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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS 
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS 
 
 
 
 
CELLY COOK INATOMI 
 
 
A ATUAÇÃO DO PODER JUDICIÁRIO NAS POLÍTICAS DE ERRADICAÇÃO 
DO TRABALHO ESCRAVO RURAL NO BRASIL CONTEMPORÂNEO 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAMPINAS 
2016 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS 
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS 
 
A Comissão Julgadora do trabalho de Defesa de Tese de Doutorado “A 
atuação do Poder Judiciário nas políticas de erradicação do trabalho escravo 
rural no Brasil contemporâneo”, composta pelos professores doutores a seguir 
descritos, em sessão pública realizada em 8 de março de 2016, considerou a 
candidata Celly Cook Inatomi aprovada. 
 
Prof. Dr. Oswaldo E. do Amaral 
 
Prof. Dr. Frederico Normanha Ribeiro de Almeida 
 
Prof. Dr. Valeriano Mendes Ferreira Costa 
 
Profa. Dra. Débora Alves Maciel 
 
Prof. Dr. Eduardo G. Noronha 
 
 
 
A Ata da Defesa, assinada pelos membros da Comissão Examinadora consta 
no processo de vida acadêmica da aluna. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Dedico este trabalho ao Chris e à Piaf, 
com muito carinho 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Agradecimentos 
 Começo expondo meus sinceros agradecimentos ao Andrei, que há mais de 10 
anos aceitou a tarefa de me orientar, desde a monografia ao doutorado, sempre com 
muita sabedoria, paciência e amizade. Agradeço por seu apoio, pelas oportunidades 
de participação em seus projetos, e pela confiança em mim depositada nas vezes em 
que fui sua monitora no Programa de Estágio Docente na Unicamp. 
Agradeço também aos professores membros da banca de qualificação, Prof. 
Dr. Eduardo Noronha e Profa. Dra. Walquíria Domingues Leão Rêgo, pelas críticas, 
observações e sugestões que contribuíram para a finalização deste trabalho e para o 
seu aperfeiçoamento. 
Sou grata à CAPES pela bolsa de doutorado concedida, sem a qual eu não 
poderia ter me dedicado exclusivamente para a realização desta pesquisa. 
Agradeço também aos funcionários do IFCH, especialmente à Priscila Gartier, 
da Secretaria da Pós-Graduação de Ciência Política, e ao Sandro Carmo, da 
biblioteca, pela forma tão solícita, gentil e competente com a qual sempre trabalharam. 
Sou grata aos alunos dos PEDs em que fui monitora na Unicamp, pela 
experiência enriquecedora de dar aula e pelo respeito com que me receberam. Sou 
grata especialmente aos queridos Murilo Polato e Ana Clara Rocha, pela docilidade e 
incentivo com que sempre me trataram. 
 Agradeço imensamente ao Thiago Trindade, a seu pai Edi Aparecido Trindade, 
e ao Coordenador do Curso de Direito da Faculdade de Jaguariúna Prof. Fabrízio 
Rosa, pela oportunidade concedida de trabalhar como professora. Agradeço aos meus 
alunos pelas experiências e pelo crescimento que tenho vivenciado enquanto docente. 
 Agradeço às minhas queridas amigas da pós-graduação da Unicamp, Marcia 
Baratto e Ariana Bazzano, que foram apoio constante em diversos momentos. 
Agradeço pelo ombro amigo tantas vezes cedido, pelos conselhos, pela sabedoria e 
conhecimento e pelas tantas risadas e comilanças que já compartilhamos juntas. Sem 
vocês, tudo teria sido muito mais difícil, solitário e sem graça. 
Agradeço também à minha querida amiga Karen Sakalauska, que com seu 
entusiasmo e fé inabalável, mostrou-se sempre disposta a ajudar e a dar o seu melhor. 
Agradeço pelas vezes que me recebeu tão bem em sua casa, pelas tantas mensagens 
só para saber se estava tudo bem, pelas conversas e discussões filosóficas (nem 
sempre harmoniosas), mas que me ensinam constantemente o real valor do respeito 
 
 
 
 
às diferenças de pensamento. Você me faz querer ser uma pessoa melhor, uma 
professora melhor e uma amiga melhor. Obrigada também por ter trazido a linda 
Clarinha ao mundo, que veio para alegrar a vida de todos. 
Agradeço também aos meus queridos amigos de graduação, Marcio Scherma, 
Sara Lima, Thelma Belo, Ciça Ferrarezzi e Renato Pereira, que mesmo distantes, 
continuam presentes em minha vida até os dias de hoje, seja em pensamento ou em 
uma mensagem de saudade. São todos amigos iluminados, que levo como referência 
de seres humanos extraordinários. 
Sou grata também à minha querida amiga de sempre e de todas as horas 
Juliana Bertazzo, que com sua generosidade abundante esteve sempre a postos para 
conversar, ajudar e alegrar. Agradeço por sua amizade sempre e invariavelmente 
sincera, calorosa e presente. Amizade preciosa e difícil de encontrar, um tesouro que 
quero levar por toda a vida. 
Agradeço à família Inatomi (pai, mãe, Satye, tia Margo, tia Anézia, tio Roberto, 
tia Amélia, Cristina, Hugo, Danilo e Daniel), à família Pierotti dos Santos (José Camilo, 
Eva Catalina, Thomas e Cristiane), à família Cook (Vó Meire, tia Neca, tia Tuca e tia 
Cheila), e a inúmeros amigos, pelo carinho, pelos presentes recebidos, pela ajuda, e 
por terem me proporcionado, ao fim da redação desta tese, uma semana de férias (tão 
gostosa!), da qual nunca vou me esquecer. 
Agradeço aos queridos José Camilo e Eva Catalina pelas ajudas que deram 
sempre que necessário ao longo de todos esses anos, e pelo tratamento tão carinhoso 
que dão a minha querida Piaf. 
Quanto à minha família, meu pai Mario, minha mãe Miriam, e minha irmã 
Satye, não há palavras que possam expressar a minha gratidão por tudo que já 
fizeram e ainda fazem por mim. Vocês são o início e o fim de tudo, minha base e meus 
princípios, e objeto constante das minhas orações. 
Por fim, agradeço ao meu querido Chris e a minha linda cachorrinha Piaf. A ela 
agradeço pela alegria e companheirismo sempre presentes, e por aparecer em minha 
vida como um verdadeiro presente de Deus. Ao Chris agradeço por seu coração 
sempre generoso e aberto, por sua paciência, pelo café na madrugada, por sentar 
comigo e me ajudar a pensar e organizar as ideais, por me acalmar, e por me levar 
para ver flores. Eu amo vocês. 
 
 
 
 
Agradeço, sobretudo, a Deus e a nossa senhora, pela saúde, pelo teto, pelo 
alimento e pela força concedida. 
 
 
 
 
Resumo 
O objetivo da tese é o de analisar a atuação do Poder Judiciário nas 
políticas de erradicação do trabalho escravo rural no Brasil contemporâneo, de 
forma a verificar seus entendimentos acerca do trabalho escravo, suas formas 
de argumentação e seus posicionamentos frente à necessidade das políticas 
de erradicação do trabalho escravo rural. Para tanto, a tese empreendeu uma 
análise em profundidade e em fluxo de três casos que trataram do tema do 
trabalho escravo rural no Brasil, sempre sob o olhar conjunto de três 
dimensões de análise: individual ou do jogo político, institucional e estrutural. A 
tese possibilitou verificar que o Poder Judiciário atuou de forma mitigada no 
quadro das políticas de erradicação do trabalho escravo rural, apresentando 
mais limitações do que possibilidades de apoio a essas políticas. Cada caso 
analisado mostrou que há uma coexistência entre fatores de ordem individual, 
institucional e estrutural que permitiram fortalecer a tese sobre a atuação 
mitigada do Poder Judiciário, embora cada caso tenha revelado um fator como 
mais expressivo que os demais. 
 
Palavras-chave: Poder Judiciário – trabalho escravo rural – direitos de 
cidadania – estudos de caso 
 
 
 
 
Abstract 
This thesis provides an analysis of the actions taken by the Judiciary in 
the framework of rural slave labor eradication policies in contemporary Brazil. 
The key aim of the research work was to determine the understanding held by 
the Judiciary of what constitutes slave labor, as well as to identify the 
arguments made by members of the judiciary and stances taken by them in the 
framework of rural slave labor eradication policies. For that purpose, the 
research work presented in this thesis produced an in-depth flow analysis of 
three casestudies that dealt with rural slave labor in Brazil, under three 
simultaneous analytical dimensions: individual (or political game), institutional 
and structural. The research work generated a central thesis that the Judiciary 
had limited action in the framework of rural slave labor eradication policies, 
invariably presenting more limitations than indications of support to such 
policies. Each case studied revealed the coexistence of individual, institutional 
and structural factors corroborating the thesis about the limited action of the 
Judiciary, even though a different key factor stands out in each of the three 
cases. 
Keywords: Judiciary – rural slave labor – citizenship rights – case studies 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sumário 
 
Introdução ................................................................................................................... 15 
Apresentação do tema e relevância da pesquisa .................................................... 15 
Objetivos ................................................................................................................. 18 
Tese e argumentos ................................................................................................. 19 
Metodologia de pesquisa ........................................................................................ 23 
Estrutura da tese ..................................................................................................... 24 
PARTE I...................................................................................................................... 26 
Capítulo 1 – Dimensões para uma análise política do Poder Judiciário ...................... 28 
1.1 – Introdução ...................................................................................................... 28 
1.2 – A dimensão individual: os interesses políticos dos atores .............................. 31 
1.3 – A dimensão estrutural: a função e a contradição do direito ............................ 45 
1.4 – A dimensão institucional: as regras do jogo político ....................................... 51 
1.5 – As análises do Poder Judiciário no Brasil e o despertar da 
multidimensionalidade............................................................................................. 55 
1.6 – Conclusões: “Let a hundred flowers bloom” ................................................... 60 
Capítulo 2 – Um panorama das políticas governamentais de erradicação do trabalho 
escravo rural ............................................................................................................... 62 
2.1 – Introdução ...................................................................................................... 62 
2.2 – Primeiras denúncias e sua visão sistêmica (1970-1984) ................................ 63 
2.3 – Políticas embrionárias e o jogo político (1985-1995) ...................................... 77 
2.4 – Reconhecimento público e as limitações institucionais (1995-2002) .............. 91 
2.5 – Políticas integradas, “consensos” e as contradições do direito (2003-2012) 105 
2.6 – Conclusões .................................................................................................. 124 
PARTE II ................................................................................................................... 127 
Preliminares para os estudos de caso ...................................................................... 128 
Critérios para a escolha dos casos ....................................................................... 128 
Os casos escolhidos ............................................................................................. 135 
Critérios para a análise dos casos na Justiça ....................................................... 144 
Capítulo 3 – O Caso do “gato”: aquele que “cai sempre em pé” (1996-2015) ........... 146 
3.1 – Introdução .................................................................................................... 146 
3.2 – A fuga, a denúncia e as fiscalizações (1996-2004) ...................................... 146 
3.3 – O Caso no Judiciário (2004-2015) ................................................................ 155 
3.4 - Conclusões ................................................................................................... 173 
 
 
 
 
Capítulo 4 – O Caso do Senador João Ribeiro: um “homem do campo” (2004-2014)176 
4.1 – Introdução .................................................................................................... 176 
4.2 – A denúncia e a fiscalização .......................................................................... 176 
4.3 – O caso entra no Judiciário ............................................................................ 182 
4.3.1 – O Caso do Senador João Ribeiro na Justiça do Trabalho ..................... 184 
4.3.2 – O Caso do Senador João Ribeiro no Supremo Tribunal Federal ........... 197 
4.4 – Conclusões .................................................................................................. 207 
Capítulo 5 – O Caso Pagrisa: “modelo internacional” (2007-2015) ........................... 212 
5.1 – Introdução .................................................................................................... 212 
5.2 – A denúncia e a fiscalização .......................................................................... 212 
5.3 – Senadores se rebelam e o caso entra no Judiciário ..................................... 229 
5.4 – O caso no Judiciário ..................................................................................... 265 
5.4.1 – O Caso Pagrisa na Justiça do Trabalho ................................................ 266 
5.4.2 – O Caso Pagrisa na Justiça Federal ....................................................... 280 
5.5 – Conclusões .................................................................................................. 304 
Conclusões ............................................................................................................... 311 
Tese e resultados ................................................................................................. 311 
Diálogos teóricos e metodológicos ........................................................................ 314 
Desdobramentos ................................................................................................... 319 
Referências Bibliográficas ........................................................................................ 321 
Apêndices ................................................................................................................. 345 
Apêndice 1 – Relatórios produzidos sobre trabalho escravo após 2003 ............... 345 
Apêndice 2 – Espectro dos casos nas políticas de erradicação do trabalho escravo346 
Apêndice 3 – Espectro temporal do Caso do “gato” .............................................. 347 
Apêndice 4 – Lista de notícias sobre o Caso do Senador João Ribeiro ................ 355 
Apêndice 5 – Espectro temporal do Caso Pagrisa ................................................ 356 
Apêndice 6 – Lista de notícias sobre o Caso Pagrisa no Senado ......................... 368 
 
 
 
 
 
 
 
Lista de Tabelas 
Tabela 1 - Medidas Formais para o Trabalho Rural e para o Trabalho Escravo (1940-
1969) .......................................................................................................................... 66 
Tabela 2 - Medidas Formais para o Trabalho Rural e para o Trabalho Escravo (1985-
1994) .......................................................................................................................... 79 
Tabela 3 - Medidas Formais para o Trabalho Rural e para o Trabalho Escravo (1995-
2002) .......................................................................................................................... 93 
Tabela4 - Medidas Formais para o Trabalho Rural e para o Trabalho Escravo (2003-
2012) ........................................................................................................................ 107 
Tabela 5 - Operações de Fiscalização e Inclusões na "Lista Suja" do Trabalho Escravo 
(1995-2012) .............................................................................................................. 111 
Tabela 6 - Atividades rurais com trabalho escravo que foram parar no TST ............. 130 
Tabela 7 - Atividades rurais com trabalho escravo que foram parar no STJ ............. 131 
Tabela 8 - Autores das ações sobre trabalho escravo no TST .................................. 131 
Tabela 9 - Autores das ações sobre trabalho escravo julgadas pelo STJ ................. 132 
Tabela 10 - Tempo de duração dos processos no TST em função dos autores das 
ações ........................................................................................................................ 133 
Tabela 11 - Tempo de duração dos processos do STJ em função dos autores das 
ações ........................................................................................................................ 133 
Tabela 12 - Respostas do TST em função dos autores das ações ........................... 134 
Tabela 13 - Respostas do STJ em função dos autores das ações ............................ 134 
Tabela 14 - Espectro do cenário do trabalho escravo nos casos escolhidos ............. 135 
Tabela 15- Trabalhadores resgatos por estado federativo (1995-2014) .................... 136 
Tabela 16 - Operações de Fiscalização realizadas no Caso do "gato"...................... 148 
Tabela 17 - Quadro de Inquéritos Policiais abertos para o Caso do "gato" ............... 154 
Tabela 18 - Quadro Geral de Processos na Justiça para o Caso do "gato" .............. 156 
Tabela 19 - Características Gerais dos Processos Judiciais no Caso do "gato" ........ 157 
Tabela 20 - Redesignação de Audiências, Motivos e Autores - Caso do "gato" ........ 160 
Tabela 21 - Natureza dos motivos de redesignação de audiências - Caso do "gato" 161 
Tabela 22 - Natureza dos argumentos dos juízes - Caso do "gato" .......................... 172 
Tabela 23 - Quadro Geral de Processos na Justiça para o Caso do Senado João 
Ribeiro ...................................................................................................................... 184 
Tabela 24 - Características Gerais dos Processos na Justiça Trabalhista no Caso do 
Senador João Ribeiro ............................................................................................... 184 
Tabela 25 - Natureza dos argumentos dos juízes trabalhistas - Caso do Senador João 
Ribeiro ...................................................................................................................... 185 
Tabela 26 - Características Gerais dos Processos no STF no Caso do Senador João 
Ribeiro ...................................................................................................................... 197 
 
 
 
 
Tabela 27 - Natureza dos argumentos dos ministros do STF - Caso do Senador João 
Ribeiro ...................................................................................................................... 198 
Tabela 28 - Quadro Geral de Processos na Justiça para o Caso Pagrisa ................. 266 
Tabela 29 - Características Gerais dos Processos na Justiça Trabalhista no Caso 
Pagrisa ..................................................................................................................... 267 
Tabela 30 - Redesignações de audiências na Justiça Trabalhista de 1º Grau - Caso 
Pagrisa ..................................................................................................................... 268 
Tabela 31 - Motivos das Redesignações de audiências na Justiça Trabalhista de 1 º 
grau - Caso Pagrisa .................................................................................................. 269 
Tabela 32 - Redesignação de audiências na Justiça Trabalhista - Caso Pagrisa ...... 272 
Tabela 33 - Natureza dos argumentos dos juízes trabalhistas - Caso Pagrisa .......... 273 
Tabela 34 - Redesignação de Audiências, Motivos e Autores - Caso Pagrisa .......... 275 
Tabela 35 - Características Gerais dos Processos na Justiça Federal para o Caso 
Pagrisa ..................................................................................................................... 281 
Tabela 36 - Natureza dos argumentos dos juízes da Justiça Federal - Caso Pagrisa282 
 
 
Lista de Figuras 
 
Figura 1 - Atividades rurais em que foi encontrado trabalho escravo ........................ 129 
Figura 2 - Mapa dos trabalhadores escravos resgatados .......................................... 138 
Figura 3 - Mapa do índice de probabilidade de escravidão e resgates em 2007 ....... 139 
Figura 4 - Fluxos dos trabalhados escravos .............................................................. 140 
Figura 6 - Trabalho escravo e a cana-de-açúcar ....................................................... 142 
Figura 7 - Trabalho escravo e pecuária..................................................................... 143 
 
 
15 
 
 
 
Introdução 
 
Apresentação do tema e relevância da pesquisa 
Como nos mostra a socióloga Maria de Nazareth Baudel Wanderley 
(2011), o tema do trabalho escravo rural no Brasil contemporâneo não é novo 
na literatura brasileira das ciências sociais, pois está entre os diversos temas 
abordados pelos estudos rurais que vieram se desenvolvendo desde os anos 
1960 até os dias de hoje. Podemos encontrar, assim, diversos trabalhos, 
especialmente no campo da Sociologia, que buscaram entender as causas 
desse fenômeno, e que acabaram por fornecer contribuições muito importantes 
para o entendimento de processos macroestruturais da sociedade brasileira, 
tais como o avanço do capitalismo no meio rural e seu consequente processo 
de modernização conservadora. São trabalhos, portanto, que nos ajudam a 
entender a conformação da cidadania no meio rural brasileiro. 
Juntamente a esses avanços acadêmicos em direção a um 
entendimento mais macroestrutural, o tema também vem sendo abordado em 
outras direções. Desde meados dos anos 1980, diversos órgãos públicos e 
organizações da sociedade civil vêm produzindo uma série de relatórios de 
caráter mais técnico e denunciativo. Os relatórios mais descritivos e técnicos, 
em grande medida produzidos por órgãos públicos, possuem uma ênfase mais 
institucionalizada. Eles abordam questões de infra-estrutura e de organização 
das instituições para lidar com o problema, e também comentam as políticas de 
erradicação implementadas pelo governo federal. Já os relatórios de caráter 
mais denunciativo, produzidos por organizações da sociedade civil, possuem 
uma visão mais voltada para o processo político e para o sistema econômico. 
Ou seja, voltam seu olhar para a relação entre as expectativas sociais por 
cidadania e justiça e as ações tomadas pelas autoridades políticas e as 
diretrizes econômicas. O ponto em comum entre esses dois tipos de relatórios, 
no entanto, é que ambos batem na tecla da falta de um consenso acerca do 
que é e como se identifica o trabalho escravo rural hoje. Argumenta-se que a 
16 
 
 
 
falta desse consenso prejudica a atuação das instituições e, 
consequentemente, possibilita que a questão seja definida e manipulada de 
acordo com os valores e interesses particulares dos atores envolvidos. 
Como aponta José de Souza Martins (1999), a confusão sobre a 
definição do trabalho escravo rural vem, de fato, permitindo sua manipulação 
de acordo com interesses particulares e, com isso, constituindo um problema 
para a atuação das instituições. Mas o autor ressalva que enfatizar somente 
essa questão é deixar de olhar para algo mais importante, que é a ação e a 
capacidade das instituições políticas de lidar com aexploração do trabalho no 
campo em seu sentido mais genuíno e amplo. Segundo o autor, essa 
discussão sobre o trabalho escravo rural, pautada em sua definição, fragmenta 
o sentido de cidadania, pois acaba estabelecendo gradações acerca do que é 
uma exploração aceitável (uma questão “apenas” trabalhista) e o que é uma 
exploração inaceitável (que atinge o ser humano em sua dignidade). Assim, a 
busca indiscriminada por uma definição única pode ser tão problemática quanto 
a sua própria inexistência, pois as instituições podem deixar de fora novas 
situações de exploração do trabalho rural que não se encaixam em definições 
previamente estabelecidas e que precisam igualmente de uma constante 
atenção e atuação das autoridades públicas. 
A questão central, portanto, não está na definição, mas no entendimento 
que as instituições sustentam acerca das relações e das condições de trabalho 
no campo. Como argumenta o autor, as relações de trabalho e de produção no 
campo estão em constante modificação e, com elas, também caminham 
diferentes formas de exploração do trabalhador, no que a atuação institucional 
deveria ter a postura crítica de tentar acompanhar essas mudanças, de modo a 
evitar que a exploração ocorra em qualquer nível. No entanto, Martins (1999) 
aponta que quase nada tem sido feito em termos de pesquisas mais 
sistemáticas que possibilite acompanhar e analisar a atuação das instituições 
políticas, inclusive a atuação das instituições do Judiciário. 
É certo que os relatórios dos órgãos públicos têm fornecido informações 
sobre as instituições, descrevendo seus desempenhos e dificuldades. No 
entanto, como já vimos, são relatórios que estão mais preocupados em mostrar 
17 
 
 
 
dados acerca da infra-estrutura e dos resultados das políticas governamentais, 
não adentrando de forma mais crítica na lógica de funcionamento e de atuação 
das instituições. São relatórios que atribuem os problemas institucionais 
existentes à falta de recursos ou à falta de leis objetivas e claras que definam o 
que é o trabalho escravo rural. Os relatórios das organizações da sociedade 
civil, por sua vez, quando falam das instituições, acabam personalizando-as na 
figura de atores particulares, de modo a mostrar a correlação de forças e de 
interesses no jogo político, tratando a questão da erradicação do trabalho 
escravo majoritariamente como uma questão de vontade política. Com isso, 
acabam desconsiderando a ideia de que as vontades particulares dos sujeitos 
podem não se traduzir necessariamente na atuação das instituições. Ou seja, 
acabam negligenciando o caráter organizativo e coercitivo das instituições 
sobre a vontade particular dos indivíduos. 
Assim, tanto os relatórios dos órgãos públicos quanto das organizações 
da sociedade civil se apresentam de forma claramente parciais e engajadas, 
constituindo materiais empíricos a serem analisados e não pesquisas 
sistemáticas sobre a atuação das instituições políticas no problema do trabalho 
escravo rural. É nesse ponto que a tese, no campo da ciência política, pode 
apresentar algumas contribuições. 
Claramente que não se trata de analisar a atuação do Judiciário sobre 
todo tipo de exploração do trabalho no campo no passado e no presente, até 
mesmo porque o intuito é um focar sobre a instituição do Judiciário e não sobre 
a exploração do trabalho em si. Não é intuito, portanto, tentarmos ver como o 
Judiciário acompanha as transformações da exploração do trabalho no campo, 
até mesmo porque isso demandaria uma pesquisa empírica muito mais 
abrangente temporalmente. No entanto, pensamos que focar sobre a 
controvertida questão do trabalho escravo rural contemporâneo não nos 
impossibilita de ver a atuação do Judiciário perante a exploração do trabalho 
rural como um todo e mais historicamente. Por se tratar de uma questão 
controversa no universo político-jurídico, sendo alvo de muitas discórdias e 
desentendimentos entre os atores e as instituições políticas, é uma questão 
que acaba sendo definida através de comparações e diferenciações com 
18 
 
 
 
outras situações de exploração mais reconhecidas e sedimentadas, como as 
questões trabalhistas e o nosso antigo sistema escravista. Assim, o estudo 
sobre a atuação do Judiciário sobre o trabalho escravo rural no Brasil 
contemporâneo pode facilmente fornecer pistas sobre sua atuação (ou ao 
menos sobre seu pensamento) em outras questões de exploração do trabalho 
no campo. Mais importante, trata-se de um tema que nos permite expandir os 
estudos empíricos sobre o Judiciário brasileiro e sobre o seu papel na defesa e 
garantia dos direitos de cidadania. 
 
Objetivos 
O objetivo central da tese é o de realizar uma análise de caráter 
exploratório através do estudo de três casos de trabalho escravo rural de 
expressividade teórica e que foram parar nas instâncias do Poder Judiciário. 
Escolhemos três casos de trabalho escravo cujas atividades rurais em questão 
são significativamente representativas no quadro do trabalho escravo rural no 
Brasil, e nos quais os acusados possuem perfis distintos ou capacidades 
litigatórias variáveis. Os casos compreendem, assim, acusações de trabalho de 
escravo no setor sucroalcooleiro e no setor pecuário; e tem por acusados um 
“gato” (o Caso do “gato”), um senador da República (o Caso do Senador João 
Ribeiro) e uma grande empresa do setor sucroalcooleiro (o Caso Pagrisa)1. 
 O intuito é o de realizar uma incursão em profundidade e em fluxo nos 
casos selecionados, de forma a delimitar e analisar as formas pelas quais o 
Poder Judiciário vem pautando suas decisões e atuando no cenário das 
políticas de erradicação do trabalho escravo rural no Brasil contemporâneo, 
especialmente entre 1995 e 2012, quando as políticas se tornam mais 
institucionalizadas. 
Queremos saber que avanços, retrocessos ou interferências ele tem 
empreendido nesse cenário; como vem entendendo esse problema crítico da 
 
1
 Os critérios de seleção dos casos encontram-se detalhados nas “Preliminares para os 
estudos de caso”, expostas na Parte II da tese. 
 
19 
 
 
 
exploração do trabalho no campo; e que instrumentos e ações institucionais 
vem apresentando para lidar com esse problema. Queremos identificar e 
analisar, também, as respostas que ele tem dado às expectativas de outros 
atores e instituições; a que ou a quem sua atuação tem propiciado ganhos 
diretos ou indiretos; e de que formas vem respondendo e se alinhando às 
políticas governamentais implementadas. Queremos, ainda, explorar e 
compreender os argumentos e critérios que ele tem se valido para justificar sua 
atuação. Em resumo, queremos saber como que o Judiciário vem se 
apresentando e se portando neste quadro, e se nele podemos enxergar 
possibilidades de entendimentos mais críticos sobre a exploração do trabalho 
no campo, que considerem seu aspecto sistêmico e que permitam romper com 
a reprodução de padrões desiguais de cidadania. 
 
Tese e argumentos 
A hipótese de pesquisa trabalhada pela tese resultou da realização de 
duas explorações empíricas preliminares (que serão expostas ao longo da 
análise), e que auxiliaram, inclusive, na opção pelo método dos estudos de 
caso e também na própria delimitação dos casos analisados. Na primeira 
exploração empírica realizada (exposta no Capítulo 2 da tese), foi feita a leitura 
e análise de um conjunto de documentos legislativos, políticas, relatórios e 
pesquisas elaborados por diversos atores políticos e sociais acerca do tema do 
trabalho escravo rural e acerca das políticas governamentais implementadas. E 
na segunda exploração empírica (exposta nas Preliminares para os estudos de 
caso na Parte II da tese), foi realizado o levantamento e análise de alguns 
processos judiciais envolvendo o tema do trabalho escravo rural em função de 
variáveis gerais de análise. 
Esses dois momentospreliminares de exploração empírica nos 
possibilitaram perceber não apenas a complexidade de fatores que envolvem a 
questão do trabalho escravo rural, como também a diversidade de dimensões 
analíticas que são necessárias para obtermos uma compreensão mais 
completa da atuação do Poder Judiciário. Ambos os momentos nos deram 
ilustrações empíricas primárias da tese de que o Poder Judiciário vem atuando 
20 
 
 
 
de forma mitigada sobre o tema, apresentando mais limitações do que 
possibilidades de apoio às políticas de erradicação do trabalho escravo rural. 
Tais ilustrações primárias foram problematizadas e fortificadas pelos estudos 
de caso empreendidos, que nos mostraram de forma ainda mais clara a 
atuação mitigada do Poder Judiciário e a importância de se considerar 
diferentes dimensões de análise para se compreender as possíveis razões 
dessa atuação. 
No que tange às possibilidades de apoio às políticas de erradicação por 
parte do Poder Judiciário, os estudos dos casos nos mostraram que embora 
tenha sido possível encontrar sentenças e entendimentos judiciais que 
considerassem os aspectos mais sistêmicos acerca da exploração no campo, 
tais entendimentos acabaram se dando de forma isolada e provisória, na 
medida em que foram ou questionados ou anulados através de recursos 
julgados por instâncias judiciais superiores. Tais situações, no entanto, 
apresentaram um ponto positivo importante, no sentido de que as sentenças e 
entendimentos mais amplos acabaram servindo como instrumentos de 
mobilização por parte de outros atores políticos, especialmente pela mídia 
ativista no campo. 
No que tange às limitações, por sua vez, os estudos dos casos nos 
mostraram que elas se apresentaram das mais variadas formas. Pudemos 
encontrá-las nos retrocessos que o Judiciário empreendeu no entendimento da 
exploração do trabalho no campo, minimizando e ponderando as situações de 
exploração encontradas. Pudemos vê-las nas interferências que ele realizou ao 
questionar a legitimidade de ações e medidas punitivas tomadas por outros 
atores e instituições políticas. Também estiveram presentes na falta de 
responsividade do Judiciário às expectativas por justiça de outros atores 
políticos e sociais, deixando-lhes o sentimento de impunidade em função da 
morosidade e do prolongamento dos processos até a prescrição dos crimes. 
Ligadas a isso, também pudemos observar a existência de decisões e 
argumentações diferenciadas que o Judiciário deu aos casos em função de 
seus réus e de sua relevância no cenário político-econômico, apontando a 
permeabilidade da Justiça às pressões de ordem externas. Além disso, as 
21 
 
 
 
limitações também puderam ser observadas nos diversos argumentos que o 
Judiciário mobilizou para justificar sua atuação. Tais argumentos se mostraram 
de forma explícita (como nos casos citados de amenização da exploração 
encontrada e de questionamento de medidas de outras instituições) e também 
de forma implícita à sua lógica de funcionamento institucional (como nas 
tergiversações processuais e na postergação dos casos até serem amenizados 
ou anulados). 
Assim, na medida em que fomos ganhando mais contato com os 
materiais empíricos e, simultaneamente, com os diversos estudos e 
abordagens de análise sobre o Poder Judiciário (apresentadas no Capítulo 1 
da tese), também fomos percebendo a importância de vê-lo a partir de lentes 
ou dimensões mais variadas de análise. Fomos percebendo que uma hipótese 
e uma explicação dicotômica, que simplesmente mostrasse a atuação do 
Judiciario como sendo o resultado de um fator ou outro, poderia não dar conta 
de diversos elementos trazidos por nossos materiais empíricos. Ou seja, fomos 
percebendo que explicar a atuação do Judiciário somente em função do 
conservadorismo dos juízes, ou somente em função de problemas internos 
institucionais, ou somente em função da estrutura social e econômica histórica 
brasileira, poderia negligenciar fatores importantes. 
Como apontamos, trata-se da existência tanto de limitações quanto de 
possibilidades de sustentação, sobre as quais supomos uma predominância 
das limitações e não uma simples exclusão das possibilidades de sustentação 
das políticas de erradicação por parte do Judiciário. Julgamos relevante, assim, 
construirmos nossa argumentação através da ênfase conjunta em três 
dimensões de análise: uma voltada para o processo político ou para a ação dos 
atores envolvidos, uma segunda de ordem estrutural, e uma terceira dimensão 
institucional. Ou seja, pensamos e nos questionamos sobre a contribuição ou 
peso explicativo de cada dimensão, de forma a empreendermos um estudo 
aprofundado da atuação do Poder Judiciário sobre o problema do trabalho 
escravo rural. 
Para nós, ver o Judiciário a partir da lente do processo político ou 
individual é enxergá-lo a partir da ação dos juízes e de suas relações com 
22 
 
 
 
outros atores envolvidos. É identificar e caracterizar esses atores, seus 
entendimentos, objetivos, demandas, expectativas, estratégias, decisões, 
poderes e relações. É olhar mais de perto as coalizões de forças, de ideias e 
de programas de ação. É se voltar para as aproximações e distanciamentos 
entre os atores, e para a sua inserção no cenário conflitante das políticas de 
erradicação do trabalho escravo rural. É ver que as polarizações resultantes de 
um olhar mais estrutural podem ser esmiuçadas e detalhadas em suas 
nuances e efeitos. É olhar o resultado final dos processos macro-estruturais a 
partir de uma lupa, para vermos as possibilidades abertas no seio das relações 
entre os atores, para entendermos como elas são pensadas e alcançadas, e de 
que forma podem impactar no posicionamento de outros sujeitos e no próprio 
cenário de políticas voltadas para o combate ao trabalho escravo rural. 
Ver o Judiciário a partir de uma lente estrutural, por sua vez, nos 
possibilita resgatar, com auxílio da bibliografia, a ideia de função do Judiciário 
nas mudanças estruturais das relações sociais e do desenvolvimento da 
cidadania no campo no Brasil. É entender seu papel hoje em função de sua 
inserção em importantes marcos históricos da ordem política, econômica e 
social brasileira no passado. É recordar, por exemplo, o papel atribuído ao 
Judiciário para lidar com as consequências diretas da política 
desenvolvimentista do regime militar, do processo de redemocratização no final 
dos anos 1980, e das reformas neoliberais implementadas a partir dos anos 
1990. É lembrar, portanto, do seu papel no avanço da empresa capitalista no 
campo, na acentuação da concentração da propriedade da terra e na expulsão 
de camponeses de suas terras e sua consequente submissão a condições 
indignas e degradantes de trabalho. É recordar também a sua função de 
repressão institucional sistemática das mobilizações renovadas por reforma 
agrária, e a sua função de criminalização dos movimentos sociais rurais. 
Assim, ver o Judiciário a partir de uma lente mais estrutural é vê-lo a partir de 
sua funcionalidade para a defesa e manutenção desses marcos históricos 
fundamentais, ajudando na conformação de uma cidadania de caráter peculiar 
no meio rural. 
23 
 
 
 
Por fim, olhar para o Judiciário a partir de uma dimensão institucional é 
entendê-lo como uma instituição política que possui independência e 
autonomia perante os sujeitos e os processos macroestruturais. Ou seja, é vê-
lo enquanto dotado de regras, organização e lógica próprias de funcionamento 
e de atuação. É entendê-lo na complexidade de suas relações intra-
institucionais que regem a ação de seu corpo de funcionários. Trata-se de uma 
dimensão que nos permite, por exemplo, trabalhar as inovações das 
instituições judiciais, especialmente no que diz respeito à sua independência, 
prerrogativas e aos instrumentos de promoção de cidadania adquiridos após 
1988 e, mais fortemente, após a reforma judicialde 2004. Isso, por sua vez, 
nos possibilita estudar as relações conflituosas que se abriram com os outros 
poderes do Estado do ponto de vista da formulação e da implementação de 
políticas públicas. O que essa dimensão nos traz de essencial, portanto, é um 
maior conhecimento da “máquina” judicial brasileira e de seus efeitos sobre o 
processo político. 
Podemos observar, assim, que são três dimensões de análise que nos 
chamam atenção para elementos igualmente importantes para explicar as 
possibilidades e as limitações (bem como suas relações) da atuação do 
Judiciário brasileiro na questão do trabalho escravo rural no Brasil 
contemporâneo. 
 
Metodologia de pesquisa 
A tese se pautou centralmente pela metodologia dos estudos de casos e 
da análise de fluxo dos processos judiciais selecionados2, mantendo um 
diálogo com os achados empíricos preliminares e com as diversas abordagens 
analíticas sobre o Poder Judiciário. Entendemos que os estudos de casos nos 
permitem analisar o problema com maior profundidade, no que podemos 
levantar e trabalhar com variáveis que abordem as três dimensões de análise 
citadas. A análise de fluxo, por sua vez, nos permite acompanhar os processos 
 
2
 Os critérios de seleção, assim como os critérios de análise dos casos, encontram-se 
detalhados nas “Preliminares para os estudos de caso”, expostas na Parte II da tese. 
24 
 
 
 
em toda a sua trajetória, percursos, atalhos, interferências e pausas. Assim, 
acompanhamos cada caso desde a denúncia até o julgamento e 
sentenciamento, passando por diferentes esferas e graus do Judiciário. 
Trata-se, sobretudo, de um estudo de caráter exploratório, que não 
busca dar explicações fechadas ou unilaterais sobre a atuação do Poder 
Judiciário, mas sim levantar elementos que, em conjunto, permitem entender 
essa atuação em fluxo e em profundidade. A partir do estudo exploratório não 
se toma uma variável única que seja capaz de explicar todo e qualquer caso de 
trabalho escravo rural, muito embora seja possível estabelecer alguns critérios 
gerais e comuns de análise, que tomam forma particular em função do fluxo 
singular a cada caso. 
 
Estrutura da tese 
A tese foi divida em duas partes. Na Parte I (formada pelos Capítulos 1 e 
2), colacionamos um conjunto de questões e respostas, tanto no plano teórico 
e metodológico quanto no plano empírico, que ajudam a compreender a 
atuação política do Poder Judiciário na questão do trabalho escravo rural. 
Assim, no Capítulo 1 apresentamos um mapeamento de várias abordagens 
teóricas sobre o Poder Judiciário, em que tentamos identificar quais dimensões 
analíticas cada abordagem enfatiza e que relações ela estabelece com as 
demais dimensões. Procuramos, ainda, verificar as metodologias de pesquisa 
mobilizadas e suas possibilidades analíticas. No Capítulo 2, traçamos um 
panorama das políticas de erradicação do trabalho escravo rural no Brasil, de 
forma a descrever as caracterizações e os entendimentos institucionais acerca 
do problema e de que forma essas políticas e entendimentos foram avaliados 
por diferentes atores políticos e sociais. 
Na Parte II, por sua vez, voltamo-nos inteiramente para os estudos de 
caso, que se dispõem ao longo dos Capítulos 3, 4 e 5. No Capítulo 3, 
analisamos o Caso do “gato”, em que o Judiciário tratou de um caso sem 
repercussão política, e no qual sobressaiu a importância de fatores de ordem 
institucional para a compreensão da atuação do Poder Judiciário. No Capítulo 
25 
 
 
 
4, por sua vez, analisamos o Caso do Senador João Ribeiro, em que já se nota 
uma repercussão política bem maior, não apenas em função da posição 
pública do senador, mas também em função da manifestação de 
posicionamentos individuais dos juízes sustentando concepções conservadoras 
e naturalizadoras das condições degradantes de trabalho no campo. No 
Capítulo 5, por fim, analisamos o Caso Pagrisa, que é o caso mais de 
descrição mais longa, mais complexo e de maior repercussão política entre os 
três casos estudados, e no qual se mostrou de forma mais evidente a 
importância de fatores de ordem estrutural sobre o andamento do caso na 
Justiça, dada a visível permeabilidade dos juízes às influências de ordem 
socioeconômica exercidas pela empresa. 
Nas conclusões, por fim, fazemos um resgate dos resultados 
apresentados nos estudos dos casos em função da tese defendida, assim 
como também procuramos “fechar” diálogos teóricos e metodológicos abertos 
no Capítulo 1 da tese em função dos resultados obtidos com os estudos de 
caso. E procuramos, ainda, traçar algumas possibilidades de desdobramentos 
da tese para a realização de pesquisas futuras. 
 
 
26 
 
 
 
PARTE I 
 
27 
 
 
 
 
Esta primeira parte da tese está voltada para a discussão de questões e 
respostas que podem ser levantadas em uma análise política da atuação do 
Poder Judiciário. Essa discussão é feita aqui em dois momentos. 
Primeiramente, no Capítulo 1, o debate é realizado no plano teórico e 
metodológico, de forma a estudar as questões, respostas e metodologias 
desenvolvidas por diferentes abordagens analíticas para o estudo político do 
Poder Judiciário. Num segundo momento, no Capítulo 2, a discussão já é feita 
através dos primeiros movimentos exploratórios e empíricos da tese, em que 
traçamos um panorama das políticas de erradicação – de forma a apresentar 
os problemas em voga e as soluções institucionais dadas pelas políticas 
governamentais – e procuramos analisar as avaliações de diferentes atores 
políticos e sociais sobre as políticas implementadas – de forma a verificar as 
questões e avaliações que foram feitas inclusive sobre a atuação do Poder 
Judiciário. Assim, tanto o primeiro quanto o segundo capítulo nos ajudam a 
colacionar questões e possíveis respostas sobre a atuação política do Poder 
Judiciário no quadro das políticas de erradicação do trabalho escravo rural, 
apontando, especialmente, para a necessidade de considerarmos uma 
multiplicidade de fatores ou dimensões analíticas para a compreensão mais 
completa do problema. 
 
 
28 
 
 
 
Capítulo 1 – Dimensões para uma análise política do 
Poder Judiciário
3
 
 
“It’s the vague people who are the pioneers” 
(Richard Rorty) 
1.1 – Introdução 
O objetivo deste capítulo é o de apresentar o esquema teórico-
metodológico que nos auxilia neste trabalho e que resulta de um esforço em 
discutir a importância de diferentes dimensões analíticas para se pensar o 
Poder Judiciário brasileiro. Para tanto, destinamos boa parte deste capítulo 
para discutir o debate norte-americano em Ciência Política sobre o Poder 
Judiciário. A essencialidade deste debate reside na sua própria formação e 
desenvolvimento, que nos mostra um embate constante entre diferentes 
abordagens analíticas com diferentes explicações sobre a atuação do Poder 
Judiciário. A exploração desse debate nos ajuda não apenas a entender suas 
possibilidades e limites como também a entender as possibilidades e limites do 
debate brasileiro, que, em sua maioria, incorporou alguns pressupostos do 
debate norte-americano de forma acrítica, especialmente através das teses da 
judicialização da política. 
Apresentamos o debate norte-americano de forma a tornar menos 
nítidas as linhas teórico-metodológicas que separam as diferentes abordagens 
analíticas presentes nesse debate. Expomos uma visão mais abrangente das 
abordagens, saindo do que lhes é padrão e nuclear para caminhar em direção 
às suas margens e, assim, ver os contatos que estabelecem com outras 
abordagens. O intuito, portanto, é o de verificar os pontos de semelhança, de 
continuidade ou mesmo de complementaridade entre as diversas perspectivas, 
mostrando que o debate pode ser apresentado menos como um jogo de 
oposições e mais como um diálogo fluido de trocas teóricas e metodológicas.3
 Este capítulo é o resultado resumido de um trabalho mais extenso sobre o debate norte-
americano em ciência política sobre o Poder Judiciário, trabalho no qual os autores e obras 
citadas ao longo do capítulo se encontram resenhados e analisados com maior profundidade e 
correlação. 
29 
 
 
 
Defendemos a tese de que conhecer esse debate para além do que lhe 
é padrão nos ajuda a perceber que a adoção de uma abordagem analítica 
particular para estudar o Poder Judiciário não deve necessariamente nos 
prender a uma linha única de pensamento, pressupostos e métodos de 
trabalho. Isso acontece justamente porque as abordagens conversam muito 
mais entre si do que geralmente se reconhece, extrapolando os esquemas 
teórico-metodológicos por demais rígidos e fechados. A reconstrução do 
debate em termos mais abrangentes possibilita verificar a existência de uma 
margem de ação para o pesquisador transitar de forma mais livre e exploratória 
entre as diversas abordagens analíticas sobre o Poder Judiciário, buscando 
realizar tentativas de síntese e não o aprofundamento de análises unilaterais. 
A identidade que cada abordagem sustenta no campo dos estudos 
judiciais norte-americanos geralmente é construída e defendida em oposição 
às abordagens já existentes, até mesmo para que ela se coloque como 
diferente e inovadora. Esse processo de diferenciação se dá através da defesa 
ou da ênfase de uma dimensão de análise específica: algumas abordagens 
defendem que para entendermos a atuação política do Judiciário é preciso que 
nos voltemos para as ações dos juízes, para os seus valores e preferências 
políticas particulares, levando-nos, assim, para dimensões individuais de 
análise; outras abordagens, por sua vez, defendem que a atuação do Judiciário 
só pode ser inteiramente compreendida se conseguirmos descobrir a sua 
função dentro de uma determinada sociedade, fazendo-nos pensar em 
dimensões analíticas mais estruturais; e outras, ainda, defendem que uma 
análise sobre o Poder Judiciário tem que levar em conta suas regras e formas 
de funcionamento, no que é preciso reconhecer a importância da dimensão 
institucional. 
O que podemos perceber, no entanto, é que, embora as abordagens 
sempre apresentem uma ênfase sobre uma dimensão de análise em particular, 
e embora elas sejam reconhecidas, agrupadas e compreendidas por isso, elas 
se entrelaçam de maneiras diversas, extrapolando não somente os limites 
internos de suas próprias abordagens como também dos conjuntos de 
abordagens no qual se inserem, a dizer, individualistas, estruturalistas e 
30 
 
 
 
institucionalistas. Podemos encontrar, por exemplo, abordagens individualistas, 
mas que apresentam características teórico-metodológicas que se desviam do 
padrão de uma análise individualista, trazendo argumentos de caráter 
institucional ou estrutural e, com isso, desenvolvendo análises mais 
multidimensionais. O que se pode perceber é que até mesmo as abordagens 
mais “puras” ou mais unidimensionais possuem trabalhos ou estudiosos que 
fogem à regra e empurram os limites de suas próprias abordagens, testando ao 
extremo sua capacidade analítica. 
Para realizar o que estamos propondo, este capítulo se divide da 
seguinte forma. Na primeira parte, discutimos um conjunto de abordagens 
norte-americanas que enfatizam a dimensão individual para analisar o Poder 
Judiciário. Falamos sobre as abordagens mais tipicamente ou puramente 
“individualistas”, como o Modelo Atitudinal e o Modelo Estratégico; e sobre as 
abordagens mais abrangentes, como o Realismo Jurídico, a Jurisprudência 
Política e a Mobilização do Direito. Além disso, mostramos que até mesmo 
dentro das abordagens mais puramente individualistas, como no Modelo 
Atitudinal e no Modelo Estratégico, é possível encontrar exemplos que não 
somente se aproximam das abordagens individualistas mais abrangentes, 
como também extrapolam os limites do próprio conjunto de abordagens 
individualistas, caminhando em direção a considerações de caráter mais 
institucional e/ou estrutural. 
Na segunda parte do capítulo, discutimos os trabalhos norte-americanos 
de cunho estruturalista vindos do movimento dos Critical Legal Studies, 
novamente pensando em termos de trabalhos mais puros e mais abrangentes. 
Dentre os mais puros, vemos o posicionamento radical das teses da 
“indeterminação” do direito. Dentre as mais abrangentes, vemos o 
posicionamento de trabalhos que se aproximam tanto das abordagens 
individualistas quanto dos trabalhos estruturais de origem marxista. 
Na terceira parte, discutimos a abordagem do Institucionalismo Histórico, 
de forma a mostrar as ligações e semelhanças com os conjuntos de 
abordagens vistas anteriormente. Ao compararmos o Institucionalismo Histórico 
com as demais abordagens, relembramos, com base nas análises anteriores, 
31 
 
 
 
que ele não foi o único e nem o primeiro a tentar fazer uma síntese analítica 
entre as três dimensões de análise. 
Na quarta e última parte, por fim, buscamos fazer alguns apontamentos 
sobre o debate brasileiro de acordo com o que foi discutido nos itens 
anteriores, de forma a entender as possibilidades e os limites das abordagens 
mais recorrentes sobre o Poder Judiciário brasileiro, bem como as questões 
trazidas por novos trabalhos. 
Nas conclusões, por fim, recuperamos algumas considerações centrais 
feitas ao longo do capítulo, para mostrar que o desenvolvimento das diferentes 
abordagens analíticas se deu não apenas através de um jogo de oposições, 
mas também através de uma fluidez significativa de questões, pressupostos e 
metodologias, que acabam ofuscando a nitidez das linhas que separam as 
abordagens em quadros rígidos e fechados de análise e abrindo um campo 
grande de perguntas de pesquisa. 
 
1.2 – A dimensão individual: os interesses políticos dos atores 
Na Ciência Política norte-americana, as abordagens de cunho 
individualista são geralmente identificadas como behavioristas ou como 
abordagens que têm por unidade de análise os indivíduos ou grupos de 
indivíduos, cujas ações, comportamentos, interesses e valores particulares são 
os elementos que explicam o jogo político. Em outras palavras, são 
abordagens que procuram explicar a política através do comportamento ou da 
ação dos indivíduos, ação esta voltada para a realização de objetivos 
particulares. Para essas abordagens, as instituições, assim como as regras 
mais estruturais de uma sociedade, seriam basicamente reflexos sedimentados 
dessas preferências individuais em ação e em interação; e funcionariam 
auxiliando os indivíduos com informações ou previsões sobre como melhor agir 
para alcançar seus objetivos. 
Essa identificação das abordagens individualistas como behavioristas 
também é comum entre os estudos políticos norte-americanos sobre o Poder 
Judiciário, e isso se deve, em grande medida, à quebra teórica e metodológica 
32 
 
 
 
que o behaviorismo trouxe para o campo dos estudos judiciais (Pritchett, 1968; 
Smith, 1988; March e Olsen, 1989; Whittington, 2000; Maveety, 2003b; Segal, 
2003), dividindo-o em “estudos judiciais no Direito” (Public Law) e “estudos 
judiciais na Ciência Política” (estudos do Judicial Process). 
O behaviorismo representou um marco importante da “emancipação” da 
Ciência Política frente ao Direito. Se antes os cientistas políticos se 
encontravam de alguma forma dependentes do Direito e das categorias 
jurídicas e institucionais para analisar o Judiciário, aparecendo como meros 
“comentadores” de leis e de decisões judiciais, eles passam, agora, a constituir 
um campo próprio de estudos, construindo uma teoria e metodologia própria. A 
ideia central que se funda, portanto, com a emergência do “behaviorismo 
judicial”, particularmente através do Modelo Atitudinal e do Modelo Estratégico, 
é a ideia de análise “política” do Judiciário, análise esta que requer uma 
mudança radical de foco, métodose materiais empíricos de pesquisa 
(Schubert, 1963). 
A atuação do Judiciário e as decisões judiciais não podem mais ser 
explicadas com base nas regras e normas jurídicas, ou com base na ideia do 
legalismo jurídico de que os juízes são meros “aplicadores” das leis, neutros e 
apolíticos. Agora, a atuação do Judiciário e as decisões judiciais somente se 
explicam em função dos valores e das preferências políticas particulares dos 
juízes. O juiz passa a ser visto como um verdadeiro ator político, que tem na 
decisão judicial a sua possibilidade de ação política; ele não decide conforme 
as regras, mas conforme seus interesses políticos particulares (Schubert, 1963; 
Segal e Spaeth, 1993; Segal, 2003). As regras jurídicas só tem importância 
para a análise caso exerçam alguma influência sobre o comportamento dos 
juízes, que podem instrumentalizar tais regras de forma estratégica para atingir 
seus objetivos (Schubert, 1964, 1974b; Segal e Spaeth, 1993, 1996a, 1996b; 
Rohde, 1972a, 1972b; Rohde e Spaeth, 1976; Murphy, 1964; Epstein e Knight, 
1998). 
O que ocorre, assim, é uma mudança completa de foco, que sai da visão 
extremamente formal e institucional do Direito para uma visão individualista e 
comportamentalista da decisão judicial. Juntamente com a mudança de foco, 
33 
 
 
 
também se dá uma mudança no método e no material empírico de pesquisa. O 
cientista político não deve mais se voltar para uma análise descritiva do 
conteúdo das leis, códigos e constituições, limitando-se a comentar as 
diferentes interpretações que foram dadas pelos juízes em contextos políticos 
distintos. Agora, ele deve observar os votos que os juízes deram e suas 
frequências em uma massa de decisões, quantificando as vezes em que deram 
votos liberais e votos conservadores4. O importante é localizar o juiz no jogo 
político, verificar de que “lado” ele está, e mostrar, através de métodos 
quantitativos cada vez mais sofisticados5, que a atuação política do Judiciário 
deve ser entendida unicamente a partir do comportamento político dos juízes. 
Isso seria fazer uma análise “política” e “científica” do Judiciário, análise esta 
que configuraria o mainstream dos estudos judicias na Ciência Política norte-
americana. 
Nesse processo de construção de uma análise “política” do Judiciário ou 
de fortalecimento dos estudos judiciais em Ciência Política frente aos estudos 
judiciais no Direito, o Modelo Atitudinal e o Modelo Estratégico tiveram cada 
qual papéis importantes e, sob nosso ponto de vista, complementares. Se o 
Modelo Atitudinal foi o responsável por firmar a ideia do “juiz político”, que 
decide conforme seus valores e preferências políticas particulares, o Modelo 
Estratégico procurou resgatar para a análise behaviorista a importância de se 
olhar novamente para as normas e para as regras institucionais, de forma a 
enfatizar que os juízes podem atuar de forma estratégica frente a elas para 
alcançar seus objetivos particulares. Em seus desenvolvimentos mais recentes, 
inclusive, os trabalhos estratégicos (agora reconhecidos como do “Neo-
 
4
 Esses estudos produziram um grande conjunto de bases de dados estatísticas para 
demonstrar o caráter político da atuação dos juízes da Suprema Corte dos Estados Unidos. 
Para exemplos, consultar Spaeth (1999a, 1999b) e Segal e Spaeth (2000). 
5
 Um das técnicas mais comumente utilizadas é a scalogram analysis, através da qual o 
estudioso pode dispor as atitudes individuais dos juízes (os votos) em uma escala unilear, 
acumulativa e contínua de valores, de forma a verificar a consistência dessas atitudes ao longo 
de diversas decisões. Trata-se de uma escala gradativa de valores, do extremo mais 
progressista ao extremo mais conservador, que permite verificar que um juiz vota sempre a 
favor daqueles valores que vão até o limite crítico de valores que os separam de outros. Essa 
técnica é importante na medida em que permite explicar as diferenças encontradas nos votos 
dos juízes de decisão para decisão, mostrando uma lógica maior por trás de votos que se 
diferenciam, mas que acabam caindo dentro um grupo único de valores. 
34 
 
 
 
Institucionalismo da Escolha Racional”) analisam o envolvimento de elites 
governamentais na formulação e na alteração das regras constitucionais e de 
funcionamento das instituições judiciais, mostrado o caráter político do próprio 
direito e as suas relações com o comportamento estratégico dos juízes e de 
outros atores políticos (Ginsburg, 2003; Helmke, 2004, Hirschl, 2004; Finkel, 
2008). 
A ideia de estratégia, contudo, não é exclusividade ou pioneira do 
Modelo Estratégico ou do Neo-Institucionalismo da Escolha Racional, muito 
embora o contrário seja propagado pela literatura6. Emprestada de teóricos da 
escolha racional ou de teorias econômicas da política (Downs, 1957; Riker, 
1962; Elster, 1986), a ideia de estratégia já se encontrava presente entre os 
primeiros trabalhos do Modelo Atitudinal, influenciando de forma significativa 
não apenas o desenvolvimento dos próprios trabalhos atitudinalistas7, como 
também o nascimento dos trabalhos estratégicos, alguns inclusive em parceria 
com os atitudinalistas8. A diferença entre uma abordagem e outra parece se 
dar muito mais no plano da “gradação” do que da “inovação”: enquanto entre 
os atitudinalistas a ideia de estratégia aparece de forma rarefeita e esparsa, 
para explicar casos em que a preferência política particular do juiz não se 
encontrava tão explícita na decisão judicial, entre os estratégicos, a ideia ganha 
estatuto de “conceito”, permitindo explicar tais “contra-casos” de forma mais 
sistemática. 
 
6
 Como mostram Epstein e Knight (2000), é em função da questão estratégica e da 
consideração de questões institucionais para a análise comportamental dos juízes que o 
Modelo Estratégico é geralmente entendido e se porta como um movimento revolucionário 
diante do Modelo Atitudinal. 
7
 Glendon Schubert (1964, 1974a, 1974b), considerado o pai fundador do Modelo Atitudinal, 
preocupava-se, assim como os estratégicos, com questões de caráter institucional, de forma a 
mostrar o comportamento estratégico dos juízes diante dessas questões. Para incorporar tais 
elementos à análise comportamental, Schubert procurou aperfeiçoar gradativamente os 
métodos quantitativos de pesquisa, de modo a considerar as regras e outros elementos de 
forma sistemática, quantificável e não mais de forma descritiva. 
8
 A semelhança entre o Modelo Atitudinal e o Modelo Estratégico são reconhecidas pelos 
próprios estudiosos estratégicos (Epstein e Knight, 2000), reconhecimento este que também 
pode ser visto nas parcerias de pesquisa e em publicações conjuntas desde o início do 
desenvolvimento dos trabalhos estratégicos (ver, por exemplo, Pritchett, Murphy e Epstein 
(2002 [1961]). 
35 
 
 
 
Tanto para os atitudinalistas quanto para os estratégicos, portanto, a 
ideia de estratégia se encontra presente, e, em ambas as ocasiões, para 
manter a análise com foco na dimensão individual ou na questão 
comportamental. O uso da ideia de estratégia lhes possibilitou considerar 
elementos institucionais, mas sem abandonar a dimensão individual de análise, 
que era o diferencial de seus trabalhos frente às pesquisas no Direito. Assim, 
não se trata de olhar para as regras e para as instituições de forma 
independente, mas sempre tendo como referência primeira o comportamento 
dos juízes. Por isso dizemos, portanto, que tanto o Modelo Atitudinal quanto o 
Modelo Estratégico ajudaram a estabelecer e a fortalecer a ideia padrão de 
análise “política” do Judiciário, diferenciando os estudos judiciais na Ciência 
Política dos estudos judicias no Direito. Seu olhar voltado para o 
comportamento individual, assim como sua metodologia quantitativa 
sofisticada, conformaram na CiênciaPolítica norte-americana um padrão 
“científico” a ser seguido e implementado. 
Contudo, podemos encontrar entre os próprios modelos behavioristas, 
trabalhos atitudinalistas e estratégicos que fogem a esse padrão e apresentam 
outras formas de se fazer uma análise política do Judiciário, alargando os 
limites de suas abordagens e dialogando com outras dimensões analíticas. 
Existem trabalhos atitudinalistas e estratégicos que dizem que, para 
entendermos a atuação política do Judiciário, não basta olharmos para os 
juízes, para os seus valores e comportamentos. É preciso também olhar para 
os aspectos institucionais e estruturais como elementos independentes das 
vontades e das estratégias individuais, e que cercam e limitam de fato a 
atuação do juiz. 
Entre esses trabalhos, encontramos estudos que defendem que a 
atuação política do Judiciário deve ser compreendida também a partir da 
função do juiz e do Judiciário dentro de um sistema ou “espírito” democrático 
(Pritchett, 19489; Howard, 1968). É preciso não apenas mostrar quais são os 
 
9
 Para alguns, o caráter multidimensional de Pritchett é visto como ambíguo e como um 
resquício da crise inicial (teórica e metodológica) que a Ciência Política enfrentou para se 
desvencilhar do Direito (Schubert, 1963; Maveety, 2003; Segal, 2003). Embora Pritchett seja 
36 
 
 
 
valores políticos que guiam o comportamento decisório dos juízes, mas 
também investigar como que se formam tais valores (Pritchett, 1948, 1968; 
Danelski, 1960). O juiz e o Judiciário, dentro de um sistema democrático, 
teriam funções políticas específicas, normativamente estabelecidas, no que as 
regras jurídicas poderiam sim formar e guiar seu comportamento. Assim, um 
juiz que decide intervir no Executivo ou no Legislativo em defesa dos direitos e 
das liberdades individuais pode resultar não diretamente de seus valores 
políticos particulares, mas antes da sua própria função dentro de um sistema 
constitucional democrático, cujas regras lhe dão independência e poder político 
para esse tipo de intervenção. 
Também encontramos trabalhos behavioristas que questionam a ligação 
direta que se faz entre os valores particulares dos juízes e as decisões 
judiciais, mostrando que a direção e a intensidade desse link mudam ao longo 
do tempo, especialmente em função de constrangimentos institucionais (Ulmer, 
1969, 1979b). São estudos que se voltam, por exemplo, para a análise das 
regras de funcionamento das cortes, de outros momentos do processo 
decisório (Ulmer, 1972, 1979a; Ulmer, Hintze e Kirklosky, 1972), das regras 
judiciais de acesso aos tribunais (Ulmer, 1978), e da pressão exercida por 
grupos e lideranças dentro da Corte sobre o comportamento dos juízes 
(Danelski, 1960; Ulmer, 1963). Tudo para mostrar que esse comportamento 
varia conforme questões outras que não somente os valores políticos 
particulares dos juízes10. 
Outros estudos behavioristas questionam um problema central dos 
atitudinalistas e estratégicos padrões, que é a separação que eles fazem entre 
“direito” e “política”. Passa-se a questionar se “decidir conforme as regras” é de 
fato diferente de “decidir conforme valores e interesses políticos”, observando-
 
reconhecido como o precursor do Modelo Atitudinal (Maveety, 2003), seu trabalho não é visto 
como o que de fato “quebrou” com o Legalismo Jurídico e seus pressupostos institucionais. 
10
 Ulmer reconhece a importância das abordagens tradicionais (institucionais) e se coloca mais 
numa posição de complementaridade do que de oposição a elas. Bradley (2003) cita, inclusive, 
uma passagem de um livro de Ulmer em que ele confirma essa ideia: “A abordagem 
behaviorista não substitui outras perspectivas, mas complementa o conhecimento que tem sido 
e continua a ser a marca de modelos analíticos mais tradicionais” (Ulmer, 1961: I apud Bradley, 
2003: 109). 
37 
 
 
 
se que as próprias regras ou que o próprio direito é um elemento político em si 
e não apenas uma roupagem que é estrategicamente utilizada ou 
instrumentalizada pelos juízes para alcançarem seus objetivos particulares. 
Alguns estudos mostram “a política no direito” ao enfatizarem a 
importância dos valores culturais e políticos de uma sociedade na formação 
não somente do comportamento dos juízes, como também das próprias regras 
de funcionamento das instituições judiciais. Encontramos, assim, preocupações 
com a questão da socialização judicial e com as experiências profissionais e 
políticas dos juízes, que estruturam e institucionalizam padrões de 
comportamento (Cook, 1971). Também encontramos análises sobre as 
relações entre os tribunais com a opinião pública e as expectativas culturais e 
sociais sobre o papel do juiz e do Judiciário (Cook, 1977, 1979). Vemos, ainda, 
trabalhos em que se demonstra a importância dos valores políticos, culturais e 
sociais de uma sociedade na formulação das regras de seleção dos juízes da 
Suprema Corte dos Estados Unidos11, mostrando que os valores manifestos 
nas decisões dos juízes podem ser culturalmente e institucionalmente 
selecionados (Cook, 1977, 1981, 1982, 1984). 
Vemos, assim, que são trabalhos que procuram mostrar que, embora 
haja uma relação entre valores políticos pessoais dos juízes e suas decisões, 
há muitas outras questões institucionais e estruturais anteriores e contínuas ao 
processo decisório que influem na efetivação dos valores pessoais dos juízes. 
Assim, existiria uma muldimensionalidade latente na atuação política do 
Judiciário, que deve ser estudada a partir de um entrelaçamento de questões 
individuais, institucionais e estruturais, de modo semelhante ao que apontam 
os estudos do Neo-institucionalismo histórico12. 
 
11
 Cook mostra o processo de aceitação da primeira mulher como juíza da Suprema Corte dos 
Estados Unidos. Segundo seus estudos, isso só foi possível quando a cultura política do país 
se alterou e passou a considerar plausível a presença de uma mulher na Suprema Corte. 
12
 Como apontou Epstein e Matther (2003: 186), o interesse de Beverly Blair Cook em 
diferentes dimensões da atuação política do Judiciário “moveu intelectualmente as barreiras do 
atitudinalismo, incorporando em uma explicação do ato de julgar as normas jurídicas e o 
contexto social, que são os mesmos fatores enfatizados pela abordagem alternativa do 
institucionalismo histórico ao estudo do comportamento judicial”. 
38 
 
 
 
Do ponto de vista metodológico, esses trabalhos behavioristas não-
padrões ajudam a quebrar com a ideia que se fundou com o Modelo Atitudinal 
de que uma análise “política” e “científica” do Judiciário requer obrigatoriamente 
um foco unidimensional sobre o juiz, juntamente com a aplicação de uma 
metodologia quantitativa sofisticada. Ainda que o uso desta metodologia não 
tenha sido descartada, e em alguns casos tenha sido estimulada e 
aperfeiçoada, o reconhecimento de outras dimensões analíticas e a utilização 
de metodologias qualitativas parece ser um traço comum entre esses 
estudos13. Eles vêm conquistando espaço e importância crescentes no 
mainstream dos estudos judiciais na Ciência Política norte-americana, dada a 
capacidade de mostrar os limites das análises políticas padrões e a 
possibilidade de inaugurar novas hipóteses, agendas de pesquisa, e até 
mesmo novas abordagens analíticas. 
Assim, se entre as abordagens individualistas puramente behavioristas 
nós podemos encontrar tantos trabalhos que fogem ao padrão, vejamos o que 
acontece entre as abordagens individualistas que não são behavioristas, ou 
que podemos chamar de “mais abrangentes”, como o Realismo Jurídico, a 
Jurisprudência Política e a Mobilizaçãodo direito. Através delas podemos 
encontrar trabalhos que tratam a relação entre política e direito não apenas 
pela chave da instrumentalidade (pressupondo a centralidade do juiz e a 
separação entre direito e política), mas também pelo seu caráter histórico e 
constitutivo, considerando cada vez mais a importância das dimensões 
institucionais e estruturais de análise para se entender a atuação politica dos 
juízes e do Judiciário como um todo. É a partir de seus trabalhos que podemos 
ver semelhanças e diálogos cada vez mais claros tanto com o Marxismo e com 
 
13
 Destaca-se, por exemplo, a capacidade dos métodos qualitativos como os estudos de caso 
de realizar uma espécie de “anatomia” do processo judicial, permitindo ver a existência de 
manipulações e constrangimentos de grupos de interesses sobre o juízes (Pritchett, 1968; 
Pritchett, Murphy e Epstein, 2002). Aponta-se também a importância das análises descritivas 
de Howard sobre os fluxos de litigação, agendas de julgamento, bem como das biografias e 
entrevistas de juízes como meios de se analisar a questão estratégica (Maveety e Maltese, 
2003). E, no extremo da desvinculação da pesquisa a uma metodologia pré-estabelecida, 
aponta-se, como fez Beverly Blair Cook, a importância de deixar o problema e o objeto de 
pesquisa ditar a metodologia necessária e não o contrário (Epstein e Matther, 2003). 
 
39 
 
 
 
os Critical Legal Studies, quanto com o Neo-institucionalismo Histórico e com o 
próprio Legalismo Jurídico. Ou seja, é a partir dessas abordagens 
individualistas mais abrangentes que podemos ver que as tentativas de 
“despolarização” ou de “des-unidimensionalização” (que vimos entre alguns 
atitudinalistas e estratégicos não-padrões) ganham ainda mais força. 
Não se pode negar que todas as três abordagens possuem trabalhos 
que insistem na unidimensionalidade e na chave da instrumentalidade (na 
importância das ações individuais dos juízes) para entender e explicar a 
atuação política do Judiciário. Contudo, todas as três abordagens são 
caracterizadas por uma marcante diversidade interna, que é onde se abrem e 
se mostram os avanços em direção a pesquisas multidimensionais e a um 
diálogo com abordagens de cunhos diferenciados. 
No Realismo Jurídico, foi onde a unidimensionalidade e a ideia de 
instrumentalidade se deu de forma mais ampla, ao passo que foi com o 
advento das análises realistas que se introduziu pela primeira vez (antes 
mesmo do surgimento do behaviorismo judicial em Ciência Política, com o 
Modelo Atitudinal) a dimensão individual no campo dos estudos judiciais, 
tomando o juiz como um ator político, que julga conforme seus interesses 
próprios e não conforme as regras e as leis (Holmes, 1897; Llewellyn, 1930). 
Contudo, alguns trabalhos realistas importantes não incorporam 
acriticamente a ideia de que as atitudes individuais dos juízes explicam por si 
as decisões judiciais e a atuação do Poder Judiciário. Argumenta-se que, por 
trás das atitudes e valores individuais, há a presença consciente ou 
inconsciente de uma ideologia dominante. Os interesses e os comportamentos 
individuais dos juízes refletem interesses e comportamentos dos grupos nos 
quais eles estão inseridos. Esses grupos, por sua vez, estão mergulhados em 
seus próprios interesses materiais e econômicos, que, por fim, influenciam no 
tempo e no espaço a formulação das leis e o funcionamento das instituições 
governamentais como um todo (Bentley, 2008 [1908]; Beard, 2006 [1938]). 
Dessa forma, questões de caráter estrutural se fazem igualmente necessárias 
para desvendar e entender a “realidade” que está por trás das decisões 
40 
 
 
 
judiciais14. Mantem-se uma certa relação de instrumentalidade e de importância 
das ações do indivíduo ou de um grupo de indivíduos, mas enfatiza-se 
questões estruturais, materiais e econômicas, e também ideológicas, como 
sendo os elementos que estão por trás das ações e das próprias regras 
jurídicas, formando-as e constituindo-as, no que “decidir conforme as regras” 
não se diferencia de “decidir conforme valores”. 
Na Jurisprudência Política, a ideia de instrumentalidade também 
aparece, na medida em que se colocam os interesses individuais ou das elites 
como as forças motoras que constroem, mantêm e transformam as regras e as 
instituições judiciais ao seu favor. O elemento da escolha ou da decisão dos 
indivíduos continua a ser um elemento central para o estudo político judicial 
(Shapiro, 1963)15. Contudo, não se pode esquecer que os estudos da 
Jurisprudência Política não surgiram em completa concordância com o 
behaviorismo judicial (Danelski, 1983; Stumpf, 1983), mas como uma 
alternativa entre o institucionalismo do Legalismo Jurídico e o individualismo do 
behaviorismo judicial16. 
Para os estudos da Jurisprudência Política, caberia uma dupla 
preocupação: em função do legado deixado pelo behaviorismo judicial, não se 
poderia mais seguir acreditando que os juízes eram meros “aplicadores” das 
 
14
 Fisher, Horwitz e Reed (1993), ao empreenderem o que chamam de uma “visão generosa” 
sobre o Realismo Jurídico, analisam a diversidade analítica presente na abordagem, 
mostrando seus diversos desdobramentos e suas diferentes formas de definir e entender o que 
é a “realidade” por trás das decisões judiciais. 
15
 Segundo Martin Shapiro (1963: 295), que cunhou o nome da abordagem (Political 
Jurisprudence), “a nova jurisprudência compartilha com todo o pensamento jurídico americano 
moderno [realistas e behavioristas] a premissa de que os juízes fazem mais do que 
simplesmente descobrir a lei. Sem essa premissa, não poderia existir nenhuma jurisprudência 
política, pois uma das preocupações centrais da política é o poder, e o poder implica na 
escolha. Se o juiz não tem nenhuma escolha entre alternativas, se ele simplesmente aplica as 
regras fornecidas pelas compilações jurídicas e chega a uma conclusão comandado por uma 
lógica jurídica inexorável, ele não seria de mais interesse político do que uma máquina da IBM 
que poderia substituí-lo em breve”. 
16
 Como descreve Stumpf (1983), a Jurisprudência Política sustenta uma visão de indivíduo 
distinta do behaviorismo judicial. Este último defende uma visão mais psicológica dos juízes, 
estudando-os como seres humanos, e relacionando seus comportamentos a um corpo teórico 
mais geral sobre o comportamento humano em momentos de escolha ou de decisão. A 
Jurisprudência Política, por sua vez, sustenta uma visão mais sociológica de indivíduo, 
pensando-o mais enquanto integrante de determinados grupos inseridos em instituições 
políticas, que, por sua vez, estão inseridas num determinado sistema governamental. 
41 
 
 
 
regras jurídicas; contudo, as análises políticas também não poderiam mais 
seguir fazendo economia de conceitos jurídicos (Shapiro, 1963). Seria preciso 
pensar nos elementos que ocupam o espaço existente entre esses dois pólos 
de explicação, de forma a entender e a ver a política não somente no 
comportamento dos juízes, mas na própria história de criação, manutenção e 
transformação das regras e das instituições jurídicas, vendo-as também como 
agências políticas governamentais (Shapiro, 1986). 
Em função dessa dupla preocupação, a Jurisprudência Política pode ser 
vista e entendida a partir de diferentes perspectivas, denotando a 
multidimensionalidade presente em seus estudos. Alguns a vêem como uma 
abordagem behaviorista por manter a centralidade e a importância das 
escolhas individuais (Smith, 1988); outros a vêem como uma abordagem 
funcionalista, dada a ênfase que seus estudos dão ao caráter funcional das 
regras e instituições judiciais para determinados grupos políticos (McCann, 
2010); e outros, por fim, a vêem como uma clara abordagem institucionalista e 
precursora do Institucionalismo Histórico, dadaa recuperação histórica e 
política da criação das regras e das instituições judiciais, sem desconsiderar, 
contudo, a importância das ações estratégicas dos grupos governamentais 
(Gillman e Clayton, 1999; Kritzer, 2003; Gillman, 2004). 
Na Mobilização do Direito, por fim, a ênfase na dimensão individual e 
instrumental também se mantém, mas, agora, a partir de uma visão “de baixo 
para cima”, ou seja, não apenas considerando os valores, interesses e ações 
de juízes e de governantes, mas também daqueles que mobilizam o direito, os 
“usuários” da Justiça (McCann, 2008, 2010). Alguns vão se preocupar em 
traçar uma tipologia dos litigantes para verificar as ligações entre as suas 
capacidades (financeiras e jurídicas) e as possibilidades de instrumentalizar o 
direito e as cortes ao seu favor (Galanter, 1974; Epp, 1996, 1998). Outros vão 
se preocupar em mostrar como que os indivíduos e grupos de indivíduos 
instrumentalizam as cortes como mais uma arena possível (e não única e nem 
definitiva) de luta política pelo significado e conquista de direitos (McCann, 
1994). O que se observa, no entanto, é que esses dois tipos de trabalhos 
sustentam visões distintas sobre o direito e sobre o Judiciário e, 
42 
 
 
 
consequentemente, sobre o sentido e resultado das suas relações com os 
indivíduos, recorrendo ora a questões de caráter institucional, ora a questões 
de caráter estrutural (Zemans, 1982, 1983; Scheingold, 2004 [1974], 2008; 
McCann, 2008). 
O primeiro tipo de estudo toma o direito como uma entidade mônada e 
separada dos sujeitos, que podem instrumentalizá-lo caso tenham as 
capacidades e as oportunidades necessárias de assim fazê-lo. Se as decisões 
judiciais geralmente favorecem aqueles que possuem melhores condições, não 
é tanto em função das preferências particulares dos juízes, mas em função dos 
obstáculos institucionais que se colocam ao acesso dos cidadãos com poucas 
condições. Estando eliminados ou contornados esses obstáculos institucionais, 
através de reformas de ampliação do acesso à Justiça e de diminuição das 
desigualdades de capacidades, os valores particulares dos juízes já não 
importam tanto. A pressão exercida pelas demandas individuais por direitos, 
associada a uma maior abertura institucional do Judiciário, leva a uma 
mudança nas agendas de julgamento das cortes, resultando em uma 
“revolução dos direitos” (Epp, 1998). O Judiciário pode, assim, produzir 
mudanças sociais, tendo como condição o aumento crescente das demandas 
dos indivíduos por direitos e uma estrutura institucional adequada para ajudá-
los. 
As críticas centrais que foram direcionadas a esse primeiro tipo de 
trabalho se deram, principalmente, em função de eles enfatizarem mais a 
questão do acesso do que da “saída” ou dos resultados concretos das decisões 
judiciais, que acabam mostrando que as Cortes ou que o Poder Judiciário 
como um todo não são capazes de produzir mudanças sociais (Rosenberg, 
1991). Não se poderia negar a importância das mobilizações e das 
possibilidades de sucesso judicial, mas seria um erro tomar esses ganhos 
judiciais como a palavra final que leva de fato a uma mudança social, ou como 
uma decisão que coloca um ponto final em situações de disputas na sociedade 
e de destituição de direitos17. Os processos judiciais seriam apenas parte de 
 
17
 Rosenberg (1991) analisa, por exemplo, o caso de uma decisão histórica (Roe vs. Wade) da 
Suprema Corte dos Estados Unidos sobre a legalização do aborto. Segundo o estudioso, 
43 
 
 
 
um funcionamento político maior das instituições, e sobre eles agiriam 
constrangimentos de caráter estrutural ou sistêmico, como a falta de 
prerrogativas e de poderes do Judiciário que lhes possibilite de fato 
implementar transformações sociais. Segundo essa crítica, portanto, os 
ativistas e as mobilizações sustentariam uma esperança ingênua nas táticas 
judicias, caindo no que ficou conhecido como o “mito dos direitos” (Scheingold, 
2004 [1974]). 
Diante disso, o segundo tipo de estudos da Mobilização do direito se 
coloca no limiar entre o primeiro tipo e a crítica a ele dirigida, como que dizendo 
“nem tanto ao céu nem tanto à terra”. Influenciados, sobretudo, pelos trabalhos 
do “indeterminismo” dos Critical Legal Studies (que veremos mais adiante entre 
as abordagens estruturalistas), esses trabalhos vão dizer que as decisões 
judiciais, de fato, não são o ponto final ou o fim dos conflitos e das disputas na 
sociedade. Mas vão argumentar que elas nem poderiam ser o ponto final dos 
conflitos, na medida em que o direito comporta dentro de si uma constante 
disputa entre princípios conflitantes, que perpassam não apenas o processo 
judicial, como a ordenação e a constituição da sociedade como um todo. O 
importante é ver, em função das mobilizações populares, de seus 
entendimentos e de seu histórico de lutas políticas por direitos, qual é o 
significado e o que representa a mobilização judicial. Seria preciso, inclusive, 
relativizar o que é visto como “sucesso judicial”, na medida em que apenas o 
ato de entrar com uma ação na Justiça já poderia representar uma conquista 
simbólico-concreta para os movimentos sociais, fazendo as instituições da 
Justiça olharem para os seus problemas, e catalizando ou impulsionando lutas 
e mobilizações em outras arenas políticas (McCann, 1994)18. O direito e as 
 
embora a decisão da Corte de anular leis restritivas sobre o aborto do Texas e da Geórgia 
tivesse resultado na alteração de diversas legislações estaduais, a contra-mobilização 
aumentou igual ou ainda mais fortemente no país, acirrando ainda mais os conflitos e as lutas 
pela criminalização do aborto. A decisão, embora impactante e histórica, não teria 
transformado de fato a sociedade. Ela seria apenas mais um momento no processo de luta 
política. 
18
 Ao estudar o movimento das mulheres pela igualdade salarial nos Estados Unidos, McCann 
(1994) fala sobre a importância da mobilização judicial para o aumento dos movimentos e dos 
debates políticos. Ele fala, por exemplo, de uma decisão judicial que mudou o foco de 
tratamento da equidade salarial, que retirou o foco individual sobre a questão para colocá-la no 
plano do que seria não mais uma discriminação individual, mas uma discriminação sistemática 
44 
 
 
 
instituições judiciais não seriam, assim, apenas um mito, pois teriam significado 
e impactos tanto simbólicos quanto concretos para os indivíduos e para os 
seus movimentos; o direito constituiria significados, valores e comportamentos 
distintos, e seria por eles constituído. 
Do ponto de vista metodológico, este último tipo de estudo resgata um 
debate travado pelos Critical Legal Studies, que levanta questões que 
perpassam grande parte da discussão vista anteriormente e que veremos 
também nos itens posteriores. Uma das questões metodológicas centrais 
levantadas recai sobre as diferenciações e as consequências de se tentar fazer 
uma análise explicativa ou uma análise exploratória. Uma análise explicativa 
procuraria traçar relações de causa e consequência, construir leis gerais ou 
mostrar o que é comum e padrão na atuação do Judiciário e nas decisões 
judiciais. Uma análise exploratória, pelo contrário, não demonstraria relações 
de causa e consequência, mas a heterogeneidade constituinte nas relações 
encontradas entre sociedade, política e direito. Enquanto que uma análise 
explicativa mostraria a existência de uma variável independente, a partir da 
qual se explicariam a atuação do Judiciário e os resultados das decisões 
judiciais, uma análise exploratória mostraria diversas variáveis em interação, de 
forma a mostrar as configurações resultantes possíveis (McCann, 1996). 
Assim,o que podemos perceber é que, diante dessa divisão entre tipos 
de análise, e diante dos estudos que até agora fizemos das diversas 
abordagens individualistas, é que à medida que os trabalhos procuram 
incorporar dimensões distintas de análise, que colocam questões e limites a 
teses puramente individualistas, eles caminham em direção à construção de 
análises mais exploratórias do que explicativas. Embora esse efeito da 
multidimensionalidade possa ser visto enquanto um problema do ponto de vista 
da capacidade explicativa das abordagens19, ele também pode ser visto 
 
das mulheres no mundo do trabalho. Essa decisão gerou argumentos suficientes para 
impulsionar os movimentos, novas leis e a mobilização judicial pelo reconhecimento desse 
caráter sistemático e institucional da discrimação contra as mulheres, ainda que as respostas 
judicias por vezes fossem “negativas” às mobilizações. 
19
 Quando não se tratou o Realismo Jurídico e a Jurisprudência Política a partir de uma visão 
padronizada, mas reconhecendo-as como abordagens altamente diversificadas, tomou-se a 
variedade como mais um motivo para as abordagens serem criticadas, na medida em que não 
45 
 
 
 
enquanto um ponto positivo, na medida em que não ignora questões 
institucionais e estruturais importantes para o debate; explora a relação entre 
política e Judiciário em maior profundidadade; e permite não somente o 
questionamento de velhas hipóteses, como também a construção de novas 
agendas de pesquisa e um diálogo mais aberto com outras abordagens 
analíticas. 
 
1.3 – A dimensão estrutural: a função e a contradição do direito 
As abordagens de cunho estruturalista são aquelas que têm por unidade 
de análise o quadro de condições econômicas, sociais, culturais e históricas 
que estrutura as relações entre os indivíduos e as relações destes com as 
instituições. São abordagens que procuram explicar a política não mais 
diretamente através do jogo político entre os atores e através dos seus cálculos 
com relação aos constrangimentos institucionais e estruturais, mas através de 
uma determinada ordenação da sociedade que estabelece os termos em que o 
jogo político deve se dar e que as instituições devem atuar, moldando e 
limitando tanto uma coisa quanto a outra. Assim, tanto o comportamento dos 
indivíduos quanto o funcionamento das instituições, e a própria interação entre 
eles, seriam, em grande medida, produtos ou reflexos desse ordenamento, e 
acabariam funcionando, de um modo ou de outro, como elementos 
legitimadores (conscientes ou inconscientes) dessa determinada ordenação, 
nem sempre coerente, da vida em sociedade. Se aquilo que podia ser visto por 
alguns individualistas apenas como constrangimentos que são levados em 
conta nos cálculos racionais dos indivíduos ou grupos, agora é tido como o 
elemento estruturador e constitutivo, e por vezes contraditório, dos seus 
comportamentos e de suas escolhas. 
 
teriam conseguido conformar um corpo teórico e metodológico próprio, nem análises com valor 
explicativo e prescritivo, mas apenas descritivo (O’Brien, 1983). A ideia de “indeterminação” e 
de análise exploratória utilizada por McCann (1996) foi uma resposta dada pelo autor às 
críticas que seu trabalho de 1994 havia sofrido por parte de Rosenberg (1996), que ressaltou 
questões como a falta de capacidade explicativa, na medida em que McCann (1994) teria 
estudado apenas um caso, de maneira muito interpretativa e sem mostrar de fato as relações 
de causa e consequência entre uma coisa e outra, entre as decisões judiciais e o aumento das 
mobilizações. 
46 
 
 
 
No campo dos estudos judiciais norte-americanos, a construção de 
trabalhos de cunho estruturalista se deu, sobretudo, com a emergência do 
movimento dos Critical Legal Studies (CLSs), que se apresentou como a 
vanguarda de uma virada radical na forma e no conteúdo da crítica que até 
então vinha se fazendo ao Legalismo Jurídico (Hunt, 1986). Posicionados no 
ápice de uma linha crítica evolutiva ou progressiva, os CLSs seriam “a crítica 
da crítica da crítica” ao Legalismo Jurídico: as tentativas menos bem sucedidas 
de crítica viriam, sobretudo, do Realismo Jurídico; as tentativas medianamente 
bem sucedidas viriam dos trabalhos de cunho estruturalista, sobretudo de 
origem marxista, que também criticaram o Realismo; e os CLSs, por fim, 
constituiriam a crítica mais profunda e completa ao Legalismo Jurídico, 
questionando as críticas feitas tanto pelo Realismo Jurídico quanto pelo 
Marxismo. 
No que diz respeito às limitações do Realismo Jurídico para criticar o 
Legalismo Jurídico, os CLSs defendem que os teóricos realistas acabaram 
caminhando mais para uma afirmação do modelo legalista do que propriamente 
para o seu desmantelamento (Kairys, 1998; Gordon, 1998). Argumenta-se que, 
embora eles tenham mostrado que o “direito na prática” é diferente do “direito 
nos livros”, denunciando a realidade por trás da “mentira” e da “ilusão” que 
seria o processo decisório judicial e a ideia de imparcialidade do juiz, os 
realistas jurídicos teriam deixado de perceber o caráter problemático da própria 
ideia de “direito nos livros”. Para os realistas, o problema central estaria no fato 
de o juiz se desviar do “raciocínio jurídico objetivo” para se utilizar do 
“raciocínio político subjetivo”, como se de fato existisse uma metodologia 
jurídica ou processo objetivo que permitisse alcançar resultados “corretos”. 
Com isso, eles não teriam se dado conta de que o próprio “direito nos livros” 
congrega muitos valores conflitantes e contraditórios, no que o problema 
essencial da decisão judicial não seria o fato de o juiz se desviar das regras 
jurídicas para julgar de acordo com seus valores particulares, mas o fato de a 
escolha do juiz ser, inevitavelmente, uma escolha entre valores, esteja ele 
seguindo estritamente as regras ou suas preferências particulares, pois as 
regras são elas mesmas constituídas de valores e interesses (Kairys, 1998). 
47 
 
 
 
Para os CLSs, portanto, os realistas críticos não teriam visto um 
problema no direito em si, mas no que os homens fazem dele na prática; e com 
isso ainda mostrariam acreditar na existência de uma separação entre direito e 
política. Segundo os críticos, a escola realista continuaria presa à ideia ingênua 
e idealizada do “direito nos livros”, na medida em que deixariam subjacente em 
suas análises que, se esse direito ideal não fosse desviado e subvertido em 
função dos interesses diversos dos juízes, ele continuaria sendo capaz de 
solucionar conflitos de uma forma lógica, coerente, e objetiva. Assim, estando 
os realistas jurídicos ainda presos nessa ilusão, os CLSs depreendem que eles 
teriam sido incapazes de romper com o liberalismo, constituindo um movimento 
de caráter crítico “simplesmente evolutivo” (Kairys, 1998; Gordon, 1998). 
No que diz respeito às limitações da crítica marxista ao Legalismo 
Jurídico, os CLSs apontam que os trabalhos marxistas teriam alcançado um 
estágio avançado de “declínio científico” (Hutchinson e Monahan, 1984: 220). 
Embora os marxistas tivessem dado um passo à frente muito importante no 
quadro progressivo da crítica ao Legalismo Jurídico, eles, assim como os 
realistas jurídicos, também teriam deixado de perceber a totalidade do caráter 
problemático do próprio direito. Se os realistas não viram os problemas postos 
no “direito nos livros”, continuando a entender esse direito como algo dotado de 
lógica, coerência e, principalmente, de objetividade, os trabalhos marxistas 
teriam dado um passo à frente ao reconhecer que o “direito noslivros” também 
é dotado de valores e de subjetividade. Contudo, os marxistas continuariam a 
alegar que esse direito seria dotado de lógica e de coerência interna, não em 
função de um “bem geral” transcendental, mas, agora, em função dos 
interesses materiais das classes dominantes, mantendo-se, assim, uma 
explicação de caráter instrumentalista do direito (Kairys, 1998; Gordon, 1998). 
Segundo os CLSs, os marxistas ficariam “orbitando” em torno da 
metáfora da “base/superestrutura”, utilizando-a para dizer que o direito e suas 
instituições seriam, de uma forma ou de outra, determinados pela base 
econômica, sendo apenas reflexos dessa base. Qualquer que seja o grau de 
sofisticação elaborado pelos marxistas para explicar a relação posta por essa 
metáfora, desde a mais mecanicista ou mais ortodoxa (como Friedman, 2005 
48 
 
 
 
[1973]) até as mais heterodoxas (como Collins, 1982 e Althusser, 1985)20, eles 
continuariam propagando uma visão do direito liberal como algo lógico, 
coerente, e também funcional, deixando de perceber suas contradições 
internas. Como resultado, os marxistas acabariam caindo numa busca 
insensata pela ciência e metodologia positivista, tentando sempre traçar 
relações claras de causa e consequência para demonstrar o caráter lógico, 
coerente e funcional do direito e de suas instituições (Douzinas e Warrington, 
1986). 
Tendo em vista essas limitações tanto do Realismo Jurídico quanto do 
marxismo para criticar o Legalismo Jurídico, os CLSs vão defender que uma 
“verdadeira” crítica procura mostrar que o direito e as regras jurídicas que 
regem as relações sociais numa sociedade capitalista podem ser ainda mais 
perversas e difíceis de serem desmanteladas, na medida em que não seria 
tarefa simples identificar os diversos valores postos nessas regras. O direito 
carregaria em si valores e princípios variados, muitas vezes contraditórios e 
conflitantes entre si, no que a atuação do juiz ou o ato de julgar seria um ato 
profundamente contraditório e indeterminado. A era moderna seria marcada 
pela presença contraditória e conflitante de dois princípios distintos e opostos 
de ordenamento da sociedade, o individualismo e o altruísmo, no que o direito 
comportaria ao mesmo tempo normas concretas e normas abstratas 
inssociáveis (Kennedy, 1976). Tais princípios não seriam meros artefatos 
jurídicos, meras mentiras ou ilusões, pois solucionariam, ainda que 
provisoriamente, os conflitos. Contudo, eles permaneceriam em constante 
disputa, pois sempre estariam representando visões “rivais” da associação 
humana (Unger, 1983). 
 
20
 Os trabalhos que citamos aqui são exemplos de trabalhos marxistas que utilizaram a 
metáfora da base/superestrutura para falar mais especificamente (embora não apenas) da 
relação entre a base econômica e o direito e suas instituições. Collins (1982), por exemplo, não 
apenas tratou teoricamente dessa relação, como fez um apanhado empírico de alguns casos 
de decisões judiciais em que a tese mecanicista entre base/superestrutura era contrariada, de 
forma a propor uma análise mais elaborada da metáfora. E o autor recupera, ainda, uma 
discussão acerca das razões pelas quais os marxistas não falam ou evitam falar em uma 
“teoria marxista do direito”, que seria uma precaução contra cair no que eles chamam de 
“fetichismo do direito”, pois o direito e suas instituições, em essência, não teriam uma história 
própria, mas sempre relacionada, ainda que em última instância, à base econômica da 
sociedade. 
49 
 
 
 
Assim, o direito e suas instituições não seriam coerentemente funcionais 
e legítimos a interesses e valores únicos, e nem as decisões judiciais seriam 
sempre a manifestação prática dessa funcionalidade ou instrumentalidade. O 
direito, nos livros ou na prática, “solucionaria conflitando” interesses e 
princípios distintos, tendo, assim, legitimidade não apenas entre as classes 
dominantes, mas também entre as classes dominadas. Existiria aí uma questão 
ideológica, de constituição de crenças e comportamentos, e de 
institucionalização muito mais profunda do que se pressupõe numa relação 
mecânica e determinista entre certos interesses materiais e o direito e suas 
instituições. Assim, a “função” do direito não seria tão facilmente identificada. 
Com isso, os objetivos da verdadeira crítica não seriam mais os da ciência, 
construindo respostas e procurando descobrir os interesses ou a base material 
por trás das regras jurídicas; seus objetivos seriam, agora, os da filosofia, 
fazendo desta a sua “alma”, e questionando teoricamente a própria natureza 
das noções de “indivíduo” e de “realidade” que os estudiosos apresentam em 
suas análises, de forma a distinguir um “bom conhecimento” do “mau 
conhecimento” (Hutchinson e Monahan, 1984: 200). 
O que se percebe, contudo, é que os CLSs fazem uma leitura limitada e, 
por vezes, injusta, tanto do Realismo Jurídico quanto dos trabalhos marxistas. 
Por fazerem essa leitura parcial, os críticos tendem a deixar de lado as 
semelhanças que compartilham com aqueles que criticam. 
Se voltarmos às considerações que fizemos anteriomente sobre o 
Realismo Jurídico, podemos ver que os seus trabalhos foram muito mais além 
do que julgam os CLSs. Eles não se preocuparam somente em mostrar o 
abismo existente entre o “direito nos livros” e o “direito na prática”, dizendo 
apenas que são os valores subjetivos e individuais dos juízes que corrompem 
um direito tido como “ideal”. Os realistas também mostraram que o próprio 
direito é problemático em si na medida em que suas regras também são 
dotadas de subjetividade e de valores, como mostraram Bentley (2008 [1908]) 
e Beard (2006 [1938]). É certo que não falam no aspecto central para os CLSs, 
que é o aspecto contraditório e não somente subjetivo e valorativo do direito. 
Todavia, falam na questão ideológica como constituindo uma intermediação 
50 
 
 
 
importante no processo de legitimação social dos interesses e dos valores de 
grupos dominantes, aspecto igualmente importante para os teóricos críticos. 
Nesse sentido, portanto, a crítica feita pelos CLSs se assemelha 
consideravelmente à crítica feita pelo Realismo Jurídico, não sendo este último 
apenas uma crítica frágil e inacabada posta no início da linha crítica 
progressiva, mas uma abordagem crítica igualmente ou semelhantemente 
fundamental. 
No que tange aos trabalhos marxistas, podemos observar que os CLSs 
fazem uma leitura no mínimo injusta ao nivelar diferentes desenvolvimentos 
marxistas sob o rótulo de “instrumentalistas”, como fizeram Douzinas e 
Warrington (1986). Seria injusta, principalmente, porque os próprios CLSs 
podem ser passíveis dessa mesma crítica, na medida em que possuem dentro 
de seu movimento uma ampla faixa de trabalhos reconhecida como sendo a 
“ala revisionista” do marxismo (Hutchinson e Monahan, 1984; Hunt, 1986). 
Encontram-se, por exemplo, trabalhos que afirmam que o direito, nos livros e 
nas práticas, é mobilizado pelas classes dominantes, que detêm o poder do 
Estado para favorecer seus interesses (Abel, 1998), sem fazer considerações 
acerca das contradições do próprio direito liberal. Encontram-se também 
trabalhos que procuram traçar paralelos temporais sucessivos entre cenário 
econômico e o direito (Gabel e Feinman, 1998). Embora esses trabalhos 
possam ser interpretados na chave da “crítica progressiva”, constituindo uma 
crítica inicial e incompleta ao Legalismo Jurídico, eles continuariam sendo e se 
auto-reconhecendo trabalhos dos CLSs, demonstrando a co-existência de 
formas de crítica distintas dentro de uma única abordagem21. 
No mínimo, o que podemos perceber, portanto, é que embora os CLSs 
não sejam uma abordagem individualista, eles se nutrem e guardam muitas 
semelhanças com o Realismo Jurídico, uma abordagem individualista 
abrangente; e embora os CLSs também não sejam detodo uma abordagem 
estruturalista, eles bebem amplamente das fontes marxistas e de seus 
 
21
 Segundo Hutchinson e Monahan (1984: 221), a visão dos CLSs sobre essa ala revisionista 
não é a de que ela faz simplesmente uma crítica distinta da crítica feita por eles, mas a de que 
“nem todos estavam de fato comprometidos a construir um caminho diferenciado”. A ala 
revisionista seria apenas “mais do mesmo”. 
51 
 
 
 
argumentos de cunho estrutural. Eles se colocavam num meio termo entre 
essas duas correntes (Hutchinson e Monahan, 1984). Assim, ainda que 
possuam algo único e essencial, como a questão do “indeterminismo” do 
direito, eles também compartilham diversas outras questões trazidas por 
abordagens que enfatizam outras dimensões de análise. 
 
1.4 – A dimensão institucional: as regras do jogo político 
As abordagens que enfatizam a dimensão institucional têm por unidade 
de análise, como o próprio nome já diz, as instituições, tomando-as como 
entidades autônomas e cujas características, funcionamento, organização e 
história são elementos essenciais para a explicação dos fenômenos políticos. 
São abordagens que procuram explicar a política através da atuação das 
instituições ou através das formas pelas quais elas limitam as ações dos 
indivíduos e conformam padrões de comportamento. Aqui, as instituições não 
são mais vistas apenas como instrumentos construídos, moldados e 
mobilizados pelos sujeitos, ou apenas como instrumentos de legitimação de 
uma determinada ordenação ou estrutura social. As instituições, agora, 
também moldam os indivíduos e modificam as estruturas sociais. 
No campo dos estudos políticos judiciais norte-americanos, nós 
podemos encontrar trabalhos que enfatizam a dimensão institucional, 
sobretudo, na abordagem do Institucionalismo Histórico, que vem procurando 
não apenas resgatar e enfatizar fatores institucionais para a análise política do 
Judiciário, como também vem tentando realizar uma síntese analítica entre as 
três dimensões de análise, pensando as instituições entre as ações individuais 
e as estruturas sociais. Ao tentar empreender tal tarefa, os institucionalistas 
históricos bebem grandemente de trabalhos que já tentaram realizar essa 
síntese sob diferentes perspectivas. 
A literatura reconhece, sobretudo, a influência da abordagem da 
Jurisprudência Política, especialmente dos trabalhos de Martin Shapiro 
(Gillman e Clayton, 1999; Gillman, 2004; Kritzer, 2003; Maveety, 2003b). Tal 
influência é marcante na medida em que a Jurisprudência Política não apenas 
52 
 
 
 
trouxe o direito e as instituições de volta para a análise política do Judiciário, 
como também não descartou a importância da dimensão individual. Para a 
Jurisprudência Política, como vimos, a dimensão individual ou a questão da 
escolha individual é central, pois não haveria como negar que o juiz (por ser um 
poder político) faz escolhas, não podendo ser substituído por uma máquina 
programada para simplesmente aplicar regras (Shapiro, 1963). Contudo, como 
também já vimos, os estudos da Jurisprudência Política não sustentavam a 
mesma visão de indivíduo que o behaviorismo judicial. Se os behavioristas 
entendiam o individuo sob a chave do cálculo e da racionalidade, os estudiosos 
da Jurisprudência Política o entendiam sob a chave do social. Embora não se 
pudesse mais afirmar que o juiz é um mero aplicador de regras, também não 
se podia afirmar que ele está isolado com sua racionalidade, pois ele se insere 
em instituições específicas, com regras e historicidade política próprias. 
Ideias semelhantes a essas nós podemos ver também em outros 
trabalhos de cunho individualista, muito embora sua influência sobre o 
Institucionalismo Histórico seja menos reconhecida pela bibliografia. Através 
dos trabalhos de atitudinalistas como Charles Herman Pritchett e Beverly Blair 
Cook, principalmente, nós pudemos ver tentativas de relativizar a ideia de 
indivíduo puramente calculador e estratégico, não apenas levantando a 
questão ignorada pelos behavioristas puros sobre como se formam os valores 
dos juízes, como também levantando hipóteses e estudos que procuravam 
mostrar esses mecanismos de formação dos valores individuais, inserindo os 
juízes não apenas no universo institucional das cortes, como também no 
âmbito maior da estruturação e ordenação política e cultural da sociedade 
(Epstein e Matther, 2003). 
Se nos voltarmos especificamente para os trabalhos produzidos pelos 
estudiosos do Institucionalismo Histórico, a influência e semelhança tanto da 
Jurisprudência Política quanto dos autores atitudinalistas citados se mostram 
de forma ainda mais clara. Valendo-se, sobretudo, de estudos de caso e 
análises comparativas sobre o tema do judicial empowerment, os 
institucionalistas históricos procuram mostrar que a questão individual 
estratégica é importante, mas insuficiente para explicar tanto a atuação do 
53 
 
 
 
Judiciário quanto as transformações institucionais por ele sofridas, sendo 
necessário averiguar outras questões. Suas investigações empíricas sugerem 
que se deve olhar com mais atenção para a história e para as experiências 
passadas dos países estudados de forma a verificar suas influências e 
impactos. Sugerem também que é importante olhar para as ideias ou para os 
mapas conceituas existentes nesses países no momento em que as regras e 
os tribunais foram elaborados e transformados, de forma a mostrar que as 
escolhas de criação e transformação das instituições judiciais são também 
possibilidades histórico e socialmente construídas, e não apenas frutos de uma 
manipulação estratégica espontânea das regras pelos indivíduos (Hilbink, 
2008b, 2009; Hilbink e Woods, 2009). 
Para os institucionalistas históricos, a adoção da revisão judicial, por 
exemplo, não seria apenas uma forma de garantir “segurança política” e 
“preservação econômica” dos governos que se encontram sob ameaça futura 
de suas oposições, assim como sugerem autores estratégicos (Ginsburg, 2003; 
Hirschl, 2004; Finkel, 2008). Os institucionalistas históricos vão mostrar, por 
exemplo, que o processo de adoção da revisão judicial pode emergir não 
necessariamente da iniciativa momentânea das instituições majoritárias ou dos 
interesses relacionados à política eleitoral, mas do próprio Poder Judiciário, 
através de um processo longo de transformação das ideias dos juízes acerca 
de sua própria função num regime de rule of law, saindo de uma ideia 
positivista de autolimitação para uma ideia liberal de atuação pelos direitos 
(Woods, 2003, 2009). Outros argumentam que a revisão judicial pode ser 
adotada por questões de identificação ideológica (e não de mera 
instrumentalização estratégica) dos partidos com os pressupostos e os 
impactos dessas medidas (Erdos, 2009). Outros, ainda, vão procurar mostrar 
que não existe apenas uma questão de defesa contra a oposição, mas uma 
ideia de “missão” de governos que não se encontram sob ameaça, mas que 
procuram traçar diretrizes específicas de desenvolvimento (Shambayati e 
Kirdis, 2009). Outros, por fim, olham para o desfecho dos processos de adoção 
da revisão judicial para ver o que os juízes fizeram com esse poder, mostrando 
a influência das ideias positivistas sobre a percepção dos juízes acerca de seu 
54 
 
 
 
próprio papel, fazendo-os agir e decidir de forma contrária às suas preferências 
políticas particulares (Hilbink, 2007, 2008a)22. 
Nesses trabalhos, nota-se que o papel das ideias é fundamental, na 
medida em que elas são fatores importantes que permitem diferenciar o modo 
do Institucionalismo Histórico de retomar instituições para a análise política dos 
modos do Legalismo Jurídico e do behaviorismo judicial padrão, aproximando-
se, em grande medida, dos Critical Legal Studies. Quando os institucionalistas 
históricos concluem em suas pesquisas que osjuízes “atuam conforme as 
regras”, eles não estão dizendo com isso que os juízes são meros aplicadores 
das leis. Ou seja, eles não estão retirando o caráter político da atuação dos 
juízes. O que esses estudiosos estão fazendo é acrescentando uma 
recuperação da história das regras em discussão, não apenas para mostrar os 
valores políticos e o jogo político em torno delas, mas também para mostrar o 
seu impacto constitutivo sobre as concepções, valores e comportamentos dos 
juízes. 
Dessa maneira, são trabalhos que, assim como os estudos da 
Jurisprudência Política e dos atitudinalistas não-padrões, tensionam diferentes 
dimensões de análise de forma constante, ora pendendo mais para a questão 
estratégica, ora mais para a questão estrutural, mas agora com um olhar e uma 
teorização ainda mais forte sobre a importância de se verificar o contexto 
histórico em que as ideias e as instituições se formaram e se transformaram 
(Pierson, 2004; Steinmo, 2008). O recurso à história das instituições judiciais, 
bem como dos interesses individuais dos juízes e do quadro conceitual de 
ideias, passa a ser uma “palavra de ordem”, pois tudo teria uma historicidade. 
Ou seja, esses três elementos tem uma trajetória percorrida desde o seu 
surgimento; e essa trajetória conta muito dos entrelaçamentos possíveis entre 
eles, e das possibilidades de mudança nesse entrelaçar ao longo do tempo. 
Seria o que seus autores reconhecem como sendo o seu conceito-chave, que é 
o conceito de “dependência da trajetória” (Thelen, 1999; Hall e Taylor, 2003; 
 
22
 Woods (2003, 2009) se voltou para o estudo da revisão judicial em Israel; Erdos (2009) no 
Reino Unido e no Canadá; Shambayati e Kirdis (2009) na Turquia; e Hilbink (2007, 2008a) no 
Chile. 
55 
 
 
 
Pierson, 2004; Bennett e Elman, 2006; David, 2007): o que os valores, as 
instituições e as estruturas são hoje dependem do que eles foram ontem e 
assim por diante. 
Assim, a história não é uma cadeia de eventos independentes, que 
podem ser buscados como ilustrações de teses e hipóteses. Levar a história a 
sério significa se manter sempre cético com relação à noção de uma variável 
ou dimensão explicativa independente. Reconhecer a importância da história 
sugere uma preocupação explícita de que diversas dimensões importantes 
podem, e com frequência, formar umas as outras, numa interdependência 
constante e mutável (Steinmo, 2008). 
Do ponto de vista metodológico, os trabalhos do institucionalismo 
histórico enfrentam as mesmas críticas que as abordagens com as quais eles 
se assemelham. Por tentarem mobilizar diversas dimensões de análise e 
métodos que não permitiriam generalizações científicas, suas conclusões 
acabariam caminhando para um ecletismo a-teórico, na medida em que não 
conseguiriam alcançar explicações de caráter generalizado, mas apenas de 
caráter pontual. Com isso, seriam trabalhos mais exploratórios do que 
explicativos. 
Como já vimos, contudo, as análises de caráter exploratório apresentam 
possibilidades de estudos em profundidade, que ajudam não apenas a mostrar 
as limitações das análises explicativas de causa e consequência e 
unidimensionais, como também constituem um verdadeiro “celeiro” de 
hipóteses de pesquisa de âmbito geral. Ou seja, são pesquisas que abrem 
caminho para outras, à medida que mostram os limites do que já foi feito e do 
que ainda está por fazer. 
 
1.5 – As análises do Poder Judiciário no Brasil e o despertar da 
multidimensionalidade 
Como aponta Andrei Koerner et al (2013), é possível reconhecer três 
grupos distintos de análise sobre o Poder Judiciário na Ciência Política 
brasileira. O primeiro grupo volta-se para uma análise do modelo institucional 
56 
 
 
 
do Poder Judiciário após a Constituição de 1988, reconhecendo um processo 
de “judicialização da política” ou de “protagonismo do Poder Judiciário”, para o 
qual os trabalhos vão direcionar críticas negativas ou positivas. O segundo 
grupo de estudos, por sua vez, volta-se para a realização de pesquisas 
empíricas que procuram mostrar os limites das teses da judicialização da 
política, não em termos conceituais, mas em termos concretos a partir de 
análises de decisões judiciais e de suas relações com o direcionamento político 
do Poder Executivo federal. O terceiro grupo, por sua vez, retoma a tese da 
judicialização, mas para ressaltar os papéis políticos em que são investidos os 
tribunais nas novas democracias. 
Nós ainda reconhecemos um quarto conjunto de estudos, no qual se 
encontram trabalhos de outros estudiosos que vêm questionando a tese da 
judicialização não somente em termos aplicativos para o caso brasileiro, mas 
em termos conceituais-analíticos. 
Segundo o primeiro grupo de estudos, o pós-1988 foi marcado pelo 
processo de “judicialização da política” ou de um crescente “protagonismo do 
Poder Judiciário”, processo este que foi visto, por alguns estudos, como 
negativo, e, por outros, como positivo para a democracia brasileira. 
Os estudos que vêem a judicialização da política como negativa para 
democracia brasileira o fazem sob uma perspectiva fortemente normativa e 
institucional, na medida em que analisam o Poder Judiciário e sua atuação com 
base numa visão legalista acerca do direito e do que seria o papel “adequado” 
dos juízes e do Judiciário num sistema democrático. Para esses estudos, o 
Poder Judiciário numa democracia possuiria duas atribuições centrais: 
controlar e equilibrar os outros Poderes políticos para evitar o abuso de poder e 
assim garantir as liberdades individuais dos cidadãos, não interferindo em 
temas sociais e políticos. 
Com a Constituição de 1988, esse modelo “adequado” não apenas não 
teria sido seguido, como teria sido substituído por outro modelo institucional, 
que atribuiu poderes excessivos ao Poder Judiciário, permitindo-lhe interferir 
não apenas no abuso de poder para a defesa dos direitos individuais, como 
57 
 
 
 
também, e principalmente, em políticas governamentais, atuando no jogo 
político partidário e interferindo em questões de políticas públicas. Esse 
“empoderamento judicial” seria negativo na medida em que daria abertura 
institucional para a utilização do Judiciário por todo e qualquer tipo de 
demanda, inchando as varas e tribunais de processos; e daria abertura para o 
ativismo judicial ou para a “atuação política” dos juízes, levando-os a se 
posicionarem sobre políticas governamentais e políticas públicas e, com isso, 
passando por cima do processo político democrático majoritário (Sadek, 2004). 
Os resultados desse processo logo se mostrariam na ineficiência e na 
incapacidade institucional do Poder Judiciário de atuar para a cidadania, 
conformando uma instituição morosa e injusta ou o que chamam de uma 
instituição em “crise” (Sadek, 2001, 2004). A saída ou solução para a crise, 
segundo esses estudos, estaria claramente numa mudança desse modelo 
institucional trazido em 1988, fazendo as reformas necessárias para que se 
construam mecanismos de melhoria na eficiência dos tribunais e de controle 
sobre os juízes, evitando, assim, o ativismo judicial. 
Por seu turno, os estudos que vêem o fenômeno da judicialização da 
política no Brasil como positivo, o fazem a partir de uma perspectiva macro 
acerca das mudanças nas democracias contemporâneas. A utilização do 
Judiciário para solucionar cada vez mais tipos distintos de problemas políticos 
e sociais seria uma demonstração de que a democracia estaria passando de 
sua forma majoritária para a forma da participação ampliada. Assim, o 
fortalecimento ou o protagonismo do Judiciário em temas sociais e políticos 
seria positivo, na medida em que constituiria mais um espaço de participação e 
de possibilidade de efetivação de direitos (Vianna et al, 1999). 
O segundo conjunto de estudos, por sua vez, vai olhar com 
desconfiança para as tesesdo primeiro conjunto, apontando que no Brasil não 
ocorreu o fenômeno da judicialização da política. São estudos que vão tentar 
especificar mais a atuação do Judiciário no pós-1988 para verificar se ocorreu 
de fato a judicialização da política ou se os juízes de fato interferiram em 
questões políticas governamentais. O que de mais interessante essas 
pesquisas fazem é mostrar os limites do argumento puramente formal ou 
58 
 
 
 
institucional. Eles buscam mostrar, através de uma análise mais detalhada, que 
não basta a promulgação de um modelo institucional de atuação (como o que 
foi colocado pela Constituição de 1988) para que os juízes atuem de acordo 
com ele. Haveria neste entremeio um elemento estratégico, que pode ser visto, 
sobretudo, nos resultados heterogêneos das decisões judiciais, ou nos 
resultados que não interferem em políticas governamentais. Assim, embora a 
Constituição de 1988 tenha conferido muitos instrumentos e poderes para os 
juízes interferirem politicamente, os juízes poderiam certamente escolher se 
utilizar ou não desses poderes, judicializando ou não judicializando a política 
(Castro, 1997; Carvalho, 2005; Pacheco, 2006). 
O terceiro conjunto de estudos, por sua vez, compartilha da tese da 
judicialização da política do primeiro conjunto, mas não sob o ponto de vista 
formal negativo ou positivo, mas sob o ponto de vista estratégico. São estudos 
que vão enfatizar que, nas novas democracias como o Brasil, o papel do 
Judiciário é investido politicamente, ou seja, ele tem caráter político, tendo 
independência para atuar e decidir sobre políticas públicas. Ele não é o Poder 
Judiciário descrito pelas avaliações negativas. O Poder Judiciário faz parte do 
sistema político e é utilizado estrategicamente, dada a sua independência, por 
atores políticos em seus embates, que levam ao Judiciário aquilo que não 
podem e que não querem resolver em suas esferas de poder, ou aquilo que 
querem retardar ou deslegitimar. Com isso, a atuação política dos tribunais 
teria um alto grau de heterogeneidade, variando de acordo com os temas 
julgados e com o jogo político entre os atores (Taylor, 2008). 
O quarto conjunto que identificamos, no entanto, congrega trabalhos que 
não apenas tecem críticas à tese da “judicialização da política” enquanto 
conceito analítico, como também procuram trabalhar de forma menos 
unidimensional ao pensar o Poder Judiciário, conciliando o argumento 
normativo com o argumento estratégico e, com isso, configurando um quadro 
mais multidimensional para estudar o Poder Judiciário brasileiro (Maciel e 
Koerner, 2002; Freitas, 2010). 
Em primeiro lugar, esses estudos apontam que tanto as teses 
normativistas quanto as teses estratégicas não consideram diversos pontos ou 
59 
 
 
 
discussões teóricas sobre a relação entre direito, política e sociedade que são 
importantes para a análise de decisões judiciais, tomando-as ou como os 
reflexos de regras jurídicas previamente estabelecidas ou como objetos 
instrumentalizáveis pelos juízes e outros atores políticos para atingirem 
objetivos específicos. Para o quarto conjunto de estudos, essas duas coisas 
não se separam a não ser enquanto linguagem, pois as normas jurídicas são 
políticas traduzidas em linguagem jurídica. Assim como um olhar normativo 
deve considerar o aspecto político das normas jurídicas, um olhar estratégico 
deve considerar o aspecto jurídico das estratégias políticas, não fazendo 
“economia de conceitos jurídicos”, como apontou Shapiro (1963) ao defender a 
importância da abordagem da Jurisprudência Política. É preciso sempre 
considerar que a decisão judicial “ao mesmo tempo em que dá ganho de causa 
a um sujeito, determina o significado da norma geral para o caso particular” 
(Koerner et al, 2013: 84). 
Em segundo lugar, esses novos estudos apontam que uma análise 
política do Judiciário precisa considerar que a tarefa de resolução de litígios, a 
tomada de decisão judicial, é apenas um dos papéis que são atribuídos ao 
Poder Judiciário e aos juízes nas democracias constitucionais 
contemporâneas. É preciso entender que a decisão judicial é mais um 
momento da produção normativa ou da determinação do significado das 
normas e de afirmação da autoridade política que a está fazendo, no que a 
contraposição entre a forma diática de resolução de conflitos no legislativo com 
a forma triádica de resolução de conflitos no Judiciário pode até ajudar a 
enxergar posicionamentos políticos, mas constitui ferramenta limitada de 
análise, pois ainda há muito processo de produção normativa antes e depois da 
decisão judicial. 
Em terceiro lugar, apontam que é preciso considerar que as relações 
entre decisões judiciais, normas jurídicas e sociedade não se definem em 
termos instrumentais, em relações de causa e consequência ou comando e 
obediência. É preciso considerar o aspecto constitutivo do direito e da 
construção do mundo social, na medida em que as normas jurídicas fazem 
parte da ordenação das relações sociais e das ideias do que os indivíduos 
60 
 
 
 
consideram justo dentro de uma determinada formação social. As regras não 
estão disponíveis como vasos vazios a serem preenchidos pelos interesses. 
Por fim, esses estudos também apontam que é preciso pensar em novos 
modelos de análise para se pensar o Poder Judiciário em detrimento dos tão 
utilizados termos da “judicializaçao da política” ou do “ativismo judicial”, que, 
além de não servirem para explicar o caso brasileiro, tem problemas 
conceituais e teóricos de grandes dimensões, na medida em que separam 
política e direito e mantem uma visão idealizada e formalista sobre este último. 
Para o caso brasileiro, seria preciso, antes de tudo, adotar uma 
perspectiva histórica e empírica, de forma a incentivar a pesquisa de outros 
períodos anteriores a 1988, de forma a levantar mais elementos de análise, 
sobretudo institucionais e sistêmicos, para pensarmos o formato institucional 
que temos hoje e o papel político do Judiciário e dos juízes. São estudos que 
apontam a necessidade de mais pesquisas exploratórias sobre o Poder 
Judiciário brasileiro, de forma a desfazer a dualidade que vem se criando com 
o uso recorrente do termo da judicialização da política. 
 
1.6 – Conclusões: “Let a hundred flowers bloom” 
Buscamos mostrar através dessa breve exploração bibliográfica que é 
possível fazer uma leitura mais abrangente e menos padrão das diversas 
abordagens de análise presentes no debate norte-americano sobre o Poder 
Judiciário, apontando semelhanças e pontos de contato que se dão 
especialmente em função da maneira pela qual as abordagens mobilizam as 
diferentes dimensões de análise. 
Vimos que praticamente todas as abordagens individualistas, até mesmo 
as behavioristas judiciais mais padrões, apresentaram trabalhos que não se 
contentam com a explicação centrada na escolha e nas preferências políticas 
individuais, buscando levantar e responder novas questões, e assim 
adentrando em dimensões institucionais e estruturais de análise. Vimos 
também que os trabalhos de cunho estruturalista, que tendem a não dar 
autonomia para o indivíduo, acabaram compartilhando visões instrumentalistas 
61 
 
 
 
das instituições, dando importância aos interesses individuais e, assim, 
aproximando-se de pressupostos de abordagens de cunho individualista. 
Vimos, por fim, que o despertar de recentes trabalhos empíricos de cunho 
institucionalista nos mostraram a importância e o legado das análises de 
caráter exploratório e não somente explicativo, ou seja, daqueles 
individualistas, estruturalistas e institucionalistas que romperam as margens de 
suas abordagens e desenvolveram noções mais abrangentes de indivíduo, de 
instituição e de estrutura. 
Embora reconheçamos que os trabalhos que se aventuram pelo 
caminho da multidimensionalidade ou da análise exploratória apresentam 
limites claros do ponto de vistada ciência positivista, não produzindo teorias, 
leis gerais e nem relações claras de causa e consequência, tais críticas 
parecem um tanto deslocadas ou sem sentido na medida em que não se 
questiona se esses trabalhos tinham por objetivos os nortes traçados pela 
ciência positivista. Mesmo que eles assim almejassem, o reconhecimento da 
importância teórica de análises exploratórias, como estudos em profundidade e 
das análises de caso, já é uma discussão bastante desenvolvida, no que o 
debate em termos de oposição (como fez Gerald Rosenberg ao criticar o 
trabalho do Michael McCann), chega a parecer ultrapassado. 
É importante reconhecer que ambos tipos de análise, unidimensional e 
multidimensional, explicativa e exploratória, são passos importantes e ao 
mesmo tempo limitados para o entendimento do que é, do que faz e de que 
como atua o Poder Judiciário. Mas o que esse pequeno estudo procura 
argumentar é que, embora as análises multidimensionais e exploratórias 
tenham limitações do ponto de vista científico positivista, elas são 
demonstrativas de que a troca teórica e metodológica entre as diferentes 
abordagens é inevitável, levando-as a sair de esquemas teóricos e 
metodológicos rígidos e fechados. 
62 
 
 
 
Capítulo 2 – Um panorama das políticas 
governamentais de erradicação do trabalho escravo 
rural 
 
2.1 – Introdução 
O objetivo deste segundo capítulo é o de apresentar um panorama das 
políticas de erradicação do trabalho escravo rural, de forma a mostrarmos a 
existência de períodos que se diferenciam pelas ações e políticas 
implementadas, bem como pelas avaliações e críticas feitas às medidas 
governamentais implementadas ao longo dos anos. A ideia central é a de 
descrevermos as definições e caracterizações sobre o trabalho escravo feitas 
por cada política, as suas aproximações e distanciamentos com relação a 
outros entendimentos existentes, e de que maneira elas se modificam ao longo 
do tempo. Trata-se, sobretudo de um exercício exploratório que nos permite 
excursionar dentro do tema escolhido e sugerir a importância de determinadas 
questões para pensarmos posteriormente na atuação do Poder Judiciário em 
cada caso analisado. 
Defendemos a tese de que, do ponto de vista político institucional ou 
formal, é possível observar uma linha “evolutiva” no quadro das políticas 
governamentais que vem sendo implementadas desde meados dos anos 1980 
até os dias de hoje para a erradicação do trabalho escravo rural. É possível 
identificar a existência de períodos distintos, cada qual constituindo “um passo 
à frente” na expansão e fortalecimento do dos direitos de cidadania no 
ambiente rural brasileiro. É possível observar a criação e a implementação de 
medidas institucionais cada vez mais integradas, estruturalmente fortalecidas e 
amplamente apoiadas por governantes e diversos setores da sociedade. É 
possível observar que a erradicação do trabalho escravo torna-se 
gradualmente o norte e a prioridade não somente dos governos, mas das 
instituições estatais (do Executivo, Legislativo e Judiciário) e da sociedade 
brasileira como um todo, no que a defesa da cidadania e da dignidade humana 
63 
 
 
 
é encontrada tanto na fala quanto nos diferentes projetos e propostas, como 
num grande uníssono ou apelo nacional. 
Contudo, também podemos observar que esse quadro institucional 
“evolutivo” “co-avança-retrae” com um acirrado jogo político que adiciona 
diálogos e atuações truncadas entre diferentes atores e seus respectivos 
“projetos” de cidadania para o campo. Esse jogo político, por sua vez, expressa 
ou demonstra as contradições historicamente presentes na expansão dos 
direitos de cidadania, especialmente dos direitos trabalhistas, no ambiente rural 
brasileiro. Assim, podemos ver um entrelaçar constante entre aspectos 
institucionais, aspectos ligados aos interesses particulares, e aspectos 
estruturais. 
Para mostrar isso, este capítulo está dividido em quatro partes. 
Primeiramente, descrevemos o período entre 1970 e 1984, no qual se 
registram as primeiras denúncias de trabalho escravo e as avaliações 
sistêmicas e estruturais feitas pelo clero progressista sobre o projeto 
desenvolvimento do regime militar e o avanço do capitalismo no campo. Num 
segundo momento, descrevemos o período entre 1985 e 1994, no qual surgem 
as primeiras políticas ou as políticas embrionárias voltadas para a questão do 
trabalho escravo no contexto político da abertura política e da transição 
democrática. Num terceiro momento, descrevemos o período entre 1995 e 
2002, marcado, sobretudo, pelo reconhecimento público do trabalho escravo e 
pelo comprometimento governamental frente ao cenário internacional e frente 
às pressões internas. Na última parte, descrevemos o período entre 2003 e 
2012, conformado pelo avanço de políticas institucionalmente integradas e 
fortalecidas e pelas pressões e embates em torno da caracterização do que é o 
trabalho escravo. 
 
2.2 – Primeiras denúncias e sua visão sistêmica (1970-1984) 
 Entre o início dos anos 1970 e fins dos anos 1980, o quadro é marcado, 
sobretudo, pelo encaminhamento das primeiras denúncias de trabalho escravo 
rural, e pelo acirramento das lutas políticas no campo. Em 10 de outubro de 
64 
 
 
 
1971, dom Pedro Casaldáliga, em sua carta pastoral “Uma Igreja na Amazônia 
em conflito com o latifúndio e a marginalização social”, denuncia as formas 
pelas quais o regime militar combinava de maneira perversa seu projeto 
nacional desenvolvimentista com políticas de incentivos fiscais para o setor 
privado, que levavam a uma crescente concentração de terras e a uma 
consequente expulsão e marginalização de grandes massas de camponeses. 
 Entre os diversos problemas que Casaldáliga identifica como sendo os 
resultados da expansão do capitalismo e da agropecuária sobre a região 
amazônica, ele dedica uma seção especial de sua carta para falar da questão 
da mão-de-obra que era empregada na derrubada da mata para a construção 
de pastos e plantações, descrevendo de forma ampla e detalhada a situação e 
as condições de vida e de trabalho dos que ele chamou de “peões escravos”: 
“o método de recrutamento é através de promessas de bons salários, 
excelentes condições de trabalho, assistência médica gratuita, 
transporte gratuito, etc. (...). Os peões, aliciados fora, são 
transportados em avião, barco ou pau-de-arara para o local da 
derrubada. Ao chegar, a maioria recebe a comunicação de que terão 
que pagar os gastos da viagem, inclusive transporte. E já de início 
têm que fazer suprimento de alimentos e ferramentas nos armazéns 
da fazenda, a preços muito elevados. (...). Para os peões não há 
moradia. Logo que chegam, são levados para a mata, para a zona da 
derrubada, onde tem que construir, como puderem, um barracão 
para se agasalhar, tendo que providenciar sua própria alimentação. 
As condições de trabalho são as mais precárias possíveis. (...). Os 
medicamentos quase sempre são insuficientes e em muitas vezes 
pagos, inclusive amostras grátis. Por tudo isto, os peões trabalham 
meses, e ao contrair malária ou outra qualquer doença, todo o seu 
saldo é devorado, ficando mesmo endividados com a fazenda. (...). 
Esse trabalho pesado, e nestas condições, é executado por gente de 
toda idade, inclusive menores. (...). Não há com os peões nenhum 
contrato de trabalho. Tudo fica em simples combinação oral com o 
empreiteiro. Os pagamentos são efetuados ao bel-prazer das 
empresas. Muitas vezes, usa-se o esquema de não pagar, ou pagar 
só com vales, ou só no fim de todo trabalho realizado, para poder 
reter os peões. (...). Muitos, doentes, sentindo-se sem forças e 
temendo morrer naquelas condições, não conseguindo receber o que 
lhe é de direito, fogem para sobreviver. Outros ainda fogem por se 
verem cada vez mais endividados. E nestas fugas são barrados por 
pistoleiros pagos para tanto” (Casaldáliga, 1971: 19-20). 
 
O que podemos notarnesta descrição, bem como no teor da carta 
escrita por dom Pedro Casaldáliga é que ela abrange um conjunto amplo de 
65 
 
 
 
características que ajudam a configurar não apenas as situações de exploração 
extrema, mais difíceis de negar (como as que se dão através do não-
pagamento e do uso da violência física e vigilância armada), mas também as 
situações “propiciadoras” dessa exploração extrema, que vulnerabilizam e 
submetem, tanto quanto a violência, os trabalhadores rurais ao trabalho 
escravo (como o seu aliciamento e deslocamento para locais ou estados muito 
distantes de sua residência, as condições degradantes de habitação, 
alimentação e de saúde, e o endividamento com o fazendeiro). Para 
Casaldáliga, o uso da violência física claramente aparece como um elemento 
importante para a caracterização do trabalho escravo rural na 
contemporaneidade; porém, a sua ausência de modo algum descaracteriza a 
situação enquanto tal. Ela é “apenas” o instrumento mais extremo e visível da 
expansão do capitalismo aliado ao latifúndio. 
Essa caracterização feita por Casaldáliga sobre a situação da 
exploração do trabalho rural e sua denominação como “trabalho escravo” 
marcou uma diferenciação muito importante frente a outras caracterizações e 
denominações já existentes e formalmente reconhecidas pelas instituições 
políticas brasileiras. Tal importância se deu, sobretudo, por ela ter 
“holofotizado”, no momento de ápice do projeto agrário do regime militar, as 
contradições perversas desse projeto, e por ter iniciado uma delimitação de 
entendimentos e posicionamentos políticos acerca do trabalho escravo rural 
que se acirram até os dias de hoje. 
De 1940 até a publicação da carta-denúncia de dom Pedro Casaldáliga 
em outubro 1971, podemos encontrar cerca de 8 medidas institucionais 
brasileiras relacionadas às condições de trabalho do trabalhador rural e 5 
relacionadas especificamente à questão do trabalho escravo. 
 
 
66 
 
 
 
Tabela 1 - Medidas Formais para o Trabalho Rural e para o Trabalho Escravo (1940-1969) 
Ano Medida 
1940 
Art. 149 do Código Penal estabelece a pena de 2 a 8 anos de reclusão para quem 
"reduzir alguém a condição análoga à de escravo" 
1957 
Ratificação da Convenção nº 11 da OIT (Direito de Sindicalização na Agricultura) 
Ratificação da Convenção nº 12 da OIT (Indenização por Acidente de Trabalho na 
Agricultura) 
Ratificação da Convenção nº 29 da OIT (Trabalho Forçado ou Obrigatório) 
Ratificação da Convenção nº 99 da OIT (Salário Mínimo na Agricultura) 
Ratificação da Convenção nº 101 da OIT (Férias Remuneradas na Agricultura) 
1963 Estatuto do Trabalhador Rural 
1965 
Ratificação da Convenção nº 110 da OIT (Condições de Emprego dos Trabalhadores 
em Fazendas) 
Ratificação da Convenção nº 105 da OIT (Abolição do Trabalho Forçado) 
1966 
Promulgação da Convenção sobre a Escravatura de 1926 
Promulgação da Convenção Suplementar sobre a Abolição da Escravatura de 1956 
1969 
Ratificação da Convenção nº 117 da OIT (Objetivos e Normas Básicas da Política 
Social) 
1971 
Criação do PRORURAL (Programa de Assistência Técnica e Extensão Rural) e de sua 
agência executiva, o FUNRURAL (Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural) 
 
O que podemos observar é que a maioria dessas medidas, em conjunto, 
ajuda a conformar uma diferenciação entre trabalho escravo e trabalho forçado 
ou obrigatório, direta ou indiretamente. O trabalho escravo propriamente dito 
seria a antiga forma de mão-de-obra do sistema escravista, chancelada por um 
ordenamento jurídico, ainda que ele pudesse ser encontrado até início do 
século XX e não mais amparado juridicamente. O trabalho forçado ou 
obrigatório, por sua vez, seria o que de fato encontraríamos na 
contemporaneidade, tendo por fator essencial não mais um “sistema 
escravista”, mas ocorrências “particularizadas”, embora massivas, a serem 
enfrentadas com um avanço progressivo dos direitos do trabalhador. Seriam 
situações extremas de violação das leis e normas trabalhistas, nas quais um 
indivíduo se vê forçado ou obrigado a realizar um trabalho contra a sua 
vontade, sob imposição, ameaça ou violência. Vejamos isso dentre as medidas 
por nós listadas. 
67 
 
 
 
As Convenções nº 29 e nº 105 da OIT, ratificadas pelo Brasil em 1957 e 
196523, assim como a “Convenção sobre a Escravatura de 1926”, promulgada 
no país em 196624, falam justamente em “trabalho forçado ou obrigatório”, até 
então caracterizado como “todo trabalho ou serviço exigido de um indivíduo 
sob ameaça de qualquer penalidade e para o qual ele não se ofereceu de 
espontânea vontade”. Não se trata de um “sistema” de trabalho forçado, mas 
de situações em que ele ocorre, e contra as quais os países signatários das 
convenções devem promover medidas para a sua erradicação completa25. 
Sendo central a questão da voluntariedade, ou seja, sendo o trabalho forçado 
somente o trabalho para o qual o trabalhador não se apresentou por livre e 
espontânea vontade, mas obrigado ou sob ameaça, os países signatários 
devem tomar todas as medidas necessárias, como as estabelecidas pelas 
Convenções de nº 11, 12, 99, 10126, 11027 e 11728 da OIT e pelo “Estatuto do 
 
23
 A convenção nº 29 foi aprovada pela OIT durante a 14ª Reunião da Conferência 
Internacional do Trabalho, em Genebra, em 10 de junho de 1930; e entrou em vigor no plano 
internacional a partir de 01 de maio de 1932. No Brasil, foi aprovada através do Decreto 
Legislativo Nº 24, de 29/05/1956, do Congresso Nacional; ratificada em 25/04/1957; 
promulgada através do Decreto 41.721, de 25/06/1957; e passou a ter vigência nacional a 
partir de 25/04/1958. A convenção nº 105 foi aprovada pela OIT durante a 40ª Reunião da 
Conferência Internacional do Trabalho, em Genebra, em 05 de junho de 1957. E ela entrou em 
vigor no plano internacional a partir de 17/01/1959. Ela foi aprovada no Brasil através do 
Decreto Legislativo Nº 20, de 30/04/1965, do Congresso Nacional. Foi ratificada em 
18/06/1965, e foi promulgada através do Decreto 58.822, de 14/07/1966. Passou a ter vigência 
nacional a partir de 18/06/1966. 
24
 Promulgada pelo Decreto n. 58.563, de 1º de junho de 1966. 
25
 A convenção nº 29 era mais restritiva que a de nº 105. Ela não proibia por completo e em 
todas as suas formas a utilização de trabalho forçado ou obrigatório, mas apenas descrevia os 
casos e as condições para que ele fosse utilizado, de modo a não ocorrerem “excessos” nessa 
exploração. Ele poderia ser aplicado por autoridades públicas sobre indivíduos condenados e 
julgados pela Justiça, desde que justificada a finalidade pública e coletiva do serviço, que não 
ultrapassasse o período de 60 dias dentro de um ano, que houvesse remuneração, que as 
horas de trabalho e a remuneração se dessem nas mesmas bases de um trabalhador livre, que 
houvesse indenização por acidente de trabalho, que o trabalhador não fosse transferido para 
lugares distantes e muito diferentes de seu habitat, e caso assim ocorresse que as autoridades 
propiciassem todas as condições de adaptação. Já a convenção nº 105 proibia toda e qualquer 
forma de trabalho forçado ou obrigatório. 
26
 Ratificadas pelo Brasil através do Decreto 41.721, de 25 de junho de 1957. 
27
 Promulgada pelo Brasil através do Decreto 58.826, de 14 de julho de 1966. 
28
 Promulgada pelo Brasil através do Decreto 66.496, de 27 de abril de 1970. 
68 
 
 
 
Trabalhador Rural” de 196329, para evitar o abuso de poder por parte dos 
empregadores. 
O interessante a se notar nessas medidas, sobretudo nas Convenções 
nº 29 e 105, e na Convenção sobre a Escravatura de 1926, é que elas mostram 
a importância de se regularizar algumas situações descritas por dom Pedro 
Casaldáliga. Elas dizem, por exemplo, que é preciso regularizar os contratos de 
trabalho, evitar os deslocamentos dos trabalhadores para longe de suas 
residências, garantir e regularizarpagamentos e salários, e garantir condições 
de habitação, alimentação e saúde adequadas, ainda que nada fosse realizado 
em termos concretos. Contudo, diferentemente de Casaldáliga, essas 
Convenções apontam que a ausência ou a precariedade dessas condições de 
trabalho são apenas “propiciadoras” e não “características” de trabalho forçado 
e, muito menos, de trabalho escravo. O que é determinante para a 
configuração de um quadro de trabalho forçado é a presença da violência, da 
imposição, da exigência de trabalho de um indivíduo contra a sua vontade. 
Para Casaldáliga, no entanto, as condições “propiciadoras” podem, por si 
mesmas, caracterizar um quadro de imposição, pois elas são tão ou mais mais 
capazes que a violência de retirar dos indivíduos sua autonomia e capacidade 
de escolha de um determinado trabalho. Aqui, a ideia de que os trabalhadores 
são livres para escolher um trabalho é contestada, dadas as condições de 
miséria, de marginalidade e de extrema necessidade, que reduzem as opções 
de sobrevivência para esses trabalhadores. 
Se nos voltarmos mais atentamente para o “Estatuto do Trabalhador 
Rural” de 1963, podemos extrair algumas considerações importantes acerca 
das condições propiciadoras. Do ponto de vista do avanço dos direitos dos 
trabalhadores rurais, o Estatuto pode ser considerado um avanço formal 
significativo, na medida em que foi o documento que regulamentou, pela 
primeira vez, as relações de trabalho no setor agrícola, reconhecendo direitos 
trabalhistas aos assalariados rurais, e fixando as condições do exercício do 
trabalho agrícola e proteções especiais aos trabalhadores (Wanderley, 2013). 
 
29
 Lei nº 4.214, de 2 de março de 1963. 
69 
 
 
 
Contudo, do ponto de vista do que significou a “proletarização” no campo, e do 
ponto de vista do que o Estatuto deixou de regular, ele se apresenta como um 
atestado de entendimentos e posicionamentos parciais acerca da exploração 
do trabalhador rural e da expansão dos direitos de cidadania no campo. 
Como nos mostra Margarida Maria Moura (1988), por exemplo, a 
regulamentação jurídica e a defesa judicial do trabalhador rural assalariado 
abriu um caminho de cidadania contraditório e perverso para uma grande 
massa de camponeses30. O projeto desenvolvimentista do regime militar, que 
incluía a expansão das fronteiras agrícolas através de incentivos fiscais para a 
iniciativa privada, resultou na saída ou na expulsão, sobretudo, de agregados e 
de posseiros do campo. Nesse quadro, as possibilidades que se abriram para 
esses camponeses foram duas, ficar ou sair das terras em que trabalhavam, 
possibilidades estas que, para Moura, levaram ambas a uma situacão 
crescente de marginalização e precariedade sistêmicas. 
Para aqueles que ficavam, dois caminhos eram possíveis: ficar nas 
terras sob um acordo informal, oral, com o proprietário, mantendo relações de 
favor para com ele e, assim, mantendo-se sob uma situação de insegurança, 
ao passo que podiam ser novamente expulsos em casos de mudança de 
proprietário e de rompimento do acordo feito; e o outro caminho seria ficar nas 
terras, mas, agora, sob a chancela jurídica de um contrato de trabalho, em que 
o camponês, inevitavelmente, acaba por abdicar de seus direitos sobre a terra 
para reivindicar acesso aos seus direitos enquanto trabalhador rural 
assalariado. 
Para aqueles que saíam, também se abriam dois caminhos: sair, mas 
tentar conseguir através de um processo judicial uma pequena indenização 
pelo tempo de serviço prestado ao proprietário, e depois tentar conseguir um 
pedaço de terra e sobreviver sob condições precárias, dada a falta de 
incentivos estatais e a concorrência desleal com os grandes produtores rurais 
financiados pelo Estado; e o outro caminho seria deixar a terra sem qualquer 
 
30
 A autora estuda os conflitos de terra e de trabalho vivenciados pelos trabalhadores rurais do 
Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais nos anos 1970 e 1980. 
70 
 
 
 
direito, ressarcimento ou indenizacão, ficando submetido à busca por trabalhos 
temporários e precários, conformando o que ficou conhecido por trabalhadores 
“bóias-frias”, trabalhadores volantes, ou como chamou Casaldáliga, por “peões 
escravos”. 
Diante desses diferentes caminhos, especialmente para aqueles que 
ficaram nas fazendas sob contrato de trabalho e para aqueles que saíram em 
busca de trabalhos temporários, o que significava o “Estatuto do Trabalhador 
Rural” de 1963? 
Para aqueles sob contrato de trabalho, o Estatuto, como já apontamos, 
tinha um sentido dúbio. Ele constituía o documento oficial da transformação do 
camponês no que José Graciano da Silva (1981) chamava de “proletário rural”, 
no tipo de trabalhador necessário às novas exigências do processo produtivo. 
Essa transformação, formalizada pelo Estatuto em 1963, seria, alguns anos 
depois, reafirmada e complementada pelo regime militar, com a criação, em 
maio de 1971, do “Programa de Assistência Técnica e Extensão Rural”, o 
PRORURAL, juntamente com sua agência executiva, o “Fundo de Assistência 
ao Trabalhador Rural”, o FUNRURAL31, poucos meses antes da publicação da 
carta pastoral de dom Pedro Casaldáliga. Como aponta Peter Houtzager 
(2004), com esse programa o regime militar consolidava seu projeto agrário, 
incorporando a legislação e a justiça trabalhista, bem como a sindicalização 
dos trabalhadores rurais, como instrumentos e estratégias centrais de 
integração nacional e de fortalecimento do Estado no campo, desmobilizando 
ou fragmentando a luta por terras. 
Por outro lado, no entanto, o Estatuto de 1963 e, especialmente o 
PRORURAL e o FUNRURAL de 1971, acabavam se apresentando como 
mecanismos ou instrumentos importantes de defesa dos direitos dos 
trabalhadores rurais frente aos proprietários empregadores, ainda que isso 
fosse, ao fim, funcional para o projeto agrário do regime militar. O Estatuto 
estabelecia regras sobre a remuneração e sobre o salário mínimo, de forma a 
garantir o pagamento em dinheiro e evitar as relações com base no favor; 
 
31
 Instituídos pela Lei Complementar nº 11, de 25 de maio de 1971. 
71 
 
 
 
estipulava que a jornada máxima de trabalho não deveria ultrapassar oito horas 
diárias; garantia o repouso semanal e as férias remuneradas; e estabelecia 
normas de segurança no trabalho. O PRORURAL e o FUNRURAL, por seu 
turno, e de forma efetiva, implementavam uma série de benefícios sociais, 
como pensões por aposentadoria, assistência médica e dentária, pensões para 
aposentados e deficientes físicos, ajuda financeira para funerais e, mais 
importante, não exigia a contribuição direta dos trabalhadores ao programa, 
recorrendo a um mecanismo de transferência da área urbana para a área rural. 
Assim, era apresentado aos camponeses, agora “trabalhadores rurais 
assalariados”, um “jogo” que eles não teriam como se recusar a jogar, dados os 
custos ainda maiores da sua não adesão, ainda que as medidas 
apresentassem limitações mesmo do ponto de vista da defesa dos direitos dos 
trabalhadores. 
O Estatuto de 1963, por exemplo, mantinha a possibilidade do 
empregador realizar descontos dos salários dos trabalhadores para gastos com 
moradia e com alimentação32. Tratava-se de uma limitação na medida em que 
a possibilidade do desconto salarial, como denunciada por Casaldáliga, 
acabava se tornando um instrumento de retenção dos trabalhadores contra a 
sua vontade, dado o seu envidamento para com o empregador, no que o 
Estatuto apresentava um entendimento limitado acerca de um dos principais 
mecanismos de submissão e vulnerabilização do trabalhador rural. Além disso, 
o Estatuto também apresentava algumas regulamentações dúbias acerca das 
condições de moradia e de higiene. Ele estabeleciaque as habitações deviam 
respeitar os “mínimos preceitos” de higiene, mas que deviam, ao mesmo 
tempo, levar em consideração “as condições peculiares de cada região”33. 
Como veremos mais para frente, o argumento acerca das condições locais, 
“normais” ou “culturais” de cada região será utilizado por atores políticos 
contrários às políticas de erradicação para defender a tese de que não se pode 
exigir que os empregadores rurais disponibilizem as mesmas condições que 
 
32
 Ver Capítulo III do Estatuto, que dispõe sobre regras para remuneração e salário mínimo. 
33
 Ver Capítulo VII do Estatuto, que dispõe sobre regras de higiene e de segurança no trabalho. 
72 
 
 
 
são exigidas para as áreas urbanas desenvolvidas. Para o campo, seria 
preciso pensar numa cidadania diferenciada, adequada às condições de cada 
região. 
As limitações dessas medidas se apresentavam de maneira ainda mais 
forte se analisados os seus efeitos para aqueles que saíam das fazendas à 
procura de trabalhos temporários ou sazonais, sem qualquer tipo de vínculo ou 
contrato de natureza trabalhista com o empregador. Como aponta Maria 
Conceição D’Incao e Mello (1976), o Estatuto, tal como foi promulgado em 
1963, simplesmente não apresentava qualquer tipo de medida ou garantia para 
o trabalhador “bóia-fria”, que se tornava cada vez mais a “solução menos 
onerosa para o empresário rural”34. O mesmo poderíamos dizer acerca do 
PRORURAL e do FUNRURAL do regime militar. Além disso, a exclusão não se 
constituía em ocorrências particularizadas, mas sim de forma sistêmica, dada a 
importância e funcionalidade crescente dessa marginalidade ou dessa massa 
de trabalhadores rurais excluídos para o andamento do projeto 
desenvolvimentista que se desenvolvia a todo vapor quando Casaldáliga 
escreveu suas denúncias. Nas palavras da autora: 
“[...] o “boia-fria”, pelo caráter intermitente do seu trabalho, se define 
como Exército Industrial de Reserva, no processo global da 
economia rural da região. Resultando do processo de liberação de 
mão de obra, por efeito do desenvolvimento do sistema capitalista de 
produção no campo, ele é reabsorvido como mão de obra mais 
barata e consequentemente mais vantajosa para a acumulação do 
capital. A sua participação no processo de produção se faz, portanto, 
através da depreciação dos salários ou do valor pago à força de 
trabalho. Esse fato o leva a vivenciar uma situação de extrema 
miserabilidade...” (D’Incao e Mello, 1976: 136) 
 
Dessa forma, portanto, o Estatuto, assim como a maioria das medidas 
tomadas pelo Brasil até a denúncia de Casaldáliga, conformavam um 
entendimento parcial acerca das formas pelas quais o trabalhador rural era 
explorado, e acerca das medidas necessárias para erradicá-las. Por isso 
afirmamos que a definição e a caracterização trazida por Casaldáliga em sua 
 
34
 A autora realizou estudos sobre os trabalhadores assalariados na região da Alta 
Sorocabana, no estado de São Paulo. 
73 
 
 
 
carta pastoral trazia uma inovação importante. A utilização do termo “escravo” 
não se apresentava, ao menos naquele momento e para o seu autor, como um 
recurso estilístico, de exagero ou, como alguns dirão, de “sensacionalismo”, 
mas que apontava o aspecto “sistêmico” da exploração do “peão escravo”, do 
“bóia-fria” ou do “trabalhador volante”. Tratava-se de uma nova forma de 
descrever um novo tipo de escravidão, e não ocorrências particularizadas do 
uso da violência ou da ameaça para reter trabalhadores contra a sua vontade. 
A submissão dos trabalhadores rurais se dava por meio de um processo mais 
arraigado à própria marginalização social e ao próprio processo institucional de 
defesa dos direitos dos trabalhadores rurais, que corria “descolado” (D’Incao e 
Mello, 1976) dos trabalhadores “peões”. Assim sendo, não seriam os critérios 
da violência e da vontade os critérios determinantes da submissão dos 
trabalhadores rurais. 
É certo que algumas medidas dentre as que listamos anteriormente, 
como o artigo 149 do Código Penal brasileiro de 194035 e a promulgação em 
1966 da Convenção Suplementar sobre a Abolição da Escravatura de 195636, 
traziam alguns elementos complementares em suas definições e/ou 
descrições. Contudo, não rompiam efetivamente com os entendimentos 
institucionais padrões. 
O artigo 149, muito breve, delimitava a pena de 2 a 8 anos de retenção 
para quem reduzisse alguém a condição “análoga à de escravo”, sem 
descrições ou tipificações sobre essa analogia. Além disso, o reconhecimento 
da “semelhança” com o trabalho escravo em nada ajudava a mudar o 
entendimento que já se tinha com o uso do termo “trabalho forçado”. 
Continuava-se a não reconhecer o caráter sistêmico da exploração que vinha 
sendo denunciada. Perpetuava-se o entendimento formalista de que não se 
poderia falar em “trabalho escravo” por não haver mais um regime jurídico que 
o chancele, ou por não se tratar de uma prática sistêmica e ordenadora da vida 
em sociedade. O trabalho “análogo à de escravo” poderia ser encontrado em 
 
35
 Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. 
36
 Promulgada pelo Decreto n. 58.563, de 1º de junho de 1966. 
74 
 
 
 
“situações” de exploração, que ocorrem dentro de um ordenamento jurídico que 
não mais aceita a escravidão37. 
A Convenção Suplementar, por seu turno, já reconhecia em seu texto 
uma das formas centrais de submissão do trabalhador, a servidão por dívida, 
que não dependia unicamente da violência, mas do processo de endividamento 
do trabalhador com seu empregador em função de descontos para 
alimentação, moradia, saúde e equipamentos de proteção no trabalho. 
Contudo, ainda que reconhecesse esse mecanismo, tomava-o como uma 
manifestação de trabalho forçado e obrigatório, não de trabalho escravo, e 
assim como uma ocorrência particularizada e não sistêmica de submissão do 
trabalhador rural. O trabalho escravo continuava a ser entendido apenas como 
aquele que ocorreu nos períodos de Império, dentro de um sistema escravista. 
Com isso, a carta pastoral de Casaldáliga constituiu marco significativo, 
e sua repercussão política não foi pouca, dada a sua representatividade 
enquanto uma verdadeira “declaração formal de guerra” (Vargas, 2003) ao 
projeto agrário do regime militar. Essa grande repercussão acabou por colocar 
luzes sobre os entendimentos e posicionamentos das autoridades acerca do 
problema. Na mídia, por exemplo, Águeda Aparecida da Cruz Borges (2007) 
nos mostra que foram várias as manifestações contrárias à carta já nos dois 
primeiros meses após sua publicação. 
Borges destaca, por exemplo, os editoriais “A má fé e a demagogia 
deste bispo”, do jornal “O Estado de São Paulo” (13/11/1971) e “A injustiça do 
documento sobre a Amazônia” do “Jornal da Tarde” de São Paulo 
(15/11/1971), ambos defendendo os latifundiários e tomando-os como os 
“desbravadores” do país. Destaca também a reação de algumas autoridades 
políticas. A Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), 
através do Cel. Igrejas Lopes, disse ao jornal “A Folha do Norte” do Pará 
(11/11/1971), que a carta pastoral de Casaldáliga era um documento 
“subversivo” e “caluniador”; e também declarou no “Jornal do Brasil” do mesmo 
 
37
 Como veremos mais adiante, a questão da analogia permanece no plano normativo 
brasileiro, muito embora os entendimentos tenham se diversificado entre os próprios juristas e 
outros atores políticos, gerando muitos debates até os dias de hoje. 
75 
 
 
 
dia que o assunto tratado na carta já era de conhecimento dos organismos de 
segurança do país, e que o Brasil era um país democrático, que garantia terra 
para todos, “latifúndios ou minifúndios”. Outras manifestações,ainda, vieram do 
governador do estado do Mato Grosso, José Fragelli, que disse ao jornal “O 
Globo” (16/11/1971), que o bispo havia exagerado e que suas denúncias eram 
injustas; e do senador do estado Correa da Costa, que alegou para a “Folha de 
São Paulo” (11/11/1971), não ter conhecimento de trabalho escravo no Mato 
Grosso. 
A autora também cita alguns jornais e publicações que, se não deram 
apoio explícito, ajudaram a divulgar as denúncias feitas por Casaldáliga, como 
seriam os casos do Jornal “O São Paulo” da arquidiocese de São Paulo 
(23/10/1971 e 20/11/1971); o “Jornal do Brasil” e a Tribuna da Imprensa”, do 
Rio de Janeiro (11/11/1971); “O Globo” (16/11/1971); a “Folha de São Paulo” 
(11/11/1971); e outros38. 
Em termos de formulação de medidas governamentais imediatas para a 
resolução dos problemas apontados por Casaldáliga, a grande repercussão da 
carta na mídia não teve efeitos concretos imediatos, até mesmo porque não se 
reconhecia entre as autoridades a existência do problema, ao menos não nos 
termos e nas caracterizações feitas pelo bispo. O Presidente do Incra, José 
Francisco Cavalcanti, chegou até a admitir, no “Jornal do Brasil” de 12/11/1971, 
que as denúncias representavam uma realidade que deveria ser modificada, 
mas não foi além das palavras. 
Por outro lado, contudo, no plano dos conflitos políticos no campo, à 
carta seguiu-se uma forte demarcação dos posicionamentos, em pressões 
políticas crescentes por parte da Igreja, e na perseguição e repressão violenta 
por parte dos fazendeiros e do Estado, quadro que se acirra exponencialmente 
durante os anos 1980. As denúncias de Casaldáliga em 1971 oficializam a 
ruptura entre a Igreja Católica brasileira e o Estado, resultando numa 
transformação importante em suas atividades pastorais (e também políticas) e 
 
38
 Essas notícias e jornais, assim com outros títulos, encontram-se disponíveis para consulta 
digital no site da Biblioteca Nacional Digital: http://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx. 
76 
 
 
 
na criação, em 1975, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), entidade que se 
tornaria a maior responsável pelo encaminhamento das denúncias de trabalho 
escravo rural no Brasil, e uma das entidades mais importantes na tarefa de 
catalogação e realização de pesquisas e relatórios sobre o tema. 
Entre 1970 até 1985, a CPT, assim como os setores mais progressistas 
da Igreja Católica, conformaram o único canal aberto de oposição ao regime 
militar, assumindo um papel importante como “incubador institucional” 
(Houtzager, 2004: 139), patrocinando a formação de novas organizações 
políticas dos trabalhadores rurais e uma nova visão e representação sobre 
seus direitos e necessidades. Ainda que tivessem, inicialmente, se pautado nas 
reivindicações trabalhistas por meio da legalidade, do que era admitido pelo 
regime militar, passaram depois a criar e a incentivar a criação de 
reivindicações e de organizações de trabalhadores rurais independentes do 
Estado (o que ficou conhecido por “novo sindicalismo”) e que conseguissem 
expulsar a capilaridade que o regime militar atingia no campo através de suas 
instituições trabalhistas. 
Calcado numa estrutura ideológica que mesclava “catolicismo profético e 
marxismo popularizado” (Houtzager, 2004: 142), o clero progressista, 
propagaria, ao menos até meados da década de 1980, uma interpretação e 
visão estrutural e sistêmica sobre a exploração do trabalho no campo, como a 
que vimos na carta-marco de dom Pedro Casaldáliga. Mas, como veremos, 
conforme a abertura política vai avançado, as visões da CPT vão se mesclando 
com as visões de novos participantes políticos e conformando parcerias de 
atuação e reivindicações institucionais e estruturais em comum. Seus 
relatórios, publicados anualmente desde 1985, vão expressando esse quadro 
de mudança. Ela mantem sua interpretação sistêmica acerca do trabalho 
escravo rural, mas também começa a focar gradualmente na atuação das 
instituições políticas brasileiras, sobretudo do Judiciário, enfatizando os 
interesses em disputa e a falta de vontade política. 
 
77 
 
 
 
2.3 – Políticas embrionárias e o jogo político (1985-1995) 
Entre 1985 e 1995, as políticas voltadas para a questão do trabalho 
escravo rural expressam de modo visível a crescente disputa de interesses em 
torno da questão agrária, resultante do processo de abertura e de 
redemocratização das instituições políticas. Ao mesmo tempo em que 
observamos o nascimento de políticas voltadas para a repressão do trabalho 
escravo rural, incorporando, ao menos no âmbito formal e programático, 
algumas propostas de mudanças estruturais no campo, também percebemos a 
permanência de medidas, e dessa vez concretas, voltadas para a adequação 
ou submissão daquelas propostas a interesses e projetos remanescentes do 
regime militar. 
Em geral, essas políticas, como frutos do pacto da transição, 
incorporaram em sua formulação os interesses e os entendimentos de vários 
atores políticos. Ao menos enquanto formulação, enquanto medida no papel, 
não houve restrições na adoção da definição do problema como “trabalho 
escravo”. Posteriormente, contudo, essas políticas foram reformuladas antes 
mesmo de serem implementadas ou durante sua própria implementação, na 
prática. São nessas reformulações ou adaptações que se mostraram definições 
distintas e, até mesmo, a simples negação de “trabalho escravo”, sem qualquer 
justificativa ou caracterização alternativa, bloqueando ou impedindo o avanço 
de medidas de caráter mais estrutural, como a reforma agrária, e medidas mais 
severas de punição de proprietários de terra que utilizavam mão de obra 
escrava. Além disso, à inefetividade das políticas, devido à sua curvatura aos 
interesses do grande latifúndio e com a chancela dos poderes do Estado, 
seguem greves de trabalhadores rurais, manifestações, ocupações e, com 
elas, a forte repressão no campo, exercida tanto pelos proprietários quanto 
pelo próprio Estado, contra trabalhadores rurais, movimentos, sindicatos, e 
padres e membros da CPT. 
As denúncias e críticas à inefetividade das políticas e à inoperância e 
falta de vontade política dos atores estatais, especialmente do Poder Judiciário, 
tornam-se o foco central dos documentos e relatórios produzidos neste 
78 
 
 
 
período, principalmente pela CPT e por periódicos e revistas de movimentos de 
trabalhadores rurais. Nesses documentos, podemos encontrar, sobretudo, uma 
preocupação em identificar o posicionamento do Judiciário e dos juízes no jogo 
político de interesses, para verificar “de que lado” do conflito eles estavam. Os 
órgãos internacionais, por sua vez, cobravam maior comprometimento político 
do Estado brasileiro, resultando, ao final do período, no reconhecimento 
público, por parte do presidente da República, da existência de trabalho 
escravo no Brasil, após denúncias levadas à Comissão Interamericana de 
Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH-OEA) e à 
Organização das Nações Unidas (ONU). Vejamos o quadro desse período 
através de uma breve descrição das políticas e das críticas e relatórios 
publicados por alguns atores políticos centrais. 
 
 
79 
 
 
 
Tabela 2 - Medidas Formais para o Trabalho Rural e para o Trabalho Escravo (1985-1994) 
Ano Medida 
1985 
Criação da Coordenadoria de Conflitos Agrários do Ministério da Reforma e 
Desenvolvimento Agrário e do Trabalho (MIRAD) 
Plano Nacional de Reforma Agrária 
1986 
Firma-se um Protocolo de Intenções para conjugar esforços no PA, MA e GO, com a 
participação da CONTAG e da CNA para coibir violações dos direitos sociais dos 
trabalhadores rurais 
Termo de Compromisso para erradicar o trabalho escravo entre o Ministério da Justiça, 
Polícia Federal, governos estaduais e respectivas forças policiais 
1987 Mutirão Contra a Violência presidida pelo ministroda Justiça Paulo Brossard 
1988 
Constituição de 1988 - afirma a igualdade de direitos entre trabalhadores urbanos e 
rurais e estabelece a "função social da propriedade" 
1990 
Ratificação da Convenção nº 135 da OIT (Proteção de Representantes de 
Trabalhadores) 
1991 
Instituída uma Comissão Especial de Inquérito no âmbito do Conselho de Defesa dos 
Direitos da Pessoa Humana, do Ministério da Justiça, com a finalidade de investigar os 
casos de violência no campo e as denúncias de trabalho escravo. 
1992 
Programa de Erradicação do Trabalho Forçado e do Aliciamento de Trabalhadores 
(PERFOR). 
1993 
É criada uma Subcomissão e um Grupo de Trabalho na Câmara dos Deputados, 
composto por pela CPT, CONTAG, Procuradoria da República, e outras instituições, 
para elaborar um projeto de lei voltado para a conceituação mais precisa do crime, a 
competência para investigá-lo, processá-lo e julgá-lo, e a previsão de aplicação de 
penalidades mais severas. 
1994 
Ratificação da Convenção nº 141 da OIT (Organizações de Trabalhadores Rurais) 
Instrução Normativa Inter secretarial de 24/3 no âmbito do Ministério do Trabalho, 
contendo normas procedimentais para a atuação da fiscalização no meio rural 
É assinado um Termo de Cooperação entre o MTE, o MPF, o MPT e a PF para garantir 
a conjugação de esforços no sentido de prevenção, repressão e erradicação do trabalho 
escravo 
 
As reivindicações com relação ao trabalho escravo rural foram 
incorporadas dentre uma das primeiras medidas tomadas pelo novo governo 
civil. Em abril de 1985, foi criado o Ministério Extraordinário para o 
Desenvolvimento e a Reforma Agrária (Mirad), fruto de uma aliança feita entre 
o Movimento Sindical dos Trabalhadores Rurais e a Aliança Democrática, na 
qual o Movimento concedia apoio à Aliança em seu projeto de transição em 
troca de apoio governamental para um programa de reforma agrária nacional 
(Figueira, 1999; Houtzager, 2004). O objetivo central do Mirad seria não 
somente o de dar andamento a esse programa, como também, posteriormente, 
de concentrar recursos e esforços institucionais para o encaminhamento de 
80 
 
 
 
denúncias de trabalho escravo rural e para a realização de fiscalizações, 
chegando, inclusive, a propor o corte de incentivos fiscais e a desapropriação 
das terras onde fossem encontrados trabalhadores escravos. 
No que tange à reforma agrária, o governo abriu, em maio de 1985, um 
prazo de 30 dias para apresentação de sugestões ao Plano Nacional de 
Reforma Agrária, possibilitando que diversas organizações, tanto de 
trabalhadores rurais quanto de fazendeiros e proprietários, participassem do 
processo. Os principais pontos do Plano residiam na desapropriação por 
interesse social (tendo por meta assentar 1,4 milhões de famílias entre 1985 e 
1989), e na indenização através do Imposto Territorial Rural (ITR), com valor 
abaixo do mercado (Oliveira, 2007). 
No que tange ao trabalho escravo rural, o Mirad, junto ao Ministério do 
Trabalho, e com o apoio da Confederação Nacional de Agricultura (CNA) e da 
Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), prometeu 
concentrar recursos para a fiscalização onde ocorressem as denúncias; e 
decidiu que os proprietários de fazendas “flagrados no uso de escravos ou em 
condições muito irregulares de mão-de-obra, além de serem processados 
criminalmente”, poderiam também perder os incentivos fiscais e, em casos 
extremos, seriam desapropriados. Com isso se firmou o Protocolo de Intenções 
e o Termo de Compromisso em 1986, e se criou o “Mutirão Contra a Violência” 
em 1987. 
Na prática, contudo, essas medidas se alteraram significativamente ou 
nem saíram do papel. Com relação à reforma agrária, além de ter-se estendido 
o prazo para a apresentação de sugestões, em função de pressões exercidas 
pelos fazendeiros, a primeira redação do “Plano Nacional de Reforma Agrária” 
foi significativamente alterada depois de diversas redações até a definitiva em 
outubro de 1985, que, segundo a CPT (1985: 21), “ficou a cargo de homens de 
absoluta confiança dos latifundiários, como, por exemplo, o jurista Célio Borja”. 
Além disso, ao Plano foi anexado outro documento chamado “Política Nacional 
de Desenvolvimento Rural”, que colocava a reforma agrária como uma medida 
auxiliar do desenvolvimento (CPT, 1985: 13). A desapropriação foi colocada 
como medida secundária (Oliveira, 2007); o Plano não mais tinha por objetivo 
81 
 
 
 
“mudar a estrutura fundiária”, mas apenas “contribuir para modificar o regime 
de posse e uso da terra”; não foram decretadas as áreas prioritárias para a 
reforma agrária, remetendo a escolha para o nível regional, mais susceptível às 
pressões políticas locais (Ramos Filho, 2008); ficaram muito mais flexíveis as 
regras e os critérios para considerar as terras como improdutivas (Medeiros, 
2003); e as metas de assentamento foram cumpridas apenas em 8,9% 
(Santos, 2009 apud Vecina, 2012: 4). Posteriormente, ainda, com a vigência da 
Constituição de 1988, que decretava que as indenizações deveriam ser feitas 
mediante prévia e justa indenização, os ruralistas conseguiriam, com o início 
dos anos 1990, enfraquecer as discussões em torno da reforma agrária e fazer 
os valores das indenizações serem baseados de acordo com o mercado e não 
mais de acordo com o Imposto Territorial Rural (Medeiros, 2003). 
Segundo a CPT (1986), esse quadro de inefetividade das medidas de 
reforma agrária piorava quando posto na prática, ao passo que o Poder 
Judiciário atuava em favor dos fazendeiros, anulando as poucas e frágeis 
desapropriações feitas pelo Poder Executivo e reprimindo as reações dos 
trabalhadores rurais, gerando mais conflito e violência no campo. Essa mesma 
crítica se repetia entre o Movimento dos Trabalhadores sem Terra, que dizia 
haver sempre “dois pesos e duas medidas” para o cumprimento da lei, tanto 
por parte da Polícia quanto por parte do Poder Judicíário: 
“Quando um delegado diz que vai “intimar” posseiros a depor, sua 
frase pode ser traduzida por trazê-los presos, deixá-los passar a 
noite na cadeia, e fichá-los antes de tomar os depoimentos. No caso 
de um fazendeiro, a intimação transforma-se em convite, pois “é 
certo que cedo ou tarde o fazendeiro irá comparecer e não irá fugir”, 
explica o delegado de Conceição do Araguaia. [Por sua vez], As 
decisões do Poder Judiciário estão muito mais sujeitas ao humor e 
interesses pessoais de juízes e promotores que às leis em vigor no 
país” (MST, 1986a: 10). 
 
Em outros momentos, ainda, o MST acusaria o Poder Judiciário de ser 
“controlado” pelos latifundiários e de tornar a tramitação dos processos “muito 
complicada e demorada” (MST, 1986a: 6). Essas avaliações continuaram 
82 
 
 
 
presentes ao menos até o fim dos anos 1980, como se pode ver nas edições 
do Jornal dos anos seguintes, sobretudo em 1987 e 198939. 
A crítica ao Poder Judiciário não vinha somente por parte da CPT e dos 
movimentos dos trabalhadores rurais, mas também do próprio Poder Executivo, 
que tentava argumentar que a reforma agrária não se concretizava por causa 
dos obstáculos postos pelo Poder Judiciário, como mostravam as declarações 
do ministro do Mirad (MST, 1986b: 11). Contudo, tal justificativa não convenceu 
a CPT e os movimentos dos trabalhadores rurais, muito embora eles 
reconhecessem no Judiciáro e nos juízes brasileiros grande parcela de 
responsabilidade pela impunidade e pela violência no campo, como mostra a 
CPT em seu relatório de 1992: 
“Sem excluir a responsabilidade de outros setores e sem cair no 
absurdo de responsabilizar apenas e tão somente o Judiciário por 
toda a situação de violência no campo, é preciso ressaltar que, dos 
Poderes do Estado, talvez seja ele o que mais tenha contribuído para 
que a violência perdure. É do Judiciário o poder e a competência, 
portanto, a responsabilidade para dizer o direito, aplicar e distribuir 
justiça na solução dosconflitos. Porém, o que se tem constatado é 
que a sua atuação resulta em mais intranquilidade social; em mais 
conflitos” (CPT, 1992: 31). 
 
Tanto a CPT quanto os movimentos dos trabalhadores rurais falavam da 
inoperância governamental como um todo, questionavam os números de 
desapropriações apresentadas pelo ministro, e ressaltavam, assim como a 
ABRA (Mello, 1986: 55) que a falta de vontade política vinha de diversas 
autoridades públicas e já se colocava na alteração significativa do Plano 
Nacional de Reforma Agrária. 
Com relação às medidas para o trabalho escravo rural, por sua vez, o 
quadro não foi muito distinto. Segundo Ricardo Rezende Figueira (1999), a 
participação da parte patronal (da Confederação Nacional de Agricultura) nas 
fiscalizações colocou impedimentos para os flagrantes, na medida em que as 
fazendas denunciadas podiam ser alertadas com antecedência. Nesse caso, o 
 
39
 As edições do Jornal dos Trabalhadores Sem Terra estão disponíveis para consulta em: 
http://www.docvirt.com/WI/hotpages/hotpage.aspx?bib=HEMEROLT&pagfis=11219&pesq=&url
=http://docvirt.no-ip.com/docreader.net. 
http://www.docvirt.com/WI/hotpages/hotpage.aspx?bib=HEMEROLT&pagfis=11219&pesq=&url=http://docvirt.no-ip.com/docreader.net
http://www.docvirt.com/WI/hotpages/hotpage.aspx?bib=HEMEROLT&pagfis=11219&pesq=&url=http://docvirt.no-ip.com/docreader.net
83 
 
 
 
Mutirão Contra a Violência também se mostrou ineficaz e enviesado, dada a 
recusa, por parte do ministro da Justiça, Paulo Brossard, em aceitar a 
participação de trabalhadores vítimas, de sindicalistas e de membros da CPT 
para atuarem na investigação e fiscalização. O resultado foi que nenhum 
imóvel foi desapropriado por utilizar mão-de-obra escrava. 
O Jornal dos Trabalhadores Sem Terra, em sua edição de abril de 1986, 
relavata casos de trabalho escravo no estado de Rondônia, denunciados pela 
CPT e por trabalhadores fugidos, para os quais as autoridades não 
apresentaram qualquer solução, demonstrando inoperância e falta de vontade 
política. Na edição de junho, o jornal trazia outro caso em que um juiz e 
promotores locais não entenderam que os trabalhadores eram escravos, mas 
“simples vagabundos” (MST, 1986c, n. 53: 16). Segundo o MST, os 
“latifundiários escravizadores” eram protegidos pelo próprio Poder Judiciário, 
que impedia a continuação dos processos e das investigações, mesmo quando 
as denúncias de trabalho escravo feitas pela CPT se confirmavam com as 
fiscalizações (MST, 1986c: 8). Em 1991, a Comissão Especial de Inquérito 
reforçou tais críticas, concluindo que as principais razões da violência no 
campo estavam diretamente ligadas à ação enviesada ou à completa omissão 
do Estado, especialmente do Poder Judiciário (CPT, 1992: 31)40. 
 
40
 Essa é uma das poucas informações que conseguimos encontrar sobre os resultados da 
Comissão Especial de Inquérito. Esta Comissão, assim como outras medidas tomadas pelo 
governo entre 1985 e 1995, quase não apresentam relatórios claros e sistemáticos para 
consultas sobre fiscalizações, libertações, pagamentos de indenização e outras ações. Tanto 
que é assim que, quando os relatórios da CPT, ou mesmo os jornais do MST, e a literatura em 
geral, citam medidas como essa da Comissão Especial de Inquérito, do Mutirão contra a 
Violência e outras do período em questão, a citação não é seguida de qualquer referência a 
documentos e nem dados sobre os resultados de suas atuações, mas fundamentalmente de 
notícias. Os poucos números que encontramos sobre denúncias, fiscalizações e outras ações 
para esse período, são contabilizados e registrados, sobretudo, pela CPT em seus relatórios 
anuais. De outra maneira, é possível encontrar dados dispersos e sem fontes seguras. 
Sabemos que o Mirad, a primeira das medidas voltadas para o encaminhamento de denúncias 
e fiscalizações, foi um dos poucos que produziu relatórios, que se encontram disponíveis para 
consulta física no Arquivo Edgard Leuenroth (AEL) da Unicamp. Em consulta, localizamos um 
total de 37 caixas ainda não catalogadas e arquivadas contendo documentos variados do 
Mirad. Até o momento, não achamos os relatórios específicos sobre as denúncias e 
fiscalizações feitas pelo Ministério, que nos ajudaria a verificar de modo mais específico o que 
o órgão estava entendendo por “trabalho escravo”. Achamos apenas as diversas cartas de 
cidadãos e de organizações diversas que foram enviadas ao Presidente José Sarney como 
sugestões ao Plano Nacional de Reforma Agrária. 
84 
 
 
 
 Essas mesmas críticas foram direcionadas à inefetividade das medidas 
tomadas pelo governo entre 1992 e 1994, especialmente a Instrução Normativa 
Intersecretarial nº1 de 24 de março de 1994. A Instrução pode ser vista, ao 
menos no plano formal, como a medida mais avançada do período, na medida 
em que procurou implementar regras institucionais para o reconhecimento do 
trabalho escravo pelos agentes governamentais, de forma a impedir que seus 
interesses ou visões particulares decidissem o que era e o que não era 
trabalho escravo rural. Além disso, tratava-se de uma medida mais 
progressista, na medida em que a caracterização que propunha para o trabalho 
escravo ou “análogo à de escravo” não tinha por critério único a constatação do 
uso da violência. Ela levava em conta também a constatação das práticas de 
endividamento do trabalhador rural, que só acontecia em função da sua 
situação econômica precária ou de sua marginalidade social. Para a Instrução, 
os indícios de que um trabalhador era “reduzido a condição análoga à de 
escravo” estavam em situações de 
“dívida, retenção de salários, retenção de documentos, ameaças ou 
violência que impliquem o cerceamento da liberdade dele e/ou 
familiares, o abandono do local onde presta seus serviços, ou 
mesmo quando o empregador se nega a fornecer transporte para 
que ele se retire do local para onde foi levado, não havendo outros 
meios de sair em condições seguras, devido às dificuldades de 
ordem econômica ou física na região” (Figueira, 1999: 192). 
 
Contudo, e mesmo com medidas de reforço voltadas para a punição dos 
infratores, discutidas no seminário “Trabalho Escravo Nunca Mais” em agosto 
de 1994, os problemas não foram superados e as críticas sobre a impunidade 
continuaram. Segundo Ricardo Rezende Figueira (1999), a Instrução não foi 
capaz de impor um entendimento acerca do que era trabalho escravo rural, 
continuando a cargo dos agentes governamentais. O autor relata que mesmo 
quando as autoridades se mostravam empenhadas em fiscalizar, em ouvir 
testemunhas e a CPT, acabava ocorrendo discórdias com relação às situações 
encontradas. Os delegados do trabalho, assim como outras autoridades, não 
85 
 
 
 
viam como trabalho escravo o trabalho obrigatório por dívida41, e algumas 
vezes faziam vista grossa até mesmo para casos em que eram constatados 
espancamentos e vigilância armada. Além de não constatarem as situações 
como trabalho escravo, repreendiam a atuação da CPT, que era quem 
geralmente fazia as denúncias. 
Segundo o autor, três razões centrais poderiam explicar a inefetividade 
de medidas como a Instrução Normativa, mas uma com maior destaque: 
novamente, a omissão e os interesses particulares dos agentes 
governamentais. Figueira reconhece que o medo era um fator importante, na 
medida em que a violência no campo era extremada e os agentes ficavam 
receosos de investigar e punir fazendeiros escoltados por jagunços e pequenas 
milícias particulares. O autor também reconhece que a falta de estrutura física 
e pessoal para realizar as fiscalizações e tomar as medidas punitivas cabíveis 
era precária, situação que só foi melhorar um pouco após a criação do Grupo 
Móvel de Fiscalização em 1995. Contudo, para o autor, assim como vinham 
apontando a CPT e o Movimento dos TrabalhadoresSem Terra desde o início 
de 1985, o fator imperante era a omissão, a falta de vontade política, ou os 
interesses particulares dos agentes governamentais. 
Muito embora essa crítica sobre a omissão estivesse presente, como já 
vimos, desde 1985 entre os relatórios da CPT e do Movimento dos 
Trabalhadores Sem Terra; e, muito embora a insistência sobre essa tecla para 
 
41
 Em encontros organizados pelo Ministério Público do Trabalho dos estados do Espírito Santo 
e de São Paulo em 2012 e 2014, autoridades públicas presentes falaram sobre a dificuldade de 
definição e caracterização das situações que eram encontradas pelos auditores fiscais e 
delegados do trabalho nas fiscalizações feitas no período. Não se tinha um consenso na época 
(muito longe disso) de que o “trabalho degradante” ou a “servidão por dívida” eram situações 
de “trabalho forçado” e muito menos de “trabalho escravo”. Para muitos, não havia que se falar 
em “trabalho escravo” e sim em “trabalho forçado”; e este último somente seria detectável caso 
fosse constatada a violência e o impedimento de ir e vir. Tal entendimento, ainda que com 
alterações, permanece presente entre diversas autoridades públicas até os dias de hoje. No 
encontro realizado em 2014, o procurador do trabalho aposentado José Cláudio Monteiro de 
Brito Filho, que integrou as primeiras equipes de fiscalização móvel do trabalho escravo dos 
anos 1990, defende que nem naquela época e muito menos hoje em dia se pode falar em 
“trabalho escravo”, pois não há regime jurídico que o chancele. O que se teria seriam situações 
de “trabalho forçado ou análogo à de escravo” e situações de “trabalho degradante”. Segundo 
o procurador, não se poderia sair chamando qualquer situação degradante de “análoga à de 
escravo” se não constatado o impedimento de ir e vir ou a servidão por dívida. A lei precisaria 
especificar mais. 
86 
 
 
 
pressionar o governo ao longo de todo o período 1985-1995 não tenha 
repercutido em medidas institucionais efetivas de punição e de erradicação do 
trabalho escravo rural, ela foi importante por ocasionar mudanças no jogo 
político de intereses. Ela desencadeou uma mudança fundamental na atuação 
política da CPT, principalmente a partir dos anos 1990, que, por sua vez, levou 
a uma transformação do quadro de forças a pressionar o governo por medidas 
mais efetivas, resultando no reconhecimento público do problema em 1995 e 
na abertura de um novo período ou momento (1995-2002) das políticas 
governamentais voltadas para a erradicação do trabalho escravo rural. 
Entre 1985 e início dos anos 1990, a CPT, como já visto em algumas de 
nossas citações, fala recorrentemente na questão da omissão e dos interesses 
desviantes dos agentes governamentais como sendo as causas centrais da 
inocuidade das medidas que vinham sendo implementadas e, por conseguinte, 
da manutenção do trabalho escravo rural. Ao mesmo tempo, contudo, a CPT 
também procurava manter (ou não perdia de vista) uma interpretação sistêmica 
acerca do trabalho escravo rural, que tem como causa central a expansão do 
sistema econômico capitalista sobre o campo e não os desvios de 
comportamento de alguns agentes governamentais. Em outras palavras, no 
período em questão, a CPT mantém uma narrativa e uma crítica conflitiva entre 
esses dois tipos de explicação para a persistência do trabalho escravo rural. 
Diferentemente do que mostrava a carta pastoral de Casaldáliga, bem 
como o caráter oposicionista do clero progressista no início dos anos 1970, o 
posicionamento e as críticas da CPT entre 1985 e 1990 não sustentavam mais 
um argumento “puramente” sistêmico ou estrutural. A conjuntura política que se 
abriu com o fim do regime militar e com a emergência de novos atores 
políticos, passou a chamar a atenção da entidade para diversos elementos, 
como o conflito de interesses e seus impactos sobre a criação e funcionamento 
das instituições. Não se tratava mais de apenas mostrar a funcionalidade das 
instituições para um sistema econômico, de forma “profético-fatalista”, abstrata 
e impessoal, muito embora esse olhar se mantivesse de alguma forma em 
diversos de seus relatórios do período. Mas agora se adicionava uma visão 
mais micro das relações econômicas e políticas, uma preocupação em “dar 
87 
 
 
 
nomes”, em identificar agentes estatais e seus interesses particulares, e 
pressionar as instituições democráticas por mudanças. 
Parecia que a CPT começava a passar por um conflito interno, que 
resultaria em parcerias com organizações e movimentos mais 
institucionalizados. Afinal, continuaria sendo essencial eliminar a expansão 
capitalista no campo e suas defesas jurídicas, sem se deixar cair na “ilusão de 
que o Estado brasileiro podia promover transformações” através de suas 
instituições (CPT, 1989: 19)? Ou as instituições, assim como as leis, poderiam 
até serem efetivas caso alguns agentes conservadores (juízes, delegados, 
procuradores, legisladores e outros) fossem substituídos, ou caso alguns 
desses agentes atuassem de forma progressista? Por isso a necessidade de 
apontar e de denunciar os agentes “desviantes”, de fazer com que os 
interesses dos trabalhadores rurais chegassem às instâncias decisórias, e de 
exigir que as instituições democráticas fizessem seu papel? 
“Não é nos governantes e tecnocratas que colocamos nossa 
esperança. Confiamos no crescimento da força dos pobres. Mas um 
governo democrático poderia colaborar um pouquinho mais, poderia 
jogar algumas escadas para os pobres saírem do fundo do poço 
que ele mesmo está cavando cada vez mais. Afinal, é preciso que 
ele dê contas de suas responsabilidades. Sem isso, ele ficará 
responsável pelos sofrimentos, violências e mortes que se 
multiplicam no campo e nas cidades. Esperamos que a sociedade, a 
imprensa, os partidos, as entidades de trabalhadores encontrem 
aqui material para refletir e agir; reconhecer as coisas que estão 
brotando do chão para apoiá-las; usar todos os meios para 
combater a degradação humana a que os pobres estão sendo 
violentamente jogados. Aumentar as cidades é inviável. Viver no 
campo é um direito!” (CPT, 1991: 4) 
 
Os relatórios anuais da CPT desse período podem ser vistos como 
demonstrativos desse conflito e embrionários de um novo posicionamento a 
partir dos anos 1990: se não é mais possível interromper o avanço do 
capitalismo no campo, que ele seja amenizado ou controlado por medidas de 
proteção aos trabalhadores rurais, e que os agentes governamentais e estatais 
tomem “responsabilidade” e cumpram seu papel dentro do que se espera de 
um regime democrático (ainda que capitalista), garantindo e defendendo o 
respeito à “função social da propriedade” e à igualdade de direitos entre 
88 
 
 
 
trabalhadores rurais e trabalhadores urbanos, como posto pela Constituição de 
1988. Se antes as causas de todas as mazelas do campo se encontravam no 
processo econômico de transformação estrutural do campo pelo capitalismo, 
agora elas são encontradas, sobretudo, na impunidade, na atuação enviesada 
dos agentes estatais, especialmente, dos juízes, que, ao contrário de 
“zelar pela aplicação da lei, tem, com muita frequência, 
demonstrado parcialidade, deixando-se instrumentalizar por 
latifundiários ou por chefes políticos locais, agindo ativa e 
passivamente em defesa de uma estrutura fundiária concentradora 
de terras, de um lado, e de miséria, do outro” (CPT, 1992: 31). 
 
Outro fator importante que se nota no novo posicionamento da CPT 
sobre o trabalho escravo é o enfoque recorrente sobre a questão da violência. 
Tal ênfase é perfeitamente compreensível quando vista a partir do contexto de 
acirramento das lutas políticas no campo e do aumento do número de ameaças 
e assassinatos de camponeses e trabalhadores rurais sem terra. Mas, ao 
mesmo tempo, ela nos mostra o caráter estratégico da mudança de atuação 
política que aCPT passa a apresentar a partir de 1990 ao tomar a 
“impunidade” como o mal a ser combatido (vista como o resultado da omissão 
dos agentes estatais) e ao recorrer aos órgãos internacionais de defesa dos 
direitos humanos e do trabalho para denunciar tal omissão. 
Dessa postura, ou melhor, desse enfoque na violência, resultam duas 
consequências que se refletem de forma concreta nos acontecimentos políticos 
a partir de 1992, com as denúncias aos órgãos internacionais, e após 1995, 
com o reconhecimento público da existência de trabalho escravo e com a 
formulação de medidas institucionais mais comprometidas com a questão. 
A primeira consequência de se enfatizar a questão da violência reside na 
propagação de uma avaliação menos rigorosa acerca das “condições 
propiciadoras” (que eram apresentadas por Casaldáliga em 1971 como 
elementos tão ou mais característicos do trabalho escravo que a violência). Ou 
seja, coloca-se em segundo plano a visão mais sistêmica sobre a exploração 
do trabalho rural e sobre as suas transformações, e dá-se uma aproximação 
com atores e organizações políticas que caracterizam o problema enquanto 
89 
 
 
 
“trabalho forçado”, como um fenômeno particularizado e conformado pelo uso 
da violência. 
Embora o contato entre atores que possuem uma visão sistêmica com 
atores que possuem uma visão particularizada tenha mudado também a 
atuação dos segundos (como veremos nos relatórios da OIT nos anos 2000), a 
visão particularizada e do critério da violência se enraíza e perdura entre os 
argumentos oportunistas de fazendeiros, empresários rurais e de autoridades 
públicas até os dias hoje, que os utilizam para amenizar as situações 
encontradas nas fazendas quando não se faz recurso à violência. 
A segunda consequência, por outro lado, de se enfatizar a questão da 
violência é a sua possibilidade, justamente em função do contato e do jogo 
político com outros atores e visões políticas, de se ter um olhar mais micro dos 
conflitos e, com isso, uma visão mais apurada acerca das possiblidades de luta 
pela via institucional, bem como das oportunidades estratégicas de influenciar 
ou mudar a visão de outros atores. 
O resultado mais visível da mudança de ênfase ao se falar no trabalho 
escravo (com ênfase no trabalho forçado ou violência) foi a conquista de apoios 
institucionais42 que ajudaram a pressionar o governo43 a tomar medidas. Uma 
das aproximações importantes se deu com a Organização Internacional do 
Trabalho (OIT), que, como demonstrou Ivan Ervolino (2011) vinha sendo capaz 
de pressionar os governos signatários de suas convenções e, com isso, 
exercer impactos significativos sobre a produção de leis internas para diversas 
questões relacionadas ao trabalho, inclusive para o que a Organização 
chamava de “trabalho forçado”. 
 
42
 Em 1992, a CPT foi convidada pela Federação Internacional dos Direitos Humanos para 
fazer um pronunciamento sobre o trabalho escravo na Subcomissão de Direitos Humanos da 
ONU em Genebra; em 1993, é convidada pela Diretoria da OIT no Brasil para iniciar um 
trabalho conjunto; e, em 1994, é convidada pela Anti-Slavery International a reiterar as 
denúncias de trabalho escravo na 19ª Sessão do Grupo de Trabalho sobre Formas 
Contemporâneas de Escravidão nas Nações Unidas (Figueira, 1999; BRASIL/SDH, 2013). 
43
 Em 1992, a OIT, em sua conferência anual, cobra explicações do Governo brasileiro acerca 
das diversas denúncias encaminhadas a ela desde 1985 e apresenta dados relativos a 8.986 
denúncias de trabalho escravo no Brasil. E, ainda em 1992, a Central Latino-Americana de 
Trabalhadores apresenta reclação contra o Brasil por inobservância das Concenções 29 e 105 
da OIT (BRASIL/SDH, 2013). 
90 
 
 
 
É esse o quadro que podemos ver a partir de 1992, quando a CPT, com 
outros atores políticos, encaminham denúncias para os organismos 
internacionais de defesa dos direitos humanos44; realizam fóruns de discussão 
que conseguiram recuperar, ao menos no plano formal das medidas, um 
entendimento mais sistêmico e estrutural do trabalho escravo (como foi o caso 
da Instrução Normativa Intersecretarial nº1 de 1994); e abrem caminho para 
um novo período de políticas. 
A utilização do termo “trabalho escravo”, mas com sentido de “trabalho 
forçado”, ou com ênfase na violência, torna-se uma estratégia política para 
chamar atenção dos órgãos internacionais e, com isso, pressionar o governo 
brasileiro a se comprometer com a efetivação de suas próprias medidas. É 
como se a utilização do termo “trabalho escravo” com sentido sistêmico não 
fosse capaz de gerar pressão e nem de resultar em políticas governamentais, 
constituindo apenas uma pressão “inócua” e muito “academicizada”. O 
importante era sair da inércia e da inoperância, dado o grau que atingia a 
violência no campo. Tanto é assim que as Convenções da OIT (que 
enfatizavam a violência) foram, e ainda são, as medidas mais mobilizadas por 
diferentes atores políticos para reivindicar ações do governo, como se fossem 
medidas protocolares; e as denúncias encaminhadas entre 1992 e 1994 aos 
órgãos internacionais, diziam sempre respeito a casos de trabalho escravo 
marcados pela violência, como foi o famoso “Caso José Pereira”, cuja 
repercussão levou o Brasil a admitir a existência de trabalho escravo em suas 
fazendas e a se comprometer politicamente com a elaboração e 
implementação de medidas voltadas para a erradicação do trabalho escravo, 
inaugurando um novo período de medidas institucionais. 
 
 
44
 Em 1992 e novamente em 1994, a CPT, junto das ONGs Centro pela Justiça e o Direito 
Internacional (CEJIL) e Human’s Rights Watch, encaminham denúncias de trabalho escravo à 
CIDH-OEA; além de reiterar, também em 1994 as denúncias na ONU. 
91 
 
 
 
2.4 – Reconhecimento público e as limitações institucionais (1995-
2002) 
O período de políticas que se inicia em 1995, com o reconhecimento e 
comprometimento público da existência do trabalho escravo no país pelo 
Presidente da República Fernando Henrique Cardoso, representa um passo à 
frente significativo com relação ao período anterior. Ele é marcado por um 
maior comprometimento e responsividade do governo federal às pressões 
internacionais dos órgãos de defesa dos direitos humanos e do trabalho, por 
um envolvimento de mais instituições estatais, internacionais e da sociedade 
civil na formulação e implementação das medidas, pelas primeiras 
desapropriações e condenações, pelas primeiras leis delimitando o crime de 
trabalho escravo, pela elaboração de um plano nacional com objetivos, metas e 
prazos a serem cumpridos pelas instituições e, principalmente, pela elaboração 
de relatórios mais sistemáticos por parte do governo, que permitiram uma 
maior transparência e avaliações mais detalhadas sobre as limitações ou 
deficiências das políticas implementadas. 
A partir das avaliações e das críticas que foram dirigidas às políticas do 
período, contudo, a tônica da inefetividade se mantém. Ainda que se reconheça 
os avanços com relação ao período anterior, aponta-se que as políticas entre 
1995 e 2002, de modo geral, não foram capazes de reprimir o uso do trabalho 
escravo rural, obtendo apenas resultados pontuais e dispersos, sem efeitos 
generalizados. A diferença das críticas, agora, é que elas enfatizam não 
apenas a questão da omissão e dos interesses enviesados de agentes 
governamentais particulares (foco das críticas feitas às políticas do período 
anterior), mas também a questão das deficiências de caráter institucional como 
sendo responsáveis pela inefetividade. A ideia que se passa é que, se 
determinados agentes estatais atuam de modo desviante, fazendo vista grossa 
às violações dos direitos dos trabalhadores rurais, é porque as instituições 
ainda são frágeis e dão abertura para tal comportamento.A conclusão das avaliações e críticas, portanto, acaba apontando para a 
necessidade de reformas e de fortalecimento das instituições políticas. 
92 
 
 
 
Primeiramente, seria preciso formular leis precisas sobre o que é trabalho 
escravo rural, para evitar manipulações das leis. Definidas as leis, seria 
necessário delimitar que instância do Judiciário deve ter competência para 
julgar os casos de trabalho escravo, para evitar as remessas estratégicas 
infinitas entre uma esfera e outra por conflito de competência, que alonga o 
processo até a prescrição dos crimes. Seria preciso também instituir regras de 
ação coordenada e conjunta entre as diversas instituições, para evitar conflitos 
interinstitucionais e, com isso, a inoperância. Seria necessário, ainda, destinar 
recursos e estruturas para que as ações de fiscalizações, investigações e 
judiciais ocorressem sem demoras e obstáculos, e que garantissem a 
segurança dos agentes e das vítimas. Por fim, seria necessário implementar 
políticas sociais no campo, para evitar que o trabalhador escravo resgatado 
não fosse novamente aliciado. 
Contudo, juntamente com essas avaliações de caráter institucional, dá-
se um “renascimento” de posicionamentos mais críticos por parte da CPT, que, 
já tendo conquistado maior capilaridade política entre as instituições estatais e 
parcerias com os órgãos internacionais no período anterior, volta a associar a 
falta de comprometimento político dos agentes e a inefetividade institucional a 
um quadro maior de circunstâncias econômicas, marcado agora pelo 
neoliberalismo e pelas políticas generalizadas de flexibilização dos direitos 
trabalhistas. Tal reposicionamento político, como veremos, também encontrará 
respaldo entre outros órgãos. A OIT, a partir dos anos 2000 se preocupa não 
somente em realizar uma análise mais apurada acerca das condições 
econômicas do país, como também não baseia mais suas definições e 
caracterizações apenas sobre o critério da violência, ao menos para o caso 
brasileiro, incorporando a “servidão por dívida” como uma forma de “escravidão 
contemporânea”. 
Esse reposicionamento crítico se reflete nos tipos de exigências feitas ao 
governo federal. Há uma clara exigência por melhorias institucionais e, 
novamente, por um maior comprometimento político do governo e dos agentes 
estatais em diminuir a inoperância e a impunidade, mas aparecem também 
propostas exigindo medidas que interfiram no poder econômico dos 
93 
 
 
 
fazendeiros e empresários rurais. É neste período, por exemplo, que surgem 
propostas voltadas mais para a “expropriação” do que para a “desapropriação”, 
como a famosa PEC 438/2001, conhecida como “a PEC do trabalho escravo”, 
que mostrará seus resultados apenas no período seguinte (2003-2012). 
Vejamos essas considerações, agora, em mais detalhes, através da 
descrição das políticas implementadas entre 1995 e 2002, e depois através da 
descrição das avaliações direcionadas a essas políticas. 
 
Tabela 3 - Medidas Formais para o Trabalho Rural e para o Trabalho Escravo (1995-2002) 
Ano Medida 
1995 
Criação do Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM) 
Criação do Grupo Executivo para Erradicação do Trabalho Forçado (GERTRAF) 
1997 
Fernando Henrique Cardoso assina a desapropriação da Fazenda Flor da Mata, em São 
Félix do Xingu, no Pará 
1998 
Lei do Trabalho Escravo, que alterou os artigos 132, 203 e 207 do Código Penal, que 
compõem a chamada "cesta de crimes" relacionados ao trabalho escravo 
Justiça Federal, primeiro grau, faz a primeira condenação de um fazendeiro (Antonio 
Barbosa de Melo) por trabalho escravo 
Governo desapropria mias três fazendas, duas no Pará e uma em Goiás 
2002 
Comissão Especial no âmbito do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, 
do Ministério da Justiça, que resultou, em 2003, no I Plano Nacional de Erradicação do 
Trabalho Escravo 
PNDH II – Meta 396: determina a continuação da implementação das Convenções 29 e 
105 da OIT; Meta 403: sensibilização dos juízes federais para a necessidade de manter 
no âmbito federal a competência para julgar crimes de trabalho forçado. 
Instituída a Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (CONAETE), 
no âmbito do Ministério Público do Trabalho 
Instituiu o seguro-desemprego especial para os comprovadamente resgatados de 
situações nas quais fossen explorados em trabalho forçado ou condição análoga à de 
escravos 
 
Após ter reconhecido publicamente a existência de trabalho escravo no 
Brasil e ter se comprometido a tomar as medidas necessárias para erradicá-lo, 
o presidente Fernando Henrique Cardoso deu início a um conjunto de medidas 
voltadas para quatro objetivos: integração institucional (desde o debate até a 
sentença judicial); fiscalização e punição; superação da omissão do Judiciário; 
e reinserção social dos trabalhadores resgatados (Figueira, 1999). 
94 
 
 
 
Dentre as medidas de integração institucional, o governo criou três 
medidas centrais: o Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM)45 e o Grupo 
Executivo para Erradição do Trabalho Escravo (GERTRAF)46, ambos em 1995; 
a Comissão Especial no âmbito do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa 
Humana (CDDPH) do Ministério da Justiça47, em 2002; e a Coordenadoria 
Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (CONAETE), no âmbito do 
Ministério Público do Trabalho, também em 2002. 
O GERTRAF integrava o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) com 
diversos outros ministérios48, assim como com a OIT, com o objetivo central de 
implementar ações articuladas entre as várias áreas do governo, desde a 
elaboração e fiscalização até a coordenação de um programa integrado de 
repressão ao trabalho forçado; e também com o objetivo de propor atos 
normativos que fossem necessários para a implementação do programa 
elaborado. Como braço operacional, o GERTRAF teria o GEFM, que, por sua 
vez, integraria as ações do MTE com os Ministérios Públicos (Federal e do 
Trabalho), com a Polícia Federal e com as Delegacias Regionais do Trabalho 
(DRTs), para centralizar o comando das operações de fiscalizações e garantir a 
padronização dos procedimentos (padronização esta que iria desde a 
caracterização do que é trabalho forçado até as ações cabíveis se constatados 
o crime). 
O GEFM, mais especificamente, pode ser visto como a principal ou mais 
importante medida do período e dos dias atuais também (claramente com 
algumas mudanças), na medida em que se tornou o autor por excelência das 
operações de fiscalização. Sua existência conformou uma espécie de “quadro 
protocolar” das operações de fiscalizações, através do qual se convencionaram 
 
45
 Portarias nº 549 e 550, de 14 de junho de 1995, do Ministério do Trabalho e Emprego. 
46
 Decreto 1.538, de 27 de junho de 1995. Disponível em: 
http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1995/decreto-1538-27-junho-1995-435619-
ublicacaooriginal-1-pe.html. 
47
 Resolução nº 5, de 28/01/2002. 
48
 Com o Ministério do Trabalho e Emprego; Ministério da Justiça; Ministério do Meio 
Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal; o Ministério da Agricultura, do 
Abastecimento e da Reforma Agrária; Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo. 
http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1995/decreto-1538-27-junho-1995-435619-publicacaooriginal-1-pe.html
http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1995/decreto-1538-27-junho-1995-435619-publicacaooriginal-1-pe.html
95 
 
 
 
as condições mínimas necessárias para que as operações pudessem de fato 
ocorrer. Em primeiro lugar, as fiscalizações não poderiam mais ser feitas por 
um único agente ou agência governamental, como era antes através dos fiscais 
ou delegados das Delegacias Regionais do Trabalho (DRTs). Agora, cada 
operação compreenderia, no mínimo, a presença de 3 fiscais do trabalho, 1 
médico, 1 engenheiro, agentes da PolíciaFederal e, eventualmente, 
representantes dos Ministérios Públicos, do IBAMA, FUNAI e outros, além de 
também poderem convidar representantes de outras entidades privadas ou 
públicas. Tratava-se não apenas de uma questão de segurança, mas de união 
e integração de esforços de diferentes agências estatais, e também uma 
questão de efetividade, na medida em que imprimia maior rapidez aos trâmites 
necessários ao constatar os flagrantes, e ao passo que não se confiava a 
apenas um agente a responsabilidade de dizer e relatar o que foi encontrado. 
Em segundo lugar, as fiscalizações recebiam uma espécie de roteiro de 
como proceder, de forma a padronizar as operações e evitar erros e 
contestações, bem como relatos distorcidos acerca do que foi encontrado. 
Nesse sentido, a principal forma de padronização do GEFM residia no prévio 
estabelecimento do que deveria ser procurado pelos fiscais durante as 
operações, ou do que deveriam ser considerados indícios de trabalho forçado, 
que, por sua vez, listava não apenas o critério da violência, mas também as 
“condições propiciadoras”. Assim, o Grupo deveria procurar e registrar (por 
meios escritos e audiovisuais): o número de trabalhadores encontrados sob 
situação de trabalho forçado; as condições de trabalho; a existência de pontos 
de venda de alimentos, medicamentos e de equipamentos de segurança no 
trabalho dentro da fazenda; cadernetas ou registros de dívidas dos 
trabalhadores para com os “gatos” e proprietários; a existências de armas na 
fazenda; a constatação ou relatos de vigilância armada, bem como de violência 
física e omissão de socorro. 
Em terceiro lugar, por fim, já no ato da fiscalização, o Grupo poderia 
fazer as autuações necessárias, exigir o pagamento de verbas rescisórias e de 
dívidas do empregador com os trabalhadores, acertando tudo na hora, e 
resgatar os trabalhadores que quisessem sair da fazenda. Logo após a 
96 
 
 
 
fiscalização, o Grupo ficaria responsável por produzir um relatório da operação 
a ser encaminhado aos MPFs e MPTs para a propositura de ação judicial nos 
seus respectivos âmbitos de competência, em casos de “fortes indícios” de 
trabalho forçado. Para isso foi sancionada, mais tarde, em 1998, a “Lei do 
Trabalho Escravo”49, que alterou os artigos 132, 203 e 207 do Código Penal, 
que compõem a hoje chamada "cesta de crimes" relacionados ao trabalho 
escravo (exposição da vida ou a saúde das pessoas a perigo direito e iminente; 
frustrar direito assegurado pela legislação trabalhista mediante fraude ou 
violência; aliciar trabalhadores e conduzi-los de uma para outra localidade 
mediante fraude). 
 As outras medidas voltadas para a integração institucional, por sua vez, 
a Comissão Especial da CNDDPH do Ministério da Justiça, bem como a 
Coordenadoria Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo (CONAETE)50, 
procuravam unir esforços entre as agências estatais e as entidades da 
sociedade civil, promovendo debates, relatórios, programas nacionais de 
enfrentamento ao trabalho escravo, e projetos de lei e de emenda 
constitucional voltados para a normatização, tipificação penal e reinserção 
social dos trabalhadores resgatados. A Comissão Especial do Ministério da 
Justiça, por exemplo, contou com a participação de 35 agentes, vindos de 
diversas áreas do governo e da sociedade civil, unidos na elaboração do I 
Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, lançado em 2003 no 
período seguinte51. 
 No plano das medidas voltadas especificamente para a fiscalização e 
punição, o governo apresentou duas medidas, o próprio GEFM e a Lei do 
 
49
 Lei nº 9.777, de 29 de dezembro de 1998. 
50
 Portaria 231, de 12/09/2002. 
51
 Dentre os participantes estavam agentes da Polícia Federal Rodoviária, do Instituto Brasileiro 
do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, da Secretaria Nacional de Justiça do 
Ministério da Justa, do MTE, do MPF, da Associação dos Juízes Federais do Brasil, do 
Ministério do Desenvolvimento Agrário, da Confederação Nacional dos Trabalhadores na 
Agricultura (Contag), da CPT, da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, do 
Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (José de Souza Martins), do MPT, 
do INSS, do Movimento Nacional dos Direitos Humanos, da OIT, do Centro pela Justiça e o 
Direito Internacional (CEJIL) e da OAB. 
97 
 
 
 
Trabalho Escravo de 1998. O GEFM mostrou seus primeiros resultados entre 
1997 e 1998, quando os seus relatórios de fiscalização serviram de base para 
que o governo federal realizasse as primeiras desapropriações de terra por 
causa de trabalho forçado, e para que a Justiça Federal de 1ª instância 
realizasse a primeira condenação de um fazendeiro por trabalho forçado52. Em 
todos os casos, as situações descritas pelos relatórios de fiscalização 
envolviam aliciamento de trabalhadores com falsas promessas, mecanismos de 
endividamento dos trabalhadores, descontos e retenções de salários, e a 
presença de vigilância armada. A Lei do Trabalho Escravo, por seu turno, 
buscou tipificar e aumentar a pena para a “cesta de crimes” que envolvem o 
trabalho escravo: a exposição da vida ou a saúde das pessoas a perigo direto e 
iminente; frustrar direito assegurado pela legislação trabalhista mediante fraude 
ou violência; aliciar trabalhadores e conduzi-los de uma para outra localidade 
mediante fraude. 
 No que tange à omissão e inoperância do Poder Judiciário, o governo 
lança em 2002 o II Plano Nacional de Direitos Humanos, estabelecendo metas 
(401 e 403) para “sensibilizar” os juízes com relação ao trabalho escravo e 
diminuir o conflito de competência utilizado por eles para não julgar os crimes 
que chegam às suas mãos; e metas voltadas para uma nova redação do artigo 
149 do Código Penal, de forma a tipificar mais precisamente o que é o trabalho 
escravo, e assim evitar os conflitos de interpretação que também dificultavam o 
andamento dos processos e o sentenciamento de uma pena (meta 405). 
 A necessidade de sensibilizar os juízes é um ponto permanente e dos 
mais importantes nesse quadro, na medida em que o descaso ou desinteresse 
dos juízes em não julgar e ao julgar os casos de trabalho escravo, é problema 
que se estende para o período seguinte das políticas de erradicação e até os 
dias de hoje. No período anterior das políticas, alguns atores sociais criticaram 
 
52
 Em 1997, o Presidente Fernando Henrique Cardoso assinou o Decreto de 28/11/1997, 
desapropriando a Fazenda Flor da Mata no Pará (Folha de São Paulo, 28/11/1997). E em 
1998, assina mais um decreto (Decreto de 13/05/1998), desapropriando mais duas fazendas 
no Pará e uma em Goiás (Folha de S. Paulo, 14/05/1998). Ainda em 1998, a Justiça Federal de 
1ª instância condena o fazendeiro e proprietário Antônio Barbosa de Melo pela prática de 
trabalho escravo (Folha de S. Paulo, 24/02/1998). 
98 
 
 
 
a atuação do Judiciário, especialmente da Justiça Trabalhista, por ela agir em 
nome de fazendeiros e grandes latifundiários, tornando-se mais um “segurança 
particular” de seus interesses do que propriamente defensor dos direitos 
trabalhistas. 
 Por fim, no que tange à preocupação com a reinserção social do 
trabalhador resgatado, o governo instituiu o seguro-desemprego especial para 
os comprovadamente resgatados de situações nas quais fossem explorados 
em trabalho forçado ou condição análoga à de escravos53, de forma a evitar o 
ciclo da exploração e casos de reincidência. 
Com isso, é possível perceber que as políticas implementadas entre 
1995 e 2002 constituíram um passo à frente com relação às políticas do 
período anterior, na medida em demonstraram um maior comprometimento 
político com o problema, preocuparam-se em dar respostas às pressões 
exercidas pelos órgãos internacionais e nacionais de defesa dos direitos 
humanose do trabalho, tentaram integrar diversas agências estatais em ações 
conjuntas para evitar a omissão ou o comportamento “desviante”, e mostraram 
uma maior transparência e publicização das medidas e dos resultados que elas 
vinham apresentando. Foi justamente em função deste último ponto que foi 
possível engrossar o corpo das avaliações e das críticas direcionadas às 
políticas governamentais, no que podemos encontrar relatórios não somente da 
CPT e organizações de trabalhadores, mas agora também das próprias 
instituições estatais, como do Ministério Público Federal e do Ministério Público 
do Trabalho, além dos relatórios conjuntos produzidos pela OIT em parcerias 
com o governo e com a CPT. Vejamos alguns pontos centrais dessas 
avaliações e o que elas podem significar para o jogo político, em termos da 
continuação das políticas, e em termos do entendimento do trabalho escravo 
rural. 
Como já dissemos, a ênfase generalizada das críticas presentes nos 
diferentes relatórios produzidos sobre as medidas implementadas no período 
recai, sobretudo, nas limitações institucionais e na sua consequente 
 
53
 Lei nº 10.608, de 20/12/2002. 
99 
 
 
 
incapacidade de controlar os comportamentos “desviantes” dos agentes 
estatais. Neste ponto, as fontes de descontentamento são diversas, no que 
abordaremos, sobretudo, os relatórios e publicações da CPT, OIT, MPF e OEA. 
A CPT (1997: 58), bem no início do período, já se preocupava em relatar 
e criticar as limitações das medidas institucionais até então implementadas. Em 
seção intitulada “Limites do governo brasileiro na luta contra o trabalho 
escravo”, a CPT se dedicou a avaliar particularmente a atuação do GEFM, 
apresentando seus aspectos positivos e negativos. Dente os aspectos 
positivos, a CPT elogiou as “operações de fiscalização bem articuladas, rápidas 
e eficientes nas grandes fazendas" realizadas pelo Grupo no sul do estado do 
Pará entre 1996 e 1997. Dentre os aspectos negativos, destacou um conjunto 
de problemas inter-relacionados, como: a falta de estrutura, a falta de 
coordenação entre as agências e agentes, as fortes pressões políticas 
exercidas sobre o Grupo, e o problema da “prescrição” dos crimes e da demora 
do Judiciário para julgar os casos envolvendo trabalho escravo, aumentando a 
impunidade. 
No que tange à falta de estrutura, a CPT, assim o Ministério Público 
Federal (BRASIL/MPF, 2002), reclama da ausência de uma equipe da Polícia 
Federal própria (selecionada e formada) para acompanhar o GEFM, bem como 
a ausência de seus delegados nas operações, o que acabava dificultando 
“muito a qualificação penal do trabalho escravo e a instauração do inquérito 
policial”. Com relação à questão de coordenação, a CPT apontou que o GEFM 
atuava muitas vezes sem coordenação com as equipes das Delegacias 
Regionais do Trabalho (DRTs), “inclusive por rivalidade e oposição”. As DRTs 
realizavam fiscalizações independentes do Grupo Móvel e que se mostravam 
posteriormente inefetivas, dado que as fazendas por eles fiscalizadas 
acabavam sendo alvo de novas denúncias de trabalho escravo. No que tange 
às pressões políticas, a CPT aponta que, agravada a situação em função da 
falta de equipe da Polícia Federal para acompanhar as operações, e dadas as 
relações de proximidade das DRTs com os fazendeiros e políticos, o Grupo 
ficava sujeito a todo tipo de pressão política, exercida tanto no momento das 
fiscalizações, quanto em manifestações da Câmara dos Deputados. Entre os 
100 
 
 
 
fazendeiros e políticos se encontravam, sobretudo, aqueles que já haviam 
sofrido algum tipo de intervenção, como no caso da Fazenda Flor da Mata, que 
estava em vias de ser desapropriada pelo governo, e políticos que viriam a ser 
acusados por trabalho escravo, como o deputado federal João Ribeiro54. Por 
fim, no que tange à lentidão judicial e à prescrição dos crimes, a CPT apontava 
que “os processos criminais sobre trabalho escravo (art. 149 do Código Penal) 
são, muitas vezes, arquivados antes de chegar ao julgamento e, às vezes, 
mesmo antes da denúncia ou da pronúncia, devido à prescrição”. 
A crítica da CPT sobre a inoperância das instituições e sobre as 
pressões exercidas por fazendeiros e políticos também aparecem em relatórios 
da OEA e da OIT no período. O “Relatório sobre a situação dos direitos 
humanos no Brasil” da OEA, em 1997, fala na atuação de 
“juízes e promotores cerceados pelas complexidades de um sistema 
processual inoperante e pelo temor de represálias, caso tomem 
decisões judiciais mais efetivas; autoridades federais distantes e com 
um interesse objetivo inconstante a respeito do problema, sempre 
adotando medidas débeis e ineficientes” (OEA, 1997: 132 apud 
Figueira, 1999: 184-185). 
 
 A OIT, por sua vez, acrescenta aos fatores “inoperância” e “pressão 
política”, o fator do “dois pesos duas medidas” para falar que as punições, 
quando ocorrem, não atingem quem deveria ser atingido: 
“embora em 1999 mais de 600 pessoas tenham sido resgatadas de 
condições de trabalho forçado por equipes do Grupo de Fiscalização 
Móvel, no mesmo ano só se registra a prisão de duas pessoas 
responsáveis por esse tipo de trabalho. Embora o governo tenha 
mencionado a necessidade de sanções realmente severas [fazendo 
menção à declaração de Fernando Henrique Cardoso ao desapropriar 
fazendas em 1998] nada indica que isto esteja acontecendo. A 
impunidade desfrutada pelos responsáveis, a lentidão dos processos 
judiciais e a falta de coordenação entre órgãos governamentais 
acabam favorecendo os infratores no Brasil e em outros lugares. Além 
 
54
 “A Justiça Federal de Marabá comunicou, no dia 22 de agosto de 1997, a relação de 11 
processos criminais ligados à prática de trabalho escravo nas fazendas fiscalizadas: dos 11, 7 
processos foram arquivados por prescrição, e um não foi cadastrado. Só 3 estavam em 
andamento”. [...]. A situação dos processos de trabalho escravo que foram iniciados na Justiça 
comum, é ainda pior. Não temos conhecimento de nenhum julgamento. Todos os processos 
estão paralisados, principalmente na Comarca de Santana do Araguaia. Alguns 
desapareceram, como por exemplo o processo da Fazenda Arizona na Comarca de Redenção” 
(CPT, 1997: 60). 
101 
 
 
 
disso, nos poucos casos de condenação dos responsáveis por esse 
tipo de delito, trata-se, ao que parece, de intermediários ou de 
pequenos proprietários, ao invés de donos de grandes fazendas ou 
empresas” (OIT, 2002a: 43) 
 
Nos anos seguintes, a CPT torna a apontar as limitações institucionais, 
dizendo existir um “verdadeiro recuo político” ou um esfriamento da vontade 
governamental de acabar com o trabalho escravo (CPT, 1999: 65). Os 
problemas relacionados à falta de recursos, de coordenação, de pressões 
políticas e da prescrição dos crimes se mantêm (CPT, 1999, 2000, 2001), mas 
agora acrescidos de conflitos sobre a competência entre Justiça Federal e 
Justiça comum para julgar os casos de trabalho escravo, da inefetividade da 
condenação feita pela Justiça Federal em 1998, bem como das 
desapropriações feitas pelo governo em 1997 e 1998, do valor das multas 
aplicadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego e os acordos que ele realiza 
com os fazendeiros. 
Com relação ao conflito de competência, preocupação também presente 
entre os relatórios de atividades do Ministério Público Federal de 2001 e 2002, 
a CPT (1999, 2000, 2001) aponta que o Judiciário tem se resguardado na 
questão da indefinição e das dúvidas quanto a esfera que deve julgar os crimes 
de trabalho escravo para postergar ad infinutum os processos, num jogo de 
remessas e de retornos entre um vara e o outra, levando à prescrição e à 
impunidade. Em 2000, a CPT relata o caso específico da Fazenda Flor da 
Mata, que havia sido desapropriada pelo governo em 1997, e que respondiaprocesso criminal na Justiça Federal de 1ª instância. Segundo a CPT, a 
decisão da Vara Federal representou um “gravíssimo retrocesso”, pois o 
processo já se encontrava em fase de alegações finais quando o juiz federal se 
declarou incompetente para julgar o caso, enviando-o para a Justiça comum, 
no que o processo voltou “à estaca zero”. 
Durante a I Jornada de Debates sobre Trabalho Escravo, realizada pela 
OIT em setembro de 2002 nas dependências do Superior Tribunal de Justiça 
(STJ), diversas autoridades se manifestaram acerca da questão do conflito de 
competência que vinha se travando dentro do Poder Judiciário, e afirmaram a 
102 
 
 
 
importância e necessidade de levar os crimes de trabalho escravo à Justiça 
Federal. Para o Presidente do STJ, o ministro Nilson Naves, o conflito de 
competência não podia ocorrer, na medida em que a própria Constituição de 
1988 já determinava que os crimes contra os direitos humanos deveriam ser 
julgados pela Justiça Federal. Segundo o ministro, 
“nenhum membro do Poder Judiciário pode ficar indiferente a este 
grave problema ou deixar de pautar sua atuação por total repúdio a 
este crime... Em caso de patentear-se a existência do crime, o 
julgador deve procurar a imposição da pena mais rigorosa, tendo em 
mente que, sendo a lei ruim, cabe ao juiz corrigi-la mediante uma 
sábia aplicação” (OIT, 2002c: 3). 
 
Na mesma ocasião, o ministro da Justiça, Paulo de Tarso Ramos 
Ribeiro, aborda a questão não pela questão do comprometimento dos juízes, 
mas a partir da “crise” institucional interna a qual o Poder Judiciário e o sistema 
de justiça como um todo vinham passando, apontando para a necessidade de 
reformas tanto nas leis relacionadas ao trabalho escravo quanto nas regras de 
funcionamento e de competência para o seu julgamento e punição. Segundo o 
ministro, seria preciso racionalizar a atuação do Judiciário, de modo a torná-lo 
mais permeável, adequado e eficiente às demandas sociais. Em suas palavras, 
“o sistema de administração da justiça no país vive uma crise (...) 
entre um conflito... medeia um procedimento confuso e, por vezes, 
bastante ineficaz, seja porque não profere decisões, seja porque, 
quando as profere, profere a destempo, de modo que a sociedade fica 
com a sensação de impunidade. (...). É um sistema que tem 
dificuldade em razões do número de protagonistas e de uma 
formulação quase obsessiva do formalismo processual, que nos leva 
muitas vezes a uma situação onde o custo da não-decisão é maior do 
que o custo de uma eventual decisão errada” (OIT, 2002c: 50-51). 
 
No que tange às desapropriações feitas pelo governo federal, a CPT 
(1999) aponta que a pena de desapropriação “virou piada: mais bem se tornou 
um prêmio exorbitante” (CPT, 1999: 65). Neste caso, a CPT está fazendo 
referência à primeira desapropriação feita pelo governo federal, a Fazenda Flor 
da Mata. Aponta que, embora tenha sido o primeiro caso da aplicação dessa 
pena em razão do trabalho escravo, o valor da indenização pago ao 
proprietário pelo governo foi visto como demonstrativo do total 
103 
 
 
 
descomprometimento do governo federal com a erradicação do trabalho 
escravo, na medida em que pagou uma indenização superfaturada, no valor de 
2,5 milhões de reais, quando o proprietário havia comprado a fazenda há três 
anos antes pelo valor de 100 mil reais. 
Por fim, uma das últimas limitações institucionais apontadas pelos 
relatórios dizia respeito ao “simulacro de justiça” que eram as penas e os 
acordos determinados pelo MTE nas fiscalizações, bem como as condenações 
que estavam sendo feitas pelo Judiciário, quando os processos conseguiam 
chegar a uma conclusão (CPT, 1999, 2000). Em 1998, como vimos, ocorreu a 
primeira condenação por trabalho escravo e com apenas 10 meses corridos 
entre a prática do crime e a sentença, quando o normal era o arquivamento dos 
processos por prescrição dos prazos antes mesmo da denúncia ou da 
pronúncia de uma sentença (Figueira, 1999). Contudo, a pena aplicada, como 
ressalta a CPT, foi “a mera entrega de cestas básicas”. No que tange ao MTE, 
aponta-se que as penas, assim como os Termos de Ajustamento de Conduta 
aplicados pelo MTE eram insignificantes diante do poder econômico e político 
dos fazendeiros e empresários rurais, aumentando os casos de reincidência e 
mantendo o quadro de impunidade. 
Para algumas dessas avaliações e críticas, contudo, o problema da 
inefetividade das políticas do período não era de fundo completamente 
institucional, mas também de fundo econômico. Essa percepção se observa, de 
maneira geral, nas formas de caracterizar o trabalho escravo ou nos tipos de 
diagnósticos feitos acerca da impunidade e das medidas que passam a ser 
exigidas. A partir daqui, percebemos, sobretudo, mudanças importantes no 
posicionamento de dois atores políticos igualmente importantes no cenário 
histórico das políticas de erradicação do trabalho escravo rural, a CPT e a OIT. 
Com relação à CPT, nós podemos observar um “retorno” às críticas de 
caráter estrutural do clero progressista dos anos 1970, mas agora direcionados 
ao neoliberalismo. No período anterior (1985-1994), a CPT enfatizou, 
sobretudo, o critério da violência para caracterizar o trabalho escravo e 
conseguir a atenção dos órgãos internacionais de direitos humanos e direitos 
do trabalho, deixando de lado o apelo mais crítico e sistêmico acerca do que 
104 
 
 
 
significava o avanço do capitalismo no campo. O intuito parecia ser o de entrar 
no jogo institucional de forças políticas, marcar presença, e pressionar o 
governo a tomar medidas que representassem os interesses dos trabalhadores 
rurais no processo de redemocratização e que lhes garantissem direitos diante 
do avanço do capitalismo. 
No período em questão (1995-2002), no entanto, a CPT, já havia 
conquistado apoios políticos importantes – como o da OIT, que tinha grande 
legitimidade desde os anos 1930 no país (Ervolino, 2011) – e uma capilaridade 
significativa entre as agências estatais. Ao analisar as razões da inefetividade, 
destacou, para além das questões institucionais já vistas, o “capitalismo 
selvagem” da era FHC e os seus impactos no campo, no que a CPT reassumiu 
seu “apoio à luta pela mudança radical deste modelo neoliberal dominante”, de 
forma a contribuir para a construção de um projeto popular” (CPT, 2001b: 2). 
Esta luta não deveria abrir mão dos espaços institucionais conquistados, 
exigindo melhorias e maior comprometimento político. Contudo, dever-se-ia 
sempre ter em mente que as instituições, como o Judiciário, não são o ponto 
final dos conflitos e não pautam sua atuação pela neutralidade, “seguindo 
regras”, não bastando, portanto, reivindicar mais leis. O Judiciário faz parte do 
jogo político. Não se poderia cair no “mito da neutralidade”, devendo-se sempre 
levar em consideração que as reivindicações não seguem apenas pela via 
institucional (CPT, 1995: 13). 
Com relação à OIT, por sua vez, é possível observar uma mudança de 
posicionamento em sua caracterização do que é o trabalho escravo, 
ressaltando questões de fundo econômico e não apenas institucionais. Sua 
definição “oficial” (através das Convenções) sempre foi de trabalho forçado e 
continuou sendo no período em questão. Mas a caracterização do que pode 
constituir trabalho forçado passa a abranger características outras, de caráter 
econômico e sistêmico, que se aproximam da caracterização feita por 
Casaldáliga durante os anos 1970. O ponto central dessa nova forma de 
caracterizar o trabalho forçado no Brasil é através do que a OIT (2002a: 27) 
chamou de “servidão por dívida”. Nesta caracterização, não é mais necessário 
a presença ou a constatação da violência, nem que o trabalhador não tenha se 
105 
 
 
 
oferecido voluntariamente para o trabalho. No Brasil, a questão da 
voluntariedade do trabalhador não é um fator que permite identificar a situação 
como detrabalho livre. É preciso olhar para o quadro estrutural econômico e 
político que se impõe sobre trabalho e sobre as condições de vida no ambiente 
rural. Segundo a OIT, a servidão por dívida no Brasil se explica em grande 
medida pelo histórico de abandono dos problemas crônicos e estruturais, como 
a questão da reforma agrária e do avanço das fronteiras agrícolas (OIT, 2002a: 
96). 
Um dos resultados mais visíveis da união de preocupações institucionais 
com um entendimento mais estrutural acerca do trabalho escravo rural foi, 
sobretudo, a exigência ou a formulação de medidas punitivas de impacto 
econômico, voltadas para a expropriação (e não desapropriação), como é o 
caso da famosa PEC 438/2001, e voltadas para o boicote econômico através 
do corte de empréstimos públicos em caso de denúncias comprovadas pelas 
fiscalizações, como é o caso da controversa “Lista Suja do Trabalho Escravo”. 
Essas duas políticas serão implementadas, junto com outras exigidas até 
então, no período seguinte, conformando um novo quadro no cenário das 
políticas de erradicação do trabalho escravo. 
 
2.5 – Políticas integradas, “consensos” e as contradições do direito 
(2003-2012) 
O período que se inaugura em 2003 se caracteriza por avanços 
quantitativos e qualitativos nas políticas governamentais voltadas para a 
erradicação do trabalho escravo rural. Políticas que surgiram no período 
anterior, especialmente voltadas para a integração institucional e para as 
operações de fiscalização, foram ampliadas e melhoradas; e os aspectos 
problemáticos remanescentes das políticas passadas, bem como aqueles 
ignorados por elas, passaram a ser alvo de novas medidas, voltadas não 
somente para a melhoria institucional, mas também para medidas que 
procuram atingir economicamente fazendeiros e empresários rurais 
denunciados por trabalho escravo. 
106 
 
 
 
No curso das avaliações e críticas feitas às políticas deste período, 
encontramos um quadro diferenciado dos períodos anteriores. Sobretudo a 
partir de 2005, o Brasil é reconhecido pela OIT como um país-exemplo no 
combate ao trabalho escravo; e suas políticas governamentais são citadas e 
comentadas em relatórios globais sobre o trabalho escravo e em outros 
documentos produzidos pela OIT em parceria com o governo federal, com a 
CPT e com organizações não-governamentais, como a Repórter Brasil, que 
surge neste período como um ator político essencial para a produção de 
relatórios e pesquisas, bem como para a publicização das fiscalizações e 
processos judiciais envolvendo casos de trabalho escravo. 
Para além dos pontos positivos, contudo, permanece nesses relatórios a 
tônica da impunidade, resultante, sobretudo, de limitações institucionais e 
processuais ou mesmo da omissão do Poder Judiciário com relação ao 
trabalho escravo rural. Com isso, é comum encontrar a ideia de que é preciso 
“sensibilizar” os juízes quanto ao trabalho escravo rural, para que os defeitos 
existentes nas leis não lhes servissem de justificativa para não decidirem. Em 
paralelo, também aparecem entendimentos cada vez mais abrangentes acerca 
do trabalho escravo rural no Brasil, levando alguns relatórios e documentos a 
analisar a política agrária encabeçada no período, bem como o avanço do 
agronegócio sobre o campo. É na manifestação desses entendimentos mais 
amplos, bem como em sua transformação em políticas concretas que 
assistimos às reações recorrentes de parlamentares da bancada ruralista de 
utilizarem até mesmo as medidas mais importantes do período, como a PEC 
438/2001 ao seu favor, tendo o Judiciário aí um papel fundamental. Vejamos 
isso de forma mais detalhada. 
 
 
107 
 
 
 
Tabela 4 - Medidas Formais para o Trabalho Rural e para o Trabalho Escravo (2003-2012) 
Ano Medida 
2003 
Lançamento do I Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo 
Instituída a Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (CONATRAE), sob 
coordenação da Secretaria Nacional de Direitos Humanos 
Solução Amistosa com a CIDH-OEA: o caso José Pereira 
Criação da relação de empregadores escravizadores, do Ministério da Integração 
Nacional 
Alteração do art. 149 do Código Penal, que trata do crime de redução da pessoa à 
condição análoga a de escravo 
2004 
Aprovada PEC 438 em 1º turno na Câmara dos Deputados 
Criação da Lista Suja do Ministério do Trabalho e Emprego 
2005 
Assinado um Termo de Cooperação entre MTE e MDS para priorizar a inserção dos 
egressos do trabalho escravo no programa Bolsa Família 
MDA e INCRA lançam seu próprio Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho 
Escravo 
2006 
STF (RE 398041) “pacifica” a controvérsia e reconhece a competência da Justiça 
Federal para processar e julgar o crime. 
MTE lança Agenda Nacional do Trabalho Decente 
2007 
Informe nº 105 do MDS, promovendo o termo de cooperação assinado com o MTE para 
a inserção dos trabalhadores resgatados no programa Bolsa Família 
2008 Lançado o II Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo 
2012 
É aprovada a PEC 438 em 2º turno na Câmara dos Deputados 
MPF cria um roteiro para a atuação do Grupo Móvel para evitar a impunidade. 
Cria Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar a exploração do trabalho 
escravo ou análogo ao de escravo, em atividades rurais e urbanas, de todo o território 
 
Em janeiro de 2003, a OIT, em parceria com a CPT, o Ministério Público 
do Trabalho (MPT), a Procuradoria Federal dos Diretos do Cidadão (PFDC) e o 
Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho (SINAIT), organizam a 
Oficina “Trabalho Escravo, uma chaga aberta”, no III Fórum Social Mundial em 
Porto Alegre. Como marco de uma nova etapa no combate ao trabalho escravo 
rural, a Oficina ampliou o entendimento acerca do problema, adotando de vez o 
termo “trabalho escravo” e não mais “trabalho forçado”. Como já vimos, essa 
mudança vinha se articulando nos próprios relatórios da OIT desde o período 
anterior, quando a Organização passou a caracterizar a situação brasileira 
como “servidão por dívida”, que seria uma modalidade de “trabalho forçado”, 
anteriormente reconhecido apenas quando constatada a involuntariedade do 
trabalhador ao aceitar o trabalho e o uso da violência para mantê-lo preso nele. 
A partir dos debates travados na Oficina, a servidão por dívida se torna uma 
108 
 
 
 
“nova forma de escravidão” ou simplesmente “trabalho escravo”, para resumir. 
O entendimento e a caracterização do problema passam a abarcar questões de 
caráter econômico, semelhantes aos de Casaldáliga e da CPT, que seria o 
quadro essencial para se entender a exploração, a degradação ou a 
escravização do trabalhador rural. As palavras do juiz do trabalho Hugo 
Cavalcanti Melo Filho, presente na Oficina, ilustram bem esse “novo” 
entendimento ou esse “renascimento” de uma compreensão mais ampla do 
problema: 
“Será que somente aqueles que estão a ferros, no interior do 
Tocantins e do Pará, aqueles que são impedidos de se retirar dessas 
fazendas, aqueles que se prendem a essa atividade por servidão por 
dívida, só esses seriam classificados? (...) Na minha avaliação, 
grande parte da população brasileira, dos trabalhadores brasileiros, 
se encontra em determinado estágio de servidão. Porque sempre que 
não se observam no Brasil, e em qualquer lugar, as regras mínimas 
de proteção do trabalhador, sempre que alguém no Brasil está 
trabalhando em condições inferiores àquele mínimo absoluto que é 
colocado pela lei trabalhista, eu não tenho dúvida de afirmar que eles 
estão em situação degradante e que ele está em estágio de servidão. 
Porque ninguém se submete a um trabalho dessa natureza se não for 
por extrema necessidade” (OIT, 2003: 33). 
 
Essa compreensão mais ampla do problema se fará sentir, poucos 
meses depois, na primeira medida governamental implementada no período, 
que foi o lançamento do I Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho 
Escravo. Para alémdas preocupações recorrentes com questões de integração 
institucional e de destinação de recursos e estruturas para a realização das 
operações de fiscalização, o Plano estabelece uma série de outras metas 
ressaltando a necessidade, por um lado, de punir mais energicamente 
(atingindo o poder econômico de fazendeiros e empresários rurais) e, por outro, 
de prevenir que os trabalhadores rurais fossem aliciados e escravizados. Nas 
ações punitivas, o Plano fala, por exemplo, na inclusão dos crimes de trabalho 
escravo na lei de crimes hediondos (Ação 6); na aprovação da PEC 438/2001 
para que os proprietários fossem expropriados e não mais desapropriados e 
indenizados (Ação 7); na inserção de cláusulas nos contratos das agências de 
financiamento que impedissem a obtenção ou manutenção de crédito rural e de 
incentivos de financiamento (Ação 9); novamente, na ação de sensibilização 
109 
 
 
 
dos juízes federais e do trabalho para a aplicação de penas mais duras e 
multas com valores mais altos (Ação 11). Nas ações preventivas, por sua vez, 
o Plano aponta, por exemplo, a necessidade de inserção em programas sociais 
do governo dos municípios de estados “fornecedores” e “receptores” desses 
trabalhadores, como Maranhão, Mato Grosso, Pará, Piauí, Tocantins e outros 
(Ação 4). A intenção do Plano era a de efetivar o que no período passado havia 
ficado no papel ou na intenção. 
Os primeiros resultados concretos do Plano se deram já em julho de 
2003, com a criação da Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho 
Escravo (CONATRAE)55, responsável por acompanhar o cumprimento do 
Plano Nacional e propor as alterações necessárias. Ela também deveria 
acompanhar a tramitação de projetos de lei no Congresso Nacional referentes 
ao combate ao trabalho escravo; acompanhar e avaliar os projetos de 
cooperação técnica firmados entre o governo e órgãos internacionais; bem 
como propor a elaboração de estudos e pesquisas56 e incentivar a realização 
de campanhas relacionadas à erradicação do trabalho escravo. Para tanto, a 
Comissão deveria abarcar e integrar diversos Ministérios e agências do 
Estado57, assim como representantes de entidades privadas e não-
governamentais envolvidas no combate ao trabalho escravo. 
Logo que a CONATRAE iniciou suas tarefas, o governo assinou, em 18 
de setembro de 2003, o acordo de “Solução Amistosa” para o caso “José 
Pereira” (CIDH/OEA, 2003), que havia levado o Brasil a ser denunciado na 
CIDH-OEA e na ONU e, depois, a ter reconhecido publicamente a existência de 
trabalho escravo no Brasil. No acordo firmado junto à CIDH-OEA, o Estado 
brasileiro reconheceu sua responsabilidade diante da omissão de seus órgãos 
e agentes, assumiu o compromisso de continuar com os esforços para o 
 
55
 Decreto de 31/07/2003. 
56
 Ver Apêndice 1 – Relatórios produzidos sobre o trabalho escravo rural entre 2003 e 2012. 
57
 A CONATRAE é integrada pelo Secretário Especial dos Direitos Humanos; pelos ministros 
da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, da Defesa, do Desenvolvimento Agrário, do Meio 
Ambiente, da Previdência Social, do Trabalho e Emprego; e por dois representantes do 
Ministério da Justiça, sendo um do Departamento da Polícia Federal e outro do Departamento 
da Polícia Rodoviária Federal. 
110 
 
 
 
cumprimento dos mandados judicias de prisão contra os acusados, 
comprometeu-se a implementar ações e propostas de mudanças legislativas, 
bem como defender a competência da Justiça Federal para julgar os casos de 
trabalho escravo, a realizar uma gestão conjunta ao Judiciário para garantir 
punição aos infratores, e determinou o pagamento de uma indenização no valor 
de 52 mil reais à vítima. 
Após a assinatura da solução amistosa com a CIDH-OEA, o governo, 
através do Ministério da Integração Nacional, cria, em 18 de novembro de 
2003, a relação de empregadores e de propriedades rurais acusados e 
fiscalizados pelo Grupo Móvel do Ministério do Trabalho e Emprego por 
trabalho escravo58. O objetivo era o de encaminhar semestralmente a relação 
de empregadores aos agentes financeiros com a recomendação que se 
abstenham de conceder financiamentos ou qualquer outro tipo de assistência 
com os recursos sob a supervisão do Ministério da Integração Nacional para as 
pessoas ou empresas constantes na lista. Em complemento, o Ministério do 
Trabalho e Emprego criaria, mais tarde, em 15 de outubro de 2004, a famosa 
“Lista Suja do Trabalho Escravo” 59, que tornava pública a relação de 
empregadores. O empregador seria inserido na relação após encerrado o 
processo administrativo no MTE em consequência de flagrante pelo Grupo 
Móvel de Fiscalização. O nome seria mantido por dois anos e retirado quando 
os débitos trabalhistas e multas fossem quitados, e desde que os 
empregadores não reincidissem nas infrações. Com essa medida, o governo 
recomendava uma espécie de boicote econômico e social aos fazendeiros e 
empresários rurais acusados, na medida em que a relação funcionaria como 
um selo de qualidade e de legalidade trabalhista dos empreendimentos rurais. 
Abaixo, estão alguns dados referentes às atuações de fiscalização e as 
inclusões na “Lista Suja”. 
 
 
58
 Portaria nº 1.150, de 18 de novembro de 2003, do Ministério da Integração Nacional. 
59
 Portaria nº 540, de 15 e outubro de 2004, do Ministério do Trabalho e Emprego. 
111 
 
 
 
Tabela 5 - Operações de Fiscalização e Inclusões na "Lista Suja" do Trabalho Escravo 
(1995-2012) 
Ano Operações Fazendas Trabalhadores Resgatados Inclusões na Lista Suja 
1995 11 77 84 - 
1996 26 219 425 - 
1997 20 95 394 - 
1998 17 47 159 - 
1999 19 56 725 - 
2000 25 88 516 - 
2001 29 149 1.305 - 
2002 30 85 2.285 - 
2003 67 188 5.223 2 
2004 72 275 2.887 22 
2005 83 187 4.273 8 
2006 103 199 3.308 12 
2007 114 203 5.963 14 
2008 158 301 5.016 20 
2009 156 350 3.769 10 
2010 142 310 2.628 43 
2011 164 331 2.428 45 
2012 62 119 952 104 
Fonte: Tabela produzida a partir de dados do Sistema Federal de Inspeção do Trabalho 
SFIT/SIT/MTE. 
 
Ainda no mesmo ano, em dezembro de 2003, é aprovada a lei que dava 
nova redação do artigo 149 do Código Penal60, dando forma mais precisa à 
tipificação do crime de trabalho escravo ao considerar a jornada exaustiva, a 
restrição da liberdade em razão de dívida e o trabalho degradante como forma 
de trabalho escravo, adequando a definição à realidade brasileira. Agora, o 
entendimento mais amplo que se formava nos encontros e relatórios de 
avaliação das políticas também é incorporado pela legislação. 
Na ocasião da aprovação dessa medida, muitos parlamentares e 
produtores rurais se manifestaram, recorrendo à Convenção nº 29 da OIT para 
alegar que o conceito brasileiro de trabalho escravo estava contrariando a 
Convenção, na medida em que esta apenas reconhecia o trabalho forçado em 
caso de involutariedade do trabalhador para o serviço e do uso da violência 
para mantê-lo (BRASIL/SDH, 2013). Assim, muito embora a OIT já tivesse 
 
60
 Lei 10.803, de 11 de dezembro de 2003 – Altera o art. 149 do Decreto-lei nº 2.848 de 7 de 
dezembro de 1940. 
112 
 
 
 
modificado seu entendimento e seus termos para caracterizar a situação da 
exploração do trabalho no campo brasileiro, as regras que anteriormente eram 
mobilizadas por defensores dos direitos dos trabalhadores rurais passam agora 
a ser mobilizadas pelos acusados de explorá-los. O entendimento da OIT se 
alterou, mas não suas convenções e a letra de suas normas, e isso se 
repercute até mesmo em entendimentos e caracterizações feitas por juízes e 
mesmo ministros do STF, que, como veremos, também acabam mobilizando as 
Convenções para alegar a não existência de trabalho escravo rural no Brasil. 
O ano de 2004 se abre com a violenta reação por partede fazendeiros e 
proprietários rurais contra as ações que vinham sendo tomadas pelo governo, 
especialmente contra as operações de fiscalização do Grupo Móvel, 
culminando no que ficou conhecido pela “Chacina de Unaí”. Na ocasião, três 
auditores fiscais do trabalho e um motorista do Grupo Móvel foram 
assassinados quando fiscalizavam fazendas de feijão em Unaí (MG) no dia 28 
de janeiro de 2004. Segundo a CPT (2004), o quadro de violência que se 
apresentou no campo em 2004 foi acentuadamente maior do que do ano 
anterior, em parte em função do aumento das reivindicações por reforma 
agrária, em parte pelos métodos contravertidos do governo em lidar com essas 
reivindicações. Como veremos, mais adiante, a CPT passa, a partir de 2004, a 
sustentar um olhar “decepcionado” e crítico com relação ao governo Lula, que 
implementaria políticas contraditórias no campo: por um lado, ele fechava o 
cerco contra os fazendeiros e proprietários rurais acusados de trabalho escravo 
e, por outro, implementava políticas voltadas para a monocultura do 
agronegócio (da cana, da soja e da pecuária) fortalecendo grandes 
proprietários e não os pequenos proprietários e trabalhadores sem terra. 
No mesmo ano, passados mais de 2 anos da sua data de apresentação, 
a Proposta de Emenda Constitucional nº438 de 200161, de autoria do senador 
Ademir Andrade (PSB-PA) foi aprovada em 1º turno na Câmara dos 
Deputados. Esta PEC, que ficou conhecida como a “PEC do Trabalho Escravo” 
se tornou uma das principais bandeiras de reivindicação por medidas contra o 
 
61
 O texto integral da PEC pode ser encontrado em 
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=36162. 
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=36162
113 
 
 
 
trabalho escravo, ao passo que ela não falava em desapropriação com 
indenização ao proprietário (como as que foram feitas no período anterior), mas 
em expropriação, ocasionando a perda da propriedade sem qualquer 
indenização. Assim sendo, a PEC também foi alvo de diversas mobilizações 
por parte de fazendeiras e políticos. 
Em pronunciamento na Câmara dos Deputados, no dia 2 de março de 
2004, Severino Cavalcanti (PP-PE) faz apelo aos parlamentares, de modo a 
“alertá-los” sobre os rumos do que pretendia a PEC do trabalho escravo: 
“Ora, senhoras e senhores deputados. Vamos parar de hipocrisia, de 
fingir que somos a França, os Estados Unidos ou a Alemanha e que 
podemos acompanhar suas avançadas legislações trabalhistas. [...] 
Não vamos resolver os problemas do campo e do desemprego 
ameaçando produtores e fazendeiros com o confisco de terras no 
caso das muitas e controversas versões de trabalho escravo” 
(Pronunciamento do Deputado Federal Severino Cavalcanti na 
Câmara dos Deputados, 2/03/2004, apud CPT, 2004: 121). 
 
No Senado, outro pronunciamento viria por parte do senador João 
Ribeiro, na época julgado e condenado pela Vara do Trabalho de Redenção, 
no sul do Pará, por trabalho escravo em sua Fazenda Ouro Verde, que pediu 
as fiscais do trabalho “complacência para com aqueles homens rudes do 
campo que ainda não se adaptaram aos novos tempos”. 
Antes de ser aprovada em 1º turno na Câmara dos Deputados, a 
proposta já havia recebido emendas, especialmente por parte da deputada 
federal Kátia Abreu, que buscava garantir o “direito do contraditório” e o 
respeito ao devido processo legal antes que as expropriações fossem 
decretadas, de modo a não tornar a medida inconstitucional e não se cometer 
injustiças com os fazendeiros e produtores rurais. A deputada defendia a 
necessidade de as expropriações só serem realizadas após sentença judicial, 
de modo a não tornar a emenda uma norma inconstitucional e injusta para 
fazendeiros e produtores rurais, que poderiam não ter o direito de se defender, 
ficando à mercê das interpretações dos auditores fiscais acerca do que viram 
em suas operações. Segundo a deputada, 
114 
 
 
 
“a exploração de trabalho escravo, na maior parte das vezes, 
demanda maior controvérsia quanto aos fatos. A qualificação do 
trabalho escravo e o descumprimento das obrigações trabalhistas 
pelo proprietário do imóvel revelam matéria que, certamente, exige 
maior dilação probatória. Constitui, portanto, providência que 
resguarda os direitos da pessoa humana assegurar ao acusado o 
exercício dos direitos à ampla defesa e ao contraditório previamente à 
expropriação do imóvel. Negar ao proprietário do imóvel o direito de 
defesa em juízo, especialmente no caso de exploração do trabalho 
escravo, determinando a “imediata” expropriação do bem, dará ensejo 
a incontáveis injustiças, em decorrênca, sobretudo, de defecções na 
correta elucidação dos fatos” (Transcrição do Pronunciamento da 
Deputada Federal Kátia Abreu na Câmara dos Deputados, 
26/03/2004). 
 
Em outro momento, ainda, da tramitação da PEC 438/2001, a deputada 
enfatiza a necessidade da emenda por ela proposta, defendendo a importância 
do agronegócio para o país e os riscos de se manchar a sua imagem em 
função de poucos, fazendo diferenciações entre situações que podem ser 
encontradas pelos fiscais, e apontando qual deveria ser a função “adequada” 
do Grupo Móvel: 
“Está havendo uma confusão entre infração trabalhista, trabalho 
degradante e trabalho forçado e escravo...são três situações 
completamente diferentes, embora as três estejam erradas. [Trabalho 
escravo] “é obrigar alguém a estar onde não quer” (Transcrição do 
Pronunciamento da Deputada Federal Kátia Abreu na Câmara dos 
Deputados, 26/05/2004). 
 
Dizendo repetir as palavras do ministro Lelio Bentes Corrêa do Tribunal 
Superior do Trabalho em entrevista dada à TV Câmara, a deputada defende 
que: 
“os auditores fiscais não tem a função de escrever em seu relatório se 
o trabalho é escravo ou não. Os auditores tem que se limitar a 
escreverem o que viram, descrever a situação da propriedade, a 
situação dos trabalhadores. Cabe a Justiça ver isso [verificar o 
trabalho escravo]” (Transcrição do Pronunciamento da Deputada 
Federal Kátia Abreu na Câmara dos Deputados, 26/05/2004). 
 
O importante, para a deputada, era garantir que uma definição precisa 
fosse estabelecida antes de se fazer qualquer expropriação. Enquanto essa 
115 
 
 
 
definição legal não chegasse, caberia ao Poder Judiciário decidir, e não ao 
Grupo Móvel de Fiscalização; e mesmo quando ela chegasse, o Poder 
Judiciário ainda deveria garantir o contraditório e avaliar as ações e 
interpretações do Grupo Móvel. 
O interessante a se observar durante os pronunciamentos para o 
tratamento da PEC do Trabalho Escravo é que tanto aqueles que eram 
favoráveis à PEC quanto aqueles que eram contra a ela, como a deputada 
Kátia Abreu, colocavam “esperanças” e pressões sobre o Poder Judiciário, 
alegadas as falhas na legislação. Assim, enquanto os primeiros procuravam e 
esperavam uma maior “sensibilização” dos juízes (como meta do próprio Plano 
Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo e de medidas presentes até 
os dias hoje), os segundos esperavam que o Poder Judiciário exercesse sua 
função e garantisse os direitos constitucionais do contraditório e do devido 
processo legal. Uns esperavam um certo “ativismo” dos juízes, que eles 
agissem com consciência social e soubessem adaptar as falhas na legislação a 
decisões socialmente comprometidas; e outros esperavam não um ativismo, 
mas o simples “cumprimento” das normas constitucionais, ou da adaptação das 
falhas das leis em defesa da propriedade e do direito de defesa. Para ambos, a 
alteração do artigo 149 do Código Penal em dezembro de 2003, ainda havia 
deixado lacunas, e quem deveria resolvê-las seria a jurisprudência. 
Após a aprovação em 1º turno da PEC do Trabalho Escravo na Câmara 
dos Deputados, o Ministério do Desenvolvimento Agrário e o Incra lançam, em 
maio de 2005, seu próprio Plano Nacional para a Erradicaçãodo Trabalho 
Escravo (BRASIL/MDA/INCRA, 2005), voltado, sobretudo, para uma estratégia 
preventiva. Com base na caracterização do trabalho escravo em função da 
servidão por dívida, o Plano estabelece ações voltadas para o aumento da 
oportunidade de emprego e renda nas localidades de origem dos trabalhadores 
escravizados, de forma a lhes garantir cidadania e dignidade, e assim evitar o 
aliciamento e a consequente escravização. Dentre as ações, estavam as de 
promoção e implementação de projetos de assentamentos de trabalhadores 
116 
 
 
 
sem terra, de reforma agrária, de aumento do crédito rural, e de apoio ao 
associativismo62. 
Para a CPT, contudo, as políticas que vinham sendo implementadas até 
o momento eram inefetivas, tanto do ponto de vista preventivo (como pretendia, 
sobretudo, o Plano do MDA/INCRA) quanto do ponto de vista punitivo, como as 
diversas outras medidas até então implementadas. A CPT (2005a) reconhecia 
e atuava em conjunto com o Grupo Móvel de Fiscalização, e também elogiava 
“a atuação corajosa” de alguns juízes do trabalho, mas apontava a falta de 
condenações criminais como um sério problema a ser enfrentado, impunidade 
que reforçava de maneira perversa e silenciosa projetos inefetivos de reforma 
agrária e de avanço da monocultura e do agronegócio no campo. 
No que tange à impunidade, a CPT cita o caso envolvendo o deputado 
Inocêncio Oliveira, que se encontrava parado no STF a espera de uma decisão 
de aceitação da ação desde 2003, dadas as dificuldades e divergências entre 
os ministros para caracterizar o trabalho escravo. Para a ministra Ellen Gracie, 
calcada sobretudo na Convenção nº 29 da OIT, o caso envolvendo o deputado 
Inocência Oliveira não se tratava de um caso de trabalho escravo, na medida 
em que os trabalhadores não se encontravam “algemados”. Com ela, 
concordou e votou o ministro Eros Grau, e depois o processo ficou parado em 
função de um pedido de vista do ministro Joaquim Barbosa. Para a CPT, as 
condenações por trabalho escravo só acontecem, assim, quando o juiz tem 
“coragem” de assim o fazer, ultrapassando conflitos de competência e de 
falhas nas leis. A condenação e a diminuição da impunidade acabam 
dependendo das atitudes dos juízes individualmente, e isso seria muito pouco, 
dado que para a CPT (2004), a violência podia vir do próprio Judiciário: 
“...é a violência do Poder Público, do Judiciário, que tem aumentado 
em intensidade nestes dois anos do governo Lula. Um aumento de 
10,8% no número de prisões, 421 presos, e de 5,5% no de famílias 
despejadas, 37.220, o maior número desde que a CPT começou a 
efetuar os registros. Uma família, em cada 5,8 envolvidos em 
conflitos, recebeu ordem de despejo. É como se o Poder Judiciário 
 
62
 Outras medidas foram alcançadas através, por exemplo, do Termo de Cooperação entre 
MTE e MDS para priorizar a inserção dos egressos do trabalho escravo no programa Bolsa 
Família. 
117 
 
 
 
tivesse caminhado ao recado que veio das urnas nas eleições de 
2002” (CPT, 2004: 8). 
 
No que tange às políticas de prevenção, que vão desde a geração de 
empregos nas áreas rurais até a implementação da reforma agrária, a CPT 
passa, a partir da realização do II Congresso da CPT em meados de 2005, a 
defender um posicionamento cada vez mais crítico às políticas governamentais 
para o campo, que, sob seu ponto de vista, eram contraditórias às outras 
políticas governamentais voltadas para o social, assim como para a 
erradicação do trabalho escravo rural. Segundo a CPT, além da “decepção” 
com o governo Lula em função da crise política que se instaura em 2005 com 
as denúncias de corrupção, pesava a política de expansão e de incentivo da 
monocultura e do agronegócio, sobretudo do etanol, que levava, novamente, à 
expansão de novas fronteiras e a consequente utilização de trabalhadores 
escravos, de desmatamento, e de outras irregularidades. Assim, o que vemos 
nas edições anuais dos Cadernos “Conflitos no Campo”, sobretudo entre 2006 
e 2011, bem como em outras publicações feitas em parceria com outras 
instituições63, é uma crítica à política agrária do governo Lula, e uma 
“constatação” de que a realidade do trabalhador no campo muda muito 
lentamente. 
A OIT (2005a, 2005b), por seu turno, buscava traçar uma avaliação do I 
Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo de modo a verificar o 
que teria sido cumprido pelo governo, que seria algo em torno de 77,7% das 
metas estabelecidas. A OIT reconhece os esforços governamenais e aponta o 
Brasil como um país exemplo a ser seguido em suas políticas de erradicação. 
Contudo, lança críticas em duas frentes: primeiramente, melhorar 
institucionalmente as políticas já implementadas, visando, sobretudo, a 
aprovação da PEC do Trabalho Escravo e uma maior sensibilização e 
comprometimento dos juízes; e em segundo lugar, impulsionar a geração de 
 
63
 Ver CPT, Grito dos Excluídos, Continental, Jubileu Brasil, Campanha Contra a ALCA, Rede 
Social de Justiça e Direitos Humanos, Serviço Pastoral dos Migrantes (2006). A OMC e os 
efeitos destrutivos da indústria da cana no Brasil; CPT, Rede Social de Justiça e Direitos 
Humanos (2007). Agroenergia: mitos e impactos da América Latina; e CPT, Rede Social de 
Justiça e Direitos Humanos (2008). Os impactos da produção de cana no Cerrado e Amazônia. 
118 
 
 
 
emprego no campo e a reforma agrária, concordando, assim, com as críticas e 
avaliações feitas pela CPT ao governo. 
Sobre as dificuldades institucionais que o governo ainda enfrentava, a 
OIT (2005a, 2005b) apontava a falta de recursos humanos, o baixo valor das 
multas e o conflito de competência entre a Justiça Federal e Estadual, o baixo 
número de ações e de condenações criminais, e o longo tempo de tramitação 
dos processos judiciais. Sobre os problemas de ordem estrutural, a OIT aponta 
que o Brasil não conseguiu avançar significativamente nas metas de promoção 
de cidadania, de geração de emprego e de reforma agrária, sobretudo nas 
regiões fornecedoras de mão-de-obra escrava. Em resumo, para a OIT, 
“é preciso ultrapassar a primeira etapa, ligada à sensibilização da 
sociedade64 e à atuação dos grupos móveis e centrar esforços 
diretamente nas causas do problema. Ou seja, de um lado combater a 
impunidade e de outro garantir acesso à terra e gerar emprego e 
renda para impedir o êxodo de trabalhadores de sua terra natal” (OIT, 
2005a: 100). 
 
Em 2006, uma decisão do STF tentou colocar um fim a uma das causas 
principais que foram apontadas pelos relatórios como geradoras de 
impunidade, os conflitos de competência entre a Justiça Federal e a Justiça 
Comum. Contudo, a decisão não foi suficiente para acabar com as 
interpretações divergentes acerca da questão65. Por maioria de votos, o STF 
 
64
 Imbuídos desse intuito, a OIT, em parceria com a ONG Repórter Brasil e com o Instituto 
Ethos, desenvolvem e lançam, ainda em 2005, o “Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho 
Escravo”, com adesão inicial de 80 empresas que se comprometeram a cortar relações 
comerciais com quem constasse na “Lista Suja” do Trabalho Escravo. 
65
 Uma das manifestações jurídicas mais exemplares e atuais de que a decisão do STF não 
pacificou o conflito de competência pode ser vista no “reerguimento” de alguns juízes do 
trabalho, bem como de procuradores do trabalho, que vêm defendendo não apenas a 
competência penal da Justiça do Trabalho para o crime de trabalho escravo, como também a 
necessidade de se criar e praticar um “novo direito do trabalho”. Em recente simpósio 
organizado pelo Ministério Público de São Paulo, algumas autoridades, entre juízes e 
procuradores do trabalho, apontaram a importância dos juristas e “operadores” do direito 
olharem para o direito do trabalho não mais comoum direito individual, mas como um direito 
coletivo. A violação dos direitos do trabalho é sempre uma violação coletiva, na medida em que 
afeta toda a “cadeia” ou rede de produção, de obrigações com as instituições trabalhistas e 
também de capacidade competitiva. O trabalho seria o elemento estruturador da sociedade, 
assim como o modo de produção. Assim, seria a Justiça do Trabalho que deveria se ocupar 
das violações trabalhistas e olhar para as violações não como crimes individuais, mas como 
manifestações de um modo de produção que gera e possibilita tais crimes como numa cadeia 
ou sistema. A Justiça do Trabalho se modificaria junto com a mudança do olhar sobre o direito 
119 
 
 
 
decidiu na ocasião pela competência da Justiça Federal para julgar os crimes 
de trabalho escravo, sob o argumento de que, no caso analisado, o crime 
afrontou não apenas a liberdade individual dos trabalhadores, mas a própria 
organização do trabalho ou a dignidade humana, devendo, portanto, ser 
julgado pela Justiça Federal. 
Contudo, os votos dos ministros apresentaram justificativas distintas 
para justificar o crime contra a organização do trabalho. Para os que estavam 
em maioria, pode-se encontrar a justivativa de que se tratava de um crime 
contra a organização do trabalho e contra a dignidade humana na medida em 
que eram vários trabalhadores e todos submetidos a condições indignas de 
trabalho e, principalmente, à violência física. Para os que foram votos vencidos, 
as justificativas recaíam sobre o argumento de que o crime de trabalho escravo 
tinha por objeto jurídico a liberdade individual e não coletiva, ou sobre o 
argumento de que a Justiça Federal era escassa no país e não seria capaz de 
receber e responder a todas as demandas. 
Com isso, firmavam-se vários questionamentos acerca de como 
reconhecer se o crime do trabalho escravo feria ou não feria a organização do 
trabalho: seria preciso contar quantos trabalhadores se encontravam na 
situação? Qual seria o critério ou limite? Ou, ainda, o que seriam as condições 
indignas de trabalho? As dúvidas, assim, ainda permaneciam, inclusive sobre o 
que é o trabalho escravo, no que também permanecia nas políticas 
governamentais seguintes, assim também como nos relatórios e críticas, a 
necessidade de se “sensibilizar” os juízes para julgarem da forma mais 
socialmente comprometida possível, independente e acima das falhas nas leis. 
Tendo em vista as limitações das políticas até então implementadas, o 
governo lança em 2008, com a coordenação de Leonardo Sakamoto, da ONG 
Repórter Brasil, o II Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, 
novamente enfatizando a questão da impunidade, que permanecia, e a 
 
do trabalho, na medida em que as penas aplicadas não se restringiriam a prisões ou multas 
irrisórias, mas que atingissem a capacidade financeira de empresários e proprietários de terras 
e que os fizessem alterar o modo de produção aplicado em suas propriedades. 
 
120 
 
 
 
necessidade da reforma agrária e de geração de empregos no campo, 
reivindicações constantes tanto entre a CPT, quanto entre a OIT e a ONG 
Repórter Brasil. Nesse quadro, as ações se voltavam para a aprovação da PEC 
do Trabalho Escravo e para a uma atuação mais “sensível” por parte dos juízes 
e do Judiciário como um todo. A PEC seria o “instrumento que os especialistas 
apontam como decisivo para erradicar de vez essa mácula que envergonha o 
país” (BRASIL/SEDH, 2008); e as tentativas de sensibilizar os juízes para o 
tema seria a medida mais urgente enquanto a PEC não fosse aprovada66. 
A aprovação da PEC, contudo, em 2º turno na Câmara dos Deputados 
em 2012, configuraria um quadro de condições para a efetividade da PEC que 
poucas vezes é comentado por quem comemorou o acontecimento como uma 
medida efetiva imediata. Nas votações em 1º e 2º turno na Câmara dos 
Deputados, os votos a favor da PEC foram surpreendente e estranhamente 
quase consensuais, assim como foram as votações no Senado, especialmente 
se pensarmos no tempo de tramitação da proposta. Segundo o senador Aloysio 
Teixeira, que questiona a homogeneidade de quem votou “sim”, prevalece 
“a certeza de que na Câmara foi encenada uma obra de ficção, que 
lembra a “Comédia de Erros” de Shakespeare, sob a direção do 
Senhor Deputado Marco Maia, visando sobretudo a agradar a galeria 
e a produzir um fato para valorizar ainda mais sua invejável biografia. 
Nas notas taquigráficas da sessão de 24 de maio [quando a PEC foi 
remetida ao Senado], encontramos roteiro precioso de meias 
verdades, contradições e falsos argumentos, que nos ajudam a 
desvendar a realidade política subjacente à aprovação da PEC pela 
Câmara” (Parecer Reformulado do Senador Aloysio Ferreira, 
21/05/2013, p. 16-17). 
 
Como exposto durante as discussões no Senado já no processo de 
leitura do relatório da PEC, havia sido estabelecido um acordo entre alguns 
deputados federais contrários a PEC com o Senado, antes de ela ser aprovada 
 
66
 O Ministério Público Federal lança em 2012 o “Roteiro para atuação dos Grupos Móveis de 
Fiscalização na constatação do delito de redução a condição análoga à de escravo”, com o 
intuito de tornar as descrições feitas nos relatórios de fiscalização os mais claros possíveis, 
servindo-se de fotografias da local e do que for necessário registrar referente às condições de 
trabalho e de moradia, de relatos gravados dos trabalhadores e funcionários da fazenda. A 
ideia central é a de que quanto mais claros e inquestionáveis os relatórios, mais difícil de os 
juízes “não-sensibilizados” alargarem o processo por falta de documentos, relatos etc. 
121 
 
 
 
em 2º turno na Câmara. Segundo o senador Aloysio Ferreira, tratava-se de um 
acordo em que o Senado garantia aos deputados contrários à PEC (a exemplo, 
o deputado Marco Maia) uma emenda que requisitasse formalmente a devida 
regulamentação de uma lei especificando o que é o trabalho escravo, projeto 
que ficaria sob a guarda de uma Comissão já composta pelos deputados 
federais contrários a proposta em conjunto com alguns senadores, tornando 
ainda mais tardias e limitadas as possibilidades de efetividade da PEC. Assim, 
é possível encontrar quem votou não em 1º turno e sim em 2º turno, como foi o 
caso da deputada Kátia Abreu. 
O senador Aloysio Teixeira se questiona pelo fato da Câmara dos 
Deputados não ter sequer esboçado no texto da proposta que foi ao Senado 
uma lei definindo o que é o trabalho escravo. Ele mesmo conclui: 
“Ao Presidente da Câmara interessava, contudo, criar fato político no 
mês que fora promulgada a Lei Áurea. Promoveu ele, encontro no 
Gabinete da Senadora Marta Suplicy, que presidia interinamente o 
Senado, com líderes partidários da Câmara e do Senado, para dar 
efeitos midiáticos a proposta, onde foi assumido o compromisso que o 
Senado Federal resolveria questões que a outra Casa deixaria 
pendentes. Para tanto, o senhor Marco Maia comprometeu-se a fazer 
gestão para que fosse constituída comissão de deputados e 
senadores para discutir a regulamentação da PEC. Feito isso, todos 
posaram para fotos, e o senhor Marco Maia nunca mais falou no 
assunto” (Parecer Reformulado do Senador Aloysio Ferreira, 
21/05/2013, p. 21). 
 
Assim foi que ocorreu. Em 26 de novembro de 2013, é encaminhada 
uma emenda à PEC estabelecendo que as propriedades só poderiam ser 
expropriadas depois da promulgação de uma lei definindo o que é o trabalho 
escravo, que já estaria sob os cuidados da comissão especial estabelecida no 
acordo. Assim, no dia 27 de maio de 2014, dia de votação em 1º turno do 
Senado, as manifestações de aprovação de senadores da bancada ruralista 
com relação às condições que ainda são necessárias paraque haja uma 
expropriação em função de trabalho escravo: 
“Nós vamos colocar o Brasil numa posição de destaque na reunião da 
OIT que ocorrerá proximamente como um país que avançou na 
definição e na coibição do trabalho escravo, agora deixando claro que 
o enquadramento, a definição, a categorização do trabalho escravo 
122 
 
 
 
está dependendo de uma lei complementar que ainda está em 
discussão e que, muito em breve, vai ser definida para se completar a 
obra. Todavia, nós estamos dando um passo muito importante...O 
nosso voto será “sim”, de forma entusiástica” (Senador José Agripino, 
DSF, n. 75, 28/05/2014, pp. 654). 
“Quero aqui declarar, Sr. Presidente, não só como Presidente da 
CNA, não só como senadora da República, mas como cidadã, que 
não há no mundo quem concorde com essas questões e com esses 
quesitos. Essas pessoas não são representadas pela CNA; essas 
pessoas não são protegidas pelo Senado Federal. Ao contrário, 
aqueles que praticam, de fato, a escravidão, segundo a Convenção nº 
29 da OIT, merecem ser punidos radicalmente. Por isso, nós estamos 
aqui votando, por unanimidade, a PEC do trabalho escravo. Ela será 
regulamentada e lei, sob análise de comissão especial já criada” 
(Senadora Kátia Abreu – PMDB/TO, DSF, n. 75, 28/05/2014, pp. 655). 
“é bom esclarecermos aos nossos produtores rurais que vamos votar 
ainda uma lei ordinária que vai definir o que, de fato, é trabalho 
escravo, tendo em vista que essa é uma preocupação...Quero dizer 
aos nossos produtores rurais que não vai haver nenhuma 
expropriação de forma irresponsável, até porque, só após a 
aprovação dessa lei ordinária, vamos definir, de fato, o que é trabalho 
escravo” (Senador Jayme Campos – DEM/MT, DSF, n. 75, 
28/05/2014, pp. 657). 
 
Embora a votação pela PEC tenha sido unânime, houve rejeição por 
parte de 4 senadores com relação à emenda proposta à PEC, que apontaram a 
inocuidade que a PEC acabaria caindo tendo em vista a demora que poderia 
chegar a aprovação da lei que definiria o que é o trabalho escravo: 
“essa subemenda me deixou muito preocupado, à medida que joga 
para a regulamentação da lei a aplicação das medidas que nós 
acabamos de aprovar. Preocupo-me pela delonga, pela demora da 
aprovação e como será feito a aprovação da regulamentação dessa 
lei. (...). Nós temos uma resistência de nossas elites, infelizmente, de 
garantir esses direitos e de honrar aquilo que é necessário e colocar 
este País na moderidade, colocar este País no século XXI. A minha 
expectativa é que essa PEC pudesse ser imediatamente aplicada. 
Mas, lamento, com essa subemenda, eu tenho a impressão de que 
vamos ainda aguardar muito tempo. (João Capiberibe – PSB/AP, 
DSF, n. 75, 28/05/2014, pp. 657). 
 
Por fim, a PEC 57-A é aprovada, em 27 de maio de 2014, por 
unanimidade. Hoje se aguarda a regulamentação da lei definindo o que é o 
trabalho escravo. O que se pode perceber de todo o relato da PEC do Trabalho 
Escravo é que as pressões exercidas pela CPT, OIT e pela ONG Repórter 
123 
 
 
 
Brasil, bem como por alguns órgãos governamentais, para a aprovação da 
PEC serão transferidas agora para a aprovação da lei definindo o que é o 
trabalho escravo, como num ciclo sucessivo de uma regulamentação 
“salvadora”. 
A PEC do Trabalho Escravo é demonstrativa de que o problema central 
não estaria tão somente voltado para a questão da impunidade e da não 
realização de reformas estruturais no campo, mas também na diversidade de 
“usos” do direito e do Judiciário. O que se reconhece como o instrumento 
jurídico mais radical para erradicar o trabalho escravo e acabar com a 
impunidade é transformado em instrumento jurídico de questionamento e de 
postergação das punições; da mesma forma, enquanto alguns esperam e 
tomam medidas de conscientização e sensibilização dos juízes, para que eles 
atuem com consciência social, independente da indefinição ou das falhas das 
leis, outros esperam e tomam medidas para que sejam os juízes a terem que 
lidar com a questão do trabalho escravo, sob a alegação de que eles devem 
simplesmente agir de acordo com os princípios constitucionais do direito do 
contraditório e do devido processo legal, adiando a aplicação de medidas 
punitivas mais radicais. A espera pela definição jurídica do que é trabalho 
escravo ocorre para as duas partes, demonstrando a disputa política em torno 
do significado das normas. 
O andamento da PEC, portanto, nos dá instrumentos para suspeitar que 
o problema está muito além de um controle ou de uma sensibilização dos 
juízes ou da necessidade de reformas estruturais (como se a atuação do 
Judiciário e dos juízes fossem se alterar após essas reformas), no que o 
Judiciário não poderia ser pensado apenas em termos dos valores individuais 
dos juízes ao julgar os casos de trabalho escravo, nem em termos de que o 
Judiciário como um todo é funcional para um determinada estrutura econômica 
e que muda conforme esta se altera. O conflito político pelo significado 
perpassa não somente as esferas do Poder Legislativo e Executivo, mas 
também a esfera do Judiciário, no que seria preciso levantar mais variáveis 
para se pensar o quadro de razões que levam a uma atuação limitada do Poder 
Judiciário. 
124 
 
 
 
2.6 – Conclusões 
Na Introdução deste trabalho, apresentamos nossa hipótese de pesquisa 
com relação à atuação do Poder Judiciário nas políticas de erradicação do 
trabalho escravo rural, no que defendemos a tese de que o Judiciário vem 
apresentando mais limitações do que possibilidades para erradicar o trabalho 
escravo rural e garantir os direitos de cidadania no campo. No primeiro 
capítulo, por sua vez, apresentamos diferentes visões através das quais 
podemos estudar a atuação do Judiciário no tema em questão: se do ponto de 
vista das ações individuais dos juízes e outros atores políticos; se do ponto de 
vista das regras institucionais que guiam e limitam as ações individuais; se do 
ponto de vista do sistema ou estrutura onde o Judiciário está inserido; ou, 
ainda, e especialmente, através desses diversos pontos de vista em relação. 
O estudo realizado neste segundo capítulo mostra que as diferentes 
avaliações feitas das políticas já implementadas dão ilustrações primárias da 
nossa hipótese de pesquisa. Por um lado, críticas e decisões judiciais 
mostraram que o Judiciário atuou em todos os períodos de forma limitada, e, 
por outro lado, os agentes tinham expectativas opostas quanto à maneira pela 
qual o Judiciário iria tornar efetivas as medidas de combate. Enfim, ao 
colocarem em relevo aspectos de dimensões distintas para a atuação favorável 
do Judiciário – os valores e formas de ação dos juízes, o seu formato 
institucional e as suas relações com a estrutura social. Como podemos 
observar, contudo, as análises e explicações para a atuação limitada do Poder 
Judiciário foram distintas e mudaram ao longo do tempo, no que as avaliações 
de cada período específico agregam mais elementos possíveis de explicação e 
nos apontam a força de determinadas dimensões analíticas para o nosso tema 
de pesquisa. 
 
125 
 
 
 
 
Período 
O que mantém o trabalho 
escravo rural? 
Como erradicar o trabalho escravo 
rural? 
Como atua o Poder 
Judiciário 
1970-1984 
- capitalismo 
/desenvolvimentismo 
- impunidade 
- impedir o avanço do capitalismo no 
campo 
- punição 
- a favor do capitalismo e do 
direito de propriedade 
1985-1995 
- falta de vontade política 
- impunidade 
- pressões internacionais 
- punição 
- imparcialidade e independência dos 
juízes 
- expansão dos direitos trabalhistas 
no campo 
- reforma agrária 
- controlado por latifundiários 
1995-2002 
- impunidade 
- limitações institucionais 
- neoliberalismo 
- não-realização da reforma 
agrária 
- punição 
- sensibilização/ativismo dos juízes 
- federalização dos crimes contra os 
direitos humanos 
- reforma agrária 
- condenações pontuais e 
limitadas 
- limitadoinstitucionalmente 
- conflito de competência 
- sem leis claras 
2003-2012 
- impunidade 
- limitações institucionais 
- agronegócio 
- não-realização da reforma 
agrária 
- punição 
- sensibilização dos juízes 
- reforma agrária 
- condenações trabalhistas 
- condenações criminais não 
executadas 
- limitado institucionalmente 
- conflito de competência 
- leis deficientes 
- em favor de interesses 
divergentes; contradições do 
direito 
 
O primeiro período, num contexto de fechamento político, foi marcado 
por avaliações que enfatizam a dimensão sistêmica e estrutural do trabalho 
escravo rural, no que as regras, convenções e estatutos acerca dos direitos do 
trabalhador rural manifestavam funcionalidade para o projeto 
desenvolvimentista capitalista sobre o campo. 
Já o segundo período, de abertura política e de transição para a 
democracia, o jogo político se torna mais visível, no que as avaliações passam 
a identificar os posicionamentos dos diversos agentes estatais e 
governamentais no jogo político da transição para a democracia, mostrando 
quem ainda mantinha posicionamentos “conservadores” e desfavoráveis para 
os trabalhadores rurais. Assim, era preciso pressionar por comprometimento 
político, que ajudaria a colocar um fim na impunidade. Ao mesmo tempo, ainda 
que se reconhecessem as instâncias jurídicas como parciais a favor dos 
latifundiários, os trabalhadores rurais não deixavam de reivindicar seus direitos 
trabalhistas, ainda que isso significasse a abdicação de seus direitos sobre a 
terra ou a sua “desclassificação” como camponês para se tornar trabalhador 
126 
 
 
 
rural assalariado. A questão institucional aparecia como uma reinvindicação 
importante, ainda que limitada. 
No terceiro período, por sua vez, as limitações institucionais é que se 
tornam foco das avaliações, mostrando a importância de se fortalecer as 
instituições para impediram o desvio de comportamento dos agentes estatais, 
“sensibilizando” os juízes para julgarem com “consciência social” ainda que as 
leis não fossem claras e as instituições frágeis. Ao mesmo tempo, contudo, 
enfatizava-se a necessidade permanente da reforma agrária, sem a qual o 
comprometimento político e as melhorias institucionais conseguiam apresentar 
apenas condenações judiciais pontuais e limitadas, dependentes de juízes 
“ativistas”. 
No quarto período, por fim, reforçam-se as limitações institucionais e a 
necessidade de enfatizar o comprometimento individual dos agentes, 
necessitando ainda sensibilizar os juízes para atuarem de forma mais 
progressiva, independente das falhas das leis. Além disso, permanece a visão 
sistêmica ou estrutural acerca das políticas econômicas e agrárias no campo, 
que seguiriam uma linha imutável de defesa da monocultura e da empresa 
rural, agora reconhecida no agronegócio, e que seria a responsável pelas 
mudanças no campo se darem de maneira tão lenta. O mais importante é que 
fica evidente a contradição do direito e das medidas institucionais jurídicas, ao 
passo que elas passam a ser mobilizadas tanto por fazendeiros proprietários 
acusados de trabalho escravo quanto pelos agentes políticos denunciantes da 
situação da exploração. 
O que vemos, portanto, é que não é possível identificar uma dimensão 
que explique sozinha a atuação do Poder Judiciário na questão. O que 
podemos fazer é tentar entender de que forma essas diferentes dimensões de 
análise se entrelaçam em alguns casos particulares de trabalho escravo, para 
que possamos entender as limitações do Judiciário para efetivar mudanças 
sociais em toda a sua complexidade. 
 
127 
 
 
 
PARTE II 
 
 
 
128 
 
 
 
Preliminares para os estudos de caso 
Esta segunda parte da tese está inteiramente voltada para a análise dos 
três casos escolhidos de trabalho escravo rural que foram parar no Poder 
Judiciário. Mas, antes de adentramos na análise de cada caso, convém 
apresentarmos os critérios que embasaram a escolha dos casos, uma breve 
descrição dos casos escolhidos, e os critérios utilizados para a sua análise. 
 
Critérios para a escolha dos casos 
Os casos que foram selecionados para a análise são casos que 
possuem o que podemos chamar de “expressividade teórica”, na medida em 
que congregam elementos relevantes para o tema do trabalho escravo rural e 
ajudam a questionar a atuação do Poder Judiciário sobre casos de trabalho 
escravo rural. Basicamente, foram dois os critérios que auxiliaram na escolha 
dos casos: 1) o critério da expressividade da atividade rural envolvida em cada 
caso no quadro maior do trabalho escravo rural no Brasil, de forma a ver como 
que o Poder Judiciário atua em casos típicos de trabalho escravo rural e, 
geralmente, de grande importância econômica; e 2) o critério do perfil dos 
acusados em cada caso, de forma a ver se o Poder Judiciário atua de modo 
diferenciado dependendo da importância social e/ou política dos acusados. 
O olhar sobre a atividade rural como um critério para a escolha dos 
casos resultou da análise feita no Capítulo 2, da leitura do “Atlas do Trabalho 
Escravo no Brasil” (da ONG Amigos da Terra), e da análise de um pequeno 
conjunto de decisões judiciais sobre trabalho escravo. Juntos, esses três 
momentos exploratórios apontaram a importância de olharmos para a 
correlação existente entre o avanço do capitalismo no campo (especialmente 
para regiões amazônicas através do agronegócio) e as ocorrências de trabalho 
escravo rural. Os relatórios e as avaliações analisados no Capítulo 2 foram 
importantes, ainda, na medida em que chamaram atenção para a atuação até 
então mitigada e limitada do Poder Judiciário frente ao avanço do agronegócio 
e dos problemas trabalhistas dele resultantes, sendo alvo de sucessivas 
129 
 
 
 
críticas e de políticas voltadas para a “sensibilização dos juízes” para com o 
tema. 
De acordo com o “Atlas do Trabalho Escravo” – que confirmou as 
preocupações expostas no Capítulo 2 acerca da relação entre trabalho escravo 
e determinadas atividades do agronegócio –, quase 50% das propriedades 
fiscalizadas pelo Grupo Móvel entre 1995 e 2006 estavam voltadas para a 
atividade pecuária, seguidas pelas atividades de desmatamento (19%), 
carvoaria (12%) e cultivos variados (11%) dentre os quais se destaca o cultivo 
da cana-de-açúcar e da soja. 
 
Figura 1 - Atividades rurais em que foi encontrado trabalho escravo 
 
Fonte: ONG Amigos da Terra, 2012, p. 37. (dados referentes ao período de 1995 a janeiro de 
2007). 
 
A correlação dessas atividades com o trabalho escravo também foi 
constatada através da leitura preliminar de decisões tomadas pelo Tribunal 
Superior do Trabalho (TST) e pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) entre 
130 
 
 
 
1995 e 2010 sobre casos de trabalho escravo rural67. Como mostra a tabela 
abaixo, das 27 decisões julgadas pelo TST no período, foi possível averiguar 
que 6 (22%) trataram de casos de trabalho escravo na atividade pecuária, 
seguidos pelas atividades de colheita de café e de corte de cana-de-açúcar, 
ambas com 3 ações (11%) cada uma. 
 
Tabela 6 - Atividades rurais com trabalho escravo que foram parar no TST 
Atividades Ocorrências % 
Pecuária 6 22% 
Não mencionado 5 19% 
Colheita de café 3 11% 
Corte de cana-de-açúcar 3 11% 
Plantio de algodão 2 7% 
Empreiteira rural 2 7% 
Agropecuária 1 4% 
Roçagem 1 4% 
Produção de carvão 1 4% 
Colheita de laranja 1 4% 
Extração de madeira 1 4% 
Cultivo de soja 1 4% 
Total Geral 27 100% 
 
 No STJ, por sua vez, permanece a importância das atividades de corte 
de cana-de-açúcar e da pecuária, com uma leve inversão. Das 27 ações 
julgadas pelo STJ, 6 (22%) diziam respeito a casos de trabalho escravo na 
atividade canavieira, e 5 (19%) na atividade pecuária. 
 
 
 
67
 Através de uma busca no sistema de consulta processual do TST e do STJ através daspalavras-chaves “trabalho escravo” e “trabalho em condições análogas a de escravo”, foi 
possível encontrar um total de 27 casos em cada esfera tratando de trabalho escravo rural. Dos 
27 casos encontrados em cada Tribunal, foram contabilizadas entre 90 e 100 decisões judiciais 
em cada Tribunal, entre decisões de mérito e inúmeros tipos de recursos. Para a delimitação 
dos casos, selecionamos a última decisão tomada por cada Tribunal em cada um dos 27 casos 
encontrados até o início de 2011, resultando na análise de 27 decisões do TST e 27 decisões 
do STJ. A escolha por esses dois tribunais resultam, sobretudo, de razões de ordem teórica e 
metodológica, na medida em que os processos judiciais em primeira instância, seja na esfera 
trabalhista ou na esfera federal, não se encontram disponíveis para consulta da forma 
homogênea em que se encontram no TST e no STJ, e dois dos casos escolhidos tramitam em 
ambas as esferas. 
131 
 
 
 
Tabela 7 - Atividades rurais com trabalho escravo que foram parar no STJ 
Atividades Ocorrências % 
Não encontrado 6 22% 
Corte de cana-de-açúcar 6 22% 
Pecuária 5 19% 
Coleta de palmito 2 7% 
Produção de carvão 2 7% 
Derrubada de juquira 2 7% 
Desmatamento 2 7% 
Produção de soja 1 4% 
Extração de madeira 1 4% 
Total Geral 27 100% 
 
O critério do perfil dos acusados, por seu turno, resultou também da 
análise empreendida no Capítulo 2, assim como da análise do pequeno 
conjunto de decisões judiciais envolvendo trabalho escravo rural. A análise dos 
relatórios e avaliações do Poder Judiciário já apontava para a existência de 
uma atuação parcial dos juízes em favor de fazendeiros, no que os casos 
resultavam sempre em impunidade e na inefetividade das políticas de 
erradicação do trabalho escravo rural. A análise do pequeno conjunto de 
decisões judiciais sobre trabalho escravo, contudo, questiona preliminarmente 
a ideia de que o Judiciário decide em favor de proprietários e fazendeiros. 
 Das 27 ações julgadas pelo TST, 15 (56%) foram de autoria dos 
proprietários e 9 (33%) foram de autoria do MPT. As demais foram ações 
propostas por empreiteiras, que foram responsabilizadas pelos proprietários 
pelo trabalho escravo, e uma ação proposta pela VT, que pedia exame do TST 
com relação a conflitos de competência. 
 
Tabela 8 - Autores das ações sobre trabalho escravo no TST 
Autores das ações Ocorrências % 
Proprietário 15 56% 
MPT 9 33% 
Empreiteira 2 7% 
VT 1 4% 
Total Geral 27 100% 
 
No STJ, por seu turno, a maioria das ações julgadas (17 ou 63%) 
também foram propostas pelos proprietários, seguidos pela Justiça Estadual 
132 
 
 
 
pedindo a verificação de conflitos de competência. A diferença é que agora os 
“gatos” aparecem, ainda que de forma tímida, como autores de ações na 
Justiça. 
 
Tabela 9 - Autores das ações sobre trabalho escravo julgadas pelo STJ 
Autores das ações Ocorrências % 
Proprietário 17 63% 
Justiça Estadual 5 19% 
Gato 2 7% 
MPF 1 4% 
Diretor 1 4% 
Justiça Federal 1 4% 
Total Geral 27 100% 
 
Poderíamos supor a partir desses dados que as instâncias trabalhistas e 
federais inferiores teriam dado mais decisões negativas mais para os 
proprietários do que para os demais autores, fazendo-os recorrer aos Tribunais 
superiores. Ou também poderíamos supor que esses dados mostrariam 
apenas a capacidade de litigação dos proprietários, que conseguem chegar até 
às instâncias superiores ainda quando as ações de 1º e 2º graus se encontram 
em andamento, de forma a tentar suspendê-las. 
 No que tange ao tempo de duração dos processos em função dos 
autores das ações, é possível perceber que embora os processos sejam, em 
sua maioria, decididos em menos de 6 meses, os processos que duram mais 
de 1 ano ou que atingem os maiores picos de duração dos processos são 
processos de autoria dos proprietários. No TST, os proprietários são os únicos 
a conseguirem fazer um processo durar mais de 2 anos, por exemplo, 
chegando ao pico de duração de mais de 7 anos. 
 
133 
 
 
 
Tabela 10 - Tempo de duração dos processos no TST em função dos autores das ações 
Tempo de processo 
Autores das ações 
Total % 
Proprietário MPT Empreiteira VT 
até 6 meses 8 30% 4 15% 1 4% 1 4% 14 52% 
6 meses a 1 ano 1 4% 1 4% 0% 0% 2 7% 
1 ano - 1 ano e meio 
 
0% 1 4% 1 4% 
 
0% 2 7% 
1 ano e meio - 2 anos 
 
0% 3 11% 
 
0% 
 
0% 3 11% 
2 anos - 2 anos e meio 2 7% 
 
0% 
 
0% 
 
0% 2 7% 
2 anos e meio - 3 anos 2 7% 
 
0% 
 
0% 
 
0% 2 7% 
3 anos e meio - 4 anos 1 4% 
 
0% 
 
0% 
 
0% 1 4% 
7 anos - 7 anos e meio 1 4% 
 
0% 
 
0% 
 
0% 1 4% 
Total Geral 15 56% 9 33% 2 7% 1 4% 27 100% 
 
No STJ, por seu turno, é possível perceber que os proprietários são os 
que mais conseguem fazer um processo se prolongar por mais de 1 ano, ao 
lado de um diretor e da Justiça Estadual e da Justiça Federal. Note-se que das 
2 ações apenas que foram movidas pelos “gatos”, elas foram rapidamente 
decididas pelo Tribunal. 
 
Tabela 11 - Tempo de duração dos processos do STJ em função dos autores das ações 
Tempo de processo 
Autores das ações 
Total Geral 
Proprietário Justiça Estadual Gato MPF Diretor Justiça Federal 
até 6 meses 9 1 2 12 
6 meses a 1 ano 3 2 1 6 
1 ano - 1 ano e meio 1 
 
1 2 
1 ano e meio - 2 anos 2 
 
2 
2 anos - 2 anos e meio 2 
 
1 
 
3 
2 anos e meio - 3 anos 
 
1 
 
1 
3 anos - 3 anos e meio 
 
1 
 
1 
Total Geral 17 5 2 1 1 1 27 
 
 No que tange, agora, aos resultados das decisões judiciais do TST e do 
STJ em função dos autores das ações, é possível verificar que os proprietários 
receberam em ambas as esferas mais respostas negativas do que positivas, no 
que poderíamos contrariar, ao menos provisoriamente, as teses apresentadas 
pelos diversos relatórios analisados no Capítulo 2 de que o Judiciário atua a 
favor dos fazendeiros ou proprietários. 
No TST, os proprietários tiveram 13 (87%) das 15 ações de sua autoria 
no Tribunal, sendo 11 de indeferimento e 2 por prejuízo da ação. Se olharmos, 
contudo, o número de indeferimentos dados ao MPT, é possível observar 
proporção semelhante a dos proprietários, no que podemos pensar que o TST, 
aqui, não está tratando de decisões de mérito, mas de decisões de caráter 
134 
 
 
 
processual, em que ambas as partes podem estar pedindo a revisão de 
aspectos omissos ou contraditórios em decisões anteriores. 
 
Tabela 12 - Respostas do TST em função dos autores das ações 
Respostas 
Autores das ações 
Total % 
Proprietário MPT Empreiteira VT 
Deferido 2 13% 1 11% 
 
0% 1 100% 4 15% 
Positivo Total 2 13% 1 11% 
 
0% 1 100% 4 15% 
Indeferido 11 73% 6 67% 1 50% 
 
0% 18 67% 
Não-conhecido 2 13% 1 11% 1 50% 
 
0% 4 15% 
Prejudicado 
 
0% 1 11% 
 
0% 
 
0% 1 4% 
Negativo Total 13 87% 8 89% 2 100% 
 
0% 23 85% 
Total Geral 15 100% 9 100% 2 100% 1 100% 27 100% 
 
 No STJ, por sua vez, a proporção de respostas negativas para os 
proprietários é ainda maior que no TST. Das 17 ações propostas pelos 
proprietários, 16 receberam respostas negativas, sendo 12 decisões de 
indeferimento, 3 de não conhecimento e uma por prejuízo da ação. Os “gatos”, 
como pode se ver, tiveram suas duas únicas ações indeferidas. 
 
Tabela 13 - Respostas do STJ em função dos autores das ações 
Respostas 
Autores das ações 
Total % 
Proprietário 
Justiça 
Estadual 
Gato MPF Diretor 
Justiça 
Federal 
Positivo 1 6% 5 100% 
 
0% 1 100% 
 
0% 1 100% 8 30% 
Deferido 1 6% 5 100% 
 
0% 1 100% 
 
0% 1 100% 8 30% 
Negativo 16 94% 
 
0% 2 100% 
 
0% 1 100% 
 
0% 19 70% 
Indeferido 12 71% 
 
0% 2 100% 
 
0% 1 100% 
 
0% 15 56% 
Não-conhecido 3 18% 
 
0% 
 
0% 
 
0% 
 
0% 
 
0% 3 11% 
Prejudicado 1 6% 
 
0% 
 
0% 
 
0% 
 
0% 
 
0% 1 4% 
Total Geral 17 100% 5 100% 2 100% 1 100% 1 100% 1 100% 27 100% 
 
 Embora esses dados apontem para possibilidade de questionar a ideia 
de atuação parcial do Judiciário em favor dos proprietários e fazendeiros,podemos questionar se tais respostas de fato nos dizem algo sobre o 
posicionamento político dos dois Tribunais sobre o tema do trabalho escravo 
rural. Ainda que ampliassemos o número de decisões analisadas, o olhar 
apenas sobre os resultados não nos mostraria o entendimento dos juízes ou 
dos Tribunais acerca do trabalho escravo. E o aumento do número de decisões 
judiciais poderia levar a dificuldades de monta para o mapeamento dos 
entendimentos existentes e do fluxo dos acontecimentos em cada caso. E 
135 
 
 
 
lembrando que as decisões aqui analisadas são as últimas decisões tomadas 
pelo TST e pelo STJ nos casos encontrados, sabemos que existe todo um fluxo 
processual anterior a elas, que poderiam ajudar na investigação sobre o 
andamento dos casos na Justiça. 
 
Os casos escolhidos 
Foi com base nos critérios expostos que escolhemos, assim, casos em 
que foram encontrados trabalhadores rurais no ramo canavieiro (mais 
especificamente na atividade do corte de cana-de-açúcar) e no ramo pecuário 
(mais especificamente da preparação do solo para pasto). E escolhemos casos 
em que pudemos analisar em maior profundidade as respostas e a atuação do 
Poder Judiciário para diferentes perfis de acusado: para um “gato”, para um 
político brasileiro, e para uma grande empresa produtora de etanol no país. Os 
casos escolhidos congregam, assim, exemplos de expressividade teórica, na 
medida em que aconteceram em ramos da atividade rural de expressividade no 
quadro do trabalho escravo e tencionam a relação existente entre os resultados 
das decisões judiciais e o perfil dos acusados de trabalho escravo. 
 
Tabela 14 - Espectro do cenário do trabalho escravo nos casos escolhidos 
Cenário 
Caso do “gato” 
(1996-2015) 
Casa do Senador 
João Ribeiro 
(2004-2014) 
Caso Pagrisa 
(2007-2015) 
Onde ocorreu? RJ PA PA 
De onde vêm os trabalhadores? MG TO MA e PI 
Qual o ramo de atividade? Cana-de-açúcar Pecuária Cana-de-açúcar 
 
Além dos casos escolhidos serem representativos das atividades rurais 
em que mais são encontrados trabalhadores escravos, eles também são 
representativos do ponto de vista dos estados onde ocorreu o trabalho escravo 
e do ponto de vista do estado de origem dos trabalhadores rurais que foram 
escravizados. Dos três casos por nós analisados, dois deles, o Caso do 
Senador João Ribeiro e o Caso Pagrisa, ocorreram no estado do Pará, que é 
histórico e estatisticamente apontado pelas pesquisas e pelos dados do 
Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) como o que apresenta o maior 
136 
 
 
 
número de trabalhadores escravos resgatados pelo Grupo Especial de 
Fiscalização Móvel68. 
Segundo dados do MTE, entre 1995 e 2014, o Grupo resgatou um total 
de 48.584 trabalhadores em todo o Brasil, sendo que 12.677 (26%) foram 
somente no estado do Pará, como mostra a tabela abaixo. 
 
Tabela 15- Trabalhadores resgatos por estado federativo (1995-2014) 
Fonte: Tabela produzida a partir de dados do MTE e da ONG Repórter Brasil 
(http://reporterbrasil.org.br/dados/trabalhoescravo/). 
 
Em vinte anos de fiscalização, como podemos observar destacado em 
amarelo, o estado do Pará apareceu em primeiro lugar ao menos em treze, 
tendo o ano de 2007 como seu maior expoente. Do total de 1.923 
trabalhadores resgatados nesse ano, 1.064 (mais de 50%) foram unicamente 
na Fazenda Pagrisa, que teve suas dependências fiscalizadas pelo Grupo 
Móvel justamente no ano de 2007. À época, tal resgate ficaria conhecido como 
o maior já realizado pelo Grupo, ganhando grande destaque na mídia, e 
 
68
 Vale recuperar, inclusive, como já exposto no Capítulo 2, que foi no Pará que ocorreu o caso 
de trabalho escravo que levou Dom Pedro Casaldáliga a denunciar o Brasil a instâncias 
internacionais de proteção ao trabalhador e aos direitos humanos, e que resultou no início de 
políticas institucionais mais concretas em torno do problema. 
137 
 
 
 
causando muito alvoroço entre os três Poderes, especialmente entre o Senado 
e o Ministério do Trabalho e Emprego, como veremos mais tarde. 
Já no Caso do Senador João Ribeiro, cuja fiscalização foi feita no ano de 
2004, o número de trabalhadores resgatados foi bem menos expressivo que no 
Caso Pagrisa, somando um total de 25 trabalhadores, menos de 1% dos 909 
trabalhadores resgatados no Pará naquele ano. Mas foi número suficiente, 
como veremos, para que deputados e senadores se manifestassem nas 
instâncias do Poder Legislativo a favor do senador, questionando a atuação do 
Grupo Fiscalização e o seu entendimento do que seria o trabalho escravo. 
Os dados sobre trabalho escravo no estado do Pará se tornam ainda 
mais claros no “Atlas do Trabalho Escravo no Brasil”, que confirma o que os 
números do MTE já mostraram. Conforme podemos observar nos mapas 
abaixo, o estado do Pará desponta como o “campeão” em número de 
trabalhadores resgatados de trabalho escravo, antes mesmo do caso recorde 
da Pagrisa. 
 
138 
 
 
 
Figura 2 - Mapa dos trabalhadores escravos resgatados 
 
Fonte: ONG Amigos da Terra, 2012, p. 24. 
 
No Atlas, inclusive, o município de Ulianópolis, local onde fica a Fazenda 
Pagrisa, aparece em destaque em número de trabalhadores resgatados, 
especialmente em função da operação de fiscalização empreendida em 2007, 
de onde foram resgatados mais de 90% (1.064) do total de 1.113 trabalhadores 
resgatados em todo o município naquele ano. 
 
139 
 
 
 
Figura 3 - Mapa do índice de probabilidade de escravidão e resgates em 2007 
 
Fonte: ONG Amigos da Terra, 2012, p. 78. 
 
O outro caso, por sua vez, o Caso do “gato”, ocorreu no estado do Rio 
de Janeiro durante os anos 1990, quando o Grupo de Fiscalização Móvel 
contava com recursos escassos para a realização das fiscalizações, e quando 
ainda não se tinham relatórios estatísticos sedimentados acerca das 
operações. O que se sabe é que no quadro geral e anual do número de 
trabalhadores resgatados pelo Grupo Móvel, o estado do Rio de Janeiro 
aparece bem abaixo do estado do Pará, apresentando 1.555 trabalhadores 
resgatados entre 1995 e 2014 (3% do número total). A operação de 
fiscalização empreendida no caso do “gato”, que se deu em 1996 no município 
de Cabo Frio, resgatou cerca de 140 trabalhadores. 
140 
 
 
 
 Nos três casos analisados, os trabalhadores que foram encontrados 
pelas fiscalizações foram aliciados de outros estados da federação ou 
migraram voluntariamente à procura de emprego fora de seus estados de 
residência ou de naturalidade. 
 No “Caso do Senador João Ribeiro” e no “Caso Pagrisa”, os estados de 
onde vieram os trabalhadores encontrados figuram como estados 
“fornecedores” de trabalhadores escravos, sobretudo para o estado do Pará, 
onde ocorreram ambos os casos referidos. Como nos mostra o mapa abaixo, 
os fluxos que saem do estado do Maranhão e do Tocantins para o Pará são os 
mais fortes de todo o território nacional, sobretudo os que saem do Maranhão. 
 
Figura 4 - Fluxos dos trabalhados escravos 
 
Fonte: ONG Amigos da Terra, 2012, p. 26. 
 
No “Caso Pagrisa”, a grande leva de trabalhadores resgatados pela 
fiscalização era de trabalhadores vindos dos estados do Maranhão e do Piauí, 
como migrantes a busca de emprego e não aliciados por “gatos”. No “Caso do 
141 
 
 
 
Senador João Ribeiro”, por seu turno, os trabalhadores foram aliciados no 
estado de Tocantins, que figura como o segundo estado “fornecedor” de 
trabalhador escravo. No Caso do “gato”, por sua vez, os trabalhadores foram 
aliciados no norte de Minas Gerais. 
Por fim, todos os três casos tratam de atividades rurais que, como já 
vimos, possuem expressividade no mapa do trabalho escravo rural no Brasil, 
dois deles ocorrendo no setor sucroalcooleiro (o Caso Pagrisa, no Pará, e o 
Caso do “gato”, no Rio de Janeiro), especificamente na atividade de corte da 
cana-de-açúcar para a produção de álcoole açúcar; e o outro (o Caso do 
Senador João Ribeiro, no Pará) no setor pecuário, na derrubada de juquira 
para a preparação de pasto. A essencialidade estrutural desse fator se explica 
quando visto a partir da sua importância no quadro mais amplo do cenário 
econômico brasileiro e de seus projetos de desenvolvimento ou de avanço do 
capitalismo no campo, avanço hoje conhecido por “agronegócio”. 
O “Atlas do Trabalho Escravo” apresenta, inclusive, mapas exclusivos 
para as principais atividades rurais onde foram encontrados trabalhadores 
escravizados, com destaque para o crescimento da produção de cana-de-
açúcar e para a criação de gado, especificando a presença das atividades nos 
estados e municípios, onde podemos encontrar nossos casos representados. 
Com relação, particularmente, aos casos de trabalho escravo que se 
deram no setor sucroalcooleiro, o Caso Pagrisa e Caso do “gato”, lembremo-
nos de que ocorreram, respectivamente, nos estados do Pará e do Rio de 
Janeiro. 
 
142 
 
 
 
Figura 5 - Trabalho escravo e a cana-de-açúcar 
Fonte: ONG Amigos da Terra, 2012, p. 41. 
 
Conforme mostra o mapa acima e é descrito no Atlas, o estado do Rio é 
considerado, juntamente com a Zona da Mata, interior de São Paulo, norte do 
Paraná, Espírito Santo, e toda a região litorânea do nordeste, região tradicional 
no cultivo de cana. O estado do Pará, por sua vez, vem despontado, ainda que 
de forma bem menos expressiva69, mas juntamente com outros estados do 
centro-norte, como novos produtores do setor sucroalcooleiro e da levada da 
produção de cana para as frentes pioneiras. 
Com relação, por fim, ao caso de trabalho escravo que se deu no setor 
pecuário, o Caso do Senador João Ribeiro (no Pará), está dentro da camada 
 
69
 Veremos mais adiante que a Fazenda Pagrisa, no Pará, mesmo com a “timidez” do estado 
na produção de cana, despontava em 2007 como uma das maiores empresas agrícolas 
produtoras de álcool e derivados da cana, chegando a ter entre suas principais compradoras a 
Shell e a Petrobrás. 
143 
 
 
 
de atividades na qual estão quase 50% das propriedades onde foram 
encontrados trabalhadores escravos. Conforme o Atlas do Trabalho Escravo, a 
atividade pecuária vem formando um grande arco (semelhante ao arco do 
desmatamento) ao sul da região norte, como podemos ver através dos círculos 
de cores quentes no mapa. O Pará, onde ocorreu o Caso do Senador João 
Ribeiro, encontrasse neste arco, através do qual se expande a atividade 
pecuária cada vez mais a região amazônica. E o que o Atlas chama atenção é 
que o crescimento da pecuária nessas novas regiões coincide com o 
crescimento dos casos de trabalho escravo, fazendo com que a atividade seja 
responsável por quase 50% dos trabalhadores resgatados. 
 
Figura 6 - Trabalho escravo e pecuária 
 
Fonte: ONG Amigos da Terra, 2012, p. 40. 
 
Segundo a literatura, a alta concentração de trabalho escravo no setor 
sucroalcooleiro, assim como no setor pecuário, explica-se, em grande medida, 
144 
 
 
 
em função dos sucessivos ciclos de projetos econômico-desenvolvimentistas e 
de integração nacional que vem se dando desde os anos 1970 no país. 
Em sua essência, tais projetos tornar-se-iam conhecidos e criticados por 
dois fatores centrais e aparentemente contraditórios: defendem e empreendem 
uma expansão constante das fronteiras agropecuárias para regiões cada vez 
mais próximas da região amazônica, sob a justificativa de levar 
desenvolvimento para os recantos “esquecidos” do Brasil; mas, ao mesmo 
tempo, implementam a exploração em grande escala de monoculturas e de 
produção de carne para exportação, tornando-se responsável tanto pela alta 
concentração de terras (expulsando os pequenos agricultores), quanto pela 
formação de uma grande massa de trabalhadores volantes, que ficam 
submetidos a trabalhos temporários, mal remunerados e sujeitos a todos os 
tipos de arbitrariedades (Teixeira, 2015). 
 
Critérios para a análise dos casos na Justiça 
 Os estudos dos casos selecionados procuram combinar uma análise 
segundo variáveis mais gerais do andamento dos casos e uma análise 
segundo o fluxo particular de cada caso analisado. 
 Dentre as variáveis de caráter mais geral, procuramos identificar, 
sobretudo, as esferas e instâncias da Justiça onde os casos se desdobraram, o 
número de processos e ações autuadas em cada caso, os autores, as datas de 
entrada, as datas de julgamento, o tempo de duração das ações na Justiça e 
os resultados das decisões judiciais em função dos autores. 
 Na análise de fluxo, por seu turno, tratamos de “variáveis” internas e 
externas aos processos judiciais que impactam no andamento dos casos, mas 
que somente são percebidas quando olhamos com atenção para os detalhes 
dos andamentos processuais dos casos na Justiça, quando lemos a íntegra 
das decisões tomadas pelos juízes, e quando nos voltamos para os eventos 
externos e paralelos ao andamento dos casos. Quando saímos do plano das 
variáveis mais gerais e adentramos no curso de cada caso é que percebemos 
não apenas a natureza dos argumentos dos atores e dos juízes, como também 
145 
 
 
 
os impactos exercidos por fatores externos nos processos e nas próprias 
decisões judiciais. 
 Nos fluxos dos casos podemos encontrar, sobretudo, o impacto dos 
pedidos de redesignação de audiências, que adiam significativamente o 
julgamento das ações. Encontramos também omissões, contradições e 
divergências jurisprudenciais ocasionando “confusão” entre as decisões 
judiciais e a abertura de infinitos recursos para questionar problemas de ordem 
processual e, com isso, postergar a resolução dos casos. E também nos 
deparamos com o impacto da atuação de outros atores políticos e sociais no 
desenrolar das perícias judiciais e na tomada das decisões pelos juízes. 
 
 
146 
 
 
 
Capítulo 3 – O Caso do “gato”: aquele que “cai sempre 
em pé” (1996-2015) 
 
3.1 – Introdução 
 O Caso do “gato” é, dos casos escolhidos para análise, o mais simples 
e, ao mesmo tempo, o mais questionador, na medida em que derrubou ou ao 
menos relativizou alguns pressuspostos previamente estabelecidos. Ao 
contrário do que inicialmente supomos ao delimitarmos os casos para análise, 
o Caso do “gato” não se mostrou como o mais rapidamente solucionado pela 
Justiça, sendo, pelo contrário, o mais longo de todos. Ao todo, desde a 
fiscalização, ele já dura mais de 18 anos. Somente na Justiça, já se foram mais 
de 10 anos de duração do caso, que ainda se encontra em andamento na Vara 
Federal de São Pedro da Aldeia. Relacionado a isso, o caso também não 
confirmou o pressuposto inicial de que os “gatos” teriam pouca capacidade 
litigatória, não conseguindo entrar com recursos em instâncias superiores. O 
“gato” conseguiu entrar com recursos até o Superior Tribunal de Justiça, 
atingindo a prescrição de diversos crimes que a ele foram imputados. 
 Veremos, contudo, que a capacidade litigatória do “gato”, ainda que 
chegue até o STJ e consiga prolongar o caso até a prescrição de crimes, 
demonstrará fragilidades importantes não apenas da defesa a ele 
disponibilizada, mas também do próprio Judiciário, que, juntas, levam o caso a 
“passos mornos” para a impunidade, quase sem nenhuma manifestação de 
mérito por parte dos juízes e sem atuações marcantes por parte do Ministério 
Público Federal. 
 Vejamos como o caso de iniciou e como foi tratado na Justiça. 
 
3.2 – A fuga, a denúncia e as fiscalizações (1996-2004) 
No início do ano de 1996, um trabalhador fugido de uma das fazendas 
da empresa AGRISA, localizada em Cabo Frio, no Rio de Janeiro, ligou para a 
Federação dos Trabalhadores Rurais de Minas Gerais para denunciar as 
147 
 
 
 
condições de trabalho que ele e outros trabalhadores aliciados no norte de 
Minas vinham vivenciando no trabalho de corte de cana-de-açúcar na referida 
fazenda70.Após a denúncia do trabalhador, diversas visitas e operações de 
fiscalização foram realizadas na AGRISA, em diferentes ocasiões, e por 
diferentes órgãos do Estado e associações. O Grupo Especial de Fiscalização 
Móvel (GEFM) do Ministério do Trabalho e Emprego, que em teoria seria o 
órgão primeiro e por excelência a fiscalizar o caso, figurou como apenas “mais 
um” dentre os demais, conformando um quadro distinto das operações de 
fiscalização que temos atualmente e, mais propriamente, a partir de meados 
dos anos 2000, em que o GEFM passa a ocupar cada vez mais um lugar de 
destaque e de protagonismo nas fiscalizações, como veremos acontecer nos 
outros casos analisados. 
A situação de “pluralidade” na fiscalização ou de não-protagonismo do 
GEFM no Caso do “gato” ilustra de forma muito clara a fragilidade institucional 
e política do Grupo na época em que a denúncia havia sido feita, quando 
contava com apenas 6 meses de existência (e muitos problemas). 
Como já vimos no Capítulo 2, o Grupo Móvel foi criado em meados de 
1995, e, pelo menos até meados dos anos 2000, enfrentou dificuldades com 
relação à falta de estrutura e à falta de legitimidade e reconhecimento perante 
outros órgãos do Estado. Foi criticado não somente pela falta de estrutura, 
como também por não ter mecanismos que estabelecessem uma coordenação 
com os demais órgãos estatais. A falta de coordenação interinstitucional fazia 
com que o Grupo atuasse, na maioria das vezes, sem a presença da Polícia 
Federal (tornando o Grupo alvo de ameaças de fazendeiros e capangas) e sem 
 
70
 As informações e depoimentos narrados acerca da denúncia do trabalhador e da fiscalização 
feita pelo Grupo Móvel só se encontraram disponbilizadas na denúncia que o Ministério Público 
Federal encaminhou para a Vara Federal de São Pedro da Aldeia para a abertura da Ação 
Penal. A denúncia do MPF pode ser consultada através do link: 
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:omooh4R-
6n4J:www.prrj.mpf.mp.br/institucional/prdc/atuacao/atuacao-extrajudicial-1/recomendacoes-
tacs-e-outros/criminal/denuncia-contra-cinco-envolvidos-em-trabalho-escravo-nas-empresas-
agrisa-e-fontes-que-exploram-cana-de-acucar-em-cabo-
frio/at_download/documento+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br. 
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:omooh4R-6n4J:www.prrj.mpf.mp.br/institucional/prdc/atuacao/atuacao-extrajudicial-1/recomendacoes-tacs-e-outros/criminal/denuncia-contra-cinco-envolvidos-em-trabalho-escravo-nas-empresas-agrisa-e-fontes-que-exploram-cana-de-acucar-em-cabo-frio/at_download/documento+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:omooh4R-6n4J:www.prrj.mpf.mp.br/institucional/prdc/atuacao/atuacao-extrajudicial-1/recomendacoes-tacs-e-outros/criminal/denuncia-contra-cinco-envolvidos-em-trabalho-escravo-nas-empresas-agrisa-e-fontes-que-exploram-cana-de-acucar-em-cabo-frio/at_download/documento+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:omooh4R-6n4J:www.prrj.mpf.mp.br/institucional/prdc/atuacao/atuacao-extrajudicial-1/recomendacoes-tacs-e-outros/criminal/denuncia-contra-cinco-envolvidos-em-trabalho-escravo-nas-empresas-agrisa-e-fontes-que-exploram-cana-de-acucar-em-cabo-frio/at_download/documento+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:omooh4R-6n4J:www.prrj.mpf.mp.br/institucional/prdc/atuacao/atuacao-extrajudicial-1/recomendacoes-tacs-e-outros/criminal/denuncia-contra-cinco-envolvidos-em-trabalho-escravo-nas-empresas-agrisa-e-fontes-que-exploram-cana-de-acucar-em-cabo-frio/at_download/documento+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:omooh4R-6n4J:www.prrj.mpf.mp.br/institucional/prdc/atuacao/atuacao-extrajudicial-1/recomendacoes-tacs-e-outros/criminal/denuncia-contra-cinco-envolvidos-em-trabalho-escravo-nas-empresas-agrisa-e-fontes-que-exploram-cana-de-acucar-em-cabo-frio/at_download/documento+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br
148 
 
 
 
os delegados das Delegacias Regionais do Trabalho (dificultando a 
qualificação penal do trabalho escravo e a instauração dos inquéritos policiais). 
Falava-se, inclusive, que os diferentes órgãos estatais acabavam realizando 
operações de fiscalização independentes do Grupo – como faziam as 
Delegacias Regionais do Trabalho (DRTs) – gerando, assim, uma pluralidade 
de relatórios e pareceres que não somente atrasavam a abertura das ações 
sobre trabalho escravo na Justiça, como resultavam em impunidade e 
reincidência das denúncias. 
No Caso do “gato”, pudemos encontrar diversas dessas dificuldades 
para a atuação do GEFM e para o encaminhamento dos inquéritos e da Ação 
Penal na Justiça, começando pelo número de fiscalizações que foram 
realizadas. Ao todo, o Caso do “gato” perpassou por um total de seis 
operações de fiscalização, contando com apenas uma do GEFM, como mostra 
o quadro abaixo. Vejamos quando e como cada operação se deu, e o que fora 
relatado. 
 
Tabela 16 - Operações de Fiscalização realizadas no Caso do "gato" 
Data da fiscalização Atores da Fiscalização 
15/02/1996 
- Associação dos Trabalhadores na Agricultura 
- Secretaria de Saneamento da Prefeitura de Cabo Frio 
- OAB/RJ 
- Fetag 
- CPT 
24/07/1996 Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM) 
Meados de 1999 
- Subsecretaria do Trabalho 
- Secretaria de Segurança Pública 
- Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cabo Frio 
30/06/2003 
- DRT 
- MPT 
- PF 
03/07/2003 
- DRT 
- MPT 
- PF 
12/08/2003 - DRT 
 
A primeira fiscalização foi realizada em 15 de fevereiro de 1996 por uma 
comissão composta pelo então Presidente da Associação dos Trabalhadores 
na Agricultura, por profissionais da Secretaria de Saneamento da Prefeitura de 
149 
 
 
 
Cabo Frio, representantes da OAB do Rio de Janeiro, representantes da 
FETAG e de integrantes da CPT. 
Segundo os relatos dos integrantes dessa comissão, a visita à AGRISA 
foi marcada por hostilidade e violência por parte do então proprietário e diretor 
da AGRISA, Demétrio Fontes Tourinho, que, acompanhado por cinco 
“capatazes ostensivamente armados” procurou expulsar a comissão de sua 
fazenda, chegando, inclusive, a agir com ameaça e violência com a 
representante da CPT então presente, agarrando-a fortemente pelo braço ao 
afirmar que nenhum trabalhador sairia de lá. (BRASIL/MPF, 2003: 3). Diante da 
situação, o Presidente da FETAG, também presente na ocasião, procurou 
ajuda da Polícia Civil local e pediu para que os acompanhassem até a fazenda, 
conseguindo, com isso, retirar os trabalhadores e leva-los até o fórum de Cabo 
Frio (BRASIL/MPF, 2003: 3-4). 
Além da hostilidade com que foi recebida, a comissão, quando no 
interior da AGRISA, relatou que a denúncia feita pelo trabalhador se 
confirmava, tendo em vista a constatação das condições precárias de trabalho, 
que se mostravam impróprias “até mesmo para animais irracionais”. Os 
trabalhadores estavam todos amontados em um alojamento sem qualquer 
condição de higiene, e que também não dispunha de instalações sanitárias 
básicas, tais como banheiro e chuveiro (BRASIL/MPF, 2003: 3). 
O relato dessa primeira visita à AGRISA foi confirmado no relatório de 
vistoria feito na mesma oportunidade pelo Serviço de Vigilância Epidemiológica 
da Secretaria de Saúde de Cabo Frio, que apontou que as condições 
higiênicas, bem como a qualidade da alimentação e do manuseio das 
refeições, eram de tal modo precário e inadequado que nem encontravam 
termo para definir o que viram (BRASIL/MPF, 2003: 4). E relataram, ainda, que 
os trabalhadores não tinham qualquer tipo de assistência médica, muito 
embora o diretor da Agrisa tivesse dito que existia um médico contratado pela 
empresa para atender aos trabalhadores. 
 Alguns dias depois, em 26 de fevereiro de 1996, o então Presidente da 
20ª Subseção de Cabo Frio da OAB – que também participara da primeira150 
 
 
 
visita à AGRISA, levou o caso ao conhecimento de autoridades competentes 
(como GEFM, MPF, DRTs e MPT), descrevendo em suas palavras o que 
disseram diversos dos trabalhadores resgatados, e confirmando, mais uma 
vez, a situação encontrada pela pequena comissão. Descreveu como “engôdo” 
e como “absolutamente perversas” as condições de trabalho a que estavam 
submetidos cerca de 140 trabalhadores na Agrisa. 
Novamente se faz o relato acerca das acomodações precárias, da 
comida de péssima qualidade e da falta de assistêcia médica, situação que era 
piorada em função do trabalho extenuante e dos pagamentos muito abaixo do 
que fora prometido, principalmente em razão de descontos resultantes de 
dívidas dos trabalhados em uma “venda” de propriedade do gato Mario Rubens 
Viana Higino, protagonista do nosso caso. Segundo os relatos, o gato cobrava 
dos trabalhados um valor de 30 a 45 reais por 15 dias de refeições, que, por 
sua vez, eram de tão baixa qualidade que acabavam forçando os trabalhadores 
a comprarem alimentos na venda do próprio gato, no que acabavam 
individados. 
 Depois de passados 5 meses da primeira visita de fiscalização, o Grupo 
Especial de Fiscalização Móvel realizou a sua vistoria, em 24 de julho de 1996. 
Sua fiscalização, no entanto, não foi feita nas instalações da AGRISA, mas sim 
nas instalações da empresa FONTES Agropecuária, localizada, como a outra, 
no distrito de Cabo Frio. Propriedade do mesmo dono e diretor da AGRISA 
(Demétrio Fontes Tourinho), a empresa Fontes também havia sido denunciada 
por condições degradantes de trabalho pelos trabalhadores resgatados pela 
pequena comissão, ensejando, portanto, a realização da fiscalização em suas 
dependências. O gato Mario Rubens prestava seus serviços tanto numa 
empresa quanto na outra, aliciando trabalhadores de outros estados e se 
responsabilizando por sua alimentação. 
A situação encontrada pelo GEFM na FONTES Agropecuária se 
apresentou semelhante a que foi presenciada na AGRISA anteriormente, 
configurando o que o Grupo chamou de condições de trabalho “rigorosamente 
degradantes”. Além dos problemas já constatados na AGRISA, o GEFM relatou 
que a empresa nem sequer fornecia água potável nas frentes de trabalho, no 
151 
 
 
 
que os trabalhadores acabavam se reutilizando de embalagens vazias de 
agrotóxicos para levar a sua própria água. Além disso, os trabalhados se 
encontravam todos sem registro na Carteira de Trabalho. 
A terceira e a quarta fiscalização, por sua vez, foram realizadas, 
respectivamente em 30 de junho de 2003 e 3 de julho de 2003, pela DRT e 
pelo MPT da região, dessa vez com o apoio da Polícia Federal. Aparentando 
possuir mais recursos a sua disposição para coletar provas e depoimentos, 
essas duas fiscalizações apresentaram mais relatos acerca das condições de 
trabalho na AGRISA. Mesmo após 7 anos da denúncia feita pelo trabalhador 
fugido, com 2 fiscalizações já realizadas e pelo menos 3 Inquéritos Policiais 
abertos (que veremos logo adiante), os órgãos fiscalizadores constataram que 
a situação degradante dos trabalhadores na AGRISA ainda continuavam as 
mesmas. 
Em seus relatos, apontaram que se depararam com um “quadro 
dantesco”, em função da “condição subumana” dos alojamentos dos 
trabalhadores; da péssima qualidade das instalações sanitárias; da água 
fornecida aos trabalhadores, que vinha de um poço a céu aberto e com 
proliferação de algas nocivas; da convivência com esgoto a céu aberto e 
pocilga; do pagamento de salários irrisórios; das jornadas exaustivas de 
trabalho; dos descontos salariais e da “exploração escrava” de dívida 
progressiva na aquisição de alimentos pelos trabalhadores. (BRASIL/MPF, 
2003: 7). 
Apenas um mês depois dessas duas fiscalizações, foi realizada, em 12 
de agosto de 2003, a sexta e última fiscalização na AGRISA, e também na 
empresa FONTES, pelo MPT, DRT, PF, MPF e INSS. Mais uma vez, as 
autoridades constataram a permanência das condições degradantes em que 
viviam os trabalhadores dentro das referidas empresas. Na ocasião, os gatos, 
incluindo o Mario Rubens, foram conduzidos para a Delegacia da Polícia 
Federal em Macaé, no Rio de Janeiro, para prestarem esclarecimentos. 
Mesmo com todas essas fiscalizações sustentando um reconhecimento 
quase uníssono das situações degradantes encontradas, demorou cerca de 8 
152 
 
 
 
anos para a abertura da Ação Penal na Justiça. Quais seriam as possíveis 
razões para essa demora? Duas explicações podem, de início, nos ajudar a 
compreender esse aspecto, uma de ordem institucional e outra de ordem 
institucional-estratégica. 
A primeira possível explicação está relacionada a uma questão que já 
levantamos anteriormente, e que diz respeito ao caráter plural e fragmentado 
do quadro fiscalizatório na época da denúncia. Talvez o problema, por melhor 
dizer, não esteja na pluralidade de fiscalizações, na medida em que elas não 
divergiram muito uma da outra, mas na atuação fragmentada, ou melhor, 
destituída de uma coordenação central, para que as irregularidades e os crimes 
fossem constatados de uma única vez, e encaminhados também de uma única 
vez às autoridades competentes para a abertura dos Inquéritos Policiais e das 
Ações na Justiça. 
Nos outros casos, como veremos, em que o GEFM já tem um maior 
protagonismo no quadro fiscalizatório, não houve tanta demora na abertura 
(ressalte-se que somente na abertura) dos processos na Justiça71. O maior 
protagonismo do Grupo, contudo, não significou que se extinguiu a pluralidade, 
na medida em que as suas melhorias institucionais consistiram justamente na 
incorporação dessa pluralidade para o seu interior, através da participação 
conjunta e coordenada de outros órgãos estatais, e também de associações, 
nas operações de fiscalização, facilitando o trabalho de investigação, de 
enquadramento penal e de encaminhamento de inquéritos e ações na Justiça. 
No Caso do “gato”, a pluralidade de fiscalizações não se desdobrou em 
descrições que contradiziam o GEFM, nem em descrições muito distintas das 
que ele fez. Pelo contrário, todas reconheceram e apresentaram elementos que 
caracterizavam o quadro degradante ao qual estavam submetidos os 
trabalhadores. Porém, as fiscalizações não estavam integradas nem 
coordenadas. E uma ilustração disso se encontra não apenas nas descrições 
ou pontos que eram adicionados a cada fiscalização, como também se refletia 
 
71
 Ver Espectro dos Casos nas Políticas de Erradicação do Trabalho Escravo, no Apêndice 2 
da tese. 
153 
 
 
 
na abertura “pingada” dos diversos Inquéritos Policiais para investigar cada 
hora um crime, retardando a investigação do caso como um todo e a 
propositura da Ação Penal na Justiça. Ou seja, não havia uma integração e 
coordenação nem entre as fiscalizações, nem entre elas e as aberturas dos 
Inquéritos Policiais. 
Como podemos ver no quadro abaixo, o primeiro Inquérito Policial aberto 
em 15 de agosto de 1996 buscava investigar a responsabilidade dos acusados 
apenas no crime de aliciamento de trabalhadores de um estado para o outro do 
território nacional. Outros fatores que foram apresentados pelas fiscalizações 
até então feitas não foram incorporadas pelo Inquérito, no que as descrições 
acerca das condições degradantes de trabalho não foram abrangidas pela 
primeira investigação. O segundo Inquérito Policial, por sua vez, aberto em 18 
de agosto de 1999 já incorporava a preocupação relatada nas fiscalizações 
acerca do trabalho escravo. Como vemos, contudo, esse reconhecimento se 
deu após 3 anos da denúncia e das fiscalizações até então realizadas. Mais 
tarde, em 20/09/20003, é aberto mais um Inquérito Policial, desta vez para 
investigar o crime de frustração, mediante fraude ou violência, de direito 
assegurado pela legislação trabalhista. Foram, neste último inquérito, quase 
sete anospara investigar um crime que foi um dos mais claramente relatados 
pelas fiscalizações feitas desde o início. 
 
 
154 
 
 
 
Tabela 17 - Quadro de Inquéritos Policiais abertos para o Caso do "gato" 
Data da fiscalização Atores da Fiscalização 
15/02/1996 
- Associação dos Trabalhadores na Agricultura 
- Secretaria de Saneamento da Prefeitura de Cabo Frio 
- OAB/RJ 
- Fetag 
- CPT 
24/07/1996 Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM) 
15/08/1996 – Inquérito Policial (0034573-16.1996.4.02.5108) 
Apuração do crime previsto no art. 207 – Aliciamento de trabalhador para um estado para o outro do território nacional 
Meados de 1999 
- Subsecretaria do Trabalho 
- Secretaria de Segurança Pública 
- Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cabo Frio 
18/08/1999 – Inquérito Policial (0652077-78.1999.4.02.5108) 
Apuração do crime previsto no art. 149 – redução à condição análoga à de escravo 
Apuração do crime previsto no art. 197 – constranger alguém mediante violência ou grave ameaça 
25/09/2000 – Inquérito Policial (0001457-77.2000.4.02.5108) 
Apuração do crime previsto no art. 203 – frustração por meio de fraude ou violência de direito assegurado por 
legislação trabalhista 
30/06/2003 
- DRT 
- MPT 
- PF 
03/07/2003 
- DRT 
- MPT 
- PF 
12/08/2003 - DRT 
17/09/2003 – Inquérito Policial (0001286-18.2003.4.02.5108) 
Apuração de responsabilidade da empresa AGRISA e FONTES 
 
Trata-se de um quadro muito distinto, como veremos, do encontrado nos 
outros casos analisados, em que as fiscalizações já se pautam pela concepção 
de que existe uma “cesta de crimes” do trabalho escravo, isto é, quando se 
fiscaliza denúncias de trabalho escravo, fiscaliza-se um conjunto de crimes 
que, com frequência, aparecem juntos nas denúncias e nas investigações, 
como é o caso do crime de aliciamento de trabalhadores de um estado para o 
outro do território, do crime de exposição da vida ou da saúde do trabalhador a 
perigo direto e iminente, e do crime de frustração, mediante fraude ou violência, 
de direito assegurado por legislação trabalhista, todos os crimes que foram 
investigados no Caso do “gato” cada qual por um Inquérito separado. 
Essa investigação “em goteira”, ou esse entendimento ainda não 
sedimentado nas instituições acerca do trabalho escravo e das circunstancias 
que os cercam podem ser, também, resultantes do que chamamos de um 
“problema de lei” somado aos usos estratégicos da lei – e aí nós já entramos 
na segunda possível explicação para a demora na abertura da Ação Penal na 
Justiça. 
155 
 
 
 
A maioria das fiscalizações e dos inquéritos policiais do Caso do “gato” 
foi realizada antes da promulgação da Lei 10.803, de 11 de dezembro de 2003, 
que, como já vimos no Capítulo 2, incrementou o artigo 149 do Código Penal, 
que versava sobre o crime de trabalho escravo, para facilitar a sua identificação 
pelos agentes fiscais e outros órgãos do Estado. A frase então genérica 
“redução à condição análoga à de escravo” foi consubstanciada em três 
possibilidades concretas: o trabalho forçado ou jornada exaustiva, a servidão 
por dívida, e o trabalho em condições degradantes. 
No Caso do “gato”, todas essas três possiblidades foram relatadas pelas 
diferentes fiscalizações, porém, quando elas foram denunciadas, fiscalizadas e 
investigadas, o artigo 149 ainda estava em seu formato genérico, deixando aos 
sujeitos que a mobilizaram preencherem e disputarem o seu significado. Assim, 
a demora e as dificuldades para o ajuizamento da Ação Penal na Justiça 
podem ter resultado também da generalidade da lei na época, tanto que a Ação 
Penal só foi ajuizada em 7 de janeiro de 2004, quando a lei genérica do 
trabalho escravo já havia sido consubstanciada nas possibilidades concretas já 
citadas para adequar as “condições degradantes”, que tantas vezes 
apareceram nos relatórios de fiscalização. 
 
3.3 – O Caso do “gato” no Judiciário (2004-2015) 
No Poder Judiciário, o Caso do “gato” se desenvolveu integralmente nas 
instâncias da Justiça Federal, contabilizando um total de sete processos: a 
Ação Penal do MPF na Vara Federal de São Pedro da Aldeia (RJ); cinco 
processos do gato no Tribunal Regional Federal da 2ª Região, sendo dois 
pedidos de Habeas Corpus, um Mandado de Segurança e dois Recursos em 
Sentido Estrito; e um Habeas Corpus no Superior Tribunal de Justiça. 
 
 
156 
 
 
 
Tabela 18 - Quadro Geral de Processos na Justiça para o Caso do "gato" 
Nº do Processo/Ação Autor Esfera Instância 
Data de 
Autuação 
Ação Penal (0000019-79.2004.4.025108) MPF JF VF 07/01/2004 
Habeas Corpus (2004.02.01.001840-3) Gato JF TRF 2 18/02/2004 
Habeas Corpus (2005/0013066-5) Gato JF STJ 31/01/2005 
Mandado de Segurança (2005.02.01.004629-4) Gato JF TRF 2 23/05/2005 
Recurso em Sentido Estrito (2005.51.08.000129-0) Gato JF TRF 2 14/09/2005 
Recurso em Sentido Estrito (2005.51.08.000019-0) Gato JF TRF 2 22/03/2013 
Habeas Corpus (2014.02.01.008105-2) Gato JF TRF 2 12/09/2014 
 
Como podemos observar no quadro abaixo, o Caso do “gato” ainda se 
encontra em andamento na Justiça Federal de 1º grau. Embora alguns crimes 
imputados ao gato tenham, obviamente, prescritos, ele ainda continua a 
responder pelo crime de trabalho escravo. Como veremos, o Caso do “gato” é 
o mais longo de todos os três casos escolhidos para análise. Somente no 
Poder Judiciário, já são mais de 10 anos de andamento; e se considerarmos o 
tempo entre a denúncia feita pelo trabalhador no início de 1996 e a última 
movimentação na Vara Federal de São Pedro da Aldeia, aí se vão mais de 18 
anos de existência do caso. 
 
 
157 
 
 
 
Tabela 19 - Características Gerais dos Processos Judiciais no Caso do "gato" 
Nº do Processo/Ação Autor Instância 
Data de 
autuação 
Data de 
Julgamento 
Tempo Resposta 
Ação Penal (0000019-
74.2004.4.02.5108) 
MPF VF 07/01/2004 
Em 
andamento 
Até 
16/06/2015: 
11 anos, 5 
meses e 8 
dias 
Até 16/06/2015: 
- prescrição com relação aos 
crimes previstos pelos arts. 207 e 
288; 
- prosseguimento com relação ao 
crime previsto pelo art. 149 
(trabalho escravo) 
Habeas Corpus 
(2004.02.01.001840-3) 
Gato TRF 2 18/02/2004 18/05/2004 
2 meses e 
28 dias 
INDEFERIDO 
(UNANIMIDADE) 
Embargos de Declaração Gato TRF 2 14/06/2004 03/08/2004 
INDEFERIDO 
(UNANIMIDADE) 
Habeas Corpus 
(2005/0013066-5) 
Gato STJ 31/01/2005 19/05/2005 
3 meses e 
15 dias 
INDEFERIDO 
(UNANIMIDADE) 
Embargos de Declaração Gato STJ 22/06/2005 18/08/2005 
INDEFERIDO 
(UNANIMIDADE) 
Mandado de Segurança 
(2005.02.01.004629-4) 
Gato TRF 2 23/05/2005 30/05/2005 
3 meses e 
13 dias 
PREJUDICADO 
(DECISÃO MONOCRÁTICA) 
Agravo interno Gato TRF 2 07/06/2005 06/09/2005 
INDEFERIDO 
(MAIORIA DE VOTOS) 
Recurso em Sentido Estrito 
(2005.51.08.000129-0) 
Gato TRF 2 14/09/2005 26/10/2005 
1 ano, 7 
meses e 26 
dias 
PREJUDICADO 
(DECISÃO MONOCRÁTICA) 
Agravo interno Gato TRF 2 16/11/2005 13/01/2006 
DEFERIDO 
(DECISÃO MONOCRÁTICA) 
Embargos de declaração Gato TRF 2 25/01/2006 22/02/2006 
INDEFERIDO 
(MAIORIA) 
Embargos infringentes Gato TRF 2 23/06/2006 26/02/2007 
INDEFERIDO 
(UNANIMIDADE) 
Recurso Especial Gato TRF 2 29/03/2007 15/05/2007 
DEFERIDO 
(DECISÃO MONOCRÁTICA) 
Recurso em Sentido Estrito 
(2005.51.08.000019-0) 
Gato TRF 2 22/03/2013 17/09/2013 
5 meses e 
24 dias 
INDEFERIDO 
(UNANIMIDADE) 
Habeas Corpus 
(2014.02.01.008105-2) 
Gato TRF 2 12/09/2014 16/09/2014 
1 mês e 29 
dias 
INDEFERIDO 
(DECISÃO MONOCRÁTICA) 
Liminar Gato TRF 2 12/09/2014 11/11/2014 
DEFERIDO 
(MAIORIA DE VOTOS) 
 
Um ponto interessante a se observar é que, embora as decisões dos 
juízes de primeiro grau não entrem na avaliação do crime de trabalho escravo, 
mesmo com tanto tempo de processo, elas nos dizem muito a respeito da 
atuação do juiz e do papel exercido por alguns princípios do processo penal 
acusatório para a condução do processo pelo juiz. Além desse aspecto, as 
decisões e o andamento do processo em primeiro graunos mostram como que 
outras questões, como deficiências institucionais da Vara e o descaso ou 
desleixo dos advogados dativos, influem no seguimento do processo e 
imprimem uma sensação de mornidão no tratamento que o Judiciário e os 
atores jurídicos deram ao caso em questão, levando à prescrição de vários 
crimes. 
Os processos na segunda e terceira instâncias, por sua vez, já nos 
mostram alguns posicionamentos de desembargadores e ministros que entram 
um pouco mais na questão do tema do trabalho escravo e da comprovação de 
sua materialidade para o Caso do “gato”. Como veremos, contudo, as 
158 
 
 
 
estratégias protelatórias dos acusados e de suas defesas em primeiro grau 
acabarão ajudando a conformar o andamento e o tom dos argumentos dos 
juízes também na justiça de 2º e 3º graus. Vejamos, primeiramente, como o 
caso de desenvolveu em 1ª instância. 
 Em 7 de janeiro de 2004, depois de 8 anos da denúncia feito pelo 
trabalhador, diversas fiscalizações e Inquéritos em “goteira”, finalmente é 
autuada a Ação Penal (0000019-74.2004.4.02.5108)72 do MPF contra o 
proprietário e gatos da AGRISA e FONTES na Vara Federal de São Pedro da 
Aldeia. O gato Mario, particularmente, foi incurso em três crimes: o de 
aliciamento de trabalhadores de fora do estado, o de constituir organização 
criminosa e o de reduzir os trabalhadores à condição análoga à de escravo. Em 
sua denúncia, o MPF resgata partes dos relatórios produzidos pelas diversas 
fiscalizações que foram feitas nas empresas AGRISA e FONTES, de forma a 
fortalecer as evidências de que a situação encontrada era claramente a de 
trabalho escravo. Sobre o gato Mario, fez a seguinte descrição e acusações: 
“Mario Rubens Viana Higino, que trabalha na AGRISA há cerca de 
20 anos, além de exercer as funções de “gato”, vez que foi, por 
exemplo, quem, pessoalmente, aliciou o trabalhador Manoel Pereira 
dos Santos em Santa Maria do Salto/MG, é o responsável pela 
alimentação precária dos trabalhadores, dos quais cobra a quantia 
de R$ 45,00 por quinzena. É, ainda, proprietário de uma “venda” 
localizada nas dependências da AGRISA, existente desde 1996, 
através da qual comercializa a preções extorsivos produtos de 
higiene (papel higiênico, sabonete, creme dental etc...) e comida 
necessária para suprir a péssima alimentação por ele próprio 
fornecida. O raciocínio é simples, porém perverso: como a comida é 
de baixíssima qualidade, os trabalhadores, diante da inexistência de 
outra alternativa, se vêem obrigados a adquirir produtos da “venda”. 
Ao final de cada quinzena, o parco salário recebido não é suficiente 
para pagar os produtos adquiridos, donde se inicia um processo 
contínuo de endividamento, que acaba por impedir que o trabalhador 
se desligue, porque devedor, da empresa” (BRASIL/MPF, 2003: 
10). 
 
Depois de finalmente autuada essas denúncias na Justiça para tratar do 
crime de trabalho escravo, o que vemos curiosamente, daqui em diante – pelo 
 
72
 O andamento processual da Ação Penal não se encontra disponível para versão pdf e nem 
link, dado que se mostra o link geral de busca de processos do TRF2, mas não o andamento 
processual específico. 
159 
 
 
 
menos na instância de 1º grau – é justamente a não discussão dessas 
denúncias e da caracterização do trabalho escravo. No máximo, encontramos 
uma tentativa dos acusados, em 28 de setembro de 2004, de questionar a 
competência da Justiça Federal para julgar o caso, em que foram contrariados 
pela Vara Federal, que se declarou competente para contenda. Ressalte-se 
que o problema da competência é característico (mas não exclusivo) desse 
período, na medida em que a decisão do STF determinando a competência da 
Justiça Federal para julgar os crimes de trabalho escravo foi tomada apenas 
em 2006, dando um norte, mas não um fim aos conflitos de competência. 
 De resto, o que vemos acontecer na Justiça Federal de 1º grau é um 
longo processo marcado por uma série de acontecimentos de ordem 
burocrática e de natureza processual, especialmente relacionados a 
designações e redesignações infinitas de audiências, que acabaram durando 
mais de 10 anos e ainda se encontram em andamento. Mas, ao contrário do 
que se poderia imaginar, esses acontecimentos de ordem burocrática e 
processual nos trouxeram novos elementos para entender como que o 
Judiciário pode tratar um caso de trabalho escravo. 
Os cancelamentos e redesignações de audiências apresentaram-se 
como os principais acontecimentos que prolongaram a Ação Penal73 ao longo 
dos mais de 10 anos de processo, no que pudemos contabilizar, conforme 
mostra a Tabela abaixo, pelo menos 25 cancelamentos e redesignações de 
audiências que foram deferidas pelo diferentes juízes que passaram pelo caso. 
Os cancelamentos e as redesignações se estenderam desde o ano de 
autuação da Ação Penal, em 2004, até o ano de 2013, quando prescreveu a 
maioria dos crimes imputados ao gato Mario. 
 
 
 
73
 Ver Espectro Temporal do Caso do “gato” no Apêndice 3. 
160 
 
 
 
Tabela 20 - Redesignação de Audiências, Motivos e Autores - Caso do "gato" 
 
Data do 
cancelamento 
Data marcada 
Data(s) 
redesignada 
(s) 
Motivo da Redesignação Autor do pedido 
1 13/04/2004 Não informado Não informado Não informado Um dos acusados 
2 02/05/2005 Não informado Não informado 
Testemunhas de acusação não foram 
devidamente notificadas 
MPF 
3 25/08/2005 25/08/2005 Diversas 
Ausentes dois acusados e suas defesas – não 
foram devidamente notificados 
Gatos 
4 03/11/2005 03/11/2005 16/03/2006 Ausente um acusado – licença médica Gato 
5 02/12/2005 02/12/2005 Não informado Ausente um acusado – licença médica Gato 
6 28/03/2006 28/03/2006 19/05/2006 Substituição de testemunha de acusação MPF 
7 19/05/2006 19/05/2006 Não informado 
Ausente um acusado e sua defesa – 
impossibilidade do defensor dativo de 
comparecer 
Gato 
8 04/08/2006 Não informado Diversas 
Repetição de depoimentos – acusados e suas 
defesas não foram devidamente notificados 
Gatos 
9 18/10/2007 25/10/2007 06/11/2007 Não informado Não informado 
10 12/03/2008 23/04/2008 13/05/2008 Feriado Juiz 
11 26/05/2008 Não informado 22/07/2008 Não informado MPF 
13 30/09/2008 Não informado 09/12/2008 Não informado Não informado 
14 09/12/2008 Não informado 03/03/2009 Testemunhas não encontradas Juiz 
15 17/12/2008 Não informado Diversas 
Repetição de depoimentos – acusados e suas e 
suas defesas não foram devidamente 
notificados 
Gatos 
16 03/02/2009 Não informado 03/03/2009 
- Testemunhas não encontradas 
- Ausentes as defesas dos réus – por 
impossibilidade do defensor dativo 
comparecer 
Gatos 
17 02/03/2009 02/03/2009 06/05/2009 Suspensão do atendimento ao público Juiz 
18 09/03/2009 06/05/2009 12/03/2009 Ausência de testemunhas Juiz 
19 12/03/2009 Não informado 07/04/2009 
Ausente a defesa do gato – por impossibilidade 
do defensor dativo comparecer 
Gato 
20 31/03/2009 Não informado 07/04/2009 
Ausente a defesa do gato – por impossibilidade 
do defensor dativo comparecer 
Gato 
21 30/04/2009 Não informado 09/06/2009 
Ausente a defesa do gato – por impossibilidade 
do defensor dativo comparecer 
Gato 
22 09/08/2010 Não informado 31/08/2010 Necessidade de readequação de pauta Juiz 
23 31/08/2010 Não informado 16/11/2010 Coincidência de audiências Juiz 
24 08/10/2012 - Diversas 
Repetição de depoimentos: 
- as defesas não foram devidamente 
informadas; 
- não designação de advogados dativos; 
- as testemunhas não foram devidamente 
notificadas 
Gatos 
25 08/05/2013 08/05/2013 16/06/2013 
Ausentes as defesas dos réus – por 
impossibilidade do defensor dativo 
comparecer 
- A defesa não foi devidamente notificada 
Gatos 
 
Como podemos observar, 12 das 25 vezes em que houve 
cancelamentos e redesignações de audiências, o pedido partiu dos acusados, 
em conjunto ou, por algumasvezes, sozinhos. E os motivos alegados e 
reconhecidos pelo juiz para os cancelamentos apresentaram naturezas 
diversas, sobretudo relacionadas a problemas de ordem institucional e de 
ordem pessoal/institucional, como a falta de interesse ou de comprometimento 
dos advogados dativos que fizeram a defesa dos gatos, inclusive a do gato 
Mario. 
 
 
161 
 
 
 
Tabela 21 - Natureza dos motivos de redesignação de audiências - Caso do "gato" 
Natureza dos 
motivos 
Motivos Ocorrências 
Institucional 
Necessidade de repetição de depoimento de testemunhas, pelos acusados e 
suas defesas não terem sido devidamente notificados pela Vara 
3 
Ausência de acusados e/ou de suas defesas na audiência, por não terem sido 
devidamente notificados pela Vara 
2 
Necessidade de repetição de depoimento de testemunhas, pelas testemunhas 
não terem sido devidamente notificadas pela Vara 
1 
Necessidade de repetição de depoimento de testemunhas, pela demora por 
parte do juiz em designar advogado dativo substituto 
1 
Pessoal/Institucional 
Ausência de acusados e/ou de suas defesas, pela impossibilidade do 
comparecimento da defesa 
6 
Pessoal Ausência de acusados, por motivo de saúde 2 
Estrutural Testemunhas não encontradas, por possível mudança de endereço 1 
 
Dentre os motivos de natureza institucional, encontramos os problemas 
relacionados às falhas da Vara Federal no processo de notificação das partes 
sobre as audiências; e também relacionados aos problemas com a demora na 
designação de outros advogados dativos para substituir as tantas ausências 
dos advogados dativos dos gatos. Nos pedidos de adiamento em função de 
falhas nas notificações, argumentou-se ou que estas não eram feitas de forma 
clara às partes, dificultando o conhecimento sobre as audiências, ou que elas 
não eram feitas em tempo hábil para o comparecimento na data estabelecida. 
Os pedidos de repetição de depoimentos decorrentes principalmente das falhas 
nas notificações levaram à redesignação de diversas audiências para a oitiva 
de testemunhas, ao passo que os juízes de primeiro grau reconheciam tais 
falhas e acatavam os pedidos do gato, prolongado consideravelmente o 
andamento processual74. 
Nessas ocasiões em que a repetição de depoimentos em função das 
falhas nas notificações foi aceita pelo juiz, este alegou a necessidade de não 
se violarem “os direitos dos réus ao contraditório e à ampla defesa”. O curioso 
é que esse mesmo argumento foi encontrado em diferentes períodos do 
andamento do processo: seja em 2006, quando o processo ainda estava em 
seu “início”, seja mais para frente, em 2008, seja em 2012 (!), um ano antes de 
vários crimes prescrevem. 
 
74
 Ver Espectro temporal do Caso do “gato” no Apêndice 3. 
162 
 
 
 
Ou seja, depois de passado cerca de 8 anos da entrada da Ação Penal, 
com diversos depoimentos já prestados em juízo, e com várias petições 
reclamando (estrategicamente) de falhas nas notificações, estas continuaram a 
ocorrer e a serem reconhecidas pelo juiz até 2012, fazendo com que, neste 
período, ainda estivessem ocorrendo audiências de oitiva de testemunhas, ou 
mais adequadamente, de repetição dessas oitivas. Em decisão do dia 8 de 
outubro de 2012, por exemplo, o juiz deferiu o pedido dos gatos para a 
repetição de depoimentos de 30 testemunhas em função de alegadas falhas 
nas notificações. E, contraditoriamente, apontou que deferia o pedido de 
repetição dos depoimentos, mas que era preciso “ponderar os fatos e as 
razões, com o objetivo de evitar nulidades que frustrem todo o esforço deste 
Juízo no sentido da razoável duração do processo, de modo a evitar a 
prescrição”. 
É certo que o juiz indeferiu diversos pedidos dos acusados para a 
repetição de depoimentos, porém, quando o fez, logo depois reconsiderou o 
pedido, ou o fez em período muito próximo ou posterior às prescrições. É certo 
também que o processo, sendo tão longo, passou pelos olhos de diversos 
juízes substitutos, que também deram decisões de indeferimento aos pedidos 
dos gatos, mas que foram posteriormente reconsiderados por outros juízes. E, 
ao fim, os indeferimentos aos pedidos protelatórios dos gatos não exerceram 
impacto suficiente para que, de fato, fosse respeitada a tal “razoável duração 
do processo”, como atestam as tantas postergações de audiências deferidas. 
Antes da decisão de 8 de outubro de 2012, por exemplo, – quando o juiz 
em questão aceitou repetir o depoimento de 30 testemunhas – ele já havia 
indeferido o mesmo pedido três meses antes, em 11 de julho de 2012, quando 
apreciou pedido de embargos de declaração dos gatos. Ao indeferir o pedido 
de repetição de depoimentos, que vinha sendo posto desde 27 de abril de 
2011, o juiz alegou que não havia a necessidade de ouvir as testemunhas 
novamente, na medida em que, ainda que as notificações não tivessem sido 
feitas da forma mais exemplar, elas sempre foram publicadas pelo órgão oficial 
e comunicadas através de cartas precatórias, sendo ônus e interesse das 
próprias partes o acompanhamento dos trâmites. Argumenta, ainda, que os 
163 
 
 
 
gatos estavam querendo garantias de defesa maiores que as previstas em lei, 
e muito além do que a Vara de São Pedro da Aldeia poderia arcar, dado o “seu 
acervo sabidamente elevado (certa de 16 mil processos), bem como a 
elevadíssima distribuição (cerca de 450 processos/mês)”. Segundo o juiz, não 
havia de se falar em prejuízo para a ampla defesa quando todas as garantias 
legais haviam sido cumpridas, e quando os acusados tiveram seguidas 
oportunidades dadas por ele e por outros juízes, através das redesignações, 
para acompanharem as audiências. 
Depois de argumentar tudo isso, o mesmo juiz muda sua opinião na já 
comentada decisão de 8 de outubro de 2012, reconsiderando redesignar novas 
audiências para ouvir as 30 testemunhas que já haviam sido ouvidas em juízo, 
sob a alegação de que os depoimentos em questão não puderam de fato 
serem acompanhadas pelos gatos, seja em função de falhas na notificação das 
audiências, seja em função da demora do próprio juízo em designar um novo 
advogado dativo para o gato Mario, que já não contava com a presença de sua 
advogada dativa há muitas audiências. 
Como podemos notar no quadro das motivações dos adiamentos, vemos 
que o problema da ausência dos advogados dativos nas audiências constituiu 
um problema de significativa importância para o andamento do caso. Os gatos 
acusados neste processo, inclusive o gato Mario, foram todos defendidos por 
advogados dativos, indicados pelo juiz (provavelmente) em função da 
impossibilidade dos gatos em contratarem um advogado particular. E o que 
vemos acontecer no Caso do “gato” é a realização de uma defensoria frágil em 
argumentos, muitas vezes desinteressada, porém estratégica nos recursos, na 
medida em que o advogado não chega de fato a “defender” o gato das 
acusações, mas simplesmente a se utilizar estrategicamente das falhas da 
Vara e dos princípios do contraditório e da ampla defesa, para evitar, até 
mesmo, a realização de audiências de depoimentos de testemunhas, tantas 
vezes redesignadas. 
O interessante, contudo, é que ainda que esses advogados tenham 
atuado de modo frágil enquanto “defesa” das acusações feitas, eles acabaram 
alcançando um resultado favorável não só para os gatos, como também para o 
164 
 
 
 
próprio proprietário da AGRISA, cujo advogado particular não precisou fazer 
muito esforço (além de comparecer às audiências) para defender o seu cliente. 
Mesmo parecendo desinteressados em realizar a defesa dos gatos – como 
denotam as suas sucessivas ausências–, o desinteresse e a fragilidade dos 
advogados dativos acabou se coadunando com fatores institucionais ligados à 
Vara (falhas nas notificações) e de atuação (variável) dos juízes de primeiro 
grau (com relação aos princípios da ampla defesa e da razoávelduração do 
processo), que, em conjunto, imprimiram a forma pela qual o caso transcorreu 
na Vara: adiamentos de audiência até a prescrição. É como se o caminho aqui 
tivesse se dado pelo caminho “mais fácil” para a impunidade. Não foram 
precisos fortes argumentos e nem eloquentes contestações das provas e das 
acusações. 
Em 25 de outubro de 2013, após tantos cancelamentos e redesignações 
de audiências, o juiz então responsável pela Vara declarou a prescrição para 
os crimes de aliciamento de trabalhadores de um estado para o outro, de 
formação de organização criminosa e de frustração, através de fraude ou 
violência, de direitos assegurados por legislação trabalhista, que eram 
atribuídos a todos os gatos e ao proprietário da AGRISA. Na mesma decisão, o 
juiz também determinou o seguimento da Ação Penal para o crime de trabalho 
escravo atribuídos ao gato Mario e a proprietário da empresa. 
O interessante é observar que após a prescrição desses crimes, a 
defesa do gato Mário continuou firme em sua estratégia de postergação das 
audiências, pedindo, em meados de 2014, não somente a repetição dos 
depoimentos de todas as testemunhas de defesa – alegando omissão do juízo 
com relação aos seus pedidos de reinquirição de testemunhas em função de 
falhas nas notificações – como também a renovação da produção de prova 
pericial, 10 anos depois de aberta a Ação Penal, e cerca de 18 anos depois da 
denúncia feita pelo trabalhador. 
Seu pedido foi indeferido pela Vara Federal em 8 de agosto de 2014, 
sob a justificativa de que (finalmente) a fase de produção de provas estaria 
encerrada. E quanto à perícia no local, o juiz ressaltou a impossibilidade de se 
realizar uma vistoria na fazenda da AGRISA. 
165 
 
 
 
Após essa decisão, como veremos, o gato obteve uma decisão favorável 
no TRF da 2ª Região, em 11 de novembro de 2014, que deferiu o pedido do 
gato para a renovação dos depoimentos de testemunhas, fazendo com que a 
Vara tomasse as providencias necessárias para a repetição das audiências. 
Ainda hoje a Vara se encontra na tarefa de designar audiências de oitiva de 
testemunhas e enviar cartas precatórias e intimações sobre a realização de 
audiências, não sendo muito difícil imaginar o fim dessa Ação Penal. 
Vejamos agora como que se deram os processos no TRF da 2ª Região 
e no TST, que transcorreram ao longo do andamento da Ação Penal em 
primeira instância. 
A primeira vez que o gato Mario levou o caso ao Tribunal Regional 
Federal da 2ª Região se deu logo após a autuação da Ação Penal na Vara 
Federal de São Pedro da Aldeia. Em 18 de fevereiro de 2004, o TRF da 2ª 
Região autuou um pedido de Habeas Corpus (2004.02.01.001840-3)75 do gato, 
que buscava o trancamento da ação penal, sob alegação de descabimento da 
denúncia. Em sua defesa, alegava que sua conduta não se encaixava nos 
crimes dos quais estava sendo acusado, na medida em que não constituía 
crime algum possuir um comércio dentro da fazenda da AGRISA. 
Em 18 de maio de 2004, seu pedido foi indeferido por unanimidade pelo 
TRF da 2ª Região76, que se arvorou na denúncia feita pelo MPF para apontar 
que as condutas estavam bem tipificadas e comprovadas, criticando inclusive a 
argumentação rasteira com a qual o gato e sua defesa haviam formulado seu 
pedido de Habeas Corpus. Nas palavras do desembargador relator Raldênio 
Bonifácio da Costa, 
“... é óbvio que a denúncia não acusa o paciente de ter cometido 
qualquer crime simplesmente por “manter uma venda” mostrando-se, 
para dizer o menos, ingênuo e superficial a argumentação da 
Impetrante a este respeito. De fato, de uma leitura serena e 
equilibrada do contexto da denúncia facilmente percebe-se como a 
 
75
 Para a consulta do andamento processual, ver: http://www.trf2.gov.br/cgi-
bin/pingres?proc=200402010018403&mov=1. 
76
 BRASIL. Tribunal Regional Federal da 2ª Região. 5ª Turma. Acórdão no Habeas Corpus 
2004.02.01.00184-3. Relator: COSTA, Raldênio Bonifácio. Publicado no DJ de 07/06/2004. 
http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres?proc=200402010018403&mov=1
http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres?proc=200402010018403&mov=1
166 
 
 
 
acusação feita ao paciente com base na “venda” por ele mantida não 
é de que seria crime explorar aquele comércio, mas sim a de que, 
integrando ele uma organização estável voltada para explorar 
trabalhadores em situação análoga à de escravos, utilizam-se os 
negócios daquela “venda” – como é sabido e notório acontecer em 
situação em que se verifica a moderna “escravidão” – para criação e 
manutenção de um vínculo indelével que faria com que os 
trabalhadores ficassem “aprisionados” à empresa (...)” (BRASIL. 
Tribunal Regional Federal da 2ª Região. 5ª Turma. Acórdão no 
Habeas Corpus 2004.02.01.00184-3. Relator: COSTA, Raldênio 
Bonifácio. Publicado no DJ de 07/06/2004, p. 4). 
 
Como podemos observar, o voto dado pelo desembargador, que foi 
seguido por unanimidade pelos demais desembargadores do TRF, já incorpora 
claramente o entendimento de que o trabalho escravo também se 
consubstancia no que ele chama de “moderna escravidão”, que é a servidão 
por dívida, reconhecendo o papel exercido pelo gato e sua venda nesse novo 
processo de submissão do trabalhador. 
Inconformado com a decisão, o gato entrou com um pedido de 
Embargos de Declaração no TRF, alegando que o Juízo em questão havia sido 
omisso sobre a matéria do descabimento da denúncia. E novamente, em 3 de 
agosto de 2004, o gato teve seu pedido indeferido, mais uma vez por 
unanimidade77. O relator da decisão, o mesmo da decisão anterior, argumentou 
que, além de não ter tido qualquer omissão por parte do juízo, o gato estaria se 
utilizando dos instrumentos processuais errados para dar andamento a sua 
“irresignação”, dando a entender que o gato e sua defesa queriam apenas 
protelar o andamento do processo, como vinham de fato fazendo no processo 
em primeiro grau. 
Tendo seu pedido de Habeas Corpus negado no TRF, o gato entrou com 
o pedido no Superior Tribunal de Justiça (HC17.233 - RJ ou 2005/0013066-
5)78, mais uma vez pedindo o trancamento da ação sob a alegação de que a 
 
77
 BRASIL. Tribunal Regional Federal da 2ª Região. 5ª Turma. Acórdão no Embargos de 
Declaração 2004.02.01.00184-3. Relator: COSTA, Raldênio Bonifácio. Publicado no DJ de 
16/08/2004. 
78
 Para consulta do andamento processual, ver 
https://ww2.stj.jus.br/processo/pesquisa/?src=1.1.3&aplicacao=processos.ea&tipoPesquisa=tip
oPesquisaGenerica&num_registro=200500130665. 
https://ww2.stj.jus.br/processo/pesquisa/?src=1.1.3&aplicacao=processos.ea&tipoPesquisa=tipoPesquisaGenerica&num_registro=200500130665
https://ww2.stj.jus.br/processo/pesquisa/?src=1.1.3&aplicacao=processos.ea&tipoPesquisa=tipoPesquisaGenerica&num_registro=200500130665
167 
 
 
 
denúncia do MPF era descabida, confusa, insuficiente para a comprovação de 
sua conduta criminosa, e limitadora a sua defesa, dado que a tipificação do que 
havia sido cometido não estava clara. Autuado em 31 de janeiro de 2005, o 
pedido foi negado por unanimidade pelo TST em 19 de maio de 200579. 
A relatora da decisão ministra Laurita Vaz colocou-se ao lado da 
denúncia feita pelo MPF – assim como fez o desembargador relator do TRF – 
apontando que as condutas criminosas do gato haviam sido satisfatoriamente 
descritas, inclusive o crime de trabalho escravo em função de endividamento 
dos trabalhadores com a venda de propriedade do gato: 
“Com efeito, a conduta típica imputada ao paciente – art. 149, do 
Código Penal – foi individualizada e pormenorizada pelo Ministério 
Público Federal, o qual demonstrou que os negócios explorados pelo 
denunciado, no interior da empresa, na realidade era exercido para 
criar e manter um vínculo indelével entre os trabalhadores o 
estabelecimento empregador, de modo que, ao final, os 
trabalhadores permaneceriam“aprisionados” à empresa, em razão 
da dívida contraída” (BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. 5ª Turma. 
Acórdão no Habeas Corpus nº 17.233/RJ. Relatora: VAZ, Laurita. Publicado 
no DJ de 20/06/2005, p. 5-6). 
 
 Contra esta decisão, o gato entrou em 22 de junho de 2005 com 
embargos declaratórios, alegando omissão por parte do STJ, que, por sua vez, 
novamente indeferiu por unanimidade o seu pedido em 18 de agosto de 
200580. A ministra Laurita Vaz, em seu voto, alega que o gato apenas 
procurava postergar o processo, na medida em que tentava rediscutir matéria 
já suficientemente demonstrada, sem sequer se importar com a via jurídica 
através da qual empreendia sua tentativa. 
 No entremeio da decisão do STJ e o posterior questionamento do gato, 
este entrou com mais um recurso em 23 de maio de 2005, através de uma 
 
79
 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. 5ª Turma. Acórdão no Habeas Corpus nº 17.233/RJ. 
Relatora: VAZ, Laurita. Publicado no DJ de 20/06/2005. Disponível em: 
https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ITA&sequencial=550
679&num_registro=200500130665&data=20050620&formato=PDF. 
80 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. 5ª Turma. Acórdão nos Embargos de Declaração nº 
17.233/RJ. Relatora: VAZ, Laurita. Publicado no DJ de 03/10/2005. Disponível em: 
https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ITA&sequencial=570
641&num_registro=200500130665&data=20051003&formato=PDF. 
https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ITA&sequencial=550679&num_registro=200500130665&data=20050620&formato=PDF
https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ITA&sequencial=550679&num_registro=200500130665&data=20050620&formato=PDF
https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ITA&sequencial=570641&num_registro=200500130665&data=20051003&formato=PDF
https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ITA&sequencial=570641&num_registro=200500130665&data=20051003&formato=PDF
168 
 
 
 
Liminar em Mandado de Segurança (2005.02.01.004629-4)81 no TRF da 2ª 
Região, desta vez para questionar decisão da Vara Federal de São Pedro da 
Aldeia que havia rejeitado, ainda em 2004, os pedidos do gato alegando 
incompetência da Justiça Federal para o processamento e julgamento do caso. 
O pedido foi julgado prejudicado em 30 de maio de 2005, por meio de decisão 
democrática do desembargador Marcello de Souza Ferreira Granado82. Em sua 
decisão, o desembargador alegou perda de objeto, na medida em que o gato já 
havia aberto processo de Habeas Corpus no STJ com o mesmo fim e objeto, 
pedido este que havia sido indeferido por unanimidade pelo referido Tribunal, 
restando, portanto, prejudicado o mandado de segurança. 
Mais uma vez inconformado, o gato interpôs, em 7 de junho de 2005, um 
agravo interno ao TRF questionando a decisão monocrática do desembargador 
Marcello de Souza Ferreira Granado. Segundo o gato, o objeto dos dois 
recursos não eram os mesmos, argumentando, ainda, que o desembargador 
estaria negando a prestação jurisdicional e violando o princípio do duplo grau 
de jurisdição. Mais uma vez, porém, o gato teve seu recurso indeferido, em 6 
de setembro de 2005, mas dessa vez por maioria de votos83. 
Em 14 de setembro de 2005, é autuado um Recurso em Sentido Estrito 
(2005.51.08.000129-0)84 no TRF da 2ª Região, em que o gato tenta por mais 
uma vez contrariar a decisão democrática do Desembargador Granado, que, 
sob seu ponto de vista do “gato”, violou seu direito ao duplo grau de jurisdição. 
Seu pedido é novamente rejeitado por decisão democrática da Juíza Liliane 
Roriz, em 26 de outubro de 2005, sob a mesma alegação dada anteriormente 
 
81
 Para consulta do andamento processual, ver: http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-
allen?proc=200502010046294&mov=1. 
82
 BRASIL. Tribunal Regional Federal da 2ª Região. 2ª Turma. Decisão Monocrática em Liminar 
no Mandado de Segurança 2005.02.01.004629-4. Relator: GRANADO, Marcello Ferreira de 
Souza. Publicado no DJ de 02/06/2005. 
83 BRASIL. Tribunal Regional Federal da 2ª Região. 2ª Turma. Acórdão no Agravo interno 
2005.02.01.004629-4. Relator: DIEFENTHAELER, Guilherme. Publicado no DJ de 15/05/2006. 
84
 Para consulta do andamento processual, ver: http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-
allen?proc=200551080001290&andam=1&tipo_consulta=1&mov=3. 
http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-allen?proc=200502010046294&mov=1
http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-allen?proc=200502010046294&mov=1
http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-allen?proc=200551080001290&andam=1&tipo_consulta=1&mov=3
http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-allen?proc=200551080001290&andam=1&tipo_consulta=1&mov=3
169 
 
 
 
sobre perda de objeto85. A mesma juíza, no entanto, ao decidir sobre o já 
esperado recurso do gato (agravo interno autuado em 16 de novembro de 
2005), respondeu, em 13 de janeiro de 2006, com o seu deferimento, 
argumentando que por um “lapso, na ânsia de colocar o serviço em dia” 
acabou incorrendo no erro de achar que havia prejudicialidade em função da 
identidade de objetos em diferentes recursos86, permitindo que o gato 
continuasse a questionar a decisão da Vara Federal. E assim ele o fez. Após 
essa decisão, o gato entrou com mais três ações para questionar a decisão da 
Vara Federal no TRF, mas não obteve sucesso final em nenhuma das 
ocasiões. 
O que vemos acontecer depois, entre meados de 2007 e março de 2013 
é um “silêncio” do gato nas instâncias de segundo e terceiro graus, ao mesmo 
tempo em que se destaca na Justiça de primeiro grau a “enxurrada” de 
cancelamentos e de redesignações de audiência, acompanhadas de pedidos 
do gato para a repetição de depoimentos, sob o princípio da ampla defesa e do 
contraditório. 
É somente em março de 2013 que o gato volta a entrar com um Recurso 
em Sentido Estrito (2004.51.08.000019-0)87 no TRF da 2ª Região, autuado em 
22/03/2013. Dessa vez, o gato pedia a renovação da produção de provas 
periciais, que havia sido indeferida pela Vara Federal. O gato entra com esse 
recurso no TRF mesmo depois da Vara Federal ter aceitado, em 8 outubro de 
2012, o pedido de repetição de depoimentos de 30 testemunhas. O pedido foi 
indeferido pelo TRF por unanimidade, sob a alegação de não haver nenhuma 
previsão legal que permitisse reanalisar as provas88. 
 
85 BRASIL. Tribunal Regional Federal da 2ª Região. 2ª Turma. Decisão Monocrática no 
Recurso em Sentido Estrito 2005.51.08.000129-0. Relatora: RORIZ, Liliane. Publicado no DJ 
de 07/11/2005. 
86 BRASIL. Tribunal Regional Federal da 2ª Região. 2ª Turma. Decisão Monocrática no Agravo 
interno 2005.51.08.000129-0. Relatora: RORIZ, Liliane. Publicado no DJ de 19/01/2006. 
87
 Para consulta do andamento processual, ver: http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-
allen?proc=200451080000190&andam=1&tipo_consulta=1&mov=3. 
88
 BRASIL. Tribunal Regional Federal da 2ª Região. 2ª Turma. Acórdão no Recurso em sentido 
estrito 2004.51.08.000019-0. Relatora: SILVA, Marcelo Pereira da. Publicado no DJ de 
01/10/2013. 
http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-allen?proc=200451080000190&andam=1&tipo_consulta=1&mov=3
http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-allen?proc=200451080000190&andam=1&tipo_consulta=1&mov=3
170 
 
 
 
Em última tentativa no TRF, em 12 de setembro de 2014, o gato entra 
com um pedido de Habeas Corpus (2014.02.01.008105-2)89 requisitando que 
fosse suspenso em sede liminar do processo e/ou de audiência marcada na 
Vara Federal até que seu habeas corpus fosse julgado e que fosse aceito seu 
pedido de redesignação de audiências na Vara Federal. Mais uma vez, o gato 
alegou haver problemas no processo de notificação das partes para as 
audiências, falha que o teria prejudicadopor diversas vezes, na medida em que 
se encontrou não representado quando da coleta de depoimentos importantes 
de acusação. Narrou, ainda, ter encaminhado à Vara Federal diversos 
requerimentos arguindo a nulidade das audiências (já realizadas e que ainda 
iria realizar sem a devida notificação da defesa), mas que só obteve 
indeferimento da Vara Federal. 
Foi em 11 de novembro de 2014, então, que o TRF da 2ª Região 
reverteu o “histórico” de indeferimentos que o gato vinha obtendo em segundo 
e terceiro graus, e colocou-se na esteira do caminho estratégico-protelatório do 
gato e de sua defesa. Por maioria de votos, o TRF deferiu o pedido do gato 
para determinar que a Vara Federal redesignasse novas datas para a repetição 
das audiências de oitiva e encaminhasse as devidas cartas precatórias e 
intimações para notificar a defesa, sob a alegação de que havia tido falhas de 
fato no processo de notificação de audiências e que tal deveria ser corrigida a 
fim de se respeitar a ampla defesa do acusado90. 
Em voto vencido, o desembargador André Fontes argumentou que, além 
dos documentos anexados ao processo comprovarem que o gato e a defesa 
foram notificados das audiências, não caberia ao instrumento do habeas 
corpus reconhecer nulidade das audiências coletadas nem mesmo determinar 
a sua renovação. Segundo o desembargador, o juízo de primeiro grau já havia 
tomado todas as providencias saneadoras para garantir o respeito à ampla 
defesa do acusado, resultando, inclusive, na realização de uma “longa 
 
89
 Para consulta do andamento processual, ver: http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-
allen?proc=200451080000190&andam=1&tipo_consulta=1&mov=3. 
90
 BRASIL. Tribunal Regional Federal da 2ª Região. 2ª Turma. Acórdão no Habeas Corpus 
2014.02.01.008105-2. Relator: FONTES, André. 
http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-allen?proc=200451080000190&andam=1&tipo_consulta=1&mov=3
http://www.trf2.gov.br/cgi-bin/pingres-allen?proc=200451080000190&andam=1&tipo_consulta=1&mov=3
171 
 
 
 
instrução criminal”. Argumenta, ainda, que uma das evidencias de que as 
notificações para as audiências haviam sido devidamente realizadas, foi o 
acompanhamento sem faltas por parte do proprietário e de sua defesa nas 
audiências. Para o desembargador vencido, tratava-se apenas de mais uma 
tentativa do acusado de ensejar “o retrocesso da manobra processual”. 
 O que percebemos então? Percebemos que – embora os 
desembargadores e magistrados tenham tratado, em algumas decisões, da 
questão de mérito, dando-nos indícios sobre como se posicionavam mais 
propriamente em torno da questão do trabalho escravo – os inúmeros recursos 
impetrados pelo gato Mario e sua defesa acabaram ajudando a imprimir a 
discussão do caso, mais uma vez, em uma discussão de procedimentos e de 
processo, mas agora nas instâncias de segundo e terceiro grau, que, por sua 
vez, deram o sopro final para o crime de trabalho escravo caminhar para a 
prescrição. 
 
 
172 
 
 
 
Tabela 22 - Natureza dos argumentos dos juízes - Caso do "gato" 
Nº do 
Processo/Ação 
Autor Grau 
Data de 
autuação 
Data de 
Julgament
o 
Tempo Resultado Arg./Juiz Natureza 
Habeas Corpus Gato TRF 2 18/02/2004 18/05/2004 2 meses 
e 28 
dias 
INDEFERIDO 
(UNANIMIDADE) 
- conduta de 
trabalho escravo 
comprovada; 
- servidão por 
dívida 
MÉRITO 
Embargos de 
Declaração 
Gato TRF 2 14/06/2004 03/08/2004 
INDEFERIDO 
(UNANIMIDADE) 
- não ouve omissão 
do juízo 
PROCESSUAL 
Habeas Corpus Gato STJ 31/01/2005 19/05/2005 3 meses 
e 15 
dias 
INDEFERIDO 
(UNANIMIDADE) 
- conduta de 
trabalho escravo 
comprovada; 
- servidão por 
dívida 
MÉRITO 
Embargos de 
Declaração 
Gato STJ 22/06/2005 18/08/2005 
INDEFERIDO 
(UNANIMIDADE) 
- via processual 
errada 
PROCESSUAL 
Mandado de 
Segurança 
Gato TRF 2 23/05/2005 30/05/2005 
3 meses 
e 13 
dias 
PREJUDICADO 
(DECISÃO 
MONOCRÁTICA) 
- perda de objeto; 
- coincidência de 
objeto com outro 
processo 
PROCESSUAL 
Agravo interno Gato TRF 2 07/06/2005 06/09/2005 
INDEFERIDO 
(MAIORIA DE 
VOTOS) 
- perda de objeto; 
- coincidência de 
objeto com outro 
processo 
PROCESSUAL 
Recurso em 
Sentido Estrito 
Gato TRF 2 14/09/2005 26/10/2005 
1 ano, 7 
meses e 
26 dias 
PREJUDICADO 
(DECISÃO 
MONOCRÁTICA) 
- perda de objeto; 
- coincidência de 
objeto com outro 
processo 
PROCESSUAL 
Agravo interno Gato TRF 2 16/11/2005 13/01/2006 
DEFERIDO 
(DECISÃO 
MONOCRÁTICA) 
- direito à dupla 
jurisdição 
PRINCÍPIOS/ 
PROCESSUAL 
Embargos de 
declaração 
Gato TRF 2 25/01/2006 22/02/2006 
INDEFERIDO 
(MAIORIA DE 
VOTOS) 
- não ouve omissão 
do juízo 
PROCESSUAL 
Embargos 
infringentes 
Gato TRF 2 23/06/2006 26/02/2007 
INDEFERIDO 
(UNANIMIDADE) 
- celeridade 
- não cabe 
discussão de 
competência a 
essa altura 
INSTITUCIONAL 
PROCESSUAL 
Recurso Especial Gato TRF 2 29/03/2007 15/05/2007 
DEFERIDO 
(DECISÃO 
MONOCRÁTICA) 
- presença de pré-
requisitos para o 
recurso 
PROCESSUAL 
Recurso em 
Sentido Estrito 
Gato TRF 2 22/03/2013 17/09/2013 
5 meses 
e 24 
dias 
INDEFERIDO 
(UNANIMIDADE) 
- não cabe o 
recurso 
PROCESSUAL 
Habeas Corpus - 
Liminar 
Gato TRF 2 12/09/2014 16/09/2014 
1 mês e 
29 dias 
INDEFERIDO 
(DECISÃO 
MONOCRÁTICA) 
- inexistência do 
perigo iminente 
PROCESSUAL 
Habeas Corpus Gato TRF 2 12/09/2014 11/11/2014 
DEFERIDO 
(MAIORIA DE 
VOTOS) 
- FALHAS NO 
PROCESSO DE 
NOTIFICAÇÃO 
PARA 
AUDIÊNCIAS; 
- 
CONTRADITÓRIO 
- AMPLA DEFESA 
PROCESSUAL 
 
Se no início do Caso do “gato” a demora em seu andamento poderia ter 
como uma de suas explicações possíveis a generalidade da lei do trabalho 
escravo na época e as dificuldades resultantes para o enquadramento penal 
das condições degradantes que foram encontradas pelas fiscalizações, quando 
o Caso entra na Justiça, a demora permanece e a questão sobre o trabalho 
escravo e as condições degradantes mal são mencionadas, com exceção de 
algumas decisões. A tônica pela qual o caso se desdobra e se desenvolve o 
desgarra do plano das definições e leva o Judiciário para um campo 
aparentemente neutro (não menos político) de discussão de um caso de 
trabalho escravo. O Caso do “gato” nos mostra, assim, como o Poder Judiciário 
173 
 
 
 
pode atuar num caso de trabalho escravo sem nem mesmo ter que falar sobre 
ele. 
Trata-se de um caso, portanto, em que, tanto no plano teórico quanto 
metodológico, não é simples reconhecer “lados” nem “posicionamentos” dos 
juízes, como pretendem muitos estudiosos atitudinalistas “puros” ao olhar para 
as decisões judiciais simplesmente em função dos resultados e das atribuições 
de valores às decisões dos juízes. Inclusive, se olharmos para os tantos 
indeferimentos que o gato obteve em segunda e terceira instância, poderíamos 
(erroneamente) concluir, que o TRF e o TST colocaram-se “ao lado” ou a favor 
das políticas de erradicação do trabalho escravo, quando na verdade pouco 
entraram na questão do trabalho escravo e, ao fim, numa decisão variante das 
anteriormente dadas, o TRF tomou decisão que postergou o caso até os dias 
de hoje, tudo com base em argumentos de procedimento e de processo. 
 
3.4 - Conclusões 
O Caso do “gato”, como já exposto na Introdução deste Capítulo, foi um 
caso ao mesmo tempo simples e complexo, na medida em que permitiu 
relativizar pressupostos previamente estabelecidos em torno da capacidade de 
litigação do acusado e os resultados obtidos. O caso colocou em evidência a 
maneira pela qual as fragilidades institucionais, seja do GEFM, das leis, ou do 
próprio Judiciário, podem ser estrategicamente mobilizadas até mesmo por 
litigantes com capacidades de defesa limitadas como o “gato”, que mesmo 
através de uma defesa frágil e pobre em argumentos conseguiu levar crimes à 
prescrição. O caso colocou em evidência, ainda, a “mornidão” da atuação 
judicial e também dos órgãos de acusação durante os processos judiciais,na 
medida em que poucas vezes os juízes se manifestaram acerca do mérito das 
questões e o MPF raramente se manifestou contra as sucessivas tentativas de 
postergação do caso por parte do “gato”, que foram, em sua maioria, 
corroboradas e levadas adiante pelos juízes. 
Um fator curioso de se notar é que a “mornidão” das decisões judiciais 
em torno do Caso do “gato”, que se mantiveram no campo aparentemente 
174 
 
 
 
neutro de discussão de um caso de trabalho escravo, poderia relativizar outro 
pressusposto acerca da atuação do Judiciário de acordo com o perfil do 
acusado e com a repercussão do caso. É possível supor que os argumentos de 
ordem processual e procedimental poderiam ser utilizados pelos juízes mais 
em casos de grande repercussão, de forma a se salvaguardarem politicamente. 
O que veremos nos dois outros casos analisados, contudo, que são de grande 
repercussão, é que embora os juízes continuem se utilizando de argumentos 
de ordem processual e procedimental, eles proferem mais decisões de mérito, 
apresentando o seu entendimento de trabalho escravo e o seu posicionamento 
com relação às políticas de erradicação. Da mesma forma, o MPF atua de 
forma mais incisiva e questionadora. 
Por que, então, num caso de pouca repercussão como o do “gato”, o 
Judiciário atuou de forma estritamente processual e as instituições acusatórias 
de forma tão desinteressada? Quer o Judiciário ou a União ganhar holofotes? 
Ou simplesmente é menos importante tratar de um caso envolvendo um 
“gato”? O interessante é pensar que o “gato” é uma figura limiar no quadro do 
trabalho escravo rural, na medida em que ele não é o proprietário da fazenda 
ou da empresa, embora exerça alguma autoridade dentro dela, mas ele 
também não é o trabalhador escravizado, embora possa viver na mesma linha 
de pobreza que ele. O “gato” ocupa uma posição-chave e estruturante nas 
formas das relações trabalhistas no campo. O “não-olhar” dos juízes sobre o 
“gato” também pode ser visto como uma limitação do entendimento desses 
juízes acerca da própria posição ocupada pelo “gato”, para além da descrição 
comum de ser aquele que alicia, vigia e cobra os trabalhadores. O “gato” é 
arregimentado pelo proprietário como um “braço direito”, mas que pode ser na 
primeira chance acusado pelo proprietário de ser o responsável pelos 
trabalhadores escravizados. 
Em função da “mornidão” em torno do caso não foi possível identificar de 
forma explícita um entendimento judicial acerca do que é o trabalho escravo 
nem um posicionamento da Justiça com relação às políticas de erradicação. 
Tal entendimento e posicionamento, no entanto, traduziram-se em outra forma 
de decisão, em que os juízes trataram de um caso de trabalho escravo sem 
175 
 
 
 
nem mesmo ter que falar sobre ele. O posicionamento fica mais claro na 
medida em que o caso transcorre por anos sempre sob a mesma justificativa 
das deficiências institucionais e da necessidade de se garantir a ampla defesa 
aos acusados, caminhando-se para a prescrição. Mas para perceber esses 
nuances possíveis do posicionamento dos juízes no caso, contudo, foi 
necessário olharmos para além dos resultados superficiais das decisões 
judiciais e adentrarmos em suas justificativas e processamentos ao longo de 
todo o caso. 
Como atuou, então, o Poder Judiciário no Caso do “gato”? O estudo do 
caso nos mostrou que fatores de ordem institucional marcaram 
significativamente a atuação dos juízes, mas que foram estrategicamente 
mobilizados pela defesa para adiar audiências até a prescrição dos crimes. Ou, 
como já apontamos anteriormente, o desinteresse e a fragilidade dos 
advogados dativos acabou se coadunando com fatores institucionais ligados à 
Vara (falhas nas notificações) e de atuação (variável) especialmente dos juízes 
de primeiro grau (com relação aos princípios da ampla defesa e da razoável 
duração do processo), que, em conjunto, imprimiram a forma pela qual o caso 
transcorreu na Vara. O “gato”, conhecido como aquele que “cai sempre em pé”, 
mais uma vez “caiu em pé”, ainda que através de uma defesa frágil e 
desinteressada, que, por sua vez, colocou em destaque as próprias 
deficiências institucionais do Judiciário. 
 
176 
 
 
 
Capítulo 4 – O Caso do Senador João Ribeiro: um 
“homem do campo” (2004-2014) 
 
4.1 – Introdução 
 O Caso do Senador João Ribeiro foi um caso de grande repercussão 
política, não apenas em função da posição pública do acusado, mas 
principalmente em função de suas declarações conservadoras e 
preconceituosas acerca do trabalhador do campo no Senado e na imprensa, 
que foram, inclusive, reproduzidas por ministros do STF, o que aumentou ainda 
mais a quantidade de holofotes sobre o caso, que foi amplamente divulgado 
por diversos órgãos estatais, jornais e sites de grande circulação e/ou 
visitação91. 
A atuação do GEFM enfrentou forte embate por parte do senador, 
questionamento que também se reproduziu no Judiciário, que recebeu ações 
em todas as instâncias da Justiça Trabalhista e também no STF. Na Justiça do 
Trabalho, foram três processos, um em que cada instância trabalhista. E no 
STF foram dois processos, que tiveram impacto significativo na repercussão 
política do caso. 
Vejamos como tudo isso começou e se desenvolveu. 
 
4.2 – A denúncia e a fiscalização 
No dia 27 de janeiro de 2004, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) da 
Diocese de Araguaína (TO) encaminhou ao Grupo Especial de Fiscalização 
Móvel do Ministério Público do Trabalho e Emprego (MTE) uma denúncia 
recebida via telefone de um trabalhador dizendo que: 
“Ele juntamente com mais 24 trabalhadores estão já há 08 dias 
trabalhando na Fazenda Ouro Verde (tem dúvida quanto ao nome) 
município de São Geraldo (Povoado Boa Vista – PA), de propriedade 
de João Ribeiro, Senador do Tocantins. Segundo R. estão 
trabalhando em péssimas condições, sendo que trabalham 10 horas 
 
91
 Consultar lista de notícias sobre o Caso do Senador João Ribeiro no Apêndice 4. 
177 
 
 
 
por dia a uma diária de R$ 10,00 (dez reais). Foram levados para lá 
pelo gerente chamado Osvaldo que os contratou em Araguaína, 
dando uma entrada de R$ 100,00 (cem reais). O trabalho realizado é 
derrubada de juquira, o alojamento é barraco de palha, a água de 
beber é suja da represa, mesmo local de tomar banho, a alimentação 
é de péssima qualidade e 3 trabalhadores estão bastante doentes e 
não receberam nenhum atendimento, nem remédio e “não podem 
sair porque estão devendo. O trabalho deve durar mais uns 20 dias, 
mas acham que não vão aguentar porque as condições estão muito 
difíceis” (BRASIL/MTE/SIT, 2004: 3). 
 
Entre os dias 10 e 13 de fevereiro de 2004, o Grupo Móvel, contando 
com a presença de auditores fiscais do trabalho, de procuradores do trabalho e 
de delegados da Polícia Federal, realizou uma operação de fiscalização na 
fazenda do senador, de forma a averiguar o que havia sito dito na denúncia. O 
que pudemos constatar das informações do relatório produzido pelo Grupo é 
que ele não somente confirmou o conteúdo da denúncia, como registrou uma 
série de outros elementos que agravavam a situação denunciada. Para o 
Grupo, o que foi encontrado na fazenda do senador eram registros claros e 
inegáveis de trabalho escravo, na medida em que os trabalhadores não só 
tinham seus direitos trabalhistas violados, como também se encontravam 
submetidos a condições “infra-humanas” e “degradantes” de trabalho, moradia, 
alimentação e saúde. 
No que tange às irregularidades trabalhistas, o relatório apresenta 
diversos depoimentos de trabalhadores, colhidos pelo Grupo Móvel, de forma a 
mostrar que o senador incorria em diversas irregularidades que são geralmente 
encontradas nas relações informais de trabalho, tais como a não-assinatura 
das carteiras de trabalho, o não-recolhimento de INSS e FGTS, o não-registro 
das horas de trabalho,jornadas excessivas que ultrapassavam os limites 
estabelecidos pelas leis trabalhistas, a não-concessão de descanso semanal 
remunerado, o não-fornecimento de equipamentos de segurança e de 
instrumentos de trabalho, e o uso de mão de obra de menores de idades. 
Mas o que se pode perceber é que a verdadeira tônica do relatório está 
na apresentação de elementos que, somados às irregularidades trabalhistas, 
tornam as condições de trabalho extremamente penosas e degradantes para 
178 
 
 
 
os trabalhadores, configurando, para o Grupo, a situação de trabalho escravo. 
Por um lado, o Grupo argumenta que a Lei 10.803/0392 constituiu um avanço 
para o tratamento criminal dos casos envolvendo trabalho escravo, na medida 
em que estabeleceu a equivalência entre trabalho degradante e trabalho 
análogo ao de escravo, tentando dar um fim a uma discussão infindável entre 
as autoridades públicas, que até então diferenciavam uma coisa da outra. Por 
outro lado, o Grupo também argumenta que essa Lei não foi inteiramente bem 
sucedida, na medida em que deixou por demais em aberto a caracterização do 
que seria o trabalho degradante, ainda possibilitando a discórdia. Como 
veremos mais adiante, essa “falha” da lei, juntamente com outros fatores, de 
fato possibilitaram retrocessos no processamento judicial dos casos 
envolvendo a exploração do trabalho no campo. 
Para o Grupo, no entanto, a falha está mais nos interesses particulares 
presentes em cada entendimento do problema do que na própria falta de 
clareza da lei. Para o Grupo, o fato da lei não ter sido clara o suficiente não é o 
problema central da questão, na medida em que a tipificação do trabalho 
escravo não deve se pautar somente pela lei ou pelas regras formais, mas por 
“uma questão ética, filosófica, humanitária, e, em grande parte, de 
entendimento” (BRASIL/MTE/SIT, 2004: 15) de uma realidade claramente 
inadmissível nos dias de hoje em qualquer região do Brasil. O que o Grupo 
parece nos dizer é que a equivalência entre trabalho degradante e trabalho 
escravo é algo que não deveria ser questionado, na medida em que se trata de 
uma questão clara em que os trabalhadores são violados, através das relações 
de trabalho, em seus direitos mais naturais e inerentes a pessoa humana, 
sendo submetidos à condição de escravos. O Grupo, então, ao listar o que 
configuraria o trabalho degradante, logo, o trabalho escravo, assim o faz no 
sentido de deixar ainda mais nítido aquilo que, em sua visão, já deveria ser 
nítido o suficiente, especialmente para um senador da república, com lei ou 
sem lei especificando. 
 
92
 Como já vimos, esta Lei altera o art. 149 do Decreto-Lei n
o
 2.848, de 7 de dezembro de 1940 
- Código Penal, para estabelecer penas ao crime nele tipificado e indicar as hipóteses em que 
se configura condição análoga à de escravo. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.803.htm. 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.803.htm
179 
 
 
 
O que configuraria, então, o trabalho degradante ou o trabalho escravo 
para o Grupo Móvel de Fiscalização? Ele lista três conjuntos principais de 
elementos. O primeiro conjunto é composto de elementos que configuram a 
relação de domínio, como a coação física ou moral, o trabalho forçado 
conseguido através de ameaças físicas, de dívidas ilegais do trabalhador com 
o empregador, ou através da retenção de documentos pessoais. Aqui, o 
trabalho forçado e o impedimento de ir e vir não são entendidos somente 
através da existência de ameaças físicas e de vigilância armada ostensiva. 
Eles são entendidos de forma muito mais ampla, estando relacionados ao 
segundo conjunto de elementos apresentados pelo Grupo, que seriam aqueles 
elementos que denotam a ausência ou o aviltamento de salário, o seu 
pagamento através de produtos diversos que não em espécie, adiamentos e 
descontos ilegais e abusivos. O terceiro conjunto é composto de elementos que 
estão relacionados ao ambiente de trabalho, como as condições sanitárias, de 
saúde e de alojamento, que são as condições que o Grupo ressalta como 
sendo os elementos essenciais à dignidade da pessoa humana. O Grupo 
defende, ainda, que para que se configure o trabalho degradante ou o trabalho 
escravo, 
“basta que haja na pretensa relação de emprego algum dos 
elementos que ferem a dignidade dos cidadãos, degradando-os, isto 
é, diminuindo-lhes a dignidade humana ou rebaixando-os da 
condição de trabalhadores livres, sujeitos de obrigações, mas 
também de direitos, para uma condição semelhante daqueles que 
viviam em regime de escravidão” (BRASIL/MTE/SIT, 2004: 20). 
 
Ou seja, para que uma determinada situação seja caracterizada como 
trabalho degradante ou trabalho escravo não é preciso que todos os elementos 
estejam presentes, bastando a presença de apenas um deles. O que o Grupo 
relata ter constatado na fazenda de propriedade do senador João Ribeiro é a 
presença não somente de um desses elementos, mas de uma série deles, no 
que o Grupo argumenta estar mais do que clara a existência de trabalho 
escravo. 
O Grupo apresentou depoimentos dos trabalhadores dizendo que foram 
contratados para receber entre 10 e 18 reais por dia de trabalho, mas que 
180 
 
 
 
muitos ainda não tinham recebido nenhuma diária. Apenas alguns poucos 
trabalhadores, como o que fez a denúncia à CPT, relataram terem recebido um 
adiantamento no dia em que foram contratados. Também foi relatado, e dessa 
vez por todos os trabalhadores, que foram avisados pelo administrador da 
fazenda que a jornada de trabalho duraria de 10 a 12 horas diárias, de segunda 
a sábado, e que os domingos de descanso não seriam remunerados. Além 
disso, também foram apresentados depoimentos que apontavam a existência 
do “regime de barracão” ou do “sistema de armazém”. Mostrou-se que muitos 
trabalhadores adquiriam produtos no armazém da fazenda, como instrumentos 
de trabalho, alimentos e produtos de higiene pessoal, e que isso lhes era 
descontado de suas diárias, gerando dívidas ilegais dos trabalhadores com o 
empregador. Essa situação foi confirmada não somente por todos os 
trabalhadores, que compravam ou não no armazém da fazenda, como também 
estava registrada em cadernos contendo o nome dos trabalhadores, os 
produtos por eles adquiridos e o valor correspondente a cada produto. Para o 
Grupo, portanto, os registros e as provas eram abundantes e suficientes para 
atestar elementos de dominação através da retenção, atraso e descontos 
ilegais dos salários e através do endividamento dos trabalhadores. 
No que tange às condições de trabalho, moradia e saúde, o Grupo 
também forneceu uma quantidade significativa de provas documentais, de fotos 
e de depoimentos que mostravam a situação “infra-humana” a qual os 
trabalhadores estavam submetidos93. Como já apontado, a jornada de trabalho 
era exaustiva, chegando para muitos a 12 horas diárias. Os trabalhadores não 
tinham acesso à água potável para beber, no que recorriam a um brejo 
lamacento e sujo, aberto ao acesso dos animais, e que também era utilizado 
pelos trabalhadores para tomar banho. A fazenda também não oferecia 
alojamentos para os trabalhadores que dormiam na fazenda. Os poucos 
alojamentos que haviam foram construídos pelos próprios trabalhadores, 
cobertos com folhas de palmeira e com chão de terra, sem paredes ou 
 
93
 Assim como no Caso Pagrisa, que veremos no Capítulo seguinte, o GEFM já dispunha de 
recursos fotográficos para atestar a situação da fazenda do senador. Tais fotos só não foram 
aqui disponiblizadas porque encontramo-las apenas disponíveis nos arquivos do caso no STF, 
escaneados, em preto e branco e quase sem resolução. 
181 
 
 
 
qualquer proteção lateral, dentro dos quais dormiam em redes. Esses 
alojamentos estavam atolados de lama em funçãodas chuvas e exalavam um 
forte cheiro de umidade e de esgoto, dado que a fazenda não oferecia 
banheiros, tendo os trabalhadores que recorrerem ao mato ou a pequenas 
fossas a céu aberto. Em função da umidade, foram encontrados dois 
trabalhadores doentes, com as mãos cobertas de lesões de micose. Segundo 
os trabalhadores, eles requisitaram auxílio médico, mas nada foi feito. 
Além desses registros, o relatório produzido pelo Grupo Móvel também 
procurou apresentar provas de uma prática que é muito comum nos casos 
envolvendo o trabalho escravo, que é o aliciamento de trabalhadores e sua 
locomoção para fora de seus locais de residência. Esses dois fatores são 
apontados como graves na medida em que, na maioria dos casos, os 
aliciadores ou “gatos” convencem os trabalhadores com falsas promessas de 
modo a levá-los para trabalhar em locais ermos e distantes de suas 
residências, pagando-lhes sua passagem, mas depois cobrando dos 
trabalhadores tudo o que ele precisar para a sua subsistência. Endividado com 
o empregador, sem receber seu salário, e isolado geograficamente, o 
trabalhador fica mais facilmente submetido a um trabalho forçado, à exploração 
do seu trabalho, e a péssimas condições de vida. 
Segundo o relatório do Grupo Móvel, o que foi averiguado no caso em 
particular é que os trabalhadores sabiam das condições de trabalho, e que o 
local para o qual foram levados não se encontrava tão distante (cerca de 6 ou 7 
quilômetros) de onde foram recrutados. No entanto, argumenta o Grupo, os 
trabalhadores acreditavam que receberiam suas diárias ao término de cada 
jornada, o que não vinha acontecendo. E em função de terem adquirido dívidas 
com o fazendeiro, precisariam trabalhar mais para pagá-las, para receber 
alguma coisa de suas diárias e, com isso, poder ir embora. Segundo a 
interpretação do Grupo, o senador se utilizou do seu status e do prestígio de 
sua função pública para aliciar os trabalhadores com falsas promessas, 
acabando por explorar suas situações de miséria e de necessidade. 
Os resultados apresentados pelo relatório do GEFM foram prontamente 
divulgados pela mídia, que se tornou ainda mais atenta ao caso conforme o 
182 
 
 
 
seu deslinde se estendeu para a Justiça. Até a entrada do Caso no Judiciário 
em setembro de 2004, o relatório foi destacado por três reportagens em jornais 
e sites de expressividade. No dia 13 de fevereiro de 2004, mesmo dia em que 
foi finalizado o relatório do GEFM, o Jornal do Brasil94 e a Tribuna da 
Imprensa95 foram os primeiros a divulgar o caso, noticiando os resultados da 
fiscalização que havia sido realizada nas terras do senador João Ribeiro. 
Quatro dias depois, a Carta Maior96 divulga reportagem da Repórter Brasil, que 
também noticia dados da fiscalização e o que fora encontrado pelo Grupo na 
fazenda do senador. 
 
4.3 – O caso entra no Judiciário 
Após as ações e o relatório de fiscalização do Grupo Móvel realizados 
no início de 2004, o caso envolvendo o Senador João Ribeiro enveredou por 
três caminhos distintos, mas paralelos. O primeiro caminho se abriu através de 
um recurso administrativo interposto pelo senador na Delegacia Regional do 
Trabalho do Estado do Pará, requisitando a anulação das infrações alegadas e 
das multas aplicadas pelo Grupo Móvel. O segundo caminho se deu na esfera 
da Justiça do Trabalho através de uma Ação Civil Pública movida pelo 
Ministério Público do Trabalho da 8ª Região contra o senador, requisitando 
indenização por dano moral coletivo pela prática de trabalho escravo. E o 
terceiro caminho se abriu com um pedido de Inquérito no Supremo Tribunal 
Federal requisitado pelo Ministério Público Federal, que pedia a investigação 
do crime de trabalho escravo e a abertura de uma ação penal contra o senador. 
Vejamos, abaixo, cada caminho de forma mais detalhada e separadamente. 
 
94
 Jornal do Brasil. Trabalho Escravo: Ministério flagra 32 em terra de senador. Notícias – 
13/02/2004. Disponível em: 
http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_12&PagFis=98710. 
95
 Tribuna da Imprensa. Senador mantinha 32 escravos em fazenda no Pará. Notícias – 
13/02/2004. Disponível 
em:http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=154083_06&PagFis=24940. 
96
 Carta Maior. Senador João Ribeiro (PFL-TO) é denunciado por trabalho escravo. Notícias – 
17/06/2004. Disponível em: http://www.cartamaior.com.br/?/Especial/Trabalho-
Escravo/Senador-Joao-Ribeiro-PFL-TO-e-denunciado-por-trabalho-escravo/156/1653. 
http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_12&PagFis=98710
http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=154083_06&PagFis=24940
http://www.cartamaior.com.br/?/Especial/Trabalho-Escravo/Senador-Joao-Ribeiro-PFL-TO-e-denunciado-por-trabalho-escravo/156/1653
http://www.cartamaior.com.br/?/Especial/Trabalho-Escravo/Senador-Joao-Ribeiro-PFL-TO-e-denunciado-por-trabalho-escravo/156/1653
183 
 
 
 
Quanto ao primeiro caminho, não foi possível, infelizmente, encontrar 
registros indicando as datas de entrada e de decisão do recurso administrativo, 
bem como não foi possível encontrar qualquer tipo de material próprio do 
processo que nos mostrasse o seu andamento dentro da Delegacia Regional 
do Trabalho do Estado do Pará. O que conseguimos foram informações 
(extraídas dos processos judiciais que fizeram referência a esse recurso 
administrativo) acerca do conteúdo da argumentação do senador com relação 
ao que foi averiguado em sua fazenda, conteúdo este extensamente presente 
em outros depoimentos seus prestados às instâncias da Justiça e que veremos 
mais adiante. O que se pode depreender é que tal recurso administrativo foi 
interposto pelo senador antes mesmo do caso ir parar na Justiça em junho de 
2004, dado que ele apresenta como uma de suas alegações para suspender os 
processos judiciais o fato do recurso administrativo ainda não ter sido analisado 
na época pela Delegacia do Trabalho. Sabe-se também que o senador não 
obteve na via administrativa a anulação que pretendia, tendo o seu nome 
incluído na Lista Suja do Trabalho Escravo em 1 de agosto de 2006, quando já 
respondia judicialmente a um processo no Tribunal Superior do Trabalho (TST) 
e no Supremo Tribunal Federal (STF). O nome do Senador permaneceu por 
dois anos na referida Lista e foi dela excluído em 15 de julho de 2008, após 
pagar as multas aplicadas pela fiscalização e não reincidir no crime de trabalho 
escravo. 
O segundo caminho, por sua vez, se deu com a entrada do Caso no 
Poder Judiciário, desdobrando-se, como mostra o quadro abaixo, em 2 
processos no Supremo Tribunal Federal e 3 processos na Justiça do Trabalho 
(1 processo na Vara do Trabalho de Redenção, 1 processo no Tribunal 
Regional Federal da 8ª Região e 1 processo no Superior Tribunal de Justiça). 
 
 
184 
 
 
 
Tabela 23 - Quadro Geral de Processos na Justiça para o Caso do Senado João Ribeiro 
Nº do Processo/Ação Autor Esfera Instância 
Data de 
Autuação 
Inquérito 2.131/DF MPF STF Última 17/06/2004 
Ação Civil Pública 
(0061100-07.2004.5.08.0118) 
MPT JT VT 02/09/2004 
Recurso Ordinário 
(0061100-07.2004.5.08.0118) 
Senador João 
Ribeiro 
JT TRT 8 06/06/2005 
Recurso de Revista 
(0061100-07.2004.5.08.0118) 
Senador João 
Ribeiro 
JT TST 19/09/2006 
Ação Penal 696 MPF STF Última 21/08/2012 
 
Vejamos agora como o Caso se desenvolveu em cada esfera e instância 
do Poder Judiciário. 
 
4.3.1 – O Caso do Senador João Ribeiro na Justiça do Trabalho 
Na Justiça do Trabalho, o Caso do Senador João Ribeiro se desdobrou, 
ao todo, em 3 processos: Uma Ação Civil Pública movida pelo Ministério 
Público do Trabalho na Vara do Trabalho de Redenção; um Recurso Ordinário 
do Senador João Ribeiro no Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região; e um 
Recurso de Revista, também do Senador, no Tribunal Superior do Trabalho. 
 
Tabela 24 - Características Gerais dos Processos

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