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direito_de_propriedade_2015-1

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do estado — proprietário para o estado — solidário, transpor-
tando— se do “monossistema” para o “polissistema” do uso do solo (arts. 5., 
xxiv, 22 ii, 24, vi, 30, viii, 182, parágrafos 3. E 4., 184 e 185, c. F.).
2. Na “área indígena” estabelecida o dominialidade (art. 20, xi e 231, c.F.), 
a união é nua — proprietária e os índios, situam-se como usufrutuários, fi-
cando excepcionado o direito adquirido do particular (art. 231, parágrafos 6. 
E 7., c. F.), porém, com a inafastável necessidade de ser verificada a habitação 
o ocupação tradicional dos índios, seguindo-se a demarcatória no prazo de 
cinco anos (art. 67, ADCT).
(...)
(STJ. MS 2.046. Rel. Min. Hélio Mosimann, J. 18/05/1993. DJ 
30.08.1993)
Na situação acima, entendeu o STJ que se os não-indígenas cumprem a 
função social da propriedade, devem ser deixados dentro de terra demarcada 
como reserva indígena. Você concorda com a decisão?
VII. CONCLUSÃO DA AULA:
De acordo com o inciso XXIII, do art. 5º, da Constituição da República, 
“a propriedade atenderá a sua função social”. Mas o que função social? Trata-
-se de conceito jurídico indeterminado, a ser preenchido pelo intérprete, de 
acordo com o caso concreto apresentado. Nas palavras de Marco Aurélio 
Bezerra de Melo: 7
A função social da propriedade tornou-se uma exigência da vida em 
sociedade, pois da mesma forma que é importante a defesa dos direitos 
individuais dos titulares da propriedade, é fundamental que se exija do 
proprietário a observância das potencialidades econômicas e sociais dos 
bens que deverão ser revertidos em benefício da sociedade.
Desta forma, o interesse do proprietário será protegido desde que sua pro-
priedade exerça seu papel, atendendo, de certa forma, aos interesses sociais 
daqueles não-proprietários. Neste sentido, por exemplo, traz a Constituição 
da República, nos incisos do art. 186, os requisitos para que a propriedade 
rural atenda sua função social: i) aproveitamento racional e adequado; ii) uti-
lização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio am-
biente; iii) observância das disposições que regulam as relações de trabalho; e 
iv) exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores.
7. MELO, Marco Aurélio Bezerra de. 
Direito das Coisas. 5ª edição. Rio 
de Janeiro: Lumen Juris, 2011, p. 86.
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8 REZENDE, Astolpho. A posse e a sua 
proteção. 2ª Ed. São Paulo: Lejus, 2000, 
pp. 1-26.
AULA 3: A PROPRIEDADE E A POSSE: EU ESTOU AQUI.
I. TEMA
Propriedade e posse.
II. ASSUNTO
Análise da posse e da propriedade.
III. OBJETIVOS ESPECÍFICOS
O objetivo desta aula consiste em apresentar as noções iniciais de posse e 
de propriedade, bem como as teorias desenvolvidas a respeito.
IV. DESENVOLVIMENTO METODOLÓGICO
1 O que é posse?
Como vimos, a propriedade consiste, na visão civilista tradicional, no exer-
cício de poderes significativos em relação a uma coisa. E se esses poderes são 
exercidos de fato, independente de uma situação juridicamente consolidada 
a ampará-los? Temos, nesse caso, a posse, que é a exteriorização do exercício 
desses poderes. Há, por exemplo, uma diferença evidente entre ter o direito 
de usar um carro, e efetivamente usá-lo. A exteriorização material constitui 
posse. O direito pode ser de qualquer natureza, inclusive a propriedade.
2 Fundamentos da tutela possessória no Direito Romano 8
Para Savigny, a origem da tutela possessória está nos campos comunais 
(ager publicus) e em seus ocupantes, que necessitavam de tutela jurídica que 
os protegessem. Já para Ihering, inicialmente, a origem estava nadefesa dos 
ocupantes que não eram o pater, na ausência dele ou mesmo contra ele (ren-
deiro agricultor, que muitas vezes era o filho-família). Após, contudo, passou 
a entender que havia a finalidade de proteger o ocupante de propriedade, que 
não tinha registro adequado, mas poderia se o dono.
8. REZENDE, Astolpho. A posse e 
a sua proteção. 2ª Ed. São Paulo: 
Lejus, 2000, pp. 1-26.
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Disso derivam muitas das noções sobre posse, e as divergências entre am-
bos. A visão de Savigny, marcadamente mais social e voltada para aquele que 
almeja a condição de proprietário, e a de Ihering, mais preocupada em justi-
ficar a proteção jurídica do provável proprietário.
3 Requisitos para a configuração da posse
Os requisitos para a configuração da situação possessória são descritos n art. 
1996 do Código Civil, que determina que “considera-se possuidor todo aque-
le que tem de fato o exercício, pleno ou não, de algum dos poderes inerentes à 
propriedade”. Esse dispositivo legal pode ser desmembrado, de maneira a que 
se extraiam os seguintes requisitos para a configuração da situação possessória.
POSSE = CORPUS + AFFECTIO TENENDI + ANIMUS
4 Teorias quanto aos requisitos para a configuração da posse
Para Savigny, o possuidor é aquele que se comporta como proprietário e 
deseja ser dono. Assim, a posse equivale ao corpus (poder sobre a coisa) soma-
do à affectio tenendi (consciência do poder sobre a coisa) e ao animus domini 
(vontade de ser dono). O locatário, o depositário, e outras figuras assemelha-
das, portanto, não teriam posse.
Já para Ihering, a posse é entendida como proteção do possível proprietário, e 
não como proteção do aspirante a proprietário. Ou seja, a posse equivale ao cor-
pus (com animus; basta querer ter poder sobre a coisa) somado à affectio tenendi.
5 Detenção
O detentor é aquele que, embora exerça de fato os poderes inerentes ao 
domínio, não tem tutela jurídica que o ampare. São situações de detenção: 
i) fâmulo da posse (art. 1.198, CC); ii) atos de mera tolerância (art. 1.208, 
CC); e iii) a situação de quem adquire a posse com violência ou clandestini-
dade, enquanto essas não cessam (art. 1.208).
6 Relação entre posse e propriedade
A posse, como situação de fato correlacionada, surge, então como a apa-
rência dos poderes proprietários, ou se amparando na intenção de ser dono, 
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ou na provável propriedade. No entanto, tem se constatado cada vez mais 
que a visão iheringuiana não foi capaz de antever atritos existentes entre o 
proprietário não-possuidor e o possuidor não proprietário, a quem Ihering 
imaginava falecer proteção jurídica. Na nossa sociedade, todavia, não é pos-
sível ignorar essa perspectiva.
7 Jurisprudência
Civil e Processo civil. Recurso especial. Ação possessória. Possibilidade ju-
rídica do pedido. Bem imóvel público. Ação ajuizada entre dois particulares. 
Situação de fato. Rito especial. Inaplicabilidade.
— A ação ajuizada entre dois particulares, tendo por objeto imóvel pú-
blico, não autoriza a adoção do rito das possessórias, pois há mera detenção 
e não posse. Assim, não cumpridos os pressupostos específicos para o rito 
especial, deve o processo ser extinto, sem resolução de mérito, porquanto 
inadequada a ação. Recurso especial provido.
(STJ. REsp 998409. Rel. Min. Nancy Andrighi. Terceira Turma. J. 
13/10/2009. DJ. 03/11/2009)
V. RECURSOS /MATERIAIS UTILIZADOS
Leitura obrigatória:
TORRES, Marcos Alcino de Azevedo. Posse e Propriedade. Rio de Janeiro, 
Lumen Juris, 2006, pp. 295-317.
Leitura complementar:
IHERING, Rudolf Von. Posse e Interditos Possessórios. Salvador: Progresso, 
1959, pp. 155-172.
VI. AVALIAÇÃO
Casos geradores:
1) Um possuidor tem o seu imóvel desocupado à força, pois alegadamente 
estaria ocupando área de propriedade do poder público. Processa o poder 
público, que alega ser legítimo possuidor do bem, a reintegração na posse que 
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tinha. Ao ser questionado pelo magistrado, o representante de Administração 
admite que, conquanto seja ela proprietária, não se sabe ao certo qual área 
possui, nem de qual modo são exercidos

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