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Romantismo, Realismo e Naturalismo no Brasil 2018_SEC

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APRESENTAÇÃO 
 
Esta disciplina tem como objetivo principal, prover no aluno o conhecimento 
linguístico, técnico-literário e sócio-cultural a fim de torná-lo um leitor crítico diante da 
produção literária desenvolvida durante os períodos artísticos brasileiros denominados 
Romantismo, Realismo e Naturalismo, chegando até o Simbolismo. 
 
Para isso, faz-se necessário entender a produção literária brasileira como a parte de 
um todo, que são as escolas ocidentais, inseridas em um contexto histórico, social e 
filosófico de extrema importância, desde que interiorizado no texto literário. 
 
A disciplina leva em conta também as formas de veiculação desta produção literária, 
bem como o público alvo dos escritores, compreendidos dentro de um amplo contexto 
social interiorizado no texto, como já dito anteriormente, para que, assim, o aluno 
adquira uma postura crítica em face dos elementos que compõem o fenômeno 
literário: autor, texto e leitor, sem os quais uma obra não se “proclama” e, 
consequentemente, não existe. 
 
Os elementos dos movimentos serão estudados a partir de três gêneros literários: a 
poesia, a prosa narrativa e o drama em suas vozes mais representativas, pois estamos 
certos de que, por meio desse conjunto, o aluno estará apto não só a se tornar um 
leitor crítico e autônomo diante da produção literária brasileira como também provido 
de subsídios que possibilitem a compreensão do texto literário de outros estilos de 
época seja no contexto brasileiro ou universal. 
 
 
 
 
 
 
A segunda metade do século XIX foi 
marcada nas Ciências, nas Artes e na 
Literatura por uma postura de 
denúncia das desigualdades sociais e 
da degradação moral e humana da 
classe burguesa. Veja nas telas como o 
povo mais humilde é retratado sem a 
idealização romântica. Além disso, o 
sofrimento e a degradação gerados 
pela miséria ficam patentes nos 
detalhes das vestes, da postura 
resignada e das expressões vincadas 
pelo sol. 
INTRODUÇÃO 
Veja estas três telas, produzidas no século XIX, e leia os três textos seguintes, que descrevem 
um cômodo de uma residência da época. 
 
 
Vagão de terceira classe, de Honoré Daumier. 
 
 
O Velho Jardineiro, de Émile Claus O Pagamento dos Ceifeiros, de Léon Lhermitte. 
 
 
I – Do romance Senhora, de José de Alencar. 
É uma sala em quadro, toda ela de uma alvura deslumbrante, que realçavam 
o azul celeste do tapete de riço recamado de estrelas e a bela cor de ouro 
das cortinas e do estofo dos móveis. 
A um lado duas estatuetas de bronze dourado, representando o amor e a 
castidade, sustentam uma cúpula oval de forma ligeira, donde se desdobram, 
até o pavimento, bambolins de cassa finíssima. 
 
 
Por entre a diáfana limpidez dessas nuvens de linho percebe-se o molde 
elegante de uma cama de pau-cetim pudicamente envolta em seus véus 
nupciais, e forrada por uma colcha de chamalote também cor de ouro. 
Do outro lado, há uma lareira, não de fogo, que o dispensa nosso ameno 
clima fluminense, ainda na maior força do inverno. Essa chaminé de mármore 
cor de rosa é meramente pretexto para o cantinho de conversação, pois que 
não podemos chamá-lo como os franceses o coin du feu. 
A bem dizer a lareira não passa de uma jardineira que esparze o aroma de 
suas flores, em vez do brando calor do lume, por aquele círculo, onde estão 
dispostas algumas poltronas baixas e derreadas, transição entre a cadeira e o 
leito. 
O aposento é iluminado por uma grande lâmpada de gás, cujo globo de 
cristal opaco filtra uma claridade serena e doce, que derrama-se sobre os 
objetos e os envolve como de um creme de luz. 
 
II – Do romance O primo Basílio, de Eça de Queirós. 
Tinham dado onze horas no cuco da sala de jantar. Jorge fechou o volume 
de Luís Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha voltaire de 
marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse: 
– Tu não te vai vestir, Luísa? 
– Logo. 
Ficara sentada à mesa a ler o Diário de Notícias, no seu roupão de 
manhã de fazenda preta, bordado a soutache, com largos botões de 
madrepérola; [...] 
Tinham acabado de almoçar. 
A sala esteirada alegrava, com o seu teto de madeira pintado a branco, o seu 
papel claro de ramagens verdes. Era em julho, um domingo; fazia um grande 
calor; as duas janelas estavam cerradas, mas sentia-se fora o sol faiscar as 
vidraças, escaldar a pedra da varanda; havia o silêncio recolhido e sonolento 
de manhã de missa, uma vaga quebreira amolentava, trazia desejos de 
sestas, ou de sombras fofas debaixo de arvoredos, no campo ao pé da água; 
nas duas gaiolas, entre as bambinelas de cretone azulado, os canários 
dormiam; um zumbido monótono de moscas arrastava-se por cima da mesa, 
pousava no fundo das chávenas sobre o açúcar mal derretido, enchia toda a 
sala de um rumor dormente. 
Jorge enrolou um cigarro, e muito repousado, muito fresco na sua camisa de 
chita, sem colete, o jaquetão de flanela azul aberto, os olhos no teto, pôs-se 
a pensar na sua jornada ao Alentejo. 
 
 
III – Do romance Casa de pensão, de Aluísio Azevedo. 
 
O sujeito magro da véspera lá estava no mesmo sítio; agora, porém dormia, 
amortalhado a custo num insuficiente pedaço de chita vermelha. 
Do lado oposto, no chão, sobre um lençol encardido e cheio de nódoas, a 
cabeça pousada num jogo de dicionários latinos, jazia o Paiva, a sono solto, 
apenas resguardado por um colete de flanela. Mais adiante, em uma cama 
estreita de lona, viam-se dois moços, ressonando de costas um para o outro, 
com as nucas unidas, a disputarem silenciosamente o mesmo travesseiro. 
O quarto respirava todo um ar triste de desmazelo e boêmia. Fazia má 
 
 
impressão estar ali: o vômito de Amâncio secava-se no chão, azedando a 
ambiente; a louça, que servira ao último jantar, ainda coberta de gordura 
coalhada, aparecia dentro de uma lata abominável, cheia de contusões e 
comida de ferrugem. Uma banquinha, encostada à parede, dizia com o seu 
frio aspecto desarranjado que alguém estivera aí a trabalhar durante a noite, 
até que se extinguira a vela, cujas últimas gotas de estearina se derramavam 
melancolicamente pelas bordas de um frasco vazio de xarope Larose, que lhe 
fizera as vezes de castiçal. Num dos cantos amontoava-se roupa suja; em 
outro repousava uma máquina de fazer café, ao lado de uma garrafa de 
espírito de vinho. Nas cabeceiras das três camas e ao comprido das paredes, 
sobre jornais velhos e desbotados, dependuravam-se calças e fraques de 
casimira: em uma das ombreiras da janela havia umas lunetas de ouro, 
cuidadosamente suspensas de um prego. Por aqui e por ali pontas 
esmagadas de cigarro e cuspalhadas ressequidas. No meio do soalho, com o 
gargalo decepado, luzia uma garrafa. 
 
 
ANALISANDO OS TEXTOS 
Lemos um trecho do romance romântico brasileiro Senhora e trechos dos romances realistas O 
primo Basílio, português, e Casa de pensão, brasileiro. Este último apresenta traços de um 
movimento derivado do Realismo, o Naturalismo. Os três textos são descrições detalhadas de 
um cômodo. 
 
Perceba algumas diferenças fundamentais entre os temas e os estilos dos três movimentos: 
▪ Sinta a perfeição e o idealismo que o ambiente romântico faz supor sobre a personagem 
burguesa que nele vive. Compare com o ambiente naturalista de Casa de pensão, que detecta 
a aviltante condição de jovens estudantes pobres, após uma noitada de bebida e sexo. 
▪ Repare que o quarto da mulher romântica é pré-nupcial, ou seja, o “enlace matrimonial” 
ainda não ocorreu. A própria descrição dos elementos do quarto sugere a idealização do 
matrimônio, esperado como uma vida celestial na terra. Veja que a sala do romance realista O 
primo Basílio é de um casal já casado, entediado com a vida a dois. Aqui o matrimônio já 
perdeu sua aura celestial e caiu no marasmo. E o quarto de pensão naturalista reúne homens 
em situação nada heroica ou idealizada. 
▪ Perceba, sobretudo, a linguagem. O quartoromântico é retratado com emoção, e até um 
tanto exageradamente, pelo narrador (vejam-se os adjetivos subjetivos positivos: 
“deslumbrante”, “finíssima”, “elegante” e “doce”, por exemplo). A sala realista é retratada em 
traços rápidos e com poucos adjetivos (os adjetivos, em geral, são objetivos – como, por 
 
 
exemplo, “escuro”, “preta”, “esteirada”, “claro”, “verdes”, “azulado” e “derretido” – para que 
você note como o narrador se isenta de opinar sobre o ambiente). O quarto naturalista é 
retratado de forma a exagerar, de modo oposto ao romântico, os aspectos negativos e podres 
do ambiente e do grupo que ali vive (vejam-se os adjetivos subjetivos negativos: 
“amortalhado”, “insuficiente”, “encardido”, “má”, “abominável”, “frio”, “desarranjado”, “suja”, 
“desbotados” e “esmagadas”, por exemplo.) 
 
 
Prof. Celso Cavicchia 
Prof. Djalma Rebelatto de Gouveia 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
PROGRAMA DA DISCIPLINA 
 
EMENTA: O indianismo e o projeto de nacionalidade. O processo de consolidação do 
sistema literário brasileiro. Correlação entre forma social e forma literária: a “dialética da 
malandragem” nas Memórias de um sargento de milícias. Estudo analítico de poemas 
românticos. Condições de produção, circulação e recepção das obras no período 
literário denominado Realismo, com destaque para a singularidade da ficção de 
Machado de Assis. Correlação entre forma social e forma literária na prosa naturalista 
local: o meio, o momento e a raça na obra de Aluísio Azevedo. 
 
OBJETIVOS: Prover o aluno de um referencial teórico estrutural que lhe permita 
identificar as principais manifestações românticas; Desenvolver a capacidade analítica e 
crítica do aluno diante da obra literária, levando-se em conta também outros tipos de 
linguagem; Levar o aluno a compreender os fatos, a estrutura e o discurso literários, 
sob uma ótica que privilegia a história do seu desenvolvimento, expressa em textos 
literários selecionados; Comparar Realismo e Romantismo; Compreender as diferenças 
estilísticas entre as épocas artísticas.; Interpretar o vocabulário romântico em contraste com o 
vocabulário naturalista, a leitura das descrições românticas em contrastes com as descrições 
realistas; Destacar o Naturalismo mais esquemático de Aluísio Azevedo em contraste com o 
Realismo mais existencialista e filosófico de Machado de Assis. 
 
CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS: Contexto Ocidental e Características Centrais 
Romantismo; A Primeira Geração da Poesia Romântica: A Poesia Nacionalista De 
Gonçalves Dias; A Poesia Indianista e Lírico-Amorosa de Gonçalves Dias; A Segunda 
Geração da Poesia Romântica – Álvares de Azevedo; A Terceira Geração da Poesia 
Romântica Brasileira – Castro Alves; O Gênero Romance no Romantismo Brasileiro; 
Panorama da Prosa; Romântica Brasileira com Destaque à Obra de José de Alencar; 
Análise de Senhora e Iracema de José de Alencar; Memórias de Um Sargento de 
Milícias De Manuel Antônio de Almeida e o Noviço de Martins Pena; o Realismo e o 
 
 
Naturalismo; o Realismo; o Naturalismo; o Realismo e o Naturalismo no Brasil; Principais 
autores. 
 
METODOLOGIA: Adotamos para a disciplina uma metodologia que alia a teoria à 
prática, propiciada por meio de atividades que permitam, a partir de exemplos, a 
reflexão sobre literatura e estudo de obras representativas dos movimentos. 
 
AVALIAÇÃO: No sistema EAD, a legislação determina que haja avaliação presencial, 
sem, entretanto, se caracterizar como a única forma possível e recomendada. Na 
avaliação presencial, todos os alunos estão na mesma condição, em horário e espaço 
pré-determinados, diferentemente, a avaliação a distância permite que o aluno realize 
as atividades avaliativas no seu tempo, respeitando-se, obviamente, a necessidade de 
estabelecimento de prazos. 
A avaliação terá caráter processual e, portanto, contínuo, sendo os seguintes 
instrumentos utilizados para a verificação da aprendizagem: 
1) Trabalhos avaliativos online; 
2) Provas individuais semestrais realizadas presencialmente. 
 
As estratégias de recuperação incluirão: 
1) Retomada eventual dos conteúdos abordados nas unidades, quando não 
satisfatoriamente dominados pelo aluno; 
 
BIBLIOGRAFIA BÁSICA 
BOSI, A. História concisa da literatura brasileira. 44.ed. SP: Cultrix, 2007. 
CANDIDO, A. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 8.ed. SP: T.A. 
Queiroz, 2002. 
MOISÉS, M. História da literatura brasileira: das origens ao romantismo. SP: Cultrix, 
2009. 
 
 
 
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR 
ALMEIDA, M.A. Memórias de um sargento de milícias. SP: Ática, 1975. 
CALDWELL. H. Otelo brasileiro de Machado de Assis. SP: Atelie, 2005. 
CANDIDO, A.; CASTELLO, J. A. Presença da literatura brasileira: romantismo, realismo, 
parnasianismo e simbolismo. SP: DIFEL, 1972. 
CANDIDO, A. Na sala de aula: caderno de análise literária. SP: Ática, 1989. 
CANDIDO, A. Vários escritos. 4.ed. SP e RJ: Duas Cidades e Ouro sobre Azul, 2004. 
RONCARI, L. Literatura brasileira. SP: Edusp,1995. 
MERQUIOR, J. G. De Anchieta a Euclides: breve história da literatura brasileira. RJ: J. Olympio, 
1977. 
MOISÉS, M. A literatura brasileira através dos textos. SP: Cultrix, 1986. 
SCHWARZ, R. Machado de Assis: um mestre na periferia do capitalismo. 4.ed. SP: Duas 
Cidades; Editora 34, 2006. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
UNIDADE 01 – ROMANTISMO: CONTEXTO OCIDENTAL E CARACTERÍSTICAS CENTRAIS - I .. 10 
UNIDADE 02 - ROMANTISMO: CARACTERÍSTICAS CENTRAIS - II ............................................... 23 
UNIDADE 03 - ROMANTISMO NO BRASIL: 1ª GERAÇÃO NA POESIA: A POESIA 
NACIONALISTA DE GONÇALVES DIAS ................................................................ 34 
UNIDADE 04 - A POESIA INDIANISTA E LÍRICO-AMOROSA DE GONÇALVES DIAS .................. 43 
UNIDADE 05 - A SEGUNDA GERAÇÃO DA POESIA ROMÂNTICA BRASILEIRA: ÁLVARES DE 
AZEVEDO ............................................................................................................... 53 
UNIDADE 06 - A TERCEIRA GERAÇÃO ROMÂNTICA ................................................................... 66 
UNIDADE 07 – O GÊNERO ROMANCE NO ROMANTISMO BRASILEIRO .................................... 82 
UNIDADE 08 – PANORAMA DA PROSA ROMÂNTICA BRASILEIRA COM DESTAQUE À OBRA 
DE JOSÉ DE ALENCAR ........................................................................................... 95 
UNIDADE 09 – ANÁLISE DE SENHORA E IRACEMA, DE JOSÉ DE ALENCAR ........................... 120 
UNIDADE 10 – MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS, DE MANUEL ANTÔNIO DE 
ALMEIDA E O NOVIÇO DE MARTINS PENA ...................................................... 141 
UNIDADE 11 – O REALISMO ........................................................................................................ 161 
UNIDADE 12 – O NATURALISMO ................................................................................................ 165 
UNIDADE 13 – REALISMO E NATURALISMO NO BRASIL: RAUL POMPEIA............................... 171 
UNIDADE 14 – REALISMO E NATURALISMO NO BRASIL: ALUÍSIO AZEVEDO E ADOLFO 
CAMINHA ............................................................................................................. 177 
UNIDADE 15 – MACHADO DE ASSIS E O “REALISMO MACHADIANO” – OS ROMANCES ..... 192 
UNIDADE 16 – MACHADO DE ASSIS E O “REALISMO MACHADIANO” – OS CONTOS .......... 205 
10 
 
UNIDADE 01 – ROMANTISMO: CONTEXTO OCIDENTAL E CARACTERÍSTICAS 
CENTRAIS - I 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
Objetivo: Nesta unidade, daremos início ao estudo do Romantismo, a partir do 
contexto histórico ocidental, das origens do movimento e das características centrais 
deste estilo de época. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
Romantismo: Contexto Histórico ocidental, Origens e Características centrais 
Já, na segunda metade do século XVIII, esboçava-se o que viria a ser o estilode época 
denominado Romantismo. A Revolução Industrial fortaleceu ainda mais a burguesia e a 
Revolução Francesa levou-a ao poder com o lema “Liberdade, Igualdade e 
Fraternidade”. Dessa forma, o ideal político burguês de liberdade se interioriza no texto 
literário pelo abandono do formal e rígido estilo clássico, que agradava aos nobres, e 
pela assimilação da liberdade de expressão a fim de atender ao eclético gosto artístico 
burguês, novo público alvo dos escritores e demais artistas. 
 
Observe, na tela abaixo, a Liberdade personificada na figura de uma mulher com os 
seios de fora, traduzindo a liberdade de expressão também na pintura. Acrescenta-se a 
isso a dramaticidade da cena: os corpos caídos, a sugestão de movimento nas vestes 
da figura feminina e jogo de claro e 
escuro. 
 
 
 
 
 
Eugéne Delacroix 
A Liberdade Conduzindo o Povo 
11 
 
Romantismo - Origens 
O Romantismo teve início no final do século XVIII, na Alemanha e na Inglaterra. O 
escritor alemão Goethe publica, em 1774, a narrativa em prosa Os Sofrimentos do 
Jovem Werther, na qual o protagonista se suicida devido ao amor impossível por 
Charlotte, o que desencadeia o Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), 
denominação de um sentimentalismo exacerbado que leva muitos jovens à atitude 
semelhante à do protagonista de Goethe. 
 
Na Inglaterra,em 1798, os poetas William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge 
publicam Lyrical Ballads, demonstrando, na poesia, uma visão idealizada da mulher e 
da natureza, vendo nesta a manifestação divina. 
 
Quanto à terminologia, o adjetivo “romântico” deriva do inglês “romantic”, e este nasce 
do substantivo francês romaunt que designa os romances medievais de cavalaria, 
caracterizados pelos temas de aventuras e sentimentalismo. 
 
Portanto o emergente público burguês buscava, no plano da arte, evadir-se de seu 
sufocante cotidiano materialista, buscando, como forma de compensação, o 
sentimentalismo e o heroísmo das histórias do passado, principalmente do passado 
medieval. 
 
Na pintura, destacam-se Goya e Delacroix; na música, Wagner, Verdi, Schumann, 
Brahms, Liszt e Chopin. 
 
Vamos agora ao estudo das características centrais da literatura romântica para que 
assim possamos gradativamente aprofundar no tema. 
 
 
12 
 
Características Centrais do Romantismo 
Há basicamente duas características românticas essenciais que desencadeiam três tipos 
de Romantismo: a liberdade de expressão e o subjetivismo. Passemos, portanto, à 
abordagem destas duas características. 
 
 
A Liberdade de Expressão 
 
(...) seria estranho que, nesta época, a liberdade, como a luz, penetrasse por 
toda a parte, exceto no que há de mais nativamente livre no mundo, nas 
coisas do pensamento. Destruamos as teorias, as poéticas e os sistemas. 
Derrubemos este velho gesso que mascara a fachada da arte! Não há regras 
nem modelos; ou antes, não há outras regras senão as leis gerais da natureza 
que plainam sobre toda a arte, e as leis especiais que, para cada composição, 
resultam das condições de existência próprias para cada assunto. 
(Victor Hugo – Prefácio da peça Cromwell). 
 
 
Como já vimos, o ideal burguês de liberdade contamina as artes e, particularmente, a 
literatura, uma vez que o espírito romântico é pautado pelo ímpeto de Werther, 
protagonista de Goethe, levando ao extravasamento das emoções que se refletirá nos 
planos da expressão e do conteúdo dos três gêneros literários que propomos estudar: 
o verso, a narrativa e o drama. 
 
No fragmento acima, o escritor romântico francês Victor Hugo, no prefácio de sua 
peça Cromwell, expõe como a liberdade trazida pela Revolução Francesa contaminou 
as artes, quebrando o gesso da rigidez clássica fundamentada no racionalismo e 
estabelecendo o primado da emoção, por meio de regras mais naturais ou 
espontâneas que levem em conta a adequação do plano da expressão (“composição”) 
ao plano do conteúdo (“assunto”). Isso se refletirá nos três gêneros literários que 
estudaremos: o verso, a narrativa e o drama. 
 
Vejamos, portanto, como a liberdade de expressão se manifesta nestes três gêneros: 
 
 
13 
 
Gênero Lírico 
Levando em conta que o gênero lírico, mais propício ao verso, consiste na expressão 
subjetiva de sentimentos, poeta romântico abandona o racionalismo e a contenção 
emotiva do soneto, restritos a 14 versos (dois quartetos e dois tercetos), decretando 
que, enquanto houver sentimento, haverá versos. 
 
Os versos podem ser brancos ou rimados, mas, quanto à métrica, não se limitam aos 
clássicos decassílabos. O poeta passa a ter a liberdade de adequar a métrica (plano da 
forma ou da expressão) ao assunto abordado (plano do conteúdo). Veja o exemplo do 
romântico brasileiro Casimiro de Abreu, num fragmento do longo e belo poema A 
Valsa: 
 
 
“(...)Na valsa 
Tão falsa, 
Corrias, 
Fugias, 
Ardente, 
Contente, 
Tranquila, 
Serena, 
Sem pena 
De mim!(...)” 
 
 
Observe que Casimiro de Abreu abre mão do soneto e dos decassílabos, optando 
pelos versos dissílabos, com acento rítmico na segunda sílaba “Na / Val /”. Você já deve 
imaginar por que o poeta faz esta opção. Com certeza, para sugerir o ritmo da valsa, 
transmitindo, assim, o assunto ou conteúdo de uma forma mais expressiva e emotiva, 
atendendo, dessa maneira, ao público burguês desejoso de evadir-se do cotidiano 
prosaico. 
 
 
 
 
14 
 
Gênero Épico ou Epopeia 
O gênero épico, narrativa heroica em versos, vai perdendo espaço para a narrativa em 
prosa, de temática mais variada, cedendo espaço a um novo gênero, o romance, 
narrativa em prosa de extensão maior que o conto e dividida em capítulos. 
 
É importante ressaltar que a prosa só ganhou prestígio literário a partir do 
Romantismo, uma vez que o público burguês tinha um gosto mais simples que o da 
nobreza, preferindo ler uma narrativa de maneira mais natural e fluente. 
 
Observe, atualmente, a lista dos best Sellers do mês, ou seja, os livros mais consumidos 
pela burguesia contemporânea, estes, mesmo sendo ficção, são compostos quase que 
totalmente de narrativas em prosa. 
 
Gênero Dramático 
Trata-se do gênero teatral, cujo enredo é representado, sem a presença de um 
narrador. A rigidez do teatro clássico não permitia que uma mesma peça apresentasse 
cenas cômicas e trágicas. A liberdade de expressão romântica faz surgir o drama tal 
qual o conhecemos hoje, ou seja, a fusão da tragédia com a comédia numa mesma 
peça teatral, como podemos observar, retomando às palavras de Victor Hugo, no 
prefácio da peça Cromwell: 
 
 
Se tivéssemos o direito de dizer qual poderia ser, em nosso gosto, o estilo do 
drama, quereríamos um verso livre, franco, leal, que ousasse tudo dizer sem 
hipocrisia, tudo exprimir sem rebuscamento e passasse com um movimento 
natural da comédia à tragédia, do sublime ao grotesco; alternadamente 
positivo e poético, ao mesmo tempo artístico e inspirado, profundo e 
repentino, amplo e verdadeiro; que soubesse quebrar a propósito e deslocar 
a censura para disfarçar sua monotonia de alexandrino. 
(Victor Hugo – Prefácio da peça Cromwell). 
 
 
Esta liberdade de expressão se faz presente até hoje, à medida que, a partir do século 
XX, com a invenção do cinema e da televisão, a dramaturgia passa a ser veiculada pelo 
15 
 
vídeo em filmes e novelas que mesclam núcleos de humor com núcleos de maior 
densidade trágica, agradando ao público, hoje, não só burguês mas também as 
camadas menos favorecidas da população que passaram a ter acesso a essas mídias. 
 
O Subjetivismo 
Também denominado egocentrismo ou individualismo, o subjetivismo romântico nos 
faz levar em conta que, por não existir objetivismo total na arte, todas as escolas 
literárias têm a essência subjetiva, pois o escritor cria sua obra a partir de sua visão 
pessoal. Não obstante, no Romantismo, o subjetivismo vai ao extremo, já que a visão 
subjetiva ou pessoal do artistaofusca a realidade, originando três tipos de 
Romantismo: de idealização, de evasão e de oposição, que passaremos, agora, a 
abordar. 
 
Romantismo de Idealização 
Visando fugir do cotidiano sufocante, atitude também almejada pelo público burguês, 
o artista romântico mostra o mundo não como ele é mas como desejaria que fosse, 
decorrendo disso as seguintes formas de idealização: 
 
- Idealização da relação amorosa: não é qualquer história de amor que é romântica. O 
amor romântico é idealizado, havendo fidelidade entre os amantes. 
 
Dom Casmurro de Machado de Assis é uma história de amor, mas não é romântica, 
pois, para o protagonista Bentinho, sua amada esposa Capitu o traiu com o amigo 
Escobar. 
 
Outra característica do amor romântico é o platonismo, desencadeando o sofrimento 
do amante, que, desejando ter a pessoa amada eroticamente, só consegue tê-la no 
plano do pensamento. Isso pressupõe que o erotismo também emerge no texto 
16 
 
romântico, embora este se mantenha no plano do pensamento, configurando o 
platonismo erotizado. 
 
Disso decorre também a idealização da figura feminina, como uma dama inacessível, 
bela, lânguida e delicada. Observe o platonismo erotizado e a idealização da figura 
feminina nos versos abaixo de Álvares de Azevedo: 
 
 
“Se uma lágrima as pálpebras me inunda, 
 Se um suspiro nos seios treme ainda, 
 É pela virgem que sonhei... que nunca 
 Aos lábios me encostou a face linda!” 
(Lembrança de Morrer – Álvares de Azevedo) 
 
 
É inegável também o resgate da tradição lírica medieval das cantigas de amor 
trovadorescas, em que a dama inacessível desencadeia no eu lírico a coita, ou seja, o 
sofrimento amoroso. 
 
Vale ressaltar que o platonismo na literatura romântica traduz também a moral 
burguesa, segundo a qual a mulher deveria se manter casta até o casamento. 
 
- Idealização dos Protagonistas: nas narrativas, os protagonistas encarnam o bem em 
luta com os antagonistas, que encarnam o mal, impondo obstáculos à união dos 
amantes. Logo, emerge outra característica romântica: o maniqueísmo. 
 
O herói romântico é inspirado nos cavaleiros medievais: viris nas batalhas e nas justas, 
mas posicionando-se como vassalos diante da mulher amada. 
 
- Idealização da Pátria: consiste no nacionalismo ufanista, ou seja, na retratação da 
Pátria ideal, valorizando a cor local: paisagem, folclore, tradições. 
17 
 
Vamos refletir o porquê de o nacionalismo interessar ao público burguês do início do 
século XIX. Isso se deu pelo fato de a política de Napoleão em dominar toda a Europa 
fracassou. Portanto, à medida que as tropas francesas desocupavam os territórios 
tomados, a burguesia de cada país, então libertado, interessava-se em resgatar a 
identidade nacional. 
 
Nas Américas, a independência dos Estados Unidos motivou o processo de 
independência de cada colônia europeia pelo continente americano, inclusive o Brasil. 
O processo de independências, dessa forma, deflagrou o sentimento nacionalista na 
burguesia dos países americanos. 
 
Outra reflexão a ser feita é que não só histórias ou versos sobre amor perfeito 
configuram o Romantismo. Textos que expõem a Pátria idealizada, mesmo 
extrapolando a época do Romantismo, perpetuam o espírito romântico. Vamos a 
alguns exemplos: 
 
“O país estrangeiro mais belezas 
 Do que a pátria, não tem; 
 E este mundo não vale um só dos beijos 
 Tão doces duma mãe! 
 
Dá-me os sítios gentis onde eu brincava 
 Lá na quadra infantil; 
 Dá que eu veja uma vez o céu da pátria, 
 O céu do meu Brasil!(...)” 
( Canção do Exílio- Casimiro de Abreu – poeta romântico do século XIX ) 
 
“Por essas fontes murmurantes 
 Onde eu mato a minha sede 
 Onde a lua vem brincar. 
 Esse Brasil lindo e trigueiro 
 É o meu Brasil Brasileiro 
 Terra de samba e pandeiro...” 
(Aquarela do Brasil – Ary Barroso – compositor do século XX) 
 
18 
 
-Idealização do Índio: também denominada indianismo. Trata-se de uma forma de 
nacionalismo nas Américas por valorizar a raça local, tratando-se, portanto, de uma 
forma de busca da identidade nacional. 
 
O índio romântico é inspirado na tese do Bom Selvagem do iluminista francês 
Rousseau, segundo o qual o índio é puro e íntegro porque vive distante da corrompida 
civilização. 
 
No entanto, a Europa ainda é referência, já que os românticos das Américas se 
inspiraram também nos cavaleiros medievais para criar o índio heroico, caracterizado 
pela bravura e pela coragem. Tomemos como exemplos o poemeto épico I – Juca 
Pirama de Gonçalves Dias e o romance O Guarani de José de Alencar, no momento 
em que o índio Peri doma uma onça para presenteá-la a sua adorada Ceci. 
 
 
“Valente na guerra, 
 Quem há, como eu sou? 
 Quem vibra o tacape 
 Com mais valentia? 
 Quem golpes daria 
 Fatais, como eu dou? 
 — Guerreiros, ouvi-me; 
 — Quem há, como eu sou?” 
 
 
Mas (a onça) tinha em frente um inimigo digno dela, pela força e agilidade. 
Como a princípio, o índio havia dobrado um pouco os joelhos, e segurava na esquerda 
a longa forquilha, sua única defesa; os olhos sempre fixos magnetizavam o animal. No 
momento em que o tigre se lançara, curvou-se ainda mais; e fugindo com o corpo 
apresentou o gancho. A fera, caindo com a força do peso e a ligeireza do pulo, sentiu 
o forcado cerrar-lhe o colo, e vacilou. 
 
Então, o selvagem distendeu-se com a flexibilidade da cascavel ao lançar o bote; 
fincando os pés e as costas no tronco, arremessou-se e foi cair sobre o ventre da onça, 
19 
 
que, subjugada, prostrada de costas, com a cabeça presa ao chão pelo gancho, 
debatia-se contra o seu vencedor, procurando debalde alcançá-lo com as garras. 
 
Esta luta durou minutos; o índio, com os pés apoiados fortemente nas pernas da onça 
e o corpo inclinado sobre a forquilha, mantinha assim imóvel a fera, que há pouco 
corria a mata não encontrando obstáculos à sua passagem.” 
 
- Idealização da Religiosidade Cristã: O paganismo estético clássico continua a ter 
espaço como forma de erudição, mas a burguesia queria ver, na obra literária, sua 
crença. Daí os valores do cristianismo predominarem sobre a mitologia greco-romana 
clássica. 
 
“Estou só neste mudo santuário, 
 Eu só, com minha dor, com minhas penas! 
 E o pranto nos meus olhos represado, 
 Que nunca viu correr humana vista, 
 Livremente o derramo aos pés de Cristo, 
 Que tão bem suspirou, gemeu sozinho, 
 Que tão bem padeceu sem ter conforto, 
 Como eu padeço, e sofro, e gemo, e choro.(...) 
Quando ao sopé da cruz me chego aflito, 
 Sinto que o meu sofrer se vai minguando (...)” 
(O Templo – Gonçalves Dias) 
 
É importante ressaltar que os românticos eram panteístas, ou seja, viam Deus 
manifestado na natureza, como podemos observar no fragmento abaixo do poema O 
Mar de Gonçalves Dias: 
 
“Ó mar, o teu rugido é um eco incerto 
Da criadora voz, de que surgiste: 
Seja, disse; e tu foste, e contra as rochas 
As vagas compeliste. 
E à noite, quando o céu é puro e limpo, 
Teu chão tinges de azul, — tuas ondas correm 
Por sobre estrelas mil; turvam-se os olhos 
Entre dois céus brilhantes. 
 
Da voz de Jeová um eco incerto 
Julgo ser teu rugir; mas só, perene, 
Imagem do infinito, retratando 
20 
 
As feituras de Deus. 
Por isto, a sós contigo, a mente livre 
Se eleva, aos céus remonta ardente, altiva, 
E deste lodo terreal se apura, 
Bem como o bronze ao fogo. 
Férvida a Musa, co'os teus sons casada, 
Glorifica o Senhor de sobre os astros 
Co'a fronte além dos céus, além das nuvens, 
E co'os pés sobre ti.” 
 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
O Romantismo – Porta Voz da Revolução Burguesa 
 
 
 Com a vitória política da burguesia, na França de 1789, começa um ciclo 
cultural novo. Do outro lado do Canal da Mancha, na Inglaterra, a 
industrialização criava um modo novo de produção. Desaparecia o artesão e 
em seu lugar surgia o operário. Entre o operário e a mercadoria que ele 
produzia,estavam as máquinas, cada vez mais aperfeiçoadas. Para fazer a 
máquina funcionar, o operário precisava saber ler. Abriram-se escolas. A 
alfabetização espalhou-se, a difusão da leitura ampliou muito o mercado 
disponível para livros. 
Firma-se uma nova cultura, e nela novas linguagens redefinirão e expressarão 
a nova posição do homem (e da mulher...) no mundo e a natureza deste 
mundo. Homens, mulheres e mundos bastante diferentes dos vistos e 
registrados pelos olhos clássicos, medievais, renascentistas, barrocos e 
neoclássicos. 
 Na literatura, essa virada foi o Romantismo 
 LAJOLO, 2002, p: 75 
 
 
No texto acima, Marisa Lajolo ressalta que a revolução burguesa, ou seja, a tomada do 
poder pela burguesia originou-se de duas revoluções: a industrial, ocorrida na 
Inglaterra, e a francesa. Ambas difundindo a necessidade de alfabetização e de leitura 
para homens e mulheres. 
 
Disso decorre a valorização de duas faixas etárias até então pouco relevantes para a 
sociedade: a criança e o jovem. 
 
21 
 
A necessidade de alfabetização fez tomar força a literatura para crianças, em plena 
época romântica, com destaque para os irmãos Grimm. É o que afirma a escritora 
Bárbara Vasconcelos de Carvalho: E são os irmãos Grimm que, animados pelo espírito 
romântico, vão buscar as suas estórias, vivas, na pureza e na simplicidade das fontes 
folclóricas (...) 
 
Os irmãos alemães Brüder e Wilhelm Grimm, influenciados pela estética romântica, 
criaram as inesquecíveis histórias A Branca de Neve, A Bela Adormecida, nas quais 
verificamos os arquétipos românticos das heroínas castas e dos heróis idealizados, os 
príncipes encantados. 
 
 
A Bela Adormecida 
 
Também vale destacar o dinamarquês Hans Christian Andersen, autor de O Soldadinho 
de Chumbo e A Pequena Sereia, narrativas de influência romântica, ao tematizar 
relações amorosas, não obstante se dirijam ao público infantil. 
 
No que diz respeito ao jovem, é importante lembrar que, entre os nobres, os 
casamentos eram impostos com a finalidade de união de riquezas e obtenção de 
títulos, obrigando o jovem a submeter-se às determinações dos pais. 
Essa situação se mantém, de certa forma, no mundo burguês, mas, agora, com acesso 
maior à leitura, rapazes e moças, instigados pela ficção romântica, começarão a 
requerer o direito de união com quem realmente amam. 
22 
 
Visando atingir esse público jovem, os escritores do período trarão de volta um grande 
dramaturgo, que ficara esquecido por quase dois séculos, William Shakespeare, 
principalmente a sua tragédia sentimental Romeu e Julieta, os jovens que lutam contra 
as imposições dos pais. 
 
 
A cena clássica de "Romeu e Julieta" na versão cinematográfica de Franco Zeffirelli 
 
Observe, na bela fala de Julieta, o amor suplantando as convenções, os sobrenomes 
que herdaram de suas famílias rivais: os Capuletos, família de Julieta, e os Montechios, 
família de Romeu: 
 
 
"What's in a name? That which we call a rose 
By any other name would smell as sweet." 
 
"Que há em um nome? O que chamamos de rosa, 
com outro nome, exalaria o mesmo perfume tão agradável." 
 
 
Cabe agora a vocês, caros alunos, buscar conhecimento por meio do contato com 
essas e outras obras, identificando nelas o espírito romântico, pois, com certeza, a 
busca do conhecimento é a forma mais eficaz de se formar um leitor autônomo e 
crítico. 
 
 
 
 
23 
 
UNIDADE 02 - ROMANTISMO: CARACTERÍSTICAS CENTRAIS - II 
CONHECENDO A PROPOSTA DO TEMA 
Objetivo: Estudar as características centrais do Romantismo. 
 
Nesta unidade, daremos continuidade ao estudo das características centrais do 
Romantismo, ressaltando o romantismo de evasão e de oposição. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
Romantismo de Evasão ou Escapismo (Fuga da Realidade) 
Embora a idealização seja uma forma de evasão, há outros meios de fuga da realidade 
prosaica, como apresentaremos a seguir: 
 
Evasão no passado 
Também denominada nostalgia, passadismo ou saudosismo, trata-se da valorização do 
passado pessoal ou histórico, principalmente a Idade Média, o que configura o 
Medievalismo. Portanto o romântico se opõe ao carpe diem clássico e à retratação do 
momento contemporâneo, que virá com o Realismo. 
 
O medievalismo se proliferou na Europa. Já, pelo fato de o Novo Mundo não ter tido a 
cultura da Idade Média, os românticos das Américas vão adaptar o ambiente medieval 
à paisagem local, como ocorre em O Guarani de José de Alencar, na descrição da casa 
de Dom Antônio de Mariz, um verdadeiro castelo medieval em meio à floresta tropical 
brasileira: 
 
 “(...) vinham sempre abrigar-se na casa de Dom Antônio de Mariz, a qual 
fazia as vezes de um castelo feudal na Idade Média. O fidalgo recebia a 
todos como um rico-homem que devia proteção e asilo aos seus vassalos.” 
 
Já o sentimento nostálgico pessoal aflora com mais força nos versos de Casimiro de 
Abreu, conhecido como Poeta da Saudade: 
 
24 
 
“Oh! que saudades que tenho 
 Da aurora da minha vida, 
 Da minha infância querida 
 Que os anos não trazem mais!” 
 
 
Evasão na Natureza 
A natureza, no Romantismo, se torna expressiva, opondo-se à estática e convencional 
natureza árcade, sempre aprazível. Para os românticos, além de refúgio, a natureza é 
espelho do estado de alma do poeta, oscilando entre a alegria e a melancolia e, 
quando melancólica, torna-se noturna, definida na expressão latina Locus Horrendus. 
 
Observe a negação aos padrões clássicos ( ninfa, Horácio ) e a oscilação da natureza 
no poema Minha Musa de Gonçalves Dias. Neste poema, a musa é alegoria da Poesia: 
 
“Minha Musa não é como ninfa 
 Que se eleva das águas - gentil - 
 Co'um sorriso nos lábios mimosos, 
 Com requebros, com ar senhoril. (...) 
 
Não é como a de Horácio a minha Musa;(...) 
Ela ama a solidão, ama o silêncio, 
 Ama o prado florido, a selva umbrosa 
 E da rola o carpir. 
 Ela ama a viração da tarde amena, 
 O sussurro das águas, os acentos 
 De profundo sentir.(...)” 
 
 
Enquanto nos versos de Gonçalves Dias a natureza oscila, nos versos abaixo da autoria 
de Fagundes Varela o foco é a natureza locus horrendus: 
 
“Eu amo a noite quando deixa os montes, 
 Bela, mas bela de um horror sublime, 
 E sobre a face dos desertos quedos 
 Seu régio selo de mistério imprime.(...)” 
 
O Locus Horrendus também se manifesta em outras linguagens artísticas, como na 
pintura romântica do inglês William Turner. Na tela, o mar revolto, a tempestade, a 
escuridão do céu carregam de dramaticidade a imagem. 
25 
 
 
William Turner – Naufrágio 
 
 
Evasão no Sonho, na Fantasia, no Sobrenatural 
O romântico prefere o sonho, a fantasia à realidade, pois esta não condiz ao ideal 
desejado pelo artista e pelo público burguês. Disso resulta o amor, o erotismo, a 
mulher, existentes apenas na imaginação do poeta, o que pode ser verificado no 
excerto do poema Ideias Íntimas de Álvares de Azevedo: 
 
“Oh! ter vinte anos sem gozar de leve 
 A ventura de uma alma de donzela! 
 E sem na vida ter sentido nunca 
 Na suave atração de um róseo corpo 
 Meus olhos turvos se fechar de gozo! 
 Oh! nos meus sonhos, pelas noites minhas 
 Passam tantas visões sobre meu peito!” 
 
A evasão no mundo da fantasia traz à tona também o gosto pelo sobrenatural, 
fazendo proliferar narrativas de terror como Frankenstein de Mary Shelley, The Legend 
of Sleepy Hollow (A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça) de Washington Irwing, além dos 
contos de Noite na Taverna de Álvares de Azevedo, no Brasil. 
 
O sobrenatural alia-se ao locus horrendus no gênero lírico, como podemos notar nos 
versos de Gonçalves de Magalhães: 
26 
 
“Que horrenda noite! ... que pavor me cerca! 
Por toda parte mil fantasmas se erguem 
De espesso fumo, sem cessar vibrando 
Olhos de brasas. (...)” 
 
Evasão na vida desregrada 
Consiste no apego à vida boêmia seja na ficção ou na vida real, levandoo poeta ou o 
eu lírico se entregar ao vinho, ao ópio, ás orgias. 
 
“Oh! não maldigam o mancebo exausto 
 Que nas orgias gastou o peito insano... 
 Que foi ao lupanar pedir um leito, 
 Onde a sede febril lhe adormecesse! 
 
Não podia dormir! nas longas noites 
 Pediu ao vício os beijos de veneno... 
 E amou a saturnal, o vinho, o jogo 
 E a convulsão nos seios da perdida! (...)” 
(Oh Não Maldigam – Álvares de Azevedo) 
 
Este gosto pelo sobrenatural e pela bebida é influência do poeta inglês George 
Gordon, mais conhecido como Lord Byron, que criou a moda bizarra de tomar vinho 
em crânio humano, enquanto se narram estórias de terror. Tomemos como exemplo o 
poema abaixo: 
 
Versos Inscritos Numa Taça Feita de Um crânio – Lord Byron 
 
Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito 
Vê em mim um crânio, o único que existe 
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva, 
Tudo aquilo que flui jamais é triste. 
 
Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri; 
Que renuncie e terra aos ossos meus 
Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme 
Lábios mais repugnantes do que os teus. 
 
Onde outrora brilhou, talvez, minha razão, 
Para ajudar os outros brilhe agora e; 
Substituto haverá mais nobre que o vinho 
Se o nosso cérebro já se perdeu? 
 
Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus 
Já tiverdes partido, uma outra gente 
Possa te redimir da terra que abraçar-te, 
27 
 
E festeje com o morto e a própria rima tente. 
 
E por que não? Se as fontes geram tal tristeza 
Através da existência -curto dia-, 
Redimidas dos vermes e da argila 
Ao menos possam ter alguma serventia. 
( tradução Paulo H. Britto ) 
 
 
 
Evasão na Solidão, na Melancolia, na Morte 
Configura o sentido trágico da existência, já que, decepcionado com os ideais que não 
se concretizam, o poeta prefere estar só, caindo em depressão ou melancolia e 
culminando até mesmo no desejo de morte. 
 
“Minh'alma é como o deserto 
 De dúbia areia coberto, 
 Batido pelo tufão; 
 É como a rocha isolada, 
 Pelas espumas banhada, 
 Dos mares na solidão.(...)” 
( Tristeza – Fagundes Varela ) 
 
“Meu peito de gemer já está cansado, 
 Meus olhos de chorar; 
 E eu sofro ainda, e já não posso alivio 
 Sequer no pranto achar!(...)” 
( Sofrimento – Gonçalves Dias ) 
 
“Pensamento gentil de paz eterna 
 Amiga morte, vem. Tu és o termo 
 De dous fantasmas que a existência formam, 
 — Dessa alma vã e desse corpo enfermo.(...)” 
(Morte – Junqueira Freire) 
 
Romantismo de Oposição 
É a terceira vertente deste estilo de época, decorrente do subjetivismo romântico. 
Opondo-se á visão idealizada da Pátria e à alienação melancólica, os românticos de 
oposição mantêm a crença nas revoluções, nas lutas libertárias, projetando-se não no 
passado, mas no futuro, almejando o progresso e a concretização de suas utopias. É a 
vertente politizada do Romantismo, tendo surgido na França com o escritor Victor 
Hugo, autor de Os Miseráveis, romance social, que tematiza a injustiça humana. No 
28 
 
Brasil, o maior representante foi Castro Alves, que, no poema O Livro e a América, vê 
no livro, ou seja, no saber, o meio de instigar revoluções e levar o progresso a todos 
 
“Oh! Bendito o que semeia 
 Livros... livros à mão cheia... 
 E manda o povo pensar! 
 O livro caindo n'alma 
 É germe — que faz a palma, 
 É chuva — que faz o mar. 
 
Vós, que o templo das ideias 
 Largo — abris às multidões, 
 Pra o batismo luminoso 
 Das grandes revoluções, 
 Agora que o trem de ferro 
 Acorda o tigre no cerro 
 E espanta os caboclos nus, 
 Fazei desse "rei dos ventos" 
 — Ginete dos pensamentos, 
 — Arauto da grande luz! ...(...)” 
 
Além das três vertentes estudadas, faz-se necessário abordar a linguagem romântica 
impregnada de sentimentalismo. 
 
Sentimentalismo e Função Emotiva da Linguagem 
Concluindo as características centrais do Romantismo, constatamos que o romântico 
oscila entre a idealização e a depressão; a alienação e a postura politizada. Isso decorre 
do fato de o espírito romântico ser guiado pelo sentimentalismo, ou seja, pela emoção 
e não pela razão. Dessa forma, no texto romântico, dá-se o predomínio da função 
emotiva da linguagem, a qual é observada nos seguintes recursos linguísticos e 
estilísticos: descritivismo idealizante; emprego de interjeições, exclamações, reticências; 
adjetivação abundante; preferência pela metáfora, hipérbole, prosopopeia, antítese e 
sinestesia. Vejamos o exemplo a seguir: 
 
“Morrer... quando este mundo é um paraíso, 
 E a alma um cisne de douradas plumas: 
 Não! o seio da amante é um lago virgem... 
 Quero boiar à tona das espumas. 
 Vem! formosa mulher — camélia pálida, 
 Que banharam de pranto as alvoradas, 
29 
 
 Minh'alma é a borboleta, que espaneja 
 O pó das asas lúcidas, douradas ... 
E a mesma voz repete-me terrível, 
 Com gargalhar sarcástico: — impossível!(...) 
 
Ai! morrer — é trocar astros por círios, 
 Leito macio por esquife imundo, 
Trocar os beijos da mulher — no visco 
 Da larva errante no sepulcro fundo, 
(Castro Alves – Mocidade e Morte) 
 
Neste excerto, temos, no plano do conteúdo, o lirismo existencial de Castro Alves, que 
repudia a morte precoce e anseia pela concretização do amor e da vida. 
 
No plano da expressão, a função emotiva da linguagem contamina o texto, numa 
sucessão de metáforas: mundo/paraíso; alma/cisne de douradas plumas; seio da 
amante/lago virgem, espumas; Mulher/camélia pálida; alma/borboleta. 
 
O emprego das reticências, no primeiro verso, produz efeito de suspensão do 
pensamento, sugerindo inconformidade com a morte, o que é ratificado no emprego 
da exclamação, após o advérbio de negação “Não!”, mas contrastando com a 
exclamação eufórica após o imperativo “Vem!”. 
 
O extravasamento emotivo é salientado pela hipérbole presente na combinação da 
forma verbal “banhar” com o substantivo “pranto”: “Que banharam de pranto as 
alvoradas. 
 
A descrição se torna idealizante em relação à vida e à mulher, por meio da adjetivação 
de valor semântico positivo: “douradas”. “virgem”, “formosa”, “pálida”, “lúcidas”, 
“douradas”. “macio”, mas deixa de ser idealizante pela adjetivação de valor semântico 
negativo em relação à morte: “sarcástico”, “imundo”, “errante”, “fundo”. Note que a voz 
referida no texto é da morte, que, portanto, se personifica pelo recurso estilístico 
denominado prosopopeia. 
30 
 
Portanto instala-se, no texto, uma série de antíteses relativas à vida e à morte: “astros” x 
“círios”, “leito macio” x “esquife imundo”, “beijos da mulher” x “visco da larva”. E essas 
antíteses fazem emergir a sinestesia, em que “astros”, “círios” sugerem luz, visão; “leito 
macio”, “beijos” e “visco”, tato. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
O Polêmico Espírito Romântico 
 
“O conceito de literatura como transbordamento de uma alma para outra 
parece durar até hoje. Às vezes, com Caetano Veloso, acho que (ainda) 
somos todos um pouco muito românticos.” 
LAJOLO, 2002, p: 78 
 
Iniciemos nossa busca de conhecimento, tomando como referência o excerto de 
Marisa Lajolo, que, citando Caetano Veloso, afirma estar o espírito romântico ainda 
está presente entre nós, conforme podemos comprovar numa estrofe da canção Muito 
Romântico: 
 
“Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior 
 Com todo o mundo podendo brilhar no cântico 
 Canto somente o que não pode mais se calar 
 Noutras palavras sou muito romântico” 
(Caetano Veloso) 
 
No entanto a permanência do espírito romântico até os dias atuais foi marcada por 
muita polêmica, ora sendo assimilado ora satirizado ou rejeitado. 
 
Realismo e Parnasianismo, escolas literárias subsequentes ao Romantismo, rejeitaram o 
espírito romântico. A primeira em prol de uma visão mais crítica da sociedade, e a 
segunda por pregar a contenção emotiva. Tomemos como exemplo um trecho da 
obra realista Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado deAssis: 
 
“Não digo que já lhe coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é 
romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas(...)” 
 
31 
 
Todavia o espírito romântico contaminou o rígido soneto machadiano, no momento da 
perda da esposa, fazendo-o considerar-se morto junto com ela: 
 
A Carolina 
 
Querida, ao pé do leito derradeiro 
Em que descansas dessa longa vida, 
Aqui venho e virei, pobre querida, 
Trazer-te o coração do companheiro. 
 
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro 
Que, a despeito de toda a humana lida, 
Fez a nossa existência apetecida 
E num recanto pôs o mundo inteiro. 
 
Trago-te flores - restos arrancados 
Da terra que nos viu passar unidos 
E ora mortos nos deixa e separados. 
 
Que eu, se tenho nos olhos malferidos 
Pensamentos de vida formulados, 
São pensamentos idos e vividos. 
 
Já os parnasianos, defensores da arte clássica, rejeitaram os padrões estéticos 
românticos, como podemos verificar na estrofe de Carvalho Junior: 
 
Profissão de Fé 
 
“Odeio as virgens pálidas, cloróticas, 
 Beleza de missal que o romantismo 
 Hidrófobo apregoa em peças góticas, 
 Escritas nuns acessos de histerismo.” 
 
Essa postura não encontrou total ressonância no parnasiano Olavo Bilac, que, 
assimilando o espírito romântico, compôs um de seus mais belos e famosos sonetos: 
 
Via Láctea 
 
"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo 
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto, 
Que, para ouvi-las, muita vez desperto 
E abro as janelas, pálido de espanto... 
 
E conversamos toda a noite, enquanto 
A Via Láctea, como um pálio aberto, 
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, 
32 
 
Inda as procuro pelo céu deserto. 
 
Direis agora: "Tresloucado amigo! 
Que conversas com elas? Que sentido 
Tem o que dizem, quando estão contigo?" 
 
E eu vos direi: "Amai para entendê-las! 
Pois só quem ama pode ter ouvido 
Capaz de ouvir e entender estrelas" 
 
No final do século XIX, o Simbolismo resgatou, embora de maneira diferente, o espírito 
romântico, que se torna mais evidente na temática da amada morta presente no 
soneto de Alphonsus de Guimaraens: 
 
Hão de chorar por ela os cinamomos, 
Murchando as flores ao tombar do dia. 
Dos laranjais hão de cair os pomos, 
Lembrando-se daquela que os colhia. 
 
As estrelas dirão - "Ai! nada somos, 
Pois ela se morreu silente e fria... " 
E pondo os olhos nela como pomos, 
Hão de chorar a irmã que lhes sorria. 
 
A lua, que lhe foi mãe carinhosa, 
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la 
Entre lírios e pétalas de rosa. 
 
Os meus sonhos de amor serão defuntos... 
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la, 
Pensando em mim: - "Por que não vieram juntos?" 
 
No início do século XX, pré-modernistas polemizaram com o espírito idealizador 
romântico, como é o caso de Monteiro Lobato com seu artigo intitulado Jeca Tatu que, 
referindo-se à personagem indígena Peri de José de Alencar, faz um ataque à 
idealização do índio e do sertanejo: 
 
“Morreu Peri, incomparável idealização dum homem natural como o sonhava 
Rousseau, protótipo de tantas perfeições humanas, que no romance, ombro 
a ombro com altos tipos civilizados, a todos sobreleva em beleza d'alma e 
corpo. 
Contrapôs-lhe a cruel etrologia dos sertanistas modernos um selvagem real, 
feio e brutesco, anguloso e desinteressante, tão incapaz. muscularmente, de 
arrancar uma palmeira, como incapaz, moralmente, de amar Ceci.(...) 
Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade!” 
33 
 
 
Também no século XX, os modernistas satirizaram o espírito romântico, como, por 
exemplo, Oswald de Andrade, que, em seu Manifesto Antropófado, critica o fato de 
José de Alencar ter criado a figura do índio subserviente ao branco, a Dom Antônio de 
Mariz, pai de sua amada Ceci. 
 
“ Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de 
Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.” 
 
Entretanto o espírito romântico manteve-se presente em várias obras do modernista 
Vinícius de Moraes, inclusive no seu mais famoso poema, o Soneto de Fidelidade: 
 
De tudo, ao meu amor serei atento 
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto 
Que mesmo em face do maior encanto 
Dele se encante mais meu pensamento. 
 
Quero vivê-lo em cada vão momento 
E em seu louvor hei de espalhar meu canto 
E rir meu riso e derramar meu pranto 
Ao seu pesar ou seu contentamento. 
 
E assim quando mais tarde me procure 
Quem sabe a morte, angústia de quem vive 
Quem sabe a solidão, fim de quem ama 
 
Eu possa me dizer do amor (que tive): 
Que não seja imortal, posto que é chama 
Mas que seja infinito enquanto dure 
 
Portanto, caro aluno, com o conteúdo abordado nas unidades 1 e 2, busque mais 
conhecimento, procurando tornar-se um leitor ou ouvinte cada vez mais crítico, 
identificando vozes que ratificam ou retificam o espírito romântico. 
 
 
 
 
 
 
34 
 
UNIDADE 03 - ROMANTISMO NO BRASIL: 1ª GERAÇÃO NA POESIA: A POESIA 
NACIONALISTA DE GONÇALVES DIAS 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
Objetivos: Apresentar um panorama das condições do surgimento do romantismo. 
 
Nesta unidade, apresentaremos um panorama das condições para o surgimento do 
Romantismo no Brasil, bem como o estudo da primeira geração da poesia romântica 
brasileira, em sua mais representativa voz: Gonçalves Dias, em sua vertente 
nacionalista. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
Contexto Histórico Brasileiro 
Apenas para fins didáticos, divide-se a história da literatura em datas, pois sabemos 
que cada estilo de época vai se formando gradativamente indiferente a datas oficiais. 
Portanto, somente com finalidade didática, fixa-se o Romantismo no Brasil de 1836 
com a publicação de Suspiros Poéticos e Saudades de Gonçalves de Magalhães a 1881 
com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis e O 
Mulato de Aluísio Azevedo, dando início ao Realismo e ao Naturalismo brasileiros 
respectivamente. 
 
Dessa forma, o Romantismo foi sendo germinado no Brasil de 1808, com a vinda da 
família real portuguesa, até os anos pós- independência. 
 
Fugida de Napoleão, a família real portuguesa se fixou no Rio de Janeiro de 1808 a 
1821, o que proporcionou grande desenvolvimento cultural, como a criação de 
tipografias, da imprensa periódica, de museus, bibliotecas e teatros. 
 
35 
 
Logo a estada da família real no Rio gerou as condições para a formação de um 
público leitor local e para o surgimento da função social do escritor. 
 
Em 7 de setembro de 1822, Dom Pedro I proclama a Independência e dá início ao 
primeiro reinado, que se estende até 1831, quando o monarca abdica ao trono, 
assumindo-o seu filho Dom Pedro II. 
 
Dessa forma, o Romantismo inicia oficialmente no Brasil, no início do segundo reinado, 
quando artistas, escritores e o público burguês buscavam a consolidação de nossa 
independência, a nossa identidade nacional. Observe esse anseio nas palavras de 
Gonçalves de Magalhães num ensaio para a Revista Niterói: 
 
 
“Não, oh! Brasil! No meio do geral merecimento tu não deves ficar imóvel e 
tranquilo, como o colono sem ambição e sem esperança. O germe da 
civilização, depositado em teu seio pela Europa, não tem dado ainda todos 
os frutos que deveria dar, vícios radicais têm tolhido o seu desenvolvimento. 
Tu afastaste do teu colo a mão estranha que te sufocava, respira livremente, 
respira e cultiva as ciências, as artes, as letras, as indústrias, e combate tudo o 
que entrevá-las pode.” 
 
 
Observe o ufanismo presente na tela O Grito do Ipiranga do pintor romântico brasileiro 
Pedro Américo: 
 
 
O Grito do Ipiranga - Pedro_Américo 
 
 
36 
 
A Primeira Geração da Poesia Romântica Brasileira 
A poesia romântica brasileira se divide em três gerações. Nesta unidade, daremos início 
ao estudo da 1ª geração por meio de sua voz mais representativa, GonçalvesDias. 
A 1ª geração romântica, por estar próxima à independência do Brasil, apresenta como 
principais características o nacionalismo ufanista e o indianismo. 
 
Gonçalves Dias 
 
1823 – 1864 
 
Aspectos Biográficos 
O maranhense Antônio Gonçalves Dias é filho de uma união não oficializada entre um 
português com uma mestiça cafuza brasileira (mestiça de índio e negro). O pai 
abandonou a mãe do poeta, vindo a se casar com Adelaide Ramos de Almeida, com a 
qual o menino passou a viver. Dona Adelaide deu ao enteado acesso aos estudos. 
 
Foi estudar em Portugal, em 1838, onde ingressou na Faculdade de Direito da 
Universidade de Coimbra, retornando ao Brasil em 1845, após bacharelar-se. 
 
Em Coimbra, travou amizade com os escritores românticos lusitanos Almeida Garrett, 
Alexandre Herculano e Antonio Feliciano de Castilho. Em terra lusitana e saudoso do 
Brasil, escreveu a Canção do Exílio e parte dos poemas de "Primeiros Cantos" e 
"Segundos Cantos". 
37 
 
Um ano depois de ter retornado ao Maranhão, apaixonou-se por Ana Amélia Ferreira 
Vale. Várias de suas poesias lírico-amorosas, inclusive “Ainda uma vez — Adeus” foram 
escritas para ela. 
 
Viajou para o Rio de Janeiro, onde atuou como jornalista e professor, divulgando o 
Romantismo no Brasil. 
 
Em 1851 retornou a São Luís do Maranhão, onde pediu Ana Amélia em casamento, 
mas a família da moça, em virtude da ascendência mestiça do escritor, opôs-se à 
união. 
 
No mesmo ano retornou ao Rio de Janeiro, onde se casou com Olímpia da Costa. 
Voltou para a Europa, retornou ao Brasil e novamente viajou para Europa a fim de 
tratar de problemas de saúde. Não obtendo resultados regressou ao Brasil em 1864 no 
navio Ville de Boulogne, que naufragou na costa maranhense; salvaram-se todos, 
exceto o poeta. 
 
Estilo 
Gonçalves Dias destacou-se na poesia, abordando, segundo os padrões do 
Romantismo, vários temas: a Pátria, o índio, o amor e Deus manifestado na natureza. 
 
Seus principais livros são: Primeiros Cantos, Segundos Cantos, Novos Cantos e Últimos 
Cantos. 
 
É considerado o melhor poeta romântico brasileiro, principalmente no manuseio com o 
ritmo e a métrica. Vale a pena ler o poema A Tempestade, no qual o poeta trabalha 
com quase todos os metros, numa perfeita adequação entre os planos da forma e do 
conteúdo. 
38 
 
A Poesia Nacionalista 
 
Kennst du das Land, wo die Citronen blühen, 
Im dunkeln die Gold-Orangen glühen, 
Kennst du es wohl? — Dahin, dahin! 
Möcht ich... ziehn.[ 
 
Goethe 
 
 
Canção do Exílio 
 
 
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá; 
As aves que aqui gorjeiam, 
Não gorjeiam como lá. 
 
Nosso céu tem mais estrelas, 
Nossas várzeas têm mais flores, 
Nossos bosques têm mais vida, 
Nossa vida mais amores. 
 
Em cismar, sozinho, à noite, 
Mais prazer encontro eu lá; 
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá. 
 
Minha terra tem primores, 
Que tais não encontro eu cá; 
Em cismar - sozinho, à noite - 
Mais prazer encontro eu lá; 
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá. 
 
Não permita Deus que eu morra, 
Sem que eu volte para lá; 
Sem que desfrute os primores 
Que não encontro por cá; 
Sem qu'inda aviste as palmeiras, 
Onde canta o Sabiá. 
 
 
Análise do Poema 
No que diz respeito ao plano da forma, ressalta-se a estrutura poemática, que rejeita a 
tradição clássica dos decassílabos em soneto e adere à liberdade formal romântica e à 
tradição medieval, a redondilha maior, disposta em três quartetos e duas sextilhas. 
39 
 
Essa estrutura corrobora a característica romântica de adequação do plano da forma 
ao conteúdo, uma vez que, por se tratar de uma “canção”, a popular e musical 
redondilha maior, com acentos rítmicos predominantemente nas 3ª e 7ª sílabas, 
imprime musicalidade ao poema, o que é reforçado pelos refrões “minha terra tem 
palmeiras / Onde canta o sabiá” e “Em cismar sozinho à noite / Mais prazer encontro 
eu lá”, além do paralelismo na segunda estrofe, ou seja, a repetição parcial “Nosso (s), 
Nossa (s) ...“tem mais”. Merece também destaque a rima oxítona em /a/. 
 
Quanto ao plano do conteúdo, trata-se de um poema lírico-saudosista e nacionalista, 
no qual aflora o ufanismo romântico, principalmente por meio dos elementos da 
natureza brasileira. 
 
O nacionalismo, por meio da natureza, já vem sugerido na epígrafe transcrita de 
Goethe. Eis a tradução: “Conheces o país onde florescem as laranjeiras? Ardem na 
escura fronde os frutos de ouro... Conhecê-lo – Para lá quisera eu ir!”. 
 
Já na primeira estrofe, vem à tona o subjetivismo romântico “minha”, que torna 
poeticamente possível o inverossímil: o sabiá cantando na palmeira. Este tipo de 
vegetação não é o habitat do sabiá, mas, na poesia romântica, a visão pessoal do 
poeta prevalece sobre a realidade, fundindo a ave e a vegetação, que melhor 
simbolizam a Pátria. 
 
Também, na primeira estrofe, emerge a antítese que alicerça o texto, os advérbios “lá” 
(Brasil) e “aqui” (Portugal). 
 
Na segunda estrofe, o eu lírico amplia o subjetivismo ao flexionar o pronome 
possessivo “nosso”, trazendo o leitor brasileiro para dentro da obra. Salienta-se a 
40 
 
natureza brasileira superior à da antiga Metrópole e culmina no sentimentalismo 
romântico: “Nossa vida mais amores”. 
 
A terceira estrofe inicia com um resquício clássico, o plano platônico gerando equilíbrio 
no eu lírico, pois, ao pensar “cismar” na Pátria, a solidão, típica dos românticos, é 
suplantada pelo prazer proporcionado pelas lembranças da terra natal. 
 
A quarta estrofe ratifica as anteriores e conduz ao fecho, exemplificando a religiosidade 
romântica: o apelo do eu lírico a Deus para que possa morrer na Pátria onde nasceu. 
 
Notável é o senso de equilíbrio na quase ausência de adjetivos na exaltação à Pátria, 
conforme justifica Antônio Cândido: 
 
 
A Canção do Exílio (banalizada ao ponto de perder a magia que no entanto a 
percorre de ponta a ponta) representa bem o seu ideal literário; beleza na 
simplicidade, fuga ao adjetivo, procura da expressão de tal maneira justa que 
outra seria difícil. 
CÂNDIDO, 2002, p: 21 
 
 
Note, nas palavras de Cândido, que a Canção do Exílio foi banalizada por muitos, 
porém houve também os que a exaltassem. Tanto a banalização quanto a exaltação se 
deram por meio do diálogo intertextual, como veremos a seguir. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
As Várias Canções do Exílio 
Talvez por ser o mais popular poema brasileiro, a Canção do Exílio foi a obra literária 
que mais recebeu diálogo intertextual na história da nossa literatura. 
 
41 
 
Décadas depois de Gonçalves Dias tê-la escrito, a república foi proclamada no Brasil e 
o Hino Nacional foi composto. Na letra do hino, encontramos um diálogo intertextual 
com o poema romântico, ratificando-lhe o caráter ufanista. Eis o trecho do hino: 
 
“Nossos bosques têm mais vida 
Nossa vida no teu seio mais amores” 
 
No século XX, durante a Segunda Guerra Mundial, os soldados brasileiros foram 
combater na Itália e o poeta modernista Guilherme de Almeida compôs a Canção do 
Expedicionário, a qual também ratifica o ufanismo romântico: 
 
“Por mais terras que eu percorra, 
 Não permita Deus que eu morra 
 Sem que volte para lá; 
 Sem que leve por divisa 
 Esse "V" que simboliza 
 A vitória que virá” 
 
Durante a ditadura militar de 1964, a canção Sabiá de Tom Jobim e Chico Buarque 
derrotava, num Festival de MPB, a música preferida do público, Pra Não Dizer Que 
Não Falei das Flores de Geraldo Vandré. A canção Sabiá, dialogando intertextualmente 
com a Canção do Exílio de Gonçalves Dias, fazia alusão aos exilados políticos. Eis a letra 
e fica a sugestão de ouvir a música: 
 
Vou voltar 
Sei que ainda vou voltar 
Para o meu lugar 
Foi lá e é ainda lá 
Que eu hei de ouvir cantar 
Uma sabiá 
 
Vou voltar 
Sei que ainda vou voltar 
Vou deitar à sombra 
De um palmeira 
Que já não há 
Colhera flor 
Que já não dá 
E algum amor Talvez possa espantar 
As noites que eu não queira 
E anunciar o dia 
 
42 
 
Vou voltar 
Sei que ainda vou voltar 
Não vai ser em vão 
Que fiz tantos planos 
De me enganar 
Como fiz enganos 
De me encontrar 
Como fiz estradas 
De me perder 
Fiz de tudo e nada 
De te esquecer 
 
Vou voltar 
Sei que ainda vou voltar 
E é pra ficar 
Sei que o amor existe 
Não sou mais triste 
E a nova vida já vai chegar 
E a solidão vai se acabar 
E a solidão vai se acabar 
 
No entanto a Canção do Exílio foi talvez mais satirizada do que ratificada, 
principalmente pelos modernistas. Na Canção do Exílio, abaixo transcrita, o modernista 
Murilo Mendes satiriza o Brasil aculturado, sem identidade nacional: 
 
Minha terra tem macieiras da Califórnia 
onde cantam gaturamos de Veneza. 
Os poetas da minha terra 
são pretos que vivem em torres de ametista, 
os sargentos do exército são monistas, cubistas, 
os filósofos são polacos vendendo a prestações. 
A gente não pode dormir 
com os oradores e os pernilongos. 
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda. 
Eu morro sufocado 
em terra estrangeira. 
Nossas flores são mais bonitas 
nossas frutas mais gostosas 
mas custam cem mil réis a dúzia. 
 
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade 
e ouvir um sabiá com certidão de idade! 
 
Agora é com você, prezado aluno, busque mais conhecimento, com olhos e ouvidos 
atentos aos textos e canções com os quais você tiver contato, pois neles poderá haver 
aquele gorjeio do sabiá ou o saudosismo do poeta romântico distante da Pátria. 
43 
 
UNIDADE 04 - A POESIA INDIANISTA E LÍRICO-AMOROSA DE GONÇALVES DIAS 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
Objetivos: Estudar a poesia indianista e lírica de Gonçalves Dias. 
 
Nesta unidade, estudaremos a poesia indianista e lírico-amorosa de Gonçalves Dias, 
ressaltando o poemeto épico I-Juca Pirama e o diálogo intertextual com a tradição 
lírica trovadoresca lusitana. Também estabeleceremos um paralelo entre a visão do 
índio no Romantismo e no Modernismo. 
 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
A Poesia Indianista 
I – Juca Pirama 
O título deste poemeto épico é o nome do protagonista, um guerreiro indígena tupi, e 
significa “aquele que deve morrer”. Isso porque um de seus temas é a antropofagia, ou 
seja, a crença de que, se a carne de um bravo guerreiro for digerida, os devoradores se 
nutrem de sua força e valentia. 
 
Se Gonçalves Dias fosse seguir o rigor clássico, ele manteria os versos decassílabos por 
todo o poema. No entanto, seguindo a liberdade formal romântica, o poeta opta pela 
flexibilidade do metro e do ritmo, adaptando-os aos momentos da narrativa. Trata-se 
de um trabalho de mestre, conforme afirma Antônio Cândido: 
 
“A rotação psicológica do poema, as alternativas de pasmo e exaltação, se 
realizam de modo impecável na estrutura melódica, nos movimentos 
marcados pela variação de ritmo e amparados na escolha dos vocábulos.” 
CÂNDIDO, 2002, p: 31 
 
O poema inicia com a descrição do ritual antropofágico realizado pelos bravos 
Timbiras. Juca Pirama é o prisioneiro, que mantém uma calma apenas aparente. 
44 
 
Observe, no plano da forma, a alternância de versos decassílabos e tetrassílabos, 
dando um ritmo de suspense e terror respectivamente. 
 
“O prisioneiro, cuja morte anseiam, 
 Sentado está, 
O prisioneiro, que outro sol no ocaso 
 Jamais verá! 
A dura corda, que lhe enlaça o colo, 
 Mostra-lhe o fim 
Da vida escura, que será mais breve 
 Do que o festim! 
Contudo os olhos d'ignóbil pranto 
 Secos estão; 
Mudos os lábios não descerram queixas 
 Do coração. 
Mas um martírio, que encobrir não pode, 
 Em rugas faz 
A mentirosa placidez do rosto 
 Na fronte audaz!” 
 
Em seguida, Juca Pirama se apresenta aos Timbiras e expõe seus sentimentos. O 
protagonista revela que ele e o velho e cego pai foram os últimos remanescentes da 
tribo. Por isso, implora, chorando, sua liberdade para que possa cuidar do pai já idoso 
e doente, prometendo, assim que este morrer, entregar-se, pois se julga digno de ser 
devorado. 
 
Perceba, no plano da forma, a redondilha menor, com acento rítmico na 2ª e 5ª sílaba, 
dando o efeito tanto da força do guerreiro quanto do som dos tambores indígenas: 
 
“Meu canto de morte, 
 Guerreiros, ouvi: 
 Sou filho das selvas, 
 Nas selvas cresci; 
 Guerreiros, descendo 
 Da tribo tupi. 
 
 Da tribo pujante, 
 Que agora anda errante 
 Por fado inconstante, 
 Guerreiros, nasci; 
 
 Sou bravo, sou forte, 
 Sou filho do Norte; 
45 
 
 Meu canto de morte, 
 Guerreiros, ouvi.(...) 
 
Ao velho coitado 
De penas ralado, 
 
Já cego e quebrado, 
Que resta? - Morrer. 
Enquanto descreve 
O giro tão breve 
Da vida que teve, 
Deixai-me viver!(...) 
 
Guerreiros, não coro 
Do pranto que choro: 
Se a vida deploro, 
Também sei morrer.” 
 
Vendo-o chorar, o chefe Timbira o liberta por julgá-lo um covarde indigno de ser 
devorado. Envergonhado, Juca Pirama parte para ser arrimo do pai. No plano da 
forma, vêm à tona os diálogos, típicos do gênero dramático, alternando o solene 
decassílabo e a agilidade dos metros curtos: 
 
“- És livre; parte. 
- E voltarei. 
- Debalde. 
- Sim, voltarei, morto meu pai. 
- Não voltes! (...) 
 
- Mentiste, que um Tupi não chora nunca, 
E tu choraste!... parte; não queremos 
Com carne vil enfraquecer os fortes.” 
 
O protagonista reencontra o pai e lhe conta o ocorrido. O pai, idoso guerreiro altivo, o 
amaldiçoa e o expulsa, uma vez que, para os bravos tupis, é melhor morrer 
reconhecido como herói do que viver como pai de um covarde. 
 
No plano da forma, os versos eneassílabos, com acento rítmico na 3ª, 6ª e 9ª sílabas, 
dão efeito de lentidão e cansaço na fala do velho pai, dirigindo-se ao filho: 
 
“Tu choraste em presença da morte? 
Na presença de estranhos choraste? 
Não descende o cobarde do forte; 
46 
 
Pois choraste, meu filho não és! 
Possas tu, descendente maldito 
De uma tribo de nobres guerreiros, 
Implorando cruéis forasteiros, 
Seres presa de vis Aimorés.(...) 
Sê maldito, e sozinho na terra; 
 Pois que a tanta vileza chegaste, 
 Que em presença da morte choraste, 
 Tu, cobarde, meu filho não és." 
 
Com o brio ferido, Juca Pirama retorna à tribo Timbira. O pai o segue. O herói deseja 
provar ser digno de ser devorado, propondo lutar contra todos os guerreiros timbiras. 
Assim o faz e sai vencedor, sendo reconhecido como um bravo pelo chefe e pelo pai. 
Ironicamente, o pai chora de emoção ao constatar a grandeza do filho, que será enfim 
devorado, por ser um bravo guerreiro. Daí o título, I – Juca Pirama (aquele que deve 
morrer). 
 
Observe que o fato de o herói ter chorado, caracteriza-o como personagem romântica 
e lírica. Já o choro do pai também o faz uma personagem lírica, mas, agora, pelo 
reconhecimento do caráter épico do filho, que provou sua bravura. A progressão 
narrativa faz, portanto, vir à tona o sentimentalismo romântico aliado à idealização do 
protagonista, inspirado na coragem dos cavaleiros medievais. 
 
“Este sim, que é meu filho muito amado! 
E pois que o acho enfim, qual sempre o tive, 
Corram livres as lágrimas que choro, 
Estas lágrimas, sim, que não desonram.(...)” 
 
Passam-se muitos anos e um velho Timbira conta aos mais jovens, céticos, a façanha 
de Juca Pirama: 
 
“Um velho Timbira, coberto de glória, 
 Guardou a memória 
 Do moço guerreiro, do velho Tupi! 
 E à noite, nas tabas, se alguém duvidava 
 Do que ele contava, 
 Dizia prudente: - "Meninos, eu vi!” 
 
Belo poema que recebeu do crítico Antônio Cândido o seguinte elogio: 
47 
 
 
“O I-Juca-Pirama é dessas coisas indiscutidas, que se incorporam ao orgulho 
nacional e à própria representação da pátria, como a magnitude do 
Amazonas, o grito do Ipiranga ou as coresverde-e-amarela.” 
 (Antonio Cândido, Formação da Literatura Brasileira) 
 
O Lirismo-Amoroso Indianista 
Na poesia indianista de Gonçalves Dias, merecem destaque também os poemas líricos 
Marabá e Leito de Folhas Verdes. Nestes, resgatando a tradição das cantigas de amigo 
trovadorescas, o poeta dá voz à indígena abandonada ou desprezada pelo amado 
guerreiro, emergindo o eu lírico feminino e o erotismo, inclusive por meio de 
elementos da natureza tropical. Veja um fragmento de Leito de Folhas Verdes: 
 
“Por que tardas, Jatir, que tanto a custo 
 À voz do meu amor moves teus passos? 
 Da noite a viração, movendo as folhas, 
 Já nos cimos do bosque rumoreja. 
 
Eu sob a copa da mangueira altiva 
 Nosso leito gentil cobri zelosa 
 Com mimoso tapiz de folhas brandas, 
 Onde o frouxo luar brinca entre flores.(...) 
 
Meus olhos outros olhos nunca viram, 
 Não sentiram meus lábios outros lábios, 
 Nem outras mãos, Jatir, que não as tuas 
 A arazoia na cinta me apertaram.(...) 
 
Não me escutas, Jatir! nem tardo acodes 
 À voz do meu amor, que em vão te chama! 
 Tupã! lá rompe o sol! do leito inútil 
 A brisa da manhã sacuda as folhas!” 
 
Análise do Fragmento 
Mantendo, no plano da forma, os versos decassílabos clássicos, mas não aderindo à 
contenção emotiva do soneto, Gonçalves Dias resgata o lirismo amoroso das cantigas 
de amigo trovadorescas ao dar voz à índia abandonada pelo amado guerreiro Jatir. 
 
O tom de lamento e abandono, reforçado pelos decassílabos, já se faz presente no 
questionamento do eu lírico nos dois primeiros versos. 
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O eu lírico feminino torna-se explícito, na segunda estrofe, com a flexão de gênero do 
adjetivo “zelosa”, e o erotismo sutilmente emerge por meio de elementos da natureza 
cor local “Eu sob a copa da mangueira altiva / Nosso leito gentil cobri zelosa”. A pobre 
índia preparara em vão o leito de amor, com folhas de uma mangueira, porém Jatir 
partiu e parece não querer retornar. 
 
Na terceira estrofe, irrompe a voz da fidelidade e o erotismo explícito, uma vez que 
Jatir já tocara na arazoia da abandonada índia. Vale ressaltar que arazoia é uma sainha 
de penas usada pelas índias. 
 
Na última estrofe, a melancolia toma conta do poema com o dia nascendo e a 
constatação de que o amado não retornara. 
 
Concluindo, original no épico e no lirismo, Gonçalves Dias foi a grande voz do 
indianismo romântico brasileiro no verso, enquanto José de Alencar o foi na prosa. 
 
O Lirismo Amoroso de Gonçalves Dias 
Embora, como já vimos, o lirismo amoroso se fez presente em poemas indianistas de 
Gonçalves Dias, agora trataremos do lirismo mais pessoal, influenciado pelo 
desencontro amoroso com Ana Amélia. 
 
Dessa forma, vem à tona a influência lusitana, já que o poeta estudou em Coimbra. 
Também se verifica a influência de Garrett, Camões e das cantigas de amor 
trovadorescas quanto à temática do amor gerando conflito. 
Seus poemas líricos mais famosos são Se Se Morre de Amor e Ainda Uma Vez – 
Adeus. Vamos à leitura e análise de um fragmento deste último poema. 
 
 
49 
 
Ainda Uma Vez – Adeus! 
Segundo os biógrafos de Gonçalves Dias, este poema fora escrito por ocasião de seu 
reencontro, em Lisboa, com Ana Amélia, já casada com outro. A família da moça 
impedira o matrimônio pelo fato de ele ser mestiço. No entanto, Ana veio a se casar, 
por capricho, com um comerciante também mestiço. 
 
“Enfim te vejo! – enfim posso, 
Curvado a teus pés, dizer-te, 
Que não cessei de querer-te, 
Pesar do quanto sofri, 
Muito penei! Cruas ânsias, 
Dos teus olhos afastado, 
Houveram-me acabrunhado, 
A não lembra-me de ti!(...) 
 
Louco, aflito, a saciar-me 
De agravar minha ferida, 
Tomou-me tédio da vida, 
Passos da morte senti; 
Mas quase no passo extremo, 
No último arcar da esp`rança, 
Tu me vieste à lembrança: 
Quis viver mais e vivi!(...) 
 
Adeus que eu parto, senhora; 
Negou-me o fado inimigo 
Passar a vida contigo, 
Ter sepultura entre os meus(...) 
 
Lerás porém algum dia 
Meus versos, da alma arrancados, 
De amargo pranto banhados, 
Com sangue escritos; - e então 
Confio que te comovas, 
Que a minha dor te apiade, 
Que chores, não de saudade, 
Nem de amor, - de compaixão.” 
 
 
Análise do Excerto 
No ritmo da redondilha maior, da medida velha medieval, o eu lírico masculino, ego 
fictício do poeta, reencontra a amada, declara seu amor a ela mas a vê como 
inacessível. Disso resulta a influência das cantigas de amor trovadorescas, com a 
50 
 
vassalagem amorosa “Curvado a teus pés” e a coita, ou sofrimento amoroso, “Pesar do 
quanto sofri”, “Tomou-me tédio da vida, / Passos da morte senti”, entre outros trechos. 
 
Em meio ao extravasamento emotivo romântico “De amargo pranto banhados, /Com 
sangue escritos”, há um resquício clássico, percebido na manutenção do equilíbrio por 
meio do platonismo, impedindo que o eu lírico recorra ao suicídio passional: “Mas 
quase no passo extremo, /No último arcar da esp`rança, /Tu me vieste à lembrança: 
/Quis viver mais e vivi!(...)”. 
 
Portanto, embora seja um digno representante romântico brasileiro, Gonçalves Dias 
apresenta certa influência clássica e grande resgate da tradição portuguesa, fruto de 
sua convivência com grandes poetas lusitanos da época. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
A Visão do Índio no Romantismo e no Modernismo 
Procure conhecer mais sobre a temática do índio nas nossas letras, levando em conta 
que, enquanto os românticos idealizaram o silvícola, os modernistas o viram de forma 
mais espontânea, como digno formador da cultura nacional, mas também como 
representante da malandragem brasileira. Dentre os modernistas que tematizaram o 
índio, destacam-se Mário e Oswald de Andrade, além de Cassiano Ricardo 
 
Mário de Andrade criou Macunaíma, O Herói Sem Nenhum Caráter, o que não implica 
um mau caráter mas sim uma síntese do povo brasileiro, sem caráter racial, cultural, 
comportamental ainda definido, oscilando entre o bem e o mal. Veja a abertura da 
obra: 
 
“No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era 
preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio 
foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas 
pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma. 
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 Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos 
não falando. Si o incitavam a falar exclamava: 
 _Ai! que preguiça!...” 
 
Observe que Macunaíma, assim como o povo que ela simboliza, não apresenta um 
caráter racial definido: é negro e filho de uma índia. No âmbito estilístico, suspende-se 
a idealização romântica em sua descrição como criança feia e já predestinada à 
preguiça, além da adoção da linguagem coloquial. 
 
Também, tematizando a formação do povo brasileiro, Oswald de Andrade, no poema 
Brasil, retrata as três raças formadoras do nosso povo, num diálogo intertextual com I – 
Juca Pirama de Gonçalves Dias: 
 
O Zé Pereira chegou de caravela 
E perguntou pro guarani da mata virgem 
- Sois cristão? 
- Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte 
Teterê tetê Quizá Quizá Quecê! 
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu! 
O negro zonzo saído da fornalha 
Tomou a palavra e respondeu 
- Sim pela graça de Deus 
Canhem Babá Canhem Babá Cum Cum! 
E fizeram o Carnaval 
 
Note, no poema de Oswald de Andrade, que, assim como os românticos, os 
modernistas também tinham como proposta a busca da identidade nacional, inclusive 
pelo fato de a Semana de Arte Moderna de 1922 ter feito parte dos festejos 
comemorativos do centenário da nossa independência. 
 
Dessa forma, cem anos depois do nascimento da nação, os modernistas propunham 
uma busca da brasilidade de forma diferente dos românticos, não admitindo 
idealizações, incorporando o falar brasileiro à literatura e admitindo também o negro 
como formador da raça brasileira. 
 
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Já Cassiano