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DEONTOLOGIA E LEGISLAÇÃO PROF. DR. LUIZ ANTONIO BENTO Reitor: Prof. Me. Ricardo Benedito de Oliveira Pró-reitor: Prof. Me. Ney Stival Gestão Educacional: Prof.a Ma. Daniela Ferreira Correa PRODUÇÃO DE MATERIAIS Diagramação: Alan Michel Bariani Thiago Bruno Peraro Revisão Textual: Gabriela de Castro Pereira Letícia Toniete Izeppe Bisconcim Luana Ramos Rocha Produção Audiovisual: Heber Acuña Berger Leonardo Mateus Gusmão Lopes Márcio Alexandre Júnior Lara Pedro Paulo Liasch Gestão de Produção: Kamila Ayumi Costa Yoshimura Fotos: Shutterstock © Direitos reservados à UNINGÁ - Reprodução Proibida. - Rodovia PR 317 (Av. Morangueira), n° 6114 Prezado (a) Acadêmico (a), bem-vindo (a) à UNINGÁ – Centro Universitário Ingá. Primeiramente, deixo uma frase de Só- crates para reflexão: “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida.” Cada um de nós tem uma grande res- ponsabilidade sobre as escolhas que fazemos, e essas nos guiarão por toda a vida acadêmica e profissional, refletindo diretamente em nossa vida pessoal e em nossas relações com a socie- dade. Hoje em dia, essa sociedade é exigente e busca por tecnologia, informação e conheci- mento advindos de profissionais que possuam novas habilidades para liderança e sobrevivên- cia no mercado de trabalho. De fato, a tecnologia e a comunicação têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, diminuindo distâncias, rompendo fronteiras e nos proporcionando momentos inesquecíveis. Assim, a UNINGÁ se dispõe, através do Ensino a Distância, a proporcionar um ensino de quali- dade, capaz de formar cidadãos integrantes de uma sociedade justa, preparados para o mer- cado de trabalho, como planejadores e líderes atuantes. Que esta nova caminhada lhes traga muita experiência, conhecimento e sucesso. Prof. Me. Ricardo Benedito de Oliveira REITOR 33WWW.UNINGA.BR UNIDADE 01 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................................4 1 - ÉTICA E MORAL ...................................................................................................................................................5 2 - A DEONTOLOGIA .................................................................................................................................................6 3 - A BIOÉTICA ..........................................................................................................................................................8 3.1. FATORES QUE INFLUENCIARAM O NASCIMENTO DA BIOÉTICA ................................................................9 3.2. NECESSIDADE DA ÉTICA NA SAÚDE .............................................................................................................. 12 3.3. SÍNTESE HISTÓRICA DO NASCIMENTO DA ÉTICA NA CIÊNCIA BIOMÉDICA ........................................... 14 4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................................................. 15 CLASSIFICAÇÃO TERMINOLÓGICA E NOÇÃO GERAL PROF. DR. LUIZ ANTONIO BENTO ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: DEONTOLOGIA E LEGISLAÇÃO 4WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO O termo “ética” nasceu dentro de um contexto � losó� co. Vários pensadores, em diferentes épocas, abordaram especi� camente assuntos sobre a Ética: Sócrates, Aristóteles, Santo Agostinho, Santo Tomás, Kant, Espinosa, Hegel, Kierkergaard, Weber, Nietzsche, Wittgenstein, Pascal, Paul Tillich etc. O termo leva a interpretar diversos signi� cados. Aristóteles, por exemplo, usou-o para indicar as pesquisas que têm por objeto as qualidades peculiares do comportamento humano. Vale dizer que, tanto a moral quanto a ética são termos de uso corrente e estão relacionados ao conceito de certo e errado. 5WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 1 - ÉTICA E MORAL A origem da palavra Ética vem do grego ethos, que corresponde ao modo de ser, o caráter. Os romanos traduziram o ethos grego, para o latim mos ou no plural mores, que quer dizer costumes, valores, normas de conduta própria de uma sociedade e cultura, de onde vem a palavra moral. Tanto ethos caráter, modo de ser de uma pessoa, índole, temperamento, como mos costume indicam um tipo de comportamento propriamente humano que não é natural, ou seja, o homem não nasce com ele como se fosse um instinto, mas que é adquirido ou conquistado por hábito, uma conduta de vida, o que é especí� co do homem. Portanto, Ética e Moral, pela própria etimologia, referem-se a uma realidade humana que é construída histórica e socialmente a partir das relações coletivas dos seres humanos, nas sociedades onde nascem e vivem (BENTO, 2008). É importante a� rmar, antes de qualquer coisa, que, quando se fala de ética em geral, se trata de um fenômeno humano: típico e distintivamente humano. Não só porque a ética aborda o comportamento humano, mas porque o aborda enquanto especi� camente “humano”. Falar em moral dá sempre a sensação que se vai restringir a liberdade humana. Moral, na mente comum e experiência cotidiana de muitas pessoas, signi� ca proibição. Algumas pessoas pensam que a moral está ultrapassada nos dias de hoje, encarando-a como um sistema de proibições puritanas descabidas que se destinam, sobretudo, a evitar que as pessoas se divirtam. Não é complicado compreender estas experiências, pois muitas vezes, a moral é uma imposição de grupos dominantes que tolhem a liberdade das pessoas. Por outro lado, a moral pode ser construída pelas próprias pessoas e, então, ela se torna fruto da liberdade humana, fator de a� rmação, de alegria, de esperança e de felicidade (BENTO, 2008). No dia-a-dia não fazem distinção entre ética e moral. Pode-se a� rmar que etimologicamente ética e moral são palavras sinônimas, termos que podem ser considerados equivalentes. Em muitos autores lidos, estes termos se interagem continuamente, de forma dinâmica (FORTES,1998; PEINADO,1996). Todavia, alguns estudiosos preferem fazer uma distinção entre as duas palavras para favorecer o entendimento daquilo que se quer dizer. Assim, a moral é mais prática, representa um conjunto de ideais, de normas, princípios, preceitos, costumes, valores, de atos repetidos, tradicionais, consagrados que norteiam o comportamento do indivíduo no seu grupo social num determinado lugar e numa determinada época, reconhecidos como válidos por uma determinada sociedade. A moral é normativa, isto é, baseia-se em princípios e regras morais � xas. Por exemplo: não matar, não roubar, não mentir são normas morais que estão presentes em todas as culturas e com as quais todos estão de acordo. Quanto às particularidades e outras normas morais são um tanto mais complicados gerando muita discussão e polêmica. Pode-se dizer que a moral é mais concreta, ela conceitua o que é uma boa ou má conduta, enquanto a ética é de� nida como a teoria, a re� exão, o estudo, o debate, o conhecimento ou a ciência do comportamento moral dos seres humanos, que busca explicar, compreender, justi� car racionalmente e criticar a moral ou as morais (os ideais e os valores) de uma sociedade. A ética aborda mais os princípios, ela é mais geral. É um dos mecanismos de regulação das relações sociais do homem, visando garantir coesão social e harmonizar interesses individuais e coletivos. Não se pode perder de vista que tanto a moral quanto a ética são comunitárias. Elas se referem à convivência humana e devem ser feitas em favor de uma vivência dos valores fraternos e harmônicos. A grande � nalidade da ética e da moral é a busca da harmonia, da felicidade humana e da união com o universo. 6WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 1 – Ética e Moral. Fonte: Pixabay (2018). De acordocom Barchifontaine (2004), Ética é a ciência dos costumes. Os costumes são os hábitos de uma pessoa, de um povo, de uma comunidade. Os costumes, de fato, são os comportamentos médios aceitos por uma comunidade. O afastamento dessa média gera surpresas, críticas e repreensões [...]. Face à evolução do sentido do homem e do seu quadro de referência, podemos dizer que a ética e a moral estão em transição: A ética é uma análise do comportamento humano (conjunto de relações). E moral é a avaliação do comportamento humano à luz da teologia, da Bíblia, como critério do juízo de Deus ou à luz de uma ideologia. Em resumo, pode-se dizer que a Moral procura discutir e propor normas válidas para todos, isto é, sobre o que o homem deve fazer e a Ética procura estabelecer princípios de conduta, ou seja, dos valores que deve realizar. En� m, “moral e ética formam um complexo no qual a moral é um sentimento subjetivo reconhecido interiormente pela pessoa, e ética é a fase objetiva onde a norma é o costume do grupo social” (CREMESC, 2003, p. 5). 2 - A DEONTOLOGIA De acordo com Rasche (2005), A deontologia e a ética pro� ssional servem de um lado, para controlar a ação dos membros de um grupo pro� ssional e, de outro lado, para orientar sua conduta, colaborando para a formação de um grupo que se identi� ca e é identi� cado por um modo de agir. Assim a sustentação de uma pro� ssão depende do conjunto de seus membros, dado, a conduta de cada um. Ressalta-se que a deontologia é uma � loso� a que faz parte da � loso� a moral contemporânea e sua origem signi� ca, em grego, ciência ou tratado dos deveres e das obrigações morais. Do grego δέον, traduzido deon (dever, obrigação) + λόγος, logos (ciência) = ciência ou tratado dos deveres e das obrigações morais. 7WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA O termo foi criado no ano de 1834, pelo � lósofo inglês Jeremy Bentham, para falar sobre o ramo da ética em que o objeto de estudo são os fundamentos do dever e das normas, deontologia é também conhecida como “Teoria do Dever”. Ocupa-se dos deveres relativos a classes sociais particulares, pro� ssionais. Figura 2 – Deontologia. Fonte: Pixabay (2018). Deontologia é uma teoria sobre as escolhas dos indivíduos, as quais são moralmente necessárias, servindo, assim, para nortear o que realmente deve ser feito. O primeiro Código de Deontologia foi feito na área da medicina, nos Estados Unidos. Por � m, a deontologia é conjunto de princípios e regras de conduta ou deveres de uma determinada pro� ssão; é a ciência ou tratato dos deveres e das obrigações morais; conjunto de regras que devem regular o exercício pro� sional. Como a ciência dos deveres, o conjunto de normas que regulam o exercício pro� ssional, as normas da deontologia estavam inicialmente incluídas nas que regem a vida humana; recentemente, quando as pro� ssões foram individualizando-se, de� nindo-se, se formou o conjunto de regras que regem o exercício de cada pro� ssão; vieram em Códigos, Decálogos, Cartas ... de Ética Médica, advogado, químico, Fonoaudiólogo etc. Existem referências em antigas leis de ética médica, posteriormente, a medicina foi se desvinculando de suas características atreladas à magia, astrologia e exercida por religiosos. No Egito sob o Império Antigo (2200-2050a.C.), a lei faz referências à formação, à organização do exercício pro� sional; à responsabilidade e aos honorários médicos. O Código amorreus ou Bilalama ou Eshnunna (1950a.C.) também refere-se à responsabilidade e compensação por danos causados às pessoas. O Código de Hamurabi, rei da Baibilonia (1950-1900a.C.), corpo de leis, trata de normas do exercício pro� sional, da responsabilidade civil e criminal do médico, dos honorários, recompensas (prêmios) e punições a médicos e cirurgiões. A Lei de Talião, uma das mais antigas, era o princípio da lei hebraica no Êxodo e conformada no Levítico. Na Índia antiga, o Rei-Veda (1500a.C.) e o Yajur-Veda (700a.C.), são documentos que se referem ao exercício da medicina. Na Grécia antiga, começa a ganhar impulso com os � lósofos médicos de medicina (Pitágoras 580-498a.C.), Empédocles (504-443a.C.), Heráclito, entre outros, até alcançar explendor com Hipócrates (460-375a.C.). Seu Juramento é um verdadeiro Código deontológico de ética pro� ssional médica. O Juramento contém as nromas de formação, exercício, sigilo, responsabildiade e honorários pro� ssionais. 8WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Em Roma, no trâmite da Lei Aquila se � scalizava o exercício pro� ssional e se responsabiliza o médico por negligência, pela morte de um escravo, etc. quando o médico foi pouco cuidadoso em uma cirurgia. O envolvimento de médicos na prática forense (judicial) e normas deontológicas apareceram já, entre outras normas, nas Capitulações de Carlos Magno (784-814), nas Orientações de St. Louis (IX.1226-1270) e no Código Penal Carolino, Carlos V. A Deontologia tem origem na lei natural ou inata ou moral, que vem de Deus na essência do ser humano. A lei natural é intrínseca à natureza racional e inteligência humana, para conhecer e diferenciar, pela razão, o bem do mal, o justo do injusto, o que deve ou não deve fazer, etc. Ela está impressa na mente do homem, na sua razão e consciência, para cumpri-la ou não livremente, e é necessária para uma ordem moral que orienta nossas vidas e condutas. 3 - A BIOÉTICA Surgimento da bioética tem como referencial os trabalhos de re� exão de Van Ransselaer Potter (1911-2001), Wisconsin, Madison, EUA, em 1970, com a criação do neologismo bioethics em um artigo intitulado Bioethics, the Science of survival e, posteriormente, no livro intitulado “Bioethics: Brigde to the future”, em 1971 (BENTO, 2008). Se o nome bioética é ainda muito recente, a disciplina que indica não seria nem mesmo imaginável sem uma longa pré-história, que � xa suas raízes nos séculos passados. Desde tempos mais remotos, de fato, a sociedade tem procurado tutelar a vida e a integridade física das pessoas e regular as intervenções sobre a vida, a vida humana em particular. Temos testemunhas seguras de leis nesse âmbito na Mesopotâmia e no Egito, como o Código de Hammurabi (2.394 a.C.). Contudo, a contribuição essencial para o nascimento da ética médica vem do grego Hipócrates (460-370 a.C.) e da sua escola. Figura 3 - Van Rensselaer Potter (1911-2001). Fonte: Harvards Library (2018). Potter, preocupado com o desenvolvimento exponencial do conhecimento cientí� co biológico e com o atraso da re� exão necessária à sua utilização, reivindica a criação de uma nova ciência, uma ciência da sobrevivência, que se baseie na aliança do saber biológico com os valores humanos. A partir de suas pesquisas sobre o câncer, Potter chegou à compreensão que a bioética deveria ser a ciência da sobrevivência diante das diferentes ameaças à vida e de um ambiente que põe em perigo a vida do planeta. 9WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Assim, nasce a palavra bioética (do grego bios: vida), que representa justamente o conhecimento biológico, a ciência dos sistemas viventes, enquanto ética (do grego ethos: ética) representa o conhecimento dos sistemas dos valores humanos. Etimologicamente: ética da vida. Bioética, portanto, pode ser de� nida como a ciência que regula o comportamento humano no campo da vida e da saúde à luz de valores e princípios morais racionais. O médico Van R. Potter, no ensaio Bioethics: bridge to the future, denunciava como inatural e perigosa a separação entre âmbito cientí� co e humanístico do saber e desejava uma mediação entre as duas culturas. Potter, então, requer para a bioética um vasto campo de aplicação, que englobava o controle da população, a paz, a pobreza, a ecologia, a vida animal, o bem-estar da humanidade, e, consequentemente, a sobrevivência da espéciehumana e do planeta como um todo. Todavia, é bom frisar que sempre existiu, no âmbito da � loso� a, da teologia e do direito, um interesse pelos problemas conexos com a vida física e a prática da medicina. Aristóteles, � lósofo grego (384-322 a.C.), dedicou uma parte do seu livro Ética a Nicômaco (seu pai, um médico) ao tratado da virtude, que, segundo ele, é uma espécie de ética que deve guiar conscientemente o agir do ser humano individual e coletivamente. A prudentia é considerada a mãe (genitrix virtutum) e a guia (auriga virtutum) responsável pelas virtudes. O contexto em que surge a bioética, na segunda metade do século XX, é caracterizado por diversos fenômenos sociais e culturais que podemos sintetizar em quatro “nós” contextuais: o tumultuoso progresso das ciências biomédicas e a colocação de novos interrogativos éticos sobre a capacidade de o ser humano administrar tão imediato e enorme poder; a crescente consciência de que existem direitos humanos inalienáveis, como o direito à justiça, que se fundam sobre a dignidade da pessoa humana antes ainda de serem reconhecidos pelas leis civis; a queda do mito da neutralidade ética da ciência; a necessidade de repensar a relação do ser humano com o seu planeta para uma presença mais respeitosa do ambiente e dos seus equilíbrios. Não obstante, essa amplitude de visão reivindicada por Potter, rapidamente o termo bioética limitou-se às questões suscitadas pelo desenvolvimento das ciências biológicas e sua aplicação na medicina. 3.1. Fatores que influenciaram o nascimento da bioética Depois da Segunda Guerra Mundial, o progresso biomédico, do ponto de vista seja cognitivo, seja tecnológico, não tem conhecido paradas, modi� cando, largamente, a própria imagem que o ser humano tinha de si mesmo e da possibilidade de intervenção sobre o próprio corpo. Para ter uma ideia dos espetaculares progressos da medicina, recordamos algumas pedras milionárias (BENTO, 2008). James Watson e Francis Crick, em 1953, descobrem a estrutura molecular do DNA, o material hereditário da vida, que tem a forma de uma dupla hélice, uma descoberta que daria novos rumos à ciência. Com a descoberta da estrutura da dupla hélice do DNA, iniciasse um período fértil no desenvolvimento da genética: o ser humano conseguiu chegar, assim, às raízes da sua identidade biológica. Com o início das técnicas de reanimação, em 1954, modi� ca-se o curso de muitas doenças. 10WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 4 – DNA. Fonte: Pixabay (2019). Em 1955, o primeiro trabalho cientí� co sobre transplantes de rim (o primeiro transplante de coração humano acontecerá em 1967): o ser humano pode renovar partes essenciais do seu próprio organismo e regenerar-se. As primeiras tentativas conseguidas e documentadas de fecundação animal in vitro são de 1955, mas somente em 1978, em Londres, o primeiro nascimento humano pela FIVET – Fertilização in vitro e transferência de embriões: Louise Brown, o primeiro bebê de proveta. O ser humano consegue interferir nos processos gerativos e dominá-los. Com a experimentação ampla da pílula anticoncepcional a partir de 1960, o ser humano pode separar, a seu gosto, o exercício da sexualidade da fecundidade, segundo o que era hipótese pelos teóricos da revolução sexual. Em 1962, a hemodiálise e a questão da justiça. Na impossibilidade de máquina de hemodiálise para todos, quais os critérios para selecionar os pacientes para fazer a diálise? Os professores Ian Vilmut e K. H. S. Campbell, com seus colaboradores do Roslin Institute, de Edimburgo, na Escócia, em 1996, clonam a ovelha chamada Dolly, que logo se torna a mais famosa ovelha do mundo. A clonagem torna-se uma possibilidade de reprodução humana assexuada. E mais ainda: os transplantes de órgãos e a nova de� nição de morte; engenharia genética e eugenia (do grego eu: bom; génos, que signi� ca “raça, estirpe”, junção da qual resulta o signi� cado “bem-nascida”, — refere-se ao melhoramento de uma raça; reprodução assistida e destino dos embriões humanos; a manipulação de genes; mapeamento do DNA, sem entrar, agora, na questão da clonagem, que se torna uma possibilidade de reprodução humana assexuada; a manipulação de genes; mapeamento do DNA etc. Muitas coisas ainda estão para vir. Aí estão algumas das novas fronteiras da ética médica, agora necessitando de princípios mais amplos, criando o campo alargado da bioética. Tais inovações criaram entusiasmo e, junto, perguntas inquietantes. O ser humano se encontrava, pela primeira vez na sua história, na situação de poder controlar muitos aspectos da sua existência, mas estaria em condições de administrar essas potencialidades? O crescimento perturbado dos conhecimentos cientí� cos e dos meios tecnológicos seria acompanhado de um crescimento adequado na consciência dos valores em jogo? Os mesmos progressos técnicos, a extrema especialização das intervenções, a medicina de massa, não corriam o risco de tornar a medicina, feita para o serviço do ser humano, sempre menos humana? Diante de tais questionamentos, faziam-se, portanto, sentir suas estâncias urgentes e imprescindíveis: humanizar a medicina e, sempre em nome do ser humano, indicar orientações e limites à pesquisa e às intervenções biomédicas. 11WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, depois do processo de Nuremberg, em 1947 que revelou os horrores dos campos de concentração nazista, nos quais se realizavam delitos abomináveis em nome das leis do Estado e nos quais os próprios médicos haviam praticado as mais loucas e atrozes experimentações, advertiu-se sobre a necessidade de reencontrar, antes de cada legislação e do direito positivo, antes das razões da lei e da ciência, um fundamento transcultural e universal à tutela e promoção da dignidade do ser humano. Essas raízes comuns de eticidade se expressam na elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela ONU no dia 10 de dezembro de 1948. O tema dos direitos humanos constitui um dos motivos condutores de alguns dos mais relevantes fenômenos socioculturais que têm caracterizado a segunda metade do século: os movimentos paci� stas, os fenômenos da contestação juvenil e o feminismo. O crescimento da sensibilidade geral pelas problemáticas da justiça levou a sublinhar a existência de um direito à saúde e, portanto, do direito de todos de poder usufruir de adequada assistência e tratamento. A atuação dessa justiça sanitária ia, porém, de encontro seja às iniquidades estruturais da sociedade, seja à escassez de alguns recursos terapêuticos. Muito impressionou a opinião pública um artigo intitulado � ey decide who lives, who dies (Eles decidem quem vive e quem morre) publicado na revista Life de 9 de novembro de1962. Em 1961, era possível praticar a diálise crônica, mas, por causa da escassez dos aparelhos disponíveis, colocava-se o problema da escolha dos pacientes que poderiam ter mais probabilidade de recuperação. Em Seattle, a maior cidade do estado americano de Washington, foi instituído um comitê com a responsabilidade de indicar os critérios para selecionar os pacientes para fazer a diálise e decidir sobre a vida ou morte deles. No Hospital Israelita de Nova York, em 1964, foram inoculadas células cancerosas vivas em 22 anciãos. Depois da explosão do escândalo na opinião pública, os médicos confessaram, explicitamente, que pensavam poder fazer qualquer pesquisa se dela resultasse um benefício para a ciência. Desde a década de 1930, mas tornado público apenas em 1972, o Tuskegee study (of untreated syphilis in the negro male),18 no estado do Alabama, em que foram deixados sem tratamento quatrocentos negros si� líticos para pesquisar a história natural da doença. Em 1996, o governo norte-americano pediu desculpas públicas àquela comunidade negra pelo que foi feito. O CasoKaren Ann Quinlan (1954-1985), em estado vegetativo depois de um acidente rodoviário. Após o pedido do tribunal, uma comissão julga que fazer no caso e autoriza a retirada dos aparelhos que a mantinham viva, depois de nove anos em estado vegetativo. O dramático dessas questões é que as experiências não ocorreram em passado distante, no interior de países em desenvolvimento. Essas experiências se veri� caram em cidades como Nova York, nas últimas décadas do século XX. Pelo visto, tais cientistas não se assustaram com Nuremberg (1947); Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948); Código Internacional de Ética Médica (1949); Declaração de Helsink (1964) e tantas outras declarações e documentos já aceitos e consagrados pela maioria dos países ligados à ONU. A necessidade de tutelar a autonomia e a dignidade das pessoas também nos confrontos das superiores exigências da ciência torna-se objeto de discussões e apreensão na opinião pública americana e mundial quando, no � m da década de 1960, começaram a vazar notícias alarmantes sobre experimentações feitas em seres humanos sem que soubessem que eram usados como cobaias (BENTO, 2008). 12WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 3.2. Necessidade da ética na saúde A discussão em torno de questões éticas, particularmente, levantados com o progresso das ciências biomédicas (SPAGNOLO,1999), tem sido retomada e ampliada com frequência nas últimas décadas, nos diversos seguimentos e espaços da sociedade e, particularmente, no mundo da saúde. Este fenômeno pode ser explicado observando o momento histórico-social de mudanças no qual vive o mundo ocidental, de indiferença e substituição de valores tradicionais ético-sociais. Mas, qual é o motivo de se dizer que a ética é necessária, em especial nas pro� ssões ligadas ao mundo da saúde? Não se deveria dar a mesma importância da sua vivência em todos os segmentos da sociedade? O fato é que os pro� ssionais da saúde trabalham em contexto intersubjetivo; o contato com as pessoas que se encontram numa situação de necessidade preenche as suas atividades. Não são, com certeza, os únicos cujo trabalho implica uma constante relação com outros; o ensino, a educação, a assistência social, a administração constitui tipos de pro� ssões particularmente voltados também para as relações intersubjetivas. As pro� ssões, relacionadas com os cuidados de saúde, exigem uma forma de contato humano que deixa transparecer mais diretamente que outras (como, por exemplo, a do ensino da matemática ou da investigação química) a postura ética do agente. É por isso, também, que a Ética está sendo estimulada sob o impacto das investigações que surgem do mundo da saúde (RENAUD, 1999). Sem querer distanciar-se da � nalidade desse item, ou seja, da re� exão sobre a necessidade da ética no mundo da saúde, é oportuno considerar que a Ética é uma ciência essencialmente positiva, que orienta o homem verso ao bem, e que só indiretamente proíbe quando se criam obstáculos ao verdadeiro aperfeiçoamento do homem. O seu ponto de partida é o conceito de pessoa humana, enquanto nessa se re� ete à imagem de Deus. A Ética tem sido o principal regulador do desenvolvimento histórico-cultural da humanidade. Sem ética, ou seja, sem a referência a princípios humanitários fundamentais comuns a todos os povos, nações, religiões etc., a humanidade já teria se despedaçado até à autodestruição (SPAGNOLO, 1999). O fato de os seres humanos serem capazes de concordar minimamente entre si sobre princípios como justiça, igualdade de direitos, dignidade da pessoa humana, cidadania plena, solidariedade etc., cria chances para que esses princípios possam vir a ser postos em prática, mas não garante o seu cumprimento. As nações do mundo já entraram em acordo em torno de muitos desses princípios. A Declaração Universal de Direitos Humanos, promulgada pela Assembleia Geral da ONU, em 1948, é uma demonstração de o quanto a ética é necessária e importante. Mas a ética não basta como teoria, nem como princípios gerais acordados pelas nações, povos, religiões etc. Nem basta que as Constituições dos países reproduzam esses princípios, como a Constituição Federal de 1988. É preciso que cada cidadão e cidadã incorporem esses princípios como uma atitude prática diante da vida cotidiana, de modo a pautar por eles seu comportamento. Isso traz uma consequência inevitável: frequentemente o exercício pleno da cidadania (ética) entra em colisão frontal com a moral vigente. Até porque a moral, sob pressão dos interesses econômicos e de mercado, está sujeita as frequentes e graves degenerações (SCLIAR, 2004). A famosa frase do escritor inglês � omas Morus (1480-1535), nenhum homem é uma ilha, possibilita a compreensão de que a vida humana é convívio. Para o ser humano viver é conviver e ninguém consegue viver isolado, sozinho. É justamente na convivência, na vida social e comunitária, que o ser humano se descobre e se realiza enquanto um ser moral e ético. 13WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA É na relação com o outro que surgem os problemas e as indagações morais: o que deve fazer? Como agir em determinada situação? Como comportar-se perante o outro? Diante da corrupção e das injustiças, o que fazer? Como se deve comportar adequadamente ao lado daquele que sofre? Na realidade quotidiana, constantemente são encontradas situações referentes aos problemas morais. São problemas práticos e concretos da vida em sociedade, ou seja, problemas que dizem respeito às decisões, escolhas, ações e comportamentos dos seres humanos – os quais exigem uma avaliação, um julgamento, um juízo de valor entre o que socialmente é considerado bom ou mau, justo ou injusto, certo ou errado, pela moral vigente. O problema é que não se tem o costume de re� etir e buscar os “porquês” das escolhas pessoais, dos comportamentos, dos valores; age-se por força do hábito, dos costumes e da tradição, tendendo a naturalizar a realidade social, política, econômica e cultural. Com isto, perde-se a capacidade crítica diante da realidade. Em outras palavras, não se tem o costume de fazer ética, pois não faz a crítica, nem se busca compreender e explicitar a realidade moral. No Brasil, historicamente marcado pelas injustiças socioeconômico, pelo preconceito racial e sexual, pela exploração da mão-de-obra infantil, ainda existe uma moral masculina, machista, autoritária de domínio daqueles que detêm o dinheiro e o poder em suas mãos. A realidade brasileira se coloca diante de problemas éticos bastante sérios e de necessidades urgentes de mudanças. Os brasileiros estão por demais acostumados com suas misérias de toda ordem. É, exatamente por isso, que o Brasil precisa construir uma moral que seja democrática. É preciso fazer ética, isto é, pensar e discutir para modi� car a moral autoritária, caso contrário, o Brasil não caminhará em termos humanos (SCLIAR, 2004). Infelizmente, ainda se insiste em naturalizar a injustiça e considerar normal conviver lado a lado as «selvas de pedras» e os «barracos de papelões», as crianças e os mendigos nas ruas; acha-se inteligente e esperto o «jeitinho brasileiro» de levar vantagem em tudo, tende-se a considerar como sendo otário quem procura ser honesto. Há na cultura contemporânea uma forte tendência em sacralizar o errado e abandonar princípios éticos já aceitos e consagrados pela experiência social. Todos os dias há notícias de desonestidade na vida pública, exemplos é o que não faltam na recente história de corrupção; abuso de poder; de exploração; de licenciosidade; de violência; «anões do orçamento»; impeachment de Presidente por corrupção; compras de votos parlamentares para a reeleição; o desrespeito e humilhação para com os pobres; e com os doentes que compram remédios caros e falsi� cados; desvios de dinheiro destinados a projetos para diminuir a fome, o analfabetismo, etc.A Ética perdeu muito da sua força. Atualmente, fala-se de ética médica, ética na política, ética na economia, ética no mercado de trabalho, ética na cultura, ética na ciência, ética nos meios de comunicação social, ética na arte, ética no comércio, ética nos negócios, ética na indústria, ética no esporte, ética de boa convivência, ética ecológica, etc. Todos falam de ética: médicos, advogados, arquitetos, etc. Aliás, nunca se falou tanto em Ética como nos últimos anos. Não sem motivos, fala-se numa crise ética, já que tal realidade não pode ser reduzida tão somente ao campo político-econômico. Cada dia se percebe novos deslizes éticos que envolvem questões de valor, de convivência, de consciência, de justiça relacionadas às vidas humanas. Onde há vida humana em jogo, impõe- se necessariamente um problema ético. O homem, enquanto ser ético enxerga o seu semelhante, não lhe é indiferente. O apelo que o outro lança é de ser tratado como um ser humano igual, com os mesmos direitos e deveres e não como objeto ou bicho. Neste sentido, a Ética vem denunciar toda realidade na qual o ser humano é coisi� cado e animalizado, ou seja, o ser humano concreto é desrespeitado em sua condição humana. Numa época de grandes mudanças culturais, apelar para a ética passa a ser um aspecto importante, tanto na vida cívica como do auto entendimento. Para os pro� ssionais, em particular do mundo sanitário, os códigos e as tradições éticas são elementos fundamentais para de� nir normas de conduta do agir pro� ssional e, ao mesmo tempo, de� nir o que signi� ca uma pro� ssão. 14WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA 3.3. Síntese histórica do nascimento da ética na ciência biomédica A história da Medicina não é nova, vem de muito tempo e tem recebido extraordinárias e maravilhosas contribuições de inúmeras pessoas que possibilitaram e, ainda hoje, possibilitam descobertas e conquistas que indicam as grandes capacidades da mente humana em interrogar e descobrir os mistérios presentes na natureza e revelar os seus segredos e o seu poder capaz de admirá-la, modi� cá-la e dominá-la para o bem do homem. Nessa longa história, desde a origem, tem-se o conhecimento da responsabilidade pessoal do médico no seu comportamento (ethos) e que no centro de suas atenções encontra-se sempre a � gura do “paciente”, a pessoa humana sofredora (GOMES,1996). A missão da medicina era convergir toda a sua atenção sobre esta pessoa na sua experiência da dor. Diante de uma autêntica revolução biotecnológica, a história da biomedicina, com o progresso de novas técnicas terapêuticas e preventivas, lança um grande desa� o à humanidade. As tradições éticas da pro� ssão médica se remetem a 2400 anos, século IV a.C. e aos escritos de cultura pitagórico, que se converteria mais tarde no que se conhece como Corpus Hippocraticum. O Juramente hipocrático simboliza os ideais éticos da pro� ssão médica (GOMES,1996). O Juramento hipocrático foi utilizado de forma ampla até o século XIX. A partir desse século, já em época e cultura cristã, surge gradualmente uma rica normativa a respeito da relação médico- paciente, até chegar à elaboração dos Códigos de deontologia médica. O primeiro é de 1847, obra da American Medical Association (AMA), bem como as associações pro� ssionais de outras nações começaram a elaborar os códigos formais de ética. Estes códigos éticos foram modelados, segundo os princípios articulados no juramento hipocrático, baseados no princípio de bene� cência do paciente. Ao longo da história da medicina, esta ênfase paternalista no benefício do paciente, converteu-se na pedra angular da ética médica. Ora, ética e medicina são indissociáveis na origem, não havendo plano de clivagem para saber onde começa uma e onde termina outra. Em meados da década de 1960, certos fatores presentes na medicina e na sociedade convergiram no início de uma mudança nos valores que eram importantes na relação médico- paciente. O mais notável foi a emergência das novas tecnologias, que modi� caram as ideias gerais sobre a Medicina e inclusas o que signi� cava ser humano: engenharia genética, transplante de órgãos, aborto e controle de natalidade, tratamentos médicos e cirúrgicos, baseados na investigação clínica e manutenção arti� cial da vida. Também nessa época, alguns movimentos provocaram mudanças nas ideias socialmente pré-estabelecidas acerca das relações. O movimento de defesa dos direitos humanos, que se preocupava muito além das diferenças raciais, o movimento feminista, etc. O consentimento informado se tornou em um elemento imprescindível da ética médica e da tomada de decisão neste âmbito (BEAUCHAMP; CHILDRESS,2002). A autonomia se transformou em um princípio ético que guiava as opiniões acerca das decisões médicas. A ética médica se tornou em bioética e se estabeleceu a ideia de que a tomada de decisões na medicina não era só uma questão concernente aos médicos, mas também a toda a sociedade. Portanto, os seres humanos não são expectadores marginais do progresso da ciência e da técnica, mas sujeitos e protagonistas de um progresso histórico. Todos têm uma tarefa especí� ca no atual desenvolvimento biotecnológico. 15WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Durante a década de 1970, os aspectos econômicos foram convertendo-se em parte da re� exão da ética. Os benefícios normalmente considerados em termos econômicos e os aspectos éticos se transladaram ao terreno econômico. A obrigação e a distribuição dos recursos passaram a ser tema de debate, e surgia com frequência a pergunta: podem conter-se os custos sanitários sem limitar a atenção médica? As decisões dos médicos e dos pacientes deixaram de ser o único elemento sujeito a consideração. Os interesses da sociedade (em especial os econômicos) se tornaram na maior preocupação. Nos discursos éticos, o princípio de justiça � nalmente se viu desprezado pelos de bene� cência e autonomia, e a justiça passou a considerar-se o espaço adequado dos recursos médicos. 4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS Pode-se concluir que a ética é o modo de ser correto, ideal, franco e claro que cada indivíduo deveria trazer em seu interior. A ética orienta os homens a tomarem as decisões corretas e assim atingirem os seus objetivos de forma justa e honesta. As normas nacionais e internacionais analisadas neste capítulo são instrumentos inspirados a partir do profundo desejo de servir o homem para que suas decisões sejam orientadas segundo o desígnio do Criador. As pesquisas em seres humanos devem ter relevância e utilidade tanto social como cientí� ca. A felicidade social, cultural, política e religiosa das pessoas e seu bem-estar é o que as ciências e a sociedade devem visar. O Código de Nuremberg já tratou deste princípio que deve ser observado pelos estudiosos e cientistas. Deve-se recuperar o valor que a vida contém. Uma das crises pelas qual o mundo passa e, em especial o Brasil, é o desprezo e pouco caso que se tem pela vida e seu bem-estar integral. Aqueles que se dedicam ao mundo da saúde, sobretudo das pesquisas cienti� cas, não podem se deixar elevar pela ambição e pela ânsia de poder. São chamados a usar toda a sua competência técnica neste serviço, mas também não se esquecendo de levar, quando necessário, o conforto. O princípio fundamental que constitui a ética é este: o outro não é um objeto, mas um sujeito de direitos e sua vida deve ser digna tanto quanto a minha deve ser. O que sustenta e fundamenta os direitos, a dignidade e o valor do outro é a sua própria vida e a sua liberdade de viver plenamente, sem qualquer tipo de ameaça. Para mais informações sobre as diferenças dos contextos e conceitos de ética e bioética, acessar: PEIXOTO, Tereza Cristina. Bioética e Humanização em Saúde. EaD, p.60-73. Disponível em: <http://disciplinas.nucleoead.com.br/pdf/Livro_bioe- tica_humanizacao_em_saude.pdf>. Acesso em:12/11/2018. 16WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 1 ENSINO A DISTÂNCIA Para mais informações sobre a ética versus outros sistemas normativos, pode ser acessado o PORTAL VER. Refl exão sobre a ética. Disponível em: <http://www. ver.pt/refl exoes-sobre-a-etica/> Acesso em: 16 jan. 2019. Para mais informações sobre ética ler: O Que é Ética. VALLS, Álvaro L. M. Coleção Primeiros Passos - Nº 177 ISBN 85-11-01177-3 - Ano: 1994. Editora Brasiliense. Disponível em <fi le:///C:/Users/Notebook/Downloads/VALLS,%20A. %20O%20 que%20%C3%A9%20%C3%A9tica.pdf> Acesso em: 16 nov. 2018. Uma revisão interessante do conceito de funções pode ser vista no vídeo: conver- sando sobre ética e moral. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=n- xFCuntnocI> Acesso em: 12 nov. 2018 Para mais informações sobre ética ler: Necessidade da ética na saúde. BENTO, Luiz Antonio. Bioética. Desafi os éticos no debate contemporâneo. Paulinas. São Paulo: 2008. Disponível na Biblioteca da UNINGÁ. Lei nº 8.080, de 19/09/1990: Sistema Único de Saúde (SUS). Disponível em: <http://conselho.saude.gov.br/ le- gislacao/lei8080_190990.htm> Acesso em: 16 jan. 2019. 1717WWW.UNINGA.BR UNIDADE 02 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................................... 18 1 - CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE PESQUISA BIOMÉDICA COM SERES HUMANOS .............................. 19 2 - NECESSIDADE DA REGULAMENTAÇÃO ÉTICA DA PESQUISA BIOMÉDICA COM SERES HUMANOS ......20 3 - FINALIDADES DA PESQUISA BIOMÉDICA COM SERES HUMANOS ............................................................22 4 - ALGUNS TIPOS DE PESQUISA BIOMÉDICA COM SERES HUMANOS .........................................................24 5 - PESQUISA EM SUJEITOS EXPOSTOS A CONDIÇÕES PARTICULARES DE VULNERABILIDADE ...............26 6 - PESQUISA EM CONDENADOS À MORTE ........................................................................................................28 7 - PESQUISA NOS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO NAZISTAS, EM PRISIONEIROS ........................................30 8 - CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................................................. 31 PESQUISA BIOMÉDICA COM SERES HUMANOS PROF. DR. LUIZ ANTONIO BENTO ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: DEONTOLOGIA E LEGISLAÇÃO 18WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO O rápido progresso das Ciências Biomédicas trouxe novos e inquietantes problemas éticos. Porém, o desenvolvimento biotecnológico não pode subordinar a pessoa humana ao interesse das ciências, da atividade experimental e seus interesses econômicos correspondentes. Por outro lado, deixar de realizar a investigação em seres humanos não é aceitável, tendo em vista todos os benefícios incalculáveis que ela pode oferecer. Antiético seria deixar de fazê-la. Este capítulo se propõe a tratar da pesquisa que pode envolver seres humanos e que é destinada ao seu próprio benefício. Trata-se de pesquisa feita para o homem, no homem e com o homem (BENTO, 2011). 19WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 1 - CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE PESQUISA BIOMÉDICA COM SERES HUMANOS Não é possível separar a história da experimentação com seres humanos da história da Medicina. É sabido que na era hipocrática já era praticada a vivisseção, com a � nalidade de compreender a estrutura anatômica do ser humano, sendo que só no século XVII foram realizadas as primeiras experiências destinadas à compreensão da funcionalidade do organismo. Contudo, somente na era hospitaleira da medicina do século XIX, é que se deu a maturação dos estudos de � siologia e patologia, essencial ao entendimento da saúde e da doença. Paralelamente à evolução da medicina experimental, em particular da patologia e da farmacologia, a utilização de seres humanos na pesquisa se impôs para o estudo dos mecanismos patogênicos e terapêuticos. Em graus variáveis, esses estudos podem levar tanto a desconfortos passageiros como a danos reversíveis ou irreversíveis, gerando assim con� ito de interesses entre o pesquisador e o sujeito de pesquisa. A tomada de consciência das implicações éticas, legais e sociais da pesquisa biomédica com seres humanos se dá somente depois da Segunda Guerra Mundial, particularmente, através dos julgamentos dos crimes de guerra pelo Tribunal de Nuremberg. Um dos temas mais polêmicos tratados por esse tribunal foi o das experimentações realizadas nos campos de concentração nazistas em prisioneiros sadios e doentes, sem o conhecimento e consentimento dos mesmos. A análise levada a cabo em Nuremberg revelou o desvio da conduta de pesquisadores que, na busca dos bens da saúde e da vida, deixaram de respeitar esses mesmos bens nos sujeitos de pesquisa. Esses desvios não ocorreram unicamente nos campos de concentração nazistas, mas também e posteriormente, em outros países do ocidente, inclusive os EUA. O ser humano vem sendo seguidamente objeto de pesquisas em muitos aspectos da sua realidade, sem que, em muitos casos, sejam devidamente avaliadas as implicações éticas. Um desses aspectos particulares corresponde à necessidade da busca de novas abordagens terapêuticas para o tratamento de doenças ainda sem cura ou aquelas cujas terapias podem ser aperfeiçoadas, o que exige a pesquisa envolvendo seres humanos. Com o rápido avanço das ciências, várias de� nições vêm sendo propostas para pesquisa biomédica, como a apresentada nas Diretrizes Éticas Internacionais para a Pesquisa Biomédica sem Seres Humanos, do Conselho de Organizações Internacionais de Ciências Médicas (CIOMS). Esse documento, proposto com a � nalidade de facilitar e encorajar as atividades internacionais no âmbito das ciências médicas, a� rma que “o termo pesquisa se refere a um tipo de atividade estruturada para desenvolver ou contribuir para o conhecimento generalizável e inclui os estudos médicos e de comportamento relativos à saúde humana. De modo geral, o termo pesquisa é acompanhado pelo adjetivo biomédica para indicar sua relação com a saúde” (CONSELHO DE ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS DE CIÊNCIAS MÉDICAS, 2004). O signi� cado da palavra experimentação não é sempre univocamente entendido. Para alguns autores, esta expressão comporta dois signi� cados: subjetivo e objetivo. Seu signi� cado subjetivo corresponde à experimentação como repetição de uma ação realizada por um sujeito que conhece sua modalidade e êxitos por via ordinária e, dessa forma adquire uma habilidade que antes não possuía. Assim entendida, experimentação corresponde à aprendizagem. No campo cientí� co, o signi� cado que se dá à palavra experimentação é o do método cujo objetivo é o de adquirir um conhecimento novo e generalizável. 20WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Nesse sentido, a experimentação corresponde à veri� cação, mediante o uso direto de procedimentos ou meios que são novos, dos quais não são conhecidas as possíveis consequências diretas ou indiretas, imediatas ou em longo prazo. 2 - NECESSIDADE DA REGULAMENTAÇÃO ÉTICA DA PESQUISA BIOMÉDICA COM SERES HUMANOS A natureza empírica da biomedicina postula a necessidade da experiência. Depois de Galileu Galilei (1564-1642), a ciência cresceu exponencialmente, levando ao aperfeiçoamento do método experimental e ampliando suas possibilidades e potencial. Por outro lado, a ciência baseada na experimentação e análise da realidade levou a um novo modo de ver a realidade, no qual só é verdadeiro o que se pode demonstrar empiricamente, ou seja, com base em demonstrações experimentais sólidas (BENTO, 2011). Nas últimas décadas, os avanços veri� cados na biomedicina e na biotecnologia permitiram interferir e manipular os seresvivos, inclusive os seres humanos, o que afeta direta ou indiretamente a vida de todos, trazendo importantes e complexas questões éticas. Ainda que os antecedentes da re� exão bioética possam ser rastreados no século XIX foram as atrocidades cometidas na Alemanha nazista que, nos julgamentos do Tribunal de Nuremberg, chamaram a atenção mundial para a necessidade de estabelecer limites para a atividade cientí� ca. O Código de Nuremberg (1947) é um importante marco internacional da regulamentação da pesquisa em seres humanos baseado no conceito dos direitos fundamentais e universais da pessoa humana. Nele foram estabelecidos limites éticos para a atividade cientí� ca dos pro� ssionais que realizam pesquisas com seres humanos, enfatizando a necessidade do consentimento livre e esclarecido dos sujeitos de pesquisa, o que é claramente enunciado no primeiro parágrafo desse código: O consentimento voluntário do ser humano é absolutamente essencial. Isso signi� ca que as pessoas que serão submetidas ao experimento devem ser legalmente capazes de dar consentimento; essas pessoas devem exercer o livre direito de escolha sem qualquer intervenção de elementos de força, fraude, mentira, coação, astúcia ou outra forma de restrição posterior; devem ter conhecimento su� ciente do assunto em estudo para tomarem uma decisão. Esse último aspecto exige que sejam explicados às pessoas a natureza, a duração e o propósito do experimento; os métodos segundo os quais será conduzido; as inconveniências e os riscos esperados; os efeitos sobre a saúde ou sobre a pessoa do participante, que eventualmente possam ocorrer, devido à sua participação no experimento. O dever e a responsabilidade de garantir a qualidade do consentimento repousam sobre o pesquisador que inicia ou dirige um experimento ou se compromete nele. São deveres e responsabilidades pessoais que não podem ser delegados a outrem impunemente. 21WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 1 – Tribunal de Nuremberg. Fonte: Google Imagens (2019). O Código de Nuremberg é seguido pela promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (1948). Esses direitos, tomados como fundamentais e universais, transformaram as relações sociais, particularmente no ocidente. No Artigo Primeiro � ca estabelecido que: “todos os homens nascem livres e iguais em dignidade. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”. Dentro dessa mesma linha de pensamento, o Código Internacional de Ética Médica (1949), ao tratar dos deveres do médico em geral, ressalta que “qualquer ato ou conselho que possa enfraquecer física ou moralmente a resistência do ser humano só poderá ser admitido em seu próprio benefício”. A consciência dos possíveis desvios nas pesquisas médicas não diminui sua legitimidade. Os incidentes que ocorreram, por mais graves que possam ter sido, não invalidam a necessidade da pesquisa em seres humanos, mas mostram a necessidade de haver adequado controle social das mesmas. Ela deverá ser conduzida com rigor cientí� co, prudência e uso de metodologia adequada de modo que sejam alcançados os benefícios das inovações evitando e limitando os possíveis riscos. Nessa perspectiva, Pio XII, ainda em 1958, havia se manifestado sobre a importância e validade da experimentação em seres humanos, a� rmando que a Medicina tem o direito a realizar “tentativas e intervenções, com métodos e procedimentos novos” desde que sejam para o bonum commune, ou seja, voltados para o “interesse da comunidade” e da “sociedade humana”. 22WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA A quarta cláusula da Introdução da Declaração de Helsinki (1964, mantida nas versões posteriores), reconhece que “o progresso da Medicina se baseia na investigação, a qual, em última análise, tem que recorrer, muitas vezes, à experimentação em seres humanos”. Essa Declaração exige a conformidade da pesquisa médica aos princípios cientí� cos geralmente reconhecidos (Art. 12); a clara exposição do projeto em um protocolo relatado por escrito (Art. 14), a submissão a exame de um comitê independente de análise (Art. 15) e a responsabilidade pela condução da mesma por investigador quali� cado (Art. 16). Estes princípios estão claramente expressos, também, na resolução n. 196/96, rea� rmados e atualizados na resolução n. 466/12, do Conselho Nacional de Saúde do Brasil. Como uma nítida evolução da valorização dos direitos da pessoa, nas versões da Declaração de Helsinki, posteriores a 1975, é enfatizada a superioridade ética dos interesses do indivíduo sobre os interesses da ciência e da sociedade. A Cláusula 5 da Introdução da versão de Edimburgo (2000) declara que “a preocupação pelos interesses dos sujeitos deve sempre ter a prevalência sobre interesses da ciência e da sociedade”. Na pesquisa cientí� ca é fundamental de� nir o seu objetivo, o sujeito e as condições de sua realização, seja ela de investigação básica, diagnóstica ou terapêutica. Não pode deixar de ser avaliado o grau de vulnerabilidade do sujeito de pesquisa, pois diferentes situações podem limitar o uso de sua autonomia, tais como as advindas de suas condições de saúde física e mental e de situações particulares de vida, tais como as proporcionadas pelas instituições totais, como são as prisões, os regimentos militares e os internatos. Por outro lado, por não poderem expressar diretamente suas necessidades e desejos, são particularmente vulneráveis os embriões, fetos e menores de idade. No Brasil, em particular, não pode deixar de ser lembrada a situação dos indígenas, que são tutelados pelo estado. Devem sempre ser garantidas as condições para o adequado exercício da liberdade e da autonomia, o que inclui o acesso às informações claras e corretas, que são necessárias para a validade do consentimento livre e esclarecido. A ética deve iluminar o caminho dos pesquisadores, pois ela é capaz indicar o equilíbrio entre a natureza e a pessoa, a tecnologia e a vida humana. Todo ser humano é inviolável e desfruta de igual direito na sociedade, a qual tem o dever de lhe garantir o exercício de sua autonomia na medida de sua capacidade especí� ca. Portanto, em nome da sociedade e da ciência, o pesquisador tem o dever de respeitar e evitar qualquer prejuízo ao sujeito de pesquisa (BENTO, 2011). 3 - FINALIDADES DA PESQUISA BIOMÉDICA COM SERES HUMANOS Tanto Código de Nuremberg como a Declaração de Helsinki reconhecem uma distinção fundamental entre a pesquisa básica e aquela destinada à aplicação diagnóstica ou terapêutica (BENTO, 2011). A pesquisa básica tem como objetivo direto veri� car hipóteses cientí� cas, sem correlação direta de benefícios com as necessidades do sujeito pesquisado ou da sociedade. Por outro lado, a pesquisa aplicada tem por objetivo o desenvolvimento de métodos diagnósticos ou terapêuticos, e é destinada ao benefício individual e o da sociedade como um todo. Ou seja, enquanto a pesquisa básica tem como � nalidade adquirir conhecimentos, prescindindo de uma utilidade imediata, a aplicada é orientada para a bene� cência, e como tal deve possuir relevância diagnóstico- terapêutica direta para o sujeito da pesquisa, para a sociedade, ou ambos. 23WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA A introdução de novos medicamentos, técnicas cirúrgicas e métodos diagnósticos está sujeita a incógnitas, riscos e perigos para a pessoa humana. Por isso, a proteção da dignidade e dos direitos humanos impõe ao estudo a necessidade de estabelecer critérios que minimizem a possibilidade de ocorrer qualquer tipo de male� cência. Entre os princípios básicos da Declaração de Helsinki encontra-se a obrigação de obter o consentimento livre e esclarecido do sujeito da pesquisa ou de seu representantelegal, o que é exigido pela Resolução n. 196/96 do Conselho Nacional de Saúde do Brasil. Todavia, se por algum motivo não for possível obter o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), a Resolução acima referida dispõe que o Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) e, se for o caso, a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), após a devida análise do protocolo da pesquisa, diante de justi� cativas relevantes e eticamente aceitáveis, poderá dispensar sua necessidade. Embora, a pesquisa com sujeito humano exija o seu livre consentimento ou do seu responsável legal, a responsabilidade da pesquisa é sempre do pesquisador e não do paciente. O pesquisador deve respeitar o direito de cada indivíduo resguardar sua integridade pessoal. Para evitar con� ito de interesses, o sujeito de pesquisa não pode ter uma relação de dependência com o pesquisador, tal como aquela que existe entre comandado e comandante no exército, professor e aluno nas universidades, e qualquer outra situação análoga de hierarquia. Por outro lado, a qualquer momento, no decorrer da pesquisa, o paciente ou seu responsável são livres para desistir da autorização dada para a realização do estudo e deixar de ser sujeito de pesquisa. A recusa para se tornar sujeito de pesquisa ou, depois de tê-lo aceito, desistir de completar o estudo proposto, não deve interferir no seu direito de receber o tratamento preconizado para doença. A razão da pesquisa de novos métodos terapêuticos reside na esperança de encontrar alívio do sofrimento, prevenção e remédio de doenças para as quais não há tratamento possível ou, para aquelas que já dispõem de alternativas terapêuticas, outro mais e� ciente. O mesmo se pode dizer sobre os métodos diagnósticos. Na pesquisa clínica o estudo desses novos métodos diagnósticos ou terapêuticos só é eticamente aceitável na condição dos pacientes não serem privados do uso dos melhores métodos disponíveis, o que permite a veri� cação da semelhança ou superioridade do tratamento proposto em relação aos já existentes. Não é eticamente aceitável privar o paciente de procedimentos seguros para experimentar outros desconhecidos, sem e� cácia comprovada e possíveis efeitos secundários desconhecidos. Assim sendo, não pode ser utilizado placebo ou de métodos de retirada de tratamento já estabelecido (washout) na realização de estudos envolvendo medicamentos. Esta é a razão pela qual a resolução n. 404/2008, do Conselho Nacional de Saúde do Brasil discorda da nova Declaração de Helsinki, uma vez que esta aceita que um novo medicamento seja comparado ao placebo em populações que não dispõem de nenhum tipo de tratamento. Ainda, em 1975, no Brasil, as pesquisas clínicas foram regulamentadas pela Resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) n. 671/1975, publicada no Diário O� cial (Seção I - Parte II) de 01/09/1975. A resolução foi aprovada em vista da necessidade de estabelecer normas de orientação a serem seguidas pela classe médica, referentes às pesquisas e entendimento entre o pesquisador e o sujeito da pesquisa. A resolução assegura que o legítimo interesse do pesquisador não deve, de forma alguma, por em perigo a vida do indivíduo submetido à pesquisa e considera a Declaração de Helsinki, adotada pela Associação Médica Munidal, como guia a ser seguido pela classe médica em matéria referente à pesquisa com seres humanos. 24WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Os documentos internacionais e nacionais recomendam que as pesquisas não- terapêuticas, antes de serem aplicadas ao homem, sejam realizadas previamente em modelos celulares e animais. Os projetos de pesquisa devem ser rigorosos e cuidadosamente pensados e aprovados por um comitê legitimamente reconhecido. De acordo com as normas vigentes no Brasil, o paciente não pode ser visto como mero objeto de pesquisa, mas como seu sujeito ativo. 4 - ALGUNS TIPOS DE PESQUISA BIOMÉDICA COM SERES HUMANOS A pesquisa com seres humanos faz parte da própria história da Medicina, feita ao longo dos séculos em todo o mundo, com diferentes padrões de ética e de qualidade. Ela pode ser realizada com indivíduos voluntários, sadios ou doentes, sendo exigência ética que possam exercer sua autonomia ou que seus responsáveis a represente (BENTO, 2011). Assim sendo, pessoas em condições de grande vulnerabilidade não devem ser sujeitos de pesquisa, tais como os condenados à morte, prisioneiros, militares, internos em instituições destinadas aos cuidados de órfãos e pessoas abrigadas em campos de refugiados, entre outros. Uma forma particular de pesquisa é a realizada em si mesmo, o que se constitui na assim chamada auto-experimentação. Muitos pesquisadores testaram desta forma a validade de novas terapias, causando, por vezes, a própria morte. Trata-se de uma atividade cientí� ca que foge às regras da pesquisa comum sobre outros sujeitos. Ao longo da história, alguns gestos de altruísmo podem ser recordados. Entre outros, está o caso de Moisés Maimônides, médico e � lósofo hebreu do século XII, que instruía os seus aprendizes a experimentar sobre si mesmos a e� cácia dos procedimentos então disponíveis. Werner Forsman, Prêmio Nobel de 1956, realizou o cateterismo cardíaco em si próprio, pela primeira vez, em 1929. Outro pesquisador que usou a si mesmo, além da mulher e dos � lhos, como sujeitos de pesquisa, foi Jonas Salk. Por ocasião dos testes iniciais com a vacina contra a poliominite, Salk declarou: “Quando você inocula crianças com a vacina contra a pólio, você não dorme bem por dois ou três meses”. Para resolver seu con� ito, Salk decidiu compartilhar os mesmos riscos, e assim, vacinou a si mesmo, sua mulher e seus � lhos. Na história da medicina no Brasil, recorda-se que o Dr. Vital Brasil, cientista de fama mundial por ter desenvolvido os soros antiofídicos, deixou-se morder por cobras venenosas para poder testar a e� cácia e segurança desses soros. Deve ser notado que, do ponto de vista ético, a sociedade não é aceitável que alguém seja exposto a qualquer risco desnecessário ou desproporcional, mesmo que seja o próprio pesquisador, que deve seguir as normas válidas para todo e qualquer sujeito de pesquisa. Por outro lado, o uso de familiares – como cônjuges e � lhos – não é aceitável, pois essas relações familiares tornam o sujeito de pesquisa vulnerável, uma vez que existe uma coação, ainda que afetiva e inconsciente, que limita a liberdade para aceitar ou não participar do experimento. Essa situação gera um con� ito de interesses entre o desejo da descoberta cientí� ca e o uso das pessoas próximas como sujeitos de pesquisa expostos a riscos não previsíveis (BENTO, 2011). Nem todos os experimentos destinados ao estudo de novos métodos diagnósticos e terapêuticos podem ser estudados em pessoas sadias. Como exemplo pode ser citado a determinação de características farmacocinéticas de medicamentos novos ou de seus similares (como ocorre no caso dos medicamentos genéricos) em sujeitos sadios. Neste caso, o uso de sujeitos de pesquisa sadios evita a interferência das alterações funcionais advindas da doença, que podem levar a interpretação errônea dos resultados obtidos. 25WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Ainda que toda experimentação em seres humanos envolva riscos para o sujeito de pesquisa, esses estudos em pessoas sadias exigem cuidados especiais para minimizá-los ao máximo. Tanto as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisas Envolvendo Seres Humanos, do Conselho Nacional de Saúde, Resolução n. 196/96, como o Código de Ética Médica brasileiro, a pesquisa com sujeito humano não pode ser realizada sem que o participante tenha dado consentimento por escrito, após devidamente esclarecido sobre a sua natureza, possíveis riscos e benefícios. Outras exigências postas pela Resolução n. 196/96 em relação à obtenção do termo de consentimento livre e esclarecidose refere à necessidade de todos os esclarecimentos serem apresentados em linguagem acessível àqueles que possam ser convidados a participar como sujeitos de pesquisa de estudos em seres humanos. Na situação particular de nosso país, em que grande parte da população pode ser considerada vulnerável, quer pela situação econômica, quer pela baixa escolaridade e di� culdade em ler e compreender ideias expressas através de termos técnicos e linguagem elaborada, o processo de esclarecimento exige especial cuidado, pois sem ele qualquer consentimento não tem valor ético e legal. Isso é decorrência do fato de que aquele que é convidado a se tornar sujeito de pesquisa só pode tomar uma decisão livre e consciente se tiver compreendido na medida de sua capacidade, os riscos e benefícios aos quais estaria se expondo ao participar do estudo. Outro elemento importante a ser ponderado é saber quais são as motivações que levaram uma pessoa a se apresentar como voluntário para uma determinada pesquisa. Ainda que no Brasil o sujeito de pesquisa não possa ser remunerado por sua participação nos estudos, é previsto o ressarcimento dos gastos com transporte e alimentação. Assim sendo, é possível que um voluntário em di� culdade econômica possa participar de um estudo clínico unicamente com o intuito de auferir algum lucro, seja monetário ou material, representado, por exemplo, pela alimentação oferecida nos dias em que os procedimentos experimentais são realizados. É eticamente inaceitável que sejam oferecidas vantagens aos sujeitos de pesquisa com o intuito de aliciá-los, pois isso criaria um grave con� ito de interesses. O mesmo impeditivo ético se dá quando o procedimento experimental é oferecido como a cura para um doente incurável, que por sua própria condição de saúde se encontra extremamente vulnerável, sem expor os limites do tratamento previsto, seus possíveis riscos e benefícios. Isso envolveria, de certo modo, prometer o que não é possível, gerando uma expectativa maior do que a real, portanto falsa ou fantasiosa e, assim sendo, com alta possibilidade de ser frustrante. Esta situação poderia ser entendida como a indução de pessoas altamente vulneráveis a aceitar a condição de sujeito de pesquisa através da insinuação de benefícios que podem ser esperados, mas que não podem ser garantidos, dos procedimentos experimentais (BENTO, 2011). A condição de voluntário dos sujeitos de pesquisa não exime o pesquisador da responsabilidade por todos os efeitos decorrentes da pesquisa. 26WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 5 - PESQUISA EM SUJEITOS EXPOSTOS A CONDIÇÕES PARTICULARES DE VULNERABILIDADE A partir do � nal da Segunda Guerra Mundial, dois fatores levaram a uma reavaliação da necessidade de regular a prática médica. Por um lado, os horrores dos campos de concentração associados a pesquisas médicas realizadas em certos grupos da população tinham chocado e envergonhado o mundo. Por outro lado, o progresso cientí� co e tecnológico trouxe situações novas que exigiam decisões complexas, tais como a escolha de pacientes para receber tratamentos não disponíveis para todos os que dele poderiam ser bene� ciários (BENTO, 2011). Foi o horror causado pelos experimentos nazistas que estimularia a elaboração do primeiro texto de referência em bioética, de alcance internacional: o Código de Nuremberg (1947). Figura 2 – Experimentos genéticos nazista. Fonte: Google Imagens (2018). O Código elaborado, por ocasião do julgamento dos crimes de guerra realizados pelo Tribunal Internacional de Nuremberg, em 1947, contempla um conjunto de princípios que deveriam nortear as pesquisas a serem realizadas em seres humanos, que recebeu o nome de Código de Nuremberg. Isso não impediu que continuassem sendo desenvolvidos estudos em seres humanos no chamado mundo civilizado. Há casos clássicos, bem documentados, como o Tuskegee Syphilis Study, iniciado na década de 1930 e conduzido por muitos anos, cujos resultados se tornaram públicos apenas em 1972. 27WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Esse estudo, realizado pelo Public Health Service em Macon County, Alabama, EUA sem o conhecimento e o consentimento dos sujeitos de pesquisa, analisou doentes de sí� lis de uma comunidade pobre constituída por afro descendentes analfabetos que não receberam tratamento com o objetivo de estudar a evolução natural da doença (PUBLIC HEALTH REPORTS, p. 391- 395). Em 1996, o governo norte-americano pediu desculpas públicas àquela comunidade negra pelo que foi feito. Diante da gravidade dos problemas que vão aparecendo, uma Declaração que trata das questões relativas às pesquisas em seres humanos é submetida à votação e aprovada na XVIII Assembleia Médica Mundial realizada em Helsinki, Finlândia, em 1964. O texto foi revisado pela primeira vez durante a 29ª Assembleia Geral, em Tóquio e, posteriormente, nas Assembleias de Veneza (1983), Hong-Kong (1989), Sommerset West, África do Sul (1996), Edimburgo, Escócia (2000) e Seul, Coreia do Sul (2008). Sua última versão, sob pressão das empresas multinacionais de fármacos, relativizou o uso do placebo, razão pela qual o Brasil não a rati� cou. A Resolução n. 404/2008 do Conselho Nacional de Saúde e o novo Código de Ética Médica, Resolução CFM n. 1.931/2009, expressam a posição brasileira contra o uso de placebo e eventual suspensão de tratamento (washout). Trabalho publicado por Hans-Martin Sass (1983) mostra situações ainda anteriores à guerra, como a de uma circular emitida pelo Ministério da Saúde alemão em 1931, destinada a regular o uso de novas terapias e as pesquisas cientí� cas em seres humanos, a qual continuou vigente durante o regime nazista. Neste documento o direito à concordância do paciente, ou de seu subs- tituto legal, foi reconhecido. Ele devia conceder seu consentimento “claro e indubitável” para participar em ensaios clínicos e experimen tais programados. Sua ordenação legal é muito semelhante à encontrada no Código de Nuremberg, publicado em 1947, como mostra Sass (KOTTOW, 2008). A semelhança entre os variados códigos existentes, tanto internacionais como locais, mostram convergência universal de opinião sobre os princípios éticos fundamentais, o que pode ser tomado como uma manifestação da existência de uma lei natural. Isto pode ser con� rmado pela observação das legislações estabelecidas em diferentes países. O fato dessas legislações não impedirem atrocidades registradas com certa frequência faz pensar que a questão fundamental esteja relacionada com a atribuição da condição humana ou da cidadania. Por não terem sido considerados seres humanos e cidadãos merecedores de respeito, os ciganos, homossexuais, doentes mentais, idosos incapacitados e judeus, entre outras pessoas não desejadas pela sociedade nazista, a legislação acima citada não interferiu nos experimentos realizados por cientistas, dentre os quais Mengele pode ser tomado como paradigma. De fato, apesar da Lei, a sociedade (representada pelo estado) não os incluiu como dignos dos direitos mais fundamentais. A � m de assegurar as exigências de base legal do sistema da bioética, a Declaração de Helsinki prescreve que a missão do médico é salvaguardar a saúde das pessoas e o seu conhecimento acumulado deve estar a serviço dessa nobre missão. A declaração, em seus princípios básicos, exige que a pesquisa cientí� ca respeite uma proporcionalidade adequada entre os possíveis riscos e benefícios para o sujeito de pesquisa. Além disso, deve também respeitar a privacidade do participante e minimizar o impacto do estudo sobre sua integridade física e mental e sobre sua personalidade e ser adequadamente informado sobre os objetivos, métodos, benefícios previstos e potenciais perigos do estudo e o incômodo que este possa acarretar. 28WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 2 ENSINO ADISTÂNCIA No Brasil, em concordância com a Declaração de Helsinki, os objetivos, fundamentação cientí� ca, riscos e benefícios, programa e cada procedimento da pesquisa a ser realizada em seres humanos devem ser enunciados claramente em um protocolo de pesquisa que deve ser avaliado por um Comitê de Ética em Pesquisa e, quando necessário, pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP). En� m, há uma farta bibliogra� a sobre a eticidade das pesquisas em pessoas particularmente vulneráveis, pois se reconhece que nelas pode haver fatores que lhes diminuem a liberdade de decisão. Deve ser cuidado para que, quando convidadas a participar como sujeitos de pesquisa, tenham a plena liberdade para manifestar seu consentimento, evitando qualquer situação que possa representar coação, tais como as originadas em necessidades econômicas, comum nos países em desenvolvimento (BENTO, 2011). 6 - PESQUISA EM CONDENADOS À MORTE É antiga a prática da experimentação em sujeitos condenados à morte. Recorda-se, por exemplo, no século V a.C., o médico Heró� lo, vivissecava seres humanos condenados à morte para estudar a anatomia e a � siologia do corpo. Mas, têm-se notícias recentes de Estados que realizaram experiências e tratamentos de alto risco com condenados à morte. A Declaração de Helsinque (1964) da AMM, com o título Recomendações para a orientação de médicos quanto as pesquisas biomédicas envolvendo seres humanos», na sua Introdução prescrevem que «a missão do médico é salvaguardar a saúde das pessoas. Seu conhecimento e sua consciência são dedicados ao cumprimento desta missão. Segundo a Declaração de Helsinque, princípios básicos para uma intervenção exigem que esta seja proporcional ao risco inerente para o participante (I.4); o desenho e a realização de cada procedimento experimental, envolvendo seres humanos devem ser enunciados claramente em um protocolo de experiência que deve ser transmitido, para consideração, comentários e orientação, a um comitê, especialmente nomeado, independente do investigador e do patrocinador, desde que este comitê independente esteja de acordo com as leis e regulamentos do País onde se realiza a pesquisa (II.2); a recusa do paciente em participar de um estudo nunca deve interferir na relação médico-paciente (II.4); deve ser antecedido por uma avaliação cuidadosa dos riscos previsíveis, em comparação com os benefícios previstos, para o participante ou para terceiros (II.5); respeitar a privacidade do participante e minimizar o impacto do estudo sobre sua integridade física e mental e sobre sua personalidade (II.6); deve ser adequadamente informado sobre os objetivos, métodos, benefícios previstos e potenciais perigos do estudo, e o incômodo que este possa acarretar (II.7). No Brasil, as pesquisas, envolvendo seres humanos, devem atender às exigências éticas e cientí� cas fundamentais que consiste em: a) consentimento livre e esclarecido dos indivíduos- alvo e a proteção a grupos vulneráveis e aos legalmente incapazes (autonomia). Nesse sentido, a pesquisa, envolvendo seres humanos, deverá sempre tratá-los em sua dignidade, respeitá-los em sua autonomia e defendê-los em sua vulnerabilidade; b) ponderação entre riscos e benefícios, tanto atuais como potenciais, individuais ou coletivos (bene� cência), comprometendo-se com o máximo de benefícios e o mínimo de danos e riscos; c) garantia de que danos previsíveis serão evitados (não-male� cência); e d) relevância social da pesquisa com vantagens signi� cativas para os sujeitos da pesquisa e minimização do ônus para os sujeitos vulneráveis, o que garante a igual consideração dos interesses envolvidos, não perdendo o sentido de sua destinação sócio humanitária (justiça e equidade). 29WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA O CEM em vigor, no Capítulo XII, Art. 130, proíbe ao médico de «realizar experiências com novos tratamentos clínicos ou cirúrgicos em paciente com afecção incurável ou terminal sem que haja esperança razoável de utilidade para o mesmo, não lhe impondo sofrimentos adicionais». Ora, conforme esse Código, o médico jamais poderá realizar Conforme a Resolução 196/96, Capítulo III.1, “qualquer estudo que seja que venha a expor o paciente a qualquer tipo de risco grave, em particular ao risco da morte. Parece improvável que um estudo que envolvesse alto risco à vida do paciente fosse aprovado pelos Comitês de Ética a partir do fato de que o paciente recebera uma sentença de morte pela Justiça. Além disso, toda a rotina dos estudos/testes precisa ser necessariamente apresentada ao paciente de antemão de forma que ele saiba exatamente como o estudo será encaminhado. Nada pode ser feito diferentemente daquilo que foi combinado”. Outro elemento importante a ser veri� cado e levado a sério pelo médico e pelo pesquisador é que ninguém tem o direito de interferir na vida e destino de outro de forma irreversível e de� nitiva. Desta forma, convém ressaltar que “o pesquisador, ainda que com o consentimento do condenado, chama para si um poder divino – que é a decisão de quando alguém deve morrer. Um sentenciado à pena de morte vive mesmo nos seus últimos dias e momentos de vida, uma experiência única na medida em que vê abreviada sua existência na Terra em virtude de um crime gravíssimo cometido no passado. Nessas condições, cada segundo de vida na Terra tem uma importância fundamental para a vida espiritual desse indivíduo na medida em que ele pode rever seus atos e, nesse processo, modi� car sua caminhada espiritual a partir do arrependimento sincero submetido ao perdão divino” (RESOLUÇÃO 196/96). O que não falta são escritos sobre a eticidade das pesquisas em presos e pessoas com poucos recursos, pois se reconhece que neles poderá ter fatores que lhes diminuem a capacidade livre de decisão. A pesquisa, envolvendo sujeitos presos, deve ter o cuidado para que seu consentimento não seja obrigado ou coagido por medo a uma repressão ou por outras necessidades, como por exemplo: econômica, prática muito comum nos países pobres do chamado Terceiro Mundo. Os limites objetivos da vida e da integridade da pessoa valem para todo o caso, também para as pessoas prisioneiras. Certamente Para os autores Pessine; Barchifontaine (2014), o uso dos seres humanos em experimentos cientí� cos traz inegáveis benefícios sociais. Contudo, é preciso admitir: existe um con� ito virtual entre o interesse do indivíduo submetido à experimentação e o interesse da ciência. Esse con� ito, porém, pode chegar a ser insuportável, como atestam os experimentos conduzidos nos campos de concentração nazistas, onde prisioneiros raciais, políticos e militares foram postos à disposição dos médicos para todo e qualquer tipo de experimentação. Pesquisas revelam que os prisioneiros eram as pessoas indicadas para experiência médica, não se pode negar que os mesmos são sujeitos com capacidade para decidir se querem ou não participar de experimentos cientí� cos, não obstante acabam sendo na prática, pessoas vulneráveis e sujeitas ao abuso. Esta não é mais uma prática comum, pois as leis internacionais e nacionais são muito atentas a estes aspectos da pesquisa, sobretudo nos países onde estas leis são sérias e levadas a sério (HOSSNE, 2003). 30WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA 7 - PESQUISA NOS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO NAZISTAS, EM PRISIONEIROS É largamente reconhecido que os experimentos conduzidos em prisioneiros pelos médicos nazistas nos campos de concentração durante a segunda guerra mundial foram de fato crimes brutais cometidos com a aparência de pesquisa médica. As experimentações em prisioneiros nos campos de concentração nazistas marcaram um dos períodos mais cruel da história da humanidade. Na linguagem comum, Auschwitz é uma palavra símbolo que representa, para os hebreus, todos os campos de extermínio nos quais seus parentes e amigos são mortos,sofreram torturas intoleráveis e o aniquilamento da personalidade. O terrível acontecimento Auschwitz tornou uma espécie de paradigma do mal, uma tragédia particularmente para quem nasceu na tradição religiosa hebreia. Não é fácil falar em Auschwitz. É como entrar em um outro mundo de ódio, de horror, de omissões, de perseguição, de ideologia cega e estúpida, de impotência e sair de lá um homem transformado, um homem novo, uma chamada a uma verdadeira e própria conversão. Quem chegava em Auschwitz signi� cava a separação da família, era constrangido a esquecer tudo. Os presos sofriam as mais diversas formas de violência física e psíquica que, em breve tempo, três ou quatro meses no máximo, morria por esgotamento, por fome, por abandono psicofísico, etc. Para viver em Auschwitz tinha apenas uma porta de saída: esquecer. Esquecer que é homem, que tem afeto, uma cultura, uma moral, uma família, uma fé (se tivesse uma), esquecer o mundo. Tudo isso para viver, talvez apenas mais um dia. Este era Auschwitz, este era “lager”. Um lugar sem “porque”. Embora a prática da experimentação médica em prisioneiros é muito antiga, não se conhece outro momento da história onde a dignidade do ser humano foi tão desprezada quanto no período da Segunda Guerra Mundial nos campos de concentração. “Os experimentos conduzidos nos campos de concentração nazistas – onde prisioneiros raciais, políticos e militares foram colocados à disposição dos médicos para todo e qualquer tipo de experimentação – mostraram ao mundo, de maneira inequívoca, que o con� ito entre o interesse cientí� co e o interesse da sociedade pode atingir limites insuportáveis” (HOSSNE, 2003). Os médicos e todas as pessoas que participaram no planejamento e na condução de experimentos com seres humanos sem o seu consentimento, no período de setembro de 1939 a abril de 1945, foram julgados, por crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Segundo os atos do processo de Nuremberg, os prisioneiros hebreus, polacos, russos, italianos foram submetidos a cruéis experimentações de remédios, de gás, de veneno (muitas dessas experimentações levaram à morte em meio a dores atrozes); experiências mortais foram feitas em câmaras de descompressão para estudar os efeitos do voo a grandes alturas; para analisar os efeitos do congelamento foram realizados outros estudos com prisioneiros submetidos, nus ou vestidos, a temperaturas polares produzidas arti� cialmente. Conta-se ainda experiência de corte de ossos, de músculos e de nervos; injeções de vacinas, de presumíveis soros anticancerígenos, de hormônios etc. Tudo isso motivado por uma suposta supremacia da ciência atrás da qual se escondia apenas a razão de Estado (SGRECCIA,2002). Foram comprovadas também outras formas de brutalidades com os prisioneiros, como as torturas e assassinatos, no decorrer dos experimentos médicos. As pessoas que eram submetidas à experimentação ou eram civis ou eram militares de nações em guerra com a Alemanha. 31WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Logo após o término da Segunda Guerra Mundial, em 1947 é promulgado o Código de Nuremberg com a � nalidade de colocar limites explícitos a toda e qualquer intervenção do homem sobre o homem. Foi o primeiro documento desta natureza que se tornou a base para a elaboração de normas e diretrizes nacionais, regionais e internacionais no campo da experimentação em seres humanos. 8 - CONSIDERAÇÕES FINAIS A pesquisa biomédica é uma realidade necessária e vital para a humanidade, particularmente, quando leva a sério às recomendações éticas internacionais e nacionais já reconhecidas e consagradas. De acordo com Bento (2011) vários aspectos éticos da pesquisa cientí� ca são tratados com grande clareza e propriedade pelo Catecismo da Igreja Católica (1993, nn. 2292-2295). Vale a pena reproduzir o texto relativo ao capítulo em que é tratada a questão do Respeito à Pessoa e à Pesquisa Cientí� ca: As experiências cientí� cas, médicas ou psicológicas em pessoas ou grupos humanos podem concorrer para a cura dos doentes e para o progresso da saúde pública. A pesquisa cientí� ca de base, como a pesquisa aplicada, cons tituem uma expressão signi� cativa do domínio do homem sobre a criação. A ciência e a técnica são recursos preciosos postos a serviço do homem e promovem seu desenvolvimento integral em benefício de todos; contudo, não podem indicar sozinhas o sentido da existên cia e do progresso humano. A ciência e a técnica estão ordenadas para o homem, do qual provêm sua origem e seu crescimento; por tanto, encontram na pessoa e em seus valores morais a indicação de sua � nalidade e a consciência de seus limites. As pesquisas ou experiências no ser humano não podem legitimar atos em si mesmos contrários à dignidade das pes soas e à lei moral. O consentimento eventual dos sujeitos não justi� ca tais atos. A experiência em seres humanos não é moralmente legítima se � zer a vida ou a integridade física e psíquica do sujeito correrem riscos desproporcionais ou evitá veis. A experiência em seres humanos não atende aos requi sitos da dignidade da pessoa se ocorrer sem o consentimento explícito do sujeito ou de seus representantes legais. Uma questão importante a ser considera é que, a pesquisa cientí� ca, ainda que seja desenvolvida por uma comunidade especializada, é uma realidade que interfere com toda a sociedade, razão pela qual é do interesse e da responsabilidade comum de todos os cidadãos. Assim sendo, a bioética ultrapassa a multidisciplinaridade, sendo espaço da partilha dos saberes e entendimentos de todos, transportando seus limites, inclusive, às dimensões da multiculturalidade (BENTO, 2011). Os governos não podem deixar de tratar com responsabilidade e seriedade a pesquisa em seres humanos por serem os guardiães da dignidade dos povos e etnias que constituem e formam a nação, respeitando não só as diversidades da multiculturalidade como a diversidade das condições sócio econômicas, as quais frequentemente, nos países em desenvolvimento, geram situações de grande vulnerabilidade para o sujeito de pesquisa. Essa responsabilidade decorre do fato de que não pode ser considerado um verdadeiro progresso cientí� co e tecnológico aquele que não respeita a própria dignidade humana. 32WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Sem analisar sua origem, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) proclamou solenemente que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo. A declaração indica conceitos éticos importantes para orientar o modo como dever ser tratado o ser humano. Como dito anteriormente, estas bases já foram reconhecidas e aceitas pela maioria dos países. [Para mais informações sobre experimentação humana, acessar: Filme “Cobaias” – um estudo médico chamado The Tuskegee Study para negros portadores de sífi lis não tratada. Disponível para locação em: <http://www.eovideolevou.com.br/ detalhe/completo.asp?cp=32167. > Acesso em: 12 nov. 2018]. Figura 3 – “Cobaias”. Fonte: Google Imagens (2018). Uma revisão interessante sobre pesquisa envolvendo seres humanos pode ser vista no vídeo: O Menino do Pijama Listrado. Primeiro Capítulo Dublado. Disponí- vel em: < https://www.youtube.com/watch?v=uXjBN6CNi68 >. Acesso em: 12 nov. 2018. 33WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 4 – O Menino do Pijama Listrado. Fonte: Google Imagens. (2018) Para mais informações sobre experimentação humana, ler: Pesquisa com Seres Humanos. FREITAS, Corina B.D.; HOSSNE, S.W., Iniciação à bioética / Sergio Ibia- pina Ferreira Costa, Gabriel Oselka, Volnei Garrafa, coordenadores. – Brasília: Con- selho, Federal de Medicina, 1998, pp.193-204. Disponível para locaçãoem: <http:// www.portalmedico.org.br/biblioteca_virtual/bioetica/parteiiisereshumanos.htm> Acesso em: 16 jan. 2019. Figura 5 – Célula. Fonte: Pixabay (2019) 34WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 2 ENSINO A DISTÂNCIA Para mais informações sobre experimentação humana, ler: Princípios da Bene- fi cência e Não-malefi cência. Kipper, D.J.; Clotet, J., Iniciação à bioética / Sergio Ibiapina Ferreira Costa, Gabriel Oselka, Volnei Garrafa, coordenadores. – Brasília: Conselho, Federal de Medicina, 1998, pp.193-204. Disponível para locação em: <http://www.portalmedico.org.br/biblioteca_virtual/bioetica/parteiiisereshuma- nos.htm> Acesso em: 16 jan. 2019. Figura 6 – Benefi cência e Não-malefi cência. Fonte: Pixabay (2019). Para mais informações sobre ética, ler A Bioética e a Saúde Pública. Iniciação à bioética / Sergio Ibiapina Ferreira Costa, Gabriel Oselka, Volnei Garrafa, coorde- nadores. – Brasília: Conselho, Federal de Medicina, 1998, pp.193-204. Disponível para locação em: <http://www.portalmedico.org.br/biblioteca_virtual/bioetica/ parteiiisereshumanos.htm> Acesso em: 16 jan. 2019. 3535WWW.UNINGA.BR UNIDADE 03 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................37 1 - O CÓDIGO DE NUREMBERG (1947) ..................................................................................................................38 2 - O CÓDIGO INTERNACIONAL DE ÉTICA MÉDICA (1949) ................................................................................38 3 - O RELATÓRIO DE BELMONT (1978) .................................................................................................................39 4 - DIRETRIZES ÉTICAS INTERNACIONAIS PARA A PESQUISA BIOMÉDICA COM SERES HUMANOS, CIOMS/ OMS (2002) .............................................................................................................................................................42 5 - A DECLARAÇÃO IBERO-LATINO-AMERICANA SOBRE DIREITO, BIOÉTICA E GENOMA HUMANO (2001)...............43 6 - DECLARAÇÃO UNIVERSAL SOBRE BIOÉTICA E DIREITOS HUMANOS (2005) ..........................................44 7 - NORMAS ÉTICAS EM PESQUISA COM SERES HUMANOS NO BRASIL .......................................................45 7.1. CÓDIGOS DE ÉTICA MÉDICA (2009) ..............................................................................................................45 7.2. A RESOLUÇÃO N. 01 DE 1988, DO CNS ..........................................................................................................47 ALGUNS DOCUMENTOS INTERNACIONAIS E NACIONAIS QUE AMPARAM E ESTIPULAM GARANTIAS, DIREITOS, DEVERES E REFERENCIAIS ÉTICOS EM RELAÇÃO AOS SERES HUMANOS PROF. DR. LUIZ ANTONIO BENTO ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: DEONTOLOGIA E LEGISLAÇÃO 36WWW.UNINGA.BR 7.3. A RESOLUÇÃO N. 196/96 DO CNS ..................................................................................................................47 7.4. A RESOLUÇÃO CNS NO 466/12 DO CNS .........................................................................................................48 7.5. RESOLUÇÃO CNS NO 510/16 ...........................................................................................................................48 8 - CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................................................................49 37WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO Apesar da existência de códigos antigos, como o de Hammurabi (2.394 a.C.), e de comportamentos éticos, somente há pouco mais de 60 anos, o ser humano procurou elaborar um primeiro documento especí� co sobre a ética na pesquisa com seres humanos, o conhecido Código de Nuremberg (1947). Aconteceu logo após a Segunda Guerra Mundial, quando os países aliados resolveram formar um Tribunal Internacional com a � nalidade de julgar os crimes cometidos contra a humanidade e crimes de guerra, o qual � cou conhecido como o Tribunal de Nuremberg. Nos anos sucessivos, com o avanço da atividade cientí� ca, especialmente na área da biomedicina, tornou-se evidente que era necessário elaborar novos documentos, seja a nível internacional ou nacional, para a sua regulamentação. Desta forma, foram elaborados novos Códigos, Declarações ou Normas com a � nalidade de regulamentar a pesquisa que envolve seres humanos, tendo como base, sobretudo, o Código de Nuremberg e de Helsinki. O objetivo agora é examinar os aspectos éticos que orientam a pesquisa que envolve seres humanos, em alguns dos mais relevantes destes documentos em âmbito internacional e nacional. 38WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA 1 - O CÓDIGO DE NUREMBERG (1947) No campo da pesquisa biomédica, o primeiro documento internacional, na perspectiva humanitária, foi o Código de Nuremberg, promulgado em 1947, como consequência do julgamento de médicos que tinham realizado experiências desumanas em prisioneiros, sem consentimento, durante a Segunda Guerra Mundial. O Código, elaborado para proteger a integridade de participantes de pesquisas, estabelece condições para a condução de pesquisas com seres humanos, enfatizando o consentimento voluntário do sujeito participante. Procura-se considerar no Código de Nuremberg, os valores éticos que devem guiar qualquer tipo de pesquisa cientí� ca que envolva seres humanos. Um dos aspectos mais salientes desse Código é a materialização das ideias de proteção aos seres humanos envolvidos em pesquisas biomédicas e a a� rmação do respeito à autonomia da pessoa humana, tornando-se obrigatório o seu consentimento para participar como sujeito da pesquisa quando diz que o consentimento voluntário do ser humano é absolutamente essencial. A pesquisa biomédica, quando for necessária, deve ser conduzida de tal maneira a evitar todo sofrimento e danos desnecessários, quer físico, quer materiais ao participante da pesquisa e de tal modo que o grau de risco aceitável deve ser limitado pela importância do problema que o pesquisador se propõe a resolver. Ninguém poderá ser forçado ou coagido a participar de uma pesquisa. Desta maneira, o Código de Nuremberg, declara que o participante da pesquisa deve ter a liberdade de se retirar no decorrer da experiência. Os princípios assumidos em Nuremberg devem ser entendidos como um alerta de que não se deve permitir que sejam repetidos os crimes cometidos pela máquina hitlerista, que é preciso defender a paz como o mais alto ideal e a necessidade maior para o desenvolvimento da civilização do amor e da esperança. 2 - O CÓDIGO INTERNACIONAL DE ÉTICA MÉDICA (1949) O Código Internacional de Ética Médica, quando trata dos deveres do médico em geral, reza que são consideradas como falta de ética as seguintes práticas: qualquer propaganda de sua pessoa, exceto aquelas devidamente autorizada pelo Código Nacional de Ética; colaborar em qualquer forma de serviços médicos, nos quais não tenha independência pro� ssional; receber qualquer pagamento em conexo com serviços prestados a um paciente, além de sua remuneração pro� ssional, mesmo com o seu consentimento. A precaução é apontada pelo Código Internacional de Ética Médica como importante no exercício de sua pro� ssão. Determina que a um médico é aconselhável usar de grande precaução em divulgar descobertas ou novas técnicas de tratamento. O Código, também manifesta sua preocupação com a pessoa humana e diz que, em relação aos deveres para com os doentes, o médico deve ter sempre o cuidado de conservar a vida humana e que deverá observar os princípios da Declaração de Genebra aprovada pela Associação Médica Mundial. 39WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA3 - O RELATÓRIO DE BELMONT (1978) O Ministério da Saúde dos Estados Unidos, concluindo que a sociedade não podia mais permitir que o equilíbrio entre os direitos individuais e o progresso cientí� co viesse determinado unicamente pela comunidade cientí� ca, em 1974, o governo norte-americano, através do congresso instituiu uma Comissão nacional, composta de 12 membros, com o objetivo de proteger as pessoas submetidas em pesquisa biomédica e comportamental e identi� car os princípios básicos que deveriam regulamentar estes tipos de experimentação. Esta comissão recebeu o nome de National Comission for the Protection of Humanan Subjectos o Biomedical and Behavioral Research e serviu-se de documentos já disponíveis, tais como o Código de Nuremberg (1947) e a Declaração de Helsinki (1964), preparando, porém um Relatório de mais fácil operação que passou a ser conhecido como Relatório de Belmont (Belmont Report), publicado em 1978. O Relatório de Belmont estabeleceu uma clara distinção entre a trajetória seguida pela ética em pesquisa nos Estados Unidos para proteger o sujeito humano contra as atrocidades de uma ciência sem princípios básicos que ajudam a superar problemas éticos ligados com a pesquisa envolvendo seres humanos. Esses princípios éticos são que sustentam ou deveriam sustentar pesquisas na área da biomedicina e/ou quaisquer outros procedimentos que envolvam pessoas humanas. As questões éticas relacionadas às pesquisas que envolvem seres humanos apóiam-se em três princípios básicos que são considerados o fundamento de todas as regulamentações e diretrizes que norteiam a condução ética de pesquisas. Estes princípios são: Respeito pelas pessoas, Bene� cência e Justiça. Estes princípios são considerados universais, transcendendo barreiras geográ� cas, culturais, econômicas, legais e políticas. A necessidade também de tutelar a autonomia e a dignidade das pessoas, nos confrontos das superiores exigências da ciência, torna-se objeto de discussão e de apreensão na opinião pública americana e mundial quando, no início dos anos 1970, sobretudo, começaram a aparecer notícias alarmantes de experimentação feitas sobre sujeitos humanos ignorando de ser usados como “cobaia”. A pesquisa é o motor do progresso médico. E neste caminho de progresso o pesquisador não poderá se afastar daqueles princípios básicos, estabelecidos no Relatório de Belmont, segundo os quais, deve-se promover e respeitar a realização de si próprio, na relação constitutiva com e para os outros, no quadro de instituições justas. Os três princípios éticos de referência elencados são: O princípio de respeito pelas pessoas signi� ca reconhecer a capacidade e os direitos de todos os indivíduos de fazerem suas próprias escolhas e tomarem suas próprias decisões. Este princípio está relacionado ao respeito pela autonomia individual e à autodeterminação que todo ser humano possui, reconhecendo sua dignidade e liberdade. Demonstramos o nosso respeito pelas pessoas quando incentivamos e aceitarmos a sua capacidade de opinião e de escolha. Demonstramos uma falta de respeito pelas pessoas quando retém informações e negam aos indivíduos a liberdade de fazer uma decisão informada. O Princípio da bene� cência torna o pesquisador responsável pelo bem-estar físico, mental e social do participante, no que está relacionado ao estudo. Requer, de modo geral, que sejam atendidos os interesses importantes e legítimos dos indivíduos e que, na medida do possível, sejam evitados danos. Tradição Hipocrática: “Usarei o tratamento para o bem dos enfermos, segundo minha capacidade e juízo, mas nunca para fazer o mal e a injustiça”. 40WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Bene� cência e não-male� cência são dois princípios que podem pautar a conduta do pro� ssional da saúde e ajudá-lo em situações de con� ito. Contudo, nenhum dos dois princípios tem caráter absoluto. A aplicação eticamente correta dos princípios de bene� cência e da não- male� cência é o resultado do exercício da Frônesis (da Prudência), que deveria acompanhar sempre toda atividade e decisão do pro� ssional da saúde. O princípio da bene� cência numa sociedade em vias de desenvolvimento será, provavelmente, o princípio que vai orientar as atividades e decisões do pro� ssional da saúde como cidadão ciente do seu papel e da sua realização pessoal e social (CLOTEL, 2003). No princípio de justiça, exige equidade na distribuição de bens e benefícios no que se refere ao exercício da medicina ou área da saúde. Uma pessoa é vítima de uma injustiça quando lhe é negado um bem ao qual tem direito e que, portanto, lhe é devido. Assim, justiça refere-se ao dever ético de tratar cada pessoa de acordo com o que é eticamente certo e adequado, dando a cada pessoa, o que lhe é devido. Exige equidade na distribuição de bens e benefícios no que se refere ao exercício da medicina ou área da saúde. Uma pessoa é vítima de uma injustiça quando lhe é negado um bem ao qual tem direito e que, portanto, lhe é devido. No Brasil, a Constituição Federal de 1988 adotaou a orientação do direito de todos os cidadãos à saúde, fundamentando no princípio da justiça distributiva equitativa que vinha sendo defendido há algumas décadas por importante parcela dos agentes da área da saúde. O Art. 196 estabelece que a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. O médico e “bioeticista” espanhol, Diego Gracia, que foi diretor do primeiro programa de mestrado em Bioética da Europa, na Universidade Complutense de Madri, considera que deva ser reformulada a máxima: “a cada pessoa conforme suas necessidades” para “a cada pessoa conforme suas necessidades até o limite que permitam os bens disponíveis” (FORTES; ZOBOLI, 2004), pois as sociedades contemporâneas não possuem recursos para o atendimento de todas as necessidades pessoais. Certo é que o pesquisador tem por obrigação distribuir igualmente riscos e benefícios no que diz respeito a participação na pesquisa. O recrutamento e seleção dos participantes da pesquisa devem ser feitos de maneira equitativa. O princípio de justiça proíbe que determinado grupo de pessoas seja colocado em risco para que outras pessoas possam se bene� ciar. Por exemplo, o princípio da justiça não permite a utilização de grupos vulneráveis – entre eles crianças, pessoas com baixa escolaridade, pobres ou que têm acesso limitado a serviços de saúde, prisioneiros, por exemplo – como participantes de pesquisas com o objetivo de bene� ciar grupos mais privilegiados. Estes princípios éticos são que sustentam (ou deveriam sustentar) as pesquisas na área da biomedicina e/ou quaisquer outros procedimentos que envolvam pessoas humanas. Desta forma, com o Relatório de Belmont “as questões éticas não são mais analisadas a partir da letra dos códigos e juramentos, mas a partir desses três princípios com os procedimentos práticos deles consequentes”. 41WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA A pesquisa cientí� ca médica não só é necessária, mas é uma realidade universal. Em tempos passados, muito se procurou impedir o progresso nesta área, mas hoje, vive-se um renascer do conhecimento cientí� co e a maior parte do conhecimento se obtém mediante pesquisas. Vão aparecendo e sendo introduzidas novas metodologias que exigem uma regulamentação, mais ou menos normalizada e universal no que diz respeito à proteção do ser humano, frente à aplicação destas novas tecnologias. As normas que regularizam a pesquisa em seres humanos deveriam ter o consenso de Comitês para a proteção da pessoa e Comissões éticas o� cialmente reconhecidas. A Declaração é moralmente obrigatória para os médicos, e essa obrigação substituiquaisquer leis nacionais ou locais ou regulamentos. A declaração prevê um maior nível de proteção aos seres humanos do que a última, e os investigadores têm a obrigatoriedade de respeitar a legislação local. Na Declaração de Helsinki VII, o princípio fundamental é o respeito ao indivíduo (Art. 9), o seu direito à autodeterminação e o direito de tomar decisões informadas (Art. 11), quanto à participação na investigação, quer no início quer no decurso da investigação. O bem-estar do indivíduo deve sempre prevalecer sobre os interesses da ciência e da sociedade (Art. 6), e as considerações de ordem ética devem sempre prevalecer sobre as leis e regulamentos (Art. 9). O reconhecimento da maior vulnerabilidade de determinados indivíduos e grupos exige vigilância especial (Arts. 5 e 17), e é reconhecido que, quando o participante da pesquisa é incompetente, física ou mentalmente incapaz de dar consentimento, ou seja, um menor (Art. 29), deve ser considerado o consentimento substituto por um indivíduo agindo no melhor interesse do sujeito. Os estudos deverão ser interrompidos se as informações disponíveis indicarem que as considerações originais já não são cumpridas (Art. 20), e informações sobre o estudo devem estar disponíveis ao público (Art. 30). Os interesses do paciente, após a conclusão do estudo, deverão fazer parte da avaliação geral de ética, inclusive garantindo o seu acesso ao melhor tratamento comprovado (Art. 33). Sempre que possível, métodos não comprovados devem ser testados no contexto de pesquisa onde há possibilidade razoável de benefício possível (Art. 35). Toda Constituição moderna, inclusive em países que não se orientam por uma Carta Magna, estabelecem normas para a condução de pesquisas médicas com seres humanos, necessárias para livrar as pessoas de enfermidades, para aliviar a dor ou para reduzir o sofrimento. Contudo, para evitar abusos a Associação Médica Mundial, na Declaração de Helsinki, estabeleceu princípios básicos que orientam toda pesquisa médica em seres humanos. A declaração foi fundamental na formação de Comitês de Ética para estudo, consideração e orientação de protocolos de pesquisas. Atualmente, as publicações cientí� cas ganham importância somente quando os resultados, obtidos em experimentação tenham obedecido ao protocolo da pesquisa do ponto de vista ético. Normalmente, a maioria dos pesquisadores exige o parecer o� cial das Comissões ou Comitês de ética em pesquisa. 42WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA 4 - DIRETRIZES ÉTICAS INTERNACIONAIS PARA A PESQUISA BIOMÉDICA COM SERES HUMANOS, CIOMS/OMS (2002) As Diretrizes Éticas Internacionais para a Pesquisa Biomédica sem Seres Humanos do Conselho de Organizações Internacionais de Ciências Médicas (CIOMS/OMS) são as normais mais conhecidas, mas não as únicas, conforme se pode notar, que tentam regular a atividade cientí� ca, especialmente no âmbito da biomedicina. As normas do Conselho de Organizações Internacionais de Ciências Médicas (CIOMS/ OMS) re� etem a preocupação ética fundamental com a vigilância em proteger os direitos e bem-estar de participantes de pesquisas e de indivíduos ou grupos vulneráveis, considerados como possíveis participantes. Como as diretrizes originais (1982), e as diretrizes revistas foram preparadas para serem usadas, particularmente, em países em desenvolvimento, na de� nição de políticas nacionais sobre a ética da pesquisa biomédica, aplicando padrões éticos em circunstâncias locais e estabelecendo ou rede� nindo mecanismos adequados para a revisão ética de pesquisas, com seres humanos. Certas áreas de pesquisa, incluindo a pesquisa genética humana com embriões e tecidos fetais, não receberam atenção especial nestas diretrizes. São áreas em rápida evolução e, sob vários aspectos, controvertidas. O Comitê diretor considerou que, como não há um acordo universal sobre todas as questões éticas levantadas por elas, seria prematuro tentar abrangê-las nas atuais diretrizes. A mera formulação de diretrizes éticas para pesquisas biomédicas, com seres humanos, di� cilmente resolverá todas as dúvidas morais que possam surgir em associação a elas. Entretanto, as diretrizes podem, pelo menos, chamar a atenção de investigadores, patrocinadores e comitês de revisão ética quanto à necessidade de considerar cuidadosamente as implicações éticas de protocolos e da condução de pesquisas, e assim levar a altos padrões éticos e cientí� cos de pesquisa. Destacam-se aqui os três princípios éticos gerais das Diretrizes Internacionais para pesquisas biomédicas com seres humanos, a saber, o respeito pelas pessoas, a bene� cência e a justiça ou de equidade, que devem ser a luz a orientar a preparação de protocolos de pesquisas. O respeito pelas pessoas inclui, pelos menos, duas considerações éticas fundamentais: o respeito à autonomia implica que todo ser humano adulto e capaz de deliberar tem o direito de decidir sobre o que será feito com o seu corpo e caso suas decisões não venham a ser respeitadas, � ca caracterizada uma agressão e a pessoa responsável deve responder pelas consequências; e será uma ação autônoma quando esta for capaz de respeitar as pessoas que não estão em condições de compreender a natureza da intervenção e prever as suas consequências. Vale, ainda, sublinhar que uma ação será autônoma quando for isenta de qualquer controle externo – coação, manipulação e persuasão – que caracterizam os meios com os quais uma pessoa pode ser controlada externamente. O sujeito pesquisador deverá evitar tais meios para que o consenso seja, de fato, livre e consciente. Caracteriza-se como pessoa autônoma, quando ela tem a liberdade de escolher, por si própria, o itinerário de suas ações, conforme o programa por ela mesma escolhido. 43WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA A bene� cência se refere à obrigação ética de maximizar os benefícios e minimizar os prejuízos. Os riscos e os desconfortos da participação na pesquisa devem ser razoáveis à luz dos benefícios que se espera alcançar. Portanto, o bem do sujeito da pesquisa deve ser protegido e que prevaleça sempre o seu bem-estar. A eticidade do exercício médico tem como fundamento o princípio de não-male� cência, não causar prejuízo. Dependendo dos autores, eles tratam os princípios de benevolência e de não-male� cência juntos ou separadamente. O princípio de benevolência além de não excluir a autonomia, a� na-se com o bem consensual e evita todo prejuízo inútil. O � lósofo norte americano John Rawls (1921-2002), marco histórico importante na re� exão dos princípios da justiça e da equidade, entende que a justiça é a virtude primária das instituições sociais, fruto da cooperação humana que deve pretender a realização de benefícios mútuos. Para ele “a justiça é a principal virtude das instituições sociais como a verdade é aquela dos sistemas de pensamento” (REVISTA DA ASSOCIAÇÃO MÉDICA BRASILEIRA, 2010, s.p.). Ampliando o conceito para a esfera médica, pode-se dizer que justo seria o que leva o médico a agir em favor da vida e da saúde e do bem-estar do seu paciente. Desta forma, a Diretriz 12 exige que os grupos ou comunidades convidadas a participar de uma pesquisa sejam selecionados de tal forma que os ônus e benefícios do estudo sejam distribuídos equitativamente. En� m, as diretrizes quando falam da justiça, requerem que a distribuição equitativa de encargos e benefícios, ao participar da pesquisa, seja justa; proteção dos direitos e do bem-estar das pessoas vulneráveis; os patrocinadores devem se abster de práticas que possam aumentar a injustiça ou contribuir para novas desigualdades e não tirar proveito da relativa incapacidade dos países de recursos limitados ou das populações vulneráveis para proteger seus próprios interesses; o projeto de pesquisa, de modo geral, deve deixar os países ou as comunidades de recursos limitados melhoresdo que estavam ou, pelo menos, não deixá-los piores; deve atender às condições de saúde ou às necessidades das pessoas vulneráveis; para os propósitos da pesquisa, deve-se selecionar ao menos possível, pessoas vulneráveis, a não ser quando a intervenção ou procedimento ofereça ao participante vulnerável uma esperança de benefício diretamente relacionado com a sua saúde. 5 - A DECLARAÇÃO IBERO-LATINO-AMERICANA SOBRE DIREITO, BIOÉTICA E GENOMA HUMANO (2001) A Declaração Ibero-Latino-América foi adotada pelos participantes dos Encontros sobre Direito, Bioética, Genética e Genoma Humano de Manzanillo (Cuba), em 1996, de Buenos Aires (Argentina), em 1998 e de Santiago (Chile), em 2001, procedentes de diversos países do Ibero- América e da Espanha, e de diferentes disciplinas relacionadas com a Bioética. Nas recomendações éticas mais signi� cativas para pesquisas cienti� ca em seres humanos, o primeiro parágrafo da Declaração recomenda que se considerem as diversas implicações do desenvolvimento cientí� co e tecnológico no campo da genética humana. A declaração estabelece que “o respeito à dignidade, à identidade e à integridade humanas e aos direitos humanos rea� rmados nos documentos jurídicos internacionais”; também “que o genoma humano forma parte do patrimônio comum da humanidade como uma realidade e não como uma expressão meramente simbólica” e, bem como, “o respeito à cultura, às tradições e aos valores próprios dos povos”. 44WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA De particular interesse para este estudo é o parágrafo quarto da Declaração sobre os princípios éticos que devem guiar as ações da genética médica que são: a) a prevenção, o tratamento e a reabilitação das pessoas com doenças genéticas como parte do direito à saúde, para que possam contribuir para atenuar o sofrimento que ocasionam nos indivíduos afetados e em seus familiares; b) a equidade no acesso aos serviços de acordo com as necessidades do paciente, independentemente de sua capacidade econômica; c) a voluntariedade no acesso aos serviços, a ausência de coerção na sua utilização e o consentimento livre e informado, baseado no assessoramento genético não diretivo; d) as provas genéticas e as ações que derivam delas têm como objetivo o bem-estar e a saúde do indivíduo, sem que possam ser utilizadas para imposição de políticas populacionais, demográ� cas ou sanitárias, nem para a satisfação de requerimento de terceiros; e) o respeito à autonomia de decisão dos sujeitos para realizar as ações que se seguem aos resultados das provas genéticas, de acordo com os marcos normativos de cada país, que deverão respeitar os critérios éticos e jurídicos aceitos pela comunidade internacional; f) a informação genética individual é privativa do indivíduo do qual provém e não pode ser revelada a terceiros sem seu consentimento expresso. A preocupação aqui, também é o homem, o ser humano como tal que precisa ser protegido, sobretudo, numa época onde o homem tornou-se capaz, com os avanços cientí� cos e tecnológicos, de interferir nos processos naturais do sistema biológico. A Declaração Ibero-latino-americana, em consonância com outros documentos e declarações já aceitos e consagrados universalmente, considera que é necessário preservar e defender a vida. É preciso também que se reconheça a existência de limites cientí� cos e tecnológicos no campo da ciência e da medicina, sobretudo, nas pesquisas cientí� cas em seres humanos. Portanto, a dignidade da pessoa humana deve estar sempre no centro como base fundamental dos direitos humanos. 6 - DECLARAÇÃO UNIVERSAL SOBRE BIOÉTICA E DIREITOS HUMANOS (2005) A bioética nasceu nos Estados Unidos em 1971, na década de 1980 difundiu-se pela Europa, na de 1990 pela América Latina e Brasil e na de 2000 pela África e pelo resto do mundo, consolidando-se, de� nitivamente, no início do século XXI, com a homologação da Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos na 33a Sessão da Conferência Geral da UNESCO, realizada em Paris (2005), onde foi aprovada por aclamação unânime dos 191 países componentes da Organização. A Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos é um dos desdobramentos mais importantes da atualidade. Pela primeira vez na história da bioética, os Estados-Membros comprometeram-se, e a comunidade internacional, a respeitar e aplicar os princípios fundamentais da bioética condensados num texto único. Foi um ponto de partida importantíssimo: adotar princípios éticos comuns capazes de orientar o ser humano em questões éticas suscitadas pela medicina, ciências da vida e tecnologias associadas na sua aplicação aos seres humanos. 45WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA A Declaração, conforme indica seu título, incorpora os princípios que enuncia nas regras que norteiam o respeito pela dignidade humana, pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. Vale ressaltar que a dignidade da pessoa constitui o valor fundamental sobre o qual se faz referências. Nos dias atuais, certamente por causa dos avanços cientí� cos e tecnológicos, a expressão dignidade humana constitui uma das raízes prioritárias con� guradora da eticidade (BENTO,2008). Dessa forma, “o conceito da dignidade humana é muito usado como aquele princípio superior mediante o qual se espera rechaçar deformações e abusos no desenvolvimento da biotecnologia”. É preciso sublinhar que, ao consagrar a bioética entre os direitos humanos internacionais e ao garantir o respeito pela vida dos seres humanos, a Declaração reconhece a interligação que existe entre ética e direitos humanos no domínio especí� co da bioética. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), no art. 1o,2 já proclamava o respeito pela dignidade humana como um direito de todos: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”. É preciso sublinhar que, ao consagrar a bioética entre os direitos humanos internacionais e ao garantir o respeito pela vida dos seres humanos, a Declaração reconhece a interligação que existe entre ética e direitos humanos no domínio especí� co da bioética (BENTO,2008). A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), no art. 1o,2 já proclamava o respeito pela dignidade humana como um direito de todos: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”. 7 - NORMAS ÉTICAS EM PESQUISA COM SERES HUMANOS NO BRASIL No Brasil, a ética em pesquisa no âmbito da biomedicina com seres humanos, orienta- se nos seus diversos documentos. A sociedade brasileira vem tomando maior consciência da importância da ética e, sobretudo, quando a questão diz respeito diretamente ao ser humano. O primeiro passo importante, neste campo, no Brasil, começou em 1988, com a Resolução que passou a ser conhecida como Resolução n. 01/1988, do Conselho Nacional de Saúde, que aprova normas de pesquisa, com seres humanos, para a área temática de pesquisas com novos fármacos, medicamentos, vacinas e testes diagnósticos. 7.1. Códigos de ética médica (2009) O Código de Ética Médica (CEM) dos Conselhos de Medicina do Brasil, aprovado pela Resolução CFM n. 1.246 de 08/01/1988, foi revisado em 2009 pelo CFM, depois de 2 anos de debate entre os Conselhos Regionais de Medicina, entidades médicas, médicos, pro� ssionais de saúde, instituições cientí� cas e universitárias e os setores organizados da sociedade brasileira, as quais encaminharam sugestões para a revisão do atual CEM. Aprovado pela Resolução do CFM, a de nº. 1.931 de 17/09/2009. 46WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Quanto à doutrina do Código, o Capítulo IV onde trata dos “Direitos Humanos”, no Art. 46, determinaque é vetado ao médico “efetuar qualquer procedimento médico sem o esclarecimento e consentimento prévio do paciente ou de seu responsável legal, salvo em perigo de morte” é explicitada como norma ética do bom exercício pro� ssional. Já passou o tempo (ao menos, espera-se!) em que médicos efetuavam determinado procedimento sem que o paciente soubesse o que estava acontecendo, sobretudo, com pessoas mais humildes e que não têm nenhum acesso às informações e aos seus direitos. O ato de informar o paciente e de lhe solicitar consentimento constitui obrigação do médico e um direito do paciente de saber que tipo de tratamento está sendo efetuado. Em outras palavras, o paciente tem e deve ter respeitada sua vontade e ser livre de qualquer constrangimento ou coação e, por isso mesmo, a ausência de informações su� cientes ao paciente ou aos seus representantes legais, sobre riscos previsíveis ou resultados esperados, pode caracterizar infração ética ou legal. No novo CEM, a pesquisa em seres humanos ganha importância. O Código rea� rma o Capítulo XII que tratar, especi� camente, do “Ensino e Pesquisa Médica”. O Art. 99 estabelece a proibição ao médico de “participar de qualquer tipo de experiência envolvendo seres humanos com � ns bélicos, políticos, étnicos, eugênicos ou outros que atentem contra a dignidade humana”. O Art. 100, por sua vez, veda qualquer tipo de pesquisa em seres humanos sem a devida aprovação do protocolo. Portanto, é proibido ao médico “deixar de obter aprovação de protocolo para a realização de pesquisa em seres humanos, de acordo com a legislação vigente.” O Art. 102 insiste na importância da autonomia e da bene� cência como princípios fundamentais predominantes. Conforme este artigo o médico não pode “deixar de utilizar a terapêutica correta, quando seu uso estiver liberado no País”. O parágrafo único determina que “a utilização de terapêutica experimental é permitida quando aceita pelos órgãos competentes e com o consentimento do paciente ou de seu representante legal, adequadamente esclarecidos da situação e das possíveis consequências.” A consciência social do paradigma benigno-humanitário se manifesta no Art. 103 que veda ao médico de “realizar pesquisa em uma comunidade sem antes informá-la e esclarecê-la sobre a natureza da investigação e deixar de atender ao objetivo de proteção à saúde pública, respeitadas as características locais e a legislação pertinente Na perspectiva do paradigma humanitário, é grande a rejeição à mentalidade econômica ou comercial-empresarial. O Art. 104 proíbe ao médico de “deixar de manter independência pro� ssional e cientí� ca em relação a � nanciadores de pesquisa médica, satisfazendo interesse comercial ou obtendo vantagens pessoais.” O que equivale dizer que a dignidade do ser humano pesquisado exige que o pesquisador não perca sua independência, não só técnico-cientí� ca, mas também ética. O Art. 105 tem suscitado certo debate. Esse artigo veda ao médico de “realizar pesquisa médica em sujeitos que sejam direta ou indiretamente dependentes ou subordinados ao pesquisador”. A intenção desse artigo é proteger populações vulneráveis e evitar que sejam constrangidos estudantes ou funcionários em situação de dependência do pesquisador, seja como professor, seja como empregador. Dá-se a entender que, segundo este artigo, o paciente pode participar de pesquisas, em certas circunstâncias. Com isso, o Art. 106 não admite e veda ao médico de “manter vínculo de qualquer natureza com pesquisas médicas, envolvendo seres humanos, que usem placebo em seus experimentos, quando houver tratamento e� caz e efetivo para a doença pesquisada.” A pesquisa cientí� ca com seres humanos, talvez, seja a área que mais desa� a o progresso técnico-cientí� co, pois quando se trata do ser humano, o homem se depara com a sua dignidade e a sua dimensão de relação com o transcendente. As leis que regem o agir de médicos e cientistas estão sempre subordinadas à dignidade humana e à benignidade. 47WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Desta forma, salvo nos casos declarados de perigo de vida, a intervenção do médico no sentido de limitar o direito do paciente em decidir livremente sobre sua saúde, não encontra justi� cativa no Código de Ética. E, dentro de um espírito e compromisso com o humanitário, é possível sonhar com uma nova � gura do médico responsável pela saúde do mundo e solidário na construção de uma ética médica aberta a um diálogo permanente com a bioética, em que a compaixão, isto é, o comportamento que busca bene� ciar os outros minorando o sofrimento deles, não ceda lugar nem à ciência, nem ao lucro. 7.2. A Resolução n. 01 de 1988, do CNS Resolução é norma jurídica destinada a disciplinar assuntos do interesse interno do Congresso Nacional de Saúde, no caso do Brasil. A Resolução n°. 01/1988 do CNS possui um vasto conteúdo distribuído nos seus quinze capítulos. O Art. 4º, onde trata dos aspectos éticos da pesquisa com seres humanos, enfatiza que “toda a pesquisa em que o ser humano for submetido a estudo, deverá prevalecer o critério de respeito à sua dignidade e à proteção de seus direitos e bem-estar”. A resolução trata de outros aspectos éticos, tais como: ser adequada aos princípios cientí� cos e éticos que a justi� quem; fundamentada na pesquisa prévia realizada em laboratórios e animais, probabilidades dos benefícios esperados sobre os riscos previsíveis; o consentimento livre, informado e esclarecido do indivíduo objeto da pesquisa ou seu representante legal; proteger a privacidade do indivíduo objeto da pesquisa; preservar o sujeito da pesquisa de qualquer risco; veri� car os desconfortos ou riscos esperados; os benefícios que se pode obter; os procedimentos alternativos que possam ser vantajosos para o individuo; esclarecimento a qualquer dúvida a cerca dos procedimentos, riscos, benefícios e outros assuntos relacionados com a pesquisa e o tratamento do individuo; a liberdade de retirar seu consentimento a qualquer momento; a disponibilidade do tratamento médico e a indenização a que legalmente teria direito, por parte da instituição da atenção à saúde, em caso de danos que a justi� quem, diretamente causados pela pesquisa; os projetos de pesquisa devem ser revisado e aprovado pelo Comitê de Ética da instituição de atenção à saúde e ser assinada pelo indivíduo objeto da pesquisa ou seu representante legal. No Brasil, a Resolução n. 01/88, transformou-se em um passo importante dentro da temática com normas sobre os problemas de vigilância sanitária e de biossegurança. Infelizmente estas normas não foram levadas muito a sério pelos centros de pesquisa médica, conforme constata o CFM, em 1992. Desta forma, em 1995, o CNS aprovou um Grupo Executivo de Trabalho (GET) com o objetivo de fazer uma revisão da referida Resolução, chegando mais tarde na aprovação da Resolução n. 196/96, do CNS. 7.3. A Resolução n. 196/96 do CNS A Resolução n. 196/96, tornou-se um documento importante e estratégico para que o CNS possa acompanhar o processo de desenvolvimento e incorporação cientí� ca e tecnológica na área da saúde, visando à observação de padrões éticos compatíveis com o desenvolvimento sociocultural do País. As pesquisas, com seres humanos, devem atender às exigências éticas e cientí� cas fundamentais. Destacam-se, aqui, as recomendações mais pertinentes sobre os aspectos éticos da pesquisa com seres humanos. 48WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Segundo a Resolução n. 196/96, as pesquisas com seres humanos devem atender às exigências éticas e cientí� cas fundamentais como o consentimento livre e esclarecido; ponderação entre riscos e benefícios; não-male� cência; justiça ou equidade. O Brasil está procurando o caminho justo para que, no campo das pesquisas médicas cientí� cas, com seres humanos, a proteção da dignidade do sujeito da pesquisa oudo pesquisador seja sempre mantida. Os Comitês de Ética em Pesquisa, têm a responsabilidade pela avaliação e acompanhamento dos aspectos éticos de todas as pesquisas com seres humanos. Todavia, não basta uma lista longa e uma in� nidade de normas e documentos. É preciso que nos pro� ssionais que atuam no campo das pesquisas, com seres humanos, cresce o sentido ético e este seja percebido como luz interior que guia os passos dos estudiosos. Sem esta consciência ética sempre haverá alguém fazendo pesquisa não recomendável. Infelizmente, ainda faltam para o Brasil, país de dimensão continental, instrumentos para exigir uma aplicação correta e uma � scalização das normas a serem observadas nas pesquisas cientí� cas. 7.4. A Resolução CNS no 466/12 do CNS A resolução nº 466/2012 que trata de pesquisas e testes em seres humanos foi publicada ontem, dia 13 de junho, no Diário O� cial da União. A resolução foi aprovada pelo Plenário do Conselho Nacional de Saúde (CNS) na 240ª Reunião Ordinária, em dezembro de 2012. Diretrizes e normas regulamentadoras estabelecidas na resolução devem ser cumpridas nos projetos de pesquisa envolvendo seres humanos que devem ainda atender aos fundamentos éticos e cientí� cos também elencados na resolução nº 466/ 2012 do CNS. Dentre as exigências da resolução, está a obrigatoriedade de que os participantes, ou representantes deles, sejam esclarecidos sobre os procedimentos adotados durante toda a pesquisa e sobre os possíveis riscos e benefícios. A resolução traz termos e condições a serem seguidos e trata do Sistema CEP/CONEP, integrado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP/CNS/MS do CN) e pelos Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) compondo um sistema que utiliza mecanismos, ferramentas e instrumentos próprios de inter-relação que visa à proteção dos participantes de pesquisa. A resolução incorpora, sob a ótica do indivíduo e das coletividades, referenciais da bioética, tais como, autonomia, não male� cência, bene� cência, justiça e equidade, dentre outros, e visa assegurar os direitos e deveres dos participantes da pesquisa. 7.5. Resolução CNS no 510/16 Considerando que a ética em pesquisa implica o respeito pela dignidade humana e a proteção devida aos participantes das pesquisas. No inciso XVI, a resolução estabelece que a pesquisa em ciências humanas e sociais são aquelas que se voltam para o conhecimento, compreensão das condições, existência, vivência e saberes das pessoas e dos grupos, em suas relações sociais, institucionais, seus valores culturais, suas ordenações históricas e políticas e suas formas de subjetividade e comunicação, de forma direta ou indireta, incluindo as modalidades de pesquisa que envolvam intervenção. Qualquer pesquisa que se inclua nessa de� nição será revisada pelo Sistema CEP/CONEP à luz da Resolução 510/16. 49WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Considerando que a pesquisa em Ciências Humanas e Sociais têm especi� cidades nas suas concepções e práticas de pesquisa, na medida em que nelas prevalece uma acepção pluralista de ciência da qual decorre a adoção de múltiplas perspectivas teórico-metodológicas, bem como lidam com atribuições de signi� cado, práticas e representações, sem intervenção direta no corpo humano, com natureza e grau de risco especí� co. Conforme Art. 32, parágrafo único, em situações não contempladas por essa Resolução, prevalecerão os princípios éticos contidos na Resolução CNS n° 466 de 2012. 8 - CONSIDERAÇÕES FINAIS Atualmente, a pesquisa biotecnológica assumiu uma verdadeira característica que pode ser de� nida de “revolução tecnológica, econômica e social”. A variedade de possibilidades de utilizo das biotecnologias e o enorme potencial econômico que esta atrai tem motivado e motivará sempre mais no futuro, o intensi� car-se da pesquisa e da experimentação neste setor, sobretudo por parte dos Países dotados de modernos aparatos industriais. Um progresso cientí� co e tecnológico que não viabiliza o acesso de toda a sociedade nos resultados alcançados corre o risco de se tornar injusto e, por isso mesmo criar uma sociedade de desigualdade. Sem dúvida, no mundo da saúde a humanização da medicina será o caminho capaz de respeitar o ser humano. Procurou-se também contemplar o princípio de precaução tão necessário como nunca, talvez pelo progresso das tecnologias, para evitar danos indesejáveis e irreparáveis para a atual e as futuras gerações. Procurou-se ainda fazer um exame de documentos consagrados e de valor internacional que estabelecem critérios éticos para a pesquisa com seres humanos. Estes Códigos, Declarações e Relatórios manifestam a necessidade evidente de uma atenção e de critérios éticos que possam pautar o agir do homem em questões de biomedicina. E, olhando mais de perto, procurou-se analisar documentos nacionais para ver como o Brasil tem orientado eticamente as pesquisas na área biomédica, não apenas médica no País. De fato, o mundo da biomedicina fascina e, por isso, exige constantemente que se intensi� quem os estudos, as re� exões e as avaliações éticas para que o ser humano não venha ser usado como “cobaia” nas mãos de médicos e pesquisadores. Os benefícios sociais alcançados com os experimentos humanos ninguém pode negar, mas também ninguém nega a necessidade da sociedade e, sobretudo organismos responsáveis de orientar eticamente as pesquisas com seres humanos. Muito oportuna a orientação de Hossne (2003, s.p.), grande conhecedor, pioneiro e batalhador no campo da ética em pesquisa cientí� ca no Brasil, quando a� rma que nas pesquisas com seres humanos, mais do que nunca e, talvez, mais do que em qualquer outra situação, deve prevalecer o Poder da Ética” e continua: “as injustiças já ocorridas e que provavelmente estão ocorrendo e, infelizmente, ainda poderão ocorrer, têm sido cometidas, não raras vezes, pelo poder e/ou em nome do poder, inclusive pelos poderes que teriam por função impedir a ocorrência das injustiças. Para a sobrevivência da ciência, da qualidade de vida no planeta e, se o homem deseja uma vida com sabedoria são dois os pilares importantes para tal, isto é, desenvolvimento cientí� co- tecnológico e o respeito aos princípios éticos. 50WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 3 ENSINO A DISTÂNCIA Uma revisão interessante do conceito ética e deontologia pode ser vista no arti- go: RASCHE, Francisca. Ética e deontologia: o papel das associações profi ssio- nais. Disponível em <http://www.brapci.inf.br/_repositorio/2010/06/pdf_f564e- bbc35_0011137.pdf> Acesso em: 17 jan. 2019. Uma revisão interessante sobre normas aplicáveis a pesquisas em Ciências Hu- manas e Sociais: BRASIL. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. Re- solução n. 510, de 07 de abril de 2016. Brasília. Disponível em: <http://conselho. saude.gov.br/> Acesso em: 17 jan. 2019. Para mais informações sobre deontologia e legislação, ver: O código de ética profi ssional. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=6OB-ygj1HYI>. Acesso em: 12 nov. 2018. Uma revisão interessante pode ser feita por meio do vídeo do “Programa Ponto de Encontro – “Ética em Pesquisa com Seres Humanos” - parte 01/04”. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=I3O8IctAX68> Acesso em: 17 jan. 2019. Uma revisão interessante sobre as Diretrizes e normas regulamentadoras de pes- quisas envolvendo seres humanos: BRASIL. Ministério da Saúde. Conselho Nacio- nal de Saúde. Resolução n. 466, de 12 de dezembro de 2012. Brasília, Diário Ofi cial da União, 12 dez. 2012. Disponível em: <http://conselho.saude.gov.br/ultimas_no- ticias/2013/06_jun_14_publicada_resolucao.html> Acesso em: 17 jan. 2019. 5151WWW.UNINGA.BR UNIDADE 04 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................52 1 - LEI NO 6.965/81E DECRETO LEI NO 87.218/82 ...............................................................................................53 2 - NORMAS DO CONSELHO FEDERAL DE FONOAUDIOLOGIA .........................................................................53 3 - CÓDIGO DE ÉTICA DA FONOAUDIOLOGIA .......................................................................................................54 3.1. CAPÍTULO I – DISPOSIÇÕES PRELIMINARES ...............................................................................................54 3.2. CAPÍTULO II – DOS PRINCÍPIOS GERAIS ......................................................................................................55 3.3. CAPÍTULO III – DOS DIREITOS GERAIS .........................................................................................................55 3.4. CAPÍTULO IV – DAS RESPONSABILIDADES GERAIS ...................................................................................56 3.5. CAPÍTULO V – DOS RELACIONAMENTOS .....................................................................................................57 3.6. CAPÍTULO VII – DA REMUNERAÇÃO PROFISSIONAL ..................................................................................60 3.7. CAPÍTULO VIII – DAS AUDITORIAS E PERÍCIAS FONOAUDIOLÓGICAS .....................................................61 3.8. CAPÍTULO IX – DA FORMAÇÃO ACADÊMICA, DA PESQUISA E DA PUBLICAÇÃO .....................................62 3.9. CAPÍTULO X – DOS VEÍCULOS DE DIVULGAÇÃO, INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO ................................63 3.10. CAPÍTULO XI – DA OBSERVÂNCIA, APLICAÇÃO E CUMPRIMENTO .........................................................64 3.11. CAPÍTULO XII – DAS DISPOSIÇÕES FINAIS .................................................................................................65 LEGISLAÇÃO ESPECÍFICA QUE REGE À FONOAUDIOLOGIA PROF. DR. LUIZ ANTONIO BENTO ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: DEONTOLOGIA E LEGISLAÇÃO 52WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO Os Conselhos Federal e Regionais de Fonoaudiologia, criados pela Lei nº 6.965, de 9 de dezembro de 1981 e regulamentada pelo decreto nº 87.218 de 31 de maio de 1982, � scalizam o exercício pro� ssional do fonoaudiólogo, zelando pela exatidão e ética pro� ssional no atendimento oferecido à sociedade. Cabe aos Conselhos Regionais de Fonoaudiologia desenvolver ações de orientação e � scalização, atuando na proteção e na regularização do exercício pro� ssional. Estas ações são primordiais para garantir o direito da população a serviços de qualidade e contribuem para a difusão das normas da pro� ssão, bem como para a propugnação do exercício pro� ssional ético e legal. Criados pela Lei nº 6.965/1981 os Conselhos Federal e Regionais de Fonoaudiologia são autarquias dotadas de personalidade jurídica de direito público tendo como missão a � scalização do exercício da pro� ssão de fonoaudiólogo, promovendo a observância dos princípios legais, éticos e técnicos estabelecidos para a prestação de serviços fonoaudiológicos. A referida Lei atribui ao Conselho Federal a competência de exercer função normativa, baixando atos necessários à orientação do correto exercício pro� ssional. Aos Conselhos Regionais a Lei resguarda a competência de orientar e � scalizar o exercício pro� ssional na sua jurisdição, representar às autoridades competentes fatos que apurar e cujas providências não sejam de sua alçada. Aos Conselhos Regionais, é conferido o Poder de Polícia Administrativa, permitindo a estes a aplicação de sanções a pro� ssionais e instituições que descumprirem as normas que regulam o exercício pro� ssional (CFFA, 2013). 53WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 1 - LEI No 6.965/81 E DECRETO LEI No 87.218/82 Esta Lei regulamentar a pro� ssão do fonoaudiólogo e assuntos relacionados à Fonoaudiologia. 2 - NORMAS DO CONSELHO FEDERAL DE FONOAUDIOLOGIA Aqui citamos as principais Resoluções do CFFA: • Resolução nº 190, de 06 de junho de 1997: Competência do Fonoaudiólogo em realizar Exames Audiológicos. • Resolução nº 246, de 19 de março de 2000: Competência do Fonoaudiólogo, quando no exercício de sua pro� ssão, para solicitar exames e avaliações complementares. • Resolução nº 260, de 11 de junho de 2000: Atuação do Fonoaudiólogo em Triagem Auditiva Neonatal. • Resolução nº 272, de 20 de abril de 2001: Prática da Acupuntura pelo fonoaudiólogo. • Resolução nº 274, de 20 de abril de 2001: Atuação do Fonoaudiólogo frente a triagem auditiva escolar. • Resolução nº 285, de 8 de junho de 2002: Prazo de guarda de exames e prontuários pelo fonoaudiólogo. • Resolução nº 290, de 31 de agosto de 2002: Inscrição de fonoaudiólogos estrangeiros. • Resolução nº 309, de 01 de abril de 2005: Atuação do Fonoaudiólogo na educação infantil, ensino fundamental, médio, especial e superior. • Resolução nº 320, de 17 de fevereiro de 2006: Especialidades reconhecidas pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia. • Resolução nº 323, de 17 de fevereiro de 2006: Residência em Fonoaudiologia. • Resolução nº 330, de 13 de maio de 2006: Registro pro� ssional provisório e de� nitivo, principal e secundário, transferência por alteração de endereço pro� ssional, baixa e reintegração do registro pro� ssional do fonoaudiólogo no âmbito dos Conselhos Regionais de Fonoaudiologia. • Resolução nº 331, de 13 de maio de 2006: Responsável técnico em Fonoaudiologia e suas atribuições. • Resolução nº 331, de 13 de maio de 2006: Responsável técnico em Fonoaudiologia e suas atribuições. • Resolução nº 337, de 20 de outubro de 2006: Regulamentação dos procedimentos fonoaudiológicos clínicos no âmbito domiciliar. • Resolução nº 338, de 20 de outubro de 2006: Atuação do fonoaudiólogo em empresas, representações e centros que comercializam aparelhos auditivos. • Resolução nº 339, de 20 de outubro de 2006: Registro de Pessoa Jurídica nos Conselhos de Fonoaudiologia. • Resolução Nº 346, de 03 de março de 2007: Aprovação do Manual de Biossegurança na Fonoaudiologia. 54WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA • Resolução nº 347, de 03 de março de 2007: Aprovação do Manual de Orientação ao Fonoaudiólogo que atua na Área da Audiologia. Resolução nº 352, de 05 de abril de 2008: Atuação pro� ssional em Motricidade Orofacial com � nalidade estética. • Resolução nº 356, de 06 de dezembro de 2008: Competência técnica e legal do fonoaudiólogo para atuar nas disfagias (di� culdade de deglutição) orofaríngeas (alteração das fases oral e faríngea da deglutição). • Resolução nº 357, de 06 de dezembro de 2008: Competência técnica e legal do fonoaudiólogo para atuar na prevenção, avaliação e reabilitação dos transtornos do processamento auditivo. • Resolução nº 358, de 06 de dezembro de 2008: Regulamentação de estágio não obrigatório em Fonoaudiologia. • Resolução nº 364, de 30 de março de 2009: Nível de pressão sonora das cabinas/salas de testes audiológicos. • Resolução nº 366, de 25 de abril de 2009: Regulamentação do uso do sistema Telessaúde em Fonoaudiologia. • Resolução nº 429/A, de 19 abril de 2013: Dispõe sobre a entrega das conclusões diagnósticas, ao paciente, nas diversas áreas de atuação fonoaudiológica. • Resolução nº 430, de 19 abril de 2013: Dispõe sobre o responsável técnico em Fonoaudiologia e suas atribuições. • Resolução nº 428, de 2 março de 2013: Dispõe sobre a atuação do fonoaudiólogo na saúde do trabalhador e dá outras providências. • Resolução nº 429 de 2 de Março de 2013: Dispõe sobre enunciado para aplicabilidade do Código de Processo Disciplinar, aprovado pela Resolução CFFa n. 381/2010. • Resolução nº 344, de 03 de março de 2007: Renovação do título de especialista pro� ssional no âmbito do Conselho Federal de Fonoaudiologia. • Resolução nº 359, de 06 de dezembro de 2008: Concessão e o registrode título de especialista pro� ssional no âmbito do Conselho Federal de Fonoaudiologia. 3 - CÓDIGO DE ÉTICA DA FONOAUDIOLOGIA 3.1. Capítulo I – Disposições Preliminares Art. 1º O presente Código de Ética regulamenta os direitos e os deveres e estabelece as infrações dos fonoaudiólogos inscritos nos Conselhos Regionais de Fonoaudiologia (CRFa), segundo suas atribuições especí� cas. § 1o – Compete ao Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa) zelar pela observância dos princípios deste código, funcionar como Conselho Superior de Ética Pro� ssional, além de � rmar jurisprudência e atuar nos casos omissos. § 2o – Compete aos Conselhos Regionais, nas áreas de suas respectivas jurisdições, zelar pela observância da Lei nº 6.965, de 9 de dezembro de 1981, do Decreto nº 87.218, de 31 de maio de 1982, das normativas expedidas pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia e deste código, funcionando como órgão orientador e julgador de primeira e segunda instâncias dos processos éticos. § 3o – Para garantia da execução deste Código de Ética, cabe aos fonoaudiólogos inscritos e aos demais interessados comunicar aos Conselhos Regionais de Fonoaudiologia, com clareza e embasamento, fatos que caracterizem a inobservância do presente código e das normas que regulamentam o exercício da Fonoaudiologia. 55WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Art. 2º Todos os fonoaudiólogos, brasileiros e estrangeiros, inscritos nos Conselhos Regionais de Fonoaudiologia, terão seus direitos assegurados e, quando não respeitarem os preceitos deste Código de Ética, da Lei nº 6.965/1981, do Decreto nº 87.218/1982 e normativas do CFFa, sujeitar-se-ão às penas disciplinares previstas na Lei nº 6.965/1981. Art. 3º A não observância dos deveres descritos neste Código de Ética constitui infração. 3.2. Capítulo II – Dos Princípios Gerais Art. 4º Constituem princípios gerais éticos e bioéticos adotados pela Fonoaudiologia: I – Respeito à dignidade humana e aos direitos humanos; II – Exercício da atividade buscando maximizar os benefícios e minimizar os danos aos clientes, à coletividade e ao ecossistema; III – Respeito à autonomia do cliente e, nas relações de trabalho, do pro� ssional; IV – Proteção à integridade humana; V – Respeito à privacidade e à con� dencialidade; VI – Promoção da igualdade, da justiça, da equidade e do respeito à diversidade cultural e ao pluralismo, para que não haja discriminação e estigmatização; VII – Promoção da solidariedade e da cooperação; VIII – Exercício da pro� ssão com honra, dignidade e responsabilidade social; IX – Compartilhamento de benefícios sociais, tanto na assistência quanto na pesquisa, respeitando as normas deste código e da legislação em vigor; X – Aprimoramento dos conhecimentos técnicos, cientí� cos, éticos e culturais. 3.3. Capítulo III – Dos Direitos Gerais Art. 5º Constituem direitos gerais do fonoaudiólogo, nos limites de sua competência e atribuições: I – exercer a atividade pro� ssional sem ser discriminado; II – exercer a atividade pro� ssional com ampla autonomia e liberdade de convicção; III – avaliar, solicitar e realizar exame, diagnóstico, tratamento e pesquisa; emitir declaração, parecer, atestado, laudo e relatório; exercer docência, responsabilidade técnica, assessoramento, consultoria, coordenação, administração, orientação; realizar perícia, auditoria e demais procedimentos necessários ao exercício pleno da atividade, observando as práticas reconhecidas e as legislações vigentes no país; IV – realizar estudos e pesquisas com liberdade, de forma a atender à legislação vigente sobre o assunto; V – utilizar tecnologias de informação e comunicação de acordo com a legislação em vigor; VI – opinar e participar de movimentos que visem à defesa da classe; VII – requerer desagravo junto ao CRFa de sua jurisdição, quando atingido no exercício da atividade pro� ssional; VIII – consultar o Conselho Federal de Fonoaudiologia e o Conselho Regional de Fonoaudiologia de sua jurisdição quando houver dúvidas a respeito da observância e aplicação deste Código, da Lei nº 6.965/1981, do Decreto nº 87.218/1982 e das normativas do CFFa; IX – determinar com autonomia o tempo de atendimento e o prazo de tratamento ou serviço, desde que não acarrete prejuízo à qualidade do serviço prestado, com o objetivo de preservar o bem-estar do cliente e de respeitar a legislação vigente; X – recusar-se a exercer a pro� ssão quando as condições de trabalho não forem dignas e seguras; XI – colaborar nas áreas de conhecimento da Fonoaudiologia, em campanhas que visem ao bem-estar da coletividade; XII – exercer o voluntariado de acordo com a legislação em vigor. 56WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 3.4. Capítulo IV – Das Responsabilidades Gerais Art. 6º Constituem deveres gerais do fonoaudiólogo: I – conhecer, observar e cumprir a Lei no 6.965/1981, o Decreto no 87.218/1982, o Código de Ética, bem como as determinações e normas emanadas do Sistema de Conselhos de Fonoaudiologia; II – atender às convocações e cumprir as determinações e normas emanadas do Sistema de Conselhos de Fonoaudiologia; III – exercer a atividade de forma plena, utilizando-se dos conhecimentos e recursos necessários, para promover o bem-estar do cliente e da coletividade e respeitar o ecossistema; IV – apontar falhas nos regulamentos e normas de instituições quando as julgar incompatíveis com o exercício da atividade ou prejudiciais ao cliente, devendo dirigir-se, nesses casos, aos órgãos competentes; V – assumir responsabilidades pelos atos praticados; VI – resguardar a privacidade do cliente; VII – utilizar seu nome, pro� ssão e número de registro no CRFa de sua jurisdição, em qualquer procedimento fonoaudiológico do qual tenha efetivamente participado, acompanhado de rubrica, assinatura ou certi� cado digital; VIII – manter seus dados cadastrais atualizados junto ao Sistema de Conselhos de Fonoaudiologia; IX – portar a carteira ou a cédula de identi� cação pro� ssional sempre que em exercício; X – tratar com urbanidade e respeito os representantes e empregados das entidades da categoria, quando no exercício de suas atribuições, de modo a facilitar o seu desempenho; XI – informar aos órgãos e serviços competentes qualquer fato que comprometa a saúde e a vida; XII – servir, imparcialmente, à Justiça; XIII – noti� car doenças e agravos, conforme a legislação vigente; XIV – incentivar, sempre que possível, a prática pro� ssional interdisciplinar e transdisciplinar; XV – manter o respeito às normas e aos princípios éticos da pro� ssão, inclusive nas redes sociais; XVI – recusar-se a executar atividades que não sejam de sua competência técnica, cientí� ca, ética e legal ou que não ofereçam segurança ao pro� ssional, à pessoa, à família, à coletividade e ao meio ambiente; XVII – assegurar que a intervenção fonoaudiológica não trará danos decorrentes de imperícia, negligência ou imprudência; XVIII – prestar adequadas informações a respeito dos riscos, benefícios e intercorrências acerca da assistência fonoaudiológica; XIX – colaborar com as equipes de saúde, educação e assistência social no esclarecimento a respeito dos direitos, riscos, benefícios e intercorrências acerca de sua intervenção; XX – cumprir a legislação especí� ca do Sistema de Conselhos de Fonoaudiologia, quando na condição de fonoaudiólogo responsável técnico (RT); XXI – pagar pontualmente as anuidades, taxas e emolumentos do Sistema de Conselhos de Fonoaudiologia; XXII – divulgar os preceitos deste código. Art.7º Consistem em infrações éticas gerais do fonoaudiólogo: I – utilizar títulos acadêmicos, de especialista ou certi� cações que não possua; II – permitir que pessoas não habilitadas realizem práticas fonoaudiológicas; III – adulterar resultados, exagerar, minimizar ou omitir fatos e fazer declarações falsas sobre quaisquer situações ou circunstâncias daprática fonoaudiológica; IV – agenciar, aliciar ou desviar, por qualquer meio, cliente para si ou para terceiros; V – receber ou exigir remuneração, comissão ou vantagem por serviços fonoaudiológicos que não tenha, efetivamente, prestado; VI – assinar qualquer procedimento fonoaudiológico realizado por terceiros; VII – solicitar ou permitir que outros pro� ssionais assinem seus procedimentos; VIII – estabelecer ou aceitar honorários a preço vil ou incompatível com a atividade realizada; 57WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA IX – praticar, no exercício da atividade pro� ssional, ato que a lei de� na como crime ou contravenção; X – provocar, cooperar, ser conivente ou omisso com qualquer forma de violência, no exercício pro� ssional; XI – causar atos danosos ao cliente ou à coletividade, seja por ação ou omissão, ainda que em razão de imperícia, negligência ou imprudência; XII – ensinar procedimentos próprios da Fonoaudiologia que visem à formação pro� ssional de outrem que não seja acadêmico ou pro� ssional de Fonoaudiologia; XIII – ser cúmplice, sob qualquer forma, de pessoas que exerçam ilegalmente a Fonoaudiologia ou cometam infrações éticas; XIV – exigir vantagens pessoais e pro� ssionais ao disponibilizar seus serviços fonoaudiológicos à comunidade em casos de emergência, epidemia e catástrofe; XV – não manter seus dados cadastrais atualizados junto ao Sistema de Conselhos de Fonoaudiologia; XVI – deixar de portar a carteira ou cédula de identi� cação pro� ssional, sempre que em exercício. 3.5. Capítulo V – Dos Relacionamentos Art. 8º De� ne-se como cliente a pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza serviços de Fonoaudiologia, a quem o fonoaudiólogo presta serviços pro� ssionais e, em benefício da qual, deverá agir com o máximo zelo e o melhor de sua capacidade pro� ssional. Art. 9º Consistem em direitos do fonoaudiólogo na relação com o cliente: I – contratualizar regras de atendimento, de acordo com a legislação vigente; II – interromper o atendimento, desde que por motivo justi� cado. Art. 10º Constituem deveres do fonoaudiólogo na relação com o cliente: I – registrar em prontuário todos os atendimentos e procedimentos fonoaudiológicos, assim como faltas justi� cadas ou não, e desistência; II – atender sem estabelecer discriminações de ordem política, social, econômica, cultural, étnico-racial, religiosa, identidade de gênero ou de qualquer outra natureza, independentemente de esfera pública ou privada; III – informar ao cliente sua quali� cação pro� ssional, suas responsabilidades, atribuições e funções quando solicitado; IV – apresentar a devida justi� cativa quando solicitar avaliação por outros pro� ssionais; V – esclarecer, com linguagem clara e simples, sobre a avaliação, o diagnóstico, os prognósticos e os objetivos, assim como o custo dos procedimentos fonoaudiológicos adotados, assegurando-lhe a escolha do tratamento ou procedimentos indicados; VI – informar, em linguagem clara e simples, sobre os procedimentos adotados em cada avaliação e tratamento realizado; VII – esclarecer, apropriadamente, sobre os riscos, as in� uências sociais e ambientais dos transtornos fonoaudiológicos e a evolução do quadro clínico, mostrando os prejuízos de uma possível interrupção do tratamento, a possibilitar que o cliente escolha continuar ou não o atendimento; VIII – elaborar relatórios, resultados de exames, pareceres e laudos fonoaudiológicos para o cliente ou seu(s) representante(s) legal(is), inclusive nos casos de encaminhamento ou transferência com � ns de continuidade do tratamento ou serviço, na alta ou por simples desistência; IX – fornecer sempre os resultados de exames, pareceres e laudos fonoaudiológicos para o cliente ou seu(s) representante(s) legal(is) e, quando solicitado, relatórios; X – permitir o acesso do responsável ou representante(s) legal(is) durante procedimento fonoaudiológico, salvo quando sua presença comprometer a realização deste; XI – permitir o acesso do cliente ou de seu(s) representante(s) legal(is) ao prontuário, relatório, exame, laudo ou parecer elaborados pelo fonoaudiólogo, de modo a fornecer a explicação necessária à sua compreensão, mesmo quando o serviço for contratado por terceiros; XII – encaminhar o cliente a outros pro� ssionais sempre que for necessário; XIII – preservar a privacidade do atendimento, impedindo a presença ou interferência de pessoas alheias, a não ser em caso de supervisão, estágio ou observação, com anuência do cliente ou de seu(s) responsável(is) legal(is). 58WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Art. 11. Constituem infrações éticas do fonoaudiólogo na relação com o cliente: I – interromper atendimento, sem motivo justi� cável; II – propor ou realizar atendimento desnecessário; III – executar procedimento para o qual não esteja capacitado; IV – exagerar ou minimizar o quadro diagnóstico ou prognóstico; V – exceder em número de consultas ou em quaisquer outros procedimentos fonoaudiológicos de forma injusti� cada; VI – realizar avaliação e tratamento de incapazes, sem autorização de seu(s) representante(s) legal(is), ou dos determinados pela justiça, quando for o caso; VII – utilizar procedimentos ou materiais no tratamento que não tenham evidência cientí� ca ou e� cácia comprovada; VIII – propor práticas fonoaudiológicas enganosas, infalíveis, sensacionalistas ou de conteúdo inverídico; IX – emitir parecer, laudo, atestado, relatório ou declaração que não correspondam à veracidade dos fatos ou dos quais não tenha participado; X – evoluir prontuários com informações que não correspondam à veracidade dos fatos; XI – obter qualquer vantagem indevida de seus clientes; XII – usar a pro� ssão para corromper ou lesar a integridade física, psíquica e social dos clientes ou ser conivente com essa prática; XIII – omitir informações, quando indagado, sobre serviços oferecidos por órgãos públicos; XIV – desrespeitar o direito do cliente ou de seu(s) representante(s) legal(is) de decidir livremente sobre a execução de práticas diagnósticas ou terapêuticas, salvo em caso iminente de risco de morte. Art. 12. Constituem direitos do fonoaudiólogo nas relações com outros fonoaudiólogos: I – atender pacientes institucionalizados, em locais que já possuam fonoaudiólogos no corpo clínico, quando solicitado pelo cliente, ou por seus(s) representante(s) legal(is), fazendo-o com ciência da administração e da equipe de Fonoaudiologia; II – discutir com o fonoaudiólogo as condutas pro� ssionais adotadas por ele, caso tenha dúvidas quanto a estas, em situações de encaminhamento ou de relação de atendimento. Art. 13. Constituem deveres do fonoaudiólogo nas relações com outros fonoaudiólogos: I – ter respeito e cooperação no exercício pro� ssional; II – atuar em comum acordo, quando no atendimento simultâneo de cliente; III – recorrer a outros pro� ssionais, sempre que for necessário; IV – informar ao CRFa atos irregulares ou infrações de que tenha conhecimento. Art. 14. Constituem infrações éticas do fonoaudiólogo nas relações com outros fonoaudiólogos: I – praticar concorrência desleal; II – emitir opinião depreciativa técnico-cientí� ca; III – obter ou exigir vantagens indevidas nas relações pro� ssionais; IV – prejudicar moralmente outro fonoaudiólogo; V – deixar de reencaminhar ao pro� ssional responsável o cliente que lhe foi enviado para procedimento especí� co ou por substituição temporária, salvo por solicitação do cliente, por escrito, ou na iminência de prejuízo deste, devendo o fato ser, obrigatoriamente, comunicado ao fonoaudiólogo; VI – utilizar de sua posição hierárquica para impedir, prejudicar ou di� cultar que outros fonoaudiólogos realizem seus trabalhos ou atuem dentro dos princípios éticos; VII – alterar conduta fonoaudiológica determinada por outro fonoaudiólogo, mesmo quando investido de função de che� a oude auditoria, salvo em situação de indiscutível prejuízo para o cliente, devendo comunicar o fato ao pro� ssional responsável, imediatamente; VIII – pleitear, de forma desleal, para si ou para outrem emprego, cargo ou função que esteja sendo exercida por outro fonoaudiólogo; IX – prejudicar o trabalho, a obra ou a imagem de outro fonoaudiólogo, ressalvadas as comunicações de irregularidades aos órgãos competentes. Art. 15. Constituem direitos do fonoaudiólogo nas relações com os pro� ssionais das demais categorias: I – exercer livremente sua pro� ssão sem cerceamento de sua autonomia por pro� ssionais de outras áreas, de modo a resguardar as competências especí� cas da Fonoaudiologia; II – exercer a prática pro� ssional interdisciplinar e transdisciplinar; III – esclarecer ou discutir casos de clientes em comum, com outros pro� ssionais. 59WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Art. 16. Constituem deveres do fonoaudiólogo na relação com os pro� ssionais das demais categorias: I – manter boas relações, não prejudicando o trabalho e a reputação dos outros pro� ssionais, de modo a respeitar os limites de sua área e das atividades que lhe são reservadas pela legislação em vigor; II – esclarecer sobre as responsabilidades e atribuições nos serviços de Fonoaudiologia, quando solicitado. Art. 17. Constituem infrações éticas do fonoaudiólogo nas relações com os pro� ssionais das demais categorias: I – prejudicar o trabalho ou denegrir obra, imagem ou atos de outros pro� ssionais das demais categorias; II – deixar de comunicar aos órgãos competentes, inclusive de categorias pro� ssionais, casos de omissão ou irregularidades que possam prejudicar o cliente que está sendo acompanhado pela equipe. Art. 18. Constituem direitos do fonoaudiólogo nas relações com as organizações da categoria: I – pertencer às entidades associativas da classe de caráter cultural, social, cientí� co ou sindical; II – candidatar-se a cargos ou funções para exercício de mandatos ou gestões em entidades representativas da categoria, observando as legislações vigentes; III – solicitar orientações e representação às entidades de classe às quais pertence; IV – promover e apoiar as iniciativas e os movimentos de defesa dos interesses éticos, culturais, sociais, cientí� cos e materiais da classe, por meio dos seus órgãos representativos. Art. 19. Constituem infrações éticas do fonoaudiólogo nas relações com as organizações da categoria: I – servir-se de entidade de classe, inclusive quando no exercício de mandato, para usufruir de vantagens ilícitas ou praticar ato que a lei de� na como crime ou contravenção; II – utilizar nomes, siglas ou símbolos das entidades de classe indevidamente ou sem autorização; III – prejudicar ética, moral ou materialmente a entidade e seus membros; IV – desrespeitar a entidade, injuriar, caluniar ou difamar qualquer componente desta. Art. 20. Constituem direitos dos fonoaudiólogos nas relações de trabalho: I – dispor de condições dignas de trabalho, assim como remuneração justa, de modo a garantir a qualidade do exercício pro� ssional; II – recusar a exercer a pro� ssão, quando não dispuser de condições dignas e seguras de trabalho; III – ter acesso a informações institucionais que se relacionem ao pleno exercício das suas atribuições pro� ssionais; IV – integrar comissões nos locais de trabalho; V – gerenciar, coordenar, che� ar e assumir responsabilidade técnica de serviços. Art. 21. Constituem deveres do fonoaudiólogo nas relações de trabalho: I – denunciar aos órgãos competentes quando a instituição pública ou privada para a qual trabalhe ou preste serviços não oferecer condições dignas e seguras para o exercício pro� ssional; II – registrar em prontuário todos os atendimentos ao cliente, as informações inerentes e indispensáveis referentes ao caso, resguardando sua privacidade; III – respeitar as regras de funcionamento da instituição, mesmo quando não pertencer ao quadro clínico, desde que não con� item com as normativas do Sistema de Conselhos de Fonoaudiologia. Art. 22. Constituem infrações éticas do fonoaudiólogo nas relações de trabalho: I – colaborar ou ser cúmplice de pessoas físicas ou jurídicas que desrespeitem os princípios gerais éticos e bioéticos descritos no art. 4º e seus incisos; II – permitir que seu nome conste do quadro de funcionários de qualquer instituição, sem nela exercer suas funções; III – explorar, indevidamente, o trabalho de outros fonoaudiólogos, de modo isolado ou em equipe; IV – obter vantagens pessoais quando na condição de proprietário, sócio ou dirigente de empresas ou instituições prestadoras de serviços fonoaudiológicos; V – receber ou exigir remuneração indevida da instituição para a qual trabalhe ou preste serviços; VI – submeter-se a qualquer disposição estatutária ou regimental, pública ou privada, que limite a autonomia pro� ssional e as normativas emanadas pelo Sistema de Conselhos de Fonoaudiologia; VII – utilizar de sua posição hierárquica para impedir, prejudicar ou di� cultar que seus subordinados realizem seus trabalhos ou atuem dentro dos princípios éticos e bioéticos. 4.3.6 Capítulo VI – Do Sigilo Pro� ssional 60WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Art. 23. Constitui dever do fonoaudiólogo em relação ao sigilo pro� ssional: I – guardar sigilo sobre as informações de outros pro� ssionais também comprometidos com o caso; II – conservar prontuários físicos ou eletrônicos de seus clientes em arquivo apropriado, não permitindo o acesso de pessoas estranhas a este; III – orientar seus colaboradores, alunos, estagiários e residentes sob sua orientação, quanto ao sigilo pro� ssional e guarda de prontuário; IV – manter sigilo sobre as informações e fatos de que tenha conhecimento em decorrência de sua atuação com o cliente, exceto: a) em situações em que o seu silêncio ponha em risco a integridade do pro� ssional, do cliente ou da comunidade, devendo o fato ser comunicado aos órgãos competentes; b) no cumprimento de determinação judicial. § 1º – Permanece o dever de manter sigilo mesmo quando o fato seja de conhecimento público e em caso de falecimento da pessoa envolvida; § 2º – O sigilo pro� ssional referente ao incapaz deverá ser mantido, exceto por solicitação de seu(s) representante(s) legal(is), por determinação judicial ou nos casos em que possa acarretar danos ou riscos a este. § 3º – Não constitui quebra de sigilo pro� ssional a exposição, perante a justiça, de fatos ou dados relacionados ao cliente, nas ações das quais for testemunha, informante ou parte, inclusive as que visem cobrança de honorários pro� ssionais. Art. 24. Constituem infrações éticas do fonoaudiólogo com relação ao sigilo pro� ssional: I – negligenciar na orientação de seus colaboradores, alunos, estagiários e residentes quanto ao sigilo pro� ssional; II – fazer referência a clientes ou a casos clínicos identi� cáveis ou exibir imagem do cliente, da família, do grupo e da comunidade em anúncios pro� ssionais, palestras, aulas, eventos cientí� cos ou na divulgação de assuntos terapêuticos em qualquer meio de comunicação, quando não autorizado por escrito por estes ou por seu(s) representante(s) legal(is); III – revelar informações con� denciais do cliente obtidas durante a intervenção fonoaudiológica, inclusive por exigência de dirigentes de empresas ou instituições, salvo se o silêncio puser em risco a saúde e a integridade das pessoas e da coletividade. 3.6. Capítulo VII – Da Remuneração Profissional Art. 25. Constituem direitos do fonoaudiólogo em relação à remuneração pro� ssional: I – apresentar seus honorários separadamente, quando no atendimento ao cliente participarem outros pro� ssionais; II – receber salários ou honorários compatíveis com o nível de formação, a jornada de trabalho, a complexidade das ações e a responsabilidade pelo exercício pro� ssional.Art. 26. Na � xação dos honorários pro� ssionais serão considerados: I – os honorários usualmente praticados pela categoria ou estabelecidos pela entidade sindical de sua jurisdição, quando houver; II – condição socioeconômica do cliente e da comunidade; III – titulação do pro� ssional; IV – aperfeiçoamento e experiência do pro� ssional; V – caráter de permanência, complexidade, tempo ou eventualidade do serviço; VI – circunstância em que tenha sido prestado o serviço; VII – custo operacional; VIII – liberdade para arbitrar seus honorários, sendo vedado o aviltamento pro� ssional. Art. 27. Constitui dever do fonoaudiólogo em relação à remuneração pro� ssional informar previamente ao cliente o custo dos procedimentos. 61WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Art. 28. Constituem infrações éticas relacionadas à remuneração pro� ssional: I – oferecer ou prestar serviços fonoaudiológicos gratuitos, exceto nos casos previstos na legislação e nos preceitos deste código; II – participar gratuitamente de projetos e outros empreendimentos que visem lucro; III – receber ou oferecer grati� cação por encaminhamento de cliente; IV – receber comissão, remuneração ou vantagens que não correspondam a serviços efetivamente prestados; V – cobrar valor adicional por serviço já remunerado; VI – � rmar qualquer contrato de assistência fonoaudiológica que subordine os honorários ao resultado do tratamento ou à cura do cliente; VII – aceitar ou propor remuneração a preço vil; VIII – reter honorários, no todo ou em parte, quando em função de direção ou de che� a, salvo os previstos em lei; IX – oferecer ou aceitar vantagem por cliente encaminhado ou recebido, bem como por atendimentos não prestados; X – aceitar vantagem de qualquer organização pela indicação ou comercialização de produtos, de qualquer natureza, sem a observância dos critérios de prescrição fonoaudiológica. 3.7. Capítulo VIII – Das Auditorias E Perícias Fonoaudiológi- cas Art. 29. Constitui direito do fonoaudiólogo relacionado às auditorias e perícias fonoaudiológicas recusar-se motivadamente a aceitação do encargo quando houver suspeição, impedimento ou justo motivo. Art. 30. Constituem deveres do fonoaudiólogo relacionados às auditorias e perícias fonoaudiológicas: I – identi� car-se como perito ou auditor em todos os seus atos, fazendo constar o seu nome e o seu número de inscrição no CRFa de sua jurisdição; II – escusar-se de atuar em perícia e auditoria, declarando-se impedido ou suspeito, mesmo após ser nomeado, contratado ou escolhido, quando veri� car a ocorrência de situações que venham suscitar suspeição em função de sua imparcialidade ou independência e, dessa forma, comprometer o resultado de seu trabalho em relação à decisão; III – ser imparcial ao indicar outro pro� ssional para realizar perícia, quando necessário; IV – negar-se a fornecer informações ou fazer comentário sobre perícia ou auditoria com pessoas que não participem da atividade; V – escusar-se de realizar procedimentos fonoaudiológicos para pessoas que tenham sido periciadas pelo próprio pro� ssional. Art. 31. Constituem infrações éticas do fonoaudiólogo relacionadas às auditorias e perícias fonoaudiológicas: I – negar, na qualidade de assistente técnico em perícia, informações fonoaudiológicas consideradas necessárias ao pleito da concessão de benefícios previdenciários ou outras concessões facultadas na forma da lei, sobre seu cliente, seja por meio de atestados, declarações, relatórios, exames, pareceres ou quaisquer outros documentos probatórios, quando autorizado pelo cliente ou responsável(is) legal(is) interessado(s); II – fazer comentários ou observações extra autos para o usuário ou bene� ciário sobre os serviços auditados ou periciados; III – exercer, concomitantemente, as funções de fonoaudiólogo e perito, de fonoaudiólogo e auditor ou de auditor e perito no mesmo caso; IV – realizar atendimento fonoaudiológico em pessoas periciadas pelo próprio pro� ssional; V – receber vantagens vinculadas à glosa, quando auditor, ou ao sucesso da causa, quando perito. 62WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Figura 1 – Regulamentação da Pro� ssão de Fonoaudiólogo. Fonte: Pixabay (2019). 3.8. Capítulo IX – Da Formação Acadêmica, Da Pesquisa E Da Publicação Art. 32. Constituem direitos do fonoaudiólogo relacionados à formação acadêmica, à pesquisa e à publicação: I – realizar e participar de atividades de ensino, pesquisa e extensão, respeitadas as normas bioéticas e ético-legais; II – ter conhecimento pleno das atividades de ensino, pesquisa e extensão desenvolvidas com as pessoas sob sua responsabilidade pro� ssional ou em seu local de trabalho; III – ter reconhecida sua autoria ou participação em produção técnico-cientí� ca. Art. 33. Constituem deveres do fonoaudiólogo relacionados à formação acadêmica, à pesquisa e à publicação: I – estar devidamente inscrito no CRFa de sua jurisdição; II – disseminar os preceitos deste código e incentivar seu cumprimento; III – no exercício da docência, da supervisão, da preceptoria, da tutoria, da pesquisa e da produção cientí� ca, nortear sua prática de ensino, pesquisa e extensão nos princípios éticos e bioéticos da pro� ssão, da vida humana e do meio ambiente; IV – dar cunho estritamente impessoal às críticas ou discordâncias de teorias e técnicas de outros pro� ssionais, não visando o autor, mas, sim, o tema ou a matéria; V – obter consentimento do cliente ou de seu(s) representante(s) legal(s) por escrito, antes da utilização de dados ou imagens que possam identi� cá-lo; VI – responsabilizar-se por serviços fonoaudiológicos, produções acadêmicas e cientí� cas executadas pelos alunos, estagiários e residentes sob sua supervisão, tutoria e preceptoria; VII – manter- se informado sobre pesquisas e descobertas técnicas, cientí� cas e culturais, com o objetivo de prestar melhores serviços e contribuir para o desenvolvimento da pro� ssão e em benefício do participante de pesquisa, da coletividade e do meio ambiente; VIII – resguardar os direitos de participantes ou grupos envolvidos em suas pesquisas de acordo com a legislação vigente; IX – respeitar os princípios da probidade e � dedignidade, bem como os direitos autorais no processo de pesquisa, especialmente na divulgação dos seus resultados; X – disponibilizar os resultados de pesquisa à comunidade cientí� ca e sociedade em geral; XI – reconhecer autoria, coautoria ou participação de qualquer envolvido em produção técnico-cientí� ca. 63WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Art. 34. Constituem infrações éticas do fonoaudiólogo relacionadas à formação acadêmica, à pesquisa e à publicação: I – adulterar resultados, falsear ou deturpar a interpretação de dados e fazer declarações falsas sobre situações ou estudos de que tenha participado; II – usar resultados de pesquisa para � ns diferentes dos predeterminados; III – servir-se de sua posição hierárquica para impedir ou di� cultar que o colega utilize as instalações e demais recursos das instituições ou setores sob sua responsabilidade no desenvolvimento de pesquisa, salvo no estrito cumprimento do dever legal; IV – aproveitar-se de posição hierárquica para fazer constar seu nome na coautoria de obra cientí� ca da qual não tenha participado; V – apresentar como seu, no todo ou em parte, material didático, dados de pesquisa ou obra cientí� ca de outrem, ainda que não publicada; VI – realizar ou participar de atividades de ensino e pesquisa, em que o direito inalienável da pessoa, da família, da coletividade ou do meio ambiente seja desrespeitado ou ofereça qualquer tipo de risco ou dano aos envolvidos; VII – utilizar-se da in� uência do cargo para aliciamento ou encaminhamento dos participantes de pesquisa; VIII – eximir-se da responsabilidade por atividadesexecutadas por graduandos e estagiários, na condição de docente, fonoaudiólogo responsável, supervisor, preceptor e tutor. Figura 2 – Consentimento informado. Fonte: Pixabay (2019). 3.9. Capítulo X – Dos Veículos De Divulgação, Informação e Comunicação Art. 35. Constitui direito do fonoaudiólogo utilizar nos anúncios, placas, impressos e demais divulgações, além das informações obrigatórias, conforme art. 36: I – as especialidades para as quais o fonoaudiólogo esteja habilitado; II – os títulos de formação acadêmica; III – endereço, telefone, endereço eletrônico, horário de trabalho, convênios e credenciamentos; IV – instalações, equipamentos e métodos de tratamento; V – logotipo, marca e logomarca; VI – heráldico da Fonoaudiologia. Art. 36. É dever do fonoaudiólogo em relação à propaganda e publicidade: I – fazer constar seu nome pro� ssional, sua pro� ssão e o número de inscrição no Conselho Regional de sua jurisdição nos anúncios, placas e impressos; II – preservar o decoro da pro� ssão ao promover publicamente seus serviços. 64WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Art. 37. Constituem infrações éticas do fonoaudiólogo relacionadas à propaganda e à publicidade: I – anunciar preços e descontos, exceto na divulgação de cursos, palestras, seminários e a� ns; II – consultar, diagnosticar ou prescrever tratamento por quaisquer meios de comunicação de massa; III – induzir a opinião pública a acreditar que exista reserva de atuação clínica para determinados procedimentos; IV – anunciar títulos acadêmicos que não possua ou especialidades para as quais não esteja habilitado; V – anunciar produtos fonoaudiológicos ou procedimentos por meios capazes de induzir ao uso indiscriminado destes. Art. 38. Constitui direito do fonoaudiólogo ao utilizar as redes sociais: I – divulgar seus serviços; II – criar canais de comunicação com a população; III – criar ou participar de grupos de discussão, desde que respeitados os preceitos deste código de ética; IV – conceder entrevistas ou palestras sobre assuntos fonoaudiológicos de sua atribuição, com a � nalidade de esclarecimento e educação no interesse da coletividade. Art. 39. Constituem deveres do fonoaudiólogo em relação às redes sociais: I – expressar suas opiniões com respeito e fundamento em relação à pro� ssão; II – dirigir-se a outros fonoaudiólogos de forma digna e respeitosa; III – ter consentimento e autorização formal por escrito do cliente, ou de seu(s) representante(s) legal(is), para publicação de fotos ou vídeos; IV – marcar clientes em fotos somente com autorização expressa destes ou de seu(s) representante(s) legal(is); V – compartilhar informações e retransmitir mensagens, com cautela, mesmo em grupos de discussão restritos; VI – fazer sempre referência às fontes que publica; VII – nas redes sociais, o fonoaudiólogo deve manter o respeito às normas e aos princípios éticos de sua pro� ssão. Art. 40. Constituem infrações éticas do fonoaudiólogo em relação às redes sociais: I – fazer comentários ou alusão a qualquer cliente atendido, bem como mencionar atitudes e comportamentos deste em redes sociais; II – emitir comentários difamatórios, caluniosos, preconceituosos, jocosos, depreciativos ou ofensivos, em desfavor de fonoaudiólogos, clientes, do Sistema de Conselhos de Fonoaudiologia e demais órgãos da categoria, bem como expô-los a situações vexatórias e constrangedoras; III – discutir casos ou esclarecer dúvidas relativas à prestação de serviço ao cliente quando este for exposto ou facilmente identi� cável; IV – divulgar nome, endereço ou qualquer outra informação que identi� que ou caracterize o cliente; V – publicar, nas redes sociais ou demais meios de comunicação, artigos de conteúdo depreciativo acerca da pro� ssão, de colegas, de clientes, de contratantes, dos órgãos representativos da classe e de seus representantes; VI – incitar, induzir ou ensinar a prática de procedimentos diagnósticos e terapêuticos da Fonoaudiologia a pessoas não habilitadas. 3.10. Capítulo Xi – Da Observância, Aplicação e Cumprimento Art. 41. Cabe ao Conselho Regional de Fonoaudiologia competente, onde está inscrito o fonoaudiólogo, a apuração das faltas que cometer contra este código e aplicação das penalidades previstas na legislação em vigor. Art. 42. Os preceitos deste código são de observância obrigatória e sua violação sujeitará o(s) infrator(es), que de qualquer modo concorre(m) para a infração, às penas previstas na Lei no 6.965/1981. 65WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA 3.11. Capítulo XII – Das Disposições Finais Art. 43. As dúvidas na observância deste código e os casos omissos, encaminhados pelos Conselhos Regionais, serão apreciados e julgados pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia. Art. 44. Este código poderá ser alterado pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia, em todo ou em parte, por iniciativa própria ou mediante propostas dos Conselhos Regionais de Fonoaudiologia. Para mais informações sobre deontologia e legislação, ver: Quais as normas que regulamentam o profi ssional de fonoaudiologia? Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=bxvw6dIboM0>. Acesso em: 11 dez. 2018. Uma revisão interessante de deontologia da Fonoaudiologia pode ser vista em: CONSELHOS FEDERAL DE FONOAUDIOLOGIA. Manual de Orientação e Fiscaliza- ção do Exercício Profi ssional da Fonoaudiologia. Anexo da Resolução CFFa N.º 444, de 13 de dezembro de 2013. Brasília, 2013. Disponível em: <ttp://www.fono- audiologia.org.br/cffa/index.php/codigo-de-etica/> Acesso em: 19 jan. 2019. Uma revisão interessante seria ver o vídeo sobre as Atividades desenvolvidas pelo Conselhos Federal de Fonoaudiologia. Disponível em: <https://www.youtube. com/watch?v=zce6o5Y8GMU> Acesso em: 17 jan. 2019. Uma revisão interessante vem da leitura da lei: LEI No 6.965, DE 9 DE DEZEMBRO DE 1981. Dispõe sobre a regulamentação da Profi ssão de Fonoaudiólogo. Dispo- nível em: <http://www.crefono6.org.br/lei-696518> Acesso em: 17 jan. 2019. 66WWW.UNINGA.BR DE ON TO LO GI A E LE GI SL AÇ ÃO | U NI DA DE 4 ENSINO A DISTÂNCIA Uma revisão interessante pode ser feita por meio do vídeo: Consentimento infor- mado. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=DBLkBSbvN34> Aces- so em: 17 jan. 2019. 67WWW.UNINGA.BR ENSINO A DISTÂNCIA REFERÊNCIAS BARCHIFONTAINE, C. de Paul, Bioética e início de vida. Alguns desa� os, Centro Universitário São Camilo. Ideias & Letras. São Paulo: 2004. BEAUCHAMP, T.L.; CHILDRESS, J.F. Princípios de ética biomédica, Loyola. São Paulo: 2002, 165-166.480). BENTO, L.A., Ética e ciência biomédica: contribuição ético-teológica para a pesquisa envolvendo seres humanos no Brasil, Tese de doutorado, Roma: 2005. BENTO, L.A., Bioética. Desa� os éticos no debate contemporâneo. Paulinas. São Paulo: 2008. BENTO, L.A., Bioética e Pesquisa em seres humanos, Paulinas. São Paulo: 2011. CLOTEL, J., Bioética: uma aproximação. EDIPUCRS. 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