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Este livro ressalta a importância das interações entre Estado e sociedade civil, tanto para identificar problemas quanto para colaborar com um processo de formulação e execução de Políticas Públicas mais corretivo e assertivo. Nesse contexto, o leitor é convidado a refletir sobre como a responsabilidade com transparência e prestação de contas faz com que a avaliação das políticas ganhe cada vez mais importância. A obra destaca que cabe aos gestores e avaliadores a identificação correta dos problemas, o desenho estratégico de soluções e, então, a definição das mais rigorosas metodologias que garantam credibilidade e segurança aos processos. Também se orienta para a busca por melhores práticas e instrumentos de coleta de dados, de modo a ter as mensurações adequadas que contribuam para a correção e padronização das políticas, além da compreensão dos resultados. Código Logístico 59184 Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6585-1 9 7 8 8 5 3 8 7 6 5 8 5 1 Gestão e avaliação de políticas públicas Djalma de Sá IESDE BRASIL 2020 Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br © 2020 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito do autor e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: anttoniart/ PictureAccent/toodtuphoto/Magsi/AsiaTravel/Varavin88/Rawpixel.com/Shutterstock Ildo Frazao/iStockPhoto CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ S111g Sá, Djalma de Gestão e avaliação de políticas públicas / Djalma de Sá. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE, 2020. 102 p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-85-387-6585-1 1. Brasil - Política social - Avaliação. I. Título. 19-61930 CDD: 361.610981 CDU: 351(81) Djalma de Sá Doutorando e mestre em Gestão Urbana pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Graduado em Ciências Econômicas pela mesma instituição. Professor em cursos de graduação e pós-graduação. Pesquisador de Economia Urbana e Regional, Planejamento Urbano e Desenvolvimento Regional. Empresário, palestrante e consultor. Agora é possível acessar nossas videoaulas por meio dos QR codes inseridos no livro. Note que existe, ao lado do início de cada seção de capítulo, um QR code (código de barras) para acessar a videoaula. Para acessá-la automaticamente, basta direcionar a câmera fotográfica de seu smartphone, tablet ou notebook para o QR code. Em algumas versões de smartphone, é necessário ter instalado um aplicativo para ler QR code, disponível gratuitamente na App Store e na Google Play. Videoaula em QR code! SUMÁRIO 1 Gestão Pública e o papel do Estado 9 1.1 Introdução à Gestão Pública 10 1.2 Evolução dos modelos de Gestão Pública no Brasil 14 1.3 Planejamento governamental e Políticas Públicas 17 1.4 Capacidades do Estado para aplicação das Políticas Públicas 24 2 Ciclo de vida das Políticas Públicas 31 2.1 Formulação da agenda pública 32 2.2 Formulação das Políticas Públicas 35 2.3 Implementação das Políticas Públicas 37 2.4 Mecanismos de controle social das Políticas Públicas 40 3 Gestão das Políticas Públicas 46 3.1 Governabilidade, governança, accountability e transparência 46 3.2 Arranjos institucionais e gestão das Políticas Públicas 51 3.3 Inovação na Gestão Pública 54 3.4 Desafios para a Gestão Pública no Brasil 57 4 Análise de Políticas Públicas 64 4.1 Modelos de análise de Políticas Públicas 64 4.2 Natureza e dinâmica das Políticas Públicas 69 4.3 Instrumentos de Políticas Públicas 74 4.4 Indicadores de Políticas Públicas 79 5 Avaliação de Políticas Públicas 86 5.1 Breve histórico da avaliação de Políticas Públicas 86 5.2 Avaliação de Políticas Públicas: conceitos e abordagens 90 5.3 Tipologias de avaliação e técnicas de análise 93 5.4 Projeto de avaliação (desenho, gestão e disseminação) 97 Os regimes democráticos se destacam pelo exercício da soberania em seus territórios, seja pela organização do ordenamento jurídico norteador – fortemente marcado pelo advento das Constituições Federais –, seja pela responsabilidade de atender às demandas públicas por meio da adoção de Políticas Públicas. Esse cenário ganha ainda mais destaque com o modelo do Estado de bem-estar social, com um conjunto de serviços e benefícios oferecidos de modo universal à sociedade. Nesse contexto, a sociedade civil organizada, com desejos e necessidades em suas demandas, também tem uma importante participação para estabelecer uma ponte de interação com o Estado, que apresenta as condições necessárias para formulação e implementação das políticas. Assim, as interações são importantes tanto para identificar problemas quanto para colaborar com um processo de formulação e execução mais correto e assertivo. Neste livro, é possível notar que essa relação tende a contribuir para a melhoria e a efetividade das Políticas Públicas em um cenário onde a Administração Pública tem a necessidade de apresentar melhores resultados e eficiência na alocação dos recursos, principalmente após o advento do modelo da Gestão Pública gerencial. Nesse contexto, no qual o usuário é entendido como cliente, convida-se o leitor a refletir sobre como a responsabilidade com a transparência e a prestação de contas faz com que a avaliação das políticas ganhe cada vez mais importância. Por fim, a obra destaca que cabe aos gestores e avaliadores a identificação correta dos problemas, o desenho estratégico de soluções e, então, a definição das mais rigorosas metodologias que garantam credibilidade e segurança aos processos. Também se orienta para a busca por melhores práticas e instrumentos de coleta de dados, de modo a ter mensurações adequadas que contribuam para a correção e padronização das políticas, além da compreensão dos resultados. Bons estudos! APRESENTAÇÃO Gestão Pública e o papel do Estado 9 A dinâmica de funcionamento dos Estados exige instrumentos que promovam a convivência entre o Estado, a iniciativa privada e a sociedade, harmonizando a proteção dos direitos sociais garantidos pelas Constituições como forma de execução da soberania do seu povo em seu território. Dessa forma, o Estado tem o papel de preservar a coesão social, de modo que garanta a propriedade privada e os direitos coletivos. Com o advento do Estado de bem-estar social, as Políticas Públicas buscam satisfazer as demandas da sociedade, favorecendo a igualdade. Nesse contexto, o Estado se apresenta responsável pela manutenção da estrutura social no território e pela garantia de atendimento do interesse coletivo. Para corresponder às demandas da sociedade, ele se utiliza das Políticas Públicas definindo e escolhendo os problemas a serem enfrentados, bem como as formas de enfrentamento. Nos Estados democráticos de direito, a negociação política é feita pela interação dos diversos atores envolvidos nas Políticas Públicas. Dessa maneira, as Políticas Públicas são instrumentos do Estado para evitar os conflitos e as desigualdades sociais. Elas são estabelecidas pela articulação dos interesses dos vários setores e atores da sociedade, participantes de sua formulação e implementação. Por outro lado, cabe destacar que existe uma pressão dos ambientes externos para direcionar os recursos do orçamento. Os agentes do Estado, portanto, precisam estar atentos ao cenário econômico, político e social, além do efeito de crises que afetam o Estado. Assim, o Estado desenvolve capacidades para atingir os objetivos planejados e articular, nesse sentido, os setores e agentes envolvidos. Gestão Pública e o papel do Estado 1 10 Gestão e avaliação de políticas públicas 1.1 Introdução à Gestão Pública Videoaula A Administração Pública trata do planejamento, organização, direção e controle dos serviçospúblicos, seguindo as regras do Direito e o inte- resse comum. De acordo com Meirelles (1985), a Administração Pública realiza o aparelhamento do Estado, organizando a prestação de serviços públicos para satisfazer as necessidades coletivas da sociedade. A Administração Pública teve seu processo de organização a partir dos séculos XVIII e XIX, em um cenário onde o poder estava centrali- zado no modelo autoritário do Estado absolutista. Nesse contexto, a Administração Pública não estava vinculada à ideia de princípios e ba- ses constitucionais, devendo ser responsável pela gestão e defesa do território (DENHARDT, 2011). Esse cenário passa a mudar após a adesão ao conceito de Estado democrático de direito, da aderência às Constituições como exercício de soberania legal do Estado e no trato das atividades administrativas dos agentes públicos, norteados pelo Direito Administrativo. Dworkin (2001) destaca que o Estado de Direito parte da ideia de que tanto o governo quanto a sociedade devem ter suas atuações norteadas por regras públicas, que contemplem também as formas de mudanças dessas regras. Para Dworkin, nesse sentido, há a seguinte definição de Estado de Direito: O Estado de Direito dessa concepção é o ideal de governo por meio de uma concepção pública precisa dos direitos individuais. Não distingue, como faz a concepção centrada no texto legal, entre o Estado de Direito e a justiça substantiva; pelo contrário, exige, como parte do ideal do Direito, que o texto legal retrate os direitos morais e o aplique. (DWORKIN, 2001, p. 7) Para estabelecer o Estado de Direito, é importante a divisão dos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), pois, no início da aplicação desse conceito, os Estados eram absolutistas e delegavam ao rei ampla autoridade sobre a sociedade. Com o avanço da ideia de um Estado menos absolutista e mais democrático, teóricos começaram a discutir uma nova divisão. Entre esses pensadores, destacam-se: Gestão Pública e o papel do Estado 11 Com o avanço das discussões sobre os poderes do Estado, adotou- -se o modelo de Montesquieu como ideal para os modelos democráti- cos. O cenário do Estado democrático de direito, da adoção de Constituições e adequação das regras públicas teve início com a sepa- ração dos poderes do Estado, com funções e atribuições que devem ser harmônicas e independentes entre si. Desse modo, foram organizados em poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, que contemplam papéis distintos, conforme demonstrado na Figura 4. Filósofo inglês que viveu entre 1632 e 1704. Com base no modelo inglês, discutiu a divisão dos poderes do Estado. Para Locke, o Poder Legislativo define as ações públicas, bem como protege a sociedade do arbítrio dos governantes, sendo, por isso, separado do Poder Executivo. GG GG GG GG G GG GGG GG GG GG GGG GGG GG G Figura 2 John Locke Filósofo grego que viveu entre 384 e 322 a.C. Sua obra A política apresenta as primeiras discussões sobre a divisão da estrutura de poder do Estado. Embora Aristóteles não explicasse o modelo de repartição dos poderes, tratava da Assembleia dos cidadãos, os magistrados e os juízes. M GG GG GM GG M GG GG GGG GGG GG G Figura 1 Aristóteles Filósofo e escritor francês que viveu entre 1689 e 1755. Em sua obra Espírito das leis (1748), defendeu a repartição dos poderes do Estado em três, distintos, harmônicos e independentes entre si. Dessa forma, os poderes seriam organizados em Executivo, Legislativo e Judiciário. EE GG GG G E GG GG GGG GG GG GG GGG GGG GG G Figura 3 Montesquieu O artigo 2º da Constituição da República Federativa do Brasil assim dispõe: “São Poderes da União, independentes e harmô- nicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário” (BRASIL, 1988). Destaque os papéis de cada um desses Poderes. Atividade 1 12 Gestão e avaliação de políticas públicas Figura 4 Poderes do Estado democrático de direito Poder Executivo Administra o governo. Poder Legislativo Elabora as leis. Poder Judiciário Aplica as leis. Fonte: Elaborada pelo autor. A Figura 4 esclarece de modo sucinto os papéis exercidos pelos três poderes, a saber: • Poder Legislativo: criar as leis que regulam a sociedade e fiscali- zar as ações do Poder Executivo. • Poder Executivo: colocar em prática as leis criadas pelo Poder Legislativo e utilizar as Políticas Públicas e ações governamentais para administrar o interesse coletivo e o bem público. • Poder Judiciário: realizar os julgamentos dos conflitos e aplicar as leis elaboradas pelo Poder Legislativo. No entanto, para que os poderes sejam estabelecidos, o Estado pre- cisa de alguns elementos fundamentais, como: • Governo: ato da administração do sistema político para exercício da soberania. É a forma de organização para exercer o poder e levar a sociedade ao cumprimento das normas para harmonia social. • Povo: conjunto de habitantes fixados em um determinado território. • Território: dimensão territorial sob controle de um governo estabelecido. • Soberania: poder absoluto e indivisível de organização e condu- ção das ações do Estado, segundo a vontade livre de seu povo, e de fazer cumprir as suas decisões, inclusive pela força, se necessário. Para exercer a soberania, o governo deve organizar sua forma de go- vernança a fim de estabelecer a atuação e a intervenção do Estado, além do nível de participação e interação com a sociedade. As formas de go- verno podem ser puras ou impuras, conforme demonstrado na Figura 5. Gestão Pública e o papel do Estado 13 Figura 5 Formas puras e impuras de governo Monarquia Aristocracia Democracia Formas puras de governo Tirania Oligarquia Demagogia Formas impuras de governo Fonte: Elaborada pelo autor. Entre as formas puras de governo, na monarquia ocorre o governo de uma só pessoa ou família, que herda o poder e representa a von- tade jurídica do Estado; na aristocracia o governo é de poucas pessoas com privilégios de uma classe social nobre; e na democracia há o go- verno de muitas que, eleitas, representam a sociedade. Em relação às formas impuras, destaca-se a tirania, que também implica o governo de uma só pessoa ou família, porém com arbitrariedade, observando o interesse do monarca. Na oligarquia, o governo envolve poucos e visa ao interesse do grupo dominante, enquanto na demagogia é realizado por muitos, visando aos interesses de uma maioria em detrimento dos demais. Além do estabelecimento da forma de governo, destaca-se a impor- tância de definição de seus sistemas: o presidencialismo e o parlamen- tarismo. Esses conceitos são apresentados no quadro a seguir. Quadro 1 Sistemas de governo Presidencialismo Parlamentarismo Sistema de governo em que o mandatá- rio eleito acumula o papel de Chefe de Estado e Chefe de Governo, com inde- pendência em relação ao Poder Legis- lativo, no entanto necessita da maioria legislativa para governar. Sistema que apresenta uma distinção clara entre o papel de Chefe de Estado e Chefe de Governo. O primeiro ocupa uma maior posição de representação, sem participar das decisões políticas. O segundo, por sua vez, tem seu nome aprovado pelo Legislativo e recebe o tí- tulo de primeiro-ministro, chanceler ou presidente do Conselho. Fonte: Elaborado pelo autor. No vídeo Saiba em menos de 10 minutos a diferença entre parlamentarismo e presiden- cialismo, publicado pelo canal Política no Papel, é possível saber mais sobre esses sistemas de governo. Disponível em: https://www.you- tube.com/watch?v=ywHlIYO3UO4. Acesso em: 6 dez. 2019. Vídeo 14 Gestão e avaliação de políticas públicas Entende-se, assim, que a Gestão Pública é consequência da organi- zação da soberania do Estado, definindo a forma e o sistema de gover- no com respeito à divisão e à especificidade dos poderes instituídos. O Estado, então, organiza seu aparelhamento para a realização dos servi- ços públicos e atendimento dos interessesda sociedade. 1.2 Evolução dos modelos de Gestão Pública no Brasil Videoaula Na evolução da Gestão Pública, três modelos teóricos se destacam: patrimonialista, burocrático e gerencial. Na história dos Estados sem- pre houve a predominância de um dos modelos, no entanto os demais se mantêm mesmo nesse contexto, definindo assim a coexistência en- tre eles. A seguir, são apresentadas as características que os compõem. 1.2.1 Modelo patrimonialista Em termos históricos, o modelo patrimonialista é considerado o pri- meiro de Gestão Pública. A maior característica desse modelo é a cen- tralização do poder no mandatário detentor do cargo público. Devido a isso, o Estado passa a ser compreendido como patrimônio pessoal do mandatário – razão do título patrimonialista. Assim, o mandatário passa a não ter limites de atuação, inclusive em relação às disposições legais. Esse modelo é reconhecido nos Estados absolutistas, que atendem aos desejos e interesses dos governantes, incentivando a corrupção e o nepotismo. No caso brasileiro, o modelo patrimonialista é observado desde a época colonial, perdurando até o século XX, na República Velha. Na Fi- gura 6, é possível ver suas características. Bens públicos se confundem com os bens privados. Administração Pública atende aos interesses do governante. Incentivo ao nepotismo e à corrupção. Modelo patrimonialista Fonte: Elaborada pelo autor. Introdução à gestão pública SANTOS, C. S. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2014. Considerado um clássico da Gestão Pública, esse é um livro de referência na área. Reúne características, princípios e processos da Gestão Pública, além dos demais conceitos para a atuação no setor público. Livros Figura 6 Características do modelo patrimonialista de Gestão Pública Gestão Pública e o papel do Estado 15 Com o avanço do conceito de Estado democrático de direito, o mo- delo patrimonialista passa a ser questionado, principalmente pelas suas consequências danosas e por não coadunar com a ideia de um modelo de Estado constitucional ou com a adoção do conceito de República. 1.2.2 Modelo burocrático O modelo burocrático aplicado à Gestão Pública é fruto dos estudos de Max Weber 1 Sociólogo e economista alemão, autor de grandes obras como A ética protestante e o espírito do capitalismo e Economia e sociedade. No campo da administração, desenvolveu o modelo burocrático de gestão, com foco nos processos e na meritocracia. 1 (1864-1920), que foram desenhados no século XX para a iniciativa privada e, em um segundo momento, aplicados à Admi- nistração Pública. A burocracia weberiana surge com o Estado liberal, buscando instaurar um modelo de administração impessoal, merito- crático, profissional e racional. O modelo burocrático surge também como uma resposta aos abu- sos e excessos do patrimonialismo. Para isso, seu foco principal são os processos que passam a ser corretamente definidos e rigidamente controlados. Assim, esse modelo permitiria, por meio dos procedimen- tos formalizados, combater o nepotismo e a corrupção na Administra- ção Pública. Busca-se, por meio dele, submeter as ações do Estado às normas e leis estabelecidas, tornando mais rígida a atuação do governo e menos discricionárias as decisões do Estado. Figura 7 Características do modelo burocrático de Gestão Pública Impessoalidade, profissionalismo, meritocracia e racionalidade. Rígido controle dos processos administrativos. Submissão à lei e pouca condição para a discricionariedade. Modelo burocrático Fonte: Elaborada pelo autor. Mesmo com esse novo desenho sendo adotado, o modelo burocrá- tico também sofre algumas críticas: em primeiro lugar, cria barreiras desnecessárias e disfunções na Administração Pública; em segundo, leva os processos à ineficácia e ineficiência. Esse fato se deve à preo- cupação exagerada com a adequação aos procedimentos e às normas, sem considerar necessariamente a qualidade dos serviços prestados. discricionárias: livre de restri- ções ou condições, ilimitada. Glossário coadunar: incorporar, conformar, reunir para formar um todo. Glossário 16 Gestão e avaliação de políticas públicas 1.2.3 Modelo gerencial e a Nova Gestão Pública Com o avanço do modelo burocrático, percebeu-se que ele não era eficaz para oferecer os serviços públicos de modo que atendessem às demandas da sociedade. Outro ponto importante foi que ele, embora reduzisse, não conseguiu eliminar as práticas patrimonialistas na estru- tura do Estado. Dessa forma, buscou-se um novo modelo mais eficaz e eficiente para a implantação das Políticas Públicas do governo. A busca desse novo modelo veio da observação das práticas gerenciais das organizações privadas, que apresentavam altos níveis de produtivida- de e de satisfação dos funcionários. Com base nisso, perguntou-se: por que o Estado não poderia adotar práticas gerenciais utilizadas na iniciativa privada para tornar o serviço público mais eficiente e eficaz? Na segunda metade do século XX surge, nos Estados Unidos da América, o modelo gerencial de Administração Pública como resposta à crise do modelo burocrático. Buscava-se a eficiência e qualidade no serviço público por meio da redução e otimização dos custos adminis- trativos e operacionais. Outra mudança importante refere-se ao foco principal, que não eram mais os processos, mas os resultados entre- gues ao cliente, o cidadão. Importante ressaltar que o novo modelo gerencial manteve as boas práticas adotadas no modelo burocrático, porém eliminando os pontos negativos. Como o modelo gerencial visa aos resultados dos serviços públicos, passa-se a adotar a avaliação de desempenho dos agentes para medir a satisfação dos cidadãos com os serviços prestados. Para tornar o pro- cesso mais ágil, são definidos menos níveis hierárquicos, fortalecendo a administração indireta e adotando um papel de regulação econômi- ca. Assim, o modelo gerencial passa pela adoção de três estágios distin- tos, apontados na Figura 8. Gerencialismo puro. Consumeirism. Public service orientation. Estágios do modelo gerencial Fonte: Elaborada pelo autor. Figura 8 Estágios do modelo geren- cial de Gestão Pública Gestão Pública e o papel do Estado 17 A seguir, são apresentados os detalhes de cada estágio presente na Figura 8. • Gerencialismo puro: busca adotar novas práticas para reduzir o custo, como forma de aumentar a eficiência. Nesse estágio, o usuário é o financiador do sistema público. • Consumeirism 2 Modelo de gestão com ênfase na flexibilidade, adoção de qualidade total nos serviços públicos e satisfação de seus consumidores segundo uma lógica de racionalidade privada (SANTOS, 2014). 2 : passa a adotar políticas de qualidade na pres- tação dos serviços públicos, estabelecendo o cidadão como foco. • Public service orientation 3 Modelo com base nas potencia- lidades do Estado, introduzindo os conceitos de accountability e equidade na prestação de serviço público. 3 : adota princípios de cidadania, accountability, transparência e equidade. Nesse estágio também há maior participação popular nas decisões do governo. http://www.anpad.org.br/admin/pdf/APB649.pdf O conceito de accountability é tão relevante para compreender o senso de responsabilidade na Administração Pública que se recomenda a leitura do ar- tigo Accountability e suas múltiplas abordagens: um balanço teórico, do autor Roberto Salles Xavier, apresentado durante o XXXV Encontro da ANPAD (Asso- ciação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Administração), realizado no Rio de Janeiro (RJ), de 4 a 7 de setembro de 2011. Artigo A análise dos modelos de Administração Pública permite o avanço dos processos de gestão, controle, eficácia e eficiência do Estado. Po- de-se perceber que os modelos procuram coibir as práticas nepotistas e de corrupção, melhorando os processos administrativos e ampliando a qualidade dos serviços ofertados, aumentando a transparência e a participação popular nas decisõesdo governo. A Gestão Pública no Brasil teve como base três modelos de Administração Pública – patrimonialista, burocrá- tico e gerencial – que estão relacionados com seus períodos históricos e a modernização do Estado. Diante desse contexto, descreva as características desses modelos. Atividade 2 1.3 Planejamento governamental e Políticas Públicas Videoaula A ação do governo é norteada por princípios constitucionais, entre os quais se destaca a eficiência, que se refere à utilização racional dos recursos, buscando atingir os objetivos com o mínimo possível deles. Assim, se por um lado o governo precisa atender às demandas da so- ciedade, precisa também buscar alocar o orçamento público de modo a obter os melhores resultados. 18 Gestão e avaliação de políticas públicas Nesse contexto, surge a importância do planejamento governa- mental, relacionando os recursos do Estado disponíveis para atender às demandas da sociedade. A seguir, aspectos do planejamento gover- namental são apresentados mais detalhadamente. 1.3.1 Planejamento governamental Compreende-se como planejamento governamental a definição de mecanismos para atingir resultados e objetivos projetados, transfor- mando a realidade para alterar o futuro. Esse processo acontece por uma escolha racional das ações, sendo uma atividade que orienta as decisões do governo. Na esfera federal, compõe-se de três leis orça- mentárias distintas: Plano Plurianual (PPA), Lei de Diretrizes Orçamen- tárias (LDO) e Lei Orçamentária Anual (LOA). De acordo com Gontijo (2019), economista e consultor de Orça- mentos e Fiscalização Financeira da Câmara dos Deputados, o PPA tem vigência de quatro anos, sendo a principal ferramenta de plano do mandatário, estabelecendo as diretrizes, os objetivos e as metas de médio prazo da Administração Pública. A LDO, por sua vez, trata das prioridades das Políticas Públicas para o exercício subsequente. Por fim, a LOA é o instrumento que viabiliza a execução do plano de trabalho do governo, por meio da estimativa de receitas e da fixação das despesas. O planejamento governamental é feito com base em uma análise do cenário econômico, político-legal, sociocultural, tecnológico, demo- gráfico e ambiental estabelecendo o contexto para planejamento de aplicação das políticas. Dessa forma, esse planejamento precisa ser flexível para se adaptar às mudanças nos cenários estudados e, assim, pode ser alterado conforme a necessidade do ambiente. O planeja- mento governamental precisa ser apresentado e discutido com a so- ciedade civil organizada, possibilitando tanto o conhecimento do plano quanto a condição de participação social por meio do acolhimento de sugestões e da melhoria dos projetos. Depois de aprovado pelo Poder Legislativo, o planejamento gover- namental deve estar disponível para conhecimento, acompanhamento e fiscalização da sociedade. O trabalho de fiscalização, no entanto, é exercido pelo Poder Legislativo com auxílio dos Tribunais de Contas, Gestão Pública e o papel do Estado 19 apreciando, verificando e auditando as contas para garantir a transpa- rência e a legalidade. A ideia de planejamento pode ser considerada uma extensão do modelo de pensamento marxista, por se tratar de uma forma organi- zada de intervenção do Estado na estrutura econômica e social em que está inserida. Na América Latina, o estabelecimento do planejamento governa- mental teve impulso com o sucesso dos países envolvidos na Guerra Fria. Esse impulso também ocorreu pela atuação de órgãos inter- nacionais, a partir da década de 1940, como a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que contemplaram todas as visões ideo- lógicas no período. No Brasil, “a criação do Conselho Federal de Comércio Exterior em 1934 pelo Governo Vargas pode ser considerada como um marco na história do planejamento governamental brasileiro” (DE TONI, 2014, p. 7). As primeiras experiências de planejamento governamental em grande escala no âmbito federal iniciaram nos anos 1950, tendo como marco o Plano de Metas do governo do então presidente Juscelino Kubitschek. Esse Plano de Metas foi um modelo de planejamento que buscava acelerar o crescimento econômico do país por meio do desen- volvimento da indústria de bens duráveis, ampliando a oferta para a classe média e, consequentemente, o consumo. No período militar (1964-1985), essa experiência se aprofundou com planejamentos autoritários e concentradores. Sua formulação era fortemente centralizada no governo, sem a participação da socie- dade civil organizada, que caracterizaria um planejamento participa- tivo e democrático. Nos anos 1970, com a implantação de um Sistema de Planejamento Federal, foram editados os Planos Nacionais de Desenvolvimento. O Sistema de Planejamento Federal foi idealizado como parte de um pro- cesso de modernização da administração federal para elaborar, coor- denar, acompanhar e modernizar os programas de governo. Nesse contexto, foram estabelecidos os Planos Nacionais de Desenvolvimen- to, que eram os planos econômicos para ampliar as bases do desen- volvimento local, pautados em investimentos na infraestrutura como maneira de fomentar o desenvolvimento econômico. Nos Estados socialistas, tendo como marco o modelo soviético, o planejamento destacou-se como um instrumento de organização da economia e da sociedade. Para o capitalismo, por sua vez, é algo importante para delimitar a atuação do Estado, limitando assim seu nível de intervenção. Também é importante para evitar as falhas de mercado, atuando na regula- ção e alocação de recursos. Curiosidade 20 Gestão e avaliação de políticas públicas Nos anos 1980, devido à crise econômica marcada pelo advento da hiperinflação e do endividamento do país, a ideia de planejamento governamental foi abandonada pelo Estado, tanto pela dificuldade de financiamento quanto pela ausência de modelos e sistemas articulados com o novo cenário global. Com a redemocratização e o advento da Nova República 4 Período da história do Brasil imediatamente posterior ao regime militar, marcado pelo processo de redemocratização, abertura e retorno dos direitos individuais e de liberdades fundamentais. 4 buscou- -se, sem sucesso, retomar a ideia do planejamento governamental devido às crises econômicas e dificuldades orçamentárias. Com a esta- bilização da economia após o período militar, a partir dos anos 1990, o Estado brasileiro volta a desenvolver sua atuação com base no estabe- lecimento do planejamento governamental. Conforme De Toni (2014), a evolução do planejamento governamen- tal pode ser dividida em cinco grandes períodos. O primeiro aconteceu no início do governo Vargas até os anos 1950, chamado de nacional- -desenvolvimentista. O segundo período, denominado desenvolvimen- tista-dependente, começou no pós-guerra e foi até 1964. Chamado de desenvolvimentista-autoritário, o terceiro período ocorreu de 1970 a 1980, com o fim do regime militar. O quarto começou com o processo de redemocratização até os anos 1990, com as reformas liberais, de- nominado democrático-liberal. Por fim, o último período ocorreu no século XXI com as políticas de inclusão e participação social, conhecido como desenvolvimento-societal. As características dos modelos de pla- nejamento governamental podem ser observadas no Quadro 2. Quadro 2 Diferentes períodos do planejamento governamental brasileiro Período Características Anos Nacional-desenvolvimentista • Planejamento estatal. • Nacionalismo econômico. • Planejamento econômico-normativo. De 1930 a 1946. Desenvolvimentista-dependente •Desenvolvimento associado ao capital externo – industrialização acelerada. •Modernização do Estado e da burocracia estatal. De 1946 a 1964. Desenvolvimentista-autoritário •Planejamento autoritário, economicista e normativo. • Lógica do comando e controle. • Planos de Desenvolvimento. De 1964 a 1985. (Continua) GestãoPública e o papel do Estado 21 Período Características Anos Democrático-liberal •Recomposição formal das organizações de planejamento. •Constituição Federal de 1988, início dos ci- clos dos PPAs. • Gerencialismo e domínio da lógica orçamen- tária-fiscal. De 1985 a 2003. Desenvolvimentista-societal • Retomada do planejamento com ênfase se- torial. • Mudanças pontuais nos Planos Plurianuais: mais participação e territorialização da agenda. • Planos Plurianuais de Estados e municípios. De 2003 a 2016. Fonte: Adaptado de De Toni, 2014. Pode-se concluir que o planejamento governamental ocorre com o processo de evolução do Estado e dos modelos de Gestão Pública. No Brasil, o planejamento governamental apresentou uma característica de investimento econômico, sendo marcado por demandas sociais a partir da Constituição Federal de 1988. O modelo de investimento econômico e de ampliação da infraes- trutura não se encerrou com o fim do regime militar, mas, com a re- forma administrativa do Estado nos anos 1990 e adoção dos princípios da nova Gestão Pública, passou a ter seu debate ampliado com a par- ticipação social e com uma lógica financeira atrelada a regras orça- mentárias mais rígidas. Assim, o planejamento não trata somente dos investimentos a serem realizados, mas passa a definir como realizar a melhor alocação dos recursos de modo mais equilibrado e eficiente. 1.3.2 Políticas Públicas As Políticas Públicas têm sua origem na década de 1930, nos Estados Unidos da América, como forma de o governo superar os impactos da crise econômica. O debate é ampliado na década de 1950, definindo- -as como uma área de conhecimento específica, cujo foco de estudos é exclusivamente a atuação, e não o papel do Estado. Em um segundo momento esse estudo passou a ser feito por europeus que, diferente- mente dos norte-americanos, partiram da análise do papel do Estado e do governo, para depois compreender as ações e políticas implementa- das. No entanto, independentemente do modelo adotado, começou-se a desenvolver um modelo teórico para compreender e analisar as Políticas Públicas (BRASIL; CAPELLA, 2016). 22 Gestão e avaliação de políticas públicas Para Parsons (2007, p. 51), “a noção segundo a qual o mundo estava cheio de enigmas e problemas que poderiam ser resolvidos por meio da aplicação de razão e do conhecimento humano está na base do desen- volvimento do enfoque de Políticas Públicas”. Nesse momento, passa-se a compreender a importância da definição política dos problemas a se- rem atendidos por essas políticas, conforme aponta Stone (2002, p. 231): Os problemas são definidos na política para atingir metas – mo- bilizar o apoio para um lado em um conflito. Definir um proble- ma é fazer uma declaração sobre o que está em jogo e quem é afetado e, portanto, definir interesses e a constituição de alian- ças. Não existe uma definição de problema apolítica. No caso brasileiro, no início do século XX, o Estado tinha como ca- racterística o conservadorismo, a centralização e o autoritarismo. O objetivo era buscar o desenvolvimento econômico com foco na indus- trialização, estabelecendo um “Estado fazedor” 5 . Com o advento da ideia do Estado do bem-estar social, passou-se a adotar um comporta- mento de regulação das dinâmicas econômicas e sociais. Em relação ao conceito de Políticas Públicas, Souza (2006) destaca que são um ramo da ciência política que explica o porquê de o Estado tomar determinadas decisões. Dessa forma, as Políticas Públicas se- riam um campo de estudo do governo sob o olhar dos grandes deba- tes públicos, produzindo efeitos específicos. As ações do Estado podem ser feitas diretamente ou por delegação, influenciando o cotidiano dos cidadãos. Goldin (2003, p. 163, tradução livre) colabora com essa refle- xão em sua definição de Política Pública: Uma Política Pública reflete a vontade de diferentes setores da sociedade em avançar para uma determinada direção e repre- senta uma articulação coerente de medidas para transformar uma situação. Sua eficácia se mede por sua sustentabilidade e sua coerência interna, que faz com que nos distintos setores en- volvidos tenha repercussão positiva. Uma Política Pública permi- te garantir que os problemas não serão crônicos e idênticos aos que sempre existiram. Para compreender a importância das Políticas Públicas, conforme é possível observar na Figura 9, Souza (2006) destaca três fatores funda- mentais: i) imposição de medidas restritivas de gastos, principalmente em países em desenvolvimento; ii) novos papéis assumidos pelos governos (atendimento de novas demandas sociais); e iii) o papel do Estado em fo- mentar o desenvolvimento econômico e as políticas de inclusão social. Estado que intervém diretamen- te na economia fazendo a Política Pública, ao contrário dos Estados reguladores, que incentivam e controlam a ação de atores privados. 5 Gestão Pública e o papel do Estado 23 As Políticas Públicas refletem, assim, nas inter-relações entre gover- no, política, economia e sociedade. Busca-se, então, analisar as ações do Estado e sugerir modificações no curso das ações públicas. Nesse contexto, as Políticas Públicas representam a materialização no mundo real do programa eleitoral do gestor. Essas políticas, segun- do Justen e Frota (2017), constituem-se dos estágios de “definição de agenda, identificação de alternativas, avaliação das opções, seleção das opções, execução e avaliação”. Em relação às formas de Políticas Públicas, por sua vez, Lowi (1964; 1972 apud SOUZA, 2006) define quatro delas, conforme se pode ver na Figura 9. Figura 9 Formas de Políticas Públicas Políticas distributivas Decisões que geram mais impactos individuais do que universais, que denotem privilégios para determinadas localidades ou grupos sociais. Políticas regulatórias Envolvem burocracia, políticos e grupos de interesse, sendo mais identificáveis pela sociedade. Políticas redistributivas Estabelecem perdas para determinados grupos sociais e ganhos para outros, constituindo as políticas sociais universais, o sistema tributário, o sistema previdenciário, entre outros. Políticas constitutivas Tratam do estabelecimento de normas para formulação e implementação das Políticas Públicas. Fonte: Elaborada pelo autor com base em Lowi, 1964; 1972 citado por SOUZA, 2006. Salisbury (1968) demonstra um olhar especial para as políticas cons- titutivas, pois orienta as decisões que prescrevem as regras, muitas ve- zes de maneira autoritária ou pela pressão dos grupos de interesse. Dessa forma, o autor incrementa um novo tipo de política denominado autorregulatório, em que o sistema decisório é descentralizado frente a As Políticas Públicas são resultantes das interações entre o Estado e os demais atores da sociedade, podendo ser consideradas a materialização das decisões dos governos no atendimento às demandas da sociedade. Diante desse cenário, aponte as formas de Políticas Públicas que podem ser usadas pelo Estado. Atividade 3 24 Gestão e avaliação de políticas públicas um conjunto de demandas, enfatizando a importância dos atores nas tipologias das políticas. Salisbury e Heinz (1970) citam dois tipos de po- líticas: as alocativas, ligadas ao tipo distributivo e redistributivo, e as estruturais, mais vinculadas ao tipo regulatório. No caso brasileiro, pode-se observar que o Poder Legislativo atua com políticas distributivas-paternalistas, articulando-se também pela pressão de grupos de interesse (SANTOS, 1987). Para Abranches (1994), no Brasil, as políticas distributivas seriam isentas de conflito, enquanto Santos (1987) define a política social como redistributiva, principalmen- te desde a Constituição Federal de 1988. Em relação à formulação das Políticas Públicas, Lobato (2006, p. 290) apresenta três vertentes teóricas para explicá-las. A primeira é a vertente pluralista, que “tem como base teórica a noção de que a for- mulação de políticas é dada segundo o jogo de forças empreendidopor diferentes grupos de interesses que, atuando junto ao governo, procuram maximizar benefícios e reduzir custos”. A segunda vertente é o neocorporativismo, que constitui arranjos políticos de grupos insti- tucionalizados responsáveis pela idealização da política em uma visão sistêmica. A vertente marxista, por sua vez, busca superar a visão do Estado capitalista da classe dominante, estabelecendo as Políticas Pú- blicas em prol de uma nova relação entre o Estado e a sociedade. As Políticas Públicas são definidas como ações estratégicas nor- teadas pelo Estado, alicerçadas por regras e procedimentos para regular as relações entre o público e o privado, garantindo a par- ticipação dos agentes públicos, privados e da sociedade envolvida (TEIXEIRA, 2002). 1.4 Capacidades do Estado para aplicação das Políticas Públicas Videoaula As capacidades estatais têm sido bastante estudadas por sociólogos e cientistas políticos e têm apresentado diversos conceitos, de acordo com os modelos de análise adotados e as tradições teóricas de cada ciência (CINGOLANI, 2013). No entanto, podem ser apresentadas pelo menos duas gerações de análise das capacidades estatais. Por um lado, o conceito refere-se ao fato de manter a ordem em determinados territórios, exigindo um con- Gestão Pública e o papel do Estado 25 junto de ações para proteger a soberania, administrando a estrutura coercitiva, arrecadando tributos e administrando um sistema judicial (JESSOP, 2001). Essa primeira vertente teve como foco a análise histó- rica de formação do Estado. Um segundo nível estuda as capacidades do Estado após o estágio inicial de sua formação, analisando se existem ou não condições para o atingimento dos objetivos de provisão de bens e serviços públicos por meio da implementação das Políticas Públicas (MATTHEWS, 2012). Dessa forma, as capacidades estatais estão estreitamente relaciona- das com o modelo de governança adotado, uma vez que a efetividade das Políticas Públicas passa pela interação entre o Estado, a iniciativa privada e a sociedade. Essa visão vai além da estrutura burocrática, institucional e política existente, trabalhando com a cooperação e a co- laboração entre os atores envolvidos (HUERTA, 2008). Designou-se, então, o termo big governance como a relação entre o modelo de governança adotado e as capacidades estatais, buscando compreender a estrutura institucional do Estado, a desconcentração dos arranjos e o estabelecimento da participação de múltiplos autores (LEVI-FAUR, 2012). Pode-se entender que, nesse cenário, a formulação de Políticas Públicas exige maior complexidade de arranjos e estrutu- ras decisórias que representem a relação do Estado com a sociedade e o mercado (SCHNEIDER, 2005). A literatura especializada apresenta três perspectivas teóricas para demonstrar a relação entre as capacidades estatais e as mudanças no Estado. Na primeira perspectiva, as mudanças reduzem a capacidade estatal, ocorrendo o esvaziamento e a perda do controle do Estado. Nessa relação, considera-se que as estruturas verticais são fragmen- tadas e as responsabilidades são transferidas para a sociedade civil, governos subnacionais e iniciativa privada (ZEHAVI, 2012). A segunda perspectiva defende que as mudanças do Estado não necessariamente diminuem as capacidades estatais. Autores dessa vi- são afirmam que o Estado não perde a centralidade, somente desloca as capacidades, passando a assumir a condição de Estado regulador, desenhando arranjos, formulando Políticas Públicas e controlando re- cursos (MATTHEWS, 2012). Por fim, a terceira perspectiva defende que a ampliação das capa- cidades estatais ocorre devido a mudanças associadas à noção de go- Saneamento básico Direção de Jorge Furtado. Brasil: Sonny Pictures, 2007. 1 DVD (102 min.). Comédia. O filme aborda uma comunida- de do interior do Rio Grande do Sul que se une para reivindicar à prefeitura a construção de uma fossa. Quando as pessoas desco- brem que a prefeitura não tem recursos para fazer a fossa, mas tem dinheiro para a produção de um vídeo, decidem fazer um filme educativo sobre o assunto para incentivar a obra. Filme 26 Gestão e avaliação de políticas públicas vernança. Para esses teóricos, as interações entre o Estado e os demais atores não substituem a capacidade estatal, mas a complementam. So- bre isso, Offe (2009, p. 12) afirma: a noção de governança pode estar associada ao aumento da capacidade de intervenção do Estado, ao proporcionar a mobi- lização de atores não estatais na formulação e implementação de Políticas Públicas, contribuindo, assim, para maior eficiência e efetividade [...]. É possível pensar na existência de “forças auxi- liares” [e não substitutivas] na sociedade civil que, por meio dos procedimentos adequados e de suas competências específicas, podem ser recrutadas para a cooperação na realização de tare- fas de interesse público [...] podendo gerar um Estado ao mesmo tempo mais leve e mais capaz. Além dessas perspectivas, há correntes mais modernas com ar- ranjos institucionais com maior sofisticação, transferindo papéis para atores estatais subnacionais e não estatais, construindo novas capa- cidades, ampliando o espaço de atuação, tornando as políticas mais flexíveis, facilitando o processo de monitoramento e permitindo novos aprendizados e reflexões (MATTHEWS, 2012). Essas novas interações, por meio de arranjos institucionais, permi- tem ampliar os esforços e recursos empregados, bem como fomentam o processo de inovação. Assim, esses arranjos mobilizam conhecimen- tos e informações sobre os problemas enfrentados, envolvendo um maior número de atores no acompanhamento, monitoramento e ava- liação das iniciativas (SORENSEN, 2012). O novo ambiente institucional apresenta três dimensões, segundo Pires e Gomide (2016): 1 A dimensão político-representativa aborda o problema da governabilidade e da produção de Políticas Públicas nacionais “em um sistema federativo, presidencialista e multipartidário” (PIRES; GOMIDE, 2016). 2 A dimensão dos controles horizontais refere-se aos processos de transparência, accountability e controles internos, envolvendo a Controladoria Geral da União, a fiscalização e os controles externos, tendo como exemplo o Tribunal de Contas da União. 3 A dimensão participativa, por fim, envolve a participação social nas decisões políticas, incluindo os conselhos de gestão, as audiências e as conferências públicas. Gestão Pública e o papel do Estado 27 Outro conceito bastante presente é o de capacidade para Políticas Públicas (Policy Capacity), que implica a reunião dos recursos necessários para a racionalidade das escolhas visando ao interesse público. Nesse sen- tido, trabalham-se também os conceitos de capacidade administrativa (Administrative Capacity), que trata da gestão eficaz de recursos humanos e físicos necessários para a entrega dos serviços públicos, e de capacidade de Estado (State Capacity), relativa à mobilização do apoio econômico e social dos resultados do Estado. Nesse contexto, a capacidade política é gerada no nível intersetorial, em um modelo de governança constituído de arranjos institucionais, procedimentos de transparência e accountability e mecanismos de coordenação do novo modelo (PAINTER; PIERRE, 2005). Desse modo, compreende-se que, para exercícios de formulação e execução das Políticas Públicas, é fundamental o desenvolvimento de capacidades estatais, articulando o papel do Estado com a iniciativa privada e a sociedade, ampliando a cooperação e a colaboração para atingir os objetivos definidos. CONSIDERAÇÕES FINAIS A Constituição Federal (BRASIL, 1988) estabeleceu um modelo fede- rativo com competências divididas entre a União, os estados e os mu- nicípios, principalmente em relação à atuação estatal e à formulação e aplicação das Políticas Públicas. Assim, as Políticas Públicas têm sido um instrumento eficiente para o alcance dos objetivos da Gestão Pública. Com o advento do conceitode Estado de bem-estar social, este passou a ter maior participação nas questões que promovem a qualidade de vida para a sociedade. Para o atendimento das demandas sociais é importante a definição de um modelo de governança que promova a participação popular na construção das Políticas Públicas, passando a ser um fator de legitimidade do governo em questão. Com isso, as Políticas Públicas contribuem para a redução dos conflitos e estabelecem uma interação entre os Poderes Executivo e Legislativo com os demais setores da sociedade. O cenário das Políticas Públicas sofreu alterações nos anos 1990 a par- tir da reforma administrativa do Estado, da adoção do modelo gerencial de Administração Pública e da limitação orçamentária dos governos (prin- cipalmente estados e municípios). Dessa forma, o Estado passou a fomen- tar a participação social, a transparência e a necessidade de desenvolver novas capacidades estatais para atender à demanda social e contribuir para o alcance de seus objetivos. 28 Gestão e avaliação de políticas públicas REFERÊNCIAS ABRANCHES, S. H. Política social e combate à pobreza: a teoria da prática. In: ABRANCHES, S. H.; SANTOS, W. G.; COIMBRA, M. A. Política social e combate à pobreza. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1994. BRASIL. Constituição Federal (1988). Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao. htm. Acesso em: 27 nov. 2019. BRASIL, F. G.; CAPELLA, A. C. N. 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No modelo burocrático, o Estado tem como foco o rígido controle dos processos e a adequação das leis e normas. O modelo gerencial tem como ponto principal os resultados das Políticas Públicas e o cidadão passa a ser visto como cliente. 30 Gestão e avaliação de políticas públicas 3. São formas de Políticas Públicas, de acordo com Lowi (1964; 1972 apud SOUZA, 2005): • Políticas distributivas: decisões que geram mais impactos indivi- duais do que universais, que denotem privilégios para determina- das localidades ou grupos sociais. • Políticas regulatórias: são mais identificáveis pela sociedade, visto que envolvem burocracia, políticos e grupos de interesse. • Políticas redistributivas: determinam perdas para determinadosgrupos sociais e ganhos para outros, constituindo as políticas so- ciais universais, o sistema tributário, o sistema previdenciário, entre outros. • Políticas constitutivas: tratam do estabelecimento de normas para formulação e implementação das Políticas Públicas. Ciclo de vida das Políticas Públicas 31 O ciclo de vida das Políticas Públicas possui qualidades que são destacadas na literatura especializada. Conhecê-lo é importante para compreender as discussões sobre os temas trabalhados e os estágios que compõem esse ciclo, estudando suas características específicas. Destaca-se nesse contexto a formulação da agenda pública, compreendida como um conjunto de problemas e demandas importantes a serem atendidos, voltada para atores com ela envolvidos. Forma-se assim, com a interação desses atores, um plano de governo ou um planejamento orçamentário. Também se destaca o papel da sociedade civil organizada para estabelecer um diálogo com o Estado, buscando interagir com o interesse público. Mesmo com uma cultura de centralização decisória, o advento da Constituição Federal de 1988 define as formas de controle social como mecanismo democrático e de exercício da soberania. Assim, cabe compreender a formulação e a implementação da agenda para estabelecer um cenário de interação entre os diversos atores sociais, organizados e com pleno exercício de soberania, construindo Políticas Públicas diretamente relacionadas com as demandas sociais norteadoras das decisões do Estado. Ciclo de vida das Políticas Públicas 2 32 Gestão e avaliação de políticas públicas 2.1 Formulação da agenda pública Videoaula A agenda pública é fruto da ciência política no estudo das Políticas Públicas, como os temas que o governo e a sociedade focam sua aten- ção em momentos determinados, conforme a demanda e o interesse público dos atores envolvidos. A agenda pública pode ser entendida como uma coleção de demandas, envolvendo as causas e soluções que precisam de ações da sociedade e da Gestão Pública (BIRKLAND, 2007). Compreende-se, dessa forma, que a formulação da agenda é uma construção de diversos atores, e não somente do Estado. Nesse contex- to, a interação entre eles faz com que os problemas ganhem ou percam destaque, gerando maior interação entre sociedade, ideias, instituições e governos. Cabe mencionar que, se a agenda é uma questão social, existe uma disputa entre os diversos grupos com formas distintas de interpre- tar os problemas e apresentar as soluções, com uma complexidade de interações que culminam na agenda pública (FUKS, 2000). A formulação da agenda pública é uma etapa que ocorre antes do processo de decisão, envolvendo as temáticas que comporão as ações do Estado definidas como prioritárias. As ações que não compõem a agenda governamental são chamadas de ações não prioritárias, mesmo que sejam demandas e necessidades de grupos específicos. Quando um tema definido pelos elaboradores da agenda como “não prioritário” evolui e passa a ser entendido como “prioritário” pela sociedade, gera um problema político. O processo de formulação da agenda envolve basicamente dois ti- pos de atores: visíveis e invisíveis. Os atores visíveis são os que têm poder de influenciar a formação da agenda devido à visibilidade e pro- ximidade com o público – entre estes destacam-se políticos e imprensa, por exemplo. Por outro lado, os atores invisíveis têm menor poder para influenciar a formação da agenda, embora tenham maior capaci- dade de apresentar alternativas aos atores visíveis – destacam-se nesse caso os servidores públicos e os pesquisadores, por exemplo. Para compreender a integração dos problemas à agenda do gover- no, utiliza-se o modelo de múltiplos fluxos, de John Kingdon (2003). Ele trata da concentração de três grandes fluxos relacionados ao pro- cesso de tomada de decisões: em primeiro lugar o fluxo de problemas (problem stream), em segundo o fluxo de soluções (policy stream) e por fim o fluxo político (political stream), conforme definido na Figura 1. Ciclo de vida das Políticas Públicas 33 OPORTUNIDADE DE MUDANÇA (Windows) Convergência dos fluxos (coupling) pelos empreendedores (policy entrepreneurs) Figura 1 Resumo do modelo de múltiplos fluxos PROBLEM STREAM (Fluxo de problemas) Indicadores Crises Eventos localizadores Feedback de ações POLICY STREAM (Fluxo de soluções) Viabilidade técnica Aceitação pela comunidade Custos toleráveis POLITICAL STREAM (Fluxo político) “Humor nacional” Forças políticas organizadas Mudanças no governo AGENDA – SETTING Acesso de uma questão à agenda Fonte: Capella, 2007, p. 98. O fluxo de problemas trata das questões que farão parte da agen- da, captadas com base em três mecanismos distintos: i) indicado- res, compostos de dados que ajudam a compreender e interpretar a realidade, contribuindo para determinar se a questão será objeto da atenção do governo; ii) eventos, isto é, fatos ocorridos na sociedade que despertam atenção para alguma emergência a ser atendida; e iii) feedback das ações do governo, que envolvem avaliação, pela socieda- de civil organizada, dos programas e das Políticas Públicas implemen- tados pelo poder público. O fluxo de soluções trata das possibilidades de resolução discuti- das na rede de atores. Kingdon (2003, p. 32) destaca que “as pessoas não necessariamente resolvem problemas. [...] Em vez disso, elas ge- ralmente criam soluções e, então, procuram problemas para os quais possam apresentar suas soluções”. O fluxo político possui processos e normas livres das questões demandadas e das resoluções apresentadas, uma vez que são fun- damentados na política de negociação. Conforme dispõe a Figura 1, 34 Gestão e avaliação de políticas públicas a negociação é pautada em três pilares: i) clima ou “humor” nacional, que são questões emergentes ou em discussão pela sociedade para a priorização de temas da agenda; ii) formação de conflitos ou consen- sos pelos grupos de pressão ou forças políticas organizadas; e iii) mu- danças nos governos, permitindo a disseminação de novas práticas e a emergência de novas ideias para a Gestão Pública. A confluência desses três fluxos corrobora a abertura de uma jane- la de oportunidades para os atores manifestarem suas proposições, o que contribui para a formação da agenda. Pode-se constatar esse processo na representação a seguir. Fluxo de problemas Fluxo de soluções Janela de oportunidades Formação da agenda Fluxo político Figura 2 Fluxos decisórios e a formação da agenda Fonte: Adaptada de Oliveira, 2011. Um segundo modelo de compreensão de formulação da agenda foi desenvolvido por True, Baumgartner e Jones, em 2007, denominado Teoria do Equilíbrio Pontuado. Essa teoria busca explicar por que al- gumas temáticas são destinadas às agendas de decisão enquanto ou- tras ficam restritas aos atores invisíveis. A ideia central da teoria é que os processos de Políticas Públicas são caracterizados por períodos de “equilíbrio” e “pontuados” por outros de mudanças. Segundo os auto- res, os períodos de mudanças ocorrem quando uma questão, discutida no âmbito dos atores invisíveis, evolui para ser discutida pelos atores visíveis, retroalimentando o processo da agenda pública. A mudança ou status quo da política nessa teoria depende do modo de formulação da questão. Nesse caso, um determinado tema que- bra a situação de “equilíbrio” ao estabelecer um novo entendimento sobre a temática. Por esse motivo, nesse modelo, a apresentação da política recorre às informações e aos apelos, sendo isso fundamental para acessar o ambiente de formulação da agenda de decisões (TRUE; JONES; BAUMGARTNER, 2007). Atividade 1 A formulação da agenda pública compreende um conjunto de discussões políticas, apresen- tando questões que mobilizam o sistema político. Para ampliar a cidadania, a Constituição Federal de 1988 determina a participação e o controle social na formulação da agenda. No contexto da participação social, quais sãoos obstáculos para a formação de agenda? Ciclo de vida das Políticas Públicas 35 A comunicação dos atores referente à nova temática, portanto, atrai novos atores e novas ideias para a agenda decisória, com base na cons- trução de uma imagem com a sociedade. Inicialmente, é gerado um pe- ríodo “pontuado” por mudanças, desequilibrando o sistema para, em um segundo momento, criar um “ponto de equilíbrio”. 2.2 Formulação das Políticas Públicas Videoaula Uma Política Pública é formulada a partir de escolhas e decisões com impacto em grupos, organizações e indivíduos, que participam de debates e negociações para construí-la. O gestor público sempre deve focar a preocupação com o impacto no público-alvo da Política Pública, considerando os recursos legais, materiais, orçamentários e as pessoas disponíveis para implementá-la. De acordo com Cavalcanti (2007, p. 231), “a formulação se inicia quando os atores políticos, Estado, instituições etc., ‘conjuntamente’ [...] definem qual assunto fará parte da agenda política e sofrerá inter- ferência por parte do setor público, tornando necessária a formulação de alternativas de política”. Dessa forma, pode-se entender que a pri- meira etapa para a formulação da Política Pública é a análise e decisão de inserção dos temas na agenda pública. É nesse momento que as demandas são consideradas prioritárias ou deixadas de lado. A escolha dos temas para composição da agenda é feita tendo em vista sua importância para o interesse público. Sobre isso, Frey (2000, p. 227) afirma que “Somente a convicção de que um problema social precisa ser dominado política e administrativamente o transforma em um problema de policy”. Igualmente nesse sentido, Cavalcanti (2007, p. 181) explica: A construção da agenda ou mais propriamente a inclusão ou não de um determinado assunto na agenda de governo revela o fato de que em função da assimetria existente na distribuição do poder, nem todas as questões se transformam em assuntos que serão objeto da ação governamental. Em outras palavras, nem todos os assuntos são introduzidos na agenda e elaborados a fim de darem lugar a uma política a ser implementada. Desse modo, o ciclo da Política Pública tem início com a identifica- ção e o apontamento dos problemas, definindo as possibilidades e os mecanismos de resolução das demandas apresentadas. A formulação das alternativas é o momento de organizá-las, determinando “como”, 36 Gestão e avaliação de políticas públicas “quando” e “por que” aplicar a Política Pública em questão. É o momen- to de definição dos problemas e das soluções apresentadas pelo poder público (CAVALCANTI, 2007). A formulação das Políticas Públicas é um período marcado por uma série de decisões, motivado por fatores e diversos atores participan- tes. As decisões tomadas nessa etapa influenciam as demais fases do ciclo das Políticas Públicas. Esse processo decisório não é definido de maneira organizada e racional, sendo mais complexo e apresentando resultados indeterminados. O processo de decisão deriva de estudos dos modelos teóricos apresentados no Quadro 1. Quadro 1 Modelos teóricos de análise do processo de decisão Modelo racional Os decisores utilizam critérios racionais, tomando as melhores decisões com base em todas as informações disponíveis. Modelo da racionalidade limitada Os decisores não conseguem tomar a melhor decisão ou a mais racional, por não terem acesso a todas as in- formações disponíveis. Modelo incremental A decisão não é tomada com base nas informações, mas é fruto das pressões sociais e do grau de coalizações dos atores. Modelo de escolha pública Os atores tomam decisões tendo em vista seus próprios interesses e de acordo com seus objetivos pessoais. Modelo de análise de redes A decisão é tomada pela interação dos atores (redes) que contribuíram para formular as Políticas Públicas. Nessa relação, os atores realizam interações e trocas conforme seus próprios interesses. Fonte: Adaptado de Cavalcanti, 2007. Os modelos teóricos ajudam a compreender como as decisões são tomadas na formulação das Políticas Públicas, que é quando os desejos e as demandas dão origem às expectativas. Estas, segundo WU et al. (2014), são hipóteses dos atores sobre os impactos das ações e sobre os seus interesses. Em alguns casos, os atores decisores erram na aná- lise do cenário, propondo Políticas Públicas que não são adequadas à realidade. Mesmo quando o cenário é analisado cuidadosamente, as soluções podem não agradar a sociedade. Ciclo de vida das Políticas Públicas 37 Dessa forma, é natural acreditar que as expectativas podem agra- dar ou desagradar os atores envolvidos, de acordo com as vantagens ou desvantagens observadas na formulação da política. Ocorre, assim, uma mobilização dos atores, defendendo seus interesses e agindo con- forme suas preferências. Rua (2009) define preferências como as alter- nativas de solução para um problema que mais trazem vantagens ao ator (ou conjunto de atores), que dependem do custo aplicado e do benefício recebido. O custo, nesse caso, refere-se a prestígio, poder ou vantagens políticas. Devido a esse contexto de expectativas e preferências, a formula- ção das Políticas Públicas apresenta dois tipos de desafios: técnicos e institucionais. Desafios técnicos Barreiras técnicas podem ser um desafio para a formulação das Políticas Públicas, principalmente, devido à compreensão das causas do problema abordado e dos objetivos buscados. Desafios institucionais São características puramente governamentais, como o ordenamento legal do país, a estrutura federativa, os grupos sociais de pressão, o posicionamento político e a burocracia. Compreendidos e vencidos esses desafios, a formulação de uma Política Pública ocorre a partir de três etapas distintas: i) reunir infor- mações das características dos problemas analisados; ii) desenvolver alternativas de soluções para esses problemas; e iii) planejar objetivos, metas e ações para executar as alternativas propostas (WU et al., 2014). Entende-se, dessa forma, que o sucesso da formulação das Políticas Públicas depende diretamente do modelo teórico de análise de decisão adotado, compreendendo as necessidades e expectativas da sociedade. Por outro lado, é preciso compreender os desafios técni- cos e institucionais que podem limitar ou expandir a atuação do Estado na formulação das Políticas Públicas. O livro Análise de Políticas Públicas: temas, agenda, processos e produtos reú- ne diversos artigos em três partes voltadas para a área da saúde, mas que podem ser estendidas para toda Política Pública. A primeira parte trata das políticas de enfrentamen- to à violência infantoju- venil e às mulheres; a se- gunda trata das políticas de saúde e saúde mental; por fim, a última debate sobre a questão do álcool e outras drogas. GARCIA, M. L. T.; LEAL, F. X. (org.). São Paulo: Annablume, 2012. Livro 2.3 Implementação das Políticas Públicas Videoaula A implementação das Políticas Públicas é a fase subsequente à formulação. Nela, as decisões tomadas se tornam ações práticas que podem ser mensuradas em um momento futuro. A respeito disso, Ca- valcanti (2007, p. 218) destaca que: 38 Gestão e avaliação de políticas públicas Nem todas as políticas definidas são realmente implementadas. E, mesmo as que são implementadas, podem alcançar resultados di- ferentes daqueles que foram originalmente idealizados. Isso ocor- re porque muitas coisas falham entre o momento da formulação e aquele em que são produzidos os resultados. [...] O processo de implementação é um momento especialmente problemático. Mo- mento esse em que se pretende transformar as intenções expres- sas em planos ou programas em ações, e onde se materializam as decisões. Também é um momento que emergem as negociações que não foram levadas a termo entre os atores políticos ou que foram propositadamente deixadas em suspenso. O que denota o caráter dinâmico e complexo doprocesso de implementação. Há três modelos teóricos que buscam explicar a fase de implemen- tação das políticas: a visão clássica da implementação, a visão da im- plementação como processo e a teoria moderna, também denominada visão da implementação como jogo. Na visão clássica, o ciclo da política não é considerado um proces- so. Essa teoria segue o modelo top-down 1 , apresentando as etapas de formulação e implementação de modo segmentado, conforme de- monstrado na Figura 3. Figura 3 Implementação da política na visão clássica Formulação de políticas Implementação de políticas Resultados Fonte: Adaptada de Silva; Melo, 2000, p. 13. A política é construída em duas etapas na visão clássica: a formula- ção é realizada pelos funcionários públicos de alto escalão e, depois, a implementação é realizada pelos funcionários de baixo escalão. Essa teoria defende a ideia de que a Gestão Pública funciona de maneira perfeita, fazendo com que a fase de implementação seja uma reprodu- ção fiel das políticas formuladas anteriormente. A segunda visão, por sua vez, considera a implementação das Políticas Públicas como um processo. Essa teoria é mais completa por relevar as capacidades institucionais do Estado, assim como as ques- tões políticas e as pressões dos grupos e das coalizões. A seguir, a Figura 4 representa a implementação da política com base nessa teoria. O livro Implementação de Políticas Públicas: teoria e prática aborda essa te- mática com base em refle- xões teóricas e estudos de caso de políticas setoriais distintas. Essas reflexões mostram a importância da formulação das políticas em um cenário democrá- tico, plural e global. FARIA, C. A. (org.). Belo Horizonte: PUC Minas, 2012. Livro O modelo “de cima para baixo” (top-down) parte do pressuposto de que a respon- sabilidade pela implementação da política repousa quase que exclusivamente na atuação dos burocratas de “alto nível” que “comandam” aqueles situados nos níveis “mais baixos” (CAVALCANTI, 2007, p. 222). 1 Ciclo de vida das Políticas Públicas 39 Figura 4 A política na visão da implementação como processo Retroalimentação Monitoramento Formulação de políticas Implementação de políticas Fonte: Adaptada de Silva; Melo, 2000, p. 13. Nesse modelo, os problemas na implementação das políticas são monitorados e analisados de modo que retroalimentam o processo, sendo novamente implementados de uma maneira mais eficaz. Diferentemente das visões anteriores, a teoria moderna apre- senta um modelo que entende a implementação como um jogo. Esse modelo considera o ambiente político de negociações e tro- cas, demonstrando que a Gestão Pública não é um sistema per- feito. Além disso, a teoria moderna apresenta características mais realistas, tais como: limites de recursos orçamentários, informação escassa e capacidade limitada dos atores. O modelo destaca tam- bém a impossibilidade do controle das eventualidades, devido à dificuldade de prever as alterações de cenário que podem afetar o ambiente político. A implementação das políticas, no modelo da teoria moderna, não ocorre necessariamente como elas foram formuladas, dadas as eventualidades políticas e orçamentárias – esse processo retroali- menta o modelo e leva os tomadores de decisões a redesenharem objetivos e metas, reiniciando o ciclo de vida das Políticas Públicas. Os defensores desse modelo, entre os quais se destacam Lipsky (1980), Hjern e Porter (1981) e Hjern e Hull (1982), definem esse pro- cesso de retroalimentação como uma forma de aprendizado que contribui para a evolução e dinâmica das Políticas Públicas. Independentemente do modelo adotado, entretanto, Howlett, Ramesh e Perl (2013) destacam que a implementação das Políticas Públicas ocorre em cinco etapas distintas, destacadas a seguir na Figura 5. Atividade 2 O processo de implemen- tação de Políticas Públicas compreende instrumentos para alcançar os objetivos da política e os propósitos desenhados pelo Estado. Dentre as possibilidades de políticas destaca-se o modelo top-down. Do que se trata esse modelo? 40 Gestão e avaliação de políticas públicas Apresentar alternativas para solucionar o problema Projetar os resultados esperados Definir as estratégias de implementação Subdividir o problema Definir o problema e suas causas Figura 5 Etapas da implementação das Políticas Públicas Fonte: Elaborada pelo autor com base em Howlett; Ramesh; Perl (2013). A primeira etapa envolve a definição do problema e suas causas. Nela, ocorre a identificação clara dos problemas, tornando as deman- das cada vez mais transparentes. Em seguida, é feita a subdivisão dos problemas, que permite melhorar a percepção e reconhecer a complexidade do cenário identificado. Apresentam-se alternativas de implementação e soluções, que sejam possíveis e viáveis. A pro- jeção dos resultados esperados envolve a estimativa de resultados e da efetividade da política, mensurando os impactos. Por fim, de- finem-se as estratégias de implementação, escolhendo os meios técnicos e os especialistas, garantindo a correta execução da política. 2.4 Mecanismos de controle social das Políticas Públicas Videoaula Os movimentos sociais têm um importante papel no processo de redemocratização do país desde os anos 1970, buscando intervir nas Políticas Públicas e estabelecendo mecanismos de controle so- cial. Compreende-se como controle social a forma de compartilhar o poder de decisão entre o Estado e a sociedade civil organizada no estabelecimento de Políticas Públicas. Ocorre, assim, uma interação entre o Estado e a sociedade definindo prioridades na elaboração dos planos municipais. Ciclo de vida das Políticas Públicas 41 O controle social pode ser realizado tanto quando a política é imple- mentada como quando a política é fiscalizada, por meio do acompanha- mento e da avaliação das condições de gestão das Políticas Públicas. O controle social também tem um forte papel fiscalizador das ações e da execução do orçamento. A Constituição Federal de 1988 garantiu a participação e o controle social na formulação das Políticas Públicas em regulamentações espe- cíficas, tais como a Lei Orgânica da Saúde (LOS – Lei n. 8.080/1990), o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA – Lei n. 8.069/1990), a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS – Lei n. 8.742/1993) e o Estatuto das Cidades (Lei n. 10.257/2001). Essas leis preveem a consulta e a deli- beração estabelecidas pelos Conselhos de Políticas Públicas. Nesse contexto, o controle social é entendido como um conjunto de maneiras de influenciar o comportamento dos grupos em busca da or- dem e participação social (MANNHEIM, 1971). Assim, o controle social é a evolução da relação Estado–sociedade, na qual a sociedade apresen- ta um novo papel de fiscalização e controle sobre o Estado. Na teoria política, o significado de controle social é ambíguo, podendo ser concebido em sentidos diferentes a partir de con- cepções de Estado e de sociedade civil distintas. Tanto é em- pregado para designar o controle do Estado sobre a sociedade quanto para designar o controle da sociedade (ou de setores organizados na sociedade) sobre as ações do Estado. (CORREIA, 2008, p. 67) O Brasil apresentou historicamente uma forma autoritária de go- vernar por meio de decretos secretos, atos institucionais, repressão e consequente redução da participação social, especialmente durante o regime militar. Esse modelo autoritário de governo faz parte da história e cultura do país, o que ajuda a entender a resistência à Constituição Federal de 1988, que propõe a participação e o controle social das Polí- ticas Públicas (CHAUI, 2001). O modelo de controle social tem como base as teorias de Rousseau 2 , que atribuem à sociedade o poder de controlar todas as atividades do Poder Executivo, seguindo uma perspectiva democrática. Dessa forma, o povo passa a exercer a soberania, em uma ideia do Estado controla- do pela sociedade. Busca-sea sintonia do controle social em defesa do interesse público sobre o interesse privado (CORREIA, 2004). Filósofo e escritor suíço que viveu no século XVIII, Jean-Jacques Rousseau foi precursor do Romantismo. Participou do movimento do Iluminismo e da Revolução Francesa, como propagador do liberalismo político. Sua obra principal O Contrato Social (1762) desenvolve a ideia de que a sobe- rania reside na sociedade. 2 42 Gestão e avaliação de políticas públicas No caso brasileiro, portanto, a participação social evoluiu a partir do advento da Constituição Federal de 1988, em um cenário no qual os problemas sociais se ampliavam e o poder público estava em cri- se política e financeira, comprometendo a capacidade de investimento do Estado. Devido às limitações orçamentárias, a participação social se tornou cada vez mais urgente para aproximar os investimentos do Estado das necessidades da sociedade. Destaca-se ainda o processo de redemocratização do Brasil, predominando uma visão distinta entre Estado e sociedade, necessitando de interação entre as partes. Pereira (1998) menciona três mecanismos de controle institucional: o Estado, como sistema legal; o mercado, como sistema econômico; e a sociedade civil, por meio dos grupos sociais. O controle social na Administração Pública pode ser demonstrado na Figura 6. Atividade 3 A participação social é um fenômeno que cresceu a partir do advento da Constituição Federal de 1988, em um cenário de aumento das crises socio- econômicas e das demandas sociais por serviços públicos. Como a participação social pode colaborar para a efetividade das Políticas Públicas? Proposta do candidato/ gestor público Eleição/designação Planejamento (PPA, LDO, LOA) Execução Anseio da sociedade Retroalimentação Figura 6 Controle social na Administração Pública Sociedade Controle social Tribunais de Contas Controles Internos Ministério Público Corregedorias Poder Judiciário Fonte: Silva, 2001, p. 12. Atuação O esquema mostra que a correção dos planejamentos acontece com base na retroalimentação feita pela sociedade, que, por um lado, traz melhorias para o processo administrativo e, por outro, melhora o ambiente político com o exercício da cidadania. Em coerência com essa perspectiva, a Constituição Federal de 1988 estabeleceu uma nova legislação criando mecanismos de participação e controle social, conforme os exemplos a seguir. O processo de redemocratização do Brasil trata do fenômeno iniciado em 1985, marcado pela abertura política e o fim do período do regime militar (1964-1985); advento de uma nova Constituição, eleições gerais e livres e a recuperação das instituições democráticas. Saiba mais+ Ciclo de vida das Políticas Públicas 43 Formas de estímulo de parcerias e ampliação da participação social, envolvendo toda a sociedade organizada. Mesas de diálogo, fóruns, audiências e consultas públicas Canais de diálogo do cidadão com o governo, atribuindo à participação social um caráter individual. Ouvidorias Espaços de articulação entre o governo e a sociedade, ampliando a participação popular na gestão das Políticas Públicas. Conferências Processo que permite à sociedade a condição de opinar, debater e decidir sobre as despesas públicas. Orçamento participativo Espaços de diálogo compostos de representantes do Estado e da sociedade civil organizada. Os Conselhos de Políticas Públicas foram instituídos com base na participação, representação, deliberação, publicidade e autonomia. Com os Conselhos, busca-se fiscalizar a aplicação dos recursos orçamentários, a prestação de serviços e a atuação dos Estados frente às demandas da população. Conselhos de Políticas Públicas Destaca-se, por fim, a importância dos instrumentos de controle e participação social estabelecidos no ordenamento legal do Brasil, prin- cipalmente após o advento da Constituição Federal de 1988, garantin- do a manifestação dos interesses da sociedade e, assim, identificando as necessidades sociais que servem como premissas iniciais do plane- jamento da implementação das Políticas Públicas. CONSIDERAÇÕES FINAIS O pressuposto de estudo do ciclo de vida de uma Política Pública é fun- damentado em duas perspectivas: por um lado, as estruturas indutoras ou construtoras da política; por outro, o processo de desenvolvimento de uma política na sua realidade. O ciclo de vida tem início com o surgimento de uma situação social problemática, cuja resolução passa pela interven- ção do poder público. 44 Gestão e avaliação de políticas públicas Uma vez identificada a situação problemática, existe uma arena po- lítica para debater o tema de modo que ele possa compor a agenda de determinado poder ou governo. Desse modo, nas democracias mais com- plexas, identifica-se uma infinidade de questões que podem ser resolvi- das por meio da adoção de Políticas Públicas. Como nem todas as questões são passíveis de resolução com Políticas Públicas, ocorre um processo social para definir a composição das agendas dos governos e da sociedade. Uma vez que as agendas estão compostas, passa-se à formulação da política para atender ao objetivo determinado. É fundamental, portanto, a garantia da participação e do controle so- cial conforme orientado pela Constituição Federal de 1988, colaborando tanto para a identificação dos problemas quanto para a discussão da composição das agendas e formulação das propostas. Outro papel im- portante do controle social é a fiscalização da execução orçamentária e das propostas das Políticas Públicas, buscando garantir sua efetividade em conjunto entre o Estado e a sociedade civil organizada. REFERÊNCIAS BIRKLAND, T. A. Agenda sett ing in public policy. In: FISCHER, F.; MILLER, G. J.; SIDNEY, M. S. Handbook of public policy analysis: theory, politics and methods. New York: Taylor and Francis Group, 2007. CAPELLA, A. C. Perspectivas teóricas sobre o processo de formulação de políticas públicas. In: HOCHMAN, G.; ARRETCHE, M.; MARQUES, E. Políticas públicas no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2007. CAVALCANTI, P. A. Sistematizando e comparando os enfoques de avaliação e de análise de políticas públicas: uma contribuição para a área educacional. Campinas, 2007. 289f. Tese (Doutorado) – Curso de Programa de Pós-graduação em Educação, Departamento de Educação, Universidade Estadual de Campinas. CHAUI, M. Brasil: mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Perseu Abramo, 2001. CORREIA, M. V. C. A relação estado/sociedade e o controle social: fundamentos para o debate. Serviço Social & Sociedade, São Paulo, Cortez, n. 77, 2004. CORREIA, M. V. C. Políticas Sociais: gestão descentralizada e participativa. Maceió: Edufal, 2008. FREY, K. Políticas públicas: um debate conceitual e reflexões referentes à prática da análise de políticas públicas no Brasil. Planejamento e políticas públicas, Brasília, n. 21, p. 211-259, jun. 2000. FUKS, M. Definição de agenda, debate público e problemas sociais: uma perspectiva argumentativa da dinâmica do conflito social. Revista BIB, n. 49, p. 79-94. 2000. HJERN, B.; HULL, C. Implementation research as empirical constitutionalism. European Journal of Political Research, v. 10, n. 2, p. 105-115, 1982. HJERN, B.; PORTER, D. O. Implementation structures: a new unit of administrative analysis. Organization Studies, v. 2, n. 3, p. 211-227, 1981. HOWLETT, M.; RAMESH, M.; PERL, A. Política pública: seus ciclos e subsistemas – uma abordagem integral. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013. KINGDON, J. Agendas, alternatives, and public policies. 3. ed. New York: Harper Collins, 2003. Ciclo de vida das Políticas Públicas 45 LIPSKY, M. Street-level bureaucracy: dilemmas of the individual in public services. Nova York: Russell Sage Foundation, 1980. MANNHEIM, K. Sociologia sistemática: uma introdução ao estudo de sociologia. 2. ed. São Paulo: Pioneira, 1971. OLIVEIRA, D. P. W. Políticas públicas de fomento à leitura: agenda governamental, política nacional e práticaslocais. São Paulo, 2011. Dissertação (Mestrado) – Fundação Getúlio Vargas. PEREIRA, L. C. B. A reforma do estado nos anos 90: lógica e mecanismos de controle. Brasília: Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado, 1998. RUA, M. das G. Políticas públicas. Florianópolis: Departamento de Ciências da Administração, UFSC; Brasília: Capes: UAB, 2009. SILVA, P. L. B.; MELO, M. A. B. de. O processo de implementação de políticas públicas no Brasil: características e determinantes da avaliação de programas e projetos. Núcleo de Estudos de Políticas Públicas – Unicamp, Campinas, n. 48, p. 1-16, 2000. SILVA, F. C. da. C. Controle social: reformando a administração para a sociedade. Brasília: TCU. 2001. TRUE, J. L.; JONES, B. D.; BAUMGARTNER, F. R. Punctuated-Equilibrium Theory: explaining stabilitity and change in public policy. In: SABATIER, P. A. (ed.) Theories of Policies Process. Westview Press, 2007. WU, X.; RAMESH, M.; HOWLETT, M.; FRITZEN, S. Guia de políticas públicas: gerenciando processos. Brasília: Enap, 2014. GABARITO 1. Embora a Constituição Federal trate de instrumentos e mecanismos de controle e participação social, há ainda o grande desafio de mobilizar a sociedade para essa participação por dois motivos principais: i) a tradição brasileira de centralização das decisões; e ii) a falta de organização local desses instrumentos para garantir a disseminação dos mecanismos e da garantia de participação popular. 2. O modelo top-down é estabelecido quando as decisões de formulação das Políticas Públicas surgem concentradas no Estado, sem participação (ou com mínima participação) da sociedade. 3. A participação social colabora para a efetividade das Políticas Públicas ao aproximar o Estado das necessidades da sociedade e, como consequência, permite ao gestor público formular ações de maneira mais detalhada e adequada às reais demandas apresentadas. 46 Gestão e avaliação de políticas públicas A sociedade brasileira apresenta muitas demandas constantes e crescentes que pressionam o Estado na formulação de Políticas Públi- cas para o atendimento do interesse público. No entanto, os recursos do governo são escassos e limitados, o que compromete a capacida- de do Estado e resulta na oferta de serviços de baixa qualidade. Para garantir a formulação e a execução das Políticas Públi- cas, a Constituição Federal de 1988 estabelece a participação social como forma de melhorar a ação do Estado, bem como define a possibilidade de adotar o princípio da transparência e, posteriormente, a accountability. De maneira complementar, busca-se o apoio social e político do governo para garantir a governabilidade, um pilar essencial para a gestão e governança das Políticas Públicas. Frente às necessidades e limitações apresentadas, destaca-se a emergência da implantação de processos de inovação no setor público. Para isso, faz-se necessário um ambiente de cultura de inovação, de adoção de novas tecnologias e de automação das ta- refas, tornando o processo mais eficiente e otimizando recursos. Por fim, o Estado precisa buscar novas formas, técnicas e instru- mentos para, frente às limitações expostas, criar condições de ven- cer os desafios da Gestão Pública. Gestão das Políticas Públicas 3 3.1 Governabilidade, governança, accountability e transparência Videoaula O advento da Administração Pública Gerencial trouxe ao serviço público novas ferramentas de gestão, utilizadas na iniciativa priva- da, favorecendo novas ideias sobre a atuação do Estado. Entre essas ideias, destacam-se: Gestão das Políticas Públicas 47 Governabilidade: capacidade política do Estado, estabelecendo uma estrutura de apoio para a governança. Governança: capacidade administrativa do Estado em executar as Políticas Públicas. Accountability: refere-se à prestação de contas da Administração Pública para a sociedade. Transparência: envolve compartilhar dados e informações com a sociedade, permitindo a ela avaliar as Políticas Públicas. A seguir, apresentaremos cada uma dessas ideias detalhadamente, destacando sua relevância para a Gestão Pública. 3.1.1 Governabilidade O termo governabilidade surgiu nos anos 1960, passando a ser apli- cado e discutido no âmbito da Gestão Pública em um cenário de amplia- ção de direitos democráticos e cidadania, quando se buscava melhorar a qualidade da relação entre o Estado e a sociedade. O’Connor (1997 apud RIBCZUK; NASCIMENTO, 2015, p. 223) apresenta também a ideia da não governabilidade: a não governabilidade é produto de uma sobrecarga de pro- blemas aos quais o Estado responde com a expansão de seus serviços e da sua intervenção, até o momento em que, inevita- velmente surge uma crise fiscal. Não governabilidade, portanto, é igual a crise fiscal do Estado. A governabilidade trata do apoio político ao governo, fortalecendo o processo de legitimação das Políticas Públicas do Estado. Segundo Pereira (1997, p. 50), governabilidade é a “capacidade política do gover- no de intermediar interesses, garantir legitimidade e governar”. Sobre esse conceito, Paludo (2013, p. 128) apresenta a definição: O governo deve tomar decisões amparadas num processo que inclua a participação dos diversos setores da sociedade, dos poderes constituídos, das instituições públicas e privadas e seg- mentos representativos da sociedade, para garantir que as esco- lhas efetivamente atendam aos anseios da sociedade, e contem com seu apoio na implementação dos programas/projetos e na fiscalização dos serviços públicos. 48 Gestão e avaliação de políticas públicas Assim, compreende-se que a governabilidade depende das condi- ções políticas, da capacidade do Estado e da legitimidade do governo em administrar. Envolve, portanto, as “condições sistêmicas e institucionais sob as quais se dá o exercício do poder, tais como as características do sistema político, a forma de governo, as relações entre os Poderes, o sis- tema de intermediação de interesses” (SANTOS, 1997, p. 342). A governabilidade não trata apenas do apoio dos grupos e partidos políticos organizados, mas também dos cidadãos e da sociedade civil. Nesse contexto, o maior desafio da governabilidade é mediar conflitos, interesses e divergências, buscando uma convergência de objetivos co- muns que facilitem a atuação do Estado e a capacidade de articulação entre os atores que o compõem. 3.1.2 Governança O termo governança surge do inglês governance, em 1992, com as divulgações do Banco Mundial no documento Governance and development 1 , que a definiu governança como a forma pela qual o po- der é exercido na gestão dos recursos econômicos e sociais de um país para o desenvolvimento (KAUFMANN; KRAAY; MASTRUZZI, 2004 apud RIBCZUK; NASCIMENTO, 2015, p. 222). Para facilitar o entendimento a respeito da governança, Grindle (2004 apud RIBCZUK; NASCIMENTO, 2015, p. 223) aponta algumas ca- racterísticas que a compõem: Governança consiste em: distribuição de poder entre instituições de governo; a legitimidade e autoridade dessas instituições; as re- gras e normas que determinam quem detém poder e como são tomadas as decisões sobre o exercício da autoridade; relações de responsabilização entre representantes, cidadãos e agências do Estado; habilidade do governo em fazer políticas, gerir os assun- tos administrativos e fiscais do Estado, e prover bens e serviços; e impacto das instituições e políticas sobre o bem-estar público. O conceito de governança é mais amplo que a ideia de governabilida- de, pois trata da capacidade do governo de executar as Políticas Públicas. Ainda, mesmo que o governo obtenha apoio político e social para suas ações, pode não ter sucesso em seus objetivos pela falta de governança. Nesse sentido, é válida a afirmativa de Pereira (1997, p. 78): “existe gover- nança em um Estado quando seu governo tem as condições financeiras e administrativas para transformar em realidade as decisões que toma”. Em O processo, é retratada a crise política iniciada em2013, que culminou no processo de impeachment da ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff. O docu- mentário exibe as dis- cussões e votações que levaram à destituição da ex-presidente. Esse do- cumentário é importante para compreender como a falta de governabilida- de pode comprometer a governança de um man- datário. Direção: Maria Augusta Ramos. Vitrine Filmes, 2018 (137 min.). Filme Esse documento pode ser acessado em sua versão origi- nal, em inglês, na página do Banco Mundial. Disponível em: https://bit.ly/2PgBQSP. Acesso em: 14 jan. 2020.. 1 Atividade 1 Explique como o aumento da participação dos segmentos sociais melhora a governança pública. Gestão das Políticas Públicas 49 A governança apresenta um caráter instrumental, pois exige o de- senvolvimento de métodos e processos para a execução dos objetivos e das Políticas Públicas, sendo o braço técnico da governabilidade. As- sim, a governança trata da capacidade gerencial, financeira e técnica necessária para a definição e execução das estratégias e dos objetivos definidos no planejamento governamental (PALUDO, 2013). 3.1.3 Accountability A accountability refere-se à obrigação do governo em prestar con- tas e responsabilizar-se pelos atos e resultados do Estado, melhorando a relação com a sociedade devido à possibilidade de conhecimento e participação na formulação e execução das Políticas Públicas. Accountability é um conceito novo na terminologia ligada à re- forma do Estado no Brasil, mas já bastante difundido na lite- ratura internacional, em geral pelos autores de língua inglesa. Não existe uma tradução literal para o português, sendo a mais próxima “a capacidade de prestar contas” ou “uma capacidade de se fazer transparente”. Entretanto, aqui nos importa mais o significado que está ligado, segundo Frederich Mosher, à res- ponsabilidade objetiva ou obrigação de responder por algo ou à transparência nas ações públicas. (ARAÚJO, 2002 apud RIBCZUK; NASCIMENTO, 2015, p. 224) Observa-se, então, que a accountability é um avanço no conceito de transparência, sendo importante não confundir os dois. Accountability é muito mais ampla, complexa e demonstra maior nível de compromisso da Gestão Pública quanto à publicidade dos seus atos, especialmente porque ela estabelece três divisões distintas: 1. Prestação de contas instrumentos que ampliem a transparência do governo na relação com a sociedade. Exemplos: Relatório de Gestão Fiscal e Lei de Responsabilidade Fiscal. 2. Responsabilização dos agentes: 3. Responsividade dos agentes: a utilização dos recursos deve ser de responsabilidade dos agentes. Exemplo: Lei de Improbidade Administrativa. refere-se à capacidade de o Estado responder às questões apresentadas pela sociedade. A responsividade de um governo é proporcional à sua capacidade de atender às necessidades da população. O vídeo Governança, gover- nabilidade e accountability, publicado pelo canal Professora Elisabete Moreira, apresenta um resumo desses conceitos e a relação entre eles. Disponível em: https://youtu. be/gecft4Kdwsc. Acesso em: 14 jan. 2020. Vídeo 50 Gestão e avaliação de políticas públicas Accountability pode ser classificada em um modelo horizontal, no qual não há hierarquia estabelecida devido a um processo de fiscaliza- ção e controle mútuo entre os Poderes. São exemplos: a atuação dos Tribunais de Contas e do Ministério Público e a auditoria da Controla- doria-Geral da União. Ainda, a accountability pode ser classificada em um modelo vertical, que envolve o controle direto da sociedade sobre o governo. Nesse caso, trata-se de uma relação desigual entre as partes, uma vez que a sociedade pode exercer seu voto em eleições democráticas e afastar os gestores que não cumprirem suas obrigações. O termo accountability refere-se ao conjunto de mecanismos e procedimentos que levam os tomadores de decisões governamentais a prestarem contas dos resultados de suas ações, garantindo-se maior transparência e exposição das Políticas Públicas. Quanto maior for a possibilidade de os cidadãos discernirem se os governantes estão agin- do em função do interesse da coletividade e de sancioná-los apropriadamente, mais accountable será o governo. (MATIAS-PEREIRA, 2014) Considerando a afirmativa de Matias-Pereira, descreva a relação entre a accountability e a governabilidade. Atividade 2 3.1.4 Transparência A Constituição Federal (BRASIL, 1988), construída sob a ótica do mo- delo burocrático de Gestão Pública, traz em seu artigo 37 o concei- to de transparência ao tratar do princípio da publicidade. Contudo, a transparência vai além da ideia de publicidade, tornando públicos atos normativos e legislações nos veículos oficiais. A ideia é compartilhar dados e informações com a sociedade, permitindo a ela avaliar direta- mente as Políticas Públicas. No Brasil, a prática da transparência pública é estabelecida por uma estrutura normativa, entre as quais podemos destacar: • Lei Complementar n. 101, de 4 de maio de 2000: denominada Lei de Responsabilidade Fiscal. • Lei n. 12.527, de 18 de novembro de 2011: denominada Lei de Acesso à Informação. As políticas de transparência são estabelecidas pela Controladoria- -Geral da União e são fiscalizadas pelos Tribunais de Contas. Para o exercício da transparência foram estabelecidos os Portais da Transpa- rência, a fim de tornar públicas as informações sobre a aplicação dos recursos orçamentários, bem como as ações dos governos. A Escala Brasil Transparente (EBT) é um indicador feito pela Controladoria-Geral da União (CGU) para medir a transparência pública nos estados e municípios do país. Em relação aos estados, os indicadores apresentaram resultados interessantes em 2019, em comparação com os anos anteriores. Recomenda-se conferir em: https://relatorios.cgu.gov.br/Vi- sualizador.aspx?id_relatorio=22. Acesso em: 15 jan. 2020. Saiba mais+ Os Portais da Transparência são sites de livre acesso. Eles possibilitam que os cidadãos acompanhem as informações sobre utilização e destinação dos recursos financeiros do orçamento público; são uma importante ferramenta de con- trole social em todos os níveis (federal, estadual e municipal). Página oficial: http://www. portaltransparencia.gov.br/. Acesso em: 14 jan. 2020. Saiba mais+ Atividade 3 Explique a importância dos indicadores de transparência para a participação social e para os governos. Gestão das Políticas Públicas 51 3.2 Arranjos institucionais e gestão das Políticas Públicas Videoaula O estudo da Gestão Pública demonstra a necessidade de estabe- lecer novas práticas como forma de criar soluções para a organização e de criar técnicas empresariais aplicadas ao Estado. Esse modelo de gestão busca romper com antigos paradigmas, estabelecendo as “boas práticas” que podem ser seguidas pelos governos. O novo cenário permite experimentar técnicas e processos, atualizar boas práticas e promover uma maior participação dos atores sociais (ANDREWS; PRITCHETT; WOOLCOCK, 2012). É nesse contexto que surge a emergência dos arranjos institucionais no Brasil. Segundo Lotta e Favareto (2013), o processo de inovações na Gestão Pública, a partir de 2000, é organizado em três grandes eixos de mudança. São eles: Relações federativas: melhorar a interação e o desenho das Políticas Públicas entre os entes federados. Intersetorialidade: integrar diferentes setores para atender a demandas específicas. Inclusão: na formulação de Políticas Públicas, incluir novos atores da sociedade civil e de organizações não governamentais. Esses eixos de mudança se configuram como arranjos institucio- nais, isto é, um conjunto de normas que coordena a cooperação en- tre os diversos entes da federação e os atores sociais (DAVIS; NORTH, 1971). Arranjos também podem ser definidos enquanto um conjunto específico de atores trabalhando em temas específicos (FIANI, 2011). Outros autores adotam o termo estrutura de governançapara esses arranjos institucionais. Williamson (1986, p. 105), por exemplo, entende essa estrutura como “a matriz institucional dentro da qual as transa- ções são negociadas e executadas”, assumindo que os arranjos institu- cionais são organizados pelos parâmetros do meio institucional. Ainda 52 Gestão e avaliação de políticas públicas segundo o autor, esses arranjos se propõem a “tratar o ambiente insti- tucional como um conjunto de parâmetros, cujas mudanças produzem mudanças nos custos comparativos de governança” (WILLIAMSON, 1991, p. 287). Nota-se, então, que os arranjos institucionais podem ser compreen- didos como um conjunto de normas específicas estabelecidas pelo Estado nas suas relações sociais com os demais conjuntos de atores (LOTTA; VAZ, 2014, p. 173-174). São esses arranjos, portanto, que defi- nem a forma de coordenação de processos em temáticas específicas, “delimitando quem está habilitado a participar de um determinado processo, o objeto e os objetivos desse e as formas de relação entre os atores” (PIRES; GOMIDE, 2014 apud LOTTA; VAZ, 2014, p. 174). O desenho dos arranjos permite identificar os atores envolvidos, os processos decisórios e os graus de autonomia. A Figura 1 demonstra o modelo analítico, associando os resultados da política implementada às capacidades estatais geradas pelos arranjos institucionais. Figura 1 Modelo analítico de arranjos institucionais Identificação dos objetivos da política Mapeamento do arranjo institucional Avaliação da capacidade técnico-administrativa Avaliação da capacidade político-relacional Observação dos resultados • Produtos • Inovação Fonte: Adaptada de Pires; Gomide, 2014, p. 21. O modelo apresenta que, após a identificação dos objetivos da po- lítica, é feito o mapeamento do arranjo institucional. É realizada, en- tão, a avaliação da capacidade técnico-administrativa e da capacidade política-relacional para, por fim, observar os resultados em termos de produto e inovação. De acordo com Pires e Gomide (2013), as capacidades políticas e as capacidades técnico-administrativas são essenciais para a análise dos arranjos institucionais. Segundo os autores, as capacidades po- Gestão das Políticas Públicas 53 líticas tratam das habilidades de incluir atores diversos na arena de negociação e construção de um processo decisório para minimizar os conflitos. As capacidades técnico-administrativas têm o papel de promover e coordenar as ações que levam aos resultados esperados (PIRES; GOMIDE, 2013). As análises dos resultados devem mensurar as condições de execu- ção e inovação das Políticas Públicas, entendendo, dessa forma, que a mudança das capacidades altera os resultados. No caso específico das inovações, as características de intersetorialidade, relações federativas e participação são fundamentais para o processo de mensuração da efetividade da inovação no setor público (LOTTA; FAVARETO, 2013). Nesse contexto, para implementar os arranjos institucionais, há uma série de barreiras que inicia com o desconhecimento das características locais e a consequente assimetria de informações entre os atores envolvi- dos. A assimetria de informações gera uma segunda barreira: a dificulda- de de criar normas e regras que atendam a todos os interessados, levando a uma terceira barreira, que são as dificuldades para a participação social. Outras barreiras estão na repartição das competências entre os entes da federação e, por último, na dificuldade de estabelecer um modelo de re- lacionamento entre os governos envolvidos (KERBAUY, 2001). O desenho dos arranjos institucionais tem o objetivo de mudar relações entre entes federativos e construir soluções mais completas para as demandas apresentadas. O processo de formação de arranjos também está migrando de um modelo mais hierarquizado, funcional e setorial para outro mais transversal, intersetorial e participativo, tendo em vista o atingimento dos resultados (GALVÃO; LOTTA; BAUER, 2012 apud LOTTA; VAZ, 2014, p. 179). O setor público de modo geral tem operado dentro de uma cultu- ra que pouco valoriza a negociação; o planejamento; os arranjos institucionais intergovernamentais, intersetoriais e com a socie- dade; o monitoramento e a avaliação das políticas e programas; a flexibilização das regras e instrumentos de gestão; a criação de novos instrumentos de cooperação e de contratualização, res- tringindo-se a convênios; o foco em resultados; o controle social; a gestão do conhecimento e da informação; a transparência; e as políticas de recursos humanos. (GALVÃO; LOTTA; BAUER, 2012 apud LOTTA; VAZ, 2014, p. 180) 54 Gestão e avaliação de políticas públicas Um bom processo de tomada de decisões promove a transparência e a accountability, fortalecendo o diálogo entre o Estado e a sociedade por meio dos arranjos institucionais. A construção coletiva contribui para que a tomada de decisões nas Políticas Públicas seja mais as- sertiva, eficaz e efetiva. A coordenação entre os diversos atores des- taca a importância dos arranjos institucionais (FLYVBJERG; BRUZELIUS; ROTHENGATTER, 2003). 3.3 Inovação na Gestão Pública Videoaula O conceito de inovação começou a ser discutido nos anos 1930, por meio dos trabalhos de Joseph Schumpeter, em estudos sobre a relação entre a inovação tecnológica e o desenvolvimento econômi- co. Para Schumpeter (1939), a inovação trata de novos resultados por meio de novas formas de atuação, novos métodos, processos ou produtos. Ele chamou esse processo de destruição criativa. Nas décadas seguintes, a inovação avançou do campo econômi- co para outras áreas, concentrando-se na área de serviços a partir do século XXI, o que levou a uma série de definições para o conceito (KATTEL et al., 2013). De acordo com o Manual de Oslo, importante referência para a indústria brasileira, a inovação precisa expressar três características essenciais: i) apresentar a novidade respeitando o contexto; ii) apresentar a condição para a ideia ser implementada; e iii) apresentar resultados melhores em termos de eficiência, eficácia e efetividade das Políticas Públicas (OECD, 2005). Com base nessas características, o manual apresenta o seguinte conceito de inovação: A implementação de um produto (bem ou serviço) novo ou signi- ficativamente melhorado, ou um processo, ou um novo método de marketing, ou um novo método organizacional nas práticas de negócios, na organização do local de trabalho ou nas relações externas. (OECD, 2005, p. 55, tradução livre) No setor privado, a inovação é fundamental para a competitividade das empresas. Devido à característica de concorrência que há no setor privado, ocorre a necessidade contínua de inovação. No setor público, por outro lado, a inovação ainda não é uma prática habitual, pois não existe concorrência para fornecimento de grande parte dos serviços públicos – e o Estado, ao contrário da empresa, não deixará de existir. “Parte de uma série de publicações da instituição in- tergovernamental Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento – OCDE, o Manual de Oslo tem o objetivo de orientar e padronizar conceitos, metodologias e construção de estatísticas e indicadores de pesquisa de P&D de países industrializados. [...] Em que pese o fato de se ter como fonte padrões de países desenvolvidos, o Manual de Oslo é bastante abrangente e flexível quanto a suas definições e metodologias de inovação tecnológica e, por isso mesmo, tem sido uma das principais referências para as atividades de inovação na indústria brasileira que se quer cada vez mais com- petitiva” (OCDE, 2005). Curiosidade Gestão das Políticas Públicas 55 Mesmo o Estado não atuando em mercados competitivos, a socie- dade sofre fortes pressões para a oferta de serviços públicos de qua- lidade aos diferentes grupos que nela atuam. Essa pressão social leva à necessidade de transformação, modernização e inovação no setor público. Todavia, observa-se, no cenário brasileiro, que muitosdos ser- viços ofertados, notadamente em educação, saúde, transportes e segu- rança pública, não apresentam a qualidade necessária no atendimento oferecido e no nível de satisfação alcançado. Também se destaca um cenário de uma administração com processos complexos e forte cará- ter burocrático. Existe, além dessas considerações, outro problema que não depen- de diretamente da ação do Estado: a escassez de recursos públicos resultantes do cenário econômico, que impacta na capacidade de ar- recadação do governo e leva à necessária busca de modalidades de fi- nanciamento para Políticas Públicas. Devido às barreiras apresentadas, a inovação se faz muito necessária no setor público, de modo a buscar novas formas de atuação, independentemente das limitações dos re- cursos de pessoal e financeiros disponíveis pelo poder público. Para implantar a inovação, portanto, faz-se necessária uma nova cultura organizacional motivadora e uma nova postura dos agentes públicos, definindo um ambiente inovador. Para entender a importância da inovação no setor público, primeiro é preciso definir o seu conceito de inovação. Spink (2003) define inova- ção como “tornar novo”, “renovar”, “introduzir novidade” ou “fazer algo como não era feito antes”. No setor público, a aplicação do conceito é mais recente, estando ainda em discussão uma definição própria. No serviço público, a inovação é entendida como uma maneira de os paí- ses emergentes buscarem novas formas de atenderem às demandas da sociedade; inicialmente, o conceito tratava especificamente da apli- cação científica e tecnológica (GRAÇAS RUA, 1999). A inovação no serviço público tem sido utilizada como um instru- mento dos governos para desenvolver novas formas de atuar e resol- ver as demandas da sociedade em um cenário de recursos pessoais e orçamentários limitados. Outro fator importante para a adoção das inovações são as mudanças promovidas no cenário externo (político- -legal, econômico, sociocultural, demográfico e tecnológico), que pres- 56 Gestão e avaliação de políticas públicas sionam o Estado a desenvolver novos modelos e práticas. Nos dois cenários analisados, a ideia da inovação no setor público é tornar o Estado sustentável. A cultura da inovação, em um cenário da nova Gestão Pública, deve ser incentivada como forma de desenvolver novas práticas públicas, baseadas em novos procedimentos e no empreendedorismo do setor público. Queiroz e Ckagnazaroff (2010, p. 685) destacam que “a inova- ção no setor público funciona como uma mudança de cunho radical que se justifica por fins estratégico, estrutural, humano, tecnológico, cultural, político e de controle”. Para garantir a sustentabilidade das Políticas Públicas do Estado, o poder público deve criar um ambiente que incentive a inovação, mo- tivando o governo a adotar práticas criativas e inovadoras. Cabe des- tacar que o grande desafio da inovação no setor público não é copiar as práticas privadas, mas maximizar os recursos por meio de práticas inovadoras que tragam benefícios sociais. Assim, a inovação busca me- lhorar o desempenho e a funcionalidade do governo. Há múltiplos caminhos para a adoção da inovação, dependendo da realidade apresentada e da maturidade dos órgãos envolvidos na cons- trução das Políticas Públicas. Outro ponto importante é que as técni- cas e métodos devem ser configurados conforme as características do serviço público, com o cuidado de adaptar as práticas empresariais. A inovação no setor público envolve métodos que busquem a solução de problemas e a melhoria das condições sociais, transformando a reali- dade e investindo recursos de forma a otimizar os resultados. A Administração Pública no Brasil apresenta um processo historica- mente marcado pelos modelos patrimonialista e burocrático, mesmo no cenário de uma nova Gestão Pública. Nesse contexto, é preciso es- tabelecer um cenário de inovação criativo e apresentar condições que facilitem a criatividade e a inovação, tais como: processos gerenciais adequados, responsabilidades bem estabelecidas, controles mais fle- xíveis, livre comunicação e oportunidade para que os agentes públicos participem das decisões. Devido ao fato de o Estado ter seu foco no interesse público, a ino- vação deve sempre estar direcionada para os resultados entregues. Nesse sentido, qualquer política de inovação que não esteja conecta- No documentário Megatendên- cias, publicado pelo canal De- loitte, a UNESCO, com patrocínio da consultoria Deloitte, trata dos desafios enfrentados nas grandes cidades, apresentando a tecnologia e as soluções inovadoras para resolver os problemas urbanos. Disponível em: https://youtu. be/HuquN8DvhgQ. Acesso em: 14 jan.2020. Vídeo Gestão das Políticas Públicas 57 da ao interesse público deve ser evitada. Para o processo acontecer, também devem ser estabelecidas rotinas e criadas mentalidades que permitam a experimentação criativa e inovadora. O grande desafio para a inovação ir além da criação de novos mé- todos e processos envolve a ruptura das culturas existentes no Estado. Esse cenário se torna ainda mais desafiador devido à coexistência dos modelos patrimonialista, burocrático e gerencial, tornando o processo turbulento, inibindo a criatividade dos agentes públicos. Entre as diver- sas barreiras à inovação, pode-se elencar quatro grandes grupos de classificação (ALENCAR, 1995): Barreiras estruturais: nível de seguimento de regras e procedimentos no desempenho dos agentes públicos envolvidos. Barreiras sociais e políticas: influências de poder dentro das organizações. Barreiras processuais: processos e normas que inibem a inovação e a criatividade. Barreiras de recursos: falta de profissionais, de tempo, de recursos orçamentários e informações. Cabe aos gestores públicos o desafio de construir ambientes de inovação que permitam a criatividade e inovação e de romper com as barreiras, impondo melhorias para a prestação dos serviços públicos pelo Estado. 3.4 Desafios para a Gestão Pública no Brasil Videoaula A Gestão Pública no Brasil, devido à presença das características pa- trimonialistas e burocráticas, enfrenta diversos desafios para garantir a qualidade no atendimento e na prestação dos serviços públicos. Al- gumas características ajudam a explicar a complexidade do processo governamental, como as mudanças políticas dos Poderes, na legislação e na própria composição dos governos. Nesse contexto de atuações e limitações, surgem os desafios para a Gestão Pública brasileira, apre- sentados na sequência. 58 Gestão e avaliação de políticas públicas Colocar os interesses públicos acima dos interesses pessoais O Estado, por meio de seus agentes, deve buscar sempre o interesse público. No entanto, o cenário da Administração Pública no Brasil é marcado por ações ilegais e antiéticas nos diferentes níveis hierárquicos do governo, evidenciando os interesses pessoais e gerando casos de escândalo e corrupção no poder. Esse cenário torna difícil a prestação de serviços de qualidade e com eficácia à população, fazendo com que eles sejam ofertados de forma inadequada. Incentivo a uma gestão mais participativa A Constituição Federal de 1988 traz uma importante inovação no tocante à administração ao garantir a participação popular, buscando incluir a sociedade na formulação de Políticas Públicas, fiscalizar a ação do Estado e identificar problemas e necessidades a serem atendidas. Dessa forma, incentiva-se a formação de fóruns, conselhos e outras iniciativas de participação popular. O desafio é agregar os diversos interesses nos espaços de participação social, visto que neles, muitas vezes, não há diversidade, tornando-os espaços de interesses concentrados. Entende-se que a falta de políticas mais eficazes de participação gera um novo processo de concentração. Qualificação dos agentes públicos O serviço público é fortemente marcado pelo princípio da estabilidade 2 , fundamental para a garantia do interessepúblico e para a melhoria dos serviços prestados. No entanto, a garantia da estabilidade não pode ser motivo para que os servidores deixem de se qualificar, pois a qualificação é um instrumento para tornar o serviço público ainda mais efetivo. Outro ponto importante para justificar a qualificação são as mudanças da sociedade, pois, para acompanhá-las, é preciso capacitar-se. Nesse contexto de serviços públicos, o desafio é garantir um processo de seleção de profissionais especialistas realmente preparados para atualizar-se em sua atuação. Os cargos por indicação com base em capacidade, nesse sentido, ainda são um desafio para os governos. A atuação estratégica do Estado O Estado precisa atuar sempre em duas frentes distintas: de um lado, com ações emergenciais e urgentes; de outro, com ações estratégicas a longo prazo. Nesse sentido, a burocracia torna mais difícil a criação de processos eficazes para atender às demandas sociais, uma vez que, historicamente, a formação do Estado brasileiro sempre atuou de forma emergencial, o que dificultou a formação de uma cultura do planejamento. Devido a esse cenário, o planejamento estratégico ainda é pouco utilizado e com ações mais limitadas. Faltam ainda profissionais qualificados, ferramentas e políticas para atender à necessidade estratégica do Estado. O princípio da estabilidade foi instituído pela Lei n. 8.112, de 11 de dezembro de 1990, no seu artigo 21. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/leis/l8112cons.htm. Acesso em: 14 jan. 2020 2 Gestão das Políticas Públicas 59 Incorporação de tecnologia no setor público A tecnologia, embora bastante adaptada à sociedade e à iniciativa privada, não apresenta a mesma aplicação no setor público. Muitas tarefas manuais, portanto, poderiam ser automatizadas, tornando os processos mais eficientes e otimizando os recursos do setor público. A incorporação da tecnologia e a automação dos processos ainda é um desafio para a Gestão Pública, principalmente pela falta de preparo dos servidores para utilizá-la. Outro fator importante é cultural, pois ainda há uma resistência em compreender a tecnologia como um facilitador dos trabalhos. Por fim, é necessário um claro desenho de processos que demonstre a interação entre os agentes públicos e a tecnologia. Melhorar a distribuição dos recursos públicos Um dos maiores desafios do Estado é garantir a distribuição de recursos para todas as camadas da sociedade. O Estado, portanto, precisa estabelecer mecanismos e formas de distribuir os serviços públicos e a infraestrutura para todos os cidadãos. Uma solução apontada é a preservação dos recursos, evitando desperdícios, buscando formas mais sustentáveis de administração. Também é importante adotar políticas de transparência e de acesso à informação, além de processos mais efetivos de gestão, respeitando as características de cada setor. No caso brasileiro, especificamente, mesmo com reduções nos in- vestimentos em Políticas Públicas, a Gestão Pública tem apresentado avanços que sinalizam melhoria e otimização do serviço. Entre eles, po- de-se destacar automação de processos, governo aberto e eletrônico, arranjos e parcerias público-privadas, além de melhores instrumentos de licitação e compras públicas. A implementação de inovações e a adoção de novas tecnologias no serviço público se fazem cada vez mais urgentes em um cenário de questionamento tanto da capacidade quanto da competência do Estado, principalmente com a ocorrência de casos de corrupção, que contribuem para essa perspectiva negativa da Administração Pública. A gestão das Políticas Públicas, no entanto, somente conseguirá ser efetiva quando houver a junção das ações do governo com as ações de natureza político-institucional, como a formação de maioria no Con- gresso, o pacto federativo, a judicialização da política e o controle buro- crático das instituições. Nesse cenário, faz-se necessária a adoção de uma estratégia que con- temple a complexidade do Estado, aprimorando a Gestão Pública como forma de satisfazer o interesse público. No campo institucional, deve-se selecionar os dirigentes de acordo com a capacidade burocrática e a or- ganização do Estado, permitindo a adoção de práticas inovadoras. 60 Gestão e avaliação de políticas públicas O primeiro desafio de caráter institucional é a seleção dos cargos de primeiro e segundo escalão. Uma dificuldade comum é a inclusão, no Poder Legislativo, de nomes ligados à sociedade civil que atendam aos diversos setores da sociedade, e não somente como apoio à go- vernabilidade do mandatário, constituindo uma baixa representativi- dade social. CAMPOS, L. A.; MACHADO, C. A cor dos eleitos: determinantes da sub-repre- sentação política dos não brancos no Brasil. Revista Brasileira de Ciência Políti- ca, Brasília, jan.-abr. 2015, n. 16, p. 121-151. Acesso em: 13 jan. 2020. http://www.scielo.br/pdf/rbcpol/n16/0103-3352-rbcpol-16-00121.pdf VOGEL, L. H. A histórica sub-representação das mulheres na câmara dos deputa- dos: desigualdades e hierarquias sociais nas eleições de 2014. Brasília: Estudo técnico da Câmara dos Deputados, 2019. http://bd.camara.gov.br/bd/bitstream/handle/bdcamara/37401/historica_representacao_voguel.pdf?sequence=1 Artigos Pesquisas sobre representatividade legislativa no Brasil mostram que mulhe- res e negros têm uma sub-representação, não compondo um caráter de diver- sidade. Saiba mais lendo os artigos: Os desafios da Administração Pública são complexos, embora durante os processos eleitorais o tema da Gestão Pública não seja tratado como principal nos debates. O papel coadjuvante da inova- ção na Gestão Pública também pode ser observado no decorrer do mandato dos eleitos. Quando a economia brasileira apresenta baixas taxas de cresci- mento, consequentemente, os recursos orçamentários também são escassos, gerando uma limitação na capacidade de investimento. Nesse contexto, compreende-se que os avanços na Gestão Pública brasileira são frutos de inovações no setor. Assim, em um cenário de instabilidade econômica e orçamentária, a melhor solução é adotar uma estratégia que estabeleça a interação entre a sociedade civil, os agentes públicos e os Poderes do Estado, permitindo a incorporação de práticas inovadoras. Gestão das Políticas Públicas 61 CONSIDERAÇÕES FINAIS A Administração Pública no Brasil é, muitas vezes, vista pela sociedade como ineficiente, lenta e corrupta. Esse fato também se deve pela baixa qualidade dos serviços prestados, por sua lentidão e burocracia, e pela falta de capacitação dos agentes públicos. Nesse contexto, cabe ao Estado mudar tal imagem por meio de inovações e melhores práticas que entre- guem resultados mais eficazes e com maior efetividade. Diante das limitações e restrições da atuação do Estado, a inovação é a forma mais econômica e eficiente de melhorar os serviços públicos e, consequentemente, satisfazer os usuários. Para isso, é preciso considerar que a melhoria do serviço público passa por alguns fatores importantes: o apoio político e social como garantia da governabilidade, a capacidade burocrática como forma de governança e uma boa relação com a socie- dade, estabelecendo arranjos institucionais por meio da transparência e da accountability. A gestão das Políticas Públicas, então, envolve a capacidade e orga- nização do Estado, o recrutamento e a contratação de profissionais ca- pacitados e inovadores, a automatização de processos e a garantia da transparência como incentivo à participação social. Somente com essas condições é que o governo pode, frente às limitações, enfrentar os desa- fios da Administração Pública e criar condições para oferecer melhores serviços públicos. REFERÊNCIAS ALENCAR, E. M. L. S. de. 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Quanto maior a transparência, por sua vez, maior será a condição de verificar o cumprimento dos planos e objetivos do governo, ampliando o apoio a ele e, consequentemente, a sua governabilidade. 3. Os indicadores são importantes para a sociedade acompanhar a aplicação dos recursos e, também, a efetividade das políticas. Para o Estado, os indicadores são importantes tanto para demonstrar à sociedade os resultados de suas políticas quanto para avaliar a execução delas. 64 Gestão e avaliação de políticas públicas A análise das Políticas Públicas estuda a tomada de decisões políticas, os planos e programas de governo, buscando identifi- car e entender os problemas que precisam ser solucionados, as propostas formuladas e a metodologia de implementação. Esse processo é fundamental para compreender a complexidade da Política Pública, envolvendo níveis decisórios e diferentes grupos de atores sociais, visando à alocação correta de recursos para a resolução dos problemas. A análise de Políticas Públicas passa pela compreensão e identi- ficação dos modelos conceituais desse processo. De igual forma, é importante a classificação das tipologias e dimensões das Políticas Públicas, definindo indicadores e instrumentos para avaliar os ce- nários de sua aplicação. A análise de Políticas Públicas permite o aprofundamento das ações, envolvendo conhecimentos e indicadores de diversas áreas, apresentando um caráter multidisciplinar. O objetivo é descrever as continuidades e descontinuidades da ação do Estado, as normas de funcionamento, a aplicação dos recursos e como os atores sociais e as instituições interagem para a formulação das Políticas Públicas. Análise de Políticas Públicas 4 4.1 Modelos de análise de Políticas Públicas Videoaula O estudo das Políticas Públicas envolve inicialmente a compreen- são dos modelos conceituais de análise cujo objetivo é oferecer um método de reflexão sobre as políticas, e não propriamente o estudo delas. Esses modelos de análise buscam identificar as características político-sociais, os esforços direcionados, as explicações propostas e as consequências previstas. Análise de Políticas Públicas 65 Para o estudo da análise conceitual, foram selecionados os seguin- tes modelos a serem apresentados nesta seção: institucional, de pro- cesso, teoria dos grupos,teoria da elite, racional e incremental. Esses modelos foram escolhidos devido ao destaque que recebem na litera- tura especializada, dada a sua contribuição para a identificação de ca- racterísticas que contribuam para reflexão do processo de formulação das Políticas Públicas. Quanto aos modelos contemporâneos de análise de Políticas Públi- cas, que envolvem compreender o comportamento e a interação entre os atores, as instituições e a sociedade, foram selecionados para serem apresentados nesta seção: arenas de poder, poder de veto, a “tragédia dos comuns” e o modelo da “lata de lixo”. 4.1.1 Modelos conceituais A análise de Políticas Públicas inicia com a adoção dos modelos con- ceituais que buscam compreender a realidade e identificar fatores es- tudados para realizar esse processo (DYE, 2009). Serão estudados nesta subseção os modelos conceituais propos- tos por Thomas Dye (2009), em seu artigo “Mapeamento dos modelos de análise de Políticas Públicas”. Esses modelos foram escolhidos de- vido à sua relevância e à contribuição para o entendimento dos fato- res sociais, políticos e econômicos no processo das Políticas Públicas. São eles: Modelo institucional Neste modelo, estuda-se as instituições de governo envolvidas, entendendo que as Políticas Públicas são formuladas e implementadas por essas instituições. As instituições públicas dão às Políticas Públicas as características de legitimidade, universalidade e coerção. Modelo de processo Neste modelo, estuda-se os padrões nos processos político-administrativos utilizados para a identificação de problemas, organização de agenda, formulação, legitimação, implementação e avaliação. 66 Gestão e avaliação de políticas públicas Teoria dos grupos Tem como objetivo a interação entre os grupos, que se unem de maneira formal ou informal para apresentar suas demandas, formando os grupos de interesse. Teoria da elite Esta teoria considera que a sociedade é mal informada em relação às Políticas Públicas, tendo sua opinião sobre as questões políticas moldada pelas elites dominantes. Modelo racional Neste modelo, os governos devem optar por políticas cujos ganhos superem os custos, evitando custos excedentes. As etapas para estabelecer um modelo racional são: i) conhecer as demandas e prioridades da sociedade; ii) conhecer todas as possibilidades de ação; iii) conhecer todos os impactos de cada possibilidade; iv) realizar o cálculo do custo-benefício; e v) selecionar a proposta política mais efetiva. Segundo Ferreira (2011), existem algumas barreiras na implementação deste modelo: a) dificuldade de se traçar benefícios comuns à sociedade; b) os formuladores de políticas são incentivados a tomar decisões para otimizar seus benefícios; e c) dificuldades para a coleta de todos os dados necessários. Modelo incremental Neste modelo conservador, entende-se que existe uma continuidade de Políticas Públicas de governos anteriores, com alterações incrementais. Ferreira (2011) explica que este modelo ocorre quando: a) há falta de tempo, dados ou recursos para considerar as alternativas; b) aceita-se a legitimidade de governos anteriores; e c) busca-se a redução de conflitos entre os atores envolvidos. É importante o estudo dos modelos conceituais para compreender e, principalmente, refletir sobre as Políticas Públicas adotadas. Por isso, antes de analisá-las, é necessário definir qual ótica deve ser adotada nesse processo. 4.1.2 Modelos contemporâneos de análise Tais modelos de análise de Políticas Públicas buscam compreender o papel das instituições e o comportamento racional dos agentes no resultado e na efetividade das Políticas Públicas. Os modelos permitem Análise de Políticas Públicas 67 estabelecer a análise do comportamento e da interação entre atores, instituições e sociedade. 4.1.2.1 Arenas de poder Este modelo, desenvolvido por Lowi (2009), apresenta que as Polí- ticas Públicas devem ser analisadas a partir do estudo das formas de aplicação do poder pelo Estado. A característica que define o poder do Estado, segundo o autor, é a coerção para influenciar os comportamen- tos e formular as Políticas Públicas. Para o estudo desse modelo, o autor desenvolveu um modelo com quatro tipos de políticas, classificadas, no Quadro 1, conforme a forma de uso da coerção para distribuir recursos, de tomar decisões e de re- gular o comportamento individual e/ou coletivo. Quadro 1 Tipologias de políticas Tipologia Benefícios Custos Conflitos Políticas distributivas Concentrados Difusos Baixos Políticas regulatórias Dispersos Concentrados Altos Políticas redistributivas Concentrados Concentrados Altos Políticas constitutivas Difusos Difusos Baixos Fonte: Lowi, 2009. Essa tipologia permite a observação dos atores, dos estilos e das arenas utilizadas no processo de negociação, formulação e implemen- tação das Políticas Públicas. Observe, a seguir, as descrições das tipolo- gias apresentadas no Quadro 1. Políticas distributivas Referem-se à distribuição de novos recursos baseados na alocação dos bens e serviços com benefícios concentrados, custos difusos, decisões desagregadas e baixo nível de conflitos. Políticas regulatórias Tratam da imposição das condições de comportamento ou coerções individuais e coletivas, de aplicação imediata e com sanções variadas, com benefícios dispersos, custos concentrados e conflitos intensos entre os atores. (Continua) 68 Gestão e avaliação de políticas públicas Políticas redistributivas Envolvem a redistribuição dos recursos entre grupos, apresentando vantagens para alguns deles, com custos e benefícios concentrados, altos conflitos e polarização entre grupos. Políticas constitutivas Referem-se à mudança de estrutura de poder a partir da distribuição do poder de decisão. Apresentam custos e benefícios difusos, com baixo nível de conflitos. 4.1.2.2 Poder de veto O modelo poder de veto (veto-players), segundo Tsebelis (2009), analisa como as estruturas podem impactar decisões políticas em dife- rentes países. Nesse contexto, cabe a comparação entre as formas de governo, as burocracias e os sistemas legais, buscando compreender o papel dos atores com poder de veto. A configuração desse modelo de- pende dos perfis ideológicos dos atores envolvidos, constituídos legal ou politicamente. No modelo parlamentarista, a estabilidade das decisões pode levar à instabilidade dos governos, culminando em sua renúncia ou substi- tuição. No modelo presidencialista, a estabilidade das decisões tam- bém provoca instabilidade, podendo levar à substituição ou deposição do presidente. Essa estabilidade decisória gera maior independência dos burocratas e do sistema Judiciário quando comparada ao sistema político, reduzindo a importância da agenda pública. 4.1.2.3 A “tragédia dos comuns” O modelo da “tragédia dos comuns” foi abordado inicialmente por Hardin (1968) e depois reformulado por Ostrom (1999). Hardin admi- tia a existência de problemas na sociedade que, mesmo com avanços tecnológicos, não possuem uma solução técnica. Para esses casos, Análise de Políticas Públicas 69 destaca-se a importância da criação de uma consciência moral cole- tiva que estabeleceria novas modalidades de contratos sociais. As- sim, justifica-se a imposição de Políticas Públicas verticais, no modelo top down 1 , organizadas pelos governos centrais. Se não houver a de- finição dessa nova consciência coletiva, portanto, as ações individuais não terão condições de produzir bons resultados. Ostrom (1999), por sua vez, em relação à “tragédia dos comuns”, questionou o modelo vertical centralizado nos governos com Políticas Públicas baseadas em regras gerais. Desse modo, Ostrom defendeu a ideia de que grupos locais podem formar arranjos institucionais bus- cando soluções para esses problemas comuns. 4.1.2.4 Modelo da “lata de lixo” (garbage can model) Em 1972, Cohen, March e Olsen desenvolveram o modelo de “lata de lixo”, definindo que as decisões ocorrem deforma desordenada, não sendo um processo linear. Dessa maneira, nesse modelo, pro- blemas e soluções são fragmentados. Trata-se um modelo que ocor- re em ambientes incertos, portanto, com preferências duvidosas e decisões espalhadas. Compreende-se, dessa forma, que os modelos de análise são impor- tantes para compreender a formulação e implementação das Políticas Públicas. Os modelos permitem o entendimento do papel e do compor- tamento dos atores, buscando padrões e regularidades na formulação e execução das políticas. A partir dessa compreensão, facilita-se a clas- sificação da natureza e da dinâmica das Políticas Públicas. O modelo top down defende a ideia de que as decisões são tomadas por um governo central, que as impõe sobre a sociedade. 1 4.2 Natureza e dinâmica das Políticas Públicas Videoaula O estudo da natureza das Políticas Públicas envolve a compreensão de que elas são diversas e distintas entre si, apresentando variadas ti- pologias. Estas permitem a classificação das Políticas Públicas por meio de critérios observáveis e comuns. Para iniciar a classificação, Wilson (1973) definiu uma tipologia ten- do como base os benefícios distribuídos. 70 Gestão e avaliação de políticas públicas Políticas clientelistas: apresentam benefícios concentrados e custos dispersos, fazendo com que o benefício de alguns sejam custeados por toda a sociedade. Exemplo: subsídios e renúncias fiscais. Políticas majoritárias: ocorrem quando custos e benefícios são distribuídos para toda a sociedade. Exemplo: serviços públicos de saúde e educação. Políticas empreendedoras: referem-se aos benefícios que são coletivos e os custos restritos a categorias específicas. Exemplo: política ambiental. Políticas de grupos de interesses: ocorrem quando custos e benefícios ficam concentrados em determinados grupos, de modo que alguns arcam com os custos enquanto os benefícios são direcionados a outros custos. Exemplo: reforma previdenciária. Gormley (1986), por sua vez, estabeleceu uma classificação para as políticas regulatórias, consideradas devido à complexidade e ao nível de conflitos existentes. Segundo o autor, os problemas se distinguem pela complexidade técnica e o nível de conflito dos atores na formula- ção das Políticas Públicas, identificando os seguintes padrões de políti- cas regulatórias: Quadro 2 Tipos de padrões de políticas regulatórias Tipologia Complexidade Conhecimento técnico Grau de visibilidade Exemplos Políticas de sala operatória Elevada Profundo Alto Medicamentos transgênicos Políticas de audiência Baixa Baixo Alto Políticas de cotas raciais Políticas de sala de reuniões Elevada Elevado Baixo Políticas energéticas Políticas de baixo escalão Reduzida Baixo Baixo Rotinas adminis- trativas Fonte: Gormley, 1986. Se os analistas de Políticas Públicas conseguirem identificar os pa- drões de políticas regulatórias de forma correta, é possível prever o Análise de Políticas Públicas 71 comportamento dos políticos, burocratas, cidadãos e meios de comu- nicação, assim como os processos decisórios e suas consequências. Gunnel Gustafsson (1983) estuda a dimensão das Políticas Públicas a partir dos seguintes critérios de tipificação: i) a intenção dos gover- nantes em executar a implementação dessas políticas; e ii) os conheci- mentos disponíveis para formulação e implementação dessas políticas. A partir desses critérios, Gustafsson (1983) estabelece diferenças entre a intenção dos responsáveis pelas decisões e o conhecimento disponível voltado à formulação e implementação das Políticas Públi- cas. Assim, ao definir alternativas para a solução de problemas públi- cos, quem toma as decisões passa a constituir Políticas Públicas ideais. Ao não demonstrar interesse em determinadas políticas, no entanto, quem toma as decisões cria as chamadas Políticas Públicas simbólicas. O autor apresenta as seguintes tipologias: • Políticas reais: ocorrem quando os governantes possuem a in- tenção e o conhecimento para implantação das políticas. Nesse caso, os recursos são alocados e as estratégias selecionadas para resolver os problemas políticos da agenda pública. • Políticas simbólicas: quando os governantes não têm intenção de implementar, mesmo com o conhecimento necessário para implementação. As políticas são formuladas como forma de res- ponder às demandas, mas não há compromisso de execução dos governantes. • Pseudopolíticas: ocorrem quando os governos têm interesse, mas não possuem conhecimento necessário para a implemen- tação das Políticas Públicas. Neste cenário, ocorre a contratação de especialistas para preencher a ausência de conhecimento especializado. • Políticas sem sentido: ocorrem quando os governos não têm interesse nem conhecimento necessário para a implementação das Políticas Públicas. Nesse caso, usam-se essas políticas apenas como discurso, sem compromisso real de execução. As Políticas Públicas podem, ainda, ser classificadas quanto à na- tureza ou ao grau de intervenção, divididas entre políticas estruturais ou conjunturais, segundo Gustafsson (1983). As políticas estruturais interferem em relações que alteram a realidade a longo prazo, como as políticas de desenvolvimento econômico, industriais, entre outras. 72 Gestão e avaliação de políticas públicas As políticas conjunturais atuam para resolver situações emergen- ciais e/ou temporárias, mudando a realidade a curto prazo. Teixeira (2002) também estabelece uma tipologia, considerando a abrangência de benefícios possíveis. • Políticas universais: destinadas a toda a sociedade. Exemplo: política de educação pública. • Políticas segmentais: destinadas a recortes específicos da socie- dade. Exemplo: Estatuto da Criança e do Adolescente. • Políticas fragmentadas: destinadas a grupos específicos dentro dos recortes da sociedade. Exemplo: Programa Bolsa Família. A compreensão das políticas universais, segmentais e fragmentadas é importante para definir a dimensão da política, o público envolvido e o nível de participação social dos formuladores da Política Pública. Políticas universais envolvem um número maior de atores; políticas segmentais apresentam atores mais especializados; e políticas frag- mentadas denotam menor quantidade de atores. 4.2.1 A dinâmica e as dimensões das Políticas Públicas As Políticas Públicas apresentam um ciclo formado, geralmente, por três etapas distintas: formulação, implementação e avaliação (SARAVIA; FERRAREZI, 2006). Outros autores, como Heidemann (2009), apontam quatro etapas: i) processo de decisão, identificando o problema e in- cluindo na agenda; ii) elaboração com construção das possibilidades de atuação; iii) implementação dos planos, programas e projetos para atender às demandas da sociedade; e iv) avaliação, na busca de efetivi- dade dos resultados das políticas implementadas. Esse ciclo trata de um processo dinâmico que remete a uma ideia de aprendizado de práticas de gestão e construção de políticas, possi- bilitando a atuação em um ambiente complexo e mutável. Para efetivar e estruturar as políticas é importante compreender as diversas dimen- sões das Políticas Públicas, apresentadas no Quadro 3. O livro Análise de políti- cas públicas: diagnóstico de problemas, recomen- dação de soluções é um manual de procedimen- tos para formulação das Políticas Públicas, orientando a realização do diagnóstico, identi- ficação de problemas, estabelecimento de alternativas e recomen- dações para Políticas Públicas viáveis. SECCHI, L. São Paulo: Cengage Learning, 2016. Livro Análise de Políticas Públicas 73 Quadro 3 Dimensões da Política Pública: polity, politics e policy Policy Refere-se aos conteúdos concretos traduzidos nos programas, projetos, leis, normas etc., considerados os resultados dos processos políticos. Polity Refere-se ao arcabouço institucional, às instituições políticas. É a dimen-são espacial, onde as Políticas Públicas acontecem. PoliticsRefere-se aos processos políticos, aos poderes em jogo. Insere-se na composição de forças dos atores que desempenham papéis na arena política Fonte: Adaptado de Frey, 2000, p. 216. Essas dimensões acabam, em muitos momentos, se entrecruzando. Segundo Frey (2000, p. 217), “não são variáveis independentes, estan- do presentes em todo o ciclo, onde as várias fases correspondem a uma sequência de elementos do processo, das instituições, das cons- telações de poder, das redes políticas, ou seja, de todas as dimensões”. Para realizar a análise das políticas, Secchi (2016) considera cinco dimensões distintas: Dimensão temporal referente a cada parte do ciclo das Políticas Públicas. Dimensão “quem faz” define os atores envolvidos. Dimensão espacial define as instituições envolvidas. Dimensão “como” define as características do processo de tomada de decisão. Dimensão de conteúdo trata do que são e como se desenham as políticas. 74 Gestão e avaliação de políticas públicas Essas dimensões são importantes para a análise das Políticas Pú- blicas, pois, após a decisão da política a ser adotada, deve ocorrer o monitoramento do nível de execução do planejamento. Desse modo, a execução precisa ser controlada entendendo suas múltiplas dimensões e compreendendo os erros e acertos do planejamento, os parâmetros e resultados, indicadores de eficiência, eficácia e efetividade. 4.3 Instrumentos de Políticas Públicas Videoaula A formulação das Políticas Públicas envolve como o Estado deve executar suas ações e, para isso, os instrumentos são os mecanismos utilizados para implementação dessas políticas, isto é, compreendem os meios que o Estado utiliza para atender às demandas públicas (OLLAIK; MEDEIROS, 2011). Embora não haja poucos instrumentos de Políticas Públicas, individualmente cada ferramenta possui uma dinâ- mica e natureza própria (WU et al., 2014). A aplicação das Políticas Públicas tem por característica ser imper- feita, havendo a necessidade de condições prévias para a execução e aplicação correta. É preciso levar em consideração quatro lentes com perspectivas distintas (OLLAIK; MEDEIROS, 2011), conforme a Figura 1. Lentes das relações humanas Indivíduo e suas relações interpessoais. Lente política O grupo e a relação intergrupos: poder, influência, negociações, jogos. Lente estrutural A organização. Lente sistêmica Interorganizações, coordenação, controle e comunicação. Figura 1 Lentes para análise das Políticas Públicas Fonte: Ollaik; Medeiros, 2011, p. 1948. A partir das perspectivas dessas lentes, modifica-se a combinação entre coordenação e controle, dependendo dos instrumentos selecio- nados e utilizados. Os instrumentos de Políticas Públicas são “um conjunto de técni- cas pelas quais as autoridades governamentais exercem o seu po- Análise de Políticas Públicas 75 der na tentativa de garantir apoio e resultado em mudanças sociais” (HOWLETT; MUKHERJEE, 2017, p. 8). Pode-se, então, compreender que esses instrumentos têm a finalidade de alterar a realidade social a par- tir da mudança de comportamento dos atores sociais. Os instrumentos formam um conjunto de processos internos cujo objetivo é mudar duas dimensões: o comportamento da Administra- ção Pública e do sistema político. Schneider e Ingram (1997, p. 93) definem essas duas dimensões como “elementos no desenho de uma Política Pública que fazem com que agentes públicos ou o público-al- vo façam algo que não fariam de outra forma, com a intenção de mo- dificar comportamento para resolver problemas públicos ou alcançar objetivos de políticas”. Salamon (2011, p. 1641-1642), por sua vez, destaca: “uma ferra- menta, ou instrumento, de ação pública pode ser definido como um método identificável através do qual a ação coletiva é estruturada para resolver um problema público”. Nessa ótica, instrumentos es- tabelecem padrões de conduta entre os atores sociais e o poder pú- blico, distinguindo-se do conceito de programas, pois esses podem envolver diversas ferramentas, conforme o campo de atuação. As po- líticas, por sua vez, envolvem um conjunto de programas que estabe- lecem ferramentas diversas. É importante destacar a interação entre políticas, programas e ferramentas/instrumentos no atendimento das demandas da so- ciedade. Em um primeiro momento ocorre a definição da política, ligada a uma temática específica, para, em seguida, ocorrer a defi- nição de um programa que permita desenvolver a política específi- ca e, por fim, definir os instrumentos para atender aos programas desenhados. Vale considerar como exemplo o problema de analfabetismo em suas múltiplas dimensões. Identificada a necessidade, define-se a Po- lítica Pública de educação para a temática e, a partir disso, constrói-se um programa nacional de alfabetização definindo instrumentos e fer- ramentas para a atuação. As Políticas Públicas desenhadas e formuladas são desdobradas em planos, programas, ações e atividades. 76 Gestão e avaliação de políticas públicas 1. Planos Definem diretrizes, prioridades e objetivos gerais alcançados a longo prazo. 2. Programas Determinam objetivos específicos de curto prazo, focados em temáticas específicas. 4. Atividades Buscam concretizar as ações desenhadas no nível operacional. 3. Ações Buscam atingir determinado objetivo estabelecido pelos programas. De uma forma articulada, os desdobramentos das Políticas Públicas apresentam inter-relações que envolvem desde as etapas do planeja- mento até sua execução. Nesse período, primeiro, define-se um plano geral que envolve objetivos de longo prazo, o qual é organizado em programas de curto prazo. Com a temática específica definida por meio de programas, atinge-se os objetivos com ações que, por sua vez, se operacionalizam em atividades. 4.3.1 Classificação dos instrumentos de Políticas Públicas A experiência de classificar os instrumentos de Políticas Públicas ini- ciou nos anos 1950, buscando compreender a administração dos recur- sos públicos. No entanto, foi somente nos anos 1980 que se iniciaram os estudos da classificação dos recursos do Estado para estabelecer os instrumentos das Políticas Públicas. Nesse contexto, Cristopher Hood (1986) propôs quatro características distintas: Análise de Políticas Públicas 77 Nodalidade Trata da posição de destaque central do Estado no sistema político e social, a partir da concentração de um conjunto de informações sobre as demandas. Assim, o Estado passa a ter informações importantes que organizem a realidade e orientem a alocação dos recursos públicos. Tesouro Trata da disponibilidade de recursos orçamentários de posse do Estado. Desse modo, organiza-se a capacidade de arrecadação e distribuição dos recursos orçamentários. Autoridade Trata dos poderes e do ordenamento jurídico na estrutura do Estado. Os instrumentos com base na autoridade se organizam em três ferramentas: regulação; regulação delegada e comitês consultivos (HOWLETT; RAMESH, 2003). Organização Trata da estrutura institucional que organiza a administração do poder público. O Estado mobiliza a estrutura burocrática para a execução das Políticas Públicas. Após a definição da tipologia proposta por Hood, outras formas de categorização foram desenhadas, apresentando ideias diferentes sobre a utilização dos instrumentos para resolver as demandas públi- cas. Salamon e Lund (1989) apresentam quatro fatores para segmen- tar as ferramentas: o primeiro está ligado à atividade relacionada; o segundo à natureza da entrega dos serviços públicos; o terceiro à cen- tralização da gestão das Políticas Públicas; por fim, o último fator trata das ações administrativas demandadas. Atividade 1 Sobre a classificação dos instrumentos de políticas pú- blicas, Hood (1986) estabelece quatro características distintas: nodalidade, autoridade, tesouro e organização. Todas essas características colocam o Estado em uma posição central. Sendo assim,como o papel do Estado se relaciona com elas? 78 Gestão e avaliação de políticas públicas Essa classificação abrange um conjunto de características próprias, mas que envolve níveis distintos de governo, descentralizando a atua- ção do Estado. Portanto, embora os instrumentos possam ser analisa- dos de forma individual conforme cada nível governamental, no campo da execução, a construção de políticas ocorre a partir de um conjunto selecionado de instrumentos. Os instrumentos impactam a forma como o governo trata os atores sociais e a sociedade, “de forma coercitiva ou não, como ‘espertos ou estúpidos’, como clientes que merecem bons serviços ou como ‘me- ros objetos a serem manipulados para os propósitos dos governos’” (SCHNEIDER; INGRAM, 1997, p. 93). A importância dos instrumentos para a Política Pública é assinalada pelos autores, que os classificam em cinco tipos diferentes: autoridade; incentivos e sanções; construção de capacidades; exortatórios e de aprendizado. Instrumentos baseados na autoridade tratam da legitimidade legal dos atores e poderes envolvidos. Os de incentivos e sanções tratam da compreensão de que o comportamento dos agentes se baseia em ganhos e perdas. Instrumentos com base na construção de capacida- des tratam da melhoria do serviço público, por meio de treinamentos e capacitações. Exortatórios incentivam determinados comportamen- tos por meio da comunicação do Estado. Por fim, instrumentos basea- dos no aprendizado encorajam as pessoas a resolverem problemas em situações incertas. Para a população, as ferramentas emitem sinais claros sobre que tipo de pessoas elas são, se merecem os benefícios ou encargos que foram destinados, e quais são suas capacidades. [...] Para as agências, os tipos de instrumentos empregados para garan- tir o cumprimento pelas agências de nível hierárquico inferior e trabalhadores também emitem mensagens sobre o valor e a ca- pacidade da agência como um todo, sua clientela, ou sobre os tra- balhadores como um grupo. (SCHNEIDER; INGRAM, 1997, p. 97) Para Schneider e Ingram (1997), os instrumentos de Política Pú- blica vão além das ações do Estado, refletindo um conjunto de expe- riências observadas pela sociedade em relação a cada Política Pública implementada, definindo os níveis de relacionamento no governo. Análise de Políticas Públicas 79 4.4 Indicadores de Políticas Públicas Videoaula Atividade 2 A utilização dos indicadores é fundamental para a efetividade das Políticas Públicas, tanto para a identificação dos problemas quanto para a avaliação das políticas implementadas. Nesse contexto, por que os indicadores são importantes na identificação e na avaliação das Políticas Públicas? A Figura 2 destaca, resumidamente, as principais razões para utili- zar os indicadores de Políticas Públicas. Figura 2 Objetivos dos indicadores de Políticas Públicas Realidade Retratação RepresentaçãoMensuração Fonte: Elaborada pelo autor. Pode-se destacar que os indicadores têm relação direta com a com- preensão da realidade, seja a existente ou a construída após a inter- venção do Estado. A utilização de indicadores para medir a realidade social teve início na década de 1920, com a produção de um relatório intitulado Tendên- cias sociais recentes, elaborado pelo Comitê Presidencial do Governo dos Estados Unidos. No entanto, esse primeiro relatório trazia somen- te indicadores econômicos como forma de apresentar a realidade. Percebendo que os indicadores econômicos não eram suficientes para demonstrar a realidade, nos anos 1960, nos Estados Unidos, começou- -se a ampliar o uso de indicadores para além dos econômicos. E assim, exequível: executável, que se pode ou deve executar. Glossário No campo das Políticas Públicas, os indicadores têm um papel muito importante, pois possibilitam: identificar e mensurar os problemas e os resultados de fenômenos e atuações do estado; interpretar e medir a realidade de uma sociedade ou a ação do governo, tornando exequível a política pública; desenhar um quadro aproximado de uma determinada realidade social experienciada. 80 Gestão e avaliação de políticas públicas no ano de 1966, surgiu a expressão indicadores sociais para avaliar as mudanças socioeconômicas. Na década seguinte, os organismos inter- nacionais contribuíram para a construção e divulgação de indicadores socioeconômicos (RUA, 2004). No Brasil, também nesse período, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) iniciou os primeiros modelos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), apresentando uma evolução dos indicadores, conforme demonstrado na Figura 3. Figura 3 Contextualização histórica dos indicadores sociais no Brasil Levantamento e inquéritos educacionais (atual Censo Escolar da Educação Básica e do Ensino Superior) 1959 Cadastro Geral de Empregados e Desempregados – Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) 1965 Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD)1967 Sistema de Informações sobre Mortalidade – Ministério da Saúde1975 Sistema Nacional de Índices de Preço ao Consumidor (INPC/IPCA)1979 Pesquisa Mensal de Emprego – IBGE1980 Relatório Anual de Informações Sociais – MTE1976 Fonte: Elaborada pelo autor. Análise de Políticas Públicas 81 Indicador social é um instrumento de mensuração para quantificar determinado contexto de interesse teórico (para os pesquisadores) ou programático (para a formulação e implementação de Políticas Públi- cas). Os indicadores contemplam o aspecto metodológico para dese- nhar uma determinada realidade ou então identificar as mudanças propostas nas Políticas Públicas. São, portanto, instrumentos para ope- racionalizar e monitorar a realidade, orientando a formulação e refor- mulação das Políticas Públicas (CARLEY, 1985). A Figura 4 apresenta os indicadores sobre pobreza no Brasil, ma- peando especificamente a população abaixo da linha da pobreza por Unidade da Federação, permitindo identificar a realidade da situação. Figura 4 Proporção de pessoas abaixo da linha da pobreza por Unidade da Federação – 2017 Menor que 15% De 15 a 30% De 30 a 45% Maior que 45% Fonte: Adaptada de IBGE, 2018. O livro Políticas públicas e indicadores para o desen- volvimento sustentável trata do uso de índices e indicadores para formular e avaliar Políticas Públi- cas. Embora seja voltada para a questão ambiental, essa obra mostra como os indicadores devem ser usados para identificar os problemas e a realidade da política. SILVA, C. L. da; SOUZA-LIMA, J. E. de. São Paulo: Saraiva, 2010. Livro 82 Gestão e avaliação de políticas públicas A figura mostra o mapeamento e a identificação do cenário de uma realidade social que possibilita a formulação das Políticas Públicas, bus- cando atenuar ou solucionar o problema. 4.4.1 Propriedade dos indicadores Os indicadores das Políticas Públicas devem apresentar determina- das características, destacadas no Quadro 4. Quadro 4 Características dos indicadores de Políticas Públicas Validade Capacidade de representação da realidade que se deseja alte- rar. O indicador deve ser significante e representar a realidade ao longo do tempo. Confiabilidade Indicadores devem ser originados em fontes confiáveis, com métodos reconhecidos, além de coleta, tratamento e divulga- ção transparentes. Simplicidade A obtenção, coleta, construção, manutenção, comunicação e entendimento dos dados devem ser feitos de forma simples, tanto para público interno quanto externo. Observe o gráfico a seguir, sobre a evolução da taxa de mortalidade fetal no Brasil: Gráfico 1 Taxa de mortalidade fetal no Brasil e regiões, entre 1996 e 2015 Região Norte 14 12 10 8 6 4 2 19 96 19 97 Ta xa d e m or ta lid ad e fe ta l 19 98 19 99 20 00 20 01 20 02 20 03 20 04 20 05 20 06 20 07 20 08 20 09 20 10 20 11 20 12 20 13 20 14 20 15 0 Região Nordeste Região Sudeste Região Sul Região Centro-Oeste Brasil Fonte: Adaptado de Barros; Aquino; Souza, 2019. Expliquepor que esses indicadores são importantes para a avaliação das Políticas Públicas. Atividade 3 (Continua) Análise de Políticas Públicas 83 Representatividade Indicadores devem ter ampla cobertura territorial e populacio- nal dos envolvidos na temática. Desagregabilidade Os dados devem ter a condição de serem analisados de forma segmentada por questões demográficas e territoriais. Periodicidade Os indicadores devem ser atualizados, definindo períodos para captar novos dados. Sensibilidade O indicador deve refletir no tempo certo as mudanças reali- zadas. Economicidade A obtenção dos dados deve ser obtida a custos reduzidos, apresentando boa relação custo-benefício. Estabilidade Capacidade de organizar séries históricas comparáveis de pe- ríodos diferentes. Auditabilidade Os dados devem apresentar a condição de serem verificáveis por qualquer pessoa. Fonte: Elaborado pelo autor. Os indicadores devem apresentar as características destacadas para serem confiáveis e fornecerem uma base de dados robusta à constru- ção das Políticas Públicas. Para isso, é importante a existência de dados públicos confiáveis para a construção de indicadores que monitorem o cenário e as mudanças propostas pelas Políticas Públicas. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os modelos de análise das Políticas Públicas buscam, de forma lógi- ca, compreender a complexidade das situações, das demandas e da so- ciedade estudada. Integram, para isso, modelos conceituais e de análise, apresentando uma linguagem multidisciplinar e, por consequência, com- plementar às questões puramente temáticas, promovendo a qualidade das políticas implementadas. O debate sobre as Políticas Públicas envolve também a importância do Estado, as dimensões e as naturezas das políticas, tendo em vista mi- nimizar a tensão entre os diversos atores e as demandas apresentadas. Para a resolução dos problemas e atendimento das demandas é preciso compreender a dinâmica das Políticas Públicas, que inicia com a identifi- cação do problema e o consequente processo de construção da agenda, por meio da interação dos atores. 84 Gestão e avaliação de políticas públicas Por fim, pode-se dizer que a análise das Políticas Públicas é, em última análise, um método para mediar os interesses conflitantes entre os di- versos atores. Assim, os processos são estabelecidos a fim de analisar as relações de poder necessárias para a tomada de decisão. Uma vez iden- tificadas essas variáveis, o processo de formulação das Políticas Públicas torna-se mais fácil e efetivo. REFERÊNCIAS BARROS, P. de Sá; AQUINO, É. C. de; SOUZA, M. R. de. Mortalidade fetal e os desafios para a atenção à saúde da mulher no Brasil. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v. 53, 12, 2019. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsp/v53/pt_1518-8787-rsp-53-12.pdf. Acesso em: 21 jan. 2020. CARLEY, M. Indicadores sociais: teoria e prática. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. DYE, T. R. Mapeamento dos modelos de análise de políticas públicas. In: HEIDEMANN, F. G.; SALM, J. F. (orgs.). Políticas públicas e desenvolvimento: bases epistemológicas e modelos de análise. Brasília: Editora UnB, 2009. FERREIRA, P. Gestão de Políticas Públicas: Proposta de Modelo Processual de Análise. Tese de Doutorado (Programa de Pós-graduação em Administração). Minas Gerais: UFLA, 2011. 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GABARITO 1. As quatro características dos instrumentos da Política Pública (nodalidade, autorida- de, tesouro e organização) se relacionam diretamente com o Estado. No princípio da nodalidade, o papel central do Estado está na concentração de informações. Quanto à autoridade, o Estado é responsável pelo ordenamento jurídico. O tesouro trata dos recursos orçamentários do Estado. E a organização, por sua vez, trata da estrutura administrativa do poder público. 2. A utilização de indicadores é importante na identificação dos problemas para mapear o cenário e o contexto, desenhando a situação que exige a ação do Estado. Na avalia- ção das Políticas Públicas, a utilização dos indicadores é fundamental para avaliar os resultados alcançados. 3. Porquea adoção de indicadores é a forma de mensurar os resultados e a efetividade das Políticas Públicas, permitindo avaliar se os recursos aplicados estão trazendo os resultados projetados e atendendo às necessidades e demandas da sociedade. 86 Gestão e avaliação de políticas públicas 5 Avaliação de Políticas Públicas A avaliação de Políticas Públicas é um instrumento de verifica- ção da efetividade dos programas do Estado. Embora seu campo de estudo tenha surgido nos anos 1960, foi em 1970 que se des- tacou a sua necessidade crescente, com o advento do conceito do Estado de bem-estar social, aliado às pressões sociais do período e ao surgimento do modelo gerencial de Gestão Pública. Esse novo cenário de pressões sociais e de um novo modelo de gestão do Estado fez com que as avaliações não focassem somen- te os processos metodológicos e o rigor deles, mas também os re- sultados e o acompanhamento das ações. Além disso, a avaliação passou a ser utilizada para ajuste de planejamento dos tomadores de decisão diante de objetivos e metas estabelecidos. Uma vez identificado o problema, em alguns casos, a avalia- ção tem início para contribuir com a formulação de políticas e, em outros, ela é feita concomitantemente à execução e ao final do processo. Para a realização da avaliação é fundamental definir o enfoque correto e o método a ser aplicado, estipulando ferramen- tas, cronograma, participantes e recursos. 5.1 Breve histórico da avaliação de Políticas Públicas Videoaula A avaliação de Políticas Públicas pode ser estudada com base em um conjunto de sete teorias distintas, estabelecidas entre os anos de 1960 e 1990, organizadas em três estágios de evolução. O Quadro 1 demonstra esses estágios. Avaliação de Políticas Públicas 87 Quadro 1 Estágios de evolução da teoria da avaliação Estágio Teóricos Perspectiva teórica Ênfase Anos 1960 – “Trazer a verdade científica para a solução de problemas sociais”. Michael S. Scriven Avaliação como ciência da valoração da ação Buscar a verdade científica a respeito da efetividade das solu- ções para os problemas sociais. Donald T. Campbell Metodologista da “Sociedade experimental” Anos 1970 – “Gerar alternativas enfatizando o uso e o pragmatismo”. Carol H. Weiss Vinculação da avalia- ção com a pesquisa em Políticas Públicas Entender como as organiza- ções do setor público e seus tomadores de decisão operam, de modo a oferecer alternativas úteis do ponto de vista político e social para a apropriação do conhecimento avaliativo (uso) visando à melhoria do desem- penho das organizações e de suas ações. Joseph S. Wholey Avaliação para o aperfeiçoamento dos programas Robert E. Stake Avaliação responsiva e métodos qualita- tivos Anos 1980-1990 – “Ten- tar integrar o passado”. Lee J. Cronbach Desenho funcional da avaliação para um mundo sujeito à aco- modação política Integrar diferentes perspectivas teóricas anteriores, de modo a reconhecer a legitimidade de diferentes abordagens em função das circunstâncias e dos propósitos da avaliação.Peter H. Rossi Avaliação global, customizada e com base na teoria do programa Fonte: Shadish; Cook; Leviton, 1991, p. 21, tradução nossa. Os anos 1960 foram fundamentais para determinar o campo de es- tudo de avaliação das Políticas Públicas, dada a perspectiva teórica que defendia a premissa de que deviam ser buscadas soluções por meio de processos científicos rigorosos para analisar as Políticas Públicas exe- cutadas no atendimento aos problemas sociais. Nesse cenário, o rigor científico era necessário para estabelecer desenhos metodológicos que evitassem falhas na avaliação. Os tomadores de decisão, então, pode- riam usar o rigor científico para determinar a efetividade da política e contribuir para a intervenção do Estado com base científica. Nesse estágio, valorizava-se a “experiência da aplicação da política, desenvol- vendo a ideia de uma sociedade experimental”, promovendo avalia- ções e inovações por meio da razão científica (CAMPBELL, 1998, p. 11). 88 Gestão e avaliação de políticas públicas A adesão aos modelos científicos para avaliar Políticas Públicas não apresentou o resultado esperado, pois os tomadores de decisão não utili- zavam os resultados para planejá-las, o que gerou um segundo estágio de evolução delas. Esse estágio não era focado em criar métodos científicos de avaliação, mas em gerar novos conhecimentos sobre Políticas Públicas com base na identificação das causas e desenhando estratégias de longo prazo para utilizar os resultados da avaliação. Igualmente, no curto prazo, os resultados da avaliação passaram a ser usados para incrementar os planos e programas (SHADISH; COOK; LEVITON, 1991). O terceiro estágio, por sua vez, tendo em vista os modelos teóricos abordados nos estágios anteriores, buscou formular uma teoria mais completa de avaliação das Políticas Públicas. Esse novo modelo teórico intencionava abordar uma visão integral das políticas, desde o desenho e a formulação até, finalmente, passar pela implementação, atendendo às dimensões do Estado e dos demais atores envolvidos. Os métodos e práticas de avaliação devem contemplar não somente os resultados alcançados, mas abranger o contexto em que as políticas e os atores estão envolvidos. De acordo com Derlien (2001), a teoria da avaliação de Políticas Pú- blicas também pode ser compreendida considerando uma evolução analisada em três funções: informação, realocação e legitimação. A função da informação refere-se ao período dos anos 1960, quando os programas eram melhorados devido a um processo de feedback. A realocação, por sua vez, refere-se à avaliação de políticas dos anos 1980, cujo foco era realocar os recursos orçamentários do Estado para efetivar os programas planejados. Em 1990, adotou-se a função da legitimação devido ao novo papel dos atores sociais que passaram a contribuir com a fiscalização e audi- toria dos dados mensurados. Assim, a avaliação das Políticas Públicas é substituída, ampliada, complementada e aplicada a novas questões. Dessa forma, compreende-se que a avaliação de Políticas Públicas tem seu início com os modelos teóricos da década de 1960, e ocorre no mesmo momento histórico do ápice do Welfare State 1 , que buscava, entre outras coisas, ações do Estado para combater a pobreza e garan- tir um bem-estar social. Com o advento do Welfare State, as agitações sociais e políticas dos anos 1970 contribuíram para a adoção do modelo da Adminis- Segundo Gomes (2006, p. 203), “A definição de welfare state pode ser compreendida como um conjunto de serviços e bene- fícios sociais de alcance universal promovidos pelo Estado com a finalidade de garantir uma certa ‘harmonia’ entre o avanço das forças de mercado e uma relativa estabilidade social, suprindo a sociedade de benefícios sociais que significam segurança aos indivíduos para manterem um mínimo de base material e níveis de padrão de vida, que possam enfrentar os efeitos deletérios de uma estrutura de produção capitalista desenvolvida e excludente”. 1 Avaliação de Políticas Públicas 89 tração Pública gerencial, que passa a entender o usuário dos serviços públicos como cliente. Para melhor atendê-lo, adota novas práticas, como empreendedorismo, transparência, prestação de contas, entre outras; e, consequentemente, apresenta novas formas de avaliação das Políticas Públicas. Nos anos 1990, após um período marcado por regimes militares e instabilidade política, a América Latina começou a migrar gradual- mente do modelo burocrático para o gerencial de Administração Pú- blica, levando ao questionamento a respeito da eficiência do Estado e sobre a relação deste com o usuário, visto nesse modelo como cliente dos serviços prestados. Ao analisar o novo modelo de Administração Pública adotado na déca- da de 1990, Faria (2005) define dois pressupostos básicos para a reforma do setor público. O primeiro é a necessidade de buscar maior eficiênciae produtividade do serviço público, a fim de uma maior dinâmica para o atendimento das demandas, com maior transparência e prestação de contas, em consonância com o ajuste das contas públicas. O segundo pressuposto é a discussão do papel e do nível de intervenção do Estado na sociedade e na economia, em um cenário de maior participação do setor privado para garantir a oferta de qualidade dos serviços públicos. No caso brasileiro, adotou-se um modelo funcionalista clássico de avaliação de Políticas Públicas que focava a instrumentalização me- todológica do processo de avaliação, apresentando um caráter mais técnico e racional e menos político. Esse modelo, considerado linear, não era atento às expectativas e aos interesses dos atores envolvidos e vigorou no Brasil durante todo o período do regime militar. A mudança do cenário político com o processo de redemocratiza- ção trouxe à luz algumas limitações do modelo funcionalista clássico em relação à efetividade das Políticas Públicas no período: um modelo de crescimento excludente resultante do “milagre econômico”, a con- centração de renda e desigualdade na distribuição dos benefícios das Políticas Públicas. Esse cenário permaneceu até o fim do regime militar, conforme aponta Gomes (2001, p. 24): Na conjuntura de redemocratização, a avaliação de políticas sociais responde à necessidade de tornar os agentes do Es- tado plenamente responsáveis de suas ações, contribui no debate democrático na medida em que clarifica as escolhas pú- blicas e ajuda na compreensão coletiva de mecanismos sociais O processo de avaliação das Po- líticas Públicas ganhou destaque principalmente a partir dos anos 1970 e da adesão ao modelo da nova Gestão Pública. Como um modelo robusto de avaliação contribuiu para a afirmação do modelo gerencial de Gestão Pública? Atividade 1 90 Gestão e avaliação de políticas públicas particularmente opacos. Procura-se, desde então, “modelos” alternativos de avaliação que possam superar os limites do mo- delo tradicional que não dá conta das várias dimensões e com- plexidade da questão social. Em 1990, a partir do processo de redemocratização e do advento da Constituição Federal de 1988, a avaliação de Políticas Públicas adotou o eixo da dimensão política, desprezado no estágio anterior, fazendo a articulação entre as dimensões quantitativa e qualitativa. No entanto, mesmo nesse novo contexto, a avaliação de Políticas Públicas no Brasil ainda é utilizada para controle orçamentário, pois “a prática de avalia- ção de políticas e programas sociais ainda é muito restrita e desenvol- vida mais como mero controle de gastos do que para realimentar os programas em desenvolvimento” (SILVA, 2001, p. 46). 5.2 Avaliação de Políticas Públicas: conceitos e abordagens Videoaula O conceito de avaliação, em um sentido mais simplificado, significa determinação de valor. Assim, ao avaliar uma obra de arte, por exem- plo, o avaliador analisa e determina seu valor de venda ou negociação. Esse conceito é mais facilmente compreendido quando aplicado a bens específicos, com características definidas e de mensuração estabele- cida. No caso das Políticas Públicas, por sua vez, igual conceito é de difícil aplicação, uma vez que esse é um tema que não apresenta um consenso claramente definido e traz diversas dimensões de estudo: so- ciológica, econômica e política. Consequentemente, apresenta-se um leque de olhares e definições que dificultam a correta avaliação de uma Política Pública (ALA-HARJA; HELGASON, 2000). Dessa forma, uma definição mais aceitável para o termo avaliação em relação às Políticas Públicas é a mensuração dos resultados de uma determinada política ou programa diante de objetivos e metas propostos. A avaliação, então, pretende examinar se as políticas ou os programas executados foram eficientes, eficazes e, principalmente, se atingiram a efetividade desejada pelos tomadores de decisão. Cabe destacar que essa efetividade definida pelo gestor público deve estar atrelada diretamente às demandas apresentadas pela sociedade e pe- los atores envolvidos no contexto analisado. Avaliação de Políticas Públicas 91 Além de garantir a correta aplicação dos recursos (eficácia), o con- trole na utilização deles (eficiência) e o atingimento de objetivos e me- tas (efetividade), deve-se compreender o nível de sustentabilidade dos programas implementados e executados. Também é importante des- tacar a questão da experiência do planejamento, pois os resultados obtidos da mensuração (sejam positivos ou negativos) colaboram para o aperfeiçoamento do desenho das atuais e futuras políticas de modo mais assertivo. No entanto, embora apresente diversos aspectos altamente po- sitivos para a Gestão Pública e a efetividade das políticas, ainda há algumas resistências para a disseminação dessa prática. Um dos principais motivos, senão o maior deles, é a apresentação de resulta- dos que podem levar ao questionamento da capacidade do Estado, tanto de aplicação quanto de gerenciamento dos recursos públicos, o que pode constranger os gestores e a administração. Em um cená- rio de recompensas eleitorais, esse constrangimento pode ser inibi- dor para a adesão às boas práticas de avaliação da Gestão Pública. No entanto, nesse mesmo contexto, a apresentação de bons resul- tados legitima a ação e o comportamento do Estado, estabelecendo ganhos eleitorais. Ao se estudar a literatura internacional a respeito da avaliação de Políticas Públicas, observa-se entre as diferentes perspectivas alguns elementos comuns: i) a avaliação mensura a capacidade de intervenção do Estado na realidade identificada; ii) há a necessidade de se estabelecer um critério metodológico rigoroso para evitar o viés e o comprometimento dos resultados; e iii) as informações obti- das contribuem para o aperfeiçoamento e a adequação dos planos, planejamentos e programas estatais. Para compreender a abordagem da avaliação das Políticas Públicas, categorizam-se três abordagens distintas: positivista-experimental, pragmatista da qualidade e construtivista. A abordagem positivista- -experimental tem como foco principal a mensuração dos impactos das políticas. Essa abordagem surgiu na década de 1960, nos Estados Unidos da América, e apresentava uma preocupação central com o es- tabelecimento dos indicadores usados na mensuração distinta tanto de finalidades quanto de objetivos. Neste capítulo, entende-se finalida- des como fatores quantificáveis e objetivos como fatores não quantifi- cáveis, sempre com foco na avaliação dos resultados. 92 Gestão e avaliação de políticas públicas Contrariamente ao modelo anterior, a abordagem pragmatista da qualidade é um processo que avalia a política ou o programa com foco nas competências do Estado. Conforme Scriven (1991), essa abor- dagem apresenta duas dimensões distintas: mérito, que trata espe- cificamente da avaliação da temática abordada; e valor extrínseco da intervenção, que avalia a capacidade do Estado diante de demandas sociais em determinado contexto. Assim, essa abordagem mensura o resultado da política ou do programa, estabelecendo um juízo com base nas variações analisadas. A abordagem construtivista, por sua vez, é usada na implementa- ção das políticas com um olhar nos diversos atores. Dessa forma, essa abordagem não foca o método ou o resultado, mas o processo de im- plementação das políticas ou dos programas. Essa abordagem apre- senta os modelos de avaliação descritos no Quadro 2. Quadro 2 Modelos de avaliação da abordagem construtivista Avaliação da quarta geração Egon C. Guba e Yvonne S. Lincoln 1989 Avaliação focada na utilização Michael Q. Patton 1997 Avaliação como processo social e político Lee J. Cronbach 1996 Avaliação sensível Robert E. Stake 2007 Avaliação para o empoderamento David M. Fetterman 1994 Fonte: Adaptado de Serapioni, 2016. Os modelos de avaliação da abordagem construtivista apresentam características comuns que buscam destacar a participaçãodos atores, bem como o processo de implementação das Políticas Públicas. Sobre esses modelos cabe um maior detalhamento, descrito a seguir. Avaliação de Políticas Públicas 93 Avaliação de quarta geração Arena democrática onde os atores participam livremente do processo decisório, apresentando suas próprias demandas, análises e sua identificação de cenários. Avaliação focada na utilização Destaca a importância do cenário político e da organização dos processos decisórios. Avaliação como processo social e político Deve considerar o impacto do cenário político nas políticas e nos programas. Avaliação sensível Estuda políticas específicas e desenvolve métodos e estratégias de avaliação para cada caso analisado. Avaliação para o empoderamento Utiliza definições e métodos de avaliação para incentivar o aperfeiçoamento e a autodeterminação, buscando aperfeiçoar as políticas com a colaboração da sociedade. O estudo das diversas abordagens é fundamental para incentivar as discussões sobre a avaliação das políticas. As abordagens contemplam conceitos e metodologias distintas, que ajudam a entender os olhares acerca da avaliação de políticas nos últimos cinquenta anos. O livro Aplicações de técnicas avançadas de avaliação de Políticas Públicas estuda vários casos de aplicação de métodos de avaliação de diferentes Políticas Públi- cas, por meio de técnicas de análise observacional (não experimental). AMARAL, E. F. de L. A.; GONÇALVES, G. Q.; FAUSTINO, S. H. R. Belo Hori- zonte: Fino Traço Editora, 2014. Livro 5.3 Tipologias de avaliação e técnicas de análise Videoaula A avaliação de Políticas Públicas apresenta diver- sas formas e distintas tipologias de realização. Entre os modelos de avaliação, destacam-se a avaliação realizada pelos acadêmicos, que mensura com me- todologia formal os impactos, benefícios e a efetivi- dade das políticas; e a avaliação da implementação que, por sua vez, tem como foco principal a eficiên- cia e a eficácia das políticas. Conforme Faria (2005), os focos podem ser carac- terizados como “gerencialistas”, quando centrados na questão fiscal, e “não gerencialistas”, quando são avaliações acadêmicas. No entanto, as tipologias de avaliação são organizadas de acordo com fatores não excludentes: 94 Gestão e avaliação de políticas públicas 5.3.1 De acordo com o agente avaliador e os participantes do processo de avaliação A avaliação é externa quando realizada por avaliadores que não pertencem à instituição responsável pelo programa implementado, tendo pontos positivos e negativos. Entre os positivos estão: a isenção e objetividade da avaliação e a comparabilidade com outros programas executados. Nos negativos, há a dificuldade de obtenção dos dados e a resistência dos envolvidos na política, que pode comprometer a qua- lidade das informações e a própria aplicabilidade para melhoria das Políticas Públicas. A avaliação é interna quando realizada dentro da instituição com os colaboradores que participaram da elaboração da política. Como ponto positivo, pode-se indicar a eliminação da resistência dos colaboradores e a possibilidade de compreender e melhorar as atividades da institui- ção. Entre os negativos, há a perda da objetividade devido aos avalia- dores também serem responsáveis pela formulação e implementação da política. 5.3.2 De acordo com a natureza da avaliação As avaliações podem ser classificadas como formativas ou somati- vas. Quando tratam do processo de formação das políticas são forma- tivas. As informações dessa avaliação são importantes para coletar dos envolvidos elementos para melhorar os programas. Por outro lado, as avaliações somativas tratam da produção de in- formações referentes à execução das políticas, analisando se o objetivo delas foi atingido e realizando um julgamento sobre o alcance das metas. 5.3.3 De acordo com o momento de realização da avaliação Quanto à realização da avaliação, os estudos se classificam em ex ante e ex post. A avaliação ex ante é realizada antes de iniciar o pro- grama, buscando coletar informações para a tomada de decisão de implementação da política, bem como organizar os projetos variados de modo mais eficiente para atingir às metas determinadas. Essa ava- liação destaca a importância da realizar estudos que mensurem os be- Avaliação de Políticas Públicas 95 nefícios e as dificuldades da intervenção, desenhando cenários futuros, identificando os atores envolvidos, as interações entre eles e os contex- tos que podem impactar as políticas. A avaliação ex ante é importante para filtrar e refinar as ações anteriormente à implantação. A avaliação ex post, por sua vez, realiza-se durante ou depois da execução, com base na mensuração dos resultados dos programas executados (ou em processo), orientando os agentes a tomarem suas decisões. Quando o programa está em execução, os indicadores de- vem direcionar a continuidade com base na mensuração realizada. Quando a decisão é pela continuidade, a avaliação deve orientar para manter ou modificar a formulação e, se necessário, alterar os objetivos, os programas e as ações do Estado. 5.3.4 De acordo com o problema ao qual a avaliação responde Trata-se de uma avaliação referente aos problemas e às pergun- tas que se busca responder, analisando os resultados e o próprio fun- cionamento do programa. É importante para identificar problemas no processo e corrigi-los. Também contribui para mensurar o alcance dos objetivos, a relação com o público-alvo e a alocação dos benefícios, fa- cilitando o processo de mudanças para a implementação das políticas. Esse tipo de avaliação torna os programas mais eficientes, trazendo informações importantes para os tomadores de decisão no contexto analisado. Combina, para isso, métodos quantitativos e qualitativos, apresentando questionários fechados, entrevistas semiestruturadas e análise pela observação. É uma avaliação que procura responder a três perguntas básicas: i) quais são os fatores que intervêm nas situações identificadas na situação-problema?; ii) qual é o contexto em que se aplica a solução proposta?; e iii) a permanência ou temporalidade com- promete a continuidade do programa? A avaliação dos impactos, por sua vez, utiliza-se de métodos qualita- tivos para obter não apenas dados, mas também modelos estatísticos e econométricos necessários à análise deles. Dessa forma, o modelo demonstra robustez na análise dos resultados e na relação com as metas dos programas executados. Para uma adequada avaliação de impacto, deve-se respeitar o tempo necessário para atingir a maturida- de e a capacidade de mensurabilidade do programa. Deve-se também Sugere-se ler Avaliação de Políticas Públicas: guia prático de análise ex post. Trata-se de um guia referencial metodológico para o processo de monitora- mento e avaliação das Políticas Públicas no Governo Federal. O guia está atualizado conforme o Decreto n. 9.203/2017, que trata da política de governança da Administração Pública federal direta, autárquica e fundacional. CASA CIVIL DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. et al. Brasília, 2018. Disponível em: https://www. cgu.gov.br/Publicacoes/audi- toria-e-fiscalizacao/arquivos/ guiaexpost.pdf. Acesso em: 23 jan. 2020. Saiba mais A avaliação de políticas e progra- mas pode ser feita antes, durante e depois da execução e das ações do Estado. Por que a avaliação realizada durante a execução das políticas é importante para os tomadores de decisão? Atividade 2 96 Gestão e avaliação de políticas públicas contemplar informações coletadas ex ante e, com as duas informações (ex ante e ex post), permitir a comparabilidade dos resultados. Um sistema de avaliação eficaz e eficiente apresenta uma caracte- rística complexa e controversa: passa pelo desenho da avaliação e a escolha do método a ser aplicado. A configuração da avaliação tem sido cada vez mais importante para mensurar não somente os resultados, mas tambémo impacto das políticas. Para o processo funcionar de ma- neira eficaz, utiliza-se de três enfoques distintos: Enfoque participativo Métodos com base na participação ativa de todos os atores interessados na política. Enfoque quali-quantitativo Combinação da utilização de métodos quantitativos e qualitativos. Enfoque de métodos integrados Integração dos métodos qualitativo e quantitativo, de modo a refinar as análises qualitativa e quantitativa. Uma vez definido o enfoque, é necessário selecionar os instru- mentos que serão utilizados para a técnica de coleta de dados e para a análise dos resultados. Entre os principais métodos (qualitativos e quantitativos) destacam-se: Realização de entrevistas com base em um roteiro previamente definido, com a participação dos atores. Entrevista semiestruturada Neste método, junta-se um grupo de pessoas e provoca-se a troca de informações sobre uma determinada temática. Grupo focal (Continua) O processo de avaliação de Polí- ticas Públicas exige um desenho metodológico robusto que evite o viés e traga credibilidade para os resultados coletados. Neste contexto, por que a racionalida- de e cientificidade metodológica desse desenho são fundamentais para a avaliação das Políticas Públicas? Atividade 3 Avaliação de Políticas Públicas 97 Envolve a participação dos avaliadores nas ações das políticas públicas estudadas, permitindo a observação no seu contexto. Observação participativa Envolve todos os demais métodos anteriores, pois se trata de uma visita no contexto aplicado, com duração predeterminada, onde se realizam entrevistas, grupo focal e observação participativa. Estudo de caso A definição dos instrumentos e métodos a serem utilizados no processo de avaliação é fundamental para garantir a credibilidade, a transparência e a correção dos dados. No cenário de uma nova Gestão Pública que exige transparência e prestação de contas, faz-se necessá- rio a adoção de métodos cada vez mais seguros, racionais e científicos para evitar o comprometimento dos resultados avaliados. 5.4 Projeto de avaliação (desenho, gestão e disseminação) Videoaula O processo de avaliação é composto de um ciclo de sete etapas que compreendem um projeto que envolve o desenho, a gestão e a disse- minação da avaliação das políticas e seus resultados. As sete etapas são demonstradas na Figura 1. Levantamento de informações Planejamento Termo de referência ContrataçãoExecução Geração de resultados Divulgação Figura 1 Ciclo de projeto de avaliação Fonte: Elaborada pelo autor. 98 Gestão e avaliação de políticas públicas Na etapa de levantamento de informações ocorre o conhecimento do programa ou da política e seu contexto. Nesse momento também conhece-se a equipe envolvida na política e são coletadas as informa- ções para a construção do modelo de avaliação. Para a coleta de infor- mação, tem-se as seguintes fontes: • Legislações, documentos e literatura sobre os programas ou projetos. • Resultados e análises de avaliações anteriores. • Entrevistas e observações com gestores e responsáveis pela im- plementação das políticas. • Banco de dados e informações existentes do programa, entre outros. O levantamento envolve o contexto, as perguntas e a abordagem metodológica, conforme demonstrado na Figura 2. Figura 2 Etapas do processo de levantamento de informações CONTEXTO 1 2 3 ABORDAGEM METODOLÓGICA PERGUNTAS Fonte: Elaborada pelo autor. Algumas questões precisam ser levantadas antes do processo de avaliação, de modo a levar os avaliadores a identificar a situação-pro- blema, definir corretamente o objetivo e os interessados na avaliação, compreender o ambiente e o momento em que deve ocorrer a inter- venção e a definição dos recursos a serem utilizados. De posse dessas informações, define-se a abordagem metodológica a ser adotada. Na fase do planejamento, ocorre o desenho da avaliação, geralmen- te registrado no Documento de Referência da Avaliação, instrumento que contém os objetivos e as orientações do programa e auxilia não apenas a elaboração da matriz de avaliação, mas também seu proces- so. Esse desenho envolve fazer a descrição analítica e o marco lógico do programa 2 , definir o questionário de perguntas avaliativas, elaborar uma matriz de avaliação – fundamental para planejar e organizar o pro- cesso de avaliação – e o cronograma de execução. Quanto à descrição O marco lógico do programa é um instrumento usado para estabelecer a lógica em projetos e Políticas Públicas que tenham impacto social. O marco lógico facilita a organização e o planejamento, sendo a referência do processo de avaliação do projeto. 2 Avaliação de Políticas Públicas 99 do programa, deve conter: problema, explicação, justificativa, objetivos e metas, público-alvo, área de atuação, cenário do contexto, estratégias de implementação, prazo de execução e recursos previstos. O Termo de Referência é um documento que contém elementos necessários e suficientes para caracterizar o objeto da avaliação. É com base nesse termo que são organizados e caracterizados os processos licitatórios, contendo os elementos da concorrência, caso haja neces- sidade de contratar avaliadores externos à organização. Na elabora- ção do Termo de Referência, as questões importantes para o processo de avaliação são definidas e organizadas. O Termo de Referência deve contemplar contexto, limites e condições da avaliação proposta, definir quem são os demandantes dela, os prazos de execução do projeto, os critérios de seleção dos avaliadores e os formatos e padrões de apre- sentação dos resultados apurados. Na etapa de contratação dos agentes avaliadores são definidos os critérios para fazê-lo, sendo eles: experiência e domínio técnico, ex- periência em projetos com órgãos públicos, reconhecimento e credi- bilidade com os atores envolvidos, não apresentar conflitos éticos de interesses, ter capacidade de comunicação, de flexibilizar o processo e de gerir a equipe. A etapa de execução ocorre concomitante à geração de resultados, em que o coordenador da avaliação em geral é o responsável pela gestão do contrato, pelo acompanhamento e pelo registro da execu- ção. O responsável pela gestão dos projetos tem a responsabilidade de identificar os problemas, fazer a interlocução e a interação com os executores da avaliação, fazer os relatórios do avanço de acordo com o cronograma e validar os resultados. O processo é registrado e docu- mentado por vários relatórios, conforme demonstrado no Quadro 3. Quadro 3 Níveis de informação dos relatórios aplicados à avaliação das Políticas Públicas Informações Produzido ao final da etapa de levantamento de informações. Questões avaliativas Produzido ao final da atividade de planejamento da avaliação. Contratação I Produzido durante o processo de contratação do estudo avaliativo. Contratação II Produzido uma vez que a consultoria para a realização do estudo avaliativo já esteja selecionada. (Continua) 100 Gestão e avaliação de políticas públicas Execução Pelo menos três relatórios deverão ser produzidos: o primeiro, quando da aprova- ção do projeto executivo, informando os produtos e prazos pactuados; o segundo, quando do início das atividades de levantamento de campo, sempre que for o caso; e o terceiro no recebimento dos relatórios de campo. Disseminação dos resultados Produzido quando da entrega, pela consultoria contratada, dos resultados do estudo avaliativo. Fonte: Adaptado de Simões, 2015. As informações gerenciais de evolução da avaliação das Políticas Públicas são desenvolvidas por meio de Relatórios de Avanços, que demonstram ao gestor estratégico o progresso das ações em relação ao planejamento estabelecido pelo cronograma nos diversos escopos determinados. Essas informações de acompanhamento são avaliações intermediárias que, conjuntamente, formam o relatório final com os dados coletados. A avaliação, uma vez encerrada e com as informações coletadas,é destinada aos tomadores de decisão, para adequação e acompanha- mento do planejamento, às equipes gerenciais dos programas envolvi- dos, aos beneficiários dos programas e ao público em geral, interessado no desenvolvimento da temática. CONSIDERAÇÕES FINAIS As mudanças no modelo de Gestão Pública, o novo papel do cidadão como cliente e a necessidade de acompanhamento das ações do Estado diante de recursos limitados fazem com que a avaliação de Políticas Públicas tenha ainda mais importância. Dessa forma, cabe ao Estado desenvolver e desenhar novos métodos de avaliação com ferramentas e instrumentos que possam trazer os melhores resultados para a Gestão Pública. Assim, o campo das Políticas Públicas avançou no desenvolvimento de novos conceitos e definições, novas tipologias e abordagens para ampliar a compreensão sobre o processo de avaliação. Dessa forma, o processo que iniciou com o desenvolvimento de métodos cientificamente mais ri- gorosos, fornecendo informações para os tomadores de decisão, evolui para, nos anos 1980, contribuir com a alocação dos recursos e, nos anos 1990, para a definição e discussão sobre o novo papel do Estado no con- texto da nova Gestão Pública. Destaca-se, por fim, a utilização e o desenvolvimento de novas ferra- mentas que possibilitem a melhoria do processo de avaliação de progra- Avaliação de Políticas Públicas 101 mas e Políticas Públicas, tornando o processo cada vez mais moderno e inovador. Pode-se trazer, assim, informações tanto para a formulação como execução e monitoramento das Políticas Públicas, contribuindo para a me- lhoria das ações do Estado, ampliando a eficácia, a eficiência e a efetividade das ações no contexto de atendimento das demandas. REFERÊNCIAS ALA-HARJA, M.; HELGASON, S. Em direção às melhores práticas de avaliação. Revista do Serviço Público, Brasília, v. 51, n. 4, p. 5-59, out./dez. 2000. CAMPBELL, D. T. The Experimenting Society. In: DUNN, W. N. (ed.) The Experimenting Society - essays in honour of Donald T. Campbell. New Brunswick: Transaction Publishers. 1998. DERLIEN, H-U. Una comparación internacional en la evaluación de las políticas públicas. Revista do Serviço Público, Rio de Janeiro, v. 52, n. 1, p. 105-122, jan./mar. 2001. FARIA, C. A. P. de. A política da avaliação de políticas públicas. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 20, n. 59, p. 97-109, out. 2005. GOMES, F. G. Conflito social e Walfare State: Estado e desenvolvimento social no Brasil. Revista Brasileira de Administração Pública, Rio de Janeiro, v. 1, p. 201-236, mar./abr. 2006. GOMES, M. de F. C. M. Avaliação de políticas sociais e cidadania: pela ultrapassagem do modelo funcionalista clássico. In: SILVA, M. O. da S. Avaliação de políticas e programas sociais: teoria & prática. São Paulo: Veras Editora, 2001. SERAPIONI, M. Conceitos e métodos para a avaliação de programas sociais e políticas públicas. Sociologia, Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, v. 31, p. 59-80, 2016. SCRIVEN, M. Evaluation Thesaurus. Newbury Park: Sage Publishing, 1991. SHADISH, W. R.; COOK, T. D.; LEVITON, L. C. Foundations of program evaluation: theories of practice, Newbury Park: Sage Publishing, 1991. SILVA, M. O. Silva e (org.). Avaliação de políticas e programas sociais: teoria e prática. São Paulo: Veras Editora, 2001. SIMÕES, A. A. Avaliação de programas e políticas públicas. Brasília: Escola Nacional de Administração Pública, 2015. GABARITO 1. O modelo gerencial de Gestão Pública prevê a ideia de compreender o usuário como cliente e, dessa forma, deve agir com transparência e ter zelo na prestação de contas. A avaliação de Políticas Públicas, então, contribui para coletar informações com cre- dibilidade e sem viés, sendo transparente, conforme orienta a nova Gestão Pública. 2. A avaliação realizada durante o processo de execução dos programas e das políticas permite a adequação dos planos diante de objetivos e metas estipulados no crono- grama. Dessa forma, o Estado pode fazer as correções e as realocações dos recursos públicos para ter mais efetividade nas Políticas Públicas. 3. Porque somente uma avaliação feita com um desenho metodológico coerente, robus- to e metodologicamente correto pode contribuir para o alcance de resultados com mais credibilidade ao mensurar a eficácia, eficiência e efetividade das políticas e dos programas. Este livro ressalta a importância das interações entre Estado e sociedade civil, tanto para identificar problemas quanto para colaborar com um processo de formulação e execução de Políticas Públicas mais corretivo e assertivo. Nesse contexto, o leitor é convidado a refletir sobre como a responsabilidade com transparência e prestação de contas faz com que a avaliação das políticas ganhe cada vez mais importância. A obra destaca que cabe aos gestores e avaliadores a identificação correta dos problemas, o desenho estratégico de soluções e, então, a definição das mais rigorosas metodologias que garantam credibilidade e segurança aos processos. Também se orienta para a busca por melhores práticas e instrumentos de coleta de dados, de modo a ter as mensurações adequadas que contribuam para a correção e padronização das políticas, além da compreensão dos resultados. Código Logístico 59184 Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6585-1 9 7 8 8 5 3 8 7 6 5 8 5 1 Página em branco Página em branco