas, que até então diferenciavam uma coisa da outra. Por outro lado, o Grupo também argumenta que essa Lei não foi inteiramente bem sucedida, na medida em que deixou por demais em aberto a caracterização do que seria o trabalho degradante, ainda possibilitando a discórdia. Como veremos mais adiante, essa “falha” da lei, juntamente com outros fatores, de fato possibilitaram retrocessos no processamento judicial dos casos envolvendo a exploração do trabalho no campo. Para o Grupo, no entanto, a falha está mais nos interesses particulares presentes em cada entendimento do problema do que na própria falta de clareza da lei. Para o Grupo, o fato da lei não ter sido clara o suficiente não é o problema central da questão, na medida em que a tipificação do trabalho escravo não deve se pautar somente pela lei ou pelas regras formais, mas por “uma questão ética, filosófica, humanitária, e, em grande parte, de entendimento” (BRASIL/MTE/SIT, 2004: 15) de uma realidade claramente inadmissível nos dias de hoje em qualquer região do Brasil. O que o Grupo parece nos dizer é que a equivalência entre trabalho degradante e trabalho escravo é algo que não deveria ser questionado, na medida em que se trata de uma questão clara em que os trabalhadores são violados, através das relações de trabalho, em seus direitos mais naturais e inerentes a pessoa humana, sendo submetidos à condição de escravos. O Grupo, então, ao listar o que configuraria o trabalho degradante, logo, o trabalho escravo, assim o faz no sentido de deixar ainda mais nítido aquilo que, em sua visão, já deveria ser nítido o suficiente, especialmente para um senador da república, com lei ou sem lei especificando. 92 Como já vimos, esta Lei altera o art. 149 do Decreto-Lei n o 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal, para estabelecer penas ao crime nele tipificado e indicar as hipóteses em que se configura condição análoga à de escravo. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.803.htm. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.803.htm 179 O que configuraria, então, o trabalho degradante ou o trabalho escravo para o Grupo Móvel de Fiscalização? Ele lista três conjuntos principais de elementos. O primeiro conjunto é composto de elementos que configuram a relação de domínio, como a coação física ou moral, o trabalho forçado conseguido através de ameaças físicas, de dívidas ilegais do trabalhador com o empregador, ou através da retenção de documentos pessoais. Aqui, o trabalho forçado e o impedimento de ir e vir não são entendidos somente através da existência de ameaças físicas e de vigilância armada ostensiva. Eles são entendidos de forma muito mais ampla, estando relacionados ao segundo conjunto de elementos apresentados pelo Grupo, que seriam aqueles elementos que denotam a ausência ou o aviltamento de salário, o seu pagamento através de produtos diversos que não em espécie, adiamentos e descontos ilegais e abusivos. O terceiro conjunto é composto de elementos que estão relacionados ao ambiente de trabalho, como as condições sanitárias, de saúde e de alojamento, que são as condições que o Grupo ressalta como sendo os elementos essenciais à dignidade da pessoa humana. O Grupo defende, ainda, que para que se configure o trabalho degradante ou o trabalho escravo, “basta que haja na pretensa relação de emprego algum dos elementos que ferem a dignidade dos cidadãos, degradando-os, isto é, diminuindo-lhes a dignidade humana ou rebaixando-os da condição de trabalhadores livres, sujeitos de obrigações, mas também de direitos, para uma condição semelhante daqueles que viviam em regime de escravidão” (BRASIL/MTE/SIT, 2004: 20). Ou seja, para que uma determinada situação seja caracterizada como trabalho degradante ou trabalho escravo não é preciso que todos os elementos estejam presentes, bastando a presença de apenas um deles. O que o Grupo relata ter constatado na fazenda de propriedade do senador João Ribeiro é a presença não somente de um desses elementos, mas de uma série deles, no que o Grupo argumenta estar mais do que clara a existência de trabalho escravo. O Grupo apresentou depoimentos dos trabalhadores dizendo que foram contratados para receber entre 10 e 18 reais por dia de trabalho, mas que 180 muitos ainda não tinham recebido nenhuma diária. Apenas alguns poucos trabalhadores, como o que fez a denúncia à CPT, relataram terem recebido um adiantamento no dia em que foram contratados. Também foi relatado, e dessa vez por todos os trabalhadores, que foram avisados pelo administrador da fazenda que a jornada de trabalho duraria de 10 a 12 horas diárias, de segunda a sábado, e que os domingos de descanso não seriam remunerados. Além disso, também foram apresentados depoimentos que apontavam a existência do “regime de barracão” ou do “sistema de armazém”. Mostrou-se que muitos trabalhadores adquiriam produtos no armazém da fazenda, como instrumentos de trabalho, alimentos e produtos de higiene pessoal, e que isso lhes era descontado de suas diárias, gerando dívidas ilegais dos trabalhadores com o empregador. Essa situação foi confirmada não somente por todos os trabalhadores, que compravam ou não no armazém da fazenda, como também estava registrada em cadernos contendo o nome dos trabalhadores, os produtos por eles adquiridos e o valor correspondente a cada produto. Para o Grupo, portanto, os registros e as provas eram abundantes e suficientes para atestar elementos de dominação através da retenção, atraso e descontos ilegais dos salários e através do endividamento dos trabalhadores. No que tange às condições de trabalho, moradia e saúde, o Grupo também forneceu uma quantidade significativa de provas documentais, de fotos e de depoimentos que mostravam a situação “infra-humana” a qual os trabalhadores estavam submetidos93. Como já apontado, a jornada de trabalho era exaustiva, chegando para muitos a 12 horas diárias. Os trabalhadores não tinham acesso à água potável para beber, no que recorriam a um brejo lamacento e sujo, aberto ao acesso dos animais, e que também era utilizado pelos trabalhadores para tomar banho. A fazenda também não oferecia alojamentos para os trabalhadores que dormiam na fazenda. Os poucos alojamentos que haviam foram construídos pelos próprios trabalhadores, cobertos com folhas de palmeira e com chão de terra, sem paredes ou 93 Assim como no Caso Pagrisa, que veremos no Capítulo seguinte, o GEFM já dispunha de recursos fotográficos para atestar a situação da fazenda do senador. Tais fotos só não foram aqui disponiblizadas porque encontramo-las apenas disponíveis nos arquivos do caso no STF, escaneados, em preto e branco e quase sem resolução. 181 qualquer proteção lateral, dentro dos quais dormiam em redes. Esses alojamentos estavam atolados de lama em funçãodas chuvas e exalavam um forte cheiro de umidade e de esgoto, dado que a fazenda não oferecia banheiros, tendo os trabalhadores que recorrerem ao mato ou a pequenas fossas a céu aberto. Em função da umidade, foram encontrados dois trabalhadores doentes, com as mãos cobertas de lesões de micose. Segundo os trabalhadores, eles requisitaram auxílio médico, mas nada foi feito. Além desses registros, o relatório produzido pelo Grupo Móvel também procurou apresentar provas de uma prática que é muito comum nos casos envolvendo o trabalho escravo, que é o aliciamento de trabalhadores e sua locomoção para fora de seus locais de residência. Esses dois fatores são apontados como graves na medida em que, na maioria dos casos, os aliciadores ou “gatos” convencem os trabalhadores com falsas promessas de modo a levá-los para trabalhar em locais ermos e distantes de suas residências, pagando-lhes sua passagem, mas depois cobrando dos trabalhadores tudo o que ele precisar para a sua subsistência. Endividado com o empregador, sem receber seu salário, e isolado geograficamente, o trabalhador fica mais facilmente submetido a um trabalho forçado, à exploração do seu trabalho, e a péssimas condições de vida. Segundo o relatório do Grupo Móvel, o que foi averiguado no caso em particular é que os trabalhadores sabiam das condições de trabalho, e que o local para o qual foram levados não se encontrava tão distante (cerca de 6 ou 7 quilômetros) de onde foram recrutados. No entanto, argumenta o Grupo, os trabalhadores acreditavam que receberiam suas diárias ao término de cada jornada, o que não vinha acontecendo. E em função de terem adquirido dívidas com o fazendeiro, precisariam trabalhar mais para pagá-las, para receber alguma coisa de suas diárias e, com isso, poder ir embora. Segundo a interpretação do Grupo, o senador se utilizou do seu status e do prestígio de sua função pública para aliciar os trabalhadores com falsas promessas, acabando por explorar suas situações de miséria e de necessidade. Os resultados apresentados pelo relatório do GEFM foram prontamente divulgados pela mídia, que se tornou ainda mais atenta ao caso conforme o 182 seu deslinde se estendeu para a Justiça. Até a entrada do Caso no Judiciário em setembro de 2004, o relatório foi destacado por três reportagens em jornais e sites de expressividade. No dia 13 de fevereiro de 2004, mesmo dia em que foi finalizado o relatório do GEFM, o Jornal do Brasil94 e a Tribuna da Imprensa95 foram os primeiros a divulgar o caso, noticiando os resultados da fiscalização que havia sido realizada nas terras do senador João Ribeiro. Quatro dias depois, a Carta Maior96 divulga reportagem da Repórter Brasil, que também noticia dados da fiscalização e o que fora encontrado pelo Grupo na fazenda do senador. 4.3 – O caso entra no Judiciário Após as ações e o relatório de fiscalização do Grupo Móvel realizados no início de 2004, o caso envolvendo o Senador João Ribeiro enveredou por três caminhos distintos, mas paralelos. O primeiro caminho se abriu através de um recurso administrativo interposto pelo senador na Delegacia Regional do Trabalho do Estado do Pará, requisitando a anulação das infrações alegadas e das multas aplicadas pelo Grupo Móvel. O segundo caminho se deu na esfera da Justiça do Trabalho através de uma Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público do Trabalho da 8ª Região contra o senador, requisitando indenização por dano moral coletivo pela prática de trabalho escravo. E o terceiro caminho se abriu com um pedido de Inquérito no Supremo Tribunal Federal requisitado pelo Ministério Público Federal, que pedia a investigação do crime de trabalho escravo e a abertura de uma ação penal contra o senador. Vejamos, abaixo, cada caminho de forma mais detalhada e separadamente. 94 Jornal do Brasil. Trabalho Escravo: Ministério flagra 32 em terra de senador. Notícias – 13/02/2004. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_12&PagFis=98710. 95 Tribuna da Imprensa. Senador mantinha 32 escravos em fazenda no Pará. Notícias – 13/02/2004. Disponível em:http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=154083_06&PagFis=24940. 96 Carta Maior. Senador João Ribeiro (PFL-TO) é denunciado por trabalho escravo. Notícias – 17/06/2004. Disponível em: http://www.cartamaior.com.br/?/Especial/Trabalho- Escravo/Senador-Joao-Ribeiro-PFL-TO-e-denunciado-por-trabalho-escravo/156/1653. http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_12&PagFis=98710 http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=154083_06&PagFis=24940 http://www.cartamaior.com.br/?/Especial/Trabalho-Escravo/Senador-Joao-Ribeiro-PFL-TO-e-denunciado-por-trabalho-escravo/156/1653 http://www.cartamaior.com.br/?/Especial/Trabalho-Escravo/Senador-Joao-Ribeiro-PFL-TO-e-denunciado-por-trabalho-escravo/156/1653 183 Quanto ao primeiro caminho, não foi possível, infelizmente, encontrar registros indicando as datas de entrada e de decisão do recurso administrativo, bem como não foi possível encontrar qualquer tipo de material próprio do processo que nos mostrasse o seu andamento dentro da Delegacia Regional do Trabalho do Estado do Pará. O que conseguimos foram informações (extraídas dos processos judiciais que fizeram referência a esse recurso administrativo) acerca do conteúdo da argumentação do senador com relação ao que foi averiguado em sua fazenda, conteúdo este extensamente presente em outros depoimentos seus prestados às instâncias da Justiça e que veremos mais adiante. O que se pode depreender é que tal recurso administrativo foi interposto pelo senador antes mesmo do caso ir parar na Justiça em junho de 2004, dado que ele apresenta como uma de suas alegações para suspender os processos judiciais o fato do recurso administrativo ainda não ter sido analisado na época pela Delegacia do Trabalho. Sabe-se também que o senador não obteve na via administrativa a anulação que pretendia, tendo o seu nome incluído na Lista Suja do Trabalho Escravo em 1 de agosto de 2006, quando já respondia judicialmente a um processo no Tribunal Superior do Trabalho (TST) e no Supremo Tribunal Federal (STF). O nome do Senador permaneceu por dois anos na referida Lista e foi dela excluído em 15 de julho de 2008, após pagar as multas aplicadas pela fiscalização e não reincidir no crime de trabalho escravo. O segundo caminho, por sua vez, se deu com a entrada do Caso no Poder Judiciário, desdobrando-se, como mostra o quadro abaixo, em 2 processos no Supremo Tribunal Federal e 3 processos na Justiça do Trabalho (1 processo na Vara do Trabalho de Redenção, 1 processo no Tribunal Regional Federal da 8ª Região e 1 processo no Superior Tribunal de Justiça). 184 Tabela 23 - Quadro Geral de Processos na Justiça para o Caso do Senado João Ribeiro Nº do Processo/Ação Autor Esfera Instância Data de Autuação Inquérito 2.131/DF MPF STF Última 17/06/2004 Ação Civil Pública (0061100-07.2004.5.08.0118) MPT JT VT 02/09/2004 Recurso Ordinário (0061100-07.2004.5.08.0118) Senador João Ribeiro JT TRT 8 06/06/2005 Recurso de Revista (0061100-07.2004.5.08.0118) Senador João Ribeiro JT TST 19/09/2006 Ação Penal 696 MPF STF Última 21/08/2012 Vejamos agora como o Caso se desenvolveu em cada esfera e instância do Poder Judiciário. 4.3.1 – O Caso do Senador João Ribeiro na Justiça do Trabalho Na Justiça do Trabalho, o Caso do Senador João Ribeiro se desdobrou, ao todo, em 3 processos: Uma Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público do Trabalho na Vara do Trabalho de Redenção; um Recurso Ordinário do Senador João Ribeiro no Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região; e um Recurso de Revista, também do Senador, no Tribunal Superior do Trabalho. Tabela 24 - Características Gerais dos Processos