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/ DEFINIÇÃO Introdução às Neurociências. Organização morfofuncional e desenvolvimento do Sistema Nervoso Central (SNC). Funcionamento neuropsicológico e integração cerebral. Imagiamento do funcionamento cerebral. PROPÓSITO Compreender os conceitos fundamentais da área de Neurociência Cognitiva, desde a organização morfofuncional do SNC até o imagiamento das funções neuropsicológicas. INTRODUÇÃO Vamos explorar os conteúdos essenciais da área de Neurociência Cognitiva, que visa conhecer os fundamentos neurocientíficos do comportamento e da cognição. Iniciaremos com uma breve introdução às Neurociências, apontando seus conceitos fundamentais. Depois, mostraremos como se organiza o Sistema Nervoso (SN), tanto em termos estruturais (organização física) quanto em termos funcionais (organização dinâmica). Para a compreensão da característica integrativa e adaptativa do SN, abordaremos pontos-chave ligados a seu desenvolvimento e funcionamento neuropsicológico, o que evidenciará a integração cerebral, que pode ser estudada pelas chamadas técnicas de neuroimagem, que encerram o conteúdo. / OBJETIVOS Reconhecer as definições básicas e as finalidades das Neurociências Definir a organização morfofuncional do Sistema Nervoso Central Descrever as etapas de desenvolvimento do Sistema Nervoso Central Relacionar a integração cerebral com o funcionamento neuropsicológico / Identificar diferentes modalidades de exames do funcionamento cerebral Reconhecer as definições básicas e as finalidades das Neurociências ORIGEM DAS NEUROCIÊNCIAS A década de 1990 ficou conhecida como década do cérebro devido ao volume de material científico produzido naquele momento sobre o assunto (THOMPSON, 2005). Entretanto, o interesse pelo conhecimento sobre o cérebro remonta à Antiguidade. Há muito tempo, o ser humano tenta descobrir como os pensamentos, as emoções e os comportamentos poderiam estar ligados à cabeça, de forma mais geral, e ao cérebro em si, de forma mais específica. Nosso propósito presente é apresentar as definições básicas e as finalidades das Neurociências, deixando o aspecto histórico da área para leitores interessados em se aprofundar posteriormente. Fonte: Shutterstock CIÊNCIAS COMPONENTES DAS NEUROCIÊNCIAS Atualmente, é muito comum vermos o prefixo neuro inserido nas mais diversas áreas e atividades humanas: Neuroeconomia, Neuropsiquiatria, Neuropsicologia, Neuroreabilitação, Neuromarketing etc. Sempre que vemos essas palavras ou expressões, buscamos compreender que se tratam de tentativas de conhecer como determinada área ou atividade humana ocorre relacionada aos substratos neurais. Assim, por exemplo, a palavra Neuroeconomia significa que os profissionais e estudiosos do campo estão mapeando áreas cerebrais que possam orientar escolhas e comportamentos na área de Economia. Isso é feito por meio de / determinados questionamentos: Fonte: Freedomz / Shutterstock. Como e por que algumas pessoas poupam mais? Fonte: only_kim / Shutterstock. Como e por que alguns sujeitos têm perfil de compra assumindo mais riscos? / Fonte: Ravil Sayfullin / Shutterstock. O que o Sistema Nervoso (SN) tem a ver com isso? Uma vez que as Neurociências estão “na moda”, é fácil perceber que o nome neuro pode ser simplesmente uma tentativa de segui-la. Por isso, é importante buscar referências científicas sobre os diferentes temas. A partir disso, podemos nos interrogar: Quais são as ciências que compõem as Neurociências? De acordo com LENT (2008), do nível micro para o macro, são elas: Fonte: Shutterstock Biologia – que estuda o aspecto celular e o funcionamento das células; Fisiologia – que estuda o funcionamento dos diferentes sistemas; Medicina Neurologia – área da medicina que estuda as patologias do sistema nervoso. Psicologia – voltada para o estudo do funcionamento do organismo em termos perceptuais, emocionais, comportamentais e sociais. É claro que as áreas se especializaram, e as Neurociências permitem e se valem de um caráter muito abrangente, fazendo com que inúmeras áreas possam ter interseções com o funcionamento do Sistema Nervoso. / NEUROPSICOLOGIA Para direcionar nosso foco às Neurociências Cognitivas (FUENTES et al., 2008), vamos escolher como orientadora de nossos conceitos a ciência da Neuropsicologia. NEUROPSICOLOGIA Braço da Psicologia que estuda o aspecto neuro. VOCÊ SABIA A premissa principal da Neuropsicologia é que todo comportamento é originado de um bom funcionamento das áreas central e periférica do Sistema Nervoso. Em outras palavras, todo comportamento tem um substrato neural (FUENTES et al., 2008). O termo comportamento deve ser entendido de forma bem abrangente, o que inclui: Fonte: masata / Shuttersock. nossas percepções (visão, olfato, a identificação de um rosto etc.); javascript:void(0) / Fonte: masata / Shuttersock. pensamentos, emoções, memórias; Fonte: masata / Shuttersock. comportamentos no mundo externo (a fala, o caminhar etc.). Para a Neuropsicologia, só conseguimos realizar tudo isso porque há uma integridade dos módulos neurais que cuidam de cada uma dessas habilidades, e porque eles funcionam de forma organizada. Os primeiros estudos na área de Neurociência Cognitiva ocorreram a partir de indivíduos com lesões cerebrais: as funções cognitivas eram prejudicadas ou perdidas na medida em que havia um prejuízo no tecido nervoso (THOMPSON, 2005). FUNÇÕES COGNITIVAS javascript:void(0) / Também chamadas genericamente de cognição ou funções neuropsicológicas. São as habilidades funcionais com substrato neural correspondente, que auxiliam o organismo na convivência com seu ambiente interno e externo. Exemplos: sensação, percepção, memória, atenção, emoção, linguagem, funções executivas etc. Fonte: FUENTES et al., 2008; LENT, 2008. EXEMPLO Diante de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou de uma lesão por acidente, havendo lesão no tecido cerebral, o paciente pode apresentar alterações nas funções mentais e, por conseguinte, em suas atividades da vida diária. Utilizando muitos exemplos correlatos das mesmas áreas lesionadas e funções perdidas, a Neuropsicologia consegue correlacionar áreas e funções, propiciando uma enormidade de testes para avaliação neuropsicológica, que se aproxima da psicológica. AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA Avaliação das funções cognitivas. Assim, ficou evidente que há duas organizações no Sistema Nervoso: Morfológica – ou seja, física, estrutural; Funcional – pois as estruturas têm funções específicas. Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem horizontal VERIFICANDO O APRENDIZADO / 1. AS HABILIDADES FUNCIONAIS QUE PERMITEM AO NOSSO ORGANISMO GERAR SENSAÇÕES, SENTIMENTOS, EMOÇÕES, PERCEPÇÕES E COMPORTAMENTOS CORRESPONDEM: A) À Neuropsicologia. B) À Neuroimagem. C) Às funções neuropsicológicas. D) Ao Sistema Nervoso Central. 2. SOBRE AS FINALIDADES DAS NEUROCIÊNCIAS, É CORRETO AFIRMAR QUE: A) Estão dadas, uma vez que tal ciência já se desenvolveu por completo. B) Abrangem apenas conteúdos estritamente relacionados à Biologia. C) Relacionam-se a aspectos elementares e à compreensão dos substratos neurais de comportamentos complexos. D) São destacadas do desenvolvimento tecnológico. GABARITO 1. As habilidades funcionais que permitem ao nosso organismo gerar sensações, sentimentos, emoções, percepções e comportamentos correspondem: A alternativa "C " está correta. As funções neuropsicológicas ou cognitivas são habilidades funcionais na medida em que auxiliam o sujeito a se adaptar ao ambiente externo. A memória e a linguagem são outros exemplos dessas funções. 2. Sobre as finalidades das Neurociências, é correto afirmar que: A alternativa "C " está correta. As Neurociências estão em pleno desenvolvimento e, ao acompanhar o avanço da tecnologia, excedem a biologia do sistema neural. Assim, objetivam tanto estudar aspectos celulares quanto entender como comportamentos complexos auxiliam o organismo a se adaptara seu meio. Definir a organização morfofuncional do Sistema Nervoso Central / ORGANIZAÇÃO MORFOLÓGICA E FUNCIONAL DO SISTEMA NERVOSO CENTRAL A principal função do Sistema Nervoso, em geral, e do nosso cérebro, em particular, pode ser definida em uma palavra: adaptação. O Sistema Nervoso organiza-se de forma a oferecer ao organismo possibilidades de se adaptar ao meio ambiente (interno e externo), pois, mediante nosso comportamento, promove acomodações ou modificações nesse meio ambiente. Fonte: Halfpoint / Shutterstock. Neste módulo, vamos entender a organização morfofuncional do Sistema Nervoso Central (SNC) sob duas formas: Clique nos botões abaixo para ver as informações. Macroscópica Como visto a olho nu. e Microscópica Pensando na dimensão celular do tecido nervoso. ORGANIZAÇÃO MACROSCÓPICA DO SISTEMA NERVOSO CENTRAL O Sistema Nervoso é formado por duas partes: Sistema Nervoso Central (SNC) e Sistema Nervoso Periférico (SNP) (BRANDÃO, 2004). SNC Compreende o encéfalo e a medula espinhal. SNP Compreende os nervos, que, saindo do SNC, chegam aos órgãos e músculos, ou seja, até a periferia de nossos corpos. javascript:void(0) javascript:void(0) / Na figura a seguir, observamos a principal divisão do SN – porções central e periférica: Fonte: Conceitos.com. Divisão do Sistema Nervoso em suas porções (SNC e SNP). O Sistema Nervoso Central compreende: CÉREBRO CEREBELO TRONCO ENCEFÁLICO MEDULA ESPINHAL MEDULA ESPINHAL javascript:void(0) / Feixes de axônios e corpos de neurônios instalados no interior dos ossos da coluna espinhal. Estes três componentes formam o encéfalo. Os três primeiros componentes formam o encéfalo. O Sistema Nervoso Periférico compreende: GÂNGLIOS NERVOS CRANIANOS NERVOS MEDULARES GÂNGLIOS Grupos de corpos celulares de neurônios, localizados fora do SNC. Nosso maior interesse aqui é pelo Sistema Nervoso Central, mais especialmente pelo encéfalo, detalhado na figura a seguir: Legenda 1 - Cérebro 2 - Telencéfalo 3 - Diencéfalo 4 - Tronco cerebral 5 - Mesencéfalo javascript:void(0) / Fonte: Wikimedia Commons. Encéfalo e suas estruturas – visão em corte sagital medial. 6 - Ponte 7 - Bulbo 8 - Cerebelo 9 - Início da medula espinhal ATENÇÃO A medula espinhal não está no encéfalo, sendo parte integrante do Sistema Nervoso Central. O principal componente do SNC é o cérebro, conforme ilustrado na figura a seguir: Fonte: Alila Medical Media / Shutterstock. Divisão macroscópica do cérebro em hemisférios e lobos. Legenda A - Visão lateral do cérebro (neste caso, hemisfério esquerdo) mostrando os lobos cerebrais: lobo frontal (em vermelho), lobo parietal (em verde), lobo temporal (em azul) e lobo occipital (em amarelo). B - Posicionamento cerebral no interior do crânio e visão superior dos dois hemisférios cerebrais. C - Visão lateral do hemisfério esquerdo com detalhe da ínsula: um dos cinco lobos cerebrais (em vermelho). O cérebro é uma estrutura única, formada por dois hemisférios: direito e esquerdo (B). Ele também é composto por cinco lobos ou lóbulos, cujos nomes são, em sua maioria, referentes aos ossos cranianos correspondentes à localização: Lobo frontal, lobo parietal, lobo temporal, lobo occipital (A) e ínsula – não aparente a uma vista lateral ou externa, uma vez que se localiza em porções mais internas, por baixo da porção lateral do lobo temporal (C). / A organização do SNC como um todo e do cérebro, em específico, em hemisférios e lobos, também respeita certa topografia das funções desempenhadas por esse órgão. Cada um dos hemisférios e lobos têm ligação com funções específicas. A tabela a seguir apresenta as principais funções desempenhadas por estruturas do SNC: Estrutura do SNC Função Medula espinhal Comunicação entre as estruturas encefálicas e as do Sistema Nervoso Periférico: nervos que chegam aos órgãos e outras estruturas periféricas, como músculos e pele. Tronco encefálico (formado por mesencéfalo, bulbo e ponte) Regulação de funções vitais. Cerebelo Coordenação de comandos motores, ativação de ações motoras combinadas e concomitantes. Cérebro Comandos superiores, multimodais, normalmente com redundância de estruturas nos dois hemisférios. Hemisfério Direito Criatividade, musicalidade, incluindo a prosódia linguística. Hemisfério Esquerdo Linguagem, especialmente o aspecto motor, Matemática. Corpo caloso Estrutura de fibras que ligam os dois hemisférios cerebrais, promovendo o processamento inter-hemisférico. Lobo frontal Funções executivas (como o planejamento, a flexibilidade e o controle inibitório), memória operacional, atenção sustentada, linguagem (produção), comportamento motor. Lobo parietal Relações espaciais, processamento de faces, sensação/sensibilidade tátil. Lobo temporal Audição, compreensão da linguagem, memória, especialmente nas porções mediais do lobo. Lobo occipital Visão. javascript:void(0) / Ínsula Dor, desprazer. Principais funções desempenhadas por estruturas do SNC. Fonte: Adaptado de: BRANDÃO, 2004; PLISKA, 2005; THOMPSON, 2005; FUENTES et al., 2008. PROSÓDIA Aspectos não verbais da linguagem. Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem horizontal ATENÇÃO Afirmações que apontam que um hemisfério cerebral seria o único responsável por um tipo de função são, geralmente, generalizações errôneas. Hoje, sabemos que funções complexas, como a criatividade e a linguagem, por exemplo, são derivadas do funcionamento cerebral integrado, e não apenas resultantes da ativação em apenas uma região do encéfalo (THOMPSON, 2005). Nem mesmo os lobos cerebrais podem ser responsáveis por uma função de forma exclusiva, pelo mesmo motivo: a necessária integração para as funções complexas, que veremos mais à frente. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. SOBRE A ORGANIZAÇÃO DO SISTEMA NERVOSO, É INCORRETO AFIRMAR QUE: / A) O Sistema Nervoso se divide em Sistema Nervoso Central (SNC) e Sistema Nervoso Periférico (SNP). B) O Sistema Nervoso Central é composto pelo encéfalo e pela medula espinhal. C) O encéfalo é parte do Sistema Nervoso Central e é equivalente ao cérebro. D) O tronco cerebral, parte do encéfalo, compreende três estruturas. 2. SOBRE A ESTRUTURA CELULAR DO NEURÔNIO – PRINCIPAL CÉLULA DO SNC –, É CORRETO AFIRMAR QUE: A) O corpo do neurônio contém seu núcleo e a estrutura celular produz os neurotransmissores. B) Os axônios recebem as informações de outras células pelos botões terminais. C) O próprio neurônio é responsável pela produção da bainha de mielina do axônio. D) As vesículas de neurotransmissores concentram-se no corpo do neurônio. GABARITO 1. Sobre a organização do Sistema Nervoso, é incorreto afirmar que: A alternativa "C " está correta. O encéfalo é parte do Sistema Nervoso Central, mas é composto pelo cérebro, pelo cerebelo e pelo tronco cerebral. 2. Sobre a estrutura celular do neurônio – principal célula do SNC –, é correto afirmar que: A alternativa "A " está correta. Os botões terminais são importantes para a transmissão das informações, e não por sua recepção. A bainha de mielina é composta pelas glias, e as vesículas se concentram nas porções terminais do axônio. Descrever as etapas de desenvolvimento do Sistema Nervoso Central SISTEMA NERVOSO / Quando estudamos o tema de Neurociências Cognitivas, a estrutura já formada do Sistema Nervoso nos é apresentada. É importante, entretanto, compreender que sua organização morfofuncional é fruto de um rico processo de desenvolvimento que se inicia ainda nos estágios embrionários e se estende até o fim da vida. Respeitando a premissa básica de que toda função tem um substrato neural, esse desenvolvimento será sempre das estruturas e de suas funções. Em outras palavras, o organismo se aprimora em termos funcionais na medida em que seu Sistema Nervoso se desenvolve. Fonte: KateStudio / Shutterstock. Embrião humano com três semanas de vida. ETAPAS DE DESENVOLVIMENTO DO SISTEMA NERVOSO CENTRALA Neuropsicologia do desenvolvimento tem como objetivo estudar a integração entre áreas do cérebro, suas funções e o comportamento, tomando como foco os estudos do desenvolvimento humano. Assim, interessa-se pelas mudanças que ocorrem durante toda a vida, já que o desenvolvimento é um processo contínuo, mas especialmente voltado para as modificações que ocorrem nos estágios pré-natais, na infância e na adolescência. Esse interesse considerável se justifica por haver, nessas épocas, um cérebro em desenvolvimento. O desenvolvimento pré-natal do que virá a ser o encéfalo é um processo que ocorre com base nas seguintes etapas (DE LANA; HERINGER, 2018): 1 INDUÇÃO Produção maciça das células que formarão o tecido nervoso. / PROLIFERAÇÃO Sucessivas reproduções celulares (mitoses), o que multiplica o número de células. 2 3 MIGRAÇÃO As células vão sendo posicionadas em sua área cerebral apropriada. DIFERENCIAÇÃO Os neurônios vão se especializando, assumindo um tipo específico, de acordo com a função que desempenharão no futuro. 4 5 SINAPTOGÊNESE Formação das primeiras sinapses (conexões entre os neurônios). / MORTE CELULAR SELETIVA As células nervosas alocadas em regiões erradas ou as que falharam em formar conexões sinápticas apropriadas são mortas (processo de apoptose ou suicídio celular). 6 7 VALIDAÇÃO FUNCIONAL Fortalecimento das sinapses em uso (estimuladas) e enfraquecimento das sinapses não utilizadas (não estimuladas). Nesses estágios, podem ser observadas as modificações das estruturas do Sistema Nervoso Central, bem como o crescimento delas. VOCÊ SABIA Ao nascer, estima-se que um bebê possa ter até 100 bilhões de neurônios, porém os métodos para realizar essa quantificação ainda são imprecisos. Apesar de toda a rápida e impressionante transformação do encéfalo durante o período pré-natal, sabemos, hoje, que o desenvolvimento cerebral humano estará completo somente no final da adolescência ou no início da vida adulta, culminando com a mielinização de toda a rede neuronal – conceito que veremos mais adiante. Se for assim, então, por que nascemos, visto que nosso cérebro ainda não está pronto? Uma das primeiras respostas a essa pergunta está relacionada à questão anatômica: o nascimento implicará na passagem do crânio pelo canal vaginal, que seria estreito demais em relação ao volume do crânio de um adulto. / Fonte: Gorodenkoff / Shutterstock. Após o nascimento, o cérebro cresce muito, chegando ao quádruplo do tamanho original. Entretanto, esse crescimento não se deve a um aumento do número de neurônios, mas a três outros fatores listados a seguir (PINEL, 2005): SINAPTOGÊNESE A formação de novas sinapses (sinaptogênese) pode ocorrer de forma mais recorrente em determinadas áreas cerebrais. Isso ocorre em diferentes momentos do desenvolvimento e de modo variado em áreas distintas, respondendo por diferentes sistemas e funções. MIELINIZAÇÃO A mielinização consiste no processo de cobertura de muitos axônios de neurônios com um revestimento de mielina. Quando um axônio recebe a bainha de mielina, passa a ser capaz de transmitir a informação com mais velocidade. AUMENTO DA RAMIFICAÇÃO DENDRÍTICA No processo de aumento da ramificação dendrítica, os neurônios lançam seus dendritos. Da mesma maneira que nos processos de indução, migração, proliferação e sinaptogênese, a ramificação dendrítica ocorre primeiro nos neurônios mais profundos, para, depois, chegar aos mais superficiais. O desenvolvimento pós-natal, entretanto, não ocorre em sentido único. Além do crescimento e enriquecimento de sistemas, existem mudanças regressivas, que incluem a eliminação e a perda de neurônios em um processo denominado morte celular programada (apoptose) (HUTTENLOCHER, 1994). Em algumas áreas do encéfalo, esse processo chega a eliminar 80% da população neuronal. Além disso, há a perda de sinapses, quando a densidade destas atinge seu nível máximo. Da mesma forma que a sinaptogênese, esse processo regressivo ocorre em diferentes momentos, em áreas distintas do cérebro. EXEMPLO Por volta dos três anos de idade, o número de sinapses no córtex primário se iguala ao do cérebro adulto, enquanto no córtex pré-frontal (CPF), tal igualdade numérica não se estabelecerá até a adolescência. javascript:void(0) / CÓRTEX Palavra que se origina de “casca”. Trata-se da camada mais externa do cérebro. Esse “caminho inverso” é determinante para o desenvolvimento, visto ser essencial que alguns comportamentos desapareçam para que outros possam se desenvolver. ATENÇÃO O processo de perda de sinapses se orientará por sua estimulação ou não. Isso significa que sinapses estimuladas tendem a ser mantidas, determinando, assim, os processos de aprendizagem. O neurodesenvolvimento ocorre a partir da interação entre os neurônios e o meio ambiente (SALLES; HAASE; MALLOY-DINIZ, 2016). Além dos elementos relacionados ao ambiente interno – como neurotrofinas e moléculas de adesão celular, que influenciam na migração, na agregação e no crescimento neuronal –, outros fatores mais externos podem orientar o neurodesenvolvimento, como as experiências individuais de determinado organismo e os estímulos ambientais. A regra geral é: Sinapses que não são utilizadas devido à falta de estímulo acabam permanecendo inativas. A propriedade de neuroplasticidade é muito mais presente nas etapas iniciais do desenvolvimento, o que torna essa fase especialmente importante. NEUROPLASTICIDADE E PROGRAMAÇÃO NEURAL DE LONGO PRAZO Todos nós produzimos o mesmo Sistema Nervoso de acordo com nossa organização filogenética. Entretanto, variações específicas na transmissão do impulso nervoso, pela atividade sináptica, definem a atividade psicológica do indivíduo. É exatamente isso que dá forma à sua personalidade e individualidade. / Fonte: Giovanni Cancemi / Shutterstock. Esta capacidade plástica do Sistema Nervoso Central é chamada de neuroplasticidade e concede ao cérebro a propriedade de alteração de suas configurações morfo e fisiológica sob a influência dinâmica do ambiente (LENT, 2008, p. 614). A neuroplasticidade ocorre no nível dos neurônios (e suas projeções, como dendritos e axônio) e no nível das sinapses (LEUNER; GOULD, 2010), permitindo que o Sistema Nervoso Central esteja aberto a alterações provocadas pela interação do sujeito com seu meio (OLIVA; DIAS; REIS, 2009). O conceito de programação neural de longo prazo foi elaborado a partir de novos conhecimentos sobre o papel da cromatina, do desenvolvimento e da diferenciação celular, bem como da plasticidade neural a partir do campo de epigenética, fundamentando-se as origens “desenvolvimentais” do comportamento, da saúde e da doença (SWEATT et al., 2013). Aponta-se que as primeiras experiências influenciam na arquitetura cerebral, em sua função e nas capacidades do indivíduo (VAN DEN BERGH, 2011), pois: / Afetam a expressão genética e os caminhos neurais; Formam o estilo de processamento da emoção, regulando o temperamento e o desenvolvimento social; / Definem o estilo perceptual e a capacidade cognitiva, o que tem particular implicação nos aspectos cognitivos que envolvem os pacientes psiquiátricos; Estruturam a saúde física e mental, a atividade, o desempenho, as habilidades e o comportamento na vida adulta. A plasticidade ocorre em diferentes momentos e em distintas estruturas/regiões encefálicas, gerando períodos onde determinada estrutura está mais sensível que outra. Na figura a seguir, observamos uma ilustração gráfica que aponta essas diferenças, de acordo com a maturação das regiões do Sistema Nervoso Central e com os processos de neurodesenvolvimento: / Fonte: Adaptado de: GRAHAM-MCGREGOR et al., 2007. Formação de sinapses ao longo do desenvolvimento cerebral humano. Observe que, nos anos iniciais da infância, existe uma maior amplitude das curvas. Isso significa que, nestes anos, a atividade é mais intensa. A linha-seta aponta que o desenvolvimento sináptico dependeda atividade (experience- dependent) das células nervosas, valorizando a interação com o ambiente. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. SOBRE O NEURODESENVOLVIMENTO, É INCORRETO AFIRMAR QUE: A) A formação de novas sinapses ocorre em diferentes momentos do desenvolvimento e de modo variado em áreas cerebrais distintas. B) A mielinização consiste no processo de cobertura de muitos axônios de neurônios com um revestimento de mielina, mas não se relaciona com o neurodesenvolvimento. C) O neurodesenvolvimento ocorre a partir da interação entre os neurônios e o meio ambiente, como as experiências individuais de determinado organismo e os estímulos ambientais. D) A propriedade de neuroplasticidade é muito mais presente nas etapas iniciais do desenvolvimento, mas persiste por toda a vida. 2. NO INÍCIO DO NEURODESENVOLVIMENTO, O SISTEMA NERVOSO ESTÁ SENSÍVEL AOS PROCESSOS DE APRENDIZAGEM QUE PRODUZIRÃO MODIFICAÇÕES PERMANENTES EM ALGUMAS ESTRUTURAS NEURAIS. ESSA IDEIA ESTÁ MAIS INTIMAMENTE RELACIONADA AO CONCEITO DE: A) Validação funcional. B) Programação neural de longo prazo. / C) Mudanças regressivas. D) Plasticidade sináptica. GABARITO 1. Sobre o neurodesenvolvimento, é incorreto afirmar que: A alternativa "B " está correta. A mielinização é parte integrante do desenvolvimento neural inicial e responde por um aprimoramento do funcionamento do Sistema Nervoso. Algumas funções só se estabelecem de forma completa com a maturação da mielinização das regiões correspondentes no Sistema Nervoso. 2. No início do neurodesenvolvimento, o Sistema Nervoso está sensível aos processos de aprendizagem que produzirão modificações permanentes em algumas estruturas neurais. Essa ideia está mais intimamente relacionada ao conceito de: A alternativa "B " está correta. O conceito de programação neural de longo prazo se correlaciona à ideia de que as primeiras experiências influenciam na formação da arquitetura cerebral, em sua função e nas capacidades. Relacionar a integração cerebral com o funcionamento neuropsicológico FUNCIONAMENTO NEUROPSICOLÓGICO Como temos reforçado, o funcionamento do Sistema Nervoso ocorre de forma integrada. Isso é essencial para a adequação das funções que desempenha. Neste módulo, evidenciaremos que as funções cognitivas são integrativas, porque se baseiam em um funcionamento neural também integrativo. NEUROPSICOLOGIA Neurociências / Psicologia Neuropsicologia A Neuropsicologia é um ramo das Neurociências e da Psicologia. Como já apontado, ela afirma que todas as funções de um indivíduo (cognitivas, emocionais ou comportamentais, internas ou externas) são baseadas em um substrato neural e em seu correto funcionamento (FUENTES et al., 2008). Áreas especializadas agem de modo coordenado e integrado para que as funções possam ocorrer. Os objetivos da Neuropsicologia são os mais diversos, entre os quais destacamos o estudo de: Lesões do Sistema Nervoso e seus desdobramentos; Modelos neurais de transtornos – como a depressão, os transtornos do neurodesenvolvimento, como o TDAH etc.; / Os efeitos de programas de reabilitação neuropsicológica. ATENÇÃO Quando o objetivo se refere ao estudo do funcionamento cognitivo, a Neuropsicologia se confunde com as Neurociências Cognitivas. Por isso, nosso estudo é tão importante. Em nosso podcast, falaremos sobre as principais diferenças. Esse saber encontra aplicações práticas em uma série de áreas do conhecimento. Portanto, é relevante para a atuação profissional em diversas áreas, como as de Saúde e Educação. Veja a seguir os principais conceitos neuropsicológicos: Clique nas figuras abaixo para ver as informações. Fonte: ksenvitaln / Shutterstock Funcionamento cognitivo Conjunto das funções neuropsicológicas ou cognitivas. Trata-se sempre de um conjunto individual, uma vez que as trajetórias de desenvolvimento neural também são individuais. Podemos intuir que cada indivíduo terá pontos fortes e javascript:void(0) / fracos em seu desempenho cognitivo. Fonte: ksenvitaln / Shutterstock Déficit cognitivo Funcionamento cognitivo (geral ou específico, em termos de uma ou outra função cognitiva) de um indivíduo considerado abaixo da média esperada para sua idade, seus anos de escolaridade e outras características sociodemográficas reconhecidamente associadas ao desempenho cognitivo. Fonte: ksenvitaln / Shutterstock Rebaixamento cognitivo Declínio do funcionamento cognitivo de um indivíduo comparado com seu desempenho anterior. javascript:void(0) javascript:void(0) / FUNÇÕES NEUROPSICOLÓGICAS A história da ciência da Neuropsicologia é marcada pelo estudo de pacientes lesionados no cérebro. Aqueles com lesões em determinadas áreas do Sistema Nervoso Central perdiam a capacidade de exercer algumas das suas Atividades da Vida Diária (AVDs) – indicativas de seu funcionamento cognitivo subjacente – mas preservavam outras. Os estudos mais aprofundados da área auxiliaram na construção de um entendimento de que havia, então, uma multiplicidade de funções e de sua relativa independência. VOCÊ SABIA As funções cognitivas se expressam em animais, ainda que de forma rudimentar, em escala evolutiva, demonstrando sua conservação ao longo da evolução das espécies. A tabela a seguir apresenta, de forma introdutória, as funções cognitivas, sua breve descrição, bem como exemplos e áreas cerebrais associadas: Função cognitiva Descrição Exemplos Áreas cerebrais Sensação Capacidade de decodificar o ambiente físico (externo e interno) Visão, audição, olfato, tato, paladar, propriocepção Córtices sensoriais dos lobos correspondentes Percepção Compreensão dos estímulos sensoriais de modo integrado e com sentido Percepção de faces e de objetos complexos Lobo parietal Atenção Seleção das informações relevantes no ambiente Atenção sustentada e alternada Sistema atencional supervisor, córtex pré-frontal, córtex parietal, mesencéfalo Memória e aprendizagem Armazenamento e acesso a informações aprendidas Memória de curto e longo prazos, memória explícita e implícita (emocional, condicionamento, procedimentos motores) Córtex pré-frontal, lobo temporal (especialmente a porção medial), estruturas límbicas, núcleos da base, cerebelo / Integração sensório- motora Organização do comportamento a partir das percepções Comportamento motor, habilidades visuoconstrutivas Córtex motor, lobo parietal, medula cerebral Linguagem Capacidade de compreensão e de produção de signos linguísticos para a comunicação Escrita, fala, gestos Córtices sensoriais, área de Wernicke, área de Broca, córtex pré-frontal Funções executivas Adaptação do indivíduo a seu meio, de forma organizada e regulada Planejamento monitorização, flexibilidade, iniciação, controle inibitório, memória operacional Córtex pré-frontal Motivação e emoção Regulação do comportamento e adaptação ao meio social Motivação extrínseca e intrínseca, processamento emocional (percepção, regulação e expressão das emoções) Estruturas subcorticais, sistema límbico Funções cognitivas. Fonte: Adaptado de: COSENZA; GUERRA, 2001; FUENTES et al., 2008. Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem horizontal FUNÇÕES COMPLEXAS E INTEGRAÇÃO CEREBRAL Pela tabela apresentada, fica evidenciado que o funcionamento cognitivo requer a participação de diversos componentes do Sistema Nervoso Central. Somente para fins didáticos, podemos separar as funções cognitivas. No mundo concreto, considerando o funcionamento dos indivíduos em suas Atividades da Vida Diária, as funções cognitivas atuam de forma integrada e interdependente, como ilustrado no esquema a seguir: / Fonte: A AUTORA, 2020. Integração das funções cognitivas. Sob coordenação das funções executivas, o indivíduo, ativado por uma emoção, motiva-se na direção de focar a atenção em determinado estímulo, que será processado pela sensopercepção, gerando o traço necessário para a memória e o consequenteaprendizado. A ideia aqui é compreender como essa integração ocorre em nível do substrato neural subjacente. As funções cognitivas apontadas anteriormente requerem o funcionamento dos córtices do cérebro, conforme mostra a figura: Fonte: Adaptado de: THE HUMAN MEMORY. Córtex cerebral. Todos os lobos são cobertos de córtices (substância cinzenta), que contêm os corpos dos neurônios. Os prolongamentos axonais dos neurônios do córtex formam, juntos, a chamada substância branca. SUBSTÂNCIA BRANCA Filamentos, feixes e origens dos nervos que se encaminham para a medula espinhal. Fonte: THOMPSON, 2005. Alexander Luria foi um dos pesquisadores mais proeminentes da Neuropsicologia (FUENTES et al., 2008). Ele formulou a compreensão de que o córtex está organizado em unidades funcionais, que incluem: ALEXANDER LURIA (1902-1977) javascript:void(0) javascript:void(0) / Neurologista russo, considerado um dos pioneiros da Neuropsicologia atual. Ele estabeleceu uma relação entre os mecanismos cerebrais e as funções intelectuais do ser humano. Além disso, realizou várias investigações relacionadas a pacientes que sofriam lesões cerebrais e sua reintegração social. Fonte: RUIZA; FERNÁNDEZ; TAMARO, 2004. ÁREAS PRIMÁRIAS Áreas mais básicas e monomodais, como as áreas visuais primárias do córtex occipital e as áreas motoras primárias do giro pré-central do córtex frontal, que lidam apenas com uma modalidade sensorial específica: a visão e a audição, respectivamente. ÁREAS SECUNDÁRIAS Áreas associativas visuais, que nos permitem a compreensão perceptual, com mais sentido, dos estímulos visuais. ÁREAS TERCIÁRIAS Áreas de associação multimodais, que integram e processam diversas modalidades sensoriais para criar uma percepção completa do estímulo que seja, simultaneamente, visual, espacial, auditivo e mnemônico. É o caso da junção têmporo-parieto-occipital e do córtex pré-frontal. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. SOBRE AS FUNÇÕES NEUROPSICOLÓGICAS, É CORRETO AFIRMAR QUE: A) As funções cognitivas são independentes, pois podem ser estudadas separadamente. B) As funções cognitivas são desempenhadas exclusivamente pelos córtices cerebrais. C) O desempenho do indivíduo nas atividades do dia a dia independe do seu funcionamento neuropsicológico. D) Para um funcionamento neuropsicológico adequado, é imprescindível a participação coordenada de uma gama de funções cognitivas. / 2. CONSIDERE O SEGUINTE CAMINHO PERCORRIDO PELA INFORMAÇÃO NO SISTEMA NERVOSO CENTRAL: I. ÓRGÃO SENSORIAL (OUVIDO) – PARA A TRANSDUÇÃO DO IMPULSO FÍSICO EM ELÉTRICO, QUE POSSA SER PROPAGADO PELOS AXÔNIOS ATÉ O CÉREBRO. II. ÁREA AUDITIVA PRIMÁRIA – APENAS A SENSAÇÃO DE UM ESTÍMULO SONORO. III. CÓRTEX AUDITIVO DE ASSOCIAÇÃO – COMPREENSÃO DE OUVIRMOS PALAVRAS. IV. ÁREA DE WERNICKE – INTEGRAÇÃO E COMPREENSÃO DA INFORMAÇÃO LINGUÍSTICA. V. ÁREA TERCIÁRIA (CÓRTEX PRÉ-FRONTAL) – PARA A CORRETA ORGANIZAÇÃO E GERAÇÃO DA RESPOSTA. VI. ÁREA MOTORA ASSOCIATIVA DA FALA – ÁREA DE BROCA. VII. ÁREA MOTORA PRIMÁRIA – PARA A PREPARAÇÃO DA RESPOSTA MOTORA DOS DEDOS, DOS PUNHOS E DAS MÃOS. É POSSÍVEL SUPOR QUE O INDIVÍDUO ESTEJA ENGAJADO EM QUAL DAS ATIVIDADES A SEGUIR? A) Transcrevendo algo que está escrito em um quadro. B) Copiando a resposta de uma informação lida. C) Ouvindo uma questão e a respondendo por escrito. D) Respondendo oralmente a uma pergunta escrita. GABARITO 1. Sobre as funções neuropsicológicas, é correto afirmar que: A alternativa "D " está correta. Embora possam ser estudadas separadamente, as funções cognitivas ou neuropsicológicas agem de forma integrada, bem como requerem a participação integrada do Sistema Nervoso, e não só do córtex cerebral. Essas funções têm relação intrínseca com as Atividades da Vida Diária do indivíduo, promovendo sua adaptação ao meio. 2. Considere o seguinte caminho percorrido pela informação no Sistema Nervoso Central: I. Órgão sensorial (ouvido) – para a transdução do impulso físico em elétrico, que possa ser propagado pelos axônios até o cérebro. II. Área auditiva primária – apenas a sensação de um estímulo sonoro. III. Córtex auditivo de associação – compreensão de ouvirmos palavras. IV. Área de Wernicke – integração e compreensão da informação linguística. V. Área terciária (córtex pré-frontal) – para a correta organização e geração da resposta. VI. Área motora associativa da fala – área de Broca. VII. Área motora primária – para a preparação da resposta motora dos dedos, dos punhos e das mãos. É possível supor que o indivíduo esteja engajado em qual das atividades a seguir? / A alternativa "C " está correta. A informação é auditiva, uma vez que está chegando às áreas sensoriais primárias auditivas. Identificar diferentes modalidades de exames do funcionamento cerebral IMAGIAMENTO DO FUNCIONAMENTO CEREBRAL Desde os primeiros estudos em Neurociência Cognitiva, sempre houve uma preocupação com a utilização de metodologias e de instrumentos de alta qualidade. Embora as pesquisas neuropsicológicas se dedicassem ao estudo de indivíduos com lesão, com o advento de tecnologias seguras, pôde-se avançar na compreensão do funcionamento normal do Sistema Nervoso, em especial do Sistema Nervoso Central e do cérebro. Fonte: ORION PRODUCTION / Shutterstock A neuroimagem surgiu como instrumento de estudo fundamental para o avanço em pesquisas na área (FUENTES et al., 2008), atendendo aos diferentes objetivos já tratados aqui. Com essa ferramenta, é possível conhecer a estrutura e a integridade dos componentes do Sistema Nervoso Central, tanto em termos morfológicos quanto, mais recentemente, em termos funcionais. Atualmente, estão à disposição dos pesquisadores das áreas de Neurociências Cognitivas dois conjuntos de ferramentas de neuroimagem: as técnicas estruturais e as técnicas funcionais. / TÉCNICAS FUNCIONAIS DE NEUROIMAGEM As técnicas chamadas funcionais não se restringem apenas a mostrar as estruturas do Sistema Nervoso Central, mas nos apresentam uma possibilidade de estudar seu funcionamento. O pressuposto básico para compreender a aplicabilidade desse tipo de neuroimagiamento é o seguinte: As estruturas no Sistema Nervoso Central requeridas para determinada função ou determinado conjunto de funções apresentarão alterações em seu metabolismo. Afinal, quando ativadas, precisarão de mais aporte de oxigênio e glicose para o funcionamento das células nervosas locais. Se pudermos traçar esses compostos, bem como o uso de neurotransmissores e a ativação de receptores e transportadores celulares, poderemos ver online quais áreas atuam em determinada atividade desempenhada pelo indivíduo que está sendo mapeado. Clique nas figuras abaixo para ver as informações. Fonte: ksenvitaln / Shutterstock As técnicas mais conhecidas e difundidas são as variações da Tomografia Computadorizada, como o PET-Scan e o SPECT, que se utilizam de compostos radioativos temporários para conhecer a perfusão cerebral. javascript:void(0) javascript:void(0) / Fonte: ksenvitaln / Shutterstock De modo especial, a Ressonância Magnética Funcional (fMRI, na sigla em inglês), reconhecida no campo, mapeia a “movimentação” da hemoglobina. Fonte: ksenvitaln / Shutterstock Surgida mais recentemente, a Tomografia Óptica Difusa (DOT, na sigla em inglês) utiliza a defração da luz projetada por eletrodos através do crânio. A técnica mede a absorção óptica da hemoglobina e depende de seu espectro de absorção, variando com o estado de oxigenação. PERFUSÃO CEREBRAL javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) / Rota dos compostos requeridos pelas áreas ativas naquela atividade. HEMOGLOBINA Molécula que carrega oxigênio para as células. MODALIDADES DE IMAGIAMENTO FUNCIONAL As técnicas funcionais são as mais relevantes para o estudo recente das Neurociências Cognitivas. ATENÇÃO As aplicações derivam do estudo das bases neurais do funcionamento cognitivo normal (aplicáveis às áreas de Saúde e Educação), bem como da compreensão das diferençasde processamento cognitivo em indivíduos com perfis distintos de déficits neurocomportamentais. Nesse último caso, os exames são úteis para a compreensão do funcionamento do indivíduo e podem orientar serviços de reabilitação neurocognitiva e de psicofarmacologia, bem como acompanhar os efeitos desses recursos ao longo do tempo. Para ilustrar, apesentamos a seguir um exemplo de mapa construído a partir de um exame funcional: Adaptado de: BRANDÃO, 2004, p. 181. / Exemplos de mapas de ativação de regiões cerebrais na execução em quatro diferentes tarefas ligadas à linguagem. A barra colorida lateral indica o nível de ativação da área cerebral. Observamos aqui a variação do local de maior ativação das regiões cerebrais conforme a tarefa. Nos mapas de imagiamento funcional do cérebro, as escalas coloridas informam maior e menor ativação. Nesta figura, quanto mais próximo das cores vermelha, laranja e amarela, maior será a ativação das áreas correspondentes. Como vimos, uma das técnicas mais atuais e promissoras no campo das neuroimagens funcionais para a área de Neurociência Cognitiva é a Tomografia Óptica Difusa (DOT). Na figura a seguir, apresentamos um exemplo de pesquisa que oferece uma comparação entre o exame de fMRI e a DOT: Traduzido de: EGGEBRECHT et al., 2014. Mapeamento cerebral com duas técnicas de neuroimagem cerebral funcional Legenda fMRI = Ressonância Magnética Funcional HD-DOT = Tomografia Óptica Difusa de Alta Densidade Note que a terceira linha de cérebros contém a sobreposição: um comparativo dos resultados dos dois exames (fMRI e DOT), demonstrando sua acurácia, bem como a relativa especificidade das áreas cerebrais em funções distintas. Clique nos botôes para ver as informações. LOBO FRONTAL LOBO TEMPORAL javascript:void(0) javascript:void(0) / Fonte: DandelionFly / Shutterstock. LOBO PARIETAL LOBO OCCIPTAL LOBO TEMPORAL 1. Ativação da área auditiva primária Quando o indivíduo tem seu cérebro mapeado enquanto ouve palavras. LOBO OCCIPTAL 2. Silenciamento das áreas auditivas com consequente ativação das áreas visuais primárias Na leitura encoberta (sem fala) de uma palavra, observamos este silenciamento, coerente com o fato de o indivíduo não estar ouvindo sons. LOBO PARIETAL 3. Ativação de regiões parietais e frontais javascript:void(0) javascript:void(0) / Promovida pela imaginação da fala da palavra lida, sem, no entanto, pronunciá-la. LOBO FRONTAL 4. Ativação das áreas associativas frontais Na geração encoberta de verbos relacionados à palavra lida, ocorre a expressiva ativação destas áreas, uma vez que se trata de uma habilidade de alta complexidade em termos de manipulação de informação na memória de trabalho. O campo das Neurociências Cognitivas está em constante expansão, uma vez que o avanço tecnológico e metodológico propicia novas perguntas e novos objetivos de estudo do complexo funcionamento do Sistema Nervoso. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. CONSTITUEM EXEMPLOS DE EXAMES DE NEUROIMAGEM FUNCIONAL, EXCETO: A) Imagem de tensor de difusão. B) Ressonância Magnética Funcional. C) Tomografia Óptica Difusa. D) Tomografia Computadorizada. 2. COM EXAMES DE NEUROIMAGEM ESTRUTURAL, NÃO É POSSÍVEL VERIFICAR: A) As lesões nos diferentes tecidos do encéfalo. B) A reatividade de regiões do cérebro frente a estímulos. C) O volume de áreas e estruturas. D) Os indicativos de conectividade entre áreas. GABARITO 1. Constituem exemplos de exames de neuroimagem funcional, exceto: A alternativa "D " está correta. / A Tomografia Computadorizada é uma técnica de imagiamento estrutural e não compõe os exames que podem avaliar o funcionamento do Sistema Nervoso Central. 2. Com exames de neuroimagem estrutural, não é possível verificar: A alternativa "B " está correta. A reatividade cerebral frente a estímulos é um exemplo do funcionamento cerebral, que pode ser avaliado por outras técnicas de imagiamento, como a fMRI e o PET-Scan. CONCLUSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS As Neurociências e todos os conhecimentos a elas relacionados são realmente complexos, porque envolvem uma gama de saberes muito ampla. Entretanto, isso não significa que se trate de um conhecimento inalcançável ou que deva ser apresentado apenas a especialistas da área. É fundamental possuir essas noções acerca de nosso Sistema Nervoso Central e, consequentemente, do funcionamento cerebral, para compreendermos um pouco mais sobre as especificidades que nos definem como espécie humana. A partir das nossas indicações, esperamos que você possa se aprofundar no mundo das Neurociências. REFERÊNCIAS BRANDÃO, M. L. As bases biológicas do comportamento: introdução à Neurociência. São Paulo: EPU, 2004. COSENZA, R. M.; GUERRA, L. B. Neurociência e educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre: ArtMed, 2001. COWAN, W. M. The development of the brain. Scientific American, v. 241, n. 3, p. 112-133, set. 1979. DE LANA, E.; HERINGER, N. Efeitos do estresse na aprendizagem: contribuições das Neurociências cognitivas. In: ALVES, J. M. et al. Abordagens cognitivo-comportamentais no contexto escolar. Novo Hamburgo: Synopsis, 2018. EISENBERG, N. Handbook of child psychology. 6. ed. New York: Wiley, 2006. (Social, emotional and personality development, v. 3, p. 226-299). / EGGEBRECHT, A. T. et al. Mapping distributed brain function and networks with diffuse optical tomography. In: Nature photonics, v. 8, n. 6, p. 448-454, 2014. FUENTES, D. et al. Neuropsicologia: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed, 2008. GRAHAM-MCGREGOR, S. et al. Developmental potential in the first 5 years for children in developing countries. In: Lancet, v. 396, n. 9.555, p. 60-70, 2007. HOLMES, A. et al. Galanin GAL-R1 – receptor null mutant mice display increased anxiety-like behavior specific to the elevated plus-maze. In: Neuropsychopharmacology, v. 28, p. 1.031-1.044, 2003. HUTTENLOCHER, P. R. Synaptogenesis, synapse elimination and neural plasticity in human cortex. In: NELSON, C. A. (ed.). Threats to optimal development: the Minnesota symposium on child psychology. v. 27, p. 35-54. Hillsdale: Lawrence Erlbaum, 1994. LANDEIRA-FERNANDEZ, J.; MONTARROYOS CALLEGARO, M. Pesquisas em Neurociência e suas implicações na prática psicoterápica. In: CORDIOLLI, A. V. (org.). Psicoterapias: abordagens atuais. 2. ed. Porto Alegre: ArtMed, 2007. p. 851-872. LENT, R. Neurociência da mente e do comportamento. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. LEUNER, B.; GOULD, E. Structural plasticity and hippocampal function. In: Annual Review of Clinical Psychology, v. 61, p. 111-140, 2010. OLIVA, A. D.; DIAS, G. P.; REIS, R. Plasticidade sináptica: natureza e cultura moldando o self. In: Psicologia: reflexão e crítica, v. 22, n. 1, p. 128-135, 2009. PINEL, J. P. J. Biopsicologia. Porto Alegre: ArtMed, 2005. PLISKA, S. R. Neurociência para o clínico de saúde mental. Porto Alegre: Artmed, 2005. RUIZA, M.; FERNÁNDEZ, T.; TAMARO, E. Alexander Luria. Barcelona: Biografías y Vidas, 2004. SALLES, J. F.; HAASE, V. G.; MALLOY-DINIZ, L. F. Neuropsicologia do desenvolvimento: infância e adolescência. Porto Alegre: Artmed, 2016. SWEATT, D. et al. 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Descubra como funcionam as regiões cerebrais e o que acontece quando ocorre uma lesão. Cada estrutura detalhada traz informações sobre as funções, os distúrbios e os danos cerebrais, bem como estudos de caso e links para uma pesquisa aprofundada. CONTEUDISTA Érica de Lana Meirelles CURRÍCULO LATTES javascript:void(0); / DEFINIÇÃO A importância da linguagem e os centros de controle da linguagem no cérebro humano. Funções executivas clássicas; processamento encefálico de funções executivas; memória de trabalho; controle inibitório; flexibilidade cognitiva e redes frontais executivas. Emoções primárias, secundárias e de fundo; teorias da emoção; amígdala e medo; córtex pré-frontal e processamento emocional da tomada de decisão. PROPÓSITO Perceber que a linguagem, os comportamentos motivados, nossas emoções e as funções executivas são essenciais para respostas adequadas à vivência em sociedade como conhecemos, compreendendo, dessa forma, que identificar as bases neurais de tais processos é importante para que se entenda as diferentes respostas humanas, bem como suas adaptações. / OBJETIVOS MÓDULO 1 Identificar os principais locais de processamento da linguagem no cérebro humano MÓDULO 2 / Reconhecer as principais funções cognitivas processadas pelo controle executivo, discernindo a relevância de tais processos na adequação de respostas ao ambiente MÓDULO 3 Identificar a importância do processamento de emoções na tomada de decisões, a influência dos estados motivacionais e os locais encefálicos relacionados aos sentimentos INTRODUÇÃO / IMAGINE A SEGUINTE SITUAÇÃO: Um professor em uma sala de aula (virtual ou não). Ele precisa explicar conceitos específicos sobre determinado assunto aos seus alunos. Para tal, ele organizou previamente um plano de aula, no qual estruturou suas ideias principais e a ordem dos assuntos que serão abordados. O professor inicia sua fala, e os alunos ouvem o discurso e fazem anotações em seus cadernos, tablets e smartphones. A comunicação se estabeleceu e foi bem-sucedida. O professor conseguiu com sucesso passar sua mensagem, que foi transmitida por meio do uso da linguagem verbal e não verbal. Além de sua fala, o professor providenciou imagens sobre o assunto em questão, que isso facilitou o entendimento da matéria. Nesse processo, tanto o professor quanto os alunos realizaram diversas atividades, na sala ou mesmo antes de chegar a ela; das mais simples (como amarrar o cadarço do tênis) às mais complexas (como elaborar esquemas, gráficos e imagens que facilitem a compreensão de determinado conteúdo). Fonte: Shutterstock / FUNÇÕES EXECUTIVAS AÇÕES E ATITUDES DIRETAMENTE ASSOCIADAS A PARTES ESPECIFICAS DO CÉREBRO Por isso, todas essas atitudes são funções executivas, que estão diretamente ligadas a partes específicas de nosso cérebro. Ao mesmo tempo, não somos capazes de compreender como aconteceria a cena hipotética que mencionamos sem imaginarmos se o professor chegou bem-humorado ou não, ou se algum aluno sequer anotou uma frase, já que se recusava a dar atenção àquele que lhe deu nota 2,0 na prova anterior. Fonte: Shutterstock Você já se deu conta de como seriam as relações humanas se elas fossem desprovidas de emoção? / TALVEZ NÃO, MAS A VERDADE É QUE AS EMOÇÕES SÃO TÃO NECESSÁRIAS COMO HABILIDADES ADAPTATIVAS QUANTO OS MECANISMOS DE TOMADA DE DECISÃO. DESSA FORMA, COMPREENDER COMO A EMOÇÃO É PROCESSADA NO CÉREBRO PODE TRAZER INFORMAÇÕES RELEVANTES SOBRE O COMPORTAMENTO HUMANO EM DIFERENTES SITUAÇÕES. É EXATAMENTE ISSO QUE VAMOS ESTUDAR AGORA! MÓDULO 1 IDENTIFICAR OS PRINCIPAIS LOCAIS DE PROCESSAMENTO DA LINGUAGEM NO CÉREBRO HUMANO POR QUE ESTUDAR A LINGUAGEM? Mas, o que é linguagem, afinal? / Podemos defini-la como um sistema de comunicação com regras específicas para que um emissor envie mensagens a um receptor, de maneira que a mensagem principal seja compreendida. Fonte: Shutterstock Os sistemas de comunicação abrangem algumas especificações. São elas: Clique nos itens a seguir. SISTEMA DE COMUNICAÇÃO PRÓPRIO AVANÇO TECNOLÓGICO EVOLUÇÃO HUMANA Embora alguns animais, incluindo primatas não humanos, possuam sistemas de comunicação próprios, a linguagem humana, sem dúvidas, é a mais complexa. Basta observarmos como a língua de determinado local sofre mudanças com o tempo: recebe novas palavras, criam-se neologismos, termos, gírias. Com o avanço da tecnologia e das realizações humanas em todas as áreas, novas palavras e novos vocabulários são criados a fim de acompanharem o desenvolvimento da sociedade. Sem contar as palavras que são absorvidas das mais diversas línguas e modificadas para se ajustarem às regras gramaticais de outra localidade. Com certeza, nossas tataravós não saberiam dizer o que é um drone ou um smartphone. Entretanto, ambos fazem parte de nossa vida no presente e sabemos seus significados e suas funções. / A linguagem, portanto, é uma adaptação fundamental na evolução dos seres humanos, e não é formada apenas de sons específicos, mas envolve ainda gestos e expressões faciais, que trazem emoção ao discurso. Durante muito tempo, o estudo da linguagem humana limitou-se a ensaios e testes com pacientes com lesões cerebrais, cujos danos restringiram aspectos da linguagem. Porém, com o avanço da tecnologia de imagens, foi possível inserir a Neurociência no processo de investigação das áreas cerebrais voltadas à linguagem, o que possibilitou uma compreensão maior do fenômeno. ALGUNS ASPECTOS DA LINGUAGEM A linguagem pode ser desmembrada em componentes mais específicos; por exemplo, a linguagem verbal inclui a vocalização de sons e a compreensão dos mesmos via sistema auditivo. Dessa maneira, dependendo do tipo de linguagem utilizada, haverá um pareamento de sistemas para a compreensão da mensagem. Quando a linguagem utilizada for escrita, o sistema visual será encarregado de receber tais estímulos. Se a linguagem utilizada for o braille, por exemplo, o sistema somestésico será o primeiro a receber as informações necessárias para que a comunicação ocorra. Linguagem verbal javascript:void(0) javascript:void(0) / Fonte: Shutterstock BRAILLE Sistema de escrita com pontos em relevo que as pessoas privadas da visão podem ler pelo tato e que lhes permite também escrever; anagliptografia. SISTEMA SOMESTÉSICO O sistema somestésico está ligado à percepção tátil. / Fonte: Shutterstock Quando comparamos a linguagem verbal falada com a linguagem escrita, por exemplo, entendemos que a primeira possui fortes bases neurais, uma vez que, nos primeiros meses de vida, os seres humanos já são capazes de iniciar processos de aprendizagem neste campo. Ao passo que a escrita ocorre em etapas posteriores da vida e depende de uma educação formal, o que nem sempre ocorre. No entanto, a linguagem deve ser considerada universal, no sentido de que todas as sociedades apresentam sistemas bem definidos de regras e se comunicam, ao menos, verbalmente. A universalidade da linguagem nos traz a ideia de que tal fenômeno é inato ao ser humano e que, provavelmente, existam áreas específicas no cérebro para o processamento desses dados. Linguagem universal / Fonte: Shutterstock Seguem, então, alguns conceitos comuns utilizados na área de linguagem: FONEMA São unidades formadoras das palavras. São sons distintos, cuja junção resulta em palavras e frases. SINTAXE Estrutura de regras gramaticais para associação de palavras em frases. SEMÂNTICA Trata-se da compreensão do significado das palavras. PROSÓDIA São inflexões, entonações de voz, gestos e expressões faciais que acompanham a fala. ÁREAS ENCEFÁLICAS ENVOLVIDAS NA FALA / Você já se deu conta que a associação entre regiões cerebrais e a fala é uma descoberta relativamente recente? EXATAMENTE! DURANTE MUITO TEMPO, ACREDITOU-SE QUE TODOS OSPROCESSOS DE REGULAÇÃO DA FALA SE DAVAM APENAS EM NÍVEIS INFERIORES, MAIS ESPECIFICAMENTE OS MÚSCULOS DA BOCA, LÍNGUA E LARINGE. A partir de 1770, vieram os primeiros indícios de que áreas encefálicas estariam associadas a problemas na fala. Porém, em 1863, o neurologista francês Paul Broca publicou um artigo relatando vários casos de indivíduos com lesões nos lobos frontais, especificamente no hemisfério esquerdo, nos quais a linguagem estava comprometida. No ano seguinte, Broca propôs que havia dominância do hemisfério esquerdo no que diz respeito à linguagem em relação ao hemisfério direito. PAUL BROCA javascript:void(0) / Paul Broca (1824-1880) nasceu na França. Logo após concluir o curso de Medicina na Universidade de Paris (1844), tornou-se professor de Patologia Cirúrgica. Sua maior contribuição à Neurologia foi a identificação, no cérebro, do centro do uso da palavra (área de Broca). Confira, então, alguns aspectos relacionados as áreas encefálicas e a relação entre os problemas na fala. PROCEDIMENTO DE WADA O procedimento de Wada – uma técnica mais moderna desenvolvida por Juhn Wada no Instituto Neurológico de Montreal – pode comprovar tal afirmativa. Esse procedimento consiste na administração de um barbitúrico de ação rápida pela artéria carótida de apenas um dos lados do pescoço, o que faz com que apenas um hemisfério seja anestesiado. Dentre os efeitos transitórios, estão: paralisia do corpo no lado contralateral à injeção e problemas na execução de tarefas que, especificamente, são controladas pelo hemisfério anestesiado. Observe a figura: Utilizando anestésicos de ação rápida, é possível anular as funções de um único hemisfério e observar as atividades que ele regula. Dessa forma, foi possível associar a anestesia do hemisfério esquerdo e a total incapacidade de fala. Em 96% dos destros e em 70% dos canhotos, o hemisfério esquerdo é dominante para a fala. Apenas em uma parcela muito pequena da população observa-se bilateralidade da fala. javascript:void(0) / Fonte: Shutterstock Procedimento de Wada ÁREA DE BROCA A área que Broca identificou como a responsável pela articulação da fala acabou ficando conhecida como área de Broca. Complementando o estudo, o neurologista alemão Karl Wernicke mostrou que lesões no hemisfério esquerdo, fora da área de Broca, também resultam em dificuldades na fala. Tal área ficou conhecida como área de Wernicke e localiza-se próximo ao córtex auditivo e ao giro angular. Apesar de tais áreas, ainda hoje, serem implicadas em aspectos da linguagem, sabe-se que seus limites não estão totalmente esclarecidos e podem ser ainda mais abrangentes. javascript:void(0) / Fonte: Shutterstock Componentes principais do sistema de linguagem no hemisfério esquerdo JUHN WADA Juhn Wada (Japão, 1924) desenvolveu pesquisas na área de epilepsia, incluindo sua descrição do teste de Wada para domínio hemisférico cerebral da função da linguagem. Suas principais áreas de interesse são: assimetrias do cérebro humano e neurobiologia da epilepsia. Além disso, há variações entre os indivíduos, já que existem questões genéticas associadas à linguagem. Como o cérebro e suas estruturas são plásticos e mutáveis frente aos diferentes estímulos ao longo da vida, os circuitos podem sofrer variações de um indivíduo para o outro. KARL WERNICKE / Karl Wernicke (1848-1905) nasceu na região da Prússia (onde hoje é a Polônia/Alemanha). Estudou Neurologia, buscando identificar doenças nervosas de áreas específicas do cérebro. Dedicou-se a pesquisar distúrbios que implicam na funcionalidade da fala e escrita. O ESTUDO DAS AFASIAS E O MODELO DE WERNICKE-GESCHWIND Você já percebeu que parte dos estudos sobre a linguagem e sua associação com áreas encefálicas advém da análise de casos de afasias? É ISSO MESMO! A AFASIA É A PERDA PARCIAL OU COMPLETA DA FALA, RESULTANTE DE LESÕES ENCEFÁLICAS. NA MAIORIA DAS VEZES, ISSO ACONTECE SEM QUE HAJA PERDA COGNITIVA OU DA CAPACIDADE DE MOVER OS MÚSCULOS ENVOLVIDOS NA FALA. / A afasia de Broca é caracterizada pela perda da capacidade de fala, com preservação da compreensão do que é ouvido ou lido. Pessoas com essa síndrome apresentam fala difícil e telegráfica com recorrente anomia, ou seja, incapacidade de encontrar nomes. Tal anomia é seletiva, uma vez que palavras de conteúdo, como substantivos, verbos e adjetivos, são frequentemente utilizadas. Já palavras de função, como artigos, conjunções e pronomes, não são utilizadas e não fazem parte das frases. Conclui-se que a afasia de Broca está relacionada a algum tipo de dificuldade motora na articulação da fala, uma vez que a compreensão é mantida, porém a externalização das palavras, não. Fonte: Shutterstock AFASIA DE BROCA Também conhecida como afasia motora ou não fluente, pois a pessoa tem dificuldade em falar mesmo que possa entender a linguagem falada ou lida. Caracterizada por dificuldades no discurso, incluindo uma ampla gama de sintomas. O discurso dos pacientes é frequentemente telegráfico e custoso, vindo em rompantes desiguais. javascript:void(0) / Wernicke sugeriu que a área lesada na afasia de Broca poderia ser responsável pelo controle motor na articulação de sons e palavras. Tal ideia faz sentido quando percebemos que a área de Broca está localizada próximo à área do córtex motor, que controla a boca e a língua. Entretanto, em alguns pacientes com essa síndrome, observa-se a possibilidade de eles falarem palavras como bee (abelha, em inglês), mas nota-se igualmente a incapacidade de pronunciar palavras foneticamente similares como be (ser, em inglês). Conclui-se, portanto, que o problema estaria na distinção entre palavras de função e palavras de conteúdo, e não em problemas meramente motores, como muitos pesquisadores da área afirmam. Acompanhe mais alguns aspectos sobre a afasia de Wernicke. TAREFA NÃO VERBAL / Devido ao fluxo de fala incompreensível, é difícil verificar com a afasia de Wernicke se está havendo ou não compreensão do que é dito ou escrito. Dessa forma, designa-se determinada tarefa não verbal para verificar a compreensão do paciente. Por exemplo, pode-se pedir ao indivíduo que coloque determinado objeto sobre outro. O que se observa é que não há capacidade de compreensão mesmo para tarefas simples como essa. SONS DE ENTRADA / Da mesma maneira que a área de Broca fica perto de regiões motoras que controlam boca e língua, a área de Wernicke localiza-se próximo ao córtex auditivo. Tal associação pode induzir à ideia de que tal área está relacionada aos sons de entrada e seus significados. Em outras palavras: seria uma área de formação de memória entre sons e seus significados, o que gera a compreensão da palavra propriamente dita. REGULAÇÃO DA LINGUAGEM / Ainda em seu estudo com afásicos, Wernicke propôs um modelo de processamento de linguagem no encéfalo, o qual foi complementado por Norman Geschwind. Esse modelo, conhecido por Modelo de Wernicke-Geschwind, acaba sendo uma simplificação do que ocorrem em termos de regulação da linguagem na realidade. NORMAN GESCHWIND Norman Geschwind (1926-1984) nasceu nos Estados Unidos e teve como foco de interesse a Neurologia Comportamental. Curiosamente, ele ingressou em Harvard para estudar Matemática; porém, a Psicologia chamou sua atenção ao observar os soldados na Segunda Guerra Mundial (quando ele serviu ao Exército), agindo de forma irracional nos combates. Para compreendermos esse modelo, vamos considerar duas situações distintas: repetição de palavras e a leitura em voz alta de um texto escrito. javascript:void(0) / REPETIÇÃO DE PALAVRAS Nesse caso, as informações chegam ao encéfalo via sistema auditivo até o córtex auditivo. Este, por sua vez, processa as informações recebidas, as quais somente serão reconhecidas como palavras com significado quando processadas na área de Wernicke. As palavras serão finalmente pronunciadas depois que as informações chegarem à área de Broca, onde comandosneurais serão enviados às regiões motoras responsáveis pelo controle da língua e dos músculos associados à fala. Fonte: Shutterstock Repetição de palavras faladas (Modelo de Wernicke-Geschwind). LEITURA EM VOZ ALTA DE UM TEXTO ESCRITO Já nessa situação, em que a tarefa é a leitura de um texto escrito, o processo final é similar, mas o início difere pelo fato de o sistema de entrada ser o visual, e não o auditivo. Nesse caso, as informações chegam ao córtex visual, são processadas e passam ao giro angular, onde serão novamente processadas e transformadas em sinais de saída para a área de Wernicke, como se fossem sinais falados, e não escritos. / O processo final é o mesmo do caso anterior, com as informações sendo levadas à área de Broca e, então, para o córtex motor. Fonte: Shutterstock Repetição de palavras escritas (Modelo de Wernicke-Geschwind) SIMPLIFICAÇÕES DO MODELO DE WERNICKE- GESCHWIND Embora coerente, o modelo acaba simplificando demais certos aspectos. Por exemplo, as informações visuais podem chegar diretamente à área de Broca, sem passar pelo giro angular. As informações visuais não precisam ser transformadas em informações auditivas, como sugerido. Além disso, sabe-se atualmente que os danos nas afasias de Broca e Wernicke dependem da extensão das áreas lesadas e de regiões não mencionadas no modelo, como o núcleo caudado e o tálamo (ambas áreas subcorticais). Outro aspecto importante reside no fato de que, em um acidente vascular cerebral (AVC), a borda limítrofe das lesões é variável, o que pode incluir ou não áreas de relevância à linguagem e que acabaram excluídas do modelo. Foram reportados ainda estudos que evidenciam a recuperação de áreas lesadas, ou ainda a substituição de função por áreas anteriormente não relacionadas à linguagem, o que agrava a / compreensão dos quadros. Vários casos de afasia são acompanhados de disfunções da fala e da compreensão ao mesmo tempo. Dessa forma, foram propostos modelos mais complexos de análise, mas que mantêm alguns aspectos básicos do modelo de Wernicke-Geschwind. Fonte: Shutterstock AFASIA DE CONDUÇÃO Clique nas setas para ver o conteúdo. / Fonte:Shutterstock Feixe arqueado – fibras responsáveis pela conexão entre as áreas de Broca e Wernicke. Outro tipo de afasia existente é a afasia de condução, na qual ocorre desconexão entre as áreas de Broca e Wernicke. Tal perda de conectividade ocorre devido a lesões no fascículo arqueado, um conjunto de fibras que conectam ambas as áreas de linguagem. Nesse tipo de afasia, a compreensão e a fala são mantidas. Entretanto, como há perda da comunicação entre as áreas, há perda da capacidade de repetir palavras. O paciente até pode ouvir uma palavra ou frase e compreender o que foi dito, mas será incapaz de repeti-la em voz alta da forma correta. ESPECIALIZAÇÃO HEMISFÉRICA Quando Paul Broca apresentou seus trabalhos sobre a prevalência do hemisfério esquerdo na formação da linguagem, a comunidade científica entendeu e aceitou que haveria dominância de tal hemisfério em relação ao direito, que teria apenas funções secundárias e coadjuvantes. Entretanto, o conceito de dominância hemisférica tornou-se ultrapassado; o que se entende atualmente é o conceito de especialização, e não dominância. A especialização hemisférica se traduz em hemisférios distintos, cada qual especializado em um grupo de funções. Porém, ambos trabalham em conjunto, integrados por milhões de fibras denominadas comissuras cerebrais. / Fonte: Shutterstock Comissuras cerebrais O conceito de especialização é correlacionado a outros dois conceitos: o de lateralidade e assimetria. Clique nos itens a seguir. LATERALIDADE ASSIMETRIA A lateralidade ocorre quando não há bilateralidade em alguma função e algum hemisfério acaba sendo responsável por determinada função majoritariamente. O conceito de assimetria é mais amplo e pode ser considerado sob a ótica de diversas modalidades: assimetrias morfológicas, funcionais e comportamentais. ASSIMETRIAS MORFOLÓGICAS Uma observação precisa ser feita para que nenhuma informação seja considerada de forma simplista. O conceito de especialização hemisférica não pode ser traduzido como se o hemisfério esquerdo fosse inteiramente responsável pela fala e o direito, pelas javascript:void(0) / emoções, por exemplo. Tais fatos incorrem em afirmações que carecem de necessária comprovação científica. Se quiser se aprofundar nesse assunto, visite o Explore+ ao final no tema. Ainda sobre esse estudo, utilizou-se pacientes cujas comissuras foram seccionadas a fim de evitar crises epilépticas fortes, é possível pesquisar as especialidades hemisféricas fornecendo estímulos que serão processados apenas por um lado do cérebro. Por meio de tais estudos, foi possível localizar as especializações e associá-las aos seus respectivos hemisférios, como também perceber o papel das comissuras na integração dos hemisférios. Por exemplo, quando falamos, veiculamos tanto informações cognitivas quanto afetivas, e isso se dá por integração entre os hemisférios. A prosódia é codificada pelo hemisfério direito, enquanto o esquerdo regula a compreensão linguística e a fala. Fonte: Shutterstock Especialização hemisférica COMISSURAS Conjunto de fibras que têm a função de ligar um hemisfério do cérebro a outro. javascript:void(0) / Acredita-se que a única generalização permitida quando se trata de especialização hemisférica é a de que o hemisfério esquerdo trata de funções mais específicas, enquanto o direito regula funções mais globais. Com o avanço das técnicas de imagem, foi possível observar em mais detalhes a ativação de partes específicas do encéfalo quando da execução de determinadas tarefas. Os resultados obtidos por ressonância magnética funcional de interferência (IRMf) e tomografia por emissão de pósitrons (TEP) mostram certa bilateralidade na execução de tarefas ligadas à linguagem, indo de encontro ao que se observa majoritariamente por meio de exames com pacientes lesionados ou em situações de anestesia hemisférica, como no teste de Wada. Fonte: Shutterstock VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. A IDEIA DE HEMISFÉRIOS DOMINANTES NÃO É MAIS ACEITA DESDE QUE SE ENTENDEU QUE OS HEMISFÉRIOS SE COMPLEMENTAM EM FUNÇÕES, NÃO NECESSARIAMENTE EXECUTANDO AS MESMAS / AÇÕES, MAS ESPECIALIZANDO-SE. SOBRE A FALA E ESPECIALIZAÇÃO HEMISFÉRICA, É POSSÍVEL AFIRMAR QUE: A) O hemisfério esquerdo é o único responsável pela execução da fala. B) Ambos os hemisférios estão envolvidos na construção da linguagem. C) As comissuras permitem a comunicação entre neurônios do mesmo hemisfério. D) Tanto em indivíduos destros quanto em indivíduos canhotos observa-se em igual proporção a dominância do hemisfério esquerdo. 2. GRANDE PARTE DOS ESTUDOS QUE DERAM ORIGEM À ÁREA DE NEUROCIÊNCIA DA LINGUAGEM ADVÉM DE PACIENTES COM LESÕES ORIUNDAS DE CIRURGIAS OU LESÕES CAUSADAS POR ACIDENTES VASCULARES QUE CULMINARAM EM AFASIAS ESPECÍFICAS. ENTRETANTO, EMBORA NOS OFEREÇAM INFORMAÇÕES RELEVANTES SOBRE FUNÇÕES COMPROMETIDAS A PARTIR DAS LESÕES, ALGUNS DADOS CONTRAPÕEM TAIS ESTUDOS. ASSINALE A AFIRMATIVA CORRETA SOBRE O ASSUNTO: A) As afasias podem variar em sintomas devido ao tamanho e à região das lesões que as geraram, trazendo alguns indícios de que as regiões definidas originalmente possuem limites variáveis. B) Apesar de as técnicas de imagem serem resultados mais específicos, a observação de sintomas em afásicos traz mais detalhes sobre as áreas estudadas. C) As áreas de Broca e Wernicke são específicas, respectivamente, no controle de compreensão da linguagem e controle do aspecto motor da linguagem. D) As lesões que resultam em afasias fornecem dados bastante acurados sobre a localização dos circuitos referentes à formação de linguagem, tanto em compreensão quanto em resposta motora. GABARITO 1. A ideia de hemisférios dominantes não é mais aceita desde que se entendeu que os hemisférios se complementam em funções, nãonecessariamente executando as / mesmas ações, mas especializando-se. Sobre a fala e especialização hemisférica, é possível afirmar que: A alternativa "B " está correta. Apesar de a maioria das regiões designadas para a fala estarem localizadas no hemisfério esquerdo, o conjunto de informações resultantes da fala inclui processamento linguístico do hemisfério esquerdo, mas também processamento prosódico, o qual é resultado do hemisfério direito. 2. Grande parte dos estudos que deram origem à área de Neurociência da Linguagem advém de pacientes com lesões oriundas de cirurgias ou lesões causadas por acidentes vasculares que culminaram em afasias específicas. Entretanto, embora nos ofereçam informações relevantes sobre funções comprometidas a partir das lesões, alguns dados contrapõem tais estudos. Assinale a afirmativa correta sobre o assunto: A alternativa "A " está correta. As lesões que ocasionam afasias são, normalmente, oriundas de AVCs, os quais podem variar em extensão e fatores associados. Dessa maneira, os dados relacionados a tais condições podem não ser exatamente específicos em termos de localização e função relacionada. Os exames de imagens podem proporcionar mais dados associados, facilitando o estudo de tais regiões no encéfalo. MÓDULO 2 RECONHECER AS PRINCIPAIS FUNÇÕES COGNITIVAS PROCESSADAS PELO CONTROLE EXECUTIVO, DISCERNINDO A RELEVÂNCIA DE TAIS PROCESSOS NA ADEQUAÇÃO DE RESPOSTAS AO AMBIENTE CONTROLE EXECUTIVO / A IMPORTÂNCIA DAS FUNÇÕES EXECUTIVAS Já parou para pensar sobre qual a Importância das funções executivas? TODOS OS DIAS, EXECUTAMOS DIVERSAS ATIVIDADES E RESPONDEMOS AO AMBIENTE COM COMPORTAMENTOS NORMALMENTE ADEQUADOS ÀS SITUAÇÕES. VAMOS AO TRABALHO, À FACULDADE, DIRIGIMOS, PEGAMOS TRANSPORTES, DEPARAMO-NOS COM PESSOAS, POR VEZES DESCONHECIDAS, E LIDAMOS COM SITUAÇÕES, ORA CORRIQUEIRAS, ORA DESAFIADORAS Em paralelo, para criar respostas adequadas aos estímulos, nosso encéfalo (composto por cérebro, cerebelo, tronco encefálico), por meio de suas inúmeras e complexas conexões neurais, processa tais estímulos e adiciona ainda componentes emocionais, memórias e outros aspectos que compõem nossas reações. Em outras palavras, nossas ações externalizadas são resultado de uma série de processos executivos coordenados, ou seja, existe um comando executivo atuando a todo momento na mediação de nossas respostas frente aos estímulos recebidos constantemente. / Fonte: Shutterstock Componentes do encéfalo. POR EXEMPLO, IMAGINE-SE NA SEGUINTE SITUAÇÃO: Você está entrando em um restaurante para almoçar com seu chefe. Você nunca esteve nesse restaurante; ainda assim, você sabe exatamente o que fazer. Você decide o prato que vai pedir levando em consideração suas preferências alimentares, o custo-benefício de seu pedido e sua dieta recém-iniciada. Paralelamente, você está preocupado com as respostas que dará ao seu chefe, já que, claramente, esse almoço é um teste. Você decide rapidamente quais informações dará e de que maneira o fará utilizando a linguagem adequada à situação. Com certeza, não trará à tona o atraso do mês anterior, a não ser que seu chefe aborde o assunto. Você provavelmente não vai beber do copo dele nem dar uma garfada no risoto de camarão que ele pediu. Também não contará piadas. Por que trouxemos tal exemplo? / PORQUE, EMBORA PAREÇAM AÇÕES COMUNS, PESSOAS COM DISFUNÇÕES EXECUTIVAS, DEPENDENDO DA REGIÃO AFETADA, PODEM TER DIFICULDADES PARA ATUAR EM TAL SITUAÇÃO. ATENÇÃO Na verdade, o domínio executivo permite que consigamos planejar, flexibilizar quando necessário e autorregular nossos processos mentais e comportamentais. O CASO PIONEIRO O conceito de função executiva veio da percepção de que indivíduos com sérios problemas comportamentais e de personalidade podem apresentar resultados normais (ou até superiores em desempenho) em testes cognitivos padronizados. É o caso de Phineas Gage, o indivíduo cujo acidente com uma barra de ferro modificou sua vida e as pesquisas sobre o funcionamento do cérebro (na verdade, encéfalo). / Fonte: Wikipédia Simulação dos danos de conectividade e crânio de Phineas Gage Em 1848, Gage, que trabalhava na construção de uma estrada de ferro nos Estados Unidos no auge de seus 25 anos de idade, teve a cabeça atravessada de baixo para cima por uma barra de ferro de 1m de comprimento e 30mm de diâmetro. Incrivelmente, foi levado com vida ao hospital, onde detectou-se a perda de parte do lobo frontal esquerdo. Gage perdeu a visão e ficou com o rosto paralisado no lado onde a barra o atingiu. Embora suas funções cognitivas estivessem aparentemente intactas, Gage foi incapaz de retornar ao trabalho devido a mudanças drásticas em seu comportamento. Dentre elas, apresentava-se mais agressivo e menos respeitoso com quem interagisse, principalmente se fosse contrariado. Passou parte de sua vida posterior ao acidente exibindo-se em circos com sua barra de ferro. Faleceu junto à família de mal epiléptico. O caso relatado nos mostra a importância da função executiva ou do controle executivo. Phineas apresentou resultados adequados em testes padronizados de funções cognitivas como memória, capacidade de realizar cálculos, além de testes relacionados à linguagem. Entretanto, sua convivência em sociedade e a execução de seu trabalho foram afetados de forma drástica por mudanças nas funções executivas. Um dos axiomas da Neuropsicologia diz que o funcionamento executivo adequado gera autonomia ao indivíduo em relação ao meio ambiente. Confira alguns aspectos importantes desse tema: Clique nos itens a seguir. javascript:void(0) / AUTONOMIA PERDIDA X LESÕES AUTONOMIA PERDIDA X MEIO AMBIENTE Nesse caso, quando a autonomia é perdida por lesões específicas em áreas relacionadas ao controle executivo, perde-se parte da capacidade adaptativa ao ambiente. A perda de autonomia em relação ao ambiente está relacionada ao fato de que os estímulos externos, em situações onde a função executiva não está preservada, acabam por se tornar prevalentes em relação às vontades e aos planejamentos do indivíduo. AXIOMAS Axioma, originário da Lógica, corresponde a uma sentença inicial ou fundamento de alguma teoria sobre a qual se desenvolvem novos conceitos. Para compreender essa relação entre autônima perdida e o meio ambiente é necessário analisar um dos principais testes de função executiva: Você conhece o teste de Stroop ou teste de interferência cor-palavra? Neste teste, é pedido ao indivíduo que diga em voz alta, o mais rápido que conseguir, o nome das cores de uma sequência dada (figura 10). No primeiro caso, o estímulo é a imagem de círculos de cores diferentes. Na segunda etapa, ocorre o teste de interferência propriamente dito. O estímulo, agora, consiste na mesma sequência de cores. Porém, em vez de círculos coloridos, aparecem os nomes de cores impressos em cores incongruentes. AGORA É COM VOCÊ! FAÇA O TESTE DE STROOP! Instrução: Você irá precisar de um marcador de tempo, um cronômetro para esse teste. / ETAPA 1: Leia em voz alta, o mais rápido que conseguir, o nome das cores disponíveis na figura. Marque o tempo que você gastou para realizar essa leitura. / ETAPA 2: Leia em voz alta, o nome escrito das cores na figura. Marque, também, o tempo que você gastou para realizar essa leitura. Teste de Stroop. À esquerda, prancha com estímulos de denominação de cores. À direita, prancha com estímulos de interferência cor-palavra (os nomes são impressos em cores incongruentes). QUAL O TEMPO QUE VOCÊ GASTOU PARA REALIZAR A LEITURA DE CADA TESTE? Neste teste, com os tempos anotados em cada tarefa, verifica-se que pessoas cujas funções executivas estão íntegras, ocorre uma diferença de, em média, dez segundos entre a primeira etapa e a segunda. Fonte: Shutterstock No entanto, como tal teste comprova a integridade (ou não) das funções executivas? Entenda! A leitura exerce certo predomínio sobre a denominação de cores em pessoas alfabetizadas.Dessa maneira, o estímulo sensorial da palavra escrita acaba sendo mais forte do que o / estímulo de denominação da cor impressa. Para obter sucesso no teste, o indivíduo deve suprimir a tendência natural de ler a palavra escrita, o que indica flexibilidade e autonomia sobre os estímulos ambientais. Já os indivíduos que não possuem as funções executivas íntegras levam muito mais tempo para executar a segunda parte do teste, pois tendem a verbalizar o nome da cor impressa. COMPONENTES PREFERENCIAIS DAS FUNÇÕES EXECUTIVAS Clique nas setas para ver o conteúdo. Existem diversas abordagens ao se nomear as funções executivas (FE). É possível encontrar listas extensas do que seriam ou são tais funções. Porém, antes disso, é importante compreender que a ideia de controle executivo é algo maior, por trás de funções cognitivas como a memória e a atenção, por exemplo. / Além disso, tal controle superior tem por objetivo, dependendo da situação, exercer um direcionamento de nossas funções cognitivas. Em outras palavras, existem funções cognitivas que nos permitem compreender o mundo, dar atenção aos estímulos adequados e reagir a eles. Acima de tais funções, está o comando executivo gerenciando como todas essas funções serão orquestradas a fim de retornar uma ação adaptativa. Apesar de ser possível encontrar listas com componentes distintos, entende-se que os principais elementos de controle executivo são: Clique nos itens a seguir. MEMÓRIA DE TRABALHO FLEXIBILIZAÇÃO COGNITIVA CONTROLE INIBITÓRIO Esse tipo de memória gerencia a nossa capacidade de reter e manipular informações distintas por curto espaço de tempo. Tal função permite que consigamos realizar tarefas sequenciais com início, meio e fim, sem se perder em meio às informações. Indivíduos com lesões no córtex pré-frontal podem apresentar distúrbios de memória de trabalho e, com isso, tornam-se incapazes de ler um texto extenso ou cozinhar, por exemplo. Ao ler um texto, é necessário memória de trabalho para que se possa lembrar do parágrafo anterior e dar sentido ao que se está lendo. É esse tipo de memória que possibilita a realização de cálculos mentalmente e a estruturação de pensamentos complexos que dependam de várias informações simultâneas. Essa função executiva visa sustentar ou alternar atenção em resposta a diferentes demandas ou, ainda, auxilia a aplicar diferentes regras a situações adequadas. Por exemplo, um indivíduo faz seu caminho até a faculdade todos os dias. Entretanto, em um dia específico, pode ser que ele necessite passar no banco antes de ir à faculdade e, assim, terá de modificar seu trajeto habitual. Parece algo simples de se fazer, já que há um objetivo: passar no banco. Entretanto, / pessoas com lesões do córtex pré-frontal podem se mostrar incapazes de reorientar seus trajetos, já que a “regra” original é manter o caminho até a faculdade diariamente. É a habilidade utilizada no controle de nossos impulsos, a fim de que resistamos a distrações e hábitos e consigamos parar antes de reagir. Esse tipo de controle permite a atenção seletiva e sustentada, além da capacidade de priorizar tarefas a fim de alcançar objetivos pré- estabelecidos. Está correlacionada diretamente aos processos de controle emocional. Em resumo, o controle executivo é evocado quando é necessário suplantar respostas prepotentes, ou seja, respostas habituais e que são mais fortes do que as novas ações requeridas. Em outras palavras, as funções executivas são necessárias quando é preciso atuar de forma contrária a um hábito fortemente adquirido. HÁBITO FORTEMENTE ADQUIRIDO Quando alguma ação é repetida por nós muitas vezes, cria-se um hábito. Neurologicamente, isso significa que houve a criação de um circuito específico que se repete em looping toda vez que um gatilho é apresentado. É o caso da mulher que, todo dia, pontualmente às 15h, deixa sua mesa de trabalho e vai até a cantina do trabalho comprar um bolo. Talvez ela nem esteja com fome, talvez esteja entediada, mas, para quebrar a rotina, inseriu esse hábito. Logo, o gatilho, nesse caso, pode ser o tédio em meio ao trabalho da tarde. Toda vez que esse gatilho se apresenta, a mulher associa a ele uma ação, que, no caso, é a compra (e consequente ingestão) do bolo. Tal circuito é quase automático, pois uma ação ou percepção leva à outra, e as respostas são quase imediatas. Entretanto, caso ela resolva abandonar esse hábito, terá de utilizar suas funções executivas para suplantar a vontade de obter recompensa imediata comendo o doce. ATENÇÃO O controle executivo atua de forma antagônica às formas automáticas de processamento. Estas formas automáticas de processamento de estímulos exercem o controle bottom-up, ou javascript:void(0) / seja, de baixo para cima, significando que os estímulos sensoriais (sentidos) e suas associações criaram um hábito. REDES EXECUTIVAS FRONTAIS: ANATOMIA DAS FUNÇÕES EXECUTIVAS Uma vez que entendemos que as funções executivas são vitais para a adaptação ao ambiente, resta conhecer as regiões responsáveis por tal atuação. Os primeiros indícios de localização de um sistema de controle executivo advêm de estudos em lesões cerebrais que resultam em síndromes cognitivas peculiares, como as observadas no caso de Phineas Gage. Tais síndromes levam a localizações que remetem às regiões de lobos frontais. Fonte: Shutterstock Lobos cerebrais Durante algum tempo, entendeu-se que os lobos frontais eram o epicentro das funções executivas, visto que alojam uma série de áreas importantes relacionadas a processos cognitivos, como linguagem e áreas motoras, por exemplo. Entretanto, a maior parte das síndromes que levam a disfunções de comportamento convergem para a região específica do córtex pré-frontal (CPF). / Tal região é dividida em 3 partes: córtex dorsolateral, córtex orbitroventral e córtex frontomedial. Fonte: Shutterstock Regiões do córtex pré-frontal O córtex pré-frontal possui inúmeras conexões com áreas cerebrais. Compreenda mais algumas: O CPF possui grande número de conexões com áreas cerebrais que processam informações externas, incluindo todos os sistemas sensoriais, além de áreas motoras corticais, assim como / informações internas das estruturas límbicas (centro da emoção) e mesoencefálicas. Logo, o CPF exerce importante função ao processar inúmeras informações internas e externas a fim de orientá-las no alcance de objetivos específicos. Não basta ver, ouvir e compreender informações; elas precisam ser coordenadas para gerar respostas adequadas. / Grande parte dos dados sobre o CPF advém, como dito anteriormente, de estudos em pacientes com lesões da área. A seguir, descreveremos algumas das funções executivas impactadas por danos no CPF. Confira, então, alguns aspectos relacionados córtex pré-frontal: CONTROLE INIBITÓRIO Pacientes com danos no CPF podem apresentar um comportamento conhecido como perseveração (ou perseverância), que consiste em manter comportamentos desencadeados por estímulos sensoriais, mas sem dar a eles a devida adequação circunstancial. É o caso de um indivíduo que, a cada vez que se depara com um copo de água, não resiste e toma todo o líquido, mesmo sem saber a quem pertence. PLANEJAMENTO Mesmo quando lesões do CPF mantêm intactas as unidades básicas de comportamento, a capacidade de organização pode ser perdida. Um indivíduo com lesões específicas no CPF pode apresentar dificuldades em ordenar certos comportamentos, como, por exemplo, a execução de uma receita. AVALIAÇÃO DE CONSEQUÊNCIAS Para gerar comportamentos direcionados a objetivos, é necessária a capacidade de avaliar as consequências de diversas ações. Pacientes com lesões do CPF, especialmente na área orbital, mostram-se incapazes de avaliar os prós e contras de suas ações, o que resulta em / decisões ruins em curto, médio e longo prazos. Pesquisas na área (DAMASIO, 1996) mostraram que o córtex pré-frontal orbital é capaz de associar pistas afetivas àsdecisões a serem tomadas, e tal associação emocional gera alto peso na tomada de decisões. Lesões nessa área específica tornam indivíduos inaptos em vários testes simples de tomada de decisão. APRENDIZAGEM E UTILIZAÇÃO DE REGRAS A habilidade de abstrair e generalizar regras é de extrema importância no contexto da aprendizagem. Entretanto, quando se perde tal função executiva, o indivíduo perde a capacidade de aplicar regras e moldá-las aos diferentes contextos. Nesses casos, a pessoa terá de lidar com cada nova situação na base de erros e acertos, pois é incapaz de reutilizar e adaptar regras aprendidas. Como você pode observar com o vídeo, essas funções e habilidades são desenvolvidas no Córtex pré-frontal, esse desempenha um papel relevante no controle executivo. Entretanto, algumas síndromes chamadas disexecutivas foram associadas a regiões não frontais. Vale destacar, que devido ao grande alcance de técnicas de imagem, é possível estabelecer que tais síndromes causadas por lesões situadas fora dos lobos frontais, mas em regiões ricamente associadas a eles por conexões podem ser diagnosticadas. VOCÊ JÁ COMPREENDEU A IMPORTÂNCIA DO CONTROLE EXECUTIVO EM NOSSA VIDA. NO ENTANTO, A PERGUNTA NATURAL QUE PODERIA SURGIR A PARTIR DE TAIS CONHECIMENTOS É: / TODOS NASCEM COM A PLENITUDE DE SUAS FUNÇÕES EXECUTIVAS? A resposta para essa pergunta é não! Mas, uma boa notícia é que tais funções e habilidades podem ser desenvolvidas ao longo da vida, a partir dos estímulos corretos. Em parte, não nascemos com elas porque os lobos frontais são os últimos a serem finalizados em termos de desenvolvimento cerebral. Por outro lado, ao longo da vida, concomitantemente ao desenvolvimento de tais estruturas, temos experiências e estímulos que auxiliam no desenvolvimento cada vez maior dessas habilidades, como é possível observar no gráfico a seguir. Fonte: Neurology, Weintraub e colaboradores, 2013. Curva de desenvolvimento de funções executivas Como mostra o gráfico, as funções executivas começam a ser desenvolvidas logo após o nascimento, com uma janela de oportunidade entre as idades de 3 e 5 anos. O crescimento em tais habilidades continua até a adolescência e o início da fase adulta. A proficiência começa a ocorrer em fases mais tardias da vida. VERIFICANDO O APRENDIZADO / 1. AS FUNÇÕES EXECUTIVAS SÃO ESSENCIAIS PARA A ADAPTAÇÃO DOS INDIVÍDUOS AO AMBIENTE E PERMITEM QUE AS RESPOSTAS E O COMPORTAMENTO SEJAM ADEQUADOS ÀS DIFERENTES SITUAÇÕES. APESAR DE EXISTIREM UMA SÉRIE DE FUNÇÕES CLASSIFICADAS COMO EXECUTIVAS, O CONTROLE EXECUTIVO PODE SER ENTENDIDO COMO: A) Uma série de regiões cerebrais relacionadas ao comportamento em sociedade. B) O controle inibitório exercido pelo córtex pré-frontal em quaisquer situações. C) A coordenação de diversas funções cognitivas a fim de gerar respostas adaptadas ao ambiente. D) A função principal do córtex pré-frontal, a única estrutura envolvida no controle de funções superiores. 2. DENTRE AS VÁRIAS FUNÇÕES EXECUTIVAS, UMA É PARTICULARMENTE IMPORTANTE PARA QUE SE LEVE UMA VIDA NORMAL EM TERMOS DE EXECUÇÃO DE TAREFAS ORGANIZADAS. PACIENTES COM LESÕES NO CÓRTEX PRÉ-FRONTAL EM ÁREAS ESPECÍFICAS PODEM ENCONTRAR DIFICULDADES EM LER TEXTOS, ORGANIZAR TAREFAS E LEMBRAR-SE DE SUA ÚLTIMA REFEIÇÃO, POR EXEMPLO. TAL FUNÇÃO EXECUTIVA ESTÁ RELACIONADA A: A) Controle inibitório. B) Planejamento. C) Memória de trabalho. D) Atenção. GABARITO 1. As funções executivas são essenciais para a adaptação dos indivíduos ao ambiente e permitem que as respostas e o comportamento sejam adequados às diferentes situações. Apesar de existirem uma série de funções classificadas como executivas, o controle executivo pode ser entendido como: / A alternativa "C " está correta. As funções executivas são, na verdade, o gerenciamento cerebral das principais funções cognitivas, e isso é feito por diversos circuitos. Dentre eles, alguns específicos envolvendo os lobos frontais e as áreas não corticais associadas. 2. Dentre as várias funções executivas, uma é particularmente importante para que se leve uma vida normal em termos de execução de tarefas organizadas. Pacientes com lesões no córtex pré-frontal em áreas específicas podem encontrar dificuldades em ler textos, organizar tarefas e lembrar-se de sua última refeição, por exemplo. Tal função executiva está relacionada a: A alternativa "C " está correta. A Memória de trabalho é aquela que confere ao indivíduo a capacidade de reter, por curto espaço de tempo, algumas informações a fim de manipulá-las em contextos distintos. A perda de tal capacidade é extremamente limitante, impedindo que funções simples, como a leitura de um texto ou a execução de tarefas ordenadas, sejam executadas. MÓDULO 3 IDENTIFICAR A IMPORTÂNCIA DO PROCESSAMENTO DE EMOÇÕES NA TOMADA DE DECISÕES, A INFLUÊNCIA DOS ESTADOS MOTIVACIONAIS E OS LOCAIS ENCEFÁLICOS RELACIONADOS AOS SENTIMENTOS O QUE É EMOÇÃO? / Fonte: Shutterstock É possível encontrar diversas definições de emoção, variando entre significados puramente linguísticos e outros mais biológicos. Compreenda mais alguns aspectos: Clique nos itens a seguir. BIOLÓGICO PERCEPÇÃO ESTADOS EMOCIONAIS Do ponto de vista biológico, as emoções representam um conjunto de reações fisiológicas, químicas e neurais que atuam como base para a organização de respostas comportamentais correspondentes. É importante compreender que as emoções são igualmente geradas e gerenciadas por sistemas neurais, os quais são capazes de lidar não somente com as respostas dadas frente às emoções, mas também com a percepção delas. Outro aspecto importante é a adaptação que os estados emocionais configuram para a sobrevivência da espécie. Sem as emoções, é muito difícil gerar respostas adequadas aos diferentes estímulos. Acompanhe um exemplo de como as emoções são essenciais em nosso dia a dia: Imagine a seguinte situação: Se um aluno perdesse a capacidade de se sentir triste após ser reprovado em uma prova, talvez não mobilizasse esforços a fim de obter melhor nota no próximo exame. Em casos mais drásticos, animais que não apresentam respostas comportamentais de medo quando ameaçados por predadores terão poucas chances de sobrevivência. / Fonte: Shutterstock CLASSIFICAÇÃO DAS EMOÇÕES HUMANAS As emoções podem ser classificadas de três maneiras: emoções primárias; emoções secundárias e emoções de fundo. As emoções primárias são inatas, ou seja, é comum a todos os seres humanos, independentemente de fatores socioculturais. Fonte: Shutterstock / O primeiro pesquisador a estudar o assunto foi ninguém menos que Charles Darwin. Ele observou que algumas expressões emocionais eram similares em diferentes culturas. Atualmente, os pensamentos de Darwin a respeito de emoções primárias foram corroborados por pesquisadores, em especial Paul Ekman, da Universidade da Califórnia. Basicamente, o consenso entre os pesquisadores da área reside nas seguintes emoções primárias: alegria, tristeza, medo, nojo, raiva e surpresa. Provavelmente consideradas inatas por serem indicadores de comportamentos de sobrevivência conservados na espécie humana. NA FIGURA É POSSÍVEL IDENTIFICAR ALGUMAS EMOÇÕES PRIMÁRIAS. OBSERVE A IMAGEM E TENTE PERCEBER AS SEGUINTES EMOÇÕES: ALEGRIA, MEDO, SURPRESA, NOJO E RAIVA. CHARLES DARWIN Charles Darwin (1809-1882) nasceu na Inglaterra e tem seu nome imediatamente ligado à Teoria da Evolução, pelo lançamento de sua obra A origem das espécies. Originário de família de cientistas, Darwin, após abandonar o curso de Medicina, viajou por vários países (inclusive o Brasil), ainda na primeira metade do século XIX, a fim de coletar informações sobre o que chamaria de “seleção natural das espécies”. Este conceito é a base de sua obra. PAUL EKMAN javascript:void(0) javascript:void(0) / Paul Ekman um dos mais renomados psicólogos contemporâneos. Aprofundou e sistematizou o estudo sobre expressões faciais humanas e criou um método para sua identificação.Além de autor de muitos livros e largamente premiado, já prestou consultoria para órgãos internacionais de investigação e até mesmo para series televisivas, como Lie to me. Fonte: Shutterstock Emoções primárias demonstradas por expressões faciais. Seguem, então, alguns conceitos comuns utilizados na área de linguagem: EMOÇÕES SECUNDÁRIAS As emoções secundárias são aquelas relacionadas a fatores socioculturais e, portanto, variam de um indivíduo para o outro, como, por exemplo, a vergonha. Determinado ato pode ser vergonhoso para uns, mas não para outros, dependendo das crenças e dos costumes de determinada sociedade, ou mesmo da formação pessoal do indivíduo. EMOÇÕES DE FUNDO Por fim, as emoções de fundo são aquelas relacionadas a estados de bem ou mal-estar, e podem ser associadas à percepção de estados internos do indivíduo. Portanto, sua classificação com as emoções não é consenso entre os pesquisadores. Um exemplo de emoção de fundo seria uma percepção de falta de energia (não cansaço) por parte de alguém. ATENÇÃO / Não confundir expressão emocional e experiência emocional. Enquanto a experiência faz referência aos estados emocionais que vivenciamos, como ansiedade, tristeza ou raiva, a expressão está relacionada às mudanças fisiológicas resultantes da base neural das emoções, como respostas hormonais, motoras e comportamentais. AS TEORIAS SOBRE EMOÇÕES Várias teorias foram postuladas sobre como as emoções são formadas e processadas. Entretanto, duas teorias são de especial interesse, por serem, de certa forma, antagônicas, apesar de não haver consenso no meio científico sobre qual se aplica à realidade de forma plena. Uma dessas teorias é a dos pesquisadores William James e Carl Lange e foi proposta em 1884. Fonte: Shutterstock WILLIAM JAMES javascript:void(0) javascript:void(0) / William James (1842-1910) William James nasceu nos EUA. Sua formação foi na área de Medicina, Psicologia e Filosofia. Apesar de sua contribuição à Psicologia, seu maior destaque é com a teoria filosófica chamada Pragmatismo. CARL LANGE Carl Georg Lange (1834-1900) nasceu na Dinamarca e teve na Psicologia e Neurologia suas maiores área de investigação. É também conhecido por seus estudos na área da depressão e por sua relação com elementos biológicos. Em outras palavras, segundo os autores, sentimos tristeza porque começamos a chorar; sentimos felicidade porque sorrimos, e assim por diante. Dessa maneira, a ideia central é a de que alterações de nossos estados corporais são capazes de provocar emoções específicas. Segundo a teoria de James-Lange, a base das emoções estaria na captação de estímulos emocionais, os quais seriam processados via córtex sensorial, desencadeando respostas motoras específicas (riso, choro, taquicardia etc). Tais mudanças seriam percebidas no córtex cerebral, provocando então a percepção da emoção em si. / Fonte: Shutterstock Esquema da Teoria de James-Lange, reproduzido a partir do livro Neurociência da mente e do comportamento. Já no século XX, a teoria sofreu críticas frente a algumas constatações, como o fato de algumas alterações corporais ocorrerem frente a emoções diferentes. Por exemplo, como posso identificar corretamente o medo com base na taquicardia, se a mesma também ocorre em situações de surpresa e até alegria? Um dos principais opositores da Teoria de James-Lange foi o americano Walter Cannon. Ele propôs que, enquanto a informação emocional é processada pelo encéfalo, são geradas respostas corporais e a consciência da emoção simultaneamente. javascript:void(0) / Fonte: Shutterstock Processamento das emoções segundo Walter Canon. WALTER BRADFORD CANNON (1871-1945) Médico de formação, dedicou-se a pesquisas na área dos sistemas nervoso e digestivo e do comportamento do coração, por meio de investigações experimentais. ONDE ESTÃO AS EMOÇÕES? Após as teorias das emoções ganharem os pesquisadores da área, buscou-se procurar efetivamente as áreas cerebrais responsáveis pelos fenômenos emocionais. Quem primeiro postulou a localização de tais regiões foi o anatomista americano James Papez, trazendo a público a ideia de sistemas e circuitos, e não somente áreas isoladas no cérebro. As estruturas identificadas por Papez, em conjunto, ficaram conhecidas como Circuito de Papez e incluíam o córtex cingulado, o hipocampo, o hipotálamo e os núcleos anteriores do javascript:void(0) / tálamo. Estruturas relacionadas ao Circuito de Papez, posteriormente chamado de sistema límbico. JAMES WENCESLAS PAPEZ (1883-1958) Formado em Medicina, dedicou-se aos estudos da Neurologia, buscando novos conceitos para explicar a emoção. Embora ele não tenha mencionado o lobo límbico de Broca, outros pesquisadores observaram que seu circuito era muito semelhante ao grande lobo límbico identificado por Paul Broca. Apesar de alguns locais efetivamente serem importantes para os circuitos de emoção, outros foram acrescentados posteriormente, como a amígdala, que desempenha papel fundamental nas emoções negativas (como o medo e a raiva) e o córtex pré-frontal. Por sua vez, não há evidências de que o hipocampo esteja envolvido na formação de emoções, apesar de participar do processo de desenvolvimento de memórias, incluindo as emocionais. A seguir, abordaremos as duas principais estruturas cujas funções estão consolidadas em termos de gerenciamento das emoções: amígdala e córtex pré-frontal / Estruturas modernas do sistema límbico AMÍGDALA A amígdala é uma estrutura localizada no polo do lobo temporal e recebe conexões de todas as áreas sensoriais, com exceção do sistema olfatório, e conexões provenientes do neocórtex, giros para-hipocampal e cingulado. Ela também se conecta-se ao hipotálamo. / Localização da amígdala nos dois hemisférios cerebrais As amígdalas possuem uma função extremamente importante no desenvolvimento e nas demonstrações das emoções. Por isso, conheça mais alguns aspectos importantes dessa área cerebral: Clique nos itens a seguir. ASPECTO 01 Sua função está ligada fortemente ao medo e à ansiedade. Estudos realizados com primatas não humanos, cujas amígdalas eram lesionadas bilateralmente por medicamento, demonstraram perda das respostas de medo. Os macacos ganharam docilidade e tenderam a ignorar situações comuns de perigo. Era como se não temessem mais seus predadores ou situações perigosas, chegando mesmo a manipular cobras sintéticas, por exemplo. ASPECTO 02 Além de outras associações (como formação de memórias emocionais negativas), a amígdala foi relacionada ainda ao fenômeno de formação do medo condicionado. Isso foi demonstrado, entre outros experimentos, quando ratos eram expostos inicialmente a um breve estímulo auditivo e pequenos choques. Após o condicionamento, apenas o estímulo auditivo era suficiente para gerar ativação da amígdala e respostas de medo, como aumento da frequência cardíaca, da pressão arterial e secreção de hormônios, como os glicocorticoides. javascript:void(0) javascript:void(0) / ASPECTO 03 Logo, constatou-se que a amígdala exerce papel primordial em detectar ameaças do ambiente e gerar os comportamentos adequados a elas. Lesões da amígdala levam à perda da capacidade de reconhecer perigos e ameaças, o que pode ser prejudicial à sobrevivência, deixando indivíduos sujeitos a situações reais de perigo. CÓRTEX PRÉ-FRONTAL O córtex pré-frontal corresponde à porção mais anterior do lobo frontal e pode ser dividido em três regiões: orbitofrontal, ventromedial (relacionada à emoção) e dorsolateral (relacionada a funções cognitivas). Localização das regiões ventromediais e orbitofrontais do córtex pré-frontal. [...] OS ESTUDOS NESSA ÁREA INICIARAM-SE APÓS O CLÁSSICO DE PHINEAS GAGE, MENCIONADO javascript:void(0) / ANTERIORMENTE. PORÉM, O GRUPO DO NEUROLOGISTA PORTUGUÊS ANTÔNIO DAMÁSIO CONTRIBUIU BASTANTE PARA O ESTUDO DO CÓRTEX PRÉ-FRONTAL. ELES IDENTIFICARAM UM HOMEM CUJA PERDA DE PARTE DO CÓRTEX PRÉ- FRONTAL SE DEUDEVIDO À RETIRADA CIRÚRGICA DA REGIÃO EM TRATAMENTO, EM RAZÃO DE UM TUMOR AGRESSIVO. (DAMÁSIO, 1996) ANTÓNIO ROSA DAMÁSIO (PORTUGAL, 1944) Neurocientista português que tem como foco de seus estudos o cérebro humano e as emoções. Sua maior e mais impactante contribuição ao campo da Psicologia foi mudar a concepção que havia acerca da relação “razão x emoção”; quase subordinando a primeira à segunda. Nesse contexto, o homem também passou a apresentar condutas alteradas, principalmente no que dizia respeito a julgamentos e tomadas de decisão, que eram constantemente inapropriadas. Você saia, que em testes realizados, puderam perceber que os indivíduos, a fim de tomares decisões acertadas, além do componente racional, necessitam de uma espécie de antecipação emocional, a qual pode gerar modificações fisiológicas que podem ser perceptíveis ou não (como sudorese, taquicardia, entre outras). TAL HIPÓTESE É DENOMINADA HIPÓTESE DO MARCADOR SOMÁTICO E PROPÕE javascript:void(0) / BASICAMENTE QUE, QUANDO ANTECIPAMOS ALGUM TIPO DE EMOÇÃO, REGIÕES ESPECÍFICAS DO CÉREBRO SÃO ATIVADAS EXATAMENTE COMO SE ESTIVÉSSEMOS VIVENCIANDO-A. DESSA MANEIRA, INDIVÍDUOS COM LESÕES NO CÓRTEX PRÉ-FRONTAL PERDEM A CAPACIDADE DE ANTECIPAR TAIS ESTADOS, E ISSO OS LEVA A TOMAR DECISÕES ERRÔNEAS. MOTIVAÇÃO Fonte: Shutterstock Com certeza, você já ouviu, especialmente em ambiente educacional, alguém falar em motivação. Porém, o que significa motivação para você? Quando nos sentimos motivados, temos a tendência de realizar algo ou ir ao encontro de alguma coisa. Não é basicamente essa a ideia que você tem? / ATENÇÃO Em Neurociências, podemos chamar tal fenômeno de estado motivacional. Tais estados geram comportamentos motivados. Assim, a motivação está associada ao movimento. Por exemplo, o estado motivacional de frio nos leva ao comportamento motivado de buscar agasalho. É muito comum associarmos motivação a questões emocionais, quase como se fosse uma emoção por si só. Entretanto, quando tratamos de motivação e comportamentos motivados em neurociências, estamos falando de questões que dizem respeito à adaptação e sobrevivência. Basicamente, a regulação da motivação pode ser dividida em dois sistemas: sistema apetitivo e sistema defensivo ou aversivo. Fonte: Shutterstock SISTEMA APETITIVO X SISTEMA DEFENSIVO Clique nas figuras abaixo para ver as informações. / Sistema apetitivo Esse sistema está relacionado à sobrevida e procriação, portanto inclui estados motivacionais de fome, sede, regulação da temperatura e sexo, por exemplo. Sistema defensivo ou aversivo Já o sistema defensivo está associado a situações de perigo e ameaça e, portanto, gera comportamentos motivados de esquiva e fuga. javascript:void(0) javascript:void(0) / No sistema apetitivo, existem órgãos importantes, como o hipotálamo, participando do processo de controle de ingestão alimentar. Tal controle envolve a liberação de neurotransmissores e hormônios, em um arranjo complexo a fim de manter a homeostasia. Apesar de entendermos por que os organismos buscam comida, água, dentre outros fatores de sobrevivência, ainda existe a dúvida sobre o que nos leva a determinados comportamentos geradores de prazer, como comprar, jogar, dentre inúmeras outras atividades. A resposta reside na obtenção de recompensa; dessa forma, muitos dos comportamentos podem ser motivados por recompensas que não necessariamente têm a ver com a manutenção da espécie no planeta, mas, sim, com a busca pela sensação de prazer. HOMEOSTASIA O conceito de homeostase foi desenvolvido por Walter Cannon [já citado anteriormente]. Ele realizou trabalhos em fisiologia experimental, denominando homeostase como o princípio de “meio interno em que o sangue e os demais fluidos que circundam as células constituem o meio interno com o qual ocorrem as trocas diretas de cada célula e, por isso, deve ser mantido sempre com parâmetros adequados à função celular, independentemente das mudanças que possam estar ocorrendo no ambiente externo”. Assim, propôs que a função final de todos os mecanismos fisiológicos é a manutenção da homeostase, que deve ser compreendida como “a manutenção da estabilidade do meio interno”. (SOUSA; SILVA; GALVÃO-COELHO, 2015) REFORÇO E RECOMPENSA Como os pesquisadores conseguem estudar motivação e comportamentos motivados em animais? Utilizando técnicas de autoestimulação elétrica. Em experimentos clássicos da década de 1950, no Instituto de Tecnologia da Califórnia, posicionaram um rato em uma caixa com uma alavanca. javascript:void(0) / Quando pressionada a alavanca, um breve estímulo era acionado por meio de eletrodos colocados em regiões específicas do encéfalo do animal. Inicialmente, o rato pressionava a alavanca de maneira randômica, porém, depois de um tempo, o animal permanecia próximo, pressionando-a incessantemente, a ponto de evitar água e comida. Fonte: Shutterstock Autoestimulação elétrica. Por esses experimentos, entendemos que a recompensa (no caso, o estímulo elétrico em regiões específicas) reforçava o comportamento de puxar a alavanca. Por que comemos? Porque o ato de comer nos reforça o comportamento de buscar comida, já que o alimento é necessário para a sobrevivência. A região e os circuitos que configuram as vias de recompensa e reforço estão associados às fibras liberadoras de dopamina (neurotransmissor), originárias da área tegmentar ventral e se projetam para o prosencéfalo. / Sistema dopaminérgico mesocorticolimbico Os experimentos demarcaram um momento marcante para identificação das emoções e como elas estão associadas ao cérebro. Compreenda mais alguns aspectos: Clique nas setas para ver o conteúdo. / No mesmo modelo de experimento citado anteriormente, os pesquisadores injetaram drogas bloqueadoras de receptores dopaminérgicos, ou seja, impediram a atuação da dopamina, causando diminuição na autoestimulação. Esses experimentos sugerem fortemente que há reforço de certos comportamentos associados a recompensas naturais, como água e alimentos. Interessante frisar que áreas dopaminérgicas cerebrais são ativadas em antecipação à recompensa propriamente dita. É o que ocorre quando vemos o garçom vindo em nossa direção com o prato que escolhemos. O cérebro percebe o que está por vir e já ativa áreas relacionadas à recompensa em si. Uma dúvida recorrente quando o assunto é o sistema de reforço e recompensa é a seguinte: como se estabelecem os vícios? Basicamente, em situações nas quais buscamos avidamente por uma recompensa de forma incessante e repetitiva, a fim de obter o que a Neurociência chama de resposta hedônica (prazer). Podemos utilizar como exemplo a nicotina para explicar o processo que se forma no cérebro. Este composto, presente em altas doses no cigarro, atua diretamente nos circuitos encefálicos de motivação de comportamento. Logo, a ligação da nicotina a seus receptores em neurônios dopaminérgicos estimula a liberação da dopamina em tais circuitos, reforçando o comportamento pela busca da droga. / O problema de tal reforço comportamental (além dos malefícios da própria nicotina em si em outras regiões do organismo) é o efeito de tolerância. Tal efeito se dá como ajuste para a estimulação acentuada frente ao uso crônico da substância, fazendo com que a resposta à nicotina diminua. Para obter os mesmos efeitos, serão necessárias, daí por diante, doses cada vez maiores da droga. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. SEGUNDO A TEORIA DE JAMES-LANGE, AS SENSAÇÕES PERIFÉRICAS NOS FORNECEM SUBSTRATO PARA AS EMOÇÕES; LOGO, SENTIMOS TRISTEZA PORQUE CHORAMOS, E ASSIM POR DIANTE. APESAR DE DESACREDITADA DURANTE UM TEMPO, A IDEIA ORIGINAL RESSURGIU COM O ADVENTO DA TEORIA DO MARCADOR SOMÁTICO, DE ANTÔNIO DAMÁSIO. DE QUE MANEIRA SE DÁ TAL ASSOCIAÇÃO? A) Segundo a Teoria do Marcador Somático, os indivíduos necessitam do componente emocional para a tomada de decisão em maior proporção do que a análise racional de fatos. B) Segundo Damásio,a percepção de fatores somáticos corporais afetaria de forma negativa a percepção de informações cognitivas, o que levaria a decisões ruins. C) A antecipação emocional que se dá via marcadores somáticos oferece pistas importantes na tomada de decisão quando analisadas com fatos. D) Damásio sugere que as emoções são afetadas diretamente pelas reações corporais que temos frente às situações cotidianas; dessa maneira, a Teoria de James-Lange é corroborada / por completo. 2. OS COMPORTAMENTOS MOTIVADOS SÃO FREQUENTEMENTE DESENCADEADOS POR ESTADOS MOTIVACIONAIS INTERNOS. DESSA MANEIRA, A PERCEPÇÃO DE SENSAÇÕES E MODIFICAÇÕES SOMÁTICAS SE TRADUZ EM COMPORTAMENTO ESPECÍFICO, O QUE NOS LEVA À BUSCA POR RECOMPENSAS. QUANDO OBTEMOS A RECOMPENSA, ACIONAMOS CIRCUITOS CONHECIDOS, QUE, EM CONTRAPARTIDA, REFORÇAM TAIS AÇÕES. FOI DEMONSTRADO QUE, ANTES MESMO DE TERMOS A RECOMPENSA EM MÃOS, ÁREAS DO CÉREBRO JÁ SE ENCONTRAM ATIVAS, COMO SE ESTIVÉSSEMOS REALMENTE VIVENCIANDO O PROCESSO. DENTRE AS SITUAÇÕES A SEGUIR, QUAL NÃO SE RELACIONA COM A GERAÇÃO DE REFORÇO POSITIVO? A) Ingerir alimento saboroso. B) Beber água gelada no calor. C) Vestir um casaco em situação de frio. D) Fugir de situação potencialmente perigosa. GABARITO 1. Segundo a Teoria de James-Lange, as sensações periféricas nos fornecem substrato para as emoções; logo, sentimos tristeza porque choramos, e assim por diante. Apesar de desacreditada durante um tempo, a ideia original ressurgiu com o advento da Teoria do Marcador Somático, de Antônio Damásio. De que maneira se dá tal associação? A alternativa "C " está correta. Segundo a Teoria do Marcador Somático, as modificações somáticas que nos acometem, ainda que imperceptíveis, atuam como direcionadores na tomada de decisão. Dessa forma, corrobora, em certo aspecto, com a ideia de que sistemas periféricos têm influência na maneira como sentimos. Entretanto, Damásio deixa claro que não há necessidade de que tais alterações sejam processadas conscientemente. / 2. Os comportamentos motivados são frequentemente desencadeados por estados motivacionais internos. Dessa maneira, a percepção de sensações e modificações somáticas se traduz em comportamento específico, o que nos leva à busca por recompensas. Quando obtemos a recompensa, acionamos circuitos conhecidos, que, em contrapartida, reforçam tais ações. Foi demonstrado que, antes mesmo de termos a recompensa em mãos, áreas do cérebro já se encontram ativas, como se estivéssemos realmente vivenciando o processo. Dentre as situações a seguir, qual NÃO se relaciona com a geração de reforço positivo? A alternativa "D " está correta. O enunciado da questão já nos dá pistas de que, ao falarmos de reforço positivo, estamos nos referindo ao reforço relacionado à recompensa, como estudamos nesse módulo. A situação de fugir de uma situação potencialmente perigosa não se enquadra nesse processo, especialmente porque a ação do indivíduo não provém de uma experiência de recompensa, mas, sim, de aversão. CONCLUSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao chegarmos ao fim deste tema, esperamos que você tenha percebido a importância de reconhecer que, como humanos, somos seres extremamente complexos e que até mesmo atitudes mais simples – como observar uma paisagem, cantarolar uma música, decidir se ignoro ou reajo a uma provocação – são fundamentadas por bases neurais, que também são complexas. No entanto, outro ponto merece destaque: esse conhecimento, especialmente acerca da linguagem, das funções executivas, da emoção, deve levar-nos a tomar consciência daquilo que nos define como espécie. Isso permite que compreendamos como as respostas que damos a situações cotidianas são padronizadas, do ponto de vista neurológico. Ao mesmo tempo, tal como o próprio desenvolvimento do cérebro se deu por adaptações, como vimos, cada indivíduo também é capaz de adaptar-se às circunstâncias que o envolvem, até mesmo em situações limites (como no caso de Phineas Gage). Isso caracteriza a importância do indivíduo, inclusive no contexto da espécie. / É exatamente aqui que gostaríamos que você percebesse a importância de, cada vez mais, conhecer e se aprofundar no fantástico mundo da mente humana. Aproveite cada indicação feita no Explore + e nas referências a seguir. REFERÊNCIAS BEAR, M.; CONNORS, B.; PARADISO, M. Neurociências: Desvendando o sistema nervoso. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, 2006. CENTER ON THE DEVELOPING CHILD AT HARVARD UNIVERSITY. How Early Experiences Shape the Development of Executive Function. 2011. CENTER ON THE DEVELOPING CHILD AT HARVARD UNIVERSITY. How Early Experiences Shape the Development of Executive Function. 2012. DAMASIO, A. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. MARCHETTI, P. et al. Influência da lateralidade nas assimetrias morfológicas e funcionais em indivíduos sedentários. Revista Brasileira de Ciências da Saúde, ano VII, nº 22, out/dez 2009. p. 08-14. SOUSA, M.; SILVA, H.; GALVÃO-COELHO, N. Resposta ao estresse I: homeostase e a teoria da alostase. Estudos de Psicologia. Vol. 20, no.1, Natal, jan/mar 2015. WEINTRAUB, S. Cognition Assessment Using the NIH Toolbox. Neurology, 80 (Suppl 3), March 12, 2013. / EXPLORE+ Confira o artigo: Influência da lateralidade nas assimetrias morfológicas e funcionais em indivíduos sedentários. Consulto o Jornal de Pediatria da Sociedade Brasileira de Pediatria ele é uma excelente fonte de artigos sobre bases neurobiológicas dos distúrbios de linguagem. A Universidade de Harvard disponibiliza em seu site excelentes materiais sobre as funções executivas. Um deles é o guia absolutamente completo sobre o desenvolvimento de funções executivas desde a infância até a fase adulta e sobre como desenvolvê-las de forma contínua (material disponível em inglês). Vale a pena conferir. Pesquise sobre o Dr. António Damásio que é uma referência no âmbito do processamento das emoções pelo cérebro. É possível encontrar vídeos deles em plataformas como Youtube. Vale a pena ouvi-lo. CONTEUDISTA Virgínia Baptista Chaves Duarte de Lima CURRÍCULO LATTES javascript:void(0); / DEFINIÇÃO Conceito de sensação, atenção e memória. Apresentação da neurociência do processo sensoperceptivo e da integração sensório-motora, bem como do processo sensório-motor, das teorias e funções do processo atencional, da neurociência da atenção e do processo mnemônico. PROPÓSITO Compreender os processos cognitivos sensação, atenção, memória e a integração sensório-motora desde suas definições, teorias subjacentes e funções aos substratos neurais relacionados a elas. PREPARAÇÃO Para um melhor aproveitamento deste tema, você pode utilizar um modelo físico ou 3D do cérebro. Ainda, pode se valer de sites ou aplicativos para recorrer a modelos 3D virtuais. Recomenda-se que você esteja familiarizado com noções básicas de Neurociências; em especial, Neurociência Cognitiva. / OBJETIVOS MÓDULO 1 Identificar os substratos neurais subjacentes ao processo sensoperceptivo e atencional MÓDULO 2 Identificar os substratos neurais subjacentes ao processo mnemônico e sensório-motor INTRODUÇÃO Neste tema, exploraremos três funções cognitivas (sensopercepção, atenção e memória) e abordaremos a integração sensório-motora, função executada pelo sistema nervoso (SN). Conheceremos essas diferentes funções e as relacionaremos com áreas específicas do SN. Vamos, agora, identificar os conceitos fundamentais para a compreensão dessas funções. Mas, para isso, cabe ressaltar dois importantes pontos: Ponto 1 As funções cognitivas somente são separadas com fins didáticos, uma vez que, no mundo concreto, atuam de forma integrada. Sob coordenação das funções executivas, o indivíduo, ativado por uma emoção, motiva-se na direção de focar a atenção em determinado estímulo, que será processado pela sensopercepção, gerando o traço necessário para a memória e o consequente aprendizado. É o que está representado na figura 1. Ponto 2O desenvolvimento das estruturas do SN subjacentes a cada uma das funções cognitivas tem correlação direta com o desempenho do sujeito naquela função específica, uma vez que cada avanço no substrato neurobiológico subjacente (aumento do número de neurônios, ou de sinapses, ou mesmo o fortalecimento das redes) representa também um ganho funcional. Assim, é esperado que indivíduos de diferentes idades e perfis de estimulação tenham desempenhos funcionais também diferentes. javascript:void(0) / SENSOPERCEPÇÃO Não se preocupe com esse termo novo. Logo você vai compreendê-lo! Fonte: Autor. Figura 1 - Integração das funções cognitivas. MÓDULO 1 Identificar os substratos neurais subjacentes ao processo sensoperceptivo e atencional Preste atenção ao seu ambiente neste momento. Volte-se para o seu ambiente externo e interno. Você consegue perceber diferentes cores, brilhos, movimentos, sons, o toque do seu corpo na cadeira, nas roupas, no seu sapato, a temperatura das superfícies que toca, do ar, eventuais cheiros, perfumes, sabores. Só podemos ter a sensação de nosso ambiente porque uma linha de processamento neural está funcionando de forma integrada e coordenada. Em especial porque o nosso cérebro – principal órgão do sistema nervoso central (SNC) e responsável pela compreensão do que sentimos em uma percepção – está íntegro! SENSAÇÃO: DEFINIÇÃO Para definirmos o que é sensação, vamos recordar uma questão filosófica que está proposta na atividade de reflexão a seguir: Se uma mulher fala em uma sala e não há homem algum para ouvi-la, ainda assim ela está certa? / RESPOSTA Essa ironia nasceu de uma velha charada: Se uma árvore cai na floresta e não há ninguém para ouvir, ainda sim ela produz som? E é assim que Sternberg (2008) começa sua apresentação acerca da sensação. E mostra que, diferentemente do que se tem no senso comum, na área das neurociências cognitivas, o termo sensação se reduz à mera resposta relacionada aos nossos sentidos: visão, audição, tato, olfato e paladar. Ou seja: é a capacidade que nosso corpo tem de receber os estímulos do meio externo e permitir (através de células receptoras) que sejam compreendidos pelos neurônios. Portanto, voltando à charada, antes que aconteça a sensação, há o mundo externo (a árvore que cai e produz o som, por exemplo) que será captado pelos sentidos. NEUROCIÊNCIA DO PROCESSO SENSOPERCEPTIVO Nosso aparato sensorial é formado pelos órgãos sensoriais (olhos, ouvidos, pele, língua, nariz), os nervos (que levam as informações dos órgãos dos sentidos até o SNC) e o córtex cerebral (onde o estímulo será processado em diferentes áreas a depender da modalidade sensorial: visual, tátil etc.). No cérebro, as informações sensoriais se conjugam numa percepção. javascript:void(0) / Fonte: dmitroscope/Shutterstock SAIBA MAIS Segundo Lent (2008), diferentemente de sua definição no senso comum, as percepções para as neurociências cognitivas são aqueles produtos da sensação (ou seja, proveniente dos sentidos). Por esse motivo, está cada vez mais frequente na literatura da área a grafia sensopercepção, já que se trata de um processo intrinsecamente integrado Quando vemos um objeto (uma bola vermelha, por exemplo), neurônios sensoriais em nossa retina realizam a transdução das ondas luminosas em impulsos nervosos, que seguem pelo nervo óptico até núcleos específicos do tálamo, uma estrutura dupla (ou seja, presente nos dois hemisférios cerebrais), conforme indica a figura 2: TRANSDUÇÃO Na linguagem das ciências biológicas e afins, chama-se transdução quando um tipo de sinal é transformado em outro a fim de cumprir determinada finalidade. No exemplo dado, as ondas luminosas sofrem transdução para impulsos nervosos. javascript:void(0) / Fonte: decade3d - anatomy online/Shutterstock Figura 2 - Tálamo (em amarelo). O tálamo, então, encaminha os impulsos visuais até as áreas sensoriais primárias (no exemplo, área visual primária, no córtex occipital). Na área visual primária, haverá apenas o processamento da cor e do formato; e separadamente. Em seguida, o estímulo será encaminhado para processamento nas áreas secundárias (no exemplo, área visual secundária, ainda no córtex occipital) e nas áreas de associação multimodais (junção têmporo-parieto-occipital), onde será formada a percepção do objeto visto como um todo, a fim de ser reconhecido como uma “bola vermelha”. Vale ressaltar que os estímulos sensoriais seguem este padrão: JUNÇÃO TÊMPORO-PARIETO-OCCIPITAL Não se preocupe! Você entenderá o que isso significa ainda neste tema! ÓRGÃO SENSORIAL javascript:void(0) / TÁLAMO CÓRTICES Com exceção dos estímulos sensoriais olfativos, que não passam pelo tálamo e são enviados do bulbo olfatório diretamente para o córtex cerebral. PROCESSAMENTO CONTRALATERAL Um ponto curioso e relevante sobre a sensopercepção é que ela é processada no córtex contralateral ao estímulo. Isso significa que os estímulos percebidos no lado esquerdo do corpo são processados nas estruturas cerebrais do lado direito e vice-versa. Isso se dá porque as fibras neurais se cruzam no nível da ponte (estrutura componente do tronco cerebral): os prolongamentos do córtex cerebral direito cruzam na ponte e passam a enervar o lado esquerdo do corpo e vice-versa. É importante citar que essas vias são: AFERENTES Levam comandos do SNC até a periferia. Isso é relevante para o comportamento motor (como veremos mais à frente neste tema). EFERENTES Carregam informações sensoriais da periferia até o SNC. Isso é de especial relevância para a sensopercepção. Segundo Thompson (2005), é provável que essa característica tenha sido adaptativa em algum momento da evolução das espécies. Assim, espera-se que lesões cerebrais em um dos hemisférios produzam efeitos (sensoriais e motores) no lado contralateral do corpo. ÁREAS FUNCIONAIS – CÓRTICES PRIMÁRIO E SECUNDÁRIO E CÓRTEX ASSOCIATIVO / Para ser percebido, um estímulo é processado em diferentes áreas do SNC. Essas áreas, de acordo com Fuentes et al. (2008), são organizadas hierarquicamente e ficaram conhecidas como unidades funcionais, proposta de Alexander Luria, um dos pesquisadores mais proeminentes da Neuropsicologia. Luria formulou uma compreensão de que o córtex está organizado nas seguintes unidades funcionais: Fonte: Wikimedia ALEXANDER LURIA Alexander Romanovich Luria (1902-1977) foi um psicólogo soviético, considerado o pai da Neuropsicologia moderna, sendo inclusive o criador desse termo. Embora a ideia original de sistema funcional seja de outro conterrâneo seu, Pyotr Kuzmicj Anokhin (1898-1974), Luria conseguiu ampliá-la, aplicando-a ao sistema nervoso central humano. Fonte: Kruszielski (s.d.) ÁREAS BÁSICAS E UNOMODAIS Como as áreas visuais primárias do córtex occipital e as áreas motoras primárias do giro pré-central do córtex frontal, por exemplo, que lidam apenas com uma modalidade sensorial. Nesse caso, a visual e a auditiva, respectivamente. ÁREAS SECUNDÁRIAS javascript:void(0) / Como as áreas associativas visuais, que nos permitem a compreensão perceptual, com mais sentido, dos estímulos visuais. ÁREAS TERCIÁRIAS Como as áreas de associação multimodais, que integram e processam diversas modalidades sensoriais para criar uma percepção completa do estímulo que ao mesmo tempo seja visual, espacial, auditivo e mnemônico. São exemplos a junção têmporo-parieto-occipital e o córtex pré-frontal (CPF). Nota: Mnemônico é referente à memória (do grego mnémé). Na figura 3, vemos algumas das mais relevantes áreas do córtex cerebral. Fonte: Ciências e Cognição. Figura 3 - Divisão do encéfalo de acordo com seus córtices funcionais. NO PROCESSO DE PERCEPÇÃO, O ESTÍMULO TRAFEGA DAS ÁREAS FUNCIONAIS PRIMÁRIAS (CÓRTEX SENSORIAL UNIMODAL) PARA AS SECUNDÁRIAS E FINALMENTE PARA AS DE ASSOCIAÇÃO (TERCIÁRIAS). ESSE CAMINHO É CONHECIDO COMO PROCESSAMENTO BOTTOM-UP (DE BAIXO PARA CIMA). / (MATLIN, 2004) SOMATOTOPIA Os estímulos sensoriais táteissão processados no córtex sensorial primário, localizado no giro pós- central, no lobo parietal, como mostra a figura 4: Fonte: Baseado em Lent (2008) e Thompson (2005). Figura 4 - Córtex sensorial primário. Perceba que essa região apresenta uma organização topográfica, em que cada parte do corpo é processada por uma sub-região de neurônios nesse giro em torno do cérebro. Assim, com estudos de neuroanatomia funcional, foi possível conhecer esse mapa, que relaciona áreas do corpo a áreas cerebrais responsáveis por seu processamento. SAIBA MAIS A extensão cortical da área não guarda correspondência com a extensão anatômica da parte do corpo, e sim com sua importância. Por exemplo: as áreas sensoriais corticais dos lábios e dedos das mãos são maiores do que as das costas ou pernas, mesmo que estas últimas sejam bem maiores no corpo que as primeiras. LESÕES CEREBRAIS E DEFICIÊNCIAS NO PROCESSAMENTO SENSOPERCEPTIVO / Reconhecendo que a topografia cerebral é relevante para a construção dos estímulos sensoriais, é possível compreender que lesões em diferentes regiões componentes do caminho da informação acarretam sintomatologias diversas. A tabela 1 apresenta os quadros patológicos mais frequentes quando se trata de lesões adquiridas em diferentes áreas do SN responsáveis pela sensopercepção. Note que os lobos mais importantes para essa função cognitiva são o occipital, o temporal e o parietal. Lobo de localização da lesão Área funcional Efeitos Nome da disfunção Occipital Córtex visual primário Incapacidade de receber informação visual e perda de visão Cegueira cortical Córtex visual secundário Incapacidade de reconhecer e de identificar visualmente objetos Agnosia visual Incapacidade de compreender os sinais gráficos da escrita Cegueira verbal ou alexia Temporal Córtex auditivo primário Incapacidade de receber informação sonora e perda de audição Surdez cortical Córtex auditivo secundário Incapacidade de reconhecer e de identificar sons vulgares Agnosia auditiva javascript:void(0) / Incapacidade de interpretar o significado do discurso oral Surdez verbal Parietal Córtex somatossensorial primário Incapacidade de receber informação sensorial e perda da sensorial tátil, térmica e álgica (ligada à dor) Anestesia cortical Córtex somatossensorial secundário Incapacidade de reconhecer um objeto pelo tato e de localizar sensações táteis e térmicas do corpo Agnosia somatossensorial ou assomatognosia Tabela 1 – Disfunções da sensopercepção mais frequentes por lesões adquiridas. Fonte: Brandão (2004); Fuentes et al. (2008); Lent (2008); Sohlberg e Mateer (2011). SINTOMATOLOGIAS Na linguagem das Ciências Biológicas e na forma como utilizada aqui, significa conjuntos de sintomas de doenças. Ainda sobre a integração do processo entre sensação e percepção (sensopercepção), um conceito importante é o de contínuo perceptivo: / (...) DEVERÍAMOS VER ESSES PROCESSOS COMO PARTE DE UM CONTÍNUO. A INFORMAÇÃO FLUI PELO SISTEMA. A PERCEPÇÃO ACONTECE À MEDIDA QUE OBJETOS DO AMBIENTE COMUNICAM ESTRUTURA DO MEIO INFORMACIONAL [EXTERNO] QUE, AO FINAL, CHEGAM A NOSSOS RECEPTORES SENSORIAIS, LEVANDO À IDENTIFICAÇÃO INTERNA DE OBJETOS. (STERNBERG, 2008) Juntamente com a compreensão do contínuo perceptivo, outro conceito complementar é o de adaptação sensorial. De acordo com Sternberg (2008), as células receptoras estão em constante adaptação à estimulação recebida pelos sentidos. Isso nos permite parar de detectar a presença de um estímulo e detectar outro, alterando assim nossa sensopercepção. A PARTICIPAÇÃO DO INDIVÍDUO NO PROCESSO PERCEPTIVO Uma série de estudos em Psicologia Cognitiva defende a participação colaborativa do conhecimento prévio do indivíduo na formação de um percepto. Desde os estudos da Psicologia da Gestalt, o enfoque dado à percepção da forma baseava-se na noção de que o todo difere da soma de suas partes. Essa abordagem mostrou-se útil particularmente para entender como são percebidos os grupos de objetos ou mesmo as partes de objetos para formar todos integrais: tendemos a perceber uma configuração visual apenas como uma organização dos elementos distintos em uma forma coerente e estável. O observador atribui certa parte sobre as sensações que esteja experimentando, contribuindo ativamente para o processo de perceber e, assim, de compreender e aprender sobre o mundo ao seu redor. Segundo Sohlberg e Mateer (2011), esse tópico é de especial interesse para educadores e profissionais das áreas de Psicologia e outras modalidades de habilitação e reabilitação neuropsicológica cognitiva. javascript:void(0) / Fonte: Generation/Shutterstock PERCEPTO De acordo com Sternberg (2008), é a representação mental de um estímulo percebido. Para uma revisão aprofundada sobre a participação do indivíduo no processo perceptivo, consulte essa obra. Lá também encontrará mais dados sobre a Psicologia da Gestalt. A ATENÇÃO A atenção é um dos temas mais intrigantes e populares da Neuropsicologia na atualidade. Diante da enorme quantidade de estímulos que recebemos em nossas mais diversas atividades, manter a atenção por longos períodos e em mais de uma atividade tem sido cada vez mais requerido. As funções cognitivas não são estanques; acontece o mesmo com a sensopercepção e a atenção: ambos os processos funcionam coordenadamente; só podemos perceber ao que estamos atentos, mas, do mesmo modo, um estímulo sensorial de relevância pode capturar nossa atenção. / Fonte: ESB Professional/Shutterstock ATENÇÃO: DEFINIÇÃO Vamos iniciar este assunto fazendo um exercício. Está pronto? Experimente focar a sua atenção nos estímulos visuais no seu entorno; ao mesmo tempo, preste atenção às sensações táteis que vêm do contato do seu corpo com as roupas e a cadeira; agora, ao mesmo tempo, procure perceber se há algum odor adocicado ao seu redor. E ainda junte a isso tudo prestar sua atenção aos estímulos sonoros. Tudo ao mesmo tempo! Descreva como foi essa experiência. RESPOSTA Foi possível prestar atenção em todos? Ou você sentiu a sua atenção “pular” de um estímulo a outro? Esse exercício nos dá muitas pistas de como opera essa função cognitiva. javascript:void(0) / A atenção inclui a concentração de atividade mental que permite selecionar alguns aspectos do mundo sensorial de maneira eficiente, enquanto outros aspectos (fora da atenção) não são processados em detalhes. A atenção, portanto, é um processo que exige de nós uma percepção direcionada, durante certo tempo. Como você identificou, é nossa capacidade de concentrar os processos mentais em somente uma tarefa, reduzindo o foco nas demais. O PROCESSO ATENCIONAL – TEORIAS E FUNÇÕES De acordo com Matlin (2004), pode-se considerar dois aspectos principais da atenção: ALERTA Estado geral de sensibilização, relacionado à vigília e consciência. FOCALIZAÇÃO Quando a atenção está sobre certos estímulos do ambiente interno (neurobiológicos) ou externo do indivíduo. Veremos mais adiante que os diferentes aspectos da atenção têm processamento em áreas diferentes do SNC. O exercício anterior também nos auxilia a compreender a teoria do filtro atencional, ou do gargalo. Ela indica que, num conjunto de variados estímulos a perceber, nossa atenção apenas tem espaço para processar alguns deles de cada vez, como um gargalo ou funil. Podemos pensar também na ideia de um foco de luz, dinâmico, sobre um grande palco, só podendo iluminar parte do cenário. Ali, no foco central da iluminação, estaríamos conscientemente respondendo a uns estímulos e negligenciando outros. O esquema da figura 5 nos apresenta um modelo de como a atenção e o processamento consciente se organizam. No centro do modelo (em vermelho) estão os conteúdos que, estando atento, o sujeito pode processar conscientemente e até descrever. Ao redor (em laranja), os conteúdos que estão sendo manipulados pela atenção, que incluem o círculo interno, porém com parte do processamentonão completamente consciente. E em cinza (círculo maior, que inclui os outros dois), está o universo de estímulos a que o indivíduo está exposto. / Fonte: Adaptado de Sternberg (2008) e Fuentes et al. (2008) Figura 5 - Processamento consciente de informações na atenção. FUNÇÕES DA ATENÇÃO A atenção possui diferentes níveis de funcionamento, também conhecidos como funções da atenção. A tabela 2 inclui os principais tipos e suas definições. Aqui, abordaremos a atenção focada, mantida ou sustentada, seletiva, alternada e dividida. Função Definição Atenção focada Resposta básica ao estímulo. Exemplos: girar a cabeça na direção de um estímulo auditivo; quando dirigindo, desviar-se de um obstáculo na estrada. Atenção mantida ou sustentada Manutenção da atenção ao longo do tempo durante atividade contínua; memória de trabalho: sustentação e manipulação ativa da informação; capacidade de estar em prontidão, por um período prolongado, para responder a determinadas alterações na situação de estímulos, ou ao aparecimento de um estímulo-alvo específico. Inclui as funções sondagem javascript:void(0) / (busca ativa por um estímulo) e vigilância (prontidão para responder a um estímulo-alvo). Exemplo: quando dirigindo, permanecer atento por longos períodos, na expectativa de novos obstáculos na estrada. Atenção seletiva Livre da distratibilidade; escolha dos estímulos relevantes; procura ativa de um estímulo-alvo; busca por estímulos específicos; foco da atenção aos relevantes e inibição dos irrelevantes; capacidade de focar e selecionar um estímulo e ignorar vários outros que estejam viáveis no momento. Fundamental para compreensão verbal e resolução de problemas. Exemplos: inibir o barulho do ar-condicionado da sala durante uma conferência; quando dirigindo, não ser distraído por eventos que tirem a atenção da estrada. Atenção alternada Capacidade de flexibilidade mental; alternar entre estímulos diferentes. Exemplo: quando dirigindo, observar possibilidade de ultrapassagem, olhando retrovisores, observando buzinas e faróis de outros veículos. Atenção dividida Habilidade para responder simultaneamente a duas tarefas; distribuição dos recursos atencionais. Nessas situações, há um deslocamento coerente e distribuído dos recursos atencionais. Todos os estímulos são relevantes, porém o organismo deve responder concomitantemente aos diferentes estímulos que são apresentados, que podem variar tanto em características espaciais quanto temporais. Exemplo: quando dirigindo, ser capaz de conversar, ouvir rádio, usar mãos ao volante e câmbio, pés aos pedais. Tabela 2 - Funções da atenção e suas definições. Fonte: Fuentes et al. (2008); Lent (2008); Sohlberg e Mateer (2011). MEMÓRIA DE TRABALHO javascript:void(0) / Não se preocupe com o termo! Você o entenderá no próximo módulo! DISTRABILIDADE É a incapacidade de selecionar estímulos externos que não tenham importância para determinada interação com o ambiente externo. Assim, na atenção seletiva, o indivíduo é capaz de tal seleção (daí o nome dessa função). PROCESSOS AUTOMÁTICOS E CONTROLADOS Na teoria cognitiva sobre atenção, registra-se a ideia de que os indivíduos possuem uma quantidade de recursos atencionais limitada. De acordo com essa ideia, algumas ações requerem mais recursos atencionais do que outras: ações novas, referentes a novos aprendizados, requerem muita atenção em seu aprendizado e em seu desempenho, mas, com o passar do tempo, demandam cada vez menos recursos atencionais, passando a ser desempenhadas automaticamente. Tal funcionamento faz parte da função adaptativa cerebral que, ao automatizar tarefas, melhora a economia cognitiva, deixando disponíveis recursos atencionais para que o indivíduo possa se engajar em tarefas concomitantemente. Mas deve estar claro que, em nossa mente, a maioria dos processos cognitivos se dá de forma automática. / Fonte: fizkes/Shutterstock SAIBA MAIS Para saber mais sobre os processos cognitivos de forma automática, vale conhecer a obra O novo inconsciente, de Marco Callegaro (2011), também indicada no Explore+ ao final deste tema. Normalmente, o aprendizado de tarefas novas envolve a utilização de quase todos os recursos atencionais, e o indivíduo não consegue desempenhar mais de uma tarefa ao mesmo tempo. Esses processos são do tipo controlado (o indivíduo está conscientemente engajado na ação) e requerem um controle cognitivo maior, usando as funções executivas. Conforme a repetição, os processos controlados passam a ser desempenhados como do tipo automático (que se refere a tarefas superaprendidas, que já não requerem quase nenhum recurso atencional). O comparativo a seguir resume as características dos processos controlados e automáticos: Processo controlado Esforço intencional Conhecimento consciente Realizados serialmente Consomem mais tempo Tarefas novas ou com variabilidade / Níveis elevados de processamento cognitivo Processo automático Pouco ou nenhum esforço intencional Sem consciência Realizados em paralelo Rápidos Tarefas conhecidas, com prática Níveis baixos de processamento cognitivo Processos controlados e automáticos e o uso de recursos atencionais. Fonte: Fuentes et al. (2008); Matlin (2004); Sternberg (2008); Sohlberg e Mateer (2011). PROCESSOS BOTTOM-UP E TOP-DOWN O cérebro é limitado em sua capacidade de processar todos os estímulos sensoriais presentes no mundo físico a qualquer momento e confia no processo cognitivo de atenção para concentrar os recursos neurais de acordo com as contingências do momento. Nesse sentido, a atenção pode ser categorizada, segundo Katsuki e Constantinidis (2013), em duas funções distintas: / Atenção bottom-up (de baixo para cima) Referente à orientação puramente por fatores externos direcionados a estímulos destacados por causa de suas propriedades inerentes ao fundo – por exemplo, um barulho muito alto, uma luz que se acende num ambiente de penumbra. Atenção top-down (de cima para baixo) Refere-se a orientações internas de atenção baseadas em conhecimento prévio, planos ou metas atuais – como prestar atenção a uma aula. O conceito de atenção top-down, de acordo com Cosenza e Guerra (2001), funde-se com o tipo de processamento controlado da atenção e é de especial interesse para o aprendizado escolar, por exemplo. NEUROCIÊNCIA DA ATENÇÃO Como já vimos, dois aspectos principais (alerta e focalização) formam a atenção. Mecanismos envolvidos na atenção, segundo Brandão (2004) e Fuentes et al. (2008), dependem de uma rede nervosa que inclui porções anteriores e posteriores do sistema nervoso, e lesões nessa rede alteram a capacidade da pessoa em direcionar a atenção para determinados setores do ambiente. Em relação ao estado de alerta, a área mais atuante é o Sistema Atencional Reticular Ascendente (SARA), localizado no tronco encefálico. Em relação ao que se pretende estudar em Neurociência Cognitiva (com ênfase na função cognitiva que ora estudamos), merece destaque a focalização. / ATENÇÃO É o Sistema Atencional Posterior (SAP) que tem por função orientar a atenção; ou seja, é responsável pela atenção focada e seletiva, como vimos na tabela 2. Já o Sistema Atencional Anterior (SAA) é responsável também pela atenção seletiva; e pela atenção sustentada e dividida. Assim, realiza o recrutamento atencional para detectar estímulos e controlar áreas cerebrais para o desempenho de tarefas cognitivas complexas. As áreas cerebrais envolvidas no SAA são o córtex frontal, o giro cingulado anterior e os gânglios da base. A figura 6 resume as áreas do SNC que participam dos diferentes sistemas atencionais citados. Fonte: Brandão (2004) e Fuentes et al. (2008). Figura 6 - Áreas cerebrais envolvidas com a atenção. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. DE ACORDO COM AS UNIDADES FUNCIONAIS DEFINIDAS POR LURIA, PODEMOS AFIRMAR QUE DAS SEGUINTES ÁREAS, RELEVANTES PARA O PROCESSO SENSOPERCEPTIVO, CONFIGURAM ÁREAS PRIMÁRIAS, EXCETO:A) Giro pós-central B) Córtex visual primário C) Giro temporal superior / D) Junção têmporo-parieto-occipital 2. O CÓRTEX PRÉ-FRONTAL É UMA ÁREA DO LOBO FRONTAL IMPORTANTE PARA O ENGAJAMENTO DO INDIVÍDUO EM FUNÇÕES COGNITIVAS COMPLEXAS. EM RELAÇÃO À ATENÇÃO, ELE ESTÁ ATRELADO AO DESEMPENHO DAS SEGUINTES FUNÇÕES ATENCIONAIS, EXCETO: A) Vigilância B) Sondagem C) Atenção seletiva D) Alerta GABARITO 1. De acordo com as unidades funcionais definidas por Luria, podemos afirmar que das seguintes áreas, relevantes para o processo sensoperceptivo, configuram áreas primárias, exceto: A alternativa "D " está correta. Embora seja uma área importante para o processo sensopercetivo (dando significado ao percepto formado pelas sensações), a junção têmporo-parieto-occipital é uma área de associação. O giro pós- central, o córtex visual primário e o giro temporal superior são áreas primárias, processando, respectivamente, estímulos de natureza tátil, auditiva e visual. 2. O córtex pré-frontal é uma área do lobo frontal importante para o engajamento do indivíduo em funções cognitivas complexas. Em relação à atenção, ele está atrelado ao desempenho das seguintes funções atencionais, exceto: A alternativa "D " está correta. A função alerta se refere à consciência ou vigília do indivíduo e é desempenhada pelo SARA (Sistema Reticular Ativador Ascendente), localizado no tronco encefálico. MÓDULO 2 / Identificar os substratos neurais subjacentes ao processo mnemônico e sensório-motor CONCEITOS Retomando a função principal do cérebro – que é a adaptação –, temos na memória uma de suas principais aliadas. Ao aprender sobre o ambiente, o indivíduo pode fazer projeções e modular o seu comportamento com base em experiências anteriores. MEMÓRIA: DEFINIÇÃO De acordo com Baddeley et al. (2011), a memória pode ser definida como a capacidade de adquirir (registrar), armazenar e recordar informações. Tem como função situar e adaptar o indivíduo ao meio, modificar comportamentos em função das novas aprendizagens e experiências anteriores. Fonte: wan wei/Shutterstock O PROCESSO MNEMÔNICO – TEORIAS E FUNÇÕES / FASES DA MEMÓRIA Vimos que a memória é um processo composto por outros três: o de adquirir (aquisição), armazenar (consolidação) e recuperar (evocar) informações disponíveis. Em termos das Neurociências Cognitivas, o processo de memorização pode ser dividido em três fases principais: FASE 1 Aquisição (a formação do traço de memória). FASE 2 Retenção ou armazenamento (quando estratégias de armazenamento fortalecem o traço mnemônico, organizando a informação adquirida). FASE 3 Recuperação (a ativação do traço adquirido, ou o lembrar propriamente dito). Na figura 7, usamos a referência da seta como a passagem do tempo. Dessa maneira, os processos são sucessórios e relativamente independentes. ATENÇÃO Não pode haver recuperação de uma informação que não tenha sido armazenada (consolidada), assim como não pode haver retenção de uma informação que não tenha sido adquirida. As informações, para serem lembradas, precisam ter sido adquiridas (com especial participação da atenção, tratada no módulo anterior) e, posteriormente, retidas (armazenamento), ou seja, elas precisam ser consolidadas organizadamente na rede de informações pertinentes prévias. javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) / Fonte: Autor. Figura 7 - Fases da memória Segundo Cosenza e Guerra (2001) e Sohlberg e Mateer (2011), alguns aspectos facilitam o processo de retenção: Repetição da informação. Relevância emocional para o indivíduo. Boa qualidade do sono após a aquisição. Estratégias adequadas de dar sentido à nova informação em relação às que coexistem na mesma rede (fazer relações entre a informação nova e as anteriormente aprendidas). De acordo com Sara (2000) e Nader e Einarsson (2010), dois processos podem ser descritos no período de armazenagem da informação: CONSOLIDAÇÃO Envolve a transformação dos traços mnésicos transitórios em mais duráveis e estáveis. RECONSOLIDAÇÃO Representa uma atualização do novo traço após novo aprendizado, a partir de sua integração com traços antigos, fortalecendo-o. javascript:void(0) javascript:void(0) / TEORIA DA DEGENERAÇÃO Como citamos nos processos de sensopercepção e atenção, o conjunto de estímulos a que um sujeito está exposto é sempre maior que a capacidade de seu sistema cognitivo de processá-lo. E, ainda assim, nem todos os estímulos que nossa sensopercepção e atenção possam processar serão consolidados na memória. Segundo Gazzaniga (1995), não havendo uma boa estratégia de retenção, muitos estímulos podem sofrer esquecimento, ou degeneração. A teoria da degeneração da memória afirma que esquecemos porque não utilizamos as informações e, assim, elas desaparecem com o tempo, como um processo natural do cérebro, obedecendo a uma espécie de lei do uso e desuso. A figura 8 representa a curva de esquecimento de um aprendizado verbal ao longo do tempo. Observa- se que a retenção da informação (o que fora efetivamente recordado do que foi adquirido) decai muito rapidamente, apenas restando, ao longo de um mês, uma pequena parcela do que foi aprendido. Aqui, mais uma vez se ressalta o papel do indivíduo no processo cognitivo, pois tende a ser mantido o conjunto de informações que faça sentido para aquele indivíduo de forma particular. Fonte: Adaptado e traduzido de Wixted e Ebbesen (1997). Figura 8 - Curva de esquecimento. / CLASSIFICAÇÃO DA MEMÓRIA QUANTO AO TEMPO Uma classificação temporal da memória se refere à quantidade de tempo em que a informação é mantida no cérebro. Assim, temos 3 classificações: MEMÓRIA SENSORIAL MEMÓRIA DE CURTO PRAZO MEMÓRIA DE LONGO PRAZO (MLP) MEMÓRIA SENSORIAL Dura poucos segundos, referindo-se aos conteúdos advindos do sistema sensoperceptivo. MEMÓRIA DE CURTO PRAZO De duração limitada (20-30 segundos) e com capacidade também limitada (de 5 a 7 itens, decaindo com o tempo). Um dos modelos que melhor explica a memória de curto prazo é a memória operacional (ou memória de trabalho), como veremos neste módulo. MEMÓRIA DE LONGO PRAZO (MLP) De duração ilimitada (de segundos a anos, podendo chegar a ser permanente) e capacidade ilimitada (não se conhece o tamanho da MLP humana). E persiste indefinidamente. / MEMÓRIA OPERACIONAL (OU MEMÓRIA DE TRABALHO) O modelo mais bem aceito para explicar a memória de curto prazo é o proposto por Baddeley (2011), que nos apresenta o conceito de memória de trabalho (ou memória operacional), baseado em três componentes principais: alça fonológica, esboço visuoespacial e retentor episódico, organizados por um quarto componente, o executivo central, que se ocupa da manipulação online de informações atuais, integrando funções atencionais e conteúdo da memória de longo prazo (MLP). MANIPULAÇÃO ONLINE Para entender melhor o conceito de manipulação online: “A MT [Memória de Trabalho], portanto, é basicamente realizada online, ou seja, exerce a função de gerenciar o nosso contato com a realidade, decide o que ficará guardado ou não na memória declarativa ou procedural ou o que deverá ser evocado dessas memórias.” (FARIA & MOURÃO Jr., 2013) ALÇA FONOLÓGICA COMPONENTE VISUOESPACIAL RETENTOR EPISÓDICO EXECUTIVO CENTRAL ALÇA FONOLÓGICA De acordo com Zanella e Valentini (2016), este componente é responsável por fornecer armazenamento temporário de material linguístico: aquisição de vocabulário, compreensão da leitura, escrita, habilidades aritméticas e resolução de problemas matemáticos. O principal objetivo da alça fonológica é armazenar padrões sonoros desconhecidos enquanto a memória permanente de registros está sendo construída. javascript:void(0) / COMPONENTE VISUOESPACIAL Zanella e Valentini (2016) também afirmam que este componente possui funções semelhantes às da alça fonológica; envolve informações visuais e espaciais, armazenando-as temporariamente de forma restrita. Esse componente possui papel fundamentalna formação da imagem mental. RETENTOR EPISÓDICO Também conhecido como buffer episódico, garante a capacidade de armazenamento temporário e limitado das informações contidas em um código multimodal, proporcionando, assim, não só um mecanismo para modelar o ambiente, mas também a criação de novas representações cognitivas, que poderão facilitar a resolução de problemas. EXECUTIVO CENTRAL Segundo Gazzaniga (1995), este componente dá suporte às funções cognitivas superiores de gerenciamento das múltiplas tarefas cognitivas e comportamentais voltadas a um objetivo. A memória de trabalho é responsável pelo armazenamento de informações pelo período de utilização (resolução de problemas), por isso depende da atenção. Sendo um modelo da memória de curto prazo, configura o estágio responsável por tornar conscientes as informações transferidas da memória sensorial (imediata) e de longo prazo para que o indivíduo possa manipular ativamente as informações. Embora seja dinâmica, possui pouca capacidade (cerca de 7 itens apenas podem ser processados ao mesmo tempo) e tem uma duração limitada (dependente de enquanto durar a atenção naquele estímulo, mas, geralmente, poucos segundos). De acordo com Zanella e Valentini (2016), a memória de trabalho é um sistema de capacidade limitada que permite o armazenamento e a manipulação temporária de informações verbais ou visuais necessárias para tarefas complexas, como a compreensão, o aprendizado, o raciocínio e o planejamento. Quando o indivíduo ouve uma palavra, o som é encaminhado para a memória sensorial, as experiências com a língua permitem que a pessoa reconheça o padrão de sons, em seguida a palavra é encaminhada para a memória de trabalho onde a informação será processada. Entretanto, o processo de reconhecer o significado da palavra é desenvolvido na memória de longo prazo: local de armazenamento permanente de informações. / SISTEMAS MÚLTIPLOS DE MEMÓRIA As pesquisas em Neurociências Cognitivas, segundo Helene e Xavier (2003) e Squire (2013), trouxeram o conhecimento de que a memória se constitui por componentes que são mediados independentemente por diferentes módulos do sistema nervoso, mas de maneira cooperativa. Sobre a MLP, tem-se, a partir desses estudos, a divisão da memória em dois grandes sistemas: explícito e implícito, que dependem do conteúdo da seguinte subdivisão: MEMÓRIA EXPLÍCITA (OU DECLARATIVA) Refere-se a conteúdos mais conscientes e é dividida em episódica (informações que de alguma forma encontram uma correlação têmporo-espacial) e semântica (que abarca os conceitos ou esquemas). MEMÓRIA IMPLÍCITA (NÃO DECLARATIVA) Está relacionada a condicionamentos, pré-ativação e hábitos motores em geral; são memórias não conscientes. O comparativo a seguir apresenta as diferenças e subdivisões dos dois sistemas. MLP explícita (ou declarativa) Capacidade de armazenamento e recordação consciente de experiências prévias (“o quê”). Acumula informação tanto do tipo espacial quanto temporal. Subsistemas: (1) Episódico: permite o resgate de eventos pessoais com rótulo temporal; bastante suscetível à perda de informação. (2) Semântico: fatos e conceitos. MLP implícita (não declarativa) Capacidade de armazenamento e recordação não consciente de experiências prévias (“como”). Consolidação exige treino. O deficit nessa memória pode interferir na aquisição de habilidades rotineiras. Subsistemas: / (1) Habilidades e hábitos adquiridos e treinados progressivamente, tais como os desenvolvidos em tarefas como andar de bicicleta, fazer pontos de costura, ou jogar bola com maestria. (2) Pré-ativação (ou priming), relacionado ao funcionamento do córtex cerebral, por exemplo, como observado nas listas de recordação com dicas. (3) Condicionamento clássico, como observado nas respostas emocionais de medo, com ativação da amígdala. (4) Aprendizagem não associativa. Memória de longo prazo e divisão em sistema explícito e implícito. Fonte: Baddeley et al. (2011); Fuentes et al. (2008); Matlin (2004); Sternberg (2008). ATENÇÃO Lembre-se de que estamos nos referindo a certos neurônios, também denominados amígdalas cerebelosas (identificadas na figura 9), a fim de diferenciá-los dos órgãos homônimos (também denominados tonsilas palatinas), localizados entre a boca e a faringe. Se, por exemplo, em algum momento deste tema, você se lembrou de ligar para sua avó e combinar com ela a que horas poderá levá-la amanhã ao hospital, você usou sua memória declarativa (consciente). E se você for até lá de bicicleta, usará sua memória implícita (não consciente) ao pedalar. NEUROCIÊNCIA DA MEMÓRIA Os múltiplos sistemas de memória são independentes porque se baseiam em estruturas (ou redes) neurais um tanto independentes também. Assim, diferentes tipos de memória – e de processos da memória – podem ser atribuídos ao funcionamento adequado de diferentes áreas neurais, conforme aponta a figura 9. / Fonte: Adaptado de Morris e Maisto (2004). Figura 9 - Áreas cerebrais envolvidas na memória. CPF = córtex pré-frontal; MCP = memória de curto prazo; MLP = memória de longo prazo. Destaca-se o papel fundamental do córtex pré-frontal para a memória de curto prazo (em especial quando assume-se o modelo de memória operacional). Em relação à neurobiologia da memória de longo prazo (MLP), está bem estabelecido o papel do hipocampo para a consolidação das memórias, embora essa estrutura só esteja responsável pelo armazenamento temporário da informação: as memórias já consolidadas são armazenadas em diferentes regiões do córtex cerebral, dependendo de o conteúdo da informação ser visual, emocional, verbal, entre outros. Com especial atenção, destacamos que a amígdala e o hipocampo (também na figura 9) não são locais de armazenamento de informação, mas participam do processo de formação (consolidação e reconsolidação) de memórias. Esse é um ponto de bastante confusão e erro. A figura 9 destaca a localização do hipocampo, estrutura responsável pela consolidação das memórias, especialmente às MLP explícitas. Baddeley et al. (2011) e Callegaro (2011) afirmam que essa estrutura não está plenamente desenvolvida na criança em torno dos 2 anos de idade. Isso poderia explicar, ao menos em parte, o fenômeno da amnésia infantil. Em termos neurobiológicos, o processo de memorização requer mudanças em propriedades neurais como a excitabilidade da membrana do neurônio e o fortalecimento sináptico, ou seja, da comunicação entre os neurônios. Alguns princípios, segundo Squire (2013), ajudam-nos a compreender os mecanismos moleculares e neurais implicados na aprendizagem e na memória: existem múltiplos sistemas de memória no cérebro; aprendizagem e memória de curto e longo prazo envolvem mudanças na rede neural existente. Essas mudanças, segundo Nader e Einarsson (2010), envolvem múltiplos mecanismos celulares em neurônios existentes; e memória de longo prazo (MLP), que requer a síntese de novas proteínas. / PROCESSOS DA MENTE: INTEGRAÇÃO SENSÓRIO-MOTORA O conceito de integração se mostra essencial para o funcionamento da mente e, assim, do indivíduo em interação com seu meio. No processo de integração sensório-motora, fica evidente que o sistema nervoso (SN) trabalha de forma coordenada e dinâmica. Vamos abordar a relação íntima e necessária entre os aspectos cognitivos e motores. Esse é um dos aspectos mais ricos do funcionamento cognitivo, especialmente quando se pensa em aprendizados motores como a fala, a escrita, o uso de ferramentas e instrumentos em geral. INTEGRAÇÃO SENSÓRIO-MOTORA: DEFINIÇÃO A integração sensório-motora pode ser definida como o processo segundo o qual o cérebro organiza as informações com a finalidade de dar uma resposta adaptativa adequada, que pode configurar um comportamento motor. É responsável por estruturar as sensações do próprio corpo e do ambiente a fim de possibilitar seu uso apropriado no ambiente. Portanto, podemos explicar a integração sensório- motora como a habilidadeinata de organizar, interpretar sensações e responder apropriadamente ao ambiente, de forma funcional. / Fonte: Tasty_Cat/Shutterstock O PROCESSO SENSÓRIO-MOTOR O desenvolvimento da integração sensorial se inicia ainda na vida intrauterina e ocorre devido à interação do indivíduo com o ambiente por meio de respostas que se mostram adaptativas ou não ao contexto, o que leva ao aprendizado. Nos períodos iniciais da vida, o indivíduo detém a capacidade de organizar inputs sensoriais experimentando sensações, porém inicialmente incapazes de dar significado a elas. Conforme o avanço do desenvolvimento, o indivíduo passa a reunir condições (em termos de maturidade neurológica, inclusive) para controlar seus comportamentos e aprender com os respectivos feedbacks do meio externo. javascript:void(0) / Fonte: Katy Flat/Shutterstock INPUTS SENSORIAIS Inputs sensoriais referem-se às funções receptivas; à capacidade para selecionar, adquirir, classificar e integrar as informações, isto é, sensação, percepção, atenção e concentração. A seguir, recordaremos as unidades funcionais que vimos no módulo 1 e, também, como acontece o processo de integração sensório-motora: PROCESSAMENTO BOTTOM-UP E TOP-DOWN NA INTEGRAÇÃO SENSÓRIO-MOTORA É necessário recordar as unidades funcionais apontadas por Luria. A integração sensório-motora é a fina coordenação entre os dois tipos de processamento. Sigamos com um simples exemplo para podermos compreender como esse processo se dá: Ao verificar uma caixa [visão – processo bottom-up (percepção)]; O indivíduo pode decidir apanhá-la (informação decisional que surge de áreas de associação frontal e segue para as áreas primárias motoras – top-down); Supondo seu conteúdo e seu peso (presunção também organizada por áreas corticais superiores – top-down); / Entretanto, ao levantar a caixa, nota que o peso é bem menor do que o imaginado (Percepção - processo bottom-up); Informação que rapidamente chega ao córtex e refaz o planejamento motor para aliviar a força imprimida pelos braços (processo top-down). O exemplo nos demonstra a atuação dinâmica entre os dois processos, o mesmo que ocorre quando ouvimos uma pergunta e a respondemos, porém, modulando a altura de nossa voz devido a qualquer mudança ambiental. Ou quando supomos uma palavra escrita num texto e a lemos. Ocorre ainda quando somos capazes de andar em nossa casa no escuro, pois sabemos o mapa espacial do local, embora possamos usar prontamente o tato caso sintamos qualquer mudança no ambiente físico, como um móvel fora do lugar. ESTÁGIOS DO PROCESSO DE INTEGRAÇÃO SENSÓRIO- MOTORA O processo de integração sensório-motora, segundo Molleri et al. (2010), acontece em 5 estágios: 1 - Registro sensorial: é o reconhecimento da sensação. 2 - Orientação e atenção: é a atenção seletiva específica ao estímulo. 3 – Interpretação: é o significado da sensação. Este componente é cognitivo, pois interpretamos a sensação à luz da experiência e de aprendizados anteriores, além de atribuirmos caráter emocional às sensações. 4 - Organização da resposta: organizada cognitiva, afetiva e motoramente. 5 - Execução da resposta: o último estágio da integração sensorial e o único que pode ser diretamente observado. Isso traz fundamentos para se pensar nos comportamentos (muitos deles motores, como a fala e as respostas emocionais, o deslocamento do indivíduo pelo ambiente) resultantes dos processos de integração sensorial e nas bases sensoriais da autorregulação. NEUROCIÊNCIA DA INTEGRAÇÃO SENSÓRIO- MOTORA No processo sensório-motor, o cérebro organiza as informações captadas sensorialmente a fim de dar uma resposta adaptativa adequada ao ambiente, organizando as sensações do próprio corpo para utilizá-lo de modo eficiente. / O SN é o responsável pela integração das diversas sensações recebidas e dos comportamentos efetuados pelo indivíduo como respostas a essas sensações. De acordo com Matlin (2005), o SNC localiza, classifica e organiza os impulsos sensoriais e transforma as sensações em percepção para que o indivíduo possa interagir com o meio, organiza as informações visuais, auditivas, táteis, olfativas e gustativas, bem como informações sobre gravidade e movimento, e consequentemente as ordena em um plano de ação. Na figura 10, pode-se observar o caminho percorrido pela informação numa tarefa que exemplifica a integração sensório-motora: repetir uma palavra ouvida. Fonte: Adaptado e traduzido de Binder (2015). Figura 10 - Caminho da informação na tarefa de repetir uma palavra ouvida (áreas de 1 a 5). 1 – O input sensorial auditivo chega ao córtex auditivo primário. 2 – É encaminhado para a área de Wernicke. 3 – Uma área de associação têmporo-parietal, onde é processada a compreensão do que se foi pedido; através do fascículo arqueado. / 4 – Um feixe de axônios que comunica áreas têmporo-parietais com áreas motoras de associação –, ele chega à área de Broca – no córtex motor secundário, específica para a produção de palavras. 5 – Finalmente é encaminhado para a área motora primária, para que se produzam os comportamentos motores na boca, na língua e no diafragma, efetivando a produção da fala. Como se trata de uma integração de áreas, é razoável supor que lesões ou mau funcionamentos em regiões específicas podem levar a disfunções no desempenho do indivíduo em tarefas sensório- motoras. A tabela 5 apresenta os mais importantes quadros conhecidos derivados de lesões em áreas motoras. Lobo de localização da lesão Área funcional Efeitos Nome da disfunção Frontal Córtex motor primário Incapacidade de executar movimentos finos e precisos Paralisia cortical Córtex motor secundário Incapacidade de organizar e de planear os movimentos numa sequência unificada Apraxia Incapacidade de se expressar escrevendo Agrafia ou apraxia da escrita Incapacidade de Afasia ou apraxia / se expressar falando de linguagem Tabela 5 - Disfunções motoras mais frequentes por lesões adquiridas. Fonte: Brandão (2004); Fuentes et al. (2008); Lent (2008); Sohlberg e Mateer (2011). ATENÇÃO Nas áreas de saúde e educação, é fundamental que se avalie a integridade de aspectos sensoriais e motores quando se realiza a observação de tarefas que envolvam a integração sensório-motora. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. DE ACORDO COM BADDELEY, A MEMÓRIA TEM COMO FUNÇÃO SITUAR E ADAPTAR O INDIVÍDUO AO MEIO, MODIFICAR COMPORTAMENTOS EM FUNÇÃO DAS NOVAS APRENDIZAGENS E EXPERIÊNCIAS ANTERIORES. CONSIDERE OS PROCESSOS A SEGUIR: I – INDUÇÃO II – ADAPTAÇÃO III – AQUISIÇÃO IV – RECUPERAÇÃO V – RETENÇÃO VI – CONSOLIDAÇÃO MARQUE A ALTERNATIVA QUE INDICA A SEQUÊNCIA TEMPORAL DE PROCESSOS NA MEMORIZAÇÃO DE UM CONTEÚDO NOVO: A) I, II, IV B) III, VI, IV C) III, IV, VI D) II, VI, IV / 2. CONSIDERE A TAREFA DE RESPONDER COM UM SINAL DE LEVANTAR AS MÃOS SEMPRE QUE, NUMA TELA PROJETANDO IMAGENS, APARECER A FIGURA DE UM TRIÂNGULO. SOBRE TAL TAREFA, É INCORRETO AFIRMAR QUE: A) A tarefa depende das funções cognitivas atenção e integração sensório-motora. B) A tarefa somente inclui a participação de áreas de associação. C) O comportamento motor na tarefa é um exemplo de processamento top-down. D) A tarefa exemplifica a integração entre os processamentos bottom-up e top-down. GABARITO 1. De acordo com Baddeley, a memória tem como função situar e adaptar o indivíduo ao meio, modificar comportamentos em função das novas aprendizagens e experiências anteriores. Considere os processos a seguir: I – Indução II – Adaptação III – Aquisição IV – Recuperação V – Retenção VI – Consolidação Marque a alternativa que indica a sequência temporal de processos na memorização de um conteúdo novo: A alternativa "B " está correta. Para a memorização de um conteúdo novo, primeiro realizamos o processo de aquisição de uma nova informação; em seguida, o conteúdo é retido (ou consolidado) para depois ser recuperado. Memória é a capacidade para adquirir (registrar),armazenar e recordar informações. 2. Considere a tarefa de responder com um sinal de levantar as mãos sempre que, numa tela projetando imagens, aparecer a figura de um triângulo. Sobre tal tarefa, é incorreto afirmar que: A alternativa "B " está correta. A tarefa citada, como exemplifica a integração entre os processamentos bottom-up e top-down, necessariamente inclui áreas primárias (sensorial, visual e motora) tanto para a percepção do estímulo / (triângulo), quanto para a resposta motora correspondente. CONCLUSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesse tema, estudamos sobre quatro processos da mente. Identificamos que a sensação, a atenção, a memória e a integração sensório-motora são consideradas processos da mente porque se caracterizam como funções cognitivas, desempenhadas pelo indivíduo no processo de adaptação ao meio em que vive. Cada processo de adaptação, desde perceber a árvore que cai na floresta a aumentar o tom de nossa voz ao responder a uma pergunta (porque o ambiente tornou-se mais barulhento), só é acessível porque nosso sistema nervoso está organizado de forma a percebê-lo. É graças à integração de áreas do sistema nervoso que podemos, efetivamente, também nos integramos ao meio que nos cerca, valorizando uma de nossas maiores habilidades, totalmente integrada ao SN: a capacidade de adaptação. REFERÊNCIAS BINDER, J. R. The Wernicke area: Modern evidence and a reinterpretation. In: Neurology, dez. 2015, v. 85, n. 24, pp. 2170-2175. BRANDÃO M. L. As bases biológicas do comportamento: introdução à Neurociência. São Paulo: EPU, 2004. / CALLEGARO, M. O novo inconsciente: Como a terapia cognitiva e as neurociências revolucionaram o modelo do processamento mental. Porto Alegre: ArtMed, 2011. COSENZA, R. M.; GUERRA, L. B. Neurociência e educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre: ArtMed, 2001. FARIA, E.; MOURÃO JÚNIOR, C. Os recursos da memória de trabalho e suas influências na compreensão da leitura. In: Psicologia: ciência e profissão. v. 33, n. 2, Brasília, 2013. FUENTES, D. et al. Neuropsicologia: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed, 2008. GAZZANIGA, M. S. The cognitive neurosciences. Cambridge: Bradford book, 1995. HELENE, A. A.; XAVIER, G. F. A construção da atenção a partir da memória. In: Rev. Bras. Psiquiatr. São Paulo, v. 25, supl. 2, p. 12-20, dez. 2003. KATSUKI, F.; CONSTANTINIDIS, C. Bottom-Up and Top-Down Attention. In: The Neuroscientist, 2013, v. 20, n. 5, PP. 509-521. KRUSZIELSKI, L. Teoria do Sistema Funcional. Consultado em meio eletrônico em: 8 ago. 2020. LENT, R. Neurociência da mente e do comportamento. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. MATLIN, M. W. Psicologia Cognitiva. Capítulo 2 – Processos perceptivos. pp. 35-45. Rio de Janeiro: LTC, 2004. MOLLERI, N. et al. Aspectos relevantes da integração sensorial: organização cerebral, distúrbios e tratamento. In: Revista Neurociências, 2010. n. 6, p. 173. MORRIS, C. G.; MAISTO, A. A. Introdução à Psicologia. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2004. NADER, K.; EINARSSON, E. Ö. Memory reconsolidation: An update. 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Ribeirão Preto, USP, 2016, v. 49 n. 2, pp. 160-174. / EXPLORE+ Para aprofundar mais seus estudos sobre o tema: Leia os livros: O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, de Oliver Sacks. Neurociência da mente e do comportamento, de Roberto Lent. O novo inconsciente, de Marco Callegaro. Assista aos vídeos: Da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia. Caso você tenha domínio do inglês, veja os da Society for Neuroscience (a maior associação de Neurociência do mundo). Aplicativos: Interaja com alguns aplicativos de estimulação de funções cognitivas, como o BrainHQ, Cognif e Lumosity. Pesquise sobre: O Museu Itinerante de Neurociências – uma iniciativa focada na promoção da alfabetização e difusão científica. CONTEUDISTA Érica de Lana Meirelles CURRÍCULO LATTES javascript:void(0); / DEFINIÇÃO Conceitos de neuroplasticidade e Neuropsicologia. Contribuições da Neuropsicologia para o processo de aprendizagem. Dificuldades e transtornos de aprendizagem e sua relação com o desenvolvimento do cérebro. Noção de inteligência e sua relação com a aprendizagem da leitura e do raciocínio lógico. Ambientes de aprendizagem neurocientificamente coerentes. PROPÓSITO Apresentar a contribuição da neuroplasticidade cerebral e da Neuropsicologia no processo de ensino e aprendizagem, as dificuldades e os transtornos de aprendizagem na perspectiva da neurociência, a relação entre inteligência e desenvolvimento da leitura e do pensamento matemático, bem como a importância da construção de ambientes de aprendizagem neurocientificamente coerentes. OBJETIVOS / MÓDULO 1 Identificar as principais dificuldades e os principais transtornos de aprendizagem e suas relações com o desenvolvimento à luz da Neuropsicologia MÓDULO 2 Reconhecer a relação entre o conceito de inteligência e o desenvolvimento da leitura e do raciocínio lógico em um contexto de ambiente escolar neurologicamente coerente INTRODUÇÃO Nas últimas décadas, profissionais de diferentes campos das ciências da saúde e educação contribuíram para a compreensão da aprendizagem valendo-se de uma abordagem multiprofissional. Identificamos que, para conhecer os problemas que interferem no desenvolvimento da criança, é preciso compreender os padrões de normalidade – aquilo que é esperado com base nas características da espécie – que envolvem o desenvolvimento dos seres humanos. Fonte: senivpetro / Freepik Desenvolvimento das crianças / As neurociências são um conjunto de disciplinas relacionadas com diferentes campos de conhecimento, que têm por objetivo estudar o funcionamento do cérebro, construindo, assim, um olhar interdisciplinar acerca deste fenômeno. Consideramos que os processos cognitivos, apoiados pela mudança constante do cérebro, estão intrinsecamente conectados à nossa estrutura física, cognitiva e psicossocial. Este, portanto, será nosso objeto de estudo. MÓDULO 1 Identificar as principais dificuldades e os principais transtornos de aprendizagem e suas relações com o desenvolvimento à luz da Neuropsicologia NEUROPLASTICIDADE O termo neuroplasticidade tem sido usado em diferentes pesquisas para descrever fenômenos em distintos níveis de organização de nosso organismo. Podemos falar de neuroplasticidade desde a regulação genético-molecular até níveis mais avançados, como a reorganização das redes neurais. As vias neurais são estruturas plásticas e mudam constantemente como produto de estímulos internos e externos. NEUROPLASTICIDADE Este termo foi usado pela primeira vez na década de 1940. Trata-se da reorganização neuronal em função das experiências vividas pelo organismo em sua relação com o meio. EXEMPLO Exames recentes com testes de neuroimagem demonstram que o processo de aprendizagem pode ser encarado como uma resposta comportamental a estímulos ambientais, dos quais a neuroplasticidade depende. javascript:void(0) / Compreender a estrutura e as funcionalidades associadas à estrutura neural permite, então, que profissionais de educação e saúde proponham melhores estratégias de ensino em diferentes contextos educacionais. Aneuroplasticidade também depende da capacidade plástica do sistema nervoso central, que se reorganiza em função das diferentes situações sociais enfrentadas pelo sujeito. Todas as funções corticais superiores envolvidas na cognição, tais como as gnosias, as praxias e a linguagem, são bons exemplos da plasticidade cerebral — dos níveis mais elementares, como o molecular, até os níveis cognitivos. GNOSIAS Reconhecimento de um objeto usando alguns dos sentidos corporais. PRAXIAS Sequências de movimentos que o corpo realiza para concluir determinado ato motor. Jacques Gaimard / Pixabay Reação do cérebro a partir de experiêcias vividas e o meio O cérebro é, por excelência, o órgão responsável pelo processo de aprendizagem. A partir do seu uso, é possível integrar nosso organismo ao meio ambiente para lidar com diferentes situações. A plasticidade javascript:void(0) javascript:void(0) / cerebral depende, portanto, das nossas experiências de vida. Não existem dois cérebros iguais, uma vez que nossa organização neural é fruto de nossa individualidade. De acordo com Rotta (2016), podemos dividir a neuroplasticidade em dois tipos: a plasticidade do desenvolvimento normal do cérebro e a plasticidade reacional. Vejamos cada uma delas: PLASTICIDADE DO DESENVOLVIMENTO NORMAL DO CÉREBRO É uma operação complexa com várias etapas coexistindo e se autoinflenciando. Entre elas, temos: Plasticidade neuronal; Plasticidade dos prolongamentos celulares; Plasticidade sináptica; Modificações neuroquímicas e funcionais. PLASTICIDADE REACIONAL Acontece quando o cérebro sofre alguma lesão, e o órgão tenta, de alguma forma, compensar o trabalho da área lesionada. A regeneração é possível tanto no sistema nervoso central quanto no sistema nervoso periférico, porém o periférico tem mais chances de efetuar essa plasticidade com eficiência. O sistema nervoso modifica-se constantemente ao longo da vida, em função das experiências, das interações e dos vínculos estabelecidos em nosso cotidiano. NEUROPSICOLOGIA Entre as áreas que auxiliam na compreensão dos processos de ensino e aprendizagem, podemos destacar a Neuropsicologia como um campo que nos ajuda a compreender até que ponto podemos estabelecer uma ligação clara entre o funcionamento anatômico do cérebro e suas relações com as emoções e a aprendizagem. Nesse contexto, podemos definir aprendizagem como aquisição de dados, cujo objetivo é realizar uma tomada de decisão em função de determinada situação. Neste momento, diferentes processos cognitivos, como memória, linguagem, organização de ideias, raciocínio lógico etc., são acionados em conjunto para responder as demandas do cotidiano. A Neuropsicologia possibilita uma compreensão mais ampla sobre a forma como as emoções interferem na cognição e no comportamento. Vários autores divergem quando o assunto é sua origem. Entretanto, é certo que houve uma grande mudança nos rumos deste campo do conhecimento a partir do século javascript:void(0) javascript:void(0) / XIX, com as descobertas de Pierre Paul Broca e Carl Wernicke, que inauguraram a Neuropsicologia da Linguagem. No século XX, vimos o início da Neuropsicologia Moderna. Autores como Karl Spencer Lashley, Alexander Romanovich Luria e Donald Olding Hebb são alguns dos representantes deste período. PIERRE PAUL BROCA (1824-1880) “Cirurgião e antropólogo francês que se destacou na história da medicina e das neurociências pela descoberta do centro da fala (atualmente conhecido como área de Broca), ao estudar os cérebros de pacientes afásicos (incapazes de falar). De acordo com Broca, essa afasia, causada por alguma lesão no lobo frontal do cérebro, era motora, pois impedia a lembrança dos movimentos necessários para a produção da linguagem falada ou escrita.” SABBATTINI, 1997; RUIZA; FERNÁNDEZ; TAMARO, 2004. (Tradução livre. Grifo nosso.) Fonte: Wellcome Library / Wikimedia Pierre Paul Broca javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) / CARL WERNICKE (1848-1905) “Neuropsiquiatra alemão, cujos trabalhos sobre o complexo sintomático da afasia e a descrição de uma alteração na percepção da linguagem foram fundamentais para futuras investigações neurológicas dos distúrbios da linguagem. De acordo com Wernicke, essa afasia, causada por alguma lesão ou algum dano sofrido no lobo temporal do cérebro (área de Wernicke), era sensorial, pois impedia a lembrança do significado da linguagem falada ou escrita.” RUIZA; FERNÁNDEZ; TAMARO, 2004. (Tradução livre. Grifo nosso.) Fonte: Max Glauer / Wikimedia Carl Wernicke KARL SPENCER LASHLEY (1890-1958) / "Psicólogo norte-americano que estudou os mecanismos neurofisiológicos envolvidos na aprendizagem. Ainda que se reconheça como behaviorista, discorda da concepção mecanicista de comportamento defendida por esta corrente. Desenvolveu inúmeras investigações, procurando relacionar o funcionamento do cérebro com vários tipos de aprendizagem. Opõe-se à noção rígida de localizações cerebrais, defendendo uma visão integrativa do cérebro.” (Dicionário Digital Infopédia.) Fonte: (WP:NFCC#4) / Wikimedia Karl Spencer Lashley ALEXANDER ROMANOVICH LURIA (1902-1977) "Neuropsicólogo russo, reconhecido em todo o mundo como um dos psicólogos mais eminentes e influentes do século XX, que fez avanços em muitas áreas, incluindo psicologia cognitiva, processos de aprendizagem e esquecimento, retardo mental e Neuropsicologia. A pesquisa sobre o funcionamento do cérebro, abordando aprendizado e esquecimento, atenção e percepção como construções psicológicas, envolveu Luria por 40 anos. A análise / funcional e as alterações resultantes de lesões cerebrais locais constituíram sua área de maior interesse.” (PACHALSKA; KACZMAREK, 2012) Fonte: UCSD Luria Homepage / Wikimedia Alexander Romanovich Luria DONALD OLDING HEBB (1904-1985) "Considerado o pai da Neuropsicologia, devido à maneira como conseguiu fundir o mundo psicológico com o mundo da neurociência, a partir da publicação da obra intitulada A organização do comportamento: uma teoria neuropsicológica (1949), que demonstrou sua teoria sobre como o aprendizado é realizado no cérebro.” Donald O. Hebb / Wikimedia / Fonte: Donald O. Hebb / Wikimedia Donald Olding Hebb O TERMO NEUROPSICOLOGIA SURGIU NO ANO DE 1913, MAS APENAS NA DÉCADA DE 1940, COM AS PUBLICAÇÕES DE ARTIGOS SOBRE A MULTIPLICAÇÃO DE CONEXÕES SINÁPTICAS, GANHOU NOTORIEDADE. (METRING, 2011) CONEXÕES SINÁPTICAS São as que envolvem sinapses, ou seja, conexões entre os neurônios. Como os neurônios não se tocam fisicamente, é necessário que haja um processo elétrico e químico que permita a comunicação entre eles. Essa comunicação é mediada quimicamente pelos neurotransmissores. javascript:void(0) / Mas foi com Alexander Romanovich Luria que a Neuropsicologia entrou em sua modernidade (VELASQUES; RIBEIRO, 2014). Vamos nos aprofundar em suas contribuições para este campo do conhecimento. CONTRIBUIÇÕES DE LURIA À NEUROPSICOLOGIA Os estudos de Luria foram essenciais na definição de várias funções cognitivas. No próximo módulo, vamos nos aprofundar em algumas delas, mas, agora, é importante ter clareza sobre suas características no contexto de nosso estudo. Vamos a elas: as funções cognitivas! Fonte: user18526052 / Freepik. ATENÇÃO É uma função cognitiva complexa, relacionada com a capacidade que o sujeito possui de manter o foco em determinado estilo proveniente do meio. Podemos dividir esta função em pelo menos seis tipos: atenção voluntária ou seletiva, involuntária, flutuante ou dividida, concentrada, sustentada e alternada. Essa divisão não é consenso e difere de uma pesquisa para outra. Fonte: freepik / Freepik. MEMÓRIA Outra função cognitiva complexa, porque envolve a integração de diferentes regiões do cérebro responsáveis pela captação, pelo processamento, pelo armazenamento e pela evocação da informação. A permanência de uma informação na memória depende de umasérie de fatores: emoção associada, / motivação etc. Esta função cognitiva também pode ser dividida em memória operacional, memória de curto prazo ou de trabalho e memória de longo prazo. Fonte: freepik / Freepik. FUNÇÃO TÁTIL-CINESTÉSICA Está diretamente relacionada com elementos que permitem o reconhecimento de objetos por forma e tamanho, sem utilização da visão. Fonte: master1305 / Freepik. FUNÇÕES MOTORAS Elas estão diretamente relacionadas com a motricidade, as praxias, a capacidade de se locomover de maneira voluntária. Fonte: freepik / Freepik. ORIENTAÇÃO Capacidade que o ser humano possui de desenvolver diversas ações cotidianas, como dirigir, no caso da orientação espacial, ou se posicionar em relação ao espaço de acordo com seu corpo, como no caso / da propriocepção. Fonte: freepik / Freepik. LINGUAGEM Faculdade mental superior responsável pelo processo de comunicação em sociedade. Fonte: freepik / Freepik. RACIOCÍNIO Compreende nossa habilidade de combinar pensamento com estratégias para chegar a alguma conclusão. Fonte: freepik / Freepik. JULGAMENTO Tem relação direta com nossa capacidade de tomar decisões diante de determinada situação. Luria também descreveu o cérebro como um conjunto de estruturas dividido em três unidades funcionais. Veremos agora quais são essas três unidades: / PRIMEIRA UNIDADE Esta unidade regula o tônus cortical e a vigília. As estruturas anatômicas aqui responsáveis são: a medula, o tronco cerebral, o cerebelo, o sistema límbico e o tálamo. SISTEMA LÍMBICO Estrutura do cérebro responsável pelo controle e pela organização das emoções, bem como pela produção de sensações vinculadas aos processos emotivos. Tem relação direta com a estabilidade ou o desequilíbrio de nosso estado emocional. javascript:void(0) / SEGUNDA UNIDADE Ela regula o recebimento e o processamento das informações, bem como seu armazenamento. É composta pelos: Lobos parietais: somatossensoriais; Lobos occipitais: áreas visuais; Lobos temporais: áreas auditivas. / TERCEIRA UNIDADE Esta unidade programa, regula e verifica a atividade mental e sua conexão com o comportamento. As regiões que correspondem a essa unidade funcional são as anteriores do giro pré-central dos hemisférios cerebrais, que compreendem o córtex motor, pré-motor e pré-frontal. A compreensão dessas áreas funcionais é essencial para entendermos os problemas de aprendizagem apresentados por um aluno. Anormalidades em qualquer dessas unidades pode resultar em diferentes problemas de aprendizagem relacionados à atenção, à memória, à dificuldade para decodificar textos ou mesmo compreender e organizar tarefas. De acordo com essa perspectiva, o comportamento como resposta a determinada situação é produto da integração funcional de diferentes sistemas compostos por várias áreas do cérebro. Este, por sua vez, coordena um número limitado de áreas corticais quando produz um comportamento específico. APLICAÇÃO DA NEUROPSICOLOGIA NO CONTEXTO EDUCACIONAL A Neuropsicologia busca compreender as relações entre as funções psicológicas superiores e os processos neurais. O foco aqui são as inúmeras possibilidades de avaliação e intervenção em diferentes níveis como forma de auxiliar o desenvolvimento de alunos com ou sem algum tipo de lesão cerebral. / O cérebro humano funciona em uma sequência ordenada e sistemática de desenvolvimento, que vai do nível estrutural ao funcional. Esse processo tem como produto diversas mudanças cognitivas e comportamentais. Fonte: freepik / Freepik Neuropsicologia As informações oriundas do campo da Neuropsicologia e sua aplicação ao campo da Educação têm como estrutura fundamental a noção de que é possível sustentar uma visão sobre os processos de ensino e aprendizagem tendo como base conhecimentos comprovados sobre o funcionamento do cérebro. A Neuropsicologia traz uma nova visão acerca das teorias de aprendizagem clássicas e permite que educadores possam comparar e expandir seu ponto de vista sobre o processo de aprendizagem. A abordagem neurocientífica possibilita um olhar sistêmico e integrado, relacionando, de forma direta, conceitos como inteligência, emoção, comportamento e ambientes de aprendizagem com as dimensões física, cognitiva e psicossocial do desenvolvimento. As emoções humanas e sua relação com o processo de aprendizagem é um tema importante no campo da Neuropsicologia. Afinal, sem emoção não há aprendizagem. Para que a aprendizagem acorra de maneira eficiente, são necessárias associações com estados emocionais. A mesma afirmação pode ser referida à memória. Quanto maior for a qualidade da emoção associada ao que foi aprendido, maior será a probabilidade de fixação e posterior evocação da informação. Compreender os fundamentos da Neuropsicologia significa, portanto, inserir o processo educacional numa abordagem que vê o desenvolvimento humano como um processo evolutivo e maturacional intimamente vinculado a determinadas fases e numa sequência ordenada. / APRENDIZAGEM Aprender é uma condição natural do ser humano. Desde o processo de gestação, somos levados a desenvolver nossa estrutura anatômica, fisiológica e psicológica para lidar com as situações do cotidiano. Nossa sobrevivência depende disso. O termo aprendizagem pode ser encontrado na literatura como tema de pesquisa de diversas linhas e já passou por inúmeras modificações ao longo do século XX. Ao estudarmos sobre a forma como os seres humanos transformam suas experiências em respostas comportamentais que auxiliam na sua sobrevivência, também nos deparamos com a questão da não aprendizagem. Atualmente, muitos autores procuram separar os sujeitos que não aprendem em pelo menos dois grupos, veja quais são: 1 Fonte: Andrew Angelov / shutterstock Aqueles que têm dificuldade para aprender por questões externas, como a metodologia do professor, a relação com os colegas, a falta de técnica adequada, as condições socioeconômicas, entre outros fatores. / Aqueles que têm dificuldade para aprender por questões neurológicas, geralmente inatas ou provocadas por lesões. 2 Muitas pessoas já se fizeram este questionamento: Porque alguns alunos não conseguem aprender determinado conteúdo ou desenvolver certa habilidade? Este fato deve ser investigado com cuidado e a neurociência tem contribuído de maneira significativa para auxiliar profissionais de educação e saúde na compreensão dos problemas de aprendizagem. Muitos profissionais que lidam há décadas com alunos com dificuldades de aprendizagem sabem que, por trás de cada sujeito, há um cérebro com um ritmo próprio e um estilo cognitivo muito particular, que precisa ser levado em consideração, na medida do possível, quando o professor desenvolve seu planejamento curricular. COMENTÁRIO Sabemos que a aprendizagem como processo complexo não se resume ao mero armazenamento de informações. É necessário o desenvolvimento da capacidade para processar e transformar o pensamento em comportamento em prol de nossa sobrevivência. / DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM Por dificuldades de aprendizagem, compreendemos as que têm origem externa ao sujeito, ou seja, que não são fruto de lesão em alguma área cortical nem de problema genético. Na tabela abaixo listamos algumas características das dificuldades de aprendizagem, confira: CARACTERÍSTICAS DAS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM O desempenho pode ser abaixo da capacidade cognitiva do sujeito. As dificuldades podem apresentar-se maiores do que as geralmente enfrentadas pelos colegas de classe, pois são mais resistentes ao esforço pessoal e dos professores em suas práticas. Neste caso, podem levar a uma autoestima negativa. Há a possibilidade de os profissionais estabelecerem um diagnóstico mais facilmente e, assim, evitar problemas no futuro. Geralmente as dificuldades são passageiras e podem ser evitadas, modificando-se determinados aspectos da cultura escolar ou da rotina da família ou do aluno. TRANSTORNOS DE APRENDIZAGEM Os transtornosde aprendizagem afetam diretamente as atividades acadêmicas, porém com sintomas provenientes de alguma anomalia na organização das estruturas neurais. Diferentemente das dificuldades, os transtornos de aprendizagem não são transitórios. Neste caso, o papel dos profissionais de saúde e educação é melhorar a qualidade de vida dessas pessoas, minimizando os prejuízos causados pela anomalia, para que tenham uma vida acadêmica eficiente. Mas quais são os sintomas que sinalizam a possibilidade de um transtorno de aprendizagem? Entre eles, podemos destacar os problemas para: SINTOMAS SINALIZANTES DE TRANSTORNO DE APRENDIZAGEM / 1. Ler as palavras de forma precisa ou realizar uma leitura mais dinâmica — a pessoa parece muito lenta, aquém do potencial de desenvolvimento. 4. Expressar-se na escrita. 2. Compreender o texto lido — a pessoa lê, mas não consegue interpretar o que leu. 5. Dominar a leitura, a interpretação e a manipulação de números ou símbolos matemáticos. 3. Escrever corretamente, adicionando ou omitindo letras e fonemas. 6. Raciocinar. Para serem avaliados, esses sintomas precisam ser recorrentes por, pelo menos, seis meses. Também é preciso descartar outras causas externas que possam favorecer problemas cognitivos ou emocionais. Além disso, as habilidades acadêmicas afetadas devem ser consideradas quantitativa e qualitativamente abaixo do esperado, tendo em vista a idade cronológica do aluno. E o mais importante: a avaliação deve ser realizada com testes padronizados e por uma equipe multidisciplinar, composta de profissionais de saúde e educação, a fim de que o processo seja o mais amplo possível. Considerando os avanços recentes no campo das neurociências, podemos estabelecer alguns princípios para o desenvolvimento de estratégias que ajudem a minimizar os transtornos de aprendizagem (ROTTA, 2016): PRIMEIRO PRINCÍPIO A aprendizagem é um processo social. A construção de um ambiente de aprendizagem positivo favorece a interligação entre estruturas que são responsáveis pelo processamento da informação, bem como pelo armazenamento e pelo controle das emoções, permitindo uma aprendizagem mais eficiente. SEGUNDO PRINCÍPIO O cérebro responde as informações capturadas pelos órgãos dos sentidos. Propiciar momentos em que os alunos possam construir seu conhecimento com estratégias lúdicas favorece a fixação de informação de maneira mais ampla. TERCEIRO PRINCÍPIO Ao contrário do que a literatura acreditava há décadas, aprendemos a vida toda. É necessário estudar os períodos sensíveis, os marcos de desenvolvimento ou, ainda, as janelas de oportunidade. Porém, javascript:void(0) / com o passar do tempo, nossa capacidade adaptativa parece diminuir. É mais fácil aprender um novo idioma quando se é criança em relação a determinado período da idade adulta. JANELAS DE OPORTUNIDADE Períodos em que o cérebro humano está mais propenso a aprender determinadas habilidades. QUARTO PRINCÍPIO O cérebro humano percebe padrões enquanto testa hipóteses. Promover atividades que possam incentivar essa possibilidade aumenta a ativação de áreas corticais responsáveis por inúmeras tarefas, gerando neuroplasticidade e modificando aos poucos a estrutura e a fisiologia do cérebro com base na experiência. Assim, quanto mais qualitativa for a experiência acadêmica em termos de conexão com a realidade do aluno, mais áreas do cérebro serão ativadas e mais conexões serão estabelecidas. Vamos agora conceituar os dois principais transtornos de aprendizagem encontrados no ambiente escolar: dislexia e discalculia. DISLEXIA É um transtorno de aprendizagem relacionado à leitura que também afeta a escrita. A dislexia pode ser mais facilmente detectada a partir do processo de alfabetização. Um dos principais sintomas observados neste período é a dificuldade para soletrar letras. Um leitor competente é aquele que usa as rotas lexical e fonológica como forma de processar o texto (ROTTA, 2018). Podemos distinguir, ainda, dois tipos de dislexia: a dislexia fonológica, que atinge a maioria das pessoas com este transtorno, e a dislexia semântica. Estudos realizados nas décadas de 2000 e 2010 mostram algumas particularidades no cérebro do disléxico. Sabemos que o cérebro normal responde aos estímulos do meio, porém parece que a resposta do disléxico é mais lenta. Há pouca ativação de caminhos na parte posterior do lado esquerdo do cérebro. Uma das consequências disso é que o cérebro tem problema para associar som e imagem, dificultando a leitura. Também constatamos que o cérebro do disléxico tem dificuldade de conectar as áreas de associação visual com as áreas de linguagem, em especial as de Broca e Wernicke. javascript:void(0) javascript:void(0) / Não há comprometimento físico na dislexia, e o transtorno contradiz todas as expectativas em relação à criança. É necessário que pais e profissionais compreendam a importância do diagnóstico precoce para minimizar danos no futuro. ROTA LEXICAL A rota lexical (leitura por localização) é utilizada para a leitura de palavras familiares, armazenadas na memória por conta da experiência de repetição da leitura. Ao reconhecer a palavra, o cérebro aciona o sistema semântico. Esse movimento permite compreender seu significado, possibilitando produzir a pronúncia pelo sistema de produção fonológica. ROTA FONOLÓGICA A rota fonológica (leitura por associação) é utilizada para a leitura de palavras pouco frequentes ou desconhecidas. Para ler essas palavras, o cérebro as divide em unidades menores (grafemos e morfemas). Depois, associa essas unidades ao som correspondente. Em seguida, realiza a junção de som e imagem, produzindo a pronúncia da palavra. DISCALCULIA Vem a ser um transtorno específico de aprendizagem relacionado ao desenvolvimento de habilidades necessárias em várias situações que envolvem o uso de operações matemáticas. De acordo com a literatura atual, podemos identificar seis tipos de discalculia. São eles: Discalculia verbal: problema para nomear quantidades matemáticas; Discalculia practognóstica: problema para enumerar, comparar, manipular objetos reais ou imagens matemáticas; Discalculia léxica: problema na leitura de símbolos matemáticos; / Discalculia gráfica: problema com a escrita de símbolos matemáticos; Discalculia ideognóstica: problema com a compreensão de conceitos ou com a realização de operações mentais; Discalculia operacional: problema para realizar cálculos numéricos. Como todo transtorno de aprendizagem, o diagnóstico e a intervenção necessitam de uma equipe multidisciplinar que possa auxiliar na redução dos danos futuros, interferindo na jornada acadêmica e sempre visando à melhoria da qualidade de vida do indivíduo. Os transtornos relacionados à leitura, à escrita e a operações matemáticas são os que mais preocupam os profissionais de educação. APRENDIZAGEM COMO PROCESSO DE INTEGRAÇÃO CEREBRAL A aprendizagem é um processo integrativo. A construção e a compreensão da realidade são produtos dessa integração entre a mente e o corpo. Como ferramenta de organização das ideias e de comunicação, o processo de desenvolvimento e de aquisição da linguagem implica o envolvimento de diversas estruturas cerebrais. Áreas de processamento visuais altamente especializadas trocam informações com outras áreas responsáveis pela decodificação e contextualização. Associamos som, imagem e movimento para formar um nexo organizado em nossas mentes. Em resumo: O mundo interno se conecta com o mundo externo para que possa haver, efetivamente, aprendizagem. Trabalhar com alunos que não conseguem aprender exige uma visão integrada do potencial humano. Não podemos nos concentrar apenas no trabalho realizado nos processos cognitivos. É importante, também, focar no desenvolvimento afetivo construindo vínculos positivos que fortaleçam a estima do sujeito. As intervenções precisam considerar um trabalho integrado que envolva o desenvolvimento das funções motoras, cognitivas e psicossociais./ VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. OS ESTUDOS DE LURIA CLASSIFICARAM VÁRIAS FUNÇÕES COGNITIVAS QUE AJUDAM A IDENTIFICAR AS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM. ENTRE ELAS, PODEMOS DESTACAR A LINGUAGEM, O RACIOCÍNIO E O JULGAMENTO. SOBRE ESSAS FUNÇÕES, ESPECIFICAMENTE, PODEMOS AFIRMAR QUE: I – ENTENDEMOS LINGUAGEM COMO UMA FACULDADE MENTAL QUE PERMITE A COMUNICAÇÃO ENTRE INDIVÍDUOS SOCIAL. II – PODEMOS DEFINIR JULGAMENTO COMO A CAPACIDADE DE, TENDO COMO OBJETIVO CHEGAR A UMA CONCLUSÃO FRENTE A DETERMINADO PROBLEMA, ARTICULAR PENSAMENTO E ESTRATÉGIAS. III – CHAMAMOS RACIOCÍNIO A HABILIDADE QUE TEMOS DE, FRENTE A QUESTÕES QUE NOS É IMPOSTA, TOMAR DETERMINADA DECISÃO. DAS AFIRMAÇÕES ANTERIORES, PODEMOS CLASSIFICAR COMO VERDADEIRA(S): A) Somente a I B) Somente a II C) Somente a III D) I e II 2. EM RELAÇÃO AOS TRANSTORNOS DE APRENDIZAGEM, É CORRETO AFIRMAR QUE: A) A dislexia é uma condição passageira. B) Crianças com esses transtornos precisam de turmas especiais para dar conta das tarefas escolares. C) Com tratamento adequado, a discalculia desaparece quando o sujeito entra na fase adulta. D) Os principais transtornos encontrados no ambiente escolar estão relacionados aos problemas de compreensão da linguagem e das operações matemáticas. / GABARITO 1. Os estudos de Luria classificaram várias funções cognitivas que ajudam a identificar as dificuldades de aprendizagem. Entre elas, podemos destacar a linguagem, o raciocínio e o julgamento. Sobre essas funções, especificamente, podemos afirmar que: I – Entendemos Linguagem como uma faculdade mental que permite a comunicação entre indivíduos social. II – Podemos definir Julgamento como a capacidade de, tendo como objetivo chegar a uma conclusão frente a determinado problema, articular pensamento e estratégias. III – Chamamos Raciocínio a habilidade que temos de, frente a questões que nos é imposta, tomar determinada decisão. Das afirmações anteriores, podemos classificar como verdadeira(s): A alternativa "A " está correta. A afirmativas II e III aparecem invertidas. Afinal, de acordo com Luria, o raciocínio deve ser entendido como a capacidade mental de estruturar o pensamento com vistas a um fim, chegando, assim, a uma conclusão. Já o julgamento está relacionado à escolha, na forma de decisão, diante de situações que nos são apresentadas. 2. Em relação aos transtornos de aprendizagem, é correto afirmar que: A alternativa "D " está correta. Os transtornos de aprendizagem são condições inatas (que nascem com a pessoa) e não têm cura, embora, com intervenções adequadas, possamos minimizar os problemas apresentados pelos alunos. Os transtornos específicos mais comuns são aqueles relacionados às competências leitoras e a operações matemáticas. MÓDULO 2 Reconhecer a relação entre o conceito de inteligência e o desenvolvimento da leitura e do raciocínio lógico em um contexto de ambiente escolar neurologicamente coerente / INTELIGÊNCIA Não é fácil definir o conceito de inteligência. Ao estudarmos a história da ciência cognitiva de 1940 a 2020, é possível identificar mais de 70 conceitos, cujas características variam não apenas no tempo, mas também de acordo com diferentes fatores sociais relacionados à diversidade cultural dos países (PASQUALI, 2019). Pesquisas mais recentes enfatizam o papel da aprendizagem, da cultura e da metacognição no desenvolvimento deste conceito (ROTTA, 2018). O conceito de inteligência gerou uma infinidade de estudos e debates na comunidade científica nas últimas décadas, mas é possível encontrar, pelo menos, três elementos comuns presentes em todos eles: METACOGNIÇÃO Capacidade do indivíduo de identificar e acompanhar seu próprio processo cognitivo, especificamente na aprendizagem. Embora este seja um conceito relativamente novo no âmbito educacional, tem sua fonte na filosofia clássica. Aristóteles, por exemplo, em sua obra Peri Psique (ou De Anima, na versão em latim), apresenta os processos de como ocorre o conhecimento na mente. 1. O desenvolvimento da inteligência depende da habilidade de nos adaptarmos a diferentes situações sociais. 2. A inteligência está associada à habilidade do sujeito em ter êxito ou algum tipo de ganho (físico, cognitivo ou emocional) em relação a um objetivo pretendido. 3. A inteligência está diretamente vinculada à interação do sujeito com seu meio. Nesse contexto, podemos “arriscar um conceito” de inteligência como a capacidade de aprender com a experiência de vida, com o auxílio de processos metacognitivos, favorecendo uma aprendizagem mais eficiente e ampliando nossa capacidade de adaptação a novos cenários. javascript:void(0) / Percebemos que o desenvolvimento da inteligência é mais uma questão de estimulação e treinamento do que uma questão de dom inato, como geralmente é reconhecido pelo senso comum. É importante salientar que ser inteligente vai muito além de saber ler, escrever e fazer contas. Culturas e contextos diversos podem exigir diferentes habilidades de adaptação. Um breve olhar em bases de dados acadêmicas em diferentes contextos nos mostra que o conceito de inteligência já esteve associado a diferentes pesquisas que relacionavam inteligência a noções como gênero, estrutura escolar, capital cultural, alimentação, aspectos socioeconômicos etc. Atualmente, esse conceito é mais amplo, e não mais associado apenas à capacidade de raciocínio lógico, à leitura e à interpretação de textos. Fonte: prostooleh / Freepik A inteligência se desenvolve por estimulação e treinamento Como aqui o foco é a relação entre o conceito de inteligência e o processamento da leitura e do cálculo, não vamos explorar outros elementos. Entretanto, é necessário deixar claro — e por isso repetimos — que, na atualidade, o conceito de inteligência vai muito além do que a decodificação de letras e números para a resolução de determinados problemas. INTELIGÊNCIA E LEITURA / DE MANEIRA GERAL, A FUNÇÃO ESSENCIAL DO CÉREBRO, COMO PARTE DO SISTEMA NERVOSO CENTRAL, É DIRECIONAR A REGULAÇÃO DE GRANDE PARTE DAS FUNÇÕES CORPORAIS E MENTAIS. (LENT, 2019) É necessário distinguir aqui dois tipos de funções: as cognitivas e as executivas. Elas merecem maior aprofundamento em razão de sua importância para a neurociência cognitiva. Porém, no contexto de nosso estudo, basta destacar o seguinte: FUNÇÕES COGNITIVAS Por meio destas funções, compreendemos os processos mentais que nos permitem ações como recepção, seleção, armazenamento, processamento, organização e recuperação de informações que possibilitam nossa sobrevivência e adaptação a diferentes situações sociais. / FUNÇÕES EXECUTIVAS São funções mais complexas, responsáveis pela memória operacional e pelo planejamento de ações. Elas também são responsáveis pelo raciocínio, pela abstração e pela inibição de comportamentos indesejáveis. Investigações no campo das ciências cognitivas demonstram que o desenvolvimento da faculdade mental da linguagem no cérebro envolve um conjunto de áreas que atuam em um ritmo complexo, ao mesmo tempo seriado e paralelo. As pesquisas dos anos 1980 a 2020 sobre a aprendizagem da leitura apontam que este processo não é tão fácil quanto acreditávamos. Tanto que é possível encontrar pessoas adultas alfabetizadas, mas que podem não conseguir compreender os rudimentos da língua. VOCÊ SABIA Nosso cérebro parece altamente adaptado a uma prática que foi inventada há menos de 6.000 anos, este fato é interessante – e, devemos reconhecer, maravilhoso ao mesmo tempo. Parece muito tempo, mas, em termos biológicos, nosso genoma ainda não teve o tempo necessário para desenvolver circuitos cerebrais inatos próprios à leitura. Nada na evolução humana nos preparou para receber informações linguísticas a partir do uso do sentido visual. A leitura é um dos exemplos de atividades culturais criadas pelos seres humanos ao longo dos últimos milênios. / Uma das questões mais interessantes no que se refere à aprendizagem de leitura é que o ser humano precisaadaptar seu cérebro para compreender e representar o mundo à sua volta a partir da leitura e do raciocínio lógico. A aprendizagem depende do desenvolvimento de uma estrutura cerebral adequada. Afinal, o cérebro reage de maneira plástica aos estímulos do meio e às atividades propostas no ambiente escolar. Estímulos provenientes do meio levam o cérebro a desenvolver novas sinapses, possibilitando o sujeito a estabelecer novas conexões entre objetos de conhecimento (leitura ou escrita) em diferentes contextos (CHAVES, 2017). Sabemos que a estrutura cerebral sofre modificações constantes pelas inúmeras estimulações às quais o corpo é submetido em diferentes situações sociais. Como o funcionamento intelectual não possui uma localização específica, a inteligência, dessa forma, é produto do funcionamento de sistemas cerebrais interconectados. Estudos recentes da imagem cerebral, relacionados à organização cerebral dos circuitos de linguagem, demonstram que nosso cérebro tem uma capacidade limitada em relação à neuroplasticidade, pelo menos no que se refere à linguagem (DAHAENE, 2012). Esse pressuposto quebra o mito de um cérebro infinitamente maleável quanto à aprendizagem da língua. E não importa se estamos falando da língua portuguesa ou japonesa. O circuito de linguagem é o mesmo, independentemente da cultura. Hoje utilizamos o modelo de reciclagem neuronal. Consideramos que nossa arquitetura neuronal é estreitamente enquadrada por limites genéticos. Dessa forma, podemos afirmar que nosso cérebro não é uma tábula rasa, onde podemos acumular experiências oriundas de nossas interações sociais. Nosso cérebro é um órgão estruturado em bases genéticas milenares que se adaptam aos estímulos a cada geração. Um bom exemplo disso pode ser encontrado em nossa relação com as tecnologias. Há poucas décadas, não tínhamos internet, cinema 3D, livros digitais, realidade aumentada. Então, há diferenças entre o cérebro anterior a esses avanços tecnológicos e o de hoje? De acordo com algumas pesquisas, em termos genéticos, praticamente nenhuma. A grande diferença está em nossa capacidade de adaptação às tecnologias de nosso tempo. De 1980 a 2020, a ciência cognitiva procurou compreender quais são os mecanismos neurais que envolvem o desenvolvimento de estruturas e permitem ao cérebro humano ler e interpretar os diferentes signos. / freepik / Freepik Processo de leitura Diante de tudo o que já estudamos, cabe aqui a seguinte pergunta: Como ocorre o processo de leitura? A leitura começa no olho a partir do contato visual. Diferentes regiões do cérebro estão encarregadas de decodificar os distintos estímulos visuais, como cor, forma e profundidade. Associamos estas imagens com os sons e o movimento das letras. Então, para ler uma simples palavra, é necessário um trabalho complexo que envolve a integração de som, imagem e movimento, além de regiões do cérebro responsáveis pela associação de emoções. Em seguida diferentes áreas do córtex cerebral que são responsáveis por distintas etapas do processo de leitura, são ativadas, garantindo a coordenação entre: A chegada dos impulsos sensoriais. A decodificação desses impulsos. Por fim ocorre a associação até que haja uma resposta motora A esse processo de leitura, chamamos de funções nervosas superiores, desempenhadas pelo córtex cerebral. Mais uma vez, é bom ter clareza de que este é um assunto complexo e que merece aprofundamento. Porém, nas perspectivas de nosso estudo, apresentaremos as funções nervosas segundo cada parte do cérebro, veja a seguir: / Assim, a interpretação de textos está associada a dois processos: o acesso lexical e a integração de significados de acordo a informação textual. O cérebro possui áreas específicas para captação visual, decodificação, processamento de contexto, entre outras funções. A compreensão dos processos relacionados ao desenvolvimento funcional das diferentes regiões anatômicas do cérebro com a leitura e a interpretação de textos, assim como sua organização cognitiva, pode auxiliar diretamente nas práticas de formação de leitores desenvolvidas nas instituições escolares. Ainda há muito a ser estudado em ciência cognitiva, mas um dos consensos que podemos destacar em relação aos diferentes modelos sobre como realizamos o ato de ler é que este depende de processos perceptivos, cognitivos e linguísticos. INTELIGÊNCIA E MATEMÁTICA Tanto no processamento neural da leitura quanto no cálculo, várias áreas e diversos mecanismos cognitivos são envolvidos de maneira complexa. Mesmo nas operações matemáticas mais simples, é possível identificar vários mecanismos cognitivos em atividade, tais como: MECANISMOS COGNITIVOS Processamento verbal e gráfico. Percepção. Reconhecimento e representação de números e símbolos. / Memória. Discriminação visuoespacial. Raciocínio. Atenção. Pesquisas com animais demonstram que, embora em menor grau de complexidade, as habilidades matemáticas não são exclusivas dos seres humanos. Mas, diferente das habilidades de leitura, as matemáticas são inatas. Diversas investigações constatam que algumas capacidades, como a habilidade para quantificar e distinguir, podem ser encontradas em crianças com meses de idade. Estudos de Jean Piaget demonstram que as habilidades matemáticas são desenvolvidas a partir de algumas funções cerebrais, como memória de curto e longo prazos, orientação espacial e raciocínio lógico. JEAN PIAGET (1896-1980) Pai do construtivismo, teoria segundo a qual o estudante – no caso, a criança – traz consigo informações fundamentais para seu próprio desenvolvimento cognitivo a partir das relações com o ambiente externo. No construtivismo, a vivência e o processo de construção que o aluno faz inter-relacionando os diversos conceitos é o que o leva à aprendizagem. javascript:void(0) / Fonte: Universidade de Michigan / Wikimedia Jean Piaget Pesquisas mais recentes com neuroimagem comprovam que seres humanos possuem áreas específicas para aprendizagem da matemática. Muitos casos vinculados às dificuldades de aprendizagem da matemática demonstram que estas, em especial, têm uma relação muito maior com questões socioemocionais e pedagógicas do que com questões neurológicas. De 1970 a 2020, a ciência cognitiva avançou consideravelmente em relação aos estudos sobre a construção numérica e determinadas operações matemáticas no cérebro. Esses estudos chegaram às seguintes conclusões: / Font: Anasta_Rass / Shutterstock Entre o final do primeiro ano de vida e o início do segundo, a criança tem o potencial necessário para discriminar sequências numéricas crescentes e decrescentes. Font: greenland / Shutterstock Por volta dos dois anos de vida, a criança pode realizar correspondência um a um com tarefas compartilhadas. CORRESPONDÊNCIA UM A UM javascript:void(0) / Capacidade da criança de perceber, por exemplo, que, da mesma forma que sua mãe coloca um sapato em cada um dos pés, ela pode realizar a mesma ação, mas com seus próprios sapatos. Font: freepik / Freepik Aos três anos de idade, a criança pode contar um pequeno número de objetos. Flamingo Images / Shutterstock Entre o quarto e o quinto ano, a criança tem potencial para usar os dedos, a fim de contar e somar pequenos números. / Font: pvproductions / Freepik Aos seis anos, a criança pode apresentar conservação de conceitos numéricos. Sergey Nivens / Shutterstock Aos sete anos, a memória da criança permite que ela se lembre de alguns fatos numéricos / pressfoto / Freepik Depois dos 11 anos de idade, aproximadamente, a criança/o jovem desenvolve o pensamento abstrato, que será muito importante para a realização de várias operações matemáticas. Outra questão interessante em relação aos estudos oriundos das ciências cognitivas é a afirmação de que os sistemas de alfabetização e construção numérica apresentam conexões à leitura da escrita. A leitura numérica está subordinada a processos semelhantes do circuito de alfabetização.Várias áreas cerebrais participam no desenvolvimento do raciocínio lógico: Áreas de processamento visual; Processamento espacial; Linguagem; Memória; Sequenciação; Noção de espaço e volume; Planejamento de ações; e Conceituação abstrata. / Neste caso, um dos princípios da compreensão biopsicogenética do ser humano é conceber a aprendizagem como uma mudança de comportamento, produto da experiência não de uma região específica, mas de várias que envolvem um processamento complexo da informação de aspectos sensoriais, neurológicos e psicológicos. E aqui também vale a seguinte afirmação: Aprendizagem e emoção caminham juntas. Estudos recentes demonstram que muitas dificuldades de aprendizagem referentes ao desenvolvimento da matemática estão relacionadas a práticas pedagógicas que não favorecem um clima positivo para a aprendizagem desses conceitos. Quanto mais próximos da realidade do aluno, maiores são as chances de compreensão e fixação de conteúdos aos esquemas mentais do aluno. Afinal, uma abordagem lúdica favorece o desenvolvimento das operações mentais. É necessário modificar uma visão muito presente no senso comum de que não aprendemos matemática por não termos o dom. Neste exato momento, muitos professores em diferentes realidades educacionais estão aceitando o desafio de tentar desmitificar essa visão com o uso de metodologias de ensino mais lúdicas e contextualizadas à realidade de seus alunos. Emoções negativas em relação ao objeto de estudo estão entre os fatores que podem, de alguma forma, prejudicar a aprendizagem do aluno. Portanto, é necessário criar um clima agradável se queremos auxiliar no desenvolvimento das funções e estruturas corticais responsáveis pela aprendizagem do raciocínio lógico. EDUCAÇÃO E NEUROCIÊNCIAS De todos as atividades humanas, talvez a mais interdisciplinar seja a educação, compreendida como um processo de formação mediado por inúmeros sujeitos e instrumentos ao longo da socialização. Entre as possíveis disciplinas que estabelecem vínculos com os processos de ensino e aprendizagem formais, aos quais recorremos na atualidade, sem dúvida, as neurociências estão entre as que mais auxiliam educadores e alunos. O avanço dos estudos sobre o cérebro – principalmente o cérebro humano – tem grande impacto social em diferentes áreas de conhecimento. Em especial, os estudos sobre o funcionamento do cérebro podem auxiliar gestores e professores na construção de ambientes de aprendizagem mais eficientes. Estabelecer uma ponte entre as ciências da educação e as ciências da saúde é essencial para compreender as relações entre a aprendizagem humana e o funcionamento do organismo. Diante disto, qual a importância da neurociência no processo de educação? Podemos pontuar o seguinte: As neurociências auxiliam na valorização de novos papéis a professores e alunos para a construção de um novo ambiente de aprendizagem, marcado pelo foco na aprendizagem do aluno e tendo o professor como um facilitador do processo. As escolas precisam desenvolver propostas educacionais voltadas à / formação de um aluno que constrói conhecimento e resolve problemas em diferentes áreas a partir de inúmeras estratégias. As neurociências apresentam uma visão ampla do ser humano baseada no desenvolvimento do cérebro como uma estrutura que processa a informação recebida pelo organismo a partir de diferentes canais. O ensino diversificado e calcado no desenvolvimento de habilidades é uma de suas metas. ATENÇÃO Introduzir as neurociências no campo educacional não resolve todos os problemas de aprendizagem, porém pode contribuir para solucionar inúmeros deles, além de mudar os processos de avaliação de alunos. Ao implementar as neurociências como fundamento para a construção de ambientes de aprendizagem, podemos, de maneira objetiva, explicar, desenvolver novos modelos e descrever os mecanismos neuronais que sustentam o desenvolvimento e a aprendizagem em seus atos perceptivos, cognitivos e motores. AMBIENTE ESCOLAR E NEUROEDUCAÇÃO Uma das primeiras contribuições da neurociência aplicada à educação é a compreensão de que aprender é muito mais que absorver, de maneira mecânica, as informações que a escola apresenta ao aluno. O ato de aprender exige uma rede de operações complexas que envolvem processos neurofisiológicos e neuropsicológicos. Considerando este cenário, um dos papéis essenciais da escola é contribuir para o desenvolvimento das funções mentais básicas que levem a funções mentais superiores. Pensar dessa forma altera drasticamente o papel de professores, alunos, pais e gestores e a própria configuração tanto do espaço escolar quanto do currículo praticado nesses ambientes. Muitos são os fatores que podemos considerar do ponto de vista das neurociências, quando afirmamos que o aprendizado acontece no cérebro. Separamos três fatores que precisam ser levados em consideração neste momento: O DESENVOLVIMENTO DO APRENDIZ Desde o século XIX, a ciência moderna oferece subsídios que auxiliam na modelagem de processos educacionais com base em evidências científicas. Ao longo de décadas de estudo, diferentes fatores foram enfatizados, quando diversas áreas do saber científico tentaram explicar qual é a melhor forma de ensinar as gerações presentes. / Em determinado momento, cientistas acreditaram que algumas habilidades eram inatas. Em outro período, que o professor era a o responsável pelo sucesso do aluno. Nas demais ocasiões, o ambiente escolar foi identificado como a chave para a aprendizagem do aluno. Atualmente, entendemos que todos esses fatores influenciam, em maior ou menor escala, o desenvolvimento e a aprendizagem. Quando olhamos para o aluno do ponto de vista das ciências da saúde, aprendemos que é necessário compreender os diferentes domínios que envolvem o processo de desenvolvimento. Esse domínios são: Domínio físico, domínio cognitivo e Domínio psicossocial. Repetimos que os atos de ensinar e aprender são carregados de componentes emocionais do comportamento humano (FONSECA, 2012). A forma como estabelecemos vínculos com outras pessoas e como lidamos com nossas emoções é fundamental para a aprendizagem. Sem o devido equilíbrio emocional, o processo de aprendizagem pode não acontecer da melhor maneira. DOMÍNIO FÍSICO Aquele que se refere, por exemplo, ao crescimento do corpo, aos marcos do desenvolvimento motor, ao crescimento do cérebro e ao amadurecimento de determinadas estruturas cerebrais. DOMÍNIO COGNITIVO Refere-se ao desenvolvimento dos esquemas mentais, das funções psicológicas superiores, das funções executivas, tais como atenção, memória e linguagem, entre outras funções diretamente ligadas ao ato de compreender o mundo a nossa volta. DOMÍNIO PSICOSSOCIAL Refere-se ao desenvolvimento e ao controle das emoções (bem como à forma com que as usamos em nossas relações com outras pessoas) e à criação de vínculos, estabelecendo controle da ansiedade e do estresse, por exemplo. javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) / Os três domínios apresentados estão inter-relacionados no processo de desenvolvimento. Não é possível aprender de maneira eficiente sem a integração entre os domínios físico, cognitivo e psicossocial. AS ESTRATÉGIAS DO PROFESSOR As neurociências também demonstram que diferentes alunos possuem distintos estilos de aprendizagem. Esta informação é essencial para professores. Diferentes sujeitos necessitam de uma diversidade de formas de apresentação do conteúdo para aprender. Por isso, é importante levar em consideração a forma como as relações sociais auxiliam no desenvolvimento do domínio cognitivo dos alunos. Todo ser humano precisa de estímulo como combustível para seu desenvolvimento. Podemos observar essa organização nos movimentos, na forma de pensar, nas relações, no controle das emoções etc. As neurociências auxiliam o professor a ver o aluno como um ser integral, fruto de um complexo processo de formação humana. Conhecer o funcionamento docérebro e como este se desenvolve ao longo de determinado período de tempo auxilia o professor a compreender as possíveis dificuldades de aprendizagem que o aluno pode enfrentar em seu cotidiano. Se, de um lado, é necessário pensar nas características de quem aprende; do outro, é preciso focar nas características de quem ensina. Um dos grandes erros que muitos gestores cometem é não considerar a importância da formação continuada de seus professores. Ao pensarmos em ambientes de aprendizagem e práticas pedagógicas, é necessário ter em mente que o professor é um facilitador da aprendizagem, compreendida como um processo de mudança potencial dos esquemas mentais e do comportamento do aluno. ESTILOS DE APRENDIZAGEM Formas preferenciais do sujeito para captar as informações do meio e processá-las a partir da conexão entre diferentes estruturas cerebrais. A ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO FÍSICO Outro ponto central é a forma como o ambiente físico ou virtual é apresentado aos alunos. É importante que os alunos sejam submetidos a diferentes estímulos ao longo do período em que frequentam uma instituição de educação formal. Quanto maior for a qualidade e a diversidade das atividades oferecidas, maiores são as chances de o aluno desenvolver uma plasticidade neural que permita um pensamento mais amplo em relação aos problemas propostos. javascript:void(0) / Porém diversidade não significa excesso de atividades. É preciso saber dosar entre quantidade e qualidade quando propomos diferentes atividades para os alunos. Nesse mesmo sentido, pensando exatamente na saúde mental do aluno: é necessário equilibrar o tempo das atividades com intervalos que permitam o descanso necessário entre elas. Os alunos precisam de um tempo entre uma aula e outra ou de intervalos regulares para organizar o que foi apresentado. A sobrecarga que hoje vemos em alguns sistemas educacionais pode dificultar a aprendizagem, gerando um clima de ansiedade acima do limite de muitos alunos. Percebemos, portanto, que mais do que possuir um espaço físico amplamente diversificado, o que é proveitoso para a aprendizagem é sua plena utilização, no contexto da neuroeducação. Diante do exposto, é possível perceber que as neurociências vieram para auxiliar os profissionais de educação a estabelecer um elo entre diferentes correntes de pensamento, antes separadas em teorias que valorizavam aspectos isolados do processo de aprendizagem. É preciso conectar as teorias para compreender, de maneira mais ampla, o processo de ensino e aprendizagem. Nesse sentido, tanto as ciências humanas quanto as ciências da saúde tiveram de rever seus conceitos sobre o processo de aprendizagem, definido como aquele em que o sujeito busca estratégias para estar e se manter inserido, de maneira saudável, em determinado meio. O papel da escola é auxiliar no desenvolvimento de competências e habilidades, bem como das estruturas cognitivas, para que o aluno seja capaz de resolver problemas em diferentes níveis. A introdução de informações acerca da estrutura e do funcionamento do cérebro possibilita um novo olhar em relação à organização do espaço escolar e dos papéis de professores e alunos. AMBIENTES DE APRENDIZAGEM MAIS EFICIENTES As tentativas de criar ambientes de aprendizagem centrados em conhecimentos das neurociências ganharam fôlego maior a partir do final da década de 1990 em diferentes países, como parte da / disseminação dos estudos, uma década antes, em áreas como Neuroanatomia, Neurofisiologia e Neuropsicologia (ROTTA, 2016; LENT, 2019). Portanto, cabe interrogar: Quais são as etapas necessárias para a construção de um ambiente de aprendizagem com base em fundamentos neurocientíficos? As neurociências não são utilizadas para criar algo novo, mas para ressignificar o que muitos professores já desenvolvem em seus espaços de atuação. Conceitos como avaliação diagnóstica, planejamento e feedback ganham novos olhares quando associados às informações de outros campos, em especial o campo das neurociências. Abordaremos agora esses conceitos, veja abaixo: AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA Historicamente, professores utilizam esta ferramenta para avaliar o conhecimento dos alunos antes da introdução de conceitos novos ou no começo de uma nova etapa letiva. Ao incorporar a neurociência ao conceito de avaliação diagnóstica, acrescentamos informações importantes. Quando estudam o funcionamento do cérebro, educadores podem avaliar os conhecimentos e as habilidades prévias necessárias ao desenvolvimento de determinadas tarefas. Como exemplo, podemos verificar os níveis de determinadas funções mentais, físicas e psicossociais. PLANEJAMENTO O planejamento das atividades docentes também ganha novos olhares. Da Educação Infantil ao Ensino Superior, sabemos que a diversidade e a complexidade das atividades podem favorecer o desenvolvimento da neuroplasticidade dos alunos. Diferentes atividades são capazes de beneficiar a construção continuada, o aprimoramento de esquemas e habilidades, e o desenvolvimento de inteligências múltiplas. As estratégias que crianças e adultos utilizam para memorizar, conceituar e resolver problemas são inúmeras e dependem, também, de vários fatores. Diversificar as estratégias de apresentação do conteúdo utilizadas pelos docentes é uma forma de valorizar as diferentes inteligências apresentadas pelos sujeitos. No planejamento, precisamos incentivar a competência adaptativa dos alunos. Dessa forma, estimulamos a flexibilidade de pensamento para a resolução de problemas. Compreender a forma como o aluno organiza e processa a informação é tão ou mais importante que saber o resultado correto. São muitos os conceitos que têm relação direta com a ciência cognitiva, como aprendizagem ativa, aprendizagem centrada no aluno, aprendizagem significativa, metodologias ativas etc. Quando refletimos sobre o planejamento das ações pedagógicas, é necessário ter em conta a diversidade de formas viáveis para apresentar um conteúdo à turma, considerando as possibilidades para captação da informação a partir dos diferentes sentidos, como visão, audição e tato. javascript:void(0) / COMPETÊNCIA ADAPTATIVA Capacidade de reconhecer que algumas formas de organização do conhecimento são melhores que outras. FEEDBACK O feedback representa a participação do aluno no processo de avaliação ao qual determinada atividade está submetida. Isso auxilia sua metacognição. Aqui, um ponto que merece destaque é a avaliação, entendida e apresentada como um processo transplante àquele que será avaliado. Não é possível pensar em ambientes de aprendizagem com base nas neurociências e ter a avaliação centrada apenas em uma parte do desenvolvimento, que é a cognitiva. Historicamente, nosso sistema educacional não auxiliou muitas gerações a compreender a avaliação como uma parte positiva do processo de ensino e aprendizagem. Mesmo na atualidade, ainda é possível encontrar diferentes realidades em que alunos e professores veem a avaliação com desconfiança. Se o desenvolvimento é visto como um processo com múltiplos domínios, a avaliação também precisa ser múltipla, diversificada, contínua. Nela, o sujeito tem a possibilidade de testar suas habilidades físicas, cognitivas e psicossociais. ATENÇÃO Nenhum dos domínios que envolvem o processo de desenvolvimento são superiores. Cada um é importante nesse processo. Um ambiente de aprendizagem saudável é aquele preparado para fornecer estímulos que permitam o desenvolvimento de modificações na estrutura cerebral dos alunos, favorecendo a neuroplasticidade de maneira positiva. Num ambiente sadio há um clima acolhedor. A escola tem de desafiar o aluno, mas também ser um lugar de construção de vínculos positivos. / Fonte: freepik / Freepik Legenda da imagem Outro fator fundamental é a linguagem empregada pelo professor nos processos de ensino e aprendizagem. Cada faixa etária possui um nível de compreensão diferente. A linguagem pode facilitar ou dificultar a aprendizagem.Muitos alunos no Ensino Superior apresentam dificuldades de compreensão do conteúdo por não dominarem um capital cultural mínimo que possa estruturar a organização e o processamento das informações pertinentes a determinada disciplina. Neste momento, é necessário que as instituições de nível superior construam estratégias para auxiliar seus alunos, como programas de reforço e atendimento psicopedagógico, por exemplo. Como já vimos anteriormente, as neurociências demonstram que devemos criar situações que possam facilitar o desenvolvimento da aprendizagem não apenas de conteúdo, mas também de habilidades e funções cognitivas. Retomando as principais funções cognitivas apresentadas no Módulo 1, podemos destacar: ATENÇÃO Como vimos, a atenção está relacionada à capacidade que o indivíduo possui de focar a mente em algum aspecto, seja do ambiente, seja de algum conteúdo ou da própria mente, no caso das estratégias metacognitivas. Sem atenção, não há formação da memória; e sem memória, não há aprendizagem. / Quanto maior for a duração de uma atividade, maior será o risco de dispersão da atenção por parte dos alunos. MEMÓRIA Já sabemos que a memória está diretamente relacionada à compreensão e à tomada de decisão em relação ao mundo à nossa volta. Quanto mais forte for a emoção associada a determinado evento, maiores serão as chances de fixação e evocação do evento. Atividades lúdicas favorecem o desenvolvimento da memória. Aprender um novo conteúdo é apenas o início do desafio educacional. O grande salto está em desenvolver estratégias adequadas para fixação e evocação de conteúdos e habilidades. FUNÇÃO TÁTIL-CINESTÉSICA Esta função se refere à nossa capacidade de utilizar o tato no reconhecimento de objetos e sensações sem a necessidade da visão. Seu desenvolvimento é uma das bases essenciais da Educação Infantil, fase em que os professores podem desenvolver atividades as mais lúdicas possíveis, especialmente nos processos de alfabetização. LINGUAGEM A função superior da linguagem deve ser compreendida como aquela que permite ao sujeito decodificar, compreender e organizar símbolos e signos verbais e não verbais, a fim de analisar o mundo à sua volta e de se comunicar de maneira adequada com diferentes grupos sociais. / A linguagem é considerada a função que realmente separa os seres humanos de outros animais. Por isso assume papel de destaque, quando pensamos na criação de ambientes escolares eficientes (DAHAENE, 2012). Um ambiente de educação que se baseia nas informações oriundas da ciência cognitiva, em especial das neurociências, deve priorizar a autoria do aluno, a troca de saberes entre diferentes atores, a avaliação integral, um planejamento adequado aos diferentes estilos de aprendizagem, entre outros fatores, como forma de construção de uma aprendizagem significativa. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. O CONCEITO DE INTELIGÊNCIA TEM SUSCITADO DEBATES EM DIFERENTES CAMPOS DE PESQUISA NAS ÚLTIMAS DÉCADAS. SOBRE ESSE CONCEITO, ASSINALE A ALTERNATIVA CORRETA: A) A inteligência é um substrato cortical inato e não passível de mudança pelos meios convencionais. B) O raciocínio lógico é uma característica dos alunos mais inteligentes. C) A inteligência não está relacionada às condições socioeconômicas do sujeito. D) A inteligência está relacionada à nossa capacidade de resolver problemas cotidianos. 2. ATUALMENTE, AS NEUROCIÊNCIAS OCUPAM CERTO DESTAQUE NO CENÁRIO EDUCACIONAL PELAS POSSIBILIDADES IDENTIFICADAS POR MUITOS PESQUISADORES EM RELAÇÃO À COMPREENSÃO DOS PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM. COM BASE NESTA AFIRMAÇÃO, ASSINALE A ALTERNATIVA CORRETA: A) As neurociências representam uma verdadeira revolução e salvação para os sistemas educacionais. B) A introdução das neurociências no campo educacional não representa mudanças significativas nesse contexto. / C) Somente psicólogos escolares podem se beneficiar da aplicação das neurociências na escola. D) As neurociências contribuem para a mudança de olhar em relação ao processo de aprendizagem do aluno. GABARITO 1. O conceito de inteligência tem suscitado debates em diferentes campos de pesquisa nas últimas décadas. Sobre esse conceito, assinale a alternativa correta: A alternativa "D " está correta. Uma das maneiras de conceituar a inteligência é associá-la a um conjunto de operações mentais que nos permite solucionar nossos problemas cotidianos. Ela envolve percepção, raciocínio, memória, entre outras operações mentais. 2. Atualmente, as neurociências ocupam certo destaque no cenário educacional pelas possibilidades identificadas por muitos pesquisadores em relação à compreensão dos processos de ensino e aprendizagem. Com base nesta afirmação, assinale a alternativa correta: A alternativa "D " está correta. A grande contribuição que as neurociências podem trazer para o campo educacional em geral – e, portanto, não somente para psicólogos que atuam na área – é dar o enfoque necessário ao processo de aprendizagem. Nesse sentido, ela pode trazer mudanças significativas, como a reestruturação de modelos de avaliação que persistem há décadas. Nem por isso, pode receber sozinha a responsabilidade e o peso de uma transformação tão profunda na educação. CONCLUSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS Os conhecimentos oriundos do campo da Neuropsicologia favorecem um olhar interdisciplinar do processo de aprendizagem. Dessa forma, profissionais de educação podem desenvolver práticas que promovam o desenvolvimento dos alunos com maior eficiência. O grande desafio neste campo hoje é / diagnosticar e minimizar os problemas relacionados à vida acadêmica, para que os indivíduos tenham mais qualidade de vida no futuro. Como vimos, a neurociência pode auxiliar o professor na elaboração de estratégias de aprendizagem que proporcionem o desenvolvimento da inteligência, da linguagem e do raciocínio lógico. Aproveitar os conhecimentos oriundos do campo das neurociências contribui para um novo olhar em relação às práticas pedagógicas. Consequentemente, por meio da compreensão da estrutura e do funcionamento do cérebro, é possível tornar as práticas pedagógicas mais eficientes. REFERÊNCIAS CHAVES, A. P. R. A neurobiologia do aprendizado na prática. Brasília: Alumnus, 2017. DAHAENE, S. Os neurônios da leitura: como a ciência explica nossa capacidade de ler. Porto Alegre: Penso, 2012. FERGUSON, S. Donald Olding Hebb. [S. l.]: Associação Canadense de Neurociências, [20--]. FONSECA, V. da. Manual de observação psicomotora. Rio de Janeiro: Wak, 2012. LENT, R. O cérebro aprendiz. Rio de Janeiro: Atheneu, 2019. METRING, R.; SAMPAIO, S. (orgs.). Neuropsicopedagogia e aprendizagem. Rio de Janeiro: Wak, 2011. PASQUALI, L. Os processos cognitivos. São Paulo: Vetor, 2019. PACHALSKA, M.; KACZMAREK, B. L. J. Alexander Romanovich Luria (1902-1977) and the microgenetic approach to the diagnosis and rehabilitation of TBI patients. Acta Neuropsychologica, v. 10. n. 3, p. 341-369, 2012. ROTTA, N. T. (org.). Transtornos da aprendizagem: abordagem neurobiológica e multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2016. ROTTA, N. T. Neurologia e aprendizagem: abordagem multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2018. / RUIZA, M.; FERNÁNDEZ, T.; TAMARO, E. Biografia de Carl Wernicke. En Biografías y Vidas. La enciclopedia biográfica en línea. Barcelona, 2004. SABBATTINI, R. M. E. A história da psicocirurgia. Paul Pierre Broca: uma breve biografia. Revista Cérebro & Mente, n. 2, jun. 1997. VELASQUES, B. B.; RIBEIRO, P. Neurociências e aprendizagem. Rio de Janeiro: Rubio, 2014. EXPLORE+ Pesquise e leia o seguinte artigo: SOUSA, A. M. O. P. de; ALVES, R. R. N. A neurociência na formação dos educadores e sua contribuição no processo de aprendizagem. Revista Psicopedagogia, v. 34, n. 105, p. 320-331, 2017. Pesquise os trabalhos do professor Pierluigi Piazzi, cujos vídeos podem ser encontrados em plataformas como YouTube. Confira a Palestra de Dra. Lara Bloyd, em TEDxVancouver sobe Neuroplasticidade,e veja como alguns pontos de nosso estudo são também apresentados por ela. Conheça o Canal YouTube da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia e aproveite as preciosas contribuições ao tema estudado. CONTEUDISTA Marcos Antonio Silva CURRÍCULO LATTES javascript:void(0);