Prévia do material em texto
Gestão de Recursos Humanos Módulo 5.2 Gestão de recursos humanos A gestão estratégica de pessoas é construída em função dos objetivos estratégicos da organi- zação e operacionalizada através do alinhamento dos processos de recrutamento, seleção, treinamento, desenvolvimento, avaliação de desempenho, gestão de carreira e remuneração. Desenhados de forma interdependente e sinérgica, os proces- sos do sistema de gestão de pessoas devem produzir resultados que agreguem valor efetivo às competências dos colaboradores e da organização, contribuindo para a manutenção e a melhoria da competitividade da empresa. Na Unidade 1, vamos estudar a evolução da gestão de pessoas. Na Unidade 2, serão abordados os conceitos básicos de planejamento de pessoas. Na Unidade 3, serão detalhados os elementos do sistema de recrutamen- to e seleção. Na Unidade 4, serão apresentados os conceitos principais do sistema de treinamento e desenvolvimento. Na Unidade 5, trataremos do sistema de remuneração. Na Unidade 6, vamos discutir sobre o processo de manutenção de pessoas. Na Unidade 7, aprenderemos sobre os principais mecanismos de avalia- ção de desempenho. Na Unidade 8, discutiremos sobre o sistema de gestão de carreira. Na Unidade 9, vamos estudar sobre o processo de gestão estratégica de pessoas. Bons estudos! Profa. Dra. Lesley Carina do Lago Attadia Galli A pr es en ta çã o 20 Gestão de recursos humanos U ni da de 1 U ni da de 1 Evolução da gestão de pessoas Gestão de pessoas é a função gerencial que tem como objetivo incentivar à cooperação das pessoas que atuam nas organizações para o alcance dos objetivos tanto organizacionais quanto individuais (GIL, 2001). Nesta unidade estudaremos a evolução da gestão de pesso- as. Vamos lá? Objetivos da sua aprendizagem Nesta unidade temos os seguintes objetivos de aprendizagem a alcançar: • Conhecer as contribuições das Escolas de Administração para a ges- tão de pessoas; • Identificar as transformações ocorridas no processo de gestão de pes- soas, caracterizando cada uma de suas fases; e • Reconhecer a importância estratégica do processo de gestão de pessoas. Você se lembra? Será que todas as organizações atuais valorizam seus empregados e têm um modelo de gestão de pessoas estruturado e coerente ao negócio no qual a organização está inserida? Infelizmente essa não é uma realidade que pode ser generalizada para todas as empresas! Ainda hoje, muitas organizações tratam seus cola- boradores como um recurso sem a mínima importância. Você conhece alguma empresa assim? Tenho certeza de que conhe- ce várias delas. 22 Gestão de recursos humanos Todas essas mudanças tinham como foco o aumento da eficiência da organização, com base no aumento da produtividade e da capacidade de produção dos produtos oferecidos, a fim de que a em- presa estivesse apta a atuar dentro do sistema capitalista (CERTO, 2003). 1.1 Contribuições das Escolas de Administração para a Gestão de Pessoas A gestão de pessoas é, sem dúvida alguma, o grande diferencial das organizações que desejam manter sua competitividade no mercado atualmente. Mas nem sempre foi assim. Como você já deve ter aprendido, a visão e a forma de gerenciar o trabalho das pessoas na organização vêm evoluindo paralelamente às mudanças de paradigma trazidas pelas Esco- las da Administração. Vamos fazer um pequeno resgate das contribuições das escolas da administração para entender como elas influenciaram a evolução da ges- tão de pessoas? Relembrando as Teorias da Administração, você deve se lembrar de que a Escola da Administração Científica, cujo principal expoente foi Taylor, trouxe para as empresas uma série de inovações do ponto de vista técnico: divisão do trabalho das pessoas em etapas, padronização das atividades executadas na produção do produto, simplificação dos movimentos requeridos pelo trabalhador para a execução de determinada tarefa, estabelecimento de um tempo padrão para realização de cada atividade, definição de uma meta de pro- dução para cada trabalhador, melhoria dos métodos e das ferramentas de trabalho (MAXIMIANO, 2006). Seguindo a linha de pensamento de Taylor, Ford reforçou a produti- vidade e a eficiência como dimensões competitivas es- senciais para as empresas. Por meio de suas contribuições, permitiu que as organizações levassem ao extremo a busca pela redução de custos e pelo aumento da capacidade de produção. Criou o sistema de produção em massa, que até hoje é utilizado por muitas empresas (RIBEIRO, 2003). Para conseguir produzir em grande quantidade e com custos muito reduzidos, possibilitando a oferta de produtos com preço mais baixo ao Evolução da gestão de pessoas - Unidade 1 23 Evolução da gestão de pessoas - Unidade 1 mercado, Ford investiu na especialização total do trabalho, fazendo com que cada empregado executasse uma única tarefa e trabalhasse numa posi- ção fixa dentro da linha de produção, eliminando todo desperdício de tem- po, com a criação da linha de montagem móvel (MAXIMIANO, 2006). Cr éd it os : J oh n Fo xx / st oC kb yt e / G et ty im aG es Além disso, Ford simplificou as peças utilizadas na montagem do automóvel, tornando-as padronizadas e intercambiáveis, ou seja, possí- veis de ser substituídas, reduzindo, assim, o número de automóveis defei- tuosos ao final do processo produtivo (CERTO, 2003). Fayol teve uma visão mais holística da organização do que Taylor e Ford, contribuindo com ideias relacionadas à estrutura da organização. Primeiramente, identificou que a administração era uma função distinta das demais realizadas pela organização, devendo ser executada com base em cinco processos básicos: planejamento, organização, coordenação, di- reção e controle (MAXIMIANO, 2006). Posteriormente, preocupado com a adequada execução da função administração nas organizações, Fayol definiu os princípios e os deveres dos gerentes. Como consequência, “o pensar” foi separado do “fazer”, ou seja, a organização foi dividida em dois grupos distintos de empregados: os gerentes – que planejavam, organizavam, dirigiam e controlavam – e os tra- balhadores operacionais – que executavam as atividades e eram compelidos a alcançarem as metas da organização (LACOMBE; HEILBORN, 2003). Você percebeu como a gestão de pessoas era precária na fase clássica da administração? A visão empresarial era mecanicista, ou seja, a organização era administrada como se fosse uma máquina, e os trabalhadores eram mais uma “peça” da engrenagem para fazer a má- quina funcionar de forma eficiente (MORGAN, 2000). Evolução da gestão de pessoas - Unidade 1 24 Gestão de recursos humanos O trabalhador era “descartável” em função do baixo nível qualifica- ção (só sabia fazer uma tarefa) e do desconhecimento do processo produ- tivo como um todo (alienação). Assim, quando não mais conseguia alcan- çar as metas de produtividade impostas pela organização ou adoecia, por motivos muitas vezes relacionados às condições insalubres de trabalho, era desligado da empresa, sem nenhum direito assegurado, e substituído por outro empregado (MOTTA; VASCONCELOS, 2002). Além disso, o empregado era pouco valorizado em termos de remu- neração e cumpria uma jornada de trabalho bastante longa e exaustiva, ge- ralmente em torno de 12 horas diárias ou até mais (MAXIMIANO, 2006). O panorama em relação à gestão de pessoas começou a mudar com o advento da Escola das Relações Humanas, que era contemporânea à Escola Clássica e tinha como principal objetivo valorizar o empregado e melhorar as condições do ambiente de trabalho. Dentre as conquistas da respectiva escola destacam-se a redução da jornada de trabalho para 8 horas diárias e a garantia de um ambiente de trabalho em melhores condições: com mais luminosidade, com menos ruídos e mais limpo (RIBEIRO, 2006). m ed io im aG es / Ph ot od is C / G et ty im aG es Vale também destacar que, nessa época, houve o fortalecimento dossindicatos, que, desde então, passaram a lutar pela conquista de direitos trabalhistas (MOTTA; VASCONCELOS, 2002). Você pode considerar que as empresas começaram a se preocupar com as pessoas no ambiente de trabalho a partir do surgimento da Escola das Relações Humanas, mas é importante lembrar que os fatores psicoló- gicos e sociais no trabalho somente passaram a ser considerados como um aspecto importante da administração a partir da descoberta da influência do fator psicológico na produtividade da organização, por meio da pesquisa realizada pelo professor e pesquisador Elton Mayo (MARRAS, 2000). 25 Evolução da gestão de pessoas - Unidade 1 Esse estudo marca o surgimento da Escola Comportamental, que parte da premissa de que a produtividade e o desempenho das organiza- ções dependem muito mais do comportamento das pessoas no trabalho do que dos métodos, das ferramentas e das técnicas voltados à eficiência, como era pregado pela Escola Clássica (MAXIMIANO, 2006). Embora hoje essa constatação seja óbvia para nós, essa “nova” for- ma de olhar para o desempenho da organização detonou, na época, uma série de pesquisas e estudos sobre o assunto, além de modificar a forma como as organizações vinham administrando as pessoas até então. Vale destacar que os conceitos trazidos pela Escola Comportamen- tal não alteraram a estrutura do modelo de produção construído por Ford e Taylor, porém contribuíram para modificar as atitudes dos administra- dores em relação aos trabalhadores, bem como a forma de os gerentes desempenharem seu papel. As contribuições da Escola das Relações Humanas e do Enfoque Comportamental provocam uma harmonização na relação capital/trabalho e começam a despertar, em muitas organizações, a consciência da neces- sidade de investir nos seus funcionários. Rapidamente, a partir dos anos 1930, as ideias da Escola Compor- tamental foram incorporadas à educação formal, bem como à dinâmica gerencial de muitas empresas. Com a consolidação dos conceitos do Enfoque Comportamental, os temas relacionados à valorização das relações humanas no trabalho entra- ram na pauta das atividades a serem desempenhadas pelos gerentes para melhorar a produtividade dos empregados. Ao mesmo tempo, vários desses temas passaram a ser pesquisados em profundidade pela academia, destacando-se entre eles: trabalho em equipe, comunicação, motivação, liderança, negociação, gestão de confli- tos, entre outros. Tenho certeza de que você identificou pelo menos um benefício! Vamos comentar sobre alguns deles: • Os conceitos derivados da Escola Comportamental auxiliaram as organizações a pensarem sobre como o comportamento individu- al do trabalhador poderia ser induzido ao alcance dos objetivos e das metas da organização; • Outro ponto que passou a ser discutido pelos gerentes é a in- fluência dos grupos formais e informais sobre o trabalho dos indivíduos; 26 Gestão de recursos humanos • Finalmente, as empresas passaram a observar como os diferentes estilos de liderança impactavam a relação entre os gerentes e os subordinados e, consequentemente, influenciavam a produtivida- de individual e coletiva. Naturalmente, essas mudanças não ocorreram do dia para a noite: elas aconteceram, gradualmente, à medida que os conhecimentos sobre o comportamento das pessoas no trabalho foram avançando e sendo incor- porados pelas empresas. O resultado de toda essa mudança de paradigma em relação à va- lorização das pessoas no trabalho você pode ver hoje através da difusão de uma série de métodos e técnicas que são aplicados pelas organizações para obterem maiores e melhores resultados na gestão de pessoas. Continuando nossa retrospectiva sobre as contribuições das Escolas da Administração na evolução da gestão de pessoas, observa-se que todas as escolas que surgiram após o Enfoque Comportamental não deixaram de levar em conta a importância do fator humano nos resultados produzidos pela organização. A Escola Japonesa de Administração, que criou e, posteriormente, di- fundiu para o mundo o Modelo Toyota de Produção, baseou-se no investimen- to em trabalho em equipe para implantar com sucesso o just-in-time e a produ- ção flexível, que são métodos fundamentais para a eliminação de desperdícios e a redução de custos no processo de produção (MAXIMIANO, 2006). A Escola da Qualidade, contemporânea ao Toyotismo, destacou a importância da capacitação dos empregados em conhecimentos sobre qualidade e no uso de ferramentas para eliminar as causas verdadeiras dos problemas de produção, permitindo à organização ser mais eficiente, em termos de custos mais baixos e maior produtividade, bem como possibili- tou à empresa ser capaz de produzir produtos com mais alto nível de qua- lidade. Além disso, essa escola teve um papel fundamental na demonstra- ção do quanto as pessoas são essenciais no processo de melhoria contínua do desempenho da organização (CERTO, 2003). Já o Enfoque Sistêmico trouxe nova perspectiva sobre o comporta- mento das pessoas no trabalho, dinamizando sua atuação. Ao demonstrar a influência do ambiente empresarial no desempenho da organização, e vice- -versa, o Enfoque Sistêmico ressalta a necessidade da empresa em desen- volver sua capacidade de adaptação às mudanças (MAXIMIANO, 2006). 27 Evolução da gestão de pessoas - Unidade 1 Consequentemente, isso implica em investir no aprimoramento de habi- lidades e comportamentos, que permitam aos empregados atuarem de forma eficiente e eficaz dentro desse novo contexto de trabalho, destacando-se entre eles a iniciativa, a flexibilidade, o jogo de cintura, a criatividade, a pró-ativi- dade na busca de soluções para os problemas organizacionais e o comprome- timento em relação ao alcance dos objetivos e das metas da organização. Fl yi nG C ol ou rs lt d / P ho to di sC / Ge tt y im aG es Outra contribuição do Enfoque Sistêmico é a disseminação da visão “cliente-fornecedor” interno. Por meio dela, as organizações conseguiram enxergar que a empresa é um sistema, formado por departamentos e/ou áreas organizacionais que são interdependentes e que necessitam trabalhar de forma integrada para que os resultados almejados pela empresa sejam alcançados (MAXIMIANO, 2006). Para isso é preciso desenvolver entre os empregados uma postura colaborativa, no que diz respeito ao fornecimento de informações e à rea- lização adequada das atividades, evitando-se erros desnecessários na exe- cução dos processos, falhas de comunicação que impactam negativamente o fluxo de trabalho entre os departamentos/áreas organizacionais e falta de informações consistentes para a tomada de decisão. O Enfoque Sistêmico trouxe, ainda, o conceito de sinergia para a gestão de pessoas, explorando a ideia de que o trabalho em equipe exe- cutado de forma efetiva traz resultados maiores e melhores no que diz respeito ao desempenho da organização do que a simples soma dos resul- tados individuais do trabalho (MAXIMIANO, 2006). Finalizando a nossa retrospectiva, a Escola da Aprendizagem vem reforçar que a relação empresa-empregado, que é um processo dinâmico de troca de conhecimentos, ou seja, tanto o empregado aprende com a organização, como ela é modificada pelas contribuições dos empregados. Isso leva as empresas a desenvolver mecanismos formais de retenção e de 28 Gestão de recursos humanos disseminação dos conhecimentos, fundamentais para a organização man- ter sua competitividade no mercado (MORGAN, 2000). Enfim, terminamos a nossa retrospectiva sobre as contribuições das Escolas da Administração na evolução da gestão de pessoas. Você per- cebeu como cada enfoque foi fundamental para a formação dos conheci- mentos que temos hoje sobre o tema? Para facilitar o processo de assimilação dessas informações, o qua- dro a seguir faz uma síntese do que nós já discutimos até o momento. Quadro: Contribuições das Escolas da Administração para a Evolução da Gestão de Pessoas Escola da Admi- nistração Contribuições paraa Gestão de Pessoas Clássica • Melhorias técnicas na organização do trabalho para obter maior eficiência e produtividade. • Taylor: divisão do trabalho, padronização das atividades, simplificação dos movimentos, tempo padrão para cada ati- vidade, definição de uma meta de produção para cada traba- lhador, melhoria dos métodos e das ferramentas de trabalho. • Ford: realização do trabalho em uma posição fixa, através da linha de montagem móvel • Fayol: princípios e deveres dos gerentes Relações Humanas • Jornada de trabalho fixada em 8 horas diárias • Ambiente de trabalho em melhores condições: mais lumino- sidade, menos ruídos, mais limpo. • Fortalecimento dos sindicatos, que passaram a lutar pela conquista de direitos trabalhistas. Comportamental • Fatores psicológicos e sociais passam a ser considerados no trabalho. • Influência do fator psicológico na produtividade. • Produtividade depende muito mais do comportamento das pessoas do que dos métodos. • Influência do comportamento individual no trabalho • Influência dos grupos formais e informais • Influência dos estilos de liderança na relação entre os geren- tes e os subordinados e na produtividade. • Pesquisas sobre trabalho em equipe, comunicação, motiva- ção, liderança, negociação, gestão de conflitos. 29 Evolução da gestão de pessoas - Unidade 1 Modelo Japonês • Investimento no trabalho em equipe para implantar com su- cesso o just-in-time e a produção flexível. Qualidade • Capacitação dos empregados em conhecimentos sobre qua- lidade e no uso de ferramentas para eliminar as causas dos problemas. • As pessoas são essenciais para a implantação do processo de melhoria contínua. Enfoque Sistêmico • Comportamento das pessoas no trabalho deve ser mais di- nâmico, em função das mudanças. • Aprimoramento de habilidades e comportamentos dos cola- boradores adequados à mudança: iniciativa, flexibilidade, jogo de cintura, criatividade, pró-atividade e comprometimento. • Influência da visão “cliente-fornecedor” interna, na realiza- ção do trabalho de forma interdependente e integrada. • Desenvolvimento de postura colaborativa, no que diz res- peito ao fornecimento de informações, à realização das ativi- dades, à melhor comunicação entre os departamentos/áreas organizacionais. • Importância da sinergia no trabalho em equipe. Aprendizagem Organizacional • Relação empresa-empregado é um processo dinâmico de troca de conhecimentos. • Criação de mecanismos formais de retenção e de dissemi- nação dos conhecimentos. Fonte: Elaborado pela autora com base na revisão teórica apresentada no item. Após conhecer as contribuições das Escolas da Administração na evolução da gestão de pessoas, no próximo item você terá a oportuni- dade de entender como a área de gestão de pessoas evoluiu ao longo do tempo. 1.2 Evolução da área de Gestão de Pessoas A área de Gestão de Pessoas tem como objetivo principal admi- nistrar as relações da organização com as pessoas que a compõem, con- sideradas, hoje em dia, parceiras do negócio, e não mais meros recursos empresariais (RIBEIRO, 2006). A área de gestão de pessoas evoluiu de acordo com as necessidades das organizações e ganhou importância, ao longo do tempo, na medida em que o pensamento em Administração reconheceu a relevância das pessoas 30 Gestão de recursos humanos na construção das capacidades organizacionais, fundamentais para a com- petitividade da empresa. Este item apresenta a evolução histórica da área de gestão de pesso- as, que passou por várias fases e recebeu diferentes nomenclaturas. Estudar a evolução da gestão de pessoas do ponto de vista histórico possibilita entender o contexto em que as mudanças re- lacionadas à administração de pessoas ocorreram, bem como permite identificar os fatores que contribuíram para a formação de cada uma das fases. Apenas para sua orientação, são identificadas até o momento 5 fases da gestão de pessoas: • Administração de Pessoal; • Departamento Pessoal; • Administração /Departamento de Recursos Humanos; • Gestão de Pessoas; • Gestão Estratégica de Pessoas. Cada uma delas é detalhada a seguir. 1.3 Administração de Pessoal Até a década de 1930, em termos organizacionais, não havia um departamento para cuidar das atividades relacionadas à gestão de pessoas. Na verdade, a função Administração de Pessoal era uma das atribuições da área de Contabilidade da empresa e basicamente envolvia a conferên- cia dos registros das horas trabalhadas, das faltas e dos atrasos dos empre- gados para efeito de pagamento ou de desconto (GIL, 2001). O principal objetivo era manter o controle da produtividade e emitir corretamente a folha de pagamento dos empregados (MARRAS, 2000). 31 Evolução da gestão de pessoas - Unidade 1 Observe que essa fase da gestão de pessoas coincide com a es- cola clássica, na qual o empregado era visto como um mero recurso produtivo da organização. A preocupação era fazer com que os traba- lhadores alcançassem as metas de produção, sem a mínima preocupa- ção com as condições de trabalho e a saúde do trabalhador. Quando um empregado deixava de “ser produtivo”, era automaticamente desligado da organização e rapidamente substituído por outro. Você percebeu como a gestão de pessoas era precária nessa fase? Ser em- pregado nessa fase não era uma posição confortável, não é mesmo? 1.4 Departamento de Pessoal Entre as décadas de 1930 e 1950, vários direitos foram conquistados pelos trabalhadores em função da atuação efetiva dos sindicatos, sendo criadas leis e normas jurídicas para balizar a relação capital/trabalho (MAXIMIANO, 2006). Dentro desse novo contexto, atividades de caráter jurídico foram incorporadas à função Administração de Pessoal, exigindo que esta fosse desempenhada por um profissional especializado que tivesse domínio sobre as leis e os procedimentos trabalhistas (GIL, 2001). Nesse momen- to, a respectiva função foi elevada ao status de Departamento de Pessoal (MARRAS, 2000). O Departamento de Pessoal tinha como objetivo cuidar de todos os aspectos administrativos e jurídicos referentes ao empregado. Dentre as responsabilidades do Departamento de Pessoal destacam- -se: cuidar dos processos de admissão e demissão de funcionários, verifi- car se o horário de trabalho estabelecido por lei está sendo efetivamente 32 Gestão de recursos humanos cumprido pelos empregados, acompanhar o registro de faltas, atrasos e realização de horas extras, programar e controlar as férias dos empre- gados, controlar as solicitações de adiamento salarial efetuadas pelos empregados, verificar se as leis trabalhistas estão sendo efetivamente cumpridas por todos os departamentos da empresa, emitir o relatório de folha de pagamento, informar os valores a serem pagos/descontados a cada empregado ao Departamento Financeiro e enviar informações sobre a folha de pagamento e encargos sociais para registro pela Contabilidade (PASCHOAL, 2001). Essa mudança de status para Departamento de Pessoal também ocorreu nas organizações brasileiras, que naquele momento estavam ab- sorvendo as leis e os procedimentos formalizados pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), documento regulamentado durante o governo Getúlio Vargas (GIL, 2001). Observe que, naquela fase, a gestão de pessoas já está mais estrutu- rada, mas somente o lado administrativo é desenvolvido, ficando de fora os aspectos humanos do trabalho! 1.5 Administração e/ou Departamento de Recursos Humanos Entre as décadas de 1950 e 1960, as organizações passaram a valo- rizar as relações humanas e sociais no trabalho, graças às contribuições do Enfoque Comportamental, da Escola Japonesa, da Escola da Qualidade e do Enfoque Sistêmico (MARRAS, 2000). Além dos aspectos jurídicos e administrativos referentes à adminis- tração dos direitos e dos deveres dos empregados, as empresas passaram a estruturar, ainda que de forma precária, os processos de recursos huma- nos, destacando-se: recrutamento, seleção, treinamento, desenvolvimento, avaliaçãode desempenho, carreira e remuneração (GIL, 2001). Assim, a nomenclatura Departamento de Pessoal deixou de expres- sar a real essência das atividades da área organizacional, sendo, então, substituída por Administração de Recursos Humanos ou Departamento de Recursos Humanos (MARRAS, 2000). O Departamento de Recursos Humanos também tinha como atribui- ção gerenciar a relação da empresa com os sindicatos, buscando negociar os reajustes salariais, de forma a minimizar o impacto destes na folha de pagamento da empresa (PASCHOAL, 2001). 33 Evolução da gestão de pessoas - Unidade 1 Observa-se um salto em termos de agregação de valor das con- tribuições da área organizacional para a melhoria do desempenho da empresa, uma vez que o Departamento de Recursos Humanos passa a executar atividades de caráter tático para a organização, fornecendo infor- mações para a alta administração tomar decisões e auxiliando os demais departamentos a administrar suas necessidades e problemas em relação aos empregados, através da prestação de serviços de recrutamento e sele- ção, treinamento e desenvolvimento, avaliação de desempenho e elabo- ração de sistema de remuneração (RIBEIRO, 2006). 1.6 Gestão de Pessoas A partir dos anos 1980, o panorama competitivo torna-se mais tur- bulento em função da globalização e da mudança de perfil do consumidor, que passa a comportar-se de forma muito mais exigente em relação à sa- tisfação de suas necessidades (DRUCKER, 1995). Isso implica na realização de uma mudança cultural nas organiza- ções, redefinindo o conjunto de crenças e valores, que passam a valorizar a agilidade, a iniciativa, a prestabilidade, a qualidade e a cortesia no aten- dimento de forma a satisfazer o cliente e manter sua posição competitiva (MAXIMIANO, 2006). Dentro desse contexto, o ambiente de trabalho torna-se mais partici- pativo e o empregado passa a ser visto como um parceiro da empresa em relação ao alcance dos objetivos e das metas organizacionais (GIL, 2001). Há um esforço efetivo por parte da organização em compartilhar com os empregados suas novas crenças e valores, de forma que eles se compro- metam com os resultados a serem atingidos (ROBBINS, 2002). Assim, a expressão Administração ou Departamento de Recursos Humanos torna-se inadequada para expressar a nova forma de lidar com as pessoas nas organizações, surgindo, assim, a expressão Gestão de Pes- soas para designar a área (RIBEIRO, 2006). Os defensores dessa mudança de nomenclatura ressaltam, ainda, que o termo Administração / Departamento de Recursos Humanos é muito restritivo, pois implica na percepção das pessoas apenas como recurso, e como tal devem ser administradas através de uma política que procure obter a máxima produtividade delas (GIL, 2001). 34 Gestão de recursos humanos Vistas como recurso, há uma tendência de considerar as pessoas que trabalham na empresa como parte do patrimônio dela (LACOMBE; HEILBORN, 2003). Já o termo Gestão de Pessoas é mais amplo, pois procura enfatizar o lado “parceiro” das pessoas que trabalham nas organizações, colocando seus conhecimentos e suas habilidades à disposição da empresa para o al- cance dos objetivos e das metas. Além disso, essas pessoas agem de forma comprometida em prol do crescimento e do desenvolvimento da organiza- ção (GIL, 2001). Ph ot od is C im aG es Seguindo esse raciocínio, a nomenclatura empregado/funcioná- rio também não expressa de forma adequada o novo papel das pessoas que trabalham nas organizações como parceiras de negócio da empresa (MARRAS, 2000). Assim, é designada nova nomenclatura para esses trabalhadores, que passam a ser chamados de colaboradores (RIBEIRO, 2006). 1.7 Gestão Estratégica de Pessoas A partir da década de 1990, o ambiente empresarial torna-se ainda mais turbulento em termos competitivos, dificultando a sobrevivência das organizações. Somente por meio da criação de uma vantagem competi- tiva sustentável é possível às empresas manterem-se vivas no mercado (PRAHALAD; HAMEL, 1990). A criação de uma vantagem competitiva sustentável é pautada pela capacidade da organização em identificar, explorar e cultivar suas competências essenciais (PRAHALAD; HAMEL, 1990), que podem ser desenvolvidas por meio da diferenciação no mercado através de múltiplos fatores de desempenho, destacando-se entre eles: custo, qualidade, rapi- dez, flexibilidade e inovação (MUSCAT; FLEURY, 1993). 35 Evolução da gestão de pessoas - Unidade 1 Assim, a gestão estratégica de pessoas deve identificar e suprir as capacida- des organizacionais em termos de competências dos colaboradores (conhe- cimentos, habilidades e atitudes), capazes de colocar em prática os fatores de desem- penho de diferenciação competitiva e de estabelecer estratégias sustentáveis para o negócio no qual a empresa está inserida (LUCENA, 1995). Dentro desse contexto, a gestão de pessoas é elevada ao nível estra- tégico, tendo como objetivo primordial abastecer as competências essen- ciais da organização, contribuindo di- retamente para a manutenção de sua vantagem competitiva no mercado (DUTRA, 2004). Uma vez que os co- nhecimentos, as habilidades e as atitudes dos colabora- dores alimentam o desen- volvimento das capacidades da organização (DESSLER, 2003), estes são considerados o capital intelectual do negócio e, portanto, um ativo estratégico (MILKOVICH; BOUDREAU, 2000). As pessoas são depositárias do patrimônio intelectual da empresa, da capacidade e da agilidade de resposta da organização aos estímulos do ambiente, bem como da capacidade de identificação e exploração de oportunidades (DUTRA, 2004). Para isso, as políticas e as práticas de gestão de pessoas devem ser definidas com foco na construção de competências individuais, que por sua vez alimentam as capacidades críticas organizacionais (FLEURY; FLEURY, 2004). Pode-se dizer, então, que o grande desafio da gestão estratégica de pessoas, atualmente, é desenvolver um modelo no qual os processos de recursos humanos (recrutamento, seleção, treinamento, desenvolvimen- to, avaliação de desempenho, carreira e remuneração) sejam capazes de criar e manter o comprometimento de seus colaboradores em relação aos objetivos e às metas da organização; isso só será possível se esse modelo for configurado de tal forma que as pessoas percebam nitidamente que sua relação com a empresa lhes agrega valor (DUTRA, 2004). Desde então, comenta-se, tanto no meio acadêmico quanto no âmbi- to empresarial, a respeito da necessidade de rever a efetividade estratégica de conceitos, políticas, métodos e técnicas de gestão de pessoas, bem como discute-se sobre a configuração de modelos de gestão estratégica de pessoas que melhor atendam às necessidades da empresa, no que tange à criação e ao aprimoramento das capacidades organizacionais. 36 Gestão de recursos humanos Nesse sentido, surge o modelo de gestão por competências como uma proposta con- creta para atender a essa demanda organiza- cional, uma vez que apresenta nova forma de pensar estrategicamente sobre a gestão de pessoas, bem como de operacionalizar os respectivos processos (DUTRA, 2004). 1.8 A área de Gestão de Pessoas Atualmente, muitas companhias reconhecem a importância do pes- soal na realização de seus objetivos. A administração de RH, portanto, deve equilibrar duas responsabilidades principais: • ser um parceiro estratégico nos negócios; • ser um representante dos empregados. A administração de recursos humanos é a parte da organização que trata da dimensão “pessoas” (LACOMBE, 2005). Decenzo e Robbins (2001) constatam que a administração de recursos humanos pode ser considerada por um dos dois modos: pela função de apoio aos funcioná- rios à organização e também como uma função a ser exercida por todos os administradores de todas as áreas. Afinal, os administradores de cada um dos setores de uma organização também gerenciam pessoas. Assim, o setor de RH necessariamente funciona interligadoàs de- mais áreas da empresa. O RH sozinho não toma decisões: elas são toma- das em conjunto com os demais departamentos da organização. Para que uma medida seja adotada, o RH precisa da colaboração e da integração de todos os demais departamentos. A administração de recursos humanos é uma área extremamente sensível à mentalidade que predomina nas organizações. Por isso, ela é contingencial e situacional, dependendo da cultura existente nas organiza- ções e da estrutura organizacional adotada. Para saber mais sobre gestão de pessoas, acesse o site http://www.rh.com.br/ 37 Evolução da gestão de pessoas - Unidade 1 O setor de Recursos Humanos tem seis principais atribuições nas organizações, como pode ser visto na Figura a seguir. 1. Agregar 6. Monitorar 2. Aplicar 3. Recompensar 4. Desenvolver 5. Manter Figura: seis funções principais da administração de recursos humanos Fonte: decenzo e robbins (2001, p. 5) Como a figura evidencia, o processo todo se autoalimenta: ou seja, de acordo com as necessidades da organização, o setor de Recursos Humanos irá desenvolver estratégias para o acompanhamento dessas necessidades. Assim, os processos não têm um ponto final: são constantemente revalorizados e desenvolvidos. Essas seis principais funções podem ser assim descritas (DECEN- ZO, ROBBINS, 2001): 1. Processos de agregar pessoas: são os processos utilizados para incluir novas pessoas na empresa. São as funções de recrutamento e seleção de pessoas. 2. Processos de aplicar pessoas: são os processos utilizados para de- senhar as atividades que as pessoas irão realizar na empresa. São as funções de descrição e análise de cargos. 3. Processos de recompensar pessoas: são os processos utilizados para incentivar as pessoas e satisfazer suas necessidades individuais 38 Gestão de recursos humanos mais elevadas. São as funções responsáveis pelas recompensas e pela remuneração de funcionários. 4. Processos de desenvolver pessoas: são os processos utilizados para capacitar e incrementar o desenvolvimento profissional e pessoal dos funcionários. São as ações de treinamento e desenvolvimento de pessoas. 5. Processo de manter pessoas: são os processos utilizados para criar condições ambientais e psicológicas satisfatórias para as atividades das pessoas (higiene e segurança no trabalho, clima e cultura orga- nizacionais). 6. Processos de monitorar pessoas: são os processos utilizados para acompanhar e controlar as atividades das pessoas e verificar resulta- dos. São os processos de avaliação de desenvolvimento e de comu- nicação entre a empresa e o funcionário. Atividades 01. Durante o período da Escola Clássica, é possível afirmar que existia um processo de gestão de pessoas? Justifique sua resposta. 02. Como as contribuições do Enfoque Comportamental influenciaram na criação da área de Administração de Recursos Humanos? 03. Como a Escola da Aprendizagem Organizacional pode ajudar na im- plantação de um modelo estratégico de gestão de pessoas? 39 Evolução da gestão de pessoas - Unidade 1 04. Caracterize as fases da gestão de pessoas: administração de pessoal, departamento de pessoal, departamento de recursos humanos, gestão de pessoas e gestão estratégica de pessoas. 05. Quais benefícios podem ser obtidos por uma empresa que decida apli- car a Gestão Estratégica de Pessoas? 06. Com base nos conhecimentos obtidos sobre as fases da área de gestão de pessoas, em qual delas você classificaria o RH de sua empresa? Justifi- que sua resposta. Reflexão A gestão de pessoas sofreu muitas alterações nos últimos anos, a fim de que as empresas pudessem desenvolver suas atividades e alcançar seus objetivos, dentro do contexto empresarial no qual estavam inseridas. É um processo complexo e dinâmico que exige planejamento das políticas e das práticas a serem implantadas, a fim de que estas valorizem os talentos da organização e ao mesmo tempo gerem comprometimento 40 Gestão de recursos humanos por parte dos colaboradores no que diz respeito ao alcance das metas e dos objetivos da organização. A evolução da área de gestão de pessoas está relacionada não só com a evolução do pensamento em Administração, mas também reflete as necessidades da organização no que diz respeito às mudanças do ambiente competitivo. Para auxiliá-lo na assimilação das informações sobre a evolução histórica da gestão de pessoas, o quadro a seguir apresenta uma síntese sobre o assunto. Quadro: Evolução Histórica da Gestão de Pessoas Fase Principais características Administração de pessoal • Função executada pela contabilidade. • Pessoas são consideradas um recurso da organização. • Conferência dos registros das horas trabalhadas, das faltas e dos atrasos dos empregados para efeito de pagamento ou de desconto. • Controle da produtividade. • Emissão da folha de pagamento. Departamento de pessoal • Status de área organizacional. • Cuidar dos aspectos administrativos e jurídicos referentes ao empregado. • Cuidar dos processos de admissão e demissão de funcionários. • Verificar se o horário de trabalho está sendo efetivamente cumprido. • Acompanhar o registro de faltas, atrasos e realização de ho- ras extras. • Programar e controlar as férias dos empregados. • Controlar as solicitações de adiamento salarial. • Verificar se as leis trabalhistas estão sendo efetivamente cumpridas. • Emitir o relatório de folha de pagamento. • Informar os valores a serem pagos/descontados ao Financeiro. • Informar registros para Contabilidade 41 Evolução da gestão de pessoas - Unidade 1 Administração e/ou departamento de recursos humanos • Valorização das relações humanas no trabalho. • Estruturação dos processos de recursos humanos: recruta- mento, seleção, treinamento, desenvolvimento, avaliação de desempenho, carreira e remuneração. • Relacionamento e negociações com os sindicatos. • Fornecimento de informações para a alta administração to- mar decisões. • Auxílio aos demais departamentos em relação às necessida- des e aos problemas com os empregados. Gestão de pessoas • Ambiente de trabalho mais participativo. • Empregado passa a ser visto como um parceiro da empresa. • Esforço efetivo por parte da organização em compartilhar com os empregados suas crenças e seus valores. • Esforço da empresa para que os empregados se comprome- tam com os resultados a serem atingidos. • Empregados colocam à disposição da empresa seus conhe- cimentos e suas habilidades para o alcance dos objetivos e das metas. • Empregado passa ser chamado de colaborador. Gestão estratégica de pessoas • Alinhar as competências individuais às capacidades organi- zacionais e às competências essenciais da organização. • Identificar e suprir as capacidades organizacionais. • Desenvolver as competências dos colaboradores. • Colaboradores são considerados o capital intelectual do ne- gócio. • Modelo estratégico de gestão de pessoas deve ser capaz de reter talentos e comprometer colaboradores. • Empresa deve agregar valor efetivo ao colaborador. • Modelo de gestão por competências como uma proposta con- creta para a gestão estratégica de pessoas. • Ênfase na criação e no aprimoramento dos processos de re- crutamento e seleção, treinamento e desenvolvimento, avalia- ção de desempenho, gestão de carreira e remuneração. Fonte: Elaborado pela autora com base na revisão teórica apresentada no item. 42 Gestão de recursos humanos Assim, atualmente a área de gestão de pessoas deve selecionar, capacitar e reter colaboradores comprometidos com os objetivos da orga- nização e capazes de colocar suas competências em ação para encontrar soluções efetivas para os problemas enfrentados pela organização, criar produtos e serviços inovadores e gerar resultados sustentáveis, mantendo a competitividade da organização (DUTRA, 2004). A área de gestão de pessoas deve ter uma visão de prestadora de serviços à organização, buscando criar, atualizar e manter um sistema de gestão de pessoas adequado aos objetivos empresariais eàs suas relações com o ambiente (DESSLER, 2003). Além disso, deve assegurar um ambiente de trabalho seguro e ade- quado ao colaborador e atuar corretivamente em relação às demais áreas organizacionais quando estas extrapolam o nível de pressão e cobrança por resultados pelos colaboradores (RIBEIRO, 2006). Para atuar com sucesso na área de gestão de pessoas, o profissional deve não só ter domínio dos conceitos, dos métodos e das técnicas ineren- tes aos processos da área (administração de pessoal, recrutamento, sele- ção, treinamento, desenvolvimento, avaliação de desempenho, carreira e remuneração), como também deve ter uma visão holística das demais áre- as da administração (estratégia, marketing, desenvolvimento de produtos, produção, logística, pós-vendas, tecnologia de informação, controladoria e finanças), a fim de traçar políticas e estratégias que satisfaçam às ne- cessidades dessas áreas no que se refere à gestão de pessoas (DESSLER, 2003). O profissional também deve estar atualizado em relação à econo- mia e aos aspectos trabalhistas legais (MARRAS, 2000). É essencial que o profissional tenha pelo menos curso superior em uma área humanista, como administração, psicologia, sociologia (GIL, 2001), e que tenha facilidade para estabelecer relações proveitosas com os executivos da empresa, com os colaboradores ou com instituições ex- ternas à organização, como sindicatos, organizações do terceiro setor e órgãos governamentais (ALBUQUERQUE; ROCHA, 2007). Finalizando, o profissional da área de gestão de pessoas deve de- senvolver políticas e práticas gerenciais que auxiliem os colaboradores a concretizar seus sonhos e objetivos pessoais, bem como,esforçar-se por atender às expectativas dos colaboradores em relação às condições de tra- balho propiciadas pela empresa (RIBEIRO, 2006). 43 Evolução da gestão de pessoas - Unidade 1 Leituras Recomendadas ALBUQUERQUE, Lindolfo Galvão de; LEITE, Nildes Pitombo; SIL- VA, Leilianne Michelle Trindade da. Estimulando o debate sobre a ges- tão estratégica de pessoas. Rev. adm. empres., São Paulo, v. 49, n. 4, dez. 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S0034-75902009000400011&lng=pt&nrm=iso>. acessos em: 17 maio 2010. doi: 10.1590/S0034-75902009000400011. LACOMBE, Beatriz Maria Braga; TONELLI, Maria José. O discurso e a prática: o que nos dizem os especialistas e o que nos mostram as práticas das empresas sobre os modelos de gestão de recursos huma- nos. Rev. adm. contemp., Curitiba, v. 5, n. 2, ago. 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415- 65552001000200008&lng=pt&nrm=iso>. acessos em: 17 maio 2010. doi: 10.1590/S1415-65552001000200008. VASCONCELOS, Isabella Freitas Gouveia de; MASCARENHAS, André Ofenhejm; VASCONCELOS, Flávio Carvalho de. Gestão do pa- radoxo “passado versus futuro”: uma visão transformacional da gestão de pessoas. RAE electron., São Paulo, v. 5, n. 1, jun. 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1676- 56482006000100004&lng=pt&nrm=iso>. acessos em: 17 maio 2010. doi: 10.1590/S1676-56482006000100004. Referências ALBUQUERQUE, A; ROCHA, P. Sincronismo organizacional: como alinhar a estratégia, os processos e as pessoas. São Paulo: Sarai- va, 2007. CERTO, S. Administração moderna. 9. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2003. DECENZO, D.A.; ROBBINS, S. P. Administração de Recursos Hu- manos. 6. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2001. 44 Gestão de recursos humanos DESSLER, G. Administração de recursos humanos. 2. ed. São Pau- lo: Prentice Hall, 2003. DRUCKER, P. Administração em tempos de grandes mudanças. São Paulo: Thomson Learning, 1995. DUTRA, J. Competências: conceitos e instrumentos para a gestão de pessoas na empresa moderna. São Paulo: Atlas, 2004. FLEURY, A.; FLEURY, M., C. Estratégias empresariais e formação de competências: um quebra-cabeça caleidoscópico da indústria brasi- leira. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2004. GIL, A. Gestão de Pessoas: enfoque nos papéis profissionais. São Paulo: Atlas, 2001. LACOMBE, F.; HEILBORN, G. Administração: princípios e tendên- cias. São Paulo: Saraiva, 2003. LACOMBE, F. Recursos Humanos: Princípios e tendências. São Pau- lo: Saraiva, 2005. LUCENA, M. D. S. Planejamento de Recursos Humanos. São Pau- lo: Atlas, 1995. MARRAS, J. Administração de recursos humanos: do operacional ao estratégico. São Paulo: Futura, 2000. MAXIMIANO, A. Teoria geral da administração: da revolução ur- bana à revolução digital. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2006. MILKOVICH, G.; BOUDREAU, J. Administração de recursos hu- manos. São Paulo: Atlas, 2000. MORGAN, G. Imagens da organização. São Paulo: Atlas, 2000. MOTTA, F.C.P.; VASCONCELOS, I.F.F.G. Teoria Geral da Admi- nistração. São Paulo: Thomson Learning, 2002. 45 Evolução da gestão de pessoas - Unidade 1 MUSCAT, A; FLEURY, A. Indicadores da Qualidade e Produtividade na Indústria Brasileira. Revista Indicadores da Qualidade e Produti- vidade. ano I, n. 2, p. 81-107, setembro 1993. PASCHOAL, L. Administração de cargos e salários. Rio de Janeiro: Qualymark, 2001. PRAHALAD, C. K.; HAMEL, G. The core competence of the corpo- ration. Harvard Business Review. p. 79-91, May –June, 1990. RIBEIRO, A. L. Teorias da Administração. São Paulo: Saraiva, 2003. RIBEIRO, A. L. de. Gestão de pessoas. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. ROBBINS, S. Comportamento organizacional. São Paulo: Prentice Hall, 2002. ROBBINS, S.P. Comportamento organizacional. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2005. Na próxima unidade Na próxima unidade vamos discutir sobre o processo de planeja- mento de pessoas. O planejamento de pessoas é um processo complexo em que tra- balho e trabalhador representam um todo integrado e unificado, havendo interdependência entre ambos. Nesse sentido, o planejamento de pessoas tem como desafio conci- liar a eficiência operacional do trabalho com as características da persona- lidade humana e requisitos profissionais na ocupação de cada cargo. 46 Gestão de recursos humanos Minhas anotações: U ni da de 2 Planejamento de pessoasO sistema de gestão de pessoas envolve os seguintes processos: administração de pes- soal, recrutamento, seleção, treinamento, desen- volvimento, avaliação de desempenho, planejamen- to e gestão de carreira, remuneração (MARRAS, 2000). A partir desta unidade você passará a conhecer as pecu- liaridades de cada um desses processos e o primeiro passo é aprender sobre o processo de planejamento de pessoas. Vamos lá? Objetivos da sua aprendizagem Nesta unidade, temos como objetivos: • entender a importância do processo de planejamento de pessoas; • conhecer o processo de descrição de cargo; • aprender sobre o processo de análise de cargo. Você se lembra? Na unidade anterior, você estudou a evolução da gestão de pessoas e pôde perceber como as Escolas da Administração influenciaram o desen- volvimento desta área. Veja quanta coisa você aprendeu até o momento e como é complexo construir um sistema efetivo de gestão de pessoas! Para sobreviver e prosperar, os trabalhadores atuais têm de pensar e agir estrategicamente. Assim, pessoas e organizações devem trabalhar se- gundo alguns paradigmas, como apontam Bateman e Snell (1998, p. 19): • Competitividade em custos: significa que a organização gerará produtos/serviços valiosos, a preços aceitos pelo mercado. Uma boa administração requer que os custos das organizações sejam bem gerenciados, de modo que a organização forneça preços justos que cubram custos e que tenham margem de lucro razoável que justifique a continuidade das operações da empresa. • Qualidade: refere-se à qualidade inquestionável no fornecimento de produtos e serviços da or- 48 Gestão de recursos humanos Planejamento de pessoas - Unidade 2 ganização. Inclui atratividade, ausência de defeitos, confiabilidade. Kotler e Keller (2006) observam que fornecer produtos com qualidade significa superar as expectativas do consumidor. • Velocidade:significa o tempo de resposta da organização às demandas de seus clientes e do mercado em geral. Inclui lançamento de produtos, capacitação de funcionários na adequação de mudanças organizacionais. A realização de serviços com velocidade e qualidade constitui uma impor- tante vantagem competitiva às empresas. • Inovação: significa a capacidade da organização de criar bens e servi- ços valorizados pelo mercado. Deve considerar sempre os fatores custo e qualidade. Bons profissionais encontram maneiras de tornar suas organizações bem-sucedidas. Para isso, o profissional deve ser plenamente qualifica- do para atender às demandas do ambiente onde a empresa está inserida, às demandas organizacionais e, muito especificamente, dos demais fun- cionários da organização. Mas como conseguir isso? Uma das formas é pelo planejamento de pessoas! 49 Planejamento de pessoas - Unidade 2 2.1 Conceitos básicos Por atuar em um ambiente muito dinâmico, as organizações cons- tantemente devem renovar-se e se preparar para as inevitáveis mudanças do meio ambiente. Essas mudanças, muitas vezes, têm um grande impacto sobre as pessoas dentro das organizações. O Quadro a seguir evidencia algumas das mudanças pelas quais as organizações vêm passando, bem como suas principais características: Mudanças organizacionais e suas principais características Avanços tecnológicos: o ambiente em que as organizações se situam apresenta-se cada vez mais volátil. A cada dia surgem softwares e máquinas mais inteligentes, que determinam as mudanças de aspectos produtivos das organizações. Com tais mudan- ças, existem resistências entre os funcionários. Cabe à empresa adotar medidas de minimização de resistência às mudanças. Competitividade: a organização deve manter sua produtividade alta e seus custos baixos. Para que isso ocorra, a organização deve selecionar adequadamente seu pes- soal, manter relações de trabalho harmoniosas e criar programas de qualidade. Para que tais programas tenham eficiência, cabe à organização estimular a adoção destes procedimentos por parte dos funcionários. Integração dos empregados à cadeia de valor: trata-se de mudar o foco das ope- rações da empresa da produção para o consumidor. Nesse sentido, conhecimentos, atitudes e habilidades passam a ser avaliados pela perspectiva do consumidor final. Downsizing: refere-se às reestruturações periódicas pelas quais as organizações passam. Nessas reestruturações, não raro a organização diminui o número de seus funcionários. Cabe também ao setor de RH o corte destes funcionários e o gerencia- mento dos funcionários que permaneceram. Autogerenciamento de equipes: trata-se do conceito de que as pessoas traba- lham melhor sem a supervisão de um chefe. Assim, o RH deve propiciar recursos e meios para que esse novo formato organizacional encontre espaço na empresa. Terceirização: trata-se da ação de repassar a terceiros as funções que não agre- gam valor à organização. Cabe ao RH, contudo, analisar se a terceirização não está abrangendo serviços vitais à organização. A terceirização é um método de aumento de produtividade. Cultura organizacional: implica na manutenção dos valores principais da cultura organizacional de uma empresa, mesmo em meio a tantas mudanças. Trata-se tam- bém de manter o clima organizacional positivo, atendendo à função de manutenção de pessoas na organização. Quadro: Mudanças organizacionais e suas principais características Fonte: GIL (2007, p. 38-46) Planejamento de pessoas - Unidade 2 50 Gestão de recursos humanos Todos os fatores anteriormente citados impactam diretamente o pro- cesso de gestão de pessoas e seu planejamento. O conceito de planejamento de pessoas pode ser definido como o processo de identificar, analisar e entender as necessidades organizacionais no que diz respeito ao suprimento de pessoas para as diversas áreas e atividades da empresa, de forma que seja assegurada não só uma infraestrutura produtiva adequada, mas também a existên- cia de talentos capazes de alimentar as capacidades organizacionais e atender às expectativas do negócio (LUCENA, 1999). A contratação de pessoas pode ser iniciada por diversos motivos: • como aumento planejado do quadro de colaboradores para dar suporte ao crescimento da organização; • necessidade de contratação de colaborador do mercado de traba- lho para realizar trabalho específico dentro da organização, a fim de que ela alcance seus objetivos e suas metas; • situações inesperadas de aumento da demanda, exigindo a con- tratação de colaboradores a fim de que a empresa consiga honrar seus compromissos junto aos clientes; • necessidade de contratação urgente de colaboradores em função da sobrecarga de trabalho em determinada área organizacional ter chegado ao limite; • necessidade de contratação em função do alto índice de rota- tividade de pessoal em determinadas áreas organizacionais. A rotatividade de pessoal relaciona o número de admissões e des- ligamentos de colaboradores ao número médio de participantes da empresa. É comum em toda organização; entretanto, quando muito elevada, torna-se indicativo de que alguma coisa não vai bem, em relação à gestão de pessoas na organização – já os des- ligamentos por iniciativa dos colaboradores têm ocorrido em quantidade que foge ao controle da empresa; e • alto índice de absenteísmo (faltas ou ausências) no trabalho, que pode ser causado por doenças adquiridas pelo colaborador, ra- zões de cunho pessoal/ familiar do colaborador, atrasos e faltas involuntárias por motivos de força maior (problemas de transpor- te, por exemplo); atrasos e faltas voluntárias em função do alto índice de insatisfação no trabalho e baixo nível de motivação. 51 Planejamento de pessoas - Unidade 2 O planejamento de pessoas é um processo complexo em que trabalho e traba- lhador representam um todo integrado e unificado, havendo interdependência entre ambos (LUCENA, 1999). Nesse sentido, o planejamento de pessoas tem como desafio conciliar a eficiência operacional do trabalho com as características da personalidade humana e os requisitos profissionais na ocupação de cada cargo (GIL, 2001). Dos motivos apresentados acima, você percebeu quantos deles estão relacionados à falta de planejamento? Você percebeu, pelos exemplos dados acima, como muitas situações de contratação de pessoas são realizadas pela falta de planejamento de pessoal e de políticas efetivas de gestão de pessoas? Infelizmente, essa é a realidade da maior parte das empresas brasilei- ras, principalmente daquelas de micro e pequeno porte (HIPÓLITO, 2001). Dentro desse contexto, o planejamento de pessoas pode ser a saída para as organizações não só evitarem contratações de última hora e mal feitas, acabando por não atender às necessidades da empresa, quanto ao suprimento de pessoas, mas principalmente pode ser o mecanismo mais adequado para atrair e reter talentos que efetivamente agreguem valor à organização (DESSLER, 2003). A organização precisa ter as pessoas adequadas disponíveis para o trabalho a ser realizado quando objetiva alcançar todo o seu potencial de realizações. Isso significa, na prática, que todos os gerentes devem estar seguros de que os cargos sob sua responsabilidade estão ocupados por pes- soas capazes de desempenhá-los ade- quadamente. Todo esse processo requer um cuidadoso planeja- mento estratégico de pessoas (LUCENA, 1999). Para a efetividade do planejamento de pessoas, uma das atividades mais im- portantes é a descrição dos cargos da organização. Vamos conhecer este conceito? 2.2 Descrição de cargo Cargo é o papel desempenhado pelo indivíduo dentro da organi- zação, tendo as seguintes finalidades: exprimir a posição na hierarquia, definir o conjunto de atividades a serem realizadas, definir os comporta- mentos que o ocupante do cargo deve apresentar (DESSLER, 2003). Os cargos são a base para o entendimento do que as pessoas fazem na empresa. Eles definem tarefas e funções, responsabilidades e áreasde 52 Gestão de recursos humanos Os cargos definem as tarefas a serem desen- volvidas dentro das organizações. Para Souza et al (2008), é o conjunto de funções de mesma natureza e complexida- de, enquanto que as funções são o agregado de tarefas atribuídas a um indivíduo na organi- zação. Em outras palavras, os cargos definem as funções de cada um dentro da empresa. trabalho e também servem para organizar o trabalho na empresa. São con- siderados elementos decodificadores do valor que cada funcionário tem para a empresa. Os cargos são agrupa- mentos de responsabilida- des, atribuições e desafios determinados por ocupa- ção no contexto organi- zacional. Vários autores enfatizam, ainda, que, para ocupar um cargo, o profis- sional é selecionado com base num perfil específico que leva em conta conhecimento, competências, habi- lidades e requisitos específicos. Nos dias atuais, esse conceito de cargos é expandido, pois deve considerar a multifuncionalidade, em que as pessoas possam atuar em diferentes funções dentro de um mesmo cargo. A descrição de cargos é o alicerce para a definição das políticas de gestão de pessoas de uma organização (MARRAS, 2000). As informações derivadas da descrição de cargo contribuem de for- ma direta para os seguintes processos de gestão de pessoas (GIL, 2001): • determinação do perfil do ocupante do cargo; • definição das linhas de autoridade e responsabilidade na organi- zação; • estabelecimento dos procedimentos de recrutamento e seleção de candidatos às vagas disponíveis na organização; • levantamento de necessidades de treinamento de pessoal; • estruturação do processo de avaliação de desempenho; • determinação da avaliação de cargos e estabelecimento dos sa- lários; • elaboração dos programas de higiene e segurança no trabalho; • implantação de sistemas de remuneração por resultados; • elaboração de sistemas de carreira. 53 Planejamento de pessoas - Unidade 2 A descrição de cargo pode ser definida como o processo de sistematização das tarefas e atribuições de um cargo, bem como do mapeamento das especificações em termos de conhecimentos, habilidade e atitudes necessárias ao desempenho efetivo do cargo (DESSLER, 2003). O processo de descrição de cargo procura ordenar o que o ocupante do cargo faz, como faz e por que faz (MARRAS, 2000). Busca também identi- ficar as responsabilidades possuídas pelo ocupante do cargo, bem como as condições de trabalho e os riscos que o envolvem (RIBEIRO, 2006). ti m o ’h ar a / C or bi s A descrição de cargos expres- sa, de forma clara e padronizada, as tarefas que seu ocupante realiza, como e por que faz determinadas atividades. Importante: a descrição é do cargo, e não da pessoa que ocupa o cargo. Quando se fala em descrição de cargos, todas as áreas da empresa devem ser envolvidas. Para tanto, algumas considerações são importantes: • Comprometer as chefias com o trabalho de Descrição de Cargos; • Descrever a realidade das funções da empresa, através de entre- vistas com funcionários em seu próprio local de trabalho; • Promover maior integração entre os profissionais de Recursos Humanos, desenvolvendo um trabalho em conjunto: Recruta- mento, Treinamento, Medicina do Trabalho e Departamento de Pessoal; 54 Gestão de recursos humanos • Documentar as funções da Empresa, obtendo, assim, subsídios para um trabalho posterior de Análise de Cargos e Funções e ati- vidades de treinamento. • Salvaguardar a empresa de reclamatórias trabalhistas resultantes de desvios de funções. A descrição de cargos atua, ainda, como recurso importante para apresentar o cargo para candidatos potenciais, conforme lembra Decenzo e Robbins (2001), além de orientar os funcionários recém-contratados, indicando o que se espera que eles façam na empresa. Basicamente, o processo de descrição de cargos abrange as seguintes etapas: de- terminação dos dados requeridos, coletas de dados e elaboração do manual de descrição e especificação de cargos (DESSLER, 2003). Vamos descobrir as etapas do processo de descrição de cargos? 2.2.1 Determinação dos dados requeridos Para descrever de forma efetiva um cargo, é preciso levantar uma série de informações que tem com finalidade caracterizá-lo de forma clara e precisa. O quadro a seguir apresenta as informações requeridas para a descrição de um cargo. Informação requerida Observações Atividades do cargo • Descrição minuciosa das atividades desempenhadas no cargo, levando em conta as tarefas realizadas diariamen- te, semanalmente e mensalmente. • As atividades devem ser escritas com verbos no infinitivo. Responsabilidades • Mapear se o cargo é responsável pela supervisão de pessoas, materiais, ferramentas, equipamentos, dinheiro; documentos; informações sobre clientes ou sobre o de- sempenho da empresa. • as responsabilidades devem ser escritas com verbos no infinitivo Diante dessas defini- ções, você deve estar se perguntado: como operaciona- lizar o processo de descrição de cargos? 55 Planejamento de pessoas - Unidade 2 Recursos utilizados • Mapear os recursos necessários à execução adequada das atividades do cargos, por exemplo necessidade de computador para registro de dados e fornecimento de in- formações, necessidade de veículo próprio. Condições de trabalho e riscos • Especificação de quão penosas, desagradáveis ou arris- cadas são as condições de trabalho. • Indicação dos equipamentos de segurança a serem utili- zados no desempenho do cargo. • Exemplo: ambiente de trabalho com forte ruído, necessi- tando utilizar protetores auriculares. Requisitos pessoais • Atributos pessoais: características de personalidade, nível intelectual, interesses, características físicas. Exem- plo: iniciativa, disciplina, tolerância. • Conhecimentos: formação acadêmica (nível ideal de es- colaridade), cursos. • Habilidades necessárias ao desempenho no cargo: des- treza manual, capacidade de comunicação, capacidade de trabalho em equipe. • Experiência profissional: tempo de experiência ideal para executar as atividades do cargo. Exemplo: 2 anos Fonte: Elaborado pela autora com base em GIL (2001); MARRAS (2000). A partir da definição dos requisitos para o cargo, é possível determi- nar o perfil de profissional a ser recrutado e selecionado pela organização. Ao definir os requisitos do cargo, é fundamental explicitar quais deles são essenciais ou desejáveis para o desempenho no cargo. Isso ajuda a não afastar candidatos que apresentam o potencial de desenvol- ver o requisito necessário ao desempenho no cargo, aumentando o nú- mero de opções para a realização da seleção (DESSLER, 2003). 2.2.2 Coleta de dados Como levantar as informações para a definição dos requisitos do cargo? Nesse momento, você já deve estar imaginando que existem técni- cas para isso. Na verdade, há, na literatura sobre o assunto, muitas técni- cas voltadas à coleta dos dados para definição dos requisitos do cargo. 56 Gestão de recursos humanos Vamos conhecer as técnicas mais utilizadas? São elas: a observação direta, o questionário e a entrevista, que podem ser aplicados de maneira exclusiva ou combinadas entre si (GIL, 2001). Cada uma delas é detalha- da a seguir. A observação direta consiste na observação do ocupante do cargo no exercício de suas funções, possibilitando ao analista de cargos a obten- ção de uma visão geral do cargo observado. O analista também registra as circunstâncias em que o trabalho é desenvolvido e recolhe toda a docu- mentação disponível referente ao cargo (GIL, 2001). O questionário, embora seja um instrumento bastante simples para a coleta de dados sobre as características de um cargo, requer alguns cui- dados na sua elaboração (MARRAS, 2000): • deve conter algumas instruções para orientação de como deve ser respondido; • é importante que seja explicado ao respondente que as informa- ções coletadas são sigilosas, garantindo que somente o analista responsável pela coleta terá acesso às informações; • as perguntasdevem ser elaboradas de forma clara e precisa, utili- zando linguagem de fácil entendimento; • o número de perguntas deve ser mais reduzido possível; • deve-se dar preferência a perguntas objetivas e fechadas; • as perguntas devem referir-se exclusivamente aos aspectos do trabalho que se deseja conhecer; • as perguntas não devem abordar questões de caráter pessoal nem solicitar a opinião do respondente; • as perguntas não devem induzir respostas; e • as perguntas devem ser ordenadas logicamente. É importante destacar que a elaboração do questionário varia em função da natureza do trabalho desempenhado por cada cargo (DESS- LER, 2003). Por essa razão é recomendável que sejam elaborados ques- tionários específicos para cada grupo de cargos que executam trabalho de natureza semelhante (CURY, 2000). Podem ser elaborados questionários para os seguintes grupos de cargos: gerencial, cargo técnicos de técnicos, cargos administrativos e cargos operacionais (PASCHOAL, 2001). A entrevista é o mais flexível método para coleta de dados, pela interação face a face entre o analista de cargos e o respondente, possi- bilitando o esclarecimento de dúvidas no momento em que elas surgem 57 Planejamento de pessoas - Unidade 2 (RIBEIRO, 2006). Mas, para que a entrevista seja um instrumento efetivo de coleta de dados, é fundamental que o entrevistador seja capacitado para realização de tal atividade (PASCHOAL, 2001). Quanto maior a experi- ência do entrevistador, maiores as chances de sucesso da entrevista, no que diz respeito à obtenção de informações confiáveis (GIL, 2001). A seguir são elencadas algumas recomendações para a realização de uma entrevista de coleta de dados para descrição de cargo (MARRAS, 2000): • as perguntas devem ser definidas previamente; • as perguntas devem ser elaboradas de forma clara e objetiva, res- tringindo-se à obtenção de informações sobre o cargo analisado; • o entrevistador deve possuir algumas aptidões básicas, como fa- cilidade de comunicação e de relacionamento interpessoal; • o entrevistador deve ser ético, respeitando o entrevistado em sua disposição para responder às perguntas efetuadas; • o entrevistador deve auxiliar o entrevistado quanto ao entendi- mento das perguntas, esclarecendo suas dúvidas. Após conhecer as técnicas de coleta de dados para análise de cargo, qual delas, na sua opinião, é mais eficiente? Na verdade não há uma técnica mais eficiente que outra. O importante é que a técnica escolhida seja coerente com o contexto da organização e que através de sua aplicação as pessoas sintam-se confortáveis em res- ponder com precisão às questões sobre as características do cargo. Para auxiliar na composição de sua conclusão, o quadro a seguir apresenta as vantagens e as desvantagens de cada um desses métodos de coleta. Observação Vantagens Desvantagens • Garante a veracidade dos dados obtidos. • Não requer do ocupante do cargo a pa- ralisação do trabalho. • É adequado para a análise de tarefas simples e repetitivas. • É contraindicado para análise de tarefas complexas. • Requer tempo prolongado do analista, o que determina a elevação dos custos. 58 Gestão de recursos humanos Questionário Vantagens Desvantagens • É um instrumento rápido e barato. • Não requer treinamento pessoal. • Pode ser respondido oportunamente. • Pode ser aplicado a um grande número de pessoas. • É adequado para a análise de cargos que envolvem atribuições complexas. • Não pode ser aplicado a analfabetos ou pessoas com dificuldades para se ex- pressar por escrito. • Sua elaboração requer cuidadoso pla- nejamento. • Tende a ser superficial, pois de modo geral envolve poucas questões. Entrevista Vantagens Desvantagens • Aplicação a qualquer tipo de cargo. • Obtenção dos dados a partir da pessoa que melhor conhece o cargo. • Custos altos com o treinamento de pes- soal para aplicação das entrevistas. • Necessidade de paralisação do tra- balho do funcionário para responder às perguntas. • Possibilidade de o entrevistador induzir respostas. • Falta de motivação dos funcionários para responder às perguntas. Fonte: Elaborado pela autora com base em GIL (2001); MARRAS (2000) Cabe ao analista de cargos escolher o método mais apropriado para cada situação, levando em conta a relação custo/benefício da aplicação de cada um dos métodos na organização. Para finalizar este item, é importante destacar dois fatores críticos de sucesso no processo de coleta de dados para descrição de cargo: • primeiramente, o analista deve explicar para cada profissional as razões da realização desse trabalho (DESSLER, 2003), de forma que o indivíduo não fique inibido e não comece a criar “fantas- mas” em sua cabeça, como a crença de que a empresa está fazen- do isso para identificar os seus erros a fim de demiti-lo; • em segundo lugar, é fundamental o apoio da gerência da área organizacional dos cargos analisados, a fim de dar credibilidade 59 Planejamento de pessoas - Unidade 2 ao processo de coleta de dados (MAR- RAS, 2000). Essa atitude contribui para que os funcionários levem “a sério” o trabalho realizado, com- prometendo-se com a realização do processo de coleta de dados. Agora, que tal aprender como elaborar um manual de descrição de cargos? Mãos à obra! 2.2.3 Elaboração do manual de descrição de cargo O manual de descrição de cargos formaliza as tarefas, as atribuições e o perfil profissional adequado para cada cargo da organização (MAR- RAS, 2000). Infelizmente, a maioria das organizações não tem um manual de descrição de cargos formalizado, dificultando, com isso, a operacionaliza- ção dos outros processos de gestão de pessoas. A elaboração do manual de descrição de cargos deve levar em conta os seguintes princípios (GIL, 2001): • clareza: utilização de termos simples na redação, que não deem margem a ambiguidades. O manual deve ser entendido pelas pes- soas de todos os níveis hierárquicos, bem como por pessoas que apresentam diferentes níveis de escolaridade. Caso haja necessi- dade de usar termos técnicos pouco conhecidos, estes devem ser definidos e explicados; • precisão: a descrição deve exprimir as atividades, as atribuições e o perfil do cargo, em total conformidade com os dados coletados; • concisão: deve-se utilizar a frases curtas; • impessoalidade: a descrição das atividades e das atribuições de cada cargo deve ser iniciada por um verbo no infinitivo. Normalmente, as empresas buscam padronizar a forma de apresen- tação de cada cargo no manual de descrição (ARAÚJO, 2001). Para conhecer os cargos reconhecidos pelo Ministério do Trabalho brasileiro, acesse: http://www. mtecbo.gov.br 60 Gestão de recursos humanos A seguir o quadro apresenta um modelo básico para descrição de cargo. Requisitos Descrição Cargo Apresentação do nome do cargo. É importante que a em- presa evite criar nomes de cargos inexistentes. Para isso, deve-se consultar a Classificação Brasileira de Ocupações, elaborada pelo Ministério do Trabalho (endereço eletrônico: http://www.mtecbo.gov.br). Código A empresa deve atribuir um código numérico para cada cargo descrito. Departamento Indicação da área organizacional ao qual o cargo descrito pertence. Subordinação Indicação do cargo superior na hierarquia, ao qual o cargo descrito deve prestar contas. Regime de trabalho Indicar se o cargo segue os padrões da CLT ou outro tipo de regime trabalhista.. Descrição sumária Tem como objetivo fornecer ideia global do cargo. Geral- mente, é constituída pela apresentação resumida das prin- cipais atividades e atribuições do cargo. Descrição detalhada Descrição organizada e padronizada de todas as tarefas realizadas pelo cargo, levando em conta o horizonte diário, semanal, mensal e anual. Especificação Estabelecimento dos requisitos relacionados à qualificação do ocupante do cargo, destacando-se: formação escolar, conhecimentos especializados, experiência prévia, esfor- ço físico, esforço mental e visual, responsabilidade por máquinas e equipamentos;responsabilidade por valores monetários; responsabilidade por conferência de dados, responsabilidade por supervisão e treinamento, responsa- bilidade pela segurança de terceiros, responsabilidade por contratos, condições de trabalho e riscos. Fonte: Elaborado pela autora com base em ARAÚJO (2001), CURY (2000); GIL (2001); MARRAS (2000); PASCHOAL (2001) 2.3 Análise de cargo A análise de cargo consiste na definição de critérios objetivos que sejam capazes de estabelecer o valor relativo de cada cargo dentro da hierarquia, servindo, posteriormente, como parâmetro para determinar o nível de remuneração de cada cargo (PASCHOAL, 2001). 61 Planejamento de pessoas - Unidade 2 A avaliação de cargos consiste em dar um “valor” para cada cargo dentro da empresa. Geralmente usam-se pro- cessos para determinar o valor relativo dos cargos e para in- dicar aqueles que devem re- ceber remuneração maior do que outros, de forma a haver equidade inter- na. Esse valor relativo do cargo, segundo Bohlander (2003), pode ser determinado pela comparação com outros cargos dentro da empresa, ou em comparação com uma escala construída para esse fim. A avaliação leva em conta os cargos como um todo ou usa como base as partes que a constituem e pode ser classificada em quantita- tiva ou não quantitativa. Os métodos de avaliação de cargos mais utilizados são: • escalonamento de cargos; • sistema de ordenação ou classificação de cargos; • sistema de comparação de fatores; • sistema de pontos. O sistema de escalonamento de cargos procura organizar os cargos por seu valor relativo e representa o método mais simples e mais antigo de avaliação. Consiste basicamente em listar os deveres e as responsabilida- des de cada cargo na ordem de importância deles. Quem faz esse trabalho pode ser uma pessoa que conheça todos os cargos da organização ou um comitê que contemple gerentes e representantes dos funcionários. O escalonamento de cargos também pode ser feito pela comparação de pares, ou seja, os cargos são comparados dois a dois, utilizando-se uma tabela que mostra todos os cargos em fileiras e colunas. Dentre as desvantagens desse método está o fato de não fornecer uma medida definida do valor do cargo, pois são avaliados como um todo, o que torna complexo o processo de avaliação. Alguns cargos podem ter funções que o diferenciam muito dos demais. Também, a classificação fi- nal oferece somente a importância relativa dos cargos, e não a diferença no grau de importância que possa existir entre eles. Outra desvantagem é po- der ser usado somente quando se tem uma pequena quantidade de cargos. 62 Gestão de recursos humanos No sistema de ordenação (ou classificação) de cargos, segundo Decenzo e Robbins (2001), estabelecem-se graus de classificação, pela identificação de algum denominador comum (que pode ser conhecimen- tos, aptidões ou responsabilidades) para a criação de classes ou graus distintos de cargos. Depois disso, as classificações são dispostas em uma ordem geral de importância, de acordo com critérios escolhidos. Com isso, pode-se situar cada cargo dentro da classificação mais apro- priada, comparando-se as descrições de cargo de cada posição com a descrição de cada classificação. Como vantagem desse sistema temos a simplicidade, mas também há a dificuldade em estabelecer critérios e em conferir-lhes graus sucessi- vos de importância. As desvantagens são semelhantes ao método de esca- lonamento, acrescidas das dificuldades em enquadrar alguns cargos e em lidar com aqueles que parecem pertencer a mais de uma classificação. O sistema de comparação de fatores é mais sofisticado, sendo en- tendido como uma evolução do método de ordenação ou escalonamento. Atualmente parece ser o mais usado nas empresas, por trabalhar com cri- térios definidos e com valores comparáveis. Para iniciar o processo, conforme Decenzo e Robbins (2001), os avaliadores (ou um comitê de avaliadores) consideram cargos-chave na organização, mais conhecidos e com níveis de remuneração consolidados, para serem considerados os “padrões” ou “benchmark”. Geralmente, os avaliadores selecionam de quinze a cinquenta cargos. Bohlander (2003) define esses cargos como “paradigmas”, ou seja, cargos que são importantes para estabelecer salários e que são ampla- mente conhecidos no mercado de trabalho. Como características desses cargos, o autor descreve: • são importantes para os funcionários e para a empresa; • variam em termos dos requisitos de cargo; • têm conteúdo de cargo relativamente estável; • são usados em pesquisas de salário para determinação de orde- nados. Além disso, esses paradigmas podem ser avaliados levando-se em consideração cinco fatores compensáveis: habilidade, esforço mental, esforço físico, responsabilidade e condições de trabalho, o que resulta em uma classificação de diferentes fatores para cada um deles. 63 Planejamento de pessoas - Unidade 2 O sistema de pontos é um método quan- titativo, em que são determinados os valores relativos de cada cargo e são calculados pontos totais atribuídos a eles. Depois disso, vem a etapa mais interessante do método, segundo Decenzo e Robbins (2001), que consiste no acordo entre o comitê avalia- dor sobre a taxa básica para cada um dos cargos fundamentais. Essa taxa básica geralmente é expressa em termos horários e depois é distribuída entre os cinco fatores, ou seja, estabelece-se quanto um cargo recebe por hora e quanto cada um dos fatores representa dentro desse valor. Ao final da comparação de fatores, o comitê compara os julgamentos gerais e re- solve alguma discrepância que possa ter surgido. As desvantagens desse sistema incluem sua complexidade, a utili- zação dos mesmos cinco critérios para avaliar diferentes cargos dentro da empresa e a dificuldade de estabelecer “cargos-chave” e depender deles. De outro lado, o método tem como vantagem o fato de ser projetado de acordo com a realidade de cada organização, já que busca os cargos-chave da empresa, atendendo às suas necessidades específicas. dr ea m st im e. Co m a Ge nC y / d re am st im e. Co m Cada cargo possui o valor do total de pontos conferidos a ele. Utiliza vários critérios identificáveis, como esclarecem Decenzo e Robbins (2001), assim como habilidade, esforço e respon- sabilidade, e depois se esta- belecem pontos para cada um desses critérios. Esses critérios são também chama- dos de “fatores de avaliação”, conforme Bohlander (2003). Cada critério é avaliado de- pendendo da importância que possui para 64 Gestão de recursos humanos o desempenho do cargo, então pesos apropriados são atribuídos e os pon- tos são somados. Cargos com totais de pontos semelhantes são agrupados em graus similares de remuneração. Em relação aos demais métodos apresentados, o sistema de pontos é o que apresenta maior estabilidade, pois, mesmo que os cargos mudem com o passar do tempo, as escalas de classificação permanecem. Como desvantagem o sistema apresenta a complexidade e o fato de exigir bastante tempo para ser implementado, já que trabalha com uma série de critérios e pontuações que devem ser bem definidos e revisados para que resultem em uma avaliação objetiva e correta dos cargos. Ainda considerando a questão de avaliação de cargos, o nível ge- rencial merece atenção especial. Conforme Bohlander (2003), algumas empresas não incluem os gerentes no seu sistema de avaliação de cargos, por envolverem certas demandas e características próprias e por serem mais difíceis de avaliar. A empresa pode ter um sistema de avaliação mais abrangente, que consiga englobar esse nível, ou pode criar um método específico para cargos gerenciais. Atividades 01. Qual a importância do processo de planejamento de pessoas para os outros processos do sistema de gestão de pessoas? 02. Monte a descrição do cargo de secretária da empresa onde você tra- balha. Caso não trabalhe, monte a descrição do respectivo cargo de uma empresa onde seus familiares trabalham.65 Planejamento de pessoas - Unidade 2 03. Para que serve a análise de cargo? Reflexão O planejamento de pessoas pode ser a saída para as organizações não só para combater o absenteísmo ou evitar contratações de última hora e mal feitas, como também para atrair e reter talentos que efetivamente agreguem valor à organização. A descrição de cargo é o meio para iniciar o planejamento de pes- soas, já que define os requisitos e o perfil exigido para cada cargo da or- ganização. A descrição de cargos é um processo que apoia e facilita todos os processos de gestão de pessoas, destacando-se recrutamento, seleção, treinamento, desenvolvimento, carreira e remuneração. A análise de cargo é complementar à descrição de cargo, tendo como finalidade a definição de critérios objetivos capazes de estabelecer o valor relativo de cada cargo dentro da hierarquia da organização. A descrição e a análise de cargo são o ponto de partida para uma integração das funções de recursos humanos, promovendo uma definição de planos de carreira. Para o setor de recrutamento e seleção, possibilita melhores avaliações e menor rotatividade, já que parte da realidade das funções. No Treinamento, oferece informações quanto a cursos e qualifi- cações necessárias; para a Medicina do Trabalho, constitui um documento fundamental, na medida em que apresenta as condições ambientais de trabalho, riscos e equipamentos de proteção utilizados e propicia a elabo- ração de um perfil profissiográfico. Ainda, para a Segurança do Trabalho mostra os equipamentos de proteção necessários e os riscos ambientais; no Departamento Pessoal, atualiza dados e promove maior conhecimento das atividades da Empresa, documentando funções, e para a Direção da Empresa informa sobre todas as funções desempenhadas na organização. A área de administração de pessoal é quem operacionaliza as de- cisões relativas ao planejamento de pessoas, envolvendo as atividades administrativas e legais, além das atividades relativas à segurança e à me- dicina do trabalho. 66 Gestão de recursos humanos Leituras Recomendadas Para aprofundar seus conhecimentos sobre descrição e análise de cargo, segue um exemplo de como podemos realizar a análise de cargo na prática. Primeiramente, os cargos são classificados em categorias de acordo com a natureza do trabalho exercido (HIPÓLITO, 2001): • cargos gerenciais: realizam atividades relacionadas à gestão da empresa, envolvendo planejamento, coordenação, direção e con- trole de recursos e pessoas, capacidade de diagnóstico e lideran- ça na tomada de decisões. Pode-se citar como exemplo o cargo de diretor, gerente, supervisor; • cargos técnicos: realizam atividades especializadas relacionadas à gestão da empresa, auxiliando no diagnóstico e na tomada de decisões. Por exemplo: advogado, contador; • cargos administrativos: realizam atividades relacionadas ao ciclo administrativo da empresa, sendo responsáveis pela execução das atividade de rotina de apoio ao negócio da empresa. Por exem- plo: analista financeiro, auxiliar de contabilidade, faxineira; • cargos operacionais: realizam atividades relacionadas ao ciclo operacional da empresa, sendo responsáveis pela execução das atividades de rotina essenciais ao negócio no qual a organização está inserida. Por exemplo: vendedor, operador de produção. Para cada categoria são definidos critérios de diferenciação entre os cargos, de modo que seja possível através deles obter o valor relativo de cada cargo na estrutura da organização (HIPÓLITO, 2001). Os critérios mais utilizados no mercado são: formação profissional (escolaridade) exi- gida para o cargo, experiência no cargo e domínio das funções exercidas no cargo (PASCHOAL, 2001). Cada critério apresenta níveis de intensidade, que correspondem às variações que podem existir em termos de formação profissional, experi- ência e domínio da função, por exemplo entre os cargos da mesma natu- reza. Para cada nível de intensidade é atribuído determinado número de pontos (PASCHOAL, 2001). 67 Planejamento de pessoas - Unidade 2 O quadro abaixo apresenta um exemplo de como os critérios experi- ência e formação profissional podem ser usados para classificar os cargos de natureza gerencial. Quadro: Pontuação para os níveis de experiência e formação profis- sional nos cargos gerenciais Experiência Formação profissional Intensidade Descrição Ponto Intensidade Descrição Ponto 1 Até 1 ano de experi-ência 10 1 Ensino fundamental 20 2 Entre 1 ano e 3 anos de experiência 20 2 Ensino médio 60 3 Entre 3 anos e 6 anos de experiência 40 3 Ensino superior 180 4 Acima de 6 anos de experiência 80 4 Pós-graduação 540 Levando em conta a pontuação dos critérios e a descrição dos car- gos, é possível chegar ao número de pontos de cargo e, consequentemen- te, à posição dele na hierarquia (PASCHOAL, 2001). Vamos continuar nosso exemplo, para entender o processo de análi- se de cargo? Agora vamos supor, de acordo com a descrição de cargo da empre- sa, que o seguinte perfil é exigido para os cargos abaixo-relacionados: • Supervisor: até 1 ano de experiência na função e ensino médio completo; • Gerente: entre 3 e 6 anos de experiência na função e ensino su- perior completo; e • Diretor: acima de 6 anos de experiência na função e ensino su- perior com pós-graduação. Tomando como base o quadro de pontos para os critérios de ava- liação de cargo e o perfil exigido para os respectivos cargos gerenciais, vamos calcular o valor relativo dos cargos descritos? 68 Gestão de recursos humanos • Supervisor: até 1 ano de experiência na função (10 pontos) e en- sino médio completo (60 pontos), totalizando 70 pontos; • Gerente: entre 3 e 6 anos de experiência na função (20 pontos) e ensino superior completo (180 pontos), totalizando 200 pontos; • Diretor: acima de 6 anos de experiência na função (80 pontos) e ensino superior com pós-graduação (540 pontos), totalizando 620 pontos. Agora pergunto a você: qual é o cargo de maior valor relativo no exemplo estudado? Se você respondeu que é o cargo de Diretor, acertou na mosca, parabéns! E como fica a hierarquia dos cargos do exemplo estudado (do maior valor relativo para o menor valor relativo)? Se você respondeu que a hie- rarquia é a seguinte: diretor (540), gerente (200) e supervisor (70), enten- deu direitinho o processo de análise de cargo! Fechando o raciocínio sobre o assunto, a análise de cargo possi- bilita à empresa classificar os cargos não apenas segundo a natureza do trabalho, mas também de acordo com a importância de cada cargo para a organização. Nesse caso, quanto maior o número de pontos de determina- do cargo, maior sua importância para a organização no que diz respeito ao cumprimento dos objetivos e das metas da organização. Consequentemen- te, maior é o nível de responsabilidade dele! Você pode estar se perguntando: os cargos de maior valor relativo apresentam maior nível de remuneração? Certamente sim, mas o final desse assunto fica para quando nós formos estudar o tema remuneração. A seguir são apresentados alguns livros que podem auxiliá-lo a ampliar os conhecimentos sobre o tema planejamento de pessoas: • CARVALHO, A.V. Funções básicas do sistema de RH: atrair, esco- lher e preparar. São Paulo: Qualitmark, 2007. • SILVA, M. L. Administração do Departamento Pessoal. São Pau- lo: Editora Érica, 2001. • SOUZA, M. Z. A; BITTENCOURT, F. R; PEREIRA FILHO, J. L. Cargos, carreira e remuneração. São Paulo: Editora FGV, 2005 69 Planejamento de pessoas - Unidade 2 Referências Bibliográficas ARAÚJO, L. Organização, sistemas e métodos e as modernas ferramentas de gestão organizacional: arquitetura, benchmarking, empowerment, gestão pela qualidade total, reengenharia. São Paulo: Atlas, 2001. BOHLANDER, G.; SNELL, S.; SHERMAN, A. Administração de Recursos Humanos. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003. CURY, A. Organização e métodos: uma visão holística. São Paulo: Atlas, 2000. DECENZO, D.; ROBBINS, S. Administração de Recursos Huma-nos. 6.ed. Rio de Janeiro: LTC Editora, 2001. DESSLER, G. Administração de Recursos Humanos. 2. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2003. GIL, A. Gestão de Pessoas: enfoque nos papéis profissionais. São Paulo: Atlas, 2001. HIPÓLITO, J. Administração salarial: a remuneração por competên- cias como diferencial competitivo. São Paulo: Atlas, 2001. LUCENA, M. D. S. Planejamento de Recursos Humanos. São Pau- lo: Atlas, 1995. MARRAS, J. Administração de recursos humanos: do operacional ao estratégico. São Paulo: Futura, 2000. PASCHOAL, L. Administração de cargos e salários. Rio de Janeiro: Qualymark, 2001. RIBEIRO, A. L. de. Gestão de pessoas. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. 70 Gestão de recursos humanos Na Próxima Unidade Na próxima unidade vamos aprender sobre o processo de recruta- mento e seleção. O recrutamento pode ser definido como o processo que engloba to- dos os procedimentos para atrair candidatos potencialmente qualificados ao preenchimento de determinado cargo na organização, suprindo-o com conhecimentos, habilidades e comportamentos que auxiliem a organiza- ção a alcançar seus objetivos e manter sua competitividade. Já o processo de seleção implica em escolher, sob metodologia es- pecífica, o candidato mais adequado a determinado cargo da empresa. Vamos aprofundar nossos conhecimentos sobre estes processos? U ni da de 3 Recrutamento e seleção de pessoas Você já sabe que as pessoas constituem o grande diferencial competitivo de uma empresa. São elas que articulam os processos da organiza- ção, produzindo produtos e serviços que atendam às necessidades dos clientes de forma diferenciada em rela- ção aos concorrentes. Entretanto, para que isso aconteça de forma efetiva, a organi- zação precisa que as pessoas “certas” estejam trabalhando nos lugares “certos”. O primeiro passo para que isso aconteça é através do processo de recrutamento, que auxilia a empresa a atrair as pessoas com as me- lhores condições de ocupar a vaga disponível na organização. O segundo passo é a seleção de pessoas, que finaliza o processo de contratação para determinada vaga disponível na empresa, escolhendo o candidato com as melhores chances de potencializar as competências da organização. É bastante comum a ocorrência de erros na contratação de pessoas. Mui- tas vezes, os candidatos são selecionados exclusivamente com base na análise curricular, que não é capaz de diagnosticar traços de personalida- de e comportamentos relevantes para o desempenho no cargo, eliminan- do candidatos com adequada potencialidade. As pessoas contratadas que não correspondem ao desempenho esperado para determinada vaga contribuem para o aumento dos custos da organi- zação, pois é bastante comum que, depois de contratadas, elas se aco- modem, não executando de maneira adequada as tarefas do cargo que ocupam, gerando erros, desperdício e demora no fluxo de informa- ções, prejudicando, assim, o desempenho geral da organização. Além disso, a operacionalização inadequada do processo de seleção pode elevar o nível rotatividade de pessoal, desesta- bilizando os processos da organização. Naturalmente, as causas do mau desempenho dos co- laboradores não estão centradas apenas no processo de seleção. Há inúmeros fatores que influenciam o desempenho humano no trabalho. No entanto, 72 Gestão de recursos humanos Recrutamento e seleção de pessoas - Unidade 3 vale lembrar que é através do processo de seleção de pessoas que o cola- borador ingressa na organização, merecendo, por isso, especial atenção. Se a organização selecionar a pessoa “certa” para a vaga disponível, uma série de erros e custos nos processos de gestão de pessoas posteriores po- derão ser evitados. Vamos “destrinchar” os processos de recrutamento e seleção de pessoas? Objetivos da sua aprendizagem Nesta unidade, temos como objetivos: • reconhecer a importância do processo de recrutamento para a gestão e o desempenho da organização; • identificar os canais mais adequados de recrutamento para determinado cargo, atraindo as pessoas com o perfil desejado pela organização; • definir um programa de recrutamento adequado ao contexto da organiza- ção, minimizando as chances de a empresa atrair pessoas “erradas” para a vaga disponível; • reconhecer a importância do processo de seleção para a gestão e o de- sempenho da organização; • sistematizar as atividades referentes ao processo de seleção de pessoas; • conhecer as diversas técnicas utilizadas na seleção de pessoas; • definir um programa de seleção de pessoas adequado ao contexto e às necessidades da organização, minimizando as chances de a empresa con- tratar pessoas “erradas” para a vaga disponível. Você se lembra? Na unidade anterior você estudou sobre o processo de planejamento de pessoas. Agora você vai aprender sobre o processo de recrutamento e se- leção. Vamos lá? Você deve estar consciente de que não é fácil recrutar e selecionar uma pessoa para ocupar determinado cargo. Mas não se preocupe, estamos empenhados em fornecer todas as informações necessárias sobre a opera- cionalização desses processos! 73 Recrutamento e seleção de pessoas - Unidade 3 Recrutamento pode ser definido como o processo que engloba todos os procedimentos para atrair candidatos potencialmente qualificados ao preenchi- mento de determinado cargo na organização, suprindo-o com conhecimentos, habilidades e comportamentos que auxiliem a organização a alcançar seus objetivos e manter sua competitividade (MARRAS, 2000). 3.1 Conceitos básicos de recrutamento As pessoas necessitam saber que a organização oferece va- gas para determinado cargo e, ao mesmo tempo, a em- presa precisa encontrar candidatos para ocupar as vagas disponíveis. Para isso existe o processo de recrutamento, que inicia a captação e a triagem de can- didatos internos ou externos à organização com a finalidade de preencher determinada vaga dispo- nível na organização (DESSLER, 2003). O recrutamento pode acontecer por três motivos principais (GIL, 2001): • alta rotatividade de funcionários em determinados cargos; • aumento de quadro planejado de funcionários; • aumento de quadro circunstancial de funcionários (exemplo: Natal). Um processo de recrutamento estruturado de forma inadequada pode atrair pessoas que não atendem ao perfil do cargo disponível. Quan- to maior o número de candidatos qualificados ao cargo atraídos pelo re- crutamento, maiores as chances de a organização selecionar o profissional que atenda às suas necessidades Para ser eficaz, o recrutamento deve atrair um contingente de candi- datos suficiente para a realização do processo de seleção! Fr en k an d da ni el le k au Fm an n / d re am st im e. Co m Recrutamento e seleção de pessoas - Unidade 3 74 Gestão de recursos humanos Cabe também destacar que o sucesso do recrutamento é afetado por fatores externos, destacando-se: • natureza do trabalho: quanto maior a complexidade das ati- vidades inerentes ao cargo disponível, maior a dificuldade de a empresa encontrar profissionais qualificados no mercado (MI- LKOVICH; BOUDREAU, 2000); • mercado de trabalho: há cargos em que a oferta de profissio- nais no mercado é abundante; em contrapartida há cargos em que a oferta de profissionais não supre a demanda das empresas (HANASHIRO et al, 2007). Normalmente, cargos técnicos e operacionais, que têm como características alto nível de espe- cialização e necessidade de experiência, apresentam baixa oferta de profissionais no mercado (por exemplo, cargos de caldeiro e torneiro mecânico); • posição competitiva no mercado: empresas que são referência em termos de lucratividade e solidez na região onde se localizam costumam atrair mais candidatos do que empresas desconhecidas (DESSLER, 2003). As empresas multinacionais podem ser cita- das como exemplo para esta situação; • imagem no mercado: empresas que oferecem pacotes atrativos de benefícios, que se preocupam com a qualidade de vida de seus funcionários e que estão engajadasem projetos de responsabi- lidade social tendem a atrair profissionais que valorizam estas ações (ASHLEY, 2005). Como exemplo pode-se citar a Natura, a Companhia Vale do Rio Doce, a Tigre, entre outras. 3.2 Tipos de recrutamento Basicamente há dois tipos de recrutamento: interno e externo. No primeiro, ou seja, no recrutamento interno, os procedimen- tos de recrutamento são voltados à atração de candidatos que já trabalham na empresa. Já o recrutamento externo tem como objetivo atrair candidatos de fora da organização, ou seja, do mercado de tra- balho (GIL, 2001). 75 Recrutamento e seleção de pessoas - Unidade 3 Agora pergunto a você: qual dos tipos de recrutamento é melhor? Para que você possa tirar suas próprias conclusões, o quadro a seguir faz uma síntese do assunto. Vantagens Recrutamento interno Recrutamento externo • Os indivíduos já são conhecidos pela empresa e eles já estão adaptados à cul- tura da organização. • É um procedimento de baixo custo para a organização. • Valoriza os talentos da própria empresa. • Demonstra o interesse da empresa em promover seus empregados. • Traz “sangue novo” para a organização, ou seja, indivíduos com novas ideias, no- vos conhecimentos, novas experiências e outra visão de organização. • Possibilidade de atrair os melhores pro- fissionais do mercado. • Aproveita os investimentos de desen- volvimento feitos por outras empresas ou pelo próprio candidato. Desvantagens Recrutamento interno Recrutamento externo • Pode gerar sentimentos individuais de frustração pelo fato de o individuo não ter sido escolhido para a vaga disponível. • Pode criar conflitos entre funcionários que estão competindo pela vaga disponí- vel, afetando o relacionamento entre eles. • Pode criar um clima organizacional mui- to competitivo entre os funcionários. • Pode gerar um clima de insatisfação, se os critérios de escolha do candidato não forem claros e objetivos. • Processo mais demorado. • Processo mais caro, exigindo muitas vezes a contratação de agências de re- crutamento e maior investimento na co- municação da vaga disponível. • Maior risco de erros, pois pode atrair profissionais competentes, mas que não se adaptam à cultura da empresa. • Pode diminuir a motivação dos profis- sionais que trabalham na organização, ao sentirem-se desvalorizados pela empresa. • Pode afetar a política salarial da empresa, se a empresa estiver pagando salário me- nor que o mercado para a vaga disponível. Fonte: Elaborado pela autora com base em DESSLER (2003); GIL (2001); HANASHIRO et al (2007); MARRAS (2000); MILKOVICH, BOUDREAU (2000) Qual foi a sua conclusão mediante a análise do quadro? Qual dos tipos de recrutamento é melhor? Vamos refletir sobre o assunto juntos? Na verdade, não há um tipo de recrutamento melhor, pois, como pode ser observado no quadro, ambos os processos apresentam vantagens e desvantagens para a organização. 76 Gestão de recursos humanos A escolha de determinada forma de recrutamento vai depender dos objetivos estratégicos da empresa em relação à gestão de pessoas, como contratar um profissional de fora da organização para trazer seus conhe- cimentos e experiência para reestruturar uma área organizacional que enfrenta problemas. Outro aspecto a ser levado em conta na escolha do tipo de recruta- mento é o fato de existirem, na organização, profissionais que atendam ao perfil para a vaga disponível. Há também os fatores contingenciais, como o fato de a empresa criar nova área organizacional e não ter profissionais na organização com perfil adequado para os cargos criados. Pegou a ideia? Tomara que sim! Finalizando os comentários sobre as formas de recrutamento, é con- veniente que você saiba que o recrutamento externo pode ser classificado em três categorias, em função de como a vaga disponível é comunicada ao mercado de trabalho (MARRAS, 2000): • Aberto: recrutamento veiculado pela imprensa e que torna públi- cos o nome e o endereço da empresa solicitante; • Semiaberto: veiculado na imprensa, mas não torna público o nome da empresa solicitante, apenas seu endereço; • Fechado: veiculado na imprensa, mas não torna público o nome da empresa solicitante nem o seu endereço. Normalmente, é dis- ponibilizada uma caixa-postal ou um endereço “neutro” de email para o candidato enviar o currículo. 3.3 Fontes de Recrutamento Agora que você já conhece as formas de recrutamento e suas res- pectivas vantagens e desvantagens, é interessante aprender sobre as fontes de recrutamento, de forma que você seja capaz de escolher a fonte mais adequada para divulgar uma vaga disponível. No que diz respeito ao recrutamento interno, é fundamental que a empresa tenha uma política formalizada, com critérios claros e objetivos, que englobe todos os níveis hierárquicos (DESSLER, 2003). Outro aspecto importante é quanto à divulgação da vaga. A organização deve dispor de todos os meios de comunicação interna para que todos os fun- cionários possam ter acesso às informações sobre o cargo disponível (MAR- RAS, 2000). A empresa pode, por exemplo, utilizar a intranet, enviar emails, afixar cartazes nos murais como canais de comunicação. 77 Recrutamento e seleção de pessoas - Unidade 3 O processo de recrutamento interno deve ser ter procedimentos transparen- tes de inscrição dos candidatos à vaga (MILKOVICH.; BOUDREAU, 2000). Todos os candidatos interes- sados na vaga devem fazer sua inscrição através de um for- mulário padrão (formatado em papel ou disponibilizado de forma eletrônica) que contemple as seguintes in- formações: • Dados pessoais: nome, endereço , telefone, email, estado civil; • Formação acadêmica: nível de escolaridade e respectiva instituição de ensino, cursos extracur- riculares realizados, nível de conhecimento em inglês, nível de conhecimento em informática; • Dados profissionais: departamento, cargo ocupado atualmente na empresa, tempo de experiência no cargo, principais atividades desenvolvidas, contribuições pessoais em relação à melhoria das atividades relacionadas ao cargo ocupado, participação em proje- tos desenvolvidos pela organização; • Competências: descrição dos conhecimentos, das habilidades e das atitudes do candidato que contribuem para o alcance dos objetivos da organização; • Justificativa: breve explanação dos motivos que levaram o can- didato a inscrever-se para a vaga disponível; • Plano de ação: breve descrição das contribuições futuras do can- didato em relação à vaga disponível; • Cláusula de veracidade: declaração de que as informações for- necidas pelo candidato são verdadeiras e legítimas. • Assinatura: data e assinatura do candidato no caso de formulário em papel. Utilização de mecanismo de confirmação, se o formulá- rio for eletrônico, registrando data e nome do candidato inscrito; • Comprovante de inscrição: entrega ticket ao candidato com nú- mero da sua inscrição para a vaga. Se o formulário for eletrônico, este deverá dispor de um mecanismo que possibilite ao candidato imprimir seu comprovante. 78 Gestão de recursos humanos A empresa também pode levar em conta os resultados obtidos pelo candidato na seleção realizada no ingresso na empresa, o histórico dos re- sultados das avaliações de desempenho do candidato realizadas pela orga- nização e os resultados obtidos pelo candidato em treinamento e programas de capacitação oferecidos (TACHIZAWA; FEREIRA; FORTUNA, 2001). Já em relação ao recrutamento externo, o quadro a seguir apresenta as diversas fontes de recrutamento, destacando suas vantagens e suas des- vantagens. Quadro: Fontes de recrutamento externo e suas vantagens e desvantagens Fonte de recrutamento Vantagens Desvantagens Cartaz • Baixo custo • Ampla distribuição • Atrai um bom número de can- didatos. • Adequado para divulgar vagas referentes a cargos simples. • Veículo estático de comuni- cação • Escolha inadequada do lugar para afixar cartaz pode atrair candidatos inadequados ao cargo. Recomendação • Processo econômico. • Candidato é conhecido porcontato de indicação. • Esclarecer ao contato os re- quisitos exigidos para preenchi- mento do cargo. • Indicação pode ocorrer por meio de parceiro de negócio. • Indicação pode ocorrer por meio de funcionário da empresa. • Pode criar constrangimento com o contato, no caso de o candidato ser rejeitado. • Recomendação pode ser subjetiva, levando em conta a amizade, e não a competência do candidato ao cargo. Ex-funcionários • É vantajoso para a empresa jáconhecer o empregado. • O desligamento precisa ter acontecido por motivos aceitá- veis. 79 Recrutamento e seleção de pessoas - Unidade 3 Agências de recrutamento e seleção • Evita gastos de tempo e des- perdício de dinheiro com o pro- cesso. • Mantém sigilo da empresa. • Tende a oferecer apenas can- didatos adequados ao perfil do cargo. • Verificar se empresa é real- mente séria e idônea. • Verificar se empresa apresen- ta know-how necessário. • É preciso que a empresa con- tratante dos serviços da agência passe informações claras sobre o perfil desejado do cargo. Agências de emprego • Recruta candidatos a vagas de cargos operacionais • Recomendada para recrutar, muito utilizada por empresas que apresentam alta sazonali- dade da demanda. • Entidades governamentais e sindicatos podem desempe- nhar esse papel. • No caso de cargos com fun- ções mais específicas, pode ocorrer que os candidatos re- crutados não sejam os mais adequados. • Geralmente esse tipo de agência é procurada por can- didatos desempregados que apresentam baixo nível de qualificação. Associações profissionais • Adequada para recrutar candi- datos a vagas de cargos técni- cos e gerenciais. • Essas associações são fó- runs adequados para que seus membros possam trocar ideias, manter contatos profissionais e aperfeiçoar habilidades. • Muitas delas mantêm departa- mentos voltados à recolocação. • Fonte adequada para recruta- mento de pessoal qualificado. • Universidades, escolas e cen- tros de integração podem re- presentar esse papel. • Muitas vezes os candidatos são qualificados, mas não pos- suem experiência. • Necessidade de a empresa identificar e manter contato com várias associações para os di- versos cargos da organização. • Atrai número restrito de can- didatos. 80 Gestão de recursos humanos Anúncios • Pode ser veiculado em jor- nais, revistas e rádio. • Atrai muitos candidatos. • Melhora a reputação da em- presa, através da imagem pro- jetada pelo anúncio. • Despertam o interesse do candidato. • Mostram o perfil necessário para ocupar o cargo e as vanta- gens e os benefícios oferecidos pela empresa. • Deve ser elaborado de forma a atrair candidatos com perfil adequado ao cargo. • Deve ser elaborado de forma a eliminar candidatos que não convenham ao cargo. • Deve ser veiculado por meio de canal de comunicação ade- quado para atrair os candida- tos certos para responder ao anúncio. • Deve-se escolher a melhor data para divulgação do anún- cio. Headhunter (caça-talentos) • Adequado para a contratação de executivos de alto nível (es- tratégico). • Contratação de profissional al- tamente qualificado para o cargo. • Rapidez na contratação em função da ampla rede de rela- cionamentos do headhunter. • Alto custo. • É preciso que a empresa con- tratante dos serviços passe in- formações claras e precisas so- bre o perfil desejado do cargo. Internet • Espaço em seu site para a re- cepção de currículos. • Maior contato com a comuni- dade, valorizando a imagem da empresa. • Formação de banco de dados. • Há muitas empresas indepen- dentes que oferecem este tipo de serviço, as quais infelizmen- te nem sempre são idôneas. Fonte: Elaborado pela autora com base em GIL (2001) Com todas essas informações, você já é capaz de refletir e escolher qual é a melhor fonte de recrutamento para cada cargo e cada empresa! A escolha adequada da forma e das respectivas fontes de recrutamento contri- buem para que a organização não só atraia candidatos qualificados para o cargo, como também são determinantes para elevar a efi- ciência, diminuir o tempo e reduzir os custos do processo de recrutamento. Para conhecer melhor as fontes de recrutamento, acesse o site da Catho: http://www.catho.com.br/ 81 Recrutamento e seleção de pessoas - Unidade 3 O índice de retorno é calculado pela porcentagem de candidatos que passam para a fase seguinte do proces- so seletivo em relação ao número total de currículos enviados pela fonte (MILKOVICH.; BOUDREAU, 2000). 3.4 Avaliação do Processo de Recrutamento As ações voltadas ao gerenciamento de pessoas são sempre questionadas pela alta administração da empresa, em função da subjetividade de medir o retorno financeiro. É possível medir a eficiên- cia do processo de recrutamento através do índice de retorno, que indica qual a fonte de recrutamento mais efetiva na localização de can- didatos qualificados. A figura a seguir mostra o índice de retorno: n° de currículos da fonte que foram para a próxima fase do processo seletivo Total de currículos enviados pela fonte x 100 Figura: Índice de Retorno do Recrutamento Fonte: Elaborada pela autora com base em MILKOVICH; BOUDREAU (2000) Com base nesse indicador, você pode decidir qual fonte de recruta- mento utilizar para determinado cargo. É possível também calcular o custo do processo de recrutamento, conforme apresenta a figura seguinte. CR = CP + TA + BR TC CR = custo do recruttamento = custo com anúncios, elaboração de cartazes CP TA == taxas pagas às agências de recrutamento e sele- ção, de eemprego, associação de profissionais = bonificações de BR rreferência pagas a = total de contratações headhunters TC Figura: Custo do Processo de Recrutamento Fonte: Elaborada pela autora com base em MILKOVICH; BOUDREAU (2000) Viu como é fácil calcular o custo do processo de recrutamento? 82 Gestão de recursos humanos O processo de seleção implica em escolher, sob metodologia específica, o candidato mais adequado a determinado cargo da empresa (MARRAS, 2000) Com todas essas informações, você já domina o processo de recru- tamento e chegou o momento de aprender os conceitos que envolvem o processo de seleção. Vamos lá! 3.5 Conceitos básicos de seleção de pessoas Você deve estar consciente de que não é fácil selecionar uma pessoa para ocupar determinado cargo. Para tanto, devem ser utiliza- dos procedimentos capazes de comparar, da forma mais objetiva possível, diferentes candidatos, com a finalidade de selecionar aqueles potencialmente mais capazes para o cum- primento dos objetivos e das metas da organização. A base da seleção é a compara- ção entre as especificações do cargo, encontradas na descrição do cargo, e o perfil do candidato (TACHIZAWA; FERREIRA; FORTUNA, 2001). 3.6 Métodos de seleção de pessoas Um dos primeiros passos para a realização da seleção é a obtenção de informações confiáveis sobre o candidato, podendo estas ser obtidas através dos seguintes mecanismos (BOHLANDER, SNELL e SHERMAN, 2003): • formulários de solicitação de emprego: meio rápido e sistemá- tico de obter informações sobre o candidato, permitindo analisar se este atende aos requisitos mínimos do cargo; • formulários de informações biográficas: obtenção de infor- mações sobre o histórico de vida da candidato, revelando seus valores e seus comportamentos; • investigação dos antecedentes: verificação da veracidade das informações fornecidas pelo candidato através de contato com a empresa em que ele trabalhou anteriormente; 83 Recrutamento e seleção de pessoas - Unidade 3 • testes de honestidade e integridade: são testes psicológicos aplicados principalmente quando o candidato, dentro da vaga almejada, irá ter acesso • grafologia: análises da letra do candidato, possibilitando a reali- zação de inferências sobre traços de personalidade, inteligência, criatividade, integridade e maturidade emocional; • exames médicos: realizados para assegurar que a saúde do can- didato é adequada para atender aos requisitos do cargo; • aplicação detestes de drogas: geralmente quando o resultado é positivo, o candidato é eliminado do processo seletivo, perdendo qualquer chance de ser contratado. Existem na literatura diversos métodos adequados com vista à seleção dos candidatos mais aptos. Geralmente são objetivos e padronizados (GIL, 2001) e têm como finalidade avaliar os conhecimentos, as habilidades, as capacidades, as características de personalidade de uma pessoa em relação a outros candidatos (BOHLANDER, SNELL E SHERMAN, 2003). O quadro a seguir apresenta uma síntese dos métodos de seleção mais utilizados pelas empresas. Vamos conhecê-los? Quadro: Métodos de seleção Fonte de recrutamento Vantagens Desvantagens Análise de currículos • Instrumento rápido de obten- ção de informações sobre o can- didato. • Informações que devem ser identificadas: competência pro- fissional, desejo de permanência no emprego e de seguir carreira, experiência prática, adequação ao grupo, vontade de trabalhar e de aceitar novos desafios, orien- tação para os lucros e melhoria de desempenho. • Para analisá-los convém agru- par os currículos em três catego- rias: prováveis, com possibilida- des e sem possibilidades. • Deve ser lido nas entrelinhas. • É um método não adequado para proporcionar uma visão real do candidato. • Para ser eficiente, deve ser combinado com o uso de outra técnica, como a entrevista, por exemplo. • Não devem ser lidos todos de uma vez, visto que depois de cer- ta quantidade fica difícil assimilar bem as informações. 84 Gestão de recursos humanos Testes escritos • Recomenda-se sua utilização para cargos que requerem co- nhecimentos específicos. • As questões devem avaliar o conhecimento geral do candida- to para a vaga. • As questões devem ser passí- veis de ser respondidas não ape- nas por candidatos que conhe- çam a realidade da empresa.. • Evitar a formulação de ques- tões ambíguas, que permitem múltiplas interpretações. Testes psicológicos • Identificam as aptidões. • Utilizados para avaliação do potencial intelectual, das habili- dades e dos traços de personali- dade dos candidatos. • Para surtirem bons resultados precisam ser aplicados com grande perícia. • Não é eficiente na avaliação de candidatos para tarefas executi- vas. Entrevistas • Contato direto com o candida- to, permitindo a identificação de suas capacitações para exercer o cargo que se deseja preencher. • Obtenção de informações em profundidade acerca do candi- dato. • Pode ser utilizada em conjunto com outros métodos. • A eficácia da entrevista é de- pendente da competência técni- ca do entrevistador. • Requer muito tempo para apli- cação, sendo dispendiosa do ponto de vista financeiro. • Dificulta o registro das informa- ções. • É muito afetada pela subjetivi- dade do entrevistador. • Necessita de planejamento pré- vio e uniformidade nas questões para poder avaliar os candidatos de forma justa. Dinâmica de grupo • Coloca os candidatos reunidos em grupo diante de situações em que terão de demonstrar sua reação. • Pode avaliar muitas caracterís- ticas dos candidatos, tais como: liderança, iniciativa, criatividade. • Técnicas utilizadas são varia- das. • Para facilitar a coleta de dados, recomenda-se o uso de fichas com os fatores que estão sendo avaliados. • Só deve ser aplicada nos es- tágios finais de seleção, quando é possível garantir que todos os candidatos apresentam os re- quisitos mínimos para ocupar o cargo. Fonte: Elaborado pela autora com base em GIL (2001) 85 Recrutamento e seleção de pessoas - Unidade 3 Observa-se pelo quadro que todas as técni- cas de seleção apresentam vantagens e desvan- tagens, não sendo possível eleger um méto- do único. Na verdade, a escolha do método de seleção é uma decisão de cada empresa. Recomenda-se que nos estágios ini- cias de seleção sejam utilizadas técnicas eli- minatórias, destacando-se a análise curricular, os testes escritos e os testes psicológicos. A dinâmica de grupo e a entrevista devem ser usadas como técnicas classificatórias, sendo deixadas para o final do processo seletivo (MILKOVICH; BOUDREAU, 2000). dr ea m st im e. Co m a Ge nC y / d re am st im e. Co m 3.7 A escolha do candidato A escolha do candidato é uma decisão bastante complexa. Não é apenas uma escolha baseada no quanto o perfil do candidato é aderente aos requisitos do cargo. Requer também uma previsão do comportamento do candidato em situações do dia a dia do trabalho (GIL, 2001). Mesmo que o recrutamento e os procedimentos de seleção tenham sido operacionalizados de forma adequada, não se pode garantir com ab- soluta certeza que o candidato escolhido, na prática, apresentará o desem- penho esperado pela organização (TACHIZAWA; FERREIRA; FORTU- NA, 2001) nem se ele efetivamente se adaptará à cultura da organização (ROBBINS, 2002). Quer conhecer mais sobre os métodos de seleção de pessoas? Acesse o site da shl People Performance: http://www.shldirect.com/pt/selec- tion_and_assessment_metho- ds.html 86 Gestão de recursos humanos bs ilv ia / dr ea m st im e. Co m A opinião sobre os candidatos finalistas e a participação da área demandante para preenchimento do cargo disponível nas etapas finais do processo seletivo é de fundamental importância para que se obtenha o su- cesso desejado (RIBEIRO, 2006). Finalizando, como a tomada de decisão em relação à contratação, é tarefa que se reveste de grande responsabilidade, sendo conveniente tecer algumas recomendações (HANASHIRO et al, 2007): • é mais importante considerar as realizações do que as credenciais do candidato; • preconceitos de raça, idade e religião devem ser excluídos, pois levam a ver nos candidatos defeitos inexistentes; • candidatos fortes ameaçam gerentes fracos; • candidatos super-qualificados costumam sentir-se desmotivados no trabalho; e • candidatos finalistas não devem ser dispensados até que o esco- lhido aceite definitivamente o cargo. Atividades 01. Você optou por utilizar o recrutamento interno para a ocupação do cargo de analista de marketing. Esse tipo de recrutamento: a) embora seja mais demorado, apresenta como vantagem o fato de ser mais econômico. b) se bem estruturado, aumenta a motivação dos funcionários. c) não necessita de divulgação da vaga em aberto. d) afeta a política salarial da empresa. 87 Recrutamento e seleção de pessoas - Unidade 3 02. O índice de retorno indica qual a fonte mais efetiva de recrutamento de candidatos. Dente as fontes abaixo relacionadas, assinale aquela que foi mais efetiva no recrutamento de candidatos ao cargo analista de recursos humanos da indústria de calçados Sapato & Cia: a) CIEE – Nº de currículos enviados pela fonte: 50, Nº de currículos da fonte que foram selecionados para a próxima etapa do processo seletivo: 2 b) Agência de Recrutamento – Nº de currículos enviados pela fonte: 60, Nº de currículos da fonte que foram selecionados para a próxima etapa do processo seletivo: 25 c) Cartaz na faculdade COC – Nº de currículos enviados pela fonte: 20, Nº de currículos da fonte que foram selecionados para a próxima etapa do processo seletivo: 9 d) Site da empresa X – Nº de currículos enviados pela fonte: 100, Nº de currículos da fonte que foram selecionados para a próxima etapa do pro- cesso seletivo: 20 e) Anúncio no jornal local – Nº de currículos enviados pela fonte: 150, Nº de currículos da fonte que foram selecionados para a próxima etapa do processo seletivo: 20 03. Qual o custo de recrutamento da empresa ATUAL na seleção de 10 trainees para a área de logística da empresa, sendo que foram efetu- ados os seguintes gastos: • Confecção dos cartazes para serem afixados nas faculdades de administração: R$ 500 • Taxas pagas a agência de recrutamento, empresa JR da Faculda- de COC e CIEE: R$ 250 para cada a) R$ 1250 b) R$ 12.500 c) R$ 125 d) R$ 750 e) R$ 75 04. Recomenda-se que se faça um anúncio do tipo fechado para o recru- tamento de um candidato quando queremos: a) atrair poucos candidatos para o cargo. b) receber currículos personalizados.88 Gestão de recursos humanos c) manter a confidencialidade do nome da empresa. d) conhecer as intenções salariais dos candidatos. e) conhecer a habilidade redacional dos interessados. 05. Observe a figura e responda qual o tipo de anúncio utilizado pela empresa: Indústria multinacional, sediada no ABC, procura: MÉDICO DO TRABALHO Requisitos: • Experiência de 3 a 5 anos em empresas do ramo metalúrgico • Disponibilidade para horário de trabalho das 07h00 às 12h00, de segunda-feira a sábado a) Aberto b) Semiaberto c) Semifechado d) Fechado e) Nenhuma das anteriores 06. Várias são as vantagens de um recrutamento externo. Dentre elas tem-se: a) atrair mão de obra mais qualificada muitas vezes que a da própria empresa, aproveitando os investimentos realizados por outros em treina- mentos. b) aumento da política salarial da empresa com a vinda de pessoas de fora, assim o salário dos empregados mantém-se atualizado. c) receber currículos personalizados, com fotos e carta de recomendação. d) trazer pessoas que não irão contribuir com novas ideias, gerando con- flito no grupo de trabalho, quebrando, assim, o pensamento grupal. e) receber indicações de pessoas conhecidas e de pessoas que detenham o poder, capazes de impor alguns currículos. 07. Em relação às técnicas de seleção, assinale a alternativa correta. a) A entrevista é uma técnica que só pode ser utilizada por psicólogos. b) As provas teóricas devem ser utilizadas quando se deseja saber como o candidato se sairá no exercício do cargo. 89 Recrutamento e seleção de pessoas - Unidade 3 c) A dinâmica de grupo deve ser utilizada como método eliminatório. d) Nenhuma das anteriores 08. Quais benefícios a seleção eficaz de determinado candidato para uma vaga específica da empresa pode trazer à área organizacional ao qual essa vaga pertence? 09. Elabore um processo de seleção para o cargo de gerente de recursos humanos, descrevendo cada uma das etapas de avaliação. 10. Por que, mesmo seguindo à risca os procedimentos de seleção, uma empresa pode errar na escolha do candidato? Reflexão O processo de recrutamento inicia a captação e a triagem de candi- datos internos ou externos à organização com a finalidade de preencher determinada vaga disponível na organização. Se bem estruturado e ligado aos objetivos estratégicos da organi- zação, o processo de recrutamento elimina uma série de candidatos não compatíveis com o perfil desejado pela empresa e, consequentemente, di- minui a carga de trabalho da equipe que está à frente do processo. 90 Gestão de recursos humanos Quanto maior o número de candidatos qualificados ao cargo atraí- dos pelo recrutamento, maiores as chances de a organização selecionar o profissional que atenda às suas necessidades. Basicamente há dois tipos de recrutamento: interno e externo. Não há um tipo melhor que outro. O que vai determinar qual tipo será utilizado pela empresa serão os objetivos da organização. Muitas vezes as organiza- ções mesclam o uso dos dois tipos de recrutamento. As ações voltadas ao gerenciamento de pessoas são sempre questio- nadas pela alta administração da empresa, em função da subjetividade de medir o retorno financeiro. Dentro desse contexto há o índice de retorno, que indica qual a fonte de recrutamento mais efetiva, bem como o índice que apura o custo do processo de recrutamento. Essas medidas são im- portantes para dar sustentação às ações de gestão de pessoas perante as demais áreas organizacionais, principalmente a financeira. O processo de seleção, quando bem planejado, permite diminuir a margem de erro na contratação, garantindo, assim, a qualidade dos talen- tos humanos que entram na empresa. Há vários métodos de seleção disponíveis no mercado, sendo que a empresa deve escolher aquele que melhor se adapte a seu contexto. Um ponto que vale ressaltar é que as empresas formalizem sua polí- tica de seleção, deixando claros os critérios e o perfil desejado de colabo- rador necessário ao alcance dos objetivos da organização. Leitura Complementar Neste item é apresentada parte do artigo “O funil da seleção”, apre- sentado na edição 130 da Revista Você S.A. Caso você queira ler o artigo completo, é só acessar o endereço eletrônico indicado na fonte do artigo ao final do trecho apresentado. Boa leitura! “Um bom currículo não garante emprego, mas, sim, a oportunidade de participar de um processo seletivo. Se você preencher os requisitos básicos para determinada vaga, são grandes as chances de ser chamado para uma conversa particular. Os processos seletivos variam de empresa para empresa. Normalmen- te, incluem três etapas: dinâmica de grupo, entrevista e, se você for bem nessas duas, um bate-papo decisivo com o gestor, o dono da vaga. 91 Recrutamento e seleção de pessoas - Unidade 3 A dinâmica de grupo é defendida por muitos especialistas em recursos hu- manos como um instrumento eficiente de observação do comportamento humano. Nela, vários candidatos são colocados diante das mais diversas situações e suas re- ações são avaliadas por um ou mais observadores da empresa contratante. É uma forma de testar a capacidade de adaptação da pessoa, verificar como ela interage com o outro e, em alguns casos, como ela age sob pressão. A prática da dinâmica é voltada, principalmente, para trainees, analistas e profissionais da área de vendas. Algumas dicas para passar pela dinâmica de grupo sem traumas: 1. Procure entender as características do cargo para o qual está se candi- datando. Você terá uma ideia do que se espera observar na dinâmica: criativida- de, liderança ou colaboração. 2. Elabore previamente uma apresentação com suas principais caracterís- ticas. Faça também uma versão reduzida, para falar em 60 segundos. 3. Procure demonstrar que tem como contribuir para o objetivo proposto. 4. Nem tente ser o centro das atenções nem se omita. “Participe e deixe o outro participar.” 5. “Não seja nem o primeiro a falar nem o último”. 6. Em vez de só ficar pensando no que falar, preste atenção na pessoa que conduz a dinâmica e nos candidatos. Isso lhe dará a munição de que precisa. A entrevista é provavelmente a etapa mais importante dentro de um pro- cesso de seleção. É a oportunidade que você tem de se vender, mostrar por que é a pessoa certa para o cargo. Atenção: não exagere na dose. Senão, em vez de passar a imagem de profissional preparado, pode ser tachado de arrogante. O segredo está no equilíbrio. “Se o candidato é muito lacônico, corre o risco de mostrar pouco conhecimento. Se fala demais, pode passar uma imagem de pre- potência. Seja objetivo nas respostas. A entrevista serve para você complemen- tar as informações que estão no currículo. Se o selecionador perguntar sobre os resultados alcançados em seu último emprego, cite fatos. Por exemplo: uma ideia sua que tenha ajudado a aumentar o lucro da empresa. Para estar afiado na hora da entrevista, siga algumas instruções: 1. Selecione, previamente, as melhores histórias do seu passado profis- sional. Elas devem conter exemplos de criatividade, capacidade de resolução de problemas e de aprendizado. 2. Dificuldades fazem parte da trajetória profissional. Os entrevistadores gostam de candidatos realistas. Se lhe perguntarem sobre fracassos, conte. Mas diga o que aprendeu com eles. 92 Gestão de recursos humanos 3. Se você foi demitido do emprego anterior, não minta em relação a isso nem demonstre opiniões negativas relativas à empresa onde estava. Falar mal de chefes anteriores não pega bem. 4. Elabore uma lista curta de questões. Pergunte quais serão suas res- ponsabilidades, os planos da empresa, como seu desempenho será avaliado. Tal atitude é uma demonstração de interesse. 5. Prepare-se para responder a perguntas acerca de seus pontos fracos; que situação difícil encontrou na carreira e como teve de lidar com ela. 6. Fique atento aos sinais dados pelo entrevistador. Se ele estiver lhe interrompendo muito, por exemplo, é porque está querendo mais objetividade de sua parte.7. Pergunte ao entrevistador, ao final do encontro, que impressão ele teve de você. Isso revela humildade e vontade de crescer. Conversar com o gestor da área, aquele que poderá ser seu chefe dire- to, é o último passo para ser admitido em uma empresa. As consultorias e os departamentos de RH indicam, normalmente, três finalistas. A disputa é dura nessa fase. Você concorrerá com pessoas à altura de seu talento. Ao contrário das etapas anteriores, não há muito o que fazer, a não ser comportar-se de ma- neira natural. Os critérios de escolha tornam-se subjetivos e fogem ao controle do candidato. Empatia, por exemplo, é uma das qualidades mais destacadas. Há outras. Vai depender de quanto o gestor vai com a sua cara. Não se desmo- tive se ficar de fora. FONTE: VOCÊ S.A. O funil da seleção. Edição 130. 11/04/2009. Disponível em: http://vocesa.abril.com.br/desenvolva-sua-carreira/ materia/funil-selecao-484081.shtml. Data de acesso: 08/08/2010. Referências ASHLEY, P. A. Ética e responsabilidade social nos negócios. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2005. BOHLANDER, G.; SNELL S.; SHERMAN, A. Administração de Recursos Humanos. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003. DESSLER, G. Administração de recursos humanos. 2. ed. São Pau- lo: Prentice Hall, 2003. 93 Recrutamento e seleção de pessoas - Unidade 3 GIL, A. Gestão de Pessoas: enfoque nos papéis profissionais. São Paulo: Atlas, 2001. HANASHIRO, D; ZACARELLI, L.; TEIXEIRA, M.; GODOY, A. Gestão do fator humano: uma visão baseada em stakeholders. São Paulo: Saraiva, 2007. MARRAS, J. Administração de recursos humanos: do operacional ao estratégico. São Paulo: Futura, 2000. MILKOVICH, G.; BOUDREAU, J. Administração de recursos hu- manos. São Paulo: Atlas, 2000. RIBEIRO, A. L. de. Gestão de pessoas. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. ROBBINS, S. Comportamento organizacional. São Paulo: Prentice Hall, 2002. TACHIZAWA, T.; FERREIRA, V.; FORTUNA, A. Recrutamento, se- leção e contratação de pessoal. In: TACHIZAWA, T.; FERREIRA, V.; FORTUNA. Gestão com pessoas: uma abordagem aplicada às estraté- gias de negócios. 2. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2001 VOCÊ S.A. O funil da seleção. Edição 130. 11/04/2009. Disponível em: http://vocesa.abril.com.br/desenvolva-sua-carreira/materia/funil- selecao-484081.shtml. Data de acesso 08/08/2010. 94 Gestão de recursos humanos Na Próxima Unidade Na próxima unidade vamos discutir sobre o sistema de treinamento e desenvolvimento. O processo de treinamento refere-se ao conjunto de experiências de aprendizagem centradas na determinação de ações pontuais para a melho- ria da capacidade das pessoas. Já o processo de desenvolvimento refere-se ao conjunto de experiências de aprendizagem não necessariamente rela- cionadas aos cargos que as pessoas ocupam atualmente, mas que propor- cionam oportunidades para o crescimento profissional. U ni da de 4 Treinamento e desenvolvi-mento de pessoas Depois de recrutar, selecionar o funcionário, o passo seguinte é orientá-lo e treiná-lo, a fim de que ele realize de forma adequada as atividades e as atribuições do cargo para o qual foi contratado. A orientação de funcionários consiste no processo de transmissão de informações básicas acerca da empresa aos novos funcionários, a fim de que eles se socializem e se inte- grem rapidamente à cultura da organização (DESSLER, 2003). Envolve a comunicação de crenças, valores, regras e normas da empresa, bem como a sinalização das atitudes e comportamentos esperados pela organização (ROBBINS, 2002). Uma orientação bem-sucedida deve, ainda, esclarecer ao novo fun- cionário as políticas de gestão de pessoas da organização (DESSLER, 2003), a fim de que ele possa traçar seus próprios objetivos em relação à organização e planejar seu desempenho. Já o processo de treinamento refere-se ao conjunto de experiências de aprendizagem centradas na determinação de ações pontuais para a me- lhoria da capacidade das pessoas (MARRAS, 2000). O treinamento é, portanto, um processo focado no curto prazo, levando em conta a posição atual da organização (GIL, 2001). Na literatura, os conceitos de treinamento e desenvolvimento estiveram sempre associados, sendo até criada uma sigla para designar o termo: T&D (MARRAS, 2000). Nessa linha mais tradicional, os autores destacavam que a principal diferença entre os termos era que o treinamento tinha foco no curto prazo e o desenvolvimento era centrado no longo prazo (BOR- GES -ANDRADE, 2002). Os dois conceitos sempre foram estudados juntos, recebendo o treinamento maior atenção por parte dos autores (GIL, 2001). No entanto, o conceito de desenvolvimento passou a ganhar importância a partir do momento em que a ges- tão de pessoas foi elevada ao nível estratégico, e as 96 Gestão de recursos humanos Treinamento e desenvolvimento de pessoas - Unidade 4 pessoas passaram a ser consideradas o principal patrimônio de uma orga- nização (FLEURY; OLIVEIRA JR,2001). Isto porque o capital humano tornou-se o principal fator de diferenciação competitiva das organizações, cuja sobrevivência está ligada à manutenção e ao aprimoramento de suas competências essenciais (DUTRA, 2004). Essas empresas requerem pessoas capazes de conduzir o negócio de for- ma empreendedora, produzindo bens e prestando serviços superiores em relação aos concorrentes, em um processo contínuo de melhoria e mudan- ça (FLEURY; FLEURY, 1997). Para responder a esse novo contexto competitivo, é preciso que as pessoas não só desempenhem de forma adequada as tarefas e as atribuições ineren- tes ao cargo que ocupam na empresa (MARRAS, 2000), mas que de alguma forma façam diferença e agreguem valor à organização (DUTRA, 2004). Dentro desse contexto, é fundamental investir na elaboração de progra- mas voltados ao desenvolvimento e à capacitação no trabalho (DESS- LER, 2003), capazes de fomentar o aprendizado e a criação de novos co- nhecimentos que possam melhorar a posição competitiva da organização (FLEURY, 1999). Você leu com bastante atenção a apresentação do tema? Esperamos que sim, pois é nesse ambiente que você vai construir sua vida profissional! Objetivos da sua aprendizagem Nesta unidade, temos como objetivos: • reconhecer a importância do treinamento para o desenvolvimento das ha- bilidades individuais e para a construção das competências organizacionais; • entender cada uma das etapas do processo de treinamento, identificando os requisitos básicos de sucesso de cada uma delas; • compreender a importância do desenvolvimento dos colaboradores para a construção das competências organizacionais. Você se lembra? Na unidade anterior você estudou os conceitos gerais de recrutamento e seleção. Agora você aprenderá sobre os fundamentos dos processos de treinamento e desenvolvimento. 97 Treinamento e desenvolvimento de pessoas - Unidade 4 4.1 Visão geral sobre o processo de treinamento O desenvolvimento de programas para o treinamento de pessoal tem sido foco de preocupação das empresas desde o início do século XX. Observa-se que, durante esse período de tempo, com o advento das diver- sas escolhas da administração, houve evolução em relação ao conteúdo do treinamento (GIL, 2001). Para os seguidores dos princípios difundidos pela Escola Clássica de Administração, o objetivo dos programas de treinamento de pessoal era preparar os funcionários para que eles desempenhassem as tarefas do modo prescrito e no tempo padrão definido pela organização. A finalidade do treinamento era maximizar a eficiência no trabalho, elevando a produ- tividade da organização ao mais alto nível (MAXIMIANO, 2006). Com o advento da Escola das Relações Humanas, a organização passou a ser vista como um sistema social, e a gestão dos fatores psicoló- gicos relacionados ao trabalho tornaram-se o ponto central para a eficiên- cia no trabalho (LACOMBE; HEILBORN, 2003). Assim, as empresas passaram a desenvolver programas de treina- mento voltados aos fatores psicossociais do indivíduo, destacando-se temas comoo relacionamento interpessoal, a integração do indivíduo à organização (GIL, 2001). A Escola da Qualidade preocupou-se principalmente com a elimina- ção de desperdícios e a fabricação com qualidade (MAXIMIANO, 2006). Dentro desse contexto, as empresas buscaram formatar treinamentos foca- dos na polivalência das habilidades dos funcionários e no desenvolvimen- to da capacidade de resolver problemas e atuar corretivamente sobre eles (SHIBA; PURSCH; STASEY, 1995). Outro aspecto alvo dos treinamen- tos era a prevenção de falhas (RIBEIRO, 2003). Com adoção do Enfoque Sistêmico pela Administração, a área de Recursos Humanos passou a considerar o treinamento de forma mais abran- gente, levando em conta as necessidades e as aspirações do indivíduo, suas motivações e suas dificuldades de aprendizagem (MAXIMIANO, 2006). Como consequência dessa nova visão, o processo de treinamento foi sistematizado nas seguintes etapas: identificação das necessidades de treinamento, elaboração do plano de treinamento, execução do programa e avaliação do treinamento (RIBEIRO, 2006). Treinamento e desenvolvimento de pessoas - Unidade 4 98 Gestão de recursos humanos Apesar de todas as mudanças em relação ao processo de treina- mento, o que se observa na prática é que muitas empresas ainda tratam o tema sem a devida importância, enxergando os colaboradores como recursos para produção, padronizando os treinamentos realizados, sem levar em conta as reais necessidades de cada indivíduo e área organiza- cional (GIL, 2001). No entanto, as contingências do atual ambiente competitivo vêm alterando a forma como muitas organizações lidam com o processo de treinamento (DESSLER, 2003). Dentre as principais mudanças observa- das destacam-se (GIL, 2001): • a área de treinamento passa a ser mais de apoio do que de execu- ção, tendo como atribuição assessorar o corpo gerencial em re- lação às determinação das estratégias mais adequadas de treina- mento, fornecendo o suporte necessário para a operacionalização de cada uma das etapas do processo de treinamento; • cabe ao gerente de cada área organizacional a responsabilidade de incentivar a elevação do grau de maturidade e capacitação de seus subordinados, identificando quais habilidades precisam ser aprimoradas; • verifica-se tendência a um maior investimento em atividades de treinamento, bem como um aumento no tempo destinado ao trei- namento dos empregados. Após essa visão da evolução do processo de treinamento, esperamos que você esteja convencido da importância desse processo para a gestão efetiva de pessoas, bem como esteja fortemente motivado a aprender como definir estratégias e operacionalizar programas de treinamento. 99 Treinamento e desenvolvimento de pessoas - Unidade 4 Há poucos anos o treinamento costumava concentrar-se no ensino de habili- dades técnicas, mas hoje o treinamento pode significar educação complementar, ensinando, por exemplo, os funcionários a construírem tabelas e gráficos, bem como analisá-las (DESSLER, 2003). O treinamento pode também desenvolver habilidades interpessoais (comunicação, trabalho em equipe) e de tomada de decisão (GIL, 2001). O treinamento pode ser conceituado um esforço planejado, organizado, especialmente projetado para auxiliar os colaboradores a aperfeiçoarem suas capacidades, aprenderem novos métodos de tra- balho, ampliarem seus conhecimentos e habilidades, alcançando assim melhor nível de desempenho no trabalho (DESSLER, 2003). Observa-se que as áreas de enfoque do treinamento têm se expandido nos últimos anos, diversificando-se (RIBEI- RO, 2006). O treinamento é um processo de assimilação, que produz um estado de mudança no conjunto de Conhecimentos, Habili- dades e Atitudes (CHA) de cada trabalhador, uma vez que implementa ou modifica a bagagem particular de cada um (MARRAS, 2000). O conjunto individual de co- nhecimentos, habilidades e atitudes deve estar em uníssono com o cargo ocupado pelo colaborador na organização (DUTRA, 2004). 4.2 Etapas do processo de treinamento Para que os investimentos realizados em treinamento sejam capazes de produzir os resultados desejados pela empresa, o processo de treina- mento deve ser elaborado e implementado de acordo com as seguintes etapas: avaliação das necessidades de treinamento, planejamento das ações de treinamento, avaliação do treinamento (GIL, 2001). Cada uma dessas etapas é detalhada a seguir. 4.2.1 Avaliação das Necessidades de Treinamento O processo de levantamento de necessidades de treinamento deve ser dinâmico, fazendo parte da rotina da organização e dos negócios da empresa (BOHLANDER, SNELL, SHERMAN 2003). 100 Gestão de recursos humanos A principal finalidade desta etapa é a identificação do gap de habilidades, ou seja, a constatação de que existem diferenças entre as habilidades necessárias para o desempenho de cada cargo e as habili- dades possuídas pelos ocupantes dos cargos (DESSLER, 2003). O levantamento das necessidades de treinamento é o primeiro passo para a empresa diagnosticar se o treinamento é efetivamente necessário (GIL, 2001). Muitas vezes o problema identificado não pode ser solucio- nado por uma ação de treinamento (MILIONE, 1999). Alguns problemas organizacionais podem ser sintomas que apon- tam a necessidade de realização de treinamento, destacando-se entre eles: indicadores de baixa produtividade de funcionários, altos índices de reclamações de clientes, ou maior número de erros e des- perdício (RIBEIRO, 2006). O processo de iden- tificação das necessidades de treinamento pode ser operacionalizado pela co- leta de dados por meio de questionário ou entrevista com superiores e subordinados (MARRAS, 2000). Para os funcionários novos, utiliza- se a descrição de cargo como ferramenta para identificar a necessidade de treinamento e, para os funcionários que já estão inseridos na empresa há algum tempo, utiliza-se a avaliação de desempenho (DESSLER, 2003). É interessante que as necessidades de treinamento sejam formaliza- das em um relatório de diagnóstico, que indique as falhas em termos de habilidade de cada área organizacional (GIL, 2001). Esse relatório será utilizado como parâmetro para a determinação dos treinamentos necessá- rios (RIBEIRO, 2006). Na verdade, o treinamento não só pode, como deve ser idealizado para atender a obje- tivos específicos da organização, destacando- se (MARRAS, 2000): • formação profissional: tem como meta alcançar um grau ideal de capacidade labo- ral para determinada profissão, repassando todos os conhecimentos e as práticas necessá- rias ao bom desempenho de uma função; Agora respon- da: o treinamento só deve ser aplicado quando há problemas em relação a conheci- mentos, habilidades e atitudes dos colaboradores ? 101 Treinamento e desenvolvimento de pessoas - Unidade 4 • especialização: oferece ao treinando um campo de conhecimen- tos ou prática específica dentro de uma área de trabalho para otimização dos resultados; • reciclagem: tem como finalidade básica rever conceitos, conhe- cimentos ou práticas de trabalho, renovando-os ou atualizando- -os de acordo com as necessidades. 4.2.2 Planejamento das ações de treinamento Após levantar as necessidades de treinamento, deve ser planejado um programa de treinamento para cada habilidade deficitária (DESSLER, 2003). Este plano está apresentado no quadro a seguir. Quadro: Projeto Instrucional do Treinamento Aspecto Descrição Objetivo • Determinação da habilidade a ser treinada Público-alvo • Área organizacional ou pessoas que farão o treinamento Resultados esperados • Estabelecimento de objetivos concretos e mensuráveis em termos de resultados a serem alcançados com a realização do treinamento. Projeto instrucional • Definição do conteúdo a ser abordado no treinamento em fun- ção da habilidade a ser treinada • Definição da técnica de aprendizagem a ser utilizada em função da habilidade a ser treinada • Escolha do instrutor • Preparação do materialdidático a ser utilizado no treinamento • Definição do tempo de duração do treinamento em função da habilidade a ser treinada • Definição de data, hora e local para a realização do treinamento Fonte: Elaborado pela autora com base em DESSLER (2003); GIL (2001) Você deve estar questionando quais técnicas de aprendizagem podem ser utilizadas em um treinamento. Verifica-se a existência de vá- rias delas na literatura. O quadro abaixo faz uma síntese das técnicas de treinamento. 102 Gestão de recursos humanos Quadro: Técnicas de treinamento Tipo Descrição Treinamento no trabalho • Treinamento realizado no cargo por um trabalhador com ex- periência ou pelo supervisor • É bastante utilizado em todos os níveis hierárquicos Treinamento de aprendizagem • Processo estruturado por uma combinação de instrução em sala de aula e treinamento no trabalho. • Serve para treinar várias ocupações. Simulação • Os treinandos aprendem no equipamento que usarão no tra- balho ou em equipamentos simulados. • Apresenta as vantagens do treinamento no trabalho sem a necessidade de colocar o treinando no trabalho. • É necessário quando o treinamento no trabalho é muito cus- toso ou perigoso. Técnicas audio-visuais • Utilização de filmes, circuitos fechados de televisão, fitas de áudio e de vídeo Teletreinamento • Um treinador fixo em determinado local treina grupos de fun-cionários em locais distantes por meio de canais de vídeo. Videoconferência • Tem como função treinar funcionários que estão geografica- mente separados uns dos outros – ou do treinador. • Usa uma combinação de equipamentos de áudio e vídeo, que permite que as pessoas em uma localidade comuniquem- se ao vivo com pessoas em outras cidades. Treinamento computadorizado • O treinando usa um sistema computadorizado para aumen- tar interativamente seus conhecimentos ou habilidades. • Embora os treinamentos por simulação não usem necessa- riamente sistemas computadorizados, a simulação e a multi- mídia são recursos quase sempre presentes nos treinamentos computadorizados. Treinamento via internet • O aluno é treinado a distância por meio da internet. • Os treinandos recebem uma série de tarefas a cumprir den- tro de um prazo determinado. • O aluno tem flexibilidade de horário para realização das ati- vidades. • Necessidade de autodisciplina. 103 Treinamento e desenvolvimento de pessoas - Unidade 4 Rotação de cargo • Consiste na transferência de um profissional para vários de- partamentos da empresa, a fim de ampliar sua compreensão de todas as partes do negócio. • É muito utilizado em programas de trainee, com o objetivo do recém-formado, ampliar sua experiência passando por vários departamentos, para depois escolher em qual departamento trabalhar. Método do estudo de caso • Apresentação da descrição de um problema organizacional real. • Realização da análise da situação e apresentação do diag- nóstico, elencando as causas do problema. • Definição das recomendações para solução do caso. Jogos de empresas • Geralmente computadorizados, são formados grupos que representam empresas que devem competir entre si em um mercado simulado. • Cada grupo-empresa estabelece suas meta e estratégias e toma várias decisões que resultam em determinado desem- penho. Seminários externos • Palestras, seminários e conferências direcionadas principal- mente ao desenvolvimento de gerentes. Brainstorming (tempestade de ideias) • Técnica utilizada para provocar principalmente a criatividade e a rapidez de raciocínio dos participantes. • Estimulados pelo instrutor, que indica certo assunto, os trei- nandos expressam seu ponto de vista. • A informalidade é o ponto alto dessa técnica; não há nenhum pré-requisito ou formatação que limite as ideias ou os movi- mentos dos participantes. Painel • Técnica que utiliza a apresentação e a discussão conjunta de especialistas em determinado assunto para uma plateia de ouvintes (treinandos). • É uma reunião de trabalho que se caracteriza por informa- lidade e descontração, sob a coordenação de um mediador. • Uma variante dessa técnica pode prever, além dos exposito- res (especialistas), a presença de interrogadores, para fazer o contraponto e questionar certos ângulos abordados. Fonte: Elaborado pela autora com base em DESSLER (2003), MARRAS (2000) 104 Gestão de recursos humanos Diante de tantas técnicas, você já deve ter percebido que não existe uma melhor que a outra, e sim aquela adequada a cada situação. m il ot to / ed it or a Co C 4.2.3 Avaliação do treinamento Após a realização do treinamento, é de fundamental importância que os resultados sejam medidos (MARRAS, 2000). O treinamento pode ser avaliado sob quatro aspectos (DESSLER, 2003): • reação dos treinandos ao programa: satisfação em relação ao conteúdo, à didática do instrutor, ao tempo, ao local; • aprendizado: avalie os treinandos para verificar se eles aprende- ram os conceitos, as habilidades e as atitudes que supostamente deveriam ter aprendido; • comportamento: verifique se o comportamento dos participan- tes do treinamento mudou; • resultado: verifique se os resultados foram efetivamente alcan- çados, considerando os objetivos iniciais do treinamento. Para esta avaliação podem ser utilizados como parâmetros indicadores de produtividade, redução de queixas de funcionários, redução de custos e aumento de lucratividade. 4.3 Benefícios e falhas no processo de treinamento A realização de treinamentos periódicos na organização traz uma série de benefícios para ela (MARRAS, 2000): • aumento direto da produtividade: à medida que o treinamen- to propicia a realização de tarefas com maior nível de precisão, haverá redução de custos de produção em função da diminui- 105 Treinamento e desenvolvimento de pessoas - Unidade 4 ção do índice de desperdício e do menor tempo de realização das atividades; • aumento direto da qualidade: o maior nível de conhecimento do trabalhador possibilita maior domínio sobre as atividades executadas e maior controle do processo produtivo; • incentivo motivacional: treinar um trabalhador é oferecer a ele possibilidade de ser eficiente e eficaz; • otimização pessoal e organizacional: é pelo treinamento que o homem se desenvolve profissionalmente, projetando-se social- mente e alavancando sua carreira. Trabalhadores em ascensão, satisfeitos e motivados são comprometidos com os objetivos da organização, contribuindo para que ela alcance a excelência em termos de desenvolvimento organizacional; • utilização do treinamento como instrumento para enfrentar e acompanhar os efeitos das mudanças: as empresas proativas fazem uso do treinamento para prevenir-se contra ameaças e para aproveitar as oportunidades surgidas com as mudanças ocorridas no ambiente competitivo. ry an m Cv ay / Ph ot od is C / G et ty im aG es Mesmo com tantos benefícios a oferecer, verifica-se que na prática muitas organizações não dão a importância devida ao processo de treina- mento (RIBEIRO, 2006). Observa-se também que muitos programas de treinamento falham (DESSLER, 2003). Dentre as inúmeras explicações, já difundidas no meio empresarial, as mais usuais são (GIL, 2001): • falta de comprometimento da alta administração com o investi- mento em treinamento em função da crença de que o processo de treinamento tem pouca credibilidade; • falta de foco do investimento nas reais necessidades de treina- mento e problemas da organização; 106 Gestão de recursos humanos O processo de desenvolvimento refere-se ao conjunto de experiências de aprendizagem não necessariamente relacionadas aos cargos que as pessoas ocupam atualmente, mas que proporcionam oportunidades para o crescimento profissional (GIL, 2001). • falta de vínculo do investimento em treinamento com o planeja- mento estratégico da empresa, no que diz respeito ao desenvolvi- mento das capacidades da organização; • dificuldades de mensuração do custo/benefício dos investimen- tos em treinamento. 4.4 Desenvolvimento de pessoasO desenvolvimento profissional é um processo que transcende ao conceito de treinamento de pessoal e capa- citação profissional, envolvendo componentes que se aproximam do processo educativo (BOR- GES-ANDRADE, 2002). Esse conceito está ligado à capacidade da empresa de criar as con- dições de aprendizagem necessárias para que os funcionários modifiquem comportamentos, desenvol- vam habilidades valorizadas pela organização e aprimorem seus conhecimentos, contribuindo efetivamente para o aprimoramento das ca- pacidades organizacionais (DESSLER, 2003). Você notou que o desenvolvimento profissional é um processo mais amplo e mais a longo prazo do que o conceito de capacitação profissional? No entanto, ambos os processos fomentam a aprendizagem de no- vos conhecimentos, habilidades e atitudes pelos colaboradores! Retomando o conceito de desenvolvimento pro- fissional, observa-se que ele está orientado a ampliar a base de competências (conheci- mentos, habilidades, atitudes) do indiví- duo a longo prazo. Oferece ao colaborador uma macrovisão do negócio, preparando-o para evoluir na organização (MARRAS, 2000). Para aprender mais sobre treinamento, acesse o site: http://www.rh.com.br. 107 Treinamento e desenvolvimento de pessoas - Unidade 4 A educação corpo- rativa compreende todas as atividades realizadas para identi- ficar, modelar, difundir e aperfeiçoar as competências essenciais da organização, tendo como ponto de partida o desenvolvi- mento das competências e das capacidades individuais do colaborador (DESSLER, 2003). 4.5 Educação corporativa Educação pode ser definida como o processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral do ser humano. Já a educação profissional: está centrada no desenvolvimento das capacidades do indiví- duo no mundo do trabalho (GIL, 2001). Pode-se dizer que o conceito de educação foi incorporado integral- mente pelas organizações que desejam manter e aprimorar suas competên- cias (DUTRA, 2004), abrindo espaço para o surgimento de uma nova modalidade de aprendizagem: a educação corporativa (GIL, 2001). Verifica-se que mui- tas organizações estão optando pela instalação de centros de capacitação educacional, bem como pela criação de universidades cor- porativas (GIL, 2001). Essas unidades educacionais são utilizadas para auxiliar na gestão do co- nhecimento organizacional por meio de um processo ativo e contínuo de aprendizagem (ÉBOLI, 2004), contribuindo diretamente para o alcance dos objetivos e implementação das estratégias da empresa, bem como para o aprimoramento das competências individuais e organizacionais (VARGAS, 2003). A universidade corporativa pode ser definida como uma entida- de educacional desenhada estrategicamente pela organização, para cultivar a aprendizagem individual e organizacional, mantendo sua capacidade competitiva (ALLEN, 2002). É bastante frequente a comparação entre a universidade corporativa e a universidade acadêmica. Podem-se destacar as seguintes semelhanças 108 Gestão de recursos humanos entre a universidade corporativa e a universidade acadêmica (HANASHI- RO et al, 2007): • ambas têm compromisso com a educação das pessoas; • foco na aprendizagem; • procuram estar atualizadas no que tange aos conhecimentos por elas ensinados; • geralmente estão inseridas nas comunidades das quais fazem parte; • aplicam metodologias didáticas visando à obtenção de resultados transformadores para os seus públicos beneficiários; e • precisam ser autossustentáveis, ou seja, necessitam financiar sua operação, seja recebendo subsídio da empresa mantenedo- ra, ou do governo, no caso da universidade acadêmica pública, seja vendendo os seus serviços, no caso da universidade acadê- mica privada. As diferenças entre as universidades corporativa e acadêmica estão sintetizadas no quadro abaixo (HANASHIRO et al, 2007): Quadro: Diferenças entre universidade corporativa e universidade acadêmica Universidde corporativa Universidade acadêmica • O processo de aprendizagem é perma- nente, pois a organização está em cons- tante evolução e mudança. • O “aluno-funcionário” é um eterno aprendiz. • É preciso haver conexão clara e explí- cita dos conhecimentos com as metas empresariais da organização. • Pode reunir funcionários de uma mes- ma organização espalhados pelo mundo para discutir assuntos ligados aos objeti- vos e às metas de seus negócios. • Além da avaliação realizada no final dos treinamentos, pode ocorrer posterior- mente avaliação no local de trabalho do funcionário, para verificar quanto o apren- dizado ajudou na obtenção de melhorias nos resultados do negócio. • A aprendizagem tem começo, meio e fim, culminando com a formatura do aluno. • Pode-se dizer que o aluno da universi- dade acadêmica, após obter seu diploma de graduação, para de estudar se quiser. • a aprendizagem trata das questões es- tratégicas, técnicas, emocionais e com- portamentais de uma maneira genérica, algumas vezes vistas como teóricas. • É mais difícil oferecer aprendizagem prática na universidade acadêmica, em função da restrição dos recursos didáticos. • Os alunos buscam aprendizado práti- co por meio da realização de pesquisas científicas, visitas técnicas a empresas, realização de estudos de caso. 109 Treinamento e desenvolvimento de pessoas - Unidade 4 • Procura fazer com que o conhecimen- to tácito se transforme, cada vez mais, em explícito, incorporando-o à cultura da empresa, a fim de que todos possam utilizá-lo. • Focaliza o seu interesse imediato nos negócios/empresa. • A avaliação do aprendizado é feita em cada disciplina, voltada para a medição de quanto o aluno reteve de informações e como ele consegue analisar situações hipotéticas. • Trabalha-se essencialmente com o co- nhecimento explícito, ou seja, com tudo aquilo que está publicado em livros, re- vistas, jornais ou anais de congressos científicos, ou na Internet. • A universidade acadêmica se assenta no tripé ensino, pesquisa e extensão, ou seja, procura gerar conhecimentos que tenham um valor mais amplo para a co- munidade. • Procura formar cidadãos para a vida. Fonte: Elaborado pela autora com base em HANASHIRO et al (2007): Ficou mais claro o papel da universidade acadêmica e da universi- dade corporativa? Tomara que sim! Para aprender mais sobre educação corporativa, acesse o site: http://www.educor.desenvolvimento.gov.br Atividades 01. Em relação ao processo de treinamento, assinale a alternativa correta. a) Na fase de análise das necessidades, é identificado o que o público- -alvo deseja em termos de treinamento. b) O projeto instrucional compreende a definição do conteúdo progra- mático e das técnicas de ensino. c) A validação implica na realização de teste piloto do treinamento e ajustes para maior eficácia do programa. d) Na implementação são definidos os recursos e o respectivo responsá- vel pelo treinamento. e) Nenhuma das anteriores. 110 Gestão de recursos humanos 02. Em relação às técnicas de treinamento, é correto afirmar: a) O treinamento no trabalho não é indicado para a alta gerência. b) O treinamento de aprendizagem é um processo estruturado pelo qual os indivíduos ganham habilidade por uma combinação de instrução em sala de aula e provas simuladas. c) O treinamento por simulação é utilizado quando há considerações de segurança ou quando o treinamento é muito custoso. d) As técnicas de ensino a distância não são seguras. e) Nenhuma das anteriores. 03. Com o intuito de melhorar a mensuração dos retornos dos investi- mentos realizados em treinamento, o diretor de RH da companhia XWZ criticou o seu gerente alegando que a empresa não estava avaliando bem os programas na área. Após estudar melhor o assunto, o gerente constatou que a forma mais precisa de caracterizar os objetivos de uma avaliação é: a) analisar o aprendizado dos participantes do programa aplicando testes de conhecimentos e entrevistas em profundidade. b) verificar a eficiência com que foram utilizados os recursos de treina- mento,compatibilizando os gastos realizados com os lucros obtidos. c) verificar a reação dos treinandos com relação ao conteúdo desenvol- vido e aos métodos utilizados. d) identificar a reação dos treinandos ao programa, o seu aprendizado, as mudanças de comportamento geradas e seu reflexo na implementação das metas organizacionais. e) produzir gráficos com medidas do desempenho dos instrutores, da qua- lidade do material didático e da atuação da equipe logística da empresa. 04. Elabore um programa de treinamento para a equipe de vendas de uma revendedora de materiais de construção, com o objetivo de melhorar a ha- bilidade de negociação com clientes. Para isso, siga cada uma das etapas do processo de treinamento. 111 Treinamento e desenvolvimento de pessoas - Unidade 4 05. Quais as vantagens e os desafios da elaboração de um programa de desenvolvimento profissional? 06. Qual a importância da Universidade Corporativa para as empresas? Reflexão Na verdade não há uma “receita de bolo” que garanta o sucesso ab- soluto de um treinamento. A configuração do treinamento deve levar em conta as reais necessidades de treinamento e os fatores contingenciais que permeiam a organização, como os recursos disponíveis e a maturidade do público-alvo. A seguir são apresentadas algumas tendências consideradas como “boas práticas” na realização de treinamentos (DESSLER, 2003): • use conteúdos práticos e concretos; • estruture atividades relacionadas ao trabalho real da empresa; • utilize métodos de aprendizagem envolventes, com engajamento emocional e orientados para a ação; • crie atividades contínuas e sessões curtas (três a cinco dias), em vez de eventos longos que acontecem uma só vez; • concentre-se nas habilidade de implementação, em vez de limi- tar-se às habilidades de solução de problemas e de tomada de decisões; • enfatize a aprendizagem que possa ser imediatamente aplicada; • desenvolva nos participantes o senso de responsabilidade pelo resultado do treinamento; • organize grupos do mesmo nível hierárquico – as pessoas fica- rão mais à vontade para demonstrar sua opinião. 112 Gestão de recursos humanos É preciso sempre avaliar os treinamentos realizados, pois o feedback recebido fornecerá informações importantes sobre como melhorar o processo de treinamento na sua organização. Pode-se dizer que, de forma geral, os programas de desenvolvi- mento profissional são destinados a colaboradores que ocupam posições gerenciais dentro da empresa, podendo ser aplicado dos supervisores até os membros da alta administração (DESSLER, 2003). Para que o programa de desenvolvimento profissional funcione de forma efetiva, produzindo os resultados esperados pela organização, é fundamental alinhar a aprendizagem desses profissionais com a aprendi- zagem organizacional (DUTRA, 2004) Pode-se dizer, assim, que o desenvolvimento profissional alimenta o desenvolvimento organizacional, constituindo-se em um processo estra- tégico de mudança planejada, que, normalmente, visa a elevar o nível de competitividade da empresa (MARRAS, 2000). Dentro desse contexto, algumas medidas são essenciais: • para que o programa tenha sucesso, os interesses da empresa de- vem estar alinhados aos interesses individuais (DUTRA, 2004); • o espírito de equipe deve ser o ponto de união para o alcance de objetivos comuns (ROBBINS, 2002); • as metas relativas a cada objetivo devem ser realísticas, propor- cionando ao profissional avanços gradativos no seu desempenho e também em termos de resultados e desafios alcançados (SHI- BA; PURSCH; STASEY, 1995); • deve-se levar em conta, no momento da elaboração do programa de desenvolvimento, se a cultura, a tecnologia e o estágio de de- senvolvimento da organização estão congruentes com o mesmo (MARRAS, 2000); • o colaborador escolhido deve refletir sobre o seu real interesse em seguir determinado caminho profissional e se este enquadra- se em seus projetos pessoais de desenvolvimento (DUTRA, 2004); e • outro ponto relevante é o que trata sobre a responsabilidade de desenvolvimento. Uma vez decidida a iniciar um programa de desenvolvimento, a organização deve levá-lo até o fim, evitando prejuízos próprios e por parte de seus colaboradores (FLEURY; FLEURY, 2004). 113 Treinamento e desenvolvimento de pessoas - Unidade 4 Leituras Recomendadas Neste item é apresentada parte do artigo “O segredo dos cam- peões”, publicado na Revista Você S.A. Caso você queira ler o artigo completo, é só acessar o endereço indicado na fonte do artigo ao final do trecho apresentado. Boa leitura! O esporte ensina. Competir, treinar arduamente, sofrer com as derrotas, superar os maus resultados. Essas experiências têm um impacto profundo na formação de uma pessoa. Quando era jovem, o escritor Albert Camus, autor do romance O Estrangeiro (1942), foi goleiro de um time de futebol na Argélia, onde nasceu. Anos mais tarde, já premiado com o Nobel de Literatura, ao ser entrevistado por uma revista esportiva, Camus deu a seguinte declaração: “O que sei sobre moralidade e deveres do homem eu devo ao esporte”. O mundo corporativo também está repleto de imagens e expressões que remetem ao esporte. A relação entre esporte e vida profissional despertou a curiosidade do headhunter americano James Citrin, conselheiro da Spencer Stuart, uma das maiores firmas de seleção de executivos do mundo. Movido pela ideia de entender o que atletas de alto desempenho poderiam ensinar a outros profissionais, James entrevistou 50 esportistas de sucesso, do ciclista Lance Armstrong ao esqueitista Tony Hawk. Suas descobertas estão no livro The Dy- namic Path (“O caminho dinâmico”, em português). A principal constatação de James é que os atletas de alto desempenho possuem uma habilidade que ele denominou de dureza mental, que permite a eles ter sucesso nos momentos críticos – como fazer uma cesta no último segun- do de um jogo de basquete. Essa competência pode ser aprendida. Para isso, escreve o caça-talentos, o profissional precisa saber como funcionam sua mente e suas emoções. Em outras palavras, a pessoa precisa se conhecer. E, claro, precisa praticar continuamente uma determinada situação, como se fosse um treino, até dominá-la por completo. Em seu estudo, James foi um passo adiante. Ele procurou entender por que existem ex-campeões que, após encerrar a carreira de atleta, prosperam também em outras atividades. São os profissionais que encontram o tal caminho dinâmico, na verdade, um comporta- 114 Gestão de recursos humanos mento permanente de buscar o crescimento pessoal. Em seu livro, James cita casos como o do ex-jogador de futebol americano Roger Staubach, que após uma carreira no Dallas Cowboys criou uma imobiliária que faturava 120 milhões de dólares em 2008, quando foi vendida para a Jonas Lang La Salle. Ou o sena- dor democrata Bill Bradley, que construiu a carreira política após ganhar a meda- lha de ouro olímpica pela seleção de basquete e passar mais de dez anos como jogador do New York Knicks. No Brasil também há casos de profissionais que repetiram na carreira executiva o sucesso que obtiveram nas piscinas, quadras ou pistas. Jorge Paulo Lemann, um dos donos da ABInBev, foi pentacampeão brasileiro de tênis. Tam- bém tenista, Luiz Mattar, hoje presidente da Tivit, foi 29o colocado no ranking da Associação de Tenistas Profissionais (ATP). A seguir, quatro ex-atletas profissio- nais, hoje executivos bem-sucedidos, revelam como aplicam na vida corporativa o aprendizado que tiveram no esporte. O holandês Gijs van Delft, de 33 anos, é diretor executivo da Page Per- sonnel, empresa de recrutamento para cargos com salários de até 3 000 reais, com escritório em São Paulo. Há sete anos no Brasil, casado com uma brasileira, ele tem apenas um problema com o país: encontrar quem jogue futebol com ele. Ou melhor, como ele. “Só gosto de jogar em alto nível e é difícil encontrar um grupo assim”, diz. Antes de achar o gringo convencido, uma ressalva: dos 15 aos 20anos, Gijs foi meio-campista do PSV Eindhoven, time que levou Romário e Ronaldo para a Europa. Quando era juvenil, via o baixinho comandar o time prin- cipal. Competiu contra as principais equipes do continente e marcou jogadores como o espanhol Raul, o inglês Paul Scholes e o holandês Clarence Seedorf, que jogava no Ajax, arquirrival do PSV. Parou aos 21 anos, quando teve de optar por fazer faculdade ou virar profissional da bola. “Acho que teria um bom futuro como jogador, mas detestava a ideia de passar os próximos 15 anos de vida no esquema de viagem, hotel e concentração”, diz. Pendurou as chuteiras e foi cursar comércio exterior em Ams- terdã. Gijs, ou Gil, como ele se apresenta no Brasil, abandonou os gramados, mas manteve o hábito de praticar esporte de alto desempenho. Virou triatleta. No ano passado, disputou o Ironman Brasil, realizado em Florianópolis. Em 12 horas e 13 minutos, percorreu 3,8 quilômetros de natação, 180 de ciclismo e 42 de corrida. Para dar conta de treinar diariamente sem prejudicar o expediente de trabalho, acordava às 4h15 da manhã. Às 6, caía na piscina. 115 Treinamento e desenvolvimento de pessoas - Unidade 4 Os funcionários do clube diziam que só sendo holandês para nadar na- quele frio”, relembra. Para Gil, ter sido um atleta de ponta permite a ele lidar bem com a competição do mundo corporativo. “O jogador entende desde cedo que existe uma seleção de quem entra e quem fica de fora”, diz. “Você se torna muito persistente.” Outra experiência proporcionada pelo esporte é aprender a reagir após uma derrota, o que pode ser entendido como resiliência. “No futebol ou no trabalho, você pode passar por um período ruim”, avalia Gil. “Você entende que isso pode acontecer e que é importante reunir forças para se levantar sozinho.” Em março deste ano, o economista Alexandre Póvoa, de 41 anos, diretor do Modal Asset, lançará seu segundo livro sobre gestão de recursos. Um dos capítulos tratará de sua carreira e de como os 11 anos em que foi jogador de bas- quete do Flamengo o ajudaram a ser um profissional do mercado financeiro. Dos 11 aos 23 anos, Alexandre passou por todas as categorias do clube da Gávea, jogando primeiro como pivô e depois como ala. “Com 1,90 metro, fiquei baixo para um jogador profissional”, diz. “Não era nenhum Michael Jordan, mas ralava muito.” Jogar ao lado de atletas de seleção brasileira como Pipoka, Paulinho Villas-Boas e Maury foi para Alexandre uma aula sobre equilíbrio. “Você nunca está tão por cima a ponto de não cair, nem tão por baixo a ponto de não con- seguir se levantar.” Esse jeito de agir o ajuda diariamente, quando tem de lidar com a pressão por resultados nas operações financeiras que faz. É como se ele arremessasse bolas durante um jogo. “Você erra e acerta todos os dias”, diz. “Não pode ficar arrogante quando acerta e o resultado sobe, nem abatido quando erra uma operação e o resultado cai”, compara. Esse aprendizado também lhe permite controlar a ansiedade em períodos difíceis do mercado. Quando se está atrás do placar num jogo de bas- quete, a tendência do time é tentar descontar a diferença com cestas de 3 pontos para diminuir a diferença rapidamente. Os jogadores passam a tentar jogadas impossíveis e o resultado é errar mais. “O mesmo se dá no mercado financeiro”, explica Alexandre. “Quando você perde recursos durante um período longo, fica ansioso para restabelecer um desempenho positivo, e aí começa a tomar mais risco”, afirma. Nessas horas em que precisa administrar a ansiedade, Alexandre se lem- bra de um velho treinador. “A virada ocorre de bola em bola.” Antes do apito final, um conselho de todos os profissionais ouvidos. O mundo do trabalho vive uma competição constante, como ocorre no esporte. A diferença, dizem os ex-atletas, 116 Gestão de recursos humanos é que para praticar esporte de alto desempenho existe o treino diário, que dá for- ça, resistência, confiança e poder de recuperação. “No mundo do trabalho, você compete, mas não treina”, diz Ricardo. “Com isso, você não se recupera de forma adequada, o que faz seu desempenho cair.” Para manter-se em alta profissional- mente, faça como os esportistas: treine o corpo e a mente. “Você precisa cuidar da saúde para ser executivo”, diz Luís Guilherme. Fonte: VOCÊ S.A. O segredo dos campeões. Edição 0139. 05/01/2010. Disponível em: http://vocesa.abril.com.br/desenvolva-sua-carreira/materia/ segredo-campeoes-523652.shtml#. Data de acesso: 08/08/2010. Referências ALLEN, M. The corporate university handbook: designing, mana- ging and growing a successful program. New York: Amacom, 2002, p. 91-103. BOHLANDER, A; SNELL, S.; SHERMAN, A. Administração de Recursos Humanos. São Paulo: Thomson, 2003. BORGES-ANDRADE, J. Desenvolvimento de medidas em avaliação de treinamento. Estudos de Psicologia, v.7, número especial, 2002, p.31-44. DESSLER, G. Administração de Recursos Humanos. 2. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2003. DUTRA, J. Competências: conceitos e instrumentos para a gestão de pessoas na empresa moderna. São Paulo: Atlas, 2004. ÉBOLI, M. Educação corporativa no Brasil: mitos e verdades. 2. ed. São Paulo: Gente, 2004. FLEURY, A.; FLEURY, M., C. Aprendizagem e inovação organi- zacional: as experiências de Japão, Coreia e Brasil. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1997. FLEURY, M. T. L. Coletânea Universidades Corporativas: educa- ção para as empresas do século XXI. São Paulo: Schmukler Editores Ltda, 1999. 117 Treinamento e desenvolvimento de pessoas - Unidade 4 FLEURY, M. T. L.; OLIVEIRA JR, M. M. Gestão estratégica do co- nhecimento: integrando aprendizagem, conhecimento e competências. São Paulo: Atlas, 2001. FLEURY, A.; FLEURY, M., C. Estratégias empresariais e formação de competências: um quebra-cabeça caleidoscópico da indústria brasi- leira. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2004. GARVIN, D. Building a learning organization. Harvard Business Re- view, p.78-91, july/aug, 1993. GAVA, T. B.; MENEZES, C. S.; CURY, D. Aplicações de mapas con- ceituais na educação como ferramenta metacognitiva. Disponível em: http://geocities.yahoo.com.br/confrajolas/AplicacoesdeMapascon- ceituaisnaEducacao.pdf>. Acesso em 31/102003. GIL, A. Gestão de Pessoas: enfoque nos papéis profissionais. São Paulo: Atlas, 2001. HANASHIRO, D; ZACARELLI, L.; TEIXEIRA, M.; GODOY, A. Gestão do fator humano: uma visão baseada em stakeholders. São Paulo: Saraiva, 2007. LACOMBE, F.; HEILBORN, G. Administração: princípios e tendên- cias. São Paulo: Saraiva, 2003. MARRAS, J. Administração de recursos humanos: do operacional ao estratégico. São Paulo: Futura, 2000. MAXIMIANO, A. Teoria geral da administração: da revolução ur- bana à revolução digital. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2006. MILIONE, B. Integrando o levantamento de necessidades com a avaliação e validação do treinamento. In: Manual de Treinamento e Desenvolvimento. São Paulo: Makron Books, 1999. RIBEIRO, A. L. Teorias da Administração. São Paulo: Saraiva, 2003. 118 Gestão de recursos humanos RIBEIRO, A. L. de. Gestão de pessoas. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. ROBBINS, S. Comportamento organizacional. São Paulo: Prentice Hall, 2002. SHIBA, S.; PURSCH, T.; STASEY R. Introduction to Hoshin Mana- gement. Center for Quality of Management Journal. v. 4. n. 3, Fall, 1995. VOCÊ S.A. O segredo dos campeões. Edição 0139. 05/01/2010. Dis- ponível em: http://vocesa.abril.com.br/desenvolva-sua-carreira/mate- ria/segredo-campeoes-523652.shtml#. Data de acesso: 08/08/2010. Na Próxima Unidade Na próxima unidade, vamos abordar um tema muito importante: remuneração. O salário e os benefícios que um funcionário recebe são importantes motivadores de seu comportamento. Não somente a questão financeira importa, mas também o reconhecimento, o status, a qualidade de vida que pode proporcionar e o bem-estar associado. Vamos aprender mais sobre esse assunto? U ni da de 5 RemuneraçãoO sistema de compensação engloba to- das as formas de retorno financeiro, serviços tangíveise benefícios que os colaboradores recebem como parte da relação de emprego (LA- WLER III, 1990). É formado pela remuneração fixa, pela remuneração indireta e pela remuneração variável (WOOD JÚNIOR, 1999). Objetivos da sua aprendizagem Nesta unidade, temos como objetivos: • conhecer os modelos de remuneração fixa por cargo, identifican- do suas vantagens e suas desvantagens; • conhecer os principais aspectos que envolvem a remuneração in- direta; • conhecer os tipos de remuneração variável, identificando suas vanta- gens e desvantagens. Você se lembra? Na unidade anterior, você conheceu os principais aspectos que envolvem o sistema de treinamento e desenvolvimento. Agora vamos discutir sobre o sistema de remuneração. Está preparado? 120 Gestão de recursos humanos 5.1 O valor motivador da remuneração O salário e os benefícios que um funcionário recebe são importantes motivadores de seu comportamento. Não somente a questão financeira importa, mas também o reconhecimento, o status, a qualidade de vida que pode proporcionar e o bem-estar associado. O pagamento representa “o valor relativo do funcionário”, a recom- pensa recebida em troca das contribuições feitas à empresa, do serviço prestado, das habilidades dispensadas para desempenhar determinada tarefa, do empenho e do esforço individual. Para entendermos o quanto a remuneração pode funcionar de forma motivadora, é necessário que possamos entender alguns pontos funda- mentais, como a equidade do pagamento, a expectativa e o sigilo. Para Bohlander (2003), o pagamento equitativo é a percepção que o funcionário tem de que a remuneração recebida é igual ao valor realizado. As pessoas tendem a fazer comparações entre seus investimentos (capacida- des, habilidades e experiências) com os retornos recebidos (salários, benefí- cios). Comparam seus investimentos e seus retornos e também como é essa relação em classes semelhantes de cargos, internos e externos à empresa. É como se a força da motivação fosse proporcional à equidade, ou seja, se re- cebo o que acho que é compatível ao meu investimento, fico motivado. Ao contrário, se vejo diferença entre meu investimento e o retorno que recebo, fico menos motivado e procuro formas de reduzir essa desigualdade. As políticas de remuneração podem ser consideradas equitativas quando os funcionários consideram que os salários recebidos por seus cargos são próximos ao valor do trabalho oferecido pela empresa. E o sa- lário é considerado justo quando, em comparação com outras empresas, é equivalente a um trabalho similar. A expectativa em relação ao pagamento mostra que os funcionários poderão esforçar-se mais no trabalho se tiverem o que esperar em termos de recompensa de valor. Devem poder acreditar que o bom desempenho será valorizado pela empresa e que serão devidamente recompensados por isso. Além disso, a comunicação efetiva quanto às informações de paga- mento e à confiança entre gerentes e funcionários pode fazer com que as pessoas tenham percepções mais exatas sobre seus pagamentos. Por último, o sigilo é um ponto importante a ser considerado, pois muitas empresas usam como política não revelar os salários dos funcionários internamente. Muitos funcionários também preferem não revelar o quanto Remuneração - Unidade 5 121 Remuneração - Unidade 5 Remuneração - Unidade 5 ganham a seus colegas. No entanto, em geral, o segredo serve somente para acobertar desigualdades e para evitar queixas dos funcionários em relação ao seu salário. Além disso, o sigilo em relação às decisões de remuneração pode levar os funcionários a acreditar que não há relação direta e clara entre o pa- gamento e o desempenho, o que é muito ruim em termos motivacionais. 5.2 Salário e política salarial O salário é, sem dúvida, o principal componente do sistema de remuneração. As pessoas veem no salário a forma de sustento e de reco- nhecimento de seu trabalho e, portanto, o valor do salário é o primeiro atrativo para o funcionário. O significado e a importância do salário podem ser entendidos sob duas visões distintas: do empregado ou da organização. Salário, para os empregados, significa retribuição e reconhecimento, além de sustento, qualidade e padrão de vida. Já para a organização, significa custo e tam- bém fator de produção e de formação de preços de produtos. ti m o ’h ar a / C or bi s O ideal é que haja equilíbrio entre os interesses da empresa e do empregado, em que se possa somar a satisfação do empregado a bons in- dicadores de produtividade, qualidade e competitividade organizacional, resultando em um bom clima organizacional. A administração de salários, para Chiavenato (1999), é o con- junto de normas e procedimentos utilizados para estabelecer e/ou manter estruturas de salários equitativas e justas na organização. A função da sua existência nas organizações é a de implantar um sistema de remuneração que mantenha adequada a relação vertical entre salá- rios, ajustando esse sistema ou plano à realidade de mercado e estabe- lecendo um correto regime de estímulos ao aumento da eficiência e da produtividade do trabalhador. 122 Gestão de recursos humanos A política salarial é um instrumento que possibilita a padronização de procedimentos de remuneração e comunica, a toda a organização, a forma de agir em relação às práticas internas de administração salarial. Ela explicita a nova maneira de atuar da empresa em relação ao gerenciamento de cargos, salários e estrutura organizacional, estabelece parâmetros para os gestores de pessoas, para a tomada de decisão em rela- ção às movimentações salariais e reflete os mecanismos de atualização da norma de administração salarial, alçadas e responsabilidades de comitês, áreas e cargos específicos para a manutenção do sistema. Ela rege os cri- térios e os procedimentos da prática salarial da empresa. Para elaborar uma política salarial, é importante que se sigam al- guns preceitos. São eles: • Apresentação formal dos conceitos de administração salarial e de gerenciamento da carreira: apresentação dos conceitos que serão considerados na gestão de cargos e salários, os instru- mentos que serão utilizados e como serão geridas as carreiras dos funcionários. • Esclarecimento dos objetivos e finalidades: informar a todos os interessados, de maneira clara e transparente, o que será con- siderado na política salarial, os critérios e os procedimentos que serão adotados e qual a finalidade de sua aplicação. • Abrangência: mostrar a todos os funcionários a política adotada e os benefícios decorrentes do modelo. • Metodologia e instrumentos utilizados na gestão de cargos e salários: apresentar a todos os conceitos, as técnicas e os instru- mentos que farão parte da política adotada. • Critérios de movimentações salariais e manutenção da estru- tura de cargos: definir quais objetivos e procedimentos de evo- lução salarial de carreira serão utilizados, através de méritos e/ ou promoções. A avaliação de desempenho da empresa deve ser lembrada, com seus objetivos e critérios para que os funcionários entendam a ligação do desempenho com a recompensa. • Procedimentos de controle: esclarecer que a área de Remune- ração será a responsável pelo controle de aumentos salariais, his- tóricos dos funcionários e administração do quadro orçamentário de pessoal. É importante que todos saibam que existe uma área que gere todo o sistema e que tem autonomia para decisões. 123 Remuneração - Unidade 5 • Manutenção e atualização da norma de política salarial: co- municar os critérios de atualização das descrições e da estrutura de cargos, bem como a realização de pesquisas salariais periódi- cas para atualização das faixas salariais, e os procedimentos para criação e extinção de cargos na estrutura da empresa. • Responsabilidades de comitês internos, áreas e cargos: a política deve apresentar, de maneira clara, quais são as respon- sabilidades da área de Cargos e Salários na estrutura da empresa, bem como seu nível de autonomiaem relação às decisões sobre conflitos de interesse. A política salarial é traduzida, então, em uma norma que deve ser seguida pela área de remuneração e que deve estar acessível a todos os interessados. Dessa maneira, garante a transparência dos objetivos e dos procedimentos e consegue a confiança dos funcionários para trabalharem cientes de suas responsabilidades e de seus direitos. Chiavenato (1999) resume a questão da política salarial ao afir- mar que ela representa o conjunto de decisões organizacionais tomadas a respeito de assuntos relacionados com a remuneração e os benefícios concedidos aos funcionários e reúne as diretrizes da empresa para a admi- nistração de salários. A interação de fatores internos e externos é que determina a com- posição salarial de uma empresa, conforme Bohlander ( 2003). A figura a seguir exemplifica esses fatores. Composição do Salário Fatores Internos Fatores Externos • Política de remuneração da empresa • Valor de um trabalho • Valor relativo do funcionário • Capacidade de pagar do empregador. • Condições do mercado de trabalho • Faixa Salarial regional • Custo de Vida • Negociação Coletiva • Requisitos Legais Figura 5: Composição do salário – Fonte: Bohlander (2003) 124 Gestão de recursos humanos Os fatores internos englobam: • A política de remuneração refere-se aos objetivos de pagamento que cada empresa determina, como, por exemplo, oferecer altos salários ou ser competitiva no mercado. O importante é considerar a relação de salários entre cargos e níveis de habilidade, levar em conta os salários praticados pela concorrência externa, ter uma política que realmente recompense o desempenho do funcionário e tomar decisões administrativas sobre os elementos do sistema de remuneração, como as horas extras, os incentivos, entre outros. • Já o valor do trabalho pode ser determinado por um sistema de avaliação de cargos ou de forma subjetiva, como fazem muitas empresas, que determinam o valor dos cargos sem um programa formal de avaliação. • O valor relativo do funcionário diz respeito ao desempenho do fun- cionário e procura valorizar desempenhos superiores, recompensa- dos por meio de promoções ou de sistemas de incentivos ou mérito. • A capacidade de pagar do empregador está relacionada aos lucros e aos recursos financeiros disponíveis pela empresa, o que, de algu- ma forma, está atrelado ao desempenho dos funcionários, já que diz respeito à produtividade e também ao capital investido em equipa- mentos e maquinários. Nesse item também estão contempladas as condições econômicas e a concorrência sofrida pela empresa. di Gi ta l v is io n / G et ty im aG es Os fatores externos envolvem: • As condições de mercado referem-se à oferta e demanda de mão de obra qualificada, já que influenciam diretamente os salários pratica- dos e necessários para recrutar e reter funcionários competentes. • As faixas salariais regionais devem ser conhecidas e respeitadas pelas empresas, para que os cargos possam ser comparáveis por áreas. Pesquisas salariais são um importante instrumento nesse 125 Remuneração - Unidade 5 Como o próprio nome diz, este modelo vincula o salário-base pago ao em- pregado ao cargo em que ele ocupa na organização (PASCHOAL, 2001), atrelando o valor do salário-base à importância de cada cargo encontrado na organização, e não ao desempenho do indivíduo (DUTRA, 2004). sentido, sejam elas internas ou contratadas por empresas de con- sultoria especializadas. • O custo de vida é outro importante fator externo, já que engloba as questões de inflação e reajustes, como a adoção de índices (como o IPC – Índice de Preços ao Consumidor) para adequação salarial. • A negociação coletiva, feita pelo sindicato da categoria discute as questões de remuneração dos funcionários. A meta geralmente é obter aumentos reais nos salários, ou seja, acima da inflação do período, para que melhore o poder de compra e padrão de vida dos funcionários. • Os requisitos legais incluem as exigências feitas através de leis e normas. 5.3 Remuneração fixa A remuneração fixa corresponde ao salário-base de cada colabora- dor, pago em dinheiro pela empresa em troca do trabalho realizado por ele (PASCHOAL, 2001). 5.3.1 Remuneração fixa por cargo A remuneração fixa por cargo, também conhecida por remuneração funcional, é a forma mais tradicional de remuneração utilizada pelas empresas para recompensar seus colaboradores por seu trabalho (WOOD JR; PI- CARELLI; 2004). Assim, quanto mais alta a posição do cargo na hierarquia, maior será o valor do salário-base (GIL, 2001). A elaboração de um mo- delo de remuneração por cargo utiliza como ferramentas a descrição e a avaliação de cargos, sendo o salário-base es- tabelecido em função de seu conteúdo e valor relativo (HIPÓLITO, 2001). 126 Gestão de recursos humanos A descrição de cargos é a base do sistema de remuneração por cargos, deven- do ser objetiva, clara e concisa, a fim de não deixar dúvidas sobre o conteúdo e as características que distinguem um cargo do outro (WOOD JR; PICARELLI; 2004). A descrição apresenta os seguintes dados: título do cargo, título do cargo do superior imediato, missão ou objetivo, exposição ordenada das tarefas res- ponsabilidades, limites de autoridade sobre pessoas, orçamentos e outros recur- sos, bem como requisitos em termos de conhecimentos, habilidades, experiência e forma- ção necessários para o desempenho do mesmo (MARRAS, 2000). Já a avaliação de cargo consiste na hierarquização dos cargos de uma organização, através de critérios critérios objetivos e qualitativos que permitem o estabelecimento do valor relativo de cada cargo da organiza- ção (GIL, 2001). Normalmente, os critérios de avaliação focalizam quatro áreas bá- sicas: conhecimentos e habilidades, complexidade das atividades, escopo e nível de responsabilidade e condições gerais de trabalho (WOOD JR; PICARELLI; 2004). A avaliação de cargos é o alicerce do sistema de remuneração fixa por cargo, sendo o método mais conhecido a avaliação por pon- tos (PASCHOAL, 2001). Depois de avaliados individualmente, os cargos são organizados de acordo com o nível hierárquico e com a classificação por pontos (WOOD JR; PICARELLI; 2004). O produto da avaliação é a hierarquização dos cargos da empresa e sua organização em classes salariais (PASCHOAL, 2001). A estratégia de remuneração para cada classe salarial deve ser com- patível com o perfil de profissional que a empresa pretende atrair e reter. 127 Remuneração - Unidade 5 Para estabelecer um nível adequado de remuneração, é fundamental fazer uma comparação com o mercado (WOOD JR; PICARELLI; 2004). Nesse sentido, a realização de uma pesquisa salarial é um instru- mento de apoio importante para a determinação dos salá¬rios (DESS- LER, 2003). Normalmente, contrata-se uma empresa especializada nesse tipo de trabalho, que monitora um grande número de cargos no mercado (RIBEIRO, 2006). Os dados são sistematicamente coletados, consoli- dados e analisados, sendo compliados em um relatório de pesquisa que costuma trazer análises esta¬tísticas e apontar tendências (WOOD JR; PICARELLI; 2004). As empresas usam pesquisas salariais para estabelecer seus salá- rios, através da avaliação dos salários pagos pelas empresas que com- põem o mercado de trabalho relevante. Muitas empresas usam esse ins- trumento para coletar informações concretas sobre os salários praticados pelo mercado de interesse. Buscam, com isso, estabelecer comparação entre os salários praticados internamente e os pra- ticados por outros empregadores, estabelecendo a equidade externa. Essa equidade externa, segundo Bohlander (2003), pressupõe que a empresa esteja pagando a seus funcionários salários equivalente àqueles recebidos pelos funcionários de outros estabelecimentos. As empresas que utilizam os dados da avaliação de cargos em conjunto com os dados obtidos em pesquisas conseguem estabelecer, ao mesmo tempo, a equidade internae externa de seus salários. Equidade Interna Equidade Interna Entre no site http://meusalario.uol. com.br e aprenda mais sobre pesquisa salarial. 128 Gestão de recursos humanos Esse equilíbrio pode ser mais bem entendido pela análise do quadro a seguir: Equilíbrio interno Equilíbrio externo Significa estabelecer justiça e remunerar as pessoas pela importância dos cargos que ocupam, pelas responsabilidades que assumem e pelos resultados que geram para a organização. É a realização de práticas salariais com- patíveis com o mercado de trabalho e com o segmento de atuação da empresa, para os cargos similares em outras orga- nizações. Quadro: Equilíbrio interno e externo – Fonte: Thiede, 2009 (p. 2) Ao mesmo tempo em que buscam dados sobre salários diretos, as pesquisas também podem incluir informações sobre os benefícios e outros incentivos. Muitas pesquisas são conduzidas pelas próprias empresas (geral- mente de maior porte) e outras podem ser adquiridas pelas empresas. No Brasil, há diversos órgãos públicos e privados especializados em realizar pesquisas salariais. As empresas que optam por realizar suas próprias pesquisas geral- mente as conduzem seguindo etapas predeterminadas, que iniciam por um bom planejamento. Assim, para a elaboração de uma pesquisa salarial, temos as seguintes etapas: • planejamento: seleção dos cargos a serem pesquisados, seleção das empresas a serem pesquisadas (participantes), preparação do material de coleta de dados; • execução: coleta de dados, tabulação dos dados, análise dos re- sultados; • relatório aos participantes. No planejamento, conforme Souza et al (2008), a empresa precisa definir “o quê” e “como” envolverá a elaboração da pesquisa. Nessa eta- pa, deve delimitar os cargos que serão “alvo” da pesquisa. Tendo em vista que não é viável pesquisar todos os cargos da empresa, geralmente são escolhidos os cargos-chave ou “paradigmas”. Na definição da quantidade de cargos da pesquisa, temos que esta- belecer, primeiramente, o universo de cargos com o qual iremos trabalhar. Podemos trabalhar com todos os cargos (se forem poucos cargos), cargos de algumas áreas ou grupos ou escolher os cargos-chave da empresa. 129 Remuneração - Unidade 5 O quadro abaixo mostra as vantagens e as desvantagens da escolha de cada universo de cargos: Quadro: Vantagens e desvantagens na escolha do universo de cargos Vantagens Desvantagens Todos os cargos da organização Permite obter uma visão com- pleta de todos os cargos da empresa, revelando sua equi- dade externa e equidade in- terna. A realização da Pesquisa Sa- larial com uma quantidade muito grande de cargos corre o risco de tornar-se excessi- vamente longa e demandar muito tempo e recursos. Além disso, pode ser pouco atrativa para as empresas convidadas. Vantagens Desvantagens Cargos de algumas áreas da organização Permite visão específica de determinada área e é ideal para áreas estratégicas, tais como Força de Vendas, Pes- quisa e Desenvolvimento. Pode-se superestimar ou su- bestimar cargos específicos, comprometendo a equidade interna diante de outras áreas da empresa. Vantagens Desvantagens Cargos de alguns Grupos Ocupacionais Permite visão específica de determinado Grupo Ocupa- cional e é ideal para estabe- lecer políticas salariais e de benefícios para determinados níveis hierárquicos ou grupo de cargos de mesma nature- za – estratégicos ou não. Ex.: diretores, gerentes, produção, administrativos, RH etc. Pode-se superestimar ou su- bestimar cargos ou grupo de cargos específicos e compro- meter a equidade interna dian- te de outros cargos. Vantagens Desvantagens Cargos-chave Permite uma visão geral da empresa porque os cargos- chave costumam ter a mes- ma importância tanto para a organização quanto para o mercado. Além disso, atende às demandas de áreas e gru- pos específicos. Mal selecionados, esses car- gos podem provocar distor- ções na estrutura salarial da empresa, bem como podem omitir cargos importantes. Fonte: Thiede (2009, pag. 58) 130 Gestão de recursos humanos Para decidir o número de cargos da pesquisa, devemos levar em conta a necessidade da empresa: se o objetivo for monitorar o mercado salarial, podemos utilizar cargos de determinada área ou de um grupo ocupacional; se for reestruturar a política salarial, o ideal é trabalhar com cargos que reflitam toda a empresa, ou seja, os cargos-chave. Depois de escolhidos os cargos, deve-se estipular o universo de abrangência do mercado, ou seja, as empresas que realmente competem no mercado para contratação de funcionários. É importante considerar nesse ponto o porte, a região geográfica, o tipo de organização, seu tempo de vida, entre outros critérios. O passo seguinte, ainda no planejamento, consiste em decidir que informações serão reunidas sobre salários, benefícios, incentivos, entre outros. O objetivo é garantir a obtenção de dados que realmente possam ser comparáveis entre as empresas pesquisadas. É importante considerar se os salários são pagos por hora ou por mês, por exemplo, se são iguais ao longo do tempo de empresa, se as descrições de cargo são semelhantes (pois, muitas vezes, os cargos têm o mesmo nome, com diferentes atri- buições nas empresas), etc. Em geral, as empresas consideram as médias salariais, a moda, o primeiro e terceiro quartis, a mediana, o maior e o me- nor salário pagos, para fins de comparação. Na etapa de execução da pesquisa, os dados são coletados, tratados e analisados. É importante considerar se os dados estão homogeneizados, para poderem ser perfeitamente comparáveis entre si. Depois de tabulada a pes- quisa, a estrutura de salários e benefícios da empresa pode ser completada. A última etapa da pesquisa salarial é o relatório aos participantes e consiste em comunicar ao mercado os resultados obtidos. É uma forma de retribuir as informações aos participantes e de estimular novas pesquisas. As empresas participantes recebem gratuitamente os dados da pesquisa, do mercado de remuneração e sua posição relativa. Todo esse trabalho é, geralmente, realizado por um comitê formado pelo superior hierárquico do cargo analisado e seus pares, sendo as distor- ções observadas entre hierarquia (interna) e práticas do mercado (externa) submetidas ao comitê para decisão (WOOD JR; PICARELLI; 2004). A partir da conjugação dos dados da pesquisa salarial e da avaliação de cargos são montadas a avaliação de cargos e a estrutura de salários (SOUZA et al, 2008). 131 Remuneração - Unidade 5 Para Decenzo e Robbins (2001), cargos que são similares são agru- pados em termos de classes, graus ou pontos, dependendo do tipo de ava- liação que foi conduzida. Como resultado, surge uma hierarquia lógica de salários, em que os mais importantes recebem remuneração maior, para que as pessoas possam subir na hierarquia à medida que assumirem car- gos mais importantes. Deve-se considerar também outros condicionantes, como ressalta Souza et al (2008) ao afirmar que, além do valor relativo na empresa e no mercado, há variantes como a política da empresa e sua capacidade financeira. Na questão técnica, é preciso avaliar as curvas de referência e as classes salariais. A curva de referência consiste numa “equação de re- gressão obtida pelo ajustamento de salários com a avaliação de cargos”, conforme Souza et al (2008, pág. 49). Essa curva reflete a política da em- presa, pois pode situar os salários nos quartis superiores ou na média do mercado. As classes salariais, por sua vez, são os grupos formados pelos cargos semelhantes que podem ter salários únicos. São chamados de clas- ses, grupos ou níveis salariais. Depois de determinadas as classes, podem ser calculadas as médias de salário das classes, os máximos e os mínimos, e também a amplitude da faixa salarial (o quanto o salário vai variar entre o menor e o maior salário da classe). Ainda, em um passo final, são defini- dos níveis salariais para cada faixa. Depois de montadaa estrutura salarial da empresa, pode-se passar para a etapa de definição da política de remuneração a ser adotada, que tem como principal objetivo estabelecer as re¬gras básicas para uma ad- ministração salarial racional e uniforme das pessoas da organização (PAS- CHOAL, 2001). Para Bohlander (2003), as metas mais comuns de uma política de remuneração estratégica são: • recompensar o desempenho passado dos funcionários; • permanecer competitivo no mercado de trabalho; • manter a equidade de salário entre funcionários; • associar o futuro desempenho dos funcionários com as metas da empresa; • controlar o orçamento destinado à remuneração; • atrair novos funcionários; • reduzir a rotatividade desnecessária. 132 Gestão de recursos humanos Em contrapartida, para que essas metas sejam alcançadas, as polí- ticas de remuneração devem ser coerentes e incluir proposições formais como: • o nível salarial oferecido pela empresa (se está na média, acima ou abaixo do mercado); • a capacidade do programa de remuneração para ganhar aceitação dos funcionários, para que os motive a utilizar o máximo de suas capacidades; • o nível de salário em que os funcionários podem ser recrutados e o pagamento diferencial entre novos e antigos funcionários; • os intervalos dos aumentos salariais e a extensão em que o mérito ou o tempo de serviço influenciarão os aumentos; • os níveis de salário necessários para facilitar que o funcionário alcance posição financeira sólida, em relação os produtos e aos serviços oferecidos. Dentro desse contexto, existe o reajuste anual coletivo do salário pago a cada cargo, que consiste na reposição das perdas salariais decor- rentes da inflação, sendo obtido por meio de negociação entre o sindicato e a empresa (HIPÓLITO, 2001). A progressão salarial de um colaborador dentro do modelo de remuneração por cargo é função de sua evolução profissional em re- lação aos critérios de avaliação (WOOD JR; PICARELLI; 2004). Como mecanismos de progressão salarial, destacam-se (PASCHO- AL, 2001): • progressão vertical: promoção para um cargo superior na hie- rarquia, com maior valor relativo; • progressão horizontal: por mérito, de acordo com o desempe- nho do profissional no cargo. A seguir, são elencadas algumas críticas à remuneração por cargo (HIPÓLITO, 2001): • desalinhamento entre as qualificações exigidas pela lógica taylorista/fordista de remuneração e de definição de postos de trabalho, que estimulam a lealdade ao cargo, daquelas exigidas 133 Remuneração - Unidade 5 pelos novos modelos organizacionais, que estimulam o aprendi- zado contínuo, o desenvolvimento de competências, bem como o comprometimento deles com a organização como um todo; • baixa flexibilidade em acompanhar as variações no mercado de mão de obra; • construção de cargos estreitos que limitam a utilização de todo o potencial do indivíduo; • amplitudes salariais dissociadas do tempo ideal que o empregado deve permanecer no cargo para desenvolver-se; • adoção de um teto rígido de faixa que impede o progresso sala- rial dos profissionais com desempenho excepcional; • épocas predeterminadas para conceder aumento de mérito e pro- moção, tirando desses instrumentos sua força motivadora, já não podem ser concedidos no momento oportuno; • induzem a aumentos por mérito para empregados com contribui- ções diferentes; • dificuldade em acompanhar e sinalizar os objetivos organiza- cionais, dificultando o alinhamento entre as práticas salariais e outras práticas de RH; • a utilização de técnicas estatísticas sofisticadas compromete a aceitação do sistema pelos gerentes e funcionários e dificulta a comunicação destes, impactando na credibilidade do sistema; • a complexidade desse sistema implica num esforço significativo para fazer qualquer mudança ou atualização; • inviabilidade de descentralização das decisões salariais devido à dificuldade de administrar o sistema; • baixa confiabilidade das informações obtidas mediante pesquisa salarial; • a simplificação na análise do mérito acaba por induzir o uso do parâmetro tempo como fator reconhecimento em detrimento de uma série de outros fatores que influenciam a contribuição do profissional. Embora a remuneração por cargo seja o modelo de remuneração fixa mais utilizado pelas empresas e o mais tradicional, é interessante observar que este modelo não atende de forma efetiva as necessidades da organização no que diz respeito ao novo contexto empresarial. 134 Gestão de recursos humanos Apesar de todos os problemas apontados, a remuneração fun- cional ainda tem seu lugar dentro do contexto empresarial, sendo a forma de remuneração fixa mais utilizada pelas organizações, principalmente no âmbito das empresas de pequeno e médio portes (RIBEIRO, 2006). Três razões fortalecem o uso da remuneração funcional entre as or- ganizações (WOOD JR; PICARELLI; 2004): • primeiro porque, ao relacionar cargos e salários, a remuneração funcional ajuda a dar coerência interna à organização, proporcio- nando definições básicas que apoiam a estruturação do trabalho; • em segundo lugar, a remuneração funcional permite a equidade externa, através da prática de pesquisas salariais para comparar seus salários com os praticados pelo mercado e, assim, estabelecer diretrizes adequadas para atrair e reter a mão de obra desejada; • um terceiro motivo, fundamenta-se no fato de que a remuneração por cargo permite a equidade inter¬na, ao ter os salários estabele- cidos a partir de regras aplicáveis a todos na empresa, produzin- do um sentimento de justiça entre os funcionários. Vale também destacar que muitas das falhas apontadas anteriormen- te podem ser contornadas através de uma modernização no modelo de remuneração fixa (Dutra, 2004). Isso implica em desenvolver um modelo de remuneração fixa por cargo que atenda aos seguintes critérios (WOOD JR; PICARELLI; 2004): • alinhamento do esforço individual com as diretrizes organiza- cionais; • orientação para o processo e para resultados; • favorecimento de práticas participativas; • desenvolvimento contínuo do indivíduo. Seguindo esta ideia, o Quadro 4 faz um síntese de como as mudanças no sistema de remuneração fixa por cargo podem ser operacionalizadas. 135 Remuneração - Unidade 5 Quadro: Requisitos para modernização do sistema de remuneração fixa por cargo. Aspecto Descrição Descrição de cargos modificada • Os aspectos-chave da descrição de cargo modificada são: foco nos processos, nas informações sobre clientes internos e externos; identificação dos serviços ou produ- tos fornecidos; explicitação das expectativas dos clientes. • As descrições de cargo passam a servir como diretri- zes gerais de trabalho. Redução do número e cargos • Redução do número de cargo, criando categorias mais abrangentes e genéricas. Com essa alteração, o siste- ma torna-se mais simples. Ampliação das faixas salariais • Redução do número de níveis hierárquicos e aumento da amplitude das faixas salariais. Mais largas, as faixas tornam o sistema mais flexível. Política salarial alinhada às estratégias • A política salarial deve estar alinhada às estratégias da empresa. • Devem ser previstas revisões periódicas do modelo. • Deve-se dar um tratamento diferenciado para os car- gos-chave. Por possuírem maior importância estratégi- ca, devem ser administrados por meio de uma política de remuneração mais agressiva diante do mercado. Fonte adaptada: WOOD JR.; PICARELLI (2004) A remuneração fixa por cargo foi criada para um modelo de orga- nização que está em extinção: modelo de produção fordista/taylorista, estrutura organizacional centralizada e hierarquizada, liderança autori- tária e foco no capital (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). No entanto, pode-se dizer que a remune- ração fixa funcional está desatualizada em relação às mudanças do ambiente competiti- vo (HIPÓLITO, 2001) e ao novo contexto organizacional: produção flexível, estrutura organizacional descentralizada e enxuta, Na prática, as organizaçõestêm encontrado grande dificul- dade de adaptar seus sistemas de compensação a esse novo contexto competitivo e estabelecer um modelo de remuneração fixa adequado (DESSLER, 2003). 136 Gestão de recursos humanos Atualmente, o sistema de remuneração fixa deve, em primeira instância, ser capaz de estabelecer diferenciações entre os salários aplicados na organização a partir de critérios considerados objetivos e justos pelos membros da organização (GIL, 2001). liderança liberal, foco no desenvolvimento de competências individuais e organizacionais, orientação para resultados (WOOD JÚNIOR; PICA- RELLI, 2004). Verifica-se que fatores de cunho operacional acabam limitando a evolução dos sistemas de remuneração fixa por cargo para modelos mais modernos (HIPÓLITO, 2001): • a crença de que cabe à organização ditar o que as pessoas devem fazer, instituindo-se cargos, muitas vezes, pouco flexíveis e des- conexos aos movimentos organizacionais, emperrando, assim, o processo de melhoria e mudança; • o grande poder delegado à área de cargos e salários, que tratava as questões de compensação como assunto confidencial; • o enraizamento de técnicas tradicionais de gestão salarial, carac- terizadas pela valorização do uso de técnicas estatísticas sofisti- cadas, inacessíveis para a grande massa de empregados. Além disso, muitas empresas, com medo de perder seus talentos, preocupam-se muito mais em descobrir o que as organizações concorrentes estão fazendo na área de remu- neração do que em fazer algo que efetivamente atenda às necessidades estratégicas da própria organização em relação ao aspecto (LAWLER III, 1990). Nesse sentido, para ser eficiente e eficaz, o siste- ma de remuneração fixa deve atender aos seguintes requisitos (HIPÓLITO, 2001): • flexibilidade para acompanhar as mudanças da organização e contemplar aspectos que extrapolam a esfera da atuação da área de remuneração (leis, mercado, estrutura econômico-financeira do país e suas práticas sociais etc.). Essa flexibilidade deve resul- tar em agilidade de resposta e num baixo custo de atualização e manutenção do sistema; 137 Remuneração - Unidade 5 A remunera- ção por habilidade foca a pessoa e não o cargo, procurando reconhecer o nível de capacitação dos profissionais e justificar as diferenças sa- lariais mediante as diferenças de habilidades (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 1999). • simplicidade, clareza e objetividade dos critérios utilizados para recompensar; • transparência, explicitando as bases que regem as diferencia- ções salariais por meio de um processo de disseminação, comu- nicação e legitimação das regras estabelecidas, diminuindo a dissonância entre o que os indivíduos recebem e o que conside- ram deveriam receber; • integração com os demais processos de gestão de pessoas, bem como com a estratégia e cultura da empresa. 5.3.2 Remuneração fixa por habilidade Uma habilidade pode ser definida como a capacidade de realizar uma tarefa ou um conjunto de tarefas, em conformidade com determinados pa- drões exigidos pela organização (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). O surgimento da remuneração fixa por habilidades é consequência do aumento da complexidade do ambiente de negócios e das mudanças ocorridas no modelo organizacional, que passou a contar com menor número de níveis hierárquicos e, consequentemente, com maior nível de autonomia e amplitude de responsabilidades para os indivíduos (HIPÓ- LITO, 2001). Baseia-se na crença de que as pessoas desempenham um papel muito im- portante na geração de resulta- dos para a organização e que a capacidade de contribuição individual afeta diretamen- te a natureza do seu traba- lho (DUTRA, 1996). Nesse sentido, pode- se dizer que a remuneração por habilidades é capaz de reforçar os laços entre a remu- neração e o desenvolvimento dos indivíduos (RIBEIRO, 2006). A utilização do sistema de remuneração por habilidades é, por isso, indicada para empresas que possuem projetos organizacionais 138 Gestão de recursos humanos avançados, caracterizados pela existência de equipes autogerenciáveis e um estilo gerencial aberto e voltado para a administração participativa (DESSLER, 2003). A remuneração por habilidades é um modelo muito utilizado para posições de nível operacional ou para profissionais altamente especia- lizados (WOOD JR; PICARELLI; 1999). Os objetivos de um sistema de remuneração por habilidades são (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004): • remunerar os profissionais segundo as habilidades desenvolvidas e aplicadas ao trabalho; • alinhar as capacidades dos colaboradores com o direcionamento estratégico e as necessidades da organização; • favorecer o aprendizado organizacional contínuo; • adequar o sistema de remuneração a um novo contexto organi- zacional; • superar o paradigma de gestão tradicional, que foca a hierarquia rígida, as funções bem definidas e as descrições de cargo por uma gestão mais flexível e dinâmica, focada no indivíduo. Para implantação do sistema de remuneração por habilidades, o pri- meiro passo é identificar o número, o tipo e a complexidade das habilida- des que os profissionais desenvolvem e utilizam (DESSLER, 2003). Vale comentar que as habilidades são determinadas de acordo com a realidade de cada organização (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). O mapeamento das habilidades a serem valorizadas na organização pode ser executado da seguinte forma (HIPÓLITO, 2001): • inicia-se com a análise dos cargos atuais e das características dos profissionais que obtêm os melhores desempenhos na execução desses cargos. As características que diferenciam estes profissio- nais é que devem ser valorizadas e estimuladas na medida em que justificam um desempenho superior; • alternativamente sugere-se que se faça uma reflexão dos objeti- vos estratégicos da empresa para, com base neles, identificar as habilidades para alcançá-los. 139 Remuneração - Unidade 5 O salário do indi- víduo é determinado a partir de um conjunto de habilidades ou de blocos de habilidades. Quanto mais habilidades o profissional tiver adquirido, maior será sua remuneração (HIPÓLITO, 2001). Outra forma alternativa de mapeamento é a análise das habilidades de um grupo de especialistas ou profissionais em diferentes momentos da carreira (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). A remuneração passa a ser valorada por habilidades específicas, quando estas apresentarem um nível de complexidade alto ou por blocos de habilida- des menos complexas, que são agrupadas em função de estarem relacionadas a um mesmo processo de trabalho ou por representarem uma evolução lógica e sequencial na carreira. A utilização de blocos de ha- bilidades tem a vantagem de simplificar a administração do sistema de remuneração (DUTRA, 1996). Para isso, as habilida- des devem ser certificadas, ou seja, o indivíduo passa por um processo de avaliação no qual tem que demonstrar a aplicação da habilidade na prática (DESSLER, 2003). A certificação é na verdade um estado, um nível de proficiência, que assegura que o profissional atende plenamente e com autonomia à execução de determinada habilidade, sendo recomendado que a certifica- ção seja objeto de formalização dos resultados da avaliação no registro do profissional (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). Existem várias formas de avaliação, destacando-se entre elas as provas práticas, as provas teóricas e a observação no posto de trabalho (BOHLANDER; SNELL; SHERMAN, 2003). Vale destacar que, normalmente, nas empresas mais tradicionais, as avaliações são conduzidas pelo superior imediato. Já nas organizações com visão gerencial mais avançada são formados comitês de certificação com participação de pares, clientes, subordinados do avaliado e superior imediato (DUTRA, 1996). A progressão salarial e as promoções estão totalmente vinculadas à certificação das habilidades, sendo determinadas por dois fatores princi- pais (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004): 140 Gestão de recursos humanos • primeiro,pelas necessidades estratégicas da organização e das equipes de trabalho no que diz respeito ao nível de capacitação dos colaboradores; • segundo, pelo esforço do próprio profissional em adquirir no- vas habilidades para a execução dos processos sob a sua res- ponsabilidade. A remuneração por habilidades traz como benefício uma melhoria no processo de aprimoramento das habilidades, aumenta o nível de mo- tivação dos indivíduos a adquirirem novas habilidades, estimula a multi- funcionalidade e a flexibilidade da força de trabalho (RIBEIRO, 2006). Ph il as hl ey / li Fe si ze / Ge tt y im aG es No entanto, a remuneração por habilidades também apresenta limi- tações, destacando-se entre elas (HIPÓLITO, 2001): • dificuldade em utilizar o conceito para posições técnico-gerenciais; • dificuldade de estabelecer quanto vale cada habilidade; • tendência de aumento nos valores destinados à folha de paga- mento, em função do fato de os indivíduos se encorajarem a tornarem-se mais qualificados e consequentemente mais bem remunerados; • possibilidade de a empresa, depois de determinado período de tempo, apresentar “estoque” de habilidades, aumento dos custos na geração de resultados; • necessidade de disponibilização de programa contínuo de treina- mento, que possibilite aos funcionários a aquisição das habilidades; • dificuldade no gerenciamento do nível de satisfação dos em- pregados, principalmente aqueles que já adquiriram todas as habilidades e aqueles que não encontram espaço para utilizar as habilidades desenvolvidas; 141 Remuneração - Unidade 5 Na remunera- ção por competências, a evolução salarial se dá por meio de movimentações horizontais e verticais, sendo que toda movimentação é definida pela aplicação e pela certificação de compe- tências (DUTRA, 2004). • excesso de rotação nos cargos; • dificuldade de gerenciar salários quando há mudança (tecnológi- ca ou organizacional) que implica na obsolescência de determi- nada habilidade, exigindo revisão do sistema de remuneração; • risco trabalhista, na medida em que este método permite que em- pregados que executam o mesmo trabalho sejam remunerados de forma diferente. 5.3.3 Remuneração fixa por competência No modelo de remuneração por competências, o salário do profis- sional é resultado direto da avaliação de suas competências (DUTRA, 1996). Para cada competência são atribuídos níveis de proficiência (complexidade), que por sua vez são relacionados a determinada quan- tidade de pontos. Conforme a pontuação obtida na avaliação das com- petências é definida a remuneração fixa do indivíduo (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). Há várias formas de estruturar um processo de avaliação de com- petências, mas o método mais reco- mendado é o modelo 360 graus, o qual envolve inúmeros ava- liadores: clientes, fornece- dores, superior imediato e pares (DUTRA, 1996). A movimentação ho- rizontal representa a evolu- ção salarial do profissional dentro de um mesmo cargo ou de um espaço ocupacional e ocorre a partir da aquisição de níveis mais avançados de profici- ência nas competências, comprovada por meio de um processo de avaliação de competências e consequente certifi- cação (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). Já movimentação vertical significa a mudança de cargo ou espaço ocupacional para outro hierarquicamente superior, caracterizando uma promoção (DUTRA, 2004). Ocorre quando o profissional comprova possuir os pré-requisitos exigidos, como escolaridade e nível mínimo de 142 Gestão de recursos humanos proficiência em determinadas competências (WOOD JÚNIOR; PICA- RELLI, 2004). A seguir são apresentadas as vantagens da remuneração por compe- tências (HIPÓLITO, 2001): • clareza quanto aos diversos níveis de trabalho existentes na orga- nização e no que é esperado dos profissionais; • flexibilidade para contemplar revisões e aperfeiçoamentos; • respeito às particularidades, às necessidades e à cultura e valores da empresa; • serve de elemento integrador entre as diversas ações em gestão de pessoas; • possibilita a avaliação e o acompanhamento do valor agregado pelos profissionais; • aumenta a capacidade da empresa em reter competências estra- tégicas; • estimula o autodesenvolvimento, em especial a busca pela aqui- sição das competências definidas; • produz baixa pressão sobre a estrutura de salários quando da im- plementação, menor do que a usualmente observada em outras experiências de implementação de sistemas de remuneração; • possibilita melhor alocação dos recursos destinados à folha de pagamento; • possibilita a descentralização de decisões salariais sem que se perca a coerência da gestão de salários em seu todo; • resulta num compromisso da organização com o sistema, fruto do envolvimento do corpo gerencial em sua construção. st oC kb yt e / G et ty im aG es 5.4 Remuneração indireta Os benefícios são componentes fundamentais dos programas de re- muneração e também são chamados de “remuneração indireta”. 143 Remuneração - Unidade 5 Assim, deno- minam-se salário indireto todos os benefícios oferecidos pela empresa aos seus funcionários (MARRAS, 2000). Eles têm impacto direto sobre a qualidade de vida dos colaboradores, atendendo às suas diversas necessidades (GIL, 2000). Souza et al (2008) revelam que inicialmente os benefícios foram desenhados para atender às necessidades básicas da maioria dos funcioná- rios, proporcionando-lhes uma vida mais segura e estável fora do trabalho. Com o tempo, esses conceitos foram mudando e os benefícios passaram a representar diferenciais para as empresas. No Brasil, os benefícios, em sua origem, tinham como objeti- vo diminuir as diferenças sociais, principalmente dos trabalhadores que migravam do campo para as cidades. O governo, então, passou a incentivar a distribuição de benefícios através da legislação e de faci- lidades fiscais. Hoje em dia, podemos afirmar que os benefícios em nosso país já têm um papel mais estratégico: o de contribuir para que as empresas alcancem e sustentem posições competitivas na atração e na retenção de talentos. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) dispõe no artigo 458, que, além do pagamento em dinheiro, compreende no salário, para todos os efeitos legais, alimentação, habitação, vestuário, transporte, assistên- cia médica, seguro de vida e aciden- tes pessoais ou outras prestações in natura que a empresa, por força do contrato ou do costume, fornece habitual- mente ao empregado. Os benefícios res- pondem por parte conside- rável da remuneração total e costumam ser fator de de- cisão na aceitação de ofertas de emprego. Seu custo é signifi- cativo para a empresa e deve ser ob- jeto de constante atenção (BOHLANDER; SNELL; SHERMAN, 2003). Nos últimos anos, observa-se que esse custo tem-se elevado em fun- ção tanto da pressão pela inclusão de novos itens como pela ampliação da elegibilidade aos itens existentes, além de pelo aumento do custo específi- co de alguns itens (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). 144 Gestão de recursos humanos Os benefícios são importantes principalmente pelo impacto que eles causam sobre a imagem da empresa na comunidade, sendo essenciais na atração e na retenção de talentos na organização (RIBEIRO, 2006). Os benefícios, conforme Marras (2002), devem atender a necessida- des intrínsecas e extrínsecas. As necessidades intrínsecas dizem respeito ao próprio funcionário, a suas necessidades sociais e de relacionamento, ao status e ao bem-estar. Já as necessidades extrínsecas se referem a as- pectos físicos, como incentivos financeiros, serviços e seguros oferecidos pelas empresas através do seu pacote de benefícios. Os benefícios podem representar uma fonte de satisfação para os funcionários, que veem suas expectativas, além das necessidades básicas, atendidas por meio de recompensas indiretas. No entanto, a montagem de um programa de benefícios é algo complexo, que exige atenção dos profissionais de RH. Algumas considerações básicas são descritaspor Bohlander (2003) para a elaboração do pacote de benefícios: • Necessidade de estabelecer objetivos específicos: dependendo do tamanho da empresa, de sua localização, de seus padrões de indústria, de sua lucratividade e até mesmo de seu nível de sindicalização, devem ser estabelecidos objetivos para o plano de benefícios. Entre os objetivos mais comuns estão: melhorar a satisfação dos empregados, atender a requisitos de segurança e saúde, atrair e motivar funcionários, reduzir a rotatividade e manter posição estratégica e competitiva da empresa. Certamente esses objetivos devem estar alinhados com a política de remune- ração estratégica da empresa e devem levar em consideração os custos envolvidos. • Incentivar a participação dos funcionários: consultar os funcio- nários sobre os benefícios, através de pesquisas de opinião. • Estar aberto a mudanças nos benefícios oferecidos: o pacote de be- nefícios oferecidos deve acompanhar as mudanças que ocorrem na sociedade, e também novas demandas e necessidades das pessoas. De nada adianta oferecer benefícios desnecessários aos funcio- nários, pois não gerarão satisfação (como, por exemplo, oferecer assistência médica a dependentes para jovens que ainda não têm filhos, ou mesmo planos de aposentadoria robustos a jovens fun- cionários, que ainda não valorizam esse tipo de recompensa). • Considerar o planejamento de programas flexíveis: planos em que os funcionários podem escolher os benefícios mais adequa- 145 Remuneração - Unidade 5 dos às suas necessidades. Esse assunto será tratado de maneira mais específica no tópico seguinte. • Sempre fornecer informações de benefícios aos funcionários: um bom programa de benefícios é aquele que é entendido e valorizado pelos funcionários. Para isso, as informações devem ser claras e divulgadas através de jornais internos, murais ou manuais de benefícios. Além de todas essas observações importantes, um bom programa de benefícios deve ser bem gerenciado. A gestão de benefícios geralmente é complexa para as empre- sas, conforme Fleury (2002). As empresas olham os benefícios sob a perspectiva dos custos e as pessoas, sob a ótica do “valor” que eles possuem. Nem sempre um alto custo em benefícios gera um valor para o funcionário. Os custos se tornam altos, dependendo do pacote de bene- fícios oferecido aos funcionários. O importante é que esses custos sejam minimizados pelos resultados obtidos através dos benefícios. Além disso, a empresa deve estar atenta ao mercado, ao que os outros empregado- res estão oferecendo e às exigências dos acordos coletivos. A seguir são identificados os principais benefícios aplicados nas empresas brasileiras (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004): • aluguel de casa: é mais usual quando o profissional é estran- geiro ou está temporariamente residindo no país. Normalmente, as empresas que aplicam esse benefício arcam integralmente com seu custo; • ambulatório na empresa: local para atendimento de emergência durante o horário de trabalho; • assistência jurídica: cobertura integral ou parcial dos custos re- lativos à assistência jurídica particular de seus executivos; • assistência médico-hospitalar e odontológica: variam segundo o tipo de plano e a cobertura, englobando geralmente o funcioná- rio e seus dependentes; • automóvel: concessão de veículo sob a forma de leasing, alu- guel, frota ou compra pela empresa. Geralmente as empresas que concedem este tipo de benefício arcam também com as despesas relativas a manutenção, seguro e impostos; 146 Gestão de recursos humanos • auxílio-ótica: pagamento integral ou parcial na compra de lentes ou óculos, pode também ser oferecido na forma de desconto para o empregado por meio de acordo entre a ótica e a empresa; • auxílio-alimentação: concessão de cesta de alimentos e tíquete alimentação; • auxílio-doença: complementação parcial ou integral do salário do funcionário em caso de afastamento por doença; • auxílio-educação: pagamento parcial ou integral de cursos de ensino fundamental, médio, técnico, superior ou pós-gradação para o funcionário; • auxílio-farmárcia: refere-se a descontos ou reembolso dos valo- res gastos com a aquisição de medicamentos com receita médica; • auxílio-refeição: reembolso regular das despesas com refeição ou implantação de refeitório na empresa; • check-up: pagamento integral ou parcial do exame médico peri- ódico e completo; • combustível: reembolso parcial ou integral de combustível para o automóvel de uso do funcionário, seja particular, seja da empresa; • complementação de gratificação de férias: percentual que a empresa paga a seus empregados além do exigido pela CLT; • compra facilitada de produtos ou serviços: facilidades ofere- cidas aos funcionários para aquisição de serviços ou produtos da própria empresa ou de terceiros; • cooperativas: o funcionário tem facilidades para comprar rou- pas, alimentos ou acesso a crédito; • creche: pode ser na própria empresa ou pago na forma de reem- bolso; • empréstimo: concessão de empréstimos pessoais, nos quais os valores são determinados de acordo com o salário do funcioná- rio. As parcelas são debitadas na folha de pagamento; • estacionamento: subsidiado totalmente ou parcialmente pela empresa; • financiamento: voltado para a aquisição de casa própria ou ou- tros bens; 147 Remuneração - Unidade 5 • idiomas: pagamento parcial ou integral; • instrução dos filhos: pagamento parcial ou integral; • lazer: estrutura oferecida pela empresa para os funcionários e seus dependentes na forma de clube de campo, grêmio recreati- vo, academia de ginástica e colônia de férias; • previdência complementar: está relacionado à contribuição mensal, à idade e ao tempo de trabalho na empresa; • seguros diversos: pagamento parcial ou integral, podendo ser de vida, automóvel, residencial; • transporte: pode ser parcial ou integral, por meio próprio ou de terceiros. Os benefícios são oferecidos, normalmente, na forma de pacotes, ten- do como finalidade reforçar a estabilidade, o comprometimento e a lealdade em relação ao alcance dos objetivos da empresa (DESSLER, 2003). Os pacotes de benefícios, normalmente, variam de acordo com o nível hierárquico, gerando mui- tas vezes insatisfação por parte dos colabora- dores operacionais, que enxergam essa varia- ção como uma forma de privilégio oferecida aos colaboradores que ocupam posições hie- rárquicas mais elevadas (GIL, 2001). Além disso, os pacotes são idealizados para determinado padrão de funcionário (casado, com filhos e com perspectiva duradoura na em- presa), não considerando necessidades específicas de minorias na organização, como jovens solteiros, casais sem filhos, po- dendo gerar insatisfação (RIBEIRO, 2006). Como o padrão de usuário nem sempre corresponde à realidade, o custo/beneficio é desvantajoso para a empresa, já que esta paga o benefício e o funcionário não utiliza, e também para os funcionários, pois o benefício não atende a suas necessidades (MARRAS, 2000). Assim, muitas empresas têm adotado a flexibilização dos planos de benefícios, que possibilita o ajuste entre o valor investido pela em- presa e o valor percebido pelo funcionário, que pode escolher a opção Os pacotes de benefícios sob a configuração tradicional acabam por engessar a estrutura de remuneração indireta, uma vez que, para conseguir mais bene- fícios, é preciso subir de nível hierárquico (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). 148 Gestão de recursos humanos Os benefícios fle- xíveis são planos nos quais os funcionários podem escolher entre diversas opções de benefícios disponíveis. Em vez de ter um programa único de benefícios, igual para todos os fun- cionários, a empresa permite que cada pessoa escolha os itens que correspondam às suas necessidades e à sua situação. de benefícios disponível mais adequada ao seu perfil (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). Com esse tipo de pro- grama, a empresa pode atender melhor às expecta- tivas dos funcionários em relação a sua faixa etária,sua formação familiar, seu nível de escolaridade, seu estado civil e seu número de filhos. A empresa também con- segue melhor gerenciamento de seus custos com os benefícios. Dentro desse contexto, são identificadas várias modalidades de pa- cotes de benefícios (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004): • tradicional: empresa seleciona um conjunto de benefícios que é oferecido a todos os empregados; • flexibilização parcial: a empresa determina alguns benefícios fixos a todos os profissionais e o pacote pode ser complementado com alguns benefícios escolhidos pelo empregado. A escolha ge- ralmente é limitada por alguns critérios, como nível hierárquico ou salarial do funcionário; • modular: a empresa elabora algumas opções de pacotes e os funcionários escolhem aquela que melhor atender a suas neces- sidades; • menu de opções: a empresa disponibiliza uma relação de bene- fícios e determina o custo do plano, e o funcionário escolhe os itens do pacote; • escolha livre: o funcionário escolhe qualquer benefício ofere- cido pelo mercado dentro de determinado valor estipulado pela empresa. O profissional é reembolsado até o limite estipulado pela verba de seu nível hierárquico ou salarial. Embora a flexibilização dos pacotes de benefício pareça a estratégia mais acertada para o contexto atual, sua implementação é bastante com- 149 Remuneração - Unidade 5 plexa para a organização, gerando várias dificuldades na sua operacionali- zação (RIBEIRO, 2006). Dentre elas, pode-se destacar (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004): • o custo inicial de implantação do sistema, que inclui elaboração do plano, comunicação aos envolvidos e desenvolvimento de um sistema eficiente de informação; • o custo de manutenção, que inclui melhoria contínua do sistema de informação e acompanhamento de todos os itens quanto a uti- lização, custo e satisfação dos clientes internos; • o risco de utilização excessiva de alguns itens. Isto pode ocorrer uma vez que os funcionários naturalmente optem pelos itens que veem como mais úteis; • a perda de escala em alguns itens, penalizando grupos dentro da organização. No entanto, é válido ressaltar que a flexibilização dos planos de benefícios muda radicalmente a relação entre empresa e colaborador, que passa a ser mais igualitária e madura, pois os custos dos benefícios passam a ser transparentes e são discutidos abertamente entre as partes envolvidas (BOHLANDER; SNELL; SHERMAN, 2003). Os planos flexíveis permitem que o colaborador tenha a opção de escolher, dentre os benefícios disponíveis, aqueles que são mais adequa- dos ao seu perfil, à sua condição familiar e ao seu estilo de vida (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). A flexibilização dos planos de benefícios é um caminho sem retor- no, na medida em que sua configuração é aderente ao conceito de remu- neração estratégica e às práticas modernas de gestão de pessoas (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). 5.4.1 Previdência complementar A segurança econômica na terceira idade é questão séria e relevante, principalmente em um país como o Brasil, cuja pirâmide etária vem-se transformando em função da queda na taxa de natalidade e o aumento da expectativa de vida na terceira idade. Isso significa que no futuro teremos uma população ativa menor e consequentemente menor arrecadação para 150 Gestão de recursos humanos sustentar a previdência social. Do ponto de vista econômico e social, esse contexto constitui- se numa ameaça para o governo, no que diz respeito ao pagamento dos benefícios dos aposentados e dos pensionistas. A qualidade de vida na terceira idade geralmente depende das eventuais oportunida- des de trabalho, da poupança individual acumu- lada, do patrimônio constituído (ou herdado) e do seguro social (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). No Brasil sabe-se que a maioria da população pertencente à terceira idade sofre nesse período uma redução significativa da capacidade de ge- ração de renda, pois a única fonte de renda familiar é a aposentadoria e/ou pensão (RIBEIRO, 2006). Vale lembrar que, infelizmente, atualmente vemos o esgotamen- to do sistema de previdência social (INSS). Isso pode significar um enorme problema social no futuro, pois não há garantia efetiva que a população ativa de hoje, terceira idade de amanhã, poderá contar com a previdência social para manter-se economicamente. Essa insegurança é um dos motivos que explicam o acentuado crescimento dos planos provados de previdência complementar em nosso país, que se constitui em uma saída alternativa para a terceira idade conse- guir manter seu padrão de vida. Aliada a essa razão, existe outra: os planos privados oferecem van- tagens substanciais, tanto para empresas quanto para seus funcionários em termos de vantagens tributárias, oferecidas pelo governo (RIBEIRO, 2006). A previdência privada complementar, inclusive no âmbito da lei, é reconhecida como alternativa à previdência social (INSS), podendo ser definida como um fundo de investimento de longo prazo, em que cada participante entrega mensalmente (ou não, dependendo do plano em questão) determinada quantia a uma empresa seguradora para aplicação em ativos financeiros e imóveis. O objetivo é que, ao final do contrato, os recursos depositados formem uma poupança que garantirá uma renda destinada a complementar a aposentadoria paga pela previdência pública (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). Para saber mais sobre previdência social, entre no site http:// www.previdenciasocial.gov.br/ 151 Remuneração - Unidade 5 Ch ar le s sm it h / C or bi s Existem dois segmentos distintos: • fundos de pensão fechados: administrados por sociedades oriundas de empresas, principalmente estatais, em que podem participar apenas os funcionários dessas companhias. Uma ca- racterística importante desses fundos é que a empresa também faz contribuições para reduzir o ônus dos funcionários com os desembolsos mensais; • previdência privada aberta: administrada por companhias se- guradoras, sendo aberta a qualquer aplicador (pessoa física ou jurídica). Empresas de qualquer ramo também podem contratar seguradoras para administrar um fundo específico para seus fun- cionários, arcando ou não com parte das contribuições. 5.5 Remuneração variável A remuneração variável está vinculada aos resultados obtidos pela organização. Ela teve como ponto de partida a remuneração por peça pro- duzida, adotada no início do século XX, sendo sua essência relacionada à capacidade de alinhar e convergir esforços para melhorar o desempenho da empresa (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). A remuneração variável tem como finalidade alinhar e convergir esforços dos colaboradores para melhorar o desempenho da empresa 152 Gestão de recursos humanos A remuneração variável pode ser conceitua- da como um incentivo relacionado ao alcance de resultados em determina- do período, sendo limitada normalmente a um ano fiscal (DESSLER, 2003). (RIBEIRO, 2006). Na maior parte dos casos, consiste em uma estratégia eficaz para motivar o colaborador, relacio- nando o desempenho obtido a uma recompensa. (ALBUQUER- QUE; ROCHA, 2007). Vale ressaltar que esta ideia não é nova. Taylor, no início do século XX, bus- cou ligar a remuneração dos funcionários à produti- vidade destes, por meio da aplicação dos princípios da administração científica e do pagamento por peça produzida, mas encontrou muitas dificuldades, pois os trabalhadores só tinham interesse em produzir peças suficientes que garantissem um nível de remuneração para a sua sobrevivência (MA- XIMIANO, 2006). Basicamente, há dois tipos de remuneração variável com foco no curto prazo: remuneração variável individual e remuneração variável por equipe, podendo assumir várias formas: comissionamento para área de vendas, bônus executivo, programas ou incentivos por aumento de habili- dades ou conhecimentos e incentivos por projetos (GIL, 2001). Independentemente do tipo de incentivo adotado como forma de remuneração variável, os seguintes objetivos sãoalmejados pelas em- 153 Remuneração - Unidade 5 presas que adotam esta modalidade de remuneração (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004): • vincular o desempenho e a recompensa de forma a motivar o indivíduo e o grupo a buscarem a melhoria contínua e extrapolar seus níveis clássicos de desempenho; • partilhar os bons e os maus resultados da empresa; • transformar custo fixo em custo variável; • comprometer todas as áreas e os processos da organização com os resultados esperados. Ao reconhecer e recompensar, em nível individual ou coletivo, a contribuição dos profissionais que apresentam comportamentos alinha- dos às necessidades da organização (LAWLER III, 1990), o sistema de remuneração variável atua como elemento de disseminação e reforço de valores, objetivos e metas organizacionais, na medida em que estimula a harmonização de interesses e a criação de uma visão comum entre os membros da organização (HIPÓLITO, 2001). A ligação dos objetivos e as metas da organização com o sistema de remuneração variável pode ser considerada um dos instrumentos de gestão mais poderosos para estimular os colaboradores a se motivarem e a se comprometerem com o alcance dos resultados da organização (LA- WLER III, 1990). A ligação dos objetivos e das metas ao sistema de remuneração vari- ável apresenta as seguintes vantagens (ATTADIA, 2007): • permite a manutenção e o incremento da competência organizacio- nal, por meio do estímulo e do reconhecimento à capacitação e ao aprimoramento dos colaboradores de todos os níveis hierárquicos; • possibilita a atração e a retenção de talentos críticos para a cria- ção de uma vantagem competitiva sustentável. 5.5.1 Remuneração variável individual A remuneração variável individual é adequada quando o padrão de desempenho é estável e o comprometimento com a profissão é maior do que com a empresa (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 1999). A Figu- 154 Gestão de recursos humanos ra 1 sintetiza as vantagens e as desvantagens da remuneração variável individual: Vantagens Desvantagens • Aumento da produtividade • Aumento dos rendimentos funcionários • Conflito entre empregados • Resistência na implementação de no- vas tecnologias e métodos (queda nos padrões de produtividade) • Aumento de reclamações quanto às condições de trabalho (ex manutenção) • Falta de cooperação com novos empre- gados • Desconfiança em relação à gerência Figura 1: Remuneração variável individual – Elaborado pela autora com base em WOOD JÚNIOR; PICARELLI (1999). 5.5.2 Remuneração variável por equipe A remuneração variável por equipe é adequada quando o padrão de desempenho é instável e o comprometimento com a empresa é maior do que com a profissão (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 1999). A Figura 2 sinteti- za as vantagens e as desvantagens da remuneração variável por equipe. Vantagens Desvantagens • Maior facilidade de desenvolver medi- das de desempenho • Estimula cooperação • Aumento da participação do empregado no processo de decisão • Perda da percepção de como o desem- penho individual afeta o grupo • Turnover de empregados com alta per- formance individual • Empregado não pode determinar sua remuneração – insatisfação Figura 2: Remuneração variável individual – Fonte: Elaborado pela autora com base em WOOD JÚNIOR; PICARELLI (1999). 5.5.3 Modelos emergentes de remuneração variável Apesar do reconhecimento de que a remuneração variável é um ins- trumento poderoso para estimular o comprometimento dos colaboradores, muitas organizações resistem em implantá-lo pelo fato de não saberem como devem proceder. 155 Remuneração - Unidade 5 Dentro deste contexto, o sucesso de um sistema de remuneração va- riável permeia os seguintes fatores críticos de sucesso (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004): • convergência com a orientação estratégica da empresa: na construção do sistema de remuneração variável, deverão ser de- finidos indicadores e metas de desempenho, sendo fundamental que estes sejam convergentes com as diretrizes e os objetivos estratégicos da empresa; • simplicidade e flexibilidade: o sistema de remuneração variá- vel deve ser simples de manter e simples de usar. Além disso, ele deve também ser facilmente adaptável, já que as diretrizes estratégicas e os objetivos organizacionais são frequentemente revistos. Os indicadores e as metas de desempenho devem acom- panhar prontamente essas mudanças; • clareza e objetividade: os indicadores e as metas de desempe- nho devem estar claramente definidos para todos os envolvidos. Cada colaborador deve conhecer a sua contribuição individual e de seu grupo para o alcance das metas. O alcance dos objetivos e das metas poderá ser mais rápido e efi- ciente se o sistema de remuneração variável da empresa estiver alinha- do com o sistema de medição de desempenho da organização, em função das medidas de desempenho comunicarem com clareza a contribuição de cada colaborador em relação ao alcance dos resultados da organização (KAPLAN; NORTON, 2001). Os passos para a construção de um sistema estratégico de remunera- ção variável são (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004): • deteminação dos indicadores que impulsionarão o alcance dos objetivos e das metas organizacionais; • negociação dos objetivos, das metas e das recomepnsas com co- laboradores; • definição da matriz de resultados. A escolha dos indicadores é um passo crucial na construção do siste- ma de remuneração variável, pois, uma vez implementados, os indicadores vão constituir a base das decisões (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). 156 Gestão de recursos humanos Observa-se que muitas empresas têm encon- trado dificuldades em ligar medidas de desempenho não financeiras ao sis- tema de remuneração, preferindo medidas de desempenho mais objetivas e voltadas para o resultado, empobrecendo o sistema de recompensas que deixa de valorizar compor- tamentos e capacidades importantes para o desenvolvimento das competências da organização (KAPLAN; NORTON, 2000). Nesse sentido, é preciso ter certeza de que as medidas de desempe- nho selecionadas para ser ligadas ao sistema de remuneração são as mais adequadas para induzir as pessoas a alcançarem os objetivos e as metas desejadas pela organização (ATTADIA, 2004). Atualmente verifica-se que os principais indicadores são lucro líqui- do, resultado operacional, orçamento de des- pesas, satisfação do cliente, produ- tividade, faturamento e volume de vendas (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). Verifica-se também que há organizações que querem que apenas um pequeno número de me- didas de desempenho seja vinculado à remuneração por medo de ficarem reféns do sistema, temendo o caso de haver mudanças drásticas nos objetivos e nas metas definidas no planejamento (ATTADIA, 2004). Indicadores mal escolhidos levam a focos distorcidos e comprometem os processos deci- sórios (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). É importante lembrar que cada empresa é uma realidade única, por- tanto os indicadores e os respectivos pesos devem refletir esta condição (KAPLAN; NORTON, 2000). A construção dos indicadores é o grande desafio da remuneração, pois eles têm que ser consistentes com o objetivo e, ao mesmo tempo, di- fíceis de ser manipulados pelos colaboradores (ULRICH, 1997). As fórmulas de cálculo dos indicadores devem definir os valores a serem distribuídos como recompensa pelo desempenho (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). Essas fórmulas devem ser simples e transparentes, além de amplamente divulgadas para todos os colaboradores (ATTADIA, 2004). Normalmente, o recebimento do incentivo é vinculado ao alcance de metas e objetivos previamente definidos e negociados com a direção-geral e a gerência das áreas organizacionais da empresa (MARRAS, 2000). A negociação de objetivos e das metas dentro de uma mesma organiza- ção é um processo complexo, pois envolve a busca pela satisfação de interes- 157 Remuneração - Unidade 5 ses muitas vezes divergentes entre si, que devem ser alinhados para promo- ver acordos ganha-ganha e duradouros (MARTINELLI;ALMEIDA, 1998). Nesse sentido, as formas de recompensa devem ser estabelecidas em função das possibilidades da empresa e das expectativas dos funcionários, sendo recomendado que sejam estabelecidas de forma participativa entre empresa e colaboradores (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). Para que esse processo realmente tenha efetividade, é importante que o superior tenha consciência de que cada subordinado tem uma visão particular acerca dos objetivos e das metas que estão sendo nego- ciados e que é preciso ter jogo de cintura, boa habilidade de comunicação e excelente capacidade de persuasão para fazê-los entender que o papel deles vai além da participação na definição dos objetivos e metas; é fun- damental convencê-los a assumirem a responsabilidade pelos resultados (MARTINELLI, ALMEIDA, 1998). Para isso, cada gestor deve assumir a postura de mediador, ou seja, não vai impor a decisão, mas intervir na negociação dos objetivos e das metas com o objetivo de conduzir as partes (os subordinados) a um acordo ganha-ganha. Cada gestor deve utilizar suas habilidades de negociador para reunir os subordinados, ouvir suas razões, conciliar os interesses divergentes e, finalmente, propor as bases do acordo, que será discutido até que os subordinados encontrem a melhor solução para eles e para a empresa (ATTADIA, 2007). A matriz de resultados é a representação gráfica das bases de sus- tentação de um programa de remuneração variável, facilitando sua com- preensão e sua comunicação aos colaboradores. Por meio dela, podem-se visualizar o nível de responsabilidade dos profissionais envolvidos e o seu impacto para o alcance dos resultados da empresa, bem como o potencial de premiação para os profissionais que atingirem 100% de suas metas (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). 5.5.4 Participação acionária A participação acionária, juntamente com a particpação nos lucros e resultados, é considerada modelo emergente de remuneração variável, cujo foco é estratégico. 158 Gestão de recursos humanos O objetivo essencial de um plano de participação acionária é criar entre os funcionários um senso de identidade, comprometi- mento e orientação para resultados, sendo uma das vantagens não implicar em desembolso de caixa para a empresa (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 1999). São identificadas as seguintes formas de participação acionária (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004): • distribuição de ações: forma mais tradicional, fica restrita aos níveis hierárquicos mais altos, sendo diretamente proporcional aos resultados da empresa; • venda de ações: disponibilidade aos funcionários, em condições especiais de pagamento (geralmente com desconto de 10% a 15% em relação ao valor de mercado das ações), de um número limitado de ações; • opção de compra: direito que a empresa concede a seus funcio- nários, garantindo-lhes a possibilidade de compra de ações a um preço prefixado em uma data futura; • ações restritas: concessão de ações, as quais se aplicam res- trições no uso. As restrições são tipicamente estabelecidas na forma de prazo de carência para o pleno poder das ações, rela- cionado ao tempo de serviço na empresa, ao tempo após a con- cessão das ações ou mesmo ao alcance de determinadas metas individuais ou corporativas; • ações virtuais: constituem um modelo utilizado por empresas de capital fechado no qual unidades análogas a ações são criadas, cujo valor é ajustado conforme o valor de mercado da empresa. 159 Remuneração - Unidade 5 O Quadro a seguir resume as vantagens e as desvantagens da parti- cipação acionária (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). Quadro: Vantagens e desvantagens da participação acionária Vantagens (Ganhos) Desvantagens (Riscos) • Aumento do comprometimento via pro- priedade • Incentivo a comportamentos proativos e ações de melhoria • Estímulo à colaboração e aos esforços coletivos coordenados • Estímulo a ações individuais voltadas para o aumento do valor do negócio • Mudanças na legislação trabalhista e na regulamentação do mercado financeiro • Distribuição mal dimensionada de ações pode reduzir seu valor unitário e prejudi- car acionistas • Desvalorização das ações pode desca- racterizar o sistema de recompensa como tal • Programas focados em grupos específi- cos podem levar a conflitos entre grupos participantes e não participantes Fonte: Elaborado pela autora com base em WOOD JÚNIOR; PICARELLI (2004). 5.5.5 Participação nos lucros e resultados Dentre as formas de remuneração va- riável apresentadas, a mais utilizada mundialmente é a participação nos lucros e resultados (PLR). A Lei nº 10.101/(2000) determinou que as empre- sas podem partilhar com seus funcionários entre 5% e 15% lucro líquido obti- do e passou a considerar a PLR como uma gratificação pela contribuição do colabora- dor, não podendo ser integraliza- da ao salário-base nem incidir sobre ela qualquer encargo trabalhista ou previdenciário (ROSA, 2004). No Brasil, a PLR surgiu oficialmente na Consti- tuição de 1946, mas, pela falta de regulamentação, caiu no esquecimento. Somente com a Constituição de 1988 e as diretrizes da Lei nº 10.101/(2000) é que a participação nos lucros ou resultados voltou a ser levada em conta pelas empresas brasilei- ras (ATTADIA, 2007). 160 Gestão de recursos humanos Entretanto, mesmo com esses esclarecimentos proporcionados pela lei, o que se observa é uma resistência por parte do empresariado em aplicar a PLR, pelo medo de terem obrigatoriamente de compartilhar com os empregados informações sobre o desempenho da organização (ATTA- DIA, 2007). De acordo com a Lei no 10.101./2000, a PLR abrange os seguintes aspectos (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). • toda empresa deverá estabelecer com seus funcionários uma for- ma de participação nos lucros e resultados; • os critérios podem ser índices de produtividade, qualidade ou lucratividade; • o acordo deve contemplar regras claras, estabelecendo os me- canismos de medição, periodicidade da distribuição e período de vigência; • o pagamento de valores a título de participação nos lucros deve obedecer à periodicidade mínima de um semestre; • o instrumento de negociação deverá ser arquivado no sindicato dos trabalhadores; • os pagamentos a título de participação ficam livres de encargos trabalhistas ou previdenciários; • as participações atribuídas aos funcionários podem ser deduzidas como despesa operacional de pessoa jurídica; • o imposto devido aos funcionários deverá ser recolhido pela empresa; • a distribuição não deverá substituir a remuneração nem cons- tituir base de incidência de qualquer encargo trabalhista ou previdenciário. Há basicamente duas formas de efetuar o pagamento da PLR (ROSA, 2004): • pagamento proporcional: obedece à existência de níveis hie- rárquicos, ou seja, quem pertence a cargos mais elevados ganha mais, não favorecendo a distribuição de renda; • sistema misto: nesse caso, uma parte do valor a ser distribuído é paga igualmente a todos os funcionários para formar a base da 161 Remuneração - Unidade 5 remuneração variável. O restante é distribuído seguindo um dos critérios de proporcionalidade definidos pela empresa, geralmen- te ligados ao alcance de objetivos e metas. O sistema misto favo- rece a distribuição da renda total e ameniza as distorções. Em relação à periodicidade de pagamento da PLR, a legislação bra- sileira determina que não poderá ocorrer o pagamento de qualquer anteci- pação ou distribuição de valores em periodicidade inferior a um semestre civil, ou mais de duas vezes no mesmo ano civil (WOOD JÚNIOR; PI- CARELLI, 2004). É interessante também comentar que, atualmente, a implantação de PLR já é, em muitas empresas, exigência dos funcionários, estando na pauta das discussões sindicais, que pressionam as empresas a inserir cláu- sulas de PLR dentro das convenções coletivas de trabalho (ROSA, 2004). O Quadro 6 sintetiza as vantagens e as desvantagens da PLR. Quadro: Vantagens e desvantagens da PLR Vantagens • Aumento da compreensão da naturezado negócio. • Estimula convergência de esforços para o alcance dos lucros e resultados. • Substituir custos fixos por variáveis. • Reduz a resistência à mudança. • Aumenta a pressão por gestão eficaz. • Aumenta a produtividade e a qualidade dos produtos e dos ser- viços oferecidos Desvantagens • Percentual pago deve ser suficiente para motivar esforços. • Transparência na divulgação dos resultados. Visão mais clara do vínculo entre ações individuais, do grupo e resultados Fonte: Elaborado pela autora com base em WOOD JÚNIOR; PICARELLI (2004). 162 Gestão de recursos humanos Atividades 01. Caracterize a remuneração fixa por cargo, descrevendo os passos para a construção do modelo. 02. Apresente as vantagens e as desvantagens da remuneração fixa por cargo. 03. Identifique os requisitos para a modernização da remuneração fixa por cargo. 04. Comente sobre a necessidade de modernização em relação ao contex- to competitivo atual. 163 Remuneração - Unidade 5 05. Defina o modelo de remuneração fixa por habilidades e apresente as vantagens e as desvantagens dele. 06. Defina o modelo de remuneração fixa por competência e apresente as vantagens e as desvantagens dele. 07. Qual a importância dos benefícios no que diz respeito ao nível de sa- tisfação dos funcionários? 08. Explique o que é um plano de benefícios flexível e aponte os pontos positivos e os negativos de sua adoção pela empresa. 09. Os benefícios podem contribuir para o aumento do comprometimento dos colaboradores em relação ao alcance dos objetivos da organização? 164 Gestão de recursos humanos 10. Explique por que é vantajoso para o trabalhador investir em planos privados de previdência complementar. 11. Explique por que muitas organizações apresentam resistência em im- plantar um sistema de remuneração variável. 12. Apresente as vantagens e as desvantagens da remuneração individual. 13. Apresente as vantagens e as desvantagens da remuneração por equipe. 14. É possível construir um sistema de remuneração variável híbrido, ou seja, que contemple tanto o desempenho individual quanto o desempenho da equipe? Justifique sua resposta, apresentando as vantagens e as limita- ções desse sistema. 165 Remuneração - Unidade 5 15. Quais os elementos para a construção de um sistema de remuneração variável? Discorra sobre cada um deles. 16. Quais os requisitos para a implantação de um sistema de remuneração variável com foco estratégico? Discorra sobre cada um deles. 17. Apresente as vantagens e as desvantagens do modelo de participação acionária como alternativa para a criação de um sistema de remuneração variável com foco estratégico. 18. Explique as modalidades existentes no mercado de participação acionária. 166 Gestão de recursos humanos 19. Apresente as vantagens e as desvantagens do modelo de participação nos lucros e resultados como alternativa para a criação de um sistema de remuneração variável com foco estratégico. Reflexão A remuneração funcional é um modelo que tende a se extiguir em função dos novos modelos de remuneração que estão surgindo e que atendem melhor às necessidades da organização, dentro do atual contexto competitivo (HIPÓLITO,2001). No entanto, essa migração de sistema de remuneração levará algum tempo para acontecer, pois é um processo de mudança organizacional complexo (DUTRA, 2004). Além disso, é preciso tomar cuidado na escolha do novo modelo de remuneração fixa, levando em conta o nível de desenvolvimento organi- zacional de cada organização (WOOD JR; PICARELLI; 2004). Nem sempre a adoção de um novo modelo de remuneração fixa resultará na solução efetiva de determinados problemas da empresa, cuja origem está na sua estrutura organizacional ou na própria cultura da orga- nização (HIPÓLITO, 2001). Observa-se que muitas empresas tendem a imitar umas às outras na adoção de novos modelos de remuneração fixa, sem que exista uma justi- ficativa racional para esse comportamento (LAWLER III, 1990). A remuneração funcional, em sua forma tradicional, é adequada para determinados tipos de negócios, para um certo contexto estratégico e para alguns modelos de estrutura organizacional. Embora sua adoção pelas empresas não seja recomendada para o contexto competitivo atual, a remuneração funcional pode ser o primeiro passo para uma organização alcançar determinado nível de estruturação. A remuneração por habilidades desloca a base de pagamento da função para o indivíduo e possibilita às empresas gerir a aquisição, a aplicação e a disseminação do conhecimento, tornando-se uma alternati- va coerente e apropriada para uma ampla gama de empresas e contextos 167 Remuneração - Unidade 5 organizacionais. No Brasil, sua popularidade vem aumentando em função de esta auxiliar a implantação de programas de qualidade e de formação de equipes autogerenciáveis. A remuneração por competência tem sua base de sustentação nas competências individuais requeridas pela organização para alcançar o negócio. Esse modelo garante que a disseminação dos conhecimentos junto aos empregados promova sua evolução profissional e, em contra- partida, traga benefícios organizacionais, como flexibilidade, agilidade, inovação e velocidade. No que diz respeito à remuneração indireta, o grau de flexibilização dos planos de benefício deve ser dosado de empresa para empresa. Não há uma receita de bolo nem um modelo padrão para ser seguido. Dentro desse contexto, cada empresa precisa analisar seu nível de desenvolvimento organizacional, a maturidade dos colaboradores para a adoção deste tipo de política e o perfil dos funcionários em termos de ne- cessidades a serem atendidas (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). Alguns itens básicos, de interesse de todos os funcionários, podem ser mantidos fixos. Os benefícios mais específicos podem ser disponibi- lizados de acordo com as possibilidades financeiras da organização (RI- BEIRO, 2006). A remuneração variável, ao vincular o desempenho dos colabora- dores a diversos tipos de recompensa, vem-se consolidando como uma estratégia eficaz de motivar o indivíduo e a equipe a se comprometerem com os objetivos e as metas da organização. Embora a ideia seja bastante atrativa, não é tão simples de ser operacionalizada na prática. Primeiro porque a motivação é o principal determinante do comportamento individual (GIL, 2001), sendo normal- mente gerada em função de uma necessidade não satisfeita (MARRAS, 2000). Nem sempre o incentivo financeiro é considerado uma recompensa atrativa pelo colaborador, pois este pode não ser capaz de satifazer a atual necessidade do indivíduo, que pode estar relacionada, por exemplo, à obtenção de maior nível de qualidade de vida ou ao desempenho de uma função dentro da organização que proporcione ao colaborador um alto ní- vel de autorrealização (ATTADIA, 2007). Em segundo lugar, a motivação é essencialmente intrínseca (MA- XIMIANO, 2006), não havendo garantia alguma de que determinado estímulo externo, como a remuneração variável, possa fazer uma pessoa efetivamente se motivar (ROBBINS, 2002). 168 Gestão de recursos humanos Um terceiro ponto a ser considerado é a ligação dos objetivos e das metas ao sistema de remuneração variável. É um assunto ainda deli- cado para muitas empresas, pois implica, muitas vezes, na implantação de mudanças organizacionais que representam verdadeira quebra de paradigma, como, por exemplo, enxugamento da estrutura organizacio- nal, descentralização da autoridade, desenvolvimento de uma liderança liberal (ATTADIA, 2007). Observa-se também que a legislação trabalhista brasileira não dis- ponibiliza instruções elucidativas sobre o assunto remuneração variável (PASCHOAL, 2001). Não há orientações claras sobre o impacto da ado- ção dessa política em relação a encargos sociais pagos pelas organiza- ções nem sobre como esta modalidade de remuneração pode ser adotada pelas empresas sem deixar brechas para riscos de processos trabalhistas (ATTADIA, 2007). Vale destacar que as empresassentem-se inseguras entre recom- pensar o desempenho através de critérios individuais ou de fatores que valorizam o trabalho em equipe, em função do efeito que estas opções de remuneração podem gerar entre os colaboradores (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). A remuneração variável individual pode criar um clima competitivo não saudável, gerando conflitos entre os empregados. Já a remuneração variável por equipe, embora esteja baseada na colaboração entre os indi- víduos para o alcance das metas, pode fomentar, em certos colaboradores, comportamentos isolados de acomodação que acabam desmotivando os membros comprometidos da equipe (ATTADIA, 2007). Verifica-se, em muitas empresas, que os colaboradores “sabotam” o sistema de remuneração variável, priorizando o alcance das metas e dos objetivos que apresentam maior peso e importância, garantindo, assim, o alcance das metas e o recebimento das recompensas (NEVES; PALMEI- RA FILHO, 2002). A remuneração variável é a modalidade mais consistente com os pro- cessos de transformação pelos quais as organizações estão passando. Ela é um poderoso vetor de reforço de traços culturais e, como tal, um agente de mudança organizacional (WOOD JÚNIOR; PICARELLI, 2004). No entanto, a construção de um sistema estratégico de remuneração variável não é algo simples. Além de flexível, o sistema deve acompanhar 169 Remuneração - Unidade 5 a estratégia da empresa através de indicadores de desempenho consisten- tes e comunicados a todos os colaboradores (ATTADIA, 2004). Nesse sentido, a participação acionária e a participação nos lucros e resultados surgem como alternativas seguras e estruturadas para a implan- tação da remuneração variável com foco estratégico na organização. Leituras Recomendadas Neste item é apresentada parte do artigo “A negociação da parti- cipação nos lucros e resultados: estudo em quatro setores dinâmicos da economia brasileira”, que é um estudo científico escrito pelo pesquisador Antonio Carvalho Neto e publicado na Revista de Administração Con- temporânea, em 2001. A seguir você terá oportunidade de conhecer parte dos resultados do trabalho desenvolvido pelas autoras. Caso você queira ler o estudo com- pleto, é só acessar o endereço eletrônico indicado na fonte do artigo, ao final do trecho apresentado. Boa leitura! A negociação da participação nos lucros e resultados, ao vincular remu- neração variável a metas de lucratividade, qualidade e produtividade, passa a ser importante quando as inovações organizacionais exigem cada vez mais participação na gestão e comprometimento dos trabalhadores com os objetivos empresariais. Esse artigo é fruto da tese de doutorado do autor, resultado de vas- ta pesquisa realizada em São Paulo e Minas Gerais, de 1995 a 1999, onde foram tabuladas e analisadas 1.583 cláusulas de 75 acordos e convenções coletivas, abrangendo quatro dinâmicos setores econômicos brasileiros: automotor, quími- co, bancário e de telecomunicações. Em todos os setores pesquisados a PLR se impôs como o principal tema, visto como uma oportunidade positiva no contexto negocial dos anos 90 por 85,71% dos empresários e 91,30% dos sindicalistas entrevistados. As negociações em torno da PLR passaram a ser vistas como possibilida- de de discutir a organização do processo de trabalho, treinamento e qualificação profissional, polivalência, gestão participativa e OLTs. Sindicalistas e empresários já perceberam essas possibilidades, como mostraram tanto a análise das con- venções e acordos coletivos quanto às entrevistas realizadas (vide tabela 1 e 2) 170 Gestão de recursos humanos Tabela 1: Temas Acordados entre Sindicato e Empresas a partir de 1993, Considerados os Mais Importantes pelos Representantes dos Trabalhadores Itens % Participação nos lucros e nos resultados Qualificação / formação profissional Participação do sindicato na introdução de inovações tecnológicas e orga- nizacionais Redução da jornada semanal média de trabalho (sem redução de salário) Flexibilidade da jornada Não houve ganhos advindos do processo negocial no período Condições de trabalho 100,00 21,74 17,39 17,39 17,39 8,69 4,35 Tabela 2: Temas Acordados entre Sindicato e Empresas a partir de 1993, Considerados os Mais Importantes segundo os Empresários Itens % Participação nos lucros e nos resultados Flexibilidade da jornada 100,00 57,14 Os sindicalistas bancários e de telecomunicações entrevistados foram os únicos entre todos os setores pesquisados que colocaram resistências à PLR do ponto de vista ideológico: os de telecomunicações, em razão do que entendiam por serviço público (reinvestir o lucro em melhoria dos serviços à população), e os bancários em razão da quebra de solidariedade de classe e da possibilidade de negociação fora do sindicato e individualizada. Essas resistências não impediram que o tema se impusesse nesses dois setores. Ao contrário dos setores metalúrgico e químico pesquisados, os em- presários do setor bancário e de telecomunicações estão perdendo uma ótima oportunidade para conseguir a adesão do trabalhador aos seus objetivos, quando se negam a negociar a PLR vinculada a metas com os sindicatos. A PLR nos setores bancário e de telecomunicações teve característica de abono, sem vincu- lação a metas, vindo a substituir em parte os reajustes salariais. No setor bancário privado, há programas isolados de PLR que excluem os sindicatos da negociação e acompanhamento. Nesses casos, a gerência perde 171 Remuneração - Unidade 5 ótima oportunidade de envolver os trabalhadores com os objetivos das empresas de forma mais duradoura, ao negar-lhes o direito à opinião crítica e coletiva, que se daria por meio do sindicato, como a pesquisa constatou que ocorre nos seto- res metalúrgico e químico do ABC e de São Paulo. Os sindicatos dos trabalhadores dos dois setores de serviços pesquisados, por sua vez, também perderam a oportunidade de negociar aspectos da gestão das empresas, do processo de trabalho, dos programas de qualificação e de cargos e salários que a negociação da PLR possibilita. Como ficou claro nas entrevistas dos sindicalistas, estes admitiram que têm de preparar-se mais para negociar essas novas questões. Já nos setores químico e metalúrgico, a PLR foi negociada vinculada a me- tas. A avaliação dos empresários entrevistados é a de que, do ponto de vista geren- cial, a negociação da PLR constituiu importante impulsionador da produtividade dos trabalhadores e do maior comprometimento deles com os objetivos das empresas. No setor metalúrgico do ABC, a PLR foi muito mais negociada e acompa- nhada pelas comissões de fábrica e pelo sindicato; a avaliação da gerência das montadoras pesquisadas, quanto ao envolvimento dos trabalhadores com os programas e quanto aos seus resultados, é muito positiva. No geral, houve mais resultados positivos em relação à remuneração nas negociações ocorridas nos setores industriais pesquisados (químico e metalúr- gico) do que nos setores de serviços (bancário e telecomunicações), e, entre os setores industriais, mais no metalúrgico do ABC do que em São Paulo, e mais em São Paulo do que em Betim. A pesquisa indica que os programas de PLR têm crescido e que esta ten- de a ser uma estratégia gerencial cada vez mais adotada no país. Como vimos, apesar das extremas dificuldades em que se encontram os sindicatos, os meta- lúrgicos do ABC em especial, e os químicos, em segundo lugar, se destacaram na negociação da PLR, obtendo vantagens para os trabalhadores. Da parte das empresas, os resultados encontrados nos indicam que, quando realmente negociados com sindicatos de trabalhadores representativos, que têm liderança reconhecida pelos trabalhadores e, melhor ainda, quando acompanhados no nível da empresa por comissões de empregados livremente eleitas e com garan- tia de emprego (estabilidade temporária igual à do dirigente sindical, como no caso do ABC), que podem exercer a crítica e também o apoio ao programa sem fortes retaliações,os programas de PLR aumentam o nível de comprometimento organi- zacional, bem como melhoram os indicadores de desenvolvimento econômico. Finalizando, os resultados encontrados apontam a necessidade que a participação nos lucros e resultados seja efetivamente negociada com sindicatos 172 Gestão de recursos humanos que realmente tenham poder de barganha, para que se transforme no formidável instrumento de gestão que pode vir a ser, com forte probabilidade de obter maior comprometimento organizacional por parte do trabalhador. Nosso estudo mostra que isto ocorreu no setor metalúrgico, em especial no ABC e, em segundo plano, no setor químico pesquisado. Por outro lado, nos setores de serviços pesqui- sados, a negociação não ocorreu, e os programas de participação nos lucros e resultados não se efetivaram na prática. Fonte: CARVALHO NETO, Antonio. A negociação da participação nos lucros e resultados: estudo em quatro setores dinâmicos da economia brasileira. Rev. adm. contemp., Curitiba, v. 5, n. 1, abr. 2001. Disponível em <http://www.scielo.br/ scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-65552001000100011&lng=pt&nrm= iso>. Acesso em 08 ago. 2010. doi: 10.1590/S1415-65552001000100011. Referências ALBUQUERQUE, A; ROCHA, P. Sincronismo organizacional: como alinhar a estratégia, os processos e as pessoas. São Paulo: Saraiva, 2007. ATTADIA, L. C. L. Diagnóstico do nível de capacitação gerencial das micro e pequenas empresas: um estudo multicasos no setor mo- veleiro de São José do Rio Preto. São Paulo, 2007, 277 p. Tese (Dou- torado em Administração). Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA). Universidade de São Paulo (USP) ATTADIA, L. C. L. Uso da medição de desempenho para alinhar e comunicar a estratégia: uma análise crítica do Balanced Scorecard. São Carlos, 2004. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção) – Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção. Universi- dade Federal de São Carlos: UFSCar. BOHLANDER, G. W.; SNELL, S.; SHERMAN, A. Administração de recursos humanos. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003. CARVALHO NETO, Antonio. A negociação da participação nos lucros e resultados: estudo em quatro setores dinâmicos da economia brasi- leira. Rev. adm. contemp., Curitiba, v. 5, n. 1, abr. 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415- 65552001000100011&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 08 ago. 2010. doi: 10.1590/S1415-65552001000100011. 173 Remuneração - Unidade 5 CHIAVENATO, I. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos hu- manos nas organizações. Rio de Janeiro: Campus, 1999. DECENZO, D.; ROBBINS, S. Administração de Recursos Huma- nos. 6.ed. Rio de Janeiro: LTC Editora, 2001. DESSLER, G. Administração de Recursos Humanos. 2. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2003. DUTRA, J. S. Administração de carreira: uma proposta para repen- sar a gestão de pessoas. São Paulo: Atlas, 1996. DUTRA, J. Competências: conceitos e instrumentos para a gestão de pessoas na empresa moderna. São Paulo: Atlas, 2004. GIL, A. Gestão de Pessoas: enfoque nos papéis profissionais. São Paulo: Atlas, 2001. HIPÓLITO, J. Administração salarial: a remuneração por competên- cias como diferencial competitivo. São Paulo: Atlas, 2001. KAPLAN, R. S.; NORTON, D. P. Having Trouble with Your Strategy? Then map it. Harvard Business Review, Sept./Oct. 2000. KAPLAN, R. S.; NORTON, D. P. The Strategy-Focused Organiza- tion: how balanced scorecard companies thrive in the new business environment. Harvard Business School, 2001. LAWLER III, E. Strategic Pay: aligning organizational strategies and pay systems. San Francisco: Jossey-Bass, 1990. MARRAS, J. Administração de recursos humanos: do operacional ao estratégico. São Paulo: Futura, 2000. MARRAS, J. P. Administração da remuneração. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002. 174 Gestão de recursos humanos MARTINELLI, D. P. ALMEIDA, A.P. Negociação e solução de con- flitos: do impasse ao ganha-ganha através do melhor estilo. São Paulo: Atlas, 1998. MAXIMIANO, A. Teoria geral da administração: da revolução ur- bana à revolução digital. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2006. NEVES, M; PALMEIRA FILHO, P. Balanced scorecard como cata- lisador da gestão estratégica: remédio ou placebo? In: ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO – ENEGEP, 22, 2002, Curitiba. Anais. Curitiba: ENEGEP, 2002. PASCHOAL, L. Administração de cargos e salários. Rio de Janeiro: Qualymark, 2001. RIBEIRO, A. L. de. Gestão de pessoas. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. ROBBINS, S. Comportamento organizacional. São Paulo: Prentice Hall, 2002. ROSA, F. D. Participação nos lucros ou resultados: a grande vanta- gem competitiva: como pessoas motivadas podem potencializar resul- tados e reduzir os custos das empresas. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2004. SOUZA, M. C. A.; BITTENCOURT , F.R.; PEREIRA FILHO, J.L.; BISPO, M. M. Cargos, carreiras e remuneração. 5. ed. Rio de Janei- ro: Editora FGV, 2008. THIEDE, C. Gestão de cargos e estratégia de remuneração. São Paulo: 2009 (Apostila de curso Gestão de Cargos e Estratégias de Re- muneração – Grupo Catho) WOOD JÚNIOR, T; PICARELLI, V. Remuneração e carreira: por habilidades e competências. São Paulo: Atlas, 1999. WOOD JÚNIOR, T; PICARELLI, V. Remuneração estratégica. São Paulo: Atlas, 2004. 175 Remuneração - Unidade 5 ULRICH, D. Measuring human resources: an overview of practice and a prescription for results. Human Resource Management, v. 36, n. 3, p. 303-320, 1997. Na Próxima Unidade Na próxima unidade vamos falar do processo de manutenção de pessoas, que é utilizado para criar condições ambientais e psicológicas sa- tisfatórias para as atividades das pessoas (higiene e segurança no trabalho, clima e cultura organizacionais). 176 Gestão de recursos humanos Minhas anotações: U ni da de 6 Manutenção de pessoasMuitas empresas se esforçam para atrair talentos, mas não conseguem retê-los na organização por longo tempo. Por que será que isso acontece? Uma das explicações para este fato talvez seja a inca- pacidade de gerir o sistema de manutenção de pessoas, que envolve o estabelecimento das bases para a administra- ção de pessoal e a gestão do ambiente organizacional. O processo de manter pessoas é utilizado para criar condições ambientais e psicológicas satisfatórias para as atividades das pessoas (higiene e segurança no trabalho, clima e cultura organi- zacionais). Objetivos da sua aprendizagem Nesta unidade, temos como objetivos: • Discutir os conceitos básicos da administração de pessoal; • Apresentar os principais aspectos relacionados à higiene e à segurança no trabalho; • Caracterizar o conceito de satisfação no trabalho; • Caracterizar o conceito de qualidade de vida no trabalho; • Compreender o que é o clima organizacional e entender quais os impac- tos do clima organizacional no desempenho dos funcionários; • Descobrir a importância de se realizar pesquisas de clima; • Aprender a elaborar pesquisas de clima. Você se lembra? Na unidade anterior você estudou os conceitos de remuneração. Nesta unidade você terá oportunidade de compreender o proces- so de manutenção de pessoas. 178 Gestão de recursos humanos 6.1 Administração de pessoas A área de administração de pessoal envolve as atividades adminis- trativas e legais, além das atividades relativas à segurança e medicina do trabalho, destacando-se (RIBEIRO, 2006): • executar o plano operacional e cumprir o orçamento definido para o setor, buscando alcançar os objetivos e as metas; • planejar, organizar, gerenciar e controlar as atividades de depar- tamento pessoal, de forma que sejam realizadas com eficiência e eficácia; • controlar, manter e atualizar dados cadastrais dos funcionários; • providenciar o registro oficial do colaborador na empresa, cui- dando para que todos os documentos estejam em ordem (CPF, RG, carteira de trabalho, certidão de nascimento dos filhos me- nores de 14 anos, exames médicos, fotos, PIS/PASEP etc.); •manter atualizada a documentação referente à contratação dos colaboradores; • dar andamento aos processos de rescisão contratual e demissão de colaboradores; • realizar a entrevista de desligamento do colaborador, também chamada entrevista de saída, buscando pesquisar junto àquele que deixa a organização o seu nível de satisfação com as políticas da empresa, o ambiente de trabalho, o relacionamento com cole- gas e com supervisores, bem como suas sugestões de melhoria; • dar a “baixa” na carteira do colaborador, registrando a saída efe- tiva da empresa, dando por finalizado o processo demissional do empregado na organização; • homologar a rescisão contratual do colaborador junto ao sindica- to da respectiva categoria ou na delegacia do trabalho da região, o que finaliza todo o processo demissional; • cuidar para que as normas da legislação trabalhista sejam apli- cadas; • dar andamento aos processos de admissão/demissão de funcio- nários; • arquivar todos os documentos relacionados à área trabalhista; • enviar todos os documentos referentes à contratação e à dispensa dos funcionários para serem assinados pelos diretores; Manutenção de pessoas - Unidade 6 179 Manutenção de pessoas - Unidade 6 Manutenção de pessoas - Unidade 6 • cuidar dos contratos trabalhistas, primando pelo seu cumprimen- to e pela sua adequação à Legislação Trabalhista e Constituição; • acompanhar possíveis recursos trabalhistas que a empresa possa vir a sofrer; • calcular os encargos sociais relativos a cada colaborador, como, por exemplo, DIRF, RAIS, CAGED, FGTS e INSS; • calcular o valor dos salários, bem como discriminar os benefícios pagos a cada colaborador; • elaborar a folha de pagamento; • coordenar de forma eficiente e eficaz as atividades relacionadas à programação e ao pagamento de férias aos funcionários; • realizar a composição e cálculos de rescisões contratuais de to- dos colaboradores; • fazer o cálculo, a conferência e o controle do pagamento do 13º salário; • fazer o cálculo, a conferência, a emissão e o controle dos adian- tamentos salariais a todos os colaboradores, descontando os res- pectivos valores da folha de pagamento; • emitir os holerites e enviar aos setores para os funcionários assi- narem; • enviar informações sobre pagamento dos colaboradores à área financeira e à contabilidade; • planejar, organizar, gerenciar e controlar as atividades de segu- rança do trabalho, de forma que sejam realizadas com eficiência e eficácia; • identificar as necessidades de cada área organizacional no que diz respeito a equipamentos e procedimentos de segurança no trabalho; • organizar e desenvolver programas voltados à segurança no tra- balho; • coordenar e controlar o uso de equipamentos e a aplicação dos procedimentos de segurança no trabalho; • instruir os colaboradores sobre a importância da prevenção de acidentes de trabalho; • adotar medidas punitivas para os casos de descumprimento das normas de segurança no trabalho; 180 Gestão de recursos humanos • planejar, organizar, gerenciar e controlar as atividades de medi- cina do trabalho, de forma que sejam realizadas com eficiência e eficácia; • desenvolver planos voltados à preservação da saúde e da integri- dade física dos funcionários; • desenvolver programas que visam à melhoria da qualidade de vida no trabalho, identificando necessidades e problemas dos colaboradores. 6.2 Higiene e segurança no trabalho A preocupação com a saúde e a segurança do trabalhador não é algo recente. Muitos trabalhadores sempre estiveram expostos a situa- ções desumanas de trabalho, com empregadores interessados somente no aumento do capital, sem a preocupação com o bem-estar dos fun- cionários. Mas foi após a Revolução Industrial, do século XIX, quando houve um crescimento quase fora de controle dos acidentres de trabalho, que o assunto tornou-se evidência e as maiores evoluções aconteceram (TACHIBANA, 2009). Atualmente já se percebe grande movimentação em direção à prevenção aos acidentes de trabalho, com a criação de programas e de Sistemas de Gestão de Saúde e Segurança no Trabalho (SGSST). Isso significa que o mero “cumprimento da lei” está sendo deixado para trás, e a real preocupação com o trabalhador está sendo vista como um investimento, já que, em um ambiente saudável e seguro, há ganho de produtividade, bem-estar e menos casos de afastamento por doenças ou acidentes (TACHIBANA, 2009). O estabelecimento oficial de uma política de Saúde e Segurança do Trabalho (SST) promove maior comprometimento e envolvimento do corpo gerencial, para que as mudanças solicitadas para melhoria da qualidade do ambiente de trabalho sejam de fato colocadas em prática (TACHIBANA, 2009). No Brasil, apesar de uma legislação em muitos pontos defasada, as leis têm proporcionado inúmeras formas de punição a empresários negli- 181 Manutenção de pessoas - Unidade 6 gentes. No entanto, a fiscalização deficiente acaba por incentivar a falta de investimentos na área de prevenção, o que amplia os riscos para a saúde e a segurança dos trabalhadores. O número de representações enviadas ao Ministério Público relacionadas ao descumprimento de normas relativas à Higiene Ocupacional ainda é pouco expressivo quando comparado a ou- tros órgãos, como os de fiscalização tributária. Maior cooperação entre o Ministério do Trabalho e o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) po- deria melhorar esse panorama, com a viabilização de troca de informações e avaliação da origem das doenças trabalhistas (TACHIBANA, 2009). Dentre as ações voltadas à higiene e à segurança destaca-se o forne- cimento de Equipamentos de Proteção Individuais (EPIs). Há vários fatores que podem afetar a saúde do trabalhador, desta- cando-se entre eles: a iluminação, os ruídos, o calor, entre outros. Melhor iluminação pode proporcionar um ambiente industrial mais seguro e confortável. Contrastes e sombras podem ser percebidos apenas com uma boa iluminação. Assim, caso haja deficiência na iluminação, há maior risco de acidentes. A deficiência de luz em um posto de trabalho pode causar também dores de cabeça, fadiga, náuseas e outros problemas neurológicos menos frequentes. O humor também pode ser afetado. A concentração nas tarefas de trabalho é outro fator influenciado pela ilumi- nação. Assim, uma iluminação reduzida pode acarretar em desatenção e consequentemente acidentes de trabalho (TACHIBANA, 2009). m ia o / d re am st im e. Co m Um bom projeto de iluminação deve considerar aspectos de ilumi- nação natural, refletância das paredes, quantidade e posicionamento cor- reto de lâmpadas, tipo de luminárias e qual a atividade realizada no local (TACHIBANA, 2009). 182 Gestão de recursos humanos Ju Pi te ri m aG es / Ph ot os .C om / Ge tt y im aG es O ruído pode ser definido como um som indesejável no ambiente de trabalho. Além do incômodo gerado, deve-se alertar para os danos à saúde que podem ser gerados, como perda auditiva, interferência na comunica- ção e distúrbios do sono. A incapacidade de compreender conversas em condições normais é considerada um dos principais problemas sociais (TACHIBANA, 2009). A exposição prolongada a ruídos elevados pode levar a perdas au- ditivas irreversíveis. Pode haver também distúrbios no organismo, como alteração nos níveis hormonais da tireoide, aumento dos batimentos cardí- acos, produção de adrenalina, contrações do estômago e abdome, reações musculares e desgastes físicos e mentais. A ocorrência da Perda Auditiva Induzida pelo Ruído (PAIR) está relacionada à suscetibilidade individual e a outros fatores, como idade, sexo, exposição ao ruído não ocupacional, hábitos de fumar e outros (TACHIBANA, 2009). O uso de EPI deve ser uma medida posterior ao esgotamento de to- das as soluções de controle da emissão de ruído. Entretanto, os protetores auriculares são amplamente usados pela facilidade de implantação e pelo baixo custo. Substituições de equipamentos podem ser soluções, ou seja,adquirir equipamentos modernos com cabines que isolem o trabalhador, evitando, assim, a exposição a diversos agentes prejudiciais à saúde (TA- CHIBANA, 2009). Os efeitos negativos causados pela exposição ao calor ou a ambien- tes termicamente desfavoráveis podem ser significativos. Os custos de- correntes da hospitalização de pessoas e também da perda de produtivida- de por parte dos trabalhadores devem ser considerados. Até o final deste século, estima-se um aumento de quase quatro vezes nos casos de doença causadas pelo calor (TACHIBANA, 2009). 183 Manutenção de pessoas - Unidade 6 Satisfação no tra- balho é o quanto as pessoas gostam de seu trabalho, reflete os sentimentos positivos em relação ao trabalho. 6.3 Satisfação no trabalho Conforme (SPECTOR, 2003), satisfação no trabalho é uma variá- vel de atitude que reflete como uma pessoa se sente com relação ao trabalho de forma geral e em seus vários aspectos. Muitos autores acre- ditam que o conteúdo do trabalho é o principal de- terminante da satisfação no trabalho. De acordo com esses autores, determi- nadas características, quando presentes nas tarefas desempe- nhadas pelos trabalhadores, promo- vem a emergência de determinados esta- dos psicológicos críticos capazes de determinar a motivação e a satisfação no trabalho (SANT’ANNA; MORAES; KILIMNIK; 2005). O primeiro desses estados é definido como a significância percebida ou o grau com que o sujeito vê seu trabalho como importante, valioso e significativo, dentro de sua escala de valores. O segundo refere-se à respon- sabilidade percebida pelo trabalhador em relação a seu trabalho, isto é, ao grau em que o profissional se sente responsável pelos resultados do trabalho que executa. Já o terceiro diz respeito ao conhecimento dos resultados do trabalho, ou seja, ao grau em que o indivíduo conhece e entende seu desem- penho efetivo na tarefa (SANT’ANNA; MORAES; KILIMNIK; 2005). Seguindo esta ideia, Hackman e Oldham (1975) criaram o Modelo das Dimensões Básicas da Tarefa, que busca explicar a satisfação por meio de seis dimensões: variedade de habilidades; identidade da tarefa; significado da tarefa; autonomia; feedback extrínseco; feedback do pró- prio trabalho e inter-relacionamento. Hackman e Oldham (1975), embora considerem que as variáveis de conteúdo são as principais determinantes da satisfação no trabalho, não deixam de reconhecer a importância dos fatores de contexto, destacando- -se variáveis como: a possibilidade de crescimento, a supervisão, a segu- rança no trabalho, a compensação financeira e o ambiente social. 184 Gestão de recursos humanos Em extenso trabalho de pesquisa, Sant’anna; Moraes e Kilimnik (2005) identificaram os principais indicadores relacionados à satisfação no trabalho, conforme apresentado no quadro a seguir: Quadro: Indicadores por fator – Satisfação no Trabalho Satisfação com fatores associados ao trabalho em si A liberdade de pensamento e ação que eu tenho ao fa- zer o meu trabalho Meu trabalho me fornece consideráveis oportunidades de independência e liberdade sobre como executá-lo O grau em que aplico no dia-a-dia do meu trabalho os conhecimentos adquiridos ao longo de minha formação acadêmica A possibilidade de crescimento pessoal e de desenvolvi- mento que eu tenho ao realizar o meu trabalho Meu trabalho exige que eu utilize diversas habilidades complexas e de alto nível O grau de participação que me é permitido nas decisões importantes em relação ao meu trabalho A oportunidade de ajudar outras pessoas enquanto es- tou trabalhando O volume de trabalho que eu tenho que realizar A simples execução das tarefas do meu trabalho ofe- rece muitas oportunidades (feedbacks) para mostrar a mim mesmo(a) se o estou realizando bem ou não Satisfação com fato- res Organizacionais Satisfação com a gerência O modo como os conflitos sã resolvidos na organização A maneira como as modanças e inovações são imple- mentadas na empresa As comunicações e o modo como as informações circu- lam na organização A forma como os meus esforços são valorizados pela organização Os meus superiores quase nunca me dizem como estou me saindo na execução do meu trabalho Comumente os meus superiores me falam sobre o que eles pensam a respeito do meu desempenho no trabalho (SANT’ANNA; MORAES; KILIMNIK; 2005). 185 Manutenção de pessoas - Unidade 6 De acordo Rodri- gues (1999), a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) está volta- da para a satisfação e o bem-estar do colaborador na execução de suas tarefas. Segundo Conte (2003), a qualidade de vida no trabalho ocorre a partir do momento em que os aspectos humanos são vistos como um todo pela organização. A satisfação no trabalho é mensurada perguntando-se às pessoas como elas se sentem em relação ao seu trabalho, através de questionários ou entrevistas. Ch ad b ak er / Ph ot od is C / G et ty im aG es 6.4 Qualidade de vida no trabalho Nota-se que o conceito de qualidade de vida no trabalho é bastante amplo. A QVT é uma ciên- cia comportamental, cujo principal foco está voltado para o bem-estar do indi- víduo em seu ambiente de trabalho, constituindo-se em uma ferramenta utilizada pelas empresas para elevar o nível de satisfação de seus cola- boradores (FRANÇA, 1997). Essa visão integral das pessoas é denominada enfoque biopsicos- social, tendo sua origem na medicina psicossomática, que propõe a visão de que saúde não é apenas ausência de doenças, mas também o completo bem-estar biológico, psicológico e social (MAXIMIANO, 2006). Esta visão abre espaço significativo para a com¬preensão e a ad- ministração de fatores psicossociais na vida moderna, especialmente o estresse. A correlação entre o estresse e o trabalho é evidente. Atividades que requerem exaustivo esforço físico, ou que são alienantes, ou reali- zadas em ambiente de tensão, produzem efeitos psicológicos negativos, mesmo que a pessoa esteja fisicamente bem. O estresse, por afetar o 186 Gestão de recursos humanos equilíbrio da pessoa na realização de seu trabalho, acaba por influenciar o nível do bem-estar e da satisfação no trabalho (FERNANDES, 1996). O Modelo de Walton (apud Rocha, 1999) é um dos mais utilizados para mensurar o nível de qualidade de vida no trabalho em função da abran- gência de suas dimensões, conforme pode ser observado na figura abaixo: Dimensões Fatores 1. Compensação justa e adequada a) Renda adequada ao trabalho b) Equidade interna c) Equidade externa 2. Condição de trabalho a) Jornada de trabalho b) Ambiente físico seguro e saudável 3. Oportunidade de uso e desenvolvimen- to de capacidades a) Autonomia b) Sgnificado da tarefa c) Identidade da tarefa d) Variedade da habilidade e) Retroinformação 4. Oportunidade de crescimento e segu- rança a) Possibilidade de carreira b) Crescimento profissional c) Segurança de emprego 5. Integração social no trabalho a) Igualdade de oportunidade b) Relacionamento 6. Constitucionalismo a) Respeito às leis e direitos trabalhistas b) Privacidade pessoal c) Liberdade de expressão d) Normas e rotinas 7. Trabalho e espaço total da vida a) Papel balanceado do trabalho 8. Relevância social da vida no trabalho a) Imagem da empresa Dentro desse contexto, diversas organizações vêm adotando prá- ticas voltadas à qualidade de vida no trabalho que visam a assegurar o bem-estar de seus colaboradores. O quadro a seguir apresenta uma síntese das categorias englobadas por esses práticas, bem como os respectivos 187 Manutenção de pessoas - Unidade 6 indicadores utilizados para avaliar o nível de satisfação dos colaboradores (MAXIMIANO, 2006). Quadro: Práticas e indicadores de QVT Práticas Indicadores específicos Organizacional • Tratamento ético dos colaboradores • Tratamento igualitário dos colaboradores, sem distinção de raça, sexo e outras formas de segregação social • Clareza das políticas e procedimentos de gestão de pessoas Social • Investimento na educação formal dos colaboradores. •Realização de atividades culturais e esportivas. • Criação de políticas e implantação de prática que visam à inte- gração do colaborador com a organização, desde o momento em que ele é contratado pela empresa. • Implantação de benefícios voltados à cultura e lazer • Implantação de benefícios aos familiares Psicológica • Valorização do funcionário por meio de incentivos e recompensas • Apoio psicológico em relação ao acompanhamento de problemas particulares dos colaboradores, • Proposição de desafios aos colaboradores, através da participa- ção destes em projetos paralelos desenvolvidos pela organização, possibilitando o aumento da autoestima do colaborar e proporcio- nando a oportunidade de autorrealização Biológica • Ginástica laboral • Controle dos acidentes de trabalho • Conforto físico e eliminação da insalubridade • Orientação sobre alimentação • Controle preventivo de doenças Fonte: Adaptada de MAXIMIANO (2006). 6.5 Clima organizacional Para um desempenho organizacional excelente, é fundamental que as pessoas estejam comprometidas com os objetivos da empresa e que 188 Gestão de recursos humanos O clima organiza- cional refere-se ao sentimen- to dos colaboradores em relação ao trabalho diário, ao grau de interação entre indivíduos, grupos e áreas organiza- cionais, ao nível de satisfação no trabalho, ao nível de motivação e às práticas de gestão de pessoas, como recrutamento e seleção, treinamento e desenvolvimento, avaliação de desempenho, remuneração e carreira (CURY, 2000). estejam satisfeitas com o ambiente de trabalho. Dentro desse contexto, surge o conceito de clima organizacional. O clima organizacional pode ser definido, segundo Chiave- nato (2008, p. 74), como “as impressões gerais ou as per- cepções dos empregados em relação ao seu ambien- te de trabalho”. Embora nem todos os funcionários tenham a mesma opinião (pois não têm a mesma percepção), o clima organizacional reflete o compor- tamento organizacional, isto é, valores específicos de uma organização, seus valores ou atitudes que afetam a ma- neira como as pessoas ou os grupos se relacionam no ambiente de trabalho. Por este motivo, clima e cultura organizacional estão extremamente relacionados. Luz (2003) observa que o clima é o reflexo da cultura da orga- nização. É o resultado dos efeitos da cultura na organização como um todo. É importante destacar que a cultura organizacional tem caráter des- critivo, ou seja, formaliza as crenças e os valores da organização e mostra como eles podem ser articulados para que sejam compartilhados por todos os membros da organização (ROBBINS, 2002). Já o clima organizacional tem caráter avaliativo, captando os sentimentos dos colaboradores em re- lação à organização (FLEURY et al., 1996). Isso significa que o clima pode ser medido por meio de pesquisa, en- quanto que a cultura não pode. Vamos entender melhor como isso acontece? O clima organizacional é a expressão de como os funcionários percebem seu ambiente. Assim, por meio de uma pesquisa de clima, o gestor tem condições de averiguar até que ponto os valores centrais da organização estão (ou não estão) inseridos no dia a dia da organi- zação. Já uma cultura não tem como ser mensurada. Ela é composta de valores e fortalecida por processos de aprendizagem ao longo dos anos. É intangível. Assim, tem-se apenas como medir seus efeitos (o clima), mas não as causas (a cultura). 189 Manutenção de pessoas - Unidade 6 Estudos relacionados ao clima são importantíssimos, pois, por meio de uma pesquisa de clima organizacional, é possível realizar uma avalia- ção da cultura vigente na organização. 6.5.1 Por que avaliar o clima organizacional Luz (2003, p. 22 - 24) indica quatro principais motivos pelos quais a organização deve obrigatoriamente realizar avaliações periódicas do clima da organização: • Por ser uma função principal do RH: uma organização deve necessariamente proporcionar requisitos mínimos para a conti- nuidade de seus funcionários na organização. Neste contexto, de nada adianta a organização efetuar grandes esforços de recruta- mento e seleção de funcionários se eles, por causa de um clima organizacional prejudicado, não se sentem motivados a permane- cer na organização. • Por ser uma oportunidade de realização de melhorias contí- nuas no ambiente de trabalho e nos resultados da organiza- ção: a organização deve buscar constantemente adaptar-se aos grandes desafios do ambiente. Essa adequação visa aos objetivos de continuidade da existência da organização, proporcionando a todos os envolvidos (empresa e funcionários) o atingimento de seus objetivos. Para que essa adequação atinja aos objetivos de todos, é necessário que se mensure quais os impactos de tais me- lhorias dentro do cotidiano organizacional. Em outras palavras: quais dessas medidas favorecerão seu corpo de funcionários e em quais aspectos tais medidas devem ser reestruturadas; • Porque cabe à organização manter seus funcionários mi- nimamente satisfeitos: mantendo seu corpo de funcionários satisfeito, a organização tem maiores probabilidades de manter seu corpo de funcionários coeso e comprometido. Com isso, acredita-se que a organização poderá atingir seus objetivos – por meio de funcionários competentes, desenvolvidos e compromis- sados. Afinal, o desempenho dos funcionários afeta diretamente o desempenho organizacional; • Porque as constantes mudanças do ambiente vêm modifi- cando a atitude dos trabalhadores em relação às empresas: downsizings, mudanças de perfis de consumidores, mudanças de 190 Gestão de recursos humanos estratégias de empresas, fusões e aquisições... todas estas mu- danças fizeram com que o funcionário, cada vez mais, se empe- nhasse em se capacitar para aprender a lidar com tantas variáveis novas. Vivemos hoje a era do chamado “fim dos empregos”. Essa adaptação, em muitas circunstâncias, significa a valorização da própria carreira. Assim, o perfil dos funcionários vem mudan- do. Cada vez mais o funcionário ingressa nas empresas buscando unicamente o aprendizado de novas técnicas e conhecimentos – para, então, buscar novas oportunidades fora da empresa; • Porque as crescentes reconfigurações do ambiente de negó- cios vêm, de certa forma, degradando o ambiente organiza- cional: as pessoas normalmente rejeitam a ideia de mudanças, por estas significarem alterações de status quo. Em muitas situações, essas mudanças colidem abertamente com boa parte das estruturas organizacionais estabelecidas. Mudanças radicais tendem, então, a deixar rastros de descontentamento e frustração entre os funcionários – especialmente, quando a mudança for do tipo não planejada. Cabe, então, ao setor de RH medir onde foram os impactos negativos mais marcantes de tais reconfigu- rações. E, na medida do possível, buscar soluções viáveis para a minimização de seus impactos. 6.5.2 Tipos de clima organizacional Luz (2003) indica que o clima organizacional pode ser de três tipos: bom, prejudicado e ruim. Luz (2003, p. 31) qualifica um clima organizacional como bom quando predominam atitudes positivas no ambiente organizacional – o que dá aos funcionários uma sensação agradável. Para o autor, o clima é “bom” quando existe “alegria, confiança, entusiasmo, engaja- mento, participação, dedicação, satisfação, motivação e comprometi- mento nítido na maior parte dos funcionários”. Observa-se o clima positivo quando o funcionário recomenda po- sitivamente seu ambiente de trabalho a outros colegas e sente orgulho de fazer parte de seu corpo de funcionários (OLIVEIRA, 2005). Um grande 191 Manutenção de pessoas - Unidade 6 indicador de um clima organizacional positivo são baixos índices de tur- nover observados. Um clima organizacional prejudicado é um importante sinaliza- dor de que alguma variável organizacional está afetando de maneira negativa o ânimo da maioria dos funcionários. Assim, Luz (2003, p. 32-34) indica um clima prejudicado como sendo um ambiente onde paira “tensão entre funcionários, discórdias,rivalidades, animosidades, conflitos, desinteresse pelo cumprimento de tarefas, resistência passi- va às ordens, excesso de ‘fofocas organizacionais’”. A intensidade com que essas variáveis se manifestam é que determi- na se o clima está prejudicado ou ruim. Observa-se o clima prejudicado ou ruim numa organização quando os funcionários abertamente criticam a empresa e seus procedimentos. Além disso, os funcionários se sentem, em muitas situações, envergo- nhados de nela trabalharem. Seus relatos de trabalho aos próximos têm sempre a tônica de “local de pagamento de contas”. E, por fim, um grande indicador de clima organizacional negativo são altos índices de turnover observados e a existência de grandes grupos de contracultura. 6.5.3 O impacto do clima organizacional na empresa Quais são as maneiras pelas quais o clima da organização se manifesta? Luz (2003, p. 32-34) descreve alguns indícios de como está o clima organizacional vigente na organização. Esses indícios são explorados no Quadro a seguir. Estes indicadores servem como “sinais” de como está o clima da organização. Quadro: indicadores de clima organizacional Indicadores de clima organizacional Características Turnover Altas taxas de rotatividade de pessoal são um in- dício claro de ausência de comprometimento dos funcionários com a empresa. Absenteísmo Altos índices de faltas evitáveis são exemplos cla- ros de descompromisso do funcionário. O funcio- nário não se sente motivado a ir ao trabalho. 192 Gestão de recursos humanos Pichações nos banheiros Críticas anônimas em murais ou em banheiros indicam claramente o estado da insatisfação dos funcionários em relação aos membros da empre- sa (especialmente em relação aos líderes). Programas de sugestões Programas de sugestão malsucedidos revelam também a falta de comprometimento dos funcio- nários ou a completa descrença nas iniciativas de tentativas de melhoria de clima da organização. Avaliação de desempenho A AD indica claramente ao gestor que em muitas situações o desempenho do funcionário é devido ao seu estado de ânimo, à apatia em relação aos resultados de seu trabalho. Greves As greves geralmente estão associadas ao des- cumprimento de obrigações legais por parte das empresas. Mas, em muitas situações, a adesão em massa por parte dos funcionários indica uma reação ao descontentamento vivenciado. Conflitos interpessoais e interdepartamentais É o principal indício do clima. A intensidade dos conflitos interpessoais é que determina, em mui- tas situações, a tensão do ambiente. Desperdícios de materiais Muitas vezes a forma do trabalhador reagir contra a empresa é por meio do desperdício proposital de materiais. É uma forma velada de protesto contra as situações que vivencia no diadia. Queixas no serviço médico O setor médico das empresas muitas vezes atua como uma “terapia” organizacional. Assim, muitos funcionários “descarregam” lá as tensões vividas. Em muitos casos, essas tensões podem ocasio- nar doenças ocupacionais. Fonte: Luz (2003, p. 32-34) 6.5.4 Estratégias de avaliação de clima organizacional As organizações dispõem de alguns recursos para a avaliação do clima organizacional vigente. Estas estratégias são desenvolvidas com o intuito de se conhecer detalhadamente as características do clima vigente na organização. Oliveira (2005) indica as seguintes estratégias: • Contato direto dos gestores com os subordinados: por meio das interações cotidianas com seus subordinados, o gerente percebe (ao menos em parte) os problemas que podem estar 193 Manutenção de pessoas - Unidade 6 afetando o clima dos departamentos. Para que o gestor tenha essa sensibilidade, é preciso que ele tenha capacidade de enten- der “entrelinhas” e esteja aberto a compreender motivações dos funcionários. • Entrevista de desligamento: é uma estratégia amplamente uti- lizada pelas organizações. É válida, pois o entrevistado não tem mais a necessidade de “agradar” o ouvinte. É uma técnica limi- tada, pois só se aplica a funcionários que estiverem saindo vo- luntariamente da organização. É, também, uma técnica um tanto parcial, pois o ex-funcionário pode se aproveitar da situação para “pichar” seus ex-colegas. • Programa de sugestões: objetiva colher ideias e sugestões sobre os procedimentos da empresa. Pode ser um valioso instrumento de avaliação de clima quando a organização permite sugestões quanto a temáticas vinculadas ao clima (relações interpessoais, qualidade da supervisão, sensações referentes a mudanças organizacionais). • Sistema de atendimento a queixas e reclamações: consiste em a organização criar um sistema de atendimento de reclama- ções – e nomear alguém responsável por conferir a veracidade das informações coletadas. Essa pessoa deve ter livre trânsito na organização e deve também ter um grau de autonomia que lhe permita tomar algumas decisões relacionadas à solução dos pro- blemas apresentados. • Linha direta com o presidente: consiste em uma “ligação dire- ta” do funcionário com o presidente da empresa ou o diretor do departamento de RH. Assim, fica registrado ao funcionário que os líderes da organização se sensibilizam com o problema e estão envolvidos na solução dele. • Café da manhã com o presidente: permite ao presidente ter conhecimento de fatores que ficam camuflados em sua rotina pela falta de convívio com membros de escalões inferiores. Esses eventos são promovidos com o intuito inicial de se melhorar a qualidade da comunicação da organização, mas também podem servir como método de diagnóstico de clima. • Pesquisa de clima organizacional: de todas as técnicas de avalia- ção de clima anteriormente apresentadas, é a mais completa. É ela que permite à empresa a identificação de seus pontos fracos, reve- lando o grau de satisfação dos funcionários em um dado momento. 194 Gestão de recursos humanos 6.5.5 Pesquisa de clima organizacional Chiavenato (2008) observa que muitas organizações orgulhosa- mente declaram que “as pessoas são seu principal ativo”. Mas, na prática, “poucas empresas têm interesse em efetivamente ouvir as considerações de seus funcionários sobre supervisão, salários, integração entre setores da empresa, perspectivas de melhoria de processos desenvolvidos” (LA- COMBE, 2005). Luz (2003) indica que a organização deve considerar a pesquisa de clima organizacional como sendo uma importante es- tratégia para a identificação de oportunidades de melhoria contínua no ambiente de trabalho. Assim, conclui que a organização que tem funcionários dispostos a realmente fazer fazem melhor uso de todos os programas de treinamento e desenvolvimento disponibilizados pela organização, além de realizarem um uso consciente e ético dos recursos da empresa. Uma pesquisa de clima organizacional é geralmente realizada me- diante o uso de duas técnicas: questionários ou entrevistas. A aplicação de questionários é a técnica mais utilizada para pesqui- sas formais de clima. Existem alguns motivos que justificam a sua aplica- ção em massa – mas a principal delas é a possibilidade de sigilo por parte dos respondentes (OLIVEIRA, 2005): • Permite aplicação maciça, mesmo em áreas geográficas distantes; • Custo relativamente baixo; • Geralmente é o mais aceito pelos respondentes, pelo anonimato; • Permite o uso de questões abertas ou fechadas; • Não utiliza um número elevado de questões; • Permite a inclusão de perguntas cruzadas; • Questionário pode ser enviado aos respondentes; • Pode ser aplicado para todos os funcionários; • Permite a aplicação eletrônica das perguntas; • Não exige espaço físico (local). Em contrapartida, entrevistas também são bastante utilizadas em pesquisas de clima organizacional. A sua principal vantagem reside nas 195 Manutenção de pessoas - Unidade 6 considerações de pontos importantes que podem passar despercebidos em questionários compostos de perguntas fechadas. Oliveira (2005) lista as principais características da realização de entrevistas: • Quebra o anonimatoda pesquisa; • Método mais demorado do que o questionário; • Mais dispendioso que o questionário; • Exige pessoas tecnicamente habilitadas para conduzi-las; • Obtém respostas verbais. São pesquisadas algumas variáveis-chave em uma pesquisa de cli- ma. Luz (2003, p. 42 – 46) lista algumas variáveis-chave para a compre- ensão das características do clima da organização: Quadro : Variáveis a serem pesquisadas em uma pesquisa de clima organizacional Variáveis Características Trabalho realizado pelos funcionários Avalia a adaptação dos funcionários, o volume de trabalho, o horário, se é justa a distribuição dos trabalhos. Salário Analisa a percepção deles quanto à compatibilida- de dos salários da empresa com os praticados no mercado. Benefícios Avalia quanto ao atendimento das necessidades dos funcionários e à qualidade da prestação des- ses serviços. Integração entre os departamentos da empresa Avalia o grau de relacionamento. Comunicação Satisfação quanto aos canais de comunicação uti-lizados pela empresa. Supervisão (liderança) Estilo Gerência/Gestão Avalia a satisfação dos funcionários com os seus gestores, a qualidade da supervisão, a capacidade técnica, humana e administrativa, o grau de feed- back dado por eles. Estabilidade de emprego Grau de segurança que os funcionários sentem. Treinamento/ Desenvolvimento Avalia as oportunidades que os trabalhadores têm de se qualificar, de se atualizar. 196 Gestão de recursos humanos Possibilidades de progresso profissional Satisfação quanto às promoções e às possibilida- des de crescimento. Relacionamento interpessoal Qualidade das relações entre funcionários. Processo decisório Avalia a opinião do quanto a empresa é ágil, parti-cipativa, centralizada em suas decisões. Participação Grau de envolvimento com os assuntos relevantes na empresa. Segurança do trabalho Satisfação quanto às estratégias de prevenção. Objetivos organizacionais Transparência quanto aos objetivos da empresa. Orientação da empresa para os resultados Avalia o nível de orientação dos funcionários para a consecução de seus resultados. Qualidade e satisfação do cliente Compromisso da empresa em relação à qualidade dos produtos e à satisfação dos clientes. Reconhecimento Quanto a empresa adota de mecanismos de valori-zação e reconhecimento para com os funcionários. Valorização do funcionários: O quanto a empresa valoriza, respeita, dá oportu- nidades. Envolvimento/ Comprometimento: Avalia quanto os funcionários se sentem envol- vidos e comprometidos com os objetivos e os re- sultados da empresa, assim como o quanto essa adesão é voluntário ou compulsória Fatores Motivacionais Procura verificar quais os fatores do ambiente de trabalho são percebidos pelos funcionários como o de maior contribuição para a motivação deles Fatores Desmotivacionais Quais fatores do ambiente de trabalho são perce- bidos como de maior contribuição para a desmoti- vação deles Fonte: adaptado por Luz (2003, p. 42 – 46) Luz (2003) e Oliveira (1995) listam alguns cuidados que devem cer- car a elaboração de uma pesquisa de clima organizacional: a) O apoio da direção da empresa é fundamental. 197 Manutenção de pessoas - Unidade 6 b) As pesquisas de clima devem ser rotina na organização. Devem ser re- alizadas a cada semestre, anualmente ou, no máximo, a cada dois anos. Um espaço de tempo maior que dois anos faz com que os resultados da pesquisa anterior sejam muito distintos dos da pesquisa realizada (afinal, mais de dois anos é tempo suficiente para que existam inúme- ros outros fatores impactantes no clima e na cultura da empresa). c) Após a realização da pesquisa de clima, obrigatoriamente o plano de ação deve ser cumprido. Para verificar a eficácia de sua aplicação, pode-se fazer necessária a realização de uma outra pesquisa – desta vez, para avaliar a percepção dos funcionários quanto às soluções dos problemas encontrados. As pesquisas de clima organizacional podem ser realizadas por diversos agentes, entre eles: • responsáveis de cada departamento (avaliações setoriais); • setor de Recursos Humanos; • consultoria externa. Note-se que uma pesquisa de clima também pode ser realizada com o auxílio de consultoria especializada. Porém sua utilização pressupõe al- guns cuidados, como o suporte constante da equipe do RH da organização e os cuidados que devem ser tomados na apresentação de membros exter- nos aos públicos envolvidos. Finalmente, existe a função custo: consul- torias especializadas na medição de clima or- ganizacional costumam apresentar resultados relevantes – mas a um custo que pode não poder ser financiado pela organização. Uma pesquisa de clima possui onze etapas, descritas detalhadamente a seguir. Essas onze etapas são divididas aqui em três grandes fases, que correspondem ao completo de- senvolvimento da pesquisa: Para saber mais sobre pesquisa de clima organizacional, acesse o site http://www.administracaoegestao. com.br/pesquisa-de-clima-organi- zacional/ 198 Gestão de recursos humanos Execução Preparação Planejamento • Aplicação e coleta da pesquisa • Tabulação da pesquisa • Emissão de relatórios • Divulgação dos resultados da pesquisa • Definição do plano de ação • Definição das variáveis • Montagem e validação dos cadernos de pesquisa • Parametrização para tabulação de opções de resposta • Divulgação da realização da pesquisa • Obtenção da aprovação e do apoio da diretoria; • Planejamento da pesquisa 6.5.5.1 Etapa 1 – Planejamento Nesta etapa, deve-se buscar a conscientização da diretoria quanto à realização da pesquisa de clima. Assim, deve-se buscar o apoio da direção da empresa, bem como o compromisso da implementação de melhorias quanto aos principais tópicos apontados. Uma pesquisa de clima organizacional não é efetivamente imple- mentada sem o apoio incondicional da direção. Afinal, os resultados do diagnóstico do clima indicarão uma situação a ser melhorada. E essa me- lhoria só será realizada se a direção assim a determinar e a implementar. Pesquisas de clima que não possuem apoio não possuem ações im- plementadas. Se uma pesquisa organizacional for realizada e seus resulta- dos não levarem a mudanças perceptíveis por parte dos funcionários, estes ficarão descrentes quanto à validade do processo – e provavelmente não apresentarão contribuições tão significantes em uma próxima ocasião. Nesta etapa também existe o planejamento da pesquisa. Nesta etapa define-se: • o objetivo da pesquisa: o que se pretende medir. Por exemplo: satisfação de funcionários, impactos de mudanças, disseminação de valores culturais; • quem irá conduzir: o departamento de RH ou consultorias?; • que técnica será utilizada: questionários ou entrevistas? 199 Manutenção de pessoas - Unidade 6 • momento de aplicação da pesquisa: momentos de neutralidade (evitar períodos de emoções exaltadas); • preparação das chefias: preparar as chefias quanto à possibilida- de de coleta de informações negativas a seu respeito; • abrangência da pesquisa: toda a empresa será entrevistada? Al- guns setores? 6.5.5.2 Etapa 2 – Preparação Nesta etapa são definidas, enfim, as variáveis da pesquisa a serem estudadas. Estas variáveis são derivadas dos objetivos da pesquisa. Por isso, é de salutar importância que estes objetivos sejam definidos com o maior grau de precisão possível – caso contrário, variáveis secundárias serão pes- quisadas, e não as que realmente estão impactando no clima da organização. Luz (2003) recomenda que sejam pesquisadas de oito a doze variáveis. Nesta etapa existe a montagem dos questionários. Os questionários devem ter entre quarenta e oitenta perguntas. Assim, para cada variável o gestor deverá determinar um grupo de perguntas. O instrumento de coleta (seja questionário ou roteiro de entrevista) deve ser previamente testado em um grupo de funcionários, para que erros de composição e de elabora- ção de enunciado sejam sanados. Deve-se ter cuidado na hora de elaborar esses questionários.Não po- derão ser “gigantes”, senão o funcionário se cansa de responder ao questio- nário e passa a apontar respostas sem ler os enunciados das questões. Depois dessas fases, existe a parametrização do instrumento de pesquisa, ou seja, a definição de parâmetros que facilitam o cálculo das diferentes opções de resposta. Por exemplo: 5. O seu ambiente de trabalho é bom? ( ) sempre ( ) quase sempre ( ) raramente ( ) Não tenho opinião Opção de resposta Parâmetro Sempre Satisfeito Quase sempre Satisfeito Raramente Insatisfeito Não tenho opinião Trabalha-se só o percentual 200 Gestão de recursos humanos Nesta etapa ocorre também a divulgação da pesquisa antes de sua efetiva aplicação. É quando o aplicador da pesquisa deve divulgar junto aos funcionários os objetivos da pesquisa, deixando claro que são para a melhoria do clima da organização. Também devem ser evidenciados o apoio da direção e o sigilo garantido das informações. Nesta fase, dependendo da deterioração do clima da organização, podem surgir resistências passivas à aplicação do instrumento. Por isso, também é uma função do coordenador da pesquisa a dissipação de dúvi- das dos funcionários e a conscientização da importância do instrumento. A pesquisa deve ser amplamente divulgada pela organização em todos os seus setores. Devem ser esclarecidos pontos básicos da pesquisa, como o que se pretende medir, a duração da pesquisa e os objetivos esperados. 6.5.5.3 Etapa 3 – Execução Nesta etapa a pesquisa é efetivamente aplicada. Assim, os públicos- -alvo serão entrevistados e as pesquisas, tabuladas. É importante, neste momento, que as chefias não estejam próxi- mas dos funcionários quando estes forem elaborar suas respostas. Assim, minimiza-se a possibilidade de o entrevistado se sentir intimidado. A pes- quisa deve ser aplicada no próprio local de trabalho, para se minimizar a influência de terceiros. Após sua aplicação, a pesquisa deve ser depositada em locais pró- prios (preferencialmente, urnas dispostas em locais de pouca circulação). A pesquisa também pode ser realizada por meios eletrônicos. Após a pesquisa, cabe à pesquisa tabular os resultados e emitir os relatórios quanto às respostas obtidas pela pesquisa. A tabulação de resultados pode seguir diversos critérios (LUZ 2003, p. 59 – 60): • por pergunta; • por variável; • por departamento; • por região; • por tempo de serviço. Este relatório é um guia que orientará o gestor quanto às variáveis mais críticas observadas pelos funcionários. A variáveis mais críticas são 201 Manutenção de pessoas - Unidade 6 aquelas em que o funcionário demonstra ter maior insatisfação – por isso, ações devem ser tomadas enfocando-se especificamente estes fatores. Depois da elaboração do relatório, a empresa deve necessariamente divulgar os resultados da pesquisa – sejam eles positivos ou não. De toda maneira: antes da divulgação dos resultados, os coordenadores da pesqui- sa devem se reunir previamente com os gerentes de áreas identificadas como “problemáticas” para expor previamente os problemas identifica- dos. Devem apontar também os resultados específicos de cada gerência. É aconselhável que a coordenação da pesquisa consulte a direção da empresa quanto ao que deve – e o que não deve – ser publicado. Afinal, a divulgação de critérios insolúveis gerará no funcionário a sensação de que a empresa “não quer resolver seus problemas” – e, assim, a credibilidade do método será questionada. E o que seria um problema “insolúvel”? Seria, por exemplo, ser identificado que os funcionários de uma montadora de carros se mostrem insatisfeitos com a especialização exces- siva do trabalho. Porém, sem essa especialização, a empresa não consegue ter uma produção eficiente. Esse é um exemplo de problema insolúvel. Afinal, a organização pode fazer muito pouco para minimizar a especiali- zação desta natureza de serviço. Nesta fase, depois de ser identificadas as variáveis mais críticas, a organização irá desenvolver soluções. Esta é a fase mais importante da pesquisa de clima. Estas soluções preferencialmente não devem vir “pron- tas” da alta direção. São soluções que devem ser elaboradas junto aos fun- cionários. Por isso, é recomendável que o RH componha uma equipe de solução de problemas composta por representantes de diferentes áreas funcio- nais (LUZ, 2003). Uma pesquisa de clima leva tempo para ser elaborada e finalizada. Por isso, é importante que a organização frequente- mente comunique a seus funcionários sobre o andamento da pesquisa, para que o esforço de sua realização não se perca pela falta de co- municação de seu andamento para os funcionários. Acesse o site e encontre vários artigos sobre clima organizacional: http://www.rhportal.com.br/artigos/ wmview.php?idc_cad=cjh8hedkz 202 Gestão de recursos humanos Atividades 01. Qual a importância do processo de administração de pessoal em uma empresa? 02. Aponte as contribuições do processo de higiene e segurança do traba- lho para a gestão de pessoas. 03. Desenhe um programa de qualidade de vida no trabalho para a em- presa onde você trabalha. Caso você não trabalhe, use como exemplo a empresa em que um de seus familiares trabalha (pai, mãe, irmãos). 04. Qual a importância do gerenciamento do clima organizacional duran- te o processo de mudança organizacional na empresa? 203 Manutenção de pessoas - Unidade 6 Reflexão Oliveira (1995) e Luz (2003) descrevem que, muitas vezes, somos inclinados a acreditar que o problema está em falhas de treinamento ou de seleção de funcionários. Porém, de nada adianta a empresa culpar o funcionário e esquecer-se do contexto onde ele está inserido. Em outras palavras: “é preciso ir mais fundo para compreender o que está por trás da qualidade dos atendimentos.” (LUZ 2003, p. 29). • Para que o funcionário seja eficiente, Oliveira (1995) observa três necessidades principais (LUZ, 2003): • O funcionário deve saber fazer: uma questão de treinamentos adequados para o exercício do cargo. Se o treinamento é inefi- ciente, o funcionário não conseguirá exercer corretamente suas funções – ainda que queira fazer. Neste sentido, cabe ao RH pro- piciar meios de o funcionário aprender as funções de seu cargo. • O funcionário deve poder fazer: o funcionário deve ter à sua disposição os recursos necessários à execução de suas tarefas. Assim, cabe à empresa reservar ao funcionário equipamentos e meios para o exercício das funções do cargo do empregado. Além disso, o funcionário deve ter permissão para fazer uso de tais recursos durante o exercício de suas tarefas. • O funcionário deve querer fazer: além do treinamento e da dis- ponibilização de recursos, o funcionário deve sentir vontade de realizar suas tarefas. O “querer fazer” está vinculado à percepção que o funcionário tem de sua função, de seus colegas e da orga- nização como um todo. Funcionários insatisfeitos e pertencentes a uma organização com clima “ruim” tendem a não se sentir pro- pensos a realizar mais do que o estritamente necessário. A qualidade de vida no trabalho (QVT) é uma ferramenta de extre- ma importância para o desenvolvimento de políticas e práticas adequadas de gestão de pessoas, que primam pela satisfação e pelo bem-estar dos colaboradores no trabalho. O clima organizacional mede a satisfação do colaborador em rela- ção ao ambiente de trabalho, sendo uma ferramenta de extrema importân- cia para eliminar fontes de insatisfação no trabalho e focos de resistência à mudança. Ao permitir a compreensão dos aspectos de satisfação no 204 Gestão de recursos humanos trabalho, o clima organizacional torna-se uma questão crítica para ser ge- renciada pela organização. O clima organizacional é uma medida afetiva em relação ao am- biente de trabalho (ROBBINS, 2002). Um índice alto de insatisfação em relação ao ambiente de trabalho afeta a qualidade dos produtos e a produtividade da empresa, enquanto que um alto índice de satisfação aumenta a probabilidade de os funcioná- rioscomprometerem-se com o alcance dos objetivos e das metas da orga- nização (CURY, 2000). Dentro desse contexto, é importante destacar que o ambiente e as condições de trabalho devem ser estruturados para o desenvolvimento do pleno potencial do colaborador e para motivá-lo a aumentar a produ- tividade, alcançar as metas da organização e apresentar um desempenho superior no trabalho (DESSLER, 2003). Cabe também comentar que o clima da organização deve ser avaliado periodicamente por meio de pesquisa junto aos colaboradores (GIL, 2001). A pesquisa de clima não pode gerar falsas expectativas nos colabo- radores, por isso é fundamental que sejam determinados os responsáveis e os prazos para os planos de ação, assegurando a realização das mudanças apontadas como necessárias na organização (JOHAN, 2004). A pesquisa de clima organizacional deve ser elaborada por equipe multifuncional, que em primeiro lugar deve conscientizar e sensibilizar os colaboradores a responderem com seriedade ao questionário, para posteriormente aplicá-lo. A coleta e a análise dos dados devem receber tratamento estatístico adequado e ser realizadas por pessoas treinadas. Os resultados devem ser divulgados em tempo hábil e discutidos com os co- laboradores de forma construtiva (ATTADIA, 2007). Leituras Recomendadas Livro: Mudança Organizacional: G Soluções Genéricas para Projetos. Renilda Ouro. Editora Qualitymark, 2005. No final da década de 1960 assistia-se em preto e branco à mais recente série da TV: Perdidos no Espaço. Para os que quisessem assistir a cores, a opção era adquirir uma tela plástica adaptável ao tubo da te- levisão, e ela poderia ser vista em tons de vermelho, azul e amarelo, em largas listras que tornavam o espetáculo, em camadas, colorido. Dentro 205 Manutenção de pessoas - Unidade 6 E A D -1 4 -A D 5 .2 – P ro ib id a a re p ro d u çã o – © U n iS E B I n te ra ti vo das organizações, revoluções aconteciam; era preciso reinventá-las. Os super-heróis dos quadrinhos e da TV entravam em cena e, dentre Batman e Super-Homem, as opções já poderiam ser feitas. Apesar de toda a evolução ocorrida de lá para cá, em muitos aspec- tos estamos ainda no tempo das organizações que adquirem tela plástica, para que a vida lá dentro seja vista mais colorida; não se chegou à era das cores próprias. Nem líderes que substituam suas gravatas ou jeans de fá- brica por capas de látex conseguirão fazer as verdadeiras transformações se não adotarem novos conceitos, adequados a um mundo que se mostra carente de mudanças sustentáveis e significativas. Referências ATTADIA, L. C. L. Diagnóstico do nível de capacitação gerencial das micro e pequenas empresas: um estudo multicasos no setor mo- veleiro de São José do Rio Preto. Tese (Doutorado em Administração). Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA). Uni- versidade de São Paulo (USP), São Paulo, 2007, 277 p. CHIAVENATO, I. Recursos Humanos: o capital humano nas organi- zações. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2008. CURY, A. Organização e métodos: uma visão holística. São Paulo: Atlas, 2000. DECENZO, D.A.; ROBBINS, S. P. Administração de Recursos Hu- manos. 6. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2001. DESSLER, G. Administração de Recursos Humanos. 2. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2003. FERNANDES, Eda C. Qualidade de vida no trabalho: como medir para melhorar. 5. ed. Salvador: Casa da qualidade, 1996. FLEURY, M.T. et al. Cultura e poder nas organizações. São Paulo: Atlas, 1996. 206 Gestão de recursos humanos FRANÇA, A. C. Limongi. Qualidade de vida no trabalho: conceitos, abordagens, inovações e desafios nas empresas brasileiras. Revista Brasileira de Medicina Psicossomática. Rio de Janeiro, v.1, n. 2, p.79-83, abr./ mai./jun. 1997. GIL, A. Gestão de Pessoas: enfoque nos papéis profissionais. São Paulo: Atlas, 2001. HACKMAN, J. R.; OLDHAM, G. R. Development of the job diag- nostic survey. Journal of Applied Psychology, v. 60, n. 2, p. 159-170, 1975. JOHANN, S. L. Gestão da cultura corporativa: como as organiza- ções de alto desempenho gerenciam sua cultura organizacional. São Paulo: Saraiva, 2004. LACOMBE, F. Recursos Humanos: princípios e tendências. São Pau- lo: Saraiva, 2005. LUZ, R. Gestão do clima organizacional. São Paulo: Qualitymark, 2003. MAXIMIANO, A. Teoria geral da administração: da revolução ur- bana à revolução digital. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2006. OLIVEIRA, M.A. Pesquisas de clima interno nas empresas: o caso dos “desconfiômetros” avariados. São Paulo: Nobel, 1995. RIBEIRO, A. L. de. Gestão de pessoas. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. ROBBINS, S. Comportamento organizacional. São Paulo: Prentice Hall, 2002. ROBBINS, S.P.. Comportamento organizacional. São Paulo: Pear- son Prentice Hall, 2005. 207 Manutenção de pessoas - Unidade 6 ROCHA, Simone Karla da. (1996). Qualidade de vida no trabalho: estudo de uma empresa do setor têxtil de Santa Catarina. Dissertação de Mestrado. Florianópolis, Universidade Federal de Santa Catarina, 1996. RODRIGUES, M. V. C. Qualidade de vida no trabalho: evolução e análise no nível gerencial. Petrópolis: Vozes, 1999. SANT’ANNA, Anderson de Souza; MORAES, Lúcio Flávio Re- nault de; KILIMNIK, Zélia Miranda. Competências individuais, modernidade organizacional e satisfação no trabalho: um estudo de diagnóstico comparativo. RAE electron., São Paulo, v. 4, n. 1, jun. 2005 . Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S1676-56482005000100001&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 07 set. 2010. doi: 10.1590/S1676-56482005000100001. SPECTOR, Paul E. Psicologia nas organizações. Editora Saraiva, 2003. TACHIBANA, I. Instrumentação em higiene ocupacional em uma pedreira na região metropolitana de São Paulo. Dissertação (mestra- do). Escola Politécnica. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2009. Na Próxima Unidade Na próxima unidade vamos aprender sobre o processo de avaliação de desempenho. A avaliação de desempenho surge como uma ferramenta gerencial que permite mensurar os resultados obtidos pelo colaborador em determi- nado cargo/posição, durante um período de tempo específico. Vamos conhecer os conceitos que envolvem o tema? 208 Gestão de recursos humanos Minhas anotações: U ni da de 7 Avaliação de desempenhoAs organizações tendem a definir o comportamento e o perfil desejado de seus empregados no desenvolvimento de suas tarefas e atribuições, formalizando um manual de descri- ção de cargos. A partir dessas informações, a empresa tem condições de avaliar o desempenho dos seus colabo- radores (GIL, 2001). Segundo Robbins (2005), a avaliação individual do de- sempenho é necessária para que as pessoas percebam que os esforços que estão realizando resultarão numa avaliação favo- rável e que consequentemente elas serão recompensadas finan- ceiramente por isso. Bergamini (1988) afirma que a avaliação de desempenho é utilizada em diversos setores da empresa. No recrutamento e seleção, é usada para validar o processo utilizado; no treinamento e desenvolvimento, é importante para o levantamento de necessidades; é usada, ainda, na movimentação de pessoal, para determinar promoções ou demissões; e também na área de Remuneração através da montagem de sistemas de recompensa salarial. Existem vários métodos de avaliação que apresentam vantagens e des- vantagens, ficando a critério da empresa escolher o mais adequado em função de suas características. O ideal é poder adaptar a avaliação à realidade da empresa, ao seu momento histórico, à sua estratégia e aos resultados esperados. Mesmo sendo muito importante para as empresas, a avaliação de de- sempenho é um instrumento controvertido e polêmico. Vários autores concordam que poderá tornar-se muito subjetiva se não for bem estruturada, tornando o processo vago e, com isso, ineficaz. Dentre as principais contribuições da avaliação de desempe- nho estão a realização de melhor planejamento de gestão de pessoas para a empresa ede desenvolvimento profis- sional para o avaliado, que consegue reconhecer seus pontos fracos e fortes. Dentro desse contexto, a avaliação de desempe- nho surge como uma ferramenta gerencial que 210 Gestão de recursos humanos Avaliação de desempenho - Unidade 7 permite mensurar os resultados obtidos pelo colaborador em determinado cargo/posição, durante um período de tempo específico (BOHLANDER; SNELL; SHERMAN, 2003). A prática da avaliação de desempenho não é uma novidade em termos de políticas de gestão de pessoas (MILKOVICH; BOUDREAU, 2000). Qualquer organização que tenha empregados executa algum tipo de ava- liação de desempenho pelo menos informalmente (DESSLER, 2003). Entretanto, atualmente, verifica-se que tem aumentado o número de em- presas com sistemas formais de avaliação do desempenho, preocupadas em acompanhar o desenvolvimento dos colaboradores e analisar os resul- tados dos investimentos realizados pela organização em torno da trajetória profissional de cada empregado (MARRAS, 2000). Vamos conhecer mais sobre este assunto, com maior profundidade? Objetivos da sua aprendizagem Nesta unidade, temos como objetivos: • compreender o conceito e a importância do desempenho para a manu- tenção das competências organizacionais; • entender as etapas do processo de avaliação de desempenho; • compreender como os critérios e os padrões de avaliação de desempe- nho são definidos; • conhecer os diversos métodos de avaliação de desempenho; e • reconhecer a importância do feedback da avaliação de desempenho. Você se lembra? Na unidade anterior, você estudou o processo de manutenção de pessoas. Nesta unidade você terá oportunidade de aprender sobre o processo de avaliação de desempenho. 211 Avaliação de desempenho - Unidade 7 Pode-se conceitu- ar desempenho como o ato ou efeito de o colaborador cumprir ou executar, da forma esperada pela organização, as metas, as atividades e as atribuições previamente traçadas pela organi- zação (MARRAS, 2000). Avaliação de desempenho - Unidade 7 7.1 O conceito de desempenho e a importância da avaliação O desempenho é diretamente proporcional ao desejo intrínseco do co- laborador “querer fazer” e à condição cognitiva de “saber fazer” (RIBEIRO, 2006). Isso implica que nem sempre o colabo- rador corresponde às expectativas da empresa no exercício de suas atividades, verificando-se uma diferença entre o desempe- nho real e o desempenho esperado (GIL, 2001). Essa definição mais tradicional de desempenho é centralizada no paradig- ma da gestão de pessoas, tendo como ponto referência o cargo ocupado pelo colabora- dor na organização (BOHLANDER; SNELL; SHERMAN, 2003). Dentro deste paradigma, há duas visões sobre o desempenho: en- foque técnico/operacional e desempenho centrado no desenvolvimento/ aprendizagem (MARRAS, 2000). Segundo o autor, a avaliação de desempenho pelo enfoque técni- co/operacional é um processo que utiliza instrumentos cujos resultados devem orientar as ações das pessoas na empresa. Apresenta os seguintes objetivos: • avaliar o grau de contribuição de cada funcionário para a organi- zação, identificando os funcionários que se encontram acima ou abaixo da média de desempenho requerida pelo cargo; • identificar os colaboradores em condições de ser promovidos, bem como aqueles colaboradores que apresentam desempenhos insatisfatórios e necessitam de plano de ação para eliminar os pontos fracos. A avaliação de desempenho com enfoque técnico/operacional deve proporcionar um feedback objetivo aos empregados sobre como eles estão se saindo no cargo/posição ocupada na empresa (GIL, 2001). 212 Gestão de recursos humanos yu ri _a rC ur s / d re am st im e. Co m Já a avaliação do desempenho centrada no desenvolvimento/ aprendizagem é um processo que tem como foco melhorar a percepção do colaborador de si mesmo e seu comprometimento com a organiza- ção, através do alinhamento entre as suas necessidades e as da empresa; constituindo-se em um recurso motivacional. Este tipo de avaliação tem as seguintes finalidades: • criar um ambiente favorável ao desenvolvimento e à aprendiza- gem, em que haja confiança e integração entre os colaboradores e a liderança da organização; • apresentar os resultados obtidos na avaliação, de forma que a pessoa tenha uma real percepção de si e do seu desempenho, le- vando o colaborador a compreender a importância do seu papel para o alcance dos objetivos e das metas da organização; • criar para cada colaborador um plano de desenvolvimento, bus- cando aproveitar seus pontos fortes, fomentar as potencialidades identificadas e buscar alternativas de aprendizagem para a supe- ração das dificuldades no trabalho; • responsabilizar a gerência a acompanhar construtivamente a exe- cução do plano de desenvolvimento pelo colaborador, apurando os resultados alcançados. A avaliação de desempenho para o desenvolvimento/aprendiza- gem é essencial para a criação de oportunidades de crescimento do colaborador, na medida em que estimula em cada pessoa o autoconhe- cimento e a formação de uma visão crítica acerca de seu desempenho profissional (MARRAS, 2000). 213 Avaliação de desempenho - Unidade 7 O quadro a seguir sintetiza as diferenças entre os tipos de avaliação de desempenho: Quadro: Avaliação de desempenho Avaliação de desempenho pelo enfo- que técnico-operacional Avaliação de desempenho pelo enfo- que do desenvolvimento / aprendizagem individual Ferramenta de gestão de RH; Base para decisões de remuneração, promoções, transferências e demissões; Documentação das ações da gerência de RH; Aprimoramento do desempenho, influen- ciando o comportamento dos funcionários. Fonte de feedback de pontos fortes e fra- cos dos funcionários; Estabelecimento de metas pessoais, aprimoramento profissional; Possibilidade de novas oportunidades e crescimento. Fonte: Adaptado de Bohlander (2003) No atual contexto da gestão de pessoas, há uma mudança em rela- ção à avaliação de desempenho: o ponto de referência deixa de ser o cargo ocupado e passa a ser o conjunto de competências do colaborador (HA- NASHIRO et al, 2007). O desempenho das pessoas passa a ser medido pelo valor efetivo de sua contribuição ao patrimônio de competências da organização, que permitem a ela manter suas vantagens competitivas ao longo do tempo (DUTRA, 2004). O conceito de agregação de valor passa a ser entendido como aquilo que o colaborador “en- trega” para a organização em termos de conhecimen- tos, habilidades e atitudes (DUTRA, 2004). Um desempenho superior significa que o colaborador é capaz de uti- lizar seu repertório individual de conhecimentos, habilidades e atitudes para aprimorar e transformar a organização (FLEURY; FLEURY, 2004) No contexto da gestão de pessoas por com- petências, o desempenho pode ser conceituado como o conjunto de entre- gas e resultados de determinada pessoa para a empresa ou o negócio (DUTRA, 2004). 214 Gestão de recursos humanos Há relação natural entre o intento estra- tégico da organização, suas competências organizacionais e as competências das pes- soas, sendo que a consciência dessa relação permite melhor sincronismo entre esses as- pectos (DUTRA, 2004). Cabe ressaltar que a avaliação de de- sempenho contribui, de forma efetiva, com ou- tros processos da gestão de pessoas (GIL, 2001): • obter subsídios para redefinir o perfil requerido dos ocupantes dos cargos; • avaliar em que medida os programas de treinamento têm contri- buído para a melhoria do desempenho dos empregados; • auxiliar na estruturação do sistema de remuneração e promoção. ny ul / dr ea m st im e. Co m Marras (2002) destaca que, entre as principais vantagens da avalia- ção de desempenho, estão: • identificar aqueles funcionários que necessitam aperfeiçoamento; • definir o grau de contribuição individual ou grupal nos resultados da empresa; • descobrir novos talentos na organização; • facilitar o autodesenvolvimento dos empregados; • fornecerfeedback aos funcionários; • subsidiar programas de mérito, promoções e transferências. Vamos aprofundar nossos conhecimentos sobre o processo de ava- liação de desempenho? Você perce- beu que existem dois modelos de desempenho que podem ser adotados pelas organizações? 215 Avaliação de desempenho - Unidade 7 7.2 O processo de avaliação de desempenho O processo de avaliação de desempenho inclui os seguintes passos (DESSLER, 2003): • realizar uma análise do trabalho para determinar as característi- cas requeridas para uma performance de sucesso; • definir de forma clara os critérios e os padrões de desempenho a serem utilizados na avaliação; • estabelecer as dimensões individuais para avaliar o desempenho; • escolher o método de avaliação de desempenho a ser utilizado; • incorporar estas características em um instrumento formal de avaliação de desempenho; • divulgar e explicar a todos os colaboradores o instrumento de avaliação de desempenho, destacando suas vantagens; • treinar os avaliadores para usar corretamente o instrumento de avaliação de desempenho criado; • estabelecer um período anual para a realização da avaliação de desempenho de todos os colaboradores na organização; • conduzir a avaliação de desempenho de maneira idônea; • instituir mecanismos formais de revisão da avaliação de desem- penho obtida pelo colaborador; • prover melhorias incrementais no instrumento de avaliação de desempenho criado. Um sistema de avaliação de desempenho tecnicamente ela- borado evita que a avaliação de desempenho seja feita de forma superficial e unilateral, garantindo maior legitimidade ao processo (GIL, 2001). 7.3 Critérios e padrões de avaliação de desempenho Dentre os passos descritos para a composição de um sistema de ava- liação de desempenho, a definição de critérios e padrões de desempenho merece especial atenção, pois a partir deles o desempenho torna-se um aspecto mensurável. 216 Gestão de recursos humanos Para que seja conduzida uma avaliação de desempenho, a empresa deve definir quais critérios serão considerados. As três categorias de crité- rios mais utilizados são: • Resultados individuais da tarefa: fatores ligados aos objetivos e às metas de trabalho predefinidas pela organização, que devem ser alcançadas em determinado espaço de tempo pelo empre- gado. Referem-se à avaliação dos resultados finais das tarefas desempenhadas pelos funcionários, como volume total de produ- ção, custo unitário de produção para um gerente de fábrica, ou, no caso de vendedores, volume de vendas, aumento de receita de vendas, conquista de novos clientes. • Comportamentos: é aquele em a organização mensura os va- lores e as atitudes do empregado, relacionando-os aos padrões predefinidos pela empresa para que o colaborador exerça suas funções e atribuições relacionadas ao cargo em que ocupa na organização. São objetivos avaliados quando os resultados espe- cíficos são de difícil identificação. Servem para esclarecer contri- buições individuais, como estilos de liderança, rapidez, comuni- cação. No caso de vendedores, poderia ser avaliado o número de contatos feitos em um dia, por exemplo. Esses comportamentos nem sempre estão ligados à produtividade, mas também a fatores mais subjetivos, como cidadania e disponibilidade em ajudar os outros, mas sempre relacionados à eficácia organizacional. • Traços individuais: são critérios considerados mais fracos do que os demais, pois estão mais distantes do desempenho real. Relacio- nam-se a ter boas atitudes, ser confiável e outros traços que de algu- ma forma são avaliados pelas empresas, de maneira mais subjetiva. Outro critério que pode ser levado em conta é o conhecimento, que pode ser definido como a área em que a organização deseja conferir o nível da bagagem cognitiva do empregado, avaliando por exemplo a esco- laridade, o aproveitamento dos colaboradores em treinamentos realizados (MARRAS, 2000). Tomando como base o paradigma da gestão de pessoas por compe- tências, são sugeridas três dimensões para a elaboração de um sistema de avaliação de desempenho: desenvolvimento, esforço e comportamento (DUTRA, 2004). 217 Avaliação de desempenho - Unidade 7 Cada uma destas dimensões está caracterizada no quadro abaixo. Quadro: Dimensões da avaliação de desempenho Aspecto Descrição Desenvolvimento • O nível de desenvolvimento de uma pessoa é a sua capaci- dade de lidar com situações cada vez mais complexas. • A forma de medir o desenvolvimento é através de uma esca- la de complexidade. • A avaliação deve ser efetuada pela própria pessoa e por sua chefia imediata. Esforço • O esforço de uma pessoa difere do seu desenvolvimento em função da qualidade de sua agregação para a empresa. • O esforço é uma contingência; ninguém pode garantir que uma pessoa esforçada hoje continuará a sê-lo amanhã. • O esforço está ligado à motivação da pessoa. Comportamento • O comportamento de um indivíduo afetará o ambiente orga- nizacional e o desenvolvimento e esforço de outras pessoas. • A avaliação do comportamento é extremamente subjetiva e toma como referência um padrão de conduta definido pela empresa ou conjunto de pessoas. • Usar o sistema de avaliação 360º para minimizar a subjetivi- dade do processo. Fonte: Adaptada de DUTRA (2004) Na prática, as empresas encontram grande dificuldade de de- finir operacionalmente os critérios de desempenho para compor o sistema de avaliação de desempenho. Além da dificuldade em criar os critérios de desempenho, as em- presas apresentam dúvidas na hora de definir os padrões de desempenho, cometendo alguns erros clássicos (DESSLER, 2003): • falta de padrões para os critérios de desempenho definidos; • criação de padrões de desempenho subjetivos ou irrelevantes; • determinação de padrões de desempenho irrealistas (muito ele- vados), que acabam desmotivando os colaboradores a irem em busca de seu alcance. 218 Gestão de recursos humanos Os padrões servem para que os gerentes possam comunicar aos funcioná- rios de maneira precisa os critérios de avaliação qualitativa e quantitativa de sua produção. É importante lembrar que esses cri- térios devem estar redigidos de maneira clara e devem estar expressos de forma a serem mensuráveis e quantificados. Assim, um passo importante na Avaliação de Desempenho é determi- nar quais padrões serão avaliados. Eles devem ser claros e objetivos e estar baseados nos requisitos descritos na análise de cargos. As pessoas precisam entender como estão sendo avaliadas e o que está sendo considerado. Todos os padrões de- vem estar documentados para que se assegure a con- fiabilidade do processo. Além disso, os funcioná- rios podem receber cópias dos critérios avaliados e os supervisores devem estar treinados para avaliar, de ma- neira justa e precisa, os padrões determinados. Para que se estabeleçam padrões confiá- veis, devemos considerar, segundo Bohlander (2003): • Relevância estratégica: diz respeito à extensão em que os pa- drões se relacionam com os objetivos estratégicos da organização; • Deficiência de critério: refere-se a conseguir captar todas as responsabilidades dos funcionários, ou seja, não ter como foco somente um critério para que as demais dimensões do desempe- nho não fiquem prejudicadas; • Contaminação de critério: os critérios podem estar contami- nados quando fatores que fogem ao controle do funcionário influenciam seu desempenho. Exemplo: funcionários da área de produção que trabalham com máquinas novas serem comparados com aqueles que trabalham com maquinário mais antigo. • Confiabilidade: essa questão é muito importante, pois determina a extensão em que os funcionários tendem a manter certo nível de desempenho ao longo do tempo (estabilidade). 219 Avaliação de desempenho - Unidade 7 Há duas formas básicas de medir os critérios de desempenho (PAS- CHOAL, 2001): • quantitativa: o critério pode ser explicitado por fator numérico, como, por exemplo, o número de peças fabricadas ou vendidas, o número de clientescontatados, o número de re-trabalhos realizados; • qualitativa: quando o parâmetro não pode ser determinado em termos numéricos, mas, sim, por propriedades ou valores que, uma vez alcançados, definem o nível de desempenho. Por exem- plo, pode-se utilizar a escala: fraco, regular, bom, excelente para avaliar o critério capacidade de relacionamento interpessoal. Além de definir o que será avaliado e ter claros os critérios dessa avaliação, outra decisão importante é determinar quem serão os avaliado- res. Em geral, as chefias imediatas têm como função avaliar seus subordi- nados. No entanto, hoje em dia, as empresas já consideram que essa ava- liação pode conter “vieses” como o tempo de convivência, a experiência da chefia, a disponibilidade, entre outras. O ideal é que se possa ter vários avaliadores para um entendimento mais amplo do desempenho, e assim maior confiabilidade de resultados. Além disso, o critério de anonimato das respostas deve ser assegurado aos avaliadores. Vamos entender como se comporta cada um dos potenciais avalia- dores de desempenho: • Superior imediato: representa a abordagem tradicional de avaliação e ainda é bastante utilizada pelas empresas. Muitas vezes, contudo, os chefes não se sentem muito à vontade para decidir sobre a carreira de seus subordinados. Existe, ainda, a barreira da distância, já que muitos chefes não têm contato dire- to com seus subordinados. • Colegas ou pares: em geral são as pessoas que fazem a avaliação mais correta, por estarem perto do funcionário avaliado, poden- do fornecer dimensões diferentes de avaliação. As dificuldades nesse tipo de avaliação estão na influência que fatores como ami- zade ou animosidade, disputa de cargos, futuras retaliações, uso de estereótipos podem gerar. O que se usa fazer é compilar em único formulário as avaliações de vários colegas, para assegurar informações mais precisas. • Subordinados imediatos: quando um chefe é avaliado, pode-se buscar a opinião de seus subordinados. Essas informações, por 220 Gestão de recursos humanos virem de pessoas que estão em contato direto com o avaliado, são mais precisas e detalhadas. As dimensões de desempenho consideradas mais adequadas para esse tipo de avaliado são: li- derança, delegação de autoridade, comunicação, coordenação de esforços de equipe e interesse nos subordinados. A desvantagem de buscar a avaliação de subordinados é a influência de fatores como a retaliação ou a amizade, mas para evitar isso assegura-se o anonimato nas respostas. Podemos considerar, ainda, a autoavaliação, em que a pessoa tem a oportunidade de refletir sobre seus pontos fortes e fracos, suas potencialidades, suas barreiras e suas vantagens. Costu- ma ser bem recebida pelos funcionários, mas pode gerar avaliações superestimadas. Por isso, geralmente o funcionário preenche um for- mulário e depois discute os pontos-chave com seu superior, para che- gar a uma melhor conclusão sobre sua avaliação. Esse tipo de ava- liação é bastante usado para estabelecimento conjunto de metas e também de forma coordenada com outros tipos de avaliação. Hoje em dia, as empresas podem buscar também as avaliações de equipes de trabalho a respeito de um funcionário e também a opinião de clientes externos. 7.4 Métodos de avaliação de desempenho Na literatura são encontrados vários métodos de avaliação de desempenho. A seguir são descritos os métodos mais conhecidos e uti- lizados pelas organizações, bem como são destacadas suas vantagens e desvantagens. 7.4.1 Relatório Os relatórios constituem os procedimentos mais simples de avalia- ção de desempenho, constituindo-se num parecer do superior em relação ao desempenho do subordinado (GIL, 2001). 221 Avaliação de desempenho - Unidade 7 Quadro: Vantagens e desvantagens do relatório Vantagens Desvantagens • Rapidez na apuração. • Favorecem a livre expressão do ava- liador. • Deixam documentada a opinião emitida. • Não são claros e padronizados os crité- rios de avaliação utilizados. • Favorecem o subjetivismo, deixando dúvidas quanto ao significado dos termos empregados. • Dificultam a tabulação posterior dos da- dos obtidos. Fonte: Elaborada pela autora com base em MARRAS (2000); GIL (2001) Para conferir certa padronização às observações e dificultar o sub- jetivismo, pode-se pedir aos superiores para que o relatório seja elabo- rado a partir de uma lista de observação dirigida, na qual é estabelecida previamente uma série de itens considerados relevantes na avaliação do desempenho (GIL, 2001). Os itens devem ser definidos numa linguagem acessível aos avaliadores (MARRAS, 2000). 7.4.2 Escala gráfica O método da escala gráfica consiste num formulário de dupla entra- da, no qual as linhas representam os fatores que estão sendo avaliados e as colunas, os graus de avaliação (GIL, 2000). Os fatores correspondem às características que se deseja avaliar em cada empregado. Cada fator é definido de maneira clara, sintética e objeti- va (GIL, 2000). Esses fatores podem mensurar tanto a quantidade quanto a qualidade do trabalho, conhecimentos, cooperação, assiduidade, iniciati- va, criatividade do colaborador (MARRAS, 2000). Os graus de variação, por sua vez, indicam o nível de desempenho do empregado em relação a cada um dos fatores (GIL, 2001). Cada grau dessa escala tem um valor em pontos, que vai de um patamar mínimo a um nível máximo, permitindo ao avaliador escolher o grau que melhor representa o desempenho do avaliado (MARRAS, 2000). A soma dos pontos atribuídos em cada um dos fatores resulta no desempenho total do avaliado, que, ao ser expresso em pontos, pode ser 222 Gestão de recursos humanos comparado a um padrão esperado à média do grupo analisado (DESS- LER, 2003). Esse método é o mais utilizado nas empresas brasileiras, em função de sua simplicidade e pelo fato de proporcionar resultados mais confiáveis que os obtidos por meio de relatórios, na medida em que é possível esclarecer o significado de cada categoria avaliada (GIL, 2000). Além disso, não exige treinamento intenso dos avalia- dores (PASCHOAL, 2001). Quadro: Vantagens e desvantagens da escala gráfica Vantagens Desvantagens • Desenvolvimento do método é barato. • Fatores definidos de forma clara e ob- jetiva. • Fácil de administrar. • Pode ser aplicado a todos os empre- gados. • Superficial para avaliações mais pro- fundas. • Muito padronizado para esclarecer dife- renças de desempenho entre colabora- dores que executam o mesmo cargo. Fonte: Elaborada pela autora com base em MARRAS (2000); GIL (2001) 7.4.3 Escolha forçada O método da escolha forçada consiste em avaliar o desempenho dos indivíduos mediante a escolha de frases que descrevem seu desempenho individual. O avaliador recebe formulários organizados em blocos de duas ou quatro frases. Em cada bloco, ele deverá forçosamente escolher uma frase que melhor se aplica ao desempenho do empregado avaliado (GIL, 2001). A Figura abaixo mostra o exemplo de um formulário concebido de acordo com esse método. Registre duas respostas em cada bloco, colocando um x na afirmativa que lhe parecer mais adequada. Tem condições de progredir. Respeita os colegas. Conhece as normas da empresa. Trabalha mesmo na ausência do chefe. 223 Avaliação de desempenho - Unidade 7 Adapta-se bem a situações novas. É comunicativo. Cumpre o horário de trabalho. É confiável. Figura: Método Escolha Forçada – Fonte Adaptada: MARRAS (2000). A constituição dos blocos pode ser feita de maneiras diversas. A mais comum consiste em apresentar, em cada um, duas frases positivas e duas negativas (MARRAS, 2000). É um sistema de aplicação muito simples e costuma ser utilizado em organizações com grande número de empregados (RIBEIRO, 2006). 7.4.4 Autoavaliação É o método pelo qual o próprio empregado analisa seu desempenho, sendo utilizado por poucas empresas (DESSLER, 2003). Pode assumir a forma de relatórios, de escalas gráficas ou mesmo de frases descritivas, mas só apresentará validade seo sistema de avaliação for criteriosamente elaborado e os colaboradores apresentarem notório grau de maturidade profissional (GIL, 2001). 7.4.5 Incidente crítico Neste sistema, o avaliador concentra-se em determinar os grandes pontos fortes e fracos de quem está sendo avaliado, sem analisar especifi- camente traços de personalidade. A montagem é simples, levando em con- ta duas séries de afirmativas: uma positiva e outra negativa (MARRAS, 2000). A Figura abaixo mostra a configuração de um formulário utilizado no sistema incidente crítico. Folha de avaliação de desempenho Nome do funcionário: Cargo: Data de admissão: Seção: Depto.: Características positivas Características negativas É motivado. É desmotivado. Colabora em todas as ocasiões. Tem dificuldade para tomar decisões. 224 Gestão de recursos humanos Diferentemente dos métodos tradicionais, a avaliação por resultados requer a negociação do desempenho, que é feita conjuntamente entre superior chefia e o subordinado. A partir dessa negociação definem-se os padrões de desempenho, ou seja, o quanto é esperado, qual o nível de qualidade desejado e quais os prazos para apresentar resultados. (ROSA, 2004). É pontual. Não se comunica bem. Tem traços de liderança situacional. Não conhece a cultura da empresa. É empreendedor. É introspectivo. Atinge os resultados almejados. É limitado com relação à execução das tarefas. Figura: Método Incidente Crítico – Fonte Adaptada: MARRAS (2000). 7.4.6 Avaliação por resultados Esse método é desenvolvido a partir da comparação periódica entre metas fixadas para cada empregado e os resultados efetivamente alcan- çados (GIL, 2001). Constitui-se em um método bastante adequado para as empresas que querem incorpo- rar o planejamento à rotina da organização (ANSOFF; MCDONNELL, 1993). Terminado o prazo determinado para alcance dos resultados, estes são analisados, verificando-se quais objetivos ficaram aci- ma do padrão e quais ficaram dentro ou abaixo do esperado. O processo conclui-se com um plano de ações corretivas para o desenvolvimento do empregado (MARRAS, 2000). 7.4.7 Avaliação 360 graus Empresas que valorizam o envolvimento dos funcionários, que usam sistemas de equipes de trabalho ou desenvolvem programas de qualidade total possuem perfil para criar sistemas mais complexos de avaliação de desempenho, os chamados 360 graus. Na avaliação de 360 graus, o desempenho é avaliado através do fee- dback de todos que formam os círculo de contatos diários do funcionário. 225 Avaliação de desempenho - Unidade 7 É interessante observar que, dentre tantos métodos de avaliação de desempe- nho, a avaliação 360 graus tem despon- tado como processo de feedback capaz de motivar a criação de um ambiente favorável aos relacionamentos, à troca de experiências e conhecimentos, ao alcance de resultados e principalmente ao desenvolvimento organi- zacional e profissional (ALMEIDA, 1999). As empresas buscam, com isso, uma avaliação mais ampla e precisa do funcionário, em que vários aspectos do comportamento do funcionário possam ser expostos. Na avaliação 360 graus, o indivíduo é avaliado por subordinados, superiores, pares, clientes internos e externos, fornecedores (BOHLAN- DER; SNELL; SHERMAN; 2003). Trata-se de avaliação muito mais rica, pois é desenvolvida com base em informações vindas de todos os lados, favorecendo a adaptabilidade e o ajustamento do empregado às demandas requeridas quanto ao trabalho por ele desenvolvido na organi- zação (GIL, 2000). É um método democrático e participativo, mas que requer estrutura por parte da empre- sa e maturidade por parte dos colaboradores para ser utilizado de forma efetiva (DUTRA, 1996). Além disso, é bastante trabalhoso na medida em que envolve um grande número de ava- liadores para cada empregado (GIL, 2000). Para que esse tipo de avaliação seja encarado de maneira mais natural e sem ressalvas pelos funcioná- rios, é interessante que comece apenas como um sistema de feedback para o desenvolvimento de carreiras e não esteja ainda atrelado à remu- neração. Com o tempo, as pessoas se acostumam com a avaliação, e aí sim as promoções e as recompensas podem partir destes resultados. O sucesso de avaliações de 360 graus depende de vários fatores, como a garantia do anonimato; a responsabilidade pelas respostas; a neu- tralidade de julgamento; o uso de métodos estatísticos, principalmente médias para combinar as avaliações; a identificação de possíveis “vieses” em relação a preferências pessoais. O quadro a seguir sintetiza os prós e contras da avaliação 360 graus. 226 Gestão de recursos humanos Quadro: Prós e contras da avaliação 360 graus Prós Contras • O sistema é mais abrangente por reunir respostas de várias perspectivas. • A qualidade das informações é melhor. • Complementa as iniciativas de pro- gramas de Qualidade Total, enfatizando clientes e equipes internos/externos. • Pode suavizar noções tendenciosas e preconceitos, visto que o feedback vem de mais pessoas, e não somente de um indivíduo. • O feedback de colegas e de outros contribui para o autodesenvolvimento do funcionário. • O sistema é complexo na combinação de todas as respostas. • O feedback pode ser intimidante e cau- sar ressentimento se o funcionário sen- tir que os respondentes fizeram algum “complô” contra ele. • Pode haver opiniões conflitantes, embo- ra precisas, de cada ponto de vista res- pectivo. • O sistema requer treinamento para fun- cionar bem. • Os funcionários podem “jogar” com o sistema, dando avaliações inválidas uns sobre os outros. • Os avaliadores podem não se responsa- bilizar por suas avaliações, se elas forem anônimas. Fonte: Bohlander (2003, pág. 224) Para a implantação de uma avaliação de 360 graus, devemos seguir alguns passos importantes, como a determinação de quem vai avaliar, com qual periodicidade e critérios. O instrumento deve ser construído e os avaliadores, treinados. Geralmente, é montado um guia de avaliação, para tornar o processo claro e objetivo. Depois o instrumento é aplicado e, por fim, os dados são analisados. Como vimos, apesar de complexa, a avaliação de 360 graus é bas- tante completa e consegue resultados mais fidedignos e interessantes para as pessoas e para a empresa. 7.5 Problemas em relação à avaliação de desempenho Muitas vezes os métodos de avaliação de desempenho não são bem- sucedidos em função de problemas relacionados não só à configuração do sistema de avaliação de desempenho, como também relacionados à apli- cação do método escolhido (DESSLER, 2003). 227 Avaliação de desempenho - Unidade 7 Dentro desse contexto, um dos aspectos críticos para o sucesso da avaliação de desempenho é a capacitação do avaliador, que de- verá ser especialmente treinado para esse fim (MARRAS, 2000). A seguir são apresentados alguns problemas bastante comuns em processos de avaliação de desempenho, relacionados ao despreparo do avaliador (GIL, 2001): • efeito-halo: opinião pessoal do avaliador sobre empregado in- fluencia a avaliação; • erro de tendência central: classificação é distorcida (todo mun- do tem desempenho médio); • propensão de complacência: avaliador é muito brando, bonzinho; • propensão de rigor: avaliador é muito rígido; • preconceito pessoal: avaliador não gosta da pessoa e distorce avaliação; • efeito-recenticidade: avaliação é fortemente afetada pelas ações mais recentes do empregado. Embora não haja uma receita para bem avaliar o desempenho dos subordinados, são apresentadas algumas recomendações consideradas úteis (MARRAS, 2000): • é importante conhecer bem cada um dos subordinados: suas apti- dões físicas, seu temperamento, suas habilidades sociais; • é importante reconhecer que as pessoas são diferentes entre si, que na execução de uma tarefa dois empregados tenderão a apre- sentar diferentes rendimentos; • é preciso conhecer com profundidade a natureza e o conteúdo dos cargos ocupados pelos subordinados e/ou as competências; • emboraa avaliação ocorra numa época previamente definida, o avaliador deve manter uma atitude constante de observação do desempenho; • o avaliador deve ter bem claro o significado de cada fator de avaliação; • o avaliador deve ter bom senso e equilíbrio, não se deixando im- pressionar pelos acontecimentos recentes; 228 Gestão de recursos humanos • a avaliação de desempenho não pode ser vista como um ajuste de contas com o empregado. Desta forma, o avaliador deve ser o mais imparcial possível. Para garantir melhores resultados nas avaliações de desempenho, o treinamento de avaliadores é condição essencial. As pessoas designadas a avaliar os funcionários devem identificar padrões precisos de desempenho, desenvolver habilidades de feedback e também de observação e de escrita. O treinamento deve incluir áreas importantes, como a comunicação eficaz, o diagnóstico de causas básicas de problemas de desempenho e o estabelecimento de metas e objetivos. Cada pessoa deve entender seu papel no processo de avaliação e o impacto de suas observações para o desempenho do avaliado e também da organização como um todo. 7.6 Feedback da avaliação de desempenho A avaliação de desempenho terá pouco valor se o empregado não tomar conhecimentos dela (GIL, 2001). Assim, ao final do processo de avaliação, a empresa deve fornecer o feedback acerca do desempenho de cada um dos colaboradores (DESSLER, 2003). Esse feedback deve ser realizado por meio de entrevistas com cada um dos avaliados, esclarecendo os pontos fortes e fracos de seu desem- penho em relação ao padrão esperado (MARRAS, 2000). É na entrevista que os planos de ação para o desenvolvimento das competências dos cola- boradores deve ser traçado (DUTRA, 2004). Para que a entrevista de feedback de desempenho alcance seus ob- jetivos, deve ser bem planejada e conduzida (GIL, 2001). A entrevista de feedback de avaliação de desempenho deve ser construtiva, devendo obe- decer os seguintes procedimentos (MARRAS, 2000): • preparação: procede-se à obtenção das informações sobre o histórico do desempenho do entrevistado decorrentes de todas a avaliações feitas. Com base nelas, definem-se os objetivos da entrevista, bem como um esboço de um plano de ação de desen- volvimento do colaborador; • execução: o entrevistador deve deixar o entrevistado à vontade para expor sua opinião e esclarecer as dúvidas. Ao serem trans- 229 Avaliação de desempenho - Unidade 7 mitidas as informações acerca do desempenho do colaborador, o entrevistador deve ter a habilidade de expor as informações, sem depreciar a pessoa. O entrevistador deverá estar pronto para ouvir todos os esclarecimentos que o entrevistado julgar neces- sário. Convém estimular o entrevistado a assumir uma postura ativa na entrevista, incitando-o a fornecer sugestões sobre como seu desempenho pode ser melhorado, bem como buscando o seu comprometimento para a mudança; • encerramento: nessa fase, a entrevista assume características de aconselhamento. Convém colocar-se à disposição do entrevista- do para ajudar no que for necessário e marcar nova entrevista, se for conveniente. Entre no site e conheça mais sobre o processo de avaliação de desempenho: http://www.oficinadanet.com.br Atividades 01. Qual a importância da avaliação de desempenho para a empresa e para o colaborador? 02. Dentre os vários métodos de avaliação de desempenho, qual deles você aplicaria na empresa onde trabalha? Justifique sua resposta, através das vantagens e das desvantagens dos respectivos métodos. 230 Gestão de recursos humanos 03. Quais cuidados devem ser tomados no processo de desenvolvimento e implantação de um sistema de avaliação de desempenho? 04. Qual a importância do feedback no processo de avaliação de desem- penho? Reflexão A situação mais frequente nas empresas é aquela em que o próprio superior tem a responsabilidade de avaliar seus subordinados, já que ele é a figura mais próxima do subordinado e, portanto, a mais apta a emitir um parecer acerca do desempenho do subordinado (MARRAS, 2000). A prá- tica também mostra o quanto este método pode ser subjetivo, tornando-se inadequado quando são considerados os objetivos de toda a organização (DESSLER, 2003). Dentro desse contexto, a configuração de um sistema formal de avaliação de desempenho surge como o caminho mais adequado para a organização analisar o desempenho dos colaboradores e estabelecer pla- nos de desenvolvimento profissional. Para isso, alguns cuidados devem ser tomados durante o processo de elaboração e implantação do sistema de avaliação de desempenho: • definir adequadamente os critérios e os padrões de objetivos de desempenho, alinhando-os aos objetivos e às competências da organização; • designação de uma equipe multifuncional para a elaboração do sistema de avaliação de desempenho, buscando envolvimento de todos os níveis hierárquicos: alta administração, gerentes e colaboradores; • definir o método de avaliação de desempenho mais adequado ao contexto da empresa, tendo como referência o fato de que a ava- 231 Avaliação de desempenho - Unidade 7 liação de desempenho pode ser uma ferramenta para a melhoria do nível de capacitação profissional; • desenvolver formulários de avaliação “amigáveis”, de fácil en- tendimento e preenchimento; • comunicação ampla do sistema de avaliação, ressaltando os seus benefícios; • treinar diretores, gerentes, supervisores e colaboradores no que diz respeito ao uso do sistema de avaliação de desempenho; • capacitar avaliadores em relação aos procedimentos para a ava- liação de desempenho; • fornecer feedback periódico da avaliação por meio de entrevista com cada avaliado, cuidando para que ele seja realizado de for- ma construtiva; • traçar em conjunto com o colaborador um plano de ação para a me- lhoria dos pontos fracos detectados em relação a seu desempenho. Leituras Recomendadas Livros sugeridos para leitura: DUBRIN, A.J. Fundamentos do comportamento organizacional. São Paulo: Cengage Learning, 2003. WAGNER III, J.A.; HOLLENBACK, J.R. Comportamento organi- zacional: criando vantagem competitiva. São Paulo: Saraiva, 2003. Referências ALMEIDA, R. Avaliação 360 graus: a melhor intervenção de Recur- sos Humanos, será? Revista Gestão Plus. Setembro/Outubro 1999. ANSOFF, H.I.; MCDONNELL, E.J. Implantando a administração estratégica. São Paulo: Atlas, 1993. BERGAMINI, Cecília Whitaker. Avaliação de desempenho humano na empresa. 4. ed. São Paulo: Atlas,1988. 232 Gestão de recursos humanos BOHLANDER, A; SNELL, S.; SHERMAN, A. Administração de Recursos Humanos. São Paulo: Thomson, 2003. DESSLER, G. Administração de Recursos Humanos. 2. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2003. DUTRA, J. S. Administração de carreira: uma proposta para repen- sar a gestão de pessoas. São Paulo: Atlas, 1996. DUTRA, J. Competências: conceitos e instrumentos para a gestão de pessoas na empresa moderna. São Paulo: Atlas, 2004. FLEURY, A.; FLEURY, M. C. Estratégias empresariais e formação de competências: um quebra-cabeça caleidoscópico da indústria brasi- leira. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2004. GIL, A. Gestão de Pessoas: enfoque nos papéis profissionais. São Paulo: Atlas, 2001. HANASHIRO, D; ZACARELLI, L.; TEIXEIRA, M.; GODOY, A. Gestão do fator humano: uma visão baseada em stakeholders. São Paulo: Saraiva, 2007. MARRAS, J. Administração de recursos humanos: do operacional ao estratégico. São Paulo: Futura, 2000. MARRAS, J. P. Administração da remuneração. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002. MILKOVICH, G.; BOUDREAU, J. Administração de recursos hu- manos. São Paulo: Atlas , 2000. PASCHOAL, L. Administração de cargos e salários. Rio de Janeiro: Qualymark, 2001. RIBEIRO, A. L. Gestão de pessoas. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. 233 Avaliação de desempenho - Unidade 7 ROBBINS, S. Comportamento organizacional. 11. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2005. ROSA, F. D. Participação nos lucros ou resultados: a grande vanta- gem competitiva: como pessoas motivadaspodem potencializar resul- tados e reduzir os custos das empresas. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2004. Na Próxima Unidade Na próxima unidade vamos discutir sobre o processo de gestão de carreira. A carreira pode ser definida como uma série de posições exercidas por uma pessoa ao longo de sua vida profissional, em função de trabalhos realizados e do respectivo desempenho apresentado (LACOMBE; HEIL- BORN, 2003). A gestão de carreira engloba a definição políticas, procedimentos e decisões ligadas a espaços ocupacionais, níveis organizacionais, compen- sação e desempenho. Estes aspectos são delineados dentro de um contexto de constante capacitação e desenvolvimento, e são conciliados com o per- fil profissional dos colaboradores da organização. O conceito de gestão de carreira é recente, mas tem tomado muito espaço dentro da administração de recursos humanos, é peça chave para o sucesso de qualquer indivíduo ou organização. Vamos aprender mais sobre este tema? 234 Gestão de recursos humanos Minhas anotações: U ni da de 8 Gestão de carreiraA carreira deve ser significada pelo indi- víduo como seu principal patrimônio, o qual deve possuir uma marca, um plano de negócio e visão estratégica para ser divulgado no mercado de trabalho. Porém, nenhum desses aspectos terá efeito se não estivermos atentos sobre quem somos e aonde desejamos chegar. A carreira pode ser definida como uma série de posições exercidas por uma pessoa ao longo de sua vida profissional, em função de trabalhos realizados e do respectivo desempenho apre- sentado (LACOMBE; HEILBORN, 2003). A gestão de carreira engloba a definição políticas, procedimentos e decisões ligadas a espaços ocupacionais, níveis organizacionais, compensação e desempenho (DUTRA, 1996). Estes aspectos são de- lineados dentro de um contexto de constante capacitação e desenvolvi- mento, e são conciliados com o perfil profissional dos colaboradores da organização (GIL, 2001). O conceito de gestão de carreira é recente, mas tem tomado muito es- paço dentro da administração de recursos humanos, é peça chave para o sucesso de qualquer indivíduo ou organização. Nesta unidade, aborda- remos os conceitos de carreira e sua transformação ao longo do último século. Veremos como as mudanças na economia, na sociedade e no es- tilo de vida das pessoas geraram novas maneiras de encarar o trabalho e a trajetória profissional. Essa unidade tratará também de nos respaldar com questões teóricas e práticas sobre a importância do planejamento e do gerenciamento da carreira e quais os passos, as metodologias de trabalho que podemos utilizar para triunfarmos profissionalmente ou orientar para que nossa equipe ou clientes triunfem também. Objetivos da sua aprendizagem Nesta unidade, temos como objetivos: • Compreender o conceito de carreira e sua evolução; 236 Gestão de recursos humanos Gestão de carreira - Unidade 8 • Apresentar a importância estratégica da configuração de sistema de ges- tão de carreira para a empresa; • Discutir os modelos de gestão de carreira mais utilizados pelo mercado. Você se lembra? Na unidade anterior, você estudou sobre o processo de avaliação de de- sempenho. Nesta unidade, você terá oportunidade aprender sobre o pro- cesso de gestão de carreira. Mas o que é carreira, afinal? Quantas vezes você parou para pensar em sua carreira? Quantas pessoas te disseram que seria preciso saber aonde chegar, antes mesmo de partir? Provavelmente, muitas vezes já pensou em seu futuro ou pelo menos escutou dizer que isso era importante. E é mesmo! Cada vez mais importante! Pensar na gestão de carreira é o me- lhor atalho para o sucesso. Vejamos como isto se tornou tão importante ao longo do tempo. 237 Gestão de carreira - Unidade 8 Gestão de carreira - Unidade 8 8.1 Conceito de carreira e sua evolução A etimologia da palavra carreira nos remete ao latim medieval via carraria, que significa estrada rústica para carros (BALASSIANO et al, 2004). No entanto, o conceito de carreira, como uma trajetória da vida profissional, é recente e apareceu apenas no século XIX, e pode ser di- vidido em duas etapas distintas: um conceito tradicional e um conceito moderno que surge a partir dos anos de 1970. Na abordagem tradicional, ainda encontrada em alguns países e empresas, a carreira é preponderantemente feita por homem pertencente aos grupos socialmente dominantes. É caracterizada “por relativa estabi- lidade e progressão linear vertical; e existe certa estabilidade no empre- go” (CHANLAT apud BALASSIANO et al, 2004). Essa abordagem era própria de uma sociedade machista e de certa estabilidade, comum até os anos de 1970. Pela perspectiva tradicional, a carreira depende exclusivamente da empresa, é ela quem gerencia o profissional e abre as oportunidades para o seu desenvolvimento. Os benefícios são vistos como direitos assegura- dos pelas organizações empregadoras. O sucesso é medido pelo quão alto se chegou na hierarquia da organização (BALASSIANO et al, 2004). Porém, a nova visão do conceito de carreira, fundamentada ao longo dos anos de 1970, trouxe uma perspectiva muito diferente. A entrada da mulher no mercado de trabalho, a expansão do ensino e sua consequente elevação dos níveis de instrução, a globalização, a afirmação dos direitos dos indivíduos e a flexibilização do trabalho fizeram com que muitos pa- radigmas do mercado de trabalho fossem rompidos. Na abordagem moderna do conceito de carreira, não importa sexo ou origem social do indivíduo, pois todos podem fazer parte do plano de carreira. A seguir observaremos o quadro proposto por Chanlat (1995), que nos aponta as novas possibilidades de se pensar a carreira e seu con- ceito no mundo atual. Tipos de carreira Recursos principais Elemento central de ascensão Tipos de or- ganização Limites Tipos de sociedades Burocrática Posição hierárquica Avanço de uma posição hierárquica a outra Organiza- ções de grande porte Número de escalões existentes Sociedade de empre- gados 238 Gestão de recursos humanos Profissional Saber e reputação Profissão Perícia Habilidades profissionais Organização de peritos Burocracia profissional Nível de perícia e reparação Sociedade de perítos Empreende- dora Capacidade de criação Inovação Criação de novos valo- res, novos produtos e serviços Pequenas e médias empresas Capacidade pessoal Sociedade que valoriza a iniciativa individual Empresas artesanais, culturais, co- munitárias e de caridade Exigências externas Sociopolí- tica Habilidades sociais Capital de relações Conheci- mento Relações de parentesco Rede social Familiar Comunitária de clãs Número de relações conhecidas e ativas Sociedade de clãs Fonte: Chanlat (1995, p.2) Embora seja mais democrático, o moderno modelo de carreira des- taca-se pela sua instabilidade, descontinuidade e horizontalidade, em con- traposição ao modelo tradicional. Agora carreira está em sua grande parte na responsabilidade de cada pessoa, o que não significa necessariamente progresso ou bem-estar para estes indivíduos. O novo conceito de carreira é mais amplo e flexível, compreende, conforme observamos no quadro de Chanlat, diversos tipos de profissionais no mercado, o que vai depender das características da função e da organização a que está vinculado. Atualmente, nas grandes organizações, persiste o conceito de car- reira do tipo burocrático, apesar de que essas organizações apresentam a tendência de se flexibilizarem cada vez mais suas estruturas e a forma de ascensão dos funcionários, passando a valorizar atributos próprios de ou- tros tipos de carreira, como o saber, a criatividade e o capital de relações. Portanto, o novo conceito carreira parece ter como palavras-chave capaci- dade de inovar e flexibilidade. 239 Gestão de carreira - Unidade 8 8.2 Carreira e plano de carreira Carreira é o conjunto planejado, estruturado e sustentado de estágios que consolidam a realidadeevolutiva de cada indivíduo, de forma interati- va com as necessidades das empresas e das comunidades onde elas atuam. Para Oliveira (2009, p. 5), o conceito de carreira atualmente só pode ser entendido como um plano de desenvolvimento da trajetória profissional, por isso o termo plano de carreira, que pode ser definido como a explicitação formal de um conjunto planejado, estruturado, sustentado e sequencial de estágios que consolidam a realidade evolu- tiva de cada indivíduo, de forma interativa com as necessidades das empresas e das comunidades onde elas atuam. Segundo Oliveira (2009), são várias as finalidades de um plano de carreira. Podemos destacar entre elas: • dar foco de direcionamento profissional para as pessoas; • facilitar a interligação entre conhecimentos diversos; • facilitar, se necessário, a alteração do rumo profissional; • dar mais segurança para as pessoas; • propiciar amplo debate da vida profissional das pessoas. Os itens acima destacados nos permitem concluir que o plano de carreira pode otimizar o futuro profissional, principalmente dos mais jovens. Fazer com que o indivíduo saiba aproveitar suas oportunidades e não desperdice conhecimento pode também fazer com que cada um saiba de suas possibilidades, onde está e até aonde pode chegar dentro de sua organização, além de promover o debate sobre a própria carreira, avalian- do e sendo auxiliado por sua família e até por seus amigos nas decisões sobre seu futuro profissional. Notamos que a gestão de carreiras é hoje um conceito complexo e que, ao longo tempo, deixou de estar nas mãos da empresa para estar quase que exclusivamente nas mãos de cada indivíduo. Não podemos nos esquecer, é claro, de que cada empresa, ao elaborar seu plano de carreira, está consolidando uma política de gestão de carreira de cada funcionário, mas isto não a torna a grande responsável pela carreira de 240 Gestão de recursos humanos Pensar na gestão de carreira é, antes de tudo, pensar na construção de um muro, que se constrói diariamente, com um bom alicerce. A cada dia adicionamos um novo conhecimento e desenvolvemos uma nova habilidade e sabemos muito bem aonde queremos chegar. cada um de seus colaboradores; pelo contrário, coloca nas mãos do su- jeito a possibilidade de escolha de aceitar aquelas possibili- dades de crescimento pro- fissional ou não. Pensar na carreira como um muro que você deve construir com alicer- ce forte, segundo Case e Botelho (2001), é entender que este alicerce é sua edu- cação, treinamento em idiomas, treinamento funcional de sua área de atuação, estar atualizado, tudo para que seja um bom prestador de servi- ços, especializado no que faz. Pensar desta maneira já seria um modo de gerir a carreira do ponto de vista do indivíduo. Para o gestor de carreira dentro de uma empresa, a ação não seria tão distinta, pois, quando ele estabelece um plano de carreira para seus funcionários e investe na edu- cação destes, ele está motivando sua força de trabalho e promovendo a carreira de seus colaboradores. Quando pensamos em plano de carreira, muitas perguntas vêm à cabeça. Quais são as fases e as etapas que devem ser seguidas na ela- boração e na aplicação de um plano? Quais são os fatores componentes de todo e qualquer tipo de plano? A partir da metodologia proposta por OLIVEIRA (2009), abordaremos os principais pontos para a elaboração de um plano de carreira. A primeira fase constitui-se na análise do mercado atual e futuro. Esta fase tem a finalidade de propiciar ao indivíduo o máximo de infor- mações a respeito da situação atual do mercado de trabalho, assim como, dentro das possibilidades, a identificação de algumas coisas boas e ruins que irão ocorrer nesse mercado (OLIVEIRA, 2009). Dentro desta primei- ra fase, podemos estabelecer algumas etapas. São elas: • Etapa 1.1 – Estabelecimento da visão: muitas pessoas não sabem exatamente o que querem. Isso provoca desorientação profissional. Visão é a identificação do que o indivíduo quer ser, dentro de um período de tempo mais longo e uma abordagem mais ampla. Uma pessoa com visão, segundo Oliveira (2009), 241 Gestão de carreira - Unidade 8 tem todas as possibilidades básicas de se orientar, de forma ade- quada, no seu desenvolvimento como profissional de empresas. • Etapa 1.2 – Estabelecimento dos valores pessoais: valores representam o conjunto de princípios, crenças e questões éticas fundamentais de uma pessoa, os quais fornecem sustentação a to- das as suas principais decisões. Em síntese, poderíamos afirmar que a visão representa o caminho futuro de cada indivíduo, e os valores representam a sua sustentação, baseada em seus atos pas- sados e presentes. Estes valores pessoais norteiam cada pessoa a pertencer ao grupo, ou organização, ou comunidade. Os valores são responsáveis pela identificação do sujeito com o grupo e fa- zem com estes estejam em harmonia. • Etapa 1.3 – Identificação de oportunidade e ameaças: anali- sando o mercado, as pessoas devem identificar as oportunidades e as ameaças, considerando a sua visão do que quer ser no futuro e seus valores. “Oportunidades são situações do mercado de tra- balho, incontroláveis pelas pessoas, podem favorecer o futuro de cada uma, desde que identificadas e aproveitadas enquanto perduram” (OLIVEIRA, 2009, p. 69). Ameaças são situações do mercado de trabalho que podem prejudicar o futuro de cada um, mas que podem ser amenizadas ou evitadas, desde que conheci- das e trabalhadas antecipadamente com competência. Na segunda fase da construção do plano de carreira está a análise da vocação e da capacitação profissional. O objetivo desta fase é possi- bilitar ao indivíduo acompreensão de sua real vocação, fazendo com que este busque uma capacitação profissional adequada a esta vocação, tendo, assim, amplitude e velocidade de evolução em sua carreira nas empresas. Essa fase compreende as seguintes etapas: • Etapa 2.1 – Análise da vocação profissional: vocação, segun- do Oliveira (2009), é o ato de explicitar a predestinação de um talento ou aptidão para uma atividade, de maior ou menor abran- gência, e que proporciona sustentação para o crescimento pro- 242 Gestão de recursos humanos fissional. A vocação é um fator fundamental para a evolução na carreira, pois facilita a relação do indivíduo com o seu trabalho. • Etapa 2.2 – Análise da capacitação profissional: capacitação profissional é a habilidade de identificar, adquirir e aplicar co- nhecimentos. Corresponde à aprendizagem gradativa, acumula- tiva e sustentada ao longo da vida. A capacitação profissional é algo administrável pelas pessoas, recebendo uma direta influên- cia dos pontos fortes e dos pontos fracos que essas pessoas apre- sentam em sua vida profissional. Pontos fortes são diferencia- ções controláveis conseguidas pelas pessoas, de forma planejada e controlada, e que lhes proporcionam vantagens competitivas em relação às outras pessoas. Pontos fracos são situações contro- láveis, mas inadequadas, que as pessoas apresentam e que lhes proporcionam desvantagens competitivas em relação às outras pessoas (OLIVEIRA, 2009, p. 71). • Etapa 2.3 Estabelecimento da missão e dos focos da atuação: esta etapa é muito importante, pois ela dará o limite de atuação do sujeito, como e onde ele irá praticar suas atividades profis- sionais. Missão é o espaço onde o profissional irá atuar. Dentro da missão, o indivíduo deverá estabelecer seu foco de atuação, o segmento de mercado em que irá atuar ou a capacitação profis- sional que deverá buscar. Assim, pode ser evitado que as pessoas comecem a “dar tiros para todos os lados”. O foco de atuação pode ser realizado no presente ou ser um plano potencial para o futuro, em que o sujeito se programa e gradativamente se prepara para uma mudança na carreira. • Etapa 2.4 Postura estratégica e vantagem competitiva: a postura estratégica é a tomada de decisão certeira para a capaci- tação, é o nível de aceleração de cada pessoa para os seus focos de atuação. É bomlembrar que a baixa capacitação significa uma estratégia ruim para o indivíduo. Nesta etapa, o sujeito deverá também analisar seus concorrentes, a fim de entender a realidade do mercado. Ao conhecer seus concorrentes, ele poderá buscar diferenciais, e assim conseguir vantagens competitivas. • Etapa 2.5 Estabelecimento de objetivos e metas: objetivos são resultados quantificados e com prazos a serem alcançados para se consolidar o plano de carreira. Metas são etapas ou pas- 243 Gestão de carreira - Unidade 8 sos intermediários para se alcançarem os objetivos do plano de carreira (OLIVEIRA, 2009). Na terceira fase do processo de elaboração de um plano de carreira está a análise da evolução profissional. Deve-se verificar periodicamente o plano de carreira, utilizando-se critérios e indicadores previamente esta- belecidos. A terceira fase compreende as seguintes etapas: • Etapa 3.1 – Estratégias de aprimoramento: mesmo quando já conquistamos a posição desejada dentro da carreira, não podemos descuidar de nossa capacitação. É fundamental, para sustentar-se no mercado atual, não se acomodar. Esta etapa, portanto, consiste no aprimoramento, com criatividade e diferenciação no profis- sional. Trata-se de dar algo mais ao plano de carreira elaborado. • Etapa 3.2 – Qualidade total do plano de carreira: qualidade total do plano de carreira é tudo aquilo que se faz em termos de aspectos de atendimento às expectativas das pessoas e das em- presas onde se trabalha. É preciso sempre surpreender a todos de maneira positiva, para assim criar meios de crescimento dentro da organização. Por isso, são importantes a estratégia e a capaci- tação constante (OLIVEIRA, 2009). Existem alguns conceitos que devem fazer parte de todo e qualquer plano de carreira. Neste item analisaremos estes pontos fundamentais para a obtenção de sucesso na carreira profissional. Os componentes do plano de carreira são representados pelo conjunto de conhecimentos, habilida- des e atitudes das pessoas. Segundo Oliveira (2009), conhecimento é a capacidade de entender o conceito e a estruturação de um assunto ou atividade, bem como saber consolidar sua aplicação em uma realidade específica da empresa. Dentre as formas de conhecimento, é importante destacar: • conhecimento de administração: independentemente da área de atuação, qualquer empresa necessita de um profissional com 244 Gestão de recursos humanos conhecimento das funções da administração, tais como planeja- mento, organização, gestão de pessoas, direção e avaliação; • ser generalista, com forte especialização: é importante um conhecimento global, pois todas as decisões envolvem várias atividades da empresa para a qual trabalha ou vai trabalhar. Ao mesmo tempo, temos que ser ótimos especialistas, porque é na- tural que se tenha elevado conhecimento das metodologias e das técnicas de sua área específica de atuação. • cultura: é fundamental que o indivíduo tenha amplo referen- cial de atuação, sustentado por sólida cultura geral, conheci- mento de tendências e maneiras de ser de diferentes regiões do mundo. É importante que o profissional tenha o interesse por experiências diversificadas. • estar voltado para o processo de inovação: os profissionais tenham disposição para buscar novas tecnologias, mudar e se adaptar, aplicar novos processos sem medo das transformações. • ser ético: todo profissional deve conhecer os princípios e a aplicação de conceitos éticos; o indivíduo deve utilizar todos os seus conhecimentos de maneira ética. É importante que cada um tenha o seu próprio código de ética e que a organização também o tenha. Habilidade é o processo de visualizar, compreender e estru- turar as partes e o todo dos assuntos das empresas, consolidando resultados otimizados pela atuação de todos os recursos disponíveis. (OLIVEIRA, 2009, p.79) É importante ter ciência de que o conhecimento corresponde ao “saber”, enquanto a habilidade corresponder ao “saber fazer”. Dentre as habilidades esperadas para o desenvolvimento de qualquer plano de car- reira, podemos citar: • ter atitude interativa: saber lidar com diversas situações que as empresas colocam à sua frente; • ter capacidade de resolver conflitos: as organizações geral- mente envolvem um elevado número de pessoas, por isso é mui- to comum a ocorrência de conflitos. É importante, portanto, a habilidade de resolver e contornar diferenças entre os indivíduos, 245 Gestão de carreira - Unidade 8 revertendo situações delicadas para melhor e envolvendo cada vez mais a equipe; • saber desempenhar com facilidade novas tarefas: a evolução do plano de carreira depende muito desta questão, pois crescer implica necessariamente em assumir novas atividades dentro da organização. Não se pode esquecer de que, para assumir novas ati- vidades, é preciso ter conhecimento sobre elas, para evitar o erro. A atitude corresponde ao “querer fazer” e é a explicitação do com- portamento. É fundamental que se demonstre: • autoconfiança: ter responsabilidade assumida pelos atos e quali- dade decisória; • capacidade de aprendizado contínuo; • flexibilidade profissional: corresponde à possibilidade do indiví- duo de identificar e desenvolver um plano de carreira, dentro da empresa, respeitando as suas expectativas pessoais; • mobilidade: facilidade em focar nova área de atuação na mesma organização, ou seja, mudar de emprego sem mudar de empresa. Na elaboração e aplicação do plano de carreira, é importante relevar algumas precauções para viabilizar o sucesso do projeto: • acreditar na necessidade de um plano de carreira: é importante acreditar que o plano de carreira pode facilitar seu desenvolvi- mento profissional; • tomar cuidado com suas atitudes: pouco adianta preparar-se para o mercado se suas atitudes não condizem com as expectativas da organização; • ser realista e planejar o possível: é fundamental “ter o pé no chão” e traçar caminhos viáveis e possíveis. Isso evita a frustra- ção e não ajuda na aceleração do processo de crescimento profis- sional, pois não evita que se perca o foco. 8.2.1 A carreira sob a perspectiva individual O primeiro passo para um indivíduo estruturar um plano de carreira é entender que ele é uma marca. De acordo com a definição da American Marketing Association, marca é um nome, termo, sinal ou símbolo que 246 Gestão de recursos humanos identifica e diferencia os bens e os serviços. Podemos afirmar com segu- rança que todo profissional, independentemente da área de atuação, é uma marca. Essa nova visão nos abre a possibilidade de utilizarmos toda a tec- nologia de marketing no gerenciamento de nossas carreiras profissionais. Faremos um paralelo de como melhorar o seu equity (valor) profissional utilizando dois conceitos básicos empregados em marketing: os 4 Ps e a análise SWOT (JESUS; MIETTO, 2009). Os 4Ps são as características básicas de um mix de marketing. São eles: o Produto, o Preço, a Praça e as Promoções. O Produto abrange todas as características tangíveis da mercadoria: embalagem, o produto em si, design etc. O Preço é a medida de venda do produto, é o que define parcialmente a percepção de caro ou barato. A Praça é o canal onde se comercializa o produto: supermercados, lojas especializadas, por telefone etc. As Promoções são todas as atividades que divulgam ou promovem o produto, por exemplo: propaganda na TV, publicidade, eventos no ponto de venda etc. Uma marca de sucesso ge- ralmente tem um valor percebido elevado, uma clara estratégia de distri- buição e um suporte diferenciado e constante de propaganda. No caso do gerenciamento profissional, os 4Ps podem ser adaptados para as seguintes definições (JESUS; MIETTO, 2009): • Produto Profissional (P1): é o conjunto de suas características pessoais e profissionais. Sua formação acadêmica, suas compe- tências diferenciadoras, suas habilidades técnicas e sua inteligên- cia emocional, intelectual e física; • Preço (P2): é o pacote total de seus rendimentos, ou seja, salário mais benefícios. Lembre-se