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os poderes sobre a coisa. A adminis-
tração tem posse?
2) Transitado em julgado o acórdão que determina o despejo de locatário, 
o mesmo não é efetivado pelo locador, que deixa o processo parado. O des-
pejado tampouco reinicia o pagamento do aluguel. Tem posse o sucumbente 
da ação?
VII. CONCLUSÃO DA AULA:
A posse configura a exteriorização dos poderes inerentes à propriedade, 
independentemente de situação jurídica consolidada. Seu requisito é o exer-
cício, pleno ou não, de algum dos poderes inerentes à propriedade.
Há duas grandes teorias que procuram explicar a posse. A primeira, desen-
volvida por Savigny, entende que a posse equivale poder sobre a coisa somado 
à consciência do poder sobre a coisa e à vontade de ser dono. A segunda, ela-
borada por Ihering, defende a posse como o animus de querer ter poder sobre 
a coisa somado à affectio tenendi.
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FGV DIREITO RIO 28
AULA 4: A FUNÇÃO SOCIAL DA POSSE E O CRITÉRIO DA MELHOR 
POSSE.
I. TEMA
Função social da posse e o critério da melhor posse.
II. ASSUNTO
Melhor posse e tipologia da posse. Efeitos da posse. A função social da 
posse. Conflitos entre critérios.
III. OBJETIVOS ESPECÍFICOS
O objetivo desta aula consiste em apresentar a função social da posse em 
seu aspecto geral.
IV. DESENVOLVIMENTO METODOLÓGICO
1 Melhor posse e tipologia da posse
O Código Civil, em boa parte do título dedicado à posse, cuida de de-
terminar quais são os diferentes tipos de posse. Em alguns casos, falo com o 
objetivo de imputar efeitos a determinados tipos de posse, como por exem-
plo, nos art. 1.214 e seguintes. Em muitos casos, contudo, a delineação da 
tipologia da posse é feita sem que se determine consequências específicas para 
a adoção deste ou daquele regime jurídico.
A justificativa da ausência desses efeitos encontra-se no art. 507 do Códi-
go Civil de 1916, que assim dispunha:
Art. 507. Na posse de menos de ano e dia, nenhum possuidor será 
mantido, ou reintegrado judicialmente, senão contra os que não tive-
rem melhor posse.
Parágrafo único. Entende-se melhor a posse que se fundar em justo 
título; na falta de título, ou sendo os títulos iguais, a mais antiga; se da 
mesma data, a posse atual. Mas, se todas forem duvidosas, será seques-
trada a coisa, enquanto se não apurar a quem toque.
DIREITO DE PROPRIEDADE
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Do dispositivo acima, extraiu-se a interpretação de que aquele que, de 
acordo com os critérios de classificação da posse, tiver a melhor posse, deverá 
ter a sua posse juridicamente tutelada. Dá-se a essa situação o nome de cri-
tério da melhor posse.
Para que se determine qual a melhor posse é necessário que sejam conhe-
cidos os critérios de classificação da posse, bem como de que maneira ela é 
adquirida ou perdida.
2 Classificação da posse
2.1 Posse derivada
É a transmitida por outrem, com ou sem mediação — e ninguém trans-
mite mais direitos do que possui.
2.2 Posse originária
Criada pelo surgimento espontâneo de uma relação com a coisa.
2.3 Posse direta ou imediata
Inferência sobre a coisa exercida pelo não proprietário.
2.4 Posse indireta ou mediata
Poder ainda resguardado pelo proprietário, que não perde de todo o con-
trole sobre a coisa. Possui como requisito a existência de uma relação jurídica 
que justifique a mediação na posse. Opõe-se a mediação da posse à ideia de 
posse plena, a única ad usucapionem.
2.5 Posse justa e injusta
A posse é justa toda vez que não é injusta. Esta é a violenta, clandestina e 
precária. Nos termos do art. 1200 do Código Civil, “é justa a posse que não 
for violenta, clandestina ou precária”.
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A posse injusta não se converte em justa por ato unilateral do possuidor. 
Mas circunstâncias outras podem legitimar a posse (como por exemplo, uma 
aquisição do bem). Vejam-se as decisões abaixo:
CIVIL. USUCAPIÃO EXTRAORDINÁRIO. COMPROVAÇÃO DOS 
REQUISITOS.
MUTAÇÃO DA NATUREZA JURÍDICA DA POSSE ORIGINÁRIA. 
POSSIBILIDADE.
O usucapião extraordinário — art. 55, CC — reclama, tão-somente: a) 
posse mansa e pacífica, ininterrupta, exercida com animus domini; b) o de-
curso do prazo de vinte anos; c) presunção juris et de jure de boa-fé e justo 
título, “que não só dispensa a exibição desse documento como também pro-
íbe que se demonstre sua inexistência”.
E, segundo o ensinamento da melhor doutrina, “nada impede que o ca-
ráter originário da posse se modifique”, motivo pelo qual o fato de ter ha-
vido no início da posse da autora um vínculo locatício, não é embaraço ao 
reconhecimento de que, a partir de um determinado momento, essa mesma 
mudou de natureza e assumiu a feição de posse em nome próprio, sem su-
bordinação ao antigo dono e, por isso mesmo, com força ad usucapionem. 
Precedentes. Ação de usucapião procedente.
Recurso especial conhecido, com base na letra “c” do permissivo constitu-
cional, e provido.”
(STJ. REsp 154.733. Rel. Min. Cesar Asfor Rocha. DJ. 19.03.2001)
Acórdão permitindo a alteração do caráter originário da posse:
APELAÇÃO CÍVEL — USUCAPIÃO —LOCAÇÃO— INVERSÃO 
DO CARÁTER DA POSSE — POSSIBILIDADE. O falecimento do pro-
prietário do imóvel e dos herdeiros conhecidos encerra a relação locatícia e 
permite que haja a modificação do caráter da posse originária, a autorizar 
o pleito de usucapião, desde que presentes os demais requisitos. Assim, a 
improcedência do pedido sem que haja dilação probatória, com a adequada 
citação do Espólio, importa em afronta ao direito de ação ou acesso à justiça. 
Recurso conhecido e provido, na forma do artigo 557, § 1º-a, do Código de 
Processo Civil.
(TJRJ. AC 0063848-46.2006.8.19.0001. Rel. Des. Ricardo Couto. Séti-
ma Câmara Cível. J.16/12/2010)
Alteração do caráter originário da posse, à luz, dentre outros motivos, da 
função social da posse.
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Apelação Cível. Ação de usucapião. Pretensão deduzida por possuidores 
de mais de 20 anos, que afirmam ter ingressado no imóvel como locatários, 
mas logo passado a exercer a posse com animus domini. Proprietários cujo 
paradeiro se desconhece. Citação por edital. Posse comprovadamente exer-
cida de forma mansa e pacífica. Inversão do caráter da posse. Existência de 
atos que, de forma inequívoca, indicam a mudança da qualidade da posse, 
originalmente precária, como a cessação do pagamento de 4 aluguéis, a re-
alização de obras de conservação no bem e a quitação de débitos tributários 
de períodos pretéritos. Função social da posse. Desídia dos proprietários re-
gistrais exteriorizada pela ausência prolongada, que se extrai do insucesso das 
diligências realizadas pelo Juízo no intuito de localizá-los. Recurso ao qual se 
dá provimento para declarar os apelantes proprietários do imóvel descrito na 
inicial, consoante o artigo 1.238 do Código Civil.
(TJRJ. AC 0091824-33.2003.8.19.0001. J. 26/10/2010)
Em contrariedade aos julgados colacionados acima, o acórdão abaixo ex-
plicita o entendimento segundo o qual não é possível modificar o caráter da 
posse por mera vontade da parte:
1. Usucapião. Bem móvel. 2. Veículo deixado em oficina mecânica com 
intuito de proceder a reparos. 3. Mera detenção, ausente o animus domini. 
4. Impossibilidade de modificação do caráter da posse por mera vontade da 
parte. 5. Recurso provido, na forma do Art. 557, § 1º — A do C.P.C.
(TJRJ. AC 0004255-56.2008.8.19.0053. Rel. Des. Mario dos Santos 
Paulo. Quarta Câmara Cível. J. 30/08/2010)
O acórdão abaixo explicita a impossibilidade de contratos de locação e 
arrendamentos obstarem a consumação da usucapião extraordinária.
PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO REIVINDICA-
TÓRIA. EXCEÇÃO DE USUCAPIÃO REJEITADA. AUSÊNCIA DE 
FUNDAMENTAÇÃO. ANULAÇÃO.
1. A existência de decisão transitada formalmente em julgado, determi-
nando a anulação de sentença para ingresso

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