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Neurociencia cognitiva

Capítulo introdutório sobre Neurociência Cognitiva que apresenta definição e objetivos; organização morfofuncional e desenvolvimento do Sistema Nervoso Central; funcionamento neuropsicológico e integração cerebral; modalidades de neuroimagem; componentes das Neurociências e breve histórico.

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/
DEFINIÇÃO
Introdução às Neurociências. Organização morfofuncional e desenvolvimento do Sistema Nervoso Central (SNC).
Funcionamento neuropsicológico e integração cerebral. Imagiamento do funcionamento cerebral.
PROPÓSITO
Compreender os conceitos fundamentais da área de Neurociência Cognitiva, desde a organização morfofuncional do
SNC até o imagiamento das funções neuropsicológicas.
INTRODUÇÃO
Vamos explorar os conteúdos essenciais da área de Neurociência Cognitiva, que visa conhecer os fundamentos
neurocientíficos do comportamento e da cognição.
Iniciaremos com uma breve introdução às Neurociências, apontando seus conceitos fundamentais. Depois,
mostraremos como se organiza o Sistema Nervoso (SN), tanto em termos estruturais (organização física) quanto em
termos funcionais (organização dinâmica).
Para a compreensão da característica integrativa e adaptativa do SN, abordaremos pontos-chave ligados a seu
desenvolvimento e funcionamento neuropsicológico, o que evidenciará a integração cerebral, que pode ser estudada
pelas chamadas técnicas de neuroimagem, que encerram o conteúdo.
/
OBJETIVOS
Reconhecer as definições básicas e as finalidades das Neurociências
Definir a organização morfofuncional do Sistema Nervoso Central
Descrever as etapas de desenvolvimento do Sistema Nervoso Central
Relacionar a integração cerebral com o funcionamento neuropsicológico
/
Identificar diferentes modalidades de exames do funcionamento cerebral
 Reconhecer as definições básicas e as finalidades das Neurociências
ORIGEM DAS
NEUROCIÊNCIAS
A década de 1990 ficou conhecida como década do
cérebro devido ao volume de material científico produzido
naquele momento sobre o assunto (THOMPSON, 2005).
Entretanto, o interesse pelo conhecimento sobre o cérebro
remonta à Antiguidade. Há muito tempo, o ser humano
tenta descobrir como os pensamentos, as emoções e os
comportamentos poderiam estar ligados à cabeça, de
forma mais geral, e ao cérebro em si, de forma mais
específica.
Nosso propósito presente é apresentar as definições
básicas e as finalidades das Neurociências, deixando o
aspecto histórico da área para leitores interessados em se
aprofundar posteriormente.
Fonte: Shutterstock
CIÊNCIAS COMPONENTES DAS NEUROCIÊNCIAS
Atualmente, é muito comum vermos o prefixo neuro inserido nas mais diversas áreas e atividades humanas:
Neuroeconomia, Neuropsiquiatria, Neuropsicologia, Neuroreabilitação, Neuromarketing etc.
Sempre que vemos essas palavras ou expressões, buscamos compreender que se tratam de tentativas de conhecer
como determinada área ou atividade humana ocorre relacionada aos substratos neurais.
Assim, por exemplo, a palavra Neuroeconomia significa que os profissionais e estudiosos do campo estão mapeando
áreas cerebrais que possam orientar escolhas e comportamentos na área de Economia. Isso é feito por meio de
/
determinados questionamentos:
Fonte: Freedomz / Shutterstock.
Como e por que algumas pessoas poupam mais?
Fonte: only_kim / Shutterstock.
Como e por que alguns sujeitos têm perfil de compra assumindo mais riscos?
/
Fonte: Ravil Sayfullin / Shutterstock.
O que o Sistema Nervoso (SN) tem a ver com isso?
Uma vez que as Neurociências estão “na moda”, é fácil perceber que o nome neuro pode ser simplesmente uma
tentativa de segui-la. Por isso, é importante buscar referências científicas sobre os diferentes temas. A partir disso,
podemos nos interrogar:
Quais são as ciências que compõem as Neurociências?
De acordo com LENT (2008), do nível micro para o macro, são elas:
Fonte: Shutterstock
Biologia – que estuda o aspecto celular e o
funcionamento das células;
Fisiologia – que estuda o funcionamento dos
diferentes sistemas;
Medicina
Neurologia – área da medicina que estuda as
patologias do sistema nervoso.
Psicologia – voltada para o estudo do funcionamento
do organismo em termos perceptuais, emocionais,
comportamentais e sociais.
É claro que as áreas se especializaram, e as Neurociências permitem e se valem de um caráter muito abrangente,
fazendo com que inúmeras áreas possam ter interseções com o funcionamento do Sistema Nervoso.
/
NEUROPSICOLOGIA
Para direcionar nosso foco às Neurociências Cognitivas (FUENTES et al., 2008), vamos escolher como orientadora de
nossos conceitos a ciência da Neuropsicologia.
NEUROPSICOLOGIA
Braço da Psicologia que estuda o aspecto neuro.
 VOCÊ SABIA
A premissa principal da Neuropsicologia é que todo comportamento é originado de um bom funcionamento das
áreas central e periférica do Sistema Nervoso. Em outras palavras, todo comportamento tem um substrato neural
(FUENTES et al., 2008).
O termo comportamento deve ser entendido de forma bem abrangente, o que inclui:
Fonte: masata / Shuttersock.
nossas percepções (visão, olfato, a identificação de um rosto etc.);
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/
Fonte: masata / Shuttersock.
pensamentos, emoções, memórias;
Fonte: masata / Shuttersock.
comportamentos no mundo externo (a fala, o caminhar etc.).
Para a Neuropsicologia, só conseguimos realizar tudo isso porque há uma integridade dos módulos neurais que
cuidam de cada uma dessas habilidades, e porque eles funcionam de forma organizada.
Os primeiros estudos na área de Neurociência Cognitiva ocorreram a partir de indivíduos com lesões cerebrais: as
funções cognitivas eram prejudicadas ou perdidas na medida em que havia um prejuízo no tecido nervoso
(THOMPSON, 2005).
FUNÇÕES COGNITIVAS
javascript:void(0)
/
Também chamadas genericamente de cognição ou funções neuropsicológicas. São as habilidades funcionais
com substrato neural correspondente, que auxiliam o organismo na convivência com seu ambiente interno e
externo.
Exemplos: sensação, percepção, memória, atenção, emoção, linguagem, funções executivas etc.
Fonte: FUENTES et al., 2008; LENT, 2008.
 EXEMPLO
Diante de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou de uma lesão por acidente, havendo lesão no tecido cerebral, o
paciente pode apresentar alterações nas funções mentais e, por conseguinte, em suas atividades da vida diária.
Utilizando muitos exemplos correlatos das mesmas áreas lesionadas e funções perdidas, a Neuropsicologia consegue
correlacionar áreas e funções, propiciando uma enormidade de testes para avaliação neuropsicológica, que se
aproxima da psicológica.
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
Avaliação das funções cognitivas.
Assim, ficou evidente que há duas organizações no Sistema Nervoso:
Morfológica – ou seja, física, estrutural; Funcional – pois as estruturas têm funções específicas.
 Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem horizontal
VERIFICANDO O APRENDIZADO
/
1. AS HABILIDADES FUNCIONAIS QUE PERMITEM AO NOSSO ORGANISMO GERAR
SENSAÇÕES, SENTIMENTOS, EMOÇÕES, PERCEPÇÕES E COMPORTAMENTOS
CORRESPONDEM:
A) À Neuropsicologia.
B) À Neuroimagem.
C) Às funções neuropsicológicas.
D) Ao Sistema Nervoso Central.
2. SOBRE AS FINALIDADES DAS NEUROCIÊNCIAS, É CORRETO AFIRMAR QUE:
A) Estão dadas, uma vez que tal ciência já se desenvolveu por completo.
B) Abrangem apenas conteúdos estritamente relacionados à Biologia.
C) Relacionam-se a aspectos elementares e à compreensão dos substratos neurais de comportamentos complexos.
D) São destacadas do desenvolvimento tecnológico.
GABARITO
1. As habilidades funcionais que permitem ao nosso organismo gerar sensações, sentimentos, emoções,
percepções e comportamentos correspondem:
A alternativa "C " está correta.
As funções neuropsicológicas ou cognitivas são habilidades funcionais na medida em que auxiliam o sujeito a se
adaptar ao ambiente externo. A memória e a linguagem são outros exemplos dessas funções.
2. Sobre as finalidades das Neurociências, é correto afirmar que:
A alternativa "C " está correta.
As Neurociências estão em pleno desenvolvimento e, ao acompanhar o avanço da tecnologia, excedem a biologia do
sistema neural. Assim, objetivam tanto estudar aspectos celulares quanto entender como comportamentos complexos
auxiliam o organismo a se adaptara seu meio.
 Definir a organização morfofuncional do Sistema Nervoso Central
/
ORGANIZAÇÃO
MORFOLÓGICA E
FUNCIONAL DO SISTEMA
NERVOSO CENTRAL
A principal função do Sistema Nervoso, em geral, e do
nosso cérebro, em particular, pode ser definida em uma
palavra: adaptação.
O Sistema Nervoso organiza-se de forma a oferecer ao
organismo possibilidades de se adaptar ao meio ambiente
(interno e externo), pois, mediante nosso comportamento,
promove acomodações ou modificações nesse meio
ambiente.
Fonte: Halfpoint / Shutterstock.
Neste módulo, vamos entender a organização morfofuncional do Sistema Nervoso Central (SNC) sob duas formas:
 Clique nos botões abaixo para ver as informações.
Macroscópica
Como visto a olho nu.
e
Microscópica
Pensando na dimensão celular do tecido nervoso.
ORGANIZAÇÃO MACROSCÓPICA DO SISTEMA
NERVOSO CENTRAL
O Sistema Nervoso é formado por duas partes: Sistema Nervoso Central (SNC) e Sistema Nervoso Periférico (SNP)
(BRANDÃO, 2004).
SNC
Compreende o encéfalo e a medula espinhal.
SNP
Compreende os nervos, que, saindo do SNC, chegam aos órgãos e músculos, ou seja, até a periferia de nossos
corpos.
javascript:void(0)
javascript:void(0)
/
Na figura a seguir, observamos a principal divisão do SN – porções central e periférica:
Fonte: Conceitos.com.
Divisão do Sistema Nervoso em suas porções (SNC e SNP).
O Sistema Nervoso Central compreende:
 
CÉREBRO
CEREBELO
TRONCO ENCEFÁLICO
MEDULA ESPINHAL
MEDULA ESPINHAL
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/
Feixes de axônios e corpos de neurônios instalados no interior dos ossos da coluna espinhal.
 
Estes três componentes formam o encéfalo.
Os três primeiros componentes formam o encéfalo.
O Sistema Nervoso Periférico compreende:
 
GÂNGLIOS
NERVOS CRANIANOS
NERVOS MEDULARES
GÂNGLIOS
Grupos de corpos celulares de neurônios, localizados fora do SNC.
Nosso maior interesse aqui é pelo Sistema Nervoso Central, mais especialmente pelo encéfalo, detalhado na figura a
seguir:
Legenda
1 - Cérebro
2 - Telencéfalo
3 - Diencéfalo
4 - Tronco cerebral
5 - Mesencéfalo
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/
Fonte: Wikimedia Commons.
Encéfalo e suas estruturas – visão em corte sagital medial.
6 - Ponte
7 - Bulbo
8 - Cerebelo
9 - Início da medula espinhal
 ATENÇÃO
A medula espinhal não está no encéfalo, sendo parte integrante do Sistema Nervoso Central.
O principal componente do SNC é o cérebro, conforme ilustrado na figura a seguir:
Fonte: Alila Medical Media / Shutterstock.
Divisão macroscópica do cérebro em hemisférios e lobos.
Legenda
A - Visão lateral do cérebro (neste caso, hemisfério
esquerdo) mostrando os lobos cerebrais: lobo frontal (em
vermelho), lobo parietal (em verde), lobo temporal (em
azul) e lobo occipital (em amarelo).
B - Posicionamento cerebral no interior do crânio e visão
superior dos dois hemisférios cerebrais.
C - Visão lateral do hemisfério esquerdo com detalhe da
ínsula: um dos cinco lobos cerebrais (em vermelho).
O cérebro é uma estrutura única, formada por dois hemisférios: direito e esquerdo (B). Ele também é composto por
cinco lobos ou lóbulos, cujos nomes são, em sua maioria, referentes aos ossos cranianos correspondentes à
localização:
Lobo frontal, lobo parietal, lobo temporal, lobo occipital (A) e ínsula – não aparente a uma vista lateral ou externa,
uma vez que se localiza em porções mais internas, por baixo da porção lateral do lobo temporal (C).
/
A organização do SNC como um todo e do cérebro, em específico, em hemisférios e lobos, também respeita certa
topografia das funções desempenhadas por esse órgão.
Cada um dos hemisférios e lobos têm ligação com funções específicas. A tabela a seguir apresenta as principais
funções desempenhadas por estruturas do SNC:
Estrutura do SNC Função
Medula espinhal
Comunicação entre as estruturas encefálicas e as do Sistema Nervoso
Periférico: nervos que chegam aos órgãos e outras estruturas periféricas, como
músculos e pele.
Tronco encefálico
(formado por
mesencéfalo, bulbo e
ponte)
Regulação de funções vitais.
Cerebelo
Coordenação de comandos motores, ativação de ações motoras combinadas e
concomitantes.
Cérebro
Comandos superiores, multimodais, normalmente com redundância de
estruturas nos dois hemisférios.
Hemisfério Direito Criatividade, musicalidade, incluindo a prosódia linguística.
Hemisfério Esquerdo Linguagem, especialmente o aspecto motor, Matemática.
Corpo caloso
Estrutura de fibras que ligam os dois hemisférios cerebrais, promovendo o
processamento inter-hemisférico.
Lobo frontal
Funções executivas (como o planejamento, a flexibilidade e o controle inibitório),
memória operacional, atenção sustentada, linguagem (produção),
comportamento motor.
Lobo parietal Relações espaciais, processamento de faces, sensação/sensibilidade tátil.
Lobo temporal
Audição, compreensão da linguagem, memória, especialmente nas porções
mediais do lobo.
Lobo occipital Visão.
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/
Ínsula Dor, desprazer.
Principais funções desempenhadas por estruturas do SNC.
Fonte: Adaptado de: BRANDÃO, 2004; PLISKA, 2005; THOMPSON, 2005; FUENTES et al., 2008.
PROSÓDIA
Aspectos não verbais da linguagem.
 Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem horizontal
 ATENÇÃO
Afirmações que apontam que um hemisfério cerebral seria o único responsável por um tipo de função são, geralmente,
generalizações errôneas.
Hoje, sabemos que funções complexas, como a criatividade e a linguagem, por exemplo, são derivadas do
funcionamento cerebral integrado, e não apenas resultantes da ativação em apenas uma região do encéfalo
(THOMPSON, 2005).
Nem mesmo os lobos cerebrais podem ser responsáveis por uma função de forma exclusiva, pelo mesmo motivo: a
necessária integração para as funções complexas, que veremos mais à frente.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. SOBRE A ORGANIZAÇÃO DO SISTEMA NERVOSO, É INCORRETO AFIRMAR QUE:
/
A) O Sistema Nervoso se divide em Sistema Nervoso Central (SNC) e Sistema Nervoso Periférico (SNP).
B) O Sistema Nervoso Central é composto pelo encéfalo e pela medula espinhal.
C) O encéfalo é parte do Sistema Nervoso Central e é equivalente ao cérebro.
D) O tronco cerebral, parte do encéfalo, compreende três estruturas.
2. SOBRE A ESTRUTURA CELULAR DO NEURÔNIO – PRINCIPAL CÉLULA DO SNC –, É
CORRETO AFIRMAR QUE:
A) O corpo do neurônio contém seu núcleo e a estrutura celular produz os neurotransmissores.
B) Os axônios recebem as informações de outras células pelos botões terminais.
C) O próprio neurônio é responsável pela produção da bainha de mielina do axônio.
D) As vesículas de neurotransmissores concentram-se no corpo do neurônio.
GABARITO
1. Sobre a organização do Sistema Nervoso, é incorreto afirmar que:
A alternativa "C " está correta.
O encéfalo é parte do Sistema Nervoso Central, mas é composto pelo cérebro, pelo cerebelo e pelo tronco cerebral.
2. Sobre a estrutura celular do neurônio – principal célula do SNC –, é correto afirmar que:
A alternativa "A " está correta.
Os botões terminais são importantes para a transmissão das informações, e não por sua recepção. A bainha de mielina
é composta pelas glias, e as vesículas se concentram nas porções terminais do axônio.
 Descrever as etapas de desenvolvimento do Sistema Nervoso Central
SISTEMA NERVOSO
/
Quando estudamos o tema de Neurociências Cognitivas, a
estrutura já formada do Sistema Nervoso nos é
apresentada. É importante, entretanto, compreender que
sua organização morfofuncional é fruto de um rico
processo de desenvolvimento que se inicia ainda nos
estágios embrionários e se estende até o fim da vida.
Respeitando a premissa básica de que toda função tem um
substrato neural, esse desenvolvimento será sempre das
estruturas e de suas funções. Em outras palavras, o
organismo se aprimora em termos funcionais na medida
em que seu Sistema Nervoso se desenvolve.
Fonte: KateStudio / Shutterstock.
Embrião humano com três semanas de vida.
ETAPAS DE DESENVOLVIMENTO DO SISTEMA
NERVOSO CENTRALA Neuropsicologia do desenvolvimento tem como objetivo estudar a integração entre áreas do cérebro, suas funções e
o comportamento, tomando como foco os estudos do desenvolvimento humano.
Assim, interessa-se pelas mudanças que ocorrem durante toda a vida, já que o desenvolvimento é um processo
contínuo, mas especialmente voltado para as modificações que ocorrem nos estágios pré-natais, na infância e na
adolescência. Esse interesse considerável se justifica por haver, nessas épocas, um cérebro em desenvolvimento.
O desenvolvimento pré-natal do que virá a ser o encéfalo é um processo que ocorre com base nas seguintes etapas
(DE LANA; HERINGER, 2018):
1
INDUÇÃO
Produção maciça das células que formarão o tecido nervoso.
/
PROLIFERAÇÃO
Sucessivas reproduções celulares (mitoses), o que multiplica o número de células.
2
3
MIGRAÇÃO
As células vão sendo posicionadas em sua área cerebral apropriada.
DIFERENCIAÇÃO
Os neurônios vão se especializando, assumindo um tipo específico, de acordo com a função que desempenharão no
futuro.
4
5
SINAPTOGÊNESE
Formação das primeiras sinapses (conexões entre os neurônios).
/
MORTE CELULAR SELETIVA
As células nervosas alocadas em regiões erradas ou as que falharam em formar conexões sinápticas apropriadas são
mortas (processo de apoptose ou suicídio celular).
6
7
VALIDAÇÃO FUNCIONAL
Fortalecimento das sinapses em uso (estimuladas) e enfraquecimento das sinapses não utilizadas (não estimuladas).
Nesses estágios, podem ser observadas as modificações das estruturas do Sistema Nervoso Central, bem como o
crescimento delas.
 VOCÊ SABIA
Ao nascer, estima-se que um bebê possa ter até 100 bilhões de neurônios, porém os métodos para realizar essa
quantificação ainda são imprecisos.
Apesar de toda a rápida e impressionante transformação do encéfalo durante o período pré-natal, sabemos, hoje, que
o desenvolvimento cerebral humano estará completo somente no final da adolescência ou no início da vida adulta,
culminando com a mielinização de toda a rede neuronal – conceito que veremos mais adiante.
Se for assim, então, por que nascemos, visto que nosso cérebro ainda não está pronto?
Uma das primeiras respostas a essa pergunta está
relacionada à questão anatômica: o nascimento implicará
na passagem do crânio pelo canal vaginal, que seria
estreito demais em relação ao volume do crânio de um
adulto.
/
Fonte: Gorodenkoff / Shutterstock.
Após o nascimento, o cérebro cresce muito, chegando ao quádruplo do tamanho original. Entretanto, esse crescimento
não se deve a um aumento do número de neurônios, mas a três outros fatores listados a seguir (PINEL, 2005):
SINAPTOGÊNESE
A formação de novas sinapses (sinaptogênese) pode ocorrer de forma mais recorrente em determinadas áreas
cerebrais.
Isso ocorre em diferentes momentos do desenvolvimento e de modo variado em áreas distintas, respondendo por
diferentes sistemas e funções.
MIELINIZAÇÃO
A mielinização consiste no processo de cobertura de muitos axônios de neurônios com um revestimento de mielina.
Quando um axônio recebe a bainha de mielina, passa a ser capaz de transmitir a informação com mais velocidade.
AUMENTO DA RAMIFICAÇÃO DENDRÍTICA
No processo de aumento da ramificação dendrítica, os neurônios lançam seus dendritos. Da mesma maneira que
nos processos de indução, migração, proliferação e sinaptogênese, a ramificação dendrítica ocorre primeiro nos
neurônios mais profundos, para, depois, chegar aos mais superficiais.
O desenvolvimento pós-natal, entretanto, não ocorre em sentido único. Além do crescimento e enriquecimento de
sistemas, existem mudanças regressivas, que incluem a eliminação e a perda de neurônios em um processo
denominado morte celular programada (apoptose) (HUTTENLOCHER, 1994). Em algumas áreas do encéfalo, esse
processo chega a eliminar 80% da população neuronal.
Além disso, há a perda de sinapses, quando a densidade destas atinge seu nível máximo. Da mesma forma que a
sinaptogênese, esse processo regressivo ocorre em diferentes momentos, em áreas distintas do cérebro.
 EXEMPLO
Por volta dos três anos de idade, o número de sinapses no córtex primário se iguala ao do cérebro adulto, enquanto
no córtex pré-frontal (CPF), tal igualdade numérica não se estabelecerá até a adolescência.
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/
CÓRTEX
Palavra que se origina de “casca”. Trata-se da camada mais externa do cérebro.
Esse “caminho inverso” é determinante para o desenvolvimento, visto ser essencial que alguns comportamentos
desapareçam para que outros possam se desenvolver.
 ATENÇÃO
O processo de perda de sinapses se orientará por sua estimulação ou não. Isso significa que sinapses estimuladas
tendem a ser mantidas, determinando, assim, os processos de aprendizagem.
O neurodesenvolvimento ocorre a partir da interação entre os neurônios e o meio ambiente (SALLES; HAASE;
MALLOY-DINIZ, 2016).
Além dos elementos relacionados ao ambiente interno – como neurotrofinas e moléculas de adesão celular, que
influenciam na migração, na agregação e no crescimento neuronal –, outros fatores mais externos podem orientar o
neurodesenvolvimento, como as experiências individuais de determinado organismo e os estímulos ambientais.
A regra geral é:
Sinapses que não são utilizadas devido à falta de estímulo acabam permanecendo inativas.
A propriedade de neuroplasticidade é muito mais presente nas etapas iniciais do desenvolvimento, o que torna essa
fase especialmente importante.
NEUROPLASTICIDADE E PROGRAMAÇÃO NEURAL DE
LONGO PRAZO
Todos nós produzimos o mesmo Sistema Nervoso de
acordo com nossa organização filogenética. Entretanto,
variações específicas na transmissão do impulso nervoso,
pela atividade sináptica, definem a atividade psicológica do
indivíduo. É exatamente isso que dá forma à sua
personalidade e individualidade.
/
Fonte: Giovanni Cancemi / Shutterstock.
Esta capacidade plástica do Sistema Nervoso Central é chamada de neuroplasticidade e concede ao cérebro a
propriedade de alteração de suas configurações morfo e fisiológica sob a influência dinâmica do ambiente (LENT,
2008, p. 614).
A neuroplasticidade ocorre no nível dos neurônios (e suas projeções, como dendritos e axônio) e no nível das sinapses
(LEUNER; GOULD, 2010), permitindo que o Sistema Nervoso Central esteja aberto a alterações provocadas pela
interação do sujeito com seu meio (OLIVA; DIAS; REIS, 2009).
O conceito de programação neural de longo prazo foi elaborado a partir de novos conhecimentos sobre o papel da
cromatina, do desenvolvimento e da diferenciação celular, bem como da plasticidade neural a partir do campo de
epigenética, fundamentando-se as origens “desenvolvimentais” do comportamento, da saúde e da doença (SWEATT et
al., 2013).
Aponta-se que as primeiras experiências influenciam na arquitetura cerebral, em sua função e nas capacidades do
indivíduo (VAN DEN BERGH, 2011), pois:
/
Afetam a expressão genética e os caminhos neurais;
Formam o estilo de processamento da emoção, regulando o temperamento e o desenvolvimento social;
/
Definem o estilo perceptual e a capacidade cognitiva, o que tem particular implicação nos aspectos cognitivos que
envolvem os pacientes psiquiátricos;
Estruturam a saúde física e mental, a atividade, o desempenho, as habilidades e o comportamento na vida adulta.
A plasticidade ocorre em diferentes momentos e em distintas estruturas/regiões encefálicas, gerando períodos onde
determinada estrutura está mais sensível que outra.
Na figura a seguir, observamos uma ilustração gráfica que aponta essas diferenças, de acordo com a maturação das
regiões do Sistema Nervoso Central e com os processos de neurodesenvolvimento:
/
Fonte: Adaptado de: GRAHAM-MCGREGOR et al., 2007.
Formação de sinapses ao longo do desenvolvimento cerebral humano.
Observe que, nos anos iniciais da infância, existe uma maior amplitude das curvas. Isso significa que, nestes anos, a
atividade é mais intensa. A linha-seta aponta que o desenvolvimento sináptico dependeda atividade (experience-
dependent) das células nervosas, valorizando a interação com o ambiente.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. SOBRE O NEURODESENVOLVIMENTO, É INCORRETO AFIRMAR QUE:
A) A formação de novas sinapses ocorre em diferentes momentos do desenvolvimento e de modo variado em áreas
cerebrais distintas.
B) A mielinização consiste no processo de cobertura de muitos axônios de neurônios com um revestimento de mielina,
mas não se relaciona com o neurodesenvolvimento.
C) O neurodesenvolvimento ocorre a partir da interação entre os neurônios e o meio ambiente, como as experiências
individuais de determinado organismo e os estímulos ambientais.
D) A propriedade de neuroplasticidade é muito mais presente nas etapas iniciais do desenvolvimento, mas persiste por
toda a vida.
2. NO INÍCIO DO NEURODESENVOLVIMENTO, O SISTEMA NERVOSO ESTÁ SENSÍVEL AOS
PROCESSOS DE APRENDIZAGEM QUE PRODUZIRÃO MODIFICAÇÕES PERMANENTES EM
ALGUMAS ESTRUTURAS NEURAIS. ESSA IDEIA ESTÁ MAIS INTIMAMENTE RELACIONADA
AO CONCEITO DE:
A) Validação funcional.
B) Programação neural de longo prazo.
/
C) Mudanças regressivas.
D) Plasticidade sináptica.
GABARITO
1. Sobre o neurodesenvolvimento, é incorreto afirmar que:
A alternativa "B " está correta.
A mielinização é parte integrante do desenvolvimento neural inicial e responde por um aprimoramento do
funcionamento do Sistema Nervoso. Algumas funções só se estabelecem de forma completa com a maturação da
mielinização das regiões correspondentes no Sistema Nervoso.
2. No início do neurodesenvolvimento, o Sistema Nervoso está sensível aos processos de aprendizagem que
produzirão modificações permanentes em algumas estruturas neurais. Essa ideia está mais intimamente
relacionada ao conceito de:
A alternativa "B " está correta.
O conceito de programação neural de longo prazo se correlaciona à ideia de que as primeiras experiências influenciam
na formação da arquitetura cerebral, em sua função e nas capacidades.
 Relacionar a integração cerebral com o funcionamento neuropsicológico
FUNCIONAMENTO NEUROPSICOLÓGICO
Como temos reforçado, o funcionamento do Sistema Nervoso ocorre de forma integrada. Isso é essencial para a
adequação das funções que desempenha.
Neste módulo, evidenciaremos que as funções cognitivas são integrativas, porque se baseiam em um funcionamento
neural também integrativo.
NEUROPSICOLOGIA
Neurociências
/

Psicologia

Neuropsicologia
A Neuropsicologia é um ramo das Neurociências e da Psicologia. Como já apontado, ela afirma que todas as funções
de um indivíduo (cognitivas, emocionais ou comportamentais, internas ou externas) são baseadas em um substrato
neural e em seu correto funcionamento (FUENTES et al., 2008).
Áreas especializadas agem de modo coordenado e integrado para que as funções possam ocorrer.
Os objetivos da Neuropsicologia são os mais diversos, entre os quais destacamos o estudo de:
Lesões do Sistema Nervoso e seus desdobramentos;
Modelos neurais de transtornos – como a depressão, os transtornos do neurodesenvolvimento, como o TDAH etc.;
/
Os efeitos de programas de reabilitação neuropsicológica.
 ATENÇÃO
Quando o objetivo se refere ao estudo do funcionamento cognitivo, a Neuropsicologia se confunde com as
Neurociências Cognitivas. Por isso, nosso estudo é tão importante. Em nosso podcast, falaremos sobre as principais
diferenças.
Esse saber encontra aplicações práticas em uma série de áreas do conhecimento. Portanto, é relevante para a
atuação profissional em diversas áreas, como as de Saúde e Educação.
Veja a seguir os principais conceitos neuropsicológicos:
 Clique nas figuras abaixo para ver as informações.
Fonte: ksenvitaln / Shutterstock
Funcionamento cognitivo
Conjunto das funções neuropsicológicas ou cognitivas. Trata-se sempre de um conjunto individual, uma vez que as
trajetórias de desenvolvimento neural também são individuais. Podemos intuir que cada indivíduo terá pontos fortes e
javascript:void(0)
/
fracos em seu desempenho cognitivo.
Fonte: ksenvitaln / Shutterstock
Déficit cognitivo
Funcionamento cognitivo (geral ou específico, em termos de uma ou outra função cognitiva) de um indivíduo
considerado abaixo da média esperada para sua idade, seus anos de escolaridade e outras características
sociodemográficas reconhecidamente associadas ao desempenho cognitivo.
Fonte: ksenvitaln / Shutterstock
Rebaixamento cognitivo
Declínio do funcionamento cognitivo de um indivíduo comparado com seu desempenho anterior.
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/
FUNÇÕES NEUROPSICOLÓGICAS
A história da ciência da Neuropsicologia é marcada pelo estudo de pacientes lesionados no cérebro. Aqueles com
lesões em determinadas áreas do Sistema Nervoso Central perdiam a capacidade de exercer algumas das suas
Atividades da Vida Diária (AVDs) – indicativas de seu funcionamento cognitivo subjacente – mas preservavam outras.
Os estudos mais aprofundados da área auxiliaram na construção de um entendimento de que havia, então, uma
multiplicidade de funções e de sua relativa independência.
 VOCÊ SABIA
As funções cognitivas se expressam em animais, ainda que de forma rudimentar, em escala evolutiva, demonstrando
sua conservação ao longo da evolução das espécies.
A tabela a seguir apresenta, de forma introdutória, as funções cognitivas, sua breve descrição, bem como exemplos e
áreas cerebrais associadas:
Função
cognitiva
Descrição Exemplos Áreas cerebrais
Sensação
Capacidade de
decodificar o
ambiente físico
(externo e interno)
Visão, audição, olfato, tato,
paladar, propriocepção
Córtices sensoriais dos
lobos correspondentes
Percepção
Compreensão dos
estímulos sensoriais
de modo integrado e
com sentido
Percepção de faces e de
objetos complexos
Lobo parietal
Atenção
Seleção das
informações
relevantes no
ambiente
Atenção sustentada e
alternada
Sistema atencional
supervisor, córtex pré-frontal,
córtex parietal, mesencéfalo
Memória e
aprendizagem
Armazenamento e
acesso a
informações
aprendidas
Memória de curto e longo
prazos, memória explícita e
implícita (emocional,
condicionamento,
procedimentos motores)
Córtex pré-frontal, lobo
temporal (especialmente a
porção medial), estruturas
límbicas, núcleos da base,
cerebelo
/
Integração
sensório-
motora
Organização do
comportamento a
partir das
percepções
Comportamento motor,
habilidades visuoconstrutivas
Córtex motor, lobo parietal,
medula cerebral
Linguagem
Capacidade de
compreensão e de
produção de signos
linguísticos para a
comunicação
Escrita, fala, gestos
Córtices sensoriais, área de
Wernicke, área de Broca,
córtex pré-frontal
Funções
executivas
Adaptação do
indivíduo a seu meio,
de forma organizada
e regulada
Planejamento monitorização,
flexibilidade, iniciação,
controle inibitório, memória
operacional
Córtex pré-frontal
Motivação e
emoção
Regulação do
comportamento e
adaptação ao meio
social
Motivação extrínseca e
intrínseca, processamento
emocional (percepção,
regulação e expressão das
emoções)
Estruturas subcorticais,
sistema límbico
Funções cognitivas.
Fonte: Adaptado de: COSENZA; GUERRA, 2001; FUENTES et al., 2008.
 Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem horizontal
FUNÇÕES COMPLEXAS E INTEGRAÇÃO CEREBRAL
Pela tabela apresentada, fica evidenciado que o funcionamento cognitivo requer a participação de diversos
componentes do Sistema Nervoso Central. Somente para fins didáticos, podemos separar as funções cognitivas.
No mundo concreto, considerando o funcionamento dos indivíduos em suas Atividades da Vida Diária, as funções
cognitivas atuam de forma integrada e interdependente, como ilustrado no esquema a seguir:
/
Fonte: A AUTORA, 2020.
Integração das funções cognitivas.
Sob coordenação das funções executivas, o indivíduo, ativado por uma emoção, motiva-se na direção de focar a
atenção em determinado estímulo, que será processado pela sensopercepção, gerando o traço necessário para a
memória e o consequenteaprendizado.
A ideia aqui é compreender como essa integração ocorre em nível do substrato neural subjacente.
As funções cognitivas apontadas anteriormente requerem o funcionamento dos córtices do cérebro, conforme mostra a
figura:
Fonte: Adaptado de: THE HUMAN MEMORY.
Córtex cerebral.
Todos os lobos são
cobertos de córtices
(substância cinzenta),
que contêm os corpos
dos neurônios. Os
prolongamentos
axonais dos neurônios
do córtex formam,
juntos, a chamada
substância branca.
SUBSTÂNCIA
BRANCA
Filamentos, feixes e origens
dos nervos que se
encaminham para a medula
espinhal.
Fonte: THOMPSON, 2005.
Alexander Luria foi um dos pesquisadores mais proeminentes da Neuropsicologia (FUENTES et al., 2008). Ele
formulou a compreensão de que o córtex está organizado em unidades funcionais, que incluem:
ALEXANDER LURIA (1902-1977)
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/
Neurologista russo, considerado um dos pioneiros da Neuropsicologia atual. Ele estabeleceu uma relação entre
os mecanismos cerebrais e as funções intelectuais do ser humano. Além disso, realizou várias investigações
relacionadas a pacientes que sofriam lesões cerebrais e sua reintegração social.
Fonte: RUIZA; FERNÁNDEZ; TAMARO, 2004.
ÁREAS PRIMÁRIAS
Áreas mais básicas e monomodais, como as áreas visuais primárias do córtex occipital e as áreas motoras primárias
do giro pré-central do córtex frontal, que lidam apenas com uma modalidade sensorial específica: a visão e a audição,
respectivamente.
ÁREAS SECUNDÁRIAS
Áreas associativas visuais, que nos permitem a compreensão perceptual, com mais sentido, dos estímulos visuais.
ÁREAS TERCIÁRIAS
Áreas de associação multimodais, que integram e processam diversas modalidades sensoriais para criar uma
percepção completa do estímulo que seja, simultaneamente, visual, espacial, auditivo e mnemônico. É o caso da
junção têmporo-parieto-occipital e do córtex pré-frontal.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. SOBRE AS FUNÇÕES NEUROPSICOLÓGICAS, É CORRETO AFIRMAR QUE:
A) As funções cognitivas são independentes, pois podem ser estudadas separadamente.
B) As funções cognitivas são desempenhadas exclusivamente pelos córtices cerebrais.
C) O desempenho do indivíduo nas atividades do dia a dia independe do seu funcionamento neuropsicológico.
D) Para um funcionamento neuropsicológico adequado, é imprescindível a participação coordenada de uma gama de
funções cognitivas.
/
2. CONSIDERE O SEGUINTE CAMINHO PERCORRIDO PELA INFORMAÇÃO NO SISTEMA
NERVOSO CENTRAL: 
I. ÓRGÃO SENSORIAL (OUVIDO) – PARA A TRANSDUÇÃO DO IMPULSO FÍSICO EM
ELÉTRICO, QUE POSSA SER PROPAGADO PELOS AXÔNIOS ATÉ O CÉREBRO.
II. ÁREA AUDITIVA PRIMÁRIA – APENAS A SENSAÇÃO DE UM ESTÍMULO SONORO.
III. CÓRTEX AUDITIVO DE ASSOCIAÇÃO – COMPREENSÃO DE OUVIRMOS PALAVRAS.
IV. ÁREA DE WERNICKE – INTEGRAÇÃO E COMPREENSÃO DA INFORMAÇÃO
LINGUÍSTICA.
V. ÁREA TERCIÁRIA (CÓRTEX PRÉ-FRONTAL) – PARA A CORRETA ORGANIZAÇÃO E
GERAÇÃO DA RESPOSTA.
VI. ÁREA MOTORA ASSOCIATIVA DA FALA – ÁREA DE BROCA.
VII. ÁREA MOTORA PRIMÁRIA – PARA A PREPARAÇÃO DA RESPOSTA MOTORA DOS
DEDOS, DOS PUNHOS E DAS MÃOS.
É POSSÍVEL SUPOR QUE O INDIVÍDUO ESTEJA ENGAJADO EM QUAL DAS ATIVIDADES A
SEGUIR?
A) Transcrevendo algo que está escrito em um quadro.
B) Copiando a resposta de uma informação lida.
C) Ouvindo uma questão e a respondendo por escrito.
D) Respondendo oralmente a uma pergunta escrita.
GABARITO
1. Sobre as funções neuropsicológicas, é correto afirmar que:
A alternativa "D " está correta.
Embora possam ser estudadas separadamente, as funções cognitivas ou neuropsicológicas agem de forma integrada,
bem como requerem a participação integrada do Sistema Nervoso, e não só do córtex cerebral. Essas funções têm
relação intrínseca com as Atividades da Vida Diária do indivíduo, promovendo sua adaptação ao meio.
2. Considere o seguinte caminho percorrido pela informação no Sistema Nervoso Central: 
I. Órgão sensorial (ouvido) – para a transdução do impulso físico em elétrico, que possa ser propagado pelos
axônios até o cérebro.
II. Área auditiva primária – apenas a sensação de um estímulo sonoro.
III. Córtex auditivo de associação – compreensão de ouvirmos palavras.
IV. Área de Wernicke – integração e compreensão da informação linguística.
V. Área terciária (córtex pré-frontal) – para a correta organização e geração da resposta.
VI. Área motora associativa da fala – área de Broca.
VII. Área motora primária – para a preparação da resposta motora dos dedos, dos punhos e das mãos.
É possível supor que o indivíduo esteja engajado em qual das atividades a seguir?
/
A alternativa "C " está correta.
A informação é auditiva, uma vez que está chegando às áreas sensoriais primárias auditivas.
 Identificar diferentes modalidades de exames do funcionamento cerebral
IMAGIAMENTO DO FUNCIONAMENTO CEREBRAL
Desde os primeiros estudos em Neurociência Cognitiva,
sempre houve uma preocupação com a utilização de
metodologias e de instrumentos de alta qualidade.
Embora as pesquisas neuropsicológicas se dedicassem ao
estudo de indivíduos com lesão, com o advento de
tecnologias seguras, pôde-se avançar na compreensão do
funcionamento normal do Sistema Nervoso, em especial do
Sistema Nervoso Central e do cérebro.
Fonte: ORION PRODUCTION / Shutterstock
A neuroimagem surgiu como instrumento de estudo fundamental para o avanço em pesquisas na área (FUENTES et
al., 2008), atendendo aos diferentes objetivos já tratados aqui. Com essa ferramenta, é possível conhecer a estrutura e
a integridade dos componentes do Sistema Nervoso Central, tanto em termos morfológicos quanto, mais
recentemente, em termos funcionais.
Atualmente, estão à disposição dos pesquisadores das áreas de Neurociências Cognitivas dois conjuntos de
ferramentas de neuroimagem: as técnicas estruturais e as técnicas funcionais.
/
TÉCNICAS FUNCIONAIS DE NEUROIMAGEM
As técnicas chamadas funcionais não se restringem apenas a mostrar as estruturas do Sistema Nervoso Central, mas
nos apresentam uma possibilidade de estudar seu funcionamento.
O pressuposto básico para compreender a aplicabilidade desse tipo de neuroimagiamento é o seguinte:
As estruturas no Sistema Nervoso Central requeridas para determinada função ou determinado conjunto de funções
apresentarão alterações em seu metabolismo. Afinal, quando ativadas, precisarão de mais aporte de oxigênio e glicose
para o funcionamento das células nervosas locais.
Se pudermos traçar esses compostos, bem como o uso de neurotransmissores e a ativação de receptores e
transportadores celulares, poderemos ver online quais áreas atuam em determinada atividade desempenhada pelo
indivíduo que está sendo mapeado.
 Clique nas figuras abaixo para ver as informações.
Fonte: ksenvitaln / Shutterstock
As técnicas mais conhecidas e difundidas são as variações da Tomografia Computadorizada, como o PET-Scan e o
SPECT, que se utilizam de compostos radioativos temporários para conhecer a perfusão cerebral.
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/
Fonte: ksenvitaln / Shutterstock
De modo especial, a Ressonância Magnética Funcional (fMRI, na sigla em inglês), reconhecida no campo, mapeia a
“movimentação” da hemoglobina.
Fonte: ksenvitaln / Shutterstock
Surgida mais recentemente, a Tomografia Óptica Difusa (DOT, na sigla em inglês) utiliza a defração da luz projetada
por eletrodos através do crânio. A técnica mede a absorção óptica da hemoglobina e depende de seu espectro de
absorção, variando com o estado de oxigenação.
PERFUSÃO CEREBRAL
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/
Rota dos compostos requeridos pelas áreas ativas naquela atividade.
HEMOGLOBINA
Molécula que carrega oxigênio para as células.
MODALIDADES DE IMAGIAMENTO FUNCIONAL
As técnicas funcionais são as mais relevantes para o estudo recente das Neurociências Cognitivas.
 ATENÇÃO
As aplicações derivam do estudo das bases neurais do funcionamento cognitivo normal (aplicáveis às áreas de Saúde
e Educação), bem como da compreensão das diferençasde processamento cognitivo em indivíduos com perfis
distintos de déficits neurocomportamentais.
Nesse último caso, os exames são úteis para a compreensão do funcionamento do indivíduo e podem orientar serviços
de reabilitação neurocognitiva e de psicofarmacologia, bem como acompanhar os efeitos desses recursos ao longo do
tempo.
Para ilustrar, apesentamos a seguir um exemplo de mapa construído a partir de um exame funcional:
Adaptado de: BRANDÃO, 2004, p. 181.
/
Exemplos de mapas de ativação de regiões cerebrais na execução em quatro diferentes tarefas ligadas à linguagem. A
barra colorida lateral indica o nível de ativação da área cerebral.
Observamos aqui a variação do local de maior ativação das regiões cerebrais conforme a tarefa.
Nos mapas de imagiamento funcional do cérebro, as escalas coloridas informam maior e menor ativação. Nesta figura,
quanto mais próximo das cores vermelha, laranja e amarela, maior será a ativação das áreas correspondentes.
Como vimos, uma das técnicas mais atuais e promissoras no campo das neuroimagens funcionais para a área de
Neurociência Cognitiva é a Tomografia Óptica Difusa (DOT).
Na figura a seguir, apresentamos um exemplo de pesquisa que oferece uma comparação entre o exame de fMRI e a
DOT:
Traduzido de: EGGEBRECHT et al., 2014.
Mapeamento cerebral com duas técnicas de neuroimagem
cerebral funcional
Legenda
fMRI = Ressonância Magnética Funcional
HD-DOT = Tomografia Óptica Difusa de Alta Densidade
Note que a terceira linha de cérebros contém a sobreposição: um comparativo dos resultados dos dois exames (fMRI
e DOT), demonstrando sua acurácia, bem como a relativa especificidade das áreas cerebrais em funções distintas.
 Clique nos botôes para ver as informações.
LOBO FRONTAL
LOBO TEMPORAL
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/
Fonte: DandelionFly / Shutterstock.
LOBO PARIETAL
LOBO OCCIPTAL
LOBO TEMPORAL
1. Ativação da área auditiva primária
Quando o indivíduo tem seu cérebro mapeado enquanto ouve palavras.
LOBO OCCIPTAL
2. Silenciamento das áreas auditivas com consequente ativação das áreas visuais primárias
Na leitura encoberta (sem fala) de uma palavra, observamos este silenciamento, coerente com o fato de o
indivíduo não estar ouvindo sons.
LOBO PARIETAL
3. Ativação de regiões parietais e frontais
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/
Promovida pela imaginação da fala da palavra lida, sem, no entanto, pronunciá-la.
LOBO FRONTAL
4. Ativação das áreas associativas frontais
Na geração encoberta de verbos relacionados à palavra lida, ocorre a expressiva ativação destas áreas, uma vez
que se trata de uma habilidade de alta complexidade em termos de manipulação de informação na memória de
trabalho.
O campo das Neurociências Cognitivas está em constante expansão, uma vez que o avanço tecnológico e
metodológico propicia novas perguntas e novos objetivos de estudo do complexo funcionamento do Sistema Nervoso.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. CONSTITUEM EXEMPLOS DE EXAMES DE NEUROIMAGEM FUNCIONAL, EXCETO:
A) Imagem de tensor de difusão.
B) Ressonância Magnética Funcional.
C) Tomografia Óptica Difusa.
D) Tomografia Computadorizada.
2. COM EXAMES DE NEUROIMAGEM ESTRUTURAL, NÃO É POSSÍVEL VERIFICAR:
A) As lesões nos diferentes tecidos do encéfalo.
B) A reatividade de regiões do cérebro frente a estímulos.
C) O volume de áreas e estruturas.
D) Os indicativos de conectividade entre áreas.
GABARITO
1. Constituem exemplos de exames de neuroimagem funcional, exceto:
A alternativa "D " está correta.
/
A Tomografia Computadorizada é uma técnica de imagiamento estrutural e não compõe os exames que podem avaliar
o funcionamento do Sistema Nervoso Central.
2. Com exames de neuroimagem estrutural, não é possível verificar:
A alternativa "B " está correta.
A reatividade cerebral frente a estímulos é um exemplo do funcionamento cerebral, que pode ser avaliado por outras
técnicas de imagiamento, como a fMRI e o PET-Scan.
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As Neurociências e todos os conhecimentos a elas relacionados são realmente complexos, porque envolvem uma
gama de saberes muito ampla. Entretanto, isso não significa que se trate de um conhecimento inalcançável ou que
deva ser apresentado apenas a especialistas da área.
É fundamental possuir essas noções acerca de nosso Sistema Nervoso Central e, consequentemente, do
funcionamento cerebral, para compreendermos um pouco mais sobre as especificidades que nos definem como
espécie humana.
A partir das nossas indicações, esperamos que você possa se aprofundar no mundo das Neurociências.
REFERÊNCIAS
BRANDÃO, M. L. As bases biológicas do comportamento: introdução à Neurociência. São Paulo: EPU, 2004.
COSENZA, R. M.; GUERRA, L. B. Neurociência e educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre: ArtMed, 2001.
COWAN, W. M. The development of the brain. Scientific American, v. 241, n. 3, p. 112-133, set. 1979.
DE LANA, E.; HERINGER, N. Efeitos do estresse na aprendizagem: contribuições das Neurociências cognitivas.
In: ALVES, J. M. et al. Abordagens cognitivo-comportamentais no contexto escolar. Novo Hamburgo: Synopsis, 2018.
EISENBERG, N. Handbook of child psychology. 6. ed. New York: Wiley, 2006. (Social, emotional and personality
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/
EGGEBRECHT, A. T. et al. Mapping distributed brain function and networks with diffuse optical tomography. In:
Nature photonics, v. 8, n. 6, p. 448-454, 2014.
FUENTES, D. et al. Neuropsicologia: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed, 2008.
GRAHAM-MCGREGOR, S. et al. Developmental potential in the first 5 years for children in developing countries.
In: Lancet, v. 396, n. 9.555, p. 60-70, 2007.
HOLMES, A. et al. Galanin GAL-R1 – receptor null mutant mice display increased anxiety-like behavior specific
to the elevated plus-maze. In: Neuropsychopharmacology, v. 28, p. 1.031-1.044, 2003.
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LANDEIRA-FERNANDEZ, J.; MONTARROYOS CALLEGARO, M. Pesquisas em Neurociência e suas implicações
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LENT, R. Neurociência da mente e do comportamento. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008.
LEUNER, B.; GOULD, E. Structural plasticity and hippocampal function. In: Annual Review of Clinical Psychology,
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OLIVA, A. D.; DIAS, G. P.; REIS, R. Plasticidade sináptica: natureza e cultura moldando o self. In: Psicologia: reflexão
e crítica, v. 22, n. 1, p. 128-135, 2009.
PINEL, J. P. J. Biopsicologia. Porto Alegre: ArtMed, 2005.
PLISKA, S. R. Neurociência para o clínico de saúde mental. Porto Alegre: Artmed, 2005.
RUIZA, M.; FERNÁNDEZ, T.; TAMARO, E. Alexander Luria. Barcelona: Biografías y Vidas, 2004.
SALLES, J. F.; HAASE, V. G.; MALLOY-DINIZ, L. F. Neuropsicologia do desenvolvimento: infância e adolescência.
Porto Alegre: Artmed, 2016.
SWEATT, D. et al. Epigenetic regulation in the Nervous System: basic mechanisms and clinical impact. Londres:
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THOMPSON, R. F. O cérebro – uma introdução à Neurociência. São Paulo: Santos, 2005.
VAN DEN BERGH, B. R. Developmental programming of early brain and behaviour development and mental
health: a conceptual framework. In: Developmental Medicine & Child Neurology, v. 53, supl. 4, p. 19-23, set. 2011. 
EXPLORE+
Pesquise no YouTube e acesse os seguintes canais:
Society for Neuroscience – a maior associação de Neurociência do mundo.
Sociedade Brasileira de Neuropsicologia (SBNp) – sociedade de pesquisadores e profissionais que atuam em
Neuropsicologia, apresentando diretrizes para a compreensão, execução e interpretação das testagens na área.
/
Pesquise os seguintes aplicativos usados para estimular funções cognitivas:
BrainHQ;
Cognifit;Lumosity;
3D Brain.
No último aplicativo, sugerimos que use a tela sensível ao toque para girar e ampliar cerca de 29 estruturas interativas.
Descubra como funcionam as regiões cerebrais e o que acontece quando ocorre uma lesão. Cada estrutura detalhada
traz informações sobre as funções, os distúrbios e os danos cerebrais, bem como estudos de caso e links para uma
pesquisa aprofundada.
CONTEUDISTA
Érica de Lana Meirelles
 CURRÍCULO LATTES
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/
DEFINIÇÃO
A importância da linguagem e os centros de controle da linguagem no cérebro humano.
Funções executivas clássicas; processamento encefálico de funções executivas; memória de
trabalho; controle inibitório; flexibilidade cognitiva e redes frontais executivas. Emoções
primárias, secundárias e de fundo; teorias da emoção; amígdala e medo; córtex pré-frontal e
processamento emocional da tomada de decisão.
PROPÓSITO
Perceber que a linguagem, os comportamentos motivados, nossas emoções e as funções
executivas são essenciais para respostas adequadas à vivência em sociedade como
conhecemos, compreendendo, dessa forma, que identificar as bases neurais de tais processos
é importante para que se entenda as diferentes respostas humanas, bem como suas
adaptações.
/
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Identificar os principais locais de processamento da linguagem no cérebro humano
MÓDULO 2
/
Reconhecer as principais funções cognitivas processadas pelo controle executivo, discernindo
a relevância de tais processos na adequação de respostas ao ambiente
MÓDULO 3
Identificar a importância do processamento de emoções na tomada de decisões, a influência
dos estados motivacionais e os locais encefálicos relacionados aos sentimentos
INTRODUÇÃO
/
IMAGINE A SEGUINTE SITUAÇÃO:
Um professor em uma sala de aula (virtual ou não). Ele precisa explicar conceitos específicos
sobre determinado assunto aos seus alunos. Para tal, ele organizou previamente um plano de
aula, no qual estruturou suas ideias principais e a ordem dos assuntos que serão abordados.
O professor inicia sua fala, e os alunos ouvem o discurso e fazem anotações em seus
cadernos, tablets e smartphones. A comunicação se estabeleceu e foi bem-sucedida. O
professor conseguiu com sucesso passar sua mensagem, que foi transmitida por meio do uso
da linguagem verbal e não verbal. Além de sua fala, o professor providenciou imagens sobre o
assunto em questão, que isso facilitou o entendimento da matéria.
Nesse processo, tanto o professor quanto os alunos realizaram diversas atividades, na sala ou
mesmo antes de chegar a ela; das mais simples (como amarrar o cadarço do tênis) às mais
complexas (como elaborar esquemas, gráficos e imagens que facilitem a compreensão de
determinado conteúdo).
Fonte: Shutterstock
/
FUNÇÕES EXECUTIVAS

AÇÕES E ATITUDES DIRETAMENTE
ASSOCIADAS A PARTES ESPECIFICAS DO
CÉREBRO
Por isso, todas essas atitudes são funções executivas, que estão diretamente ligadas a
partes específicas de nosso cérebro.
Ao mesmo tempo, não somos capazes de compreender como aconteceria a cena hipotética
que mencionamos sem imaginarmos se o professor chegou bem-humorado ou não, ou se
algum aluno sequer anotou uma frase, já que se recusava a dar atenção àquele que lhe deu
nota 2,0 na prova anterior.
Fonte: Shutterstock
Você já se deu conta de como seriam as relações humanas se elas fossem desprovidas de
emoção?
/
TALVEZ NÃO, MAS A VERDADE É QUE AS
EMOÇÕES SÃO TÃO NECESSÁRIAS COMO
HABILIDADES ADAPTATIVAS QUANTO OS
MECANISMOS DE TOMADA DE DECISÃO.
DESSA FORMA, COMPREENDER COMO A
EMOÇÃO É PROCESSADA NO CÉREBRO PODE
TRAZER INFORMAÇÕES RELEVANTES SOBRE
O COMPORTAMENTO HUMANO EM DIFERENTES
SITUAÇÕES.
É EXATAMENTE ISSO QUE VAMOS ESTUDAR
AGORA!
MÓDULO 1
IDENTIFICAR OS PRINCIPAIS LOCAIS DE
PROCESSAMENTO DA LINGUAGEM NO CÉREBRO HUMANO
POR QUE ESTUDAR A LINGUAGEM?
Mas, o que é linguagem, afinal?
/
Podemos defini-la como um sistema de comunicação com regras específicas para que um
emissor envie mensagens a um receptor, de maneira que a mensagem principal seja
compreendida.
Fonte: Shutterstock
Os sistemas de comunicação abrangem algumas especificações. São elas:
 Clique nos itens a seguir.
SISTEMA DE COMUNICAÇÃO PRÓPRIO
AVANÇO TECNOLÓGICO
EVOLUÇÃO HUMANA
Embora alguns animais, incluindo primatas não humanos, possuam sistemas de
comunicação próprios, a linguagem humana, sem dúvidas, é a mais complexa. Basta
observarmos como a língua de determinado local sofre mudanças com o tempo: recebe novas
palavras, criam-se neologismos, termos, gírias.
Com o avanço da tecnologia e das realizações humanas em todas as áreas, novas palavras e
novos vocabulários são criados a fim de acompanharem o desenvolvimento da sociedade. Sem
contar as palavras que são absorvidas das mais diversas línguas e modificadas para se
ajustarem às regras gramaticais de outra localidade. Com certeza, nossas tataravós não
saberiam dizer o que é um drone ou um smartphone. Entretanto, ambos fazem parte de nossa
vida no presente e sabemos seus significados e suas funções.
/
A linguagem, portanto, é uma adaptação fundamental na evolução dos seres humanos, e
não é formada apenas de sons específicos, mas envolve ainda gestos e expressões faciais,
que trazem emoção ao discurso.
Durante muito tempo, o estudo da linguagem humana limitou-se a ensaios e testes com
pacientes com lesões cerebrais, cujos danos restringiram aspectos da linguagem. Porém, com
o avanço da tecnologia de imagens, foi possível inserir a Neurociência no processo de
investigação das áreas cerebrais voltadas à linguagem, o que possibilitou uma compreensão
maior do fenômeno.
ALGUNS ASPECTOS DA LINGUAGEM
A linguagem pode ser desmembrada em componentes mais específicos; por exemplo, a
linguagem verbal inclui a vocalização de sons e a compreensão dos mesmos via sistema
auditivo. Dessa maneira, dependendo do tipo de linguagem utilizada, haverá um pareamento
de sistemas para a compreensão da mensagem.
Quando a linguagem utilizada for escrita, o sistema visual será encarregado de receber tais
estímulos.
Se a linguagem utilizada for o braille, por exemplo, o sistema somestésico será o primeiro a
receber as informações necessárias para que a comunicação ocorra.
Linguagem verbal
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Fonte: Shutterstock
BRAILLE
Sistema de escrita com pontos em relevo que as pessoas privadas da visão podem ler
pelo tato e que lhes permite também escrever; anagliptografia.
SISTEMA SOMESTÉSICO
O sistema somestésico está ligado à percepção tátil.
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Fonte: Shutterstock
Quando comparamos a linguagem verbal falada com a linguagem escrita, por exemplo,
entendemos que a primeira possui fortes bases neurais, uma vez que, nos primeiros meses de
vida, os seres humanos já são capazes de iniciar processos de aprendizagem neste campo.
Ao passo que a escrita ocorre em etapas posteriores da vida e depende de uma educação
formal, o que nem sempre ocorre. No entanto, a linguagem deve ser considerada universal, no
sentido de que todas as sociedades apresentam sistemas bem definidos de regras e se
comunicam, ao menos, verbalmente.
A universalidade da linguagem nos traz a ideia de que tal fenômeno é inato ao ser humano e
que, provavelmente, existam áreas específicas no cérebro para o processamento desses
dados.
Linguagem universal
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Seguem, então, alguns conceitos comuns utilizados na área de linguagem:
FONEMA
São unidades formadoras das palavras. São sons distintos, cuja junção resulta em palavras e
frases.
SINTAXE
Estrutura de regras gramaticais para associação de palavras em frases.
SEMÂNTICA
Trata-se da compreensão do significado das palavras.
PROSÓDIA
São inflexões, entonações de voz, gestos e expressões faciais que acompanham a fala.
ÁREAS ENCEFÁLICAS ENVOLVIDAS NA
FALA
/
Você já se deu conta que a associação entre regiões cerebrais e a fala é uma descoberta
relativamente recente?
EXATAMENTE! DURANTE MUITO TEMPO,
ACREDITOU-SE QUE TODOS OSPROCESSOS
DE REGULAÇÃO DA FALA SE DAVAM APENAS
EM NÍVEIS INFERIORES, MAIS
ESPECIFICAMENTE OS MÚSCULOS DA BOCA,
LÍNGUA E LARINGE.
A partir de 1770, vieram os primeiros indícios de que áreas encefálicas estariam associadas a
problemas na fala. Porém, em 1863, o neurologista francês Paul Broca publicou um artigo
relatando vários casos de indivíduos com lesões nos lobos frontais, especificamente no
hemisfério esquerdo, nos quais a linguagem estava comprometida. No ano seguinte, Broca
propôs que havia dominância do hemisfério esquerdo no que diz respeito à linguagem em
relação ao hemisfério direito.
PAUL BROCA
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Paul Broca (1824-1880) nasceu na França. Logo após concluir o curso de Medicina na
Universidade de Paris (1844), tornou-se professor de Patologia Cirúrgica. Sua maior
contribuição à Neurologia foi a identificação, no cérebro, do centro do uso da palavra
(área de Broca).
Confira, então, alguns aspectos relacionados as áreas encefálicas e a relação entre os
problemas na fala.
PROCEDIMENTO DE WADA
O procedimento de Wada – uma técnica mais moderna desenvolvida por Juhn Wada no
Instituto Neurológico de Montreal – pode comprovar tal afirmativa. Esse procedimento consiste
na administração de um barbitúrico de ação rápida pela artéria carótida de apenas um dos
lados do pescoço, o que faz com que apenas um hemisfério seja anestesiado. Dentre os
efeitos transitórios, estão: paralisia do corpo no lado contralateral à injeção e problemas na
execução de tarefas que, especificamente, são controladas pelo hemisfério anestesiado.
Observe a figura:
Utilizando anestésicos de ação rápida, é possível anular as funções de um único hemisfério e
observar as atividades que ele regula. Dessa forma, foi possível associar a anestesia do
hemisfério esquerdo e a total incapacidade de fala. Em 96% dos destros e em 70% dos
canhotos, o hemisfério esquerdo é dominante para a fala. Apenas em uma parcela muito
pequena da população observa-se bilateralidade da fala.
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/
Fonte: Shutterstock
 Procedimento de Wada 
ÁREA DE BROCA
A área que Broca identificou como a responsável pela articulação da fala acabou ficando
conhecida como área de Broca.
Complementando o estudo, o neurologista alemão Karl Wernicke mostrou que lesões no
hemisfério esquerdo, fora da área de Broca, também resultam em dificuldades na fala. Tal área
ficou conhecida como área de Wernicke e localiza-se próximo ao córtex auditivo e ao giro
angular.
Apesar de tais áreas, ainda hoje, serem implicadas em aspectos da linguagem, sabe-se que
seus limites não estão totalmente esclarecidos e podem ser ainda mais abrangentes.
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/
Fonte: Shutterstock
 Componentes principais do sistema de linguagem no hemisfério esquerdo
JUHN WADA
Juhn Wada (Japão, 1924) desenvolveu pesquisas na área de epilepsia, incluindo sua
descrição do teste de Wada para domínio hemisférico cerebral da função da linguagem.
Suas principais áreas de interesse são: assimetrias do cérebro humano e neurobiologia
da epilepsia.
Além disso, há variações entre os indivíduos, já que existem questões genéticas associadas à
linguagem. Como o cérebro e suas estruturas são plásticos e mutáveis frente aos diferentes
estímulos ao longo da vida, os circuitos podem sofrer variações de um indivíduo para o outro.
KARL WERNICKE
/
Karl Wernicke (1848-1905) nasceu na região da Prússia (onde hoje é a
Polônia/Alemanha). Estudou Neurologia, buscando identificar doenças nervosas de áreas
específicas do cérebro. Dedicou-se a pesquisar distúrbios que implicam na funcionalidade
da fala e escrita.
O ESTUDO DAS AFASIAS E O MODELO DE
WERNICKE-GESCHWIND
Você já percebeu que parte dos estudos sobre a linguagem e sua associação com áreas
encefálicas advém da análise de casos de afasias?
É ISSO MESMO! A AFASIA É A PERDA PARCIAL
OU COMPLETA DA FALA, RESULTANTE DE
LESÕES ENCEFÁLICAS. NA MAIORIA DAS
VEZES, ISSO ACONTECE SEM QUE HAJA
PERDA COGNITIVA OU DA CAPACIDADE DE
MOVER OS MÚSCULOS ENVOLVIDOS NA FALA.
/
A afasia de Broca é caracterizada pela perda da capacidade de fala, com preservação da
compreensão do que é ouvido ou lido. Pessoas com essa síndrome apresentam fala difícil e
telegráfica com recorrente anomia, ou seja, incapacidade de encontrar nomes.
Tal anomia é seletiva, uma vez que palavras de conteúdo, como substantivos, verbos e
adjetivos, são frequentemente utilizadas. Já palavras de função, como artigos, conjunções e
pronomes, não são utilizadas e não fazem parte das frases.
Conclui-se que a afasia de Broca está relacionada a algum tipo de dificuldade motora na
articulação da fala, uma vez que a compreensão é mantida, porém a externalização das
palavras, não.
Fonte: Shutterstock
AFASIA DE BROCA
Também conhecida como afasia motora ou não fluente, pois a pessoa tem dificuldade em
falar mesmo que possa entender a linguagem falada ou lida. Caracterizada por
dificuldades no discurso, incluindo uma ampla gama de sintomas. O discurso dos
pacientes é frequentemente telegráfico e custoso, vindo em rompantes desiguais.
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/
Wernicke sugeriu que a área lesada na afasia de Broca poderia ser responsável pelo controle
motor na articulação de sons e palavras. Tal ideia faz sentido quando percebemos que a área
de Broca está localizada próximo à área do córtex motor, que controla a boca e a língua.
Entretanto, em alguns pacientes com essa síndrome, observa-se a possibilidade de eles
falarem palavras como bee (abelha, em inglês), mas nota-se igualmente a incapacidade de
pronunciar palavras foneticamente similares como be (ser, em inglês).
Conclui-se, portanto, que o problema estaria na distinção entre palavras de função e palavras
de conteúdo, e não em problemas meramente motores, como muitos pesquisadores da área
afirmam.
Acompanhe mais alguns aspectos sobre a afasia de Wernicke.
TAREFA NÃO VERBAL
/
Devido ao fluxo de fala incompreensível, é difícil verificar com a afasia de
Wernicke se está havendo ou não compreensão do que é dito ou escrito.
Dessa forma, designa-se determinada tarefa não verbal para verificar a
compreensão do paciente.
Por exemplo, pode-se pedir ao indivíduo que coloque determinado objeto sobre
outro. O que se observa é que não há capacidade de compreensão mesmo
para tarefas simples como essa.
SONS DE ENTRADA
/
Da mesma maneira que a área de Broca fica perto de regiões motoras que
controlam boca e língua, a área de Wernicke localiza-se próximo ao córtex
auditivo.
Tal associação pode induzir à ideia de que tal área está relacionada aos sons
de entrada e seus significados. Em outras palavras: seria uma área de
formação de memória entre sons e seus significados, o que gera a
compreensão da palavra propriamente dita.
REGULAÇÃO DA LINGUAGEM
/
Ainda em seu estudo com afásicos, Wernicke propôs um modelo de
processamento de linguagem no encéfalo, o qual foi complementado por
Norman Geschwind.
Esse modelo, conhecido por Modelo de Wernicke-Geschwind, acaba sendo
uma simplificação do que ocorrem em termos de regulação da linguagem na
realidade.
NORMAN GESCHWIND
Norman Geschwind (1926-1984) nasceu nos Estados Unidos e teve como foco de
interesse a Neurologia Comportamental. Curiosamente, ele ingressou em Harvard para
estudar Matemática; porém, a Psicologia chamou sua atenção ao observar os soldados
na Segunda Guerra Mundial (quando ele serviu ao Exército), agindo de forma irracional
nos combates.
Para compreendermos esse modelo, vamos considerar duas situações distintas: repetição de
palavras e a leitura em voz alta de um texto escrito.
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/
REPETIÇÃO DE PALAVRAS
Nesse caso, as informações chegam ao encéfalo via sistema auditivo até o córtex auditivo.
Este, por sua vez, processa as informações recebidas, as quais somente serão reconhecidas
como palavras com significado quando processadas na área de Wernicke.
As palavras serão finalmente pronunciadas depois que as informações chegarem à área de
Broca, onde comandosneurais serão enviados às regiões motoras responsáveis pelo controle
da língua e dos músculos associados à fala.
Fonte: Shutterstock
 Repetição de palavras faladas (Modelo de Wernicke-Geschwind).
LEITURA EM VOZ ALTA DE UM TEXTO ESCRITO
Já nessa situação, em que a tarefa é a leitura de um texto escrito, o processo final é similar,
mas o início difere pelo fato de o sistema de entrada ser o visual, e não o auditivo.
Nesse caso, as informações chegam ao córtex visual, são processadas e passam ao giro
angular, onde serão novamente processadas e transformadas em sinais de saída para a área
de Wernicke, como se fossem sinais falados, e não escritos.
/
O processo final é o mesmo do caso anterior, com as informações sendo levadas à área de
Broca e, então, para o córtex motor.
Fonte: Shutterstock
 Repetição de palavras escritas (Modelo de Wernicke-Geschwind) 
SIMPLIFICAÇÕES DO MODELO DE WERNICKE-
GESCHWIND
Embora coerente, o modelo acaba simplificando demais certos aspectos. Por exemplo, as
informações visuais podem chegar diretamente à área de Broca, sem passar pelo giro angular.
As informações visuais não precisam ser transformadas em informações auditivas, como
sugerido. Além disso, sabe-se atualmente que os danos nas afasias de Broca e Wernicke
dependem da extensão das áreas lesadas e de regiões não mencionadas no modelo, como o
núcleo caudado e o tálamo (ambas áreas subcorticais).
Outro aspecto importante reside no fato de que, em um acidente vascular cerebral (AVC), a
borda limítrofe das lesões é variável, o que pode incluir ou não áreas de relevância à
linguagem e que acabaram excluídas do modelo.
Foram reportados ainda estudos que evidenciam a recuperação de áreas lesadas, ou ainda a
substituição de função por áreas anteriormente não relacionadas à linguagem, o que agrava a
/
compreensão dos quadros. Vários casos de afasia são acompanhados de disfunções da fala e
da compreensão ao mesmo tempo.
Dessa forma, foram propostos modelos mais complexos de análise, mas que mantêm alguns
aspectos básicos do modelo de Wernicke-Geschwind.
Fonte: Shutterstock
AFASIA DE CONDUÇÃO
 Clique nas setas para ver o conteúdo.
/
Fonte:Shutterstock
 Feixe arqueado – fibras responsáveis pela conexão entre as áreas de Broca e Wernicke.
Outro tipo de afasia existente é a afasia de condução, na qual ocorre desconexão entre as
áreas de Broca e Wernicke. Tal perda de conectividade ocorre devido a lesões no fascículo
arqueado, um conjunto de fibras que conectam ambas as áreas de linguagem.
Nesse tipo de afasia, a compreensão e a fala são mantidas. Entretanto, como há perda da
comunicação entre as áreas, há perda da capacidade de repetir palavras. O paciente até pode
ouvir uma palavra ou frase e compreender o que foi dito, mas será incapaz de repeti-la em voz
alta da forma correta.
ESPECIALIZAÇÃO HEMISFÉRICA
Quando Paul Broca apresentou seus trabalhos sobre a prevalência do hemisfério esquerdo na
formação da linguagem, a comunidade científica entendeu e aceitou que haveria dominância
de tal hemisfério em relação ao direito, que teria apenas funções secundárias e coadjuvantes.
Entretanto, o conceito de dominância hemisférica tornou-se ultrapassado; o que se entende
atualmente é o conceito de especialização, e não dominância.
A especialização hemisférica se traduz em hemisférios distintos, cada qual especializado em
um grupo de funções. Porém, ambos trabalham em conjunto, integrados por milhões de fibras
denominadas comissuras cerebrais.
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Fonte: Shutterstock
 Comissuras cerebrais
O conceito de especialização é correlacionado a outros dois conceitos: o de lateralidade e
assimetria.
 Clique nos itens a seguir.
LATERALIDADE
ASSIMETRIA
A lateralidade ocorre quando não há bilateralidade em alguma função e algum hemisfério
acaba sendo responsável por determinada função majoritariamente.
O conceito de assimetria é mais amplo e pode ser considerado sob a ótica de diversas
modalidades: assimetrias morfológicas, funcionais e comportamentais. 
ASSIMETRIAS MORFOLÓGICAS
Uma observação precisa ser feita para que nenhuma informação seja considerada de
forma simplista. O conceito de especialização hemisférica não pode ser traduzido como
se o hemisfério esquerdo fosse inteiramente responsável pela fala e o direito, pelas
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/
emoções, por exemplo. Tais fatos incorrem em afirmações que carecem de necessária
comprovação científica.
Se quiser se aprofundar nesse assunto, visite o Explore+ ao final no tema.
Ainda sobre esse estudo, utilizou-se pacientes cujas comissuras foram seccionadas a fim de
evitar crises epilépticas fortes, é possível pesquisar as especialidades hemisféricas fornecendo
estímulos que serão processados apenas por um lado do cérebro. Por meio de tais estudos, foi
possível localizar as especializações e associá-las aos seus respectivos hemisférios, como
também perceber o papel das comissuras na integração dos hemisférios.
Por exemplo, quando falamos, veiculamos tanto informações cognitivas quanto afetivas, e isso
se dá por integração entre os hemisférios. A prosódia é codificada pelo hemisfério direito,
enquanto o esquerdo regula a compreensão linguística e a fala.
Fonte: Shutterstock
 Especialização hemisférica
COMISSURAS
Conjunto de fibras que têm a função de ligar um hemisfério do cérebro a outro.
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/
Acredita-se que a única generalização permitida quando se trata de especialização hemisférica
é a de que o hemisfério esquerdo trata de funções mais específicas, enquanto o direito regula
funções mais globais.
Com o avanço das técnicas de imagem, foi possível observar em mais detalhes a ativação de
partes específicas do encéfalo quando da execução de determinadas tarefas.
Os resultados obtidos por ressonância magnética funcional de interferência (IRMf) e tomografia
por emissão de pósitrons (TEP) mostram certa bilateralidade na execução de tarefas ligadas à
linguagem, indo de encontro ao que se observa majoritariamente por meio de exames com
pacientes lesionados ou em situações de anestesia hemisférica, como no teste de Wada.
Fonte: Shutterstock
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. A IDEIA DE HEMISFÉRIOS DOMINANTES NÃO É MAIS ACEITA DESDE
QUE SE ENTENDEU QUE OS HEMISFÉRIOS SE COMPLEMENTAM EM
FUNÇÕES, NÃO NECESSARIAMENTE EXECUTANDO AS MESMAS
/
AÇÕES, MAS ESPECIALIZANDO-SE. SOBRE A FALA E ESPECIALIZAÇÃO
HEMISFÉRICA, É POSSÍVEL AFIRMAR QUE:
A) O hemisfério esquerdo é o único responsável pela execução da fala.
B) Ambos os hemisférios estão envolvidos na construção da linguagem.
C) As comissuras permitem a comunicação entre neurônios do mesmo hemisfério.
D) Tanto em indivíduos destros quanto em indivíduos canhotos observa-se em igual proporção
a dominância do hemisfério esquerdo.
2. GRANDE PARTE DOS ESTUDOS QUE DERAM ORIGEM À ÁREA DE
NEUROCIÊNCIA DA LINGUAGEM ADVÉM DE PACIENTES COM LESÕES
ORIUNDAS DE CIRURGIAS OU LESÕES CAUSADAS POR ACIDENTES
VASCULARES QUE CULMINARAM EM AFASIAS ESPECÍFICAS.
ENTRETANTO, EMBORA NOS OFEREÇAM INFORMAÇÕES RELEVANTES
SOBRE FUNÇÕES COMPROMETIDAS A PARTIR DAS LESÕES, ALGUNS
DADOS CONTRAPÕEM TAIS ESTUDOS. ASSINALE A AFIRMATIVA
CORRETA SOBRE O ASSUNTO:
A) As afasias podem variar em sintomas devido ao tamanho e à região das lesões que as
geraram, trazendo alguns indícios de que as regiões definidas originalmente possuem limites
variáveis.
B) Apesar de as técnicas de imagem serem resultados mais específicos, a observação de
sintomas em afásicos traz mais detalhes sobre as áreas estudadas.
C) As áreas de Broca e Wernicke são específicas, respectivamente, no controle de
compreensão da linguagem e controle do aspecto motor da linguagem.
D) As lesões que resultam em afasias fornecem dados bastante acurados sobre a localização
dos circuitos referentes à formação de linguagem, tanto em compreensão quanto em resposta
motora.
GABARITO
1. A ideia de hemisférios dominantes não é mais aceita desde que se entendeu que os
hemisférios se complementam em funções, nãonecessariamente executando as
/
mesmas ações, mas especializando-se. Sobre a fala e especialização hemisférica, é
possível afirmar que:
A alternativa "B " está correta.
Apesar de a maioria das regiões designadas para a fala estarem localizadas no hemisfério
esquerdo, o conjunto de informações resultantes da fala inclui processamento linguístico do
hemisfério esquerdo, mas também processamento prosódico, o qual é resultado do hemisfério
direito.
2. Grande parte dos estudos que deram origem à área de Neurociência da Linguagem
advém de pacientes com lesões oriundas de cirurgias ou lesões causadas por acidentes
vasculares que culminaram em afasias específicas. Entretanto, embora nos ofereçam
informações relevantes sobre funções comprometidas a partir das lesões, alguns dados
contrapõem tais estudos. Assinale a afirmativa correta sobre o assunto:
A alternativa "A " está correta.
As lesões que ocasionam afasias são, normalmente, oriundas de AVCs, os quais podem variar
em extensão e fatores associados. Dessa maneira, os dados relacionados a tais condições
podem não ser exatamente específicos em termos de localização e função relacionada. Os
exames de imagens podem proporcionar mais dados associados, facilitando o estudo de tais
regiões no encéfalo.
MÓDULO 2
RECONHECER AS PRINCIPAIS FUNÇÕES
COGNITIVAS PROCESSADAS PELO CONTROLE EXECUTIVO,
DISCERNINDO A RELEVÂNCIA DE TAIS PROCESSOS NA
ADEQUAÇÃO DE RESPOSTAS AO AMBIENTE
CONTROLE EXECUTIVO
/
A IMPORTÂNCIA DAS FUNÇÕES EXECUTIVAS
Já parou para pensar sobre qual a Importância das funções executivas?
TODOS OS DIAS, EXECUTAMOS DIVERSAS
ATIVIDADES E RESPONDEMOS AO AMBIENTE
COM COMPORTAMENTOS NORMALMENTE
ADEQUADOS ÀS SITUAÇÕES. VAMOS AO
TRABALHO, À FACULDADE, DIRIGIMOS,
PEGAMOS TRANSPORTES, DEPARAMO-NOS
COM PESSOAS, POR VEZES DESCONHECIDAS,
E LIDAMOS COM SITUAÇÕES, ORA
CORRIQUEIRAS, ORA DESAFIADORAS
Em paralelo, para criar respostas adequadas aos estímulos, nosso encéfalo (composto por
cérebro, cerebelo, tronco encefálico), por meio de suas inúmeras e complexas conexões
neurais, processa tais estímulos e adiciona ainda componentes emocionais, memórias e outros
aspectos que compõem nossas reações.
Em outras palavras, nossas ações externalizadas são resultado de uma série de processos
executivos coordenados, ou seja, existe um comando executivo atuando a todo momento na
mediação de nossas respostas frente aos estímulos recebidos constantemente.
/
Fonte: Shutterstock
 Componentes do encéfalo.
POR EXEMPLO, IMAGINE-SE NA SEGUINTE
SITUAÇÃO:
Você está entrando em um restaurante para almoçar com seu chefe. Você nunca esteve nesse
restaurante; ainda assim, você sabe exatamente o que fazer. Você decide o prato que vai pedir
levando em consideração suas preferências alimentares, o custo-benefício de seu pedido e sua
dieta recém-iniciada.
Paralelamente, você está preocupado com as respostas que dará ao seu chefe, já que,
claramente, esse almoço é um teste. Você decide rapidamente quais informações dará e de
que maneira o fará utilizando a linguagem adequada à situação.
Com certeza, não trará à tona o atraso do mês anterior, a não ser que seu chefe aborde o
assunto. Você provavelmente não vai beber do copo dele nem dar uma garfada no risoto de
camarão que ele pediu. Também não contará piadas.
Por que trouxemos tal exemplo?
/
PORQUE, EMBORA PAREÇAM AÇÕES COMUNS,
PESSOAS COM DISFUNÇÕES EXECUTIVAS,
DEPENDENDO DA REGIÃO AFETADA, PODEM
TER DIFICULDADES PARA ATUAR EM TAL
SITUAÇÃO.
 ATENÇÃO
Na verdade, o domínio executivo permite que consigamos planejar, flexibilizar quando
necessário e autorregular nossos processos mentais e comportamentais.
O CASO PIONEIRO
O conceito de função executiva veio da percepção de que indivíduos com sérios problemas
comportamentais e de personalidade podem apresentar resultados normais (ou até superiores
em desempenho) em testes cognitivos padronizados.
É o caso de Phineas Gage, o indivíduo cujo acidente com uma barra de ferro modificou sua
vida e as pesquisas sobre o funcionamento do cérebro (na verdade, encéfalo).
/
Fonte: Wikipédia
 Simulação dos danos de conectividade e crânio de Phineas Gage
Em 1848, Gage, que trabalhava na construção de uma estrada de ferro nos Estados Unidos no
auge de seus 25 anos de idade, teve a cabeça atravessada de baixo para cima por uma barra
de ferro de 1m de comprimento e 30mm de diâmetro. Incrivelmente, foi levado com vida ao
hospital, onde detectou-se a perda de parte do lobo frontal esquerdo. Gage perdeu a visão e
ficou com o rosto paralisado no lado onde a barra o atingiu.
Embora suas funções cognitivas estivessem aparentemente intactas, Gage foi incapaz de
retornar ao trabalho devido a mudanças drásticas em seu comportamento. Dentre elas,
apresentava-se mais agressivo e menos respeitoso com quem interagisse, principalmente se
fosse contrariado. Passou parte de sua vida posterior ao acidente exibindo-se em circos com
sua barra de ferro. Faleceu junto à família de mal epiléptico.
O caso relatado nos mostra a importância da função executiva ou do controle executivo.
Phineas apresentou resultados adequados em testes padronizados de funções cognitivas
como memória, capacidade de realizar cálculos, além de testes relacionados à linguagem.
Entretanto, sua convivência em sociedade e a execução de seu trabalho foram afetados de
forma drástica por mudanças nas funções executivas.
Um dos axiomas da Neuropsicologia diz que o funcionamento executivo adequado gera
autonomia ao indivíduo em relação ao meio ambiente. Confira alguns aspectos importantes
desse tema:
 Clique nos itens a seguir.
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/
AUTONOMIA PERDIDA X LESÕES
AUTONOMIA PERDIDA X MEIO AMBIENTE
Nesse caso, quando a autonomia é perdida por lesões específicas em áreas relacionadas ao
controle executivo, perde-se parte da capacidade adaptativa ao ambiente.
A perda de autonomia em relação ao ambiente está relacionada ao fato de que os estímulos
externos, em situações onde a função executiva não está preservada, acabam por se tornar
prevalentes em relação às vontades e aos planejamentos do indivíduo.
AXIOMAS
Axioma, originário da Lógica, corresponde a uma sentença inicial ou fundamento de
alguma teoria sobre a qual se desenvolvem novos conceitos.
Para compreender essa relação entre autônima perdida e o meio ambiente é necessário
analisar um dos principais testes de função executiva:
Você conhece o teste de Stroop ou teste de interferência cor-palavra?
Neste teste, é pedido ao indivíduo que diga em voz alta, o mais rápido que conseguir, o nome
das cores de uma sequência dada (figura 10). No primeiro caso, o estímulo é a imagem de
círculos de cores diferentes. Na segunda etapa, ocorre o teste de interferência propriamente
dito. O estímulo, agora, consiste na mesma sequência de cores. Porém, em vez de círculos
coloridos, aparecem os nomes de cores impressos em cores incongruentes.
AGORA É COM VOCÊ! FAÇA O TESTE DE
STROOP!
Instrução: Você irá precisar de um marcador de tempo, um cronômetro para esse teste.
/
ETAPA 1:
Leia em voz alta, o mais rápido que conseguir, o nome das cores disponíveis na figura. Marque
o tempo que você gastou para realizar essa leitura.
/
ETAPA 2:
Leia em voz alta, o nome escrito das cores na figura. Marque, também, o tempo que você
gastou para realizar essa leitura.
 Teste de Stroop. À esquerda, prancha com estímulos de denominação de cores. À direita,
prancha com estímulos de interferência cor-palavra (os nomes são impressos em cores
incongruentes).
QUAL O TEMPO QUE VOCÊ GASTOU PARA
REALIZAR A LEITURA DE CADA TESTE?
Neste teste, com os tempos anotados em cada tarefa, verifica-se que pessoas cujas funções
executivas estão íntegras, ocorre uma diferença de, em média, dez segundos entre a primeira
etapa e a segunda.
Fonte: Shutterstock
No entanto, como tal teste comprova a integridade (ou não) das funções executivas? Entenda!
A leitura exerce certo predomínio sobre a denominação de cores em pessoas alfabetizadas.Dessa maneira, o estímulo sensorial da palavra escrita acaba sendo mais forte do que o
/
estímulo de denominação da cor impressa.
Para obter sucesso no teste, o indivíduo deve suprimir a tendência natural de ler a palavra
escrita, o que indica flexibilidade e autonomia sobre os estímulos ambientais.
Já os indivíduos que não possuem as funções executivas íntegras levam muito mais tempo
para executar a segunda parte do teste, pois tendem a verbalizar o nome da cor impressa.
COMPONENTES PREFERENCIAIS DAS
FUNÇÕES EXECUTIVAS
 Clique nas setas para ver o conteúdo.
Existem diversas abordagens ao se nomear as funções executivas (FE). É possível encontrar
listas extensas do que seriam ou são tais funções.
Porém, antes disso, é importante compreender que a ideia de controle executivo é algo maior,
por trás de funções cognitivas como a memória e a atenção, por exemplo.
/
Além disso, tal controle superior tem por objetivo, dependendo da situação, exercer um
direcionamento de nossas funções cognitivas.
Em outras palavras, existem funções cognitivas que nos permitem compreender o mundo, dar
atenção aos estímulos adequados e reagir a eles. Acima de tais funções, está o comando
executivo gerenciando como todas essas funções serão orquestradas a fim de retornar uma
ação adaptativa.
Apesar de ser possível encontrar listas com componentes distintos, entende-se que os
principais elementos de controle executivo são:
 Clique nos itens a seguir.
MEMÓRIA DE TRABALHO
FLEXIBILIZAÇÃO COGNITIVA
CONTROLE INIBITÓRIO
Esse tipo de memória gerencia a nossa capacidade de reter e manipular informações distintas
por curto espaço de tempo. Tal função permite que consigamos realizar tarefas sequenciais
com início, meio e fim, sem se perder em meio às informações. Indivíduos com lesões no
córtex pré-frontal podem apresentar distúrbios de memória de trabalho e, com isso, tornam-se
incapazes de ler um texto extenso ou cozinhar, por exemplo. Ao ler um texto, é necessário
memória de trabalho para que se possa lembrar do parágrafo anterior e dar sentido ao que se
está lendo. É esse tipo de memória que possibilita a realização de cálculos mentalmente e a
estruturação de pensamentos complexos que dependam de várias informações simultâneas.
Essa função executiva visa sustentar ou alternar atenção em resposta a diferentes demandas
ou, ainda, auxilia a aplicar diferentes regras a situações adequadas. Por exemplo, um indivíduo
faz seu caminho até a faculdade todos os dias. Entretanto, em um dia específico, pode ser que
ele necessite passar no banco antes de ir à faculdade e, assim, terá de modificar seu trajeto
habitual. Parece algo simples de se fazer, já que há um objetivo: passar no banco. Entretanto,
/
pessoas com lesões do córtex pré-frontal podem se mostrar incapazes de reorientar seus
trajetos, já que a “regra” original é manter o caminho até a faculdade diariamente.
É a habilidade utilizada no controle de nossos impulsos, a fim de que resistamos a distrações e
hábitos e consigamos parar antes de reagir. Esse tipo de controle permite a atenção seletiva e
sustentada, além da capacidade de priorizar tarefas a fim de alcançar objetivos pré-
estabelecidos. Está correlacionada diretamente aos processos de controle emocional.
Em resumo, o controle executivo é evocado quando é necessário suplantar respostas
prepotentes, ou seja, respostas habituais e que são mais fortes do que as novas ações
requeridas. Em outras palavras, as funções executivas são necessárias quando é preciso atuar
de forma contrária a um hábito fortemente adquirido.
HÁBITO FORTEMENTE ADQUIRIDO
Quando alguma ação é repetida por nós muitas vezes, cria-se um hábito.
Neurologicamente, isso significa que houve a criação de um circuito específico que se
repete em looping toda vez que um gatilho é apresentado. É o caso da mulher que, todo
dia, pontualmente às 15h, deixa sua mesa de trabalho e vai até a cantina do trabalho
comprar um bolo. Talvez ela nem esteja com fome, talvez esteja entediada, mas, para
quebrar a rotina, inseriu esse hábito. Logo, o gatilho, nesse caso, pode ser o tédio em
meio ao trabalho da tarde. Toda vez que esse gatilho se apresenta, a mulher associa a
ele uma ação, que, no caso, é a compra (e consequente ingestão) do bolo. Tal circuito é
quase automático, pois uma ação ou percepção leva à outra, e as respostas são quase
imediatas. Entretanto, caso ela resolva abandonar esse hábito, terá de utilizar suas
funções executivas para suplantar a vontade de obter recompensa imediata comendo o
doce.
 ATENÇÃO
O controle executivo atua de forma antagônica às formas automáticas de processamento.
Estas formas automáticas de processamento de estímulos exercem o controle bottom-up, ou
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/
seja, de baixo para cima, significando que os estímulos sensoriais (sentidos) e suas
associações criaram um hábito.
REDES EXECUTIVAS FRONTAIS:
ANATOMIA DAS FUNÇÕES EXECUTIVAS
Uma vez que entendemos que as funções executivas são vitais para a adaptação ao ambiente,
resta conhecer as regiões responsáveis por tal atuação.
Os primeiros indícios de localização de um sistema de controle executivo advêm de estudos
em lesões cerebrais que resultam em síndromes cognitivas peculiares, como as observadas no
caso de Phineas Gage. Tais síndromes levam a localizações que remetem às regiões de lobos
frontais.
Fonte: Shutterstock
 Lobos cerebrais
Durante algum tempo, entendeu-se que os lobos frontais eram o epicentro das funções
executivas, visto que alojam uma série de áreas importantes relacionadas a processos
cognitivos, como linguagem e áreas motoras, por exemplo. Entretanto, a maior parte das
síndromes que levam a disfunções de comportamento convergem para a região específica do
córtex pré-frontal (CPF).
/
Tal região é dividida em 3 partes: córtex dorsolateral, córtex orbitroventral e córtex frontomedial.
Fonte: Shutterstock
 Regiões do córtex pré-frontal
O córtex pré-frontal possui inúmeras conexões com áreas cerebrais. Compreenda mais
algumas:
O CPF possui grande número de conexões com áreas cerebrais que processam informações
externas, incluindo todos os sistemas sensoriais, além de áreas motoras corticais, assim como
/
informações internas das estruturas límbicas (centro da emoção) e mesoencefálicas.
Logo, o CPF exerce importante função ao processar inúmeras informações internas e externas
a fim de orientá-las no alcance de objetivos específicos.
Não basta ver, ouvir e compreender informações; elas precisam ser coordenadas para gerar
respostas adequadas.
/
Grande parte dos dados sobre o CPF advém, como dito anteriormente, de estudos em
pacientes com lesões da área. A seguir, descreveremos algumas das funções executivas
impactadas por danos no CPF.
Confira, então, alguns aspectos relacionados córtex pré-frontal:
CONTROLE INIBITÓRIO
Pacientes com danos no CPF podem apresentar um comportamento conhecido como
perseveração (ou perseverância), que consiste em manter comportamentos desencadeados
por estímulos sensoriais, mas sem dar a eles a devida adequação circunstancial. É o caso de
um indivíduo que, a cada vez que se depara com um copo de água, não resiste e toma todo o
líquido, mesmo sem saber a quem pertence.
PLANEJAMENTO
Mesmo quando lesões do CPF mantêm intactas as unidades básicas de comportamento, a
capacidade de organização pode ser perdida. Um indivíduo com lesões específicas no CPF
pode apresentar dificuldades em ordenar certos comportamentos, como, por exemplo, a
execução de uma receita.
AVALIAÇÃO DE CONSEQUÊNCIAS
Para gerar comportamentos direcionados a objetivos, é necessária a capacidade de avaliar as
consequências de diversas ações. Pacientes com lesões do CPF, especialmente na área
orbital, mostram-se incapazes de avaliar os prós e contras de suas ações, o que resulta em
/
decisões ruins em curto, médio e longo prazos. Pesquisas na área (DAMASIO, 1996)
mostraram que o córtex pré-frontal orbital é capaz de associar pistas afetivas àsdecisões a
serem tomadas, e tal associação emocional gera alto peso na tomada de decisões. Lesões
nessa área específica tornam indivíduos inaptos em vários testes simples de tomada de
decisão.
APRENDIZAGEM E UTILIZAÇÃO DE REGRAS
A habilidade de abstrair e generalizar regras é de extrema importância no contexto da
aprendizagem. Entretanto, quando se perde tal função executiva, o indivíduo perde a
capacidade de aplicar regras e moldá-las aos diferentes contextos. Nesses casos, a pessoa
terá de lidar com cada nova situação na base de erros e acertos, pois é incapaz de reutilizar e
adaptar regras aprendidas.
Como você pode observar com o vídeo, essas funções e habilidades são desenvolvidas no
Córtex pré-frontal, esse desempenha um papel relevante no controle executivo. Entretanto,
algumas síndromes chamadas disexecutivas foram associadas a regiões não frontais.
Vale destacar, que devido ao grande alcance de técnicas de imagem, é possível estabelecer
que tais síndromes causadas por lesões situadas fora dos lobos frontais, mas em regiões
ricamente associadas a eles por conexões podem ser diagnosticadas.
VOCÊ JÁ COMPREENDEU A IMPORTÂNCIA DO
CONTROLE EXECUTIVO EM NOSSA VIDA. NO
ENTANTO, A PERGUNTA NATURAL QUE
PODERIA SURGIR A PARTIR DE TAIS
CONHECIMENTOS É:
/
TODOS NASCEM COM A PLENITUDE DE SUAS
FUNÇÕES EXECUTIVAS?
A resposta para essa pergunta é não!
Mas, uma boa notícia é que tais funções e habilidades podem ser desenvolvidas ao longo da
vida, a partir dos estímulos corretos. Em parte, não nascemos com elas porque os lobos
frontais são os últimos a serem finalizados em termos de desenvolvimento cerebral. Por outro
lado, ao longo da vida, concomitantemente ao desenvolvimento de tais estruturas, temos
experiências e estímulos que auxiliam no desenvolvimento cada vez maior dessas habilidades,
como é possível observar no gráfico a seguir.
Fonte: Neurology, Weintraub e colaboradores, 2013.
 Curva de desenvolvimento de funções executivas
Como mostra o gráfico, as funções executivas começam a ser desenvolvidas logo após o
nascimento, com uma janela de oportunidade entre as idades de 3 e 5 anos. O crescimento em
tais habilidades continua até a adolescência e o início da fase adulta. A proficiência começa a
ocorrer em fases mais tardias da vida.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
/
1. AS FUNÇÕES EXECUTIVAS SÃO ESSENCIAIS PARA A ADAPTAÇÃO
DOS INDIVÍDUOS AO AMBIENTE E PERMITEM QUE AS RESPOSTAS E O
COMPORTAMENTO SEJAM ADEQUADOS ÀS DIFERENTES SITUAÇÕES.
APESAR DE EXISTIREM UMA SÉRIE DE FUNÇÕES CLASSIFICADAS
COMO EXECUTIVAS, O CONTROLE EXECUTIVO PODE SER ENTENDIDO
COMO:
A) Uma série de regiões cerebrais relacionadas ao comportamento em sociedade.
B) O controle inibitório exercido pelo córtex pré-frontal em quaisquer situações.
C) A coordenação de diversas funções cognitivas a fim de gerar respostas adaptadas ao
ambiente.
D) A função principal do córtex pré-frontal, a única estrutura envolvida no controle de funções
superiores.
2. DENTRE AS VÁRIAS FUNÇÕES EXECUTIVAS, UMA É
PARTICULARMENTE IMPORTANTE PARA QUE SE LEVE UMA VIDA
NORMAL EM TERMOS DE EXECUÇÃO DE TAREFAS ORGANIZADAS.
PACIENTES COM LESÕES NO CÓRTEX PRÉ-FRONTAL EM ÁREAS
ESPECÍFICAS PODEM ENCONTRAR DIFICULDADES EM LER TEXTOS,
ORGANIZAR TAREFAS E LEMBRAR-SE DE SUA ÚLTIMA REFEIÇÃO, POR
EXEMPLO. TAL FUNÇÃO EXECUTIVA ESTÁ RELACIONADA A:
A) Controle inibitório.
B) Planejamento.
C) Memória de trabalho.
D) Atenção.
GABARITO
1. As funções executivas são essenciais para a adaptação dos indivíduos ao ambiente e
permitem que as respostas e o comportamento sejam adequados às diferentes
situações. Apesar de existirem uma série de funções classificadas como executivas, o
controle executivo pode ser entendido como:
/
A alternativa "C " está correta.
As funções executivas são, na verdade, o gerenciamento cerebral das principais funções
cognitivas, e isso é feito por diversos circuitos. Dentre eles, alguns específicos envolvendo os
lobos frontais e as áreas não corticais associadas.
2. Dentre as várias funções executivas, uma é particularmente importante para que se
leve uma vida normal em termos de execução de tarefas organizadas. Pacientes com
lesões no córtex pré-frontal em áreas específicas podem encontrar dificuldades em ler
textos, organizar tarefas e lembrar-se de sua última refeição, por exemplo. Tal função
executiva está relacionada a:
A alternativa "C " está correta.
A Memória de trabalho é aquela que confere ao indivíduo a capacidade de reter, por curto
espaço de tempo, algumas informações a fim de manipulá-las em contextos distintos. A perda
de tal capacidade é extremamente limitante, impedindo que funções simples, como a leitura de
um texto ou a execução de tarefas ordenadas, sejam executadas.
MÓDULO 3
IDENTIFICAR A IMPORTÂNCIA DO PROCESSAMENTO
DE EMOÇÕES NA TOMADA DE DECISÕES,
A INFLUÊNCIA DOS ESTADOS MOTIVACIONAIS E OS LOCAIS
ENCEFÁLICOS RELACIONADOS AOS SENTIMENTOS
O QUE É EMOÇÃO?
/
Fonte: Shutterstock
É possível encontrar diversas definições de emoção, variando entre significados puramente
linguísticos e outros mais biológicos. Compreenda mais alguns aspectos:
 Clique nos itens a seguir.
BIOLÓGICO
PERCEPÇÃO
ESTADOS EMOCIONAIS
Do ponto de vista biológico, as emoções representam um conjunto de reações fisiológicas,
químicas e neurais que atuam como base para a organização de respostas comportamentais
correspondentes.
É importante compreender que as emoções são igualmente geradas e gerenciadas por
sistemas neurais, os quais são capazes de lidar não somente com as respostas dadas frente
às emoções, mas também com a percepção delas.
Outro aspecto importante é a adaptação que os estados emocionais configuram para a
sobrevivência da espécie. Sem as emoções, é muito difícil gerar respostas adequadas aos
diferentes estímulos.
Acompanhe um exemplo de como as emoções são essenciais em nosso dia a dia:
Imagine a seguinte situação:
Se um aluno perdesse a capacidade de se sentir triste após ser reprovado em uma prova,
talvez não mobilizasse esforços a fim de obter melhor nota no próximo exame. Em casos mais
drásticos, animais que não apresentam respostas comportamentais de medo quando
ameaçados por predadores terão poucas chances de sobrevivência.
/
Fonte: Shutterstock
CLASSIFICAÇÃO DAS EMOÇÕES HUMANAS
As emoções podem ser classificadas de três maneiras: emoções primárias; emoções
secundárias e emoções de fundo. As emoções primárias são inatas, ou seja, é comum a
todos os seres humanos, independentemente de fatores socioculturais.
Fonte: Shutterstock
/
O primeiro pesquisador a estudar o assunto foi ninguém menos que Charles Darwin. Ele
observou que algumas expressões emocionais eram similares em diferentes culturas.
Atualmente, os pensamentos de Darwin a respeito de emoções primárias foram corroborados
por pesquisadores, em especial Paul Ekman, da Universidade da Califórnia. Basicamente, o
consenso entre os pesquisadores da área reside nas seguintes emoções primárias: alegria,
tristeza, medo, nojo, raiva e surpresa.
Provavelmente consideradas inatas por serem indicadores de comportamentos de
sobrevivência conservados na espécie humana.
NA FIGURA É POSSÍVEL IDENTIFICAR
ALGUMAS EMOÇÕES PRIMÁRIAS. OBSERVE A
IMAGEM E TENTE PERCEBER AS SEGUINTES
EMOÇÕES: ALEGRIA, MEDO, SURPRESA, NOJO
E RAIVA.
CHARLES DARWIN
Charles Darwin (1809-1882) nasceu na Inglaterra e tem seu nome imediatamente ligado
à Teoria da Evolução, pelo lançamento de sua obra A origem das espécies. Originário de
família de cientistas, Darwin, após abandonar o curso de Medicina, viajou por vários
países (inclusive o Brasil), ainda na primeira metade do século XIX, a fim de coletar
informações sobre o que chamaria de “seleção natural das espécies”. Este conceito é a
base de sua obra.
PAUL EKMAN
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/
Paul Ekman um dos mais renomados psicólogos contemporâneos. Aprofundou e
sistematizou o estudo sobre expressões faciais humanas e criou um método para sua
identificação.Além de autor de muitos livros e largamente premiado, já prestou
consultoria para órgãos internacionais de investigação e até mesmo para series
televisivas, como Lie to me.
Fonte: Shutterstock
 Emoções primárias demonstradas por expressões faciais.
Seguem, então, alguns conceitos comuns utilizados na área de linguagem:
EMOÇÕES SECUNDÁRIAS
As emoções secundárias são aquelas relacionadas a fatores socioculturais e, portanto,
variam de um indivíduo para o outro, como, por exemplo, a vergonha. Determinado ato pode
ser vergonhoso para uns, mas não para outros, dependendo das crenças e dos costumes de
determinada sociedade, ou mesmo da formação pessoal do indivíduo.
EMOÇÕES DE FUNDO
Por fim, as emoções de fundo são aquelas relacionadas a estados de bem ou mal-estar, e
podem ser associadas à percepção de estados internos do indivíduo. Portanto, sua
classificação com as emoções não é consenso entre os pesquisadores. Um exemplo de
emoção de fundo seria uma percepção de falta de energia (não cansaço) por parte de alguém.
 ATENÇÃO
/
Não confundir expressão emocional e experiência emocional. Enquanto a experiência faz
referência aos estados emocionais que vivenciamos, como ansiedade, tristeza ou raiva, a
expressão está relacionada às mudanças fisiológicas resultantes da base neural das
emoções, como respostas hormonais, motoras e comportamentais.
AS TEORIAS SOBRE EMOÇÕES
Várias teorias foram postuladas sobre como as emoções são formadas e processadas.
Entretanto, duas teorias são de especial interesse, por serem, de certa forma, antagônicas,
apesar de não haver consenso no meio científico sobre qual se aplica à realidade de forma
plena. Uma dessas teorias é a dos pesquisadores William James e Carl Lange e foi proposta
em 1884.
Fonte: Shutterstock
WILLIAM JAMES
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/
William James (1842-1910) William James nasceu nos EUA. Sua formação foi na área de
Medicina, Psicologia e Filosofia. Apesar de sua contribuição à Psicologia, seu maior
destaque é com a teoria filosófica chamada Pragmatismo.
CARL LANGE
Carl Georg Lange (1834-1900) nasceu na Dinamarca e teve na Psicologia e Neurologia
suas maiores área de investigação. É também conhecido por seus estudos na área da
depressão e por sua relação com elementos biológicos.
Em outras palavras, segundo os autores, sentimos tristeza porque começamos a chorar;
sentimos felicidade porque sorrimos, e assim por diante.
Dessa maneira, a ideia central é a de que alterações de nossos estados corporais são capazes
de provocar emoções específicas. Segundo a teoria de James-Lange, a base das emoções
estaria na captação de estímulos emocionais, os quais seriam processados via córtex
sensorial, desencadeando respostas motoras específicas (riso, choro, taquicardia etc). Tais
mudanças seriam percebidas no córtex cerebral, provocando então a percepção da emoção
em si.
/
Fonte: Shutterstock
 Esquema da Teoria de James-Lange, reproduzido a partir do livro Neurociência da mente e
do comportamento.
Já no século XX, a teoria sofreu críticas frente a algumas constatações, como o fato de
algumas alterações corporais ocorrerem frente a emoções diferentes.
Por exemplo, como posso identificar corretamente o medo com base na taquicardia, se a
mesma também ocorre em situações de surpresa e até alegria? Um dos principais opositores
da Teoria de James-Lange foi o americano Walter Cannon. Ele propôs que, enquanto a
informação emocional é processada pelo encéfalo, são geradas respostas corporais e a
consciência da emoção simultaneamente.
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/
Fonte: Shutterstock
 Processamento das emoções segundo Walter Canon.
WALTER BRADFORD CANNON (1871-1945)
Médico de formação, dedicou-se a pesquisas na área dos sistemas nervoso e digestivo e
do comportamento do coração, por meio de investigações experimentais.
ONDE ESTÃO AS EMOÇÕES?
Após as teorias das emoções ganharem os pesquisadores da área, buscou-se procurar
efetivamente as áreas cerebrais responsáveis pelos fenômenos emocionais. Quem primeiro
postulou a localização de tais regiões foi o anatomista americano James Papez, trazendo a
público a ideia de sistemas e circuitos, e não somente áreas isoladas no cérebro.
As estruturas identificadas por Papez, em conjunto, ficaram conhecidas como Circuito de
Papez e incluíam o córtex cingulado, o hipocampo, o hipotálamo e os núcleos anteriores do
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/
tálamo.
 Estruturas relacionadas ao Circuito de Papez, posteriormente chamado de sistema límbico.
JAMES WENCESLAS PAPEZ (1883-1958)
Formado em Medicina, dedicou-se aos estudos da Neurologia, buscando novos conceitos
para explicar a emoção. Embora ele não tenha mencionado o lobo límbico de Broca,
outros pesquisadores observaram que seu circuito era muito semelhante ao grande lobo
límbico identificado por Paul Broca.
Apesar de alguns locais efetivamente serem importantes para os circuitos de emoção, outros
foram acrescentados posteriormente, como a amígdala, que desempenha papel fundamental
nas emoções negativas (como o medo e a raiva) e o córtex pré-frontal. Por sua vez, não há
evidências de que o hipocampo esteja envolvido na formação de emoções, apesar de participar
do processo de desenvolvimento de memórias, incluindo as emocionais.
A seguir, abordaremos as duas principais estruturas cujas funções estão consolidadas em
termos de gerenciamento das emoções: amígdala e córtex pré-frontal
/
 Estruturas modernas do sistema límbico
AMÍGDALA
A amígdala é uma estrutura localizada no polo do lobo temporal e recebe conexões de todas
as áreas sensoriais, com exceção do sistema olfatório, e conexões provenientes do neocórtex,
giros para-hipocampal e cingulado.
Ela também se conecta-se ao hipotálamo.
/
 Localização da amígdala nos dois hemisférios cerebrais
As amígdalas possuem uma função extremamente importante no desenvolvimento e nas
demonstrações das emoções. Por isso, conheça mais alguns aspectos importantes dessa área
cerebral:
 Clique nos itens a seguir.
ASPECTO 01
Sua função está ligada fortemente ao medo e à ansiedade. Estudos realizados com primatas
não humanos, cujas amígdalas eram lesionadas bilateralmente por medicamento,
demonstraram perda das respostas de medo. Os macacos ganharam docilidade e tenderam a
ignorar situações comuns de perigo. Era como se não temessem mais seus predadores ou
situações perigosas, chegando mesmo a manipular cobras sintéticas, por exemplo.
ASPECTO 02
Além de outras associações (como formação de memórias emocionais negativas), a amígdala
foi relacionada ainda ao fenômeno de formação do medo condicionado. Isso foi demonstrado,
entre outros experimentos, quando ratos eram expostos inicialmente a um breve estímulo
auditivo e pequenos choques. Após o condicionamento, apenas o estímulo auditivo era
suficiente para gerar ativação da amígdala e respostas de medo, como aumento da frequência
cardíaca, da pressão arterial e secreção de hormônios, como os glicocorticoides.
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/
ASPECTO 03
Logo, constatou-se que a amígdala exerce papel primordial em detectar ameaças do ambiente
e gerar os comportamentos adequados a elas. Lesões da amígdala levam à perda da
capacidade de reconhecer perigos e ameaças, o que pode ser prejudicial à sobrevivência,
deixando indivíduos sujeitos a situações reais de perigo.
CÓRTEX PRÉ-FRONTAL
O córtex pré-frontal corresponde à porção mais anterior do lobo frontal e pode ser dividido em
três regiões: orbitofrontal, ventromedial (relacionada à emoção) e dorsolateral (relacionada a
funções cognitivas).
 Localização das regiões ventromediais e orbitofrontais do córtex pré-frontal.
[...] OS ESTUDOS NESSA ÁREA INICIARAM-SE APÓS
O CLÁSSICO DE PHINEAS GAGE, MENCIONADO
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/
ANTERIORMENTE. PORÉM, O GRUPO DO
NEUROLOGISTA PORTUGUÊS ANTÔNIO DAMÁSIO
CONTRIBUIU BASTANTE PARA O ESTUDO DO
CÓRTEX PRÉ-FRONTAL. ELES IDENTIFICARAM UM
HOMEM CUJA PERDA DE PARTE DO CÓRTEX PRÉ-
FRONTAL SE DEUDEVIDO À RETIRADA CIRÚRGICA
DA REGIÃO EM TRATAMENTO, EM RAZÃO DE UM
TUMOR AGRESSIVO.
(DAMÁSIO, 1996)
ANTÓNIO ROSA DAMÁSIO (PORTUGAL, 1944)
Neurocientista português que tem como foco de seus estudos o cérebro humano e as
emoções. Sua maior e mais impactante contribuição ao campo da Psicologia foi mudar a
concepção que havia acerca da relação “razão x emoção”; quase subordinando a
primeira à segunda.
Nesse contexto, o homem também passou a apresentar condutas alteradas, principalmente no
que dizia respeito a julgamentos e tomadas de decisão, que eram constantemente
inapropriadas.
Você saia, que em testes realizados, puderam perceber que os indivíduos, a fim de tomares
decisões acertadas, além do componente racional, necessitam de uma espécie de antecipação
emocional, a qual pode gerar modificações fisiológicas que podem ser perceptíveis ou não
(como sudorese, taquicardia, entre outras).
TAL HIPÓTESE É DENOMINADA HIPÓTESE DO
MARCADOR SOMÁTICO E PROPÕE
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/
BASICAMENTE QUE, QUANDO ANTECIPAMOS
ALGUM TIPO DE EMOÇÃO, REGIÕES
ESPECÍFICAS DO CÉREBRO SÃO ATIVADAS
EXATAMENTE COMO SE ESTIVÉSSEMOS
VIVENCIANDO-A. DESSA MANEIRA, INDIVÍDUOS
COM LESÕES NO CÓRTEX PRÉ-FRONTAL
PERDEM A CAPACIDADE DE ANTECIPAR TAIS
ESTADOS, E ISSO OS LEVA A TOMAR
DECISÕES ERRÔNEAS.
MOTIVAÇÃO
Fonte: Shutterstock
Com certeza, você já ouviu, especialmente em ambiente educacional, alguém falar em
motivação. Porém, o que significa motivação para você?
Quando nos sentimos motivados, temos a tendência de realizar algo ou ir ao encontro de
alguma coisa. Não é basicamente essa a ideia que você tem?
/
 ATENÇÃO
Em Neurociências, podemos chamar tal fenômeno de estado motivacional. Tais estados
geram comportamentos motivados. Assim, a motivação está associada ao movimento. Por
exemplo, o estado motivacional de frio nos leva ao comportamento motivado de buscar
agasalho.
É muito comum associarmos motivação a questões emocionais, quase como se fosse uma
emoção por si só. Entretanto, quando tratamos de motivação e comportamentos motivados em
neurociências, estamos falando de questões que dizem respeito à adaptação e sobrevivência.
Basicamente, a regulação da motivação pode ser dividida em dois sistemas: sistema apetitivo
e sistema defensivo ou aversivo.
Fonte: Shutterstock
SISTEMA APETITIVO X SISTEMA DEFENSIVO
 Clique nas figuras abaixo para ver as informações.
/
Sistema apetitivo
Esse sistema está relacionado à sobrevida e procriação, portanto inclui estados motivacionais
de fome, sede, regulação da temperatura e sexo, por exemplo.
Sistema defensivo ou aversivo
Já o sistema defensivo está associado a situações de perigo e ameaça e, portanto, gera
comportamentos motivados de esquiva e fuga.
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/
No sistema apetitivo, existem órgãos importantes, como o hipotálamo, participando do
processo de controle de ingestão alimentar. Tal controle envolve a liberação de
neurotransmissores e hormônios, em um arranjo complexo a fim de manter a homeostasia.
Apesar de entendermos por que os organismos buscam comida, água, dentre outros fatores de
sobrevivência, ainda existe a dúvida sobre o que nos leva a determinados comportamentos
geradores de prazer, como comprar, jogar, dentre inúmeras outras atividades.
A resposta reside na obtenção de recompensa; dessa forma, muitos dos comportamentos
podem ser motivados por recompensas que não necessariamente têm a ver com a
manutenção da espécie no planeta, mas, sim, com a busca pela sensação de prazer.
HOMEOSTASIA
O conceito de homeostase foi desenvolvido por Walter Cannon [já citado anteriormente].
Ele realizou trabalhos em fisiologia experimental, denominando homeostase como o
princípio de “meio interno em que o sangue e os demais fluidos que circundam as células
constituem o meio interno com o qual ocorrem as trocas diretas de cada célula e, por
isso, deve ser mantido sempre com parâmetros adequados à função celular,
independentemente das mudanças que possam estar ocorrendo no ambiente externo”.
Assim, propôs que a função final de todos os mecanismos fisiológicos é a manutenção da
homeostase, que deve ser compreendida como “a manutenção da estabilidade do meio
interno”. (SOUSA; SILVA; GALVÃO-COELHO, 2015)
REFORÇO E RECOMPENSA
Como os pesquisadores conseguem estudar motivação e comportamentos motivados em
animais? Utilizando técnicas de autoestimulação elétrica.
Em experimentos clássicos da década de 1950, no Instituto de Tecnologia da Califórnia,
posicionaram um rato em uma caixa com uma alavanca.
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/
Quando pressionada a alavanca, um breve estímulo era acionado por meio de eletrodos
colocados em regiões específicas do encéfalo do animal. Inicialmente, o rato pressionava a
alavanca de maneira randômica, porém, depois de um tempo, o animal permanecia próximo,
pressionando-a incessantemente, a ponto de evitar água e comida.
Fonte: Shutterstock
 Autoestimulação elétrica.
Por esses experimentos, entendemos que a recompensa (no caso, o estímulo elétrico em
regiões específicas) reforçava o comportamento de puxar a alavanca. Por que comemos?
Porque o ato de comer nos reforça o comportamento de buscar comida, já que o alimento é
necessário para a sobrevivência.
A região e os circuitos que configuram as vias de recompensa e reforço estão associados às
fibras liberadoras de dopamina (neurotransmissor), originárias da área tegmentar ventral e se
projetam para o prosencéfalo.
/
 Sistema dopaminérgico mesocorticolimbico
Os experimentos demarcaram um momento marcante para identificação das emoções e como
elas estão associadas ao cérebro. Compreenda mais alguns aspectos:
 Clique nas setas para ver o conteúdo.
/
No mesmo modelo de experimento citado anteriormente, os pesquisadores injetaram drogas
bloqueadoras de receptores dopaminérgicos, ou seja, impediram a atuação da dopamina,
causando diminuição na autoestimulação.
Esses experimentos sugerem fortemente que há reforço de certos comportamentos associados
a recompensas naturais, como água e alimentos. Interessante frisar que áreas dopaminérgicas
cerebrais são ativadas em antecipação à recompensa propriamente dita.
É o que ocorre quando vemos o garçom vindo em nossa direção com o prato que escolhemos.
O cérebro percebe o que está por vir e já ativa áreas relacionadas à recompensa em si.
Uma dúvida recorrente quando o assunto é o sistema de reforço e recompensa é a seguinte:
como se estabelecem os vícios? Basicamente, em situações nas quais buscamos avidamente
por uma recompensa de forma incessante e repetitiva, a fim de obter o que a Neurociência
chama de resposta hedônica (prazer).
Podemos utilizar como exemplo a nicotina para explicar o processo que se forma no cérebro.
Este composto, presente em altas doses no cigarro, atua diretamente nos circuitos encefálicos
de motivação de comportamento. Logo, a ligação da nicotina a seus receptores em neurônios
dopaminérgicos estimula a liberação da dopamina em tais circuitos, reforçando o
comportamento pela busca da droga.
/
O problema de tal reforço comportamental (além dos malefícios da própria nicotina em si em
outras regiões do organismo) é o efeito de tolerância. Tal efeito se dá como ajuste para a
estimulação acentuada frente ao uso crônico da substância, fazendo com que a resposta à
nicotina diminua. Para obter os mesmos efeitos, serão necessárias, daí por diante, doses cada
vez maiores da droga.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. SEGUNDO A TEORIA DE JAMES-LANGE, AS SENSAÇÕES
PERIFÉRICAS NOS FORNECEM SUBSTRATO PARA AS EMOÇÕES;
LOGO, SENTIMOS TRISTEZA PORQUE CHORAMOS, E ASSIM POR
DIANTE. APESAR DE DESACREDITADA DURANTE UM TEMPO, A IDEIA
ORIGINAL RESSURGIU COM O ADVENTO DA TEORIA DO MARCADOR
SOMÁTICO, DE ANTÔNIO DAMÁSIO. DE QUE MANEIRA SE DÁ TAL
ASSOCIAÇÃO?
A) Segundo a Teoria do Marcador Somático, os indivíduos necessitam do componente
emocional para a tomada de decisão em maior proporção do que a análise racional de fatos.
B) Segundo Damásio,a percepção de fatores somáticos corporais afetaria de forma negativa a
percepção de informações cognitivas, o que levaria a decisões ruins.
C) A antecipação emocional que se dá via marcadores somáticos oferece pistas importantes na
tomada de decisão quando analisadas com fatos.
D) Damásio sugere que as emoções são afetadas diretamente pelas reações corporais que
temos frente às situações cotidianas; dessa maneira, a Teoria de James-Lange é corroborada
/
por completo.
2. OS COMPORTAMENTOS MOTIVADOS SÃO FREQUENTEMENTE
DESENCADEADOS POR ESTADOS MOTIVACIONAIS INTERNOS. DESSA
MANEIRA, A PERCEPÇÃO DE SENSAÇÕES E MODIFICAÇÕES
SOMÁTICAS SE TRADUZ EM COMPORTAMENTO ESPECÍFICO, O QUE
NOS LEVA À BUSCA POR RECOMPENSAS. QUANDO OBTEMOS A
RECOMPENSA, ACIONAMOS CIRCUITOS CONHECIDOS, QUE, EM
CONTRAPARTIDA, REFORÇAM TAIS AÇÕES. FOI DEMONSTRADO QUE,
ANTES MESMO DE TERMOS A RECOMPENSA EM MÃOS, ÁREAS DO
CÉREBRO JÁ SE ENCONTRAM ATIVAS, COMO SE ESTIVÉSSEMOS
REALMENTE VIVENCIANDO O PROCESSO. DENTRE AS SITUAÇÕES A
SEGUIR, QUAL NÃO SE RELACIONA COM A GERAÇÃO DE REFORÇO
POSITIVO?
A) Ingerir alimento saboroso.
B) Beber água gelada no calor.
C) Vestir um casaco em situação de frio.
D) Fugir de situação potencialmente perigosa.
GABARITO
1. Segundo a Teoria de James-Lange, as sensações periféricas nos fornecem substrato
para as emoções; logo, sentimos tristeza porque choramos, e assim por diante. Apesar
de desacreditada durante um tempo, a ideia original ressurgiu com o advento da Teoria
do Marcador Somático, de Antônio Damásio. De que maneira se dá tal associação?
A alternativa "C " está correta.
Segundo a Teoria do Marcador Somático, as modificações somáticas que nos acometem, ainda
que imperceptíveis, atuam como direcionadores na tomada de decisão. Dessa forma,
corrobora, em certo aspecto, com a ideia de que sistemas periféricos têm influência na maneira
como sentimos. Entretanto, Damásio deixa claro que não há necessidade de que tais
alterações sejam processadas conscientemente.
/
2. Os comportamentos motivados são frequentemente desencadeados por estados
motivacionais internos. Dessa maneira, a percepção de sensações e modificações
somáticas se traduz em comportamento específico, o que nos leva à busca por
recompensas. Quando obtemos a recompensa, acionamos circuitos conhecidos, que,
em contrapartida, reforçam tais ações. Foi demonstrado que, antes mesmo de termos a
recompensa em mãos, áreas do cérebro já se encontram ativas, como se estivéssemos
realmente vivenciando o processo. Dentre as situações a seguir, qual NÃO se relaciona
com a geração de reforço positivo?
A alternativa "D " está correta.
O enunciado da questão já nos dá pistas de que, ao falarmos de reforço positivo, estamos nos
referindo ao reforço relacionado à recompensa, como estudamos nesse módulo. A situação de
fugir de uma situação potencialmente perigosa não se enquadra nesse processo,
especialmente porque a ação do indivíduo não provém de uma experiência de recompensa,
mas, sim, de aversão.
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao chegarmos ao fim deste tema, esperamos que você tenha percebido a importância de
reconhecer que, como humanos, somos seres extremamente complexos e que até mesmo
atitudes mais simples – como observar uma paisagem, cantarolar uma música, decidir se
ignoro ou reajo a uma provocação – são fundamentadas por bases neurais, que também são
complexas.
No entanto, outro ponto merece destaque: esse conhecimento, especialmente acerca da
linguagem, das funções executivas, da emoção, deve levar-nos a tomar consciência daquilo
que nos define como espécie. Isso permite que compreendamos como as respostas que
damos a situações cotidianas são padronizadas, do ponto de vista neurológico. Ao mesmo
tempo, tal como o próprio desenvolvimento do cérebro se deu por adaptações, como vimos,
cada indivíduo também é capaz de adaptar-se às circunstâncias que o envolvem, até mesmo
em situações limites (como no caso de Phineas Gage). Isso caracteriza a importância do
indivíduo, inclusive no contexto da espécie.
/
É exatamente aqui que gostaríamos que você percebesse a importância de, cada vez mais,
conhecer e se aprofundar no fantástico mundo da mente humana. Aproveite cada indicação
feita no Explore + e nas referências a seguir.
REFERÊNCIAS
BEAR, M.; CONNORS, B.; PARADISO, M. Neurociências: Desvendando o sistema
nervoso. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, 2006.
CENTER ON THE DEVELOPING CHILD AT HARVARD UNIVERSITY. How Early Experiences
Shape the Development of Executive Function. 2011.
CENTER ON THE DEVELOPING CHILD AT HARVARD UNIVERSITY. How Early Experiences
Shape the Development of Executive Function. 2012.
DAMASIO, A. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo:
Companhia das Letras, 1996.
MARCHETTI, P. et al. Influência da lateralidade nas assimetrias morfológicas e funcionais em
indivíduos sedentários. Revista Brasileira de Ciências da Saúde, ano VII, nº 22, out/dez
2009. p. 08-14.
SOUSA, M.; SILVA, H.; GALVÃO-COELHO, N. Resposta ao estresse I: homeostase e a teoria
da alostase. Estudos de Psicologia. Vol. 20, no.1, Natal, jan/mar 2015.
WEINTRAUB, S. Cognition Assessment Using the NIH Toolbox. Neurology, 80 (Suppl 3),
March 12, 2013.
/
EXPLORE+
Confira o artigo: Influência da lateralidade nas assimetrias morfológicas e funcionais
em indivíduos sedentários.
Consulto o Jornal de Pediatria da Sociedade Brasileira de Pediatria ele é uma
excelente fonte de artigos sobre bases neurobiológicas dos distúrbios de linguagem.
A Universidade de Harvard disponibiliza em seu site excelentes materiais sobre as
funções executivas. Um deles é o guia absolutamente completo sobre o desenvolvimento
de funções executivas desde a infância até a fase adulta e sobre como desenvolvê-las de
forma contínua (material disponível em inglês). Vale a pena conferir.
Pesquise sobre o Dr. António Damásio que é uma referência no âmbito do
processamento das emoções pelo cérebro. É possível encontrar vídeos deles em
plataformas como Youtube. Vale a pena ouvi-lo.
CONTEUDISTA
Virgínia Baptista Chaves Duarte de Lima
 CURRÍCULO LATTES
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/
DEFINIÇÃO
Conceito de sensação, atenção e memória. Apresentação da neurociência do processo sensoperceptivo
e da integração sensório-motora, bem como do processo sensório-motor, das teorias e funções do
processo atencional, da neurociência da atenção e do processo mnemônico.
PROPÓSITO
Compreender os processos cognitivos sensação, atenção, memória e a integração sensório-motora
desde suas definições, teorias subjacentes e funções aos substratos neurais relacionados a elas.
PREPARAÇÃO
Para um melhor aproveitamento deste tema, você pode utilizar um modelo físico ou 3D do cérebro.
Ainda, pode se valer de sites ou aplicativos para recorrer a modelos 3D virtuais. Recomenda-se que
você esteja familiarizado com noções básicas de Neurociências; em especial, Neurociência Cognitiva.
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OBJETIVOS
MÓDULO 1
Identificar os substratos neurais subjacentes ao processo sensoperceptivo e atencional
MÓDULO 2
Identificar os substratos neurais subjacentes ao processo mnemônico e sensório-motor
INTRODUÇÃO
Neste tema, exploraremos três funções cognitivas (sensopercepção, atenção e memória) e abordaremos
a integração sensório-motora, função executada pelo sistema nervoso (SN). Conheceremos essas
diferentes funções e as relacionaremos com áreas específicas do SN. Vamos, agora, identificar os
conceitos fundamentais para a compreensão dessas funções. Mas, para isso, cabe ressaltar dois
importantes pontos:
Ponto 1
As funções cognitivas somente são separadas com fins didáticos, uma vez que, no mundo concreto,
atuam de forma integrada. Sob coordenação das funções executivas, o indivíduo, ativado por uma
emoção, motiva-se na direção de focar a atenção em determinado estímulo, que será processado pela
sensopercepção, gerando o traço necessário para a memória e o consequente aprendizado. É o que
está representado na figura 1.
Ponto 2O desenvolvimento das estruturas do SN subjacentes a cada uma das funções cognitivas tem
correlação direta com o desempenho do sujeito naquela função específica, uma vez que cada avanço no
substrato neurobiológico subjacente (aumento do número de neurônios, ou de sinapses, ou mesmo o
fortalecimento das redes) representa também um ganho funcional. Assim, é esperado que indivíduos de
diferentes idades e perfis de estimulação tenham desempenhos funcionais também diferentes.
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SENSOPERCEPÇÃO
Não se preocupe com esse termo novo. Logo você vai compreendê-lo!
Fonte: Autor.
 Figura 1 - Integração das funções cognitivas.
MÓDULO 1
 Identificar os substratos neurais subjacentes ao processo sensoperceptivo e atencional
Preste atenção ao seu ambiente neste momento. Volte-se para o seu ambiente externo e interno. Você
consegue perceber diferentes cores, brilhos, movimentos, sons, o toque do seu corpo na cadeira, nas
roupas, no seu sapato, a temperatura das superfícies que toca, do ar, eventuais cheiros, perfumes,
sabores.
Só podemos ter a sensação de nosso ambiente porque uma linha de processamento neural está
funcionando de forma integrada e coordenada. Em especial porque o nosso cérebro – principal órgão do
sistema nervoso central (SNC) e responsável pela compreensão do que sentimos em uma percepção –
está íntegro!
SENSAÇÃO: DEFINIÇÃO
Para definirmos o que é sensação, vamos recordar uma questão filosófica que está proposta na
atividade de reflexão a seguir:
Se uma mulher fala em uma sala e não há homem algum para ouvi-la, ainda assim ela está certa?
/
RESPOSTA
Essa ironia nasceu de uma velha charada: Se uma árvore cai na floresta e não há ninguém para ouvir,
ainda sim ela produz som? E é assim que Sternberg (2008) começa sua apresentação acerca da
sensação. E mostra que, diferentemente do que se tem no senso comum, na área das neurociências
cognitivas, o termo sensação se reduz à mera resposta relacionada aos nossos sentidos: visão, audição,
tato, olfato e paladar. Ou seja: é a capacidade que nosso corpo tem de receber os estímulos do meio externo
e permitir (através de células receptoras) que sejam compreendidos pelos neurônios. Portanto, voltando à
charada, antes que aconteça a sensação, há o mundo externo (a árvore que cai e produz o som, por
exemplo) que será captado pelos sentidos.
NEUROCIÊNCIA DO PROCESSO
SENSOPERCEPTIVO
Nosso aparato sensorial é formado pelos órgãos sensoriais (olhos, ouvidos, pele, língua, nariz), os
nervos (que levam as informações dos órgãos dos sentidos até o SNC) e o córtex cerebral (onde o
estímulo será processado em diferentes áreas a depender da modalidade sensorial: visual, tátil etc.). No
cérebro, as informações sensoriais se conjugam numa percepção.
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Fonte: dmitroscope/Shutterstock
 SAIBA MAIS
Segundo Lent (2008), diferentemente de sua definição no senso comum, as percepções para as
neurociências cognitivas são aqueles produtos da sensação (ou seja, proveniente dos sentidos). Por
esse motivo, está cada vez mais frequente na literatura da área a grafia sensopercepção, já que se
trata de um processo intrinsecamente integrado
Quando vemos um objeto (uma bola vermelha, por exemplo), neurônios sensoriais em nossa retina
realizam a transdução das ondas luminosas em impulsos nervosos, que seguem pelo nervo óptico até
núcleos específicos do tálamo, uma estrutura dupla (ou seja, presente nos dois hemisférios cerebrais),
conforme indica a figura 2:
TRANSDUÇÃO
Na linguagem das ciências biológicas e afins, chama-se transdução quando um tipo de sinal é
transformado em outro a fim de cumprir determinada finalidade. No exemplo dado, as ondas
luminosas sofrem transdução para impulsos nervosos.
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Fonte: decade3d - anatomy online/Shutterstock
 Figura 2 - Tálamo (em amarelo).
O tálamo, então, encaminha os impulsos visuais até as áreas sensoriais primárias (no exemplo, área
visual primária, no córtex occipital). Na área visual primária, haverá apenas o processamento da cor e do
formato; e separadamente. Em seguida, o estímulo será encaminhado para processamento nas áreas
secundárias (no exemplo, área visual secundária, ainda no córtex occipital) e nas áreas de associação
multimodais (junção têmporo-parieto-occipital), onde será formada a percepção do objeto visto como
um todo, a fim de ser reconhecido como uma “bola vermelha”.
Vale ressaltar que os estímulos sensoriais seguem este padrão:
JUNÇÃO TÊMPORO-PARIETO-OCCIPITAL
Não se preocupe!
Você entenderá o que isso significa ainda neste tema!
ÓRGÃO SENSORIAL

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TÁLAMO

CÓRTICES
Com exceção dos estímulos sensoriais olfativos, que não passam pelo tálamo e são enviados do bulbo
olfatório diretamente para o córtex cerebral.
PROCESSAMENTO CONTRALATERAL
Um ponto curioso e relevante sobre a sensopercepção é que ela é processada no córtex contralateral
ao estímulo. Isso significa que os estímulos percebidos no lado esquerdo do corpo são processados nas
estruturas cerebrais do lado direito e vice-versa. Isso se dá porque as fibras neurais se cruzam no nível
da ponte (estrutura componente do tronco cerebral): os prolongamentos do córtex cerebral direito
cruzam na ponte e passam a enervar o lado esquerdo do corpo e vice-versa. É importante citar que
essas vias são:
AFERENTES
Levam comandos do SNC até a periferia. Isso é relevante para o comportamento motor (como veremos
mais à frente neste tema).
EFERENTES
Carregam informações sensoriais da periferia até o SNC. Isso é de especial relevância para a
sensopercepção.
Segundo Thompson (2005), é provável que essa característica tenha sido adaptativa em algum
momento da evolução das espécies. Assim, espera-se que lesões cerebrais em um dos hemisférios
produzam efeitos (sensoriais e motores) no lado contralateral do corpo.
ÁREAS FUNCIONAIS – CÓRTICES PRIMÁRIO E
SECUNDÁRIO E CÓRTEX ASSOCIATIVO
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Para ser percebido, um estímulo é processado em diferentes áreas do SNC. Essas áreas, de acordo
com Fuentes et al. (2008), são organizadas hierarquicamente e ficaram conhecidas como unidades
funcionais, proposta de Alexander Luria, um dos pesquisadores mais proeminentes da
Neuropsicologia. Luria formulou uma compreensão de que o córtex está organizado nas seguintes
unidades funcionais:
Fonte: Wikimedia
ALEXANDER LURIA
Alexander Romanovich Luria (1902-1977) foi um psicólogo soviético, considerado o pai da
Neuropsicologia moderna, sendo inclusive o criador desse termo. Embora a ideia original de
sistema funcional seja de outro conterrâneo seu, Pyotr Kuzmicj Anokhin (1898-1974), Luria
conseguiu ampliá-la, aplicando-a ao sistema nervoso central humano.
Fonte: Kruszielski (s.d.)
ÁREAS BÁSICAS E UNOMODAIS
Como as áreas visuais primárias do córtex occipital e as áreas motoras primárias do giro pré-central do
córtex frontal, por exemplo, que lidam apenas com uma modalidade sensorial. Nesse caso, a visual e a
auditiva, respectivamente.
ÁREAS SECUNDÁRIAS
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Como as áreas associativas visuais, que nos permitem a compreensão perceptual, com mais sentido,
dos estímulos visuais.
ÁREAS TERCIÁRIAS
Como as áreas de associação multimodais, que integram e processam diversas modalidades sensoriais
para criar uma percepção completa do estímulo que ao mesmo tempo seja visual, espacial, auditivo e
mnemônico. São exemplos a junção têmporo-parieto-occipital e o córtex pré-frontal (CPF).
Nota: Mnemônico é referente à memória (do grego mnémé).
Na figura 3, vemos algumas das mais relevantes áreas do córtex cerebral.
Fonte: Ciências e Cognição.
 Figura 3 - Divisão do encéfalo de acordo com seus córtices funcionais.
NO PROCESSO DE PERCEPÇÃO, O ESTÍMULO TRAFEGA
DAS ÁREAS FUNCIONAIS PRIMÁRIAS (CÓRTEX
SENSORIAL UNIMODAL) PARA AS SECUNDÁRIAS E
FINALMENTE PARA AS DE ASSOCIAÇÃO (TERCIÁRIAS).
ESSE CAMINHO É CONHECIDO COMO PROCESSAMENTO
BOTTOM-UP (DE BAIXO PARA CIMA).
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(MATLIN, 2004)
SOMATOTOPIA
Os estímulos sensoriais táteissão processados no córtex sensorial primário, localizado no giro pós-
central, no lobo parietal, como mostra a figura 4:
Fonte: Baseado em Lent (2008) e Thompson (2005).
 Figura 4 - Córtex sensorial primário.
Perceba que essa região apresenta uma organização topográfica, em que cada parte do corpo é
processada por uma sub-região de neurônios nesse giro em torno do cérebro. Assim, com estudos de
neuroanatomia funcional, foi possível conhecer esse mapa, que relaciona áreas do corpo a áreas
cerebrais responsáveis por seu processamento.
 SAIBA MAIS
A extensão cortical da área não guarda correspondência com a extensão anatômica da parte do corpo, e
sim com sua importância. Por exemplo: as áreas sensoriais corticais dos lábios e dedos das mãos são
maiores do que as das costas ou pernas, mesmo que estas últimas sejam bem maiores no corpo que as
primeiras.
LESÕES CEREBRAIS E DEFICIÊNCIAS NO
PROCESSAMENTO SENSOPERCEPTIVO
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Reconhecendo que a topografia cerebral é relevante para a construção dos estímulos sensoriais, é
possível compreender que lesões em diferentes regiões componentes do caminho da informação
acarretam sintomatologias diversas.
A tabela 1 apresenta os quadros patológicos mais frequentes quando se trata de lesões adquiridas em
diferentes áreas do SN responsáveis pela sensopercepção. Note que os lobos mais importantes para
essa função cognitiva são o occipital, o temporal e o parietal.
Lobo de
localização
da lesão
Área funcional Efeitos
Nome da
disfunção
Occipital
Córtex visual
primário
Incapacidade de receber
informação visual e perda
de visão
Cegueira cortical
Córtex visual
secundário
Incapacidade de
reconhecer e de identificar
visualmente objetos
Agnosia visual
Incapacidade de
compreender os sinais
gráficos da escrita
Cegueira verbal
ou alexia
Temporal
Córtex auditivo
primário
Incapacidade de receber
informação sonora e perda
de audição
Surdez cortical
Córtex auditivo
secundário
Incapacidade de
reconhecer e de identificar
sons vulgares
Agnosia auditiva
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/
Incapacidade de
interpretar o significado do
discurso oral
Surdez verbal
Parietal
Córtex
somatossensorial
primário
Incapacidade de receber
informação sensorial e
perda da sensorial tátil,
térmica e álgica (ligada à
dor)
Anestesia
cortical
Córtex
somatossensorial
secundário
Incapacidade de
reconhecer um objeto pelo
tato e de localizar
sensações táteis e
térmicas do corpo
Agnosia
somatossensorial
ou
assomatognosia
Tabela 1 – Disfunções da sensopercepção mais frequentes por lesões adquiridas. 
Fonte: Brandão (2004); Fuentes et al. (2008); Lent (2008); Sohlberg e Mateer (2011).
SINTOMATOLOGIAS
Na linguagem das Ciências Biológicas e na forma como utilizada aqui, significa conjuntos de
sintomas de doenças.
Ainda sobre a integração do processo entre sensação e percepção (sensopercepção), um conceito
importante é o de contínuo perceptivo:
/
(...) DEVERÍAMOS VER ESSES PROCESSOS COMO PARTE
DE UM CONTÍNUO. A INFORMAÇÃO FLUI PELO SISTEMA. A
PERCEPÇÃO ACONTECE À MEDIDA QUE OBJETOS DO
AMBIENTE COMUNICAM ESTRUTURA DO MEIO
INFORMACIONAL [EXTERNO] QUE, AO FINAL, CHEGAM A
NOSSOS RECEPTORES SENSORIAIS, LEVANDO À
IDENTIFICAÇÃO INTERNA DE OBJETOS.
(STERNBERG, 2008)
Juntamente com a compreensão do contínuo perceptivo, outro conceito complementar é o de adaptação
sensorial. De acordo com Sternberg (2008), as células receptoras estão em constante adaptação à
estimulação recebida pelos sentidos. Isso nos permite parar de detectar a presença de um estímulo e
detectar outro, alterando assim nossa sensopercepção.
A PARTICIPAÇÃO DO INDIVÍDUO NO PROCESSO
PERCEPTIVO
Uma série de estudos em Psicologia Cognitiva defende a participação colaborativa do conhecimento
prévio do indivíduo na formação de um percepto. Desde os estudos da Psicologia da Gestalt, o enfoque
dado à percepção da forma baseava-se na noção de que o todo difere da soma de suas partes. Essa
abordagem mostrou-se útil particularmente para entender como são percebidos os grupos de objetos ou
mesmo as partes de objetos para formar todos integrais: tendemos a perceber uma configuração visual
apenas como uma organização dos elementos distintos em uma forma coerente e estável.
O observador atribui certa parte sobre as sensações que esteja experimentando, contribuindo
ativamente para o processo de perceber e, assim, de compreender e aprender sobre o mundo ao seu
redor. Segundo Sohlberg e Mateer (2011), esse tópico é de especial interesse para educadores e
profissionais das áreas de Psicologia e outras modalidades de habilitação e reabilitação
neuropsicológica cognitiva.
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Fonte: Generation/Shutterstock
PERCEPTO
De acordo com Sternberg (2008), é a representação mental de um estímulo percebido. Para uma
revisão aprofundada sobre a participação do indivíduo no processo perceptivo, consulte essa obra.
Lá também encontrará mais dados sobre a Psicologia da Gestalt.
A ATENÇÃO
A atenção é um dos temas mais intrigantes e populares da Neuropsicologia na atualidade. Diante da
enorme quantidade de estímulos que recebemos em nossas mais diversas atividades, manter a atenção
por longos períodos e em mais de uma atividade tem sido cada vez mais requerido.
As funções cognitivas não são estanques; acontece o mesmo com a sensopercepção e a atenção:
ambos os processos funcionam coordenadamente; só podemos perceber ao que estamos atentos, mas,
do mesmo modo, um estímulo sensorial de relevância pode capturar nossa atenção.
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Fonte: ESB Professional/Shutterstock
ATENÇÃO: DEFINIÇÃO
Vamos iniciar este assunto fazendo um exercício. Está pronto?
Experimente focar a sua atenção nos estímulos visuais no seu entorno; ao mesmo tempo, preste
atenção às sensações táteis que vêm do contato do seu corpo com as roupas e a cadeira; agora, ao
mesmo tempo, procure perceber se há algum odor adocicado ao seu redor. E ainda junte a isso tudo
prestar sua atenção aos estímulos sonoros. Tudo ao mesmo tempo! Descreva como foi essa
experiência.
RESPOSTA
Foi possível prestar atenção em todos? Ou você sentiu a sua atenção “pular” de um estímulo a outro? Esse
exercício nos dá muitas pistas de como opera essa função cognitiva.
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A atenção inclui a concentração de atividade mental que permite selecionar alguns aspectos do mundo
sensorial de maneira eficiente, enquanto outros aspectos (fora da atenção) não são processados em
detalhes. A atenção, portanto, é um processo que exige de nós uma percepção direcionada, durante certo
tempo. Como você identificou, é nossa capacidade de concentrar os processos mentais em somente uma
tarefa, reduzindo o foco nas demais.
O PROCESSO ATENCIONAL – TEORIAS E FUNÇÕES
De acordo com Matlin (2004), pode-se considerar dois aspectos principais da atenção:
ALERTA
Estado geral de sensibilização, relacionado à vigília e consciência.
FOCALIZAÇÃO
Quando a atenção está sobre certos estímulos do ambiente interno (neurobiológicos) ou externo do
indivíduo.
Veremos mais adiante que os diferentes aspectos da atenção têm processamento em áreas diferentes
do SNC.
O exercício anterior também nos auxilia a compreender a teoria do filtro atencional, ou do gargalo. Ela
indica que, num conjunto de variados estímulos a perceber, nossa atenção apenas tem espaço para
processar alguns deles de cada vez, como um gargalo ou funil. Podemos pensar também na ideia de um
foco de luz, dinâmico, sobre um grande palco, só podendo iluminar parte do cenário. Ali, no foco central
da iluminação, estaríamos conscientemente respondendo a uns estímulos e negligenciando outros.
O esquema da figura 5 nos apresenta um modelo de como a atenção e o processamento consciente se
organizam.
No centro do modelo (em vermelho) estão os conteúdos que, estando atento, o sujeito pode processar
conscientemente e até descrever. Ao redor (em laranja), os conteúdos que estão sendo manipulados
pela atenção, que incluem o círculo interno, porém com parte do processamentonão completamente
consciente. E em cinza (círculo maior, que inclui os outros dois), está o universo de estímulos a que o
indivíduo está exposto.
/
Fonte: Adaptado de Sternberg (2008) e Fuentes et al. (2008)
 Figura 5 - Processamento consciente de informações na atenção.
FUNÇÕES DA ATENÇÃO
A atenção possui diferentes níveis de funcionamento, também conhecidos como funções da atenção. A
tabela 2 inclui os principais tipos e suas definições. Aqui, abordaremos a atenção focada, mantida ou
sustentada, seletiva, alternada e dividida.
Função Definição
Atenção
focada
Resposta básica ao estímulo.
Exemplos: girar a cabeça na direção de um estímulo auditivo; quando
dirigindo, desviar-se de um obstáculo na estrada.
Atenção
mantida
ou
sustentada
Manutenção da atenção ao longo do tempo durante atividade contínua;
memória de trabalho: sustentação e manipulação ativa da informação;
capacidade de estar em prontidão, por um período prolongado, para
responder a determinadas alterações na situação de estímulos, ou ao
aparecimento de um estímulo-alvo específico. Inclui as funções sondagem
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/
(busca ativa por um estímulo) e vigilância (prontidão para responder a um
estímulo-alvo).
Exemplo: quando dirigindo, permanecer atento por longos períodos, na
expectativa de novos obstáculos na estrada.
Atenção
seletiva
Livre da distratibilidade; escolha dos estímulos relevantes; procura ativa de
um estímulo-alvo; busca por estímulos específicos; foco da atenção aos
relevantes e inibição dos irrelevantes; capacidade de focar e selecionar um
estímulo e ignorar vários outros que estejam viáveis no momento.
Fundamental para compreensão verbal e resolução de problemas. Exemplos:
inibir o barulho do ar-condicionado da sala durante uma conferência; quando
dirigindo, não ser distraído por eventos que tirem a atenção da estrada.
Atenção
alternada
Capacidade de flexibilidade mental; alternar entre estímulos diferentes.
Exemplo: quando dirigindo, observar possibilidade de ultrapassagem, olhando
retrovisores, observando buzinas e faróis de outros veículos.
Atenção
dividida
Habilidade para responder simultaneamente a duas tarefas; distribuição dos
recursos atencionais. Nessas situações, há um deslocamento coerente e
distribuído dos recursos atencionais. Todos os estímulos são relevantes,
porém o organismo deve responder concomitantemente aos diferentes
estímulos que são apresentados, que podem variar tanto em características
espaciais quanto temporais.
Exemplo: quando dirigindo, ser capaz de conversar, ouvir rádio, usar mãos ao
volante e câmbio, pés aos pedais.
Tabela 2 - Funções da atenção e suas definições. 
Fonte: Fuentes et al. (2008); Lent (2008); Sohlberg e Mateer (2011).
MEMÓRIA DE TRABALHO
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/
Não se preocupe com o termo! Você o entenderá no próximo módulo!
DISTRABILIDADE
É a incapacidade de selecionar estímulos externos que não tenham importância para determinada
interação com o ambiente externo. Assim, na atenção seletiva, o indivíduo é capaz de tal seleção
(daí o nome dessa função).
PROCESSOS AUTOMÁTICOS E CONTROLADOS
Na teoria cognitiva sobre atenção, registra-se a ideia de que os indivíduos possuem uma quantidade de
recursos atencionais limitada. De acordo com essa ideia, algumas ações requerem mais recursos
atencionais do que outras: ações novas, referentes a novos aprendizados, requerem muita atenção em
seu aprendizado e em seu desempenho, mas, com o passar do tempo, demandam cada vez menos
recursos atencionais, passando a ser desempenhadas automaticamente. Tal funcionamento faz parte da
função adaptativa cerebral que, ao automatizar tarefas, melhora a economia cognitiva, deixando
disponíveis recursos atencionais para que o indivíduo possa se engajar em tarefas concomitantemente.
Mas deve estar claro que, em nossa mente, a maioria dos processos cognitivos se dá de forma
automática.
/
Fonte: fizkes/Shutterstock
 SAIBA MAIS
Para saber mais sobre os processos cognitivos de forma automática, vale conhecer a obra O novo
inconsciente, de Marco Callegaro (2011), também indicada no Explore+ ao final deste tema.
Normalmente, o aprendizado de tarefas novas envolve a utilização de quase todos os recursos
atencionais, e o indivíduo não consegue desempenhar mais de uma tarefa ao mesmo tempo. Esses
processos são do tipo controlado (o indivíduo está conscientemente engajado na ação) e requerem um
controle cognitivo maior, usando as funções executivas. Conforme a repetição, os processos controlados
passam a ser desempenhados como do tipo automático (que se refere a tarefas superaprendidas, que
já não requerem quase nenhum recurso atencional). O comparativo a seguir resume as características
dos processos controlados e automáticos:
Processo controlado
Esforço intencional
Conhecimento consciente
Realizados serialmente
Consomem mais tempo
Tarefas novas ou com variabilidade
/
Níveis elevados de processamento cognitivo

Processo automático
Pouco ou nenhum esforço intencional
Sem consciência
Realizados em paralelo
Rápidos
Tarefas conhecidas, com prática
Níveis baixos de processamento cognitivo
Processos controlados e automáticos e o uso de recursos atencionais. 
Fonte: Fuentes et al. (2008); Matlin (2004); Sternberg (2008); Sohlberg e Mateer (2011).
PROCESSOS BOTTOM-UP E TOP-DOWN
O cérebro é limitado em sua capacidade de processar todos os estímulos sensoriais presentes no
mundo físico a qualquer momento e confia no processo cognitivo de atenção para concentrar os
recursos neurais de acordo com as contingências do momento. Nesse sentido, a atenção pode ser
categorizada, segundo Katsuki e Constantinidis (2013), em duas funções distintas:
/

Atenção bottom-up (de baixo para cima)
Referente à orientação puramente por fatores externos direcionados a estímulos destacados por causa
de suas propriedades inerentes ao fundo – por exemplo, um barulho muito alto, uma luz que se acende
num ambiente de penumbra.

Atenção top-down (de cima para baixo)
Refere-se a orientações internas de atenção baseadas em conhecimento prévio, planos ou metas atuais
– como prestar atenção a uma aula.
O conceito de atenção top-down, de acordo com Cosenza e Guerra (2001), funde-se com o tipo de
processamento controlado da atenção e é de especial interesse para o aprendizado escolar, por
exemplo.
NEUROCIÊNCIA DA ATENÇÃO
Como já vimos, dois aspectos principais (alerta e focalização) formam a atenção. Mecanismos
envolvidos na atenção, segundo Brandão (2004) e Fuentes et al. (2008), dependem de uma rede
nervosa que inclui porções anteriores e posteriores do sistema nervoso, e lesões nessa rede alteram a
capacidade da pessoa em direcionar a atenção para determinados setores do ambiente.
Em relação ao estado de alerta, a área mais atuante é o Sistema Atencional Reticular Ascendente
(SARA), localizado no tronco encefálico.

Em relação ao que se pretende estudar em Neurociência Cognitiva (com ênfase na função cognitiva que
ora estudamos), merece destaque a focalização.
/
 ATENÇÃO
É o Sistema Atencional Posterior (SAP) que tem por função orientar a atenção; ou seja, é responsável
pela atenção focada e seletiva, como vimos na tabela 2. Já o Sistema Atencional Anterior (SAA) é
responsável também pela atenção seletiva; e pela atenção sustentada e dividida. Assim, realiza o
recrutamento atencional para detectar estímulos e controlar áreas cerebrais para o desempenho de
tarefas cognitivas complexas.
As áreas cerebrais envolvidas no SAA são o córtex frontal, o giro cingulado anterior e os gânglios da
base. A figura 6 resume as áreas do SNC que participam dos diferentes sistemas atencionais citados.
Fonte: Brandão (2004) e Fuentes et al. (2008).
 Figura 6 - Áreas cerebrais envolvidas com a atenção.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. DE ACORDO COM AS UNIDADES FUNCIONAIS DEFINIDAS POR LURIA,
PODEMOS AFIRMAR QUE DAS SEGUINTES ÁREAS, RELEVANTES PARA O
PROCESSO SENSOPERCEPTIVO, CONFIGURAM ÁREAS PRIMÁRIAS, EXCETO:A) Giro pós-central
B) Córtex visual primário
C) Giro temporal superior
/
D) Junção têmporo-parieto-occipital
2. O CÓRTEX PRÉ-FRONTAL É UMA ÁREA DO LOBO FRONTAL IMPORTANTE
PARA O ENGAJAMENTO DO INDIVÍDUO EM FUNÇÕES COGNITIVAS
COMPLEXAS. EM RELAÇÃO À ATENÇÃO, ELE ESTÁ ATRELADO AO
DESEMPENHO DAS SEGUINTES FUNÇÕES ATENCIONAIS, EXCETO:
A) Vigilância
B) Sondagem
C) Atenção seletiva
D) Alerta
GABARITO
1. De acordo com as unidades funcionais definidas por Luria, podemos afirmar que das
seguintes áreas, relevantes para o processo sensoperceptivo, configuram áreas primárias,
exceto:
A alternativa "D " está correta.
Embora seja uma área importante para o processo sensopercetivo (dando significado ao percepto
formado pelas sensações), a junção têmporo-parieto-occipital é uma área de associação. O giro pós-
central, o córtex visual primário e o giro temporal superior são áreas primárias, processando,
respectivamente, estímulos de natureza tátil, auditiva e visual.
2. O córtex pré-frontal é uma área do lobo frontal importante para o engajamento do indivíduo em
funções cognitivas complexas. Em relação à atenção, ele está atrelado ao desempenho das
seguintes funções atencionais, exceto:
A alternativa "D " está correta.
A função alerta se refere à consciência ou vigília do indivíduo e é desempenhada pelo SARA (Sistema
Reticular Ativador Ascendente), localizado no tronco encefálico.
MÓDULO 2
/
 Identificar os substratos neurais subjacentes ao processo mnemônico e sensório-motor
CONCEITOS
Retomando a função principal do cérebro – que é a adaptação –, temos na memória uma de suas
principais aliadas. Ao aprender sobre o ambiente, o indivíduo pode fazer projeções e modular o seu
comportamento com base em experiências anteriores.
MEMÓRIA: DEFINIÇÃO
De acordo com Baddeley et al. (2011), a memória pode ser definida como a capacidade de adquirir
(registrar), armazenar e recordar informações. Tem como função situar e adaptar o indivíduo ao meio,
modificar comportamentos em função das novas aprendizagens e experiências anteriores.
Fonte: wan wei/Shutterstock
O PROCESSO MNEMÔNICO – TEORIAS E
FUNÇÕES
/
FASES DA MEMÓRIA
Vimos que a memória é um processo composto por outros três: o de adquirir (aquisição), armazenar
(consolidação) e recuperar (evocar) informações disponíveis. Em termos das Neurociências Cognitivas,
o processo de memorização pode ser dividido em três fases principais:
FASE 1
Aquisição (a formação do traço de memória).
FASE 2
Retenção ou armazenamento (quando estratégias de armazenamento fortalecem o traço mnemônico,
organizando a informação adquirida).
FASE 3
Recuperação (a ativação do traço adquirido, ou o lembrar propriamente dito).
Na figura 7, usamos a referência da seta como a passagem do tempo. Dessa maneira, os processos são
sucessórios e relativamente independentes.
 ATENÇÃO
Não pode haver recuperação de uma informação que não tenha sido armazenada (consolidada), assim
como não pode haver retenção de uma informação que não tenha sido adquirida.
As informações, para serem lembradas, precisam ter sido adquiridas (com especial participação da
atenção, tratada no módulo anterior) e, posteriormente, retidas (armazenamento), ou seja, elas precisam
ser consolidadas organizadamente na rede de informações pertinentes prévias.
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javascript:void(0)
javascript:void(0)
/
Fonte: Autor.
 Figura 7 - Fases da memória
Segundo Cosenza e Guerra (2001) e Sohlberg e Mateer (2011), alguns aspectos facilitam o processo de
retenção:
Repetição da informação.
Relevância emocional para o indivíduo.
Boa qualidade do sono após a aquisição.
Estratégias adequadas de dar sentido à nova informação em relação às que coexistem na mesma
rede (fazer relações entre a informação nova e as anteriormente aprendidas). 
De acordo com Sara (2000) e Nader e Einarsson (2010), dois processos podem ser descritos no período
de armazenagem da informação:
CONSOLIDAÇÃO
Envolve a transformação dos traços mnésicos transitórios em mais duráveis e estáveis.
RECONSOLIDAÇÃO
Representa uma atualização do novo traço após novo aprendizado, a partir de sua integração com
traços antigos, fortalecendo-o.
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/
TEORIA DA DEGENERAÇÃO
Como citamos nos processos de sensopercepção e atenção, o conjunto de estímulos a que um sujeito
está exposto é sempre maior que a capacidade de seu sistema cognitivo de processá-lo. E, ainda assim,
nem todos os estímulos que nossa sensopercepção e atenção possam processar serão consolidados na
memória. Segundo Gazzaniga (1995), não havendo uma boa estratégia de retenção, muitos estímulos
podem sofrer esquecimento, ou degeneração.
A teoria da degeneração da memória afirma que esquecemos porque não utilizamos as informações e,
assim, elas desaparecem com o tempo, como um processo natural do cérebro, obedecendo a uma
espécie de lei do uso e desuso.
A figura 8 representa a curva de esquecimento de um aprendizado verbal ao longo do tempo. Observa-
se que a retenção da informação (o que fora efetivamente recordado do que foi adquirido) decai muito
rapidamente, apenas restando, ao longo de um mês, uma pequena parcela do que foi aprendido. Aqui,
mais uma vez se ressalta o papel do indivíduo no processo cognitivo, pois tende a ser mantido o
conjunto de informações que faça sentido para aquele indivíduo de forma particular.
Fonte: Adaptado e traduzido de Wixted e Ebbesen (1997).
 Figura 8 - Curva de esquecimento.
/
CLASSIFICAÇÃO DA MEMÓRIA QUANTO AO TEMPO
Uma classificação temporal da memória se refere à quantidade de tempo em que a informação é
mantida no cérebro. Assim, temos 3 classificações:
MEMÓRIA SENSORIAL
MEMÓRIA DE CURTO PRAZO
MEMÓRIA DE LONGO PRAZO (MLP)
MEMÓRIA SENSORIAL
Dura poucos segundos, referindo-se aos conteúdos advindos do sistema sensoperceptivo.
MEMÓRIA DE CURTO PRAZO
De duração limitada (20-30 segundos) e com capacidade também limitada (de 5 a 7 itens, decaindo com
o tempo). Um dos modelos que melhor explica a memória de curto prazo é a memória operacional (ou
memória de trabalho), como veremos neste módulo.
MEMÓRIA DE LONGO PRAZO (MLP)
De duração ilimitada (de segundos a anos, podendo chegar a ser permanente) e capacidade ilimitada
(não se conhece o tamanho da MLP humana). E persiste indefinidamente.
/
MEMÓRIA OPERACIONAL (OU MEMÓRIA DE
TRABALHO)
O modelo mais bem aceito para explicar a memória de curto prazo é o proposto por Baddeley (2011),
que nos apresenta o conceito de memória de trabalho (ou memória operacional), baseado em três
componentes principais: alça fonológica, esboço visuoespacial e retentor episódico, organizados
por um quarto componente, o executivo central, que se ocupa da manipulação online de informações
atuais, integrando funções atencionais e conteúdo da memória de longo prazo (MLP).
MANIPULAÇÃO ONLINE
Para entender melhor o conceito de manipulação online: 
“A MT [Memória de Trabalho], portanto, é basicamente realizada online, ou seja, exerce a função
de gerenciar o nosso contato com a realidade, decide o que ficará guardado ou não na memória
declarativa ou procedural ou o que deverá ser evocado dessas memórias.” (FARIA & MOURÃO Jr.,
2013)
ALÇA FONOLÓGICA
COMPONENTE VISUOESPACIAL
RETENTOR EPISÓDICO
EXECUTIVO CENTRAL
ALÇA FONOLÓGICA
De acordo com Zanella e Valentini (2016), este componente é responsável por fornecer armazenamento
temporário de material linguístico: aquisição de vocabulário, compreensão da leitura, escrita, habilidades
aritméticas e resolução de problemas matemáticos. O principal objetivo da alça fonológica é armazenar
padrões sonoros desconhecidos enquanto a memória permanente de registros está sendo construída.
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/
COMPONENTE VISUOESPACIAL
Zanella e Valentini (2016) também afirmam que este componente possui funções semelhantes às da
alça fonológica; envolve informações visuais e espaciais, armazenando-as temporariamente de forma
restrita. Esse componente possui papel fundamentalna formação da imagem mental.
RETENTOR EPISÓDICO
Também conhecido como buffer episódico, garante a capacidade de armazenamento temporário e
limitado das informações contidas em um código multimodal, proporcionando, assim, não só um
mecanismo para modelar o ambiente, mas também a criação de novas representações cognitivas, que
poderão facilitar a resolução de problemas.
EXECUTIVO CENTRAL
Segundo Gazzaniga (1995), este componente dá suporte às funções cognitivas superiores de
gerenciamento das múltiplas tarefas cognitivas e comportamentais voltadas a um objetivo.
A memória de trabalho é responsável pelo armazenamento de informações pelo período de utilização
(resolução de problemas), por isso depende da atenção. Sendo um modelo da memória de curto prazo,
configura o estágio responsável por tornar conscientes as informações transferidas da memória
sensorial (imediata) e de longo prazo para que o indivíduo possa manipular ativamente as informações.
Embora seja dinâmica, possui pouca capacidade (cerca de 7 itens apenas podem ser processados ao
mesmo tempo) e tem uma duração limitada (dependente de enquanto durar a atenção naquele estímulo,
mas, geralmente, poucos segundos).
De acordo com Zanella e Valentini (2016), a memória de trabalho é um sistema de capacidade limitada
que permite o armazenamento e a manipulação temporária de informações verbais ou visuais
necessárias para tarefas complexas, como a compreensão, o aprendizado, o raciocínio e o
planejamento. Quando o indivíduo ouve uma palavra, o som é encaminhado para a memória sensorial,
as experiências com a língua permitem que a pessoa reconheça o padrão de sons, em seguida a
palavra é encaminhada para a memória de trabalho onde a informação será processada. Entretanto, o
processo de reconhecer o significado da palavra é desenvolvido na memória de longo prazo: local de
armazenamento permanente de informações.
/
SISTEMAS MÚLTIPLOS DE MEMÓRIA
As pesquisas em Neurociências Cognitivas, segundo Helene e Xavier (2003) e Squire (2013), trouxeram
o conhecimento de que a memória se constitui por componentes que são mediados independentemente
por diferentes módulos do sistema nervoso, mas de maneira cooperativa. Sobre a MLP, tem-se, a partir
desses estudos, a divisão da memória em dois grandes sistemas: explícito e implícito, que dependem
do conteúdo da seguinte subdivisão:
MEMÓRIA EXPLÍCITA (OU DECLARATIVA)
Refere-se a conteúdos mais conscientes e é dividida em episódica (informações que de alguma forma
encontram uma correlação têmporo-espacial) e semântica (que abarca os conceitos ou esquemas).
MEMÓRIA IMPLÍCITA (NÃO DECLARATIVA)
Está relacionada a condicionamentos, pré-ativação e hábitos motores em geral; são memórias não
conscientes.
O comparativo a seguir apresenta as diferenças e subdivisões dos dois sistemas.
MLP explícita (ou declarativa)
Capacidade de armazenamento e recordação consciente de experiências prévias (“o quê”).
Acumula informação tanto do tipo espacial quanto temporal. 
Subsistemas:
(1) Episódico: permite o resgate de eventos pessoais com rótulo temporal; bastante suscetível à perda
de informação.
(2) Semântico: fatos e conceitos.

MLP implícita (não declarativa)
Capacidade de armazenamento e recordação não consciente de experiências prévias (“como”).
Consolidação exige treino.
O deficit nessa memória pode interferir na aquisição de habilidades rotineiras.
Subsistemas:
/
(1) Habilidades e hábitos adquiridos e treinados progressivamente, tais como os desenvolvidos em
tarefas como andar de bicicleta, fazer pontos de costura, ou jogar bola com maestria.
(2) Pré-ativação (ou priming), relacionado ao funcionamento do córtex cerebral, por exemplo, como
observado nas listas de recordação com dicas.
(3) Condicionamento clássico, como observado nas respostas emocionais de medo, com ativação da
amígdala.
(4) Aprendizagem não associativa.
Memória de longo prazo e divisão em sistema explícito e implícito.
Fonte: Baddeley et al. (2011); Fuentes et al. (2008); Matlin (2004); Sternberg (2008).
 ATENÇÃO
Lembre-se de que estamos nos referindo a certos neurônios, também denominados amígdalas
cerebelosas (identificadas na figura 9), a fim de diferenciá-los dos órgãos homônimos (também
denominados tonsilas palatinas), localizados entre a boca e a faringe.
Se, por exemplo, em algum momento deste tema, você se lembrou de ligar para sua avó e combinar
com ela a que horas poderá levá-la amanhã ao hospital, você usou sua memória declarativa
(consciente). E se você for até lá de bicicleta, usará sua memória implícita (não consciente) ao pedalar.
NEUROCIÊNCIA DA MEMÓRIA
Os múltiplos sistemas de memória são independentes porque se baseiam em estruturas (ou redes)
neurais um tanto independentes também. Assim, diferentes tipos de memória – e de processos da
memória – podem ser atribuídos ao funcionamento adequado de diferentes áreas neurais, conforme
aponta a figura 9.
/
Fonte: Adaptado de Morris e Maisto (2004).
 Figura 9 - Áreas cerebrais envolvidas na memória. CPF = córtex pré-frontal; MCP = memória de
curto prazo; MLP = memória de longo prazo.
Destaca-se o papel fundamental do córtex pré-frontal para a memória de curto prazo (em especial
quando assume-se o modelo de memória operacional). Em relação à neurobiologia da memória de
longo prazo (MLP), está bem estabelecido o papel do hipocampo para a consolidação das memórias,
embora essa estrutura só esteja responsável pelo armazenamento temporário da informação: as
memórias já consolidadas são armazenadas em diferentes regiões do córtex cerebral, dependendo de o
conteúdo da informação ser visual, emocional, verbal, entre outros.
Com especial atenção, destacamos que a amígdala e o hipocampo (também na figura 9) não são locais
de armazenamento de informação, mas participam do processo de formação (consolidação e
reconsolidação) de memórias. Esse é um ponto de bastante confusão e erro.
A figura 9 destaca a localização do hipocampo, estrutura responsável pela consolidação das memórias,
especialmente às MLP explícitas. Baddeley et al. (2011) e Callegaro (2011) afirmam que essa estrutura
não está plenamente desenvolvida na criança em torno dos 2 anos de idade. Isso poderia explicar, ao
menos em parte, o fenômeno da amnésia infantil.
Em termos neurobiológicos, o processo de memorização requer mudanças em propriedades neurais
como a excitabilidade da membrana do neurônio e o fortalecimento sináptico, ou seja, da comunicação
entre os neurônios. Alguns princípios, segundo Squire (2013), ajudam-nos a compreender os
mecanismos moleculares e neurais implicados na aprendizagem e na memória: existem múltiplos
sistemas de memória no cérebro; aprendizagem e memória de curto e longo prazo envolvem mudanças
na rede neural existente. Essas mudanças, segundo Nader e Einarsson (2010), envolvem múltiplos
mecanismos celulares em neurônios existentes; e memória de longo prazo (MLP), que requer a síntese
de novas proteínas.
/
PROCESSOS DA MENTE: INTEGRAÇÃO
SENSÓRIO-MOTORA
O conceito de integração se mostra essencial para o funcionamento da mente e, assim, do indivíduo
em interação com seu meio. No processo de integração sensório-motora, fica evidente que o sistema
nervoso (SN) trabalha de forma coordenada e dinâmica. Vamos abordar a relação íntima e necessária
entre os aspectos cognitivos e motores. Esse é um dos aspectos mais ricos do funcionamento cognitivo,
especialmente quando se pensa em aprendizados motores como a fala, a escrita, o uso de ferramentas
e instrumentos em geral.
INTEGRAÇÃO SENSÓRIO-MOTORA: DEFINIÇÃO
A integração sensório-motora pode ser definida como o processo segundo o qual o cérebro organiza as
informações com a finalidade de dar uma resposta adaptativa adequada, que pode configurar um
comportamento motor. É responsável por estruturar as sensações do próprio corpo e do ambiente a fim
de possibilitar seu uso apropriado no ambiente. Portanto, podemos explicar a integração sensório-
motora como a habilidadeinata de organizar, interpretar sensações e responder apropriadamente
ao ambiente, de forma funcional.
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Fonte: Tasty_Cat/Shutterstock
O PROCESSO SENSÓRIO-MOTOR
O desenvolvimento da integração sensorial se inicia ainda na vida intrauterina e ocorre devido à
interação do indivíduo com o ambiente por meio de respostas que se mostram adaptativas ou não ao
contexto, o que leva ao aprendizado. Nos períodos iniciais da vida, o indivíduo detém a capacidade de
organizar inputs sensoriais experimentando sensações, porém inicialmente incapazes de dar
significado a elas. Conforme o avanço do desenvolvimento, o indivíduo passa a reunir condições (em
termos de maturidade neurológica, inclusive) para controlar seus comportamentos e aprender com os
respectivos feedbacks do meio externo.
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/
Fonte: Katy Flat/Shutterstock
INPUTS SENSORIAIS
Inputs sensoriais referem-se às funções receptivas; à capacidade para selecionar, adquirir,
classificar e integrar as informações, isto é, sensação, percepção, atenção e concentração.
A seguir, recordaremos as unidades funcionais que vimos no módulo 1 e, também, como acontece o
processo de integração sensório-motora:
PROCESSAMENTO BOTTOM-UP E TOP-DOWN NA
INTEGRAÇÃO SENSÓRIO-MOTORA
É necessário recordar as unidades funcionais apontadas por Luria. A integração sensório-motora é a
fina coordenação entre os dois tipos de processamento. Sigamos com um simples exemplo para
podermos compreender como esse processo se dá:
Ao verificar uma caixa [visão – processo bottom-up (percepção)];
O indivíduo pode decidir apanhá-la (informação decisional que surge de áreas de associação
frontal e segue para as áreas primárias motoras – top-down);
Supondo seu conteúdo e seu peso (presunção também organizada por áreas corticais superiores –
top-down);
/
Entretanto, ao levantar a caixa, nota que o peso é bem menor do que o imaginado (Percepção -
processo bottom-up);
Informação que rapidamente chega ao córtex e refaz o planejamento motor para aliviar a força
imprimida pelos braços (processo top-down). 
O exemplo nos demonstra a atuação dinâmica entre os dois processos, o mesmo que ocorre quando
ouvimos uma pergunta e a respondemos, porém, modulando a altura de nossa voz devido a qualquer
mudança ambiental. Ou quando supomos uma palavra escrita num texto e a lemos. Ocorre ainda
quando somos capazes de andar em nossa casa no escuro, pois sabemos o mapa espacial do local,
embora possamos usar prontamente o tato caso sintamos qualquer mudança no ambiente físico, como
um móvel fora do lugar.
ESTÁGIOS DO PROCESSO DE INTEGRAÇÃO SENSÓRIO-
MOTORA
O processo de integração sensório-motora, segundo Molleri et al. (2010), acontece em 5 estágios: 
1 - Registro sensorial: é o reconhecimento da sensação.
2 - Orientação e atenção: é a atenção seletiva específica ao estímulo.
3 – Interpretação: é o significado da sensação. Este componente é cognitivo, pois interpretamos a
sensação à luz da experiência e de aprendizados anteriores, além de atribuirmos caráter emocional às
sensações.
4 - Organização da resposta: organizada cognitiva, afetiva e motoramente.
5 - Execução da resposta: o último estágio da integração sensorial e o único que pode ser diretamente
observado. Isso traz fundamentos para se pensar nos comportamentos (muitos deles motores, como a
fala e as respostas emocionais, o deslocamento do indivíduo pelo ambiente) resultantes dos processos
de integração sensorial e nas bases sensoriais da autorregulação.
NEUROCIÊNCIA DA INTEGRAÇÃO SENSÓRIO-
MOTORA
No processo sensório-motor, o cérebro organiza as informações captadas sensorialmente a fim de dar
uma resposta adaptativa adequada ao ambiente, organizando as sensações do próprio corpo para
utilizá-lo de modo eficiente.
/
O SN é o responsável pela integração das diversas sensações recebidas e dos comportamentos
efetuados pelo indivíduo como respostas a essas sensações. De acordo com Matlin (2005), o SNC
localiza, classifica e organiza os impulsos sensoriais e transforma as sensações em percepção para que
o indivíduo possa interagir com o meio, organiza as informações visuais, auditivas, táteis, olfativas e
gustativas, bem como informações sobre gravidade e movimento, e consequentemente as ordena em
um plano de ação.
Na figura 10, pode-se observar o caminho percorrido pela informação numa tarefa que exemplifica a
integração sensório-motora: repetir uma palavra ouvida.
Fonte: Adaptado e traduzido de Binder (2015).
 Figura 10 - Caminho da informação na tarefa de repetir uma palavra ouvida (áreas de 1 a 5).
1 – O input sensorial auditivo chega ao córtex auditivo primário.

2 – É encaminhado para a área de Wernicke.

3 – Uma área de associação têmporo-parietal, onde é processada a compreensão do que se foi pedido;
através do fascículo arqueado.

/
4 – Um feixe de axônios que comunica áreas têmporo-parietais com áreas motoras de associação –, ele
chega à área de Broca – no córtex motor secundário, específica para a produção de palavras.

5 – Finalmente é encaminhado para a área motora primária, para que se produzam os
comportamentos motores na boca, na língua e no diafragma, efetivando a produção da fala.
Como se trata de uma integração de áreas, é razoável supor que lesões ou mau funcionamentos em
regiões específicas podem levar a disfunções no desempenho do indivíduo em tarefas sensório-
motoras. A tabela 5 apresenta os mais importantes quadros conhecidos derivados de lesões em áreas
motoras.
Lobo de
localização da
lesão
Área funcional Efeitos
Nome da
disfunção
Frontal
Córtex motor
primário
Incapacidade de
executar
movimentos finos
e precisos
Paralisia cortical
Córtex motor
secundário
Incapacidade de
organizar e de
planear os
movimentos numa
sequência
unificada
Apraxia
Incapacidade de
se expressar
escrevendo
Agrafia ou apraxia
da escrita
Incapacidade de Afasia ou apraxia
/
se expressar
falando
de linguagem
Tabela 5 - Disfunções motoras mais frequentes por lesões adquiridas. 
Fonte: Brandão (2004); Fuentes et al. (2008); Lent (2008); Sohlberg e Mateer (2011).
 ATENÇÃO
Nas áreas de saúde e educação, é fundamental que se avalie a integridade de aspectos sensoriais e
motores quando se realiza a observação de tarefas que envolvam a integração sensório-motora.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. DE ACORDO COM BADDELEY, A MEMÓRIA TEM COMO FUNÇÃO SITUAR E
ADAPTAR O INDIVÍDUO AO MEIO, MODIFICAR COMPORTAMENTOS EM FUNÇÃO
DAS NOVAS APRENDIZAGENS E EXPERIÊNCIAS ANTERIORES. CONSIDERE OS
PROCESSOS A SEGUIR: 
I – INDUÇÃO 
II – ADAPTAÇÃO 
III – AQUISIÇÃO 
IV – RECUPERAÇÃO 
V – RETENÇÃO 
VI – CONSOLIDAÇÃO 
MARQUE A ALTERNATIVA QUE INDICA A SEQUÊNCIA TEMPORAL DE
PROCESSOS NA MEMORIZAÇÃO DE UM CONTEÚDO NOVO:
A) I, II, IV
B) III, VI, IV
C) III, IV, VI
D) II, VI, IV
/
2. CONSIDERE A TAREFA DE RESPONDER COM UM SINAL DE LEVANTAR AS
MÃOS SEMPRE QUE, NUMA TELA PROJETANDO IMAGENS, APARECER A
FIGURA DE UM TRIÂNGULO. SOBRE TAL TAREFA, É INCORRETO AFIRMAR
QUE:
A) A tarefa depende das funções cognitivas atenção e integração sensório-motora.
B) A tarefa somente inclui a participação de áreas de associação.
C) O comportamento motor na tarefa é um exemplo de processamento top-down.
D) A tarefa exemplifica a integração entre os processamentos bottom-up e top-down.
GABARITO
1. De acordo com Baddeley, a memória tem como função situar e adaptar o indivíduo ao meio,
modificar comportamentos em função das novas aprendizagens e experiências anteriores.
Considere os processos a seguir: 
I – Indução 
II – Adaptação 
III – Aquisição 
IV – Recuperação 
V – Retenção 
VI – Consolidação 
Marque a alternativa que indica a sequência temporal de processos na memorização de um
conteúdo novo:
A alternativa "B " está correta.
Para a memorização de um conteúdo novo, primeiro realizamos o processo de aquisição de uma nova
informação; em seguida, o conteúdo é retido (ou consolidado) para depois ser recuperado. Memória é a
capacidade para adquirir (registrar),armazenar e recordar informações.
2. Considere a tarefa de responder com um sinal de levantar as mãos sempre que, numa tela
projetando imagens, aparecer a figura de um triângulo. Sobre tal tarefa, é incorreto afirmar que:
A alternativa "B " está correta.
A tarefa citada, como exemplifica a integração entre os processamentos bottom-up e top-down,
necessariamente inclui áreas primárias (sensorial, visual e motora) tanto para a percepção do estímulo
/
(triângulo), quanto para a resposta motora correspondente.
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nesse tema, estudamos sobre quatro processos da mente. Identificamos que a sensação, a atenção, a
memória e a integração sensório-motora são consideradas processos da mente porque se
caracterizam como funções cognitivas, desempenhadas pelo indivíduo no processo de adaptação ao
meio em que vive.
Cada processo de adaptação, desde perceber a árvore que cai na floresta a aumentar o tom de nossa
voz ao responder a uma pergunta (porque o ambiente tornou-se mais barulhento), só é acessível porque
nosso sistema nervoso está organizado de forma a percebê-lo. É graças à integração de áreas do
sistema nervoso que podemos, efetivamente, também nos integramos ao meio que nos cerca,
valorizando uma de nossas maiores habilidades, totalmente integrada ao SN: a capacidade de
adaptação.
REFERÊNCIAS
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EPU, 2004.
/
CALLEGARO, M. O novo inconsciente: Como a terapia cognitiva e as neurociências revolucionaram o
modelo do processamento mental. Porto Alegre: ArtMed, 2011.
COSENZA, R. M.; GUERRA, L. B. Neurociência e educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre:
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FARIA, E.; MOURÃO JÚNIOR, C. Os recursos da memória de trabalho e suas influências na
compreensão da leitura. In: Psicologia: ciência e profissão. v. 33, n. 2, Brasília, 2013.
FUENTES, D. et al. Neuropsicologia: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed, 2008.
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LENT, R. Neurociência da mente e do comportamento. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008.
MATLIN, M. W. Psicologia Cognitiva. Capítulo 2 – Processos perceptivos. pp. 35-45. Rio de Janeiro:
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NADER, K.; EINARSSON, E. Ö. Memory reconsolidation: An update. In: Annals of the New York
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SARA, S. J. Retrieval and Reconsolidation: Toward a Neurobiology of Remembering. In: Learning &
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SOHLBERG, M. M.; MATEER, C. A. Reabilitação cognitiva. São Paulo: Editora Santos, 2011.
SQUIRE, L. R. (ed.) Fundamental Neuroscience. 4. ed. Oxford: AP, 2013.
STERNBERG, R. Psicologia Cognitiva. Porto Alegre: ArtMed, 2008.
THOMPSON, R. F. O cérebro – uma introdução a neurociência. São Paulo: Editora Santos, 2005.
WIXTED, J. T.; EBBESEN, E. B. Genuine power curves in forgetting: A quantitative analysis of
individual subject forgetting functions. In: Memory & Cognition, 1997, v. 25, n. 5, pp. 731-739.
ZANELLA, L.; VALENTINI, N. Como funciona a memória de trabalho. In: Revista da Faculdade de
Medicina de Ribeirão Preto. Ribeirão Preto, USP, 2016, v. 49 n. 2, pp. 160-174.
/
EXPLORE+
Para aprofundar mais seus estudos sobre o tema:
Leia os livros:
O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, de Oliver Sacks.
Neurociência da mente e do comportamento, de Roberto Lent.
O novo inconsciente, de Marco Callegaro. 
Assista aos vídeos:
Da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia.
Caso você tenha domínio do inglês, veja os da Society for Neuroscience (a maior associação de
Neurociência do mundo).
Aplicativos:
Interaja com alguns aplicativos de estimulação de funções cognitivas, como o BrainHQ, Cognif e
Lumosity. 
Pesquise sobre:
O Museu Itinerante de Neurociências – uma iniciativa focada na promoção da alfabetização e
difusão científica.
CONTEUDISTA
Érica de Lana Meirelles
 CURRÍCULO LATTES
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/
DEFINIÇÃO
Conceitos de neuroplasticidade e Neuropsicologia. Contribuições da Neuropsicologia para o processo de
aprendizagem. Dificuldades e transtornos de aprendizagem e sua relação com o desenvolvimento do
cérebro. Noção de inteligência e sua relação com a aprendizagem da leitura e do raciocínio lógico.
Ambientes de aprendizagem neurocientificamente coerentes.
PROPÓSITO
Apresentar a contribuição da neuroplasticidade cerebral e da Neuropsicologia no processo de ensino e
aprendizagem, as dificuldades e os transtornos de aprendizagem na perspectiva da neurociência, a
relação entre inteligência e desenvolvimento da leitura e do pensamento matemático, bem como a
importância da construção de ambientes de aprendizagem neurocientificamente coerentes.
OBJETIVOS
/
MÓDULO 1
Identificar as principais dificuldades e os principais transtornos de aprendizagem e suas relações com o
desenvolvimento à luz da Neuropsicologia
MÓDULO 2
Reconhecer a relação entre o conceito de inteligência e o desenvolvimento da leitura e do raciocínio
lógico em um contexto de ambiente escolar neurologicamente coerente
INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, profissionais de diferentes campos das ciências da saúde e educação
contribuíram para a compreensão da aprendizagem valendo-se de uma abordagem multiprofissional.
Identificamos que, para conhecer os problemas que interferem no desenvolvimento da criança, é preciso
compreender os padrões de normalidade – aquilo que é esperado com base nas características da
espécie – que envolvem o desenvolvimento dos seres humanos.
Fonte: senivpetro / Freepik
 Desenvolvimento das crianças
/
As neurociências são um conjunto de disciplinas relacionadas com diferentes campos de conhecimento,
que têm por objetivo estudar o funcionamento do cérebro, construindo, assim, um olhar interdisciplinar
acerca deste fenômeno. Consideramos que os processos cognitivos, apoiados pela mudança constante
do cérebro, estão intrinsecamente conectados à nossa estrutura física, cognitiva e psicossocial. Este,
portanto, será nosso objeto de estudo.
MÓDULO 1
 Identificar as principais dificuldades e os principais transtornos de aprendizagem e suas
relações com o desenvolvimento à luz da Neuropsicologia
NEUROPLASTICIDADE
O termo neuroplasticidade tem sido usado em diferentes pesquisas para descrever fenômenos em
distintos níveis de organização de nosso organismo. Podemos falar de neuroplasticidade desde a
regulação genético-molecular até níveis mais avançados, como a reorganização das redes neurais. As
vias neurais são estruturas plásticas e mudam constantemente como produto de estímulos internos e
externos.
NEUROPLASTICIDADE
Este termo foi usado pela primeira vez na década de 1940. Trata-se da reorganização neuronal em
função das experiências vividas pelo organismo em sua relação com o meio.
 EXEMPLO
Exames recentes com testes de neuroimagem demonstram que o processo de aprendizagem pode ser
encarado como uma resposta comportamental a estímulos ambientais, dos quais a neuroplasticidade
depende.
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/
Compreender a estrutura e as funcionalidades associadas à estrutura neural permite, então, que
profissionais de educação e saúde proponham melhores estratégias de ensino em diferentes contextos
educacionais.
Aneuroplasticidade também depende da capacidade plástica do sistema nervoso central, que se
reorganiza em função das diferentes situações sociais enfrentadas pelo sujeito. Todas as funções
corticais superiores envolvidas na cognição, tais como as gnosias, as praxias e a linguagem, são bons
exemplos da plasticidade cerebral — dos níveis mais elementares, como o molecular, até os níveis
cognitivos.
GNOSIAS
Reconhecimento de um objeto usando alguns dos sentidos corporais.
PRAXIAS
Sequências de movimentos que o corpo realiza para concluir determinado ato motor.
Jacques Gaimard / Pixabay
 Reação do cérebro a partir de experiêcias vividas e o meio
O cérebro é, por excelência, o órgão responsável pelo processo de aprendizagem. A partir do seu uso, é
possível integrar nosso organismo ao meio ambiente para lidar com diferentes situações. A plasticidade
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/
cerebral depende, portanto, das nossas experiências de vida. Não existem dois cérebros iguais, uma
vez que nossa organização neural é fruto de nossa individualidade. De acordo com Rotta (2016),
podemos dividir a neuroplasticidade em dois tipos: a plasticidade do desenvolvimento normal do
cérebro e a plasticidade reacional. Vejamos cada uma delas:
PLASTICIDADE DO DESENVOLVIMENTO NORMAL DO
CÉREBRO
É uma operação complexa com várias etapas coexistindo e se autoinflenciando. Entre elas, temos:
Plasticidade neuronal;
Plasticidade dos prolongamentos celulares;
Plasticidade sináptica;
Modificações neuroquímicas e funcionais.
PLASTICIDADE REACIONAL
Acontece quando o cérebro sofre alguma lesão, e o órgão tenta, de alguma forma, compensar o trabalho
da área lesionada. A regeneração é possível tanto no sistema nervoso central quanto no sistema
nervoso periférico, porém o periférico tem mais chances de efetuar essa plasticidade com eficiência.
O sistema nervoso modifica-se constantemente ao longo da vida, em função das experiências,
das interações e dos vínculos estabelecidos em nosso cotidiano.
NEUROPSICOLOGIA
Entre as áreas que auxiliam na compreensão dos processos de ensino e aprendizagem, podemos
destacar a Neuropsicologia como um campo que nos ajuda a compreender até que ponto podemos
estabelecer uma ligação clara entre o funcionamento anatômico do cérebro e suas relações com as
emoções e a aprendizagem.
Nesse contexto, podemos definir aprendizagem como aquisição de dados, cujo objetivo é realizar uma
tomada de decisão em função de determinada situação. Neste momento, diferentes processos
cognitivos, como memória, linguagem, organização de ideias, raciocínio lógico etc., são acionados em
conjunto para responder as demandas do cotidiano.
A Neuropsicologia possibilita uma compreensão mais ampla sobre a forma como as emoções interferem
na cognição e no comportamento. Vários autores divergem quando o assunto é sua origem. Entretanto,
é certo que houve uma grande mudança nos rumos deste campo do conhecimento a partir do século
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/
XIX, com as descobertas de Pierre Paul Broca e Carl Wernicke, que inauguraram a Neuropsicologia
da Linguagem. No século XX, vimos o início da Neuropsicologia Moderna. Autores como Karl
Spencer Lashley, Alexander Romanovich Luria e Donald Olding Hebb são alguns dos
representantes deste período.
PIERRE PAUL BROCA (1824-1880)
“Cirurgião e antropólogo francês que se destacou na história da medicina e das
neurociências pela descoberta do centro da fala (atualmente conhecido como área de Broca),
ao estudar os cérebros de pacientes afásicos (incapazes de falar).
De acordo com Broca, essa afasia, causada por alguma lesão no lobo frontal do cérebro, era
motora, pois impedia a lembrança dos movimentos necessários para a produção da
linguagem falada ou escrita.”
SABBATTINI, 1997; RUIZA; FERNÁNDEZ; TAMARO, 2004. (Tradução livre. Grifo nosso.)
Fonte: Wellcome Library / Wikimedia
 Pierre Paul Broca
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/
CARL WERNICKE (1848-1905)
“Neuropsiquiatra alemão, cujos trabalhos sobre o complexo sintomático da afasia e a
descrição de uma alteração na percepção da linguagem foram fundamentais para futuras
investigações neurológicas dos distúrbios da linguagem.
De acordo com Wernicke, essa afasia, causada por alguma lesão ou algum dano sofrido no
lobo temporal do cérebro (área de Wernicke), era sensorial, pois impedia a lembrança do
significado da linguagem falada ou escrita.”
RUIZA; FERNÁNDEZ; TAMARO, 2004. (Tradução livre. Grifo nosso.)
Fonte: Max Glauer / Wikimedia
 Carl Wernicke
KARL SPENCER LASHLEY (1890-1958)
/
"Psicólogo norte-americano que estudou os mecanismos neurofisiológicos envolvidos na
aprendizagem. Ainda que se reconheça como behaviorista, discorda da concepção
mecanicista de comportamento defendida por esta corrente. Desenvolveu inúmeras
investigações, procurando relacionar o funcionamento do cérebro com vários tipos de
aprendizagem. Opõe-se à noção rígida de localizações cerebrais, defendendo uma visão
integrativa do cérebro.”
(Dicionário Digital Infopédia.)
Fonte: (WP:NFCC#4) / Wikimedia
 Karl Spencer Lashley
ALEXANDER ROMANOVICH LURIA (1902-1977)
"Neuropsicólogo russo, reconhecido em todo o mundo como um dos psicólogos mais
eminentes e influentes do século XX, que fez avanços em muitas áreas, incluindo psicologia
cognitiva, processos de aprendizagem e esquecimento, retardo mental e Neuropsicologia.
A pesquisa sobre o funcionamento do cérebro, abordando aprendizado e esquecimento,
atenção e percepção como construções psicológicas, envolveu Luria por 40 anos. A análise
/
funcional e as alterações resultantes de lesões cerebrais locais constituíram sua área de
maior interesse.”
(PACHALSKA; KACZMAREK, 2012)
Fonte: UCSD Luria Homepage / Wikimedia
 Alexander Romanovich Luria
DONALD OLDING HEBB (1904-1985)
"Considerado o pai da Neuropsicologia, devido à maneira como conseguiu fundir o mundo
psicológico com o mundo da neurociência, a partir da publicação da obra intitulada A
organização do comportamento: uma teoria neuropsicológica (1949), que demonstrou sua
teoria sobre como o aprendizado é realizado no cérebro.”
Donald O. Hebb / Wikimedia
/
Fonte: Donald O. Hebb / Wikimedia
 Donald Olding Hebb
O TERMO NEUROPSICOLOGIA SURGIU NO ANO DE 1913,
MAS APENAS NA DÉCADA DE 1940, COM AS
PUBLICAÇÕES DE ARTIGOS SOBRE A MULTIPLICAÇÃO DE
CONEXÕES SINÁPTICAS, GANHOU NOTORIEDADE.
(METRING, 2011)
CONEXÕES SINÁPTICAS
São as que envolvem sinapses, ou seja, conexões entre os neurônios. Como os neurônios não se
tocam fisicamente, é necessário que haja um processo elétrico e químico que permita a
comunicação entre eles. Essa comunicação é mediada quimicamente pelos neurotransmissores.
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/
Mas foi com Alexander Romanovich Luria que a Neuropsicologia entrou em sua modernidade
(VELASQUES; RIBEIRO, 2014). Vamos nos aprofundar em suas contribuições para este campo do
conhecimento.
CONTRIBUIÇÕES DE LURIA À NEUROPSICOLOGIA
Os estudos de Luria foram essenciais na definição de várias funções cognitivas. No próximo módulo,
vamos nos aprofundar em algumas delas, mas, agora, é importante ter clareza sobre suas
características no contexto de nosso estudo. Vamos a elas: as funções cognitivas!
Fonte: user18526052 / Freepik.
ATENÇÃO
É uma função cognitiva complexa, relacionada com a capacidade que o sujeito possui de manter o foco
em determinado estilo proveniente do meio. Podemos dividir esta função em pelo menos seis tipos:
atenção voluntária ou seletiva, involuntária, flutuante ou dividida, concentrada, sustentada e
alternada. Essa divisão não é consenso e difere de uma pesquisa para outra.
Fonte: freepik / Freepik.
MEMÓRIA
Outra função cognitiva complexa, porque envolve a integração de diferentes regiões do cérebro
responsáveis pela captação, pelo processamento, pelo armazenamento e pela evocação da informação.
A permanência de uma informação na memória depende de umasérie de fatores: emoção associada,
/
motivação etc. Esta função cognitiva também pode ser dividida em memória operacional, memória de
curto prazo ou de trabalho e memória de longo prazo.
Fonte: freepik / Freepik.
FUNÇÃO TÁTIL-CINESTÉSICA
Está diretamente relacionada com elementos que permitem o reconhecimento de objetos por forma e
tamanho, sem utilização da visão.
Fonte: master1305 / Freepik.
FUNÇÕES MOTORAS
Elas estão diretamente relacionadas com a motricidade, as praxias, a capacidade de se locomover de
maneira voluntária.
Fonte: freepik / Freepik.
ORIENTAÇÃO
Capacidade que o ser humano possui de desenvolver diversas ações cotidianas, como dirigir, no caso
da orientação espacial, ou se posicionar em relação ao espaço de acordo com seu corpo, como no caso
/
da propriocepção.
Fonte: freepik / Freepik.
LINGUAGEM
Faculdade mental superior responsável pelo processo de comunicação em sociedade.
Fonte: freepik / Freepik.
RACIOCÍNIO
Compreende nossa habilidade de combinar pensamento com estratégias para chegar a alguma
conclusão.
Fonte: freepik / Freepik.
JULGAMENTO
Tem relação direta com nossa capacidade de tomar decisões diante de determinada situação.
Luria também descreveu o cérebro como um conjunto de estruturas dividido em três unidades
funcionais. Veremos agora quais são essas três unidades:
/
PRIMEIRA UNIDADE
Esta unidade regula o tônus cortical e a vigília. As estruturas anatômicas aqui responsáveis são: a
medula, o tronco cerebral, o cerebelo, o sistema límbico e o tálamo.
SISTEMA LÍMBICO
Estrutura do cérebro responsável pelo controle e pela organização das emoções, bem como pela
produção de sensações vinculadas aos processos emotivos. Tem relação direta com a estabilidade
ou o desequilíbrio de nosso estado emocional.
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/
SEGUNDA UNIDADE
Ela regula o recebimento e o processamento das informações, bem como seu armazenamento. É
composta pelos:
Lobos parietais: somatossensoriais;
Lobos occipitais: áreas visuais;
Lobos temporais: áreas auditivas.
/
TERCEIRA UNIDADE
Esta unidade programa, regula e verifica a atividade mental e sua conexão com o comportamento. As
regiões que correspondem a essa unidade funcional são as anteriores do giro pré-central dos
hemisférios cerebrais, que compreendem o córtex motor, pré-motor e pré-frontal.
A compreensão dessas áreas funcionais é essencial para entendermos os problemas de aprendizagem
apresentados por um aluno. Anormalidades em qualquer dessas unidades pode resultar em diferentes
problemas de aprendizagem relacionados à atenção, à memória, à dificuldade para decodificar textos ou
mesmo compreender e organizar tarefas. De acordo com essa perspectiva, o comportamento como
resposta a determinada situação é produto da integração funcional de diferentes sistemas compostos
por várias áreas do cérebro. Este, por sua vez, coordena um número limitado de áreas corticais quando
produz um comportamento específico.
APLICAÇÃO DA NEUROPSICOLOGIA NO
CONTEXTO EDUCACIONAL
A Neuropsicologia busca compreender as relações entre as funções psicológicas superiores e os
processos neurais. O foco aqui são as inúmeras possibilidades de avaliação e intervenção em diferentes
níveis como forma de auxiliar o desenvolvimento de alunos com ou sem algum tipo de lesão cerebral.
/
O cérebro humano funciona em uma sequência ordenada e sistemática de desenvolvimento, que vai do
nível estrutural ao funcional. Esse processo tem como produto diversas mudanças cognitivas e
comportamentais.
Fonte: freepik / Freepik
 Neuropsicologia
As informações oriundas do campo da Neuropsicologia e sua aplicação ao campo da Educação têm
como estrutura fundamental a noção de que é possível sustentar uma visão sobre os processos de
ensino e aprendizagem tendo como base conhecimentos comprovados sobre o funcionamento do
cérebro.
A Neuropsicologia traz uma nova visão acerca das teorias de aprendizagem clássicas e permite que
educadores possam comparar e expandir seu ponto de vista sobre o processo de aprendizagem. A
abordagem neurocientífica possibilita um olhar sistêmico e integrado, relacionando, de forma direta,
conceitos como inteligência, emoção, comportamento e ambientes de aprendizagem com as dimensões
física, cognitiva e psicossocial do desenvolvimento.
As emoções humanas e sua relação com o processo de aprendizagem é um tema importante no campo
da Neuropsicologia. Afinal, sem emoção não há aprendizagem. Para que a aprendizagem acorra de
maneira eficiente, são necessárias associações com estados emocionais.
A mesma afirmação pode ser referida à memória. Quanto maior for a qualidade da emoção associada
ao que foi aprendido, maior será a probabilidade de fixação e posterior evocação da informação.
Compreender os fundamentos da Neuropsicologia significa, portanto, inserir o processo educacional
numa abordagem que vê o desenvolvimento humano como um processo evolutivo e maturacional
intimamente vinculado a determinadas fases e numa sequência ordenada.
/
APRENDIZAGEM
Aprender é uma condição natural do ser humano. Desde o processo de gestação, somos levados a
desenvolver nossa estrutura anatômica, fisiológica e psicológica para lidar com as situações do
cotidiano. Nossa sobrevivência depende disso. O termo aprendizagem pode ser encontrado na literatura
como tema de pesquisa de diversas linhas e já passou por inúmeras modificações ao longo do século
XX.
Ao estudarmos sobre a forma como os seres humanos transformam suas experiências em respostas
comportamentais que auxiliam na sua sobrevivência, também nos deparamos com a questão da não
aprendizagem. Atualmente, muitos autores procuram separar os sujeitos que não aprendem em pelo
menos dois grupos, veja quais são:
1
Fonte: Andrew Angelov / shutterstock
Aqueles que têm dificuldade para aprender por questões externas, como a metodologia do professor, a
relação com os colegas, a falta de técnica adequada, as condições socioeconômicas, entre outros
fatores.
/
Aqueles que têm dificuldade para aprender por questões neurológicas, geralmente inatas ou provocadas
por lesões.
2
Muitas pessoas já se fizeram este questionamento: Porque alguns alunos não conseguem
aprender determinado conteúdo ou desenvolver certa habilidade?
Este fato deve ser investigado com cuidado e a neurociência tem contribuído de maneira significativa
para auxiliar profissionais de educação e saúde na compreensão dos problemas de aprendizagem.
Muitos profissionais que lidam há décadas com alunos com dificuldades de aprendizagem sabem que,
por trás de cada sujeito, há um cérebro com um ritmo próprio e um estilo cognitivo muito particular, que
precisa ser levado em consideração, na medida do possível, quando o professor desenvolve seu
planejamento curricular.
 COMENTÁRIO
Sabemos que a aprendizagem como processo complexo não se resume ao mero armazenamento de
informações. É necessário o desenvolvimento da capacidade para processar e transformar o pensamento em
comportamento em prol de nossa sobrevivência.
/
DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM
Por dificuldades de aprendizagem, compreendemos as que têm origem externa ao sujeito, ou seja, que
não são fruto de lesão em alguma área cortical nem de problema genético. Na tabela abaixo listamos
algumas características das dificuldades de aprendizagem, confira:
CARACTERÍSTICAS DAS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM
O desempenho pode ser abaixo da capacidade cognitiva do sujeito.
As dificuldades podem apresentar-se maiores do que as geralmente enfrentadas pelos colegas de
classe, pois são mais resistentes ao esforço pessoal e dos professores em suas práticas. Neste
caso, podem levar a uma autoestima negativa.
Há a possibilidade de os profissionais estabelecerem um diagnóstico mais facilmente e, assim,
evitar problemas no futuro. 
Geralmente as dificuldades são passageiras e podem ser evitadas, modificando-se determinados
aspectos da cultura escolar ou da rotina da família ou do aluno.
TRANSTORNOS DE APRENDIZAGEM
Os transtornosde aprendizagem afetam diretamente as atividades acadêmicas, porém com sintomas
provenientes de alguma anomalia na organização das estruturas neurais. Diferentemente das
dificuldades, os transtornos de aprendizagem não são transitórios. Neste caso, o papel dos profissionais
de saúde e educação é melhorar a qualidade de vida dessas pessoas, minimizando os prejuízos
causados pela anomalia, para que tenham uma vida acadêmica eficiente.
Mas quais são os sintomas que sinalizam a possibilidade de um transtorno de aprendizagem?
Entre eles, podemos destacar os problemas para:
SINTOMAS SINALIZANTES DE TRANSTORNO DE APRENDIZAGEM
/
1. Ler as palavras de forma precisa ou realizar uma
leitura mais dinâmica — a pessoa parece muito lenta,
aquém do potencial de desenvolvimento.
4. Expressar-se na escrita.
2. Compreender o texto lido — a pessoa lê, mas não
consegue interpretar o que leu.
5. Dominar a leitura, a
interpretação e a manipulação de
números ou símbolos
matemáticos.
3. Escrever corretamente, adicionando ou omitindo letras
e fonemas.
6. Raciocinar.
Para serem avaliados, esses sintomas precisam ser recorrentes por, pelo menos, seis meses. Também
é preciso descartar outras causas externas que possam favorecer problemas cognitivos ou emocionais.
Além disso, as habilidades acadêmicas afetadas devem ser consideradas quantitativa e qualitativamente
abaixo do esperado, tendo em vista a idade cronológica do aluno. E o mais importante: a avaliação
deve ser realizada com testes padronizados e por uma equipe multidisciplinar, composta de
profissionais de saúde e educação, a fim de que o processo seja o mais amplo possível.
Considerando os avanços recentes no campo das neurociências, podemos estabelecer alguns princípios
para o desenvolvimento de estratégias que ajudem a minimizar os transtornos de aprendizagem
(ROTTA, 2016):
PRIMEIRO PRINCÍPIO
A aprendizagem é um processo social. A construção de um ambiente de aprendizagem positivo favorece
a interligação entre estruturas que são responsáveis pelo processamento da informação, bem como pelo
armazenamento e pelo controle das emoções, permitindo uma aprendizagem mais eficiente.
SEGUNDO PRINCÍPIO
O cérebro responde as informações capturadas pelos órgãos dos sentidos. Propiciar momentos em que
os alunos possam construir seu conhecimento com estratégias lúdicas favorece a fixação de informação
de maneira mais ampla.
TERCEIRO PRINCÍPIO
Ao contrário do que a literatura acreditava há décadas, aprendemos a vida toda. É necessário estudar
os períodos sensíveis, os marcos de desenvolvimento ou, ainda, as janelas de oportunidade. Porém,
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/
com o passar do tempo, nossa capacidade adaptativa parece diminuir. É mais fácil aprender um novo
idioma quando se é criança em relação a determinado período da idade adulta.
JANELAS DE OPORTUNIDADE
Períodos em que o cérebro humano está mais propenso a aprender determinadas habilidades.
QUARTO PRINCÍPIO
O cérebro humano percebe padrões enquanto testa hipóteses. Promover atividades que possam
incentivar essa possibilidade aumenta a ativação de áreas corticais responsáveis por inúmeras tarefas,
gerando neuroplasticidade e modificando aos poucos a estrutura e a fisiologia do cérebro com base na
experiência. Assim, quanto mais qualitativa for a experiência acadêmica em termos de conexão com a
realidade do aluno, mais áreas do cérebro serão ativadas e mais conexões serão estabelecidas.
Vamos agora conceituar os dois principais transtornos de aprendizagem encontrados no
ambiente escolar: dislexia e discalculia.
DISLEXIA
É um transtorno de aprendizagem relacionado à leitura que também afeta a escrita. A dislexia pode ser
mais facilmente detectada a partir do processo de alfabetização. Um dos principais sintomas observados
neste período é a dificuldade para soletrar letras.
Um leitor competente é aquele que usa as rotas lexical e fonológica como forma de processar o texto
(ROTTA, 2018). Podemos distinguir, ainda, dois tipos de dislexia: a dislexia fonológica, que atinge a
maioria das pessoas com este transtorno, e a dislexia semântica.
Estudos realizados nas décadas de 2000 e 2010 mostram algumas particularidades no cérebro do
disléxico. Sabemos que o cérebro normal responde aos estímulos do meio, porém parece que a
resposta do disléxico é mais lenta. Há pouca ativação de caminhos na parte posterior do lado esquerdo
do cérebro. Uma das consequências disso é que o cérebro tem problema para associar som e imagem,
dificultando a leitura.
Também constatamos que o cérebro do disléxico tem dificuldade de conectar as áreas de associação
visual com as áreas de linguagem, em especial as de Broca e Wernicke.
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/
Não há comprometimento físico na dislexia, e o transtorno contradiz todas as expectativas em relação à
criança. É necessário que pais e profissionais compreendam a importância do diagnóstico precoce para
minimizar danos no futuro.
ROTA LEXICAL
A rota lexical (leitura por localização) é utilizada para a leitura de palavras familiares,
armazenadas na memória por conta da experiência de repetição da leitura. Ao reconhecer a
palavra, o cérebro aciona o sistema semântico. Esse movimento permite compreender seu
significado, possibilitando produzir a pronúncia pelo sistema de produção fonológica.
ROTA FONOLÓGICA
A rota fonológica (leitura por associação) é utilizada para a leitura de palavras pouco frequentes
ou desconhecidas. Para ler essas palavras, o cérebro as divide em unidades menores (grafemos e
morfemas). Depois, associa essas unidades ao som correspondente. Em seguida, realiza a junção
de som e imagem, produzindo a pronúncia da palavra.
DISCALCULIA
Vem a ser um transtorno específico de aprendizagem relacionado ao desenvolvimento de habilidades
necessárias em várias situações que envolvem o uso de operações matemáticas. De acordo com a
literatura atual, podemos identificar seis tipos de discalculia. São eles:
Discalculia verbal: problema para nomear quantidades matemáticas;
Discalculia practognóstica: problema para enumerar, comparar, manipular objetos reais ou
imagens matemáticas;
Discalculia léxica: problema na leitura de símbolos matemáticos;
/
Discalculia gráfica: problema com a escrita de símbolos matemáticos;
Discalculia ideognóstica: problema com a compreensão de conceitos ou com a realização de
operações mentais;
Discalculia operacional: problema para realizar cálculos numéricos.
Como todo transtorno de aprendizagem, o diagnóstico e a intervenção necessitam de uma equipe
multidisciplinar que possa auxiliar na redução dos danos futuros, interferindo na jornada acadêmica e
sempre visando à melhoria da qualidade de vida do indivíduo. Os transtornos relacionados à leitura, à
escrita e a operações matemáticas são os que mais preocupam os profissionais de educação.
APRENDIZAGEM COMO PROCESSO DE INTEGRAÇÃO
CEREBRAL
A aprendizagem é um processo integrativo. A construção e a compreensão da realidade são produtos
dessa integração entre a mente e o corpo. Como ferramenta de organização das ideias e de
comunicação, o processo de desenvolvimento e de aquisição da linguagem implica o envolvimento de
diversas estruturas cerebrais. Áreas de processamento visuais altamente especializadas trocam
informações com outras áreas responsáveis pela decodificação e contextualização. Associamos som,
imagem e movimento para formar um nexo organizado em nossas mentes. Em resumo: O mundo
interno se conecta com o mundo externo para que possa haver, efetivamente, aprendizagem.
Trabalhar com alunos que não conseguem aprender exige uma visão integrada do potencial humano.
Não podemos nos concentrar apenas no trabalho realizado nos processos cognitivos. É importante,
também, focar no desenvolvimento afetivo construindo vínculos positivos que fortaleçam a estima do
sujeito. As intervenções precisam considerar um trabalho integrado que envolva o desenvolvimento das
funções motoras, cognitivas e psicossociais./
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. OS ESTUDOS DE LURIA CLASSIFICARAM VÁRIAS FUNÇÕES COGNITIVAS
QUE AJUDAM A IDENTIFICAR AS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM. ENTRE
ELAS, PODEMOS DESTACAR A LINGUAGEM, O RACIOCÍNIO E O JULGAMENTO.
SOBRE ESSAS FUNÇÕES, ESPECIFICAMENTE, PODEMOS AFIRMAR QUE:
I – ENTENDEMOS LINGUAGEM COMO UMA FACULDADE MENTAL QUE PERMITE
A COMUNICAÇÃO ENTRE INDIVÍDUOS SOCIAL.
II – PODEMOS DEFINIR JULGAMENTO COMO A CAPACIDADE DE, TENDO COMO
OBJETIVO CHEGAR A UMA CONCLUSÃO FRENTE A DETERMINADO
PROBLEMA, ARTICULAR PENSAMENTO E ESTRATÉGIAS.
III – CHAMAMOS RACIOCÍNIO A HABILIDADE QUE TEMOS DE, FRENTE A
QUESTÕES QUE NOS É IMPOSTA, TOMAR DETERMINADA DECISÃO.
DAS AFIRMAÇÕES ANTERIORES, PODEMOS CLASSIFICAR COMO
VERDADEIRA(S):
A) Somente a I
B) Somente a II
C) Somente a III
D) I e II
2. EM RELAÇÃO AOS TRANSTORNOS DE APRENDIZAGEM, É CORRETO
AFIRMAR QUE:
A) A dislexia é uma condição passageira.
B) Crianças com esses transtornos precisam de turmas especiais para dar conta das tarefas escolares.
C) Com tratamento adequado, a discalculia desaparece quando o sujeito entra na fase adulta.
D) Os principais transtornos encontrados no ambiente escolar estão relacionados aos problemas de
compreensão da linguagem e das operações matemáticas.
/
GABARITO
1. Os estudos de Luria classificaram várias funções cognitivas que ajudam a identificar as
dificuldades de aprendizagem. Entre elas, podemos destacar a linguagem, o raciocínio e o
julgamento. Sobre essas funções, especificamente, podemos afirmar que:
I – Entendemos Linguagem como uma faculdade mental que permite a comunicação entre
indivíduos social.
II – Podemos definir Julgamento como a capacidade de, tendo como objetivo chegar a uma
conclusão frente a determinado problema, articular pensamento e estratégias.
III – Chamamos Raciocínio a habilidade que temos de, frente a questões que nos é imposta,
tomar determinada decisão.
Das afirmações anteriores, podemos classificar como verdadeira(s):
A alternativa "A " está correta.
A afirmativas II e III aparecem invertidas. Afinal, de acordo com Luria, o raciocínio deve ser entendido
como a capacidade mental de estruturar o pensamento com vistas a um fim, chegando, assim, a uma
conclusão. Já o julgamento está relacionado à escolha, na forma de decisão, diante de situações que
nos são apresentadas.
2. Em relação aos transtornos de aprendizagem, é correto afirmar que:
A alternativa "D " está correta.
Os transtornos de aprendizagem são condições inatas (que nascem com a pessoa) e não têm cura,
embora, com intervenções adequadas, possamos minimizar os problemas apresentados pelos alunos.
Os transtornos específicos mais comuns são aqueles relacionados às competências leitoras e a
operações matemáticas.
MÓDULO 2
 Reconhecer a relação entre o conceito de inteligência e o desenvolvimento da leitura e do
raciocínio lógico em um contexto de ambiente escolar neurologicamente coerente
/
INTELIGÊNCIA
Não é fácil definir o conceito de inteligência. Ao estudarmos a história da ciência cognitiva de 1940 a
2020, é possível identificar mais de 70 conceitos, cujas características variam não apenas no tempo,
mas também de acordo com diferentes fatores sociais relacionados à diversidade cultural dos países
(PASQUALI, 2019).
Pesquisas mais recentes enfatizam o papel da aprendizagem, da cultura e da metacognição no
desenvolvimento deste conceito (ROTTA, 2018). O conceito de inteligência gerou uma infinidade de
estudos e debates na comunidade científica nas últimas décadas, mas é possível encontrar, pelo
menos, três elementos comuns presentes em todos eles:
METACOGNIÇÃO
Capacidade do indivíduo de identificar e acompanhar seu próprio processo cognitivo,
especificamente na aprendizagem. Embora este seja um conceito relativamente novo no âmbito
educacional, tem sua fonte na filosofia clássica. Aristóteles, por exemplo, em sua obra Peri Psique
(ou De Anima, na versão em latim), apresenta os processos de como ocorre o conhecimento na
mente.
1. O desenvolvimento da inteligência depende da habilidade de nos adaptarmos a diferentes situações
sociais.

2. A inteligência está associada à habilidade do sujeito em ter êxito ou algum tipo de ganho (físico,
cognitivo ou emocional) em relação a um objetivo pretendido.

3. A inteligência está diretamente vinculada à interação do sujeito com seu meio.
Nesse contexto, podemos “arriscar um conceito” de inteligência como a capacidade de aprender com
a experiência de vida, com o auxílio de processos metacognitivos, favorecendo uma
aprendizagem mais eficiente e ampliando nossa capacidade de adaptação a novos cenários.
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/
Percebemos que o desenvolvimento da inteligência é mais uma questão de estimulação e treinamento
do que uma questão de dom inato, como geralmente é reconhecido pelo senso comum. É importante
salientar que ser inteligente vai muito além de saber ler, escrever e fazer contas. Culturas e contextos
diversos podem exigir diferentes habilidades de adaptação.
Um breve olhar em bases de dados acadêmicas em diferentes contextos nos mostra que o conceito de
inteligência já esteve associado a diferentes pesquisas que relacionavam inteligência a noções como
gênero, estrutura escolar, capital cultural, alimentação, aspectos socioeconômicos etc. Atualmente, esse
conceito é mais amplo, e não mais associado apenas à capacidade de raciocínio lógico, à leitura e à
interpretação de textos.
Fonte: prostooleh / Freepik
 A inteligência se desenvolve por estimulação e treinamento
Como aqui o foco é a relação entre o conceito de inteligência e o processamento da leitura e do cálculo,
não vamos explorar outros elementos. Entretanto, é necessário deixar claro — e por isso repetimos —
que, na atualidade, o conceito de inteligência vai muito além do que a decodificação de letras e números
para a resolução de determinados problemas.
INTELIGÊNCIA E LEITURA
/
DE MANEIRA GERAL, A FUNÇÃO ESSENCIAL DO
CÉREBRO, COMO PARTE DO SISTEMA NERVOSO
CENTRAL, É DIRECIONAR A REGULAÇÃO DE GRANDE
PARTE DAS FUNÇÕES CORPORAIS E MENTAIS.
(LENT, 2019)
É necessário distinguir aqui dois tipos de funções: as cognitivas e as executivas. Elas merecem maior
aprofundamento em razão de sua importância para a neurociência cognitiva. Porém, no contexto de
nosso estudo, basta destacar o seguinte:
FUNÇÕES COGNITIVAS
Por meio destas funções, compreendemos os processos mentais que nos permitem ações como
recepção, seleção, armazenamento, processamento, organização e recuperação de informações que
possibilitam nossa sobrevivência e adaptação a diferentes situações sociais.
/
FUNÇÕES EXECUTIVAS
São funções mais complexas, responsáveis pela memória operacional e pelo planejamento de ações.
Elas também são responsáveis pelo raciocínio, pela abstração e pela inibição de comportamentos
indesejáveis.
Investigações no campo das ciências cognitivas demonstram que o desenvolvimento da faculdade
mental da linguagem no cérebro envolve um conjunto de áreas que atuam em um ritmo complexo, ao
mesmo tempo seriado e paralelo. As pesquisas dos anos 1980 a 2020 sobre a aprendizagem da leitura
apontam que este processo não é tão fácil quanto acreditávamos. Tanto que é possível encontrar
pessoas adultas alfabetizadas, mas que podem não conseguir compreender os rudimentos da língua.
 VOCÊ SABIA
Nosso cérebro parece altamente adaptado a uma prática que foi inventada há menos de 6.000 anos, este
fato é interessante – e, devemos reconhecer, maravilhoso ao mesmo tempo. Parece muito tempo, mas, em
termos biológicos, nosso genoma ainda não teve o tempo necessário para desenvolver circuitos cerebrais
inatos próprios à leitura.
Nada na evolução humana nos preparou para receber informações linguísticas a partir do uso do sentido
visual. A leitura é um dos exemplos de atividades culturais criadas pelos seres humanos ao longo dos últimos
milênios.
/
Uma das questões mais interessantes no que se refere à aprendizagem de leitura é que o ser humano
precisaadaptar seu cérebro para compreender e representar o mundo à sua volta a partir da leitura e do
raciocínio lógico.
A aprendizagem depende do desenvolvimento de uma estrutura cerebral adequada. Afinal, o cérebro
reage de maneira plástica aos estímulos do meio e às atividades propostas no ambiente escolar.
Estímulos provenientes do meio levam o cérebro a desenvolver novas sinapses, possibilitando o sujeito
a estabelecer novas conexões entre objetos de conhecimento (leitura ou escrita) em diferentes
contextos (CHAVES, 2017). Sabemos que a estrutura cerebral sofre modificações constantes pelas
inúmeras estimulações às quais o corpo é submetido em diferentes situações sociais. Como o
funcionamento intelectual não possui uma localização específica, a inteligência, dessa forma, é produto
do funcionamento de sistemas cerebrais interconectados.
Estudos recentes da imagem cerebral, relacionados à organização cerebral dos circuitos de linguagem,
demonstram que nosso cérebro tem uma capacidade limitada em relação à neuroplasticidade, pelo
menos no que se refere à linguagem (DAHAENE, 2012).
Esse pressuposto quebra o mito de um cérebro infinitamente maleável quanto à aprendizagem da
língua. E não importa se estamos falando da língua portuguesa ou japonesa. O circuito de linguagem é o
mesmo, independentemente da cultura. Hoje utilizamos o modelo de reciclagem neuronal.
Consideramos que nossa arquitetura neuronal é estreitamente enquadrada por limites genéticos. Dessa
forma, podemos afirmar que nosso cérebro não é uma tábula rasa, onde podemos acumular
experiências oriundas de nossas interações sociais.
Nosso cérebro é um órgão estruturado em bases genéticas milenares que se adaptam aos estímulos a
cada geração. Um bom exemplo disso pode ser encontrado em nossa relação com as tecnologias. Há
poucas décadas, não tínhamos internet, cinema 3D, livros digitais, realidade aumentada.
Então, há diferenças entre o cérebro anterior a esses avanços tecnológicos e o de hoje?
De acordo com algumas pesquisas, em termos genéticos, praticamente nenhuma. A grande diferença
está em nossa capacidade de adaptação às tecnologias de nosso tempo. De 1980 a 2020, a ciência
cognitiva procurou compreender quais são os mecanismos neurais que envolvem o desenvolvimento de
estruturas e permitem ao cérebro humano ler e interpretar os diferentes signos.
/
freepik / Freepik
 Processo de leitura
Diante de tudo o que já estudamos, cabe aqui a seguinte pergunta: Como ocorre o processo de
leitura?
A leitura começa no olho a partir do contato visual. Diferentes regiões do cérebro estão encarregadas de
decodificar os distintos estímulos visuais, como cor, forma e profundidade. Associamos estas imagens
com os sons e o movimento das letras. Então, para ler uma simples palavra, é necessário um trabalho
complexo que envolve a integração de som, imagem e movimento, além de regiões do cérebro
responsáveis pela associação de emoções. Em seguida diferentes áreas do córtex cerebral que são
responsáveis por distintas etapas do processo de leitura, são ativadas, garantindo a coordenação entre:
A chegada dos impulsos sensoriais.

A decodificação desses impulsos.

Por fim ocorre a associação até que haja uma resposta motora
A esse processo de leitura, chamamos de funções nervosas superiores, desempenhadas pelo córtex
cerebral.
Mais uma vez, é bom ter clareza de que este é um assunto complexo e que merece aprofundamento.
Porém, nas perspectivas de nosso estudo, apresentaremos as funções nervosas segundo cada parte do
cérebro, veja a seguir:
/
Assim, a interpretação de textos está associada a dois processos: o acesso lexical e a integração de
significados de acordo a informação textual. O cérebro possui áreas específicas para captação
visual, decodificação, processamento de contexto, entre outras funções. A compreensão dos processos
relacionados ao desenvolvimento funcional das diferentes regiões anatômicas do cérebro com a leitura e
a interpretação de textos, assim como sua organização cognitiva, pode auxiliar diretamente nas práticas
de formação de leitores desenvolvidas nas instituições escolares. Ainda há muito a ser estudado em
ciência cognitiva, mas um dos consensos que podemos destacar em relação aos diferentes modelos
sobre como realizamos o ato de ler é que este depende de processos perceptivos, cognitivos e
linguísticos.
INTELIGÊNCIA E MATEMÁTICA
Tanto no processamento neural da leitura quanto no cálculo, várias áreas e diversos mecanismos
cognitivos são envolvidos de maneira complexa. Mesmo nas operações matemáticas mais simples, é
possível identificar vários mecanismos cognitivos em atividade, tais como:
MECANISMOS COGNITIVOS
Processamento verbal e gráfico.
Percepção.
Reconhecimento e representação de números e símbolos.
/
Memória.
Discriminação visuoespacial.
Raciocínio.
Atenção.
Pesquisas com animais demonstram que, embora em menor grau de complexidade, as habilidades
matemáticas não são exclusivas dos seres humanos. Mas, diferente das habilidades de leitura, as
matemáticas são inatas. Diversas investigações constatam que algumas capacidades, como a
habilidade para quantificar e distinguir, podem ser encontradas em crianças com meses de idade.
Estudos de Jean Piaget demonstram que as habilidades matemáticas são desenvolvidas a partir de
algumas funções cerebrais, como memória de curto e longo prazos, orientação espacial e raciocínio
lógico.
JEAN PIAGET (1896-1980)
Pai do construtivismo, teoria segundo a qual o estudante – no caso, a criança – traz consigo
informações fundamentais para seu próprio desenvolvimento cognitivo a partir das relações
com o ambiente externo. No construtivismo, a vivência e o processo de construção que o
aluno faz inter-relacionando os diversos conceitos é o que o leva à aprendizagem.
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Fonte: Universidade de Michigan / Wikimedia
 Jean Piaget
Pesquisas mais recentes com neuroimagem comprovam que seres humanos possuem áreas
específicas para aprendizagem da matemática. Muitos casos vinculados às dificuldades de
aprendizagem da matemática demonstram que estas, em especial, têm uma relação muito maior com
questões socioemocionais e pedagógicas do que com questões neurológicas.
De 1970 a 2020, a ciência cognitiva avançou consideravelmente em relação aos estudos sobre a
construção numérica e determinadas operações matemáticas no cérebro. Esses estudos chegaram às
seguintes conclusões:
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Font: Anasta_Rass / Shutterstock
Entre o final do primeiro ano de vida e o início do segundo, a criança tem o potencial necessário
para discriminar sequências numéricas crescentes e decrescentes.
Font: greenland / Shutterstock
Por volta dos dois anos de vida, a criança pode realizar correspondência um a um com tarefas
compartilhadas.
CORRESPONDÊNCIA UM A UM
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/
Capacidade da criança de perceber, por exemplo, que, da mesma forma que sua mãe coloca um
sapato em cada um dos pés, ela pode realizar a mesma ação, mas com seus próprios sapatos.
Font: freepik / Freepik
Aos três anos de idade, a criança pode contar um pequeno número de objetos.
Flamingo Images / Shutterstock
Entre o quarto e o quinto ano, a criança tem potencial para usar os dedos, a fim de contar e somar
pequenos números.
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Font: pvproductions / Freepik
Aos seis anos, a criança pode apresentar conservação de conceitos numéricos.
Sergey Nivens / Shutterstock
Aos sete anos, a memória da criança permite que ela se lembre de alguns fatos numéricos
/
pressfoto / Freepik
Depois dos 11 anos de idade, aproximadamente, a criança/o jovem desenvolve o pensamento abstrato,
que será muito importante para a realização de várias operações matemáticas.
Outra questão interessante em relação aos estudos oriundos das ciências cognitivas é a afirmação de
que os sistemas de alfabetização e construção numérica apresentam conexões à leitura da escrita. A
leitura numérica está subordinada a processos semelhantes do circuito de alfabetização.Várias áreas cerebrais participam no desenvolvimento do raciocínio lógico:
Áreas de processamento visual;
Processamento espacial;
Linguagem;
Memória;
Sequenciação;
Noção de espaço e volume;
Planejamento de ações; e
Conceituação abstrata.
/
Neste caso, um dos princípios da compreensão biopsicogenética do ser humano é conceber a
aprendizagem como uma mudança de comportamento, produto da experiência não de uma região
específica, mas de várias que envolvem um processamento complexo da informação de aspectos
sensoriais, neurológicos e psicológicos. E aqui também vale a seguinte afirmação:
Aprendizagem e emoção caminham juntas.
Estudos recentes demonstram que muitas dificuldades de aprendizagem referentes ao desenvolvimento
da matemática estão relacionadas a práticas pedagógicas que não favorecem um clima positivo para a
aprendizagem desses conceitos. Quanto mais próximos da realidade do aluno, maiores são as chances
de compreensão e fixação de conteúdos aos esquemas mentais do aluno. Afinal, uma abordagem lúdica
favorece o desenvolvimento das operações mentais.
É necessário modificar uma visão muito presente no senso comum de que não aprendemos
matemática por não termos o dom. Neste exato momento, muitos professores em diferentes
realidades educacionais estão aceitando o desafio de tentar desmitificar essa visão com o uso de
metodologias de ensino mais lúdicas e contextualizadas à realidade de seus alunos. Emoções negativas
em relação ao objeto de estudo estão entre os fatores que podem, de alguma forma, prejudicar a
aprendizagem do aluno. Portanto, é necessário criar um clima agradável se queremos auxiliar no
desenvolvimento das funções e estruturas corticais responsáveis pela aprendizagem do raciocínio
lógico.
EDUCAÇÃO E NEUROCIÊNCIAS
De todos as atividades humanas, talvez a mais interdisciplinar seja a educação, compreendida como um
processo de formação mediado por inúmeros sujeitos e instrumentos ao longo da socialização. Entre as
possíveis disciplinas que estabelecem vínculos com os processos de ensino e aprendizagem formais,
aos quais recorremos na atualidade, sem dúvida, as neurociências estão entre as que mais auxiliam
educadores e alunos.
O avanço dos estudos sobre o cérebro – principalmente o cérebro humano – tem grande impacto social
em diferentes áreas de conhecimento. Em especial, os estudos sobre o funcionamento do cérebro
podem auxiliar gestores e professores na construção de ambientes de aprendizagem mais eficientes.
Estabelecer uma ponte entre as ciências da educação e as ciências da saúde é essencial para
compreender as relações entre a aprendizagem humana e o funcionamento do organismo. Diante disto,
qual a importância da neurociência no processo de educação? Podemos pontuar o seguinte:
As neurociências auxiliam na valorização de novos papéis a professores e alunos para a construção de
um novo ambiente de aprendizagem, marcado pelo foco na aprendizagem do aluno e tendo o professor
como um facilitador do processo. As escolas precisam desenvolver propostas educacionais voltadas à
/
formação de um aluno que constrói conhecimento e resolve problemas em diferentes áreas a partir de
inúmeras estratégias.
As neurociências apresentam uma visão ampla do ser humano baseada no desenvolvimento do cérebro
como uma estrutura que processa a informação recebida pelo organismo a partir de diferentes canais. O
ensino diversificado e calcado no desenvolvimento de habilidades é uma de suas metas.
 ATENÇÃO
Introduzir as neurociências no campo educacional não resolve todos os problemas de aprendizagem, porém
pode contribuir para solucionar inúmeros deles, além de mudar os processos de avaliação de alunos. Ao
implementar as neurociências como fundamento para a construção de ambientes de aprendizagem,
podemos, de maneira objetiva, explicar, desenvolver novos modelos e descrever os mecanismos neuronais
que sustentam o desenvolvimento e a aprendizagem em seus atos perceptivos, cognitivos e motores.
AMBIENTE ESCOLAR E NEUROEDUCAÇÃO
Uma das primeiras contribuições da neurociência aplicada à educação é a compreensão de que
aprender é muito mais que absorver, de maneira mecânica, as informações que a escola apresenta ao
aluno.
O ato de aprender exige uma rede de operações complexas que envolvem processos neurofisiológicos e
neuropsicológicos. Considerando este cenário, um dos papéis essenciais da escola é contribuir para o
desenvolvimento das funções mentais básicas que levem a funções mentais superiores. Pensar dessa
forma altera drasticamente o papel de professores, alunos, pais e gestores e a própria configuração
tanto do espaço escolar quanto do currículo praticado nesses ambientes. Muitos são os fatores que
podemos considerar do ponto de vista das neurociências, quando afirmamos que o aprendizado
acontece no cérebro. Separamos três fatores que precisam ser levados em consideração neste
momento:
O DESENVOLVIMENTO DO APRENDIZ
Desde o século XIX, a ciência moderna oferece subsídios que auxiliam na modelagem de processos
educacionais com base em evidências científicas. Ao longo de décadas de estudo, diferentes fatores
foram enfatizados, quando diversas áreas do saber científico tentaram explicar qual é a melhor forma de
ensinar as gerações presentes.
/
Em determinado momento, cientistas acreditaram que algumas habilidades eram inatas. Em outro
período, que o professor era a o responsável pelo sucesso do aluno. Nas demais ocasiões, o ambiente
escolar foi identificado como a chave para a aprendizagem do aluno.
Atualmente, entendemos que todos esses fatores influenciam, em maior ou menor escala, o
desenvolvimento e a aprendizagem. Quando olhamos para o aluno do ponto de vista das ciências da
saúde, aprendemos que é necessário compreender os diferentes domínios que envolvem o processo de
desenvolvimento. Esse domínios são: Domínio físico, domínio cognitivo e Domínio psicossocial.
Repetimos que os atos de ensinar e aprender são carregados de componentes emocionais do
comportamento humano (FONSECA, 2012). A forma como estabelecemos vínculos com outras pessoas
e como lidamos com nossas emoções é fundamental para a aprendizagem. Sem o devido equilíbrio
emocional, o processo de aprendizagem pode não acontecer da melhor maneira.
DOMÍNIO FÍSICO
Aquele que se refere, por exemplo, ao crescimento do corpo, aos marcos do desenvolvimento
motor, ao crescimento do cérebro e ao amadurecimento de determinadas estruturas cerebrais.
DOMÍNIO COGNITIVO
Refere-se ao desenvolvimento dos esquemas mentais, das funções psicológicas superiores, das
funções executivas, tais como atenção, memória e linguagem, entre outras funções diretamente
ligadas ao ato de compreender o mundo a nossa volta.
DOMÍNIO PSICOSSOCIAL
Refere-se ao desenvolvimento e ao controle das emoções (bem como à forma com que as usamos
em nossas relações com outras pessoas) e à criação de vínculos, estabelecendo controle da
ansiedade e do estresse, por exemplo.
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/
Os três domínios apresentados estão inter-relacionados no processo de desenvolvimento. Não é
possível aprender de maneira eficiente sem a integração entre os domínios físico, cognitivo e
psicossocial.
AS ESTRATÉGIAS DO PROFESSOR
As neurociências também demonstram que diferentes alunos possuem distintos estilos de
aprendizagem. Esta informação é essencial para professores. Diferentes sujeitos necessitam de uma
diversidade de formas de apresentação do conteúdo para aprender. Por isso, é importante levar em
consideração a forma como as relações sociais auxiliam no desenvolvimento do domínio cognitivo dos
alunos.
Todo ser humano precisa de estímulo como combustível para seu desenvolvimento. Podemos observar
essa organização nos movimentos, na forma de pensar, nas relações, no controle das emoções etc.
As neurociências auxiliam o professor a ver o aluno como um ser integral, fruto de um complexo
processo de formação humana. Conhecer o funcionamento docérebro e como este se desenvolve ao
longo de determinado período de tempo auxilia o professor a compreender as possíveis dificuldades de
aprendizagem que o aluno pode enfrentar em seu cotidiano. Se, de um lado, é necessário pensar nas
características de quem aprende; do outro, é preciso focar nas características de quem ensina. Um dos
grandes erros que muitos gestores cometem é não considerar a importância da formação continuada de
seus professores. Ao pensarmos em ambientes de aprendizagem e práticas pedagógicas, é necessário
ter em mente que o professor é um facilitador da aprendizagem, compreendida como um processo de
mudança potencial dos esquemas mentais e do comportamento do aluno.
ESTILOS DE APRENDIZAGEM
Formas preferenciais do sujeito para captar as informações do meio e processá-las a partir da
conexão entre diferentes estruturas cerebrais.
A ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO FÍSICO
Outro ponto central é a forma como o ambiente físico ou virtual é apresentado aos alunos. É importante
que os alunos sejam submetidos a diferentes estímulos ao longo do período em que frequentam uma
instituição de educação formal. Quanto maior for a qualidade e a diversidade das atividades oferecidas,
maiores são as chances de o aluno desenvolver uma plasticidade neural que permita um pensamento
mais amplo em relação aos problemas propostos.
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/
Porém diversidade não significa excesso de atividades. É preciso saber dosar entre quantidade e
qualidade quando propomos diferentes atividades para os alunos. Nesse mesmo sentido, pensando
exatamente na saúde mental do aluno: é necessário equilibrar o tempo das atividades com
intervalos que permitam o descanso necessário entre elas.
Os alunos precisam de um tempo entre uma aula e outra ou de intervalos regulares para organizar o que
foi apresentado. A sobrecarga que hoje vemos em alguns sistemas educacionais pode dificultar a
aprendizagem, gerando um clima de ansiedade acima do limite de muitos alunos. Percebemos, portanto,
que mais do que possuir um espaço físico amplamente diversificado, o que é proveitoso para a
aprendizagem é sua plena utilização, no contexto da neuroeducação.
Diante do exposto, é possível perceber que as neurociências vieram para auxiliar os profissionais de
educação a estabelecer um elo entre diferentes correntes de pensamento, antes separadas em teorias
que valorizavam aspectos isolados do processo de aprendizagem. É preciso conectar as teorias para
compreender, de maneira mais ampla, o processo de ensino e aprendizagem. Nesse sentido, tanto as
ciências humanas quanto as ciências da saúde tiveram de rever seus conceitos sobre o processo de
aprendizagem, definido como aquele em que o sujeito busca estratégias para estar e se manter inserido,
de maneira saudável, em determinado meio.
O papel da escola é auxiliar no desenvolvimento de competências e habilidades, bem como das
estruturas cognitivas, para que o aluno seja capaz de resolver problemas em diferentes níveis. A
introdução de informações acerca da estrutura e do funcionamento do cérebro possibilita um novo olhar
em relação à organização do espaço escolar e dos papéis de professores e alunos.
AMBIENTES DE APRENDIZAGEM MAIS
EFICIENTES
As tentativas de criar ambientes de aprendizagem centrados em conhecimentos das neurociências
ganharam fôlego maior a partir do final da década de 1990 em diferentes países, como parte da
/
disseminação dos estudos, uma década antes, em áreas como Neuroanatomia, Neurofisiologia e
Neuropsicologia (ROTTA, 2016; LENT, 2019). Portanto, cabe interrogar:
Quais são as etapas necessárias para a construção de um ambiente de aprendizagem com base em
fundamentos neurocientíficos?
As neurociências não são utilizadas para criar algo novo, mas para ressignificar o que muitos
professores já desenvolvem em seus espaços de atuação. Conceitos como avaliação diagnóstica,
planejamento e feedback ganham novos olhares quando associados às informações de outros
campos, em especial o campo das neurociências. Abordaremos agora esses conceitos, veja abaixo:
AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA
Historicamente, professores utilizam esta ferramenta para avaliar o conhecimento dos alunos antes da
introdução de conceitos novos ou no começo de uma nova etapa letiva. Ao incorporar a neurociência ao
conceito de avaliação diagnóstica, acrescentamos informações importantes.
Quando estudam o funcionamento do cérebro, educadores podem avaliar os conhecimentos e as
habilidades prévias necessárias ao desenvolvimento de determinadas tarefas. Como exemplo, podemos
verificar os níveis de determinadas funções mentais, físicas e psicossociais.
PLANEJAMENTO
O planejamento das atividades docentes também ganha novos olhares. Da Educação Infantil ao Ensino
Superior, sabemos que a diversidade e a complexidade das atividades podem favorecer o
desenvolvimento da neuroplasticidade dos alunos. Diferentes atividades são capazes de beneficiar a
construção continuada, o aprimoramento de esquemas e habilidades, e o desenvolvimento de
inteligências múltiplas.
As estratégias que crianças e adultos utilizam para memorizar, conceituar e resolver problemas são
inúmeras e dependem, também, de vários fatores. Diversificar as estratégias de apresentação do
conteúdo utilizadas pelos docentes é uma forma de valorizar as diferentes inteligências apresentadas
pelos sujeitos.
No planejamento, precisamos incentivar a competência adaptativa dos alunos. Dessa forma,
estimulamos a flexibilidade de pensamento para a resolução de problemas. Compreender a forma como
o aluno organiza e processa a informação é tão ou mais importante que saber o resultado correto. São
muitos os conceitos que têm relação direta com a ciência cognitiva, como aprendizagem ativa,
aprendizagem centrada no aluno, aprendizagem significativa, metodologias ativas etc.
Quando refletimos sobre o planejamento das ações pedagógicas, é necessário ter em conta a
diversidade de formas viáveis para apresentar um conteúdo à turma, considerando as possibilidades
para captação da informação a partir dos diferentes sentidos, como visão, audição e tato.
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/
COMPETÊNCIA ADAPTATIVA
Capacidade de reconhecer que algumas formas de organização do conhecimento são melhores
que outras.
FEEDBACK
O feedback representa a participação do aluno no processo de avaliação ao qual determinada atividade
está submetida. Isso auxilia sua metacognição. Aqui, um ponto que merece destaque é a avaliação,
entendida e apresentada como um processo transplante àquele que será avaliado. Não é possível
pensar em ambientes de aprendizagem com base nas neurociências e ter a avaliação centrada apenas
em uma parte do desenvolvimento, que é a cognitiva.
Historicamente, nosso sistema educacional não auxiliou muitas gerações a compreender a avaliação
como uma parte positiva do processo de ensino e aprendizagem. Mesmo na atualidade, ainda é possível
encontrar diferentes realidades em que alunos e professores veem a avaliação com desconfiança.
Se o desenvolvimento é visto como um processo com múltiplos domínios, a avaliação também precisa
ser múltipla, diversificada, contínua. Nela, o sujeito tem a possibilidade de testar suas habilidades
físicas, cognitivas e psicossociais.
 ATENÇÃO
Nenhum dos domínios que envolvem o processo de desenvolvimento são superiores. Cada um é importante
nesse processo.
Um ambiente de aprendizagem saudável é aquele preparado para fornecer estímulos que permitam o
desenvolvimento de modificações na estrutura cerebral dos alunos, favorecendo a neuroplasticidade de
maneira positiva. Num ambiente sadio há um clima acolhedor. A escola tem de desafiar o aluno, mas
também ser um lugar de construção de vínculos positivos.
/
Fonte: freepik / Freepik
 Legenda da imagem
Outro fator fundamental é a linguagem empregada pelo professor nos processos de ensino e
aprendizagem. Cada faixa etária possui um nível de compreensão diferente. A linguagem pode
facilitar ou dificultar a aprendizagem.Muitos alunos no Ensino Superior apresentam dificuldades de compreensão do conteúdo por não
dominarem um capital cultural mínimo que possa estruturar a organização e o processamento das
informações pertinentes a determinada disciplina. Neste momento, é necessário que as instituições de
nível superior construam estratégias para auxiliar seus alunos, como programas de reforço e
atendimento psicopedagógico, por exemplo.
Como já vimos anteriormente, as neurociências demonstram que devemos criar situações que possam
facilitar o desenvolvimento da aprendizagem não apenas de conteúdo, mas também de habilidades e
funções cognitivas. Retomando as principais funções cognitivas apresentadas no Módulo 1, podemos
destacar:

ATENÇÃO
Como vimos, a atenção está relacionada à capacidade que o indivíduo possui de focar a mente em
algum aspecto, seja do ambiente, seja de algum conteúdo ou da própria mente, no caso das estratégias
metacognitivas. Sem atenção, não há formação da memória; e sem memória, não há aprendizagem.
/
Quanto maior for a duração de uma atividade, maior será o risco de dispersão da atenção por parte dos
alunos.
MEMÓRIA
Já sabemos que a memória está diretamente relacionada à compreensão e à tomada de decisão em
relação ao mundo à nossa volta. Quanto mais forte for a emoção associada a determinado evento,
maiores serão as chances de fixação e evocação do evento.
Atividades lúdicas favorecem o desenvolvimento da memória. Aprender um novo conteúdo é apenas o
início do desafio educacional. O grande salto está em desenvolver estratégias adequadas para fixação e
evocação de conteúdos e habilidades.


FUNÇÃO TÁTIL-CINESTÉSICA
Esta função se refere à nossa capacidade de utilizar o tato no reconhecimento de objetos e sensações
sem a necessidade da visão. Seu desenvolvimento é uma das bases essenciais da Educação Infantil,
fase em que os professores podem desenvolver atividades as mais lúdicas possíveis, especialmente nos
processos de alfabetização.
LINGUAGEM
A função superior da linguagem deve ser compreendida como aquela que permite ao sujeito decodificar,
compreender e organizar símbolos e signos verbais e não verbais, a fim de analisar o mundo à sua volta
e de se comunicar de maneira adequada com diferentes grupos sociais.
/
A linguagem é considerada a função que realmente separa os seres humanos de outros animais. Por
isso assume papel de destaque, quando pensamos na criação de ambientes escolares eficientes
(DAHAENE, 2012).

Um ambiente de educação que se baseia nas informações oriundas da ciência cognitiva, em especial
das neurociências, deve priorizar a autoria do aluno, a troca de saberes entre diferentes atores, a
avaliação integral, um planejamento adequado aos diferentes estilos de aprendizagem, entre outros
fatores, como forma de construção de uma aprendizagem significativa.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. O CONCEITO DE INTELIGÊNCIA TEM SUSCITADO DEBATES EM DIFERENTES
CAMPOS DE PESQUISA NAS ÚLTIMAS DÉCADAS. SOBRE ESSE CONCEITO,
ASSINALE A ALTERNATIVA CORRETA:
A) A inteligência é um substrato cortical inato e não passível de mudança pelos meios convencionais.
B) O raciocínio lógico é uma característica dos alunos mais inteligentes.
C) A inteligência não está relacionada às condições socioeconômicas do sujeito.
D) A inteligência está relacionada à nossa capacidade de resolver problemas cotidianos.
2. ATUALMENTE, AS NEUROCIÊNCIAS OCUPAM CERTO DESTAQUE NO
CENÁRIO EDUCACIONAL PELAS POSSIBILIDADES IDENTIFICADAS POR
MUITOS PESQUISADORES EM RELAÇÃO À COMPREENSÃO DOS PROCESSOS
DE ENSINO E APRENDIZAGEM. COM BASE NESTA AFIRMAÇÃO, ASSINALE A
ALTERNATIVA CORRETA:
A) As neurociências representam uma verdadeira revolução e salvação para os sistemas educacionais.
B) A introdução das neurociências no campo educacional não representa mudanças significativas nesse
contexto.
/
C) Somente psicólogos escolares podem se beneficiar da aplicação das neurociências na escola.
D) As neurociências contribuem para a mudança de olhar em relação ao processo de aprendizagem do
aluno.
GABARITO
1. O conceito de inteligência tem suscitado debates em diferentes campos de pesquisa nas
últimas décadas. Sobre esse conceito, assinale a alternativa correta:
A alternativa "D " está correta.
Uma das maneiras de conceituar a inteligência é associá-la a um conjunto de operações mentais que
nos permite solucionar nossos problemas cotidianos. Ela envolve percepção, raciocínio, memória, entre
outras operações mentais.
2. Atualmente, as neurociências ocupam certo destaque no cenário educacional pelas
possibilidades identificadas por muitos pesquisadores em relação à compreensão dos processos
de ensino e aprendizagem. Com base nesta afirmação, assinale a alternativa correta:
A alternativa "D " está correta.
A grande contribuição que as neurociências podem trazer para o campo educacional em geral – e,
portanto, não somente para psicólogos que atuam na área – é dar o enfoque necessário ao processo de
aprendizagem. Nesse sentido, ela pode trazer mudanças significativas, como a reestruturação de
modelos de avaliação que persistem há décadas. Nem por isso, pode receber sozinha a
responsabilidade e o peso de uma transformação tão profunda na educação.
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os conhecimentos oriundos do campo da Neuropsicologia favorecem um olhar interdisciplinar do
processo de aprendizagem. Dessa forma, profissionais de educação podem desenvolver práticas que
promovam o desenvolvimento dos alunos com maior eficiência. O grande desafio neste campo hoje é
/
diagnosticar e minimizar os problemas relacionados à vida acadêmica, para que os indivíduos tenham
mais qualidade de vida no futuro.
Como vimos, a neurociência pode auxiliar o professor na elaboração de estratégias de aprendizagem
que proporcionem o desenvolvimento da inteligência, da linguagem e do raciocínio lógico. Aproveitar os
conhecimentos oriundos do campo das neurociências contribui para um novo olhar em relação às
práticas pedagógicas. Consequentemente, por meio da compreensão da estrutura e do funcionamento
do cérebro, é possível tornar as práticas pedagógicas mais eficientes.
REFERÊNCIAS
CHAVES, A. P. R. A neurobiologia do aprendizado na prática. Brasília: Alumnus, 2017.
DAHAENE, S. Os neurônios da leitura: como a ciência explica nossa capacidade de ler. Porto
Alegre: Penso, 2012.
FERGUSON, S. Donald Olding Hebb. [S. l.]: Associação Canadense de Neurociências, [20--].
FONSECA, V. da. Manual de observação psicomotora. Rio de Janeiro: Wak, 2012.
LENT, R. O cérebro aprendiz. Rio de Janeiro: Atheneu, 2019.
METRING, R.; SAMPAIO, S. (orgs.). Neuropsicopedagogia e aprendizagem. Rio de Janeiro: Wak,
2011.
PASQUALI, L. Os processos cognitivos. São Paulo: Vetor, 2019.
PACHALSKA, M.; KACZMAREK, B. L. J. Alexander Romanovich Luria (1902-1977) and the
microgenetic approach to the diagnosis and rehabilitation of TBI patients. Acta Neuropsychologica,
v. 10. n. 3, p. 341-369, 2012.
ROTTA, N. T. (org.). Transtornos da aprendizagem: abordagem neurobiológica e multidisciplinar.
Porto Alegre: Artmed, 2016.
ROTTA, N. T. Neurologia e aprendizagem: abordagem multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2018.
/
RUIZA, M.; FERNÁNDEZ, T.; TAMARO, E. Biografia de Carl Wernicke. En Biografías y Vidas. La
enciclopedia biográfica en línea. Barcelona, 2004.
SABBATTINI, R. M. E. A história da psicocirurgia. Paul Pierre Broca: uma breve biografia. Revista
Cérebro & Mente, n. 2, jun. 1997.
VELASQUES, B. B.; RIBEIRO, P. Neurociências e aprendizagem. Rio de Janeiro: Rubio, 2014.
EXPLORE+
Pesquise e leia o seguinte artigo: SOUSA, A. M. O. P. de; ALVES, R. R. N. A neurociência na
formação dos educadores e sua contribuição no processo de aprendizagem. Revista
Psicopedagogia, v. 34, n. 105, p. 320-331, 2017.
Pesquise os trabalhos do professor Pierluigi Piazzi, cujos vídeos podem ser encontrados em
plataformas como YouTube.
Confira a Palestra de Dra. Lara Bloyd, em TEDxVancouver sobe Neuroplasticidade,e veja como
alguns pontos de nosso estudo são também apresentados por ela.
Conheça o Canal YouTube da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia e aproveite as preciosas
contribuições ao tema estudado.
CONTEUDISTA
Marcos Antonio Silva
 CURRÍCULO LATTES
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