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Apostila: Linguística Geral 
 
1. Fundamentos da ciência da linguagem 
 
 
1.1 Um pouco da história do estudo da linguagem 
 
Comecemos por considerar que a linguagem humana – como e por que 
falamos – é um fenômeno misterioso que tem encantado os seres humanos há 
muito tempo, produzindo os mais diversos tipos de estudos, trabalhos, pesquisas, 
teorias, métodos de investigação. Tem possibilitado também grandes criações da 
mente humana, como belíssimos poemas, romances, tratados científicos, teses 
acadêmicas. Para entender um pouco sobre o estudo dessa capacidade humana 
que é a linguagem, vejamos um breve histórico com base no que foi apresentado 
por Petter (2008, p. 12 e 13). 
Os primeiros estudos sobre a linguagem ocorreram no século IV a.C. 
motivados por razões religiosas, que fizeram com que os hindus estudassem a sua 
língua, no intuito de que os textos sagrados não fossem modificados aos serem 
proferidos. Em seguida, ainda no século IV a.C. os gramáticos hindus se ocuparam 
da descrição detalhada de sua língua e elaboraram modelos de análise descobertos 
no final do século XVIII pelo Ocidente. 
A preocupação dos gregos foi, sobretudo, determinar as relações entre o 
conceito e a palavra que o nomeia, isto é, eles investigaram a existência de uma 
relação entre a palavra e o seu significado; Platão, por exemplo, foi um dos 
estudiosos que discutiu essa questão. Já Aristóteles direcionou seus estudos para 
uma análise detalhada da estrutura linguística, contribuindo com a elaboração de 
uma teoria da frase, a identificação das partes do discurso e a enumeração das 
categorias gramaticais. Houve também o teórico Varrão que se destacou entre os 
latinos, dedicando-se à gramática e à sua concepção de ciência e arte. 
Na Idade Média, houve os modistas que conceberam a estrutura gramatical 
como algo único e universal, considerando as regras gramaticais independentes das 
línguas em que são realizadas. 
No século XVI, a Reforma ativou a religiosidade e, ainda que o latim tivesse 
prestígio e fosse considerado como língua universal, houve a prática de tradução 
dos livros considerados sagrados para diversas línguas até então desconhecidas, 
que eram trazidas pelos viajantes, comerciantes e diplomatas de suas experiências 
e vivências no exterior. Assim, em 1502 é criado, pelo italiano Ambrosio Calepino, o 
dicionário poliglota mais antigo. 
As preocupações dos estudiosos antigos são mantidas nos séculos XVII e 
XVIII; em 1660 a Gramática de Port Royal, de Lancelot e Arnaud, que serve de 
modelo para muitas gramáticas do século XVII, apresenta a ideia de que a 
linguagem é fundada pela razão, sendo uma imagem do pensamento. Para eles, os 
princípios de análise definidos servem para toda e qualquer língua, de modo que 
não se referem a uma língua específica e particular. 
No século XIX, com o conhecimento de uma quantidade maior de línguas, há 
o interesse pelas línguas vivas, ou seja, pelos falares existentes, ocorrendo um 
estudo comparativo entre eles, que vai de encontro ao estudo mais abstrato da 
língua predominante no século anterior. Sendo assim, nesse período é elaborado 
um método histórico, que teve importante papel no desenvolvimento das gramáticas 
comparadas e da Linguística Histórica. De acordo com a metodologia dessa época, 
o pensamento linguístico tem como base a observação e análise de fatos. Esse 
estudo comparado das línguas destaca que “as línguas se transformam com o 
tempo, independentemente da vontade dos homens, seguindo uma necessidade 
própria da língua e manifestando-se de forma regular” (Petter, 2008, p.12). 
Nesse período, o estudioso Franz Bopp se sobressai, principalmente com a 
publicação em 1816 de sua obra referente ao sistema de conjugação do sânscrito, 
em comparação ao grego, ao latim, ao persa e ao germânico, o que marca o 
surgimento da Linguística Histórica. Esse estudo possibilitou a observação de 
semelhanças entre essas línguas e grande parte das línguas europeias, 
evidenciando que há um grau ou vínculo de parentesco entre elas. Assim, Bopp 
descobriu que existe uma família de línguas indo-europeia, advindas do indo-
europeu, sendo possível chegar a essa origem através do método histórico-
comparativo. 
Essa investigação do desenvolvimento histórico das línguas que aconteceu 
no século XIX foi um grande progresso nos estudos linguísticos. Os estudiosos da 
linguagem perceberam também que as mudanças verificadas nos textos escritos 
equivalentes aos diversos períodos poderiam ser justificadas pelas mudanças que 
teriam sido realizadas na língua falada, ocasionando e explicando, por exemplo, o 
fato de a língua latina ter se transformado e originado, após alguns séculos, as 
línguas português, espanhol, italiano e francês, ou seja, o latim falado possibilitou a 
criação de outras línguas. Houve, portanto, uma alteração no objeto de análise dos 
estudos sobre a linguagem, que até então se interessavam pela língua literária, e a 
Linguística moderna, apesar de também estudar a língua escrita, tem como 
prioridade e princípio fundamental o estudo e a investigação da língua falada. 
No início do século XX, a investigação sobre a linguagem feita pela 
Linguística é reconhecida como estudo científico e isso ocorre em especial com a 
divulgação das pesquisas de Ferdinand de Saussure, professor da Universidade de 
Genebra. Isso ocorreu em 1916, quando dois de seus alunos, com base em 
anotações feitas durantes suas aulas, publicaram a obra Curso de Linguística Geral, 
considerada como fundadora dessa ciência. 
Até então, a Linguística estava submetida a exigências e princípios de outros 
estudos como a lógica, a filosofia, a retórica, a história e a crítica literária, ou seja, 
não possuía um caráter autônomo até a exposição dos estudos de Saussure. O 
século XX, portanto, marcou uma mudança significativa na consideração da 
Linguística e das pesquisas linguísticas, justamente por reconhecer o caráter 
científico desses novos estudos, cujo foco está na observação dos fatos de 
linguagem. Essa observação dos fatos conforme o método científico deve ocorrer 
antes do estabelecimento de uma hipótese, mediante uma análise sistemática. O 
trabalho e a pesquisa científica consistem na observação e descrição dos fatos, 
tendo como base pressupostos teóricos específicos. Dessa maneira, analisam-se os 
fatos de acordo com um quadro teórico, sendo possível que um mesmo fenômeno 
tenha diferentes descrições e explicações, pois o pesquisador pode optar por 
diferentes referenciais teóricos, porém é fundamental a verificação de fatos de 
linguagem, para que um estudo seja caracterizado científico, tal como faz a 
Linguística. 
Para entender melhor o que é a Linguística, vejamos a definição do seu 
objeto de estudo – a linguagem. 
 
1.2 O que é a linguagem? 
 
Nós, seres humanos, somos os únicos capazes de falar (ou escrever) sobre 
fatos que já aconteceram ou que ainda acontecerão; podemos também falar de 
coisas que não estão presentes no momento da comunicação. Podemos falar sobre 
uma festa, um acidente ou qualquer evento importante ocorrido há algum tempo; 
sobre qualquer pessoa ou objeto, sem que eles estejam presentes ou próximos a 
nós; sobre sentimentos e sensações passadas ou presentes; enfim, podemos falar 
sobre tudo o que quisermos. Para isso, ou seja, para comunicarmos essas coisas, 
nós usamos palavras, gestos ou desenhos. 
Essa capacidade humana de utilizar, na comunicação, “representantes” ao 
invés das coisas reais é chamada capacidade simbólica, ou seja, em lugar de 
mostrarmos o objeto, a pessoa ou o fato sobre o qual estamos falando, usamos 
palavras, gestos ou desenhos para fazer a referência desejada. Na verdade, toda a 
comunicação humana é simbólica, isto é, é feita através de sinais (ou signos), que 
representam as coisas sobre as quais queremos falar. É a nossa capacidade 
simbólica que nos permite imaginar situações, relembraracontecimentos, planejar o 
futuro. 
Quando desenhamos uma casa, estamos simbolizando a casa; quando 
fazemos o gesto de mão fechada com o polegar levantado, estamos simbolizando 
mensagens como “tudo bem”, “eu concordo” ou “positivo”; quando a luz verde do 
semáforo se acende, simboliza “pode avançar, ir em frente”; quando empregamos 
qualquer palavra como “cachorro”, “jacaré”, “pato”, “amor”, “ódio”, por exemplo, 
estamos simbolizando os animais e os sentimentos em questão. Os seres humanos 
criaram vários sistemas de significação (isto é, conjuntos estruturados de elementos 
possuidores de sentido) para poderem se comunicar e expressar o que desejam. 
Vejamos alguns deles: 
 
• Sistema gestual: os gestos diferem de cultura para cultura; balançar a 
cabeça verticalmente aqui no Brasil significa “sim” e horizontalmente quer 
dizer “não”, contudo, em outros lugares, esses gestos podem significar outra 
coisa. Alguns gestos que traduzem xingamento podem significar algo 
diferente em outro lugar, como, por exemplo, no Brasil, o gesto de unir o 
polegar e o indicador, mantendo os outros dedos esticados significa um 
xingamento, uma ofensa; já, nos Estados Unidos, significa “ok”, “tudo certo”; 
 
• Sistema pictórico (de pintura, desenho): desenhar ou pintar é representar, 
simbolicamente, alguma coisa. Não podemos comer um alimento desenhado, 
nem pegá-lo, mas essas imagens são usadas para transmitir algum tipo de 
mensagem; 
 
• Sistema da música: as melodias, os sons, as notas musicais traduzem 
mensagens criadas pelos autores, podendo ser usadas para comunicações 
diversas como a campainha e o toque do telefone; 
 
• Sistema da escultura: as esculturas representam (portanto, simbolizam) 
objetos, pessoas, mensagens, como monumentos que homenageiam 
pessoas consideradas personalidades marcantes e importantes ou que 
representam dados religiosos; 
 
• Sistema linguístico: é composto pelos signos (sinais) da língua, ou seja, as 
palavras. O sistema linguístico ou verbal nos possibilita expressarmos tudo o 
que quisermos. 
 
As línguas naturais são, portanto, manifestações de algo mais geral que é a 
linguagem. É importante entender e diferenciar essas duas noções – língua e 
linguagem – e para tal levaremos em consideração o que foi proposto por Saussure 
e Chomsky, referente a uma teoria geral da linguagem e da análise linguística. 
Saussure considerou que a linguagem é complexa e multifacetada, e em sua 
abrangência há vários domínios, podendo ser, simultaneamente, física, fisiológica e 
psíquica; segundo ele a linguagem tem caráter individual e social, não sendo 
possível classificá-la em alguma categoria de fatos humanos. Para o teórico, a 
linguagem não pode ser objeto de estudo da Linguística, porque ela envolve, além 
da investigação linguística, outros aspectos analisados por outras ciências, como a 
antropologia e a psicologia, por exemplo. Sendo assim, Saussure seleciona uma 
parte essencial do todo linguagem, que é a língua, considerada um objeto uno e 
passível de classificação. Segundo o autor, a língua “é um produto social da 
faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo 
corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos” (Saussure, 
1969, p. 17). 
De acordo com Saussure, a língua é um sistema ou conjunto de signos ou 
unidades que se relacionam de maneira organizada dentro de um todo. Seria a parte 
social da linguagem, fora do indivíduo, que obedece a leis sociais estabelecidas por 
determinada comunidade e que não pode ser alterada pelos falantes. E juntamente 
aos conceitos de linguagem e língua, o autor destaca ainda a fala, que é um ato 
individual, é resultado das combinações que o falante faz usando o código da língua, 
e essas combinações são produzidas através de atos de fonação. 
Para Saussure, o objeto de estudo da Linguística é determinado com a 
distinção de linguagem, língua e fala, haja vista que o autor divide o estudo da 
linguagem em duas partes: investigação da língua e investigação da fala. Não é 
possível separar essas duas partes, pois uma depende da outra, isto é, a língua 
condiciona a produção da fala, porém, não há língua se não houver a fala. 
Entretanto, percebe-se a necessidade da existência de duas linguísticas, a 
linguística da língua e a linguística da fala. Saussure concentra os seus estudos na 
linguística da língua, considerando esse produto social imposto ao falante e 
constituído de elementos condicionados por regras de funcionamento. 
Para finalizar a contribuição desse estudioso à concepção de linguagem e 
língua, é relevante destacar que para ele a Linguística considera a língua por ela 
própria, analisando os elementos linguísticos, suas relações dentro do discurso e o 
valor funcional dessas relações identificadas. A teoria de análise linguística sugerida 
por Saussure resultou no estruturalismo, uma ciência que estuda a estrutura da 
língua e não o seu uso ou a fala propriamente dita. 
Conforme mencionado, veremos também a proposta de Chomsky para definir 
linguagem e língua. Na metade do século XX, o norte-americano Noam Chomsky 
inovou os estudos linguísticos, dizendo que todas as línguas naturais, nas formas 
falada e escrita, são linguagens conforme a sua definição. No livro Syntactic 
Structures, ele define linguagem como “um conjunto (finito ou infinito) de sentenças, 
cada uma finita em comprimento e construída a partir de um conjunto finito de 
elementos” (Chomsky, 1957, p. 13). Isso quer dizer que toda e qualquer língua 
natural é constituída por um número finito de sons e de sinais gráficos que os 
representam na escrita. E ainda, mesmo que haja um número infinito de possíveis 
sentenças, cada uma delas só pode ser representada por uma sequência finita 
desses sons e letras existentes. Em outras palavras, há em toda língua natural uma 
quantidade finita de sons e letras que possibilitam a criação de um número infinito de 
sentenças, cabendo ao linguista determinar e reconhecer o que é considerado ou 
não sentença pertencente à língua analisada, conforme suas regras de 
funcionamento. Por exemplo, na língua portuguesa, os artigos sempre antecedem o 
substantivo, logo se houver a troca dessa posição, tal sequência não será aceita 
como sentença, ou seja, a construção “Menina a quer boneca uma” não é aceita, 
não pode ser usada em nossa língua; o correto é “A menina quer uma boneca”. 
Para Chomsky, a análise das línguas naturais precisa definir as propriedades 
estruturais que diferenciam uma língua natural de outras línguas. Para ele, tais 
propriedades possuem um grau tão alto de abstração, complexidade e 
especificidade que não poderiam ser aprendidas do nada por uma criança no 
processo de aquisição da língua, sem nenhuma base, conhecimento ou capacidade 
pré-existente. O teórico considera, portanto, que a linguagem é uma capacidade 
inata e específica do ser humano, transmitida geneticamente, ou seja, a criança já 
nasce com conhecimento sobre essas propriedades estruturais antes de ter contato 
com a língua natural e esse conhecimento é acionado durante a aquisição 
linguística. De acordo com seus estudos, há propriedades universais da linguagem, 
que possibilitam a constituição de uma teoria geral da linguagem, essa teoria foi 
chamada de gerativismo. 
Enquanto Saussure separa língua e fala, Chomsky diferencia os conceitos 
competência e desempenho. A competência linguística é o conjunto de regras que o 
falante possui em sua mente, construído pela aplicação de sua capacidade inata 
para a aquisição da linguagem aos dados linguísticos que teve contato na infância 
durante essa aquisição propriamente dita, isto é, diz respeito ao conhecimento 
linguístico que o falante possui e que lhe permite produzir sentenças em sua língua. 
Já o desempenho consiste no comportamento linguístico do falante, resultante da 
sua competência linguística e de fatores não linguísticosenvolvidos na produção de 
enunciados, como convenções sociais, crenças, valores, sentimentos, atitudes do 
interlocutor, entre outros. O desempenho depende da competência, todavia a 
competência não depende do desempenho, sendo exclusivamente linguística e 
também passível de descrição e implícita no desempenho. 
Para finalizar vale destacar que Saussure ressalta a língua enquanto sistema 
linguístico socializado e Chomsky enfatiza a competência linguística, que é o 
conhecimento linguístico internalizado. 
 
1.3 O que é Linguística? 
 
Vimos que há vários tipos de linguagens – verbais e não verbais –, que 
correspondem a sistemas de signos utilizados para a comunicação, como a música, 
a dança, a pintura, os gestos, as palavras, entre outros. De acordo com Saussure há 
uma ciência mais geral que estuda todo e qualquer tipo de sistema de signos, 
chamada Semiologia. 
A Linguística é uma parte dessa ciência mais geral, é a ciência que estuda 
especificamente a linguagem verbal humana, sua estrutura e seus usos. Em outras 
palavras, é o estudo científico da linguagem verbal. Orlandi (1986, p. 9) diz da 
seguinte maneira: “Linguística definiu-se, com bastante sucesso entre as Ciências 
Humanas, como o estudo científico que visa descrever ou explicar a linguagem 
verbal humana.” E por que a Linguística é uma ciência? Porque ela estuda as 
línguas naturais com o objetivo de conhecer os seus princípios de funcionamento, 
bem como as diferenças e semelhanças entre elas, sem fazer julgamentos de valor 
sobre as formas linguísticas, sem classificar tal uso em certo ou errado, bonito ou 
feio. A Linguística apenas descreve e explica essas formas, esses usos, os fatos tal 
como se apresentam numa determinada sociedade, abrangendo os padrões 
sonoros, gramaticais, lexicais e sintáticos. Petter (2008, p. 17) enfatiza que o 
linguista não leva em consideração julgamentos, pois sua função consiste em 
“estudar toda e qualquer expressão linguística como um fato merecedor de 
descrição e explicação dentro de um quadro científico adequado”. 
A Linguística, portanto, é uma ciência e toda ciência é descritiva e não 
prescritiva (de prescrever, receitar), não se compara ao estudo tradicional da 
gramática ou às gramáticas tradicionais, nas quais se baseia a maioria das 
gramáticas escolares e dos livros didáticos de Língua Portuguesa, que têm caráter 
prescritivo. Gramáticas tradicionais se baseiam num tipo só de língua – a norma 
culta, que é o falar das elites –, normalmente usando como exemplos dessa norma 
culta a língua escrita, ou seja, a obra dos escritores consagrados, a língua literária. A 
gramática tradicional, portanto, descreve, mas apenas uma parte da língua (a norma 
culta), e prescreve, ou seja, “receita” a maneira “correta” de se utilizar a língua (como 
escrever tal palavra, como fazer a concordância verbal e nominal, como efetuar 
colocação pronominal, etc.), ignorando as outras variedades da língua, os usos que 
divergem da norma culta, até mesmo condenando-os. A gramática tradicional não é 
científica, pois faz julgamentos de valor sobre as formas e os usos linguísticos que 
não se “enquadram em suas regras”. 
Devemos, portanto, fazer uma distinção bem clara entre a gramática 
normativa, prescritiva, e a Linguística, descritiva, científica. Lembrando que a 
gramática normativa preocupa-se com o emprego correto das regras gramaticais e a 
Linguística é uma ciência que tem por objeto a linguagem verbal humana em todas 
as suas possibilidades e variedades. 
A metodologia de análise linguística tem como foco principal a fala das 
comunidades e como foco secundário a língua escrita. Essa prioridade para o 
estudo da língua falada e os critérios usados para a coleta, organização, seleção, 
análise dos dados linguísticos e resultados são justificados pelo fato de ser preciso 
corrigir os procedimentos de análise apresentados pela gramática tradicional e 
elaborar uma teoria geral da linguagem através da correlação de informações sobre 
outras línguas. 
Dessa maneira, há duas áreas de estudo, chamadas Linguística Geral e 
Linguística Descritiva. A Linguística Geral trabalha com conceitos e modelos que 
servem de fundamentos para a análise das línguas, enquanto a Linguística 
Descritiva disponibiliza os dados necessários para confirmar ou contestar as teorias 
que a Linguística Geral propõe. As duas são interdependentes, porém é possível 
que uma descrição linguística, além de conceder recursos para a investigação da 
Linguística Geral, tenha outros objetivos, como elaborar uma gramática ou um 
dicionário no intuito de difundir a forma escrita de línguas que ainda não circulam 
nessa modalidade, a exemplo de línguas indígenas e africanas. 
No breve histórico sobre o estudo da linguagem, vimos que no século XIX 
houve uma preocupação por parte dos linguistas em estudar as transformações que 
as línguas apresentam ao longo tempo, no esforço de desvendar as mudanças 
linguísticas; nesse contexto a Linguística era histórica ou diacrônica. Contudo, no 
começo do século XX, Saussure apresentou uma nova perspectiva de estudo da 
língua, chamada sincrônica, em que a análise e a descrição das línguas são feitas 
em um determinado momento histórico ou recorte temporal, observando elementos 
coexistentes. Saussure, apesar de defender o ponto de vista sincrônico do estudo 
das línguas, reconhecia que as abordagens sincrônica e diacrônica são relevantes e 
se complementam. A diferença é que na sincronia os fatos linguísticos e seu 
funcionamento são examinados em um dado momento, e na diacronia os fatos são 
observados com relação às suas transformações e às relações estabelecidas com 
os fatos e momentos históricos anteriores e posteriores. Em outras palavras, uma 
descrição sincrônica leva em consideração os fatos linguísticos e suas relações em 
um determinado estado da língua, e as pesquisas diacrônicas analisam fatos 
linguísticos em estados sucessivos da língua, como, por exemplo, o estudo sobre as 
transformações que aconteceram com o pronome de tratamento “Vossa Mercê” ao 
longo tempo, resultando na forma atual “Você”, de pronome pessoal, que na 
oralidade é empregado como “Cê”; para explicar essas mudanças é preciso 
comparar diferentes estados e momentos da língua. 
Essa distinção entre sincronia e diacronia – e suas metodologias – ocasionou 
dois ramos da Linguística: a Linguística Sincrônica que investiga um estado da 
língua, e que atualmente é chamada de Linguística Teórica, por se ocupar mais da 
elaboração de modelos teóricos do que da descrição de estados da língua; e a 
Linguística Histórica, que estuda a história da língua. 
Para finalizar a concepção de Linguística, é relevante destacar que diversas 
áreas de estudo se interessam pela linguagem e, por isso, ao relacionar o estudo da 
língua com outras disciplinas, houve a criação de alguns campos de estudo 
interdisciplinares, como a Etnolinguística, que investiga a relação existente entre a 
língua e a cultura; a Sociolinguística, que estuda a relação observada entre a língua 
e a sociedade; e a Psicolinguística, que examina o processo de aquisição da 
linguagem, a aprendizagem de uma segunda língua e o comportamento do indivíduo 
nesses dois eventos. 
 
1.4 Gramática: o ponto de vista normativo/ descritivo 
 
Como já mencionado anteriormente, a gramática tradicional possui um ponto 
de vista normativo e prescritivo da língua, fundamentando a sua análise na língua 
escrita. Por não reconhecer a diferença existente entre língua falada e língua escrita, 
considera a forma escrita como um modelo de correção que deve ser aplicado e 
seguido em todos os tipos de expressão linguística, propagando dessa maneira 
falsos conceitos concernentes à natureza da linguagem. 
Conforme citado por Petter (2008, p. 19), é importante recordar que o primeiro 
registro de descrição linguística é a do sânscrito – no século IV a.C. – realizada pelogramático hindu Panini, cujo objetivo foi justamente garantir que os textos sagrados 
e a pronúncia correta das preces fossem conservados, num momento em que a 
língua sânscrita culta, chamada blasha, necessitava de consolidação e 
fortalecimento para resistir às influências dos falares populares, denominados 
prácritos, ou seja, essa obra surgiu em um momento histórico em que uma 
determinada variedade linguística precisava, no entender desse gramático, de 
valorização e divulgação. 
Há registros de outras gramáticas antigas prescritivas e pedagógicas, cujo 
propósito era descrever a língua, contudo também prescrever o que consideravam o 
uso correto, como por exemplo, gramáticas do árabe, do grego e do latim. 
Atualmente, essa tradição normativa ainda é predominante, sobretudo em países 
que se preocupam com o desenvolvimento e consolidação da língua padrão, 
divulgada como uma norma de correção, uma forma correta de utilização da língua, 
prescrita por fontes de autoridade como gramáticos e representantes da língua 
literária. Além de prescrever uma norma de correção e considerar outras variedades 
inferiores e incorretas, a norma culta ou padrão também é valorizada por ser 
associada às classes sociais mais altas, instruídas e dominantes. 
Embora os gramáticos tradicionais trabalhem para descrever a língua, eles 
priorizam alguns usos em detrimento de outros. Dessa forma, esse estudo descritivo 
e normativo feito por eles limita o objeto de análise, justamente por privilegiar a 
variedade padrão. E é essa “forma correta” de uso da língua que geralmente é o 
foco do estudo nas escolas, que deixam de oportunizar um conhecimento mais 
amplo e abrangente da diversidade linguística. 
Na sociedade brasileira, durante muito tempo, e isso ainda ocorre na 
contemporaneidade, os estudos acerca da linguagem – especialmente nos ensinos 
fundamental e médio – restringiram-se ao estudo prescritivo da Língua Portuguesa, 
embasado na gramática tradicional. Esses estudos preocupam-se com a gramática 
normativa, isto é, com o ensino de regras gramaticais, como acentuação, ortografia, 
conjugação de verbos, concordância verbal e nominal, entre outros; e deixam de 
lado a língua propriamente dita, bem como sua variedade de usos e possibilidades. 
Não se pode negar, obviamente, a importância e a utilidade do estudo normativo, 
contudo este não pode ser separado do contexto e de uma visão mais completa da 
língua, nem impedir que o aluno aumente a sua competência linguística, usando-a 
para se comunicar, compreender mensagens e produzir textos para diversos fins. 
Todavia, felizmente, essa priorização pelo estudo normativo começou a 
mudar, pois alguns documentos oficiais, que orientam o trabalho nas escolas, já têm 
enfatizado e sugerido uma postura mais moderna sobre os estudos da nossa língua. 
Nas universidades, a disciplina de Linguística – que é obrigatória no curso de Letras 
– não só tem procurado cumprir seu papel de subsidiar o aluno com os conceitos 
que a compõem, como também tem auxiliado e servido como base para outras 
disciplinas, como Língua Portuguesa e Literaturas. 
É relevante, portanto, enfatizar que abordar a língua somente sob a 
perspectiva normativa corrobora para que falsos conceitos e preconceitos sejam 
difundidos, e a Linguística contribui para que essas ideias sejam discutidas e 
revertidas, haja vista que a língua escrita não pode servir de modelo para a língua 
falada e que não existem línguas e variedades melhores ou piores, mas sim 
diferentes. 
 
1.5 A Linguística: o ponto de vista descritivo/ explicativo 
 
Já estudamos anteriormente que o campo de pesquisa da Linguística, tal 
como apresentada por Saussure, tem como foco principal a investigação da língua 
enquanto conjunto de regras e propriedades formais e que essa ciência não 
privilegia determinada variedade linguística, considerando todos os usos e fatos 
linguísticos, e realizando sua descrição. Além disso, há várias áreas de estudo 
dentro da Linguística, que podem considerar, por exemplo, o fator histórico ou não. 
No século XIX, os estudos desenvolvidos pela Linguística Histórica, que 
estuda as mudanças da linguagem, fortaleceu o conhecimento científico da língua, 
indo de encontro à divulgação de uma norma e mostrando que as transformações 
linguísticas geralmente são originadas na fala popular, ou seja, é comum que formas 
consideradas erradas em um dado momento histórico passem a ser consideradas 
corretas no momento seguinte. 
Além disso, ao analisar os fatos, observa-se que algumas formas 
consideradas erradas são recorrentes também na fala de pessoas cultas, 
confirmando que a língua tem realmente um caráter bastante variável e que a escrita 
não pode servir de padrão para a fala. Como exemplo, podemos citar o verbo “ir”, no 
sentido de ir a algum lugar, cuja regência verbal culta pede o uso da preposição “a”, 
como dizer “Vou ao cinema”; todavia, é muito comum que na fala as pessoas 
utilizem a preposição “em”, enunciando “Vou no cinema”. Isso quer dizer que existe 
a variante do padrão culto, mas há também uma variante que não atende a essa 
regra, porém é utilizada com frequência e inclusive, embora estigmatizada, é 
encontrada em textos arcaicos e do século XIX, comprovando que essas mudanças 
e variações ocorrem no decorrer do tempo. 
Enquanto a visão prescritiva admite apenas uma forma correta com base na 
língua escrita, a visão descritiva da Linguística reconhece que há a possibilidade de 
escolha de usos linguísticos que sejam mais apropriados à língua escrita, à língua 
falada, a situações coloquiais e a situações formais, uma vez que, conforme essa 
abordagem descritiva, as variedades não padrão da língua também consistem em 
um conjunto de regras gramaticais, embora diferentes das regras do português 
padrão. Isso se justifica porque o termo “gramatical” é utilizado com um valor 
descritivo, isto é, a gramática de uma língua ou de um dialeto corresponde à 
descrição das regularidades que constituem a sua estrutura. Sendo assim, o 
exemplo coloquial do verbo “ir” acompanhado pela preposição “em” é uma sentença 
gramatical na variedade coloquial, compreendida por todos, sem prejuízo à 
comunicação. E é isso que a Linguística, enquanto ciência faz – não trata a língua 
como deveria ser, mas sim a descreve como realmente é. 
Levando em consideração esse objetivo de descrever a língua, a Linguística 
trabalha com uma metodologia de análise de sentenças que são efetivamente 
produzidas, formando assim um corpus representativo. Um corpus é um conjunto de 
dados que são organizados para uma pesquisa específica, sendo que esses dados 
são reais e empregados na fala dos indivíduos, ou seja, o corpus inclui expressões 
linguísticas de todos os tipos, pertencentes à variedade padrão e à variedade não 
padrão, e sua descrição não possui caráter normativo ou histórico, pois o intuito é 
perceber a estrutura dos elementos linguísticos (frases, morfemas, fonemas) e as 
regras que possibilitam a sua combinação. 
De acordo com essa metodologia adotada e a cientificidade da Linguística, há 
dois princípios que a fundamentam – e o empirismo e objetividade. Assim, a 
Linguística é empírica porque analisa dados verificáveis através da observação e 
objetiva por investigar a língua de maneira independente, ou seja, sem levar em 
consideração preconceitos sociais e culturais. 
Até os anos 1950, as análises linguísticas, que tinham como base as teorias 
de descrição de Saussure, trabalhavam apenas com a explicação dos fatos por meio 
de sua descrição. Entretanto, a partir do final dos anos 1950, Chomsky sugeriu que 
a análise linguística se prendesse menos aos dados e mais à teoria, isto é, para o 
teórico, além de observar e categorizar dados, é preciso haver uma teoria explicativa 
que anteceda esses dados e que seja capaz de explicar as frases produzidas e as 
que possivelmente podem ser realizadas pelosfalantes, pois para Chomsky um 
fenômeno linguístico só pode ser explicitado, quando pode ser relacionado a leis 
gerais, e é essa teoria que é definida por ele como gramática. 
Conforme essa teoria da gramática, todas as frases gramaticais devem ser 
estudadas, ou seja, todas as frases que pertencem à língua em análise. Novamente, 
não dita regras como a gramática normativa, mas explica as sentenças produzidas e 
as que têm potencial de serem realizadas na língua. O critério utilizado para a 
gramaticalidade ou agramaticalidade dessas frases é a intuição ou a competência do 
falante, que vai organizar os componentes linguísticos em uma frase, garantindo 
essa gramaticalidade ou respeitando as regras gramaticais do sistema linguístico, 
conforme o conhecimento que o falante tem internalizado. Caso contrário, se essa 
sequência de palavras não respeitar tais regras, teremos uma sequência 
agramatical, como no exemplo “Minha copo cheia está muito quase”, que não 
atende às regras estruturais fundamentais da língua. 
Essa nova proposta de análise dos fatos linguísticos pertence ao que é 
chamado de gramática gerativa, pois uma quantidade limitada de regras possibilita a 
elaboração e a compreensão de uma quantidade infinita de sentenças novas. A 
preocupação dos gerativistas é captar propriedades comuns e universais da 
linguagem, que compõem a gramática universal (GU). Como afirma Petter (2008, p. 
22), na perspectiva gerativa “as propriedades formais das línguas e a natureza das 
regras exigidas para descrevê-las são consideradas mais importantes do que a 
investigação das relações entre a linguagem e o mundo.” 
Há ainda a gramática funcional, que apresenta outra proposta para explicação 
dos fatos linguísticos, com base nos fundamentos do funcionalismo. A gramática 
funcional não separa os elementos linguísticos das funções que eles exercem nas 
sentenças, considerando o uso desses elementos na interação verbal. Ademais, 
abrange toda a situação comunicativa na análise da estrutura gramatical, como a 
intenção comunicativa, os falantes envolvidos e o contexto de comunicação. 
Essa teoria funcionalista se desenvolveu especialmente na Escola Linguística 
de Praga, originada no Círculo Linguístico de Praga, criado em 1926. Os linguistas 
da Escola de Praga elaboraram a definição da perspectiva funcional da sentença, 
afirmando que pode haver diferentes versões da mesma sentença e que sua 
estrutura é determinada pelo uso, pela situação de comunicação em que os 
enunciados são emitidos e pelo fato de envolver informações conhecidas ou novas 
para o ouvinte. Para exemplificar podemos considerar as sentenças “Maria trabalhou 
ontem à tarde” e “Ontem à tarde Maria trabalhou”, que, na verdade, são versões 
diferentes de uma mesma sentença e que serão empregadas conforme os critérios 
mencionados. Uma grande contribuição do funcionalismo nos dias de hoje é a 
afirmação de que a língua é, antes de qualquer coisa, uma ferramenta de interação, 
utilizada para firmar relações comunicativas entre os indivíduos. 
Vimos algumas propostas para descrição e explicação da linguagem, que não 
são exclusivas, são diferentes abordagens e corroboram para a compreensão de 
que a linguagem pode ser estudada de diversas perspectivas. Há o estudo de 
aspectos internos da língua, mas há também pesquisas que levam em consideração 
fatores externos como a sociedade, a história e o contexto de comunicação. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
2. Língua e Cultura 
 
2.1 Língua como instrumento de comunicação 
 
Atualmente, é um consenso o reconhecimento da relevância da comunicação 
para os dias de hoje e para toda a história da humanidade, podendo-se dizer que a 
mesma fundou a sociedade, afinal de contas a comunicação é a ferramenta que 
utilizamos para interagir, para representar ideias, para transmitir conhecimento, para 
compartilhar informações, para conviver uns com os outros, para propagar a cultura, 
entre outros, podendo fazê-la por diversos tipos de linguagem, por diferentes 
conjuntos de signos verbais e não verbais. 
Nos estudos sobre a linguagem, a comunicação também é considerada 
fundamental, contudo essa função essencial da linguagem enquanto objeto de 
comunicação nem sempre foi reconhecida, pois nos estudos gramaticais do século 
XIX a língua era vista apenas como uma representação de uma estrutura de 
pensamento, que não necessitava da formalização linguística para existir. Para os 
estudiosos dessa época a comunicação, caracterizada pela “lei do menor esforço”, 
era a responsável pela desorganização gramatical das línguas, causando o seu 
declínio e as transformações linguísticas julgadas como ruínas linguísticas. Barros 
(2008, p. 26), para exemplificar esse pensamento, diz que “o português e o italiano 
(...) seriam ‘restos’ em decadência do latim”. Isso quer dizer que se não houvesse 
comunicação, a língua teria a sua estrutura conservada e não haveria mudanças 
linguísticas, vistas por esses gramáticos como algo prejudicial ao que era 
considerado o padrão correto das línguas. 
Entretanto, no início do século XX, Saussure afirmou que a língua é 
essencialmente um instrumento de comunicação, ocasionando uma ruptura com 
essas concepções anteriores. Assim, um dos grandes efeitos da linguística 
saussureana foi incluir o estudo da comunicação nas investigações e pesquisas 
linguísticas. 
Como vimos, através da comunicação podemos aprender e transmitir novas 
informações, conhecimentos, valores, costumes e crenças tradicionais existentes em 
nossa sociedade e constituintes de nossa cultura. Vejamos a seguir um pouco mais 
sobre a concepção de cultura e sua relação com a língua. 
 
2.2 As línguas e a cultura 
 
O conceito de cultura pode ser definido como o conjunto de todas as criações 
humana ou como o resultado da ação do homem sobre a natureza, modificando-a. 
Com as modificações genéticas que foram ocorrendo no processo de 
evolução humana, o homem foi se diferenciando dos outros animais ao adquirir a 
capacidade simbólica e a capacidade de utilizar instrumentos para conseguir o que 
queria. Os nossos ancestrais não tinham uma vida fácil, pois não eram muito fortes – 
comparando-os com os outros animais da época – nem especializados, já que não 
podiam voar como os pássaros, não podiam viver na água como os peixes, não 
tinham a visão aguçada como a da águia, não possuíam veneno como o das cobras 
para se defender, nem a velocidade de animais como os leões, enfim, os seres 
humanos eram totalmente primitivos. 
Como será, então, que um animal tão indefeso e sem “recursos” conseguiu se 
tornar o “dono do mundo”? A resposta está justamente no desenvolvimento da 
capacidade simbólica – em que pôde desenvolver a linguagem – e na capacidade de 
usar instrumentos – que lhe permitiu a invenção de variados objetos que lhe 
auxiliassem. Não é à toa que, hoje, o ser humano é capaz de voar por meio dos 
aviões, ir ao fundo do mar com os submarinos, enxergar a longas distâncias através 
dos telescópios, enxergar coisas minúsculas usando o microscópio e até ir a outros 
planetas. Todos esses conhecimentos e invenções humanos constituem a sua 
cultura. Entre todas as suas criações, talvez a mais impressionante tenha sido a 
linguagem simbólica, mais especificamente, a linguagem verbal, a língua. 
É a língua que expressa a cultura dos povos e, ao mesmo tempo, a língua faz 
parte da cultura, ou seja, para falar de nossa cultura usamos a língua, que faz parte 
da cultura e não pode ser considerada isoladamente, mas sim com uma parcela de 
todo o contexto cultural. 
Em geral, as pessoas acreditam que, para se aprender uma segunda língua, 
basta decorar uma lista de palavras desse idioma. Nessa concepção, a língua é 
vista como um simples repertório, um conjunto de palavras que se diferenciam das 
palavras de outras línguas pela diferença dos nomes dados a cada coisa.Esse 
pensamento não é verdadeiro, pois, como já dissemos, as línguas expressam a 
cultura e as experiências de cada povo, e sabe-se que as culturas não são iguais. 
Conclui-se então que, para se dominar outra língua, não basta traduzir cada palavra, 
é preciso se conscientizar de que há culturas diferentes e mudar a visão de mundo 
de acordo com a cultura referente à nova língua que se quer aprender. Sendo assim, 
o sinônimo de língua como lista de palavras não é correto. 
Um exemplo bastante citado para explicar a noção de “língua como visão de 
mundo”, ou seja, para explicar a ideia de que cada língua “enxerga” a realidade de 
uma determinada forma é relativo às cores do arco-íris (resultado da refração da luz 
solar). Em português, utilizamos sete palavras que nomeiam as cores do arco-íris – 
vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta (ou roxo); em inglês, utilizamos 
seis palavras, porque a língua inglesa não faz distinção entre roxo e anil, como nós 
fazemos. Há outras línguas que dividem de várias outras formas o espectro das 
cores, como a língua bassa, uma língua indígena da Libéria, na África, que as divide 
em dois grandes grupos: cores quentes (chamadas ziza) e cores frias (chamadas 
hui). Na realidade, o que vemos no arco-íris não está dividido com nitidez, não há 
um traço indicando onde termina o azul e começa o verde, consequentemente, cada 
cultura divide as cores do arco-íris de uma forma peculiar e cada língua “recorta a 
realidade de um modo particular” (Lopes, 2001, p. 21), expressando as experiências 
de cada povo ou comunidade, que podem não coincidir de um local para o outro. 
Outro exemplo da representação variada da realidade pelas línguas naturais é 
a denominação relacionada ao indivíduo que guia um automóvel. Em francês essa 
pessoa é chamada de chauffeur, em inglês de driver, em espanhol de conductor e 
em português chamamos de motorista. Observando tais nomenclaturas, é possível 
constatar que os franceses associam esse indivíduo à atividade de aquecer o motor 
para que o automóvel entre em movimento; os ingleses e os espanhóis fazem uma 
associação com o ato de dirigir ou conduzir o veículo; e nós, falantes da língua 
portuguesa, associamos tal indivíduo diretamente ao motor do carro. A atividade é a 
mesma, mas cada comunidade e cada língua a analisa sob um aspecto particular, 
resultando numa representação que difere de uma comunidade de falantes para 
outra. 
As línguas, além de analisar a realidade de maneira diferente, também 
possuem sons típicos ou fonemas que reforçam essa especificidade de cada língua, 
ou seja, os fonemas que são utilizados por falantes de diferentes idiomas para sua 
expressão apresentam semelhanças, porém não são exatamente iguais. Essas 
diferenças são percebidas quando observamos o inglês, o francês e o espanhol, por 
exemplo, e quando tentamos aprendê-las. No inglês há o som representado pelas 
letras “th” (como em “thanks”, que significa obrigado), cujo fonema usado em sua 
expressão oral não existe na língua portuguesa, podendo causar certa dificuldade no 
aprendizado de sua pronúncia, pois na realidade, os fonemas de duas línguas são 
tão distintos, que quando um indivíduo escuta uma língua que desconhece, é 
comum ele ter dificuldades para reproduzir tais fonemas com precisão. 
Enfim, cada língua expressa a cultura ligada a ela, não podendo traduzir com 
exatidão a língua e a cultura de outras sociedades, e isso reforça o fato de que a 
língua e a cultura se relacionam, a língua expressa a cultura e também faz parte 
dela. Como a Linguística é uma disciplina interdisciplinar, o estudo dessa relação 
entre língua e cultura também faz parte de seu campo de pesquisa e quadro teórico. 
 
2.3 O modelo de comunicação da teoria da informação 
 
 Como a comunicação é uma função essencial da língua e está diretamente 
ligada à cultura, veremos aqui um modelo de comunicação elaborado não 
especificamente pelos estudos linguísticos, mas por estudos que constituíram a 
teoria da informação e da comunicação, que influenciou os estudos da Linguística, 
especialmente nos anos 1950. 
 É relevante saber que a teoria da informação investiga a comunicação de um 
ponto de vista diferente dos estudos linguísticos e com objetivos voltados, segundo 
Barros (2008), para a medida da informação, que é a quantidade de informação 
transmitida durante uma comunicação, e para a economia da mensagem, que 
aborda questões referentes a uma codificação eficaz, à habilidade de transmissão 
do canal de comunicação e também à eliminação de ruídos que podem causar 
resultados indesejáveis. 
 O modelo apresentado a seguir diz respeito a uma das propostas mais 
conhecidas entre os linguistas. Foi elaborado por C. F. Shannon, que apresentou o 
seguinte esquema para a comunicação (in Barros, 2008, p. 26): 
 
 
 
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Shannon_Weaver_-
_Modelo_de_Comunica%C3%A7%C3%A3o.png 
 
 De acordo com esse esquema da comunicação, há um emissor e um 
receptor, com divisão em duas ou mais caixas, que separam o processo de 
codificação e decodificação da emissão e da recepção da mensagem. Há um canal, 
que consiste num suporte material ou sensorial, cuja função é transmitir a 
mensagem de um local a outro; e há também uma mensagem, que é o resultado da 
codificação, sendo compreendida durante a transmissão por meio de uma sequência 
de sinais. Antes da transmissão da mensagem, há os procedimentos de codificação, 
utilizadas para elaborar a mensagem, e entre a recepção e o destino há os 
procedimentos de decodificação, que possibilitam o reconhecimento e a 
identificação dos elementos que constituem a mensagem. Os ruídos, elementos 
diversos que interferem na comunicação, podem causar tal interferência durante 
todo o trajeto da informação e prejudicar a eficiência da comunicação. Há vários 
tipos de ruídos: 
 
• Ruídos físicos: barulhos, ruídos, problemas no canal de comunicação, entre 
outros; 
 
• Ruídos psicológicos: desinteresse, desatenção, etc. 
 
 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Shannon_Weaver_-_Modelo_de_Comunica%C3%A7%C3%A3o.png
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Shannon_Weaver_-_Modelo_de_Comunica%C3%A7%C3%A3o.png
• Ruídos culturais: falta de conhecimento dos códigos, falta de conhecimento 
de crenças e valores em comum, etc. 
 
Para resumir, nesse esquema a comunicação é apresentada como um 
mecanismo de transmissão de mensagens de um emissor para um receptor, 
organizadas de acordo com um código e através de sequência de sinais. A 
preocupação principal desse modelo de comunicação da teoria da informação é 
aprimorar a transmissão da mensagem, no que diz respeito aos significantes usados 
na expressão sensorial. 
Ainda com relação a esse modelo de comunicação, Barros (2008, p. 27) 
afirma que quando levamos em consideração a comunicação entre os seres 
humanos, especialmente na comunicação verbal oral ou escrita, é constatado que a 
comunicação possui outros fins e são identificadas algumas dificuldades nas ideias 
da teoria da informação, apontando três dessas dificuldades, com críticas e soluções 
possíveis: 
 
1) Simplificação excessiva da comunicação: esses esquemas da 
comunicação acabam simplificando demais a comunicação verbal; 
 
2) Modelo linear da comunicação: na teoria da informação a comunicação 
é contemplada linearmente e trata somente, ou preferencialmente, do 
plano de expressão, dos significantes (sequência de sinais das 
mensagens); 
 
3) Caráter mecanicista do modelo: nas concepções da teoria da 
informação, as questões extralinguísticas, culturais e sócio históricas não 
são levadas em consideração. 
 
Diante dessas dificuldades apresentadas, os estudos da linguagem 
pretenderam sanar as limitações presentes nos esquemas e modelos propostos pela 
teoria da informação, complementando as informações muito simplificadas sobre a 
comunicação e rever a questão dacomunicação sob outra perspectiva, atentando 
para os tópicos criticados concernentes ao caráter linear e mecanicista. 
Um dos linguistas que mais contribuíram para complementar e ampliar as 
propostas e modelos da teoria da informação, de maneira a abranger a comunicação 
verbal, foi Roman Jakobson (1969). Para ele, os estudos sobre a informação devem 
considerar que na comunicação há um remetente ou emissor que envia uma 
mensagem a um destinatário ou receptor. Para que essa mensagem seja eficiente é 
necessário que haja um contexto a que se refere (ou um referente) decifrável pelo 
remetente e pelo destinatário, um código (linguagem verbal ou não verbal) que seja 
comum e conhecido por eles e um contato ou um canal entre o emissor e o receptor, 
que possibilite essa comunicação. 
O estudioso Ignácio Assis Silva (1972) propõe mais alguns detalhes ao 
modelo de Jakobson incluindo, por exemplo, os subcódigos junto aos códigos, que 
abordam a questão da variação linguística, investigada mais detalhadamente pela 
sociolinguística, dialetologia ou geografia linguística (ou geolinguística). 
Além de contribuir com a ampliação do modelo da teoria da informação, 
especialmente referente aos códigos e subcódigos, Jakobson sugeriu a existência 
de uma variedade das funções da linguagem, um estudo que também se refere à 
comunicação e que é considerado a sua contribuição mais conhecida. O teórico 
constatou que a língua deve ser estudada levando em consideração essa variedade 
de funções e não apenas a função informativa (também chamada de referencial) 
como faziam os teóricos da informação. 
Dessa forma, Jakobson apresentou seis funções da linguagem e explicou que 
um mesmo texto ou uma mesma mensagem pode apresentar várias funções 
simultaneamente, contudo em geral há uma função predominante. São elas: 
 
• Função emotiva: é centrada no remetente, faz uso da 1ª pessoa, apresenta 
aspectos ou características subjetivas, utiliza modalizadores referentes ao 
saber (eu acho, eu considero, eu acredito, etc.), utiliza recursos prosódicos 
como pausas, hesitações, exclamações e interjeições. Há efeitos de 
subjetividade, emotividade e proximidade do sujeito, que relata o seu ponto 
de vista, sentimento e emoções. Um exemplo de texto que contém essa 
função são poemas em 1ª pessoa ou uma carta de amor. 
 
• Função referencial: é centrada no contexto ou no referente, faz uso da 3ª 
pessoa, apresenta aspectos ou características objetivas e concretas, há uma 
relação de afastamento do sujeito. Sua função é transmitir objetivamente uma 
informação, como textos científicos ou jornalísticos, por exemplo. 
 
• Função poética: é centrada na mensagem, faz uso de procedimentos no 
plano da expressão, como formas de utilização dos sons (ritmos, entoações, 
rimas, entre outros) e figuras de linguagem, com efeito de sentido que rompe 
o discurso comum e busca a perfeição no funcionamento da linguagem e na 
aproximação entre expressão e conteúdo. O exemplo mais citado é a poesia, 
a literatura, mas pode ocorrer também em textos publicitários, jornalísticos ou 
religiosos. 
 
• Função fática: é centrada no contato ou no canal, faz uso de procedimentos 
prosódicos da fala ou expressões prontas para iniciar (bom dia, oi, tudo 
bem?), manter (ahã, sei, entendo), verificar (está ouvindo?, está 
entendendo?) e encerrar (tchau, até mais) o contato entre os interlocutores. 
Os efeitos de sentidos consistem em aproximação e interesse entre 
remetente e destinatário, de maneira a garantir a interação de ambos. É a 
função da conversa, do diálogo, do contato com o outro. 
 
• Função metalinguística: é centrada no código, faz uso de verbos de 
existência e significação (ser, significar), é comum o emprego do presente do 
indicativo, em orações predicativas de definição (X é ou significa Y). O efeito 
de sentido é referente à definição, é a linguagem que fala de linguagem, 
como definições presentes em dicionários, gramáticas, entre outros. 
 
• Função conativa: é centrada no destinatário, faz uso da 2ª pessoa, do 
imperativo, do vocativo, de perguntas e respostas, entre outros. Está presente 
em textos que produzem efeitos de sentido de interação com o destinatário, 
objetivando convencê-lo ou persuadi-lo a fazer ou falar algo. Um exemplo 
bastante representativo são os textos publicitários, que em geral pretendem 
convencer o destinatário a adquirir algo ou adotar determinado 
comportamento. 
 
 Barros (2008) resume que a principal colaboração de Jakobson para o estudo 
da comunicação diz respeito à inclusão das questões sobre variação linguística no 
modelo de comunicação através dos códigos e subcódigos, e de como ocorrem na 
relação entre remetente e destinatário. Além disso, o estudioso destaca que os 
falantes se comunicam de diversas maneiras e com diferentes objetivos, haja vista a 
variedade de funções da linguagem existentes no processo de comunicação, que 
não são exclusivas nem excludentes, mas são empregadas conforme o critério de 
predominância. As críticas feitas aos estudos propostos por Jakobson apontam que 
ele não analisa de maneira adequada as relações sócio históricas e ideológicas da 
comunicação e também não aborda claramente a reciprocidade ou circularidade que 
são características da comunicação humana, ou seja, seu modelo ainda possui o 
caráter mecanicista da teoria da informação. Apesar de ampliar e complementar 
significativamente esse modelo da teoria da informação, a comunicação continuou a 
ser considerada apenas como um fazer-saber, ou seja, vista como a transmissão de 
saberes acerca do mundo, das emoções do remetente, do código, do plano da 
expressão da mensagem e do funcionamento do contato; apenas na função conativa 
há um fazer-fazer ou um fazer o outro fazer, já que trabalha com o efeito de 
persuasão. 
Contudo, esses aspectos criticados foram tratados posteriormente por outras 
áreas de estudo como a Análise do Discurso, por exemplo, que retoma as questões 
sócio históricas e ideológicas; já a reciprocidade ou a circularidade são estudadas 
por linguistas e teóricos da comunicação, como veremos a seguir. 
 
2.4 A interação verbal: modelo linear e circular da comunicação 
 
Vimos que os modelos da teoria da informação retratados anteriormente são 
basicamente lineares, pois abordam a transmissão da mensagem de um emissor a 
um receptor, sem tratar da reciprocidade ou da circularidade que caracterizam a 
comunicação humana, uma vez que é possível que o receptor se torne emissor e 
assim manter ou dar continuidade à comunicação. Em resposta a esses modelos 
lineares de comunicação, a partir dos anos 1950, nos Estados Unidos, foram 
desenvolvidos estudos que sugeriram um modelo circular para a comunicação, 
resultando numa teoria da nova comunicação, abordando as concepções de 
feedback e realimentação. 
De acordo com essa nova teoria, a comunicação deve ser relacionada ao 
emissor e ao receptor, considerando-a um sistema interacional, em que importam 
tanto os efeitos da comunicação sobre o receptor, como os efeitos que a reação do 
receptor causam sobre o emissor. 
Benveniste (1966) tratou em seus estudos sobre a reciprocidade da 
comunicação, afirmando que o “eu”, ao dizer “eu” situa o “tu” como seu destinatário 
ou receptor, todavia esse destinatário pode tomar a palavra e dizer “eu”, instalando 
agora o outro como “tu”. De acordo com o teórico o diálogo consiste na condição da 
linguagem humana, marcada pela reciprocidade ou reversibilidade. 
Assim, especialmente os linguistas norte-americanos desenvolveram estudos 
sobre a interação entre sujeitos durante a comunicação. Bakhtin (1981) foi o primeiro 
a desenvolver estudos sobre a interação e o diálogo entre interlocutores, buscando 
demonstrar que a interação verbal é a realidade essencial da linguagem. Ao lado 
dos estudos sobre dialogismo, surgiram outros dois estudos da interação – a 
sociologia da comunicação,que tem Goffman como um importante representante, e 
a análise da conversação, de linha etnometodológica. 
Na sociologia da comunicação, o linguista Goffman (1967 e 1973) investigou 
formas de preservação da face na comunicação, isto é, a face é a expressão social 
do eu individual (ou a autoimagem pública construída) e a interação pode colocá-la 
em risco. Sendo assim, o teórico em questão apresenta estratégias que servem para 
ameaçar e atingir a face do outro, mas também para preservar e proteger a mesma; 
essas estratégias variam de língua para língua, de cultura para cultura. 
Barros (2008, p. 43) exemplifica a proteção de face através das sentenças: 
 
a) Saia já daqui! 
b) Saia daqui, por favor. 
c) Você poderia sair daqui? 
d) Será que você poderia sair daqui, por favor? 
 
A sentença (a) exemplifica um efeito de ordem categórica, que é uma ameaça 
à face do destinatário, indicado pelo imperativo “saia” e pelo advérbio “já”. Os 
demais exemplos apresentam graus diferentes de atenuação do discurso, que 
protegem a face do destinatário, como o uso de “por favor”, do verbo “poder” e da 
interrogação, elementos característicos de um pedido. 
Já a Etnometodologia analisa a interação social no comportamento diário e 
cotidiano, considerando a conversação ou a interação verbal como uma maneira 
privilegiada de interação. Dessa forma, a análise da conversação pretende 
descrever as estruturas e os mecanismos organizadores da conversação, e fazer 
uma relação dessas estruturas com as funções interacionais. 
No estudo da comunicação enquanto interação destacam-se cinco questões: 
 
1) A questão de que os falantes se constroem e constroem em conjunto o 
texto no processo de comunicação, ou seja, os sujeitos se modificam, se 
transformam e se constroem na comunicação. Para Bakhtin, no diálogo 
são construídas relações intersubjetivas e a subjetividade, pois os sujeitos 
são influenciados e substituídos por diversas vozes que os constituem 
sujeitos históricos e ideológicos. 
 
2) A questão das imagens ou dos simulacros construídos pelos interlocutores 
na interação, pois para Pêcheux na análise do discurso o remetente e o 
destinatário definem um jogo de imagens do qual dependem a 
comunicação e a interação, abrangendo a imagem que o emissor faz de si 
mesmo, a imagem que o emissor faz do receptor, a imagem que o 
receptor faz dele mesmo e a imagem que o receptor faz do emissor. Para 
exemplificar Barros (2008, p. 44) cita uma situação em que a mãe diz para 
a filha que determinada forma de se vestir é inadequada para uma 
cerimônia de casamento; a filha, por sua vez, pode não acreditar na 
afirmação da mãe, pois a associa com uma imagem de conservadorismo, 
contudo se uma amiga expuser a mesma opinião, é mais provável que ela 
troque de roupa. 
 
3) A questão do caráter polêmico ou contratual da comunicação, em que é 
possível situar os estudos de Goffman sobre a preservação e a ameaça à 
face, e estudos da análise da conversação sobre o lado contratual e a 
polêmica conversacional, levando em consideração a abordagem de um 
tema em que os interlocutores concordam ou discordam; assim há 
estratégias de discordância, como correção do outro, sobreposição de 
vozes, assalto ao turno do outro, entre outros. 
4) A questão de que não é mais possível colocar a mensagem somente no 
plano dos significantes ou da expressão quando se considera a relação 
entre comunicação e interação, pois a mensagem comunicada além de ser 
a expressão de significantes que circula como um sinal entre emissor e 
receptor, é também um discurso, conforme definido por Pêcheux, pois está 
carregada de conteúdos e significados. 
 
5) A questão do aumento da circulação do dizer na sociedade, pois muitas 
vezes a comunicação deixa de ser intimista e apenas um diálogo entre o 
“eu” e o “tu”, aqui e agora, tendo sua circulação alargada socialmente, 
como uma entrevista na televisão ou na imprensa escrita, e um júri. 
 
Vimos, portanto, a contribuição dos estudos interacionais da comunicação, 
sobretudo a característica da reciprocidade da comunicação, que é dialógica. 
 
2.5 Linguagem falada e linguagem escrita 
 
Para concluir essa abordagem sobre a comunicação, língua e expressão da 
cultura, é relevante considerarmos a linguagem falada, a linguagem escrita e suas 
especificidades. 
Como sabemos, a linguagem escrita é um dos meios visíveis de expressão 
mais comuns. Em algumas situações, inclusive, o linguista precisa utilizar esse meio 
para realizar suas análises, como, por exemplo, quando investiga uma “língua 
morta”, por meio de documentos antigos, como o latim e o grego clássico. 
Entretanto, é preciso considerar as duas modalidades da expressão linguística, pois 
fala e escrita possuem uma função relevante na comunicação. 
Em nossa sociedade, durante muito tempo (e esse pensamento ainda perdura 
nos tempos atuais), a escrita foi priorizada nos estudos linguísticos por representar 
um padrão da língua, sendo-lhe atribuído um papel superestimado em nossa cultura. 
Essa importância da linguagem escrita deve ser assinalada, haja vista que ela está 
diretamente ligada à expressão e conservação das conquistas e dos avanços das 
ciências e das artes, todavia ao relacionar as duas modalidades da expressão 
linguística – fala e escrita – constata-se que a invenção da escrita é algo recente, se 
comparada com a antiguidade da fala. Lopes (2001, p. 33) diz que a fala “se 
confunde com a própria origem do homem”. 
Os primeiros registros a serem considerados tipos de escrita são inscrições 
sumérias, egípcias e indianas, que não possuem mais que cinco ou seis mil anos; e 
o que aconteceu na história da humanidade ainda ocorre na contemporaneidade, ou 
seja, nós seres humanos ainda aprendemos primeiro a falar para depois 
aprendermos a escrever. Além disso, segundo os linguistas, a fala tem mais 
possibilidade de sobreviver do que a escrita, pois a modalidade escrita poderia ser 
substituída por outro tipo de modalidade de expressão e registro, porém seria 
praticamente impossível imaginar outro sistema ocupando o lugar da fala e 
inutilizando-a. 
Outro aspecto importante é que, diferentemente da escrita, a fala é universal, 
independente do grau de desenvolvimento de um povo ou comunidade. Não existe 
um só povo que não se comunique através da linguagem falada; entretanto, há 
muitos povos que não possuem e que desconhecem qualquer sistema de escrita. 
Ademais, todos os sistemas de escrita existentes têm como base a linguagem 
falada, sendo secundários a ela. Por essa razão, Saussure concluiu que a principal 
função da escrita é representar a fala. 
Observando essa relevância da fala, ao analisar a linguagem escrita sem 
considerar também a análise da linguagem falada, o pesquisador em questão pode 
acabar cometendo equívocos interpretativos, como a não percepção da existência 
de mais morfemas do que fonemas, por exemplos, ou seja, um mesmo morfema ou 
uma mesma palavra podem ser pronunciados da mesma maneira ou pode haver 
omissão de alguns morfemas na fala, uma vez que a fala tende a ser menos 
redundante e mais econômica do que a escrita. Isso pode ser exemplificado, por 
exemplo, quando na escrita registramos “está”, mas na fala dizemos simplesmente 
“tá”, ou quando, em uma sentença que está no plural, marcamos o fonema /s/ 
apenas no primeiro elemento da sentença para indicar o plural, mas os demais 
permanecem sem essa sinalização, por ser desnecessário e tornar a fala mais 
prática, como “Os menino estuda aqui perto.”. 
Assim, quando uma pesquisa linguística se baseia somente no levantamento 
de traços da modalidade escrita apresenta resultados diferentes de pesquisas que 
consideram também as peculiaridades da modalidade falada. Por conta disso, os 
linguistas procuram investigar os fatos linguísticos enquanto fenômenos que 
constituem um sistema convencional de signos orais, tendo como objeto de estudoespecialmente a língua falada. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3. O Estruturalismo de Saussure e a dupla articulação da linguagem 
 
3.1 Saussure e o Estruturalismo 
 
A Linguística moderna teve início com a publicação, em 1916, do livro Curso 
de Linguística Geral, de Ferdinand de Saussure. Essa publicação marca uma 
reviravolta nos estudos linguísticos, até então voltados para a Filologia e para os 
estudos comparativistas entre as línguas. A obra traz uma nova visão sobre as 
questões linguísticas, afirmando, entre outras coisas, que as línguas são sistemas 
cujas estruturas e funcionamento devem ser estudados internamente, não sendo 
dependentes de fatores externos, como a história. Saussure fez uma separação 
entre a linguística interna (fora do contexto sócio histórico) e a linguística externa (a 
que considera os fatores exteriores que condicionam os fenômenos linguísticos). 
O curioso é que Saussure, fundador da ciência Linguística moderna, faleceu 
sem ter ideia do papel que representaria para os estudos da linguagem. Ele faleceu 
em 1913 e três anos após a sua morte houve a publicação do Curso de Linguística 
Geral (conhecido como CLG), organizado por dois de seus discípulos (alunos), Ch. 
Bally e A. Sechehaye, que utilizaram as anotações feitas durante as aulas, já que 
não puderam contar com os manuscritos do mestre para auxiliá-los. 
Ferdinand de Saussure nasceu em Genebra, em 26 de novembro de 1857. 
Em 1880, foi para Paris assistir a cursos na Escola de Altos Estudos, universidade 
francesa. Um ano depois, Michel Bréal, seu professor, cedeu-lhe seu curso na 
escola e, assim, com apenas vinte e quatro anos, Saussure foi nomeado “mestre de 
conferências de gótico e de velho alto-alemão”. Era a primeira vez que se ensinava 
Linguística em uma universidade francesa e seus cursos ficaram famosos. Em 1891, 
transferiu-se para Genebra, onde lecionou na cadeira de Linguística, criada 
especialmente para ele, até sua morte em 1913. 
Por muitos anos, Saussure estudou a versificação indo-europeia arcaica, 
elaborando a hipótese dos anagramas (palavras formadas por letras transpostas de 
outras palavras, por exemplo, da palavra “Maria” podemos formar “Airam”, de 
“Iracema” podemos formar “América”, de “Roma” pode-se formar “amor”) e se 
devotou a uma série de interesses no campo da Literatura. Mas o Saussure que 
passou à história, que teve sua imagem realmente reconhecida, é o do monumental 
Curso de Linguística Geral. 
A noção de sistema (conjunto de partes interdependentes) foi depois 
denominada estrutura pelos sucessores do mestre. Saussure tinha uma visão 
estruturalista, estudou a estrutura (a forma) da língua e, por isso, é considerado o 
“pai” do estruturalismo (na Linguística). O primeiro professor de Linguística ilustra a 
noção de sistema usando o jogo de xadrez como exemplo. Nesse jogo, o valor 
atribuído a cada peça não tem a ver com o material de que é feita (pode ser de 
plástico, de madeira, de cristal, de metal), nem mesmo com a sua aparência 
(podemos usar botões coloridos, ao invés das peças), mas tem a ver com a relação 
de oposição que cada peça tem com as outras peças e com a posição que tem no 
conjunto total. Por exemplo, um cavalo pode ser feito de qualquer material, pode ser 
até um botão colorido, mas o seu valor advém da sua oposição às demais peças (se 
opusermos cavalo e peão, o cavalo vale mais, mas vale menos que a dama, por 
exemplo) e da sua posição no jogo (pode movimentar-se em “L”). A identidade de 
cada peça no jogo de xadrez depende do seu lugar no tabuleiro, das regras de sua 
movimentação, do seu valor no jogo. Diríamos então que a estrutura do jogo de 
xadrez é composta do valor de cada peça, do número delas, e das regras para o 
jogo. 
De maneira similar, qualquer unidade da língua se define em relação às 
outras entidades e pela posição que ocupa no todo, no sistema. Um fonema, como o 
/t/, só pode ser analisado e adquirir um valor com relação a todos os outros fonemas 
do português, opondo-se a cada um deles – é diferente de /d/, de /f/, de /n/, etc. Um 
fonema sozinho não seria um fonema, mas apenas um som, já que não sabemos a 
que língua pertence e que relações de oposição mantém com o sistema linguístico. 
E é seguindo o mesmo raciocínio que podemos analisar palavras, prefixos, sufixos, 
etc. Por exemplo, {-izar} é um sufixo do português, que forma verbos como 
imortalizar, radicalizar, mas não o é do Inglês. Já {-ing} pertence ao inglês e não ao 
português, como em running. 
Essas concepções sobre a estrutura das línguas, a visão da língua como 
sistema, fazem de Saussure o “pai” do estruturalismo, corrente de pensamento que, 
a partir da Linguística, vai atingir vários outros campos das chamadas Ciências 
Humanas. Em suma, o estruturalismo procura explicar um sistema a partir de suas 
próprias leis, sem considerar outras explicações ideológicas ou históricas. 
São exemplos de outros campos em que essa corrente de pensamento foi/é 
utilizada: 
 
- A Semiologia (que analisa os vários sistemas de significação) de Roland Barthes; 
 
- A Antropologia (que estuda o homem e suas características) de Lévi-Strauss; 
 
- A Psicanálise (método de investigação psicológica) de Lacan; 
 
- A marxologia (estudo das ideias de Karl Marx) de Althusser; 
 
- Michel Foucault, com contribuições em várias áreas; 
 
- E a área de Teoria Literária, com vários trabalhos e autores que estudam ou 
estudaram a forma, a estrutura do texto, e não a história, a época ou a vida do autor, 
que seriam fenômenos externos à obra. 
 
Das várias análises e contribuições do Curso de Linguística Geral, quatro 
pares de conceitos são destacados, conhecidos como “as dicotomias 
saussureanas”. A palavra dicotomia significa divisão em duas partes, ou seja, as 
dicotomias são concepções teóricas com duas perspectivas diferentes para os 
estudos linguísticos. 
Assim, os quatro conceitos, que serão apresentados separadamente a seguir, 
são: 
a) Sincronia e diacronia; 
b) Língua e fala; 
c) Significante e significado; 
d) Paradigma e sintagma. 
 
3.2 A dicotomia Sincronia e Diacronia 
 
A primeira dicotomia de Saussure que estudaremos será sincronia e 
diacronia. Na palavra sincronia, o prefixo de origem grega {sin-} significa 
conjuntamente, ao mesmo tempo e o radical {cronos} significa tempo. Por 
conseguinte, sincronia se refere aos fatos que ocorrem simultaneamente ou ao 
mesmo tempo. A Linguística sincrônica descreve o sistema linguístico (sons, 
palavras, gramática) em um dado momento, não necessariamente no momento 
atual, pois podemos estudar, por exemplo, a poesia medieval sem fazer nenhuma 
comparação com poesias de outras épocas, realizando, assim, um estudo 
sincrônico. 
A descrição sincrônica apenas analisa o sistema linguístico, descrevendo sua 
estrutura. Essa primeira grande dicotomia saussureana tem grande importância, pois 
separa os fatores internos de um sistema dos fatores externos, históricos e culturais, 
que condicionam esse sistema. De acordo com essa perspectiva, o tempo não é 
fator determinante das mutações linguísticas, ele apenas permite que esses fatores 
externos ajam uns sobre os outros, ocasionando as mutações. 
Já na palavra diacronia, o prefixo de origem grega {dia-} significa separação e 
o radical {cronos}, como já foi dito, significa tempo. A diacronia, portanto, identifica 
os estudos dos fatos linguísticos que ocorreram em momentos diferentes. A 
Linguística diacrônica analisa esses fatos, comparando-os com fenômenos 
históricos, estuda as transformações históricas da língua. Por exemplo, quando 
estudamos as mudanças que ocorreram no latim para que surgisse a língua 
portuguesa, quando comparamos o português de hoje com o português medieval, ou 
os sonetos da época de Camões com os sonetos modernos, ou quando estudamos 
a mudança das palavras (“vossamercê” se transformou em “você”), estamos 
fazendo estudos diacrônicos. 
Saussure utiliza a seguinte figura para ilustrar essa dicotomia: 
 
 C 
 
 
 A B 
 
 
 D 
 
Figura 1 – Dicotomia sincronia-diacronia. 
Fonte: Saussure (1974, p. 95). 
a) AB representa o eixo das simultaneidades, que diz respeito à sincronia, às 
coisas que coexistem, sem a intervenção do tempo; 
 
b) CD representa o eixo das sucessividades, que diz respeito à diacronia, às 
coisas que acontecem temporalmente. 
 
A Linguística sincrônica também é chamada Linguística estática, ou interna, 
ou ainda Linguística dos estados. O objeto de estudo sincrônico é a organização do 
sistema, sua estrutura. Já a Linguística diacrônica é conhecida também como 
Linguística evolutiva, histórica, externa ou ainda Linguística dinâmica. Seu objeto de 
estudo são os estados sucessivos dos sistemas, ou seja, as transformações e 
mudanças que as línguas apresentam conforme passa o tempo. 
Para melhor compreensão dos dois conceitos, vejamos suas principais 
diferenças: 
 
 
LINGUÍSTICA SINCRÔNICA 
 
 
LINGUÍSTICA DIACRÔNICA 
Estuda os fatos linguísticos simultâneos; Estuda os fatos linguísticos sucessivos; 
Não considera o fator tempo; Considera o fator tempo; 
É interna (estuda exclusivamente os 
fatos próprios da língua); 
É externa (inclui o estudo dos fatos 
extralinguísticos, ou seja, sociais e 
históricos, fora da língua); 
É estática, pois se ocupa de um só 
recorte temporal; 
É dinâmica, pois considera vários 
recortes temporais; 
Não é histórica (não estuda a história 
dos fatos da língua); 
É histórica; 
Não é, portanto, evolutiva. 
É evolutiva (considera a evolução das 
línguas e suas mudanças ao longo do 
tempo). 
Quadro 1 – Linguística sincrônica x Linguística diacrônica. 
 
A imagem de Saussure está ligada à divisão entre Linguística interna e 
Linguística externa, o que ocasionou várias críticas feitas a ele, como se a 
Linguística saussureana fosse antifilológica, ou seja, contrária aos estudos históricos 
das línguas. Apesar de ter realmente feito essa divisão, ele nunca negou a 
importância da Linguística diacrônica (que ocupa uma boa parte do seu livro), sendo 
ele mesmo um filólogo. O que aconteceu é que a repercussão do Curso de 
Linguística Geral se deu por causa das novidades que havia ali, que são justamente 
as teses que vão embasar os estudos estruturais, ou seja, a parte que trata da 
Linguística sincrônica, interna. Por isso, ele é o mentor do estruturalismo e “pai” da 
Linguística moderna. 
Com relação a essa dicotomia, há ainda mais um fator importante: a 
possibilidade de haver estudos sincrônicos e diacrônicos ao mesmo tempo 
(chamados de pancronia, em que o morfema {pan-} significa tudo, todos). Saussure 
admite que é possível realizar estudos linguísticos sob o ponto de vista pancrônico, 
porém somente com relação às leis gerais da língua, pois, segundo ele, os fatos 
particulares das línguas ou são estudados sob o ponto de vista sincrônico ou sob a 
perspectiva diacrônica. 
 
3.3 As dicotomias: Língua e Fala, Significado e Significante 
 
Veremos agora mais duas dicotomias de Saussure, a começar pela Língua e 
Fala (ou Linguagem, Langue e Parole). A linguagem humana é a capacidade que o 
homem tem de comunicar-se com os seus semelhantes através de signos verbais e 
essa linguagem verbal abrange a língua (langue) e a fala (parole), conforme o pai da 
Linguística. 
Saussure designa língua como o próprio sistema linguístico e fala como a 
utilização concreta do sistema pelos falantes, distinguindo as duas. Voltando à 
comparação com o jogo de xadrez, os valores das peças e as regras do jogo 
formariam a língua, enquanto as jogadas feitas constituiriam a fala. 
A língua é caracterizada pelo teórico como abstrata, pois ninguém conhece 
tudo sobre a língua; coletiva, pelo fato de ser um conceito social definido pelo grupo 
social ao qual o indivíduo pertence; e conceituada como o conjunto de todas as 
regras fonológicas, morfológicas, sintáticas e semânticas que orientam o emprego 
dos elementos linguísticos pelos falantes. 
Já a fala, ao contrário da língua, é concreta, pois é composta de elementos 
concretos que são os sons; e individual, uma vez que é realizada de maneira 
diferente, dependendo do falante. Há uma liberdade de combinações na fala, visto 
que cada um fala do seu jeito, combinando os fatores conhecidos da língua. Enfim, a 
fala é o uso da língua, é a língua posta em prática, dependendo dela para existir. 
Para finalizar, cabe aqui uma observação relevante: quando denominamos o 
sistema como um conjunto das regras da língua, não estamos fazendo referência à 
gramática normativa. Como já foi dito, a Linguística não faz julgamentos de valor 
sobre as formas e usos linguísticos. Regras, nesse contexto, correspondem ao que 
devemos respeitar para que fiquemos dentro do sistema da língua. Por exemplo, se 
dissermos “nós queremos dois pastéis”, ou “nóis qué dois pastel”, estaremos dentro 
do sistema da língua portuguesa, pois essas duas frases representam variedades da 
nossa língua, pertencem ao nosso sistema linguístico e são compreendidas numa 
situação de comunicação. Não importa se uma é considerada correta e bonita, e a 
outra errada e feia, considerando que são falas diferentes, mas que pertencem ao 
mesmo sistema, que não julga as realizações por serem diferentes; isso ocorre 
apenas socialmente. Todavia, se dissermos “nós querer dois pastéis”, estaremos 
usando uma frase que não pertence ao sistema do português, que não segue as 
regras da nossa língua, haja vista que numa sentença o verbo deve ser conjugado; 
apesar de ser compreendida, na verdade, falariam assim somente os estrangeiros, 
que não dominam a maneira de se fazer a conjugação dos verbos. 
Ainda com relação à dicotomia língua e fala, há um conceito que 
complementa essa ideia de Saussure, proposta pelo linguista Eugenio Coseriu, que 
introduziu na dicotomia saussureana língua e fala um terceiro elemento – a norma – 
com o objetivo de esclarecer aspectos da análise linguística que essa dicotomia de 
Saussure não resolve. Para Coseriu (1979), quando falamos, além de realizar 
concretamente o sistema abstrato, estamos realizando o modo de falar do grupo 
social ao qual pertencemos. Ou seja, o falante pertence a diversos grupos sociais 
(definidos pela faixa etária, nível de escolaridade, região onde vive, etc.) e cada 
agrupamento social possui uma determinada maneira de falar, que é a norma desse 
grupo. Assim, temos uma norma culta, outra popular, outra infantil, outra paulistana, 
outra carioca, e assim por diante. Vale lembrar que norma lembra “normal” e normal 
é exatamente aquilo que as pessoas geralmente fazem, ou seja, aquilo que se 
repete no comportamento social. É normal ir à praia de terno e gravata ou usando 
salto alto? Não, pois quase ninguém faz isso. Quando dizemos que o 
comportamento de alguém “não é normal”, estamos afirmando que esse 
comportamento é incomum e diferente do das outras pessoas. 
Se imaginarmos uma peneira e nela colocarmos todos os falares concretos 
das pessoas de um determinado grupo social (por exemplo, as pessoas nascidas na 
capital do Rio de Janeiro) e retirarmos dessa peneira tudo o que é realização 
individual, modo de falar de cada indivíduo, teremos a fala. Se peneirarmos de novo, 
retirando então tudo que se repete nas falas das pessoas cariocas, teremos a 
norma. O que resta na peneira, retirados os falares individuais e os modos de falar 
dos grupos, é o sistema, que é o conjunto de oposições funcionais básicas, das 
regras que identificam uma língua. 
Para facilitar, apresentamos um esquema, segundo as ideias de Coseriu 
(1979): 
 
 
SISTEMA (= LÍNGUA) 
 
NORMA 
 
FALAColetivo (mais 
abrangente); 
O falar do grupo social; Individual; 
 
2º nível de abstração; 1º nível de abstração; Concreta; 
Conjunto de oposições 
funcionais, das regras. 
Aquilo que se repete nas 
falas, opção do grupo. 
Realização do sistema e 
da norma. 
Quadro 2 – Sistema, norma e fala. 
 
Exemplificando, quando chegamos a uma determinada cidade, logo 
percebemos como as pessoas falam (os cariocas chiam o /s/, por exemplo, e dizem 
quadro-negro, lanterneiro, trocador de ônibus). Concluímos, então, que a norma 
carioca inclui esses elementos, esse é o modo de falar dos cariocas. Para 
chegarmos a essa conclusão, não precisamos ouvir todas as pessoas do Rio de 
Janeiro; fazemos uma abstração, a partir das repetições que percebemos nas falas 
das poucas pessoas que ouvimos. A norma, portanto, não é concreta, é uma 
operação de abstração que fazemos a partir das falas concretas que ouvimos. Mas é 
um primeiro nível de abstração, pois, a partir das diversas normas existentes (por 
exemplo, o modo de falar dos analfabetos, dos universitários, dos gaúchos, dos 
mineiros, dos paulistanos, etc.), podemos fazer outra operação de abstração: 
retirando-se tudo aquilo que é típico dos grupos, que se repete nas falas, tudo aquilo 
que é normal, chegamos ao segundo nível de abstração, o sistema. Em outras 
palavras, os falares individuais são diferentes, as normas dos grupos são diferentes, 
mas mesmo assim concluímos que estamos utilizando a mesma língua, o mesmo 
sistema. 
 Outra dicotomia que abordaremos se refere ao Significante e Significado. Em 
sua terceira dicotomia, Saussure acredita que o signo linguístico, que é a palavra, 
resulta da união de um conceito com uma imagem acústica (a memória com o som, 
a lembrança mental que nós guardamos dos sons da palavra). Assim, para ele, o 
signo linguístico é uma entidade dicotômica, isto é, dividida em duas partes, como 
ilustrado a seguir: 
 
 Significado 
 
 Significante 
 
A primeira parte, o significado, corresponde ao conceito que temos sobre os 
fatos do mundo, ou seja, aquilo que entendemos a partir da palavra. Cada palavra 
nos remete a uma ideia sobre algo: “banana” nos faz pensar em um determinado 
tipo de fruta; “amor”, em um sentimento; “prédio”, em uma construção, e assim por 
diante. O significado de uma palavra não é a “coisa material” a que a palavra se 
refere, mas é o conceito que temos sobre essa coisa material. 
A segunda parte, o significante, refere-se à parte concreta do signo, os 
sons. Mas não é o som físico, é a impressão psíquica, mental, que guardamos do 
som, é a imagem acústica da palavra. Portanto, “o signo linguístico não une uma 
coisa e uma palavra, mas um conceito e uma imagem acústica.” (Saussure, 1974, p. 
80). 
Um signo qualquer, por exemplo o vocábulo “lápis”, seria assim dividido, 
conforme essa dicotomia saussureana: 
 
 
 Significado Conceito: “objeto de madeira com 
 grafite, que serve para escrever” 
LÁPIS = = 
 Significante Imagem acústica da palavra “lápis” 
 
Observemos ainda duas características importantes referentes ao signo 
linguístico. A primeira é a arbitrariedade do signo. Saussure afirma que a união do 
significado com o significante é arbitrária, ou seja, imotivada (não há motivos 
específicos para essa união). Por que “mesa” se chama assim? Porque assim foi 
convencionada a nomeação desse objeto em nossa língua. Tanto isso é verdade 
que, para o significado “planta leitosa, da família das euforbiáceas, cujos grossos 
tubérculos, ricos em amido, servem para alimentação”, temos vários significantes, 
em português: mandioca, aipim, macaxeira. Se o signo linguístico não fosse 
imotivado, as diversas línguas denominariam da mesma forma os vários conceitos 
sobre as coisas do mundo, ou seja, não haveria diferenças de nomeação entre as 
línguas. 
Entretanto, há uma exceção, pois existem signos que são parcialmente 
motivados. São as onomatopeias, que são palavras formadas a partir dos sons 
naturais, como, por exemplo, miar, cuco, mugir, cacarejar, arara, bem-te-vi. Mas as 
onomatopeias não comprometem o princípio de arbitrariedade do signo, pois são 
poucas em cada língua e representam, na verdade, a interpretação que cada língua 
faz dos sons naturais, ou seja, são imitações aproximativas: em português o gato 
mia, em Francês miaule, em Inglês mew; em português o som de tiros pode ser pá!, 
pá!, ou pum!; em inglês pode ser bang!, bang!, e assim por diante. 
Conforme os princípios dessa característica do signo linguístico é possível 
efetuar a seguinte divisão: 
 
• Signo arbitrário absoluto: é o signo que é tomado isoladamente 
(exemplo: praticamente todos os signos); 
 
• Signo arbitrário relativo: é signo enquanto elemento componente de 
uma estrutura linguística (exemplo: as onomatopeias). 
 
O segundo princípio do signo linguístico é a linearidade do significante ou da 
imagem acústica, que se refere aos sons da língua. Nós falamos um fonema de 
cada vez; cada fonema segue o outro, formando uma linha de vibrações acústicas, a 
linha auditiva. É por essa razão que, quando escrevemos, usamos linhas, pois a 
escrita representa a fala e esta é linear. 
Os seres humanos utilizam diversos sistemas de significação para se 
comunicar – lineares e não lineares. Um quadro, por exemplo, é apreendido 
globalmente, através de nossa visão; não tem, portanto, linearidade como as 
palavras. Vejamos exemplos de sistemas de significação quanto à linearidade: 
 
• Língua (verbal): linear; 
• Escultura: não linear; 
• Desenho: não linear; 
• Pintura: não linear; 
• Dança: não linear; 
• Música: linear; 
• Gesto: não linear; 
• Fotografia: não linear. 
 
Da lista de exemplos, podemos concluir que a linearidade dos significantes 
está ligada à sua natureza, ou seja, somente os que são de natureza auditiva são 
lineares (a música e a língua); os de natureza visual em geral são percebidos 
globalmente. 
 
3.4 A dicotomia: Paradigma e Sintagma 
 
A quarta dicotomia apresentada por Saussure diz respeito ao paradigma e ao 
sintagma. Quando falamos, fazemos simultaneamente dois tipos de operações: 
 
1) Escolhemos as palavras que queremos usar para nos comunicar, uma 
a uma; essa escolha é tão rápida que nem sempre nos damos conta 
dela; na verdade, quando paramos para “pensar” em alguma palavra é 
porque estamos com alguma dificuldade em escolhê-la; 
 
2) Combinamos as palavras em frases, para construirmos as nossas 
mensagens. 
 
Baseado nessa ideia, Saussure distinguiu dois eixos da linguagem: um 
referente ao paradigma e o outro ao sintagma. Assim, temos: 
 
 
 A 
 (escolha) 
 
 
 B 
 
 (combinação) 
 
Figura 2 – Paradigma e sintagma. 
 
O eixo A é o eixo paradigmático ou o eixo das escolhas; o eixo B é o eixo 
sintagmático ou eixo das combinações. 
Há dois sentidos para a palavra paradigma: 
 
a) Na gramática tradicional, paradigma significa padrão, modelo; é o conjunto 
das desinências, ou flexões, de uma palavra. Falamos, por exemplo, no 
“paradigma da primeira conjugação”, que são as terminações, ou desinências, 
que os verbos regulares da primeira conjugação, terminados em {-ar}, 
recebem para cada tempo verbal (no presente do indicativo, o paradigma é –
o, -as, -a, -amos, -ais, -am), ou seja, todos os verbos regulares da primeira 
conjugação se conjugam dessa maneira; 
 
b) Em Linguística, paradigma é “uma classe de elementos que podem ser 
colocados no mesmo ponto de uma mesma cadeia, ou seja, são substituíveis 
ou comutáveis entre si.”(Câmara Junior, 1964, p. 236). Quer dizer, paradigma 
é um conjunto de palavras substituíveis umas pelas outras, que podem 
ocupar a mesma posição na frase. Para exemplificar, em uma frase, podemos 
substituir um adjetivo por outro adjetivo, um verbo por outro verbo, um 
advérbio por outro advérbio. O substantivo não pode substituir um verbo; se 
dizemos “O bolo de laranja já esfriou”, não podemos substituir o verbo 
“esfriou” por um nome, como “friagem”, mas podemos substituí-lo por outro 
verbo, como “assou”, “acabou”. Notamos que “esfriou”, “assou” e “acabou” 
fazem parte de um paradigma em comum e podem se substituir. 
 
Saussure destaca também o caráter virtual dos paradigmas, já que os 
elementos de um paradigma mantêm entre si uma relação abstrata, que nós 
memorizamos. Nós sabemos que podemos substituir “esfriou” por “assou” se 
quisermos, e não “esfriou” por “azedume”, contudo essa possibilidade é virtual, já 
que não podemos colocar na nossa frase todos os verbos ao mesmo tempo. 
As relações paradigmáticas são chamadas também de relações associativas, 
pois o paradigma representa listas de palavras que temos em nossa memória e que 
associamos segundo um critério. Para fazer essa associação, podemos partir de 
vários pontos de vista ou critérios associativos: 
 
1) Na lista de palavras praia – sol – mar – areia – sal – filtro solar – 
insolação, por exemplo, temos o critério semântico, pois a lista se 
refere a elementos da praia; 
 
2) Na lista feliz – felicidade – infeliz – felicitar – felizardo – felicíssimo, 
temos o critério morfológico, pois as palavras se associam pela forma; 
 
3) Já em flor – amor – cor – pavor – sabor – calor – dor, há o critério 
fonético, pois as palavras possuem o mesmo som final, ou seja, rimam. 
 
O interessante é que uma palavra pode fazer parte de vários paradigmas. A 
palavra “duro”, por exemplo, pode pertencer a paradigmas com critério semântico 
(duro, rígido, árduo, em que o sentido das palavras é o mesmo), critério morfológico 
(duro, dureza, endurecer, em que as palavras se associam pela forma) e critério 
fonético (duro, puro, burro, em que há rima). 
Uma última exemplificação: qual seria o critério associativo que nos fez criar 
os paradigmas a seguir? 
 
Paradigma A – bolo, vela, brigadeiro, salgadinhos, refrigerante, presentes; 
Paradigma B – amarelo, amarelar, amarelado, amarelinha; 
Paradigma C – bola, bela, pula, bala. 
 
O paradigma A é formado sob um critério semântico (todas as palavras são 
relativas à festa de aniversário); o paradigma B reúne palavras sob um critério 
morfológico (todas as palavras têm o mesmo radical); e o paradigma C foi 
organizado sob o critério fonético (há rima, o som final é idêntico). 
 Com relação ao sintagma, segundo Câmara Jr. (1985, p. 223), sintagma é o 
“termo estabelecido por Saussure para designar a combinação de formas mínimas 
numa unidade linguística superior”. O sintagma é o eixo da combinação das palavras 
escolhidas nos paradigmas na frase. Por exemplo, uma frase qualquer, como “Hoje 
eu vou à praia”, poderia ser modificada, ao substituirmos as palavras, a partir dos 
paradigmas e novas combinações sintagmáticas. 
São exemplos de paradigmas possíveis: 
 
A – Hoje – ontem – amanhã – no próximo mês – no verão passado 
B – Eu – tu – ele- nós – vós – eles 
C – Vou – fui – irei – iríamos – fomos 
D – À – na – até a 
E – Praia – feira – farmácia – festa – escola 
 
Utilizando a combinação dos elementos anteriores, seria possível formar 
sintagmas como: “Ontem nós fomos até a farmácia”; “Amanhã irei à escola”, etc. 
Todavia, não é só no nível da frase que podemos falar de sintagmas. A partir 
do momento em que combinamos duas ou mais unidades linguísticas, estamos 
produzindo sintagmas, nos diversos níveis linguísticos, pois o sintagma é a 
combinação de elementos de um determinado nível numa unidade de nível superior. 
Por exemplo, unindo um prefixo {re-} e um radical {ver} (nível dos morfemas, ou 
“partes” da palavra), temos o sintagma ”‘rever” (nível morfológico, da palavra). Do 
mesmo modo, unindo um artigo e um substantivo, temos o sintagma nominal “o 
homem” (nível sintático dos termos da frase), que pode se combinar com um 
sintagma verbal, por exemplo, “gosta de carros”, formando um sintagma maior “o 
homem gosta de carros” (nível da frase). Assim, combinando as frases, produzimos 
parágrafos, combinando parágrafos produzimos textos e assim por diante. 
Finalizando, os dois eixos da linguagem se unem na formação da mensagem 
que iremos transmitir, oralmente ou de forma escrita. Os paradigmas são formados 
por palavras que podem ocupar a mesma posição em um sintagma, constituindo-o. 
 
3.5 A dupla articulação da linguagem 
 
Uma das principais características da língua é que ela é articulada, isto é, a 
linguagem humana é composta de elementos mínimos que podem ser separados e 
recombinados de forma diferente. Conforme Saussure (1974), a nossa linguagem é 
duplamente articulada, pode ter essa separação de elementos mínimos em dois 
níveis que veremos a seguir. 
 A primeira articulação da linguagem são os morfemas. O morfema, ou signo 
mínimo, é a unidade mínima significativa da língua, ou seja, é a menor parte a que 
chegamos quando dividimos os elementos linguísticos, sem perder o significado. 
Por exemplo, a palavra “infeliz” pode ser dividida da seguinte maneira: 
a) IN + b) FELIZ. Dizemos, então, que ela é formada por dois morfemas, que 
são signos mínimos, dotados de significado e significante: 
 
a) {in-} – significado = “negação” 
 significante = imagem acústica de “in” 
 
b) {feliz} – significado = “contente, alegre” 
 significante = imagem acústica de “feliz” 
 
A diferença entre eles é que o primeiro morfema possui significado gramatical 
e o outro, lexical (léxico se refere às palavras da língua que denominam as coisas do 
mundo). Se dermos continuidade à divisão (in+fe+liz), não teremos unidades com 
significado, mas sim sílabas. Portanto, não podemos confundir morfemas com 
sílabas. 
Prefixos, radicais, vogais temáticas, desinências e sufixos são morfemas. Eis 
mais alguns exemplos de divisão morfemática: 
 
• CHAMEI: cham+ei (morfema 1 = radical; morfema 2 = desinência 
modo-temporal do verbo); 
 
• PATO: pat+o (morfema 1 = radical; morfema 2 = vogal temática 
nominal e marca de masculino); 
 
• DECORADOR: de+cor+a+dor (morfema 1 = prefixo; morfema 2 = 
radical; morfema 3 = vogal temática verbal que indica a 1ª conjugação; 
morfema 4 = sufixo). 
 
A Morfologia estuda mais detalhadamente os tipos de morfemas e a sua 
classificação. Entretanto, nesse momento, é importante entender apenas a noção de 
morfema e o seu reconhecimento. 
A segunda articulação diz respeito aos fonemas. Os fonemas são as unidades 
distintivas da linguagem humana, ou seja, sua função é distinguir uma palavra (ou 
um morfema) da outra. Não são signos, sozinhos não possuem nenhum significado, 
mas combinam-se entre si para formar morfemas. 
Se alterarmos apenas um fonema no início de uma palavra, teremos outras, 
como demonstrado nos exemplos abaixo: 
 
• lata: rata, pata, mata, bata; 
• pão: mão, cão, chão, vão. 
 
E, alterando qualquer outro fonema, sempre formaremos novas palavras: 
 
• lata: lava, lama, lapa; 
• pão: avião, paixão, ladrão. 
 
Em português, temos fonemas vocálicos (vogais) e consonantais 
(consoantes) e o seu estudo é feito pela Fonologia e Fonética. Todavia, aqui é 
relevante que identifiquemos apenas os fonemas e sua função. 
Os fonemas são unidades relativas aos sons da língua, que distinguem 
signos. Não podemos confundi-los com as letras da escrita (chamadas grafemas), 
quando vamos identificá-los. A função da escrita é representar a fala, mas essa 
representação não é fiel, pois: 
 
a) Há casos em que uma letra representa vários fonemas diferentes; por 
exemplo,o “x” (como nos vocábulos enxame, exame, sintaxe, tórax); 
 
b) Há casos em que letras diferentes representam o mesmo fonema 
(como o fonema /s/ como nas palavras saia, poço, cebola); 
 
c) Há ainda os dígrafos, que são duas letras representado o mesmo 
fonema (como os que representam o fonema /s/ em osso, nascer, 
desço, exceção). 
 
Portanto, para identificarmos os fonemas devemos atentar para aquilo que 
ouvimos e não ao que está escrito. Para treinar e entender melhor, vejamos quantos 
fonemas e quantas letras há nas palavras a seguir: 
 
• Chuva: 5 letras e 4 fonemas (o “ch” representa um fonema); 
 
• Helicóptero: 11 letras e 10 fonemas (o “h” não representa nenhum 
fonema); 
 
• Antigo: 6 letras e 5 fonemas (há o dígrafo “an”, que representa a vogal 
nasal); 
 
• Táxi: 4 letras e 5 fonemas (o “x” representa dois fonemas: o /k/ e o /s/); 
 
• Excessivo: 9 letras e 7 fonemas (há dois dígrafos, o “xc” e o “ss”). 
A dupla articulação da linguagem humana faz com que as línguas sejam 
mecanismos extremamente econômicos, pois rendem muito. Isso acontece porque, 
com os poucos elementos da segunda articulação – os fonemas (há uma total de 33 
na língua portuguesa), cada língua forma os morfemas, que representam a primeira 
articulação e que são muitos, visto que as línguas variam bastante os radicais da 
palavra e, frequentemente, surgem novos (os neologismos). Além disso, ainda 
podemos dividir os morfemas, combiná-los diferentemente e formar outras palavras. 
Todas essas combinações possibilitam, sem exagero, possibilidades infinitas de 
criação de vocábulos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4. Linguagem humana e linguagem animal 
 
4.1 A linguagem humana e suas características 
 
Já sabemos que o ser humano se comunica através da linguagem e que a 
mesma pode ser constituída de diversos sistemas de significação ou conjunto de 
signos, que podem ser não verbais, como um gesto, uma expressão facial, um 
desenho, uma pintura ou uma escultura, chamados de linguagem não verbal; ou 
verbais, que é a comunicação feita por meio das palavras, dos signos linguísticos, 
definida como linguagem verbal. A comunicação pode ser feita ainda utilizando tanto 
signos verbais como não verbais simultaneamente, a exemplo de filmes, desenhos 
animados, gibis, revistas, placas de trânsito, livros, cartazes, peças teatrais, entre 
outros. 
Além da variedade de signos existente para que haja nossa comunicação e 
interação, há algumas características específicas acerca de nossa linguagem. 
A primeira delas é que a linguagem humana é aprendida, é cultural, 
transmitida de geração a geração, ou seja, o homem aprende a sua língua 
culturalmente, através da interação social com outros indivíduos e com os diversos 
meios de comunicação que contenham a intervenção humana. Se uma criança for 
isolada e não interagir linguisticamente com nenhum falante, nem sequer através de 
meios de comunicação, ela não aprenderá a falar. Assim, a criança aprenderá a falar 
e a se comunicar na língua a qual tem contato durante o processo de aquisição 
linguística; isso acontece em qualquer idioma ou até em outros tipos de linguagem, 
como a linguagem brasileira de sinais (Libras), por exemplo. 
Outra característica relevante é que a nossa linguagem é variável; ela varia 
no tempo e no espaço, modificando-se para expressar sentidos diferentes conforme 
as diferentes experiências e situações. Isso quer dizer que a língua não possui 
estruturas e usos idênticos, se comparamos épocas diferentes (português arcaico e 
português contemporâneo, por exemplo) ou lugares diferentes (português de 
Portugal e português do Brasil). O mesmo acontece se compararmos situações 
comunicativas diversas como uma palestra formal num ambiente corporativo ou uma 
conversa descontraída entre amigos ou membros de uma mesma família. 
Prosseguindo com a descrição das características referentes à linguagem 
humana, a mesma é composta de signos naturais criados pelo homem ou que se 
originam de convenções feitas pelo homem para fins de comunicação e interação, 
em que, de acordo com Lopes (2001, 37-38) “o significado é diferente (isolável) da 
substância do elemento material que o expressa (seu significante)”, isto é, é possível 
estudar separadamente o significado e o significante, conforme apresentado por 
Saussure em uma de suas dicotomias. 
A linguagem humana também tem como especificidade ser articulada, ou 
seja, ela é divisível em unidades menores, permitindo formar outras palavras com 
essas unidades menores. Por exemplo, em “pato”, “mato” e “jato”, muda-se apenas 
o primeiro elemento ou o fonema inicial, ficando o restante invariável, mas essa 
alteração dos elementos iniciais é a responsável pela diferença de sentido entre as 
palavras. O mesmo acontece quando separamos os morfemas da palavra “infeliz” e 
utilizamos o prefixo {-in} para formar outras palavras como “incapaz”, “injusto”, 
“inútil”, e assim por diante. Essa é, portanto, a propriedade da articulação, que é 
essencial na linguagem humana, haja vista que nos possibilita produzir uma 
infinidade de novas mensagens a partir de uma quantidade limitada de unidades 
sonoras distintivas, como é o caso dos fonemas, ou de unidades significativas, como 
é o caso dos morfemas. 
Por fim, a linguagem do homem é intencional, é uma comunicação 
comportamental (ou emocional, como quando levamos um susto com a ação de 
outra pessoa ou com determinada mensagem que recebemos) e intelectual (quando 
aprendemos a extrair a raiz quadrada de um número ou quando analisamos um 
dado). A Linguística estuda a modalidade de comunicação intelectual da linguagem 
humana, mas reconhece a existência desse caráter comportamental e emocional de 
nossa comunicação. 
 
4.2 Existe a linguagem animal? 
 
É comum a observação de que os animais são capazes de se expressar e, 
portanto, comunicar, por exemplo, medo, cólera, excitação, prazer, afeto, etc., 
através de manifestações como sons, gestos ou movimentos. 
O cachorro abana o rabo, mostra os dentes, late, rosna, age conforme aquilo 
que quer expressar. Já outros animais, como as abelhas, por exemplo, possuem 
engenhosos “sistemas de comunicação”. Estudos mostram que as abelhas, quando 
encontram uma fonte de mel, são capazes de retornar à colmeia e informar esse fato 
às outras e também informar em que direção está o mel encontrado e a que 
distância. Elas fazem isso através de uma espécie de dança, que pode ser circular, 
se o alimento está próximo, ou com contrações do abdômen, se o alimento está 
distante. A distância é indicada pelo ritmo da dança e a direção a ser tomada para 
chegar ao alimento é fornecida pela direção da linha reta que compõe a dança, em 
relação ao Sol. O fato é que, se uma abelha encontra uma fonte de mel, 
rapidamente outras chegam ao lugar por causa dessa eficiente forma de 
comunicação. 
Será que esse comportamento animal pode ser chamado de linguagem? A 
resposta é sim, pois há a transmissão de informações, como nesse caso das 
abelhas, e também na expressão de sentimentos, como no caso de animais de 
estimação, por exemplo, contudo a linguagem animal não constitui uma linguagem 
no mesmo sentido em que esse termo é empregado ao tratar da linguagem humana. 
Ou seja, não se pode dizer que as abelhas ou outros animais possuem um sistema 
de comunicação parecido ou idêntico com o dos seres humanos, pois essa 
linguagem dos animais, e consequentemente sua capacidade comunicativa, é 
transmitida e herdada geneticamente, não dependendo de qualquer ensinamento 
como ocorre na linguagem humana. 
Vejamos a seguir as principais características da linguagem animal e 
posteriormente mais alguns detalhes sobre a comunicação das abelhas, que nos 
auxiliarão a entender a diferença existente entre a linguagem humana e a linguagem 
animal. 
 
4.3 Características da linguagem animalPara entendermos melhor como funciona a linguagem animal, 
apresentaremos aqui as suas principais características. 
Primeiramente, a linguagem animal não é um produto cultural, mas é 
geneticamente adquirida, ou seja, consiste num componente da organização físico-
biológica dos animais, que é herdado de acordo com a programação genética de 
cada espécie. Os cachorros, embora estejam em ambientes diferentes e com 
pessoas diferentes, apresentam sempre os mesmos mecanismos de comunicação, 
como latir, rosnar, abanar o rabo, entre outros, sem que seja necessário ensinar isso 
a ele e sem que necessariamente conviva com outros da mesma espécie, isto é, 
mesmo isolado de outros cachorros, esse animal terá sempre o mesmo 
comportamento com relação a esses mecanismos de comunicação. É claro que há a 
adestração, que varia de animal para animal, conforme os estímulos 
comportamentais trabalhados, mas seu comportamento geral coincide em todos da 
mesma espécie, assim como os gatos, as abelhas, as aranhas, os leões, os 
elefantes, e assim por diante. 
Outra característica importante é que a linguagem animal é invariável no 
tempo e no espaço, pois os gestos ou sons correspondem sempre ao mesmo tipo de 
informação, independentemente da época ou de sua localização geográfica. Assim, 
o cachorro sempre abana o rabo quando está feliz e não quando está irritado, e a 
linguagem das abelhas sempre fornece informações sobre o alimento, não importa a 
região ou o recorte temporal que seja feito. 
A linguagem dos animais é composta por índices (físicos) e não por signos 
culturais. Lopes (2001, p. 37) define o índice que compõe a linguagem dos animais 
como “um dado físico ligado a outro dado físico por uma causalidade natural”. Isso 
quer dizer que não há signos criados social e culturalmente como faz o homem, mas 
sim mecanismos físicos e naturais de cada espécie. 
Além disso, essa linguagem não é articulada, uma vez que não há elementos 
mínimos, isto é, a mesma não pode ser decomposta em unidades menores que 
sejam diferenciadores de significados, como acontece com a linguagem humana e a 
sua dupla articulação em fonemas e morfemas. Não é possível decompor os gestos 
ou sons emitidos pelos animais. 
Por fim, a linguagem animal é apenas reação a estímulos, consistindo numa 
mera comunicação comportamental e não intelectual. 
Há um trecho de Lewis Carrol, citado por Lopes (2001, p. 35), que nos auxilia 
no entendimento das especificidades da linguagem animal, como podemos observar 
abaixo: 
 
“Hábito muito inconveniente dos gatinhos (observara certa vez Alice) 
é o de, o que for que você diga, eles sempre ronronarem.” “Se 
somente ronronassem quando quisessem dizer “sim” e miassem 
para dizer “não”, ou de acordo com alguma regra desse tipo”, 
dissera ela, “de modo que a gente pudesse bater um papo com eles! 
Mas como a gente pode falar com uma pessoa se ela sempre diz a 
mesma coisa?” (Lewis Carrol apud Cherry, 1971, p. 260) 
 
Concluímos, assim, que existe uma linguagem animal, a mesma possui 
características próprias, é utilizada para transmitir determinadas mensagens, porém 
sua amplitude de comunicação é limitada, quando comparada com a linguagem 
humana, ou seja, há interação e comunicação, mas de uma maneira específica e 
diferente do que acontece com o homem. 
 
4.4 Um exemplo: a comunicação das abelhas 
 
Como já mencionado, como as abelhas possuem engenhosos “sistemas de 
comunicação”. Vejamos um pouco mais sobre essa linguagem. 
Petter (2008, p. 15-16) explica que em 1959, o zoólogo alemão Karl von 
Frisch publicou um estudo sobre o sistema de comunicação utilizado pelas abelhas, 
revelando que quando a abelha-obreira encontra uma fonte de alimento, ela retorna 
à colmeia e transmite essa informação às demais através de dois tipos de dança: 
uma dança é circular, com círculos horizontais da direita para a esquerda e vice-
versa, feita para indicar que o alimento está próximo, a menos de cem metros; e a 
outra dança é em forma de oito, em que a abelha contrai o abdome, segue em linha 
reta e após faz uma volta completa para a esquerda, novamente segue em linha reta 
e realiza um giro para a direita, repetindo esses movimentos sucessivamente, para 
indicar que o alimento está distante. 
De acordo com esse estudo, a mensagem transmitida através da dança em 
forma de oito é bastante precisa, pois mostra a distância em metros; por exemplo, se 
o alimento está a uma distância de cem metros, a abelha percorre a linha reta que 
faz parte da dança nove ou dez vezes em 15 segundos. Quanto maior for a 
distância, o animal faz menos giros, então para 500 metros, são feitos seis giros em 
15 segundos. A direção que deve ser seguida é informada pela direção da linha reta 
com relação à posição do sol. 
Os dois tipos de dança em questão estão ilustrados na figura a seguir: 
 
 
(Referência: http://abelhasgeometras.blogspot.com/2009/12/linguagem-
matematica-da-danca-as.html) 
 
Esses dois tipos de dança são, portanto, mensagens que sinalizam para a 
colmeia a descoberta de alimento. As abelhas percebem a natureza do alimento ao 
observar o odor da obreira ou ao absorver o néctar que ela está deglutindo; e 
constatam a localização da fonte de alimento descoberta através da dança. 
As pesquisas de Karl von Frisch possibilitam uma importante conclusão 
referente ao funcionamento de uma linguagem animal e à diferença existente com 
relação às particularidades da linguagem humana, pois apesar de a comunicação 
das abelhas ser bastante precisa – e isso também vale para sistemas de 
comunicação já examinados de qualquer outro animal – a mesma não consiste 
numa linguagem, conforme o sentido em que esse termo é empregado ao tratar da 
linguagem humana. 
Essa constatação se dá pelo fato de que as abelhas são capazes de entender 
uma mensagem com muitas informações e de memorizar esses dados referentes à 
posição e à distância; e são capazes também de produzir uma mensagem que 
represente esses dados de forma convencional e através de comportamentos 
diversos. Essas conclusões mostram que o sistema de comunicação dos animais 
possui as condições necessárias para a existência de uma linguagem, pois 
apresenta simbolismo, que é a capacidade de produzir e interpretar um signo, 
considerado aqui como qualquer elemento que represente algo convencionalmente; 
e há memória da experiência e competência para examiná-lo. Da mesma forma que 
a linguagem humana é utilizada por uma comunidade, o sistema de comunicação 
http://abelhasgeometras.blogspot.com/2009/12/linguagem-matematica-da-danca-as.html
http://abelhasgeometras.blogspot.com/2009/12/linguagem-matematica-da-danca-as.html
animal também é usado por todos os membros de uma comunidade, que os 
emprega e compreende igualmente. 
Todavia, é preciso considerar as diferenças existentes entre o sistema de 
comunicação das abelhas e a linguagem humana, uma vez que a mensagem é 
transmitida unicamente pela dança, sem fazer uso de um aparelho vocal, o que 
constitui uma condição fundamental para a linguagem; a mensagem produzida pela 
abelha não motiva uma resposta, mas sim uma conduta ou uma ação, não havendo, 
portanto, diálogo; a comunicação instituída diz respeito a um dado objetivo, 
resultado da experiência, isto é, a abelha não faz uma mensagem a partir de outra, 
ao passo que a linguagem humana tem como característica substituir a experiência, 
que pode ser transmitida de maneira infinita no tempo e no espaço; o conteúdo da 
mensagem é sempre o mesmo, variando somente com relação à distância e à 
direção, enquanto o conteúdo da linguagem humana é ilimitado; e, por fim, a 
mensagem das abelhas não é passível de análise, pois não é possível decompô-la 
em unidades menores, como acontece com a linguagem humana que é duplamente 
articulada e seus elementos menores podem ser explorados separadamente. 
Resumindo, como conclui Petter (2008), a comunicação das abelhasnão é 
uma linguagem no mesmo sentido que a linguagem humana. Na verdade trata-se de 
um código de sinais, haja vista que apresenta como características ter um conteúdo 
fixo, apresentar uma mensagem invariável, fazer referência a apenas uma situação, 
ter uma transmissão unilateral e possuir um enunciado que não permite sua 
decomposição. 
 
4.5 Linguagem humana X linguagem animal 
 
Para finalizar essa abordagem sobre a linguagem humana e a linguagem 
animal, observemos as principais características e diferenças entre as duas, 
retomando e resumindo os conceitos e as particularidades que foram apresentadas 
no decorrer deste bloco. 
 Com relação à linguagem humana, foram apresentadas as seguintes 
especificidades: 
 
• É aprendida por meio de interação social, é cultural, transmitida de geração a 
geração; 
• É variável, varia no tempo e no espaço, modificando-se para expressar 
sentidos diferentes, conforme o propósito de comunicação e o contexto 
comunicativo; 
 
• É composta de signos naturais criados pelo homem para fins de comunicação 
e determinados por uma convenção social; 
 
• É articulada, ou seja, divisível em unidades menores, permitindo formar outras 
palavras com essas unidades menores, que podem distintivas (fonemas) ou 
significativas (morfemas). Nas palavras “pouco”, “louco”, “rouco”, por exemplo, 
muda-se apenas o primeiro elemento, o que já é suficiente para a obtenção 
de palavras e significados diferentes; 
 
• É intencional, é uma comunicação que se configura como comportamental e 
intelectual. 
 
Já a linguagem ou sistema de comunicação animal possui os seguintes 
aspectos: 
 
• Não é um produto cultural, é geneticamente adquirida, de acordo com espécie 
animal; 
 
• É invariável, pois os gestos ou sons correspondem sempre ao mesmo tipo de 
mensagem e informação; 
 
• É composta por índices (físicos), próprios da natureza animal, e não por 
signos culturais; 
 
• Não é articulada, isto é, não é divisível em elementos menores, que podem 
ser recombinados em novas mensagens ou analisados separadamente, com 
funções distintas e específicas; 
 
• É considerada apenas como uma reação a estímulos, sendo, portanto, uma 
comunicação comportamental e não intelectual. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
5. Estudo linguístico, estudo normativo e os tipos de gramática 
 
5.1 Estudo linguístico e estudo normativo 
 
Conforme já tratado anteriormente, o estudo normativo da língua, registrado e 
divulgado principalmente na gramática tradicional, possui um ponto de vista 
prescritivo da nossa língua, tendo como base para a sua análise a língua escrita. 
Esse tipo de estudo não reconhece a diferença existente entre língua falada e língua 
escrita, considerando a forma escrita como um modelo de correção que deve ser 
aplicado e seguido em todos os tipos de expressão linguística. Dessa forma, o 
estudo normativo propaga erroneamente falsos conceitos sobre a natureza da 
linguagem e difunde preconceitos. 
Já o estudo linguístico, situado nos princípios da Linguística, colabora para 
que essas ideias normativas sejam discutidas e revertidas, haja vista que a língua 
escrita não pode servir de modelo para a língua falada e não há línguas e 
variedades melhores ou piores, mas sim diferentes. O campo da pesquisa 
linguística, tal como apresentada por Saussure, tem como foco principal a 
investigação da língua enquanto conjunto de regras e propriedades formais, não 
privilegia determinada variedade linguística, considerando todos os usos e fatos 
linguísticos, e realiza a sua descrição. 
Os estudos linguísticos e normativos acerca da língua, bem como outros tipos 
de investigação, normalmente são organizados e veiculados através de gramáticas. 
Assim como há estudos de naturezas diversas, também há tipos diferentes de 
gramática. Porém, antes de estudarmos os tipos ou modalidades de gramática, 
pensemos um pouco: “O que é gramática?”. Analisando a estrutura da palavra 
“gramática”, temos os seguintes significados: grama (letra) + tica (arte e/ou técnica). 
Logo, poderíamos interpretar a palavra como a arte e/ou a técnica das letras. No 
dicionário (Ferreira, 2001, p. 352), gramática é conceituada como o “estudo ou 
tratado dos fatos da linguagem e das leis naturais que a regulam”. 
E é isso mesmo que a gramática faz, ela sistematiza os fatos da linguagem, 
ordena-os de acordo com o que é considerado adequado no ato comunicativo. 
Contudo, é importante ressaltar que o que é adequado, o que é gramatical não são 
somente as regras ditadas normalmente pela gramática normativa; gramatical é o 
que é aceito na linguagem. Por exemplo, a frase “Eu gosto de ler e praticar esportes 
no final de semana” é gramatical, é aceita, é adequada, mas “Esportes gosto 
semana final de eu ler e praticar” não é, pois foge às leis naturais da língua, as quais 
são necessárias para que haja o entendimento na comunicação. 
As gramáticas começaram a surgir no século XVI, quando se inicia também o 
período clássico da Literatura, em que houve forte influência da literatura e da 
cultura greco-romanas. Havia um padrão de boa cultura e, consequentemente, de 
língua; a linguagem mais privilegiada era a clássica, baseada no Latim clássico, ou 
seja, uma linguagem mais rebuscada. São exemplos dessa linguagem mais 
rebuscada uma sintaxe mais apurada (ordem indireta da oração, orações 
subordinadas reduzidas), uso do superlativo absoluto sintético do adjetivo (como 
emprego dos sufixos {-íssimo}, {-érrimo}), entre outros. 
Diferentemente do que é geralmente vinculado, não existe apenas a 
gramática tradicional e esta não é um manual que deve ser seguido e obedecido na 
comunicação. Há outros tipos de gramática e é disso trataremos a seguir: das 
modalidades (tipos) de gramática. Veremos quatro tipos de gramática: gramática 
nocional (ou tradicional), gramática formal (distribucional), gramática estrutural e 
gramática gerativo-transformacional. 
 
5.2 Gramática Nocional 
 
A gramática nocional (ou tradicional) tem como base a classificação 
gramatical, fundamentando-se nos modelos que orientaram a descrição do grego e 
do latim. Trabalha com definições semânticas, ou seja, conceitua o significado dos 
termos da língua, como em “substantivo é uma palavra que nomeia pessoas, lugares 
ou coisas”, entretanto suas noções são muitas vezes insatisfatórias, pois essa 
definição de substantivo, por exemplo, não abrange palavras como “generosidade”, 
“adolescência” e outras do mesmo tipo. 
É uma gramática prescritiva ou normativa, pois dita regras de uso, prescreve 
como usar a língua, tendo como parâmetro principalmente a escrita. Não tem caráter 
científico, haja vista que o estudo para ser científico não pode ser prescritivo. 
Esse tipo de gramática pode ser normalmente encontrado em três categorias: 
 
a) Gramáticas de referência: seguem a Nomenclatura Gramatical 
Brasileira (NGB) e são de nível universitário. Exemplos de autores que 
elaboraram gramáticas dessa modalidade: Celso Cunha, Celso Pedro 
Luft, Rocha Lima, Evanildo Bechara em suas primeiras obras, entre 
outros; 
 
b) Gramáticas escolares (2º grau): baseiam-se nas gramáticas de 
referência e são mais simplificadas; em geral, vêm com exercícios. 
Exemplos de autores: Cegalla, Pasquale, Ernani Terra, William Cereja, 
entre outros; 
 
c) Livros didáticos de 1º grau: baseiam-se nas gramáticas escolares e 
são mais simplificados ainda. 
 
5.3 Gramática Formal (ou Distribucional) 
 
Enquanto a gramática nocional conceitua e classifica os termos da linguagem, 
a gramática formal realiza descrições a partir do emprego ou da função de cada 
classe de palavras. Trabalha com os aspectos formais e funcionais dos vocábulos. 
Por exemplo, “o verbo é a palavra que se conjuga em modo, tempo, número e 
pessoa e é usado para expressar uma ação ou um estado”. 
É uma gramáticadescritiva, já que não dita regras; descreve como a língua 
funciona. Tem caráter científico, visto que busca descrever como funciona a língua. 
Segundo Lopes (2001, p. 185), a tentativa mais importante de organizar uma 
gramática não conteudística, ou seja, que não dita regras nem prescreve o conteúdo 
que deve ser usado na língua, é representada pelos estudos de Zellig Harris, que 
parte do princípio de que as partes de uma língua constituem um sistema e, por isso, 
se situam em posições bem determinadas, umas em relação às outras. Esses 
elementos se deixam agrupar em classes e essas classes ocorrem em certas 
posições dentro de um contexto. A soma dos contextos em que dada classe de 
elementos pode aparecer, contrastada com a soma dos contextos em que tal classe 
não pode ocorrer, define a distribuição de todo e qualquer elemento da língua. 
Dessa forma, “médico”, “professor”, “operário”, por exemplo, possuem a mesma 
distribuição, isto é, ocorrem no mesmo ponto do contexto “Antônio é um bom 
__________.” e não ocorrem em outros contextos como “Antônio __________ 
sapatos”. Essas palavras podem ser agrupadas numa mesma classe, a dos 
substantivos masculinos. Em virtude dessa possibilidade de comutação (ou 
substituição), todas as palavras mutuamente substituíveis no mesmo ponto da 
cadeia da fala podem ser reagrupadas em classes distribucionais. 
Vejamos mais exemplos: na expressão “passeio de carro”, pode-se substituir 
a palavra “carro” por “bicicleta”, “iate”, “avião”, “trem”, “carroça”, entre outros. Essas 
palavras formam uma classe distribucional, pois podem ser substituídas umas pelas 
outras na mesma posição da cadeia da fala; assim teríamos a classe dos 
substantivos comuns que compõem a locução adjetiva (sintaticamente, adjunto 
adnominal), formada por uma preposição (de) e um substantivo comum. 
Para finalizar, é relevante citar que a gramática formal possui algumas 
limitações, apresentadas abaixo: 
 
1) Na tentativa de fazer caso omisso do significado, a gramática 
distribucional (formal) propõe a abolição do signo concebido por 
Saussure como o conjunto de significante + significado; 
 
2) O significante não existe primariamente como suporte de uma 
distribuição, de acordo com o que é insinuado pelo distribucionalismo, 
mas como suporte de um significado. Não tem sentido falar de 
significante se não se fala, de qualquer forma e ao mesmo tempo, de 
significado. Enfim, o plano de expressão está a serviço do plano do 
conteúdo, sendo que aquele é o meio para que este possa ser 
exteriorizado; 
 
3) É duvidoso que dois elementos diferentes da língua (mesmo os 
pertencentes à mesma classe) tenham realmente a mesma 
distribuição; diz-se que as línguas não possuem sinônimos perfeitos, 
pois, se os tivessem, seria um e o mesmo elemento e não dois. Z. 
Harris (1969, p. 7 in Lopes, 2001, p. 189) escreveu que “pode supor-se 
que dois morfemas quaisquer, A e B, que possuam significados 
diferentes, difiram, também em algum ponto na sua distribuição: há 
alguns contextos nos quais um deles ocorre, mas o outro não”; 
4) Nem todas as línguas organizam posições distintivas para os seus 
elementos. Isso pode ser verificado através das línguas que 
discriminam funções sintáticas a partir da posição ocupada por seus 
diferentes elementos num enunciado, como em português “uma criança 
linda” X “uma linda criança”. Mesmo essas línguas que discriminam tais 
funções têm a possibilidade de construir enunciados e contextos novos 
e, por isso, não se pode falar em distribuição finita. 
 
5.4 Gramática Estrutural 
 
O estruturalismo (e também o transformacionalismo) propõe um modelo 
preferido de gramática. Os objetivos mais notórios do modelo estruturalista são: 
 
a) Estudar enunciados que foram efetivamente realizados; 
 
b) Esses enunciados são excluídos de qualquer consideração da situação 
ou da enunciação (circunstâncias de contato entre destinatário e o 
remetente da mensagem); 
 
c) Tentar realizar a sua descrição e não a sua explicação. 
 
Para atender a esses objetivos, os estruturalistas elaboraram uma teoria dos 
níveis, em que distinguem o nível máximo (o fraseológico), o nível médio (o 
morfológico) e o nível mínimo (o fonológico). Esses níveis estão organizados em 
uma hierarquia, de forma que o nível máximo é formado por unidades do nível 
médio, que é formado por unidades do nível mínimo. 
As unidades de cada nível são identificadas conforme a função de contraste 
na cadeia sintagmática e a função de oposição na classe paradigmática; a 
comutação é a operação que põe essas funções em funcionamento. 
Com a comutação, o estruturalismo elaborou uma taxionomia, isto é, uma 
classificação de formas e unidades linguísticas sincrônicas. 
Os elementos de classes equivalentes que se definem pela sua capacidade 
de substituir mutuamente em determinado contexto organizam uma taxionomia 
paradigmática. Já as unidades que se definem por contrastarem no interior do 
mesmo segmento do enunciado por aquilo que se segue ou precede organizam uma 
taxionomia sintagmática. 
Sendo assim, o que define a Linguística Estrutural (também chamada 
Sincrônica ou Descritiva), considerando tanto o eixo sintagmático como o eixo 
paradigmático, é o seu conceito operatório de base, o da estrutura elementar, ou 
seja, o da estrutura ou da forma da língua. 
O estruturalismo demonstrou ser uma excelente “hipótese de trabalho” e uma 
metodologia provida de rigor científico, quando empregado corretamente, contudo 
não monopoliza a verdade, por ser contestável. Vários linguistas contribuíram para o 
desenvolvimento dessa teoria tão importante, entre eles podemos mencionar 
Saussure, Hjelmslev, Jakobson, entre outros. 
O que contrapõe o estruturalismo clássico à teoria gerativo-transformacional é 
uma diferente concepção dos propósitos da teoria linguística, sobretudo do papel 
nela representado pela sintaxe. De maneira implícita ou explícita, o estruturalismo 
deixou a sintaxe para segundo plano, pois se ocupa mais da morfologia, lembrando 
que esta descreve a forma, estuda a estrutura e a formação de palavras, enquanto 
aquela trata da combinação das palavras na frase e das frases no discurso. 
A sintaxe foi abordada pela gramática que veremos a seguir, a qual nasceu 
como uma teoria da sintaxe. 
 
5.5 Gramática Gerativo-Transformacional (de Noam Chomsky) 
 
Embora o linguista Noam Chomsky não tenha sido o único a elaborar um 
modelo de gramática gerativo-transformacional, ele foi um dos grandes precursores 
dessa teoria e seus estudos servirão de base ao nosso estudo. Primeiramente, 
vejamos as principais diferenças entre essa gramática e as outras explicitadas 
anteriormente: 
 
a) Não busca um “modelo” correto: não é prescritiva, é descritiva; não 
propõe certo e errado, pretende descrever o funcionamento das 
línguas; 
 
b) Não é taxionômica: não busca fazer listas de exemplos nem 
classificar os fatos da linguagem, isto é, não há preocupação com a 
classificação; 
 
c) É geral, teórica: busca a explicação dos fatos, a explicação 
gramatical, e é aplicável a várias línguas. 
 
E já que nos basearemos na gramática chomskyana, vejamos também os 
pressupostos apresentados pelo autor: 
 
1. A concepção de que a capacidade linguística é inata: essa teoria é 
chamada inatista ou nativista e afirma que o homem já nasce com a 
capacidade linguística, ou seja, já nasce com a capacidade de 
aprender a linguagem da sociedade em que está inserido. Mas 
atenção: não é a linguagem que é inata, é a capacidade linguística; 
 
2. Leis comuns = leis universais: as línguas são sistemas organizados 
extremamente regulares; são dotadas de leis que regem o seu 
funcionamento, as quais são de todas as línguas; 
 
3. A atividade linguística é um ato criativo: é um ato criativo, pois às 
vezes foge à regra e é diferente. Para entender essa criatividade, 
podemos levar em consideração doisconceitos: 
 
• Criatividade sendo entendida como mudança e desvio das 
regras (neologismos): isso ocorre quando há invenção de 
nomes, brincadeira com palavras. Exemplo: as palavras 
“malufar”, “caetanear”; 
 
• Criatividade sendo entendida como regida pelas regras: é a 
possibilidade de criar uma infinidade de frases, já que nunca 
falamos a mesma coisa do mesmo jeito; estamos sempre 
criando, sempre combinando palavras diferentes, lembrando que 
cada um fala do seu jeito. 
Prosseguindo, estão apresentadas a seguir as noções básicas da teoria que 
embasa a gramática gerativo-transformacional. 
 
A Designação Gerativo-Transformacional 
 
Uma teoria gramatical é gerativa sempre que fornece uma descrição 
estrutural (finita) para todos os objetos linguísticos (infinitos) que são gramaticais 
dentro do domínio da língua natural que se examina; e é transformacional sempre 
que concebe e descreve estruturas de superfície como resultado de transformações 
operadas nas suas estruturas profundas; estuda as gerações e as transformações 
das frases. 
 
Competência e Performance 
 
Basicamente, competência é o conhecimento que o falante possui da língua e 
performance é a utilização efetiva da língua em situações concretas. A competência 
do falante pode ser compreendida como sendo um sistema finito de regras de 
transformação que, aplicadas a umas poucas frases iniciais, possibilitam-lhe gerar 
um número infinito de frases novas, definindo-as sob uma descrição estrutural: essa 
é precisamente a tarefa da qual se ocupa a gramática gerativo-transformacional. 
Esses dois conceitos estão interligados, pois é através desse processo que 
qualquer falante nativo de um idioma pode compreender e produzir enunciados 
velhos (aqueles efetivamente realizados por alguém, ouvidos e repetidos depois 
pelos falantes) e enunciados novos (aqueles que ainda não foram realizados nem 
ouvidos pelos falantes que os executam), ou seja, através do conhecimento das 
regras da língua e da capacidade de usá-la é que é possível haver a comunicação, 
criando – de acordo com o desejo do falante – formas novas, que são baseadas 
nessas regras conhecidas por todos os nativos; esse conhecimento das “leis” da 
língua permite a compreensão dessas formas inéditas no ato comunicativo. 
Em outras palavras, a competência do falante se manifesta através da 
atuação e a atuação se manifesta como uma capacidade do falante para efetuar 
determinadas operações, a partir do conhecimento de enunciados velhos. De “João 
ama Maria” podemos construir outros enunciados como “Maria é amada por João”, 
“Quando João amava Maria...”, “Como João amasse Maria...” etc. De certo modo, 
essas frases foram produzidas a partir de certas transformações operadas sobre a 
primeira frase. Relacionando isso com tudo o que já foi dito, aqui a estrutura finita da 
primeira frase poderia ser a composição da sentença por sujeito e predicado, que é 
mantida – apenas com algumas modificações – nas demais. 
 
Gramatical e Agramatical 
 
Primeiramente, vale ressaltar que nenhuma gramática pode limitar-se a 
elaborar listas de frases ou classificação de elementos, ela terá de dar conta não só 
das estruturas, mas das transformações que tais estruturas podem sofrer. Uma frase 
é gramatical (ou aceitável) quando está bem formada, fonológica e sintaticamente; 
em caso contrário, dizemos que ela é agramatical. Sendo assim, as frases do 
português podem ser: 
 
• Bem formadas (sintaticamente) e dotadas de sentido: O menino fará 
anos amanhã; 
 
• Bem formadas (sintaticamente), mas sem sentido: O menino 
sexagenário fará oitenta anos amanhã; 
 
• Mal formadas (sintaticamente), mas dotadas de sentido: O menino 
fazer anos amanhã; 
 
• Mal formadas (sintaticamente) e sem sentido: Fará sexagenário 
amanhã anos o oitenta menino. 
 
Para Chomsky, frases gramaticais são bem formadas de acordo com as 
regras da língua (não é preciso ser norma culta) e frases agramaticais não são bem 
formadas, porém podem ser aceitas e interpretadas pelo falante. Exemplificando, 
vejamos algumas frases: 
 
• Nós fomos embora: é gramatical e interpretável; 
 
• O salsicha é boa: não é gramatical, contudo é interpretável; 
 
• Carro menino um quebrou o do: não é gramatical nem 
interpretável. 
 
Há graus de agramaticalidade e a interpretação depende do conhecimento do 
falante; frases como “O povo vieram” e “Fazem cinco dias” são mais aceitáveis do 
que, por exemplo, “Vieram povo o” e “Dias fazem cinco”. 
Ademais, o sentido e a gramaticalidade das frases dependem do contexto do 
enunciado e da situação da enunciação. É bom deixar claro também que algumas 
frases gramaticais são bem formadas, porém não aceitáveis e/ou não entendidas 
pelos falantes, como “Fi-lo porque qui-lo”, que é gramatical, mas pode facilmente 
não ser compreendida pelo falante que não conhece esse tipo de emprego 
pronominal nem o contexto em que a frase foi utilizada. 
 
Estrutura Profunda e de Superfície 
 
A estrutura profunda não está representada diretamente na forma do signo, é 
identificada na análise sintática da oração, é abstrata e não possui duplo sentido, ou 
seja, não é ambígua. Já a estrutura de superfície está diretamente relacionada com 
a forma fonética do enunciado, sua representação é linear, possui arranjo 
hierárquico dos elementos (pode mudar o sentido se os elementos forem trocados 
como “A mulher viu o homem/ O homem viu a mulher”) e pode levar à ambiguidade. 
A frase “O homem recebeu uma foto de Paris”, por exemplo, na estrutura de 
superfície possui duplo sentido, pois pode ser interpretada como se o homem 
tivesse recebido uma foto vinda de Paris ou recebido uma foto que retrata Paris. O 
que pode ser feito para resolver essa ambiguidade é a consideração da estrutura 
profunda, através de uma análise sintática e a elaboração de diagramas em árvore 
(ou gráficos arbóreos), que detalham as relações sintagmáticas recorrentes nas 
frases. 
Não detalharemos os diagramas em árvore aqui, mas é relevante saber que 
as análises apresentadas neles levam em consideração os termos da oração e as 
funções que podem exercer sintaticamente. Assim, são utilizados os termos 
sintagma nominal (quando o núcleo é o nome, quando há um determinante e um 
nome, geralmente exerce função de sujeito, objeto direto, complemento nominal, 
predicativo do sujeito), sintagma verbal (quando o núcleo é um verbo e comumente 
exerce a função de predicado), sintagma adjetivo (quando o núcleo é um adjetivo ou 
uma locução adjetiva, exerce a função de predicativo do sujeito, complemento 
nominal), sintagma preposicional (quando há uma preposição, desempenhando a 
função de objeto indireto, adjunto adnominal, complemento nominal e verbal) e 
sintagma adverbial (indica uma circunstância e, por isso, tem como núcleo um 
advérbio ou uma locução adverbial, e exerce a função de adjunto adverbial). 
Abaixo segue um exemplo de como a sentença mencionada anteriormente 
seria representada em diagramas, com base em Lopes (2001, p. 201), especificando 
essas relações sintagmáticas e auxiliando no esclarecimento da ambiguidade. 
No primeiro diagrama em árvore (Diagrama em Árvore 1), temos a 
representação da sentença, indicando que a expressão “de Paris” significa 
proveniente de Paris, apresentada como um sintagma adverbial (há uma locução 
adverbial, indicando o lugar de onde a fotografia veio). 
Já no segundo diagrama em árvore (Diagrama em Árvore 2), “de Paris” é uma 
expressão que retrata Paris, apresenta uma característica da fotografia, ou seja, não 
se trata de qualquer foto, mas de uma que retrata a cidade de Paris. Por conta disso, 
consideramos a expressão em análise como um sintagma preposicional com a 
função de adjunto adnominal. 
 
Diagrama em Árvore 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O homem recebeu uma foto de Paris 
 
 
Diagrama em Árvore2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O homem recebeu uma foto 
 
 
 de Paris 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
6. Os tipos de signos 
 
6.1 O simbolismo linguístico 
 
A comunicação humana se dá através de diversos elementos, que são os 
signos. Signos são sinais, que representam significados, transmitem informações e 
podem ser de variados tipos: gestos, palavras, desenhos, entre outros. A 
capacidade simbólica do ser humano levou-o a inventar diferentes formas de 
representar as coisas do mundo. 
Todo signo é convencional, ou seja, é resultado de um acordo social e 
coletivo sobre o que significa, pois é preciso que todos os membros de uma 
comunidade, que compartilham de experiências coletivas equivalentes, concordem e 
utilizem os signos num mesmo sentido, para que uma língua cumpra efetivamente 
os seus fins. O convencionalismo do signo depende desse contrato social. 
Outro fator fundamental é que todo signo possui um caráter simbólico, ou 
seja, representa alguma coisa. No simbolismo linguístico, os falantes de uma mesma 
língua fazem a associação de um conteúdo (ou um sentido) a uma expressão de 
modo arbitrário, através de uma relação essencialmente simbólica, em que um signo 
representa o real, estabelecendo uma relação de significação. O signo, portanto, não 
é a realidade, é alguma coisa utilizada em lugar de outra, é a representação da 
realidade e não a realidade em si. Por exemplo, uma foto do monumento Cristo 
Redentor é uma representação do mesmo, e não o monumento em si. 
Relembramos aqui a definição proposta por Saussure em uma de suas 
dicotomias de que o signo linguístico não une um nome e uma coisa, mas sim um 
conceito e uma imagem acústica, consideradas duas faces inseparáveis do signo. 
Saussure define o conceito como significado e a imagem acústica como significante; 
um não existe sem o outro, uma vez que o significante sempre chama um 
significado, que por sua vez não existe fora dos sons que o propagam. 
Vale enfatizar que a linguagem verbal não é a única linguagem que existe, 
pois temos também linguagens gestuais, pictóricas, entre outras. Dessa forma, não 
se pode falar em imagens acústicas ao se trabalhar com outros sistemas de signos, 
sendo preciso ampliar a noção de significante, de modo a abranger também as 
demais linguagens. Assim, significante poderia ser definido como o veículo do 
significado, que é o que se compreende quando o signo é utilizado, como diz Fiorin 
(2008, p. 58) “é a sua parte inteligível”. 
Saussure atribui uma definição substancialista ao signo, pois o trata como a 
união entre um significante e um significado. Todavia, na obra Curso de Linguística 
Geral, está muito presente a ideia de que a língua é constituída de diferenças, haja 
vista que um elemento linguístico deve ser diferente dos outros e isso é percebido 
na relação dos signos uns com os outros, considerando além de sua composição, as 
suas relações e o seu comportamento. Com relação a isso, Saussure formula a 
noção de valor, dando ao signo uma definição negativa, isto é, “um signo é o que os 
outros não são” (Fiorin, 2008, p. 58). Portanto, a significação consiste numa 
diferença entre um e outro signo, visto que o que há na língua corresponde a 
produção e interpretação de diferenças. Isso pode ser percebido no interior de uma 
língua, com palavras sinônimas, como “medo” e “receio”, que apresentam valor 
próprio através da oposição entre elas e com os demais vocábulos. Na comparação 
de línguas, também há a questão da oposição; Fiorin (2008, p. 58-59) cita o fato de 
que em português o verbo alugar significa dar ou tomar em aluguel, todavia em 
alemão, existem dois verbos específicos para as ações de dar ou tomar, que são 
“mieten” e “vermieten”, ou seja, há diferenças entre conceitos e sons dentro da 
mesma língua e na comparação de línguas diferentes, exemplos que vão ao 
encontro do conceito de valor criado por Saussure. 
Vale citar também os estudos do linguista dinamarquês Hjelmslev, que 
adiciona ao conceito de signo a noção de valor e define signo como a união de um 
plano de conteúdo e um plano de expressão. Para ele, cada um desses planos 
possui dois níveis – a forma e a substância. A forma corresponde à noção 
saussureana de valor, sendo um conjunto de diferenças estabelecidas nas 
oposições entre os signos; e a substância são os sons, no caso da expressão, e os 
conceitos no caso dos conteúdos. Assim, para Hjelmslev, há uma forma do conteúdo 
e uma substância do conteúdo, bem como existe uma forma da expressão e uma 
substância da expressão. Especificando um pouco mais, a forma do conteúdo são 
as diferenças semânticas, bem como suas regras de combinação, e a substância do 
conteúdo são os conceitos (como a diferença entre homem e mulher); já a forma da 
expressão são as diferenças fônicas e suas regras de combinação, e a substância 
da expressão são os sons (como a diferença entre os fonemas /p/ e /b/). Segundo 
Hjelmslev, tanto o plano de expressão quanto o plano de conteúdo devem ser 
estudados pela Linguística. 
Comparando os dois autores, a explicação de signo dada por Saussure faz 
referência especialmente ao signo verbal, à palavra ou ao morfema. Já Hjelmslev 
demonstra que qualquer produção humana dotada de sentido, de significado deve 
ser considerada um signo. 
É importante ressaltar, ainda, que há línguas ágrafas, ou seja, que não são 
escritas, que não possuem registro escrito, mas possuem outros tipos de signos 
usados para a comunicação. Sendo assim, estudaremos a seguir os tipos de signos 
existentes, que são: os índices, os símbolos, os ícones e os signos verbais. 
 
6.2 Os índices 
 
A classificação básica que se faz dos signos é dividi-los em signos naturais e 
signos artificiais (ou signos propriamente ditos). Os primeiros dizem respeito aos 
fenômenos da natureza que funcionam como veículo para nos fazer perceber outro 
fenômeno natural. São expressões de conteúdos chamados índices ou sintomas. 
Os índices são, portanto, signos naturais, sinais da natureza que dependem 
da interpretação humana, ou seja, são interpretados pelo homem. Como exemplos, 
podemos citar uma nuvem escura, que, quando vista, é interpretada como sinal de 
chuva, sinal de que irá chover; uma poça d’água, que nos leva a interpretar que 
choveu ou que alguém derramou algum líquido; a fumaça que indica a existência de 
fogo em algum lugar; ou ainda a febre que nos indica a existência de algum 
problema de saúde. 
Nos índices, não há um emissor que objetiva enviar alguma mensagem a 
alguém, pois são fenômenos naturais, ou seja, os índices são produzidos sem a 
intervenção humana; contudo há um receptor (o ser humano) que os recebe e 
interpreta. Um mesmo índice (como uma expressão de rosto de alguém, geralmente 
involuntária) pode ser interpretado de diversas maneiras, dependendo do receptor e 
de como ele recebe a mensagem, julgando se a pessoa está triste, cansada, 
preocupada, entre outros. 
Uma última informação fundamental é que se os índices não forem 
interpretados, não serão signos, ou seja, o fato de um indivíduo perceber uma 
fumaça e não atribuir a esse sinal nenhum tipo de informação ou interpretação, não 
caracterizará tal fenômeno como signo, uma vez que a essência de um signo é ser 
dotado de algum sentido, é ser utilizado para algum tipo de comunicação ou 
apreensão de significado. 
 
6.3 Os símbolos 
 
Vimos que os signos são classificados em naturais, definidos como índices, e 
artificiais ou signos propriamente ditos. Os signos artificiais são produzidos cultural e 
socialmente para fins de comunicação, a exemplos das palavras, dos sinais detrânsito, do cinema, da pintura, da escultura, entre outros. Os principais signos 
artificiais ou propriamente ditos são os símbolos e os signos linguísticos. 
Os símbolos são objetos concretos que representam noções abstratas, não 
tendo semelhança com essas noções abstratas a que se referem e representando-
as muitas vezes parcialmente. Quando vestimos uma roupa preta para dizer às 
pessoas que estamos de luto, por exemplo, estamos utilizando um símbolo criado 
pela nossa cultura, usando um objeto concreto (o pano preto) para simbolizar algo 
abstrato (o luto), e essa representação é considerada parcial porque o conceito de 
luto é muito mais amplo do que o conteúdo abrangido pela cor em questão, contudo 
existe uma relação entre esse símbolo e a ideia correspondente. Os símbolos 
variam de cultura para cultura; há países em que o pano branco simboliza o luto, 
diferentemente de nós. Há, portanto, uma convenção, um acordo entre os falantes 
que atribuem ao símbolo um significado. 
Todo símbolo é um signo, um sinal. Algo concreto, como o pano preto, torna-
se um signo cultural, um sinal de luto, quando é utilizado como símbolo. Todavia, 
podemos igualmente utilizar um signo já existente (uma palavra, um desenho) para 
formar símbolos. Dizemos, nesse caso, que, a partir de um simbolismo de primeiro 
grau (o signo), passamos para um simbolismo de segundo grau (o símbolo 
propriamente dito). Exemplificando, as palavras “no war” são signos linguísticos 
(simbolismo de primeiro grau), que significam em Inglês “não guerra”, “ausência de 
guerra”, mas também se tornaram um dos símbolos do movimento pacifista 
(simbolismo de segundo grau), significando “somos contra a guerra”. Concluindo, 
todo símbolo é um signo, mas nem todo signo é um símbolo (de segundo grau). 
Os símbolos podem apresentar duas características – a polissemia e a 
sinonímia. A polissemia (poli = vários; semia = sentido) significa que eles podem ter 
vários significados, como a cor branca, que pode simbolizar tanto a pureza (no 
vestido das noivas, por exemplo) quanto a paz (na bandeira branca, por exemplo). 
Já a sinonímia indica que vários símbolos podem ter um mesmo sentido. Citamos 
como exemplos o sentido de paz, que pode ser representado pela cor branca, por 
um ramo de oliveira, por uma pomba branca; bem como o sentido de amor, que em 
nossa cultura pode ser representado pelos símbolos coração transpassado por uma 
flecha, pela figura de Eros ou por um buquê de rosas vermelhas. 
 
6.4 Os signos verbais 
 
Os signos verbais ou linguísticos também são signos artificiais ou 
propriamente ditos, pois também são criados e produzidos pelo homem para fins de 
comunicação. 
As palavras que constituem as línguas são signos verbais, fônicos. As 
palavras (verbo significa palavra) não têm nenhuma semelhança com o que 
representam e, por isso, dizemos que os signos verbais são imotivados, ou seja, não 
há nenhuma razão (ou motivo) para que um objeto receba o nome de “porta”, por 
exemplo. A única exceção a essa regra são as onomatopeias, que são 
representações linguísticas de sons da natureza, como “tique-taque”, “bem-te-vi”, 
“miar”, “cricrilar”, “zurrar”, etc., pois são palavras que formamos a partir de uma 
interpretação dos sons naturais. 
Os signos artificiais têm como função interpretar as diferentes linguagens. Os 
signos verbais são interpretantes de todas as linguagens, traduzem todos os tipos 
de signos, enquanto os signos de outras linguagens e naturezas nem sempre são 
capazes de interpretar os signos linguísticos. Po exemplo, o que expresso 
visualmente em um desenho animado pode se relatado através de signos verbais, 
todavia nem tudo o que é expresso verbalmente pode ser dito de forma visual. Fiorin 
(2008, p. 72) ilustra essa ideia citando o verso de Camões “Amor é ferida que dói e 
não se sente”, visto que não é possível expressar visualmente que uma coisa dói e, 
ao mesmo tempo, é indolor. Isso é possível na lingagem verbal, porque a mesma 
dispõe de alguns recursos para ilustrar diferentes conceitos e ideias, como as figuras 
de linguagem. 
Para finalizar, é interessante relembrar algumas características do signo 
linguístico, como a arbitrariedade do signo, em que, de acordo com Saussure, o 
signo linguístico em geral é arbitrário, cultural e não é motivado, uma vez que não há 
relação entre som e sentido, entre significado e significante (exceto as 
onomatopeias). Outra característica é a linearidade do significantes, em que a fala e 
a escrita respeitam uma sequência, pois os seus elementos dispõem-se uns após os 
outros numa sucessão temporal ou espacial, isto é, um som precisa vir depis do 
outro, uma palavra depois da outra, o que impossibilita a produção simultânea de 
ambos. 
Por fim, citamos a denotação e a conotação, em que denotação é o 
significado ou o plano de conteúdo propriamente dito do signo, e a conotação é um 
sentido figurado, é a atribuição de um outro sentido a um signo já existente. Para 
exemplificar, o sentido do vocábulo “olho” é “órgão da visão, globo alocado na parte 
anterior da cabeça”; e o sentido de “gordo” é “característica de quem está acima do 
peso, aquele que tem uma quantidade de gordura acima da usual”. Ambas as 
definições são no sentido denotativo. Contudo, em português existe a expressão 
“olho gordo”, que significa “invejoso, olhar de inveja com o objetivo de prejudicar 
outra pessoa, segundo a crença popular”, que imprime um sentido conotativo a 
planos de conteúdos já existentes. Sendo assim, “olho” e “gordo” são signos 
denotados, e “olho gordo” é um signo conotado. Os principais mecanismos de 
conotação são a metáfora e a metonímia, sendo aquela o acréscimo de um 
significado a outro quando há relação de semelhança (“Samuel é um gato”) e esta o 
acréscimo de um significado a outro quando há relação de coexistência entre eles 
(Gosto de ler Camões). 
 
6.5 Os ícones 
 
A noção de ícone foi inserida na Semiologia inicialmente por Peirce e, 
posteriormente, por Morris. Os ícones são imagens que possuem certa semelhança 
visual com aquilo que representam, ou seja, nos ícones há semelhança entre 
significante e significado. 
Fotografias, mapas, desenhos, esculturas, impressões digitais, entre outros 
são ícones. É claro que uma foto se parece com a pessoa, mas não é a pessoa, um 
mapa se parece com a região geográfica que representa, mas não é o local, pois se 
tratam de representações e não do objeto real. 
Alguns linguistas, como Reznikov, consideram que os ícones não são signos, 
pois embora sejam produtos da mente humana, não existe nenhum tipo de semiose, 
uma vez que inexiste a convenção, justamente pela similaridade. Assim, uma figura 
de um homem se parece com um homem, isto é, não é necessário o 
estabelecimento de nenhuma convenção social e cultural para que a mesma seja 
interpretada como tal, diferentemente da palavra homem, que foi estabelecida 
através de uma convenção, de um contrato social referente à união de seu 
significante e significado. Entretanto, os ícones são utilizados como signos que 
representam ideias, transmitem informações. 
Pode acontecer de alguns ícones passarem a ser utilizados como símbolos. 
Retomando o exemplo da figura de um homem, se a mesma estiver na porta de um 
banheiro, estará sendo utilizada como símbolo, representando que aquele local é de 
uso masculino, ou seja, haverá algo concreto (figura de um homem) representando 
uma noção abstrata (uso exclusivo para homens). 
Para melhor esclarecimento dos tipos de signos, vejamos mais alguns 
exemplos, lembrando que muitas vezes um mesmo mecanismo de comunicação 
pode ser constituído por mais de um tipo de signo: 
 
a) No sistema de trânsito, temos a utilização de diversos signos (sinais), 
para o organização e orientação do tráfego de automóveis, como 
demonstrado a seguir: 
 
 Ícones: as placas com desenhos. No exemplo abaixo, há a imagem 
de um ciclista e nessaplaca há também um símbolo, que é a cor 
vermelha, representando a proibição de ciclista no local onde estiver 
fixada. 
 
 
 Símbolos: as cores dos semáforos, em que há coisas concretas 
(cores) representando noções abstratas. No caso, a cor 
vermelha simboliza “parar”, a cor amarela indica “atenção”, e a 
cor verde significa “seguir”; 
 
 
 
 Signos verbais: as placas com palavras, como no exemplo da placa 
que indica que é para parar; além disso, a cor vermelha aparece 
como um símbolo, reforçando a ideia do signo verbal. 
 
 
 
b) O movimento hippie da década de 1960 possuía vários símbolos: 
 
 
 
 O gesto com o indicador e o dedo médio em forma de V (símbolo 
gestual), que significava paz e amor; 
 
 A árvore de cabeça para baixo (ícone usado, por exemplo, em 
colares); 
 As próprias palavras PAZ E AMOR (signo verbal); 
 
c) Na cerimônia do casamento, há signos como: 
 
 A cor branca do vestido da noiva (símbolo) que representa a 
inocência da moça; 
 
 A aliança (símbolo) que representa a união do casal; 
 
 As fotos (ícones) que comporão o álbum de casamento, retratando 
tal ocasião. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Referências 
 
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	A Designação Gerativo-Transformacional
	Competência e Performance
	Gramatical e Agramatical
	Estrutura Profunda e de Superfície

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