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CRISTIANISMO AULA 4 Prof. Ivan Santos Rüppell Júnior 2 CONVERSA INICIAL A Revolução Francesa e os movimentos republicanos dos séculos 19 e 20 no continente europeu transformaram a situação política do Ocidente, propagando novos valores culturais que obrigaram o cristianismo a dialogar com uma nova realidade existencial da humanidade: a modernidade. Hoje, ele se depara com a pós-modernidade, um movimento que tanto desafia quanto traz oportunidades para a atuação das religiões. TEMA 1 – A REPÚBLICA E A ASCENSÃO DA BURGUESIA A proclamação da república francesa no dia 21 de setembro de 1792 determinou o fim do sistema de governo absolutista e monárquico naquele país, tornando-se um fato histórico que impulsionou o surgimento de diversos governos republicanos na Europa durante os séculos 19 e 20. A Revolução Francesa só ocorreu porque houve um confronto entre a classe social dominante (aristocracia) e outra, ascendente desde os fins da Idade Média (burguesia). A aristocracia era formada pelo clero e pela nobreza, que tinha supremacia sobre o Estado e submetia o resto da população composta de burgueses e camponeses. A Monarquia era o poder central dos territórios europeus e fazia crescer o comércio por meio das rotas marítimas, o que propiciou o fortalecimento da burguesia na sociedade europeia. Nesse contexto, os movimentos modernos que transformaram o sistema de Estado absolutista monárquico em um Estado liberal progressista, e que foram implementados sob a liderança da classe burguesa a partir de valores iluministas, foram intitulados de revoluções burguesas. A situação social e econômica da época estava agravada pelos altos impostos que a Monarquia cobrava dos camponeses, o que também impedia o avanço do comércio burguês. Nesse contexto, um momento histórico marcante foi a convocação, pelo Rei Luiz XVI, da Assembleia dos Estados Gerais1. Segundo González (2011, p. 395), a assembleia foi organizada a partir de 4 de maio de 1789, em um formato que fortalecia a representatividade da burguesia, da qual o Rei aguardava apoio para arrecadar impostos também do clero e da nobreza. 1 Estados Gerais: espécie de parlamento constituído pelas três ordens sociais superiores da sociedade francesa: o clero, a nobreza e a burguesia. 3 Porém, surgiram dificuldades nas negociações, até que alguns membros da Igreja se uniram aos burgueses a fim de declarar que a reunião seria uma assembleia nacional com poderes de redigir uma nova Constituição para a França. O rei concordou inicialmente com a ideia, no entanto o documento votado pelos participantes não foi aceito pela Monarquia, pois fortalecia os direitos do homem e do cidadão, o que deu início a conflitos que ocasionaram a prisão da família real em Paris, ato fundamental da Revolução Francesa que deu fim à Monarquia para estabelecer a República em território francês. Foi um período em que a Igreja cristã vivenciou situações distintas: na França, a Igreja Católica sofria oposição dos iluministas, que afirmavam que o cristianismo se tornara um sistema de doutrinas ultrapassado e símbolo do antigo sistema social. Enquanto isso, tanto na Inglaterra anglicana quanto na Alemanha luterana os pensamentos iluministas não foram tão radicais, até pelo fato de essas duas nações terem vivenciado valores do movimento cristão do pietismo, que enfatizava as vivências experienciais e íntimas da fé. Tal fator diminuiu a influência do racionalismo e das críticas iluministas que eram feitas à religião (McGrath, 2005, p. 128). Destacamos o modo pelo qual os valores do Iluminismo e as condições econômicas da burguesia foram essenciais na Revolução Francesa, vindo a influenciar os fatores estruturais e políticos das novas organizações liberais que se desenvolveram na Europa e na América nos séculos 19 e 20. Estas se tornaram sistemas preponderantes na sociedade tanto por meio do regime capitalista quanto pelo estilo de governo democrático. Um fato histórico digno de nota e que relaciona o novo contexto político europeu e a religião foi a maneira como o cristianismo britânico influenciou o parlamento inglês para votar a abolição do comércio de escravos no início do século 19 (1807), por meio da atuação do político anglicano William Wilberforce. O congressista foi aconselhado em sua empreitada pelo famoso pregador John Newton, autor do hino Amazing Grace – que fora um comerciante de escravos anteriormente – por meio das seguintes palavras: “Deus precisa de pessoas como você no Parlamento. Talvez possamos abolir a escravatura” (Curtis; Lang; Petersen, 2003, p. 162). 4 TEMA 2 – O POSITIVISMO E O SÉCULO 19 As transformações sociais oriundas do Iluminismo e da Revolução Industrial haviam alcançado a Inglaterra desde o século 18 até chegar com força à Europa no século 19, o que fez os intelectuais voltarem a atenção para as relações sociais utilizando o mesmo método da razão iluminista: observar a realidade em busca de fatos que fossem possíveis de receber uma análise científica. Nesse contexto, o francês Auguste Comte (1798-1857) foi o precursor dos estudos da sociedade, a Sociologia, vindo a desenvolver os argumentos da chamada filosofia positivista (que significa “certo”, “seguro”, “definitivo”), pois só considerava válidos os conhecimentos adquiridos mediante questionamentos científicos (Simoni, 2015, p. 18). Observe que o pensamento social de Auguste Comte se organizou sob o contexto científico-filosófico de sua época, pois enquanto a Revolução Francesa e a industrialização lhe forneciam um novo sistema social de análise, a compreensão científica alicerçada em uma reflexão racional coerente e relacionada aos dados observados se tornou a base das ciências humanas, que viriam estudar os fenômenos das relações sociais. O propósito do pensador francês era de que a nova “ciência da sociedade” pudesse identificar as leis próprias da vivência comunitária dos homens. Nesse tempo, a Igreja na Europa se debatia tanto com a realidade dos novos Estados organizados, que eram críticos da religião, quanto buscava oferecer respostas teológicas aos avanços racionais do século 19. Foi um período em que os teólogos desenvolveram doutrinas mais científicas para o cristianismo, ao passo que o povo cristão procurava experiências mais simples de fé para vivenciar por meio de uma religiosidade pessoal. Em meio às mazelas sociais do crescimento populacional urbano e da industrialização, as Igrejas tanto se distanciaram dos pobres, como ocorreu em regiões da Alemanha protestante, quanto também se aproximaram das camadas mais populares, por meio da organização de ordens e missões como o Exército da Salvação (Grã-Bretanha), as Irmãs de Caridade e a Sociedade São Vicente de Paulo (França) e a Missão Interior de Johann Wichern (Alemanha) (Chadwick; Evans, 2007, p. 143). Conforme assinala Shelley (2004, p. 345), a chamada Idade da Razão tentava negar as evidências de uma fé sobrenatural ao homem, o que também 5 oportunizou que um grande número de protestantes buscasse responder às críticas não com argumentos, mas procurando experiências mais fortes de fé: “A fé era mais uma experiência do que um dogma. Esse cristianismo evangélico espalhou-se rapidamente pelo poder da pregação. Muitos cristãos, então, perceberam que o apoio do Estado não era mais essencial à sobrevivência do cristianismo”. O fato é que o século 19 pode ser entendido como transição para a religião cristã, posto que as mudanças tecnológicas e políticas, científicas e econômicas e suas consequentes transformações sociais acabaram gerando para a Igreja uma realidade religiosa e institucional que requeria uma constante adequação às novas situações estabelecidas nesse período da história da humanidade.Uma das respostas do cristianismo a esse embate e debate diante do cientificismo secular surgiu a partir de dois movimentos que podem ser considerados preponderantes no desenvolvimento dessa religião no século 21, conforme veremos no próximo tema. TEMA 3 – O PENTECOSTALISMO E O CRESCIMENTO DAS IGREJAS EVANGÉLICAS. O MOVIMENTO ECUMÊNICO CRISTÃO DO SÉCULO 20 3.1 O movimento pentecostal evangélico do século 20 Para iniciar nossa reflexão sobre o movimento pentecostal, trazemos os comentários de McGrath (2005, p. 161): No século XX, um dos acontecimentos mais importantes para o cristianismo foi o surgimento de grupos carismáticos e pentecostais, os quais afirmam que o cristianismo moderno pode redescobrir e tomar posse do poder do Espírito Santo, descrito no Novo Testamento, em especial no livro dos Atos dos Apóstolos. O cristianismo norte-americano buscava experiências de aprofundamento espiritual na prática de sua fé desde os avivamentos dos séculos 18 e 19, em uma situação religiosa que foi transformada pela ocorrência do fato histórico reconhecido como sendo a origem do pentecostalismo: em 1901, o líder religioso Charles Parham destacou os elementos doutrinários que se tornariam as práticas espirituais dos pentecostais, como o “dom de línguas” e o “batismo do Espírito Santo”. Essas ideias “foram desenvolvidas e consolidadas por Joseph William Seymour” (1870-1922), um pastor negro que esteve à frente de um 6 grande avivamento carismático, surgido na Azuza Street Mission, localizada no centro de Los Angeles, durante o período de 1906-1908 (McGrath, 2005, p. 162). Outro marco significativo para o desenvolvimento do pentecostalismo foi o movimento evangelical, de origem europeia e que, após passar pelos Estados Unidos, chegou ao Brasil no século 20. O objetivo era unificar as muitas denominações protestantes ao redor de alguns princípios doutrinários básicos do cristianismo, com vistas a fortalecer atividades comuns e se contrapor à expansão católica. Isso gerou a organização de um grande projeto missionário unificado, que foi desenvolvido até o início da Primeira Guerra Mundial. Nas palavras desse mesmo autor, “a autoidentificação de ‘evangélico’ era individual e significava o compromisso da pessoa com aquele conjunto de princípios doutrinários; antes de pertencer a esta ou aquela denominação, o indivíduo era evangélico”. Esses dois fatos históricos nortearam o grande desenvolvimento do movimento pentecostal e o surgimento das igrejas evangélicas durante o século 20. No Brasil, todos os cristãos que não professavam a fé católica começaram a se identificar como “evangélicos”, e o mesmo ocorreu com aquelas denominações que também acabavam assumindo esse título em nosso país e por todo o mundo. Portanto, a razão para que todas as igrejas cristãs oriundas do pentecostalismo viessem a ser chamadas evangélicas se origina desse movimento histórico de distinção ao catolicismo e de aceitação dos princípios doutrinários oriundos do fundamentalismo cristão do final do século 19 e início do século 20, que era contrário ao liberalismo protestante, pois este valorizava mais as concepções racionais da fé. O pesquisador religioso C. Peter Wagner (citado por McGrath, 2005, p. 161) desenvolveu um estudo acerca dos movimentos carismáticos e pentecostais originados e desenvolvidos no cristianismo durante o século 20. Ele destacou três ondas dentro do movimento. A primeira delas foi o pentecostalismo clássico, que surgiu no início da década de 1900 [...] a segunda onda ocorreu nas décadas de 1960 e 1970 e esteve ligada às denominações de maior influência, inclusive ao catolicismo romano [...] a terceira onda [...] põe seu foco na questão dos sinais e prodígios. Já no século 21, anotamos que o IBGE apontou a existência de quase 42 milhões de praticantes evangélicos no Brasil em 2010. Portanto, qualquer 7 política pública e educacional brasileira precisa estar atualizada sobre o desenvolvimento da religião do cristianismo em nosso país, segundo as realidades dessa vertente protestante. 3.2 O movimento ecumênico2 cristão do século 20 Desde o grande cisma histórico do cristianismo que separou a Igreja ocidental romana da Igreja oriental ortodoxa em 1054, passando pela divisão da Igreja ocidental – que redundou na Reforma Protestante em 1517 –, até as disputas doutrinárias que ocasionaram o surgimento de incontáveis denominações e grupos cristãos no decorrer do século XX, um dos fatos que se tornaram marcantes foram as divisões da religião. Algumas delas foram significativas nos séculos 19 e 20 assim que missionários cristãos começaram a atuar nas nações asiáticas e africanas. A falta de unidade da religião como um todo, tanto na mensagem quanto nos projetos desenvolvidos, ressaltava as divisões “internas” da Igreja (Chadwick; Evans, 2007, p. 222). A partir disso, lideranças organizaram a conferência missionária protestante internacional de Edimburgo (1910), que projetou reuniões para os anos seguintes, como o Movimento de Vida e Trabalho, de 1925, em Estocolmo, para debater a relação do cristianismo com a sociedade, e o Movimento de Fé e Ordem, de 1927, com o objetivo de definir elementos de unidade entre as igrejas cristãs (Curtis; Lang; Petersen, 2003, p. 221). Esses esforços ecumênicos redundaram na criação do Conselho Mundial das Igrejas (CMI), em 1948, com sede em Genebra (Suíça). Essa organização, conforme comentam Chadwick e Evans (2007, p. 222-223), “preocupou-se não apenas com promover a compreensão teológica, mas também com questões sociais e políticas: paz e controle de armamentos, racismo [...], liberdade religiosa e ajuda aos refugiados e aos oprimidos pela injustiça”. A continuidade desse processo avançou após a Igreja Católica Romana tomar decisões ecumênicas no Concílio Vaticano II, em 1962, com consequências nos anos seguintes. Em 1964, o Papa Paulo VI liderou proposições em favor da unidade cristã para toda a Igreja, unido ao Patriarca Atenágoras de Constantinopla (Igreja Ortodoxa), e ambos definiram o fim dos 2 Ecumenismo é a busca de unidade entre todas as igrejas cristãs, em um processo de entendimento que reconhece e respeita a diversidade entre elas. 8 atos de excomunhão dados no século 16. Ainda houve uma aproximação às igrejas históricas protestantes, com líderes católicos vindo a participar da Assembleia do Conselho das Igrejas, em 1983 (Greco, 2008, p. 157). A partir dos movimentos dados após a Segunda Guerra Mundial e de inúmeras conferências realizadas nas últimas décadas do século XX, o movimento ecumênico cristão teve bom crescimento, alcançando a participação de diversas denominações e lideranças religiosas. Essa é uma realidade que podemos visualizar neste início de século XXI, marcado por atos recíprocos de respeito e consideração entre as diferentes vertentes cristãs, ao mesmo tempo que o diálogo inter-religioso e associações sociais conjuntas permanecem ocorrendo com o passar dos anos. TEMA 4 – O CRISTIANISMO E A PÓS-MODERNIDADE NO SÉCULO 21 A pós-modernidade surgiu na década de 1950 como um movimento crítico ao modernismo nas artes e assumiu, no decorrer dos anos, uma posição de contrariedade perante a cultura moderna (Goheen; Bartholomew, 2016, p. 165). Com o passar do tempo, tornou-se um conceito bastante amplo, pois cada área do conhecimento elabora o próprio entendimento acerca do significado desse movimento, tanto nas artes e na filosofia quanto na sociologia, na psicologia, na arquitetura etc. Nessa perspectiva, é possível entender que a pós-modernidade desenvolve pensamentos distintos ao pensamento moderno, especialmente as proposições que afirmavam que, por meio da razão, seria possível alcançar o conhecimento pleno da realidade. Acerca da religião, ela defende que as instituiçõestradicionais não devem ser reconhecidas como essenciais à formação da vida individual e social das pessoas. Um aspecto importante para entender a maneira como a pós- modernidade contraria o pensamento da modernidade e influencia bastante as novas dinâmicas existenciais da sociedade no século 21 surge de sua decisão por não reconhecer a validade das narrativas absolutas e universais como princípios explicativos e orientadores da história e existência. Há outros elementos que igualmente revelam as diferenças de pensamento desses dois movimentos: a modernidade valoriza os princípios do propósito e do planejamento, da hierarquia e centralização, ao passo que a pós-modernidade orienta a casualidade como sua dinâmica relacional e organizacional, o que 9 promove certa dispersão nas vivências desenvolvidas. Além disso, a modernidade busca promover a análise e a organização para atingir seus objetivos, já a pós-modernidade valoriza certa liberalidade em relação às questões da vida, numa vivência pautada pelo relativismo e pluralismo, sempre em contraste aos absolutos modernos, pois estes buscam retirar os seus valores das “metanarrativas”3 (McGrath, 2005, p. 141). As redes sociais, como um elemento promotor de relacionamentos, e igualmente a valorização que se dá ao consumo imediato como se fora uma conquista particular e especial do indivíduo são vivências desenvolvidas conforme a cosmovisão da pós-modernidade. Igualmente, o mundo contemporâneo já não entende que a estrutura social deva conduzir o ser na busca de um propósito unificado e comum a todos, pois a vida pós-moderna já não se constrói com base em valores universais, as chamadas metanarrativas. Ou seja, o conhecimento do aprendizado da vida já não é mais uma verdade absoluta que se adquire culturalmente, mas uma compreensão elaborada a partir da situação que vivenciamos no tempo presente. O movimento pós-moderno entende que a verdade da realidade humana não se encontra nos processos e dinâmicas da ciência ou da Igreja, mas surge nos relacionamentos e nas experiências da vida, pois são estas que oferecem as verdadeiras histórias que merecem ser contadas, já que carregam consigo os valores individuais e também as experiências reais dos grupos que as vivenciam. Um aspecto a ser destacado é que a existência humana neste século 21 é influenciada tanto pelas narrativas universais modernas quanto pelo valor das vivências mais particulares e subjetivas pós-modernas. Essa contraposição constante materializada em nosso cotidiano gera uma sensação de desorientação e vazio na sociedade (Veith Jr., 2013, p. 9). No tocante às religiões, há um aspecto que pode nos ajudar a entender a maneira como a pós-modernidade tem influenciado a religiosidade – e particularmente o cristianismo e o islamismo. Estamos falando do valor pós- moderno do relativismo4 cultural, o qual merece uma análise nossa como 3 Metanarrativas são aquelas grandes histórias ou narrativas abrangentes que visam explicar de modo completo e absoluto todos os acontecimentos e perspectivas da história da humanidade. A narrativa básica da modernidade orienta que a razão e a ciência são capazes de explicar e ordenar a realidade por meio de modelos universais que devem reger o desenvolvimento da civilização humana. 4 Relativismo: teoria segundo a qual a base para os julgamentos sobre o conhecimento, a cultura ou a ética difere de acordo com as pessoas, com os eventos e com as situações. 10 cientistas religiosos. Observe que essas duas maiores religiões do mundo carregam em suas doutrinas um grande número de verdades absolutas, as quais são fundamentais para conduzir os adeptos em uma existência satisfatória neste mundo, e na vida após a morte. Portanto, o relativismo da pós-modernidade confronta gravemente esses absolutos, o que obriga que as religiões islâmica e cristã busquem se comunicar como o homem do século 21 em meio a esse embate existencial, pois precisam, a qualquer custo, defender os fundamentos religiosos tradicionais de seus conceitos absolutos. Nesse contexto, Shelley (2004, p. 539) entende a globalização como uma oportunidade para os cristãos, pois, com a queda do Muro de Berlim no final do século 20, a Rússia e os diversos governos a seu redor deixaram de promover radicalmente os projetos de criar um Estado ateu e contrário à religião dos homens. O tema acerca de como a fé cristã tem atuado e irá se desenvolver em uma sociedade pluralista tem sido abordado pelo cristianismo segundo o entendimento de que há três formas de essa religião se posicionar perante as outras religiões da humanidade: pelo particularismo, que destaca a salvação religiosa somente dos cristãos; pelo inclusivismo, que valoriza a supremacia da fé cristã sem negar a validade de outras religiões; e pelo pluralismo, que entende afirmativamente que todas as crenças são capazes de “salvar” os homens religiosamente (McGrath, 2005, p. 613). TEMA 5 – O CRISTIANISMO E AS CIÊNCIAS DA RELIGIÃO Ciências da religião é um curso de licenciatura em que o saber específico de diversas ciências, como história, filosofia e sociologia, dentre outras, será utilizado tendo por objeto de análise as religiões da humanidade. O estudioso dessas áreas irá contribuir com o seu potencial técnico para o desenvolvimento de um saber voltado ao tema religioso. Algumas das subáreas mais proeminentes dessa disciplina são as ciências sociais, como ocorre por meio do pensamento clássico da sociologia, com Durkheim e Weber, que desenvolveram pesquisas na busca de entender “o lugar e as funções das crenças, práticas e instituições religiosas no mundo moderno” (Passos; Usarski, 2013, p. 187). Nesse contexto, e utilizando o conhecimento das ciências sociais com vistas a definir uma metodologia de análise das crenças e ritos, dos processos sociais e da vivência dos fiéis, iremos destacar inicialmente o conhecimento da 11 história das religiões, pois é uma das disciplinas mais ricas das pesquisas religiosas. 5.1 História das religiões Essa disciplina se desenvolveu no contexto brasileiro a partir da década de 1970 sob a influência de duas escolas: a francesa, que valoriza os estudos nas instituições acadêmicas por meio do diálogo realizado com as ciências humanas; e a italiana, que se volta a um estudo mais plural da história das religiões. Nesse contexto, segundo Eliane Moura Silva (citada por Passos; Usarski, 2013, p. 217), a tarefa do historiador não é mais, simplesmente, a de narrar uma (ou mais) história(s) de vida(s), mas analisar como e quando dada posição/situação foi construída, através de que mediações, através de quais representações uma determinada experiência histórica foi descrita, como foi construído um personagem, um contexto, uma “realidade”. Temos mais um diálogo, uma conversa com o passado, em vez de uma reconstrução do passado por meio de uma pesquisa documental pura. Angelo Brelich (citado por Passos; Usarski, 2013, p. 221) anotou aspectos desse entendimento, destacando que “a história das religiões se deveria fundar na produção de um conhecimento de uma compreensão interpretativa de todas as religiões desde o início da história até o presente, localizando cada uma delas nos seus respectivos contextos sociais e culturais em que surgiram e se desenvolveram. ” Nessa perspectiva, nossa disciplina tem pontuado alguns fatos culturais que consideramos importantes para o desenvolvimento técnico do estudante de ciências da religião, quando relacionáveis à religião do cristianismo. 5.2 Sociologia da religião A Ética protestante e o espírito do capitalismo. Iremos analisar neste tópico a influência de valores religiosos na organização da sociedade à luz das ciências da religião. No início do século 20, o sociólogo alemão Max Weber publicou a obra clássicada sociologia da religião, A ética protestante e o espírito do capitalismo, formalizando uma base teórica ao tema. Sua análise buscou perceber a influência da religião na formação da cultura econômica da sociedade, vindo a demonstrar que havia uma profunda interação entre os 12 valores religiosos dos homens e a estruturação de seu meio social. O sociólogo enfatiza que compreender tal relação é essencial para definir a maneira como a sociedade humana se organiza e se desenvolve historicamente. O método buscava estabelecer uma relação de causalidade entre os aspectos da economia e da religião. Weber analisou inicialmente o capitalismo moderno, em busca dos elementos distintivos que poderia encontrar nesse sistema econômico a fim de formular seu “tipo ideal”. A conclusão foi que onde surgiu o calvinismo religioso, surgiram igualmente os elementos sagrados relacionados ao novo capitalismo “funcional”, como “o desprendimento do mundo, a ascese, a piedade religiosa de um lado, e de outro, a participação capitalista nos negócios” (Mota Filha, 1967, p. 489). Eis a maneira pela qual se percebeu a existência histórica de uma conduta social e econômica grandemente influenciada por valores religiosos: a ética protestante. A visível relação histórica de causalidade entre esse novo capitalismo e o protestantismo calvinista foi definida, então, no momento em que o pesquisador reconheceu e relacionou os valores e atitudes em comum entre ambos os movimentos. Trata-se de uma relação que se fez compreensível pela descoberta e verificação dos elementos semelhantes do tipo ideal do sociólogo, que traziam consigo a base estrutural tanto do capitalismo econômico quanto do calvinismo religiosos. Conforme assinala McGrath (2005, p. 539), “o protestantismo [...] havia criado os pré-requisitos psicológicos essenciais para o desenvolvimento do capitalismo moderno. Na verdade, Weber atribuía a contribuição fundamental do calvinismo a sua capacidade de gerar impulsos psicológicos devido a seu sistema de crenças”. Essa observação aprofunda a análise do cientista religioso a partir da técnica da psicologia, reconhecendo o modo como as crenças religiosas impulsionam o interesse dos fiéis para que se dediquem a algumas atividades nesta vida, com um temor sagrado de forte impacto, pois a espiritualidade do ser depende dessa obediência e entrega existencial. Observe que temos proposto algumas reflexões oriundas desse modelo de análise: primeiramente, anotamos os elementos religiosos de determinada crença para, em seguida, analisar de que forma eles influenciam as atitudes dos fiéis em sua dinâmica social. Além disso, observamos o modo como a própria religião é influenciada por alguns movimentos sociais e culturais de sua época. 13 5.3 Geografia da religião A geografia como disciplina das ciências da religião deve descrever a relação entre o homem e o ambiente em que ele vivencia a sua religiosidade. Isso é desenvolvido sob dois olhares: atuando como ciência normativa que emprega as técnicas geográficas a fim de oferecer informações de determinado ambiente religioso; e utilizando os dados percebidos para compreender o significado do sagrado, conforme a instituição organiza o espaço de suas atividades e rituais. Nesse contexto, destacamos as quatro “premissas” de David Shoper (1960, citado por Passos; Usarski, 2013, p. 280), que orientam como devemos observar um fenômeno religioso, a partir de sua interação com o espaço geográfico em que é praticado: a primeira nos convida a perceber o significado do ambiente pelo modo como o sistema religioso é nele desenvolvido; depois, a maneira como esse sistema transforma o ambiente em que atua; ainda, o modo como ele ocupa um ambiente com vistas a se organizar naquele espaço; por fim, as intenções religiosas percebíveis a partir do modo como um sistema sagrado ocupa certo ambiente. Devemos destacar igualmente a maneira como a cartografia automatizada tem revolucionado as relações sociais, conforme vemos na utilização de aplicativos com dados geográficos (como o Google Maps) que trazem ao cotidiano das pessoas as mais diversas informações relacionadas ao espaço e aos ambientes sociais. Trata-se de uma situação em que a geografia auxilia o homem no espaço urbano e rural, pois leva a seu dia a dia informações que pareciam importar somente nas salas de aula (Garcia, 2016). NA PRÁTICA O princípio do relativismo cultural tem trazido certa liberdade existencial e espiritual à sociedade contemporânea, tornando-se um fator que acaba desafiando a comunicação e o ensino dos valores das religiões mais universais, como as do judaísmo, cristianismo e islamismo, pois suas crenças desejam oferecer propostas de vida mais absolutas a uma sociedade pós-moderna bastante subjetiva. Trata-se de um contexto em que as religiões precisam tanto respeitar umas às outras e o pensamento cultural mais amplo se desejam 14 compartilhar dos debates e reflexões que interessam à sociedade neste século 21. Mais especificamente acerca de nossa graduação em ciências da religião, anotamos a maneira como a disciplina de geografia da religião nos auxilia no entendimento de como ocorre um fenômeno religioso. Assim, compreendemos como é importante observar a utilização do espaço religioso, a fim de que possamos identificar o valor e o significado do sagrado em determinada religião quando esta desenvolve suas atividades. FINALIZANDO Vimos como a Revolução Francesa iniciou uma transformação na maneira como as estruturas da sociedade europeia iriam se desenvolver nos séculos seguintes, dando base ao modo como a civilização ocidental veio a se organizar politicamente por meio das repúblicas e do liberalismo econômico. Foi uma nova realidade que influenciou a cultura religiosa do homem, como verificamos em, ao menos, duas áreas. Na pesquisa, as religiões começaram a ser analisadas sob perspectiva iluminista pela observação racional de seus fenômenos. Anotamos a importância do pensamento de Auguste Comte e de seu programa de filosofia positivista (1824), que se tornou um precursor histórico do conhecimento adquirido mediante questionamentos científicos. A outra área é a da pesquisa histórica voltada à religião, na qual verificamos a importância dos movimentos cristãos do pentecostalismo e do ecumenismo no século 20. Observamos como desenvolveram a sociedade no século passado e como são influentes e importantes no entendimento do que ocorre neste século 21. 15 REFERÊNCIAS CURTIS, A. K.; LANG, J. S.; PETERSEN, R. Os 100 acontecimentos mais importantes da história do cristianismo. Tradução de Emirson Justino. São Paulo: Editora Vida, 2003. CHADWICK, H.; EVANS, G. R. Igreja Cristã. Barcelona: Ediciones Folio, 2007. GARCIA, L. de C. A importância histórica da cartografia para o desenvolvimento do mundo contemporâneo. In: CONGRESSO TÉCNICO CIENTÍFICO DA ENGENHARIA E DA AGRONOMIA – CONTECC’2016, Foz do Iguaçu, 29/8-1º/9/ 2016. Anais... 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