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Brasília-DF. Métodos CroMatográfiCos, ElEtroforEsE Capilar E Métodos graviMétriCos Elaboração Guilherme Lopes Batista Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APrESEntAção ................................................................................................................................. 5 orgAnizAção do CAdErno dE EStudoS E PESquiSA .................................................................... 6 introdução.................................................................................................................................... 8 unidAdE i Revisão ConCeitual ......................................................................................................................... 11 CAPítulo 1 PRoPRiedades da matéRia ................................................................................................... 12 CAPítulo 2 tRansPoRte e tRansfoRmações da matéRia ..................................................................... 16 unidAdE ii métodos GRavimétRiCos ................................................................................................................. 29 CAPítulo 1 GRavimetRia ClássiCa ......................................................................................................... 29 CAPítulo 2 GRavimetRia instRumental .................................................................................................. 37 unidAdE iii CRomatoGRafia ............................................................................................................................... 42 CAPítulo 1 asPeCtos GeRais e CRomatoGRafia PlanaR ..................................................................... 42 CAPítulo 2 CRomatoGRafia a Gás ....................................................................................................... 49 CAPítulo 3 CRomatoGRafia a líquido de alta efiCiênCia.................................................................. 56 unidAdE iV eletRofoRese CaPilaR ...................................................................................................................... 60 CAPítulo 1 HistóRia e fundamentos ..................................................................................................... 60 CAPítulo 2 instRumentação e aPliCação ........................................................................................... 66 unidAdE V deteCtoRes e inteRPRetação dos Resultados ............................................................................... 76 CAPítulo 1 sinais em téCniCas químiCas de sePaRação .................................................................... 76 CAPítulo 2 deteCtoRes PaRa sistemas analítiCos de sePaRação ....................................................... 85 unidAdE Vi Guia PRátiCo de seleção e Realização de téCniCas .................................................................... 93 CAPítulo 1 GRavimetRia e PesaGens ..................................................................................................... 94 CAPítulo 2 CRomatoGRafia .................................................................................................................. 97 CAPítulo 3 eletRofoRese CaPilaR ....................................................................................................... 107 rEfErênCiAS ................................................................................................................................ 110 5 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 6 organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. 7 Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 8 introdução Este módulo apresenta algumas ferramentas e técnicas instrumentais essenciais para a realização de análises químicas forenses. Por meio delas, podemos obter informações detalhadas acerca da composição de materiais, documentos ou obras de arte. A gravimetria é, certamente, a primeira técnica analítica aplicada pelo homem. Ela consiste em examinar um material medindo sua massa, ou, coloquialmente, pesando-o, sendo uma técnica primordial e fundamental na prática analítica. Apesar da grande evolução de instrumentos e técnicas, com grande versatilidade e simplificação nas operações de análise, a gravimetria ainda é utilizada e essencial na elaboração de padrões de referência empregados em outras técnicas analíticas. Já para análise de misturas complexas, frequentemente é necessário separar os componentes da amostra em momento prévio à sua observação e medida. As principais alternativas aos métodos laboriosos de tratamento de amostras clássicos são as técnicas Cromatográficas e a Eletroforese Capilar. Nestas, uma amostra contendo uma mistura complexa sofre um processo pelo qual seus compostos se separam uns dos outros, permitindo sua medida. Como será visto posteriormente, o desenvolvimento das técnicas de separação supracitadas se deu em momento posterior ao da gravimetria, apesar de ter origem em procedimentos bastante antigos de preparação e tratamento de amostras. A difusão de seus usos como técnicas analíticas, contudo, se deu pelo desenvolvimento de equipamentos e procedimentos instrumentais que permitiram a realizaçãodas análises de maneira mais reprodutível e prática. A Eletroforese Capilar e as técnicas Cromatográficas, em suas diversas modalidades, possuem aplicações diferentes em função da amostra a ser analisada e das substâncias a serem investigadas. A compreensão dos princípios de funcionamento, bem como do instrumento utilizado, permite melhor seleção de técnicas a serem utilizadas bem como melhor interpretação dos dados adquiridos. Espera-se, neste momento, que o aluno possua conhecimentos de Química Geral para acompanhar o curso ministrado. Contudo, os conceitos essenciais serão apresentados, e aspectos mais fundamentais que não puderem ser retomar serão explicitados ao longo do texto, bem como serão apresentadas referências selecionadas para estudo. 9 objetivos » Compreender os princípios físico-químicos envolvidos em cada tipo de análise estudada. » Compreender o funcionamento dos instrumentos de análise, suas peças principais e de que forma operam. » Entender as aplicações possíveis para cada procedimento de análise, fornecendo senso crítico para a seleção de técnicas para amostras apropriadas. » Entender como é realizada a operação dos métodos pelo químico analítico em prática laboratorial. » Possibilitar a interpretação dos resultados finais de análise, por meio da compreensão dos dados obtidos por cada procedimento. 10 11 unidAdE irEViSão ConCEituAl Na prática analítica é essencial realizar procedimentos que permitam tratar moléculas de acordo com sua reatividade e propriedades. Processos são realizados para condicionar amostras, separar moléculas, bem como reações específicas podem ser exploradas para purificação e/ou detecção de compostos. De forma a facilitar a compreensão sobre os tais fenômenos, é realizada aqui uma breve retomada de conceitos pertinentes para o desenvolvimento dos temas. Esta revisão, breve e resumida, não pretende substituir ou compensar um curso de Química, mas relembrar aspectos essenciais para melhor entendimento das técnicas. Para aqueles que sentirem maiores dificuldades, ou que quiserem aprofundar mais nos assuntos abordados, serão apresentadas referências bibliográficas que tratam tais assuntos de forma mais dedicada. Muitos aspectos reativos só podem ser explicados considerando de que forma as moléculas se movem. O transporte de matéria é essencial em quase todos os aspectos da Química, em especial nas técnicas de separação que serão abordadas neste texto e nas técnicas eletroquímicas.. 12 CAPítulo 1 Propriedades da matéria Neste capítulo serão apresentados alguns aspectos sobre as propriedades da matéria que são imprescindíveis para a compreensão dos fenômenos aqui estudados. A composição da matéria e algumas de suas propriedades explicam a maneira que elas interagem, e o que podemos esperar do seu comportamento. Massa Molar Em sua essência, a matéria é formada por elementos químicos, cada qual com sua massa característica. É por meio desta relação fundamental muito bem conhecida, entre a fórmula de substâncias puras e suas massas, que a gravimetria se baseia. Uma vez purificado um composto ou elemento de interesse, a pesagem guarda relação direta com a quantidade de átomos e moléculas em uma amostra. A quantidade de átomos presente em uma determinada massa de material é dependente da natureza do átomo. Cada elemento químico possui uma massa atômica e pode ser consultada na tabela periódica. Um grama é 6,0221 . 1023 vezes maior do que uma unidade de massa atômica, ou seja, quando se reúnem 6,0221 . 1023 átomos de um elemento de “x” massa atômica, eles pesarão “x” gramas. A este número peculiar (6,0221 x 1023) dá-se o nome de Constante de Avogadro, ou mol. Ao indicar, por exemplo, que há 1 mol de cloreto de sódio em 1 litro de água (NaCl 1 mol / l) é o mesmo que dizer que há 6,0221 x 1023 moléculas de NaCl em 1l de água, e equivale a dizer que há 58,4 g deste composto neste volume. Esta relação entre os elementos e as massas é importante, não apenas registrar e relacionar as concentrações obtidas, mas para entender a relação entre a concentração de reagentes utilizados em uma reação química. interações intermoleculares Para realizar a separação e purificação de substâncias para análises, outras propriedades da matéria são exploradas. Na gravimetria, um conjunto de reações específicas são conduzidas de forma a se obter um sólido puro. Existem reações específicas descritas em literatura para os mais diversos elementos (VOGEL etc.); no próximo capítulo desta unidade revisaremos a forma que estas reações acontecem. 13 Revisão ConCeitual │ uniDaDe i De que outras formas é possível realizar a separação de substâncias de uma amostra? O que torna cada substância diferente e única em uma mistura? Quais diferenças presentes em cada composto podem ser exploradas para o diferenciar? Existem diversos tipos de Cromatografia, contudo todas exploram, principalmente, propriedades que resultam em diferentes interações intermoleculares para realizar uma separação. Já a Eletroforese Capilar explora a diferente interação das moléculas com um campo elétrico constante. As moléculas se ligam umas às outras por meio de interações relativamente brandas. É por meio destas ligações, ou, em alguns casos, da ausência delas, que os compostos se distribuem na natureza. Estas interações resultam no estado físico que o composto se encontra (sólido, líquido ou gasoso), da maneira que os compostos se misturam, se solubilizam, ou mesmo como se aderem uns aos outros. Pensemos em um composto puro como um conjunto de moléculas iguais. Se estas possuem alta energia térmica, elas se movem livremente e ocupam todo o espaço no qual se encontram. Nesta situação, dizemos que o composto se encontra na forma de gás, ou estado gasoso. Agora, consideremos que a temperatura seja diminuída e/ou o espaço que elas ocupam seja menor. A velocidade menor e/ou a maior proximidade entre as moléculas favorecem que elas interajam umas com as outras. Nesse caso, formam ligações intermoleculares. Quando moderadas, ainda permitem um grau de movimentação que torna o material fluido, estado físico definido como líquido. Quando mais intensas, o material se torna sólido e possui forma definida. Volatilidade Cada substância possui uma tendência própria a permanecer em cada estado físico descrito, a uma dada temperatura. A tendência desta de se converter para o estado gasoso é denominada volatilidade e varia de acordo com sua estrutura química, em especial sua massa molecular e polaridade. Em relação à massa, compostos maiores tendem a se agregar mais do que compostos menores, devido a energia que precisam para se movimentar livremente. Esta influência é mais considerável quando comparados compostos de polaridade similares. Este segundo parâmetro, no entanto, é muito relevante para determinar a volatilidade e será melhor apresentado a seguir. 14 UNIDADE I │ REvIsão CoNCEItUAl Polaridade Os compostos químicos são formados por átomos, que compartilham elétrons por meio de ligações químicas de modo a estabilizar sua carga e sua estrutura interna. A distribuição local dos campos elétricos varia de acordo com a capacidade de estabilizar carga (eletronegatividade) e com a geometria da molécula, assim cada composto possui uma polaridade. Quando átomos se distribuem na molécula induzindo um vetor de campo elétrico local, chamado de dipolo, dizemos que o composto é polar, enquanto compostos cujas ligações ‘compensam’ e ‘anulam’ os campos locais, dizemos que um composto é apolar. Consideremos os exemplos abaixo: figura 1. estrutura química das moléculas de metano (à esquerda) e da água (à direita). fonte: composição e adaptação das seguintes imagens disponíveis: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/56/ dipole_Water.svg>; <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/ae/methane-2d-small.png> Na molécula de água, um átomo de oxigênio se liga a dois átomos de hidrogênioformando um ângulo de 104,5°. O oxigênio possui capacidade maior do que o hidrogênio de acomodar cargas negativas, formando um dipolo elétrico. A água, portanto, é uma molécula polar. Já na molécula de metano, o carbono ao centro da molécula se liga a quatro hidrogênios dispostos no vértice de um tetraedro perfeito. Apesar do átomo de hidrogênio possuir uma tendência levemente maior do que o carbono de acomodar cargas negativas, os campos formados pelas ligações se anulam. O metano, então, é uma molécula apolar. Eletronegatividade A polaridade de uma molécula é determinada pela sua geometria e pela eletronegatividade dos átomos que a compõe. Tais fatores não serão abordados nesta apostila, no entanto é sempre bom relembrar a fila de eletronegatividade, por meio da qual pode-se intuir 15 Revisão ConCeitual │ uniDaDe i a polaridade de uma ligação. Os átomos que acomodam melhor cargas negativas, em ordem decrescente de afinidade pelos elétrons, se encontra a seguir: figura 2. série de eletronegatividade. F > O > N > Cl > Br > I > S > C > P > H fonte disponível e adaptada: <https://www.ptable.com/#Property/state>. Desta forma, uma molécula de ácido fluorídrico (H-F), por exemplo, é muito mais polar do que uma molécula de cloreto de bromo (Cl-Br). Com base nesta fila e na estrutura da molécula, somos capazes de inferir quais destas são mais ou menos polares. Vamos agora retomar o conceito de volatilidade e observar com base na polaridade. Imagine um recipiente contendo apenas moléculas de água: cada molécula, isoladamente, possui um campo negativo e positivo induzido em sua estrutura. Quando duas moléculas se aproximam, as partes de polaridades opostas interagem, equilibrando a carga do sistema. Isso implica que substâncias mais polares tendem a ser menos voláteis, pois suas moléculas tendem a interagir mais do que moléculas em substâncias menos polares. Assim como uma molécula de água pode formar ligações com outra para estabilizar essa polaridade, moléculas diferentes podem interagir de modo similar. Portanto, substâncias polares tendem a interagir melhor com substâncias polares. Isso explica a solubilidade e a miscibilidade entre diferentes compostos. Algumas substâncias possuem uma tendência tão grande em ceder ou em adquirir cargas que podem, de fato, apresentar cargas elétricas, tornando-se íons. Estes íons, muito instáveis se isolados no meio ambiente, podem ser bem estáveis especialmente quando em meio a uma substância polar, cujos dipolos estabilizam sua carga. O comportamento da formação de íons e seu comportamento são essenciais para compreensão dos fenômenos envolvidos na Eletroforese Capilar. Neste documento não falaremos da natureza destes compostos, porém, na próxima seção será explicando a forma que estes interagem, influenciam e se transformam no meio e o mesmo modelo também pode explicar bem outras interações relevantes para a Cromatografia e para a Gravimetria. 16 CAPítulo 2 transporte e transformações da matéria Por meio do conhecimento das propriedades da matéria, pode-se conhecer e prever o comportamento que determinadas espécies podem apresentar no ambiente. Existe uma forma pela qual estas propriedades se manifestam, e os modelos que permitem explicar esta manifestação, de acordo com a maneira que estas espécies se transportam e a forma que elas interagem. As explicações contidas neste capítulo são resumos de temas bastante complexos. Apesar de serem assuntos que podem ser bastante aprofundados, o conhecimento destes temas mesmo que superficial permitirá uma melhor compreensão dos sistemas de análise estudados. Agitação térmica O meio no qual nos encontramos é repleto de moléculas e espécies químicas, e todas elas apresentam movimento. Uma das formas que este movimento se manifesta é por meio do calor. Podemos entender, pois, o calor como a intensidade média da movimentação das moléculas em um meio: quanto mais agitadas elas se encontram, maior a velocidade média que elas se encontram. É interessante notar que a movimentação das moléculas pode acontecer de diversas formas. A maneira mais intuitiva é pensar no movimento translacional, no qual a espécie se move de um lugar a outro do espaço. Contudo, outros movimentos podem ocorrer, e, salvo a regra, ocorrem simultaneamente. Além da translação, as moléculas apresentam movimentos de rotação em torno de si e também de vibração, de suas ligações e das nuvens eletrônicas de seus átomos. A maneira que este calor se manifesta em cada espécie no ambiente varia de acordo com suas propriedades. Um aspecto bastante relevante é seu estado físico: moléculas de gás podem se mover livremente no ambiente no qual se encontram, realizando os mais diversos tipos de movimentos. Já no caso do líquido, há algumas ligações entre as moléculas que não permite movimentação livre, mas estas ainda podem apresentar movimentos de translação, mesmo que limitados. No caso dos sólidos, os movimentos de translação e rotação são bastante limitados, sendo mais recorrentes om movimentos de vibração. 17 Revisão ConCeitual │ uniDaDe i figura 3. agitação térmica das partículas. quadro esquerda: sólido; quadro central: líquido; quadro direita: gás. fonte disponível em: <https://www.physics.utoronto.ca/~jharlow/teaching/everyday06/reading10.pdf>. A temperatura se refere à energia média das partículas no meio. Um corpo que contenha um maior número de moléculas pode apresentar maior energia total do que um corpo com menos moléculas que apresente maior temperatura, pois, apesar da energia média das moléculas ser maior, a soma das energias do primeiro é maior do que a do segundo. difusão Suponha que algumas moléculas de uma substância sejam adicionadas em meio a outra, de forma que elas se misturem livremente. No momento inicial, as moléculas que adicionamos estão em uma determinada região do espaço, enquanto as moléculas do meio ocupam outros espaços em seu entorno. Considerando a agitação térmica, todas as moléculas estão se movendo de forma aleatória. Se não há preferência para a movimentação de moléculas específicas, certamente algumas moléculas adicionadas na solução se moverão para regiões da mistura mais distantes do ponto no qual foram adicionadas, como se pode ver na Figura 4. Em uma questão quantitativa, percebemos que, nos pontos de maior concentração destas moléculas, mais rapidamente elas se misturam no meio no qual foram inseridas, conforme descreve a Lei de Fick, apresentada na Figura 5. Como se pode imaginar, isso varia também de acordo com a natureza da molécula e a temperatura do sistema. figura 4. transporte de matéria por difusão. fonte: composição das seguintes imagens disponíveis em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/12/diffusion. svg>; < https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f9/Blausen_0315_diffusion.png>. 18 UNIDADE I │ REvIsão CoNCEItUAl figura 5. lei de fick. Em nosso escopo de estudo, não será necessário realizarmos cálculos desta natureza, mas esta equação pode ser vista como um resumo do parágrafo anterior: o fluxo de matéria (J) é proporcional a uma constante (D, constante de difusão) e a diferença de concentração da espécie (n) ao longo do espaço (x). O valor negativo da equação mostra que o movimento das moléculas se dá do local de maior concentração para o local de menor concentração. transporte Pneumático Agora, consideremos um material fluido dentro de um tubo, de forma que uma das extremidades apresente uma pressão positiva em relação à outra. A pressão provoca força no fluido que o move em direção à região de menor pressão. O modo que este fluido se desloca depende da velocidade em que se move, bem como de propriedades do fluido e da tubulação, podendo ser classificado como laminar, turbulento, ou uma transição entre ambos. Nas técnicas cromatográficas de separação, o fluxo ocorre de modo laminar. Nele, o fluido se desloca de maneira ordenada e faz com que suas moléculas sigam paralelamentea parede do tubo. Em função das propriedades coligativas, ou seja, interação entre as moléculas, estas mais próximas à parede dos tubos se moverão mais lentamente do que aquelas em seu centro, conforme ilustrado na figura 6: figura 6. Perfil de fluxo laminar. fonte: adaptado (redesenhado a partir) de disponíveis em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/8a/fig.1_ velocity_flow_profile.Gif>. Migração A migração é a forma de transporte de moléculas sob ação de um campo elétrico, fenômeno explorado na Eletroforese Capilar. Espécies contendo carga positiva ou 19 Revisão ConCeitual │ uniDaDe i negativa são atraídas por polos opostos, seja negativa ou positiva, e possuem velocidades diferentes de acordo com sua carga e seu tamanho. Particularidades a respeito da migração de moléculas, bem como o fluxo de um fluido sob campo elétrico em uma tubulação, serão discutidos posteriormente. O comportamento da matéria depende de algumas características intrínsecas de átomos e moléculas. Por meio do conhecimento de algumas destas características, podemos entender melhor seu comportamento e as transformações que estas sofrem. Equilíbrio químico Todos os processos físicos e químicos comentados na seção anterior possuem uma forma pela qual ocorrem. O modelo de equilíbrio reversível é um aspecto central na ciência hoje, e entendê-lo e intuí-lo é essencial em ciências naturais. Ainda que o leitor já conheça esse assunto, sempre é relevante revisitá-lo. Para melhorar a compreensão sobre o assunto, vamos considerar uma situação hipotética completamente diferente: um estacionamento. A todo o momento, há carros entrando e saindo do estacionamento, e comumente um mesmo carro entra e sai diversas vezes em um mesmo estacionamento ao longo do tempo. Contudo, podemos considerar uma condição regular na qual a quantidade de carros dentro do estacionamento é constante. É importante frisar algo neste modelo: se você contabilizar o movimento dos estacionamentos pelo número de veículos estacionados, terá a impressão de que praticamente nada acontece em função do tempo, visto que o número de veículos não varia. No entanto, a dinâmica do estacionamento ocorre justamente pelo movimento de entrada e saída de veículos, sendo o número de carros em ambas as portas iguais em uma situação de equilíbrio. figura 7. estacionamento de carros em analogia a equilíbrio químico. fonte: composição e adaptação das seguintes imagens disponíveis em: <https://pixabay.com/pt/carro-de-corrida-ferrari- red-296772/>; < https://www.goodfreephotos.com/vector-images/blue-car-vector-graphic.png.php. https://pixabay.com/pt/ carro-de-corrida-carro-cinzento-303766/>. 20 UNIDADE I │ REvIsão CoNCEItUAl Ainda neste modelo, se soubermos o número total de carros que frequenta o estacionamento, podemos inferir o tempo médio que cada carro passa estacionado em um dado período, pela razão entre o número de carros estacionados e o de carros totais. Podemos imaginar que é de interesse do proprietário aumentar o número de clientes, ou seja, de carros estacionados em seu estacionamento. Para tanto, são oferecidas condições diferenciadas de pagamento e/ou benefícios, para que mais pessoas venham ou que voltem mais vezes. Nesse caso, continuam entrando e saindo pessoas do estacionamento, mas haverão mais vagas ocupadas. É possível até pensar que, se há mais pessoas na cidade, o estacionamento tende a estar cada vez mais cheio. Agora vamos considerar que está ocorrendo, aos poucos, um êxodo da cidade. Com moradores saindo da cidade, a quantidade de pessoas no estacionamento é cada vez menor. Em uma situação extrema, em que todos saíssem da cidade, não haveria mais ninguém para parar o carro neste estacionamento. Um químico poderia descrever a situação acima com uma equação envolvendo veículo (Ve) e vaga (Va) como se fossem reagentes (I), ou ainda, como se fosse a “mudança de estado” do veículo, de uma forma estática (sólida) para uma forma fluida (líquido)(II) figura 8. equação de equilíbrio de estacionamento. ��(�) � ���(�) �� �����(�) ��(�) �� ���(�) As comparações não param por aí. As influências externas no número de vagas ocupadas também possuem contrapartida em nível molecular, como a temperatura, a pressão ou até mesmo o transporte das moléculas. Agora vamos ver a similaridade com um sistema químico. Considere, novamente, um recipiente com água pura, fechado, cheio à metade. Parte da água está, a todo momento, se tornando vapor de água, enquanto parte do vapor condensa novamente na superfície da água (III): figura 9. equilíbrio de vaporização da água. Percebe-se que a equação acima muito se assemelha com a equação do equilíbrio no estacionamento. Agora, bem como os carros, será que conseguimos favorecer o “estacionamento” das moléculas de água no recipiente, ou, até mesmo, “espantá-las”? Coloque o recipiente fechado com água na geladeira. Após algum tempo, verá que a parede de seu recipiente ficou embaçada, com água condensada, logo, aumentamos o 21 Revisão ConCeitual │ uniDaDe i número de moléculas de água “estacionadas”. O efeito contrário também é relevante: se aquecer o recipiente, verá menos água condensada. Por outro ponto de vista, podemos dizer que a água líquida sempre forma vapor de água, com mais ou menos intensidade de acordo com a temperatura. Esse líquido, ao formar vapor, gera um gás que exerce pressão no sistema, denominada pressão de vapor. Quando esta temperatura é relativamente alta, a pressão exercida se iguala a pressão do ambiente, e a formação de líquido é desfavorável. Esta temperatura é denominada ponto de ebulição. Agora, se o recipiente for aberto e deixado por dias, especialmente em local bem ventilado, a água começará a sumir. Esse é o “êxodo” da água para fora da “cidade” (recipiente), podendo, em caso extremo, “esvaziar o estacionamento” (secar o recipiente). Vamos considerar esta outra reação química, a dissociação do ácido acético: figura 10. equilíbrio de dissociação do ácido acético. De acordo com o modelo discutido, podemos prever que a proporção entre a formação do ácido acético (CH3COOH) e do acetato (CH3COO -) pode ser deslocada por meio da concentração de H+ na solução, favorecendo a formação da espécie com carga em menores concentrações de H+. Na prática, isso pode ser equacionado pela lei de ação das massas, que diz que a razão entre os produtos de reação (multiplicados entre si) e dos reagentes (multiplicados entre si), chamada constante de equilíbrio é constante, e varia de acordo com cada reação. figura 11. lei de ação das massas para dissociação do ácido acético. � � [� �] � [�������] [�������] Vamos entender melhor, numericamente, como funciona este sistema. Para esta reação, neste meio, a equação apresenta valor de K constante, de forma que o produto entre [H+] e [CH3COO -] é igual ao produto entre K e [CH3COOH] (o que pode ser verificado manipulando a equação). Se, por exemplo, o valor de [H+] aumenta, o valor das outras espécies em solução variam de forma que os produtos indicados sejam respeitados. Consideremos, agora, que o K para a equação acima seja 1,8.10-5 mol.l-1, e que tenham sidos adicionados inicialmente 0,1 mol.l-1 de ácido acético em solução. Qual será a concentração de [H+] presente da amostra? 22 UNIDADE I │ REvIsão CoNCEItUAl Para melhor entendimento deste tipo de processo, recomendo fazer a tabela a seguir. Abaixo da reação química, são colocadas três linhas: as concentrações iniciais no sistema, o que se espera formar para atingir o equilíbrio, e o estado final. tabela 1. Cálculo da dissociação do ácido acético. CH3COOH H+ CH3COO- Inicial 0,1 0 0 Formado - x + x + x Final 0,1 - x x x fonte: autor. neste caso, note que a tabela é montada de acordo com os dados descritos nos parágrafos anteriores. Para descobrir o valor de [H+] em solução, basta substituir cada elemento pela linha final, de modo que a equação resolvida para x resultará no valor desejado: figura 12. equacionamentoda dissociação do ácido acético. 1,8 ∙ 10�� = � ∙ �0,1 � � Essa equação pode ser resolvida como um polinômio de segundo grau. No entanto, como esta constante é muito mais baixa do que a concentração de ácido em solução (0,1 > 1,8.10-5), podemos simplificar o termo (0,1 - x) como sendo 0,1. Neste caso: figura 13. Concentração de H+ decorrente da dissociação do ácido acético. �� = 1,8 ∙ 10�� ���� = � = 1,� ∙ 10����� ∙ l�� Como saber quando posso simplificar a equação conforme mostrado? Quando houver dúvida, pode-se fazer uma conta simplificada e, posteriormente, repete-se a conta considerando o valor encontrado para x, ou seja, ao invés de considerar 0,1, considerar-se-ia 0,0987, aproximando o resultado para o valor mais próximo do verdadeiro (que, neste caso, é o mesmo para o grau de precisão que temos nesse cálculo). Perceba que, quando a solução de ácido acético é colocada em 0,1 mol.l-1 em solução, forma-se 0,0013 mol.l-1 de base dissociada (acetato). Podemos dizer, nesse caso, que a fração dissociada, ou o grau de dissociação (α) do ácido acético nestas condições, é igual a 1,3% (0,0013/0,1). Agora vamos considerar uma situação diferente: se houver 0,1 mol.l-1 de [H+] junto a quantidade de ácido inicialmente adicionada, qual vai ser a concentração final de acetato? Vamos realizar o cálculo utilizando a tabela novamente (Tabela 2). 23 Revisão ConCeitual │ uniDaDe i tabela 2. Cálculo da dissociação do ácido acético em presença de íons H+ CH3COOH H+ CH3COO- Inicial 0,1 0,1 0 Formado - x + x + x Final 0,1 - x 0,1 + x x fonte: autoria própria. neste caso, note que a tabela é montada de acordo com os dados descritos nos parágrafos anteriores. Prosseguindo os cálculos: figura 14. equacionamento da dissociação do ácido acético em presença de íons H+. 1,8 ∙ 10�� = �0,1 � �� ∙ �0,1 � � ��������� = � = 1,8 ∙ 10����� ∙ l�� Perceba que, quando há íons H+ inicialmente presentes na solução, a formação de íons acetato é inibida, sendo seu grau de dissociação, neste caso, inferior a 0,1%. Isso mostra que a composição do meio pode influenciar na dissociação de espécies da solução. A relevância deste fato será apresentada a seguir. Quando discutimos a reatividade química de soluções aquosas, é fundamental sempre termos em mente equilíbrio de dissociação da água: figura 15. equilíbrio de dissociação da água. ��� � �� � ��� � � [���] = �� = [��] � [���] = 10��� É comum esta equação ser manipulada matematicamente, calculando-se o negativo do logaritmo ao lado de cada um dos valores, para simplificar cálculos posteriores: figura 16. negativo do logaritmo do equilíbrio de dissociação da água. ���� ���) = ���� ����]) � ��� �����]) = 14 Substituindo o nome da operação de -log por p, podemos escrever: figura 17. pH e poH . Mesmo que você não tenha estudado esta disciplina antes, já deve ter ouvido bastante se falar sobre pH. Essa importância se deve ao número de equilíbrios e reações que este íon participa, como é o caso da dissociação do ácido acético, discutida anteriormente. 24 UNIDADE I │ REvIsão CoNCEItUAl Vale ressaltar que, também é comum expressar constantes de equilíbrio na forma pK. Neste caso, pode-se dizer, por exemplo, que o pKa para o ácido acético é 4,75. Para cada uma das situações que vimos anteriormente, podemos ver que o ácido acético pode influenciar no pH da solução, bem como o pH da solução pode influenciar na formação de íons dissociados ou da molécula não dissociada. E, claro, em uma mistura mais complexa podem ocorrer mais reações paralelas com íons comuns! Para pensar um pouco: caso eu queira fazer a detecção do íon acetato em uma análise química, seria interessante a solução apresentar pH baixo ou pH alto? Por quê? Vamos considerar agora um exemplo um pouco mais complexo. O ácido carbônico (H2CO3) sofre dissociação parcial formando hidrogenocarbonato (HCO3 -). Este íon, por sua vez, pode se associar novamente ao próton voltando à forma ácida ou dissociar formando carbonato (CO3 -). Dizemos que um composto que pode se comportar como ácido e também como base é um composto anfótero. Os equilíbrios envolvidos seguem a seguir: figura 18. equilíbrio de dissociação do ácido carbônico. Em casos como o do ácido carbônico, o pH da solução influencia completamente na forma que este pode assumir no meio, podendo ser neutro, possuir uma carga, duas cargas, ou mesmo se apresentar como uma mistura de algumas destas formas, dependendo do pH do meio. A composição de uma espécie de acordo com as características ácido-base do meio é frequentemente representada por curvas de distribuição, que indicam o percentual da concentração de cada uma das espécies de acordo com o pH do meio. Podemos ver na figura 19 curvas de distribuição para o carbonato em água. Apesar de parecer um caso bastante específico, espécies que possam sofrer mais de uma ionização de acordo com o pH são bastante comuns na natureza. Dois exemplos muito corriqueiros são as moléculas de proteínas e o DNA. 25 Revisão ConCeitual │ uniDaDe i figura 19. distribuição do ácido carbônico em função do pH. fonte disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/82/Carbonate_Bjerrum.gif>. Além dos equilíbrios supracitados, o ácido carbônico ainda pode formar o gás carbônico, que vai ao estado gasoso e, em sistemas abertos, é liberado da solução, conforme equação da figura 20. Note que a constante está representada na forma do negativo de seu logaritmo, ou seja, o número negativo representa um valor muito elevado para a formação dos produtos. figura 20. formação do gás carbônico a partir do ácido carbônico. Desta forma, quando o carbonato é submetido a um meio bastante ácido, sua protonação gera a formação de gás e liberação dos íons da amostra, mudando não apenas o estado de dissociação dos compostos em solução, mas até mesmo sua composição. Agora mais uma situação: como se comportaria uma solução preparada com 0,1 mol.l-1 de ácido acético adicionada de 0,1 mol.l-1 de íons acetato? Novamente, vamos utilizar a tabela 3. Apesar da inversão das variáveis, temos a mesma equação já resolvida acima para os íons acetato, resultando em 1,8.10-5 mol.l-1 de íons H+. Este resultado também pode ser expresso em forma de pH = 4,75. tabela 3. formação de íons H+ pela dissociação do ácido acético em presença de íons acetato. CH3COOH H+ CH3COO- Inicial 0,1 0 0,1 Formado - x + x + x Final 0,1 - x x 0,1 + x fonte: autor. neste caso, note que a tabela é montada de acordo com os dados descritos nos parágrafos anteriores. 26 UNIDADE I │ REvIsão CoNCEItUAl Esta última solução, contudo, tem uma propriedade bem interessante em seu equilíbrio: perceba que, caso eu realize uma alteração na concentração de H+ neste sistema, tanto o ácido não dissociado quanto o íon acetato irão sofrer reações para manter o equilíbrio do sistema. Vale lembrar que, o efeito também ocorre quando as concentrações de ácido e base dissociada são diferentes, mas possui mais eficiência quando as concentrações são iguais. Por exemplo: quando adicionamos H+ à mistura acima, o íon acetato se consumirá parte dos íons adicionados, ao mesmo tempo em que o ácido não dissociado produzirá novos íons acetato e H+, para manutenção do equilíbrio do sistema. Neste caso, existe uma espécie de amortecimento das alterações de pH desta solução, contrabalanceadas pelo equilíbrio. Outro aspecto interessante é que o pH da solução tamponada nessas condições é igual ao pKa do ácido, o que também indica que metade das moléculas estão ionizadas, ou seja, o grau de dissociação do ácido acético em pH 4,75 é 50% (ou 0,5). Soluções com a característica apresentadas são fundamentais para a prática laboratorial, e são denominadas soluções tampão. A manutenção de pH de forma robusta no sistema permite maior previsibilidade e controle de reações, visto que pequenas alterações de composição do sistema não alterarão seu pH, mesmo que as espécies adicionadas ou removidastenham influência neste equilíbrio. Os princípios estudados para o equilíbrio acima, relativos à dissociação de um ácido (ácido acético) e sua base conjugada (íon acetato), podem ser utilizados para descrever diversos sistemas de reações. Tomemos como exemplo a solubilização do cloreto de prata: quando misturados em solução aquosa, os íons cloreto e prata podem se combinar formando uma espécie sólida, processo representado pela reação da figura 21. figura 21. equilíbrio formação do Cloreto de Prata. ������� ���������� ��� ��������� ↓ O equilíbrio apresentado, da mesma forma que a dissociação de ácido acético, pode ser equacionada conforme figura 22. figura 22. lei de ação das massas para formação do cloreto de prata. � � [�� �] � [���] [����] O cloreto de prata forma uma espécie sólida, de forma que sua concentração no meio pode ser considerada constante. Desta forma, a equação pode ser reescrita conforme 27 Revisão ConCeitual │ uniDaDe i equação XX, sendo que o produto entre a concentração dos íons dissociados será uma constante, denominada constante de solubilidade (Kps). Nesse caso, pode-se dizer que a constante de solubilidade da prata é 1,8 . 10-10. figura 23. Constante de solubilidade. ������� � ������� � ������� ↓ � ∙ [����] = ��� = [���] ∙ [���] = 1,8 ∙ 10��� O cálculo da solubilidade do cloreto de prata em água pura pode ser realizado igualando-se a quantidade de prata e de cloreto na equação, como se mostra na figura a seguir. figura 24. Cálculo da solubilidade do cloreto de prata em água. 1,8 ∙ 10��� � � ∙ �� � � 1,� ∙ �10������ ∙ l�� Um pouco mais de atenção deve ser tomada quando o íon possui mais de um cátion ou ânion. Pode-se considerar a solubilidade do carbonato de prata como exemplo, representada na figura 25: figura 25. equilíbrio formação do Carbonato de Prata. �������� � �������� � ��������� ↓ ��� = ����]� ∙ �����] = 8,5 ∙ 10��� Note que a concentração de íons prata é contabilizada ao quadrado e, quando o carbonato de prata é adicionado a água pura, haverá o dobro da quantidade dos íons de prata do que de íons carbonato em solução. Desta forma, o equacionamento da solubilidade do carbonato de prata em água é feito conforme figura 26: figura 26. Cálculo da solubilidade do carbonato de prata em água. 8,5 ∙ 10��� � ����� ∙ � � � 1,� ∙ �10������ ∙l�� Vale lembrar que, bem como a adição de íons acetato ou de íons H+ influenciam diretamente na concentração de todas as espécies envolvidas no equilíbrio de dissociação do ácido acético, a presença de um íon que influencie o equilíbrio de solubilidade interferirá diretamente na solubilidade de um sal em solução. A isto se dá o nome de efeito do íon comum. A título de exemplo, podemos calcular qual a solubilidade do carbonato de prata em uma solução contendo 0,1 mol . l-1 de carbonato de sódio (Na2CO3). 28 UNIDADE I │ REvIsão CoNCEItUAl figura 27. Cálculo da solubilidade do carbonato de prata em solução com carbonato. ��� = ����]� ∙ ������] = 8,5 ∙ 10��� 8,5 ∙ 10��� = ����� ∙ �0,1 � �� ��� = 8,5 ∙ 10��� � = �,� ∙ 10�� ��� ∙ l�� Note que no cálculo deste exemplo, o valor (0,1 + x) foi substituído por 0,1, de forma a simplificar as operações de cálculo. Vale lembrar que, este procedimento de simplificação, bem como as situações nas quais podem ser aplicadas. O caso do carbonato de prata mostra bem a como a composição do meio pode influenciar como cada espécie se comporta em solução. Além da influência da concentração de carbonato e de prata para a solubilização do carbonato de prata, o pH apresenta um aspecto muito relevante neste meio. Em pHs mais baixos, o carbonato é deslocado para a formação de gás carbônico, tornando a solução menos concentrada de íons carbonato e, consequentemente, aumentando a solubilidade da prata na solução. Perceba que a adição de ácidos na solução, neste caso, é efetiva em solubilizar a prata, mesmo em concentrações maiores de carbonato de prata. Outra reação importante a ser considerada em relação ao pH e a presença de metais em solução é a formação de hidróxidos insolúveis com grande parte dos metais, fazendo com que soluções com metais frequentemente formem sólidos precipitados em pHs mais elevados. A formação de sólidos em reações é aspecto muito importante para a Química Analítica. Existe uma série de reações específicas que possibilitam a quantificação de compostos pela formação de sólidos que podem ser filtrados e pesados. Este é um dos assuntos a serem tratados na unidade que se segue. 29 unidAdE iiMétodoS grAViMétriCoS A gravimetria é uma técnica analítica que se baseia na medida da massa de uma dada substância ou mistura para determinar seu teor em uma amostra. Como já citado anteriormente, a quantidade de matéria é diretamente proporcional a sua massa, de forma que sua medida é suficiente para quantificações. A gravimetria, certamente, é a técnica analítica mais antiga que existe, sendo fundamental para o desenvolvimento da Química e da ciência, de forma geral. Se, por um lado, a evolução científica trouxe ferramentas mais convenientes para substituir a gravimetria em um grande número de análises, ela ainda é fundamental inclusive para a realização de técnicas instrumentais modernas. CAPítulo 1 gravimetria Clássica As medidas de massa foram fundamentais para o desenvolvimento da civilização. Admite-se que a balança tenha origem no Egito antigo, mas sua origem é tão antiga que sua criação é atribuída, por muitas civilizações, aos deuses. Desde a Antiguidade, a balança sempre encontrou emprego nas áreas comercial e econômica de diversos povos (egípcios, babilônios, gregos, etruscos e romanos). Afora esse emprego normal, a balança teve uma conotação mística em algumas civilizações. Por exemplo, as balanças dos antigos egípcios, representadas nos “Livros dos Mortos”, simbolicamente representavam a pesagem do coração do defunto contra o peso da verdade. Conforme as culpas carregadas pelo morto, a balança pendia para o prato do coração (destino, condenação da alma) ou da pena (destino, felicidade eterna). A balança, aqui, tinha uma simbologia associada à justiça. Para os babilônios, a balança simbolizava a igualdade dos dias e das noites, já que o sol entrava na constelação de Libra no equinócio de Outono (quando o dia e a noite tem igual duração). Com efeito, de todos os signos do zodíaco, Libra é o único representado por um objeto: a balança. (AFONSO; SILVA, 2004) De um ponto de vista prático, o controle da pureza do ouro e da prata e a prevenção da falsificação sempre foram de primordial importância para os administradores 30 UNIDADE II │ MétoDos GrAvIMétrIcos das comunidades iniciais. Não é surpreendente, portanto, que os métodos de análise de ouro e prata tenham sido desenvolvidos tão cedo. O procedimento mais antigo conhecido que ainda está em uso hoje, é conhecido como o ensaio de fogo ou cupelação. O ensaio de fogo é um procedimento quantitativo e depende da pesagem da substância a ser testada antes e após o aquecimento. Em 2600 antes de Cristo, na Babilônia, já haviam pesos utilizados como padrão de comparação. Eles eram feitos de pedra, em forma de figura geométrica ou animal, apresentavam inscrições indicando sua massa e também tinham selos sacerdotais. Durante o reinado de Dungi na cidade de Ur (Suméria, 2300 a.C.), formou-se um instituto para o teste de medidas presidido pelos sacerdotes. No sistema babilônico de pesos e medidas, semelhante ao sistema métrico, havia uma relação entre medidas de comprimento, peso e volume. É interessante notar que a unidade de peso da Babilônia era igual a 491,29 g, compatível com a massa da libra francesa antiga que era 489,5 g e a da libra holandesa 492,17 g, enquanto a de Hannover era 489,6 g. A libra inglesa, ainda em uso em algumas situações, equivale a 453,592g. (SZABADVÁRY_F.,1966) O surgimento da Química moderna está intrinsecamente ligado com a realização de análises gravimétricas. Os experimentosde pesagem, em um momento fortalecendo a teoria do flogisto (teoria superada na ciência moderna, na qual alguns corpos, em algumas condições, liberavam um corpo de massa negativa quando queimados), deram base posterior para a teoria da conservação de massa (um dos pilares da Química moderna). Em meio a estudos acadêmicos sobre a matéria, muitos métodos gravimétricos foram desenvolvidos, antes mesmo de se conhecer a relação de proporção entre reações. A precisão das medidas foi aumentando e o conhecimento acerca das reações foi se estabelecendo de forma que a Química Analítica se desenvolveu junto com a teoria que hoje conhecemos. O desenvolvimento histórico da gravimetria a transformou, no início do século XX, na técnica analítica mais recorrente e precisa de sua época, status preservado por décadas. O seu uso mais intensivo só começou a diminuir com o advento das técnicas instrumentais a partir da segunda metade do século XX. Ainda assim, a balança é um dos equipamentos indispensáveis para qualquer laboratório químico. A determinação gravimétrica pode ser realizada de diversas formas. Na questão da determinação da massa propriamente dita, a gravimetria pode ser realizada de forma direta ou indireta. Na medida direta, a medida de massa obtida pelo procedimento realizado fornece o resultado procurado. Por exemplo, a determinação de teor de sólidos em uma suspensão 31 Métodos GraviMétricos │ UNidadE ii pode ser feita por filtragem da amostra em filtro previamente pesado após secagem, resultando na massa final dos sólidos. Na medida indireta, a espécie a ser determinada não é pesada diretamente. Um exemplo é a determinação de umidade de uma amostra sólida. Ao invés de tentar isolar a água do alimento e realizar sua pesagem, a amostra inteira é pesada antes da remoção de umidade e logo após, de forma que o resultado analisado é a diferença encontrada. O conceito de medida direta e medida indireta é recorrente em diferentes tipos de análise, não apenas a gravimetria. Em todos os casos, as medidas diretas representam medida direta do analito de interesse, enquanto a medida indireta se determina a espécie analisada pela medida de algum sinal relacionado. Além da forma de se realizar a medida, os procedimentos de pré-tratamento de amostra são fundamentais na Gravimetria. Os processos físico-químicos realizados para purificar o composto de interesse previamente a pesagem são de grande importância para a qualidade da análise, e serão apresentados a seguir. Em algumas situações, o analito a ser determinado já se encontra presente na amostra de forma que ele possa ser separado por algum processo físico. Neste caso, a Gravimetria de Particulado exige apenas etapas de tratamento de amostras físicas, sendo algumas das abordagens descritas a seguir. Em muitos casos, a separação de analitos sólidos em matrizes fluidas pode ser realizada por meio de filtração. Os filtros podem ser feitos de diversos materiais e com poros de tamanhos variados, escolhidos de acordo com a aplicação. Na determinação de sólidos em amostras gasosas, é possível se utilizar uma sequência de filtros, de modo a realizar uma separação de partículas de acordo com o seu tamanho. Há casos, no entanto, que o analito se encontra em uma forma na qual não pode ser filtrado, seja como, gás, líquido, ou mesmo alguns sólidos. Neste caso, é possível realizar a extração do analito da amostra. Para entendermos este processo, precisamos ter em mente o processo de equilíbrio químico descrito na Unidade I deste curso. Na extração em fase líquida, um solvente ou solução com maior afinidade pelo analito é misturado com a amostra. O analito, inicialmente na fase da amostra, é particionado para o solvente, reduzindo sua concentração na amostra e aumentando no solvente de extração. Em condições favoráveis, o analito pode ser quantitativamente extraído da amostra para o solvente. A quantificação gravimétrica pode ser feita pela diretamente, pela secagem do solvente e posterior pesagem, ou indiretamente, medindo a massa perdida pela amostra após o processo de extração. 32 UNIDADE II │ MétoDos GrAvIMétrIcos figura 28. etapas para extração líquido-líquido. Amostra Adição de solvente Misturar p/ extrair Separar frações Amostra (será pesada se determinação for indireta Extrato (será evaporado e pesado se determinação for direta) fonte: autor. Já na extração em fase sólida, a amostra é colocada em contato com uma superfície sólida. Tal superfície possui afinidade pelo analito de forma que este se adsorve o analito, de forma a extraí-lo do meio original. A quantificação pode ser direta ou indireta, de forma similar a descrita para a extração em fase líquida. Estes processos de extração e particionamento entre fases são fundamentais no tratamento de amostras em Química Analítica, e são utilizados não apenas em gravimetria, mas em diversas técnicas de análise. Como será visto posteriormente, a cromatografia também se baseia em princípios de extração e particionamento entre fases. Em outros casos, é importante tratar a amostra para que o analito a ser pesado seja purificado previamente a pesagem. Em outros casos, o analito pode se encontrar dissolvido em fase aquosa, e precisa ser transformado em um sólido. A gravimetria por precipitação explora a propriedade da solubilidade de substâncias para realizar a determinação. Por meio de reações específicas, íons presentes em solução são precipitados, ou seja, formam sólidos por meio de uma reação química. Um exemplo de procedimento de gravimetria por precipitação é a determinação de íons prata em solução. Para tanto, pode-se adicionar uma solução de cloreto de sódio, provocando a precipitação do cloreto de prata, conforme equação apresentada na figura 29. O precipitado é então filtrado e a quantidade de prata é determinada pela pesagem do cloreto de prata. 33 Métodos GraviMétricos │ UNidadE ii figura 29. Precipitação do cloreto de prata. ��� � ��� � ������� ↓ É importante lembrar que, a massa a ser pesada nesse caso, de cloreto de prata, é diferente da massa de íons prata anteriormente presente em solução. Em todos os casos de gravimetria por precipitação, não se pode esquecer a massa do contra íon precipitado junto à amostra. Para garantir bons resultados na gravimetria por precipitação deve-se tomar uma série de cuidados, explicados abaixo. A não atenção nos aspectos abaixo podem levar a resultados imprecisos na determinação. Para determinação de uma espécie em particular, é necessário que uma reação específica, ou seja, é necessário garantir que a espécie adicionada no meio reaja seletivamente ao analito a ser determinado. Em alguns casos, é possível que haja presença de outros compostos em solução que reajam ou interfiram na reação entre o agente precipitante e o analito. Estes compostos são chamados de interferentes na análise. Na gravimetria, os interferentes podem provocar erros positivos quando o agente precipitante também provoca a precipitação de uma espécie diferente da analisada, gerando uma massa maior do que aquela que seria relativa à formação do composto puro, levando a resultados superestimados (superiores a concentração real na solução). Neste caso, se diz que a espécie provoca interferência positiva. Caso haja algum composto em solução que participe de alguma reação consumindo o agente precipitante ou inibindo a formação da espécie precipitada, a determinação pode ter erros negativos, levando a resultados subestimados (inferiores a concentração real na solução). Neste caso, se diz que a espécie provoca interferência positiva. O conceito de interferente em uma análise pode ser utilizado para qualquer procedimento de análise, no qual o sinal referido (na gravimetria, a massa do analito estudado) pode estar confundido com um sinal indesejado (a massa do interferente). A análise gravimétrica de prata por precipitação utilizando cloreto de prata pode sofrer interferência dealguns outros metais. Neste caso, outros metais podem ser precipitados simultaneamente caso estejam presentes na amostra, sendo os principais, os íons chumbo, cobre (I) (Cu+), paládio (II) (Pd2+), mercúrio (I) (Hg+) e tálio (I) (Tl+). 34 UNIDADE II │ MétoDos GrAvIMétrIcos Em muitos casos, a presença de interferentes pode ser contornada por meio de procedimentos de tratamento de amostras. Por exemplo, o tratamento da amostra pela adição de ácido nítrico concentrado provoca a oxidação de íons metálicos em solução, e elimina a interferência dos íons Hg+, Cu+ e Tl+. A interferência de chumbo, contudo, não pode ser eliminada pela oxidação com ácido nítrico concentrado. Entretanto, a constante de solubilidade do cloreto de chumbo (Kps = 1,7 . 10 -4) é consideravelmente menor do que a do cloreto de prata (Kps = 1,8 . 10 -10), de forma que a influência deste analito pode ser eliminada por meio de diluição adequada da solução, sem comprometer a determinação do cloreto de prata. Outras espécies presentes em solução podem reagir com o analito ou o reagente utilizado de forma a formar uma massa menor do que a esperada sem a presença deste interferente, resultando em interferência negativa. Exemplos de interferentes que causam este efeito para a determinação de prata por titulação com cloreto são o tiossulfato (S2O3 -) e o cianeto (CN-), que formam junto à prata espécies solúveis mais estáveis que o cloreto de prata, levando a não precipitação de parte da prata presente na amostra. Estes íons também sofrem oxidação quando em contato com ácido nítrico concentrado, que elimina esta interferência. Perceba que existem procedimentos que podem ser realizados de forma padrão para tratamento de amostras. Neste exemplo, a adição de ácido nítrico pode ser realizada como medida preventiva para evitar interferências, mesmo que não haja certeza de alguns interferentes na amostra. Já no caso da diluição, deve-se conhecer bem a amostra para que este tratamento seja realizado apenas em caso de necessidade. Em relação à composição da solução, um fator que pode influenciar determinações e muitas vezes não se contabiliza como um interferente é o pH do meio. Frequentemente, os radicais H3O + e OH- participam de equilíbrios secundários em solução, sendo importante atentar se há necessidade de realizar este controle. Como pudemos ver no exemplo apresentado, a presença de interferentes pode ser contornada por meio de reações prévias na amostra, capazes de isolá-los. Em alguns casos, etapas de reação específicas sequenciais permitem a determinação de mais de uma espécie em um mesmo procedimento. Em muitos procedimentos para determinação de mais de um analito são utilizadas algumas reações progressivamente específicas, isolando um analito em cada momento. Nesta situação, a ordem de adição dos agentes precipitantes é fundamental para garantir resultados corretos de análise. 35 Métodos GraviMétricos │ UNidadE ii O tamanho da partícula formada também interfere na análise, sendo necessário garantir um tamanho mínimo de partícula que permita uma filtração quantitativa do material. A formação de um precipitado nestas condições é favorecida pela adição lenta de agente precipitante e aumento da temperatura do sistema. O precipitado, após ser formado nas condições adequadas, segue em sua etapa de filtração. Após passagem pelo filtro, algumas impurezas podem estar presentes no sólido filtrado, sendo necessária uma etapa de lavagem com jatos de solução. Vale lembrar que, a composição da solução utilizada pode influenciar no processo, podendo gerar perdas de analito por ressolubilização ou contaminação do produto final, pela não remoção das impurezas ou, em casos extremos, formação de interferentes durante a lavagem. Após lavagem do precipitado, o filtro deve ser seco antes da pesagem. Esta secagem pode ser realizada em temperatura ambiente ou sob aquecimento, havendo-se o cuidado de não induzir nenhuma reação pelo aumento de temperatura do sistema. Após seco, o filtro é pesado, finalizando a determinação. É sempre fundamental tarar o filtro (ou seja, pesá-lo previamente ao procedimento) para que a medida de massa ao final seja precisa. Outra modalidade deste tipo de análise é a Eletrogravimetria. Nesta, eletrodos são utilizados para a aplicação de um potencial entre a superfície de um deles, previamente tarado, e a solução, de forma a induzir uma reação de formação de um sólido depositado, posteriormente seco e pesado. Outra abordagem deste tipo de análise é a Gravimetria por Volatilização, na qual uma amostra é seca ou decomposta em função da temperatura, e sua variação de massa, ou a massa dos gases formados (capturados via extração em líquido ou sólido) corresponde ao sinal procurado. A gravimetria clássica, conforme exposta, é uma técnica bastante laboriosa que exige elevado grau de treinamento laboratorial para sua realização, mesmo apesar da grande facilidade de operação que as balanças analíticas atuais apresentam. Desta forma, o uso da gravimetria clássica perdeu em grande parte seu espaço para uso de técnicas instrumentais mais modernas. Ainda assim, alguns conceitos e aplicações ainda são essenciais no dia de hoje. A gravimetria é um dos métodos primários de análise, e, salvo a regra, técnicas mais modernas ainda dependem da elaboração de padrões e soluções de concentração conhecida para realizar análises. Nesse contexto, a balança analítica é um instrumento 36 UNIDADE II │ MétoDos GrAvIMétrIcos fundamental em um laboratório químico, e a pesagem direta de reagentes é a base do trabalho analítico, utilizando-se substâncias puras. Uma das características principais das balanças modernas é sua alta resolução. Quando se necessita de resultados com alta resolução, a gravimetria ainda pode ser o método mais preciso em alguns casos. Ainda no início do século XX, a gravimetria por precipitação foi o método utilizado para determinar a massa atômica de dezenas de elementos da tabela periódica, chegando a seis dígitos de precisão. Este trabalho rendeu o prêmio Nobel de Química a Theodore W. Richards, em 1914. Outros procedimentos gravimétricos menos específicos também são amplamente utilizados até os dias de hoje. A determinação de material particulado na atmosfera, filtrado diretamente, é de grande importância em estudos ambientais. Outros exemplos incluem a determinação de sólidos totais em amostras de efluentes, muito utilizada em controle de processos de tratamento, e a determinação de teor de umidade em alimentos. 37 CAPítulo 2 gravimetria instrumental Existem alguns procedimentos muito utilizados em química analítica e forense que, apesar de envolverem o serem envolvidos com a medida de massa de corpos, não estão no escopo da gravimetria clássica e são comentados abaixo. A Termogravimetria (Thermogravimetric Analysis, TGA) é uma técnica instrumental que mede a massa de um corpo após aquecimento em ambiente controlado. O instrumento, apresentado na figura 30, consiste em uma balança de precisão com um prato montado dentro de uma câmara com programação rigorosamente programada de umidade, temperatura e composição de composição de atmosfera. Em alguns casos, outros sensores também são incorporados ao sistema. A fim de entendermos melhor o sistema, vamos entender o funcionamento de cada uma de suas partes, de acordo com a sequência da figura. figura 30. equipamento para realização de análises termogravimétricas. fonte: WHite, J., 2012. Entrada de gás seco (1) A análise termogravimétrica é fortemente influenciada pela atmosfera na qual o experimento é realizado, visto que os compostos presentes na atmosfera durante a rampa de aquecimento podem interagir com a amostra. Desta forma, a composição e o grau de umidade do ar do sistema devem ser controlados. 38 UNIDADE II │ MétoDos GrAvIMétrIcos Controlador de fluxo de ar (2) Para que a análise seja realizada de forma controlada, o fluxo de ar e a geraçãoe misturas do ar puro com eventuais reagentes incorporados à fase gasosa devem ter controle rigoroso em dispositivo dedicado. Nesta parte do equipamento, a vazão do gás seco é controlada para que a composição e o fluxo de gás durante a análise sejam bem estabelecidos. Entrada de gases (3, 4 e 5) Uma vez regulados, diferentes correntes de fluxo de gás seguem para a formação de atmosferas controladas. Neste caso, a presença de três correntes de ar se justificam pela formação de duas correntes de atmosfera controlada, e uma corrente para estabilização do sistema, evitando efeitos como contaminação cruzada. Câmara dupla de geração de vapor (6) Esta parte do equipamento consiste em duas câmaras controladas, nas quais os reagentes em fase de vapor possam ser gerados por meio de volatilização. Por meio deste procedimento, fluxos com composições bem controladas e concentrações bem conhecidas de analitos gasosos são geradas para serem encaminhadas para a câmara de pesagem. Entrada de vapores (7 e 8) Após mistura controlada na câmara (6), são gerados dois fluxos de gás de vapores controlados, que são transportados pelo sistema. Pesagem da amostra (9) Neste ponto, a amostra é colocada em uma balança de grande precisão para monitoramento da variação de massa do sistema em função do tempo. Ela fica em contato com um dos vapores gerados pelo sistema combinado já apresentado, e sua massa é medida em função do tempo. Pesagem da referência (10) De forma a garantir a precisão da medida pelo sistema, é realizada, simultaneamente, a análise gravimétrica de um prato de referência. Desta forma, é possível monitorar variações instrumentais decorrentes do sistema, podendo-se comparar e corrigir variações instrumentais utilizando este valor de referência. 39 Métodos GraviMétricos │ UNidadE ii Câmera (opcional) (11) O monitoramento da amostra analisada pode ser realizado não apenas gravimetricamente, mas com sensores combinados ao sistema. Neste caso, é utilizada uma câmera para avaliar o aspecto da amostra durante a pesagem. Uma câmera é um dispositivo que analisa a reflexão da luz incidida sobre uma amostra, sendo capaz de absorver a luz que lhe é incidida, de forma a registrar a imagem. Este tipo de dispositivo pode apresentar variações, mas é baseado nos mesmos princípios dos equipamentos de espectroscopia. opção de sensor de infravermelho e raman (12) Análises espectroscópicas dos gases formados e das amostras podem ser realizadas paralelamente neste instrumento por meio da incorporação de sensores extras, indicados na representação. O princípio de funcionamento e a aplicação de cada um dos sensores citados (infravermelho e Raman) . Sensores de temperatura e umidade (13) Para garantir um ambiente controlado, é imprescindível a presença de sensores de temperatura e umidade nas câmaras de pesagem, que contabilizam estes parâmetros em tempo real na realização do experimento. Controladores de temperatura e umidade (14) Em muitos experimentos, não apenas é necessário conhecer as condições às quais as amostras são submetidas, mas também garantir que elas estejam em um nível específico para a realização da análise. Tais dispositivos interferem no sistema para garantir a manutenção destes parâmetros. Câmara com temperatura controlada e purga (15) Além das pequenas câmaras onde se realizam as análises, o gabinete do equipamento também é preparado para garantir o controle térmico das análises e a composição da atmosfera. Desta forma, este gabinete possui controle geral de temperatura e purga automática, para a liberação de gases presentes no sistema, para garantir a manutenção dos parâmetros de análise. Todas as programações do equipamento, bem como suas medidas, são monitoradas em função do tempo de análise. Como resultado, obtém-se um gráfico da variação percentual de massa da amostra em função da temperatura, como se pode ver na figura 40 UNIDADE II │ MétoDos GrAvIMétrIcos 20 para a Whewellita (oxalato de calcio monohidratado, CaC2O4.H2O), padrão para verificação de funcionamento do equipamento. Para compreendermos cada fenômeno apresentado, calculamos a massa perdida em cada etapa, e associamos com a perda de massa pela formação de gás. A descrição dos processos de decomposição se apresenta na tabela 4. Diferentemente da gravimetria clássica, a intenção aqui, salvo a regra, não é determinar o teor de algum dos analitos presentes na amostra, mas estudar suas características reacionais em função da temperatura. Isso pode ser interessante tanto em um aspecto físico-químico, para entender propriedades de substâncias, quanto em um aspecto analítico, para entender a composição de uma amostra. Como exemplo em química forense, a termogravimetria é utilizada para identificação de polímeros em resíduos de disparo, podendo os discriminar mesmo quando misturados com silicatos, orgânicos, umidade e carvão animal (IHMS; BRINKMAN, 2004) Além dos aspectos acima expostos, a termogravimetria possui diversas aplicações, necessita de cuidados especiais para a realização das análises, e outros dados comumente também são estudados, por exemplo, entalpias reacionais e análises diferenciais, bem como hifenação com métodos espectroscópicos e outros sensores. Uma abordagem mais completa sobre este tipo de análise foge do escopo deste curso. figura 31. Curva termogravimétrica da Whewellita. fonte adaptada: <https://www.perkinelmer.com/lab-solutions/resources/docs/aPP_decomposition_Calcium%20oxalate_ monohydrate(013078_01).pdf>. 41 Métodos GraviMétricos │ UNidadE ii tabela 4. Reações de decomposição da Whewellita. MM (g/mol) perda M (%) Perda M (g/mol) Composição 146,11 0 CaC 2 O 4 .H 2 O (s) 128,72 11,9 17,39 CaC 2 O 4 .H 2 O (s) à CaC 2 O 4(s) + H 2 O (g) 100,96 19 27,76 CaC 2 O 4(s) à CaCO 3(s) + CO (g) 56,84 30,2 44,13 CaCO 3(s) à CaO (s) + CO 2(g) fonte adaptada: <https://www.perkinelmer.com/lab-solutions/resources/docs/aPP_decomposition_Calcium%20oxalate_ monohydrate(013078_01).pdf. Outro procedimento instrumental que se vale da gravimetria por volatilização é a Análise Elementar CHNS. Nesta, uma amostra orgânica é aquecida sob atmosfera rica em gás oxigênio, formando produtos de decomposição pela queima da amostra. Os gases formados, em forma de óxidos, são coletados e pesados. A detecção, em muitos casos, é realizada por técnicas não gravimétricas. De toda forma, a aplicação do método de decomposição térmica pode ser vista como uma evolução da análise gravimétrica. Outra técnica associada a medidas de massa que se diferencia completamente da gravimetria tradicional é a Espectrometria de Massas (Mass Spectrometry, MS). Esta classe de análises provoca a formação de íons a partir dos componentes da amostra e estes íons são detectados de acordo com a relação entre a sua carga e a sua massa molecular, por vias instrumentais. Apesar do emprego de medidas de massa, esta técnica não guarda relação com a gravimetria apresentada nesta unidade. Apesar de fugir do tema deste capítulo, este método de análise será apresentado na Unidade V desta apostila, por sua grande relevância para detecção em processos de separação cromatográficas e eletroforéticas. 42 unidAdE iiiCroMAtogrAfiA A cromatografia é, indiscutivelmente, uma das principais técnicas analíticas utilizadas atualmente. Explorando a forma única que as moléculas da mistura analisada interagem entre si e com o meio em que se encontram, é possível separar eficientemente componentes em uma mistura complexa. CAPítulo 1 Aspectos gerais e cromatografia planar A cromatografia pode ser vista como uma evolução dos antigos métodos de tratamento de amostras. Tais métodos, como a filtração para remoção de contaminantes são descritos em trabalhos gregos e egípcios, além da Bíblia. Alquimistas também utilizavam métodos como a extração, destilação e amalgamação. Os efeitos resultantes da “adsorção” foram descritos no século 16 paraum processo de preparação de vinho branco a partir de vinho tinto. No século 19, alguns cientistas aplicaram diferentes sólidos para “filtração”, remoção de algumas componentes ou fracionamento de líquidos, enquanto outros fizeram esses fracionamentos em papel. As primeiras separações realizadas em papel foram realizadas em 1834, visando a identificação da “composição” de sais inorgânicos, sendo a obra publicada em 1855. Também no meio do século 19 introduziu-se separações realizadas em tiras de papel, utilizando desenvolvimento, já na época atribuído à “ação capilar”, comparando o fenômeno a forma que a seiva ascende em uma árvore. Trabalhos publicados na metade do século XIX, independentemente por dois pesquisadores, já descreviam processo de troca iônica, na qual a amônia presente em urina de vaca era trocada por potássio quando passada por uma zeólita natural. Separações utilizando desenvolvimento circular e água como solvente, com uma camada de gelatina depositada sobre vidro foram descritas em 1889. Em 1893, sais inorgânicos foram separados utilizando passagem de água por caulim. Técnicas de fracionamento de petróleo, desenvolvidas na Alemanha e nos Estados 43 Cromatografia │ UNiDaDE iii Unidos, utilizavam um produto natural de silicato de alumínio e magnésio e soluções de petróleo e éter de petróleo em eluição ascendente, processo hoje denominado análise frontal. Neste momento, realizavam já as coletas de frações separadas, sendo capazes de identificar a origem de amostras de petróleo. Essas separações, cuja compreensão físico-química não era plena na época, são explicadas pelos mecanismos de separação cromatográficos, que vieram a ser propostos apenas no início do século XX, com os trabalhos de Tswett M.S., que reconheceu mecanismos de adsorção como responsáveis pela separação e cunhou, pela primeira vez, a palavra cromatografia, motivos pelos quais o tornam reconhecido pela criação do método de separação. Tswett descreveu um processo que, hoje, é chamado cromatografia líquido-sólido em coluna seca, na qual a solução da amostra é colocada no topo de um sólido seco (no vocabulário de hoje, uma fase estacionária) contido dentro de um tubo de vidro. Aparentemente, nesses experimentos de Tswett, a solução inicial, contendo a amostra, encontrava-se relativamente diluída, pois algumas bandas distintas já eram evidentes somente com a passagem dessa solução. Após a passagem do solvente no qual a amostra estava dissolvida, iniciou-se a passagem do solvente puro (no vocabulário de hoje, uma fase móvel). Várias fases móveis apolares foram testadas e a melhor foi o dissulfeto de carbono. A separação foi sinalizada pelas bandas de diferentes cores que apareceram e a passagem da fase móvel foi cessada quando as substâncias se separaram, sem serem eluídas da coluna. Nenhum dos trabalhos de Tswett descreveu a etapa de eluição como o termo é empregado hoje. O isolamento das substâncias separadas foi feito empurrando o sólido para fora da coluna, separando as bandas de cor diferente com uma espátula, e extraindo com um solvente adequado a(s) substância(s) contida(s) nas bandas, para obter o seu espectro de absorbância no UV-visível. Em trabalhos publicados em 1906, Tswett já propunha um mecanismo de separação baseada na adsorção diferenciada de cada composto a matriz sólida (fase estacionária), eluída (ou desenvolvida) com a passagem de solvente, carregando compostos com menos afinidade pelo sólido por distâncias maiores. Nestes trabalhos, além do termo “cromatografia”, o pesquisador também descrevia o resultado do processo de separação como “cromatograma”, na época formado pelo desenho dos compostos separados na coluna, visualizados de maneira similar a separação em calada planar (a ser apresentada posteriormente neste curso). Hoje, o título de “pai” da cromatografia é atribuído a Tswett, sendo muitos de seus trabalhos muito influentes a uma série de pesquisadores que seguiram por este caminho para separação de compostos durante as décadas posteriores. As separações, 44 UNIDADE III │ CromAtogrAfIA neste momento, ocorreram especialmente utilizando fase sólida, até por conta desta influência direta. Apesar de seu grande reconhecimento hoje em relação a isso, Tswett não pode experimentar este reconhecimento em vida. Por outro lado, a data das primeiras separações empregando um dos processos que hoje compõem as técnicas chamadas “cromatografia”, nas quais se aplica uma amostra com seus diversos componentes dissolvidos em uma fase móvel e percorrê-la por meio de uma fase estacionária, ocorrendo a separação devido à migração diferencial, encontra- se realmente perdida na Antiguidade. (COLLINS, 2009) Mas, afinal, como ocorre a cromatografia? De que forma o método é capaz de explorar as interações intermoleculares para diferenciar componentes de uma amostra? Apesar de haver uma grande variedade de cromatógrafos no mercado, a cromatografia pode ser realizada, salvo a regra, de duas formas: planar e em coluna. As diversas variedades de cromatografia podem ser vistas na figura 32. Vale ressaltar que há, dentro destas categorias, diversas modalidades de cromatografia que podem ser realizadas, sendo algumas essenciais para a prática analítica e forense. Estas serão apresentadas ao decorrer do texto. figura 32. Classificação dos tipos de cromatografia. Cromatografia Planar Cromatografia em Papel Cromatografia em Camada Delgada (CCD) Thin Layer Chromatography (TLC) Coluna Cromatografia a gás (CG) Gas Chromatography (GC) Cromatografia a líquido Tradicional Cromatografia a Líquido de Alta Eficiência (CLAE) High Performance Liquid Chromatography (HPLC) Fluido Supercrítico fonte: adaptado de Collins, C.H., 1995. Nas cromatografias planares um suporte sólido como o papel ou sílica em pó depositada sobre uma placa de alumínio é utilizado como substrato para separação cromatográfica. Uma alíquota da amostra é depositada sobre esta superfície, e em sua 45 Cromatografia │ UNiDaDE iii extremidade é colocada em contato com um solvente ou uma mistura, de forma que ela seja absorvida pelo suporte, passando pela amostra. Quando este processo se inicia, o líquido flui pela superfície, “arrastando” a amostra para uma de suas extremidades (processo chamado de eluição). Este é o momento em que a separação ocorre: cada componente da amostra se move diferentemente. figura 33. Processo de separação por Cromatografia planar. fonte disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/file:tlc_sequence.svg>. O processo na cromatografia em coluna é comparável e se baseia nos mesmos princípios físico-químicos. No entanto, sua realização é implementada de forma diferente, como será visto nos próximos parágrafos. Uma das formas mais simples de cromatografia, e ainda muito comuns em laboratórios químicos de síntese orgânica, se realiza da seguinte maneira: um tubo com extremidade afunilada é recheado com um pó inerte (frequentemente sílica) com auxílio de uma solução e colocado com a ponta para baixo, e a amostra é colocada na parte de cima, seguindo-se adição de solução. A eluição do líquido, agora para baixo, provoca eluição sequencial dos compostos presentes na amostra. O processo é esquematizado na figura 34. figura 34. Cromatografia em coluna. fonte disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/file:Column_chromatography_sequence.png>. Esta forma de cromatografia, ainda muito utilizada para fins preparativos, não é prática para realização rotineira de análises. Os cromatógrafos, quase onipresentes em laboratórios químicos, são capazes de realizar este processo com maior eficiência e 46 UNIDADE III │ CromAtogrAfIA rapidez. Para entender seu funcionamento, conhecer as partes essenciais presentes em um cromatógrafo, apresentadas na figura 35. figura 35. Partes principais de um cromatógrafo. Fase Móvel Fase Estacionária Detector Injetor fonte: autoria do autor, composição e adaptação dasseguintes imagens, disponíveis em: <https://pixabay.com/ pt/tubo-fluido-l%C3%adquido-laborat%C3%B3rio-305154/. https://pixabay.com/pt/erlenmeyer-qu%C3%admica- bal%C3%a3o-297345/>; <https://commons.wikimedia.org/wiki/file:signal_processing.png>. Podemos identificar, em qualquer cromatógrafo, estas quatro partes: Injetor: este é o ponto no qual ocorrerá a injeção da amostra a ser analisada. A forma de realizar a injeção variará de acordo com a configuração do experimento a ser realizado, sendo em alguns casos possível fazê-la de forma manual ou automática. Fase móvel: se trata de uma substância ou composto fluído, gás ou líquido, dependendo do tipo de cromatografia, que será propulsionado pela fase estacionária, sendo o modo de propulsão variável de acordo com o tipo de cromatografia. Bem como a fase estacionária, irá interagir diretamente com a amostra e pode ter composições diversas, a serem otimizadas de acordo com a análise a ser realizada. Fase estacionária: se trata de um substrato sólido ou líquido imobilizado, com o qual a amostra irá interagir durante a análise. Sua forma e composição varia enormemente de acordo com o tipo de cromatografia e o tipo de amostra a ser analisada, de forma a otimizar a análise esperada. Detector: a amostra, após processo de separação, precisa ser observada de alguma forma. O detector é um instrumento de análise química capaz de mensurar alguma propriedade da(s) substância(s) de interesse. A sua montagem e princípio de funcionamento pode variar de acordo com a técnica utilizada e a aplicação a ser realizada. Neste caso, a amostra é inserida no injetor. Ela começa a ser carregada pela fase móvel, fluindo pela fase estacionária. Os componentes da amostra começam a interagir tanto com a fase móvel quanto com a fase estacionária, de acordo com a sua estrutura em com a de cada um de seus componentes. Durante a eluição os compostos passam pelo detector, em um momento definido, sendo identificados e quantificados. 47 Cromatografia │ UNiDaDE iii Apesar de instrumentalmente diferentes, todas as partes e fenômenos presentes na cromatografia planar podem ser observados na cromatografia em coluna, e vice-versa, como pode ser visto na tabela a seguir: tabela 5. Correspondência das partes entre um cromatógrafo de coluna e cromatografia. planar. Coluna Planar Injeção Deposição da amostra sobre placa. Fase Móvel Solvente ou mistura descrita. Fase Estacionária Suporte Sólido. Detector Observação Visual. fonte: autor. Agora vamos olhar com mais atenção no processo de separação. Vamos considerar uma substância A particionando-se no meio, em equilíbrio entre a fase estacionária e a fase móvel. figura 36. equilíbro de particionamento entre fases. A proporção entre as concentrações das moléculas em cada fase é dependente das estruturas e das propriedades desta molécula, bem como da fase estacionária e da fase móvel. Esta proporção é sempre a mesma quando as espécies são submetidas às mesmas condições de separação, e é chamado de coeficiente de partição, representado na equação da figura 37: figura 37. Coeficiente de partição. �� ⇌ ���� ���� Para entender o processo cromatográfico, é imprescindível nos lembrarmos da natureza dinâmica do equilíbrio. Apesar da proporção entre as concentrações ser sempre a mesma, as moléculas presentes em cada fase mudam a cada instante. Como no exemplo da garagem, o número de carros estacionados tende a ser o mesmo, mas os carros presentes no estacionamento sempre variam. Desta forma, para manter a proporção do coeficiente de partição e considerando que todas as moléculas das substâncias participam do equilíbrio, pode-se dizer que a proporção de tempo que cada molécula passa em cada fase (estacionária e móvel) é constante. Ora, considerando o movimento das fases (móvel e estacionária), a substância que tiver menor interação com a fase estacionária e/ou maior interação com a fase móvel se moverá mais rapidamente. 48 UNIDADE III │ CromAtogrAfIA O resultado observado frente a este fenômeno é um maior deslocamento espacial dos compostos em cromatografias planares, e um tempo diferente de detecção para a cromatografia em coluna. Vez que o processo de detecção e interpretação dos resultados é um aspecto central das técnicas da cromatografia (e da eletroforese capilar, explicada na próxima unidade), trataremos com mais atenção destes aspectos na Unidade V. A grande variedade de métodos cromatográficos existe pela grande variedade de problemas e amostras que possuímos no mundo real. Diferentes analitos em diferentes amostras precisam de processos diferentes para serem analisados, explorando propriedades físico-químicas diferentes de cada substância. Desta forma, seguimos o texto apresentando um pouco sobre cada um dos principais métodos cromatográficos, de modo a justificar qual tipo de amostra e analito ele pode lidar e quais parâmetros ela permite que sejam trabalhados para potencializar a separação entre as substâncias. 49 CAPítulo 2 Cromatografia a gás Na Cromatografia a gás (Gas Chromatography, GC), a fase móvel se trata de um gás inerte e a fase estacionária é uma coluna em sistema com temperatura precisamente controlada. É uma técnica desenvolvida para análise de misturas gasosas ou voláteis, e é apresentado na figura 38. De forma geral, o cromatógrafo a gás possui as mesmas partes descritas na figura 35, sendo a fase móvel um gás inerte, que fluirá pela coluna, que é a fase estacionária. Contudo, o equipamento possui algumas características específicas que serão abordadas nos próximos parágrafos. A regulagem da vazão se dá pela presença de um regulador de fluxo de gás. Ele também possui um injetor preparado para lidar com amostras gasosas ou voláteis. Além disso, vemos um forno de temperatura controlada termostatizado praticamente todo o sistema. Vamos entender a importância de cada parte do instrumento, bem como suas particularidades, e os princípios químicos envolvidos. gás de arraste O gás de arraste utilizado na cromatografia a gás tem função principal de transportar as espécies a serem separadas para o detector. Lembrando que gases não apresentam fortes interações moleculares, o gás não influenciará pouco nos parâmetros de separação, sendo desejável então que este seja inerte e puro. A escolha do gás, contudo, é bastante relevante de acordo com o detector a ser utilizado. Tais aspectos serão discutidos na Unidade V desta apostila, dedicada a detecção e tratamento dos dados de análise. injetor A injeção da amostra na cromatografia a gás é uma etapa de grande influência na qualidade da análise. Primeiramente, deve-se garantir que a amostra esteja em fase gasosa quando inserida na coluna, para evitar que esta sofra danos. A quantidade de amostra também é crítica, sendo que a volumes muito grandes de amostra podem exceder a capacidade da coluna, e variações na quantidade injetada podem influenciar até mesmo no tempo e qualidade da análise. Considerando que esta análise é utilizada para fins qualitativos e quantitativos, é necessário garantir, pois, o máximo de reprodutibilidade no processo de injeção. 50 UNIDADE III │ CromAtogrAfIA figura 38. Representação esquemática de um Cromatógrafo a Gás. fonte disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/file:schemaGaschromatograph_dutch.png>. Os injetores cromatográficos podem assumir formas diferentes. Uma das mais comuns, o injetor split/splitless, é apresentada na figura 39. Ele possui um septo, pelo qual a amostra será inserida utilizando-se uma agulha. A amostra é inserida em uma câmara de volatilização, aquecida a uma temperatura controlada para garantir que a espécie se encontre em estado gasoso quando inserida na coluna. Nesta câmara há três portas para fluxo de gás: a entrada do gás de arraste, a entrada da coluna e uma saída para descarte de amostra (Válvula Split). Quando a válvula split está fechada, toda a amostra injetada é inserida na coluna. Porém, em casos que é necessárioinjetar um volume muito pequeno na coluna, esta válvula é regulada de forma a inserir na coluna uma quantidade controlada e reprodutível de amostra. O sistema possui também uma purga do septo, para impedir que algum resíduo indesejado do septo se mistura à amostra. Em alguns casos, tratamentos prévios são realizados com a amostra para análise de seu conteúdo volátil. Na técnica por headspace, uma amostra líquida é aquecida em recipiente fechado com septo, sendo coletada a fração gasosa em sua parte superior, conforme mostra figura 40. Quando realizada manualmente, a amostra é injetada utilizando-se uma seringa. Visto que os volumes de injeção geralmente são pequenos (podendo chegar até a 1 microlitro), é necessário realizar o procedimento de maneira bastante cautelosa, tomando-se o cuidado de injetar o volume precisamente e de maneira rápida, para que a inserção de material no sistema seja o mais pontual possível, favorecendo o processo de separação. 51 Cromatografia │ UNiDaDE iii figura 39. injetor do tipo Split/Splitless. Entrada Gá́s de Arraste Bloco Termostatizado Tubo de Vidro Septo Purga do Septo Válvula Split Câmara de Volatilização Coluna fonte disponível em: adaptado de https://commons.wikimedia.org/wiki/file:splitinj_copy.jpg. figura 40. Pré-Concentração por headspace. fonte: composição e adaptação das seguintes imagens, disponíveis em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/ file:Headspace_vial.Gif>; <https://commons.wikimedia.org/wiki/file:insulin_syringe_in_disassembled_form.jpg>. Outra técnica comum de injeção com pré-tratamento de amostra é o Purge and Trap. Nesta, a amostra é purgada com gás inerte, de forma a deslocar o equilíbrio de solubilização de todos os voláteis dissolvidos para a fase gasosa. Esta fração gasosa então é succionada para um tubo resfriado, frequentemente contendo alguma superfície que favoreça a retenção dos analitos em baixa temperatura. Este tubo, agora contendo os analitos, é então colocado em linha no sistema e aquecido, de forma a liberar os analitos, que são inseridos na coluna. Para aumentar a reprodutibilidade da injeção, especialmente quando tratamentos de amostras como o headspace e o Purge and Trap são realizados, existem equipamentos automatizados para injeção de amostra. Ainda assim, existem métodos experimentais possíveis para corrigir eventuais problemas de reprodutibilidade, a serem apresentados na unidade V. 52 UNIDADE III │ CromAtogrAfIA regulador de fluxo de gás O fluxo de gás influencia diretamente no tempo de análise e na qualidade da separação, interferindo em alguns aspectos da separação cromatográfica. Fluxos muito altos, que são capazes de eluir a amostra rapidamente, não permitem que haja tempo de contato suficiente entre fase estacionária e analito, de forma a diminuir a resolução da separação. Por outro lado, fluxo muito baixo de gás de arraste torna o tempo de análise muito longo, o que é indesejável também não só pelo tempo de análise em si, mas também por permitir que os compostos sofrem dispersão ao longo da separação por conta de efeitos de difusão, o que também torna a separação menos eficiente. A situação acima nos induz a pensar que deve existir um fluxo de gás para que a separação seja ótima. Esta situação pode ser descrita pela equação de Van Deemter, que relaciona a altura de um prato teórico (H) em função de parâmetros intrínsecos do sistema (A), do coeficiente de difusão dos analitos eluídos (B), da resistência à transferência de massa dos analitos entre as fases (C), e da velocidade do fluxo da fase móvel (u) conforme apresentado abaixo. figura 41. equação de van deemter. O conceito de altura de prato teórico (H) envolve modelos mais pormenorizados da separação cromatográfica, não fazendo parte do escopo deste texto. O que é importante entendermos agora é que esse termo é inversamente proporcional à eficiência de separação dos compostos no sistema. Em suma, quanto menor for H, melhor a separação entre meus componentes no procedimento cromatográfico. Dito isso, podemos interpretar a equação de Van Deemter da seguinte forma: há um fator intrínseco da qualidade da separação que independe do fluxo (A), e os fatores inversa (B) e diretamente (C) proporcionais a velocidade de fluxo. Como podemos ver no gráfico de H em função de u apresentado na figura 42, há um ponto de mínimo, que corresponde ao fluxo ótimo de fase móvel. Uma vez que a ordem de grandeza para cada um dos valores A, B e C é similar na maioria das situações, a vazão do equipamento é otimizada e mantida constante em sua operação, sendo os outros parâmetros de separação otimizados de acordo com cada amostra. 53 Cromatografia │ UNiDaDE iii forno de temperatura programável Para entender o processo de separação do cromatografia a gás, precisamos nos lembrar do conceito de volatilidade, retomado na primeira unidade desta apostila. Uma substância volátil é um gás ou líquido com temperatura de ebulição relativamente baixa. Uma mistura de substâncias voláteis apresenta uma mistura de compostos que exercem uma pressão de vapor diferente sob as mesmas condições ambientes, cada uma delas se distribuindo entre fase gasosa e líquida diferentemente. Essa característica permite sua separação cromatográfica. figura 42. Relação entre altura de prato teórico e vazão de fase móvel. fonte disponível e adaptada: <https://commons.wikimedia.org/wiki/file:van_deemter_equation.png>. O forno do cromatógrafo apresenta controle de temperatura com resolução típica de 0,1°C, podendo estabilizar temperaturas desde 40°C até superiores a 200°C, podendo realizar variação de temperatura (esquentando e esfriando) de maneira bastante controlada em função do tempo. Quando é preciso realizar a separação de compostos de ponto de ebulição muito próximos, o controle da temperatura do forno é essencial. Se a temperatura for muito alta, o comportamento dos compostos se aproxima e eles não conseguem ser diferenciados na separação. Por outro lado, temperaturas muito baixas podem tornar a análise muito lenta ou mesmo deixar compostos retidos na coluna, interferindo análises posteriores. 54 UNIDADE III │ CromAtogrAfIA O uso de rampas ou programas diferenciados de aquecimento permite a otimização de condições para separação de compostos diferentes. Por exemplo, a separação de compostos em uma mistura contendo um grupo de substâncias com baixo ponto de ebulição e outro com ponto alto pode ser otimizada com dois patamares de temperaturas convenientes para cada grupo, e aquecendo o forno em momento intermediário da separação. Coluna Cromatográfica No início do desenvolvimento da cromatografia a gás, as colunas eram tubos recheados com substrato sólido, similar a cromatografia clássica de coluna apresentada no início desta unidade. Este tipo de coluna, ainda utilizada para fins preparativos, deu espaço a colunas capilares nos equipamentos de análise mais modernos. As colunas capilares, em relação às recheadas, possuem claras vantagens para fins analíticos. Seu diâmetro interno, tipicamente apresentam algumas dezenas de micrômetros, lhe conferem um volume interno muito menor, de forma a requererem um volume muito menor de amostra a ser inserida. A fase estacionária nas colunas capilares, que pode ser líquida (Wall Coated Open Tubular column, WCOT) ou sólida (Porous Layer Open Tubular column, PLOT), se encontra nas paredes internas dos capilares, não preenchendo totalmente o tubo. Desta forma, a pressão exercida sobre ela para o fluxo é menor, o que também permite tubos mais longos para a separação. Tais fatores, combinados, aumentam a bastante à eficiência de separação da coluna cromatográfica. Apesar da temperatura ser extremamente relevante na cromatografia a gás, não é o único parâmetro que pode ser otimizado. Apesar de algumas separações serem possíveis apenas explorando o efeito da volatilidade, a interação do material interno da coluna com os compostos eluídospode ser essencial para a separação, atuando como um fator adicional para a mudança de partição entre fase móvel e estacionária. Diferentes colunas, de acordo com suas aplicações, são apresentadas na unidade VI. figura 43. Colunas capilares em Cromatografia a Gás. fonte disponível em: <https://chromatography.co/gc-columns>. 55 Cromatografia │ UNiDaDE iii detector Ao final do processo de separação, alguma propriedade física ou química das substâncias separadas precisam ser medidas, de forma a identificar o composto analisado. Para tanto, um detector é utilizado, e seus resultados são registrados. O tipo de detector utilizado, a resposta esperada de acordo com o analito utilizado, e a forma de se interpretar esta resposta é explicada de forma dedicada na unidade V desta apostila. 56 CAPítulo 3 Cromatografia a líquido de alta eficiência Na cromatografia a líquido de alta eficiência (High Performance Liquid Chromatography, HPLC), a fase móvel utilizada é um líquido, sendo a fase estacionária também uma coluna. É utilizada para separação e análise de amostras líquidas. Da mesma forma que a cromatografia a gás, é formada pelas mesmas partes básicas conforme a seguir, mas possui algumas partes características, ilustradas na figura 44 e discutidas a seguir. Solvente para eluição (1) Diferentemente da cromatografia a gás, a separação é fortemente influenciada pela composição dos solventes, pois os líquidos tem uma interação maior entre si e seus compostos dissolvidos. figura 44. Representação esquemática de um Cromatógrafo a líquido. fonte disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/file:HPlC_apparatus_(zh-cn).svg>. Conforme visto na unidade I, a interação entre moléculas distintas é fortemente influenciado por sua polaridade. Desta forma, são utilizados solventes com diferentes polaridades na etapa de eluição, de acordo com a amostra e os analitos a serem separados. Para otimizar a separação, frequentemente se usa uma mistura de solventes, fixa durante a corrida (eluição isocrática) ou até mesmo variável (eluição por gradiente), de forma a otimizar a separação. É importante frisar que uma análise de qualidade exige o uso de solventes de grande pureza. Vale ressaltar que, o cromatógrafo a líquido, salvo a regra, não possui forno com temperatura controlada. É possível entender aqui a principal diferença entre cromatografia a líquido 57 Cromatografia │ UNiDaDE iii de e a gás: enquanto na GC a volatilidade é fundamental, explorando-se gradientes de temperatura, na HPLC a interação com o solvente é o principal parâmetro de otimização, alterando-se suas proporções e concentrações em função do tempo. Os solventes típicos para eluição em HPLC, bem como para quais tipos de compostos eles são utilizados, estão resumidos na unidade VI. degaseificador (2) O Cromatógrafo para realização da HPLC é um sistema projetado para operar com líquidos e utiliza alta pressão. A presença de bolhas no sistema pode ser extremamente prejudicial para o equipamento, comprometendo outras partes do instrumento como bombas e coluna, bem como causando problemas para detecção. O desgaseificador não apenas evita que ar entre no sistema, mas inclusive elimina os gases dissolvidos nos solventes. Válvula de gradiente (3), Vaso de Mistura (4), Bomba da alta pressão (5) Esta parte do sistema realiza a mistura dos solventes e propulsiona a fase móvel pelo sistema. A maneira de realizar esta mistura pode ser diferente, envolvendo válvulas comutando a entrada dos diferentes solventes, em diversas arquiteturas, ou até mesmo se utilizando mais de uma bomba. Devido às características físicas do sistema, é necessário que a bomba consiga exercer grande quantidade de pressão. Para tanto, as bombas padrão para uso em HPLC são bombas de infusão (que são câmaras comprimidas por um pistão, similares a uma seringa). Vale lembrar que, a velocidade da fase móvel também influenciará a separação de acordo com a equação de Van Deemter (vista no capítulo anterior), visto que os termos da equação (velocidade de fluxo, parâmetros da coluna, coeficiente de difusão e resistência a transporte de massa) também são parâmetros nas separações em fase líquida. injetor (6) e Alça de amostragem (7) Como na cromatografia a gás, os injetores em HPLC podem ser manuais ou automatizados, sendo os últimos preferidos em função do aumento de praticidade do sistema. Dos injetores manuais, o mais comumente encontrado nos equipamentos comerciais é o injetor comutador. O injetor comutador é uma placa móvel com canais, montada sob uma placa perfurada. De acordo com a posição da placa inferior, os canais da placa interligam furos diferentes, permitindo o fluxo de fluidos por caminhos diferentes. 58 UNIDADE III │ CromAtogrAfIA figura 45. injetor de HPlC. fonte: autor. Quando a placa móvel é deslocada para a esquerda, os furos A e B acessam um canal e os furos C e D acessam outro. Quando a placa está à direita, os furos B e C acessam um canal e os furos D e E acessam o outro. Sigamos agora pelo exemplo da figura 44. Quando na posição 6’, a amostra injetada no comutador completa a alça de amostragem, enquanto a fase móvel flui para o detector. Quando o comutador é chaveado, a fase móvel passa pela alça de amostragem e a carrega para o detector. O uso de alça de amostragem não apenas permite que a amostra seja colocada no fluxo da fase móvel, mas também garante que o volume de solução injetado seja sempre o mesmo (pois define, pelo seu tamanho, o volume de solução). Pré-Coluna (8) A pré-coluna é similar a uma coluna de separação, porém com pequenas dimensões, colocada logo antes da coluna na qual ocorrerá a separação. Esta peça, contudo, não tem função de separar os componentes: ela é utilizada apenas para preservar a coluna principal, retendo possíveis contaminantes que potencialmente estragariam a coluna. Coluna (9) A coluna é a fase estacionária da HPLC. Existe uma variedade enorme de composições de colunas para as mais diversas aplicações analíticas, tornando a HPLC uma das técnicas mais versáteis da atualidade. Algumas aplicações, bastante recorrentes, recebem nomenclatura específica. Quando se utiliza uma coluna contendo um composto polar em sua fase estacionária (por exemplo, sílica) e se realiza a eluição com um solvente apolar (por exemplo, clorofórmio), denominamos a técnica de Cromatografia por fase normal. Este nome se dá pelo desenvolvimento histórico da técnica, sendo uma das primeiras modalidades de HPLC empregada. 59 Cromatografia │ UNiDaDE iii Nos dias atuais, o modo mais comum de desenvolvimento é a Cromatografia de Fase Reversa, com o uso de colunas com fase estacionária apolar, obtidas na maioria das vezes por modificações químicas de superfícies polares. Um exemplo bastante comum é a coluna popularmente conhecida como C18, na qual partículas de sílica estão ligadas a uma cadeia carbônica ligada ao grupo octadecil (-C18H37). Vez que a fase estacionária é apolar, a fase móvel é composta por solventes polares (frequentemente água, tampões aquosos, metanol, acetonitrila, tetrahidrofurano, ou uma mistura destes). Assim como se realiza a modificação de fases estacionárias com grupos apolares, existem também colunas modificadas com grupos iônicos, capazes de reter e realizar equilíbrios entre espécies iônicas presentes em solução. Neste caso, dizemos que a técnica é a Cromatografia por troca iônica. É importante ressaltar que, esta técnica é, conceitualmente, bastante diferente da Eletroforese Capilar, que será tratada na próxima unidade, apesar de conseguir propor soluções aos problemas, por vezes, similares. Existe também uma vertente cromatográfica cuja coluna possui poros de tamanho controlado, e a interação entre os analitos e os poros se dá fisicamente, de forma a reter melhor partículas menores que se possuem maior probabilidade de se encaixarem nos poros. Esta técnica, predominantemente utilizada para análise de compostos de alta massamolecular, é denominada Cromatografia por exclusão. detector (10) Da mesma forma que a cromatografia a gás, o cromatógrafo de CLAE possui um detector para medir alguma propriedade físico-química dos analitos utilizados, sendo seus resultados registrados para interpretação. Conforme já comentado anteriormente, esta apostila dedica a unidade V a apresentação dos detectores comumente utilizados, seus princípios de funcionamento e sobre a interpretação dos resultados analíticos. 60 unidAdE iVElEtroforESE CAPilAr A Eletroforese Capilar (Capillary Electrophoresis, CE) é uma técnica de separação, em alguns aspectos, comparável à Cromatografia. Uma amostra líquida é propulsionada por um tubo por meio de um processo de eluição, que provoca a separação de substâncias presentes na amostra, detectadas e quantificadas ao final do processo. CAPítulo 1 História e fundamentos Apesar de comparável à Cromatografia, os processos que acontecem em CE apresentam grandes diferenças em relação aos processos de separação descritos na unidade anterior. Enquanto estes se baseiam nas interações entre fase estacionária e fase móvel, a eletroforese se vale da migração das moléculas, induzida por um campo elétrico. Para tanto, o equipamento opera de maneira consideravelmente diferente do cromatógrafo, e os fenômenos envolvidos na separação também são substancialmente diferentes. O movimento de partículas carregadas sob a influência de um campo elétrico foi observado já em 1807, por Ferdinand Frederic Reuss. Em 1909, o termo, eletroforese, foi introduzido por Michaelis como uma descrição desse fenômeno e é derivado da palavra grega elektron que significa âmbar (isto é, elétrico) e phore que significa portador. No entanto, apenas na década de 1930, que as técnicas de separação por eletroforese se desenvolveram a partir do trabalho de Tiselius. Em decorrência deste seu trabalho, conseguiu o Prêmio Nobel em 1948. Os desenvolvimentos subsequentes da técnica de eletroforese a partir da década de 1930 culminaram na eletroforese em gel, ferramenta extremamente importante em estudos bioquímicos para separação de macromoléculas de proteínas e DNA. Podemos entender melhor esta técnica observando a figura 46. Nesta modalidade, uma amostra a ser analisada é injetada em uma placa de gel (compostos por agarose ou poliacrilamida, por exemplo) e é aplicado um campo elétrico entre suas extremidades. Moléculas contendo carga são atraídas para os polos opostos, 61 ElEtroforEsE Capilar │ UNiDaDE iV de acordo com seu tamanho e carga. As moléculas separadas são visualizadas como bandas ao longo do gel, de maneira similar a cromatografia em papel. A eletroforese em gel, muito importante para fins de comparação entre amostras, não se mostra muito precisa para quantificação de componentes, além de ser um procedimento demorado. O aumento do campo elétrico, a fim de acelerar as partículas e diminuir o tempo de análise, gera aquecimento da placa devido ao efeito Joule e não pode ser explorado de maneira intensa. figura 46. Representação esquemática da eletroforese em Gel. fonte disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/file:Gel_electrophoresis_procedure.png>. Nesta modalidade, uma amostra a ser analisada é injetada em uma placa de gel (compostos por agarose ou poliacrilamida, por exemplo) e é aplicado um campo elétrico entre suas extremidades. Moléculas contendo carga são atraídas para os polos opostos, de acordo com seu tamanho e carga. As moléculas separadas são visualizadas como bandas ao longo do gel, de maneira similar a cromatografia em papel. A eletroforese em gel, muito importante para fins de comparação entre amostras, não se mostra muito precisa para quantificação de componentes, além de ser um procedimento demorado. O aumento do campo elétrico, a fim de acelerar as partículas e diminuir o tempo de análise, gera aquecimento da placa devido ao efeito Joule e não pode ser explorado de maneira intensa. O efeito Joule é um fenômeno físico no qual se observa aumento de temperatura em um resistor quando sofre passagem de corrente. Esse efeito pode ser entendido se pensarmos no atrito entre os elétrons da corrente e o material do resistor, que um tanto será maior e gerará maior aquecimento quando a intensidade de corrente, ou seja, o número de elétrons fluindo for maior. Na década de 1950, a eletroforese era uma técnica de laboratório comum equivalente em técnicas de cromatografia planar, tais como papel e camada fina. No entanto, com 62 UNIDADE IV │ ElEtroforEsE CApIlAr o advento da cromatografia líquida de alta performance (HPLC) na década de 1970, a eletroforese era utilizada apenas em laboratórios bioquímicos e clínicos, como técnica de separação qualitativa para macromoléculas, como proteínas e DNA. Atualmente, pelo menos a metade de todas as separações são realizadas por eletroforese, uma vez que esta técnica é utilizada de forma padrão para as separações de proteínas do sangue e digestão de DNA. Ela é tão rotineira nos dias de hoje em biomedicina e disciplinas relacionadas que raramente é mencionada nos resumos e títulos de artigos onde é uma tecnologia básica, por exemplo, sequenciamento de DNA. Mesmo assim, é mencionado pelo nome em quase tantos artigos quanto a cromatografia. No entanto, com o desenvolvimento da eletroforese capilar 1981, a eletroforese retornou como um tema substancial de interesse para a química analítica. (PERRETT, 1998) O desenvolvimento da técnica de eletroforese dentro de um tubo capilar traz melhorias significativas para a técnica analítica. Primeiramente, o uso de um capilar permite maior dissipação térmica por maior área de troca de calor com o ambiente, permitindo o uso de tensões mais elevadas. O uso de capilares permite, também, o uso de pequenos volumes de amostra para análise. O aumento da tensão para separação analítica resulta em tempos mais curtos de análise, e sua associação com pequenos volumes de amostra permite que os componentes a serem separados se encontrem bem distintos entre si. Com estas vantagens, a eletroforese capilar vem ganhando muito espaço e é hoje uma técnica fundamental em laboratórios de análises químicas, mesmo apesar de ser uma técnica criada mais recentemente do que as técnicas cromatográficas. Ela foi fundamental no sequenciamento do DNA no projeto Genoma, e vem encontrando cada vez mais aplicações analíticas. relembrando conceitos A eletroforese é uma aplicação de uma das propriedades de uma pilha eletroquímica. Os fenômenos presentes em uma pilha e suas implicações serão melhores estudados na disciplina QF3, mas alguns conceitos essenciais para entendimento da técnica são revisados aqui. Para tanto, considere uma pilha de Daniell. Nesta imagem temos duas placas metálicas, uma de zinco (Zn) e uma de cobre (Cu), denominadas eletrodos, imersas, respectivamente, em soluções de sulfato de zinco e sulfato de cobre, denominadas eletrólitos. Estas duas placas estão ligadas por um condutor metálico e as duas soluções estão ligadas por um tubo contendo um sal dissolvido (por exemplo, cloreto de potássio, KCl), cujas pontas não deixam líquido fluir, mas permite a passagem de pequenas moléculas, denominada ponte salina. 63 ElEtroforEsE Capilar │ UNiDaDE iV Nesta pilha ocorre o seguinte fenômeno: o zinco metálico (Zn0) possui maior tendência para fornecer elétrons do que o Cobre, formando zinco oxidado (Zn2+) em solução. O cobre oxidado (Cu2+), por sua vez, possui maior tendência a receber elétrons do que o Zn2+. Desta forma, o zinco fornece elétrons para o cobre, formando Zn2+ e Cu0 no sistema, de forma que a placa de zinco seja corroída e a solução de zinco fique mais rica em metal, bem como formando cobre metálico e deixando a solução de cobre menos rica em metal. Ora, se há formação de íons positivos de um lado e consumo de íons positivos do outro, as soluções ficam eletricamente carregadas? Eis a função da ponte salina: os íons desta ponte se moverão nosistema de forma a equilibrar a carga elétrica formada nas duas soluções. Ou seja, se houver cloreto de potássio (KCl) na ponte salina, o cloreto se move na direção da solução de Zn2+ e o potássio se move em direção da solução de Cu2+. Frisamos que uma explicação aprofundada no fenômeno de pilha está fora do escopo desta apostila, sendo abordada de maneira mais dedicada na apostila QF3. Neste momento é importante entendermos o que acontece dentro da ponte salina. Ou seja, a aplicação do campo elétrico entre os dois reservatórios, além de ter realizar as reações, provoca movimento de íons na ponte salina. Ora, se há formação de íons positivos de um lado e consumo de íons positivos do outro, as soluções ficam eletricamente carregadas? Eis a função da ponte salina: os íons desta ponte se moverão no sistema de forma a equilibrar a carga elétrica formada nas duas soluções. Ou seja, se houver cloreto de potássio (KCl) na ponte salina, o cloreto se move na direção da solução de Zn2+ e o potássio se move em direção da solução de Cu2+. figura 47. Pilha de daniel. fonte disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/file:daniell-element.jpg>. 64 UNIDADE IV │ ElEtroforEsE CApIlAr Frisamos que uma explicação aprofundada no fenômeno de pilha está fora do escopo desta apostila, sendo abordada de maneira mais dedicada na apostila QF3. Neste momento é importante entendermos o que acontece dentro da ponte salina. Ou seja, a aplicação do campo elétrico entre os dois reservatórios, além de ter realizar as reações, provoca movimento de íons na ponte salina. Agora precisamos considerar a seguinte situação: se, ao invés de um sal puro como cloreto de potássio, houvesse uma mistura de íons na ponte salina, eles todos se moveriam da mesma forma em função do campo elétrico exercido nas extremidades da ponte salina? Se pensarmos em cada íon como uma partícula carregada no vácuo, a força aplicada no corpo (Fef) é proporcional ao campo elétrico (E) e a carga da partícula (q) de acordo com a equação: figura 48. força de campo elétrico. A situação que os íons se encontram, contudo, não é o vácuo. Desta forma, existem forças de resistência ao fluxo que as partículas enfrentam ao se mover em solução. A resistência ao fluxo das partículas neste meio é chamado de arraste por fricção (Ffr), e é equacionado de acordo com o raio iônico hidratado da partícula (r), a viscosidade do meio (ƞ) e a velocidade da partícula (v): figura 49. força de arraste por fricção. Nesse contexto, a força aplicada pelo campo elétrico é contraposta pelo arraste por fricção. Visto que a partícula sofre mais arraste em velocidades maiores, haverá uma velocidade específica na qual as forças se anulam, e ela trafegará com velocidade constante, conforme equação apresentada na figura 50. figura 50. velocidade de arraste. No geral, ao falarmos da propriedade de separação de um íon por eletroforese, utilizamos o conceito de mobilidade, que é definido como a velocidade que um determinado íon trafega em um determinado meio em relação a um campo elétrico unitário, conforme equação da figura 51. 65 ElEtroforEsE Capilar │ UNiDaDE iV figura 51. mobilidade. � = �� = � � � � � � � � A separação eletroforética ocorre, pois, justamente porque cada íon diferente deve se mover com uma velocidade constante e diferente em um determinado meio. Considerando um meio de viscosidade constante, temos que a mobilidade de um íon é relacionada à sua carga (diretamente proporcional), e a seu raio iônico hidratado (inversamente proporcional). 66 CAPítulo 2 instrumentação e Aplicação Para entendermos melhor como funciona a eletroforese do ponto de vista prático, vamos começar observando com mais atenção para o instrumento, cujas partes essenciais são representadas. figura 52. Representação esquemática da eletroforese Capilar. fonte disponível em: <https://c1.staticflickr.com/1/758/21589986780_4c4ba18b8e_b.jpg>. Nele, dois reservatórios são ligados por um capilar contendo uma solução e monitorado por um detector em um ponto específico. No processo de separação, um potencial elétrico é aplicado entre os dois reservatórios, de forma a fazer a solução e os analitos fluírem pelo capilar. Desta forma, o movimento diferente de cada espécie será responsável pela sua separação, de acordo com a teoria explicada acima. Contudo, o movimento descrito não explica todo o fluxo de solução em uma corrida eletroforética. Outro fenômeno que deve ser considerado quando falamos do movimento de espécies em eletroforese capilar é o fluxo eletrosmótico. As paredes internas do capilar, tipicamente formadas por sílica, são ionizadas em contato com a solução de eletrólito aquoso, de acordo com o equilíbrio: figura 53. ionização da sílica. 67 ElEtroforEsE Capilar │ UNiDaDE iV Como se pode imaginar, esse equilíbrio é deslocado para a direita em soluções com pH mais alto, sendo mais relevante em soluções com pH > 3. A carga formada na superfície induz a aproximação eletrostática de íons positivos do eletrólito à superfície em função do potencial elétrico local. Quando o campo elétrico é aplicado, tais íons são atraídos pelo campo, arrastando toda a solução para um dos eletrodos. O fenômeno é ilustrado na figura 54. figura 54. formação do fluxo eletrosmótico. fonte disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Capillary_electrophoresis#/media/file:Capillarywall.png>. O fluxo Fluxo eletrosmótico, que propele o eletrólito da CE em direção do final do sistema, possui um perfil diferente do perfil de propulsão pneumática da cromatografia, conforme ilustra figura 55. Conforme explicado anteriormente, no fluxo laminar o fluido é “empurrado”, sofrendo atrito entre suas “lâminas” e a parede do tubo. Já no fluxo Fluxo eletrosmótico, as partículas homogeneamente distribuídas na solução sofrem atração eletrostática, de forma que elas são propulsionadas em perfil plano. figura 55. Comparação entre perfis de fluxo de solução. fonte disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Capillary_electrophoresis#/media/file:flowprofile.gif. 68 UNIDADE IV │ ElEtroforEsE CApIlAr Os eletrólitos utilizados em eletroforese possuem concentração relativamente alta de íons, que favorecem seu “carregamento” por meio da ação do fluxo eletrosmótico. A presença de fluxo eletrosmótico, muito mais intensa e relevante em eletroforese capilar do que eletroforese em gel, traz características peculiares a esta técnica de análise, ressaltados a seguir. Considerando a situação acima, os íons da amostra sofrerão ação de dois fenômenos durante sua movimentação: da sua mobilidade e da mobilidade do fluxo eletrosmótico. A estas mobilidades somadas se dá o nome de mobilidade aparente. Esta mobilidade aparente, maior do que na eletroforese em gel por conta dos campos elétricos maiores e da presença do fluxo eletrosmótico, permitem que as separações em CE sejam muito mais rápidas do que separações em gel. Perceba também que, em alguns casos, a mobilidade aparente de um íon pode ser positiva mesmo se ele tem mobilidade negativa, ou seja, eventualmente íons negativos sejam atraídos a um polo negativo. Apesar de ser possível, em alguns casos, analisar ânions que movem em contraposição do fluxo eletrosmótico, também é possível modificar a superfície interna do capilar de sílica de modo a induzir a formação de íons positivos em sua superfície pelo uso de surfactantes catiônicos, aqui chamados de inversores de fluxo. A figura pode ser melhor compreendida quando comparada com a figura a seguir já apresentada (note a seta de fluxo em direção oposta nas duas figuras). Como podemos ver, a composição do meio influenciam na formação de íons na parede do capilar, determinando características de análise. Da mesma forma, a composição do eletrólito de corrida é extremamente relevante para o processo de análise também pela sua influência na amostra. Para entendermos a influência do eletrólito no processo de análise, consideremosa análise de cocaína em presença de lidocaína (adulterante comum) em tampão TRIS (hidroximetil) aminometano (HELLER, M. et. al., 2003). As moléculas encontram-se representadas na figura 57. As três substâncias apresentam afinidade por prótons em meio aquoso, sendo o pKa das espécies relativamente próximos, como se pode ver na figura. O tamanho das moléculas também difere: o TRIS é muito menor do que as outras moléculas estudadas neste sistema. 69 ElEtroforEsE Capilar │ UNiDaDE iV figura 56. inversão de fluxo eletrosmótico. fonte disponível e adaptada: <https://en.wikipedia.org/wiki/Capillary_electrophoresis#/media/file:Capillarywall.png>. Vamos pensar a respeito do pKa de cada uma destas moléculas. Em pH próximo a 8,6, a cocaína possui grau de ionização igual a 0,5, ou seja, se apresenta dividida igualmente entre sua forma neutra e protonada. Tal divisão ocorre, para as moléculas de Lidocaína e TRIS em pH próximo a 8,0. Vale lembrar que, esta divisão acontece em um equilíbrio dinâmico, conforme apresentado na Unidade II desta apostila, ou seja, na prática é como se observássemos um agrupamento de moléculas com carga fracionária. A esta mobilidade dependente do grau de ionização se dá o nome de mobilidade efetiva, descrita pela equação da figura 58: figura 57. Representação das moléculas de Cocaína, lidocaína e tRis(hidroximetil)aminometano. fonte disponível em: <https://pubchem.ncbi.nlm.nih.gov/compound/>. 70 UNIDADE IV │ ElEtroforEsE CApIlAr figura 58. mobilidade efetiva. Cuidado para não confundir mobilidade efetiva com mobilidade aparente. A primeira se refere ao grau de ionização da espécie estudada e independe do fluxo eletrosmótico, enquanto a segunda se refere a mobilidade da espécie já no processo de separação considerado. Em pHs mais baixos do que 7,5, as três moléculas discutidas aqui majoritariamente estarão em sua forma protonada, sendo que a molécula de TRIS se transporta mais rapidamente por ter um menor raio hidrodinâmico. Já em pHs maiores do que 9, todas as moléculas descritas se encontram desprotonadas e, consequentemente, sem carga. Em pHs intermediários, contudo, a mobilidade efetiva será intermediária. Para que entendamos melhor, a mobilidade efetiva das três espécies estudadas, em função do pH. Este gráfico permite visualizar em qual situação deve ocorrer uma melhor separação entre estes componentes. Em pHs mais altos (acima de 10), podemos ver que a mobilidade efetiva das espécies é praticamente nula, situação na qual sua mobilidade aparente é igual a do fluxo eletrosmótico, e elas não serão separadas. Em pHs mais baixos (abaixo de 6), será possível separar o tampão TRIS das outras espécies estudadas, contudo a cocaína e a lidocaína apresentarão mobilidade muito semelhante, dificultando sua separação. Há algumas situações, contudo, que conseguimos observar as três espécies com mobilidades efetivas diferentes, como, por exemplo, em pH 8,4. Observe, inclusive, que o TRIS será mais lento do que a cocaína nesta situação, pois apesar de ser uma molécula menor, estará proporcionalmente menos ionizada do que a cocaína neste pH. Além da influência do pH na mobilidade efetiva pela alteração do grau de ionização da espécie, outras alterações do meio podem interferir na mobilidade efetiva da espécie. Como exemplos, podemos citar efeitos de complexação que alteram a carga efetiva do íon ou mesmo a conformação de proteínas, bem como a formação de pares iônicos com alguns aditivos. Uma tabela mais completa será apresentada na unidade VI desta apostila. Em meio a todo o contexto acima, a eletroforese se mostra uma técnica muito versátil e poderosa, e pode-se realizar de formas diferentes dependendo do problema analítico a ser resolvido, e até mesmo não se limita a separação de amostras contendo íons. Características relevantes sobre a operação e a montagem do equipamento, bem como as diferentes formas que a técnica pode se apresentar e suas aplicações serão descritas a seguir. 71 ElEtroforEsE Capilar │ UNiDaDE iV figura 59. dependência da mobilidade da lidocaína, da Cocaína e da tRis com o pH do meio. fonte: HelleR m. et. al., 2003. Vamos retomar as principais partes de um equipamento de CE. Vamos voltar a observar a figura 52 e, a partir dela, explicar um pouco melhor cada etapa de análise e o funcionamento de cada componente. Para a realização da análise em CE, primeiramente o eletrólito a ser utilizado é colocado em dois frascos (vials), posicionados em cada uma das extremidades do equipamento. Uma diferença de potencial é aplicada entre cada uma das soluções, tipicamente entre 10kV e 30kV, de forma a preencher o capilar que as liga com o eletrólito. Um vial, contendo amostra, é colocado em contato com o capilar preenchido e a amostra é injetada. Depois desta etapa, o vial contendo tampão entra em contato novamente com o capilar e a separação é realizada, aplicando novamente a diferença de potencial entre os vials. Como já comentado anteriormente, a composição do eletrólito de corrida dependerá do tipo de análise a ser realizada. Contudo, é necessário que ele seja condutor de forma a permitir a aplicação do campo elétrico. Vale lembrar também que, a aplicação do campo elétrico nos reservatórios gera eletrólise da solução utilizada, ou seja, reações eletroquímicas com são induzidas na superfície do eletrodo. Tais reações formam íons que podem mudar o pH e influenciar nos equilíbrios químicos do sistema. Desta forma, o eletrólito utilizado em CE deve conter íons para condução elétrica e ser robusto frente a variações de pH e de composição induzidas pelas espécies formadas 72 UNIDADE IV │ ElEtroforEsE CApIlAr durante sua eletrólise. Para tanto, comumente se utilizam soluções aquosas com forte capacidade tamponante, sendo o pH escolhido e ajustado de acordo com a separação a ser realizada. Também pode-se dizer que a escolha do eletrólito influencia a etapa de detecção ao final da análise, sendo alguns tampões mais favoráveis do que outros para alguns detectores específicos. O capilar utilizado, na grande maioria das aplicações, é um capilar de sílica cujo comprimento típico é até 1m, e diâmetro interno entre 25 μm e 100 μm, revestido com uma camada de poliimida, de forma a oferecer a ele flexibilidade e resistência mecânica. Um diagrama com o corte transversal do capilar, em proporção, é apresentado na figura 60. figura 60. Representação do capilar de eletroforese em escala proporcional. fonte: adaptado de HaRveY, 2000. Conforme falado anteriormente, a superfície interna do capilar pode ser ativada e/ou modificada quimicamente. Para tanto, é adicionado um componente no eletrólito de corrida ou em algum outro eletrólito a ser utilizado previamente, e ele é propulsionado para o capilar pela aplicação do potencial, ocorrendo o fluxo eletrosmótico. A troca de soluções para pré-tratamento e injeção da amostra, em eletroforese capilar, se fazem por meio do intercambiamento de frascos contendo as soluções. Desta forma, as etapas de pré-tratamento e injeção da amostra são um pouco diferentes do que na cromatografia, na qual existem bifurcações para inserção da amostra. A injeção da amostra pode ser realizada de diversas formas, sendo duas mais comuns: por hidrodinâmica e eletrocinética. Na injeção hidrodinâmica, uma pressão positiva é aplicada no frasco de amostra, de forma a induzir o fluxo de amostra por pressão para o capilar. Já na injeção eletrocinética, aplica-se uma diferença de potencial entre o frasco da amostra e o frasco de eletrólito na outra extremidade do capilar, de forma que o fluxo eletrosmótico insira a solução no capilar. 73 ElEtroforEsE Capilar │ UNiDaDE iV A injeção hidrodinâmica pode ser realizada com a gravidade como força motriz para geração de pressão, colocando o frasco de amostra e a entrada do capilar em altura conveniente. A diferença de potencial aplicada pelo equipamento para favorecer a separação é realizada por uma fonte dealta tensão. Esta fonte, salvo a regra, fornece diferenças de tensão na ordem de dezenas de milhares de volts, e essa tensão gera uma corrente no sistema. Visto que a corrente que flui pelo sistema é diretamente proporcional ao aquecimento do capilar, é importante que esta corrente seja controlada e monitorada pelo sistema. Além disso, alguns equipamentos permitem a inversão de polaridade dos seus eletrodos, de forma a realizar corridas em sentidos opostos, o que é equivalente a inverter a posição de injeção e de detecção no sistema. Considerando a possibilidade de aquecimento do sistema, em especial em função do efeito Joule, alguns equipamentos de CE apresentam controle de temperatura do capilar. Além de permitir resultados mais reprodutíveis, alguns estudos cinéticos em função da temperatura também podem ser realizados. O equipamento de CE pode apresentar diferentes tipos de detectores, de acordo com a aplicação a ser realizada. A discussão sobre os detectores para é realizada na Unidade V deste curso. A forma de eletroforese mais comum e mais próxima do que foi discutido até agora é a Eletroforese Capilar de Zona (Capillary Zone Electrophoresis, CZE). Nesta modalidade, injeta-se a amostra no capilar já previamente preenchido com eletrólito de corrida. A diferença de potencial então é aplicada entre as extremidades do capilar, de forma que as espécies presentes na amostra migrem em zonas distintas, de acordo com suas mobilidades aparentes. Em algumas situações, a coluna capilar pode ser preenchida com uma matriz polimérica. Neste caso, denominado Eletroforese Capilar em Gel (Capillary Gel Electrophoresis, CGE), a coluna com gel provoca também um efeito de separação por tamanho, sendo especialmente interessante para macromoléculas orgânicas como proteínas e sequências de DNA, visto que moléculas de tamanhos diferentes frequentemente apresentam relações muito próximas entre carga molecular e raio hidrodinâmico (pois uma macromolécula maior apresenta maior número de cargas pontuais). É interessante notar que este a Eletroforese Capilar em Gel se assemelha muito a eletroforese clássica apresentada no início desta unidade, e, conceitualmente, guarda relações com a Cromatografia por Exclusão de tamanho. Note que a separação, neste caso, ocorre mesmo quando a relação carga/raio hidrodinâmico é próxima. 74 UNIDADE IV │ ElEtroforEsE CApIlAr Também é possível realizar a eletroforese capilar com uma coluna recheada de forma similar a cromatografia, em técnica chamada Cromatografia Eletrocinética Capilar (Electrokinetic Chromatography, EKC). Esta técnica se diferencia da cromatografia pelo modo de propulsão do eluente: neste se utiliza fluxo eletrosmótico ao invés de bombeamento pneumático do eletrólito. Apesar de ser um método eletroforético, a separação aqui pode ser entendida como um processo cromatográfico, contendo particionamento de amostra entre fase estacionária e fase móvel. Neste caso, o processo de partição permite separação entre espécies neutras de acordo com as interações descritas. Outra estratégia para a separação de compostos neutros é a Cromatografia Eletrocinética Micelar (Micellar Electrokinetic Chromatography, MEKC). Nesta, utilizam-se surfactantes aniônicos que formam micelas com mobilidade efetiva no meio. As moléculas a serem separadas se particionam entre o eletrólito e as micelas, sendo separadas de acordo com o grau de particionamento de cada substância. É interessante comparar a EKC com a MEKC, sendo que uma se vale de interações entre a coluna e o eletrólito de corrida, enquanto a outra se vale da interação entre o eletrólito de corrida e as micelas. Apesar de serem interações de natureza diferente, conceitualmente as duas técnicas são bastante próximas. Outra modalidade eletroforética é a Isotacoforese Capilar (Capillary Isotachophoresis, CITP). Nesta, se insere uma amostra (A) com componentes de mobilidades intermediárias entre dois eletrólitos de corrida de mobilidades extremas (Eletrólito Líder, EL, colocado antes da amostra, e Eletrólito Terminador, ET, colocado depois). Quando aplicado o campo elétrico, os analitos fluem ao detector entre os dois tampões utilizados. figura 61. Representação da separação por isotacoforese. fonte disponível e adaptada: <https://commons.wikimedia.org/wiki/file:itP_separation_model.png>. 75 ElEtroforEsE Capilar │ UNiDaDE iV Veja que, nesta técnica, é possível realizar a pré-concentração dos analitos, ou seja, as espécies analisadas se distribuem em um volume menor de amostra. Isso favorece a detecção posterior dos compostos analisados. Com a miniaturização dos sistemas de análise, há uma grande tendência no desenvolvimento da CE em pequenos microchips, que utilizam placas milimétricas contendo canais micrométricos para realizar a separação. Apesar dos avanços nesta modalidade de CE e suas potenciais aplicações, sua apresentação e discussão do assunto fogem do escopo desta apostila. 76 unidAdE V dEtECtorES E intErPrEtAção doS rESultAdoS Como visto anteriormente, os métodos apresentados realizam a separação de componentes de uma mistura complexa e identificam cada um dos componentes isoladamente de modo a realizar a análise. Mas como funciona este detector? Como é o resultado que se espera obter ao final de um processo de separação? De que forma este resultado pode ser interpretado? A etapa de detecção, realizada por sensores, é uma ciência complexa e o assunto pode ser estendido por diversas apostilas, dependendo do grau de abrangência e de detalhamento que o tema for exposto. Alguns dos detectores apresentados aqui são a integração dos métodos com as técnicas de separação, enquanto outros não serão aprofundados aqui. Nesta disciplina será realizada uma apresentação conceitual que possibilite a utilização dos métodos de separação. O mesmo vale para a interpretação dos dados obtidos, que serão tratados em nível operacional, seguindo-se referências para maior aprofundamento, caso tenham interesse. CAPítulo 1 Sinais em técnicas químicas de separação Vamos retomar pelo processo de separação de cromatografia por camada delgada. Observemos a análise qualitativa da amostra de tinta preta apresentada na figura abaixo. É possível saber se a amostra é uma substância pura ou uma mistura? figura 62. separação por Cromatografia de Camada delgada. fonte disponível e adaptada: <https://commons.wikimedia.org/wiki/file:tlC_black_ink.jpg>. Ao olharmos para esta tira, podemos notar diferentes manchas em diferentes distâncias da camada delgada. De acordo com a discussão do Capítulo 3, podemos ver que há uma mistura de compostos inseridas na superfície e cada um deles interage de forma 77 Detectores e Interpretação Dos resultaDos │ unIDaDe V diferente com ela. Além do ponto de injeção (escurecido, à esquerda), se veem três zonas distintas, sendo a primeira quase mesclada à segunda e a terceira mais à direita. A posição e intensidade destas plumas na camada delgada pode ser estimada. Pode-se ver quatro regiões com analito: uma na posição de injeção (~28 mm), à esquerda, outras duas quase sobrepostas (em ~64 mm e ~74 mm), ao meio e uma última região à esquerda (~100 mm). As manchas maiores e mais intensas, como se deve imaginar, correspondem aos compostos em maiores concentrações. A intensidade do tom acinzentado das manchas acima pode ser lido via software para tratamento de dados. A imagem foi lida ponto a ponto e a intensidade de cor foi colocada em um gráfico, como mostra a figura 52. O gráfico apresentado é a forma mais comum de representação de dados de separação e a ela se dá o nome de cromatograma. Quando a separação é realizada por técnica de eletroforese, dá-se ao gráfico resultante o nome de eletroferograma. figura 63. Cromatograma correspondente à separação por CCd. fonte: Criação do autor, CCd com design inspirado em figura adaptada de <https://commons.wikimedia.org/wiki/file:tlC_ black_ink.jpg>. Gráfico de intensidade de sinalx Posição foi realizado por meio de dados hipotéticos simulados. No exemplo anterior, a separação entre os compostos se mede de acordo com a distância entre as manchas. Na maior parte das modalidades cromatográficas e na eletroforese capilar, no entanto, se registra o sinal em função do tempo. Nestes casos, um detector pontual é colocado em uma posição específica da fase estacionária e os compostos são eluídos em função do tempo. É interessante notar que, a ordem dos picos da figura 66, correspondente a leitura do detector da figura 65, é invertida em relação à ordem que vemos na tira: neste 78 UNIDADE V │ DEtEctorEs E INtErprEtAção Dos rEsUltADos cromatograma, os picos que aparecem antes são aqueles que tem menor interação com a fase estacionária e eluem mais rapidamente pelo equipamento. Como a cromatografia é um processo reprodutível quando mantidas as condições de análise, o tempo que um dado composto leva para chegar ao detector também é característico e pode ser utilizado para sua identificação. Este tempo característico é chamado de tempo de retenção. Quando há componentes mal separados de uma amostra, eles se apresentarão como picos muito próximos ou mesmo como um pico único na análise, como pode ser observado no cromatograma de camada delgada discutido no começo dessa unidade. Esta separação entre picos é chamada de resolução, pode ser calculada considerando os tempos de retenção de cada substância e a largura de seu pico, conforme seguinte equação: figura 64. equação da resolução entre picos. �� = � � ���� � ���) ��� � ��� figura 65. separação Cromatográfica em função do tempo. fonte disponível e adaptada: <https://commons.wikimedia.org/wiki/file:tlC_black_ink.jpg>. figura 66. sinal Cromatográfico em função do tempo. fonte: Criação do autor, o gráfico que compõe a imagem foi realizado por meio de dados hipotéticos simulados (soma de funções gaussianas e ruído aleatório). 79 Detectores e Interpretação Dos resultaDos │ unIDaDe V Nesta equação, a resolução (Rs) é calculada em função do tempo de retenção dos dois analitos (tR1 e tR2) e da largura de seus picos na base (wb1 e wb2). Na prática analítica, recomenda-se que estes picos possuam uma resolução maior do que 1,5 para realizar sua quantificação. Mas se estamos colocando uma amostra de composição desconhecida no equipamento, como podemos saber quantos, quais e em que quantidade as substâncias nela se encontram? Responder esta pergunta não é trivial e envolve diversas variáveis, havendo estratégias analíticas que nos auxiliam neste trabalho. Como foi visto na Unidade II, a determinação gravimétrica é um método primário, ou seja, pode ser realizada sem a necessidade de nenhuma comparação com outro procedimento ou método. Já nas técnicas de separação utilizadas, esta comparação é necessária e suas propriedades são apresentadas a seguir. Para saber o comportamento de uma dada substância em uma análise cromatográfica, podemos injetar uma alíquota pura desta no sistema, ou mesmo misturada a um solvente de característica já bem conhecida. Esta substância é o padrão analítico. O padrão, no caso da identificação de compostos em técnicas de separação, terá o mesmo comportamento do analito procurado e, desta forma, possuirá o mesmo tempo de retenção dele. Vale lembrar que o tempo de retenção não é absolutamente seletivo, isto é, pode haver compostos que, em uma dada condição de separação, tenham tempos de retenção similares. Alguns detectores apresentam mais de um sinal simultaneamente, permitindo detecções mais seletivas e serão abordados mais à frente nesta unidade. Além do tempo de retenção, utilizado para identificação do composto, o padrão também é utilizado para realizar sua quantificação na amostra. Para tanto, é realizada uma curva de calibração para o método analítico desenvolvido, conforme procedimento a seguir. Inicialmente, são preparadas soluções com quantidades absolutamente bem conhecidas do padrão analítico a ser determinado em meio a um solvente adequado. As quantidades, nesse caso, são definidas por meio da pesagem deste composto e diluídas em uma quantidade determinada (por medida de volume ou mesmo massa) de solvente. Neste momento, pode-se notar a inequívoca relevância da gravimetria. Ela, enquanto método primário, permite que padrões analíticos sejam preparados de maneira precisa, sem depender de outras técnicas. Cada solução preparada, então, é injetada no equipamento e analisada. Poder-se-á notar o aumento da intensidade (seja na altura, na largura ou na área) dos picos em 80 UNIDADE V │ DEtEctorEs E INtErprEtAção Dos rEsUltADos função da concentração da solução padrão injetada. A intensidade do sinal, graficada em função da concentração da solução preparada, é a curva de calibração. Nesta imagem, representam-se à esquerda os picos de um mesmo analito em concentrações diferentes, na figura da direita, o gráfico da curva de calibração propriamente dita. figura 67. intensidade de sinais e curva de calibração. fonte: autoria própria, sinais hipotéticos simulados por computador. As curvas cheias dos sinais indicam o sinal proveniente da injeção de amostras. Salvo a regra, espera-se que o sinal obtido seja linearmente correlacionado a concentração de amostra medida. Esta correlação matemática pode ser equacionada por meio de uma regressão linear, de forma que a concentração de amostras, diferentes das dos padrões, podem ser calculados a partir da interpolação do resultado de sua leitura na equação obtida. Esta correlação linear obtida, para técnicas de separação, é uma equação de primeiro grau com intercepto em zero, ou seja, considera-se que o sinal de uma amostra sem analito seja nulo (as implicações do sinal do branco serão discutidas nos parágrafos posteriores). Desta forma, o sinal se relaciona diretamente com a concentração, sendo ponderado por uma constante, na qual denominamos sensibilidade. Quanto maior for a constante k em Sinal = k ∙ Canalito, maior a capacidade de se diferenciar concentrações próximas, visto que, variações pequenas de analito renderão variações grandes de sinal. Agora vamos observar a linha pontilhada no gráfico à esquerda. Esta curva se trata da injeção de uma alíquota de solução que não contém a substância que quero identificar, isto é, o branco. Como se pode observar, ele não tem medida absolutamente nula. Mesmo nas condições ideais de análise, o sinal do branco ainda possui variações aleatórias devido a ruídos presentes na medida, decorrentes de fenômenos naturais aleatórios. A contabilização do branco, pois, é uma medida da variação do sinal do meu procedimento de análise, independente da variação de concentração de meu analito. Esse dado será utilizado para caracterizar o método, como será visto adiante. 81 Detectores e Interpretação Dos resultaDos │ unIDaDe V As medidas em concentrações muito baixas apresentam limitações e desafios. Se até o branco apresenta sinal com variações aleatórias, como posso saber se um sinal muito pequeno se refere ao branco ou ao analito de interesse? A realização de diversas medidas de branco resultará em valores aleatórios diferentes, de forma que, se minha amostra apresentar um sinal de magnitude comparável ao branco, não terei como saber se o sinal medido é referente às variações do equipamento ou a concentração de meu analito de interesse na amostra. A partir do sinal obtido por diversas injeções do branco, posso estimar qual o nível de variação médio e sua distribuição. A partir destes dados, posso estimar que só será possível detectar substâncias em amostras cujo sinal seja certamente maior do que o sinal do branco. Considera-se que o branco possui distribuição normal, e se conclui que o nível mínimo de concentração que pode ser observado é três vezes a média do sinal do branco dividido pela sensibilidade do método, conforme equação seguinte: figura 68. limite de detecção. A este nível mínimo de concentração que pode ser estimadodá-se o nome de limite de detecção. Este limite pode variar bastante de acordo com o método utilizado, e, em alguns casos, há demandas críticas de métodos cada vez mais sensíveis. Em valor próximo ao limite de detecção, é possível afirmar a presença do analito na amostra, porém, estimar o valor de concentração encontrado ainda é muito incerto. Desta forma, pode-se calcular, também, um limite de quantificação para o método a partir destes desvios, convencionado como dez vezes a razão entre o sinal do branco e a sensibilidade do método, conforme equação: figura 69. limite de quantificação. Para concentrações superiores, a relação linear entre a concentração e o sinal também não pode ser estendida para quaisquer concentrações. É comum que concentrações muito altas não possuam resposta tão intensa quanto se espera devido aos fenômenos como a saturação do detector, de forma que os resultados não podem ser extrapolados para além da curva de calibração. Neste sentido, é interessante que a curva de calibração seja realizada com uma faixa de concentrações de solução que abranja, ao máximo, as concentrações das amostras. A essa faixa com respostas lineares se dá o nome de faixa linear. 82 UNIDADE V │ DEtEctorEs E INtErprEtAção Dos rEsUltADos Se olharmos com atenção, os picos apresentados na figura 67 não se apresentam perfeitamente regulares. A altura deles, representada na curva de calibração, possui algumas variações que não se correlacionam perfeitamente com a concentração. Além disso, o tempo de retenção de cada um deles também não é idêntico. Tais desvios podem ser ocasionados por diversos fatores e devem ser mínimas em métodos otimizados. Em algumas situações, contudo, maiores desvios são consequência de alguma irreprodutibilidade na manipulação da amostra. Em um procedimento de injeção manual, por exemplo, a sincronia de tempo entre o início do experimento e a injeção pode não ser perfeita. Outro exemplo de variação que pode ser provocada em uma injeção manual é uma pequena variação de volume de amostra injetada. Para compensar tais variações experimentais, é possível se adicionar uma substância em concentração conhecida a seus padrões e amostras. Desta forma, todas as condições de manipulação que a amostra é submetida também são sofridas por esta substância e a alteração de sua resposta pode então ser utilizada para realizar correções nessas variações. A esta espécie se dá o nome de padrão interno. A realização da correção se dá da seguinte maneira: o dado utilizado agora para calcular a concentração das substâncias na amostra não será mais simplesmente a altura do pico do composto de interesse, mas a relação entre a altura do composto de interesse com o padrão interno. Assim, pequenas flutuações no tempo de retenção do analito podem ser comparadas e eventualmente corrigidas pela comparação do padrão interno. A escolha do padrão interno, no entanto, exige bastante atenção e cuidado. Primeiramente, é necessário que seja uma substância que nunca esteja presente na amostra e que não tenha tempo de eluição igual ou muito próximo de alguma substância da amostra. Por outro lado, é desejável que ela tenha comportamento próximo às substâncias de interesse, para que as alterações que esta sofra durante a manipulação sejam similares àquelas sofridas pelos analitos. Além disso, é preciso garantir que o padrão não reaja ou provoque nenhuma alteração química na amostra. Em alguns casos, as substâncias a serem analisada podem não ser adequadas para uma determinada técnica de análise e/ou de detecção da forma que elas se encontram na amostra. Ainda assim, é possível realizar uma reação química com estes compostos para formar uma espécie detectável de acordo com a técnica analítica utilizada. A esse tipo de estratégia se dá o nome de derivatização da amostra. detectores Os sinais apresentados nesta unidade foram medidos pela intensidade em escala de cinza das manchas da tira. Podemos imaginar, no entanto, uma cromatografia de uma 83 Detectores e Interpretação Dos resultaDos │ unIDaDe V amostra de tinta composta de corantes de diferentes tonalidades. Nesse caso, seria possível medir a intensidade não apenas da tonalidade das manchas, mas até mesmo de cada cor encontrada. A imagem da figura 62 é originalmente colorida (ainda que não reproduzida de forma colorida nesta apostila). Se analisarmos a imagem original, sem nenhum tratamento, apenas a colocando em escala para a leitura da imagem e traçarmos o gráfico de absorção das cores vermelho, verde e azul, teremos o gráfico apresentado na figura 70. figura 70. detecção espectrofotométrica RGB de separação em cromatografia planar. fonte: Criação do autor, leituras foram realizadas em software de tratamento matricial de dados Gnu octave. o Gráfico corresponde às leituras das cores da imagem correspondente após edição em software Camscanner. figura inspirada a parti de resultado verificado em <https://commons.wikimedia.org/wiki/file:tlC_black_ink.jpg>. É interessante notar as diferenças entre os gráficos das imagens 52 e 59. Na imagem monocromática, pode-se ver, de certa forma, a soma dos três gráficos, indicando sinais similares aos encontrados. Contudo, quando somos capazes de separar os sinais em seus componentes de cores originais, podemos identificar alguns sinais de forma mais isolada. Um exemplo bem interessante são os sinais próximos a 64 e 74 mm. Quando observados juntos no gráfico monocromático, os dois sinais se sobrepõem, enquanto no gráfico com o sinal de cada cor separada, podemos ver claramente um pico de absorção do azul e o outro pico que indica absorção das cores verde e vermelha. Apesar de não serem detectores específicos, ou seja, capazes de identificar uma única substância, sua capacidade de detectar propriedades diferentes (no caso, absorção de luz em cores diferentes) fornece informações mais aprofundadas a respeito da amostra. Alguns detectores podem fornecer resultados bem seletivos, apresentando propriedades específicas de moléculas. 84 UNIDADE V │ DEtEctorEs E INtErprEtAção Dos rEsUltADos O universo dos detectores para técnicas de separação cromatográfica e eletroforética é imenso. Parte dos detectores são baseados em princípios e técnicas a serem apresentadas no curso de técnicas Espectroscópicas, Eletroquímicas e Titrimétricas, enquanto outros, de forma aprofundada, não constam no escopo deste curso. De toda forma, uma explanação, em nível básico sobre alguns detectores importantes nas técnicas estudadas, será apresentada. figura 71. Cromatograma com espectrometria de massas. Intensidade Tempo de Retenção Separação Cromatográfica Análise por espectrometria de massas Relação Massa/Carga Espectro de massa dos picos resolvidos Cromatograma fonte disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/file:liquid_chromatography_ms_spectrum_3d_analysis.png>. 85 CAPítulo 2 detectores para sistemas analíticos de separação A escolha do detector mais apropriado para a técnica de análise a ser realizada é essencial para o sucesso de uma análise química. Dentre os fatores que influenciam diretamente a escolha do detector, são de grande relevância: » Técnica Analítica utilizada (GC, HPLC, CE, TLC). » Característica do analito estudado. » Custo e infraestrutura necessários para detector. Este texto não pretende, de forma alguma, esgotar o assunto, dada a grande complexidade dos temas, tanto pelo número de detectores existentes no mercado, quanto pelas peculiaridades de cada detector. Como já falado anteriormente, alguns dos detectores citados aqui são assuntos de outro módulo do curso (QF3). Para facilitar a apresentação, vamos fazer algumas separações, de acordo com o tipo de equipamento utilizado. Cromatografia a gás Impressionantemente, o primeiro detector desenvolvido para cromatografia a gás se valia da análise de alíquotas colhidas por borbulhamento em uma solução e quantificados por titulação, isto é, pela adição de quantidadeconhecida de uma solução até completar reação estequiométrica. Mesmo sem nos aprofundarmos na técnica de titulação aqui (explicada no módulo QF3 do curso), podemos ver o quanto este método, ainda realizado de forma manual, era trabalhoso. Hoje em dia existem detectores dos mais variados tipos, integrados e automatizados na operação do instrumento. Sem preocupação com uma perspectiva histórica, seguem apresentados alguns dos mais utilizados nos dias atuais. O detector por ionização em chama (Flame Ionization Detector, FID) é um dos detectores mais comuns em cromatografia a gás e apresenta grande sensibilidade para compostos orgânicos. Para melhor compreensão, segue esquema na figura 72. 86 UNIDADE V │ DEtEctorEs E INtErprEtAção Dos rEsUltADos figura 72. detector por ionização de Chama (fid). Medida de Corrente ~30 mL / min H2 ~30 mL / min N2 ~300 mL / min ar Fase móvel vinda da coluna (N2) ~ 1mL / min Reações de ionização na chama CH + O CHO+ + e- COH+ + 4H2O (H2O)nH + fonte disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/45/schematisch_weergave_fid_detector.jpg>. Este detector funciona da seguinte forma: uma chama de hidrogênio é formada em uma câmara conectada a saída da coluna cromatográfica. Os compostos presentes na amostra entram em contato com esta chama, que os ioniza, ou seja, quebra as moléculas fazendo com que se forme fragmentos com carga. Este processo de ionização ocorre em uma câmara contendo dois eletrodos polarizados com cargas opostas e a corrente induzida entre tais eletrodos é medida. A capacidade do sistema em conduzir corrente elétrica é diretamente proporcional a quantidade de íons do sistema, que, por sua vez, é proporcional a quantidade de material ionizado. Moléculas orgânicas maiores, portanto, tendem a ter sensibilidade mais alta. Para o funcionamento deste detector, é necessário que o cromatógrafo seja alimentado por três gases. Além do gás de arraste para a cromatografia, frequentemente formado por nitrogênio (N2) devido à inércia química e baixo custo, é necessário alimentar a chama com hidrogênio (H2) e ar sintético, comburente para a chama (por conter 20% de O2). Uma quantidade de N2 é misturada ao H2 quando inseridos no detector, para otimizar o fluxo da amostra saindo da coluna para o detector. A emissão de elétrons pode ser modulada de forma diferente. Em uma variação desta técnica, uma pérola de rubídio ou césio é aquecida em posição acima da chama, de modo a emitir elétrons por um efeito chamado emissão termoiônica. Quando compostos contendo nitrogênio ou fósforo chegam à chama, os íons formados são adsorvidos na superfície da pérola, diminuindo a função trabalho (energia necessária para termoionização), aumentando o sinal. Este detector é chamado detector termiônico 87 Detectores e Interpretação Dos resultaDos │ unIDaDe V específico (Thermionic Specific Detector, TSD) ou, mais popularmente, detector de nitrogênio-fósforo (Nitrogen-Phosphorus Detector, NPD). Ainda utilizando detecção com chama, o sinal observado pode ser diferente. É possível utilizar um detector fotométrico e examinar a luz emitida pela chama ao invés da corrente. Este detector por fotômetro de chama (Flame Photometric Detector, FPD) pode ser mais específico, visto que é possível selecionar a frequência da luz a ser medida, e oferece boas respostas para diversos compostos orgânicos contendo átomos como enxofre e fósforo. Já o detector por emissão atômica (Atomic Emission Detector, AED) é capaz de monitorar simultaneamente mais de uma frequência de luz, tendo aplicação mais abrangente. A construção destes detectores e suas aplicações serão tema abordado no módulo QF3. A detecção por ionização ainda pode ser realizada por técnicas diferentes. Ao invés da chama, a ionização das amostras pode ser provocada por luz ultravioleta, sendo um detector de fotoionização (Photoionization detector, PID). Este detector, que não tem necessidade de gases adicionais para a sua operação, frequentemente é utilizado para detecção de compostos orgânicos voláteis (COVs) em áreas contaminadas e frequentemente é acoplado como detector em cromatografia a gás.. Já no Detector por Captura de Elétrons (Electron Capture Detector, ECD), o sinal examinado corresponde a radiação de uma fonte radiativa de partículas β (elétrons), tipicamente 63Ni. Quando moléculas que absorvem essa radiação se encontram no sistema, o transporte de elétrons na câmara fica comprometido e os íons gerados tem maior probabilidade de serem neutralizados no sistema, levando a queda drástica de corrente. Este detector, muito utilizado em análises forenses e ambientais, é especialmente sensível para compostos halogenados. figura 73. detector por fotoionização (Pid). fonte disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/d/dc/Pid_detector.svg/2000px-Pid_detector.svg.png>. Na detecção de íons formados pode-se, ainda, classificar e quantificar os íons formados de acordo com a relação entre sua carga e sua massa (m/z), em 88 UNIDADE V │ DEtEctorEs E INtErprEtAção Dos rEsUltADos uma técnica chamada espectrometria de massas (Mass Spectrometry, MS). Esta técnica, consideravelmente mais complexa e dispendiosa, fornece informações muito mais precisas acerca das amostras estudadas e, em muitos casos, permitem a identificação de compostos antes desconhecidos, de acordo com a relação m/z dos íons formados. Os instrumentos que realizam espectrometria de massas são bem complexos e variados, de acordo com a aplicação a ser utilizada. De maneira simplificada, ele consiste nas seguintes partes descritas: » fonte de ionização: quando inserida no sistema, a amostra é ionizada para análise subsequente. Existem diversas formas para realizar este processo, sendo sua escolha de acordo com o tipo de análise a ser realizada; » analisador de íons: uma vez formados, os íons entram em uma câmara e são submetidos a campos magnéticos, interagindo de acordo com sua relação m/z; » detector de íons: após ação do campo magnético, os íons são detectados e quantificados por um sensor. As características dos íons formados dependem das configurações do sistema utilizado. Em alguns casos, quando se procura aumento da sensibilidade, monitora-se a intensidade de apenas um íon, mas também é possível monitorar uma grande variedade de massas, de forma a ter um espectrograma abrangente de massas para cada momento cromatograma. Em alguns equipamentos, inclusive, possuem mais de um setor com estas partes, de modo a gerar íons e fragmentos a partir de amostras já fragmentadas, fornecendo maiores informações sobre as amostras. Uma discussão aprofundada a respeito de espectrometria de massas, apresentando as reações envolvidas nos processos de ionização e detecção, bem como cada uma de suas partes detalhadas e configurações alternativas dos instrumentos, está fora do escopo deste curso. Outro método de detecção diferente, que não envolve ionização dos compostos analisados, é o detector por condutividade térmica (Thermal Conductivity Detector, TCD). Neste, uma resistência elétrica é colocada em duas câmaras com fluxo de gás, sendo uma o fluxo da coluna cromatográfica e outra o gás de arraste puro, como referência. Quando a composição do eluente da coluna muda, a estabilização térmica da câmara muda, alterando a corrente que passa pela resistência da primeira câmara. O esquema do detector é apresentado na figura 74. 89 Detectores e Interpretação Dos resultaDos │ unIDaDe V figura 74. detector por Condutividade térmica. fonte disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/file:thermalConductivitydetector.svg>. A técnica GC-TCD é amplamente utilizada, nos dias atuais, para a realização de Análise Elementar (CHNS), em substituição a análise gravimétrica. Cromatografia a líquido e Eletroforese Capilar As separações realizadas por cromatografia a líquido, inicialmente, eram monitoradas por inspeção visual. Durante o desenvolvimento datécnica, métodos de coleta de alíquotas e análise em bateladas foram realizados de maneira similar à cromatografia a líquido e, da mesma forma, fez-se necessário a implementação de sistemas capazes de detectar automaticamente os compostos eluídos durante a análise. Por serem técnicas de separação em amostras líquidas, os detectores utilizados para HPLC e EC são, em princípio, os mesmos. Apesar de algumas peculiaridades entre cada técnica (a serem comentadas a seguir), a apresentação de detectores para ambas as técnicas será realizada ao longo deste mesmo texto. O primeiro detector em linha desenvolvido para HPLC é o detector por índice de refração. Neste, uma luz incide sobre a amostra e seu desvio (provocado pela refração que cada material específico possui) é medido. Este detector sofre muita influência do ambiente (temperatura, pressão, fluxo de fase móvel), não pode ser utilizado com eluição por gradiente e possui baixa sensibilidade, 90 UNIDADE V │ DEtEctorEs E INtErprEtAção Dos rEsUltADos mas ainda é bastante útil para amostras que não podem ser detectadas por outros detectores, descritos e explicados a seguir. Hoje em dia, o detector por espectroscopia no ultravioleta-visível (UV-Vis) é um dos detectores mais populares em HPLC e EC, sendo seus princípios e montagem apresentados no módulo QF3. Em resumo, ele detecta a quantidade de luz absorvida por uma amostra, podendo monitorar uma única frequência ou várias frequências instantaneamente. O uso inicial de detectores na região do ultravioleta se mostrou conveniente pelo grande número de substâncias detectáveis (como por exemplo, inúmeros tipos de ligações duplas em moléculas orgânicas). Em alguns casos, contudo, é necessário proceder a derivatização da amostra para que a substância a ser analisada se torne detectável. Em equipamentos de HPLC, a célula comumente se constitui de uma câmara de quartzo em série com a coluna cromatográfica, cujos fluxos para entrada e saída se solução são perpendiculares à fonte de emissão de luz e ao detector. As células para medidas espectroscópicas em CE apresentam algumas especificidades. Em virtude do pequeno volume de soluções que fluem durante a separação, o interfaceamento de uma célula externa se torna menos viável. Neste caso, uma porção do capilar de separação é tratado de forma a ficar transparente, de modo a permitir a passagem de luz para medida de absorbância. Em virtude da frequente utilização de capilares de sílica protegidos com poliimida para separações eletroforéticas, a exposição da janela de separação pode ser realizada pela degradação térmica do polímero que protege o capilar (por queima), deixando a superfície transparente exposta, apesar de mais frágil. É importante ressaltar que não é possível realizar medidas na região do ultravioleta, pois o capilar de sílica absorve a radiação incidida. Outra implicação dos pequenos volumes utilizados em CE é a baixa sensibilidade que o sistema apresenta em medidas espectroscópicas, pois o caminho ótico, ou seja, a distância percorrida pela luz na amostra é muito pequeno. Para aumentar esse caminho, duas alternativas foram propostas: a célula em bolha e a célula em Z. A célula em bolha consiste no aumento do diâmetro de uma região do capilar, de forma a aumentar o caminho percorrido pela luz durante a análise, conforme figura 75(a). Já a célula em Z se trata de uma estratégia de curvamento do capilar fazendo com que a fonte de luz e o detector se encontrem alinhados ao fluxo de solução, conforme figura 75(b). 91 Detectores e Interpretação Dos resultaDos │ unIDaDe V figura 75. Célula em Bolha e Célula em z. fonte disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Capillary_electrophoresis#/media/file:extendedpathlength.gif>. Outra estratégia de detecção, mais específica e, frequentemente, mais sensível, é a fluorimetria, cujos fundamentos e maiores informações acerca deste detector serão apresentados na unidade QF3. Ela consiste na medida da intensidade da fluorescência de uma amostra sob excitação se fonte de luz coerente. Sua montagem é similar ao detector UV-Vis, como a principal diferença de que o sensor do detector não se encontra alinhado com a fonte de luz e a cela, mas sim em ângulo (geralmente 90°), assim, mede apenas a luz decorrente do processo de fluorescência, não de excitação. Vale lembrar que, a fluorimetria é um fenômeno específico, o que limita a detecção de um grupo limitado de compostos. Apesar desta limitação, vale ressaltar a fluorimetria é uma das técnicas de detecção mais sensíveis que existem para HPLC e para CE, sendo amplamente utilizada para análise de alimentos, drogas e, até mesmo, corantes. Similarmente a espectroscopia UV-Vis, estratégias de derivatização para viabilizar a detecção por esta técnica, são comumente empregadas. Além das propriedades óticas, a medida de propriedades elétricas é muito relevante para a detecção em métodos de separação para líquidos. O detector por condutividade elétrica mede a capacidade de uma amostra em conduzir corrente elétrica sob ação de um potencial alternado, seus fundamentos serão explicados no módulo QF3 deste curso. Sua utilização é mais recorrente em cromatografia por troca iônica e CE. Em separações cromatográficas com detecção condutométrica, a alta concentração de íons na fase móvel pode aumentar a condutividade da amostra de modo a prejudicar a detecção. Neste caso, é comum utilizar uma coluna ao final do sistema para supressão dos íons, ocasionando a troca ou retenção de íons presentes na amostra antes da detecção. Em meados da década de 1990, uma nova arquitetura de detectores de condutividade foi desenvolvida. Nesta, um par de eletrodos é posicionado ao lado de fora dos tubos nos 92 UNIDADE V │ DEtEctorEs E INtErprEtAção Dos rEsUltADos quais ocorrem o fluxo de separação e a condutividade das espécies internas é medida por meio da aplicação de um potencial alternado em alta frequência. Este dispositivo é chamado detector de condutividade sem contato capacitivamente acoplado (Contactless Capacitively Coupled Conductivity Detector, C4D). O C4D ganhou rapidamente espaço no mercado, sendo popular em especial para CE, pela praticidade em interfacear o detector com o capilar de separação. Vale lembrar que, para a eletroforese, baseada na separação por mobilidade iônica, este detector é praticamente universal. Outras medidas também utilizadas como forma de detecção acoplada são: amperometria e a voltametria, cujos fundamentos serão explicados com mais profundidade no módulo QF3. Nestas, um potencial é aplicado entre a solução eluída e um eletrodo de trabalho, que induz reação de oxidação ou redução no analito com o qual entra em contato. Como vantagens, estas medidas eletroquímicas apresentam alta sensibilidade e seletividade, porém, a manutenção dos eletrodos e a quantidade restrita de analitos que, por eles, podem ser detectados. Assim, estes métodos são utilizados em aplicações específicas. Apesar da arquitetura da CE apresentar pontos com diferenças de potencial bem mais elevadas do que aquelas utilizadas em medidas eletroquímicas, é possível realizar medidas amperométricas e voltamétricas. Neste caso, a arquitetura do sensor é especificamente elaborada para que o potencial de detecção não seja influenciado pelo potencial de separação. Outra técnica muito importante de detecção para HPLC e CE é a espectrometria de massas. Considerações a respeito deste detector, apenas ressaltando-se aqui a grande importância deste detector nos dias de hoje, sendo cada vez mais utilizado nos laboratórios analíticos para as mais diversas aplicações. Cromatografia Planar Tradicionalmente, a detecção em cromatografia planar ou em camada delgada é realizada visualmente, conforme apresentado no exemplo do início da unidade. Em casos que o analito não seja diretamente observável, após eluição, estratégias de derivatização são amplamente utilizadas, bem como também se realiza a observaçãoda fluorescência da placa quando submetida à radiação ultravioleta. Para medidas quantitativas, a digitalização da imagem permite que os sinais observados sejam medidos em valores numéricos de intensidade, como apresentado pelo exemplo no início da unidade. 93 unidAdE Vi guiA PrátiCo dE SElEção E rEAlizAção dE téCniCAS Tão importante quanto conhecer os princípios de cada técnica e suas potencialidades é saber selecionar métodos e controlar parâmetros para uma boa análise. Complementando a apresentação conceitual realizada nas unidades anteriores, esta unidade traz um guia prático para a utilização das técnicas de análise estudadas. Tratando de cada uma das técnicas apresentadas e de seus aspectos centrais, as informações são oferecidas como tabelas e figuras esquemáticas de fácil visualização. Esta unidade engloba todas as técnicas abordadas (gravimetria, cromatografia e eletroforese capilar) e orienta como realizar os procedimentos analíticos. A opção de separar estas informações ao final da apostila vem de encontro com a elaboração de material claro, prático e de fácil consulta, que pode ser levado a tiracolo e visto sempre que conveniente, seja no laboratório, seja para avaliação de dados e perícias. É importante ressaltar que, as técnicas apresentadas neste curso são complexas, a ponto de existirem pesquisadores especializados em cada uma delas ou em sua operação, dedicando seu trabalho em desenvolver e adaptar métodos para os mais diversos analitos em diversas matrizes. Contudo, este guia é um ponto de partida para a seleção e realização de um método, permitindo maior aprofundamento posterior, bem como permite identificar eventuais problemas de análise e potenciais soluções. Ressalta-se aqui que este guia, em nenhum momento e em nenhum aspecto, substitui os guias e manuais originais de quaisquer equipamentos e insumos, de forma que recomendamos contato direto com os fornecedores em caso de dúvidas ou maiores informações a respeito de um componente específico. 94 CAPítulo 1 gravimetria e pesagens A gravimetria é, nos dias de hoje, uma medida instrumentalmente muito simples. Balanças analíticas modernas são simples de serem operadas, e possuem frequentemente sistemas internos de calibração. De toda forma, alguns cuidados devem ser tomados para garantir seu bom funcionamento. Para garantir um funcionamento ideal da balança analítica, deve-se: » posicionar a balança em bancada rígida, não suscetível a vibrações. A balança analítica deve permanecer em um lugar fixo do laboratório; » estar protegida de correntes de ar, seja de janelas ou portas, seja ventilação mecânica provocada por equipamentos como ar condicionado e eletrônicos com coolers e dispositivos similares; » operar em sala com temperatura constante, e distante de possíveis fontes de calor e distante da irradiação direta do sol; » manter os níveis de umidade relativa do ar acima de 45% (para evitar formação de cargas eletrostáticas) e abaixo de 60% (para evitar processos de condensação durante a pesagem); » evitar aproximação de campos magnéticos e eletrostáticos. Além da instalação, também deve-se cuidar alguns aspectos operacionais: » verificar o nivelamento da balança. Para tanto, a balança possui um nível constituído de um pequeno poço de óleo com uma bolha, que deve estar posicionada em meio ao círculo demarcado, e seu nível pode ser ajustado por meio de niveladores nos quais ela se apoia. » a balança deve estar ligada e estabilizada há algum tempo. Se a balança estiver desligada antes do uso, será necessário deixá-la ligada para estabilização durante tempo definido pelo fabricante. A balança, fora de uso, pode ser deixada ligada em modo Standby; » utilizar o menor frasco de pesagem possível; » não tocar frascos ou recipientes de pesagem diretamente com os dedos. Resíduos naturais da pele influenciam no resultado de pesagem mesmo quando limpa; 95 Guia Prático de seleção e realização de técnicas │ unidade Vi » posicionar o frasco ao centro do prato de pesagem; » garantir que a temperatura do frasco de pesagem e seu conteúdo estejam iguais à temperatura ambiente; » Retirar o frasco do prato logo após a pesagem. Entre pesagens, também é necessário: » calibrar regularmente o instrumento. A calibração é essencial após mudança de posição ou nivelamento da balança; » manter a câmara de pesagem limpa e seca. Para tanto, recomenda-se o uso de pincel de cerdas macias para remoção de pós e resíduos de pesagem. Maiores detalhes a respeito da operação da balança analítica podem ser encontrados em <http://chemkeys.com/br/2011/12/02/quimica-analitica-basica-os-instrumentos- basicos-de-laboratorio/>, e nos manuais dos fabricantes dos equipamentos. Apesar de aspecto chave na gravimetria, a pesagem não é o único ponto que deve ser cuidado durante a análise. Para realização da gravimetria por precipitação, são realizadas diversas etapas laboratoriais, apresentadas no fluxograma da figura 76. Ao lado do fluxograma, colocam-se alguns campos para preenchimento manual, que podem ser utilizados no estudo de métodos ou mesmo prática laboratorial, por meio de cópia simples desta folha. Como referência inicial para a busca de métodos gravimétricos indicados para análise elementares, indica-se a consulta de VOGEL, 2002. O cálculo das massas molares de cada composto, possibilitando sua quantificação de maneira precisa, pode ser realizado somando-se a massa de cada elemento presente na molécula ponderada por suas quantidades, sendo as massas encontradas na tabela periódica, apresentada na figura 77. Na tabela, pode-se encontrar o símbolo de cada elemento, abaixo de seu nome, e a sua massa, acima do símbolo. Por exemplo, para calcular a massa molar do fosfato de cálcio (Ca3(PO4)2), soma-se a massa de cada elemento (Cálcio, fósforo e oxigênio) multiplicada pelo índice no canto inferior esquerdo do composto. Os parênteses indicam multiplicação distributiva, como na matemática. O cálculo se apresenta logo abaixo. figura 76. Cálculo da massa molar do fosfato de cálcio. �����(���)� = 3 ∙ ���� + 2 ∙ (��� + 4 ∙ ���) �����(���)� = 3 ∙ 40,078 + 2 ∙ (30,97686 + 4 ∙ 15,9994) �����(���)� = 310,1829�� ∙ ����� 96 UNIDADE VI │ GUIA PrátIco DE sElEção E rEAlIzAção DE técNIcAs A tabela periódica possui uma série de outras informações relevantes que podem ser consultadas. As informações nela contidas e consultas mais aprofundadas estão fora do escopo deste curso. figura 77. tabela periódica dos elementos químicos. fonte disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/file:Periodic_table_large-pt_Pt.svg#/media/file:Periodic_table_large-pt_BR.svg>. figura 78. fluxograma de análise Gravimétrica por Precipitação. Condicionamento (Preparo de amostra para favorecer precipitação seletiva) Derivatização (Adição de reagente seletivo para formação de produto de interesse) Filtração Lavagem Tratamento térmico Pesagem Tarar Filtro Início Se necessário, quais reagentes utilizados: _________________________ Derivatizante adicionado: _________________________ Tara do filtro (g): _________________________ Solução para lavagem: _________________________ Temperatura (°C) e tempo (h): _________________________ Final (g): ___________ Analito (g): ___________ fonte: autor. 97 CAPítulo 2 Cromatografia A cromatografia é um processo de separação conceitualmente simples, mas a prática analítica é bastante complexa devido às inúmeras possibilidades que podem ser exploradas para a sua realização. Este guia se baseia em referências da literatura direcionadas ao desenvolvimento de métodos e resolução de problemas. Por um lado, as modalidades cromatográficas apresentam semelhanças entre si e podem, em muitos aspectos, ser pensadas da mesma forma. No entanto, como autores diferentes se dedicam a cada uma das técnicas apresentadas, pontos de vista diversos frente a cada problema e soluções otimizadas em cada situação são obtidas, de formaa não apenas cobrirem aspectos diferentes do universo das separações, mas até mesmo se complementarem. A figura 66 apresenta a composição de algumas modificações de sílica utilizadas como fase estacionária em cromatografia de fase reversa, seja em HPLC ou em TLC. De acordo com a tabela de eletronegatividade apresentada na unidade I, pode-se entender, pelas estruturas apresentadas, quais modificações abaixo apresentam maior ou menor polaridade. figura 79. Composições recorrentes para fases móveis em Cromatografia a líquido. R Nome da Fase Estacionária -OH Sílica -C 8 H 17 C 8 ou Octil -C 12 H 25 C 12 ou dodecil -C 18 H 37 C 18 ou Octadecil -C 3 H 6 -CN Cianopropil -C 3 H 6 -NH 2 Aminopropil -C 3 H 6 -O-CH 2 -CHOH-CH 2 OH Diol -C 4 H 8 -camada quiral Quiral fonte: adaptado de Wilson i., et. al., 2000. 98 UNIDADE VI │ GUIA PrátIco DE sElEção E rEAlIzAção DE técNIcAs Cromatografia em Camada delgada (tlC) A Cromatografia em Camada Delgada é uma técnica extremamente importante em diversos contextos de análise, mas desenvolver um método capaz de realizar separação com suficiente resolução é um aspecto crítico de sua realização. Apesar de sua simples execução, existe um grande número de variáveis que influenciam decisivamente no processo de separação. A otimização sistemática destes parâmetros é bastante útil para o trabalho do analista, e um fluxograma apresentando estas variáveis e uma sequência otimizada de estudo se encontra na figura 80. figura 80. otimização de parâmetros para tlC. Seleção dos Solventes Adequados Seleção da Fase Estacionária (FE) Seleção da Fase de Vapor (FV) Transferir FM para método adequado de propulsão Otimização da Fase Móvel (FM) Seleção do Modo de Desenvolvimento Seleção dos Parâmetros de Operação fonte: adaptado de Wilson i., et. al., 2000. Um fluxograma é apresentado na figura 81 para a escolha da fase estacionária. De maneira similar a HPLC, a fase escolhida varia de acordo com as propriedades das soluções, e algum conhecimento sobre a composição da amostra ajuda a definir qual solução analítica deve ser utilizada. 99 Guia Prático de seleção e realização de técnicas │ unidade Vi Desenvolvimento múltiplo automatizado se refere a uma técnica de TLC na qual uma série de placas similares são eluídas com solventes diferentes, permitindo a separação da amostra. Para problemas de determinação mais complexos, cada variável precisa ser otimizada. Para maior aprofundamento no assunto indicam-se referências para consulta (WILSON I. et. al., 2000). figura 81. fluxograma para seleção de fase estacionária para tlC. Problema para Cromatografia Planar? N Amostra com grande variabilidade de polaridade? ã Amostra muito polar ou contém homólogos? Amostra contém principalmente compostos dissociáveis? Amostra contém hidrocarbonetos aromáticos ou compostos isoméricos? Utilize RF com tampão aquoso ou parea- mento iônico Utilize placas de alumina Utilize placas de alumina Utilize Fase Reversa (RF) Utilize Desenvol- vimento múltiplo automati- zado!Utilize HPLC N N N N S S S S S fonte: adaptado de Wilson i., et. al., 2000. 100 UNIDADE VI │ GUIA PrátIco DE sElEção E rEAlIzAção DE técNIcAs Cromatografia a líquido (HPlC) A Cromatografia a Líquido de Alta Eficiência é uma das técnicas de separação mais versáteis da atualidade. A figura 82 apresenta uma divisão de suas modalidades, de acordo com sua aplicação. É certo que esta não é uma tabela definitiva, visto que alguns problemas específicos podem ser resolvidos por outras técnicas (cromatográficas ou não), mas este fluxograma serve como um ponto de partida para a procura ou mesmo desenvolvimento de métodos para analitos de interesse. figura 82. Classificação de métodos de HPlC de acordo com a amostra. Amostra < 2000 Insolúvel em água Solúvel em Hexano Não Polar Líquido- Sólido Sílica (I) (II) Fase Reversa C-18 (III) (IV) Solúvel em Metanol Moderada mente Polar Fase Reversa C-8 (IV) Líquido- Sólido Sílica (I) Polar Líquido- Sólido Sílica Desativada (I) Fase normal CN Clorofórmio (V) Fase Reversa C-8 (IV) Solúvel em água Não Iônico Fase Reversa C-18 (III) (IV) Iônico Base Forte Troca Iônica Trocadora de Cátions Tampão Aquoso Base Fraca Fase Reversa C-18 HHS em água Ácido Forte Troca Iônica Trocadora de Ânions Tampão Aquoso Ácido Fraco Fase Reversa C-18 TBAOH em água > 2000 Insolúvel em água Exclusão GelPoliestiren THF Clorofórmi ooSolúvel em água Não Iônico Exclusão Gel de Dextrano Água Metanol Iônico Básico TrocaIônica Gel de Dextrano Tampão Aquoso Ácido TrocaIônica Gel de Dextrano Tampão Aquoso Peso Molecular Propriedades Propriedades Propriedades Tipo Cromatografia Fase Estacionária Fase Móvel fonte: adaptado de Collins, C.H., 1997. Perceba que o fluxograma acima possui, para amostras enquadradas em cada uma das classificações propostas, as condições iniciais para desenvolvimento do método. Elas englobam o método cromatográfico, a coluna utilizada e até mesmo a mistura de 101 Guia Prático de seleção e realização de técnicas │ unidade Vi solventes a ser testada. Para questão de clareza na tabela apresentada, alguns solventes são indicados com caracteres romanos, e sua correspondência se encontra na tabela 6. tabela 6. fases móveis para desenvolvimento de HPlC (ver figura 69). Mistura Fórmula (I) n-heptano/Clorofórmio nC7H16/CHCl3 (II) tolueno C6H5CH3 (III) metanol/água CH3OH/H2O (IV) acetonitrila/água CH3CN/H2O (V) n-heptano/isopropanol nC7H16/PrOH HSS Ácido Hexanosulfônico CH3(CH2)5SO3-H TBAOH Hidróxido de Tetrabutilamônio N(C4H9)4OH THF Tetrahidrofurano C4H8O fonte: adaptado de Collins, C.H., 1997. Como falado no Capítulo 3 e pode ser visto acima, grande parte das análises atuais são realizadas com cromatografia por fase reversa, sendo em muitos casos um bom ponto de partida para o desenvolvimento de método para amostra desconhecida. Segue, na tabela 7, uma sugestão de parâmetros iniciais para teste de método em amostra desconhecida. tabela 7. Parâmetros iniciais para desenvolvimento de método em HPlC. Tamanho da Coluna 150 x 4,6 mm. Tamanho de Partícula 5 um. Fase Estacionária Octil ou Dodecaoctil. Fase Móvel (A/B) Água/Acetonitrila. %B Variável (Isocrática). 5-100% B em 20 minutos (Gradiente). 5-80% B se A for tampão Fosfato (Gradiente). Tampão 25 mmol L-1 Fosfato ou 0,1% Ácido Trifluoroacético. Aditivos Se necessário (Especialmente na separação de compostos ionizados). Fluxo 1-2 mL L-1. Temperatura 40 °C. Volume máximo de amostra 50 uL. Massa máxima de amostra 100 ug. fonte: adaptado de Wilson i., et. al., 2000. A separação utilizando os parâmetros iniciais funcionam como um ponto de partida para o desenvolvimento do método. De acordo com os sinais obtidos, mudanças sistemáticas nos parâmetros de separação devem ser realizadas, de forma a atingir 102 UNIDADE VI │ GUIA PrátIco DE sElEção E rEAlIzAção DE técNIcAs uma boa resolução dos picos em um tempo mínimo (ou minimamente aceitável) de análise. Inicialmente se ajustar a proporção do primeiro solvente B escolhido, quer seja Acetonitrila ou Metanol, buscando a melhor separação, trocando-se um solvente pelo outro (substituindo B) caso ainda não se consiga uma boa resolução. Na sequência, a troca da temperatura da coluna pode mudar o fator de resolução entre picos (apesar de pouco explorada), e, em algumas soluções (especialmente ionizáveis), mudar o pH da fração aquosa pelo uso de um tampão pode influenciar bastante na qualidade dos resultados. figura 83. sequência de otimização de parâmetros para HPlC. O ti mi zar %B (Aceto- nitrila ou Metanol) A va li ar B (Aceto- nitrila ou Metanol) T E M P pH Ti po de Co lu na (C8 = C18 > CN > Amida > Fenil) A di ti vos T H F Mo do de se pa ra ção fonte: adaptado de Wilson i., et. al., 2000. Ainda é possível buscar melhores resultados utilizando aditivosde pareamento iônico, por exemplo, ou misturar tetrahidrofurano (THF) a fase B, no entanto estes compostos químicos podem dificultar o trabalho cromatográfico posterior pela interação destas espécies com o equipamento e a coluna. Caso a separação não seja possível mesmo com todos estes estudos, é provável que haja outro modo de separação cromatográfica diferente da cromatografia em fase reversa que deve funcionar melhor para a amostra estudada. Os cromatogramas esperados, para qualquer das técnicas instrumentais apresentadas, possuem picos de grande intensidade e pequena largura, com grande resolução entre si e a separação ocorre em tempos relativamente curtos. Na prática cromatográfica, alguns problemas podem tornar a separação pior, e muitas vezes não é fácil deduzir, prontamente, os motivos. Alguns problemas recorrentes em HPLC são listados na tabela 8, indicando prováveis motivos e sugestões para solucionar o problema. 103 Guia Prático de seleção e realização de técnicas │ unidade Vi tabela 8. Problemas comuns encontrados em HPlC. Problema Observado Fonte do problema Solução Formato de pico defeituoso Tipo de sílica Inapropriada. Usar sílica tipo B (para amostras alcalinas). Frita bloqueada ou Vazio na coluna. Substituir frita, lavar coluna. Interações com os Silanois da coluna. Usar aditivos (aminas), mudar pH, usar colunas “end-capped”*. Largura excessiva de pico Coluna inapropriada. Trocar coluna. Coluna sobrecarregada. Injetar menos amostra. Massa molecular muito grande. Normal (não há porque se preocupar). Picos mal resolvidos. Melhorar método de separação. Tempo de retenção inadequado Fase móvel muito forte. Usar menor proporção de solvente B Coluna muito fraca. Mudar de coluna para C18. Amostras ionizadas. Mudar o pH da solução A. Amostras muito polares. Mudar para Cromatografia de fase normal. Gradiente começando com muita força. Começar gradiente com menor proporção de solvente B Retenção excessiva Fase móvel muito fraca. Usar maior proporção de solvente B Coluna muito retentiva. Mudar de coluna para C8, C4 ou CN. Amostras muito hidrofóbicas. Mudar para Cromatografia de fase normal. Gradiente se encerra muito cedo. Parar gradiente em maior proporção de solvente B. Faixa muito ampla de tempos de retenção Ácidos e bases ou bases e neutros em solução. Utilizar pareamento iônico. Polaridades muito abrangentes para método isocrático. Usar gradiente de eluição. Resolução Inadequada Tempo de retenção muito curto. Aumentar fator de retenção. Baixa seletividade. Aumentar fator de seletividade. Eficiência de separação muito baixa. Usar colunas maiores ou com partículas menores. *”end-capped” column: coluna de sílica tratada para inibir ionização de grupos silanois fonte: adaptado de Wilson i., et. al., 2000. Cromatografia a gás (gC) Projetada para análise de compostos voláteis, a cromatografia a gás é capaz de lidar, salvo a regra, com analitos com peso molecular até 1250, e/ou com temperatura máxima de ebulição a 425°C. Para resolver problemas de baixa estabilidade térmica dos analitos, bem como para melhorar características de separação, existem uma série de agentes derivatizantes no mercado. A programação de temperatura e a escolha da fase estacionária são os parâmetros mais importantes de serem otimizados para a separação, sendo a composição da fase móvel e seu fluxo otimizados de acordo com características do detector, devido a sua baixa influência no processo de separação. 104 UNIDADE VI │ GUIA PrátIco DE sElEção E rEAlIzAção DE técNIcAs Para problemas desconhecidos, pode-se realizar um experimento inicial com os parâmetros apresentados na tabela 9. Além dos parâmetros iniciais, há indicação de como proceder para melhorar a separação em etapa posterior. tabela 9. Guia para otimização de métodos de HPlC. Fase estacionária » Apolar poli(dimetilsiloxano) ou poli(dimetildifenilsiloxano) com 5%(mol) difenilsiloxano. Coluna » Comprimento 10 a 30m. » Diâmetro interno de 0,25 a 0,32 mm. » Espessura do filme 0,25 um (1,0 um para compostos voláteis). Fluxo » Otimizada de acordo com gás de arraste. Temperatura » Programada, de 50°C a 300°C a 20°C/min. (ou máximo suportado pela coluna). » Observe as temperaturas de eluição e seus intervalos › se o intervalo for menor que 25°C, proceda análise por isoterma; › se o intervalo for maior que 25°C, proceda análise por programação de temperatura. Otimização Isoterma » Otimizar intervalo de fatores de retenção, encontrado plotando log(k)/(1/T) Otimização Temperatura Programada » Do programa original: 1. T inicial (T min ) 20°C menor que a temperatura de eluição do 1° componente. 2. T final (T máx ) 20°C maior que a temperatura de eluição do último componente. 3. Para misturas simples, aumento de 10°C/min, ou 1 a 2°C/min para misturas complexas. Temperatura do Injetor/Detector » Inicialmente alta (350°C) › Ajustar para ~25°C > T máx separação. Divisão de injeção » Split, com razão entre 1:50 e 1:100. Detector » Universal (Detector por Ionização de Chama, FID). fonte: adaptado de Wilson i., et. al., 2000. Os parâmetros para otimização de método em cromatografia a gás são bastante diferentes das cromatografias líquidas apresentadas. Salvo a regra, a influência da fase móvel é muito pequena na separação, sendo, via de regra, otimizado apenas de acordo com o detector a ser utilizado. Para a composição da fase estacionária, existem diversas colunas comerciais de GC capazes de interagir de maneira diferente com a amostra. O uso de colunas gás-sólido em GC são menos abrangentes do que o gás-líquido, reutilizadas para análise de gases fixos, moléculas orgânicas menores e eventualmente separação de isômeros e isótopos. tabela 9. tipos de Colunas Plot para GC. Fase estacionária Aplicações típicas Alumina Alcanos, alcenos, alcinos e aromáticos até C10. Halocarbonos C1 e C2. Sílica Gel Hidrocarbonetos (C1 a C4), gases inorgânicos, éteres voláteis, ésteres e cetonas. Carbono Gases inorgânicos e hidrocarbonetos (C1 a C5). 105 Guia Prático de seleção e realização de técnicas │ unidade Vi Fase estacionária Aplicações típicas Carbonsieves Compostos de C1 a C6. Peneiras moleculares (5A e 13X) Hidrocarbonetos (C1 a C3) em 5A e alcanos maiores em 13X (até C12). Não separa isômeros. Polímeros porosos Orgânicos voláteis de baixa massa molecular fonte: adaptado de Wilson i., et. al., 2000. Em relação às colunas gás-liquido, existe uma variedade muito maior no mercado, e a figura 82 mostra um dendrograma agrupando colunas gás-líquido comerciais comumente encontradas, agrupadas de acordo com suas propriedades. As colunas com ligações mais próximas são mais parecidas, sendo as interações dipolo-dipolo e ligações de hidrogênio mais fracas para os grupos mais ao alto do esquema. Os últimos dois grupos, separados dos da parte de cima, possuem maiores interações dipolo-dipolo, porém menor afinidade para realizar ligações de hidrogênio. Para testes de colunas diferentes, é mais interessante inicialmente realizar experimentos com colunas de grupos diferentes, fazendo-se um ‘ajuste fino’ na escolha de colunas de um mesmo agrupamento, ao final da otimização. Como em HPLC, a GC também está sujeita a problemas e pode apresentar resultados ruins, em condições não ideais. Alguns dos problemas mais recorrentes e relevantes são apresentados na tabela 10. figura 84. tipos de colunas WCot para GC. fonte: adaptado de Wilson i., et. al., 2000. 106 UNIDADE VI │ GUIA PrátIco DE sElEção E rEAlIzAção DE técNIcAs tabela 10. Problemas Comuns em GC e respectivas soluções. Interferência no sinal Causa Possível Sugestão Deriva de linha base (para cima) Dano à coluna Determine causa do dano. Pode ser por impurezas do gás ou temperaturas excessivas. Troque a coluna Deriva no fluxo de gás Limpe ou troque o regulador de pressão. Ajustar pressão. Ruído Saída da coluna distante do detector (FID, NPD, FPD) Reinstalar a coluna. Atenção a distância especificadano manual. Vazamento de ar (gera ruído em ECD e TCD) Eliminar vazamento. Gases incorretos ou vazão incorreta de gases (FID, NPD, FPD) Verificar composição e pureza dos gases. Reajustar vazão. Injetor contaminado Limpar injetor. Substituir liner de entrada, septo e lacres. Coluna contaminada Aquecer a coluna ao máximo especificado para eliminar impurezas. Cortar primeiros 10 cm da coluna. Se não resolver, substitua a coluna. Problemas no detector Limpar e substituir peças conforme necessário. Problemas na placa do detector Consulte representante do cromatógrafo. Pontos espúrios (spikes) Distúrbios elétricos Desligue o cromatógrafo e o mova. Se necessário, usar regulador de tensão. Flutuação Variações ambientais (Temperatura, Tensão na linha) Tete correlacionar com algum evento do ambiente. Controle de temperatura inadequado Ler temperatura do detector. Contaminação no gás de arraste Mudar o gás e/ou os filtros de purificação. Injetor contaminado Limpar injetor. Substituir liner de entrada, septo e lacres. Coluna contaminada Aquecer a coluna ao máximo especificado para eliminar impurezas. Cortar primeiros 10 cm da coluna. Se não resolver, substitua a coluna. fonte disponível em: <https://www.chromservis.eu/i/gc-troubleshooting/g/hints-and-tips>. 107 CAPítulo 3 Eletroforese capilar A CE deriva dos procedimentos de eletroforese nos quais os analitos são separados ao migrarem em meio a um gel. Apesar de seguir os mesmos princípios, a CE é uma técnica muito mais versátil nos dias de hoje, e apresenta variações de modalidade que aumentam seu potencial substancialmente. Uma lista destas modalidades e aplicações é mostrada na tabela 11. Atualmente, a modalidade de CE mais realizada é a CZE, que se vale da separação de íons cujas mobilidades são diretamente relacionadas à sua relação carga raio. Os parâmetros de operação iniciais sugeridos para desenvolvimento de método para esta modalidade se encontram na tabela 12. tabela 11. modos de operação de Ce. Modalidade da técnica Mecanismo de separação Aplicações Eletroforese Capilar em Zona (CZE) Diferença na relação carga/raio. Íons e compostos ionizáveis. Cromatografia eletrodinâmica micelar (MEKC) Distribuição de analitos entre eletrólito e micelas carregadas. Compostos neutros solúveis em água, ácidos e bases fracas. Eletroforese em Gel (CGE) Migração por matriz porosa, por influência do tamanho e da carga da partícula. Proteínas, macromoléculas e fragmentos de DNA. Electrocromatografia Capilar (EKC) Distribuição entre uma fase estacionária sólida e solução móvel de eletrólito. Compostos neutros solúveis em água, ácidos e bases fracas. Focalização Isoelétrica (IEF) Diferenças em pontos isoelétricos em um gradiente contínuo de pH. Proteínas, compostos zwitteriônicos. Isotacoforese (CITP) Diferença de mobilidade eletroforética de íons ‘sanduichados’ entre dois tampões contendo íons de maior e de menor mobilidade. Pré-concentração de íons. fonte: adaptado de Wilson i., et. al., 2000. tabela 12. Parâmetros iniciais para separações em Cze. Parâmetro Configurações Coluna Sílica fundida. 30 a 50 cm comprimento. 50 a 75 um diâmetro interno. Condicionamento Lavar com NaOH 0,1M 30 min. Lavar com água por 15 min. Lavar com tampão de corrida por 15 min. Tensão Aplicada 10-30kV Temperatura 20-25°C. Injeção Hidrodinâmica (0,5 p.s.i. por 3s) ou Eletrocinética (2-5 nL). Detecção UV-Vis 200-230nm ou condutométrica. fonte: adaptado de Wilson i., et. al., 2000. 108 UNIDADE VI │ GUIA PrátIco DE sElEção E rEAlIzAção DE técNIcAs Como visto na unidade IV, a influência do pH do meio no grau de ionização dos analitos permite a manipulação da mobilidade efetiva dos analitos de forma a favorecer a separação. Desta forma, uma dos parâmetros de otimização mais importantes da CZE é a composição do eletrólito suporte. É possível encontrar, sem grandes dificuldades, diversas receitas para a preparação de soluções tampão com diversos valores de pH, bem como é possível estimar a mobilidade de diversas espécies com dados de literatura especializada. Contudo, existe uma ferramenta gratuita para cálculos de pH de soluções e simulação de corridas de CZE, o software PeakMaster. Podemos observar diversos painéis relativos ao programa. Em “BGE constituents” adicionam-se os componentes do tampão a ser utilizado, enquanto em “Analytes” se colocam os analitos a serem analisados. Os dados adicionados podem ser manuais, colocando-se os valores das constantes de dissociação uma a uma, ou pode-se utilizar os valores da base de dados interna do programa, contendo já centenas de compostos. Além da composição da solução, o programa ainda permite colocar outros parâmetros específicos da corrida simulada, como potencial de separação e comprimento do capilar, por exemplo. No painel inferior do programa, a corrida simulada é plotada após rodar o comando “calculate”. A separação apresentada é uma simulação da análise de uma mistura de lidocaína e cocaína, utilizando tampão TRIS. Além dos efeitos ligados ao pH, outras substâncias podem influenciar a separação em equilíbrios secundários, podendo ser utilizadas como aditivos em separações eletroforéticas, como pode ser visto na tabela 13. Este guia apresenta alguns aspectos importantes do desenvolvimento de métodos e da prática analítica das técnicas utilizadas, servindo como uma base inicial para a compreensão ou realização de análises. Caso haja interesse pelo aprofundamento nos conteúdos aqui apresentados, pode-se consultar a bibliografia e webgrafia desta apostila. figura 85. interface do software Peakmaster. fonte disponível em: <https://web.natur.cuni.cz/~gas/Peakmaster%205.3%20Release%202011.zip>. 109 Guia Prático de seleção e realização de técnicas │ unidade Vi tabela 13. aditivos para Ce. Aditivos Função Sais inorgânicos Minimizam interações com parede do capilar. Induzem conformação de proteínas. Éteres Coroa Formação de complexos de inclusão (mudando de espécies). Solventes Orgânicos Modificam EOF. Solubilizam orgânicos. modificam solvatação de íons. reduzem interações com parede do capilar. Ureia Complexante para proteínas por ligação de hidrogênio. Íons Metálicos Modificam mobilidade de ânions e EOF. Ácidos Alcanossulfônicos Modificam parede do capilar, formação de pares iônicos. Polímeros de Celulose Modificam parede do capilar e EOF. Surfactantes Catiônicos Inversor de fluxo de EOF. Ácidos Orgânicos Formação de pares iônicos. fonte: adaptado de Wilson i., et. al., 2000. 110 referências AFONSO, J. C.; SILVA, R. M. D. A evolução da balança analítica. Química Nova, v. 27, n. 6, pp. 1021–1027, 2004. COLLINS, C. H. Introdução a métodos cromatográficos. TraduçãoCampinas: Editora da UNICAMP, 1995. COLLINS, C. H. Michael. Tswett e o “nascimento” da Cromatografia. Scientia Chromatographica, v. 1, n. 1, pp. 7–10, 2009. CHRISTIAN, G. D.; DASGUPTA, P. K.; SCHUG, K. Analytical chemistry. Tradução . Hoboken, NJ: John Wiley and Sons, Inc., 2014.HARVEY, D. Modern analytical chemistry. Boston: McGraw-Hill, 2000. HARRIS, DANIEL C. Análise química quantitativa, 6. ed. Rio de Janeiro: LTC - Livros Técnicos e Científicos Editora S.A., 2005. HELLER, M.; VITALI, L.; SIQUEIRA, M. A.; SAKO, A. V. F.; PIOVEZAN, M.; MICKE, G. A. Capillary Electrophoresis with UV Detection to Determine Cocaine on Circulated Banknotes. HARVEY, D. Modern analytical chemistry. Boston, McGraw-Hill, 2000. ISRN. 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