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Epistemologia da história da psicologia

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que não se assemelhava ao homem vivo (corpo e alma como entidades distintas). Os Deuses eram os verdadeiros imortais pois, no seu sangue, corria uma substância que os mortais não tinham: o ichor.
Na Grécia arcaica, haviam vários termos para aquilo que, mais tarde, se chamou de mente: Psyche ou psuche, que era o “hálito” que animava os corpos e que os abandonava no “último suspiro”.
Thymus ou thumus era o nome dado ao conjunto das motivações e emoções, ou seja, as paixões (motivações + emoções = paixões).
Nous era responsável pela perceção da verdade.
Na Grécia arcaica, dizia-se que os deuses gregos são pouco divinos e muito humanos, tendo os defeitos e as virtudes dos homens e sendo apenas imortais devido a um processo meramente material e concreto. (Deuses vistos à semelhança dos homens, mas apenas com muito mais poder)
Como os fenómenos não visuais não estavam presentes nesta altura, o visualismo e concretismo extremo têm um grande peso no desenvolvimento intelectual da Grécia.
Os conhecimentos considerados científicos nos dias de hoje são muito diferentes dos que eram considerados na Grécia antiga, uma vez que utilizam regras de validação muito diferentes. É no entanto, verdade, que foi na Grécia antiga que se se começou a tentar compreender o mundo e fenómenos exteriores: explicava-se o visível não com agentes místicos, mas sim com coisas visíveis ou plausíveis no visível.
Aqui, o objetivo era explicar o mundo e não o homem, sendo que os gregos defendiam que tudo era feito de matéria, ao invés de forças místicas, sopros, etc.
A especulação cósmica e a descoberta do pensamento:
Como vimos, um acontecimento não quotidiano é sempre explicado por um agente intencional, ainda que este possa não ser diretamente visível.
A mente é uma dedução da ação e nunca é considerada por si só. São os gregos que separam ação e mente.
Tales de Mileto, quando se referia à mente, não diferia dos gregos arcaicos. Por exemplo, dizia que os ímanes tinham alma (isto é, que tinham agência/mente), já que todos os movimentos não causados pela gravidade ou pela transmissão de movimento tende a ser compreendido como algo “mentalmente causado”, parece “ter vontade/mente”. Não se sabe muito mais da posição de Tales acerca da mente, mas acreditava na imortalidade da alma e não acreditava na doutrina da metempsicose (transmigração das almas).
Com o tempo, vão havendo variações acerca do pensamento sobre o mundo. Anaximandro postulou que tudo era feito de apeiron, isto é, de infinito ou de indeterminado (o apeiron é o resultado de várias relações opostas: frio com quente, seco com molhado. Sendo um elemento presente em tudo); já Anaximenes defendia que o mundo era feito a partir de ar.
A este grupo de teóricos/filósofos chama-se de “os físicos”, uma vez que libertaram o pensamento e foram capazes de o aplicar à natureza, sem a participação de elementos místicos. Inventaram uma linguagem nova para se referirem ao que é externo a nós, ao mundo físico que nos rodeia.
Apesar da visão da mente ser ainda muito primitiva, a corrente de pensamento dos físicos abre um caminho muito importante: as coisas, como as vemos, têm uma realidade muito diferente daquela que nos é revelada pelos sentidos. A sua geometria, aquilo de que são feitas não é traduzido pela perceção que temos dessas coisas. Há, pois, um mundo escondido onde se pode procurar pela razão e pela especulação. O pensamento – a razão- liberta-se, assim, da perceção.
Pitágoras não concorda com o pensamento dos físicos.
Pitágoras acreditava que a mente era independente do corpo e que migrava de corpo em corpo com a morte, necessitando sempre de um suporte, um corpo, que fosse por ela animado, tal como era defendido com os povos arcaicos. Ele acreditava, também, que era a alma que apreenderia a verdade e não os sentidos.
Xenófanes de Cólofon, contemporâneo de Pitágoras, explicita pela primeira vez um tema muito importante para a filosofia: o de que as coisas não são como nós as imaginamos, mas são o que são independentemente da maneira como as vemos. Este argumento era aplicado à forma como os mortais visualizavam os deuses e os seus comportamentos. Os homens visualizavam os deuses como sendo, de certo modo, semelhantes, sendo que tecnicamente os deuses seriam agentes impossíveis de imaginar e que, não é por os percecionarmos assim que eles efetivamente o são.
Heraclito de Eléia sugere que tudo quanto pensamos e sentimos é uma ilusão. Tudo é um fluxo em permanente mudança, e o que acabámos de ver imediatamente antes já é diferente agora, ainda que os nossos sentidos neguem isso.
Parménides de Eléia defende, ao contrário de Heraclito, que a verdade física das coisas é una, eterna e imutável, mas que são os sentidos que nos enganam.
Há uma tendência comum a todos estes autores apesar das suas diferenças: a realidade não é alcançada pelos sentidos, mas encontra-se num plano só acessível pelo pensamento.
Uma outra corrente que existia na altura era o materialismo, com Empédocles de Acragas, em que este afirmava que os objetos emitem eflúvios (vapores?) que são cópias deles mesmos. Capturaríamos esses eflúvios com cada modalidade sensorial e eles misturar-se-iam no sangue. Com o bater do coração transformar-se-iam em consciência.
Esta teoria materialista convive com a ideia de transmigração das almas, mas Empédocles leva a dúvida sobre a identidade da perceção e das coisas (ou seja, o que eu vejo não é o que realmente é) à sua conclusão lógica: se há diferença entre perceção e realidade, é necessário saber como se faz a tradução de uma na outra. 
Este é um começo para a epistemologia psicológica: estudar o processo de conhecimento com base nos mecanismos percetivos.
Leucipo de Mileto e Demócrito de Mileto tornam esta corrente mais moderna ao defender que as qualidades sensoriais eram meras aparências, não porque houvesse características mentais que determinavam a experiência, mas porque as coisas não eram o que pareciam. Assim, os sabores amargos ocorreriam porque os átomos são pequenos, finos e angulosos; e uma coisa parecer-nos-ia doce por ser composta pro átomos maiores e arredondados. (Átomos são vistos como a unidade indivisível infinita da matéria; tudo é composto por átomos)
Assim, nos gregos, a centração nas coisas e não na mente levou à compreensão de que as próprias coisas são ilusões. Esta visão é importante, uma vez que se normalmente se opõe ao “realismo ingénuo”, a crença de que as coisas são como as percecionamos, a verificação de que as coisas só existem porque são representadas na mente e de que a mente, sendo subjetiva, interpreta essas coisas de modo as podermos conhecer como são. No entanto, nos gregos, o caminho não foi esse: permaneceram centrados nas coisas, não no sujeito de representação (nós, que vemos as coisas) e, ao verificarem que as aparências podem enganar, localizaram esse engano na natureza escondida das coisas e não nos processos de subjetividade.
Há uma tendência para a explicação do Cosmos e não de Anthropos, do Mundo e não do Homem. E há uma tendência para a explicação de Physis e não de Psyche, das coisas e não da mente. 
Esta questionação do mundo concreto, levou progressivamente ao ceticismo porque os pré-socráticos (todos os autores de que falámos até agora) compreenderam que o que se observa não corresponde ao que é. Mas enquanto Pitágoras pensava que a capacidade de ir para lá das aparências pertencia à alma, mas o movimento dos pensadores gregos posteriores, deslocou-se mais para as coisas do que para a alma.
A alma, quando referida, é apenas parcialmente independente do corpo.
Este ceticismo veio gerar o que chamamos de sofismo. Os sofistas eram pessoas que ensinavam a pensar, a defender e a atacar tudo e o seu contrário independentemente da verdade.
Para os sofistas, a única verdade reside nas afirmações de cada um, já que o mundo das aparências é enganador
A revolução socrático-Platónica:
Os gregos, na sequência de Tales, compreenderam que o mundo físico não é animado e não deve ser estudado em termos de intenções. Isso levou-os a investigar