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Fátima Garcia Chaves Gláucia Eli da Silva Glaura Morais Paroneto Marilia de Dirceu Cachapuz Daher Patrícia Valéria Bielert do Nascimento Vânia Maria de Oliveira Didática © 2016 by Universidade de Uberaba Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Universidade de Uberaba. Universidade de Uberaba Reitor Marcelo Palmério Pró-Reitor de Educação a Distância Fernando César Marra e Silva Editoração Produção de Materiais Didáticos Capa Toninho Cartoon Edição Universidade de Uberaba Av. Nenê Sabino, 1801 – Bairro Universitário Catalogação elaborada pelo Setor de Referência da Biblioteca Central UNIUBE D561 Didática / Fátima Garcia Chaves ... [et al.]. – Uberaba : Universidade de Uberaba, 2016. 124 p. : il. Programa de Educação a Distância – Universidade de Uberaba. ISBN 1. Ensino. 2. Salas de aula. 3. Didática. I. Chaves, Fátima Garcia. II. Universidade de Uberaba. Programa de Educação a Distância. CDD 371.102 Fátima Garcia Chaves Mestre em Educação – Formação de professores, pela Universidade de Uberaba. Especialista em Planejamento Educacional pela UFU. Especialista em Educação Escolar – Letras pela Faculdade Politécnica de Uberlândia. Licenciatura Plena em Letras – Português/Inglês pela Uniube e em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ituverava. Atua no Departamento de Formação Continuada na Semec (Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Uberaba). É docente na Uniube, atuando nas Licenciaturas em Pedagogia e Educação Física. Coordenadora de Referência do Curso de Pedagogia na modalidade EAD na Uniube. Gláucia Eli da Silva Especialista em Psicopedagogia Institucional, pela Universidade Castelo Branco. Graduada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ituverava. Supervisora Escolar habilitada pela Universidade Presidente Antônio Carlos. Supervisora escolar da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Uberaba. Coordenadora da Pós-Graduação Lato Sensu presencial da Universidade de Uberaba (Uniube). Coordenadora do curso de Especialização Lato Sensu de Psicopedagogia Institucional da Uniube. Professora do curso de Especialização Lato Sensu de Psicopedagogia Institucional da Uniube. Glaura Morais Paroneto Mestra em Educação Magistério Superior pelo Unit. Especialista em Pedagogia Clínica pela Unaerp e em Metodologia e Didática do Ensino pelas Faculdades Claretianas. Graduada em Pedagogia pela Fista. Integrante da Equipe do GAPP (Grupo de Apoio Pedagógico e Pesquisa), coordenadora do curso de especialização em Docência Uni versitária da Uniube. Sobre as autoras Marilia de Dirceu Cachapuz Daher Mestre em Educação: História, Política, Sociedade pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Graduada em Pedagogia pela Universidade de Uberaba (Uniube). Professora do curso presencial da Universidade de Uberaba e Coordenadora Acadêmica e Pedagógica dos Cursos de Graduação EAD da Uniube. Patrícia Valéria Bielert do Nascimento Mestre em Geografia pela UFU. Especialista em Metodologia do Ensino de Geografia pela Universidade Federal de Uberlândia. Pedagoga. Pro fessora das séries/ciclos iniciais do Ensino Fundamental do Estado de Minas Gerais e professora universitária no município de Uberaba. Vânia Maria de Oliveira Vieira Doutora em Psicologia da Educação pela PUC-SP. Mestre em Educação – Formação de professores, pela Universidade de Uberaba (Uniube). Pedagoga e Psicóloga, Especialista em Pedagogia, Coordenadora e Professora do Programa de Mestrado em Educação e dos cursos de Graduação e Licenciatura da Universidade de Uberaba. Psicóloga da Escola Municipal Frei Eugenio, Uberaba. Pesquisadora nas áreas de ensino-aprendizagem, formação de professores e representações sociais. Sumário Apresentação .............................................................................................................VII Capítulo 1 A multidimensionalidade do ensino e a sala de aula como espaço das relações .................................................. 1 1.1 Pedagogia: ciência que estuda a natureza e as finalidades da educação ............ 4 1.2 Didática como campo de estudos da prática pedagógica ...................................... 5 1.2.1 Comenius: o “pai da didática moderna” ......................................................... 5 1.2.2 Didática: a reflexão crítica e sistemática da prática educativa ...................... 8 1.3 Sala de aula: o espaço das relações ..................................................................... 10 1.3.1 As relações afetivas na sala de aula............................................................ 15 1.3.2 A (in)disciplina na sala de aula ..................................................................... 21 1.3.3 As relações de autoridade na sala de aula .................................................. 25 1.4 A multidimensionalidade do processo de ensino e aprendizagem ....................... 29 1.4.1 Dimensão humana ....................................................................................... 30 1.4.2 Dimensão sociopolítica ................................................................................ 31 1.4.3 Dimensão técnica ......................................................................................... 31 1.5 Repensando a aula expositiva .............................................................................. 36 1.6 Revisitando uma sala de aula num momento de estudo dirigido ......................... 37 1.7 E os nossos antigos trabalhos em grupo? ............................................................ 39 1.8 Mais um nó: a tarefa escolar ................................................................................. 40 1.9 Conclusão .............................................................................................................. 42 Capítulo 2 Planejamento de ensino e avaliação .................................47 2.1 O planejamento de ensino no cotidiano da prática docente ................................. 49 2.2 A importância do planejamento na escola ............................................................. 51 2.3 Seleção e organização dos conteúdos ................................................................ 57 2.4 Seleção e organização de procedimentos de ensino .......................................... 58 2.5 Seleção dos procedimentos de avaliação ............................................................ 60 2.5.1 Finalidades da avaliação ............................................................................. 62 2.5.2 Mudar a avaliação é difícil? ......................................................................... 64 2.6 Construção do plano, da prática docente e do saber discente ............................ 65 2.7 Planejamento didático ou de ensino ..................................................................... 66 2.7.1 Tipos de planejamentos .............................................................................. 68 2.8 Etapas do planejamento de ensino ....................................................................... 69 2.9 Os componentes básicos do plano de ensino ...................................................... 70 2.10 Plano de aula ....................................................................................................... 74 2.10.1 Esboço de um plano de aula na concepção de Celso Vasconcellos (2000) .................................................................................. 76 Capítulo 3 Avaliação como elemento mediador do processo de ensino-aprendizagem ........................................................81 3.1 Avaliação: conceito, significadoe princípios ......................................................... 82 3.2 Tipos e etapas de uma avaliação ......................................................................... 84 3.3 Conclusão .............................................................................................................. 92 Anexo I Interdisciplinaridade na escola: desafios e conquistas ......... 96 1 Por uma educação interdisciplinar ...........................................................................97 2 Algumas orientações didáticas para o professor ......................................................97 2.1 O trabalho com projetos e a interdisciplinaridade no dia a dia da escola .....101 3 Conclusão ................................................................................................................110 Neste livro vamos dialogar sobre alguns assuntos intrigantes e desafiadores para nós educadores. Dentre eles, discutir a relação professor e aluno no processo ensino-aprendizagem e buscar na vivência pessoal, nas experiências profissionais, na inspiração, no conhecimento, um caminho metodológico que nos leve, a preparar uma aula que proporcione momentos ricos para educadores e educandos. Assim, procuramos transformar a escola em um espaço rico de aprendizagem, de encontro, de prazer e de alegria. A disciplina de Didática tem como objetivo levar à compreensão: • Da multidimensionalidade do processo de ensino-aprendizagem e a sala de aula como espaço privilegiado das relações humanas e do conhecimento. • Da importância do planejamento de ensino no trabalho docente, seus tipos, elementos constitutivos e seus desdobramentos. • Da importância do papel da avaliação no processo de ensino- aprendizagem, apresentando alguns princípios, sua utilidade, objetivos, formatos e o motivo pelo qual mudar a avaliação e a forma de aplica-la é tão difícil • Dos saberes essenciais para a prática educativa, como a interdisciplinaridade e a docência frente à transposição didática. Enfim, vamos refletir por meio dos capítulos aqui apresentados, sobre como nos preparamos para a aula, como interagimos, como aprendemos, como ensinamos, enfim como contribuímos para a construção do conhecimento. O capítulo “A multidimensionalidade do ensino e da aprendizagem e a sala de aula como espaço das relações”, tem como propósito discutir a sala de aula como espaço de vivências, convivências e das Apresentação VIII UNIUBE relações pedagógicas, além de trazer para reflexão alguns aspectos que influenciam na construção desse ambiente e que comumente são naturalizados pelos educadores, como: as relações afetivas, a (in) disciplina e as relações de autoridade. O capítulo aborda ainda uma reflexão sobre a Pedagogia como ciência que estuda as finalidades da educação. No capítulo “Planejamento de ensino e avaliação”, apresentamos o embasamento para a elaboração de planejamentos de ensino. Buscamos aqui, também, despertar a consciência da necessidade da construção de uma prática docente inovadora e crítica, e da importância da participação de todos nessa atividade, para a efetivação satisfatória da aprendizagem. Dando continuidade aos nossos estudos, vamos abordar no capítulo “Avaliação como elemento mediador do processo de ensino- aprendizagem”, que avaliar é um procedimento muito antigo e está presente em tudo o que fazemos ao longo de nossas vidas. Na educação não é diferente. Mas, apesar de ser uma prática comum, não é fácil de ser trabalhada. Os bons professores e pedagogos sabem que uma prática avaliativa adotada com bons resultados em uma turma, muitas vezes pode não surtir bons resultados em outras. Por isso, é preciso observar com carinho qualquer prática avaliativa, antes de aplica-la. Estudaremos a avaliação quanto aos itens: conceito, significado e princípios, tipos e etapas de um processo que visa, em primeiro lugar, verificar se os educandos estão realmente aprendendo. A avaliação deve ser implementada tendo como suporte o processo pedagógico, para que atinja seus objetivos – identificar as causas do fracasso ou sucesso escolar do aluno. Finalizamos nossos estudos abordando a “Interdisciplinaridade na escola: desafios e conquistas”, que nos leva a refletir sobre: o que ensinar? Por que ensinar? Quando e como ensinar? Para respondermos essas questões é necessário que haja uma coerência entre os objetivos e o que se desenvolve, no transcorrer das aulas. Veremos que a interdisciplinaridade pode nos ajudar a promover a interação entre os vários setores do conhecimento, e, possibilitar, UNIUBE IX principalmente que os professores busquem nos conteúdos os elementos mais práticos, que levem os alunos a se interessarem pela escola. Veremos ainda, que a atividade com projetos é uma das formas apresentadas pelos PCNs, para um trabalho interdisciplinar na escola. Para isso falaremos um pouco sobre os Temas Transversais, uma vez que acreditamos que a educação é um processo de vida e não uma preparação para a vida futura, e que a escola deve representar a vida presente, tão real e vital para o educando, como a que ele vive em casa, no bairro, na sociedade. Bons estudos!!!! Profa. MSc. Neusa Abadia Gomes Andrade Gláucia Eli da Silva / Marilia de Dirceu Cachapuz Daher Introdução Capítulo 1 Para iniciar nossas discussões, escolhemos um questionamento de Novaski (2005, p. 15): “Para que serve uma sala de aula se não for capaz de nos transportar além da sala de aula?”. Entendemos que tal pergunta é representativa no sentido de que, no decorrer de nosso texto, ela será instigadora e norteadora do nosso diálogo. Em outros estudos você pôde refl etir que o espaço escolar é um elemento signifi cativo do currículo porque infl uencia na constituição dos sujeitos e na formação dos esquemas cognitivos e motores. Sendo assim, não é um aspecto neutro na formação das novas gerações, além de ser constituinte do processo de ensino- aprendizagem. Se refl etir sobre a organização do tempo e do espaço escolar na instituição educacional é algo importante para a formação das crianças e jovens, outra discussão não menos relevante é pensar a respeito das relações que são estabelecidas no ambiente da sala de aula como elemento que infl uencia, potencia ou limita as práticas educativas. Nesse sentido, importa-nos também discutir algumas tarefas ou atividades didáticas que são reguladoras da ação docente e formadoras de identidades e subjetividades dos alunos, portanto, também, não são aspectos neutros do ensino. Neutro No decorrer deste capítulo usaremos a palavra neutro no sentido de indiferente. A multidimensionalidade do ensino e a sala de aula como espaço das relações 2 UNIUBE Durante a sua trajetória escolar muitas foram as situações vividas e experienciadas no decorrer do seu processo de aprendizagem e de formação. Assistiu aulas, realizou atividades diversas, participou de trabalhos em grupo, fez tarefas de casa, pesquisou, entre tantas outras atividades e tarefas que, ao longo desse tempo, tiveram o objetivo de propiciar-lhe a aquisição de conhecimentos, de atitudes, de hábitos e de valores. Dessa forma, este capítulo tem como propósito refletir sobre a sala de aula como espaço de vivências, de convivências e das relações pedagógicas, além de trazer para a discussão alguns aspectos que influenciam na construção desse ambiente e no desenvolvimento do ensino e que são, comumente, naturalizados pelos educadores. Discutiremos ainda a multidimensionalidade do processo de ensino e aprendizagem. Para tanto, iniciaremos nosso texto abordando a pedagogia como ciência que estuda as finalidades da educação, bem como a didática como campo de estudos que reflete a prática pedagógica e os diversos elementos condicionantes. Esperamos que, ao término dos estudos deste capítulo, você seja capaz de: • Compreender a pedagogia como ciência que estuda a natureza e as finalidades da educação, bem como as metodologiasapropriadas para a formação das novas gerações. • Refletir sobre a didática como campo de estudo que tem como objeto científico o processo de ensino e aprendizagem e os diversos elementos condicionantes da prática educativa. • Refletir a sala de aula como espaço de vivências, de convivências e das relações pedagógicas. • Reconhecer a importância dos significados e dos sentidos Objetivos UNIUBE 3 Para facilitar a sua compreensão sobre os objetivos anteriormente propostos, apresentaremos o conteúdo a partir da seguinte organização: 1.1 Pedagogia: ciência que estuda a natureza e as finalidades da educação 1.2 Didática como campo de estudos da prática pedagógica 1.2.1 Comenius: o “pai da didática moderna” 1.2.2 Didática: a reflexão crítica e sistemática da prática educativa Esquema das relações estabelecidas nesse espaço para a formação das novas gerações. • Compreender a importância de o professor se perceber enquanto sujeito político, agente de transformação como condição necessária para a construção e o desenvolvimento do processo de profissionalização docente. • Entender e ampliar o olhar a respeito de alguns aspectos que influenciam, potencializam ou limitam a realização da prática pedagógica e o exercício da docência. • Compreender que o processo de ensino-aprendizagem é permeado pelas dimensões humana, sociopolítica e técnica. • Entender que no processo de ensino-aprendizagem essas dimensões devem se desenvolver de forma articuladas entre si. • Compreender que as tarefas ou atividades didáticas são reguladoras da ação docente e formadoras de identidades e subjetividades dos alunos, portanto não são aspectos neutros do ensino e devem ser alvo constante da reflexão docente. • Entender que as técnicas de ensino são constituintes do processo educativo, mas que não são fins em si mesmo, necessitando relacionar-se com as demais dimensões do ensino. 4 UNIUBE 1.3. Sala de aula: o espaço das relações 1.3.1 As relações afetivas na sala de aula 1.3.2 A (in)disciplina na sala de aula 1.3.3 As relações de autoridade na sala de aula 1.4 A multidimensionalidade do processo de ensino e aprendizagem 1.4.1 Dimensão humana 1.4.2 Dimensão sociopolítica 1.4.3 Dimensão técnica 1.5 Repensando a aula expositiva 1.6 Revisitando uma sala de aula num momento de estudo dirigido 1.7 E os nossos antigos trabalhos em grupo? 1.8 Mais um nó: a tarefa escolar 1.9 Conclusão 1.1 Pedagogia: ciência que estuda a natureza e as finalidades da educação Ensinar e aprender são práticas sociais comuns e presentes nas relações humanas. No seu sentido mais amplo, estamos envolvidos nesse processo por meio das ações cotidianas. No dia a dia, nas mais diferentes situações sociais e tempos históricos, as pessoas estiveram e estão envolvidas com ações, atitudes e valores impregnados do ato de aprender e de ensinar que abarcam diferentes modalidades e formas que influenciam na formação da personalidade e no caráter do sujeito. Nesse sentido, quando a humanidade cria um espaço específico para a realização dessa prática social, passamos, de certo modo, a pensar e criar condições, métodos, formas organizativas e avaliativas que direcionam essa prática, que se realiza de modo intencional, planejado e, até certo ponto, consciente. UNIUBE 5 Assim, a pedagogia é a ciência que estuda a natureza e as finalidades da educação, bem como as metodologias apropriadas para a formação das novas gerações. A didática surge então como campo de estudo importante, que tem como objeto científico refletir sobre o processo de ensino e aprendizagem e os diversos elementos condicionantes da prática educativa. Didática como campo de estudos da prática pedagógica1.2 Como vimos anteriormente, a didática é campo de estudos importante para a Pedagogia, pois tem como objeto de estudo a prática pedagógica em seus fundamentos, princípios, condições e modos de organizar, desenvolver e avaliar o ensino. Para o professor, a didática contribui para a compreensão global do processo educativo que se realiza no âmbito escolar. Pois bem, a partir desse entendimento é preciso nos perguntar: Como é que a didática se constitui como campo especializado de estudos? 1.2.1 Comenius: o “pai da didática moderna” Para responder essa pergunta, é preciso retomar a história do pensamento pedagógico e trazer para a nossa discussão um pensador importante do século XVII: Jan Amós Komensky. Numa versão latina da língua, o educador é mais conhecido como Comenius. Nascido em 1592, em Morávia, na região hoje conhecida por República Tcheca, é considerado o grande pensador da história da pedagogia moderna. 6 UNIUBE Caso você queira saber mais sobre a biografia desse estudioso, sugerimos que leia as páginas 165-166 da obra: CORDEIRO, Jaime. Didática. São Paulo: Contexto, 2007. Esta obra está disponível no Ambiente Virtual de Aprendizagem – Uniube On-Line. Acesse a Biblioteca Virtual Pearson pela sua página de aluno. SAIBA MAIS Comenius é de um tempo em que a sociedade vivia um momento de transformação, de transição entre mundos. O modo de produção feudal estava em decadência, o renascimento comercial propiciou o desenvolvimento das condições para o surgimento do capitalismo. Nesse sentido, novas concepções de homem, de mundo e de sociedade se configuram, sendo requeridos novos valores intelectuais, morais e sociais. Dessa forma, a escola, enquanto instituição social, deveria sofrer modificações para se adequar a essa nova realidade. A esse respeito, Damis (1994, p. 17) traz considerações importantes: A nova prática pedagógica deveria, agora, levar em conta os interesses individuais de quem aprende, uma vez que as relações sociais capitalistas emergentes exigiam mão de obra diversificada. O professor não poderia mais se preocupar, apenas, com a transmissão de um conteúdo, mas, também, em tornar atraente o ensino e fácil o aprender. Atendendo a essas aspirações, destaca-se a obra mais conhecida de Comenius, a Didática Magna, que traz os princípios da universalidade dos saberes, a partir do ensino para todos, bem como a ordem e as regras para alcançar esses saberes na organização da escola, no desenvolvimento do ensino. Já na introdução dessa obra, o filósofo deixa claro suas intenções: Didática Magna que mostra a arte universal de ensinar tudo a todos, ou seja, o modo certo e excelente para criar todas as comunidades, cidades ou vilarejos de qualquer reino cristão escolas tais que a juventude dos dois sexos, sem excluir ninguém, possa receber uma UNIUBE 7 formação em letras, ser aprimorada nos costumes, educada para a piedade e, assim, nos anos da primeira juventude, receba a instrução sobre tudo o que é vida presente e futura, de maneira sintética, agradável e sólida. Os princípios de tudo o que se aconselha são extraídos da própria natureza, a verdade é demonstrada através de exemplos paralelos das artes mecânicas; a ordem dos estudos é disposta segundo anos, meses, dias, horas; o caminho, enfim, fácil e seguro, é mostrado para pôr essas coisas em prática com bom êxito. (COMENIUS, 2002, p. 11) Por estar num momento de transição e de questionar a escola até então praticada – a escolástica – que era pautada nas práticas pedagógicas que valorizavam as atividades memorísticas, os estudos abstratos, o castigo, a palmatória, entre outros, Comenius traz em sua obra princípios e ideias inovadoras para a época, mas, ao mesmo tempo, preserva algumas ideias conservadoras e habituais do seu tempo. Sendo assim, apresentamos no Quadro 1 um paralelo entre as inovações e permanências na obra de Comenius, segundo Libâneo (2007, p. 58): Quadro 1: Inovações e permanências na obra de Comenius Fonte: Libâneo (2007, p. 58). Mesmo passados quatro séculos, consideramos as postulações de Comenius como atuais, pois a pedagogia moderna se desenvolve e mantém alguns desses princípios até hoje. A esse respeito, Narodowisk (2006, p. 13) afirma: 8 UNIUBEO valor de Comenius para a Pedagogia está no fato de que ele instaura, a partir de numerosos textos, alguns dos mais relevantes mecanismos que se perpetuam ao longo desses quatro séculos na Pedagogia moderna. Em seus textos, se manifestam vários dos dispositivos fundantes das novas relações educativas na Pedagogia; sobretudo aqueles que têm a ver com alguns de seus componentes: com a simultaneidade, a graduação e a universalidade. Ensinar todos ao mesmo tempo, levando-se em conta a gradação do conhecimento e para todos são aspectos importantes na organização do ensino atual. Dessa forma, terminamos este item com afirmações do autor por serem relevantes na compreensão da atualidade de Comenius. 1.2.2 Didática: a reflexão crítica e sistemática da prática educativa Em geral, quando perguntamos aos docentes – em formação e em exercício da docência – o que é didática, as respostas dadas, geralmente, relacionam-se com a dimensão técnica do ensino, do como fazer. Conforme os estudos de Candau (2003), esse fato se deve à prevalência do caráter técnico de algumas concepções teóricas a respeito da prática pedagógica e sua relação com o contexto históricocultural ao qual se inserem e se desenvolvem. Esse pensamento foi dominante entre as décadas de 50 a 70 do século XX, em que a ênfase estava no caráter metodológico, voltada para procedimentos e técnicas de ensino. Nesse sentido, André e Oliveira (2003, p. 9) afirmam que: A disciplina de didática ensina aos futuros professores técnicas para formular objetivos, elaborar planos e provas, dar uma aula expositiva, conduzir um trabalho de grupo, entre outras. O seu objetivo é de fornecer subsídios metodológicos ao professor para ensinar bem (grifo da autora), sem se perguntar a serviço do que e de quem se ensina (grifo nosso). Sendo assim, pela citação anterior, fica claro que as questões humanas e sociopolíticas do ensino são deixadas de lado nesse período, portanto, UNIUBE 9 serão tais questões que a didática atual busca discutir criticamente, uma vez que pensar o ensino e desenvolvê-lo vai para além das questões meramente prescritivas do como fazer, devendo ser pensadas na relação com o para quem se ensina, para que se ensina e o que se ensina. Entretanto, é preciso ressaltar que a didática enquanto campo de estudos está em constantes reconfigurações. A esse respeito trazemos dois movimentos contrapostos que, segundo Candau (2003), permearam as discussões acerca da didática a partir da década de 60 do século XX, são eles: “a afirmação do técnico e o silenciar do político” para a “afirmação do político e a negação do técnico” (p. 73). O primeiro dava à didática um caráter instrumental, compreendida como um conjunto de técnicas e procedimentos a serem aprendidos e dominados pelo professor de forma que propiciasse um ensino eficiente, enquanto o segundo, de natureza crítica, preocupavase com o desvelamento do caráter pretensamente neutro, instrumental e de conteúdo ideológico conservador, enfatizado no primeiro movimento, em um processo de ensinoaprendizagem idealizado e descontextualizado. André e Oliveira (2003) são organizadoras de um livro intitulado: Alternativas do ensino de didática. Esta obra traz textos de estudiosos renomados na área da didática que auxiliam os leitores na compreensão das discussões e transformações da didática enquanto campo de estudos, bem como suas contribuições e desafios para a educação e a prática pedagógica. IMPORTANTE! Prosseguindo com nossa conversa, atualmente, quando falamos sobre didática, a visão expressa é outra. Segundo Candau (2003, p. 94): [...] a didática é concebida como tendo por objetivo a compreensão dos diferentes determinantes da prática pedagógica e a construção de formas de nela intervir que favoreçam a formação de sujeitos sociais reflexivos, críticos e comprometidos com a democracia plena para todos. 10 UNIUBE Sala de aula: o espaço das relações1.3 Até aqui tentamos esclarecer e reafirmar que a didática é campo de estudos importante que auxilia o docente na reflexão e resolução dos dilemas cotidianos da prática pedagógica e, assim, interessa aos estudiosos do campo, como aos docentes em formação e em exercício, conhecer e refletir sobre os aspectos que interferem, condicionam, potenciam e limitam o desenvolvimento do processo de ensino e aprendizagem. Para continuarmos nossa conversa, entendemos ser importante conhecer e refletir sobre o espaço sala de aula, uma vez que é espaço privilegiado no qual a prática pedagógica acontece. Pelo exposto, podemos afirmar que, atualmente, a didática é entendida como campo teórico que realiza a reflexão sistemática da prática pedagógica, buscando alternativas para os dilemas vividos no processo de ensino escolar. Nesse sentido, torna-se necessário enfatizar que a didática, numa perspectiva crítica, que busca superar a ênfase do caráter meramente técnico, traz para seu campo de discussão questões mais amplas da realidade social como aspectos que interferem no processo de ensino- aprendizagem. Assim, pensar os dilemas e superar os obstáculos da prática educativa requer um olhar investigativo do educador que supere as meras técnicas de ensino, os modelos preconcebidos, as “receitas mágicas” no enfrentamento e resolução dos problemas do cotidiano escolar que dizem respeito à prática pedagógica. Pensar a prática pedagógica exige contemplar suas diferentes facetas e compreender que a mesma é multidimensional, é ação desenvolvida entre pessoas, com finalidades a serem cumpridas e opções a serem tomadas no desenvolvimento do ensino para alcançar os fins educativos estabelecidos. Esse processo deve ser pensado a partir da realidade imediata à qual se insere, ou seja, teoria e prática não podem ser processos desvinculados entre si e não há como enfatizarmos determinados aspectos em detrimento de outros. UNIUBE 11 Com certeza, muitas são as lembranças e as histórias que você tem para contar da sua vida escolar, da sua vida na sala de aula. Retome suas lembranças e reflita: Você já parou para pensar nos significados e nos sentidos que os espaços da sala de aula e as relações ali estabelecidas tiveram na sua formação? Como se deram essas relações? AGORA É A SUA VEZ Depois de refletir sobre as perguntas iniciais, podemos afirmar que o espaço da sala de aula, que no início da escolarização para muitos era estranho, assim como as pessoas que ali estavam, aos poucos vai se tornando familiar e parte integrante de nossas vidas. Espaço de manifestação dos conflitos, dos confrontos de ideias, das alegrias e esperanças, de expectativas cumpridas, e às vezes não cumpridas ou até mesmo satisfeitas em parte, ou seja, espaço de tudo aquilo que diz respeito à vida entre as pessoas. Você se lembra: • De suas primeiras amizades? • Quem era o (a) colega “mais inteligente” da turma? • E o “mais levado”? • Como se chamava o menino mais cobiçado da escola? • E a menina que todos os seus colegas “sonhavam” em namorar? • Qual foi sua professora mais brava? • E a que você gostava mais? • E as brincadeiras do recreio? De que brincavam? • E o lanche da escola, você se lembra? • E das matérias escolares, quais eram as temidas e as preferidas? PARADA PARA REFLEXÃO 12 UNIUBE Relembrando esses momentos e procurando ressignificálos a partir do olhar de educador, os estudos realizados por Masetto (1997) são relevantes para a compreensão que desejamos. Para esse autor, a sala de aula é espaço da convivência. É nesse espaço que muitos de nós sentimos as delícias e tristezas de uma amizade que carregamos desde a infância, experimentamos um primeiro flerte e quem sabe até mesmo um beijo inocente do colega de carteira. Passamos pela experiência de “colar” na prova porque brincamos em vez de estudar, participamos de uma “gincana” em prol de uma causa nobre, recebemos prêmios e elogios, ou experimentamos as primeiras “broncas” ou até mesmo castigos, fizemos osprimeiros trabalhos em grupo... A partir dessas lembranças, é possível percebermos que na escola, na sala de aula, na convivência com os colegas, com os professores e funcionários, aos poucos vai sendo construído em nós um clima de cumplicidade, de cooperação, de produção de um conhecimento conjunto, mas também de rivalidade, de frustração, de revolta, de competição e de disputa. É nesse ambiente de diversidade que vamos formando a nossa identidade. A esse respeito, Masetto (1997) afirma que o professor não deve desconsiderar a densidade afetiva que ali é vivida, pelo contrário, deve aproveitar essas experiências relacionandoas com as atividades escolares e com os conteúdos estudados, transformando a sala de aula em espaço de vivências. Quando falamos de espaço de vivências, estamos pensando na realidade de cada aluno e tudo aquilo que dá sentido à sua vida: suas ideias, crenças e valores, suas relações no bairro, no seu grupo de amigos, o seu lazer e sua diversão, o trabalho de seus pais, os seus sonhos de futuro. É a partir desse entendimento que o professor deve proporcionar situações em que o mundo externo possa permear, ganhar significado e ultrapassar o espaço da sala de aula. Ou seja, é: Quando o aluno percebe que pode estudar nas aulas, discutir e encontrar pistas e encaminhamentos para questões de sua vida e das pessoas que constituem seu grupo vivencial, quando seu dia a dia de estudos é invadido e atravessado pela vida, quando ele pode sair da sala de aula com as mãos cheias de dados, com contribuições significativas para os problemas que são UNIUBE 13 vividos “lá fora”, este espaço se torna espaço de vida, a sala de aula assume um interesse peculiar para ele e para seu grupo de referência. (MASETTO, 1997, p. 35) Assim, buscamos quebrar o modelo tradicional de educação em que a relação professor-aluno se dá de modo verticalizado, subserviente, de dependência, em que o professor sempre é a pessoa apta a ensinar, a decidir, a avaliar, a aprovar e reprovar; e ao aluno cabe o papel de coadjuvante no processo educativo. O espaço da vivência deve ter como foco a relação professor-aluno que possibilite o desenvolvimento da autonomia, da responsabilidade, da maturidade, da valorização interpessoal numa perspectiva de relação consentida mutuamente. Com isso, não queremos pormenorizar a autoridade do professor, pelo contrário, pois esta não deve ser questionada, além de ser algo indispensável na relação pedagógica. Na construção desse espaço, cabe ao professor incentivar os questionamentos, as argumentações, a exposição de pontos de vistas diversos, criando um clima em que o aluno possa expor e discutir suas experiências, assumindo assim a dimensão humana da sala de aula e do processo de aprendizagem que ali ocorre. Se os espaços da convivência e das vivências são duas dimensões importantes na sala de aula, outra dimensão igualmente relevante são as relações pedagógicas nela desenvolvidas. Quando pensamos no espaço das relações pedagógicas, queremos enfatizar a sala de aula como momento privilegiado do conhecimento, desenvolvido por meio do processo de ensino-aprendizagem. Pensando, especificamente, a respeito do processo de ensino e aprendizagem, Libâneo (2007) nos auxilia a compreender que o ensino tem como função principal difundir e possibilitar a apropriação do conhecimento construído pela humanidade. Dessa forma, o processo de ensino deve organizar-se de modo que estimule, incentive e impulsione a aprendizagem dos alunos. Esse mesmo autor entende que há aprendizagem quando o aluno é capaz de compreender e aplicar, de forma consciente e autônoma, os conhecimentos aprendidos. Para ele, “a aprendizagem é uma forma de conhecimento humano – relação cognitiva entre aluno e matéria de 14 UNIUBE estudo – desenvolvendose sob as condições específicas do processo de ensino” (LIBÂNEO, 2007, p. 91). Cabe aos professores entenderem que tais processos se dão de forma integrada, ou seja, não há ensino por si só, mas sempre na relação com a aprendizagem, num processo complexo, num constante diálogo entre pessoas, num ato educativo que nos permite levar os saberes individuais de um lugar para outro, quer seja em mudança de tempo e espaço, quer seja em grau de complexidade do entendimento. Nesse caso, na aprendizagem, não cabe a ideia de “dono do saber”, mas a ideia de pessoas que possuem perspectivas diferentes sobre algo e que devem realizar uma interlocução mútua com o outro para o enriquecimento desse saber. Sendo assim, ensinar e aprender, mesmo que seja no espaço da sala de aula, não se realiza de modo desvinculado e solto da realidade do mundo, da escola, do tempo histórico, social, cultural ao qual se realiza. Muitos são os elementos condicionantes que norteiam e interferem nesse processo: a organização do tempo e do espaço escolar – o ensino em séries ou em ciclos –, o envolvimento da comunidade nas diferentes instâncias colegiadas, o currículo estabelecido, os recursos pedagógicos disponíveis e escolhidos, os livros didáticos selecionados, a forma de gestão adotada, a comunhão de ideias e ideais que o grupo de professores possui, entre tantos outros elementos que são significativos e intervenientes nesse processo. No que diz respeito à aula que se desenvolve nas escolas, é preciso enfatizar a singularidade desse momento em desenvolver, construir e rever conhecimentos, habilidades e atitudes, com recursos e metodologias necessários e compatíveis com os diferentes níveis da educação básica, com a função socializadora que tais níveis devem cumprir. Levar em consideração a idade dos alunos, o desenvolvimento humano e sua realidade e os objetivos educacionais propostos, como forma de cumprir a função social dessa instituição. Posto isso, o professor deve perceber a autonomia relativa que possui nas escolhas e na condução das atividades e aprendizagens educacionais desenvolvidas na sala de aula, que devem sempre ter como parâmetros os princípios da ética e do compromisso com a formação de sujeitos que conheçam a realidade e que se disponham a mudá-la. UNIUBE 15 Nesse sentido, a aula pode representar um momento de experiências novas e desafiadoras, da realização da contradição, da criatividade, de revisão de conteúdos em conjunto com os alunos ou pode constituir-se um momento de reprodução de desigualdades, de decisões unilaterais, de posições autoritárias há muito definidas nos programas escolares e nas práticas tidas como tradicionais. Pela nossa conversa, você deve estar se perguntando: como construir a sala de aula como espaço de vivência, de convivência humana, de relações pedagógicas desafiadoras que seja capaz de transportar os alunos para além da sala de aula? PARADA PARA REFLEXÃO Em resposta a esta questão, pensamos que uma primeira consideração seja a de que o professor nunca deve perder de vista as três dimensões aqui discutidas: o espaço da convivência, das vivências e das relações pedagógicas como dimensões que se integram e se complementam no processo educativo, não devendo uma ser privilegiada em detrimento das demais. Se este é um ideal a ser perseguido pelo professor, pensamos ser importante discutir alguns elementos que consideramos fundamentais na construção dessas dimensões, que muitas vezes são desconsiderados pelo professor ou tidos como naturais no espaço da sala de aula e que, portanto, não precisam ser pensados e refletidos constantemente. 1.3.1 As relações afetivas na sala de aula Wallon, Piaget e Vigotsky, em seus estudos, de modo mais ou menos enfático, consideram a afetividade como aspecto que está relacionado com o desenvolvimento intelectual da criança. Sendo assim, desconsiderar a afetividade e sua relação com o desenvolvimento cognitivo pode influenciar na construção das aprendizagens significativas pelo aluno. 16 UNIUBE Segundo Dantas (1992, p. 85-99), no que se refere aos estudos a respeito da afetividade e a construçãodo sujeito, afirma que: [...] a caracterização que apresenta a atividade emocional é complexa e paradoxal: ela é simultaneamente social e biológica em sua natureza; realiza a transição entre o estado orgânico do ser e sua etapa cognitiva, racional, que só pode ser atingida através da mediação cultural, isto é, social. Dessa forma, podemos compreender que, assim como o aspecto intelectual, o afetivo também faz parte do desenvolvimento humano e deve ser considerado sempre que há relações entre pessoas. E mais que isso, enfatiza que o aspecto emocional que no início tem suas raízes fundadas no estado orgânico, ligadas às funções mais primitivas do instinto humano, pela intervenção do outro mais experiente, vai aos poucos se transformando e se vinculando ao desenvolvimento cognitivo e racional, transformação essa que se dá pela mediação cultural. Vamos pensar: O bebê quando nasce possui sentimentos que se relacionam com as suas funções mais primitivas e instintivas que estarão vinculadas a sensações de prazer ou desprazer, tais como: chorar, dormir, comer, entre outras. À medida que vai crescendo e sendo educado, tais ações e sentimentos vão sendo trabalhados na relação com os valores sociais. Assim, chorar, comer e dormir são ações que devem possuir tempo, espaço e forma definidas e aceitas socialmente. EXEMPLIFICANDO! Com isso queremos ressaltar que as relações afetivas estão presentes em todos os relacionamentos humanos e devem ser cultivadas e valorizadas: nas relações de trabalho, nas relações entre amigos, nas relações familiares e inclusive nas relações professor-aluno. Se o afetivo e o emocional fazem parte do humano, as relações pedagógicas entre professor e aluno estão permeadas pela afetividade, o UNIUBE 17 espaço da sala de aula, então, é local de sua manifestação e o professor deve estar atento e ser responsável pelo desenvolvimento das relações que se dão na escola e na construção de um ambiente favorável à convivência e à vivência. É preciso compreender a afetividade como algo que não se resume a “tratar o aluno com beijinhos ou tentar agradar o aluno” (FERNANDEZ, 2007, p. 16). Nesse sentido, comungamos do entendimento da autora quando pensa que estabelecer uma relação afetiva em sala de aula é se comprometer com o outro, é sair da posição de indiferença em relação às limitações e possibilidades que as crianças e jovens apresentam quanto ao seu desenvolvimento pessoal. É aceitar que aquele sujeito que se apresenta a mim, às vezes, mostra minhas fragilidades e limites quanto à minha contribuição no desenvolvimento de seu processo educativo. O desenvolvimento afetivo e emocional envolve um permanente conhecimento de si, o reconhecimento dos limites individuais, bem como as potencialidades que cada um de nós pode desenvolver. Essa compreensão, por parte do professor, lhe dá a responsabilidade de criar espaços para manifestação e desenvolvimento de diferentes emoções: alegrias, tristezas e sofrimentos, respeito, cooperação mútua, disputa, atenção, raiva, agressão, amor, ódio, autodefesa, entre tantos outros, uma vez que entendemos que tais sentimentos são inerentes e próprios do ser humano, devendo ser igualmente valorizados e conduzidos na formação das crianças e jovens. Essa compreensão colabora para a efetivação de uma prática pedagógica em que acreditamos na capacidade que o outro tem em se desenvolver, em tornar-se pessoa. Aos professores, essa visão auxilia a perceber o aluno como um sujeito real, podendo assim vêlo sem rótulos e preconceitos que o estigmatizem e que muitas vezes os marca de modo definitivo e prejudicial. Traz também a percepção de que o papel do professor vai além da simples “transmissão de conteúdos”, como muitos querem crer. Ou seja, “ensinamos” muito mais do que matemática, português, história... Os conteúdos escolares são importantes aprendizados, entretanto não são fins em si mesmos, mas meios para a aprendizagem de outros tantos valores que estão permeados por emoções. 18 UNIUBE Retomando a história e as diferentes concepções de aluno, de professor, de educar, de organizar a escola e o ensino, percebemos a influência exercida pelo taylorismo e suas consequências nas funções e nas relações que são estabelecidas no espaço escolar, separando a função de ensinar da função de dar atenção ao aluno. Por muito tempo, privilegiou-se a formação especialista e parcelada do pedagogo e do docente. Essa percepção se torna mais clara quando voltamos o nosso olhar para a escola e vemos as diferentes funções do pedagogo: a docência exercida pelo professor na sala de aula; a supervisão escolar no atendimento aos docentes na sua prática pedagógica; a orientação escolar no atendimento ao aluno em seus aspectos emocionais, disciplinares, vocacionais e sociais; a administração escolar nas questões administrativas da escola. Com isso, podemos dizer que o afetivo não era uma preocupação do professor na sala de aula, na medida em que essa função era exercida por outro. Atualmente, quando buscamos esse olhar integrado para a multiplicidade de aspectos que se entrelaçam e influenciam na formação do sujeito e do seu desenvolvimento cognitivo, entendemos a naturalização do professor quando compreende o seu papel como sendo apenas o de ensinar, dissociado dos demais aspectos que fazem parte do desenvolvimento humano e da realidade sociocultural à qual se insere. Nesse sentido, quando temos como realidade professores que não conseguem perceber o seu aluno como um todo, como um sujeito que se apresenta a ele com seus diferentes aspectos do desenvolvimento, ou seja, cognitivo, afetivo, social e biológico, podemos fazer a seguinte pergunta: Por que o professor, muitas vezes, privilegia em sua prática pedagógica o aspecto cognitivo em detrimento dos demais aspectos? PARADA PARA REFLEXÃO UNIUBE 19 Dessa forma, as relações afetivas que são estabelecidas no espaço da sala de aula não são aspectos de menor valor, pelo contrário, devem favorecer o desenvolvimento pessoal seguro, oportunizando ao aluno aprender, se organizar emocionalmente, tornando-se capaz de lidar e de administrar seus sentimentos, interagindo e modificando a si próprio e o mundo externo. IMPORTANTE! Enfatizamos nesse diálogo que as relações afetivas estão presentes em todos os relacionamentos humanos, inclusive nas relações professor-aluno. Afirmamos ainda que, dependendo do modo como essas relações são estabelecidas e conduzidas, podem potencializar ou limitar as aprendizagens escolares. A partir disso, propomos que estabeleça uma conversa com algum colega de turma, amigo, familiar ou mesmo professor, colocando em foco as relações afetivas na sala de aula. Pergunte ao seu interlocutor qual o significado que a expressão “afetividade na sala de aula” representa para ele. Com base nas respostas obtidas e nos estudos realizados, construa um texto trazendo a representação do seu interlocutor, evidenciando as semelhanças e diferenças entre o que você estudou e o que ele relatou. Conclua esse texto evidenciando como você representaria o seu ideal de sala de aula que valoriza as relações afetivas. PARADA PARA REFLEXÃO Pelo exposto nesse item, esperamos que as discussões aqui estabelecidas tenham contribuído para ampliar o seu olhar acerca da importância das relações afetivas na sala de aula e de como o professor pode e deve tirar proveito desse aspecto para as aprendizagens escolares. Leite e Tassoni (2002) discutem questões ligadas à afetividade e à aprendizagem no cotidiano da sala de aula, nos auxiliando a compreender 20 UNIUBE Caso você queira conhecer melhor esse assunto, você pode ler o texto intitulado: A afetividade em sala de aula: as condições de ensino e a mediação do professor, acessando o site: <http://www.fe.unicamp.br/alle/textos/SASLAAfetividadeemSaladeAula.pdf>. Acesso em: 28 ago. 2011. O texto está disponível online, na página do Grupo de Pesquisa Alfabetização,Leitura e Escrita, da Faculdade de Educação – Unicamp, que reúne pesquisadores, professores e estudantes de graduação e pós-graduação interessados no estudo de questões relacionadas à leitura e à escrita na sociedade brasileira. PESQUISANDO NA WEB Caso você queira saber mais sobre a afetividade e sua importância no espaço da sala de aula, sugerimos que leia: LEITE, S. A. S; TASSONI, E. C. M. A afetividade em sala de aula: as condições de ensino e a mediação do professor. In: AZZI, R. G.; SADALLA, A. M. F. A. (Org.). Psicologia e formação docente: desafios e conversas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002. p. 113-141. LEITE, S. A. S; TASSONI, E. C. M. A afetividade em sala de aula: as condições de ensino e a mediação do professor. Disponível em: <http://www. fe.unicamp.br/alle/ textos/SASLAAfetividadeemSaladeAula.pdf>. Acesso em: 28 ago. 2011. Esse texto discute questões ligadas à afetividade e à aprendizagem no cotidiano da sala de aula. Propomos a sua leitura como meio para compreender melhor a importância da afetividade, na relação com os SAIBA MAIS melhor a importância da afetividade na relação com os aspectos de (in) disciplina e autoridade. UNIUBE 21 aspectos de (in)disciplina e autoridade, para a construção das dimensões da sala de aula, que serão discutidas neste capítulo. Foi escrito por Sérgio Antônio da Silva Leite, psicólogo, doutor em psicologia pela USP, professor do Departamento de Psicologia Educacional, da Faculdade de Educação da Unicamp, e Elvira Cristina Martins Tassoni, pedagoga, mestre em educação pela FE/Unicamp, professora dos cursos de graduação em pedagogia e letras da PUC-Campinas, professora do curso de especialização em psicopedagogia da PUC-Campinas e professora da Escola Comunitária de Campinas. O texto está disponível online, na página do Grupo de Pesquisa Alfabetização, Leitura e Escrita, da Faculdade de Educação – Unicamp, que reúne pesquisadores, professores e estudantes de graduação e pós-graduação interessados no estudo de questões relacionadas à leitura e à escrita na sociedade brasileira. Sendo assim, pode ser acessado pelo site: <http://www.fe.unicamp.br/alle/textos/SASLAAfetividadeemSaladeAula.pdf> 1.3.2 A (in)disciplina na sala de aula Além da discussão sobre a importância das relações afetivas na sala de aula como elemento relevante no processo de ensino e aprendizagem, outro aspecto fundamental a ser discutido e que não se encontra desvinculado deste é a questão da (in)disciplina. Quando falamos em disciplina, qual o conceito que temos? Com que tipo de disciplina sonhamos? Estas são perguntas que devem ser refletidas e respondidas constantemente pelo professor, no exercício da docência, por isso a importância de trazê-las para o nosso diálogo. Para tanto, recorremos ao texto Os desafios da indisciplina na sala de aula e na escola, de Celso Vasconcellos (1997), por trazer questões interessantes e que devem ser consideradas diante da complexidade do tema. 22 UNIUBE A disciplina é um dos aspectos do processo de educação escolar, presente no espaço da sala de aula e que tem sido um dos grandes problemas vivenciados pelos educadores no cotidiano escolar (VASCONCELLOS ,1997). Para o autor, pensar sobre esse aspecto é algo bastante polêmico por tratarse de um assunto complexo, configurado por um conjunto de determinantes, com manifestações diversas. Um tema que representa um desafio que deve ser enfrentado de forma conjunta pela comunidade escolar, uma vez que entendemos que não há “receitas” e nem “mágicas” e muito menos alternativas que desconsideram a realidade concreta. Ao tentar mapear a realidade e levantar os motivos pelos quais a indisciplina tem sido cada vez mais presente no ambiente escolar, muitos são os aspectos elencados e apontados pelos professores em suas queixas, Segundo Vasconcellos (1997, p. 228), tais queixas se devem a fatores como: • desinteresse e dispersão dos alunos nas aulas; • descompromisso dos pais quanto à educação dos filhos que acontece no lar e na escola; • o contexto social, cultural e econômico dos alunos; • as novas tecnologias da informação em descompasso com as tecnologias utilizadas pelos professores no desenvolvimento das aulas; • as mídias como meio de divulgação da violência que chega, cada vez mais cedo, aos lares e à vida das crianças; • a falta de respeito dos alunos com os professores, e dos professores com os alunos; • a falta de formação docente inicial e continuada de qualidade, a falta de material, a falta de recursos pedagógicos e até mesmo de estrutura física adequada ao professor para o exercício de sua profissão. Você com certeza já se deparou respondendo sobre as causas da indisciplina com uma ou mais das ideias apresentadas anteriormente. UNIUBE 23 Apesar de serem muitos os motivos e de estarem em consonância com os nossos sentimentos quando estamos na posição de professores, estes não devem e não podem ser vistos de modo isolado, fragmentado e simplista. Não podemos pensar em achar um único culpado para a causa e as formas de manifestação da indisciplina. Diante disso, com tantas interferências, é importante refletirmos no sentido de entender o que podemos fazer para mudar esse quadro que afeta de modo considerável e nocivo a formação das crianças e jovens e o exercício da docência. Nessa busca, é necessário pensar sobre alguns aspectos de um universo maior que se manifesta no ambiente escolar. Segundo Vasconcellos (1997), a verdade é que necessitamos compreender que o mundo mudou, as crianças mudaram, a família mudou, as expectativas quanto à educação escolar mudaram e a própria profissionalização do professor e a função social da escola estão em processo de reconfiguração. Os alunos, na atualidade, estão inseridos numa sociedade imediatista, vivendo uma situação de satisfação de desejos imediatos, numa ausência de limites claros, além do que, perderam a perspectiva e o sentido de estudar, ou seja, não conseguem definir e dimensionar a importância dos estudos na vida das pessoas, nem apreender esse sentido para a sua própria vida a longo prazo. Dessa ausência de limites, de significados e sentidos expressos pelos alunos, ainda temos professores que, na maioria das vezes, desacreditam na sua capacidade de se constituírem em agentes de transformação. Geralmente são acometidos por atitudes que revelam uma autoestima baixa, não acreditam na capacidade que têm em contribuir para a formação do seu aluno e nem mesmo no aluno enquanto sujeito que é capaz de mudar sua realidade. Muitos não se sentem responsáveis por mudar o quadro que se apresenta. Além disso, diuturnamente, no exercício profissional não encontram as condições estruturais mínimas para enfrentarem as situações de indisciplina escolar e suas formas de manifestação. Com isso, queremos dizer que os educadores são ao mesmo tempo vítimas e algozes desse processo, desencadeando um ciclo vicioso, difícil de romper. 24 UNIUBE Se os apontamentos feitos constituem uma das faces da questão, a outra face que nos resta é pensar e apontar algumas ações como possibilidade de enfrentar e de mudar o que está posto. Sem esgotar o assunto, Vasconcellos (1997) nos fornece algumas pistas importantes e que pensamos que serão de grande valia para reflexão dos professores quanto à (in)disciplina e ao saberfazer profissional, numa perspectiva ética e comprometida, sendo elas: • articular um sentido para o conhecimento que a escola veicula, a função que esta instituição social deve cumprir na atualidade e a razão de estudar. Isso é algo que deve estar expresso no projeto pedagógico da escola e que se articula com a visão de mundo, de sociedade e de homem que se tem e que se quer formar; • não esperar por soluções mágicas, buscando “receitas” em algo que outro realizou e que deu certo, pois tais atitudes negam o caráter processual da mudança, colocando a solução fora do sujeito e de sua realidade imediata. • envolvera escola como um todo nesse processo de mudança, de discussão e estabelecimento de regras e limites às posturas dos diferentes atores escolares, evidenciando papéis e responsabilidades de cada um; • recuperar o papel social e profissional do professor como sujeito de transformação de uma realidade concreta. Para tanto, deve refletir, buscar e comprometer-se com os dilemas e problemas vividos por ele no que se refere à indisciplina. Compreender que possui limitações, mas também ficar numa posição de vítima, pouco ou nada contribui para o enfrentamento das situações de indisciplina. Por último, gostaríamos de reafirmar que essas questões devem ser amplamente discutidas e pensadas, entre os envolvidos, de forma que os educadores possam planejar ações possíveis de serem realizadas e acompanhadas de modo processual e constante, contribuindo assim para transformação dos comportamentos no interior da escola. Com isso, não pretendemos colocar nas mãos do professor a responsabilidade de solucionar o problema da indisciplina, mas lembrá-lo da parcela de responsabilidade que tem em comprometer-se com a tarefa de enfrentamento dela. Afinal, compartilhamos da ideia de Vasconcellos UNIUBE 25 (1997, p. 239) quando afirma que “o professor lida sim com a esperança, com a utopia; isto faz parte da essência do seu próprio trabalho”. Vasconcellos, em seu texto intitulado Os desafios da indisciplina em sala de aula e na escola, discute sobre a indisciplina como um dos aspectos do processo da educação escolar e o desafio a ser enfrentado pelos professores no contexto da sala de aula e da escola. Aborda a temática como algo complexo e imbricado com as relações sociais, culturais e econômicas de um tempo e realidade. Com essa compreensão, nos instiga a pensar a indisciplina para além das visões reducionistas, ao mesmo tempo que aponta caminhos e pontua o papel do professor e da escola no enfrentamento desse problema. 1.3.3 As relações de autoridade na sala de aula Até aqui tratamos de dois aspectos relevantes para a construção do espaço da convivência, das vivências e das relações pedagógicas, que foram as relações afetivas e a in(disciplina). Um outro aspecto tão importante e vinculado aos anteriores, que discutiremos a seguir, será o das relações de autoridade que são estabelecidas no contexto da sala de aula e da escola. Quando tentamos buscar a definição de autoridade, vemos que há empregos e derivações diferentes adotadas entre os autores. Na construção desse texto, nos reportamos a duas autoras: Morais (2005) e Novais (2004), que usam nomenclaturas distintas ao discutirem as relações de autoridade no contexto escolar. 26 UNIUBE Morais (2005) utiliza os termos autoridade e autoritarismo para definir relações de autoridade distintas. Já Novais (2004), ao discutir as relações de autoridade, diz que ela pode ser exercida de duas formas: autoridade liberal e autoridade autoritária. Sendo assim, para uma melhor compreensão, usaremos em nossa discussão os termos autoridade e autoritarismo, sendo o primeiro termo empregado com o mesmo significado e sentido da definição e caracterização da autoridade liberal; e o segundo termo será empregado por possuir o mesmo significado e sentido da definição e caracterização da autoridade autoritária. Essa opção está embasada no entendimento de que, apesar de os autores usarem nomenclaturas diferentes, os dois conceitos que estão sendo discutidos possuem os mesmos significados e sentidos que buscamos expressar. IMPORTANTE! Se pedíssemos para que você conceituasse autoridade e autoritarismo, qual seria a definição que faria para os termos? Atribuiria o mesmo significado para ambos? Enquanto professor saberia nos dizer quando é que estamos sendo autoridade e quando é que estamos sendo autoritários nas relações pedagógicas estabelecidas com os alunos? Pois bem, possivelmente, ao tentar responder essas perguntas, muitas dúvidas surgiram e outros questionamentos vieram à sua mente. Se isso aconteceu, não se preocupe, afinal, estudiosos como Morais (2005) e Novais (2004) afirmam que os termos possuem diferentes conotações. Além disso, na educação escolar é comum serem confundidos e definidos como equivalentes a algo que é radicalmente distinto. Isto talvez aconteça pelo fato de existir uma linha tênue e sutil que muitas vezes separa os comportamentos autoritários dos de autoridade. Gostaríamos que pensasse um pouco sobre tais perguntas, buscando respondê-las antes de continuarmos nossa conversa. Daremos um tempinho a você... Já pensou? PARADA PARA REFLEXÃO UNIUBE 27 Daí decorre a relevância e a pertinência de discutirmos a atualidade do tema e de pensarmos sobre os significados e os sentidos das relações de autoridade que permeiam o processo de ensino-aprendizagem e de sua importância para o sucesso ou fracasso do mesmo. Sendo assim, iniciamos pela compreensão de que a autoridade é uma forma de poder estabelecido numa relação de assimetria e de hierarquia que é exercida por quem ensina – o professor – sobre quem aprende – o aluno (DE LA TAILLE, 1999, apud NOVAIS, 2004). Com isso, como dito anteriormente, queremos reafirmar que na sala de aula não devemos questionar a autoridade que o professor possui, uma vez que esta é legítima e indispensável na relação pedagógica e na condução do processo de ensino-aprendizagem. Assim, esse poder que o professor possui é legitimado e concedido socialmente pela função que este deve desempenhar na formação das novas gerações. Está alicerçado na crença de que o professor possui um saber, uma competência técnica, um conhecimento, uma experiência na condução da turma e na construção das individualidades. Nessa relação estabelecida o poder que se encontra na base pode ser um poder consentido e construído ou um poder imposto e coercitivo. Sendo assim, dependendo do modo como são estabelecidas as relações entre professor e aluno, elas serão um poder de autoridade ou um poder autoritário. Apesar de ser reconhecida socialmente e institucionalmente, a autoridade designada ao professor se define e se caracteriza no modo como este conduz o processo pedagógico como um todo. Dessa forma, o poder que é atribuído ao professor, se usado de forma excessiva e abusiva, torna-se um antivalor, ou seja, uma forma autoritária de conduzir as relações, estabelecidas por meio do uso de dispositivos punitivos e coercitivos que só reforçam a heteronomia dos alunos. Pois bem, se entendemos que nós, professores, somos sujeitos responsáveis pela transformação de uma realidade, com a responsabilidade de construir a sala de aula como espaço de vivência, de convivência humana, de relações pedagógicas desafiadoras que sejam capazes de transportar os alunos para além da sala de aula, devemos 28 UNIUBE perceber a importância e as funções que as relações de autoridade podem desempenhar no processo de ensino-aprendizagem, bem como na formação das crianças e jovens. As relações de autoridade, diferentemente das autoritárias, são fruto do vínculo estabelecido entre professor e aluno pautados nos princípios da democracia, do respeito mútuo, da confiança conquistada, da reciprocidade e da cooperação. Nessa perspectiva, o professor é visto como um líder que é aceito pelo seu grupo e não como alguém que ocupa uma posição hierárquica, imposta e legalmente constituída. Fazer opção pelas relações de autoridade significa compreender que estas nos dão a possibilidade de apoiar e amparar o aluno no processo de construção de uma moral autônoma. Torna-se um poder consentido e aceito que ensina o aluno a estabelecer objetivos, a normatizar a sua vida, a seguir e estabelecer regras para si mesmo, a usar da sua liberdade de forma que se torne adulto. Dessa forma, para ilustrar as nossas reflexões apresentamos a você a fala de Vasconcellos (1997, p. 248): Sem autoridade não se faz educação; o aluno precisa dela, seja para se orientar, seja para poder opor-se [...]no processo de constituição de sua personalidade. O que se critica é o autoritarismo, que é a negação da verdadeira autoridade, pois se baseia na coisificação, na domesticação do outro. É com essa compreensão que deixamos o pensamento do autor por retratar o nosso modo de pensar sobre as relações de autoridade no espaço da sala de aula. Novais (2004), em seu texto, discute as questões da autoridade com a disciplina ou falta de disciplina. Seu trabalho é fruto de pesquisa etnográfica realizada pela autora com professor e alunos do Ensino Médio. No texto, a autora apresenta os tipos de autoridade e as funções que ela pode desempenhar no processo de ensino-aprendizagem e na formação dos alunos, além de enfatizar a importância da construção de relações de autoridade por meio do consentimento, mais do que pela imposição de normas ou leis. UNIUBE 29 Antes de prosseguirmos com nossas discussões, apresentamos a seguir uma síntese dos assuntos até então tratados: Até aqui, nossas discussões giraram acerca da pedagogia como ciência que estuda as finalidades da educação, da didática como campo de estudos que reflete a prática pedagógica e os diversos elementos condicionantes, bem como das relações que são estabelecidas no ambiente da sala de aula como elemento que potencia ou limita as práticas educativas. Dessa forma, discutimos a sala de aula como espaço de vivências, de convivências e das relações pedagógicas, além de trazer para reflexão alguns aspectos que influenciam na construção desse ambiente e que comumente é naturalizado pelos educadores, sendo eles: as relações afetivas, a (in)disciplina e as relações de autoridade. Prosseguindo nos estudos, discutiremos a importância de compreender a multidimensionalidade do processo de ensino e aprendizagem, bem como refletir sobre algumas tarefas ou atividades didáticas enquanto elementos reguladores da ação docente e formadores de identidades e subjetividades dos alunos. SINTETIZANDO... 1.4 A multidimensionalidade do processo de ensino e aprendizagem O que é aprendizagem? Que aspectos ela engloba? Para responder essa pergunta, recorremos à definição de Masetto (1997, p. 14). Segundo o autor, aprendizagem é: [...] o desenvolvimento da pessoa como um todo: inteligência; afetividade; padrões de comportamento moral; relacionamento com a família, com o bairro, com a cidade e com o país; desenvolvimento da coordenação motora; capacidades artísticas; comunicação. 30 UNIUBE Pois bem, a partir das respostas dadas por você a essas perguntas, busque confrontar suas respostas com a discussão que realizaremos a seguir. Tais dimensões nem sempre foram pensadas e realizadas de forma integrada e articulada entre si no decorrer da história do pensamento pedagógico e no desenvolvimento da prática educativa, como dissemos nesse texto, no momento que discutimos sobre a didática como campo de estudos. Entretanto, são extremamente importantes no contexto da sala de aula e da escola, por contribuírem para potenciar ou limitar o desenvolvimento e o sucesso escolar do aluno. 1.4.1 Dimensão humana Ao tratarmos da dimensão humana entendemos que a ação educativa acontece entre pessoas. Essa dimensão diz respeito às relações Assim, se a aprendizagem é um processo mais amplo, que envolve aprendizagens e valores que se referem a outros âmbitos que ultrapassam a escola, podemos entender que a mesma é processo contínuo e que não se encerra na escola e nas aprendizagens escolares. Levando esse entendimento para o âmbito escolar e para as aprendizagens escolares, podemos compreender que a aprendizagem deve ocorrer em sincronia e na relação com o que se vivencia socialmente, bem como na relação com o que terá valor para essa sociedade num tempo histórico, social e cultural específico. Portanto, deve ser pensada, refletida, planejada e consciente. Para tanto, segundo Masetto (1997), quando falamos no processo de ensino e aprendizagem que se realiza na escola, três dimensões estão presentes: a dimensão humana, a dimensão sociopolítica e a dimensão técnica. Você tem ideia do que seja cada uma dessas dimensões? Imagina qual seja a importância de pensarmos sobre elas? Será que são dimensões que devem ser pensadas isoladas ou integradas entre si, por quê? PARADA PARA REFLEXÃO UNIUBE 31 interpessoais estabelecidas entre professor-aluno, aluno-aluno, professor- direção, aluno-direção como aspecto que estabelece um clima afetivo, que favorece ou limita o processo de ensino e aprendizagem. Ou seja, dependendo de como as relações forem estabelecidas entre os sujeitos, estas favorecerão ou não para o sucesso do ensino e aprendizagem que se realiza. 1.4.2 Dimensão sociopolítica Outra dimensão tão importante quanto a anterior é a sociopolítica que se refere às questões sociais, econômicas, políticas e culturais mais amplas que influenciam no processo de ensinoaprendizagem, bem como a realidade social mais próxima na qual a escola se insere. Com isso queremos dizer que o ensino que se realiza acontece numa escola que está inserida num contexto sociohistórico específico, envolvendo pessoas reais com seus valores, crenças, culturas e expectativas distintas, conflitivas, nem sempre semelhantes. Essa dimensão está presente nas mais distintas ações, escolhas realizadas ou imposições presentes no contexto educativo. Encontramse materializadas nas crenças e valores das pessoas, mas também nos conteúdos dos livros didáticos, nos materiais pedagógicos, nas políticas públicas vigentes com suas normas e direcionamentos. A educação na escola não se realiza sem a influência de tais questões. 1.4.3 Dimensão técnica E por último, a dimensão técnica que se integra com as demais. Esta aponta para o fato de que o ensino que se desenvolve na escola é intencional e tem finalidades a cumprir. Sendo assim, definimos objetivos, selecionamos conteúdos, técnicas e recursos pedagógicos, estabelecemos processos de avaliação como fim último de concretizar o processo de aprendizagem e a formação do aluno e, portanto, não serão aspectos indiferentes à formação das novas gerações. Posto isto, segundo Candau (2003) a didática assume o processo de ensino-aprendizagem como algo de caráter multidimensional em que as três dimensões apresentadas neste capítulo articulam-se entre si, buscando realizar a análise da prática pedagógica concreta e de seus 32 UNIUBE determinantes, preocupada com a transformação social e a realização de um ensino de qualidade. É com essa concepção última, apresentada por Candau (2003), que abordaremos, a seguir, as atividades acadêmicas como meio para a concretização das finalidades educativas e as técnicas de ensino e os recursos pedagógicos como instrumentos mediadores do processo de ensino-aprendizagem. 1.4.3.1 As atividades ou tarefas didáticas Gimeno Sacristán (2000, p. 209), catedrático de didática, na Universidade de Valencia, na Espanha, afirma que “se é certo que não há dois professores iguais, nem duas situações pedagógicas ou duas aulas idênticas, também é verdade que não há nada mais parecido entre si”. Escolhemos essa ideia para iniciar nossas discussões por acreditar que ela nos instiga a refletir sobre os aspectos que impregnam o fazer pedagógico trazendo identidade ao educador e ao fazer docente, ao mesmo tempo que estabelece distinção entre os educadores e as suas práticas. Ao longo da sua trajetória como aluno, fez parte de sua rotina escolar diversas atividades e tarefas com o objetivo de propiciar-lhe a aquisição de conhecimentos, de atitudes, de hábitos e de valores. Assim, assistir aulas, realizar atividades, responder questões, produzir textos, participar de trabalhos em grupo, fazer tarefas de casa, pesquisar, entre tantas outras atividades e tarefas, são ações tão corriqueiras que, às vezes, fica até difícil de pensar o processo de ensinar e aprender sem elas e/ou de concebê-las numa perspectiva mais crítica. Por exemplo, se pedirmos avocê que retome em suas memórias essas atividades, verá que guardam alguma similaridade apesar de terem sido distintas entre si, e o mesmo acontece se pedirmos que relembre os professores que as propuseram. Verá que há uma semelhança entre o fazer EXPLICANDO MELHOR UNIUBE 33 Para discutir acerca das atividades ou tarefas didáticas retomaremos os estudos realizados em outros capítulos, como fundamento importante para a compreensão e articulação da discussão que estamos realizando. Você já estudou que o currículo é uma construção cultural, relacionado com experiências escolares que giram em torno do conhecimento. Vincula-se a uma série de atividades desenvolvidas que buscam cumprir uma intenção educativa, contribuindo para a formação de identidades e subjetividades. Pôde compreender também que é na prática pedagógica, no desenvolvimento do ensino, que toda intenção educativa, todo projeto educacional, ganha corpo e toma forma, torna-se realidade, concretiza- se, adquire significado e ganha valor. Com esse entendimento, é possível compreendermos que, em última instância, é na sala de aula, por meio das atividades realizadas, que o currículo se concretiza, ou seja, se efetiva. Segundo Gimeno Sacristán (2000, p. 225), as atividades ou tarefas didáticas vão “[...] mais além de ser um recurso para mediar as aprendizagens cognitivas nos alunos”. Elas são, por si só, um ambiente, fonte de múltiplos e diversos aprendizados – intelectuais, afetivos e sociais –, são um “[...] recurso organizador da conduta dos alunos nos ambientes escolares” por guiar as percepções deles quanto ao que seja ensino, regulando seus comportamentos nas aulas e, para além delas, por meio das tarefas que realizam, configurando o “currículo oculto”. Para o professor, as tarefas didáticas ou atividades trazem regularidade para o fazer docente e segurança em sua ação educativa, ao mesmo tempo que requerem dele mobilidade para lidar com o inesperado que é próprio das relações humanas e, por consequência, da relação pedagógica. Por essa complexidade, pensamos que nenhum professor pode atribuir às atividades ou tarefas didáticas um caráter neutro, pedagógico desses docentes mesmo sendo tão diferentes um do outro, não é mesmo? Por que será que isso acontece? É a resposta a esta questão que procuraremos encontrar ao longo de nossa conversa. 34 UNIUBE indiferente e asséptico nem abrir mão do planejamento e dos elementos que o compõe como instrumentos relevantes e norteadores da atividade docente. Se elas guiam as percepções dos alunos e a conduta do professor, as atividades de natureza acadêmica, organizadas pelo professor, [...] sugerem ao aluno como deve aprender, de que forma fazêlo, como executar um trabalho, com quem fazê-lo, que rendimento se considera mais valioso, porque é o valorizado como mais relevante e o que se espera dele [...] configura um ambiente de socialização no qual se dá significado pessoal à experiência escolar. (GIMENO SACRISTÁN, 2000, p. 225) Enfim, as tarefas didáticas ou atividades normatizam quais atitudes e padrões de comportamento geram melhor êxito, na relação com as finalidades educacionais estabelecidas nos contextos educativos. Dessa forma, com reiterações frequentes, condiciona-se e prepara-se o aluno para exercer esses comportamentos, condutas e valores aprendidos em outras experiências posteriores, educativas ou não. Por essas razões é que ao professor é requerido a competência sociopolítica, crítica e reflexiva que o torne capaz de realizar escolhas teoricamente fundamentadas das atividades ou tarefas didáticas, bem como dos recursos pedagógicos e das técnicas de ensino no compromisso de formar as novas gerações. Assim como o tempo e o espaço, o currículo e o conhecimento não são aspectos neutros da educação escolar, as atividades acadêmicas, os recursos pedagógicos e as técnicas de ensino também não o são. Embora possuam orientações de natureza prescritiva, precisam estar sempre articulados de maneira crítica às outras dimensões presentes ao processo de ensino, caso contrário estarão em contradição com as finalidades que pretendem realizar. Asséptico No Dicionário Aurélio (1989, p. 93), essa palavra é definida como livre de germens e contaminações. No nosso texto, usamo la com o sentido de não serem livres de “contaminações”, ou seja, de significados, valores e sentidos. UNIUBE 35 1.4.3.2 As técnicas de ensino Se as tarefas ou atividades didáticas são reguladoras da ação docente e formadora de identidades e subjetividades dos alunos, é preciso pensar que no seu desenvolvimento elas são permeadas por elementos técnicos, normativos e prescritivos. As técnicas, nesse sentido, possibilitam as relações intersubjetivas que se dão na relação entre os sujeitos, em função do conhecimento, com o objetivo de realizar a aprendizagem. Sendo assim, damos às técnicas de ensino o caráter de constituintes do processo educativo, mas que não são fins em si mesmas, algo pronto e acabado, conforme nos apresenta Araújo (2007, p. 22) acerca da temática: Por mais que se afirme a unidade e a autonomia da dimensão técnica do ensino, sua razão de ser e sua significação devem ser correlatas ao aluno, ao professor, ao conteúdo, ao ensino, à aprendizagem, à educação, à situação sociocultural dos alunos e aos fins. Com isto, entendemos que elas são meios para a operacionalização do fazer pedagógico e que por si só não dão conta do processo de ensino. O seu potencial reside na relação que estabelecemos com as outras dimensões do processo de ensino-aprendizagem. Pois, dependendo do modo como elas são utilizadas, podem estar a serviço de diferentes concepções que formam visões distintas de homem, de mundo, de sociedade, de escola e de educação. Dessa forma, não podemos ter aversão às técnicas de ensino, mas saber, em primeira instância por que usamos e selecionamos estas e não outras em determinado momento da atividade educativa, deixando assim de serem entendidas como “receitas” que servem para todos os alunos, os contextos, as finalidades, os problemas pedagógicos e as ações educativas. Pois bem, se as técnicas de ensino e os recursos pedagógicos se fazem presentes na rotina de sala de aula, devemos compreender que seu valor está no tipo de contribuição que oferecem para a realização das atividades educativas na concretização da proposta pedagógica mais ampla. 36 UNIUBE É com esse olhar que abordaremos a seguir algumas técnicas de ensino frequentemente utilizadas pelos professores no desenvolvimento das atividades acadêmicas formais com o propósito de consolidar os objetivos educativos. Na obra Técnicas de ensino: por que não?, organizada por Veiga (2007), autores como Vera Candau, Ilma Passos Veiga, Regina Célia Feltran, José Carlos S. Araújo, Antonia Osina Lopes, entre outros estudiosos, concebem as técnicas de ensino como artifícios que se interpõem entre o professor e o aluno, subordinado à autoridade do professor e à intencionalidade do ensino. Enquanto Haydit (2001), no livro Curso de didática geral, entende as técnicas de ensino como procedimentos de ensino, dividindo-os em: individualizantes, socializantes e socioindividualizantes. IMPORTANTE! Com certeza, em algum momento de sua vida escolar você já vivenciou alguma ou muitas dessas técnicas de ensino que, neste momento, tornamse objeto de estudo e reflexão. Sendo assim, sem esgotar a discussão acerca das técnicas de ensino, buscaremos (re)significar o seu entendimento a respeito da aula expositiva, do estudo dirigido, dos trabalhos em grupo, do uso de jogos. Por último, mesmo não podendo ser classificada como técnica de ensino, discutiremos sobre a tarefa escolar numa perspectiva crítica e ampliada, por entendermos que é uma atividade que faz parte do cotidiano educacional e familiar e que tem sido pouco discutida por aqueles que pensam e fazem educação. Repensando a aula expositiva1.5 Iniciamos pela aulaexpositiva por ser, segundo Lopes (2007) nos estudos da prática pedagógica, considerada como a mais empregada pelos professores e a preferida pelos alunos em todos os níveis de ensino. Na história da educação brasileira está presente desde os planos pedagógicos dos jesuítas até os mais recentes livros de didática. Com a crítica do ensino verbalista, centrado no professor, e com o surgimento dos métodos modernos de ensino, a aula expositiva passou a ser considerada técnica tradicional e ultrapassada, sendo os professores UNIUBE 37 adeptos dela considerados conservadores e contrários às inovações pedagógicas. Em diferentes tendências pedagógicas – escolanovista, tecnicista, libertadora e crítico-social dos conteúdos – ganha diferentes conotações, e nesta última há uma ênfase na relação entre educação e sociedade, implicando um método dialético na prática pedagógica na sala de aula. Sendo assim, a aula expositiva passa a ser considerada como meio para a reelaboração dos conhecimentos e de sua produção. Com isso não queremos dizer que as práticas de aulas expositivas, tidas como tradicionais, tenham deixado de existir no cenário educativo brasileiro. Atendonos à concepção crítica na qual a aula expositiva extrapola o estritamente instrumental, o professor pode utilizar-se dela de forma que essa aula assuma um caráter transformador por meio da troca de experiências entre professor e alunos, estabelecendo uma relação dialógica. Ou seja, ao invés da rejeição o que se propõe é a sua transformação como possibilidade de constituir-se em um instrumento eficiente e problematizador no trabalho docente. Dessa forma, ações que conduzam ao questionamento, à crítica, à análise, à valorização das experiências e dos conhecimentos prévios dos alunos, estimulam o seu pensamento crítico, fazendo com que saiam da posição de sujeitos passivos, bem como eliminam a relação pedagógica autoritária centrada no professor. 1.6 Revisitando uma sala de aula num momento de estudo dirigido Assim como a aula expositiva, o estudo dirigido também, ao longo da história das pedagogias, ganha diferentes conotações dependendo da teoria à qual vincula-se. Conforme afirma Veiga (2007), o termo tem sido utilizado de modo indevido para designar diferentes tipos de exercícios, e sua maioria requer apenas a habilidade de memorizar e reproduzir conteúdos. Nos livros de didática, não há um consenso entre os autores sobre a 38 UNIUBE abordagem a ser dada ao estudo dirigido. Esse consenso reside apenas no fato de que o estudo deregido é um roteiro elaborado pelo professor. Com base nos estudos de Veiga (2007), o estudo dirigido tem suas raízes teóricas na proposta escolanovista, com os métodos ativos de ensino, em que os princípios de individualização, liberdade e espontaneidade se sobressaem. Centrados no ensino e com base psicológica, os métodos e técnicas, nessa concepção, privilegiam a dimensão técnica do ensino, deixando de lado a dimensão sociopolítica do processo de aprendizagem, reduzindo o conteúdo escolar à forma de aquisição. Com influências da pedagogia tecnicista, de caráter pretensamente neutro e com princípios de racionalidade, eficiência e produtividade, o estudo dirigido é aplicado ao aluno como uma técnica de ensino que possibilite a aquisição de habilidades de estudar e de produzir modificações comportamentais. Ao professor, o seu valor e utilização reduz-se ao domínio de estratégias e táticas didáticas, transformando- se numa atividade burocrática e pragmática. Essa concepção sobre o estudo dirigido ainda prevalece no entendimento e na prática pedagógica de muitos professores. Numa perspectiva crítica, o estudo dirigido pode e deve ser uma atividade que requer o direcionamento do professor, elaborando um roteiro de estudos prévios que levem ao aluno o desenvolvimento do pensamento reflexivo em vez da memorização de informações. Para tanto, a orientação e o acompanhamento são ações constantes e que não podem ser perdidas de vista pelo docente. Do aluno espera-se o envolvimento e a ação, lendo, pesquisando, explorando, analisando, comparando, aplicando, elaborando, avaliando, efetivando-se numa experiência socioindividualizante de aprendizagem, em sala de aula, ou fora dela, em que os alunos possam expor, debater, extrapolar os estudos, realizando-se, assim, a síntese dos conhecimentos e descobertas. Ao classificar o estudo dirigido enquanto técnica ou procedimento de ensino, Veiga (2007) e Haydit (2001) têm posições distintas. A primeira autora o COMPARANDO UNIUBE 39 classifica como socioindividualizante por entender que ele tornase mais rico e significativo quando abarca momentos individuais e de socialização. Já a segunda autora, classifica o estudo dirigido como procedimento de ensino aprendizagem individualizante, apesar de prever momentos de socialização. Mesmo com posicionamentos distintos entre os estudiosos da área, o mais importante de levarmos em consideração é que o estudo dirigido pode constituir-se um meio importante e prazeroso, pelo aluno, no processo de construção de conhecimentos e o professor deve fazer uso de diferentes instrumentos no desenvolvimento de sua prática pedagógica. E os nossos antigos trabalhos em grupo?1.7 Quanto aos estudos em grupo, são considerados uma das técnicas de ensino socializantes, por possibilitarem a interação entre dois ou mais indivíduos. Teve sua origem, segundo Veiga (2007), a partir de estudos realizados por psicólogos sociais ao desenvolverem as Dinâmicas de Grupo. O trabalho com as dinâmicas de grupos, inspirado na psicologia de Gestalt, visava analisar a especificidade dos grupos, as relações entre os seus membros e as possíveis modificações que se processavam no seu interior com base em influências internas e externas. A Gestalt tem sua orientação no ponto de vista fenomenológico descrevendo a experiência imediata. Acredita na participação do sujeito e do objeto na percepção. Esta percepção, por sua vez, resulta da interação sujeito-objeto e do relacionamento dos elementos do objeto ou situação percebida. SAIBA MAIS Com isso os trabalhos em grupo trazem às salas de aula a possibilidade de agrupamento dos alunos, ao contrário das aulas expositivas tão 40 UNIUBE criticadas. Representam um modelo de ensino que possibilita a participação do aluno no processo de ensino-aprendizagem. Por meio de atividades como: pequenos grupos com uma só tarefa; pequenos grupos com tarefas diversas; painel integrado, grupo de observação e grupo de verbalização; diálogos sucessivos e grupos de oposição, os alunos desenvolvem a interaprendizagem, buscando solução para o problema em equipe. Com isso ampliase sua flexibilidade mental diante do reconhecimento do ponto de vista dos colegas e aumenta sua confiança na avaliação do professor Devemos assim considerar que a sala de aula tem como elemento fundamental as relações interpessoais e, sendo assim, esse tipo de atividade contribui grandemente quando possibilita ao indivíduo a organização e a expressão de suas ideias a partir da análise do grupo. No desenvolvimento do trabalho em grupo o mais importante é que o aluno fale, ouça, analise, sintetize e exponha suas ideias, além de ter a oportunidade de discutir, justificar, argumentar, apontar solução e avaliar. Como se pode perceber, tratase de colocar em exercício importantes funções que favorecem o desenvolvimento de suas estruturas mentais. Para Haydit (2001) o trabalho em grupo, além de contribuir para o desenvolvimento dos esquemas cognitivos, também favorece a formação de hábitos e atitudes de convívio social dos alunos, e por isso mesmo é tão empregado em nossa prática pedagógica. Mais um nó: a tarefa escolar1.8 Outra atividade que tem estado presente no processo educativo formal, na prática docente, na vida das crianças e de seus familiares é a tarefa escolar. Apesar de ser uma prática cultural que integra família e escola, dividindo o trabalhoeducacional entre elas, tem sido pouco discutida, refletida e problematizada, tanto por parte da literatura especializada, quanto por parte dos professores, da equipe pedagógica presente nas escolas e até mesmo pelos pais que assumem essa atividade no cotidiano familiar. Mesmo não sendo considerada técnica de ensino, entendemos que deveríamos problematizá-la neste estudo porque tem UNIUBE 41 sido alvo de críticas e polêmicas presentes na prática social mais ampla e naturalizada por aqueles que deveriam ocupar-se dela como objeto de estudo e de reflexão. Historicamente a tarefa escolar surge para contemplar os alunos da classe média, que valorizavam a escolarização como forma de ascensão social, vinculando-se, assim, como estratégia que possibilitava o sucesso escolar. Segundo Carvalho (2004), no decorrer de sua história sua importância encontra-se presente no discurso das políticas educacionais sob diferentes concepções. Segundo Nogueira (2002) e Carvalho (2004), o uso e o emprego da tarefa escolar tem se justificado com base em alguns objetivos: • fixar a aprendizagem na sala de aula; • desenvolver no aluno o senso de responsabilidade e de autonomia; • constituir-se como ocupação adequada para os alunos em seus lares; • ser política de parceria família-escola, mesmo que em muitos casos não seja explícita. Embora esses objetivos encontrem respaldo na fala dos diversos atores envolvidos com essa prática, não há um consenso entre eles a respeito da qualidade e quantidade das tarefas a serem realizadas, das definições claras do papel e das responsabilidades a serem desempenhadas por pais, professores e alunos; da disponibilidade dos pais e do contexto sociofamiliar aos quais as crianças e os jovens, de diferentes classes sociais e culturas, encontramse sujeitos; da sua real efetividade enquanto estratégia de ensino e construtora de autonomia, bem como a forma em que deve ser corrigida e validada pelos professores no contexto da sala de aula. Essas questões geram por um lado culpabilizações recíprocas, conflitos diários, indisponibilidades e rejeições, e por outro, reconhecimento, aceitação e aprovação das pessoas que compõem a tríade da tarefa escolar: pais-alunos-escola. A partir desse panorama, nas escolas brasileiras atuais, em especial as particulares, há uma tendência na formalização da tarefa escolar enquanto política educacional a ser assumida pelas famílias e que vem 42 UNIUBE se estendendo para a escola pública sob a justificativa da eficiência do ensino, do desenvolvimento da responsabilidade e autonomia dos alunos. A implantação desse tipo de política, está distante de uma visão crítica da realidade brasileira, que é marcada por profundas desigualdades sociais, econômicas e culturais, em que a maioria das crianças e famílias não tem as condições mínimas exigidas para a realização de tarefas escolares, por exemplo: estrutura física e material, conhecimentos pedagógico e de conteúdos dos pais, disponibilidade de tempo, gosto pelo ato de acompanhar e explicar, entre outros aspectos. Sem a percepção ampliada e crítica da realidade, a tarefa escolar pode constituir-se em atividade de reforço das desigualdades sociais, de exclusão e classificação dos alunos, de estigmatização da família como negligente, omissa e desinteressada. Como estratégia de ensino precisa ser bem pensada, planejada, acompanhada e desenvolvida pelos professores para que, de fato, contribua para o sucesso escolar do aluno sem transformarse numa atividade enfadonha e descontextualizada. Pois bem, após as discussões realizadas, acreditamos que, ao pensar, escolher e desenvolver uma atividade ou técnica de ensino o seu olhar não será mais o mesmo. Se elas são elementos que dão unidade ao fazer docente, são elas também que darão distinção e identidade para o seu fazer docente. É por isso que elas necessitam ser objeto de reflexão do professor, cuidadosamente selecionadas, planejadas, desenvolvidas, avaliadas de forma que consigam melhor realizar os fins educativos e na concretização do currículo em ação. Conclusão1.9 Iniciamos o capítulo perguntando a você sobre o seu pensamento a respeito dos múltiplos significados e sentidos que as relações estabelecidas no espaço da sala de aula podem ter na formação das novas gerações e a importância deles na construção e no desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem e na profissionalização docente. Após esta conversa, esperamos que você tenha ampliado seu olhar a respeito dos aspectos que influenciam, potenciam ou limitam a realização UNIUBE 43 da prática pedagógica e do exercício da docência. O espaço da sala de aula é muito mais do que um simples espaço de “transmissão de conhecimentos”, como muitos querem crer. Se nele temos como propósito e compromisso difundir e possibilitar a apropriação do conhecimento construído pela humanidade, este não se realiza desvinculado daquilo que é próprio do humano, das relações que ali se estabelecem. Com isto, a sala de aula como espaço de relações deve ser artisticamente edificada, cuidada, refletida e preservada continuamente pelos envolvidos no processo: professor e aluno. O primeiro como responsável pela construção e condução desse ambiente; o segundo como coparticipante, opinando, decidindo, escolhendo, discutindo e responsabilizando-se. Queremos reafirmar a necessidade que o professor tem de perceberse como sujeito político, agente de transformação. À medida que exerce o papel que lhe foi socialmente legitimado, este tem condições de pensar, refletir e levantar alternativas de ação sobre os conflitos e dilemas vividos por ele no desenvolvimento do processo de aprendizagem para além das visões reducionistas que, geralmente, buscam explicar o fracasso escolar, a indisciplina, o desinteresse do aluno como algo que é fruto somente do descaso e do descomprometimento da família com a educação escolar, da condição social, cultural e econômica do aluno e de problemas psicológicos e afetivos. Resumo Este capítulo trata das relações que são estabelecidas no ambiente da sala de aula como elemento que potencia ou limita as práticas educativas. Dessa forma, tem como propósito discutir a sala de aula como espaço de vivências, de convivências e das relações pedagógicas, além de trazer para reflexão alguns aspectos que influenciam na construção desse ambiente e que comumente é naturalizado pelos educadores, sendo eles: as relações afetivas, a (in)disciplina e as relações de autoridade. Tratamos, ainda, da multidimensionalidade do processo de ensino e aprendizagem. Para tanto, abordamos a pedagogia como ciência que estuda as finalidades da educação, bem como a didática como campo de estudos que reflete a prática pedagógica e os diversos elementos condicionantes, além de refletir sobre algumas tarefas ou atividades didáticas enquanto elementos reguladores da ação docente e formadores de identidades e subjetividades dos alunos. 44 UNIUBE Referências ANDRÉ, Marli Elisa. D. A.; OLIVEIRA, Maria Rita Neto S (Org.). Alternativas no ensino de didática. 5. ed. Campinas, SP: Papirus, 2003. ARAÚJO, José Carlos Souza. 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Glaura Morais Paroneto Introdução Planejamento de ensino e avaliação Capítulo 2 Comparando o homem primitivo com o das últimas décadas, vamos encontrar uma mudança intensa tanto a nível de conhecimento quanto a nível de relações humanas. Em face dessas necessidades, o homem atual tem procurado adaptar-se aos seus semelhantes por meio de mais participação e cooperação mútua. Para tanto, o homem precisa refl etir e planejar, para corresponder à vida em sociedade, buscando amenizar as tensões e os confl itos desse momento. O planejamento auxilia o homem a se organizar e disciplinar suas ações. Em nosso cotidiano estamos sempre planejando. Mas nem sempre esse planejamento é formalizado. No entanto, quando realizamos uma atividade incomum no nosso dia a dia, aí sim procuramos sistematizá-la em busca do alcance daquele desejo. Se propomos a fazer uma viagem, inicialmente escolhemos o local; determinamos os recursos fi nanceiros que podemos contar para os gastos, o itinerário, a forma de transporte; em segundo lugar, decidimos o que fazer, e como fazer para realizarmos a viagem. Em seguida, realizamos a ação predeterminada, ou seja, a viagem. Após a viagem, verifi camos se os seus resultados foram o que intencionamos. Realizamos esse procedimento diariamente em nossas vidas. Mas quando formalizamos a ação com uma prévia, podemos alcançar 48 UNIUBE com melhor êxito e satisfação o que propusemos. Nesse caso, o planejamento se impõe como medida básica da ação proposta. Nesse sentido, Parra (1972, p. 6) já definia o planejamento como sendo “uma tomada de decisões dentre possíveis alternativas, visando atingir os resultados previstos de forma mais eficiente e econômica”. A partir disso, vamos conversar um pouquinho mais sobre o planejamento de ensino e a avaliação, por meio deste texto. Objetivos Esquema No final deste capítulo, esperamos que você seja capaz de: • identificar os diversos níveis de planejamento e suas relações na es cola; • reconhecer a necessidade da construção de uma prática docente inovadora e crítica para a efetivação satisfatória da aprendizagem; • identificar a importância da construção e execução do planejamento integrado na escola, com vistas a uma educação humanista; • elaborar o plano didático a partir da reflexão sobre a necessidade de uma prática pedagógica coerente; • estabelecer a diferença entre as etapas do planejamento de ensino; as características para a elaboração de um bom plano didático, assim como do processo de avaliação, no contexto de ensinoaprendizagem; • elaborar corretamente os planos de ensino. 2.1 O planejamento de ensino no cotidiano da prática docente 2.2 A importância do planejamento na escola 2.3 Seleção e organização dos conteúdos UNIUBE 49 2.4 Seleção e organização de procedimentos de ensino 2.5 Seleção dos procedimentos de avaliação 2.5.1 Finalidades da avaliação 2.5.2 Mudar a avaliação é difícil? 2.6 Construção do plano, da prática docente e do saber discente 2.7 Planejamento didático ou de ensino 2.7.1 Tipos de planejamentos 2.8 Etapas do planejamento de ensino 2.9 Os componentes básicos do plano de ensino 2.10 Plano de aula 2.10.1 Esboço de um plano de aula na concepção de Celso Vasconcellos (2000) Resumo O planejamento de ensino no cotidiano da prática docente2.1 No âmbito da educação, os procedimentos de planejar ocorrem em vários níveis. Neste momento, iremos analisar as diferenças básicas entre o que seja planejamento educa cional e planejamento do ensino. Para o Professor Dr. Gilberto Teixeira (FEA/USP), o planejamento educacional processa -se de forma contínua, a preocupação do “para onde ir” e “quais as maneiras adequadas para se chegar lá”, levando em conta as possibilidades para que o desenvolvimento da educação atenda às necessidades da sociedade, e ao mesmo tempo às do indivíduo. Preocupase com a abordagem racional e científica dos problemas da educação, de finindo prioridades e levando em conta a relação entre os diversos níveis do contexto educacional. Em outras palavras: a) O planejamento educacional consiste na tomada de decisões sobre a educação geral do país. É o mais abrangente e geral de todos os planejamentos. Ele prevê a estruturação, na totalidade, do sistema educacional nacional. A elaboração desse tipo de planejamento requer a proposição de objetivos em longo prazo que definam uma política 50 UNIUBE da educação. Essa política é determinada pelo Governo Federal, através do Plano Nacional de Educação e da legislação vigente. Nele, determinam-se as diretrizes e a política pública de educação do país. Dentre os seus diversos objetivos destacamos os mais importantes como: “relacionar o desenvolvimento do sistema educacional com o desenvolvimento econômico, social, político e cultural do País, em geral, e de cada comunidade, em particular; alcançar maior coerência interna na determinação dos objetivos e nos meios mais adequados para atingi-los” (COARACY, 1972). b) O planejamento curricular, ou projeto pedagógicoda escola, é intimamente rela cionado ao planejamento educacional. Sua função traduz as linhas mestras das ações propostas pela escola. É uma tarefa docente que inclui tanto a previsão das atividades didáticas em termos da sua organização e coordenação em face dos objetivos pro postos, quanto a sua revisão e adequação no decorrer do processo de ensino. Nesse planejamento, a escola não deve simplesmente executar o que é prescrito pelos órgãos oficiais. Cabe à escola interpretar e operacionalizar esses currículos, embora eles sejam mais ou menos determinados em linhas gerais. A escola deve procurar adaptá-los às situações concretas, selecionando aquelas experiências que mais poderão contribuir para alcançar os objetivos dos alunos, das suas famílias e da comunidade. O planejamento é um meio para se programarem as ações docentes, mas é também um momento de pesquisa e reflexão intimamente ligado à avaliação. Ele constitui as normas que definem as ações concretas da escola e permeia a relação com a comu nidade, ou seja, prevê todas as atividades que o educando realiza sob a orientação da escola para o alcance dos fins da educação. Os objetivos do planejamento curricular se apresentam como: ajudar os membros da comunidade escolar a definir os seus objetivos; obter maior efetividade no ensino; coordenar esforços para aperfeiçoar o processo de ensino e aprendizagem; outros. O planejamento curricular tem uma ta refa multidisciplinar na organização de um sistema de relações lógicas e psicológicas dentro dos vários campos do conhecimento, facilitando ao máximo o processo de aprender do aluno. c) O planejamento de ensino apresenta-se como o nível mais elementar de planeja mento, e o mais próximo do aluno, em se tratando da ação UNIUBE 51 educativa. Parte dos pontos referenciais do planejamento curricular, ou projeto pedagógico escolar, respeitando-o em suas dimensões: filosófica; psicológica; sociocultural, tendo em vista o processo de ensino e aprendizagem. Para o Prof. Gilberto Teixeira (FEA/USP), é uma “previsão inteligente e bem calculada de todas as etapas do trabalho escolar que envolvem as atividades docentes e discentes, de modo a tornar o ensino seguro, econômico e eficiente”. Para a sua efetivação um planejamento de ensino deverá prever: objetivos específicos estabelecidos a partir dos objetivos educacionais; racionalização das ativi dades educativas assegurando um ensino efetivo; conhecimentos a serem aprendidos pelos alunos no sentido determinado pelos objetivos; verificação do desenvolvimento do processo educativo; procedimentos e recursos de ensino que estimulem, orientem e promovam as atividades de aprendizagem; procedimentos de avaliação que possi bilitem a verificação, a qualificação e a apreciação qualitativa dos objetivos propostos, cumprindo pelo menos a função pedagógico-didática, de diagnóstico e de controle no processo educacional. Em uma escola democrática, se o projeto curricular é construído coletivamente, ele deve ser a base para todas as atividades de ensino e de aprendizagem planejadas pelos professores para serem desenvolvidas em sala de aula. Esse planejamento do processo de ensino e aprendizagem é o que chamamos de “planejamento de ensino”, o qual os professores devem construir, em grupo, ou individualmente, para orientar sua ação pedagógica na sala de aula. A importância do planejamento na escola2.2 O planejamento é um processo de racionalização, organização e coordenação da ação docente, articulando a atividade escolar e a problemática do contexto social. A escola, os professores e os alunos são integrantes dessas relações sociais, portanto, permeados por influências econômicas, políticas e culturais que caracterizam a sociedade de classes. Isso significa que os elementos do planejamento escolar – objetivos, conteú dos, métodos de ensino – têm suas implicações sociais e um significado político. Por essa razão, o planejamento é uma atividade de reflexão acerca das nossas opções e ações; se não pensarmos devidamente sobre o rumo que devemos dar ao nosso 52 UNIUBE trabalho, ficaremos entregues aos rumos estabelecidos pelos interesses dominantes na sociedade. Assim, o trabalho docente é uma atividade consciente e sistemática, em cujo centro está a aprendizagem ou o estudo dos alunos, fundamentada em opções político-pedagógicas. Nesse sentido, o planejamento escolar apresenta as seguintes funções: • explicitar princípios, diretrizes e procedimentos de trabalho docente que assegurem a articulação entre as tarefas da escola e as exigên- cias do contexto social e do pro cesso de participação democrática; • expressar os vínculos entre o posicionamento filosófico, políti- copedagógico e profissional, as ações efetivas que o professor irá realizar em sala de aula, através de objetivos, conteúdos, métodos e formas organizativas de ensino; • assegurar a racionalização, organização e coordenação do trabalho docente, de modo que a previsão das ações docentes possibilite ao professor a realização de um ensino de qualidade e evite a improvisação e rotina; • prever objetivos, conteúdos e métodos a partir da consideração das exigências propostas pela realidade social, do nível de preparo e das condições socioculturais e individuais dos alunos; • assegurar a unidade e a coerência do trabalho docente, uma vez que torna possível inter-relacionar, em um plano, os elementos que compõem o processo de ensino: os objetivos (para que ensinar), os conteúdos (o que ensinar), os alunos e suas possibi lidades (a quem ensinar), os métodos e técnicas (como ensinar) e a avaliação, que está intimamente relacionada aos demais; • atualizar o conteúdo do plano sempre que é revisto, aperfeiçoando-o em relação aos progressos feitos no campo de conhecimentos, adequando-os às condições de aprendizagem dos alunos, aos métodos, técnicas e recursos de ensino que vão sendo incorporados na experiência cotidiana; • facilitar a preparação das aulas: selecionar o material didático em tempo hábil, saber que tarefas o professor e alunos devem executar e replanejar o trabalho frente a novas situações que aparecem no decorrer das aulas. UNIUBE 53 Ao se elaborar o plano da escola, é necessário que se analisem os seguintes dados: a) tomada de decisões sobre as finalidades da educação escolar na sociedade e na escola; b) levantamento das diretrizes gerais da escola: estrutura curricular; critérios de seleção de objetivos e conteúdos; metodologias e sistema de avaliação; c) diretrizes quanto à organização e à administração: estrutura organizacional da escola; atividades coletivas do corpo docente; calendário e horário escolar; sistema de organização de classes, de trabalho com os pais; atividades extraclasse; sistema de formação continuada do pessoal docente e administrativo e normas gerais de funcionamento da vida coletiva; d) bases de dados teóricos e metodológicos da organização didática e administrativa: tipo de homem que queremos formar, tarefas da educação, o significado pedagógico do trabalho docente; e) Caracterização sociocultural, econômica e política dos alunos em relação à comunidade inserida. IMPORTANTE! Após conhecermos os níveis de planejamentos realizados na área educacional, sua importância e os dados necessários que antecedem a sua elaboração, vamos dar ên fase, neste momento de estudo, ao planejamento de ensino e suas implicações na escola e nas situações específicas entre o professor e a classe. É no ambiente de aprendizagem que ocorre a concretização do planejamento de ensino com um professor e sua turma de alunos, em que se desenvolvem as atividades de en sino e de aprendizagem. Por exemplo, se um professor e os seus alunos encontram se em um parque, distante da escola, desenvolvendo uma atividade de educação ambiental, então aquele parque torna -se uma sala de aula. Assim acontece com os laboratórios, museus, outros, desde que a atividade tenha um propósitoeducativo. 54 UNIUBE Apesar de no dia a dia, em geral, usarmos os termos planejamento e plano como si nônimos, existe uma relação bem íntima entre eles, mas não podemos considerar que eles sejam sinônimos. Podemos afirmar que o planejamento do ensino é o processo que envolve: [...] a atuação concreta dos educadores no cotidiano do seu trabalho pedagógico, envolvendo todas as suas ações e situações, o tempo todo, envolvendo a permanente interação entre os educadores e entre os próprios educandos. Já o plano de ensino é um momento de documentação do processo educacional escolar como um todo. Plano de ensino é, pois, um documento elaborado pelo(s) docente(s), contendo a(s) sua(s) proposta(s) de trabalho, em uma área e/ou disciplina específica (FUSARI, 1989, p. 10). O plano de ensino como é considerado pelos estudiosos da área é um instrumento orienta dor do trabalho docente. Deve abranger mais do que apenas o que o professor registrou no seu plano, tendo em vista que a ação consciente, competente e crítica do educador é que transforma a realidade, a partir das reflexões e propostas apontadas por ele, no plano. Entenderemos melhor as nossas reflexões a partir de algumas questões: • Planejamento de ensino, por quê? • Para quê? • Para quem? Comecemos entendendo essa situação, com a seguinte pergunta: planejamento e plano de ensino são situações sinônimas no processo de aprendizagem? PARADA PARA REFLEXÃO UNIUBE 55 Questionamentos como esses são constantes no nosso dia a dia de professor, uma vez que não se concebe uma educação de qualidade sem que antes tenhamos nos preparado, previsto expectativas e buscado alcançar resultados satisfatórios em nossa prática pedagógica. O ato de planejar antecipa mentalmente uma ação a ser realizada, possibilitando ao sujeito agir conforme o que foi previsto. IMPORTANTE! Paulo Freire (1997, p. 55), inclusive, diz que: “[...] educação é um processo de huma nização. Onde há vida, há inacabamento. Mas só entre homens e mulheres, o inacabamento se tornou consciente”. Nesse sentido, concluímos que o planejamento é um processo inacabado, criado pelo homem para o seu crescimento, no exercício da busca e da transformação permanentes. Já afirmamos em outra ocasião que planejamento é a percepção que o sujeito tem da necessidade de mudança. O planejamento é um processo, um ato político-pedagógico e, por conseguinte não tem neutralidade porque sua intencionalidade se revela nas ações de ensino. E esse processo implica duas etapas: Ato de planejar, que é o momento do pensar, ou seja, de refletir no coletivo da escola sobre todas as dificuldades que temos no momento, na realidade em que estamos inse ridos. Para isso, discutimos sobre os problemas, sobre as possibilidades de mudanças, e, em conjunto, buscamos encontrar as soluções para esses problemas. Planejar, então, é a previsão sobre o que irá acontecer, é um processo de reflexão sobre a prática docente, sobre seus objetivos, sobre o que está acontecendo, sobre o que aconteceu. E planejar requer uma atitude científica do fazer didático pedagógico. Elaboração do plano, isto é, o registro no papel das decisões que foram tomadas na discussão do grupo. A partir daí, o plano pode vir a ser até 56 UNIUBE mesmo individual, desde que respeitemos as decisões tomadas por todos, na comunidade escolar, quando se estabeleceram os objetivos gerais da escola. Acredito que vocês se lembram também da reflexão feita em outros estudos, sobre a importância do projeto político-pedagógico (PPP) da escola, não? Então, o que vai assegurar e dar embasamento ao seu plano, no momento em que você o faz individualmente, é justamente a linha de ação traçada no projeto político pedagógico da escola. Sua filosofia, sua cultura, os aspectos políticos e sociais que norteiam a política educacional contida no projeto curricular da escola. Essa linha de ação é que vai garantir que o seu plano alcance as metas que você planejou, porque elas estão vinculadas às de toda a coletividade da escola. A linha de ação mencionada no texto compreende a coerência e a integração filosóficopedagógicas que devem existir entre a proposta pedagógica geral da escola, com todas as atividades curriculares desenvolvidas nela. Em outras palavras, o plano de ensino do professor deve ter a mesma forma de pensamento e ação, previstas nos objetivos gerais do plano “maior”, o PPP, da escola. EXEMPLIFICANDO! Ao elaborarmos o nosso planejamento de ensino, devemos buscar respostas para as perguntas a seguir: Há algo em nossa prática que precisa ser modificado? A qual meio pertencem os alunos? Que tipo de aluno eu quero formar? O que devo ensinar? Para qual sociedade eu preciso formar o meu aluno? Gadotti (2002, p. 7), em um dos seus artigos, reafirma nossos conceitos e nos alerta para o compromisso da nossa prática docente, quando diz: UNIUBE 57 O professor precisa indagar -se constantemente sobre o sentido do que está fazendo. Se isso é fundamental para todo ser humano, como ser que busca sentido o tempo todo, para o professor é também um dever profissional. Faz parte de sua competência profissional conti nuar indagando, junto com seus colegas e alunos, sobre o sentido do que estão fazendo na escola. Ele está sempre em processo de construção de sentido. Vale lembrar que formamos gente para ser gente e que a educação é ao mesmo tempo ciência e arte. Nessa perspectiva, podemos afirmar que a arte corresponde à técnica da emoção e que a ação de planejar do novo profissional da educação hoje deve viabilizar, no educando, o despertar da capacidade tanto de engajar-se em seu meio quanto para promover mudanças em si mesmos. Por fim, nos reportamos a Freire (1997), quando registra que a mudança é tanto urgente quanto possível de ser realizada, mesmo con siderando as dificuldades encontradas. Para realizarmos a sistematização do planejamento de ensino, precisamos recorrer aos aspectos imprescindíveis que o constitui. São eles: os conteúdos, os objetivos, os procedimentos e a avaliação. Seleção e organização dos conteúdos 2.3 Ao se responder “que devo ensinar”, no planejamento, o professor estará tratando dos conteúdos como um dos meios para se alcançarem os objetivos propostos. Os conteúdos formam um conjunto de conhecimentos, ricos e variados, que facilitam o desenvolvimento das capacidades do aluno. Aprender para muitos autores não significa acumulação de conteúdos, mas sim mudanças de comportamento. Por isso é importante a seleção e a organização dos conteúdos, pelo professor, para que o processo de aprendizagem ocorra de maneira satisfatória. Vale lembrar que a seleção dos conteúdos está diretamente ligada aos objetivos, ou seja, o professor deverá cuidar de estabelecer uma relação do que vai ensinar àquilo que o aluno precisa aprender. E a organização do mesmo deve respeitar a graduação de dificuldades, atendendo assim, as individualidades e o tempo de aprender dos alunos. 58 UNIUBE Podemos afirmar então que conteúdos são o conjunto de temas ou assuntos estudados durante o curso. Esses assuntos são selecionados a partir da definição dos objetivos. Precisamos ficar atentos a alguns critérios na seleção dos conteúdos para favorecer a aprendizagem: assuntos atuais, assuntos relacionados à vida do aluno; assuntos que despertem interesse, integração de conhecimentos das várias áreas; conteúdos adequados à idade do aluno, desafiantes; e outros. Seleção e organização de procedimentos de ensino 2.4 Os estudiosos da área da educação consideram como procedimentos de ensino e apren dizagem as ações, a postura e os processos que os professores utilizam para colocar os alunos diante dos fatos que lhes permitam mudar o comportamento em função dos objetivos propostos no planejamento de ensino. Os procedimentos de ensino enfatizam as ações do professor de forma geral e es pecífica, ou seja, podem ser a metodologia que o professor usa pararealizar a sua aula, como podem ser as ações concretas expressadas por meio das atividades, das estratégias, das dinâmicas, dos recursos e materiais didáticos utilizados, e as relações desses materiais com os diversos fatos e experiências de aprendizagem dos alunos. Nesse sentido, o professor deve cuidar de planejar os procedimentos de ensino, de forma a estimular no aluno a leitura, a criatividade, a observação, a escrita, a ser provocado a investigação e busca de soluções de problemas, com vista a uma participação ativa na construção de seus conhecimentos e transformações de si próprio e do meio. As atividades, as dinâmicas, podem ser realizadas tanto individualmente quanto em grupo. Esses meios que o professor utiliza para facilitar a aprendizagem do aluno são identificados como “técnicas de ensino”. As técnicas de ensino, se usadas, e se bem selecionadas, criam nos alunos motivos para o alcance dos objetivos propostos no planejamento. Assim, é preciso haver uma relação entre os procedimentos, os objetivos e os conteúdos da natureza de aprendizagem para o aluno. UNIUBE 59 Vale lembrar também que os recursos que o professor usa no ambiente de aprendiza gem dão origem à estimulação para o aluno. O professor como facilitador do ensino e intermediário das relações entre professor e aluno, no processo de ensino-aprendizagem deve ter habilidade para a seleção desses recursos, para melhor ensinar; e da melhor forma para o aluno aprender. Os recursos, ou os chamados instrumentos de ensino, trazem contribuição no processo de ensino-aprendizagem, uma vez que: a) facilitam a compreensão do aluno; b) enfatizam o interesse e concentração; c) fornecem informações complementares; d) estimulam a expressão verbal e escrita; e) sintetizam conhecimentos; f) estabelecem relações entre imagens significativas de pessoas, objetos e lugares, com o conteúdo que está sendo desenvolvido; g) estimulam a imaginação e criatividade; h) proporcionam respostas adequadas para a aprendizagem. Os recursos didáticopedagógicos são classificados como: • humanos; • materiais. Destacam-se como recursos de natureza humanos: a) o professor; b) os alunos; c) o pessoal da escola; d) a comunidade; e) outros. Como recursos materiais ou didáticos podemos considerar: a) recursos audiovisuais (também considerados como técnicos, por necessitar de habilidade técnica para ser utilizado). São eles: quadro de giz, flanelógrafo, cartaz, painel, slide, álbum seriado, 60 UNIUBE rádio, CD, fita magnética, filmes, dramatizações, álbum seriado, cartãorelâmpago, ensino por fichas, estudo dirigido, gráficos, história em quadrinhos, ilustrações, jogos, jornal, livro didático, mapas, globos, modelos, mural, peça teatral, quadro de pregas, sucata, textos, terrário, aquário, maquetes, equipa mentos esportivos, vídeo, DVD, transparências para retroprojetor; b) recursos tecnológicos (os que exigem tecnologia avançada): - projetor de slide, TV educatica, data show, computador, laboratórios, Internet, sites, correio eletrônico, softwares e outros; c) recursos naturais: água, pedra, folha, animais e outros; d) recursos da comunidade/parcerias: palestras, entrevistas, bibliotecas públicas, ci nema, teatro, parcerias. É importante ressaltar que, assim como os recursos didáticos auxiliam o professor na ação docente, eles também podem atrapalhar o processo de aprendizagem, quando mal empregados e selecionados de forma inadequada. É preciso que o professor use o senso crítico, o conhecimento que tem da sua turma em relação a idade, perfil, com portamento, gosto, interesse, para assim julgar o que é mais propício a ser utilizado no momento. Seleção dos procedimentos de avaliação 2.5 O advento da Internet permitiu que o processo de ensino-aprendizagem não ficasse limi tado apenas à sala de aula no contexto da relação aluno-professor, mas ultrapassasse esses limites físicos dando oportunidade a que o discente construa o seu conhecimento em outros ambientes de aprendizagem. Considerando que os conteúdos, os procedimentos de ensino e os objetivos estão conectados um ao outro no planejamento de ensino, para o êxito da aprendizagem, a avaliação também deve ter uma íntima integração com os objetivos e conteúdos nor teadores da ação educativa. UNIUBE 61 Para processar e acompanhar o desenvolvimento do nsino-aprendizagem é preciso selecionar os diversos instrumentos de avaliação que possibilitem reunir os dados a tal propósito. Esses procedimentos, ou instrumentos de avaliação, envolvem tanto técnicas, quanto recursos. Hoje, consideramos a avaliação do ensino-aprendizagem também na modalidade a distância (EAD). E essa, por sua vez, apresenta algumas características que são resul tados do paradigma educacional proposto ao processo de ensino-aprendizagem. Os instrumentos de avaliação podem ser considerados para a função da avaliação da escola e da avaliação do aluno no seu desempenho no processo de ensino -aprendizagem. A figura abaixo ilustra exemplos da modalidade de avaliação da instituição escolar, no contexto educacional brasileiro. Vejamos: 62 UNIUBE Os instrumentos e recursos mais utilizados de avaliação podem ser: • provas orais; • provas escritas. As provas podem classificarse em: a) provas de dissertação; b) provas objetivas. As provas dissertativas são representadas pelo enunciado de um tema, ou de uma ou mais perguntas. Elas exigem do aluno uma resposta ampla, com liberdade de ex pressão, de forma que não haja uma única resposta correta para a questão, mas cujas ideias da resposta sejam relacionadas ao assunto perguntado. As provas objetivas, ou de natureza fechada, consistem em questões com critérios específicos, cuja resposta do aluno vem representada por um sinal convencionado, após escolher a resposta mais correta entre determinado número de alternativas. Pode ser em forma de teste ou não. 2.5.1 Finalidades da avaliação Visitando Vasconcellos (2000, apud FLEURI, p. 34), deparamos com o seguinte pro blema sobre a avaliação: [...] para que serve a nota na escola? Óbvio – responderão muitos – a nota serve para indicar o quanto o aluno aprendeu! Dessa forma, promoverá aqueles que estiverem preparados para exercer sua profissão e reterá os que não estiverem aptos. [...] Esta obviedade, porém, é considerada diariamente pela prática escolar em que os alunos aprovados demonstram, a seguir, que não aprenderam o que sua nota faz pressupor. Diante do problema então perguntamos: avaliar para quê? Para responder à questão que se coloca, é preciso inicialmente entender a distinção entre a “avaliação e a nota”. Para Vasconcellos (2000), UNIUBE 63 [...] avaliação é um processo abrangente da existência humana, que implica uma reflexão crítica sobre a prática, no sentido de captar seus avanços, suas resistências, suas dificuldades e possibilitar uma tomada de decisão sobre o que fazer para superar os obstáculos. [...] A nota, seja na forma de número, conceito ou menção, é um exigência formal do sistema educacional. [...] A prova é um instru mento apenas para se gerar a nota, que por sua vez é apenas uma das formas de se avaliar. Respondendo a pergunta “avaliar para quê?”, podemos afirmar que a avaliação está relacionada aos objetivos da educação escolar. “É por meio deles que se derivam os critérios de análise do aproveitamento” (VASCONCELLOS, 2000). Ao avaliarmos o aluno nos perguntamos: que tipo de homem queremos formar? Para que tipo de sociedade? O que avaliamos corresponde ao projeto pedagógico da insti tuição que representamos? Enfim, a avaliação está relacionada a uma concepção de homem, de sociedade, de educação. Para que esse procedimento do professor ocorra, ele precisa estar atento ao planeja mento, lembrando sempre dos objetivos propostos no mesmo. Nessa perspectiva, ao avaliarmos o nosso aluno, evitamos avaliar apenas para atribuir notas, e sim para cumprir alei, verificar e classificar o aluno para ser aprovado ou não, dar satisfação aos pais, incentivar a competição, entre outras. Sabedores de que a avaliação escolar é uma questão política e está relacionada ao poder, aos objetivos de ensino, às finalidades educacionais, aos jogos de interesses, na sociedade brasileira não podemos ser neutros: neutralidade diante de conflitos de uma sociedade de classe dominante é posicionar-se a favor do poder contra os opri midos. Por isso, frisamos a importância do planejamento em relação ao que o aluno precisa aprender, e que o projeto pedagógico da escola, quando não se torna apenas uma formalidade, pode nos auxiliar na tomada de decisões; além da reflexão crítica e coletiva sobre a prática educativa que todo professor precisa adotar. 64 UNIUBE Essa nova concepção de avaliar exigindo uma postura crítica do professor provocará o deslocamento do enfoque do ensino, apenas como transmissão de conteúdos, para o de se perguntar sempre: como o aluno aprende?, para a construção do seu conhe cimento. Nesse sentido, ao se apresentar as dificuldades na avaliação, a postura do professor é de perguntar sempre: por que o meu aluno não aprendeu? O que posso fazer para ajudá-lo? Como posso fazer? 2.5.2 Mudar a avaliação é difícil? Já entendemos que, para mudar a prática da avaliação na escola, é preciso primeiro que o professor mude sua postura. E, para tal, ele precisa também ter consciência dos problemas políticos a serem enfrentados no seu dia a dia do ambiente escolar: ele está a serviço da reprodução ou da transformação? Diante do problema posto, resta agora enfrentar os desafios de uma tomada de decisão contra um regime político determinante, para uma prática efetiva de avaliação a favor da aprendizagem do aluno. E a prática tem nos demonstrado o seguinte, segundo Goldemberg em sua obra O repensar da educação no Brasil (1993): [...] as centenas de experiências pedagógicas feitas pelos mais diferentes grupos (e com as mais diferentes metodologias) sempre conseguem melhorar substancialmente o rendimento escolar das crianças de baixa renda. O que caracteriza essas experiências é que são feitas por professores motivados, preparados e orien tados. Professores preparados, interessados podem adaptar os currículos. O texto “Os grandes contra os pequenos”, de Rubem Alves, remetenos à questão que estamos estudando. É importante relacioná-lo com a questão do sistema de avaliação escolar. Pense no que você pode fazer para mudar esse quadro das nossas escolas brasileiras! SAIBA MAIS UNIUBE 65 Rubem Alves, bacharel e mestre em Teologia, doutor em Filosofia (Ph.D.) pelo Seminário Teológico de Princeton (EUA) e psicanalista. Lecionou no Instituto Presbiteriano Gammon, na cidade de Lavras, Minas Gerais, no Seminário Presbiteriano de Campinas, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro e na Unicamp, onde recebeu o título de Professor Emérito. Tem um grande número de publicações, tais como crônicas, ensaios e contos, além de ser ele mesmo o tema de diversas teses, dissertações e monografias. Muitos de seus livros foram publicados em outros idiomas, como inglês, francês, italiano, espanhol, alemão e romeno. Transita pela área de educação, pela sua formação eclética. Sua mensagem é direta e, por vezes, romântica, explorando a essência do homem e a alma do ser. É algo como um contraponto à visão atual de homo globalizadus, que busca satisfazer desejos, muitas vezes além de suas reais necessidades. “Ensinar”, para ele, é como um ato de alegria, um ofício que deve ser exercido com paixão e arte. SAIBA MAIS Construção do plano, da prática docente e do saber discente 2.6 Acreditamos no papel do professor como o de viver e conviver com a consciência e a sensibilidade para os problemas da humanidade. Não podemos conceber a ideia de um futuro sem educadores com uma visão emancipadora. Educadores que saibam transformar a informação em conhecimento e os seus alunos em aprendentes e ensi nantes conscientes e críticos. Educador com visão emancipadora, na concepção de Paulo Freire, tem o sentido de educar com e para a liberdade, para a criticidade e autonomia; com capacidade para tomar decisões e transformar situações, quando necessário. IMPORTANTE! 66 UNIUBE Insistimos então em reafirmar que o planejamento é feito para o humano. E o humano precisa estar imbuído de desejo, de sonhos, de busca, de interrogações, de perspectiva de mudança. Tanto o professor como o aluno. Freire (1997) ainda afirma que só buscamos conhecer algo quando desejamos, quando queremos; com isso, nos envolvemos profundamente no que apreendemos. E, para ele, no aprendizado, gostar é mais importante do que criar hábitos de estudo meca nizado. Por isso, hoje, se dá mais importância às metodologias da aprendizagem, às diversidades de linguagens e às línguas, no processo de formação do sujeito, do que à transmissão de conteúdos. Planejamento didático ou de ensino 2.7 Procuraremos, ainda neste roteiro, auxiliálo(a) na elaboração de planos, para o cotidiano da sua docência. Para tanto, é necessário seguir todas as orientações de estudo, fazer todas as leituras recomendadas e também realizar as atividades propostas. Como o planejamento de ensino é a previsão das ações que o professor vai desenvolver com os alunos e a organização das experiências de aprendizagem discente, podemos dizer que ele é o detalhamento e a operacionalização do plano curricular da escola. Antes de falarmos no planejamento específico da ação didática do professor, vamos refletir um pouquinho com a contribuição que o texto Aprendendo a pensar, de Stephen Kanitz, nos traz: A maioria das aulas que tive foi expositiva. Um professor, normalmente mal pago e por isso mal-humorado, falava horas a fio, andando para lá e para cá. Parecia mais preocupado em lembrar a ordem exata de suas ideias do que em observar se estávamos entendendo o assunto ou não. [...] A prova final de uma escola brasileira perguntava recentemente se o país ao norte do Uzbequistão era o PESQUISANDO NA WEB UNIUBE 67 Cazaquistão ou o Tadjiquistão. Perguntava também o número de prótons do ferro. E ai de quem não soubesse todos os afluentes do Amazonas. Aprendi poucas coisas que uso até hoje. Teriam sido mais úteis aulas de culinária, nutrição e primeiros socorros do que latim, trigonometria e teoria dos conjuntos. Curiosamente não ensinamos nossos jovens a pensar. [...] Para ler o texto na íntegra, acesse <http://www.kanitz.com.br/veja/pensar.asp>. Entretanto, a partir da citação, faça as seguintes reflexões: Qual é a importância da ação docente na escola? É importante o nosso papel como educador? E a nossa responsabilidade com os planeja mentos? Em seguida, abordaremos a estrutura, ou roteiro de um plano de ensino, organizado de forma a atender as unidades didáticas de um ano, de um semestre, ou de uma etapa de ensino, considerando os seus principais componentes, nas diversas modalidades de plano: de curso, de unidade ou de aula, respectivamente. O planejamento didático é um processo que envolve operações mentais como: refletir, analisar, definir, selecionar, distribuir atividades ao longo do tempo, prever formas de agir e organizar. O resultado desse processo de planejar a ação docente é o plano didático, ou seja, é o registro das conclusões de previsão das atividades docentes e discentes. A forma de registro depende do professor. Mas o que se recomenda é que o professor faça as anotações de modo simples, claro e objetivo. Segundo a Professora Irene Carva lho, citada por Turra e outros (1975, p. 47 - 48), “os planos devem ser pessoais. Precisam retratar a personalidade do professor, suas concepções pessoais e profissionais”. Os planos jamais devem ser elaborados por outra pessoa que não a que vai realizá-lo. Devem ser criativos e não repetitivos (de um ano 68 UNIUBE para outro), pois cada turma que passa pornós tem a sua característica própria, a sua realidade específica. Lembrando que no planejamento estamos, permanentemente, diagnosticando, repensando, analisando e avaliando a aprendizagem, tanto do aluno quanto do professor. 2.7.1 Tipos de planejamentos Existem três tipos de planejamento didático ou de ensino: a) planejamento de curso – que é a previsão do trabalho docente para um ano ou semestre, em que desdobramos o plano curricular da escola; b) planejamento de unidades – é a reunião de várias aulas sobre assuntos inter relacionados, que constituem uma porção significativa da matéria; c) planejamento de aula – aqui, o professor especifica e operacionaliza os procedi mentos diários para a concretização dos planos de unidades e de curso. Portanto, quando perguntamos: por que e para que planejamos, podemos afirmar como resposta a essa pergunta que o planejamento didático é uma atividade muito importante e que tem como função prever as dificuldades que podem surgir durante a ação docente; e é uma maneira de evitarmos a repetição mecânica de nossas aulas. Podemos também, ao planejar, adequar os conteúdos, as atividades e os procedimentos de avaliação aos objetivos propostos. E, por último, garantir adequadamente o nosso trabalho em relação ao tempo disponível que temos durante o ano letivo. Conforme afirma Haidt (1995), um plano didático para ser considerado adequado deve apresentar as seguintes características: a) coerência e unidade – conexão entre objetivos e meios; b) continuidade e sequência – previsão do trabalho integrado, garantindo a relação entre as diversas atividades desenvolvidas; UNIUBE 69 c) flexibilidade – possibilidade de reajustar o plano, adaptando-o às situações pre vistas; d) objetividade e funcionalidade – adequação do plano ao tempo, levando em conta a análise das condições da realidade; e) previsão e clareza – o plano deve apresentar uma linguagem simples e clara; os enunciados devem ter indicações precisas e sem dupla interpretação. Além de considerarmos importantes essas características do planejamento, acreditamos, também, em uma concepção pedagógica: que a educação é concebida como a vivência de experiências, tendo em vista o desenvolvimento humano como um todo. Etapas do planejamento de ensino2.8 a) Conhecimento da realidade: Ao planejar a tarefa de ensino para atender às necessidades do aluno é preciso inicialmente saber para quem se vai planejar. Conhecer o aluno e seu ambiente é a primeira etapa do processo de planejamento. É necessário saber quais as aspirações, frustrações, necessidades e possibilidades dos alunos. Desse modo, buscando esses dados, estaremos realizando uma sondagem. Uma vez realizada a sondagem, devem -se estudar cuidadosamente os dados coletados. A conclusão a que chegarmos, após o estudo desses dados, chamamos de diagnóstico. b) Requisitos para o planejamento: • objetivos e atividades da escola democrática; • exigências dos programas oficiais e planos de ensino. • condições prévias para a aprendizagem. 70 UNIUBE c) Elaboração do plano: A partir da sondagem e diagnose, definimos as condições do que é possível alcançar em relação ao ensino e o que julgamos ser possível avaliar como resultados de apren dizagem. Em seguida, elaboramos o plano atentos aos seguintes passos: • determinação dos objetivos; • seleção e organização dos conteúdos; • análise da metodologia de ensino e dos procedimentos adequados; • seleção de recursos tecnológicos; • organização das formas de avaliação. d) Execução do plano: A execução do plano no espaço da sala de aula consiste no desenvolvimento das atividades previstas na sua elaboração, quando na ocasião, antecipamos de forma organizada e coerente as atividades propostas no planejamento curricular da escola. Vale lembrar que, para a execução, uma das características de um bom planejamento deve ser a flexibilidade. e) Avaliação da aprendizagem e do plano: Ao término da execução do que foi planejado, além de avaliarmos os resultados do ensino-aprendizagem dos alunos, procuramos avaliar também a qualidade do nosso plano, da nossa habilidade como professor e da contextualização do nosso trabalho educativo e didático em relação ao sistema escolar como um todo. Os componentes básicos do plano de ensino2.9 1. Identificação do plano: é apontar as características do plano, discriminar o nome da escola, o ano letivo, a disciplina ou conteúdo a que se refere, quais as condições básicas em que o plano será realizado, para quantas turmas, qual o professor respon sável, a carga horária etc. Exemplo: UNIUBE 71 – Curso – Ano – Conteúdo – Série – Professora – Turma – Turno – Carga horária (hora/aula) 2. Ementa: é uma descrição discursiva que resume o conteúdo conceitual de um con teúdo curricular. 3. Objetivos: é a descrição clara do que se pretende alcançar como resultado da nossa atividade. Os objetivos de ensino ou gerais são as metas e os valores mais amplos que a escola procura atingir a longo prazo, e os objetivos específicos são proposições mais específicas, referentes às mudanças comportamentais esperadas para determinado grupo ou classe. Eles podem ser alcançados a médio ou curto prazo. 4. Conteúdo programático: assuntos, temas que serão desenvolvidos ao longo do curso, bimestres ou aulas, com vista à construção do conhecimento do aluno, em re lação aos objetivos que se quer alcançar. 5. Metodologia de ensino: o professor, ao planejar, identifica cuidadosamente o que quer alcançar, por meio de métodos, objetivos, seleção dos conteúdos, estratégias de ação e instrumentos que usará para avaliar o progresso dos seus alunos. Método de ensino é o caminho escolhido pelo professor para organizar as situações ensino-aprendizagem. A técnica é a operacionalização do método. No planejamento, ao elaborar o processo de ensino, o professor antevê quais os métodos e as técnicas que poderá desenvolver com seu aluno, em sala de aula, na perspectiva de promover a aprendizagem. E, juntamente com os alunos, irão avaliando quais são os mais adequados aos diferentes saberes, ao perfil do grupo, aos objetivos e aos alunos como sujeitos individuais. Nesse processo participativo, o professor deixa claro suas possibilidades didáticas e o que ele pensa e o que espera do seu aluno: suas possibilidades, sua capacidade de aprender, sua individualidade. 72 UNIUBE Na metodologia, o professor deve utilizar: • Referencial teórico (fundamentos da educação); • Recursos técnicos e tecnológicos (didáticos): com o avanço das novas tecnologias da informação e comunicação (NTIC), os recursos na área do ensino se tornaram valiosos, principalmente do ponto de vista do trabalho do professor e do aluno, não só em sala de aula, mas também como fonte de pesquisa. Ao planejar, o professor deverá levar em conta as reais condições dos alunos, os recursos disponíveis dele e da instituição de ensino, a fim de organizar situações didáticas em que possam utilizar as novas tecnologias, como: data show, transparências coloridas, hipertextos, bibliotecas virtuais, Internet, e-mail, sites, teleconferências, vídeos, e outros recursos mais avançados, à medida que o professor for se aperfeiçoando. • Avaliação: assume dimensões mais abrangentes, no sentido de verificar o nível de aprendizagem dos educandos, de maneira que não se restrinja apenas a um processo de atribuição de notas, como já falamos anteriormente, como do próprio contexto que o professor e aluno estão inseridos. A avaliação deve ser utilizada na escola, de forma a ajudar o aluno a avançar na construção de seu saber e o professor a aperfeiçoar a sua prática docente. Mas o que é avaliar no processo de ensino-aprendizagem? Na concepção de Haidt (1995, p. 288), avaliar a aprendizagem consiste: Num processo de coleta e análise de dados, tendo em vista verificar se os objetivos propostos foram atingidos; a avaliação se realiza emvários níveis: do processo ensino-aprendizagem, do currículo, do funcionamento da escola como um todo. [...] a avaliação dos avanços e dificuldades dos alunos na aprendizagem fornece ao professor indicações de como deve encaminhar e reorientar a sua prática pe dagógica. [...] É por isso que se diz que a avaliação contribui para a melhoria da qualidade da aprendizagem e do ensino. Devemos nos lembrar da estreita relação que há entre a avaliação e os objetivos de ensino, porque avaliar consiste em um processo em que possam ser comprovadas a constatação dos resultados desejados, UNIUBE 73 ou seja, até que ponto as metas previstas no plano didático foram alcançadas. Em outras palavras, qual o nível de conhecimento do aluno? Até que ponto ele absor veu a aprendizagem? O que precisa ser ajustado para ser melhor compreendido pelo educando? Concordamos também com o professor Gadotti (2002), quando afirma que refletir é tam bém avaliar, e avaliar é também planejar, estabelecer objetivos, acompanhar o processo de aprendizagem. Daí acreditamos que os critérios de avaliação que condicionam os resultados estejam sempre ligados às finalidades estabelecidas para qualquer prática educativa. Nesse sentido, chamamos a atenção para que não façamos do planejamento apenas uma mera formalidade ou um ritual burocrático. Ele precisa ser dinâmico, ativo, ter vida e significado tanto para o docente quanto para o discente. E jamais nos deixar mos escravizar por ele. Novas ideias, novos enfoques serão sempre bem-vindos para adequá-los às necessidades de nossos educandos. Para Maria A. Lemos Silva (1997), na sua tese de doutorado sobre avaliação: No processo de avaliação os professores precisam ser flexíveis, capazes de apreender, compreender, interpretar, construir conceitos teórico-práticos que abram perspectivas de urna educação realmente libertadora. Assim, avaliar significa dialogar, coparticipar, acompa nhar, discutir, debater, conviver, crescer.. E quando ela se refere à avaliação de cunho educativo, em sua tese, ela afirma que a avaliação deve ser trabalhada visando ao crescimento integral, do indivíduo. En tende a avaliação como um desafio para que o ser humano assuma uma tomada de consciência de si mesmo e da realidade vivida “[...] e cresça, melhor compreendendo o mundo, bem como possibilitando ao outro, com quem convive, a conquista do seu espaço” (SILVA, 1997). Para ela, nessa perspectiva, 74 UNIUBE [...] a avaliação implica autodeterminação, respeito por si próprio e pelo outro, equilíbrio emocional, comunicação. coragem, esforço, disponibilidade, iniciativa, discernimento, autenticidade, sensibilidade. entusiasmo, responsabilidade [...] (SILVA, 1997). Ela enfatiza ainda que o avaliador deve ter presente que educação, ensino, aprendi zagem e avaliação não podem ser compreendidos apenas como processos tecnoló gicos, desprovidos de valores. A avaliação deve contribuir para um fortalecimento e o despertar de um clima de autoconfiança; desafio esse, para que as pessoas se sintam mais seguras ao enfrentarem as situações reais do cotidiano. Diante da necessidade de interação entre avaliador e avaliandos, também Hoffmann (1994, p. 80) se manifesta: [...] a confiança mútua entre educador e educando no que se refere à reorganização conjunta do saber pode transformar o ato avaliativo em um momento prazeroso de descoberta e de troca de conheci mento [...]. Em observações e entrevistas feitas com alunos e professores em pesquisas educa cionais, demonstraram no entanto que a avaliação escolar quase sempre se confunde com mero julgamento. Sem contar que o clima de competição que também acontece na escola, por meio da avaliação, gera insegurança e desestimula o aluno, ao invés de incentivá-lo para o aprender. Se, por um lado, o aluno é elogiado pelos acertos, na avaliação, por outro, quando ele erra passa a ser julgado como se fosse o único culpado pelo erro. Mais um motivo do repensar do professor sobre as novas concepções e forma de avaliar o seu aluno, na prática educativa, trazendo para si a corresponsabilidade do seu papel, no processo de ensino -aprendizagem. Plano de aula2.10 O que seria para você um plano de aula? PARADA PARA REFLEXÃO UNIUBE 75 O plano de aula é o detalhamento do plano de ensino. As unidades de estudos que foram previstas em linhas gerais no planejamento de ensino são nesse momento sis tematizadas de forma especifica para a ação didática. A preparação da aula é uma tarefa indispensável e, assim como o plano de ensino, deve resultar em um documento escrito que servirá para orientar as ações do profes sor, e oportunizar as revisões e aperfeiçoamentos contínuos ao longo do ano letivo. A acumulação de experiências, conjugada à reflexão da prática docente, possibilita uma constante transformação da prática, para melhor. Por isso, os estudiosos em educação insistem em dizer que a aula é a forma predomi nante de organização didática do processo de ensino. É por meio dela que criamos as condições necessárias para que os alunos produzam ativamente os conhecimentos, as habilidades para a sua formação. Na elaboração do plano de aula, deve-se levar em consideração que dificilmente completamos em uma aula apenas o desenvolvimento de uma unidade didática, ou tema, completo. O processo de ensino e aprendizagem se articula de forma contínua e sequencial. Não esquecendo que no plano de aula também se prevê como será feita a avaliação da aprendizagem no final da mesma. E, para isso, devemos propor situações de avaliação que possibilitem verificar se o aluno realmente é capaz de identificar o conhecimento em situações novas. Por exemplo, propor situações de avaliação assim: • solicitar que os alunos recortem de jornais e revistas nomes e figuras de fatos para que o aluno indique o que pode ser produzido a partir deles; • listar uma série de situações conhecidas do aluno para que ele indique a matéria -prima da qual é feito cada um deles, podendo montar jogos da memória a partir da seleção; • aplicar ao aluno uma série de com questões variadas, para que ele assinale as pro posições que correspondam ao conceito de produto e/ou matériaprima abordada; 76 UNIUBE • apresentar um texto para que o aluno o interprete e transforme esse conhecimento em uma outra abordagem. Para um melhor resultado de aprendizagem, o desenvolvimento metodológico é inte ressante e estimula a participação ativa do aluno na sala de aula. Sabemos que o êxito dos alunos não depende unicamente do professor e de seu método de trabalho, pois a situação docente envolve muitos fatores de natureza social, psicológica, o clima geral da dinâmica da escola etc. Entretanto, o trabalho docente tem um peso significativo ao proporcionar condições efetivas para o êxito escolar dos alunos. Ao fazer a avaliação das aulas, o professor deve considerar: • se os objetivos e conteúdos foram adequados à turma; • se o tempo de duração da aula foi adequado; • se os métodos e as técnicas de ensino foram diversificadas e oportunas para instigar o interesse de aprender dos alunos; • se as avaliações de aprendizagem dos alunos foram constantes no decorrer das aulas; • se o relacionamento professoraluno foi satisfatório; • se foram propiciadas tarefas de estudo ativo e independente dos alunos; • se os alunos realmente consolidaram a aprendizagem da matéria, antes de se in troduzir matéria nova. 2.10.1 Esboço de um plano de aula na concepção de Celso Vasconcellos (2000) • assunto: indicação temática a ser trabalhada; • necessidade: explicitação das necessidades percebidas no grupo e que justificam a proposta de ensino; • tempo; • objetivo; • conteúdo; UNIUBE 77 • metodologia: explicitação dos procedimentos de ensino, técnicas, estratégias, a serem utilizadas no desenvolvimento do assunto; • recursos; • avaliação; • tarefa: suas funções básicas são o aprofundamento e a síntesedo que está sendo visto em classe, assim como ajudar o aluno a ter representações mentais prévias disponíveis correlatas ao assunto a ser tratado nas aulas seguintes; • observações: suas anotações, reflexões e avaliação sobre a caminhada, tornando a aula um instrumento de pesquisa sobre a prática. É preciso resgatar o hábito de escrever sobre a prática (Diário de bordo), tendo em vista a possibilidade de uma reflexão mais sistemática. O professor Celso dos Santos Vasconcellos é doutor em Educação pela USP, mestre em História e Filosofia da Educação pela PUC/SP, pedagogo, filósofo, pesquisador, escritor, conferencista, professor convidado de cursos de graduação e pós-graduacao, responsável pelo Libertad – Centro de Pesquisa, Formação e Assessoria Pedagógica. Autor de diversos livros, dentre eles: Planejamento: projeto de ensino-aprendizagem e projeto político-pedagógico; Construção avaliação: concepção dialético-libertadora do processo de avaliação escolar; Avaliação da aprendizagem: práticas de mudança – por uma práxis transformadora; Coordenação do trabalho pedagógico: do projeto político-pedagógico ao cotidiano da sala de aula. SAIBA MAIS Resumo Ao reconhecermos a importância do planejamento no nosso cotidiano e identificarmos os diversos níveis de planejamento e suas relações entre si, na escola, compreendemos a necessidade dele no âmbito educacional para um melhor resultado na aprendizagem. 78 UNIUBE Referências ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar. Campinas, SP: Papirus, 2000. ATTRAVERSANDO frontiere: metodologhie ed esperienze freireane. In: Livro de Atas do II Incontro Internazionale del Fórum Paulo Freire, Università di Bologna, 29 mar. – 1 o abr. 2000. Vale lembrar que o planejamento na escola precisa ter vida, ser coerente com a reali dade do aluno, de forma a dar significado à aprendizagem do mesmo, e voltado para uma educação humanista. O planejamento de ensino precisa ser pautado na filosofia da escola em que você trabalha, precisa ter coerência com o projeto pedagógico do seu curso; e os objetivos de ensino, os conteúdos e a avaliação, interligados, com vista a um melhor resultado do processo ensino-aprendizagem. É preciso inovar sempre. Ao elaborarmos e executarmos o planejamento de ensino, precisamos estar atentos à criticidade, à criatividade e ao espírito investigativo que queremos desenvolver em nossos educandos. Assim, estaremos concorrendo para uma melhor atuação docente na nossa prática didática. Para isso, nós, professores, precisamos sempre refletir sobre a nossa prática, sobre a nossa atuação na sala de aula, buscando superar as dificuldades, na troca de ex periência com a comunidade educativa e na busca de soluções para os problemas de ordem pedagógica. Só assim estaremos concorrendo para o êxito do nosso trabalho no contexto educacional. Finalizando, após este contato com o tema planejamento de ensino e avaliação, por meio deste texto, sugerimos a você ler os livros citados nas referências e os textos complementares para ampliar o seu estudo sobre o assunto. Essas leituras ajudarão você a compreender melhor o tema em questão e lhes possibilitarão embasamento para a elaboração de um bom plano de ensino e melhor aprendizagem para o seu aluno. UNIUBE 79 COARACY, J. O planejamento como processo. Revista Educação, n. 4, ano I, Brasília, 1972. FLEURI, Reinaldo M. Nota para quê? In:____ Educar para quê? Goiânia: Ed. Universidade Católica de Goiás, 1996. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997. FUSARI, J. C. O planejamento escolar não é um ritual burocrático. Sala de aula. São Paulo: Fundação Victor Civita, v. 2, n. 10, 1989. GADOTTI, Moacir. Atualidade de Paulo Freire: continuando e reinventando um legado. 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Avaliação mediadora: uma prática em construção da pré-escola à universidade: Porto Alegre: Educação & Realidade, 1994. MACHADO, M. A. A construção do Projeto Político-Pedagógico da escola. In: MINAS GERAIS. PROCAD. Projeto Político‑Pedagógico da Escola. Belo Horizonte: SEE-MG, 2001. (Guia de Estudo 3.) PARRA, N. Planejamento de currículo. Revista Escola, São Paulo, n. 5, abr. 1972. 80 UNIUBE SILVA, M. A. L. Avaliação do rendimento escolar ou punição?. 1997. Tese (Doutorado em Educação) – PUCRS, Porto Alegre, 1997. TURRA, C. M.; ENRICONE, D.; SANTANA, F. M.; ANDRE, L. C. Planejamento de ensino e avaliação. Porto Alegre: PUC-RS/EMMA, 1975. VASCONCELLOS, C. S. Planejamento: projeto de ensino aprendizagem e projeto político-pedagógico – elementos metodológicos para elaboração e realização. 7. ed. São Paulo: Libertad, 2000. ____. Avaliação: concepção dialética – libertadora do processo de avaliação escolar. 11. ed. São Paulo: Libertad, 2000. VEIGA, I. P. A.; RESENDE, L. M. G. de. 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No caso da Educação, especifi camente, muitos são os autores que têm dedicado seus estudos à avaliação. E, mesmo assim, ainda restam questões sobre o tema que desafi am os especialistas. Os procedimentos que envolvem o ser humano são potencialmente difíceis, uma vez que, muitas vezes, uma atitude adotada para uma classe não surtirá bons resultados em outra. Os bons professores e os pedagogos sabem disso, e procuram observar com detalhes e carinho qualquer atitude avaliativa antes de aplicá-la. Neste capítulo, a avaliação será estudada quanto aos itens conceito, signifi cado e princípios, tipos e etapas de um processo que visa, em primeiro lugar, verifi car se os educandos estão realmente aprendendo, como está acontecendo a aplicação dos projetos pedagógicos. A avaliação escolar pode ser diagnosticada como um processo pedagógico responsável pelo sucesso ou, se mal aplicado, pelo fracasso dos alunos. E ninguém, certamente, gostaria de ver seu 82 UNIUBE trabalho fracassado. Assim, a grande preocupação em avaliar corretamente tem suas razões. Não se pode errar, sob pena de presenciar resultados negativos. A avaliação deve ser implementada tendo o processo pedagógico como seu suporte, para que atinja seus objetivos – identificar ascausas do fracasso ou sucesso escolar do aluno. Objetivos Ao final das orientações deste capítulo, você deverá ser capaz de: • conceituar avaliação da aprendizagem; • identificar os princípios de uma avaliação da aprendizagem para os anos iniciais do Ensino Fundamental; • apontar os tipos e etapas de um processo de avaliação escolar; • reconhecer o “para que”, o “por que” e o “como” avaliar. Esquema 3.1 Avaliação: conceito, significado e princípios 3.2 Tipos e etapas de uma avaliação 3.3 Conclusão Avaliação: conceito, significado e princípios3.1 Avaliar vem do latim valere, que significa atribuir valor e mérito ao objeto em estudo. Portanto, de acordo com o significado original da palavra, avaliar é atribuir um juízo de valor. A prática de avaliação, num sentido amplo, refere-se a uma atividade constante no nosso dia a dia. Faz parte da nossa vida cotidiana. Sobre isso, Franco (1998, p. 119), destaca que “avaliar é uma atividade tão UNIUBE 83 antiga quanto o surgimento da consciência humana”. Segundo a autora, à medida que os homens começaram a se comunicar, para produzir e garantir a sobrevivência, começaram, simultaneamente, a se avaliar, a se analisar e a se julgar. E, nos dias atuais, frequentemente, deparamo - -nos analisando e julgando nossos comportamentos e o dos nossos semelhantes, os acontecimentos do nosso ambiente, assim como as situações das quais participamos. Na educação, não ocorre diferente, também necessitamos de práticas avaliativas para a realização do processo ensino-aprendizagem. No en tanto, a questão da avaliação escolar tem sido apontada como um dos grandes problemas do ensino, assim como um dos principais fatores responsáveis pelo fracasso escolar da maioria das nossas crianças. Para Leite e Tassoni (2002, p. 135), “a avaliação torna-se profundamente aversiva quando o aluno discrimina que as consequências do processo podem ser direcionadas contra ele próprio”. Geralmente, é isso que ocorre no interior das nossas escolas. Ainda hoje encontramos a lógica do mo delo tradicional de avaliação – aquela em que o professor ensina e avalia; se o aluno for bem, é sinal que o professor ensinou de forma adequada; se o aluno for mal, é o único responsabilizado, podendo ser reprovado ou excluído. Nesta perspectiva, ensino e aprendizagem são entendidos como processos independentes: o ensino é tarefa do profes- sor; a aprendizagem é obrigação do aluno; e ambos se independem. Nas palavras de Sousa (1994, p. 89), a avalia- ção escolar, ou avaliação da aprendizagem, “tem como dimensão de análise o desempenho do aluno, do professor e de toda a situação de ensino que se realiza no contexto escolar”. Para essa autora, a avaliação da aprendiza- gem deixa de girar exclusivamente em torno do aluno e da preocupação técnica de medir o seu rendimento, isto é, deixa de ser sinônimo de “mensuração”. E, assim, passa a centrar as atenções nas condições em que é oferecido o ensino. Importam, aqui, a formação do profes- sor e suas condições de trabalho, currículo, cultura e a organização da escola. Avaliação da aprendizagem Ou também a chamada avaliação escolar ou avaliação do rendimento escolar, são procedimentos pedagógicos que têm como propósito analisar o desempenho do aluno, do professor e de toda a situação de ensino, com vistas a mudanças e melhoria no processo de ensino-aprendizagem. 84 UNIUBE Entendemos que a avaliação, para Sousa (1994), tem como função oferecer dados que permitam ao professor conhecer o que o aluno já aprendeu e o que ele ainda não aprendeu, para providenciar os meios para que ele aprenda o necessário e dê continuidade aos estudos. Nessa perspectiva, a principal função da avaliação é subsidiar o professor, a equipe escolar e o próprio sistema no aperfeiçoamento do ensino. Para Sobrinho (2003), a avaliação é compreendida como uma prática social, orientada principalmente para produzir questionamentos e com preender os efeitos pedagógicos, políticos, sociais, econômicos do processo educativo. O sentido da avaliação torna-se muito mais eficaz quando os próprios agentes de uma instituição se assumem como prota gonistas da tarefa avaliativa, não permitindo que ela seja simplesmente uma operação de medida ou um exercício autocrático de discriminação e comparação. O autor acresce ainda que uma avaliação, além de tomar decisões, deve também conduzir a transformações. Se ela não trans formar, qualitativamente, e se não oferecer elementos de reflexão para ações de transformação e melhoria, não cumpre o seu papel do ponto de vista educacional. Assim, podemos dizer que avaliação da aprendizagem se constitui em procedimentos pedagógicos que têm como propósito analisar o desem penho do aluno, do professor e de toda a situação de ensino, com vistas a mudanças e melhoria no processo de ensino-aprendizagem. A avaliação não é um fim, mas um meio: para o aluno é um meio de corrigir os erros e fixar as respostas certas; para o professor é um meio de aperfeiçoar seus procedimentos de ensino. Tipos e etapas de uma avaliação 3.2 Existem vários tipos de avaliações, mas podese dizer que as mais uti lizadas são (Figura 1): • Avaliação diagnóstica • Avaliação somativa • Avaliação formativa UNIUBE 85 A avaliação diagnóstica (Figura 1), como o próprio nome diz, é aquela que ajuda a detectar o que cada aluno aprendeu ao longo dos períodos anteriores, especificando sua bagagem de aprendizagem. Deve ser rea lizada sempre no início de um ano letivo com a intenção de verificar se os alunos possuem os conhecimentos e habilidades necessárias para as novas aprendizagens. Pela avaliação diagnóstica, o professor constata se os alunos estão ou não preparados para adquirir novos conhecimentos e identifica as dificuldades de aprendizagem. AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA É necessário saber se o aluno domina determinadas competências que deverão dar suporte aos referenciais curriculares e a partir disso descobrir suas dificuldades e necessidades, alterando os rumos, se preciso. É um instrumento de investigação do professor, em relação à aprendizagem do aluno para analisar o que este já sabe e o que precisa ainda saber, o que ele faz sozinho e o que faz com ajuda (de um grupo ou do professor). Figura 1: Avaliação diagnóstica. A avaliação somativa (Figura 2) realizase ao final de um curso, pe ríodo letivo ou unidade de ensino. Consiste em classificar os alunos de acordo com níveis previamente estabelecidos. Utilizada, na maioria das vezes, com o propósito de atribuir uma nota ou um conceito para fins de promoção e tem função classificatória. 86 UNIUBE AVALIAÇÃO SOMATIVA Quantificação de notas com vistas a classificar o aluno como aprovado ou dependente. Os instrumentos mais utilizados são: provas, seminários, questões orais etc. Tem por objetivo classificar os alunos de acordo com os desempenhos apresentados. Avalia o aluno dentro de um contexto classificatório. Figura 2: Avaliação somativa. A avaliação formativa (Figura 3) consiste no fornecimento de informações que serão utilizadas na melhoria do desempenho do aluno durante o seu processo de aprendizagem. Despe-se do autoritarismo e do caráter seletivo e excludente da avaliação classificatória. Contribui para que os alunos aprendam a aprender, no sentido de ajuda-los a desenvolver as estratégias necessárias ao processo de ensino- aprendizagem. Consequentemente, torna o aluno participante desse processo, possibilitando, assim, a construção de habilidades e a compreensão da sua própria aprendizagem. Avaliação formativa É uma avaliação incorporada no ato do ensino e integrada na ação de formação. Contribui para melhorar a aprendizagem, pois informa o professor sobre o sucesso e fracasso dos seus alunos. Não tem como objetivo classificar ou selecionar. UNIUBE 87 AVALIAÇÃO FORMATIVA Para que o professor possa ajustá-lo às características das pessoasa que se dirige. Tem a finalidade de proporcionar informações acerca do desenvolvimento de um processo de ensino e aprendizagem. Figura 3: Avaliação formativa. Harlene e James, citados por Villas Boas (2002, p. 120), apontam as características da avaliação formativa: • é conduzida pelo professor; • destinase a promover a aprendizagem; • leva em conta o progresso individual, o esforço nele colocado e outros aspectos não especificados no currículo; • são considerados vários momentos e situações em que certas capacidades e ideias são usadas, os quais poderiam classificarse como “erros” na avaliação somativa, mas que, na formativa, forne cem informações diagnósticas; • há exercício de um papel central pelos alunos, que devem atuar ativamente em sua própria aprendi- zagem. Eles progredirão se compreenderem suas possibilidades e fragilidades e se souberem como se relacionar com elas. Os autores acrescem, ainda, que a avaliação formativa leva em conta onde o aluno se encontra em seu processo de aprendizagem, em ter mos de conteúdos e habilidades. É uma avaliação incorporada no ato do ensino e integrada na ação de formação do aluno. 88 UNIUBE Haydt (2003, p. 19) sintetiza, no Quadro 1, a seguir, as modalidades e funções da avaliação: MODALIDADE (tipo) FUNÇÃO PROPÓSITO (para que usar) ÉPOCA (quando aplicar) DIAGNÓSTICA Diagnosticar Verificar a presença ou ausência de pré-requisitos para novas aprendizagens. Detectar dificuldades especificas de aprendizagem, tentando identificar suas causas. Início do ano letivo. SOMATIVA Classificar Classificar os resultados de aprendizagem alcançados pelos alunos. Ao final de um ano. FORMATIVA Controlar Controlar se os objetivos estabelecidos foram alcançados pelos alunos. Fornecer dados para aperfeiçoar o processo ensino-aprendizagem. Durante o ano letivo, isto é. ao longo do processo ensino- -aprendizagem. Quadro 1: Modalidades e funções da avaliação Fonte: Adaptado de Haydt (2003, p. 19). Até aqui, discutimos o conceito, o significado e alguns princípios e mo dalidades da avaliação. Vimos que, num processo de ensino escolar, quando a intenção é promover a aprendizagem do aluno, a avaliação não pode ser punitiva, seletiva e nem classificatória. Ou seja, todo processo avaliativo, além de tomar decisões, deve, também, conduzir a transforma ções. Nessa perspectiva, significa romper a lógica do modelo tradicional de avaliação e aderir à lógica de uma avaliação formativa, isto é, enquanto se avalia se aprende, e, enquanto se aprende, se avalia. Para tanto, fazse necessário refletir um pouco sobre para que, por que e como avaliar; é o que veremos em seguida. UNIUBE 89 • Para que, por que e como avaliar? • Para que avaliar? • Por que avaliar? • Você já pensou sobre isso? Ora, a avaliação é um processo inerente ao ser humano. Estamos, a todo o momento, avaliando nós mesmos e o nosso entorno. Olhamos no espelho para avaliar nosso cabelo, nossa roupa, se está de acordo com nossas necessidades; avaliamos o gosto de uma comida, e assim por diante. Na escola, durante as aprendizagens, avaliamos, basicamente, para, em tempo real, conseguirmos intervir no processo de formação do aluno, tendo em vista possibilitar o alcance dos objetivos pretendidos. A avaliação somente terá sentido se tiver como ponto de partida e ponto de chegada o processo pedagógico, para que possa ter oportunidade de identificar as causas do fracasso ou sucesso escolar do aluno e, a partir daí, estabelecer as estratégias e formas de enfrentamento da situação (Figura 4). PARA QUE AVALIAR? Para redirecionar a ação docente Para ver o aluno que o aluno aprendeu Figura 4: Objetivos da avaliação. Resta-nos, agora, pensar em “como avaliar e que instrumentos usar”? 90 UNIUBE Hadji (2001, p. 67) nos diz que toda avaliação formativa eficiente deve conter três etapas: a) o estudo da tarefa a ser avaliada e sua explicação para esse autor, todo instrumento de avaliação deve ser adequado e diferenciado de acordo com o que se pretende avaliar. Uma avaliação, além de ser clara e precisa, sucede um bom estudo; b) a prática das habilidades; é preciso que se tenha uma prática formativa durante os processos de aprendizagem. Sem prática não há aprendizagem. A avaliação tem de ser muito próxima das práticas realizadas pelos alunos dentro do seu contexto social; c) a intervenção refere-se ao fato de o professor não priorizar apenas o resultado, mas promover a inter venção mais adequada em relação ao nível de de sempenho do aluno, para que ele se autossupere, visando o alcance dos objetivos propostos. Dito de outra forma, é preciso que o professor identifique os conhecimentos construídos e as dificuldades apresentadas pelos alunos para intervir e modificar a realidade. Aqui vale a compreensão sobre o “erro”. Dentro de uma perspectiva de avaliação formativa, o erro passa a ser considerado uma pista que indica como o educando está relacionando os conhecimentos que já possui com os novos conhecimentos que vão sendo adquiridos. O erro, nesse caso, deixa de representar a ausência de conhecimento adequado. Toda resposta ao processo de aprendizagem, seja certa ou errada, é um ponto de chegada, por mostrar os conhecimentos que já foram construídos e absorvidos, e um novo ponto de partida, para um recomeço, possibilitando novas tomadas de decisão. Outra questão, também importante, nessa discussão, é a escolha dos instrumentos de coleta de informações para realizar uma avaliação. Sousa (1994, p. 89) nos esclarece que: [...] a avaliação deve ser utilizada com o apoio de múl tiplos instrumentos de coleta de informações, sempre de acordo com as características do Plano de ensino, isto é, dos objetivos que se está buscando junto ao aluno. Assim, conforme o tipo de objetivo, podem ser empregados trabalhos em grupos e individuais, provas UNIUBE 91 orais e escritas, seminários, observação de cadernos, realização de exercícios em classe ou em casa e ob servação dos alunos em classe. A autora deixa claro que, dentro de uma proposta de avaliação que con sidera a aprendizagem do aluno, não se pode ficar restrito a um único instrumento de avaliação. É preciso realizar uma criteriosa seleção de procedimentos a serem usados de acordo com o nível de desenvolvi- mento dos alunos, da disciplina, da série e do tipo de trabalho efetivado. Assim, para essa seleção, o professor deverá usar sua criatividade e sua criticidade, levando em conta o fato de que os alunos têm diferentes estilos de aprendizagem. Como a avaliação não tem um valor em si mesma e não deve ficar restrita a rituais burocráticos da educação, ela necessita fazer parte do processo de aprimoramento do ensino -aprendizagem e contribuir, desse modo, para o processo de transformação dos educandos (VIEIRA, 2006). A avaliação formativa objetiva, principalmente, permite ao professor compreender como o aluno elabora e constrói o seu conhecimento. Pode ser feita com base em vários instrumentos, de acordo com a forma como foram dadas as aulas. Um dos instrumentos muito usados nos dias de hoje, é, sem dúvida, o Portfólio. Segundo Vieira (2006), o que caracteriza o Portfólio e o diferencia de um outro trabalho acadêmico qualquer é o fato de ele ser, além de um instrumento avaliativo, construído por meio de reflexões a partir de diferentes linguagens, é também um meio para se organizar as aprendizagens. Portfólio Segundo o Dicionário Houaiss, Portfólio é uma pasta flexível para guardar ou transportar papéis, documentos, fotos etc. Álbum ou pasta, de folhas soltas ou não, com material em geral fixado. No campo da educação, Hernandez (1997, p. 100) define Portfólio como sendo um “continente de diferentes classes de documentos (notas pessoais, experiências de aula, trabalhos pontuais, controle de aprendizagem, conexões com outrostemas fora da Escola, representações visuais etc.) que proporciona evidências do conhecimento que foi construído, das estratégias utilizadas e da disposição de quem o elabora em continuar aprendendo”. 92 UNIUBE A esse respeito, Abramowicz (2001) indagada sobre outros meios que o educador deve utilizar para realizar uma boa avaliação, as- sim se pronuncia: [...] não existe fórmula pronta. Se são dadas diretrizes claras, o professor faz seu caminho, graças à sua criatividade. Esses recursos devem ser, além de diversificados, participativos, democráticos, relevantes, significativos e rigorosamente construídos. Hoje, usamos até a expressão “Portfólio de propostas de avaliação”. Diversificando os instrumentos, é possível abranger todas as facetas do desempenho de um estudante. Esperamos que você tenha gostado desse estudo, pois acreditamos que o ingresso e a permanência da criança nas séries iniciais do Ensino Fun damental precisa ser acolhedora e a avaliação faz parte desse processo. Nesse sentido, vale lembrar Hoffmann (1993, p. 94), quando afirma: o significado primeiro e essencial da ação avaliativa mediadora é o ‘prestar muita atenção’ nas crianças, [...] insistindo em conhecê-las melhor, em entender suas falas, seus argumentos [...]. Conclusão3.3 Como na nossa vida cotidiana, a avaliação também é uma prática constante na educação. O processo ensino-aprendizagem precisa da avaliação, porém, é preciso levar em consideração as especificidades da metodologia aplicada na avaliação, para que não produza efeito contrário ao pretendido. Há casos de profundo fracasso, o que é extremamente prejudicial aos educandos. Infelizmente, nas escolas de hoje, ainda há exemplos de avaliação mal direcionada. Isso decorre, muitas vezes, da aplicação do modelo tradi cional de avaliação – aquela em que o professor ensina e avalia, o que pode resultar em distorções, levando o aluno a ser totalmente respon sabilizado pelo seu fracasso. UNIUBE 93 Na verdade, deve-se entender por avaliação toda uma análise que leve em consideração “o desempenho de aluno, do professor e de toda a situação de ensino que se realiza no contexto escolar” (SOUSA, 1994, p. 891). A avaliação é um processo que deve levar ao aperfeiçoamento de ensino, para que o educando encontre sua melhor forma de aprendizagem. Deve ser um processo aberto a mudanças, segundo o ritmo de aprendizagem do aluno, seu desempenho e sua forma de aprendizagem. A avaliação deve ter como principal finalidade o auxílio ao professor, à equipe pedagógica da escola, além do próprio sistema que rege a edu cação, no sentido de levar o ensino ao aperfeiçoamento necessário à melhoria do processo de ensino-aprendizagem. É importante, ainda, que o professor e a escola escolham corretamente sua forma de avaliar, tendo em vista o contexto de educação. A avaliação escolar jamais deve ser vista e praticada apenas como uma forma de selecionar os melhores alunos em termos de conteúdo. Resumo Neste capítulo, a avaliação foi conceituada procurando salientar os pro cessos de condução, os significados e os princípios. Procurou se, tam bém, colocar em pauta as opiniões dos educadores como embasamento teórico do texto, o que é muito salutar em termos de comparação entre as ideias, para um melhor aproveitamento técnico. A seguir, falou-se sobre os tipos e etapas de uma avaliação, procurando destacar as formas mais utilizadas, como as avaliações diagnóstica, somática e formativa. Na sequência, um momento de reflexão, proposto sob a forma de algu mas perguntas, a saber: Para que e como avaliar? 94 UNIUBE Você já pensou sobre isso? Sabe-se que as discussões são geradoras de ricas opiniões, que podem ser socializadas, visando ao aperfeiçoamento dessa prática pedagógica, que é a avaliação. A avaliação é uma prática inerente ao ser humano, portanto, deve ser sempre revista, melhorada, ampliada segundo as necessidades do dia a dia dos alunos e dos educadores. Os erros devem ser prontamente corrigidos. Não há, fundamentalmente, uma receita infalível para a ava liação. Mas, uma coisa é indispensável para quem a pratica – bom-senso e criatividade! Referências ABRAMOWICZ, M. Um reflexo fiel da escola. Nova Escola. Fala Mestre, ed.147, 2001. Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/planejamento-e-avaliacao/ avaliacao/reflexofielescola424736.shtml>. Acesso em: 29 mar. 2006. FRANCO, M. L. P. B. Subsídios para uma reflexão teórica acerca da prática avaliativa. In: Séries Ideias, n. 8. São Paulo: FDE, 1998. HADJI, C. Avaliação desmistificada. Porto Alegre: Artmed, 2001. HAYDT, R. C. C. Avaliação do processo ensino‑aprendizagem. São Paulo: Ática, 2003. HERNANDEZ, F. Cultura visual, mudança educativa e projeto de trabalho. Porto Alegre: Artmed, 1997. HOFFMANN, Jussara. Avaliação mediadora: uma prática em construção da pré -escola à universidade. 16. ed. Porto Alegre: Educação e Realidade, 1993. ______. Avaliação formativa ou avaliação mediadora? In: O jogo do contrário em avaliação. Porto Alegre: Mediação, 2005. LEITE, S. A.; TASSONI, E. C. M. A afetividade em sala de aula: as condições de ensino e a mediação do professor. In: AZZI, R. G.; SADALLA, A. M. A. (Org.). Psicologia e formação docente: desafios e conversas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002. UNIUBE 95 SOBRINHO, J. D. Avaliação: políticas educacionais e reformas da educação. São Paulo: Cortez, 2003. SOUSA, C. P. et al. Avaliação do rendimento escolar. São Paulo: FDE, 1994. VIEIRA, V. M. O. Representações sociais e avaliação educacional: o que revela o PORTFÓLIO. Tese de Doutorado. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 2006. VILLAS BOAS, B. M. F. (Org.). Avaliação: políticas e práticas. Campinas: Papirus, 2002. 96 UNIUBE Anexo I Interdisciplinaridade na escola: desafios e conquistas Lúcia Helena Borges de Oliveira Introdução Neste anexo estudaremos a questão da interdisciplinaridade na escola, seus desafios e conquistas. A educação interdisciplinar nos remete à reflexão: o que ensinar? Por que ensinar? Quando e como ensinar? É necessário que haja coerência entre os objetivos e o que se desenvolve, de fato, no transcorrer das aulas. A interdisciplina- ridade deve promover a integração entre os vários setores do conhecimento, e, principalmente, que os professores busquem nos conteúdos os elementos mais práticos, que levem os alunos a se interessarem pela escola. Veremos, também, o trabalho com projetos em interação, o que possibilita um grande desenvolvimento e envolvimento de todos os que estão na prática cotidiana processo ensino - -aprendizagem. Os alunos devem trabalhar os conteúdos que são relevantes na sociedade em que vivem. Os temas transversais, nesse mo mento, constituem importantes temas de interesse, pois estão presentes no meio social em que vivem, como saúde, orientação sexual, meio ambiente, ética, trabalho e consumo e pluralidade cultural. Objetivos Ao final das orientações deste capítulo, você deverá ser capaz de: • demonstrar que a construção do conhecimento realiza- se em um processo contínuo de elaboração pessoal e de interação pedagógica; UNIUBE 97 Esquema 1. Por uma educação interdisciplinar 2. Algumas orientações didáticas para o professor 3. Conclusão • implementar e avaliar novas propostas interdisciplinares, considerando as diferenças sociais e culturais existentes na sociedade. Por uma educação interdisciplinar 1 O que ensinar? Por que ensinar? Quando e como ensinar? Quantas coisas ouvimos na escola e não aprendemos. Quantas informações re cebemos e não atribuímos nenhum sentido a elas! Isso acontece porque há uma distância muito grande entre as intenções e o que de fato se propõe, principalmente quando se analisa o bloco de conteúdos. Penso que o maior avanço das propostas dos Parâmetros Curriculares é a coerência e a articulação que consegue estabelecer entre os objetivos e os tratamentos dadosàs áreas do conhecimento. Como apresentamos no capítulo anterior, algumas orientações didáticas ajudam o professor no seu dia a dia para alcançar esses objetivos. Algumas orientações didáticas para o professor 2 Vários autores abordam o tema interdisciplinaridade, dentre eles Ferreira (apud FAZENDA, 1994, p. 34) para quem a interdisciplinaridade perpassa todos os elementos do conhecimento, pressupondo a integração entre eles. Porém, é errado concluir que ela é só isso. A interdisciplinaridade está marcada por um movimento ininterrupto, criando ou recriando outros pontos para discussão. Já na ideia de integração, apesar do seu valor, trabalham-se sempre os mesmos pontos, sem a possibilidade de serem reinventados. Busca-se novas combinações e aprofundamento sempre dentro de um mesmo grupo de informações. 98 UNIUBE Trabalhar de forma interdisciplinar é isso: garantir uma interação entre as disciplinas, incluindo métodos e conteúdos, numa ação conjunta, com um objetivo determinado. Deve-se ressaltar que essa interação não pode ser considerada unificação de sistemas existentes em algo único. Para entender o conceito de interdisciplinaridade, observe a Figura 1: Figura 1: Interdisciplinaridade Temos as disciplinas, obviamente, cada uma delas contemplando seus respectivos conteúdos. A interdisciplinaridade exige uma interação entre essas disciplinas de forma que todas se disponham a trabalhar conjuntamente com o mesmo objeto de estudo. Nessa proposta, os conteúdos não são trabalhados de forma isolada, tampouco fechados em suas disciplinas, eles se expandem de tal forma que os educandos podem compreende-los melhor. Com o objetivo de assimilar outros termos que abordam relações entre as disciplinas, recorremos a Zabala (1998, p. 33) para entender as seguintes definições: UNIUBE 99 A multidisciplinaridade é a organização de con teúdos mais tradicionais. Os conteúdos escolares apresentam-se por matérias independentes uma das outras. As matérias ou disciplinas são propostas simul taneamente sem que se manifestem as relações que possam existir entre elas [...]. A interdisciplinaridade, já citada, é a interação de duas ou mais disci plinas. Essas interações podem implicar transferências de leis de uma disciplina a outra, originando, em alguns casos, um novo corpo disciplinar, como por exemplo, a bioquímica ou a psicolinguística. A transdisciplinaridade é o grau máximo de relação entre as disciplinas, daí que supõe uma integração global dentro de um sistema totalizador. Esse sistema facilita uma unidade interpretativa, com o objetivo de cons tituir uma ciência que explique a realidade sem fragmentações. A pluridisciplinaridade é a existência de relações complementares entre disciplinas mais ou menos afins. É o caso das contribuições mútuas das diferentes “histórias” (da ciência, da arte, da literatura). A conclusão que podemos tirar dos termos anteriores é que as classifi cações estão justamente nas relações que se estabelecem. Nogueira (2001, p. 141) utiliza os dois esquemas seguintes para explicar esses termos. Não existe, segundo Nogueira (2001), um trabalho cooperativo na ati vidade multidisciplinar. Por meio do esquema, podemos observar que as disciplinas não estabelecem uma relação entre si, como mostra a Figura 2. Figura 2: Multidisciplinaridade. Fonte: Adaptado de Nogueira (2001, Figura 6.1, p. 141). História PortuguêsCiências Matemática Multidisciplinariedade 100 UNIUBE As disciplinas, no trabalho pluridisciplinar, conforme a Figura 3, a seguir, apresentam pequenas contribuições. História PortuguêsCiências Matemática Pluridisciplinariedade Figura 3: Pluridisciplinaridade. Fonte: Adaptado de Nogueira (2001, Figura 6.2, p. 141). Ao voltar à Figura 1, referente à interdisciplinaridade, você perceberá a diferença tanto na relação entre as disciplinas, como também na presença da coordenação, elemento integrador e articulador do processo educacio nal. Ele será o responsável pelo diálogo e pela interação entre os pares. Para que aconteça de fato um trabalho interdisciplinar, é necessário compor uma equipe de trabalho que pensa junto, planeja, define os objetivos desejados, troca informações, comunica as intenções, descobertas e aquisições, avalia e planeja novamente, de forma que as ações realizadas sejam revisadas, repensadas, reconstruídas. IMPORTANTE! UNIUBE 101 2.1 O trabalho com projetos e a interdisciplinaridade no dia a dia da escola Pensando que a educação é um processo de vida e não uma preparação para a vida futura, e que a escola deve representar a vida presente, tão real e vital para o educando, como a que ele vive em casa, no bairro, na sociedade. Os PCNs vêm ao encontro desse ideal de educação ao sugerir o trabalho interdisciplinar na escola. O trabalho com projetos possibilita um grande envolvimento de todos os que estão inseridos no processo ensino-aprendizagem, na prática coti diana. Esse envolvimento de todos torna possível a constante reflexão sobre a prática pedagógica, articulando as experiências realizadas com o contexto que vivenciam. É necessário renovar a forma de planejar, segundo Hoffmann (1998, p. 43): [...] o planejamento desenvolvido através de projetos tem por fundamento uma aprendizagem significativa para as crianças. Eles podem se originar de brincadei- ras, de leitura de livros infantis, de eventos culturais, de áreas temáticas trabalhadas, de necessidades observadas quanto ao desenvolvimento infantil. Vários projetos podem se desenvolver ao mesmo tempo, de tal forma que se dê a articulação entre conhecimento científico e a realidade espontânea da criança, pro movendo a cooperação e a interdisciplinaridade num contexto de jogo, trabalho e lazer. É justamente essa a orientação dos PCNs. Nessa proposta, não existem temas que não podem ser abordados, nem existem limites e limitações para aprender. Esse trabalho preconiza a busca e a construção do co nhecimento, tanto do aluno quanto do professor. O ensino por projetos Vejamos, com detalhes, como pode ser o trabalho interativo com projetos. Os temas são colocados em discussão no grupo de roda de conversa. 102 UNIUBE Esse momento de troca é importante porque constitui o espaço de argu mentações e contribuições importantes acerca de determinados assuntos sobre o que já se sabe e o que o grupo deseja saber. Dessa forma, é oportunizada uma educação dialógica, na qual os “conhecimentos do mundo” entrelaçam-se aos “conhecimentos científicos”, por meio da pesquisa. Nessa proposta de trabalho, o professor abandona o papel de “transmis- sor de conteúdos” para assumir o papel de um pesquisador. O enfoque não está mais nas disciplinas, mas, sim, nos temas. IMPORTANTE! Em relação ao ensino por projetos, o educador espanhol Hernandes (1998, p. 66) nos diz que “tudo poderá ser ensinado por meio de projetos, basta que se tenha uma dúvida inicial e que se comece a pesquisar e buscar evidência sobre o assunto”. A necessidade de desenvolver habilidades no aluno é um dos mais importantes objetivos dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), o que comunga fielmente com o trabalho por meio de projetos, que, com sua metodologia dialógica e interativa, estimula o desenvolvimento dessas capacidades. Com esse trabalho, contribuímos com a formação de pessoas mais autônomas, com maior poder de análise e de reflexão, habilidades essenciais à formação de um cidadão integral. Mas precisamos considerar que, quando a temática é projeto na escola, lidamos com muitos equívocos e contradições. Muitos professores tra balham com centros de interesses, pensando que estão trabalhando com projetos de trabalho. Hernandes (1998, p. 65) apresenta a dife rença da organização curricular por projetos e por centros de interesses (Quadro 1): UNIUBE 103 Elementos Centros de interesse Projetos Modelo de aprendizagem por descoberta significativa Temas trabalhados as ciências naturaise sociais qualquer tema Decisão sobre que tema por votaçãomajoritária por argumentação Função do professorado especialista estudante e intérprete Sentido da globalização somatório de matérias relacional Modelo curricular disciplinas temas Papel dos alunos executor coparticipe Tratamento da informação apresentada pelo profes-sorado busca-se com o profes- sorado Técnica de trabalho resumo, destaque, ques-tionário, conferências índice, síntese, conferên- cias Procedimentos recompilação de fontes diversas relação entre fontes Avaliação centrada nosconteúdos centrada nas relações e nos procedimentos Quadro 1: Diferenças entre os tipos de organização curricular. Ao analisar o quadro, você pode observar que o trabalho com projetos tem uma visão muito mais globalizadora, relacional e integradora, bem mais condizente com o que propõem os Parâmetros Curriculares 104 UNIUBE Na cionais – PCNs. E com referência à didática, todas as orientações apre sentadas são voltadas para a interação do aluno aprendiz com o objeto do conhecimento e, também, para a interação efetiva com os demais membros da equipe. Essa proposta precisa ser trabalhada com o professor e apresentada a ele como uma sugestão. Ele precisa acreditar nela e querer, de fato, mudar a prática, considerando que ele é o principal responsável por dar vida e criar um ambiente motivador no espaço sala de aula. IMPORTANTE! Temas transversais É necessário compreender que na Figura 4, a seguir, a corrente não tem o significado de “fechamento”, mas, de entrelaçamento. São os temas transversais entrelaçados, integrados às demais disciplinas que compõem o currículo. Figura 4: Temas transversais. UNIUBE 105 Sabemos a necessidade de trabalhar com os alunos conteúdos que são relevantes na sociedade em que vivem. A Lei Federal n. 9.394/96, em seu artigo 27, inciso I, ressalta que os conteúdos curriculares da educação básica deverão observar “a difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, respeito ao bem comum e à ordem democrática”. No sentido de contribuir com a formação do cidadão, os PCNs integram os temas transversais à sua proposta. Nessa perspectiva, as problemáticas sociais em relação à ética, saúde, meio ambiente, pluralidade cultural, orientação sexual e trabalho e consumo são integradas na proposta educacional dos Parâmetros Curricu lares Nacionais, como Temas Transversais. Não se constituem em novas áreas, mas num conjunto de temas que aparecem transversalizados, permeando a concepção das diferentes áreas, seus objetivos, conteúdos e orientações didáticas (BRASIL, 1997, p. 65). Como você observou, não são novas disciplinas, são temas de interesse dos alunos porque estão presentes no meio social em que vivem. Mais uma vez, volto a chamar a atenção para o fato de que essa proposta, por si só, não é suficiente para resolver nossos problemas educacionais. É preciso haver compromisso e envolvimento por parte do professor, no que diz respeito à sua ação em sala de aula, incluindo a relação com os alunos, a didática aplicada, a metodologia etc. Agora, veremos com alguns detalhes os temas transversais pro postos: Saúde A abordagem do tema saúde não deve ser trabalhada somente no que diz respeito aos nomes dos órgãos, ao funcionamento do organismo e às doenças. As crianças e os adolescentes precisam mudar seu com portamento para ter uma vida mais saudável, e sabemos que apenas as informações não bastam. Todos os dias, a mídia divulga dados preocu- 106 UNIUBE pantes sobre o abuso no uso de drogas, álcool, anabolizantes, tabaco, dentre outros. No entanto, o jovem vê tudo isso e simplesmente diz: “não dá nada, não!”. Parece que, com ele, nada acontecerá. Em relação ao tema saúde, os principais conteúdos a ser abordados no Ensino Fundamental envolvem as dimensões individual e social da saúde. É necessário trabalhar com as crianças e os adolescentes que a melhoria das condições de saúde é produzida nos espaços coletivos, nas relações. Eles precisam compreender a saúde como um valor e não somente como ausência de doença. Você pode estar se perguntando como poderá ser feito esse trabalho. Veja, a escola pode, por meio do seu currículo, oportunizar o aprendizado de diferentes formas de ação que favorecem a saúde coletiva. Até o piolho, esse parasita incômodo, que tanto gosta das crianças, principalmente nos dias quentes, pode ser um ótimo tema para desenvolver um excelente projeto de saúde e bemestar coletivo. Orientação sexual A decisão em acrescentar ao currículo temas sobre a sexualidade é no sentido de contribuir com a formação cidadã dos nossos educandos, na medida em que trabalha com o respeito por si e pelos outros. Abrir espaço em sala de aula para discutir direitos básicos como a saúde, a informação e o conhecimento são responsabilidades da escola. Parasita Seres menores que vivem à custa de seu hospedeiro. As meninas estudam o sistema reprodutor feminino e o que observamos é o aumento significativo de adolescentes grávidas. Então, o que fazer? A culpa é só da escola? Claro que não! Sabemos que existe um contexto social que não pode jamais ser desconsiderado, mas a EXEMPLIFICANDO! UNIUBE 107 escola tem a sua parcela de culpa quando trabalha os conteúdos totalmente desvinculados da realidade das crianças e dos jovens. Não podemos esquecer também que os riscos de contaminação com a AIDS e o preconceito são pontos fortes de discussão com a garotada. Como deve ser essa atividade? • trabalhe os temas considerando a linguagem das crianças; • evite fazer críticas, não aceite gozações dos colegas uns com os outros; • procure se informar quando tiver alguma dúvida, convide o pedagogo da escola ou o psicólogo para auxiliálo quando não estiver confiante para abordar esse assunto; • use o bom-senso, atenha-se ao que o aluno perguntar, pois grandes explicações podem gerar angústias quando a criança não estiver preparada. Meio ambiente É necessário trabalhar o ritmo dos ciclos da natureza, os limites da ação humana no ambiente, como usar bem as riquezas naturais. Nesse sentido, é preciso desenvolver valores, atitudes e posturas éticas em nossos alunos. Não dá mais para trabalhar o meio ambiente somente em ciências, ele precisa ser explorado em todas as áreas. IMPORTANTE! O que está acontecendo com a Terra ultimamente mostra como nossa geração não soube preservar o nosso planeta, cuidar do que temos de mais rico e belo. Em relação à natureza, fizemos tudo errado. Agimos de forma egoísta e não pensamos nas gerações futuras. Todos nós temos 108 UNIUBE uma parcela de culpa, quando não economizamos água, quando não separamos o lixo, quando desmatamos e não plantamos outras árvores, quando abusamos dos descartáveis, dentre outras atitudes. São ações tão básicas, tão fáceis de fazer, mas, não fazemos isso, temos apenas um bom discurso. No trabalho com projetos, os conteúdos atitudinais, procedimentais e a interdisciplinaridade podem ser os meios utilizados para suprir a dicotomia existente entre o discurso e a ação. Ética A luta pela conquista de espaço nessa sociedade competitiva e exclu dente tem desencadeado entre as pessoas alguns comportamentos preocupantes. As pessoas estão perdendo o respeito pelo próximo, o prazer do diálogo, o sentimento de solidariedade, a humildade etc. A escola precisa trabalhar esses valores e, para reforçar a afirmativa re fletimos: quais os conteúdos que devem ser discutidos para fundamentar um comportamento ético? Esta é uma questão que gera polêmica e, por isso, muitos preferem não se pronunciar. Mas ela deve ser abordada para que não se paralisem as ações educacionais na escola. A proposta dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), referente ao trabalho com a ética, é justamente evitar essa dicotomia entre “pregar valores” e “vivenciar valores”. Sabemos que a escola, em outros tempos, trabalhavacom os conteúdos sobre valores na disciplina Moral e Cívica; no entanto, os alunos não desenvolveram o sentimento de moral e muito menos de civismo. Nesse sentido, o tema transversal “Ética” é sugerido para que seja trabalhada a construção da autonomia moral dos alunos. Esse trabalho necessita muito mais de ação do que de discurso vazio de sentido. O convívio escolar é um espaço rico para que o aluno desenvolva o diálogo, aprenda a ser solidário, a ouvir e ser ouvido, a submeter suas ideias ao juízo dos outros. Assim, o trabalho pedagógico terá sentidos e significados para quem aprende e para quem organiza o processo. UNIUBE 109 Trabalho e consumo Nossa sociedade é capitalista e sobrevive do lucro. Isso não é novidade para ninguém, mas é papel da escola abrir espaço para as discussões que permeiam o universo das crianças e dos adolescentes também no mundo do trabalho e do consumo. Para melhor compreendermos essa importante temática, buscamos nos documentos oficiais uma explicação (BRASIL, 1997, p. 68): Crianças e adolescentes vivem a expectativa sobre a futura – ou a presente-inserção no mundo do trabalho, assim como os dilemas frente aos apelos para o consumo de produtos valorizados por seu grupo etário. Se não são todos os que já participam de alguma forma do mercado de trabalho ou têm um lugar no trabalho doméstico, todos refletem, em sua atuação escolar, a situação de trabalho e emprego das famílias, a luta cotidiana para conquistar o direito de usufruir bens e serviços produzidos socialmente. Como você pode observar, esse tema possibilitará, como todos os outros, uma ampla e necessária discussão em sala de aula. A sua finalidade maior no contexto educacional é contribuir para que os alunos desenvol vam habilidades para atuarem na sociedade como verdadeiros cidadãos, tanto nas relações de trabalho como nas relações de consumo. Pluralidade cultural Sabemos que, apesar de tantas misturas e diversidades, vivemos em um país com muitos preconceitos. Muitos livros didáticos, principalmente os de história, trazem propostas discriminatórias e preconceituosas, e também muitas gravuras estereotipadas. Segundo informações obtidas no site da revista Nova Escola (2007), vi vemos em um dos países de maior diversidade cultural e racial do mundo e, se for verdade o que dizem muitos livros didáticos, somos felizes cida dãos de uma pacífica democracia racial. Mas, será que é assim mesmo? 110 UNIUBE A pluralidade cultural, por ser um tema transversal, deve ser associada às outras disciplinas do currículo. Veja bem, um professor das séries iniciais, 1ª e 2ª séries do Ensino Fundamental, ao trabalhar os erros de transcrição fonética, deve explorar o conceito do que é sotaque, ou do que seja usar expressões regionais. Nossos alunos precisam, também, conhecer um pouco mais sobre a história dos nossos índios, seus idiomas, seus estilos diferentes de liderança, sua arte, suas diferenças. A partir de um determinado tema, no desenvolvimento de um tema transversal, professores de diferentes disciplinas abordam a temática com o objetivo de proporcionar aos alunos diferentes pontos de vista, enriquecendo dessa maneira a abordagem do conteúdo. É necessário trabalhar a cultura indígena com nossas crianças e nossos adolescentes, para que no futuro eles compreendam e valorizem a nossa diversidade cultural, o nosso folclore. Será através da educação que nossos jovens terão orgulho, respeito e carinho pela nossa história, pelo nosso povo. Erros de transcrição fonética O aluno escreve a palavra tal qual ele pronuncia. Exemplo: tumati, no lugar de tomate. Conclusão3 Após a leitura deste anexo, podemos concluir que as diversas disciplinas que compõem a grade curricular da escola básica podem se organizar no sentido de oferecer aos alunos um aprendizado de boa qualidade, de vivências práticas, promovendo temas de interesse social na comunidade em que vivem. Assim, falamos da interdisciplinaridade do ensino por meio de projetos, bem como os temas transversais, tão importantes para a complemen- tação dos conhecimentos necessários à vida social e profissional dos educandos. UNIUBE 111 Neste anexo, verificamos que a educação deve estar a serviço do aluno, sendo capaz de oferecer-lhe algo palpável, de teor mais prático. É pre ciso que o aluno veja fundamentos práticos nos conteúdos que estuda na escola. Os professores são responsáveis pela promoção dos conhecimentos, or ganizando trabalhos com essa finalidade. O aluno deve participar o mais intensamente possível, deve mostrar interesse e responsabilidade na organização dos seus estudos. O aluno não deve ser apenas o receptor das lições, mas, sim, partícipe de todos os projetos que promovem a sua formação. Os PCNs podem auxiliar os professores a agirem dessa forma. Resumo A interdisciplinaridade exige uma interação entre as disciplinas de forma que todas se disponham a trabalhar conjuntamente com o mesmo objeto de estudo. Nessa proposta, os conteúdos não são trabalhados de forma isolada, tampouco fechados em suas disciplinas, eles se expandem de tal forma que os educandos podem compreendê-los melhor. Pensamos que a educação é um processo de vida e não uma preparação para a vida futura, e que a escola deve representar a vida presente, tão real e vital para o educando, como a que ele vive em casa, no bairro, na sociedade. Os PCNs vêm ao encontro desse ideal de educação ao sugerir o trabalho interdisciplinar na escola por meio dos estudos de temas transversais. Referências BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: introdução aos parâmetros curriculares nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1997. Disponível em: <http://portal.mec. gov.br/seb/arquivos/pdf/livro01.pdf>. Acesso em: 31 nov. 2007. 112 UNIUBE FAZENDA, Ivani (Org.). Práticas interdisciplinares na escola. São Paulo: Cortez, 1991. ______. Práticas interdisciplinares na escola. Campinas: Papirus, 1994. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1997. HERNANDES, Fernando. A organização do currículo por projetos de trabalho. 5. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. HOFFMANN, Jussara. Avaliação: Mito & Desafio. Uma perspectiva construtivista. Porto Alegre: Educação e Realidade, 1998. NOGUEIRA, Nilbo Ribeiro. Pedagogia dos projetos: uma jornada interdisciplinar rumo ao desenvolvimento das múltiplas inteligências. 2. ed. São Paulo: Érica, 2001. PROCAP. Programa de Capacitação de Professores. Reflexões sobre a prática pedagógica. Belo Horizonte: SEE/MG, 1997. REVISTA NOVA ESCOLA ON-LINE. Disponível em: <http://novaescola. abril.com.br/ index.htm? PCNs/pcn_indice>. Acesso em: 30 nov. 2007. SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO. Fazendo Escola. Uberaba, ano 6, n. 8. ZABALA, Antoni. 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UNIUBE 113 Anotações _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ __________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ __________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ __________________________________________________________________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ __________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ __________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________ _________________________________________________________