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Apostila: Linguística Geral
1. Fundamentos da ciência da linguagem
1.1 Um pouco da história do estudo da linguagem
Comecemos por considerar que a linguagem humana – como e por que
falamos – é um fenômeno misterioso que tem encantado os seres humanos há
muito tempo, produzindo os mais diversos tipos de estudos, trabalhos, pesquisas,
teorias, métodos de investigação. Tem possibilitado também grandes criações da
mente humana, como belíssimos poemas, romances, tratados científicos, teses
acadêmicas. Para entender um pouco sobre o estudo dessa capacidade humana
que é a linguagem, vejamos um breve histórico com base no que foi apresentado
por Petter (2008, p. 12 e 13).
Os primeiros estudos sobre a linguagem ocorreram no século IV a.C.
motivados por razões religiosas, que fizeram com que os hindus estudassem a sua
língua, no intuito de que os textos sagrados não fossem modificados aos serem
proferidos. Em seguida, ainda no século IV a.C. os gramáticos hindus se ocuparam
da descrição detalhada de sua língua e elaboraram modelos de análise descobertos
no final do século XVIII pelo Ocidente.
A preocupação dos gregos foi, sobretudo, determinar as relações entre o
conceito e a palavra que o nomeia, isto é, eles investigaram a existência de uma
relação entre a palavra e o seu significado; Platão, por exemplo, foi um dos
estudiosos que discutiu essa questão. Já Aristóteles direcionou seus estudos para
uma análise detalhada da estrutura linguística, contribuindo com a elaboração de
uma teoria da frase, a identificação das partes do discurso e a enumeração das
categorias gramaticais. Houve também o teórico Varrão que se destacou entre os
latinos, dedicando-se à gramática e à sua concepção de ciência e arte.
Na Idade Média, houve os modistas que conceberam a estrutura gramatical
como algo único e universal, considerando as regras gramaticais independentes das
línguas em que são realizadas.
No século XVI, a Reforma ativou a religiosidade e, ainda que o latim tivesse
prestígio e fosse considerado como língua universal, houve a prática de tradução
dos livros considerados sagrados para diversas línguas até então desconhecidas,
que eram trazidas pelos viajantes, comerciantes e diplomatas de suas experiências
e vivências no exterior. Assim, em 1502 é criado, pelo italiano Ambrosio Calepino, o
dicionário poliglota mais antigo.
As preocupações dos estudiosos antigos são mantidas nos séculos XVII e
XVIII; em 1660 a Gramática de Port Royal, de Lancelot e Arnaud, que serve de
modelo para muitas gramáticas do século XVII, apresenta a ideia de que a
linguagem é fundada pela razão, sendo uma imagem do pensamento. Para eles, os
princípios de análise definidos servem para toda e qualquer língua, de modo que
não se referem a uma língua específica e particular.
No século XIX, com o conhecimento de uma quantidade maior de línguas, há
o interesse pelas línguas vivas, ou seja, pelos falares existentes, ocorrendo um
estudo comparativo entre eles, que vai de encontro ao estudo mais abstrato da
língua predominante no século anterior. Sendo assim, nesse período é elaborado
um método histórico, que teve importante papel no desenvolvimento das gramáticas
comparadas e da Linguística Histórica. De acordo com a metodologia dessa época,
o pensamento linguístico tem como base a observação e análise de fatos. Esse
estudo comparado das línguas destaca que “as línguas se transformam com o
tempo, independentemente da vontade dos homens, seguindo uma necessidade
própria da língua e manifestando-se de forma regular” (Petter, 2008, p.12).
Nesse período, o estudioso Franz Bopp se sobressai, principalmente com a
publicação em 1816 de sua obra referente ao sistema de conjugação do sânscrito,
em comparação ao grego, ao latim, ao persa e ao germânico, o que marca o
surgimento da Linguística Histórica. Esse estudo possibilitou a observação de
semelhanças entre essas línguas e grande parte das línguas europeias,
evidenciando que há um grau ou vínculo de parentesco entre elas. Assim, Bopp
descobriu que existe uma família de línguas indo-europeia, advindas do indo-
europeu, sendo possível chegar a essa origem através do método histórico-
comparativo.
Essa investigação do desenvolvimento histórico das línguas que aconteceu
no século XIX foi um grande progresso nos estudos linguísticos. Os estudiosos da
linguagem perceberam também que as mudanças verificadas nos textos escritos
equivalentes aos diversos períodos poderiam ser justificadas pelas mudanças que
teriam sido realizadas na língua falada, ocasionando e explicando, por exemplo, o
fato de a língua latina ter se transformado e originado, após alguns séculos, as
línguas português, espanhol, italiano e francês, ou seja, o latim falado possibilitou a
criação de outras línguas. Houve, portanto, uma alteração no objeto de análise dos
estudos sobre a linguagem, que até então se interessavam pela língua literária, e a
Linguística moderna, apesar de também estudar a língua escrita, tem como
prioridade e princípio fundamental o estudo e a investigação da língua falada.
No início do século XX, a investigação sobre a linguagem feita pela
Linguística é reconhecida como estudo científico e isso ocorre em especial com a
divulgação das pesquisas de Ferdinand de Saussure, professor da Universidade de
Genebra. Isso ocorreu em 1916, quando dois de seus alunos, com base em
anotações feitas durantes suas aulas, publicaram a obra Curso de Linguística Geral,
considerada como fundadora dessa ciência.
Até então, a Linguística estava submetida a exigências e princípios de outros
estudos como a lógica, a filosofia, a retórica, a história e a crítica literária, ou seja,
não possuía um caráter autônomo até a exposição dos estudos de Saussure. O
século XX, portanto, marcou uma mudança significativa na consideração da
Linguística e das pesquisas linguísticas, justamente por reconhecer o caráter
científico desses novos estudos, cujo foco está na observação dos fatos de
linguagem. Essa observação dos fatos conforme o método científico deve ocorrer
antes do estabelecimento de uma hipótese, mediante uma análise sistemática. O
trabalho e a pesquisa científica consistem na observação e descrição dos fatos,
tendo como base pressupostos teóricos específicos. Dessa maneira, analisam-se os
fatos de acordo com um quadro teórico, sendo possível que um mesmo fenômeno
tenha diferentes descrições e explicações, pois o pesquisador pode optar por
diferentes referenciais teóricos, porém é fundamental a verificação de fatos de
linguagem, para que um estudo seja caracterizado científico, tal como faz a
Linguística.
Para entender melhor o que é a Linguística, vejamos a definição do seu
objeto de estudo – a linguagem.
1.2 O que é a linguagem?
Nós, seres humanos, somos os únicos capazes de falar (ou escrever) sobre
fatos que já aconteceram ou que ainda acontecerão; podemos também falar de
coisas que não estão presentes no momento da comunicação. Podemos falar sobre
uma festa, um acidente ou qualquer evento importante ocorrido há algum tempo;
sobre qualquer pessoa ou objeto, sem que eles estejam presentes ou próximos a
nós; sobre sentimentos e sensações passadas ou presentes; enfim, podemos falar
sobre tudo o que quisermos. Para isso, ou seja, para comunicarmos essas coisas,
nós usamos palavras, gestos ou desenhos.
Essa capacidade humana de utilizar, na comunicação, “representantes” ao
invés das coisas reais é chamada capacidade simbólica, ou seja, em lugar de
mostrarmos o objeto, a pessoa ou o fato sobre o qual estamos falando, usamos
palavras, gestos ou desenhos para fazer a referência desejada. Na verdade, toda a
comunicação humana é simbólica, isto é, é feita através de sinais (ou signos), que
representam as coisas sobre as quais queremos falar. É a nossa capacidade
simbólica que nos permite imaginar situações, relembraracontecimentos, planejar o
futuro.
Quando desenhamos uma casa, estamos simbolizando a casa; quando
fazemos o gesto de mão fechada com o polegar levantado, estamos simbolizando
mensagens como “tudo bem”, “eu concordo” ou “positivo”; quando a luz verde do
semáforo se acende, simboliza “pode avançar, ir em frente”; quando empregamos
qualquer palavra como “cachorro”, “jacaré”, “pato”, “amor”, “ódio”, por exemplo,
estamos simbolizando os animais e os sentimentos em questão. Os seres humanos
criaram vários sistemas de significação (isto é, conjuntos estruturados de elementos
possuidores de sentido) para poderem se comunicar e expressar o que desejam.
Vejamos alguns deles:
• Sistema gestual: os gestos diferem de cultura para cultura; balançar a
cabeça verticalmente aqui no Brasil significa “sim” e horizontalmente quer
dizer “não”, contudo, em outros lugares, esses gestos podem significar outra
coisa. Alguns gestos que traduzem xingamento podem significar algo
diferente em outro lugar, como, por exemplo, no Brasil, o gesto de unir o
polegar e o indicador, mantendo os outros dedos esticados significa um
xingamento, uma ofensa; já, nos Estados Unidos, significa “ok”, “tudo certo”;
• Sistema pictórico (de pintura, desenho): desenhar ou pintar é representar,
simbolicamente, alguma coisa. Não podemos comer um alimento desenhado,
nem pegá-lo, mas essas imagens são usadas para transmitir algum tipo de
mensagem;
• Sistema da música: as melodias, os sons, as notas musicais traduzem
mensagens criadas pelos autores, podendo ser usadas para comunicações
diversas como a campainha e o toque do telefone;
• Sistema da escultura: as esculturas representam (portanto, simbolizam)
objetos, pessoas, mensagens, como monumentos que homenageiam
pessoas consideradas personalidades marcantes e importantes ou que
representam dados religiosos;
• Sistema linguístico: é composto pelos signos (sinais) da língua, ou seja, as
palavras. O sistema linguístico ou verbal nos possibilita expressarmos tudo o
que quisermos.
As línguas naturais são, portanto, manifestações de algo mais geral que é a
linguagem. É importante entender e diferenciar essas duas noções – língua e
linguagem – e para tal levaremos em consideração o que foi proposto por Saussure
e Chomsky, referente a uma teoria geral da linguagem e da análise linguística.
Saussure considerou que a linguagem é complexa e multifacetada, e em sua
abrangência há vários domínios, podendo ser, simultaneamente, física, fisiológica e
psíquica; segundo ele a linguagem tem caráter individual e social, não sendo
possível classificá-la em alguma categoria de fatos humanos. Para o teórico, a
linguagem não pode ser objeto de estudo da Linguística, porque ela envolve, além
da investigação linguística, outros aspectos analisados por outras ciências, como a
antropologia e a psicologia, por exemplo. Sendo assim, Saussure seleciona uma
parte essencial do todo linguagem, que é a língua, considerada um objeto uno e
passível de classificação. Segundo o autor, a língua “é um produto social da
faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo
corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos” (Saussure,
1969, p. 17).
De acordo com Saussure, a língua é um sistema ou conjunto de signos ou
unidades que se relacionam de maneira organizada dentro de um todo. Seria a parte
social da linguagem, fora do indivíduo, que obedece a leis sociais estabelecidas por
determinada comunidade e que não pode ser alterada pelos falantes. E juntamente
aos conceitos de linguagem e língua, o autor destaca ainda a fala, que é um ato
individual, é resultado das combinações que o falante faz usando o código da língua,
e essas combinações são produzidas através de atos de fonação.
Para Saussure, o objeto de estudo da Linguística é determinado com a
distinção de linguagem, língua e fala, haja vista que o autor divide o estudo da
linguagem em duas partes: investigação da língua e investigação da fala. Não é
possível separar essas duas partes, pois uma depende da outra, isto é, a língua
condiciona a produção da fala, porém, não há língua se não houver a fala.
Entretanto, percebe-se a necessidade da existência de duas linguísticas, a
linguística da língua e a linguística da fala. Saussure concentra os seus estudos na
linguística da língua, considerando esse produto social imposto ao falante e
constituído de elementos condicionados por regras de funcionamento.
Para finalizar a contribuição desse estudioso à concepção de linguagem e
língua, é relevante destacar que para ele a Linguística considera a língua por ela
própria, analisando os elementos linguísticos, suas relações dentro do discurso e o
valor funcional dessas relações identificadas. A teoria de análise linguística sugerida
por Saussure resultou no estruturalismo, uma ciência que estuda a estrutura da
língua e não o seu uso ou a fala propriamente dita.
Conforme mencionado, veremos também a proposta de Chomsky para definir
linguagem e língua. Na metade do século XX, o norte-americano Noam Chomsky
inovou os estudos linguísticos, dizendo que todas as línguas naturais, nas formas
falada e escrita, são linguagens conforme a sua definição. No livro Syntactic
Structures, ele define linguagem como “um conjunto (finito ou infinito) de sentenças,
cada uma finita em comprimento e construída a partir de um conjunto finito de
elementos” (Chomsky, 1957, p. 13). Isso quer dizer que toda e qualquer língua
natural é constituída por um número finito de sons e de sinais gráficos que os
representam na escrita. E ainda, mesmo que haja um número infinito de possíveis
sentenças, cada uma delas só pode ser representada por uma sequência finita
desses sons e letras existentes. Em outras palavras, há em toda língua natural uma
quantidade finita de sons e letras que possibilitam a criação de um número infinito de
sentenças, cabendo ao linguista determinar e reconhecer o que é considerado ou
não sentença pertencente à língua analisada, conforme suas regras de
funcionamento. Por exemplo, na língua portuguesa, os artigos sempre antecedem o
substantivo, logo se houver a troca dessa posição, tal sequência não será aceita
como sentença, ou seja, a construção “Menina a quer boneca uma” não é aceita,
não pode ser usada em nossa língua; o correto é “A menina quer uma boneca”.
Para Chomsky, a análise das línguas naturais precisa definir as propriedades
estruturais que diferenciam uma língua natural de outras línguas. Para ele, tais
propriedades possuem um grau tão alto de abstração, complexidade e
especificidade que não poderiam ser aprendidas do nada por uma criança no
processo de aquisição da língua, sem nenhuma base, conhecimento ou capacidade
pré-existente. O teórico considera, portanto, que a linguagem é uma capacidade
inata e específica do ser humano, transmitida geneticamente, ou seja, a criança já
nasce com conhecimento sobre essas propriedades estruturais antes de ter contato
com a língua natural e esse conhecimento é acionado durante a aquisição
linguística. De acordo com seus estudos, há propriedades universais da linguagem,
que possibilitam a constituição de uma teoria geral da linguagem, essa teoria foi
chamada de gerativismo.
Enquanto Saussure separa língua e fala, Chomsky diferencia os conceitos
competência e desempenho. A competência linguística é o conjunto de regras que o
falante possui em sua mente, construído pela aplicação de sua capacidade inata
para a aquisição da linguagem aos dados linguísticos que teve contato na infância
durante essa aquisição propriamente dita, isto é, diz respeito ao conhecimento
linguístico que o falante possui e que lhe permite produzir sentenças em sua língua.
Já o desempenho consiste no comportamento linguístico do falante, resultante da
sua competência linguística e de fatores não linguísticosenvolvidos na produção de
enunciados, como convenções sociais, crenças, valores, sentimentos, atitudes do
interlocutor, entre outros. O desempenho depende da competência, todavia a
competência não depende do desempenho, sendo exclusivamente linguística e
também passível de descrição e implícita no desempenho.
Para finalizar vale destacar que Saussure ressalta a língua enquanto sistema
linguístico socializado e Chomsky enfatiza a competência linguística, que é o
conhecimento linguístico internalizado.
1.3 O que é Linguística?
Vimos que há vários tipos de linguagens – verbais e não verbais –, que
correspondem a sistemas de signos utilizados para a comunicação, como a música,
a dança, a pintura, os gestos, as palavras, entre outros. De acordo com Saussure há
uma ciência mais geral que estuda todo e qualquer tipo de sistema de signos,
chamada Semiologia.
A Linguística é uma parte dessa ciência mais geral, é a ciência que estuda
especificamente a linguagem verbal humana, sua estrutura e seus usos. Em outras
palavras, é o estudo científico da linguagem verbal. Orlandi (1986, p. 9) diz da
seguinte maneira: “Linguística definiu-se, com bastante sucesso entre as Ciências
Humanas, como o estudo científico que visa descrever ou explicar a linguagem
verbal humana.” E por que a Linguística é uma ciência? Porque ela estuda as
línguas naturais com o objetivo de conhecer os seus princípios de funcionamento,
bem como as diferenças e semelhanças entre elas, sem fazer julgamentos de valor
sobre as formas linguísticas, sem classificar tal uso em certo ou errado, bonito ou
feio. A Linguística apenas descreve e explica essas formas, esses usos, os fatos tal
como se apresentam numa determinada sociedade, abrangendo os padrões
sonoros, gramaticais, lexicais e sintáticos. Petter (2008, p. 17) enfatiza que o
linguista não leva em consideração julgamentos, pois sua função consiste em
“estudar toda e qualquer expressão linguística como um fato merecedor de
descrição e explicação dentro de um quadro científico adequado”.
A Linguística, portanto, é uma ciência e toda ciência é descritiva e não
prescritiva (de prescrever, receitar), não se compara ao estudo tradicional da
gramática ou às gramáticas tradicionais, nas quais se baseia a maioria das
gramáticas escolares e dos livros didáticos de Língua Portuguesa, que têm caráter
prescritivo. Gramáticas tradicionais se baseiam num tipo só de língua – a norma
culta, que é o falar das elites –, normalmente usando como exemplos dessa norma
culta a língua escrita, ou seja, a obra dos escritores consagrados, a língua literária. A
gramática tradicional, portanto, descreve, mas apenas uma parte da língua (a norma
culta), e prescreve, ou seja, “receita” a maneira “correta” de se utilizar a língua (como
escrever tal palavra, como fazer a concordância verbal e nominal, como efetuar
colocação pronominal, etc.), ignorando as outras variedades da língua, os usos que
divergem da norma culta, até mesmo condenando-os. A gramática tradicional não é
científica, pois faz julgamentos de valor sobre as formas e os usos linguísticos que
não se “enquadram em suas regras”.
Devemos, portanto, fazer uma distinção bem clara entre a gramática
normativa, prescritiva, e a Linguística, descritiva, científica. Lembrando que a
gramática normativa preocupa-se com o emprego correto das regras gramaticais e a
Linguística é uma ciência que tem por objeto a linguagem verbal humana em todas
as suas possibilidades e variedades.
A metodologia de análise linguística tem como foco principal a fala das
comunidades e como foco secundário a língua escrita. Essa prioridade para o
estudo da língua falada e os critérios usados para a coleta, organização, seleção,
análise dos dados linguísticos e resultados são justificados pelo fato de ser preciso
corrigir os procedimentos de análise apresentados pela gramática tradicional e
elaborar uma teoria geral da linguagem através da correlação de informações sobre
outras línguas.
Dessa maneira, há duas áreas de estudo, chamadas Linguística Geral e
Linguística Descritiva. A Linguística Geral trabalha com conceitos e modelos que
servem de fundamentos para a análise das línguas, enquanto a Linguística
Descritiva disponibiliza os dados necessários para confirmar ou contestar as teorias
que a Linguística Geral propõe. As duas são interdependentes, porém é possível
que uma descrição linguística, além de conceder recursos para a investigação da
Linguística Geral, tenha outros objetivos, como elaborar uma gramática ou um
dicionário no intuito de difundir a forma escrita de línguas que ainda não circulam
nessa modalidade, a exemplo de línguas indígenas e africanas.
No breve histórico sobre o estudo da linguagem, vimos que no século XIX
houve uma preocupação por parte dos linguistas em estudar as transformações que
as línguas apresentam ao longo tempo, no esforço de desvendar as mudanças
linguísticas; nesse contexto a Linguística era histórica ou diacrônica. Contudo, no
começo do século XX, Saussure apresentou uma nova perspectiva de estudo da
língua, chamada sincrônica, em que a análise e a descrição das línguas são feitas
em um determinado momento histórico ou recorte temporal, observando elementos
coexistentes. Saussure, apesar de defender o ponto de vista sincrônico do estudo
das línguas, reconhecia que as abordagens sincrônica e diacrônica são relevantes e
se complementam. A diferença é que na sincronia os fatos linguísticos e seu
funcionamento são examinados em um dado momento, e na diacronia os fatos são
observados com relação às suas transformações e às relações estabelecidas com
os fatos e momentos históricos anteriores e posteriores. Em outras palavras, uma
descrição sincrônica leva em consideração os fatos linguísticos e suas relações em
um determinado estado da língua, e as pesquisas diacrônicas analisam fatos
linguísticos em estados sucessivos da língua, como, por exemplo, o estudo sobre as
transformações que aconteceram com o pronome de tratamento “Vossa Mercê” ao
longo tempo, resultando na forma atual “Você”, de pronome pessoal, que na
oralidade é empregado como “Cê”; para explicar essas mudanças é preciso
comparar diferentes estados e momentos da língua.
Essa distinção entre sincronia e diacronia – e suas metodologias – ocasionou
dois ramos da Linguística: a Linguística Sincrônica que investiga um estado da
língua, e que atualmente é chamada de Linguística Teórica, por se ocupar mais da
elaboração de modelos teóricos do que da descrição de estados da língua; e a
Linguística Histórica, que estuda a história da língua.
Para finalizar a concepção de Linguística, é relevante destacar que diversas
áreas de estudo se interessam pela linguagem e, por isso, ao relacionar o estudo da
língua com outras disciplinas, houve a criação de alguns campos de estudo
interdisciplinares, como a Etnolinguística, que investiga a relação existente entre a
língua e a cultura; a Sociolinguística, que estuda a relação observada entre a língua
e a sociedade; e a Psicolinguística, que examina o processo de aquisição da
linguagem, a aprendizagem de uma segunda língua e o comportamento do indivíduo
nesses dois eventos.
1.4 Gramática: o ponto de vista normativo/ descritivo
Como já mencionado anteriormente, a gramática tradicional possui um ponto
de vista normativo e prescritivo da língua, fundamentando a sua análise na língua
escrita. Por não reconhecer a diferença existente entre língua falada e língua escrita,
considera a forma escrita como um modelo de correção que deve ser aplicado e
seguido em todos os tipos de expressão linguística, propagando dessa maneira
falsos conceitos concernentes à natureza da linguagem.
Conforme citado por Petter (2008, p. 19), é importante recordar que o primeiro
registro de descrição linguística é a do sânscrito – no século IV a.C. – realizada pelogramático hindu Panini, cujo objetivo foi justamente garantir que os textos sagrados
e a pronúncia correta das preces fossem conservados, num momento em que a
língua sânscrita culta, chamada blasha, necessitava de consolidação e
fortalecimento para resistir às influências dos falares populares, denominados
prácritos, ou seja, essa obra surgiu em um momento histórico em que uma
determinada variedade linguística precisava, no entender desse gramático, de
valorização e divulgação.
Há registros de outras gramáticas antigas prescritivas e pedagógicas, cujo
propósito era descrever a língua, contudo também prescrever o que consideravam o
uso correto, como por exemplo, gramáticas do árabe, do grego e do latim.
Atualmente, essa tradição normativa ainda é predominante, sobretudo em países
que se preocupam com o desenvolvimento e consolidação da língua padrão,
divulgada como uma norma de correção, uma forma correta de utilização da língua,
prescrita por fontes de autoridade como gramáticos e representantes da língua
literária. Além de prescrever uma norma de correção e considerar outras variedades
inferiores e incorretas, a norma culta ou padrão também é valorizada por ser
associada às classes sociais mais altas, instruídas e dominantes.
Embora os gramáticos tradicionais trabalhem para descrever a língua, eles
priorizam alguns usos em detrimento de outros. Dessa forma, esse estudo descritivo
e normativo feito por eles limita o objeto de análise, justamente por privilegiar a
variedade padrão. E é essa “forma correta” de uso da língua que geralmente é o
foco do estudo nas escolas, que deixam de oportunizar um conhecimento mais
amplo e abrangente da diversidade linguística.
Na sociedade brasileira, durante muito tempo, e isso ainda ocorre na
contemporaneidade, os estudos acerca da linguagem – especialmente nos ensinos
fundamental e médio – restringiram-se ao estudo prescritivo da Língua Portuguesa,
embasado na gramática tradicional. Esses estudos preocupam-se com a gramática
normativa, isto é, com o ensino de regras gramaticais, como acentuação, ortografia,
conjugação de verbos, concordância verbal e nominal, entre outros; e deixam de
lado a língua propriamente dita, bem como sua variedade de usos e possibilidades.
Não se pode negar, obviamente, a importância e a utilidade do estudo normativo,
contudo este não pode ser separado do contexto e de uma visão mais completa da
língua, nem impedir que o aluno aumente a sua competência linguística, usando-a
para se comunicar, compreender mensagens e produzir textos para diversos fins.
Todavia, felizmente, essa priorização pelo estudo normativo começou a
mudar, pois alguns documentos oficiais, que orientam o trabalho nas escolas, já têm
enfatizado e sugerido uma postura mais moderna sobre os estudos da nossa língua.
Nas universidades, a disciplina de Linguística – que é obrigatória no curso de Letras
– não só tem procurado cumprir seu papel de subsidiar o aluno com os conceitos
que a compõem, como também tem auxiliado e servido como base para outras
disciplinas, como Língua Portuguesa e Literaturas.
É relevante, portanto, enfatizar que abordar a língua somente sob a
perspectiva normativa corrobora para que falsos conceitos e preconceitos sejam
difundidos, e a Linguística contribui para que essas ideias sejam discutidas e
revertidas, haja vista que a língua escrita não pode servir de modelo para a língua
falada e que não existem línguas e variedades melhores ou piores, mas sim
diferentes.
1.5 A Linguística: o ponto de vista descritivo/ explicativo
Já estudamos anteriormente que o campo de pesquisa da Linguística, tal
como apresentada por Saussure, tem como foco principal a investigação da língua
enquanto conjunto de regras e propriedades formais e que essa ciência não
privilegia determinada variedade linguística, considerando todos os usos e fatos
linguísticos, e realizando sua descrição. Além disso, há várias áreas de estudo
dentro da Linguística, que podem considerar, por exemplo, o fator histórico ou não.
No século XIX, os estudos desenvolvidos pela Linguística Histórica, que
estuda as mudanças da linguagem, fortaleceu o conhecimento científico da língua,
indo de encontro à divulgação de uma norma e mostrando que as transformações
linguísticas geralmente são originadas na fala popular, ou seja, é comum que formas
consideradas erradas em um dado momento histórico passem a ser consideradas
corretas no momento seguinte.
Além disso, ao analisar os fatos, observa-se que algumas formas
consideradas erradas são recorrentes também na fala de pessoas cultas,
confirmando que a língua tem realmente um caráter bastante variável e que a escrita
não pode servir de padrão para a fala. Como exemplo, podemos citar o verbo “ir”, no
sentido de ir a algum lugar, cuja regência verbal culta pede o uso da preposição “a”,
como dizer “Vou ao cinema”; todavia, é muito comum que na fala as pessoas
utilizem a preposição “em”, enunciando “Vou no cinema”. Isso quer dizer que existe
a variante do padrão culto, mas há também uma variante que não atende a essa
regra, porém é utilizada com frequência e inclusive, embora estigmatizada, é
encontrada em textos arcaicos e do século XIX, comprovando que essas mudanças
e variações ocorrem no decorrer do tempo.
Enquanto a visão prescritiva admite apenas uma forma correta com base na
língua escrita, a visão descritiva da Linguística reconhece que há a possibilidade de
escolha de usos linguísticos que sejam mais apropriados à língua escrita, à língua
falada, a situações coloquiais e a situações formais, uma vez que, conforme essa
abordagem descritiva, as variedades não padrão da língua também consistem em
um conjunto de regras gramaticais, embora diferentes das regras do português
padrão. Isso se justifica porque o termo “gramatical” é utilizado com um valor
descritivo, isto é, a gramática de uma língua ou de um dialeto corresponde à
descrição das regularidades que constituem a sua estrutura. Sendo assim, o
exemplo coloquial do verbo “ir” acompanhado pela preposição “em” é uma sentença
gramatical na variedade coloquial, compreendida por todos, sem prejuízo à
comunicação. E é isso que a Linguística, enquanto ciência faz – não trata a língua
como deveria ser, mas sim a descreve como realmente é.
Levando em consideração esse objetivo de descrever a língua, a Linguística
trabalha com uma metodologia de análise de sentenças que são efetivamente
produzidas, formando assim um corpus representativo. Um corpus é um conjunto de
dados que são organizados para uma pesquisa específica, sendo que esses dados
são reais e empregados na fala dos indivíduos, ou seja, o corpus inclui expressões
linguísticas de todos os tipos, pertencentes à variedade padrão e à variedade não
padrão, e sua descrição não possui caráter normativo ou histórico, pois o intuito é
perceber a estrutura dos elementos linguísticos (frases, morfemas, fonemas) e as
regras que possibilitam a sua combinação.
De acordo com essa metodologia adotada e a cientificidade da Linguística, há
dois princípios que a fundamentam – e o empirismo e objetividade. Assim, a
Linguística é empírica porque analisa dados verificáveis através da observação e
objetiva por investigar a língua de maneira independente, ou seja, sem levar em
consideração preconceitos sociais e culturais.
Até os anos 1950, as análises linguísticas, que tinham como base as teorias
de descrição de Saussure, trabalhavam apenas com a explicação dos fatos por meio
de sua descrição. Entretanto, a partir do final dos anos 1950, Chomsky sugeriu que
a análise linguística se prendesse menos aos dados e mais à teoria, isto é, para o
teórico, além de observar e categorizar dados, é preciso haver uma teoria explicativa
que anteceda esses dados e que seja capaz de explicar as frases produzidas e as
que possivelmente podem ser realizadas pelosfalantes, pois para Chomsky um
fenômeno linguístico só pode ser explicitado, quando pode ser relacionado a leis
gerais, e é essa teoria que é definida por ele como gramática.
Conforme essa teoria da gramática, todas as frases gramaticais devem ser
estudadas, ou seja, todas as frases que pertencem à língua em análise. Novamente,
não dita regras como a gramática normativa, mas explica as sentenças produzidas e
as que têm potencial de serem realizadas na língua. O critério utilizado para a
gramaticalidade ou agramaticalidade dessas frases é a intuição ou a competência do
falante, que vai organizar os componentes linguísticos em uma frase, garantindo
essa gramaticalidade ou respeitando as regras gramaticais do sistema linguístico,
conforme o conhecimento que o falante tem internalizado. Caso contrário, se essa
sequência de palavras não respeitar tais regras, teremos uma sequência
agramatical, como no exemplo “Minha copo cheia está muito quase”, que não
atende às regras estruturais fundamentais da língua.
Essa nova proposta de análise dos fatos linguísticos pertence ao que é
chamado de gramática gerativa, pois uma quantidade limitada de regras possibilita a
elaboração e a compreensão de uma quantidade infinita de sentenças novas. A
preocupação dos gerativistas é captar propriedades comuns e universais da
linguagem, que compõem a gramática universal (GU). Como afirma Petter (2008, p.
22), na perspectiva gerativa “as propriedades formais das línguas e a natureza das
regras exigidas para descrevê-las são consideradas mais importantes do que a
investigação das relações entre a linguagem e o mundo.”
Há ainda a gramática funcional, que apresenta outra proposta para explicação
dos fatos linguísticos, com base nos fundamentos do funcionalismo. A gramática
funcional não separa os elementos linguísticos das funções que eles exercem nas
sentenças, considerando o uso desses elementos na interação verbal. Ademais,
abrange toda a situação comunicativa na análise da estrutura gramatical, como a
intenção comunicativa, os falantes envolvidos e o contexto de comunicação.
Essa teoria funcionalista se desenvolveu especialmente na Escola Linguística
de Praga, originada no Círculo Linguístico de Praga, criado em 1926. Os linguistas
da Escola de Praga elaboraram a definição da perspectiva funcional da sentença,
afirmando que pode haver diferentes versões da mesma sentença e que sua
estrutura é determinada pelo uso, pela situação de comunicação em que os
enunciados são emitidos e pelo fato de envolver informações conhecidas ou novas
para o ouvinte. Para exemplificar podemos considerar as sentenças “Maria trabalhou
ontem à tarde” e “Ontem à tarde Maria trabalhou”, que, na verdade, são versões
diferentes de uma mesma sentença e que serão empregadas conforme os critérios
mencionados. Uma grande contribuição do funcionalismo nos dias de hoje é a
afirmação de que a língua é, antes de qualquer coisa, uma ferramenta de interação,
utilizada para firmar relações comunicativas entre os indivíduos.
Vimos algumas propostas para descrição e explicação da linguagem, que não
são exclusivas, são diferentes abordagens e corroboram para a compreensão de
que a linguagem pode ser estudada de diversas perspectivas. Há o estudo de
aspectos internos da língua, mas há também pesquisas que levam em consideração
fatores externos como a sociedade, a história e o contexto de comunicação.
2. Língua e Cultura
2.1 Língua como instrumento de comunicação
Atualmente, é um consenso o reconhecimento da relevância da comunicação
para os dias de hoje e para toda a história da humanidade, podendo-se dizer que a
mesma fundou a sociedade, afinal de contas a comunicação é a ferramenta que
utilizamos para interagir, para representar ideias, para transmitir conhecimento, para
compartilhar informações, para conviver uns com os outros, para propagar a cultura,
entre outros, podendo fazê-la por diversos tipos de linguagem, por diferentes
conjuntos de signos verbais e não verbais.
Nos estudos sobre a linguagem, a comunicação também é considerada
fundamental, contudo essa função essencial da linguagem enquanto objeto de
comunicação nem sempre foi reconhecida, pois nos estudos gramaticais do século
XIX a língua era vista apenas como uma representação de uma estrutura de
pensamento, que não necessitava da formalização linguística para existir. Para os
estudiosos dessa época a comunicação, caracterizada pela “lei do menor esforço”,
era a responsável pela desorganização gramatical das línguas, causando o seu
declínio e as transformações linguísticas julgadas como ruínas linguísticas. Barros
(2008, p. 26), para exemplificar esse pensamento, diz que “o português e o italiano
(...) seriam ‘restos’ em decadência do latim”. Isso quer dizer que se não houvesse
comunicação, a língua teria a sua estrutura conservada e não haveria mudanças
linguísticas, vistas por esses gramáticos como algo prejudicial ao que era
considerado o padrão correto das línguas.
Entretanto, no início do século XX, Saussure afirmou que a língua é
essencialmente um instrumento de comunicação, ocasionando uma ruptura com
essas concepções anteriores. Assim, um dos grandes efeitos da linguística
saussureana foi incluir o estudo da comunicação nas investigações e pesquisas
linguísticas.
Como vimos, através da comunicação podemos aprender e transmitir novas
informações, conhecimentos, valores, costumes e crenças tradicionais existentes em
nossa sociedade e constituintes de nossa cultura. Vejamos a seguir um pouco mais
sobre a concepção de cultura e sua relação com a língua.
2.2 As línguas e a cultura
O conceito de cultura pode ser definido como o conjunto de todas as criações
humana ou como o resultado da ação do homem sobre a natureza, modificando-a.
Com as modificações genéticas que foram ocorrendo no processo de
evolução humana, o homem foi se diferenciando dos outros animais ao adquirir a
capacidade simbólica e a capacidade de utilizar instrumentos para conseguir o que
queria. Os nossos ancestrais não tinham uma vida fácil, pois não eram muito fortes –
comparando-os com os outros animais da época – nem especializados, já que não
podiam voar como os pássaros, não podiam viver na água como os peixes, não
tinham a visão aguçada como a da águia, não possuíam veneno como o das cobras
para se defender, nem a velocidade de animais como os leões, enfim, os seres
humanos eram totalmente primitivos.
Como será, então, que um animal tão indefeso e sem “recursos” conseguiu se
tornar o “dono do mundo”? A resposta está justamente no desenvolvimento da
capacidade simbólica – em que pôde desenvolver a linguagem – e na capacidade de
usar instrumentos – que lhe permitiu a invenção de variados objetos que lhe
auxiliassem. Não é à toa que, hoje, o ser humano é capaz de voar por meio dos
aviões, ir ao fundo do mar com os submarinos, enxergar a longas distâncias através
dos telescópios, enxergar coisas minúsculas usando o microscópio e até ir a outros
planetas. Todos esses conhecimentos e invenções humanos constituem a sua
cultura. Entre todas as suas criações, talvez a mais impressionante tenha sido a
linguagem simbólica, mais especificamente, a linguagem verbal, a língua.
É a língua que expressa a cultura dos povos e, ao mesmo tempo, a língua faz
parte da cultura, ou seja, para falar de nossa cultura usamos a língua, que faz parte
da cultura e não pode ser considerada isoladamente, mas sim com uma parcela de
todo o contexto cultural.
Em geral, as pessoas acreditam que, para se aprender uma segunda língua,
basta decorar uma lista de palavras desse idioma. Nessa concepção, a língua é
vista como um simples repertório, um conjunto de palavras que se diferenciam das
palavras de outras línguas pela diferença dos nomes dados a cada coisa.Esse
pensamento não é verdadeiro, pois, como já dissemos, as línguas expressam a
cultura e as experiências de cada povo, e sabe-se que as culturas não são iguais.
Conclui-se então que, para se dominar outra língua, não basta traduzir cada palavra,
é preciso se conscientizar de que há culturas diferentes e mudar a visão de mundo
de acordo com a cultura referente à nova língua que se quer aprender. Sendo assim,
o sinônimo de língua como lista de palavras não é correto.
Um exemplo bastante citado para explicar a noção de “língua como visão de
mundo”, ou seja, para explicar a ideia de que cada língua “enxerga” a realidade de
uma determinada forma é relativo às cores do arco-íris (resultado da refração da luz
solar). Em português, utilizamos sete palavras que nomeiam as cores do arco-íris –
vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta (ou roxo); em inglês, utilizamos
seis palavras, porque a língua inglesa não faz distinção entre roxo e anil, como nós
fazemos. Há outras línguas que dividem de várias outras formas o espectro das
cores, como a língua bassa, uma língua indígena da Libéria, na África, que as divide
em dois grandes grupos: cores quentes (chamadas ziza) e cores frias (chamadas
hui). Na realidade, o que vemos no arco-íris não está dividido com nitidez, não há
um traço indicando onde termina o azul e começa o verde, consequentemente, cada
cultura divide as cores do arco-íris de uma forma peculiar e cada língua “recorta a
realidade de um modo particular” (Lopes, 2001, p. 21), expressando as experiências
de cada povo ou comunidade, que podem não coincidir de um local para o outro.
Outro exemplo da representação variada da realidade pelas línguas naturais é
a denominação relacionada ao indivíduo que guia um automóvel. Em francês essa
pessoa é chamada de chauffeur, em inglês de driver, em espanhol de conductor e
em português chamamos de motorista. Observando tais nomenclaturas, é possível
constatar que os franceses associam esse indivíduo à atividade de aquecer o motor
para que o automóvel entre em movimento; os ingleses e os espanhóis fazem uma
associação com o ato de dirigir ou conduzir o veículo; e nós, falantes da língua
portuguesa, associamos tal indivíduo diretamente ao motor do carro. A atividade é a
mesma, mas cada comunidade e cada língua a analisa sob um aspecto particular,
resultando numa representação que difere de uma comunidade de falantes para
outra.
As línguas, além de analisar a realidade de maneira diferente, também
possuem sons típicos ou fonemas que reforçam essa especificidade de cada língua,
ou seja, os fonemas que são utilizados por falantes de diferentes idiomas para sua
expressão apresentam semelhanças, porém não são exatamente iguais. Essas
diferenças são percebidas quando observamos o inglês, o francês e o espanhol, por
exemplo, e quando tentamos aprendê-las. No inglês há o som representado pelas
letras “th” (como em “thanks”, que significa obrigado), cujo fonema usado em sua
expressão oral não existe na língua portuguesa, podendo causar certa dificuldade no
aprendizado de sua pronúncia, pois na realidade, os fonemas de duas línguas são
tão distintos, que quando um indivíduo escuta uma língua que desconhece, é
comum ele ter dificuldades para reproduzir tais fonemas com precisão.
Enfim, cada língua expressa a cultura ligada a ela, não podendo traduzir com
exatidão a língua e a cultura de outras sociedades, e isso reforça o fato de que a
língua e a cultura se relacionam, a língua expressa a cultura e também faz parte
dela. Como a Linguística é uma disciplina interdisciplinar, o estudo dessa relação
entre língua e cultura também faz parte de seu campo de pesquisa e quadro teórico.
2.3 O modelo de comunicação da teoria da informação
Como a comunicação é uma função essencial da língua e está diretamente
ligada à cultura, veremos aqui um modelo de comunicação elaborado não
especificamente pelos estudos linguísticos, mas por estudos que constituíram a
teoria da informação e da comunicação, que influenciou os estudos da Linguística,
especialmente nos anos 1950.
É relevante saber que a teoria da informação investiga a comunicação de um
ponto de vista diferente dos estudos linguísticos e com objetivos voltados, segundo
Barros (2008), para a medida da informação, que é a quantidade de informação
transmitida durante uma comunicação, e para a economia da mensagem, que
aborda questões referentes a uma codificação eficaz, à habilidade de transmissão
do canal de comunicação e também à eliminação de ruídos que podem causar
resultados indesejáveis.
O modelo apresentado a seguir diz respeito a uma das propostas mais
conhecidas entre os linguistas. Foi elaborado por C. F. Shannon, que apresentou o
seguinte esquema para a comunicação (in Barros, 2008, p. 26):
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Shannon_Weaver_-
_Modelo_de_Comunica%C3%A7%C3%A3o.png
De acordo com esse esquema da comunicação, há um emissor e um
receptor, com divisão em duas ou mais caixas, que separam o processo de
codificação e decodificação da emissão e da recepção da mensagem. Há um canal,
que consiste num suporte material ou sensorial, cuja função é transmitir a
mensagem de um local a outro; e há também uma mensagem, que é o resultado da
codificação, sendo compreendida durante a transmissão por meio de uma sequência
de sinais. Antes da transmissão da mensagem, há os procedimentos de codificação,
utilizadas para elaborar a mensagem, e entre a recepção e o destino há os
procedimentos de decodificação, que possibilitam o reconhecimento e a
identificação dos elementos que constituem a mensagem. Os ruídos, elementos
diversos que interferem na comunicação, podem causar tal interferência durante
todo o trajeto da informação e prejudicar a eficiência da comunicação. Há vários
tipos de ruídos:
• Ruídos físicos: barulhos, ruídos, problemas no canal de comunicação, entre
outros;
• Ruídos psicológicos: desinteresse, desatenção, etc.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Shannon_Weaver_-_Modelo_de_Comunica%C3%A7%C3%A3o.png
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Shannon_Weaver_-_Modelo_de_Comunica%C3%A7%C3%A3o.png
• Ruídos culturais: falta de conhecimento dos códigos, falta de conhecimento
de crenças e valores em comum, etc.
Para resumir, nesse esquema a comunicação é apresentada como um
mecanismo de transmissão de mensagens de um emissor para um receptor,
organizadas de acordo com um código e através de sequência de sinais. A
preocupação principal desse modelo de comunicação da teoria da informação é
aprimorar a transmissão da mensagem, no que diz respeito aos significantes usados
na expressão sensorial.
Ainda com relação a esse modelo de comunicação, Barros (2008, p. 27)
afirma que quando levamos em consideração a comunicação entre os seres
humanos, especialmente na comunicação verbal oral ou escrita, é constatado que a
comunicação possui outros fins e são identificadas algumas dificuldades nas ideias
da teoria da informação, apontando três dessas dificuldades, com críticas e soluções
possíveis:
1) Simplificação excessiva da comunicação: esses esquemas da
comunicação acabam simplificando demais a comunicação verbal;
2) Modelo linear da comunicação: na teoria da informação a comunicação
é contemplada linearmente e trata somente, ou preferencialmente, do
plano de expressão, dos significantes (sequência de sinais das
mensagens);
3) Caráter mecanicista do modelo: nas concepções da teoria da
informação, as questões extralinguísticas, culturais e sócio históricas não
são levadas em consideração.
Diante dessas dificuldades apresentadas, os estudos da linguagem
pretenderam sanar as limitações presentes nos esquemas e modelos propostos pela
teoria da informação, complementando as informações muito simplificadas sobre a
comunicação e rever a questão dacomunicação sob outra perspectiva, atentando
para os tópicos criticados concernentes ao caráter linear e mecanicista.
Um dos linguistas que mais contribuíram para complementar e ampliar as
propostas e modelos da teoria da informação, de maneira a abranger a comunicação
verbal, foi Roman Jakobson (1969). Para ele, os estudos sobre a informação devem
considerar que na comunicação há um remetente ou emissor que envia uma
mensagem a um destinatário ou receptor. Para que essa mensagem seja eficiente é
necessário que haja um contexto a que se refere (ou um referente) decifrável pelo
remetente e pelo destinatário, um código (linguagem verbal ou não verbal) que seja
comum e conhecido por eles e um contato ou um canal entre o emissor e o receptor,
que possibilite essa comunicação.
O estudioso Ignácio Assis Silva (1972) propõe mais alguns detalhes ao
modelo de Jakobson incluindo, por exemplo, os subcódigos junto aos códigos, que
abordam a questão da variação linguística, investigada mais detalhadamente pela
sociolinguística, dialetologia ou geografia linguística (ou geolinguística).
Além de contribuir com a ampliação do modelo da teoria da informação,
especialmente referente aos códigos e subcódigos, Jakobson sugeriu a existência
de uma variedade das funções da linguagem, um estudo que também se refere à
comunicação e que é considerado a sua contribuição mais conhecida. O teórico
constatou que a língua deve ser estudada levando em consideração essa variedade
de funções e não apenas a função informativa (também chamada de referencial)
como faziam os teóricos da informação.
Dessa forma, Jakobson apresentou seis funções da linguagem e explicou que
um mesmo texto ou uma mesma mensagem pode apresentar várias funções
simultaneamente, contudo em geral há uma função predominante. São elas:
• Função emotiva: é centrada no remetente, faz uso da 1ª pessoa, apresenta
aspectos ou características subjetivas, utiliza modalizadores referentes ao
saber (eu acho, eu considero, eu acredito, etc.), utiliza recursos prosódicos
como pausas, hesitações, exclamações e interjeições. Há efeitos de
subjetividade, emotividade e proximidade do sujeito, que relata o seu ponto
de vista, sentimento e emoções. Um exemplo de texto que contém essa
função são poemas em 1ª pessoa ou uma carta de amor.
• Função referencial: é centrada no contexto ou no referente, faz uso da 3ª
pessoa, apresenta aspectos ou características objetivas e concretas, há uma
relação de afastamento do sujeito. Sua função é transmitir objetivamente uma
informação, como textos científicos ou jornalísticos, por exemplo.
• Função poética: é centrada na mensagem, faz uso de procedimentos no
plano da expressão, como formas de utilização dos sons (ritmos, entoações,
rimas, entre outros) e figuras de linguagem, com efeito de sentido que rompe
o discurso comum e busca a perfeição no funcionamento da linguagem e na
aproximação entre expressão e conteúdo. O exemplo mais citado é a poesia,
a literatura, mas pode ocorrer também em textos publicitários, jornalísticos ou
religiosos.
• Função fática: é centrada no contato ou no canal, faz uso de procedimentos
prosódicos da fala ou expressões prontas para iniciar (bom dia, oi, tudo
bem?), manter (ahã, sei, entendo), verificar (está ouvindo?, está
entendendo?) e encerrar (tchau, até mais) o contato entre os interlocutores.
Os efeitos de sentidos consistem em aproximação e interesse entre
remetente e destinatário, de maneira a garantir a interação de ambos. É a
função da conversa, do diálogo, do contato com o outro.
• Função metalinguística: é centrada no código, faz uso de verbos de
existência e significação (ser, significar), é comum o emprego do presente do
indicativo, em orações predicativas de definição (X é ou significa Y). O efeito
de sentido é referente à definição, é a linguagem que fala de linguagem,
como definições presentes em dicionários, gramáticas, entre outros.
• Função conativa: é centrada no destinatário, faz uso da 2ª pessoa, do
imperativo, do vocativo, de perguntas e respostas, entre outros. Está presente
em textos que produzem efeitos de sentido de interação com o destinatário,
objetivando convencê-lo ou persuadi-lo a fazer ou falar algo. Um exemplo
bastante representativo são os textos publicitários, que em geral pretendem
convencer o destinatário a adquirir algo ou adotar determinado
comportamento.
Barros (2008) resume que a principal colaboração de Jakobson para o estudo
da comunicação diz respeito à inclusão das questões sobre variação linguística no
modelo de comunicação através dos códigos e subcódigos, e de como ocorrem na
relação entre remetente e destinatário. Além disso, o estudioso destaca que os
falantes se comunicam de diversas maneiras e com diferentes objetivos, haja vista a
variedade de funções da linguagem existentes no processo de comunicação, que
não são exclusivas nem excludentes, mas são empregadas conforme o critério de
predominância. As críticas feitas aos estudos propostos por Jakobson apontam que
ele não analisa de maneira adequada as relações sócio históricas e ideológicas da
comunicação e também não aborda claramente a reciprocidade ou circularidade que
são características da comunicação humana, ou seja, seu modelo ainda possui o
caráter mecanicista da teoria da informação. Apesar de ampliar e complementar
significativamente esse modelo da teoria da informação, a comunicação continuou a
ser considerada apenas como um fazer-saber, ou seja, vista como a transmissão de
saberes acerca do mundo, das emoções do remetente, do código, do plano da
expressão da mensagem e do funcionamento do contato; apenas na função conativa
há um fazer-fazer ou um fazer o outro fazer, já que trabalha com o efeito de
persuasão.
Contudo, esses aspectos criticados foram tratados posteriormente por outras
áreas de estudo como a Análise do Discurso, por exemplo, que retoma as questões
sócio históricas e ideológicas; já a reciprocidade ou a circularidade são estudadas
por linguistas e teóricos da comunicação, como veremos a seguir.
2.4 A interação verbal: modelo linear e circular da comunicação
Vimos que os modelos da teoria da informação retratados anteriormente são
basicamente lineares, pois abordam a transmissão da mensagem de um emissor a
um receptor, sem tratar da reciprocidade ou da circularidade que caracterizam a
comunicação humana, uma vez que é possível que o receptor se torne emissor e
assim manter ou dar continuidade à comunicação. Em resposta a esses modelos
lineares de comunicação, a partir dos anos 1950, nos Estados Unidos, foram
desenvolvidos estudos que sugeriram um modelo circular para a comunicação,
resultando numa teoria da nova comunicação, abordando as concepções de
feedback e realimentação.
De acordo com essa nova teoria, a comunicação deve ser relacionada ao
emissor e ao receptor, considerando-a um sistema interacional, em que importam
tanto os efeitos da comunicação sobre o receptor, como os efeitos que a reação do
receptor causam sobre o emissor.
Benveniste (1966) tratou em seus estudos sobre a reciprocidade da
comunicação, afirmando que o “eu”, ao dizer “eu” situa o “tu” como seu destinatário
ou receptor, todavia esse destinatário pode tomar a palavra e dizer “eu”, instalando
agora o outro como “tu”. De acordo com o teórico o diálogo consiste na condição da
linguagem humana, marcada pela reciprocidade ou reversibilidade.
Assim, especialmente os linguistas norte-americanos desenvolveram estudos
sobre a interação entre sujeitos durante a comunicação. Bakhtin (1981) foi o primeiro
a desenvolver estudos sobre a interação e o diálogo entre interlocutores, buscando
demonstrar que a interação verbal é a realidade essencial da linguagem. Ao lado
dos estudos sobre dialogismo, surgiram outros dois estudos da interação – a
sociologia da comunicação,que tem Goffman como um importante representante, e
a análise da conversação, de linha etnometodológica.
Na sociologia da comunicação, o linguista Goffman (1967 e 1973) investigou
formas de preservação da face na comunicação, isto é, a face é a expressão social
do eu individual (ou a autoimagem pública construída) e a interação pode colocá-la
em risco. Sendo assim, o teórico em questão apresenta estratégias que servem para
ameaçar e atingir a face do outro, mas também para preservar e proteger a mesma;
essas estratégias variam de língua para língua, de cultura para cultura.
Barros (2008, p. 43) exemplifica a proteção de face através das sentenças:
a) Saia já daqui!
b) Saia daqui, por favor.
c) Você poderia sair daqui?
d) Será que você poderia sair daqui, por favor?
A sentença (a) exemplifica um efeito de ordem categórica, que é uma ameaça
à face do destinatário, indicado pelo imperativo “saia” e pelo advérbio “já”. Os
demais exemplos apresentam graus diferentes de atenuação do discurso, que
protegem a face do destinatário, como o uso de “por favor”, do verbo “poder” e da
interrogação, elementos característicos de um pedido.
Já a Etnometodologia analisa a interação social no comportamento diário e
cotidiano, considerando a conversação ou a interação verbal como uma maneira
privilegiada de interação. Dessa forma, a análise da conversação pretende
descrever as estruturas e os mecanismos organizadores da conversação, e fazer
uma relação dessas estruturas com as funções interacionais.
No estudo da comunicação enquanto interação destacam-se cinco questões:
1) A questão de que os falantes se constroem e constroem em conjunto o
texto no processo de comunicação, ou seja, os sujeitos se modificam, se
transformam e se constroem na comunicação. Para Bakhtin, no diálogo
são construídas relações intersubjetivas e a subjetividade, pois os sujeitos
são influenciados e substituídos por diversas vozes que os constituem
sujeitos históricos e ideológicos.
2) A questão das imagens ou dos simulacros construídos pelos interlocutores
na interação, pois para Pêcheux na análise do discurso o remetente e o
destinatário definem um jogo de imagens do qual dependem a
comunicação e a interação, abrangendo a imagem que o emissor faz de si
mesmo, a imagem que o emissor faz do receptor, a imagem que o
receptor faz dele mesmo e a imagem que o receptor faz do emissor. Para
exemplificar Barros (2008, p. 44) cita uma situação em que a mãe diz para
a filha que determinada forma de se vestir é inadequada para uma
cerimônia de casamento; a filha, por sua vez, pode não acreditar na
afirmação da mãe, pois a associa com uma imagem de conservadorismo,
contudo se uma amiga expuser a mesma opinião, é mais provável que ela
troque de roupa.
3) A questão do caráter polêmico ou contratual da comunicação, em que é
possível situar os estudos de Goffman sobre a preservação e a ameaça à
face, e estudos da análise da conversação sobre o lado contratual e a
polêmica conversacional, levando em consideração a abordagem de um
tema em que os interlocutores concordam ou discordam; assim há
estratégias de discordância, como correção do outro, sobreposição de
vozes, assalto ao turno do outro, entre outros.
4) A questão de que não é mais possível colocar a mensagem somente no
plano dos significantes ou da expressão quando se considera a relação
entre comunicação e interação, pois a mensagem comunicada além de ser
a expressão de significantes que circula como um sinal entre emissor e
receptor, é também um discurso, conforme definido por Pêcheux, pois está
carregada de conteúdos e significados.
5) A questão do aumento da circulação do dizer na sociedade, pois muitas
vezes a comunicação deixa de ser intimista e apenas um diálogo entre o
“eu” e o “tu”, aqui e agora, tendo sua circulação alargada socialmente,
como uma entrevista na televisão ou na imprensa escrita, e um júri.
Vimos, portanto, a contribuição dos estudos interacionais da comunicação,
sobretudo a característica da reciprocidade da comunicação, que é dialógica.
2.5 Linguagem falada e linguagem escrita
Para concluir essa abordagem sobre a comunicação, língua e expressão da
cultura, é relevante considerarmos a linguagem falada, a linguagem escrita e suas
especificidades.
Como sabemos, a linguagem escrita é um dos meios visíveis de expressão
mais comuns. Em algumas situações, inclusive, o linguista precisa utilizar esse meio
para realizar suas análises, como, por exemplo, quando investiga uma “língua
morta”, por meio de documentos antigos, como o latim e o grego clássico.
Entretanto, é preciso considerar as duas modalidades da expressão linguística, pois
fala e escrita possuem uma função relevante na comunicação.
Em nossa sociedade, durante muito tempo (e esse pensamento ainda perdura
nos tempos atuais), a escrita foi priorizada nos estudos linguísticos por representar
um padrão da língua, sendo-lhe atribuído um papel superestimado em nossa cultura.
Essa importância da linguagem escrita deve ser assinalada, haja vista que ela está
diretamente ligada à expressão e conservação das conquistas e dos avanços das
ciências e das artes, todavia ao relacionar as duas modalidades da expressão
linguística – fala e escrita – constata-se que a invenção da escrita é algo recente, se
comparada com a antiguidade da fala. Lopes (2001, p. 33) diz que a fala “se
confunde com a própria origem do homem”.
Os primeiros registros a serem considerados tipos de escrita são inscrições
sumérias, egípcias e indianas, que não possuem mais que cinco ou seis mil anos; e
o que aconteceu na história da humanidade ainda ocorre na contemporaneidade, ou
seja, nós seres humanos ainda aprendemos primeiro a falar para depois
aprendermos a escrever. Além disso, segundo os linguistas, a fala tem mais
possibilidade de sobreviver do que a escrita, pois a modalidade escrita poderia ser
substituída por outro tipo de modalidade de expressão e registro, porém seria
praticamente impossível imaginar outro sistema ocupando o lugar da fala e
inutilizando-a.
Outro aspecto importante é que, diferentemente da escrita, a fala é universal,
independente do grau de desenvolvimento de um povo ou comunidade. Não existe
um só povo que não se comunique através da linguagem falada; entretanto, há
muitos povos que não possuem e que desconhecem qualquer sistema de escrita.
Ademais, todos os sistemas de escrita existentes têm como base a linguagem
falada, sendo secundários a ela. Por essa razão, Saussure concluiu que a principal
função da escrita é representar a fala.
Observando essa relevância da fala, ao analisar a linguagem escrita sem
considerar também a análise da linguagem falada, o pesquisador em questão pode
acabar cometendo equívocos interpretativos, como a não percepção da existência
de mais morfemas do que fonemas, por exemplos, ou seja, um mesmo morfema ou
uma mesma palavra podem ser pronunciados da mesma maneira ou pode haver
omissão de alguns morfemas na fala, uma vez que a fala tende a ser menos
redundante e mais econômica do que a escrita. Isso pode ser exemplificado, por
exemplo, quando na escrita registramos “está”, mas na fala dizemos simplesmente
“tá”, ou quando, em uma sentença que está no plural, marcamos o fonema /s/
apenas no primeiro elemento da sentença para indicar o plural, mas os demais
permanecem sem essa sinalização, por ser desnecessário e tornar a fala mais
prática, como “Os menino estuda aqui perto.”.
Assim, quando uma pesquisa linguística se baseia somente no levantamento
de traços da modalidade escrita apresenta resultados diferentes de pesquisas que
consideram também as peculiaridades da modalidade falada. Por conta disso, os
linguistas procuram investigar os fatos linguísticos enquanto fenômenos que
constituem um sistema convencional de signos orais, tendo como objeto de estudoespecialmente a língua falada.
3. O Estruturalismo de Saussure e a dupla articulação da linguagem
3.1 Saussure e o Estruturalismo
A Linguística moderna teve início com a publicação, em 1916, do livro Curso
de Linguística Geral, de Ferdinand de Saussure. Essa publicação marca uma
reviravolta nos estudos linguísticos, até então voltados para a Filologia e para os
estudos comparativistas entre as línguas. A obra traz uma nova visão sobre as
questões linguísticas, afirmando, entre outras coisas, que as línguas são sistemas
cujas estruturas e funcionamento devem ser estudados internamente, não sendo
dependentes de fatores externos, como a história. Saussure fez uma separação
entre a linguística interna (fora do contexto sócio histórico) e a linguística externa (a
que considera os fatores exteriores que condicionam os fenômenos linguísticos).
O curioso é que Saussure, fundador da ciência Linguística moderna, faleceu
sem ter ideia do papel que representaria para os estudos da linguagem. Ele faleceu
em 1913 e três anos após a sua morte houve a publicação do Curso de Linguística
Geral (conhecido como CLG), organizado por dois de seus discípulos (alunos), Ch.
Bally e A. Sechehaye, que utilizaram as anotações feitas durante as aulas, já que
não puderam contar com os manuscritos do mestre para auxiliá-los.
Ferdinand de Saussure nasceu em Genebra, em 26 de novembro de 1857.
Em 1880, foi para Paris assistir a cursos na Escola de Altos Estudos, universidade
francesa. Um ano depois, Michel Bréal, seu professor, cedeu-lhe seu curso na
escola e, assim, com apenas vinte e quatro anos, Saussure foi nomeado “mestre de
conferências de gótico e de velho alto-alemão”. Era a primeira vez que se ensinava
Linguística em uma universidade francesa e seus cursos ficaram famosos. Em 1891,
transferiu-se para Genebra, onde lecionou na cadeira de Linguística, criada
especialmente para ele, até sua morte em 1913.
Por muitos anos, Saussure estudou a versificação indo-europeia arcaica,
elaborando a hipótese dos anagramas (palavras formadas por letras transpostas de
outras palavras, por exemplo, da palavra “Maria” podemos formar “Airam”, de
“Iracema” podemos formar “América”, de “Roma” pode-se formar “amor”) e se
devotou a uma série de interesses no campo da Literatura. Mas o Saussure que
passou à história, que teve sua imagem realmente reconhecida, é o do monumental
Curso de Linguística Geral.
A noção de sistema (conjunto de partes interdependentes) foi depois
denominada estrutura pelos sucessores do mestre. Saussure tinha uma visão
estruturalista, estudou a estrutura (a forma) da língua e, por isso, é considerado o
“pai” do estruturalismo (na Linguística). O primeiro professor de Linguística ilustra a
noção de sistema usando o jogo de xadrez como exemplo. Nesse jogo, o valor
atribuído a cada peça não tem a ver com o material de que é feita (pode ser de
plástico, de madeira, de cristal, de metal), nem mesmo com a sua aparência
(podemos usar botões coloridos, ao invés das peças), mas tem a ver com a relação
de oposição que cada peça tem com as outras peças e com a posição que tem no
conjunto total. Por exemplo, um cavalo pode ser feito de qualquer material, pode ser
até um botão colorido, mas o seu valor advém da sua oposição às demais peças (se
opusermos cavalo e peão, o cavalo vale mais, mas vale menos que a dama, por
exemplo) e da sua posição no jogo (pode movimentar-se em “L”). A identidade de
cada peça no jogo de xadrez depende do seu lugar no tabuleiro, das regras de sua
movimentação, do seu valor no jogo. Diríamos então que a estrutura do jogo de
xadrez é composta do valor de cada peça, do número delas, e das regras para o
jogo.
De maneira similar, qualquer unidade da língua se define em relação às
outras entidades e pela posição que ocupa no todo, no sistema. Um fonema, como o
/t/, só pode ser analisado e adquirir um valor com relação a todos os outros fonemas
do português, opondo-se a cada um deles – é diferente de /d/, de /f/, de /n/, etc. Um
fonema sozinho não seria um fonema, mas apenas um som, já que não sabemos a
que língua pertence e que relações de oposição mantém com o sistema linguístico.
E é seguindo o mesmo raciocínio que podemos analisar palavras, prefixos, sufixos,
etc. Por exemplo, {-izar} é um sufixo do português, que forma verbos como
imortalizar, radicalizar, mas não o é do Inglês. Já {-ing} pertence ao inglês e não ao
português, como em running.
Essas concepções sobre a estrutura das línguas, a visão da língua como
sistema, fazem de Saussure o “pai” do estruturalismo, corrente de pensamento que,
a partir da Linguística, vai atingir vários outros campos das chamadas Ciências
Humanas. Em suma, o estruturalismo procura explicar um sistema a partir de suas
próprias leis, sem considerar outras explicações ideológicas ou históricas.
São exemplos de outros campos em que essa corrente de pensamento foi/é
utilizada:
- A Semiologia (que analisa os vários sistemas de significação) de Roland Barthes;
- A Antropologia (que estuda o homem e suas características) de Lévi-Strauss;
- A Psicanálise (método de investigação psicológica) de Lacan;
- A marxologia (estudo das ideias de Karl Marx) de Althusser;
- Michel Foucault, com contribuições em várias áreas;
- E a área de Teoria Literária, com vários trabalhos e autores que estudam ou
estudaram a forma, a estrutura do texto, e não a história, a época ou a vida do autor,
que seriam fenômenos externos à obra.
Das várias análises e contribuições do Curso de Linguística Geral, quatro
pares de conceitos são destacados, conhecidos como “as dicotomias
saussureanas”. A palavra dicotomia significa divisão em duas partes, ou seja, as
dicotomias são concepções teóricas com duas perspectivas diferentes para os
estudos linguísticos.
Assim, os quatro conceitos, que serão apresentados separadamente a seguir,
são:
a) Sincronia e diacronia;
b) Língua e fala;
c) Significante e significado;
d) Paradigma e sintagma.
3.2 A dicotomia Sincronia e Diacronia
A primeira dicotomia de Saussure que estudaremos será sincronia e
diacronia. Na palavra sincronia, o prefixo de origem grega {sin-} significa
conjuntamente, ao mesmo tempo e o radical {cronos} significa tempo. Por
conseguinte, sincronia se refere aos fatos que ocorrem simultaneamente ou ao
mesmo tempo. A Linguística sincrônica descreve o sistema linguístico (sons,
palavras, gramática) em um dado momento, não necessariamente no momento
atual, pois podemos estudar, por exemplo, a poesia medieval sem fazer nenhuma
comparação com poesias de outras épocas, realizando, assim, um estudo
sincrônico.
A descrição sincrônica apenas analisa o sistema linguístico, descrevendo sua
estrutura. Essa primeira grande dicotomia saussureana tem grande importância, pois
separa os fatores internos de um sistema dos fatores externos, históricos e culturais,
que condicionam esse sistema. De acordo com essa perspectiva, o tempo não é
fator determinante das mutações linguísticas, ele apenas permite que esses fatores
externos ajam uns sobre os outros, ocasionando as mutações.
Já na palavra diacronia, o prefixo de origem grega {dia-} significa separação e
o radical {cronos}, como já foi dito, significa tempo. A diacronia, portanto, identifica
os estudos dos fatos linguísticos que ocorreram em momentos diferentes. A
Linguística diacrônica analisa esses fatos, comparando-os com fenômenos
históricos, estuda as transformações históricas da língua. Por exemplo, quando
estudamos as mudanças que ocorreram no latim para que surgisse a língua
portuguesa, quando comparamos o português de hoje com o português medieval, ou
os sonetos da época de Camões com os sonetos modernos, ou quando estudamos
a mudança das palavras (“vossamercê” se transformou em “você”), estamos
fazendo estudos diacrônicos.
Saussure utiliza a seguinte figura para ilustrar essa dicotomia:
C
A B
D
Figura 1 – Dicotomia sincronia-diacronia.
Fonte: Saussure (1974, p. 95).
a) AB representa o eixo das simultaneidades, que diz respeito à sincronia, às
coisas que coexistem, sem a intervenção do tempo;
b) CD representa o eixo das sucessividades, que diz respeito à diacronia, às
coisas que acontecem temporalmente.
A Linguística sincrônica também é chamada Linguística estática, ou interna,
ou ainda Linguística dos estados. O objeto de estudo sincrônico é a organização do
sistema, sua estrutura. Já a Linguística diacrônica é conhecida também como
Linguística evolutiva, histórica, externa ou ainda Linguística dinâmica. Seu objeto de
estudo são os estados sucessivos dos sistemas, ou seja, as transformações e
mudanças que as línguas apresentam conforme passa o tempo.
Para melhor compreensão dos dois conceitos, vejamos suas principais
diferenças:
LINGUÍSTICA SINCRÔNICA
LINGUÍSTICA DIACRÔNICA
Estuda os fatos linguísticos simultâneos; Estuda os fatos linguísticos sucessivos;
Não considera o fator tempo; Considera o fator tempo;
É interna (estuda exclusivamente os
fatos próprios da língua);
É externa (inclui o estudo dos fatos
extralinguísticos, ou seja, sociais e
históricos, fora da língua);
É estática, pois se ocupa de um só
recorte temporal;
É dinâmica, pois considera vários
recortes temporais;
Não é histórica (não estuda a história
dos fatos da língua);
É histórica;
Não é, portanto, evolutiva.
É evolutiva (considera a evolução das
línguas e suas mudanças ao longo do
tempo).
Quadro 1 – Linguística sincrônica x Linguística diacrônica.
A imagem de Saussure está ligada à divisão entre Linguística interna e
Linguística externa, o que ocasionou várias críticas feitas a ele, como se a
Linguística saussureana fosse antifilológica, ou seja, contrária aos estudos históricos
das línguas. Apesar de ter realmente feito essa divisão, ele nunca negou a
importância da Linguística diacrônica (que ocupa uma boa parte do seu livro), sendo
ele mesmo um filólogo. O que aconteceu é que a repercussão do Curso de
Linguística Geral se deu por causa das novidades que havia ali, que são justamente
as teses que vão embasar os estudos estruturais, ou seja, a parte que trata da
Linguística sincrônica, interna. Por isso, ele é o mentor do estruturalismo e “pai” da
Linguística moderna.
Com relação a essa dicotomia, há ainda mais um fator importante: a
possibilidade de haver estudos sincrônicos e diacrônicos ao mesmo tempo
(chamados de pancronia, em que o morfema {pan-} significa tudo, todos). Saussure
admite que é possível realizar estudos linguísticos sob o ponto de vista pancrônico,
porém somente com relação às leis gerais da língua, pois, segundo ele, os fatos
particulares das línguas ou são estudados sob o ponto de vista sincrônico ou sob a
perspectiva diacrônica.
3.3 As dicotomias: Língua e Fala, Significado e Significante
Veremos agora mais duas dicotomias de Saussure, a começar pela Língua e
Fala (ou Linguagem, Langue e Parole). A linguagem humana é a capacidade que o
homem tem de comunicar-se com os seus semelhantes através de signos verbais e
essa linguagem verbal abrange a língua (langue) e a fala (parole), conforme o pai da
Linguística.
Saussure designa língua como o próprio sistema linguístico e fala como a
utilização concreta do sistema pelos falantes, distinguindo as duas. Voltando à
comparação com o jogo de xadrez, os valores das peças e as regras do jogo
formariam a língua, enquanto as jogadas feitas constituiriam a fala.
A língua é caracterizada pelo teórico como abstrata, pois ninguém conhece
tudo sobre a língua; coletiva, pelo fato de ser um conceito social definido pelo grupo
social ao qual o indivíduo pertence; e conceituada como o conjunto de todas as
regras fonológicas, morfológicas, sintáticas e semânticas que orientam o emprego
dos elementos linguísticos pelos falantes.
Já a fala, ao contrário da língua, é concreta, pois é composta de elementos
concretos que são os sons; e individual, uma vez que é realizada de maneira
diferente, dependendo do falante. Há uma liberdade de combinações na fala, visto
que cada um fala do seu jeito, combinando os fatores conhecidos da língua. Enfim, a
fala é o uso da língua, é a língua posta em prática, dependendo dela para existir.
Para finalizar, cabe aqui uma observação relevante: quando denominamos o
sistema como um conjunto das regras da língua, não estamos fazendo referência à
gramática normativa. Como já foi dito, a Linguística não faz julgamentos de valor
sobre as formas e usos linguísticos. Regras, nesse contexto, correspondem ao que
devemos respeitar para que fiquemos dentro do sistema da língua. Por exemplo, se
dissermos “nós queremos dois pastéis”, ou “nóis qué dois pastel”, estaremos dentro
do sistema da língua portuguesa, pois essas duas frases representam variedades da
nossa língua, pertencem ao nosso sistema linguístico e são compreendidas numa
situação de comunicação. Não importa se uma é considerada correta e bonita, e a
outra errada e feia, considerando que são falas diferentes, mas que pertencem ao
mesmo sistema, que não julga as realizações por serem diferentes; isso ocorre
apenas socialmente. Todavia, se dissermos “nós querer dois pastéis”, estaremos
usando uma frase que não pertence ao sistema do português, que não segue as
regras da nossa língua, haja vista que numa sentença o verbo deve ser conjugado;
apesar de ser compreendida, na verdade, falariam assim somente os estrangeiros,
que não dominam a maneira de se fazer a conjugação dos verbos.
Ainda com relação à dicotomia língua e fala, há um conceito que
complementa essa ideia de Saussure, proposta pelo linguista Eugenio Coseriu, que
introduziu na dicotomia saussureana língua e fala um terceiro elemento – a norma –
com o objetivo de esclarecer aspectos da análise linguística que essa dicotomia de
Saussure não resolve. Para Coseriu (1979), quando falamos, além de realizar
concretamente o sistema abstrato, estamos realizando o modo de falar do grupo
social ao qual pertencemos. Ou seja, o falante pertence a diversos grupos sociais
(definidos pela faixa etária, nível de escolaridade, região onde vive, etc.) e cada
agrupamento social possui uma determinada maneira de falar, que é a norma desse
grupo. Assim, temos uma norma culta, outra popular, outra infantil, outra paulistana,
outra carioca, e assim por diante. Vale lembrar que norma lembra “normal” e normal
é exatamente aquilo que as pessoas geralmente fazem, ou seja, aquilo que se
repete no comportamento social. É normal ir à praia de terno e gravata ou usando
salto alto? Não, pois quase ninguém faz isso. Quando dizemos que o
comportamento de alguém “não é normal”, estamos afirmando que esse
comportamento é incomum e diferente do das outras pessoas.
Se imaginarmos uma peneira e nela colocarmos todos os falares concretos
das pessoas de um determinado grupo social (por exemplo, as pessoas nascidas na
capital do Rio de Janeiro) e retirarmos dessa peneira tudo o que é realização
individual, modo de falar de cada indivíduo, teremos a fala. Se peneirarmos de novo,
retirando então tudo que se repete nas falas das pessoas cariocas, teremos a
norma. O que resta na peneira, retirados os falares individuais e os modos de falar
dos grupos, é o sistema, que é o conjunto de oposições funcionais básicas, das
regras que identificam uma língua.
Para facilitar, apresentamos um esquema, segundo as ideias de Coseriu
(1979):
SISTEMA (= LÍNGUA)
NORMA
FALAColetivo (mais
abrangente);
O falar do grupo social; Individual;
2º nível de abstração; 1º nível de abstração; Concreta;
Conjunto de oposições
funcionais, das regras.
Aquilo que se repete nas
falas, opção do grupo.
Realização do sistema e
da norma.
Quadro 2 – Sistema, norma e fala.
Exemplificando, quando chegamos a uma determinada cidade, logo
percebemos como as pessoas falam (os cariocas chiam o /s/, por exemplo, e dizem
quadro-negro, lanterneiro, trocador de ônibus). Concluímos, então, que a norma
carioca inclui esses elementos, esse é o modo de falar dos cariocas. Para
chegarmos a essa conclusão, não precisamos ouvir todas as pessoas do Rio de
Janeiro; fazemos uma abstração, a partir das repetições que percebemos nas falas
das poucas pessoas que ouvimos. A norma, portanto, não é concreta, é uma
operação de abstração que fazemos a partir das falas concretas que ouvimos. Mas é
um primeiro nível de abstração, pois, a partir das diversas normas existentes (por
exemplo, o modo de falar dos analfabetos, dos universitários, dos gaúchos, dos
mineiros, dos paulistanos, etc.), podemos fazer outra operação de abstração:
retirando-se tudo aquilo que é típico dos grupos, que se repete nas falas, tudo aquilo
que é normal, chegamos ao segundo nível de abstração, o sistema. Em outras
palavras, os falares individuais são diferentes, as normas dos grupos são diferentes,
mas mesmo assim concluímos que estamos utilizando a mesma língua, o mesmo
sistema.
Outra dicotomia que abordaremos se refere ao Significante e Significado. Em
sua terceira dicotomia, Saussure acredita que o signo linguístico, que é a palavra,
resulta da união de um conceito com uma imagem acústica (a memória com o som,
a lembrança mental que nós guardamos dos sons da palavra). Assim, para ele, o
signo linguístico é uma entidade dicotômica, isto é, dividida em duas partes, como
ilustrado a seguir:
Significado
Significante
A primeira parte, o significado, corresponde ao conceito que temos sobre os
fatos do mundo, ou seja, aquilo que entendemos a partir da palavra. Cada palavra
nos remete a uma ideia sobre algo: “banana” nos faz pensar em um determinado
tipo de fruta; “amor”, em um sentimento; “prédio”, em uma construção, e assim por
diante. O significado de uma palavra não é a “coisa material” a que a palavra se
refere, mas é o conceito que temos sobre essa coisa material.
A segunda parte, o significante, refere-se à parte concreta do signo, os
sons. Mas não é o som físico, é a impressão psíquica, mental, que guardamos do
som, é a imagem acústica da palavra. Portanto, “o signo linguístico não une uma
coisa e uma palavra, mas um conceito e uma imagem acústica.” (Saussure, 1974, p.
80).
Um signo qualquer, por exemplo o vocábulo “lápis”, seria assim dividido,
conforme essa dicotomia saussureana:
Significado Conceito: “objeto de madeira com
grafite, que serve para escrever”
LÁPIS = =
Significante Imagem acústica da palavra “lápis”
Observemos ainda duas características importantes referentes ao signo
linguístico. A primeira é a arbitrariedade do signo. Saussure afirma que a união do
significado com o significante é arbitrária, ou seja, imotivada (não há motivos
específicos para essa união). Por que “mesa” se chama assim? Porque assim foi
convencionada a nomeação desse objeto em nossa língua. Tanto isso é verdade
que, para o significado “planta leitosa, da família das euforbiáceas, cujos grossos
tubérculos, ricos em amido, servem para alimentação”, temos vários significantes,
em português: mandioca, aipim, macaxeira. Se o signo linguístico não fosse
imotivado, as diversas línguas denominariam da mesma forma os vários conceitos
sobre as coisas do mundo, ou seja, não haveria diferenças de nomeação entre as
línguas.
Entretanto, há uma exceção, pois existem signos que são parcialmente
motivados. São as onomatopeias, que são palavras formadas a partir dos sons
naturais, como, por exemplo, miar, cuco, mugir, cacarejar, arara, bem-te-vi. Mas as
onomatopeias não comprometem o princípio de arbitrariedade do signo, pois são
poucas em cada língua e representam, na verdade, a interpretação que cada língua
faz dos sons naturais, ou seja, são imitações aproximativas: em português o gato
mia, em Francês miaule, em Inglês mew; em português o som de tiros pode ser pá!,
pá!, ou pum!; em inglês pode ser bang!, bang!, e assim por diante.
Conforme os princípios dessa característica do signo linguístico é possível
efetuar a seguinte divisão:
• Signo arbitrário absoluto: é o signo que é tomado isoladamente
(exemplo: praticamente todos os signos);
• Signo arbitrário relativo: é signo enquanto elemento componente de
uma estrutura linguística (exemplo: as onomatopeias).
O segundo princípio do signo linguístico é a linearidade do significante ou da
imagem acústica, que se refere aos sons da língua. Nós falamos um fonema de
cada vez; cada fonema segue o outro, formando uma linha de vibrações acústicas, a
linha auditiva. É por essa razão que, quando escrevemos, usamos linhas, pois a
escrita representa a fala e esta é linear.
Os seres humanos utilizam diversos sistemas de significação para se
comunicar – lineares e não lineares. Um quadro, por exemplo, é apreendido
globalmente, através de nossa visão; não tem, portanto, linearidade como as
palavras. Vejamos exemplos de sistemas de significação quanto à linearidade:
• Língua (verbal): linear;
• Escultura: não linear;
• Desenho: não linear;
• Pintura: não linear;
• Dança: não linear;
• Música: linear;
• Gesto: não linear;
• Fotografia: não linear.
Da lista de exemplos, podemos concluir que a linearidade dos significantes
está ligada à sua natureza, ou seja, somente os que são de natureza auditiva são
lineares (a música e a língua); os de natureza visual em geral são percebidos
globalmente.
3.4 A dicotomia: Paradigma e Sintagma
A quarta dicotomia apresentada por Saussure diz respeito ao paradigma e ao
sintagma. Quando falamos, fazemos simultaneamente dois tipos de operações:
1) Escolhemos as palavras que queremos usar para nos comunicar, uma
a uma; essa escolha é tão rápida que nem sempre nos damos conta
dela; na verdade, quando paramos para “pensar” em alguma palavra é
porque estamos com alguma dificuldade em escolhê-la;
2) Combinamos as palavras em frases, para construirmos as nossas
mensagens.
Baseado nessa ideia, Saussure distinguiu dois eixos da linguagem: um
referente ao paradigma e o outro ao sintagma. Assim, temos:
A
(escolha)
B
(combinação)
Figura 2 – Paradigma e sintagma.
O eixo A é o eixo paradigmático ou o eixo das escolhas; o eixo B é o eixo
sintagmático ou eixo das combinações.
Há dois sentidos para a palavra paradigma:
a) Na gramática tradicional, paradigma significa padrão, modelo; é o conjunto
das desinências, ou flexões, de uma palavra. Falamos, por exemplo, no
“paradigma da primeira conjugação”, que são as terminações, ou desinências,
que os verbos regulares da primeira conjugação, terminados em {-ar},
recebem para cada tempo verbal (no presente do indicativo, o paradigma é –
o, -as, -a, -amos, -ais, -am), ou seja, todos os verbos regulares da primeira
conjugação se conjugam dessa maneira;
b) Em Linguística, paradigma é “uma classe de elementos que podem ser
colocados no mesmo ponto de uma mesma cadeia, ou seja, são substituíveis
ou comutáveis entre si.”(Câmara Junior, 1964, p. 236). Quer dizer, paradigma
é um conjunto de palavras substituíveis umas pelas outras, que podem
ocupar a mesma posição na frase. Para exemplificar, em uma frase, podemos
substituir um adjetivo por outro adjetivo, um verbo por outro verbo, um
advérbio por outro advérbio. O substantivo não pode substituir um verbo; se
dizemos “O bolo de laranja já esfriou”, não podemos substituir o verbo
“esfriou” por um nome, como “friagem”, mas podemos substituí-lo por outro
verbo, como “assou”, “acabou”. Notamos que “esfriou”, “assou” e “acabou”
fazem parte de um paradigma em comum e podem se substituir.
Saussure destaca também o caráter virtual dos paradigmas, já que os
elementos de um paradigma mantêm entre si uma relação abstrata, que nós
memorizamos. Nós sabemos que podemos substituir “esfriou” por “assou” se
quisermos, e não “esfriou” por “azedume”, contudo essa possibilidade é virtual, já
que não podemos colocar na nossa frase todos os verbos ao mesmo tempo.
As relações paradigmáticas são chamadas também de relações associativas,
pois o paradigma representa listas de palavras que temos em nossa memória e que
associamos segundo um critério. Para fazer essa associação, podemos partir de
vários pontos de vista ou critérios associativos:
1) Na lista de palavras praia – sol – mar – areia – sal – filtro solar –
insolação, por exemplo, temos o critério semântico, pois a lista se
refere a elementos da praia;
2) Na lista feliz – felicidade – infeliz – felicitar – felizardo – felicíssimo,
temos o critério morfológico, pois as palavras se associam pela forma;
3) Já em flor – amor – cor – pavor – sabor – calor – dor, há o critério
fonético, pois as palavras possuem o mesmo som final, ou seja, rimam.
O interessante é que uma palavra pode fazer parte de vários paradigmas. A
palavra “duro”, por exemplo, pode pertencer a paradigmas com critério semântico
(duro, rígido, árduo, em que o sentido das palavras é o mesmo), critério morfológico
(duro, dureza, endurecer, em que as palavras se associam pela forma) e critério
fonético (duro, puro, burro, em que há rima).
Uma última exemplificação: qual seria o critério associativo que nos fez criar
os paradigmas a seguir?
Paradigma A – bolo, vela, brigadeiro, salgadinhos, refrigerante, presentes;
Paradigma B – amarelo, amarelar, amarelado, amarelinha;
Paradigma C – bola, bela, pula, bala.
O paradigma A é formado sob um critério semântico (todas as palavras são
relativas à festa de aniversário); o paradigma B reúne palavras sob um critério
morfológico (todas as palavras têm o mesmo radical); e o paradigma C foi
organizado sob o critério fonético (há rima, o som final é idêntico).
Com relação ao sintagma, segundo Câmara Jr. (1985, p. 223), sintagma é o
“termo estabelecido por Saussure para designar a combinação de formas mínimas
numa unidade linguística superior”. O sintagma é o eixo da combinação das palavras
escolhidas nos paradigmas na frase. Por exemplo, uma frase qualquer, como “Hoje
eu vou à praia”, poderia ser modificada, ao substituirmos as palavras, a partir dos
paradigmas e novas combinações sintagmáticas.
São exemplos de paradigmas possíveis:
A – Hoje – ontem – amanhã – no próximo mês – no verão passado
B – Eu – tu – ele- nós – vós – eles
C – Vou – fui – irei – iríamos – fomos
D – À – na – até a
E – Praia – feira – farmácia – festa – escola
Utilizando a combinação dos elementos anteriores, seria possível formar
sintagmas como: “Ontem nós fomos até a farmácia”; “Amanhã irei à escola”, etc.
Todavia, não é só no nível da frase que podemos falar de sintagmas. A partir
do momento em que combinamos duas ou mais unidades linguísticas, estamos
produzindo sintagmas, nos diversos níveis linguísticos, pois o sintagma é a
combinação de elementos de um determinado nível numa unidade de nível superior.
Por exemplo, unindo um prefixo {re-} e um radical {ver} (nível dos morfemas, ou
“partes” da palavra), temos o sintagma ”‘rever” (nível morfológico, da palavra). Do
mesmo modo, unindo um artigo e um substantivo, temos o sintagma nominal “o
homem” (nível sintático dos termos da frase), que pode se combinar com um
sintagma verbal, por exemplo, “gosta de carros”, formando um sintagma maior “o
homem gosta de carros” (nível da frase). Assim, combinando as frases, produzimos
parágrafos, combinando parágrafos produzimos textos e assim por diante.
Finalizando, os dois eixos da linguagem se unem na formação da mensagem
que iremos transmitir, oralmente ou de forma escrita. Os paradigmas são formados
por palavras que podem ocupar a mesma posição em um sintagma, constituindo-o.
3.5 A dupla articulação da linguagem
Uma das principais características da língua é que ela é articulada, isto é, a
linguagem humana é composta de elementos mínimos que podem ser separados e
recombinados de forma diferente. Conforme Saussure (1974), a nossa linguagem é
duplamente articulada, pode ter essa separação de elementos mínimos em dois
níveis que veremos a seguir.
A primeira articulação da linguagem são os morfemas. O morfema, ou signo
mínimo, é a unidade mínima significativa da língua, ou seja, é a menor parte a que
chegamos quando dividimos os elementos linguísticos, sem perder o significado.
Por exemplo, a palavra “infeliz” pode ser dividida da seguinte maneira:
a) IN + b) FELIZ. Dizemos, então, que ela é formada por dois morfemas, que
são signos mínimos, dotados de significado e significante:
a) {in-} – significado = “negação”
significante = imagem acústica de “in”
b) {feliz} – significado = “contente, alegre”
significante = imagem acústica de “feliz”
A diferença entre eles é que o primeiro morfema possui significado gramatical
e o outro, lexical (léxico se refere às palavras da língua que denominam as coisas do
mundo). Se dermos continuidade à divisão (in+fe+liz), não teremos unidades com
significado, mas sim sílabas. Portanto, não podemos confundir morfemas com
sílabas.
Prefixos, radicais, vogais temáticas, desinências e sufixos são morfemas. Eis
mais alguns exemplos de divisão morfemática:
• CHAMEI: cham+ei (morfema 1 = radical; morfema 2 = desinência
modo-temporal do verbo);
• PATO: pat+o (morfema 1 = radical; morfema 2 = vogal temática
nominal e marca de masculino);
• DECORADOR: de+cor+a+dor (morfema 1 = prefixo; morfema 2 =
radical; morfema 3 = vogal temática verbal que indica a 1ª conjugação;
morfema 4 = sufixo).
A Morfologia estuda mais detalhadamente os tipos de morfemas e a sua
classificação. Entretanto, nesse momento, é importante entender apenas a noção de
morfema e o seu reconhecimento.
A segunda articulação diz respeito aos fonemas. Os fonemas são as unidades
distintivas da linguagem humana, ou seja, sua função é distinguir uma palavra (ou
um morfema) da outra. Não são signos, sozinhos não possuem nenhum significado,
mas combinam-se entre si para formar morfemas.
Se alterarmos apenas um fonema no início de uma palavra, teremos outras,
como demonstrado nos exemplos abaixo:
• lata: rata, pata, mata, bata;
• pão: mão, cão, chão, vão.
E, alterando qualquer outro fonema, sempre formaremos novas palavras:
• lata: lava, lama, lapa;
• pão: avião, paixão, ladrão.
Em português, temos fonemas vocálicos (vogais) e consonantais
(consoantes) e o seu estudo é feito pela Fonologia e Fonética. Todavia, aqui é
relevante que identifiquemos apenas os fonemas e sua função.
Os fonemas são unidades relativas aos sons da língua, que distinguem
signos. Não podemos confundi-los com as letras da escrita (chamadas grafemas),
quando vamos identificá-los. A função da escrita é representar a fala, mas essa
representação não é fiel, pois:
a) Há casos em que uma letra representa vários fonemas diferentes; por
exemplo,o “x” (como nos vocábulos enxame, exame, sintaxe, tórax);
b) Há casos em que letras diferentes representam o mesmo fonema
(como o fonema /s/ como nas palavras saia, poço, cebola);
c) Há ainda os dígrafos, que são duas letras representado o mesmo
fonema (como os que representam o fonema /s/ em osso, nascer,
desço, exceção).
Portanto, para identificarmos os fonemas devemos atentar para aquilo que
ouvimos e não ao que está escrito. Para treinar e entender melhor, vejamos quantos
fonemas e quantas letras há nas palavras a seguir:
• Chuva: 5 letras e 4 fonemas (o “ch” representa um fonema);
• Helicóptero: 11 letras e 10 fonemas (o “h” não representa nenhum
fonema);
• Antigo: 6 letras e 5 fonemas (há o dígrafo “an”, que representa a vogal
nasal);
• Táxi: 4 letras e 5 fonemas (o “x” representa dois fonemas: o /k/ e o /s/);
• Excessivo: 9 letras e 7 fonemas (há dois dígrafos, o “xc” e o “ss”).
A dupla articulação da linguagem humana faz com que as línguas sejam
mecanismos extremamente econômicos, pois rendem muito. Isso acontece porque,
com os poucos elementos da segunda articulação – os fonemas (há uma total de 33
na língua portuguesa), cada língua forma os morfemas, que representam a primeira
articulação e que são muitos, visto que as línguas variam bastante os radicais da
palavra e, frequentemente, surgem novos (os neologismos). Além disso, ainda
podemos dividir os morfemas, combiná-los diferentemente e formar outras palavras.
Todas essas combinações possibilitam, sem exagero, possibilidades infinitas de
criação de vocábulos.
4. Linguagem humana e linguagem animal
4.1 A linguagem humana e suas características
Já sabemos que o ser humano se comunica através da linguagem e que a
mesma pode ser constituída de diversos sistemas de significação ou conjunto de
signos, que podem ser não verbais, como um gesto, uma expressão facial, um
desenho, uma pintura ou uma escultura, chamados de linguagem não verbal; ou
verbais, que é a comunicação feita por meio das palavras, dos signos linguísticos,
definida como linguagem verbal. A comunicação pode ser feita ainda utilizando tanto
signos verbais como não verbais simultaneamente, a exemplo de filmes, desenhos
animados, gibis, revistas, placas de trânsito, livros, cartazes, peças teatrais, entre
outros.
Além da variedade de signos existente para que haja nossa comunicação e
interação, há algumas características específicas acerca de nossa linguagem.
A primeira delas é que a linguagem humana é aprendida, é cultural,
transmitida de geração a geração, ou seja, o homem aprende a sua língua
culturalmente, através da interação social com outros indivíduos e com os diversos
meios de comunicação que contenham a intervenção humana. Se uma criança for
isolada e não interagir linguisticamente com nenhum falante, nem sequer através de
meios de comunicação, ela não aprenderá a falar. Assim, a criança aprenderá a falar
e a se comunicar na língua a qual tem contato durante o processo de aquisição
linguística; isso acontece em qualquer idioma ou até em outros tipos de linguagem,
como a linguagem brasileira de sinais (Libras), por exemplo.
Outra característica relevante é que a nossa linguagem é variável; ela varia
no tempo e no espaço, modificando-se para expressar sentidos diferentes conforme
as diferentes experiências e situações. Isso quer dizer que a língua não possui
estruturas e usos idênticos, se comparamos épocas diferentes (português arcaico e
português contemporâneo, por exemplo) ou lugares diferentes (português de
Portugal e português do Brasil). O mesmo acontece se compararmos situações
comunicativas diversas como uma palestra formal num ambiente corporativo ou uma
conversa descontraída entre amigos ou membros de uma mesma família.
Prosseguindo com a descrição das características referentes à linguagem
humana, a mesma é composta de signos naturais criados pelo homem ou que se
originam de convenções feitas pelo homem para fins de comunicação e interação,
em que, de acordo com Lopes (2001, 37-38) “o significado é diferente (isolável) da
substância do elemento material que o expressa (seu significante)”, isto é, é possível
estudar separadamente o significado e o significante, conforme apresentado por
Saussure em uma de suas dicotomias.
A linguagem humana também tem como especificidade ser articulada, ou
seja, ela é divisível em unidades menores, permitindo formar outras palavras com
essas unidades menores. Por exemplo, em “pato”, “mato” e “jato”, muda-se apenas
o primeiro elemento ou o fonema inicial, ficando o restante invariável, mas essa
alteração dos elementos iniciais é a responsável pela diferença de sentido entre as
palavras. O mesmo acontece quando separamos os morfemas da palavra “infeliz” e
utilizamos o prefixo {-in} para formar outras palavras como “incapaz”, “injusto”,
“inútil”, e assim por diante. Essa é, portanto, a propriedade da articulação, que é
essencial na linguagem humana, haja vista que nos possibilita produzir uma
infinidade de novas mensagens a partir de uma quantidade limitada de unidades
sonoras distintivas, como é o caso dos fonemas, ou de unidades significativas, como
é o caso dos morfemas.
Por fim, a linguagem do homem é intencional, é uma comunicação
comportamental (ou emocional, como quando levamos um susto com a ação de
outra pessoa ou com determinada mensagem que recebemos) e intelectual (quando
aprendemos a extrair a raiz quadrada de um número ou quando analisamos um
dado). A Linguística estuda a modalidade de comunicação intelectual da linguagem
humana, mas reconhece a existência desse caráter comportamental e emocional de
nossa comunicação.
4.2 Existe a linguagem animal?
É comum a observação de que os animais são capazes de se expressar e,
portanto, comunicar, por exemplo, medo, cólera, excitação, prazer, afeto, etc.,
através de manifestações como sons, gestos ou movimentos.
O cachorro abana o rabo, mostra os dentes, late, rosna, age conforme aquilo
que quer expressar. Já outros animais, como as abelhas, por exemplo, possuem
engenhosos “sistemas de comunicação”. Estudos mostram que as abelhas, quando
encontram uma fonte de mel, são capazes de retornar à colmeia e informar esse fato
às outras e também informar em que direção está o mel encontrado e a que
distância. Elas fazem isso através de uma espécie de dança, que pode ser circular,
se o alimento está próximo, ou com contrações do abdômen, se o alimento está
distante. A distância é indicada pelo ritmo da dança e a direção a ser tomada para
chegar ao alimento é fornecida pela direção da linha reta que compõe a dança, em
relação ao Sol. O fato é que, se uma abelha encontra uma fonte de mel,
rapidamente outras chegam ao lugar por causa dessa eficiente forma de
comunicação.
Será que esse comportamento animal pode ser chamado de linguagem? A
resposta é sim, pois há a transmissão de informações, como nesse caso das
abelhas, e também na expressão de sentimentos, como no caso de animais de
estimação, por exemplo, contudo a linguagem animal não constitui uma linguagem
no mesmo sentido em que esse termo é empregado ao tratar da linguagem humana.
Ou seja, não se pode dizer que as abelhas ou outros animais possuem um sistema
de comunicação parecido ou idêntico com o dos seres humanos, pois essa
linguagem dos animais, e consequentemente sua capacidade comunicativa, é
transmitida e herdada geneticamente, não dependendo de qualquer ensinamento
como ocorre na linguagem humana.
Vejamos a seguir as principais características da linguagem animal e
posteriormente mais alguns detalhes sobre a comunicação das abelhas, que nos
auxiliarão a entender a diferença existente entre a linguagem humana e a linguagem
animal.
4.3 Características da linguagem animalPara entendermos melhor como funciona a linguagem animal,
apresentaremos aqui as suas principais características.
Primeiramente, a linguagem animal não é um produto cultural, mas é
geneticamente adquirida, ou seja, consiste num componente da organização físico-
biológica dos animais, que é herdado de acordo com a programação genética de
cada espécie. Os cachorros, embora estejam em ambientes diferentes e com
pessoas diferentes, apresentam sempre os mesmos mecanismos de comunicação,
como latir, rosnar, abanar o rabo, entre outros, sem que seja necessário ensinar isso
a ele e sem que necessariamente conviva com outros da mesma espécie, isto é,
mesmo isolado de outros cachorros, esse animal terá sempre o mesmo
comportamento com relação a esses mecanismos de comunicação. É claro que há a
adestração, que varia de animal para animal, conforme os estímulos
comportamentais trabalhados, mas seu comportamento geral coincide em todos da
mesma espécie, assim como os gatos, as abelhas, as aranhas, os leões, os
elefantes, e assim por diante.
Outra característica importante é que a linguagem animal é invariável no
tempo e no espaço, pois os gestos ou sons correspondem sempre ao mesmo tipo de
informação, independentemente da época ou de sua localização geográfica. Assim,
o cachorro sempre abana o rabo quando está feliz e não quando está irritado, e a
linguagem das abelhas sempre fornece informações sobre o alimento, não importa a
região ou o recorte temporal que seja feito.
A linguagem dos animais é composta por índices (físicos) e não por signos
culturais. Lopes (2001, p. 37) define o índice que compõe a linguagem dos animais
como “um dado físico ligado a outro dado físico por uma causalidade natural”. Isso
quer dizer que não há signos criados social e culturalmente como faz o homem, mas
sim mecanismos físicos e naturais de cada espécie.
Além disso, essa linguagem não é articulada, uma vez que não há elementos
mínimos, isto é, a mesma não pode ser decomposta em unidades menores que
sejam diferenciadores de significados, como acontece com a linguagem humana e a
sua dupla articulação em fonemas e morfemas. Não é possível decompor os gestos
ou sons emitidos pelos animais.
Por fim, a linguagem animal é apenas reação a estímulos, consistindo numa
mera comunicação comportamental e não intelectual.
Há um trecho de Lewis Carrol, citado por Lopes (2001, p. 35), que nos auxilia
no entendimento das especificidades da linguagem animal, como podemos observar
abaixo:
“Hábito muito inconveniente dos gatinhos (observara certa vez Alice)
é o de, o que for que você diga, eles sempre ronronarem.” “Se
somente ronronassem quando quisessem dizer “sim” e miassem
para dizer “não”, ou de acordo com alguma regra desse tipo”,
dissera ela, “de modo que a gente pudesse bater um papo com eles!
Mas como a gente pode falar com uma pessoa se ela sempre diz a
mesma coisa?” (Lewis Carrol apud Cherry, 1971, p. 260)
Concluímos, assim, que existe uma linguagem animal, a mesma possui
características próprias, é utilizada para transmitir determinadas mensagens, porém
sua amplitude de comunicação é limitada, quando comparada com a linguagem
humana, ou seja, há interação e comunicação, mas de uma maneira específica e
diferente do que acontece com o homem.
4.4 Um exemplo: a comunicação das abelhas
Como já mencionado, como as abelhas possuem engenhosos “sistemas de
comunicação”. Vejamos um pouco mais sobre essa linguagem.
Petter (2008, p. 15-16) explica que em 1959, o zoólogo alemão Karl von
Frisch publicou um estudo sobre o sistema de comunicação utilizado pelas abelhas,
revelando que quando a abelha-obreira encontra uma fonte de alimento, ela retorna
à colmeia e transmite essa informação às demais através de dois tipos de dança:
uma dança é circular, com círculos horizontais da direita para a esquerda e vice-
versa, feita para indicar que o alimento está próximo, a menos de cem metros; e a
outra dança é em forma de oito, em que a abelha contrai o abdome, segue em linha
reta e após faz uma volta completa para a esquerda, novamente segue em linha reta
e realiza um giro para a direita, repetindo esses movimentos sucessivamente, para
indicar que o alimento está distante.
De acordo com esse estudo, a mensagem transmitida através da dança em
forma de oito é bastante precisa, pois mostra a distância em metros; por exemplo, se
o alimento está a uma distância de cem metros, a abelha percorre a linha reta que
faz parte da dança nove ou dez vezes em 15 segundos. Quanto maior for a
distância, o animal faz menos giros, então para 500 metros, são feitos seis giros em
15 segundos. A direção que deve ser seguida é informada pela direção da linha reta
com relação à posição do sol.
Os dois tipos de dança em questão estão ilustrados na figura a seguir:
(Referência: http://abelhasgeometras.blogspot.com/2009/12/linguagem-
matematica-da-danca-as.html)
Esses dois tipos de dança são, portanto, mensagens que sinalizam para a
colmeia a descoberta de alimento. As abelhas percebem a natureza do alimento ao
observar o odor da obreira ou ao absorver o néctar que ela está deglutindo; e
constatam a localização da fonte de alimento descoberta através da dança.
As pesquisas de Karl von Frisch possibilitam uma importante conclusão
referente ao funcionamento de uma linguagem animal e à diferença existente com
relação às particularidades da linguagem humana, pois apesar de a comunicação
das abelhas ser bastante precisa – e isso também vale para sistemas de
comunicação já examinados de qualquer outro animal – a mesma não consiste
numa linguagem, conforme o sentido em que esse termo é empregado ao tratar da
linguagem humana.
Essa constatação se dá pelo fato de que as abelhas são capazes de entender
uma mensagem com muitas informações e de memorizar esses dados referentes à
posição e à distância; e são capazes também de produzir uma mensagem que
represente esses dados de forma convencional e através de comportamentos
diversos. Essas conclusões mostram que o sistema de comunicação dos animais
possui as condições necessárias para a existência de uma linguagem, pois
apresenta simbolismo, que é a capacidade de produzir e interpretar um signo,
considerado aqui como qualquer elemento que represente algo convencionalmente;
e há memória da experiência e competência para examiná-lo. Da mesma forma que
a linguagem humana é utilizada por uma comunidade, o sistema de comunicação
http://abelhasgeometras.blogspot.com/2009/12/linguagem-matematica-da-danca-as.html
http://abelhasgeometras.blogspot.com/2009/12/linguagem-matematica-da-danca-as.html
animal também é usado por todos os membros de uma comunidade, que os
emprega e compreende igualmente.
Todavia, é preciso considerar as diferenças existentes entre o sistema de
comunicação das abelhas e a linguagem humana, uma vez que a mensagem é
transmitida unicamente pela dança, sem fazer uso de um aparelho vocal, o que
constitui uma condição fundamental para a linguagem; a mensagem produzida pela
abelha não motiva uma resposta, mas sim uma conduta ou uma ação, não havendo,
portanto, diálogo; a comunicação instituída diz respeito a um dado objetivo,
resultado da experiência, isto é, a abelha não faz uma mensagem a partir de outra,
ao passo que a linguagem humana tem como característica substituir a experiência,
que pode ser transmitida de maneira infinita no tempo e no espaço; o conteúdo da
mensagem é sempre o mesmo, variando somente com relação à distância e à
direção, enquanto o conteúdo da linguagem humana é ilimitado; e, por fim, a
mensagem das abelhas não é passível de análise, pois não é possível decompô-la
em unidades menores, como acontece com a linguagem humana que é duplamente
articulada e seus elementos menores podem ser explorados separadamente.
Resumindo, como conclui Petter (2008), a comunicação das abelhasnão é
uma linguagem no mesmo sentido que a linguagem humana. Na verdade trata-se de
um código de sinais, haja vista que apresenta como características ter um conteúdo
fixo, apresentar uma mensagem invariável, fazer referência a apenas uma situação,
ter uma transmissão unilateral e possuir um enunciado que não permite sua
decomposição.
4.5 Linguagem humana X linguagem animal
Para finalizar essa abordagem sobre a linguagem humana e a linguagem
animal, observemos as principais características e diferenças entre as duas,
retomando e resumindo os conceitos e as particularidades que foram apresentadas
no decorrer deste bloco.
Com relação à linguagem humana, foram apresentadas as seguintes
especificidades:
• É aprendida por meio de interação social, é cultural, transmitida de geração a
geração;
• É variável, varia no tempo e no espaço, modificando-se para expressar
sentidos diferentes, conforme o propósito de comunicação e o contexto
comunicativo;
• É composta de signos naturais criados pelo homem para fins de comunicação
e determinados por uma convenção social;
• É articulada, ou seja, divisível em unidades menores, permitindo formar outras
palavras com essas unidades menores, que podem distintivas (fonemas) ou
significativas (morfemas). Nas palavras “pouco”, “louco”, “rouco”, por exemplo,
muda-se apenas o primeiro elemento, o que já é suficiente para a obtenção
de palavras e significados diferentes;
• É intencional, é uma comunicação que se configura como comportamental e
intelectual.
Já a linguagem ou sistema de comunicação animal possui os seguintes
aspectos:
• Não é um produto cultural, é geneticamente adquirida, de acordo com espécie
animal;
• É invariável, pois os gestos ou sons correspondem sempre ao mesmo tipo de
mensagem e informação;
• É composta por índices (físicos), próprios da natureza animal, e não por
signos culturais;
• Não é articulada, isto é, não é divisível em elementos menores, que podem
ser recombinados em novas mensagens ou analisados separadamente, com
funções distintas e específicas;
• É considerada apenas como uma reação a estímulos, sendo, portanto, uma
comunicação comportamental e não intelectual.
5. Estudo linguístico, estudo normativo e os tipos de gramática
5.1 Estudo linguístico e estudo normativo
Conforme já tratado anteriormente, o estudo normativo da língua, registrado e
divulgado principalmente na gramática tradicional, possui um ponto de vista
prescritivo da nossa língua, tendo como base para a sua análise a língua escrita.
Esse tipo de estudo não reconhece a diferença existente entre língua falada e língua
escrita, considerando a forma escrita como um modelo de correção que deve ser
aplicado e seguido em todos os tipos de expressão linguística. Dessa forma, o
estudo normativo propaga erroneamente falsos conceitos sobre a natureza da
linguagem e difunde preconceitos.
Já o estudo linguístico, situado nos princípios da Linguística, colabora para
que essas ideias normativas sejam discutidas e revertidas, haja vista que a língua
escrita não pode servir de modelo para a língua falada e não há línguas e
variedades melhores ou piores, mas sim diferentes. O campo da pesquisa
linguística, tal como apresentada por Saussure, tem como foco principal a
investigação da língua enquanto conjunto de regras e propriedades formais, não
privilegia determinada variedade linguística, considerando todos os usos e fatos
linguísticos, e realiza a sua descrição.
Os estudos linguísticos e normativos acerca da língua, bem como outros tipos
de investigação, normalmente são organizados e veiculados através de gramáticas.
Assim como há estudos de naturezas diversas, também há tipos diferentes de
gramática. Porém, antes de estudarmos os tipos ou modalidades de gramática,
pensemos um pouco: “O que é gramática?”. Analisando a estrutura da palavra
“gramática”, temos os seguintes significados: grama (letra) + tica (arte e/ou técnica).
Logo, poderíamos interpretar a palavra como a arte e/ou a técnica das letras. No
dicionário (Ferreira, 2001, p. 352), gramática é conceituada como o “estudo ou
tratado dos fatos da linguagem e das leis naturais que a regulam”.
E é isso mesmo que a gramática faz, ela sistematiza os fatos da linguagem,
ordena-os de acordo com o que é considerado adequado no ato comunicativo.
Contudo, é importante ressaltar que o que é adequado, o que é gramatical não são
somente as regras ditadas normalmente pela gramática normativa; gramatical é o
que é aceito na linguagem. Por exemplo, a frase “Eu gosto de ler e praticar esportes
no final de semana” é gramatical, é aceita, é adequada, mas “Esportes gosto
semana final de eu ler e praticar” não é, pois foge às leis naturais da língua, as quais
são necessárias para que haja o entendimento na comunicação.
As gramáticas começaram a surgir no século XVI, quando se inicia também o
período clássico da Literatura, em que houve forte influência da literatura e da
cultura greco-romanas. Havia um padrão de boa cultura e, consequentemente, de
língua; a linguagem mais privilegiada era a clássica, baseada no Latim clássico, ou
seja, uma linguagem mais rebuscada. São exemplos dessa linguagem mais
rebuscada uma sintaxe mais apurada (ordem indireta da oração, orações
subordinadas reduzidas), uso do superlativo absoluto sintético do adjetivo (como
emprego dos sufixos {-íssimo}, {-érrimo}), entre outros.
Diferentemente do que é geralmente vinculado, não existe apenas a
gramática tradicional e esta não é um manual que deve ser seguido e obedecido na
comunicação. Há outros tipos de gramática e é disso trataremos a seguir: das
modalidades (tipos) de gramática. Veremos quatro tipos de gramática: gramática
nocional (ou tradicional), gramática formal (distribucional), gramática estrutural e
gramática gerativo-transformacional.
5.2 Gramática Nocional
A gramática nocional (ou tradicional) tem como base a classificação
gramatical, fundamentando-se nos modelos que orientaram a descrição do grego e
do latim. Trabalha com definições semânticas, ou seja, conceitua o significado dos
termos da língua, como em “substantivo é uma palavra que nomeia pessoas, lugares
ou coisas”, entretanto suas noções são muitas vezes insatisfatórias, pois essa
definição de substantivo, por exemplo, não abrange palavras como “generosidade”,
“adolescência” e outras do mesmo tipo.
É uma gramática prescritiva ou normativa, pois dita regras de uso, prescreve
como usar a língua, tendo como parâmetro principalmente a escrita. Não tem caráter
científico, haja vista que o estudo para ser científico não pode ser prescritivo.
Esse tipo de gramática pode ser normalmente encontrado em três categorias:
a) Gramáticas de referência: seguem a Nomenclatura Gramatical
Brasileira (NGB) e são de nível universitário. Exemplos de autores que
elaboraram gramáticas dessa modalidade: Celso Cunha, Celso Pedro
Luft, Rocha Lima, Evanildo Bechara em suas primeiras obras, entre
outros;
b) Gramáticas escolares (2º grau): baseiam-se nas gramáticas de
referência e são mais simplificadas; em geral, vêm com exercícios.
Exemplos de autores: Cegalla, Pasquale, Ernani Terra, William Cereja,
entre outros;
c) Livros didáticos de 1º grau: baseiam-se nas gramáticas escolares e
são mais simplificados ainda.
5.3 Gramática Formal (ou Distribucional)
Enquanto a gramática nocional conceitua e classifica os termos da linguagem,
a gramática formal realiza descrições a partir do emprego ou da função de cada
classe de palavras. Trabalha com os aspectos formais e funcionais dos vocábulos.
Por exemplo, “o verbo é a palavra que se conjuga em modo, tempo, número e
pessoa e é usado para expressar uma ação ou um estado”.
É uma gramáticadescritiva, já que não dita regras; descreve como a língua
funciona. Tem caráter científico, visto que busca descrever como funciona a língua.
Segundo Lopes (2001, p. 185), a tentativa mais importante de organizar uma
gramática não conteudística, ou seja, que não dita regras nem prescreve o conteúdo
que deve ser usado na língua, é representada pelos estudos de Zellig Harris, que
parte do princípio de que as partes de uma língua constituem um sistema e, por isso,
se situam em posições bem determinadas, umas em relação às outras. Esses
elementos se deixam agrupar em classes e essas classes ocorrem em certas
posições dentro de um contexto. A soma dos contextos em que dada classe de
elementos pode aparecer, contrastada com a soma dos contextos em que tal classe
não pode ocorrer, define a distribuição de todo e qualquer elemento da língua.
Dessa forma, “médico”, “professor”, “operário”, por exemplo, possuem a mesma
distribuição, isto é, ocorrem no mesmo ponto do contexto “Antônio é um bom
__________.” e não ocorrem em outros contextos como “Antônio __________
sapatos”. Essas palavras podem ser agrupadas numa mesma classe, a dos
substantivos masculinos. Em virtude dessa possibilidade de comutação (ou
substituição), todas as palavras mutuamente substituíveis no mesmo ponto da
cadeia da fala podem ser reagrupadas em classes distribucionais.
Vejamos mais exemplos: na expressão “passeio de carro”, pode-se substituir
a palavra “carro” por “bicicleta”, “iate”, “avião”, “trem”, “carroça”, entre outros. Essas
palavras formam uma classe distribucional, pois podem ser substituídas umas pelas
outras na mesma posição da cadeia da fala; assim teríamos a classe dos
substantivos comuns que compõem a locução adjetiva (sintaticamente, adjunto
adnominal), formada por uma preposição (de) e um substantivo comum.
Para finalizar, é relevante citar que a gramática formal possui algumas
limitações, apresentadas abaixo:
1) Na tentativa de fazer caso omisso do significado, a gramática
distribucional (formal) propõe a abolição do signo concebido por
Saussure como o conjunto de significante + significado;
2) O significante não existe primariamente como suporte de uma
distribuição, de acordo com o que é insinuado pelo distribucionalismo,
mas como suporte de um significado. Não tem sentido falar de
significante se não se fala, de qualquer forma e ao mesmo tempo, de
significado. Enfim, o plano de expressão está a serviço do plano do
conteúdo, sendo que aquele é o meio para que este possa ser
exteriorizado;
3) É duvidoso que dois elementos diferentes da língua (mesmo os
pertencentes à mesma classe) tenham realmente a mesma
distribuição; diz-se que as línguas não possuem sinônimos perfeitos,
pois, se os tivessem, seria um e o mesmo elemento e não dois. Z.
Harris (1969, p. 7 in Lopes, 2001, p. 189) escreveu que “pode supor-se
que dois morfemas quaisquer, A e B, que possuam significados
diferentes, difiram, também em algum ponto na sua distribuição: há
alguns contextos nos quais um deles ocorre, mas o outro não”;
4) Nem todas as línguas organizam posições distintivas para os seus
elementos. Isso pode ser verificado através das línguas que
discriminam funções sintáticas a partir da posição ocupada por seus
diferentes elementos num enunciado, como em português “uma criança
linda” X “uma linda criança”. Mesmo essas línguas que discriminam tais
funções têm a possibilidade de construir enunciados e contextos novos
e, por isso, não se pode falar em distribuição finita.
5.4 Gramática Estrutural
O estruturalismo (e também o transformacionalismo) propõe um modelo
preferido de gramática. Os objetivos mais notórios do modelo estruturalista são:
a) Estudar enunciados que foram efetivamente realizados;
b) Esses enunciados são excluídos de qualquer consideração da situação
ou da enunciação (circunstâncias de contato entre destinatário e o
remetente da mensagem);
c) Tentar realizar a sua descrição e não a sua explicação.
Para atender a esses objetivos, os estruturalistas elaboraram uma teoria dos
níveis, em que distinguem o nível máximo (o fraseológico), o nível médio (o
morfológico) e o nível mínimo (o fonológico). Esses níveis estão organizados em
uma hierarquia, de forma que o nível máximo é formado por unidades do nível
médio, que é formado por unidades do nível mínimo.
As unidades de cada nível são identificadas conforme a função de contraste
na cadeia sintagmática e a função de oposição na classe paradigmática; a
comutação é a operação que põe essas funções em funcionamento.
Com a comutação, o estruturalismo elaborou uma taxionomia, isto é, uma
classificação de formas e unidades linguísticas sincrônicas.
Os elementos de classes equivalentes que se definem pela sua capacidade
de substituir mutuamente em determinado contexto organizam uma taxionomia
paradigmática. Já as unidades que se definem por contrastarem no interior do
mesmo segmento do enunciado por aquilo que se segue ou precede organizam uma
taxionomia sintagmática.
Sendo assim, o que define a Linguística Estrutural (também chamada
Sincrônica ou Descritiva), considerando tanto o eixo sintagmático como o eixo
paradigmático, é o seu conceito operatório de base, o da estrutura elementar, ou
seja, o da estrutura ou da forma da língua.
O estruturalismo demonstrou ser uma excelente “hipótese de trabalho” e uma
metodologia provida de rigor científico, quando empregado corretamente, contudo
não monopoliza a verdade, por ser contestável. Vários linguistas contribuíram para o
desenvolvimento dessa teoria tão importante, entre eles podemos mencionar
Saussure, Hjelmslev, Jakobson, entre outros.
O que contrapõe o estruturalismo clássico à teoria gerativo-transformacional é
uma diferente concepção dos propósitos da teoria linguística, sobretudo do papel
nela representado pela sintaxe. De maneira implícita ou explícita, o estruturalismo
deixou a sintaxe para segundo plano, pois se ocupa mais da morfologia, lembrando
que esta descreve a forma, estuda a estrutura e a formação de palavras, enquanto
aquela trata da combinação das palavras na frase e das frases no discurso.
A sintaxe foi abordada pela gramática que veremos a seguir, a qual nasceu
como uma teoria da sintaxe.
5.5 Gramática Gerativo-Transformacional (de Noam Chomsky)
Embora o linguista Noam Chomsky não tenha sido o único a elaborar um
modelo de gramática gerativo-transformacional, ele foi um dos grandes precursores
dessa teoria e seus estudos servirão de base ao nosso estudo. Primeiramente,
vejamos as principais diferenças entre essa gramática e as outras explicitadas
anteriormente:
a) Não busca um “modelo” correto: não é prescritiva, é descritiva; não
propõe certo e errado, pretende descrever o funcionamento das
línguas;
b) Não é taxionômica: não busca fazer listas de exemplos nem
classificar os fatos da linguagem, isto é, não há preocupação com a
classificação;
c) É geral, teórica: busca a explicação dos fatos, a explicação
gramatical, e é aplicável a várias línguas.
E já que nos basearemos na gramática chomskyana, vejamos também os
pressupostos apresentados pelo autor:
1. A concepção de que a capacidade linguística é inata: essa teoria é
chamada inatista ou nativista e afirma que o homem já nasce com a
capacidade linguística, ou seja, já nasce com a capacidade de
aprender a linguagem da sociedade em que está inserido. Mas
atenção: não é a linguagem que é inata, é a capacidade linguística;
2. Leis comuns = leis universais: as línguas são sistemas organizados
extremamente regulares; são dotadas de leis que regem o seu
funcionamento, as quais são de todas as línguas;
3. A atividade linguística é um ato criativo: é um ato criativo, pois às
vezes foge à regra e é diferente. Para entender essa criatividade,
podemos levar em consideração doisconceitos:
• Criatividade sendo entendida como mudança e desvio das
regras (neologismos): isso ocorre quando há invenção de
nomes, brincadeira com palavras. Exemplo: as palavras
“malufar”, “caetanear”;
• Criatividade sendo entendida como regida pelas regras: é a
possibilidade de criar uma infinidade de frases, já que nunca
falamos a mesma coisa do mesmo jeito; estamos sempre
criando, sempre combinando palavras diferentes, lembrando que
cada um fala do seu jeito.
Prosseguindo, estão apresentadas a seguir as noções básicas da teoria que
embasa a gramática gerativo-transformacional.
A Designação Gerativo-Transformacional
Uma teoria gramatical é gerativa sempre que fornece uma descrição
estrutural (finita) para todos os objetos linguísticos (infinitos) que são gramaticais
dentro do domínio da língua natural que se examina; e é transformacional sempre
que concebe e descreve estruturas de superfície como resultado de transformações
operadas nas suas estruturas profundas; estuda as gerações e as transformações
das frases.
Competência e Performance
Basicamente, competência é o conhecimento que o falante possui da língua e
performance é a utilização efetiva da língua em situações concretas. A competência
do falante pode ser compreendida como sendo um sistema finito de regras de
transformação que, aplicadas a umas poucas frases iniciais, possibilitam-lhe gerar
um número infinito de frases novas, definindo-as sob uma descrição estrutural: essa
é precisamente a tarefa da qual se ocupa a gramática gerativo-transformacional.
Esses dois conceitos estão interligados, pois é através desse processo que
qualquer falante nativo de um idioma pode compreender e produzir enunciados
velhos (aqueles efetivamente realizados por alguém, ouvidos e repetidos depois
pelos falantes) e enunciados novos (aqueles que ainda não foram realizados nem
ouvidos pelos falantes que os executam), ou seja, através do conhecimento das
regras da língua e da capacidade de usá-la é que é possível haver a comunicação,
criando – de acordo com o desejo do falante – formas novas, que são baseadas
nessas regras conhecidas por todos os nativos; esse conhecimento das “leis” da
língua permite a compreensão dessas formas inéditas no ato comunicativo.
Em outras palavras, a competência do falante se manifesta através da
atuação e a atuação se manifesta como uma capacidade do falante para efetuar
determinadas operações, a partir do conhecimento de enunciados velhos. De “João
ama Maria” podemos construir outros enunciados como “Maria é amada por João”,
“Quando João amava Maria...”, “Como João amasse Maria...” etc. De certo modo,
essas frases foram produzidas a partir de certas transformações operadas sobre a
primeira frase. Relacionando isso com tudo o que já foi dito, aqui a estrutura finita da
primeira frase poderia ser a composição da sentença por sujeito e predicado, que é
mantida – apenas com algumas modificações – nas demais.
Gramatical e Agramatical
Primeiramente, vale ressaltar que nenhuma gramática pode limitar-se a
elaborar listas de frases ou classificação de elementos, ela terá de dar conta não só
das estruturas, mas das transformações que tais estruturas podem sofrer. Uma frase
é gramatical (ou aceitável) quando está bem formada, fonológica e sintaticamente;
em caso contrário, dizemos que ela é agramatical. Sendo assim, as frases do
português podem ser:
• Bem formadas (sintaticamente) e dotadas de sentido: O menino fará
anos amanhã;
• Bem formadas (sintaticamente), mas sem sentido: O menino
sexagenário fará oitenta anos amanhã;
• Mal formadas (sintaticamente), mas dotadas de sentido: O menino
fazer anos amanhã;
• Mal formadas (sintaticamente) e sem sentido: Fará sexagenário
amanhã anos o oitenta menino.
Para Chomsky, frases gramaticais são bem formadas de acordo com as
regras da língua (não é preciso ser norma culta) e frases agramaticais não são bem
formadas, porém podem ser aceitas e interpretadas pelo falante. Exemplificando,
vejamos algumas frases:
• Nós fomos embora: é gramatical e interpretável;
• O salsicha é boa: não é gramatical, contudo é interpretável;
• Carro menino um quebrou o do: não é gramatical nem
interpretável.
Há graus de agramaticalidade e a interpretação depende do conhecimento do
falante; frases como “O povo vieram” e “Fazem cinco dias” são mais aceitáveis do
que, por exemplo, “Vieram povo o” e “Dias fazem cinco”.
Ademais, o sentido e a gramaticalidade das frases dependem do contexto do
enunciado e da situação da enunciação. É bom deixar claro também que algumas
frases gramaticais são bem formadas, porém não aceitáveis e/ou não entendidas
pelos falantes, como “Fi-lo porque qui-lo”, que é gramatical, mas pode facilmente
não ser compreendida pelo falante que não conhece esse tipo de emprego
pronominal nem o contexto em que a frase foi utilizada.
Estrutura Profunda e de Superfície
A estrutura profunda não está representada diretamente na forma do signo, é
identificada na análise sintática da oração, é abstrata e não possui duplo sentido, ou
seja, não é ambígua. Já a estrutura de superfície está diretamente relacionada com
a forma fonética do enunciado, sua representação é linear, possui arranjo
hierárquico dos elementos (pode mudar o sentido se os elementos forem trocados
como “A mulher viu o homem/ O homem viu a mulher”) e pode levar à ambiguidade.
A frase “O homem recebeu uma foto de Paris”, por exemplo, na estrutura de
superfície possui duplo sentido, pois pode ser interpretada como se o homem
tivesse recebido uma foto vinda de Paris ou recebido uma foto que retrata Paris. O
que pode ser feito para resolver essa ambiguidade é a consideração da estrutura
profunda, através de uma análise sintática e a elaboração de diagramas em árvore
(ou gráficos arbóreos), que detalham as relações sintagmáticas recorrentes nas
frases.
Não detalharemos os diagramas em árvore aqui, mas é relevante saber que
as análises apresentadas neles levam em consideração os termos da oração e as
funções que podem exercer sintaticamente. Assim, são utilizados os termos
sintagma nominal (quando o núcleo é o nome, quando há um determinante e um
nome, geralmente exerce função de sujeito, objeto direto, complemento nominal,
predicativo do sujeito), sintagma verbal (quando o núcleo é um verbo e comumente
exerce a função de predicado), sintagma adjetivo (quando o núcleo é um adjetivo ou
uma locução adjetiva, exerce a função de predicativo do sujeito, complemento
nominal), sintagma preposicional (quando há uma preposição, desempenhando a
função de objeto indireto, adjunto adnominal, complemento nominal e verbal) e
sintagma adverbial (indica uma circunstância e, por isso, tem como núcleo um
advérbio ou uma locução adverbial, e exerce a função de adjunto adverbial).
Abaixo segue um exemplo de como a sentença mencionada anteriormente
seria representada em diagramas, com base em Lopes (2001, p. 201), especificando
essas relações sintagmáticas e auxiliando no esclarecimento da ambiguidade.
No primeiro diagrama em árvore (Diagrama em Árvore 1), temos a
representação da sentença, indicando que a expressão “de Paris” significa
proveniente de Paris, apresentada como um sintagma adverbial (há uma locução
adverbial, indicando o lugar de onde a fotografia veio).
Já no segundo diagrama em árvore (Diagrama em Árvore 2), “de Paris” é uma
expressão que retrata Paris, apresenta uma característica da fotografia, ou seja, não
se trata de qualquer foto, mas de uma que retrata a cidade de Paris. Por conta disso,
consideramos a expressão em análise como um sintagma preposicional com a
função de adjunto adnominal.
Diagrama em Árvore 1
O homem recebeu uma foto de Paris
Diagrama em Árvore2
O homem recebeu uma foto
de Paris
6. Os tipos de signos
6.1 O simbolismo linguístico
A comunicação humana se dá através de diversos elementos, que são os
signos. Signos são sinais, que representam significados, transmitem informações e
podem ser de variados tipos: gestos, palavras, desenhos, entre outros. A
capacidade simbólica do ser humano levou-o a inventar diferentes formas de
representar as coisas do mundo.
Todo signo é convencional, ou seja, é resultado de um acordo social e
coletivo sobre o que significa, pois é preciso que todos os membros de uma
comunidade, que compartilham de experiências coletivas equivalentes, concordem e
utilizem os signos num mesmo sentido, para que uma língua cumpra efetivamente
os seus fins. O convencionalismo do signo depende desse contrato social.
Outro fator fundamental é que todo signo possui um caráter simbólico, ou
seja, representa alguma coisa. No simbolismo linguístico, os falantes de uma mesma
língua fazem a associação de um conteúdo (ou um sentido) a uma expressão de
modo arbitrário, através de uma relação essencialmente simbólica, em que um signo
representa o real, estabelecendo uma relação de significação. O signo, portanto, não
é a realidade, é alguma coisa utilizada em lugar de outra, é a representação da
realidade e não a realidade em si. Por exemplo, uma foto do monumento Cristo
Redentor é uma representação do mesmo, e não o monumento em si.
Relembramos aqui a definição proposta por Saussure em uma de suas
dicotomias de que o signo linguístico não une um nome e uma coisa, mas sim um
conceito e uma imagem acústica, consideradas duas faces inseparáveis do signo.
Saussure define o conceito como significado e a imagem acústica como significante;
um não existe sem o outro, uma vez que o significante sempre chama um
significado, que por sua vez não existe fora dos sons que o propagam.
Vale enfatizar que a linguagem verbal não é a única linguagem que existe,
pois temos também linguagens gestuais, pictóricas, entre outras. Dessa forma, não
se pode falar em imagens acústicas ao se trabalhar com outros sistemas de signos,
sendo preciso ampliar a noção de significante, de modo a abranger também as
demais linguagens. Assim, significante poderia ser definido como o veículo do
significado, que é o que se compreende quando o signo é utilizado, como diz Fiorin
(2008, p. 58) “é a sua parte inteligível”.
Saussure atribui uma definição substancialista ao signo, pois o trata como a
união entre um significante e um significado. Todavia, na obra Curso de Linguística
Geral, está muito presente a ideia de que a língua é constituída de diferenças, haja
vista que um elemento linguístico deve ser diferente dos outros e isso é percebido
na relação dos signos uns com os outros, considerando além de sua composição, as
suas relações e o seu comportamento. Com relação a isso, Saussure formula a
noção de valor, dando ao signo uma definição negativa, isto é, “um signo é o que os
outros não são” (Fiorin, 2008, p. 58). Portanto, a significação consiste numa
diferença entre um e outro signo, visto que o que há na língua corresponde a
produção e interpretação de diferenças. Isso pode ser percebido no interior de uma
língua, com palavras sinônimas, como “medo” e “receio”, que apresentam valor
próprio através da oposição entre elas e com os demais vocábulos. Na comparação
de línguas, também há a questão da oposição; Fiorin (2008, p. 58-59) cita o fato de
que em português o verbo alugar significa dar ou tomar em aluguel, todavia em
alemão, existem dois verbos específicos para as ações de dar ou tomar, que são
“mieten” e “vermieten”, ou seja, há diferenças entre conceitos e sons dentro da
mesma língua e na comparação de línguas diferentes, exemplos que vão ao
encontro do conceito de valor criado por Saussure.
Vale citar também os estudos do linguista dinamarquês Hjelmslev, que
adiciona ao conceito de signo a noção de valor e define signo como a união de um
plano de conteúdo e um plano de expressão. Para ele, cada um desses planos
possui dois níveis – a forma e a substância. A forma corresponde à noção
saussureana de valor, sendo um conjunto de diferenças estabelecidas nas
oposições entre os signos; e a substância são os sons, no caso da expressão, e os
conceitos no caso dos conteúdos. Assim, para Hjelmslev, há uma forma do conteúdo
e uma substância do conteúdo, bem como existe uma forma da expressão e uma
substância da expressão. Especificando um pouco mais, a forma do conteúdo são
as diferenças semânticas, bem como suas regras de combinação, e a substância do
conteúdo são os conceitos (como a diferença entre homem e mulher); já a forma da
expressão são as diferenças fônicas e suas regras de combinação, e a substância
da expressão são os sons (como a diferença entre os fonemas /p/ e /b/). Segundo
Hjelmslev, tanto o plano de expressão quanto o plano de conteúdo devem ser
estudados pela Linguística.
Comparando os dois autores, a explicação de signo dada por Saussure faz
referência especialmente ao signo verbal, à palavra ou ao morfema. Já Hjelmslev
demonstra que qualquer produção humana dotada de sentido, de significado deve
ser considerada um signo.
É importante ressaltar, ainda, que há línguas ágrafas, ou seja, que não são
escritas, que não possuem registro escrito, mas possuem outros tipos de signos
usados para a comunicação. Sendo assim, estudaremos a seguir os tipos de signos
existentes, que são: os índices, os símbolos, os ícones e os signos verbais.
6.2 Os índices
A classificação básica que se faz dos signos é dividi-los em signos naturais e
signos artificiais (ou signos propriamente ditos). Os primeiros dizem respeito aos
fenômenos da natureza que funcionam como veículo para nos fazer perceber outro
fenômeno natural. São expressões de conteúdos chamados índices ou sintomas.
Os índices são, portanto, signos naturais, sinais da natureza que dependem
da interpretação humana, ou seja, são interpretados pelo homem. Como exemplos,
podemos citar uma nuvem escura, que, quando vista, é interpretada como sinal de
chuva, sinal de que irá chover; uma poça d’água, que nos leva a interpretar que
choveu ou que alguém derramou algum líquido; a fumaça que indica a existência de
fogo em algum lugar; ou ainda a febre que nos indica a existência de algum
problema de saúde.
Nos índices, não há um emissor que objetiva enviar alguma mensagem a
alguém, pois são fenômenos naturais, ou seja, os índices são produzidos sem a
intervenção humana; contudo há um receptor (o ser humano) que os recebe e
interpreta. Um mesmo índice (como uma expressão de rosto de alguém, geralmente
involuntária) pode ser interpretado de diversas maneiras, dependendo do receptor e
de como ele recebe a mensagem, julgando se a pessoa está triste, cansada,
preocupada, entre outros.
Uma última informação fundamental é que se os índices não forem
interpretados, não serão signos, ou seja, o fato de um indivíduo perceber uma
fumaça e não atribuir a esse sinal nenhum tipo de informação ou interpretação, não
caracterizará tal fenômeno como signo, uma vez que a essência de um signo é ser
dotado de algum sentido, é ser utilizado para algum tipo de comunicação ou
apreensão de significado.
6.3 Os símbolos
Vimos que os signos são classificados em naturais, definidos como índices, e
artificiais ou signos propriamente ditos. Os signos artificiais são produzidos cultural e
socialmente para fins de comunicação, a exemplos das palavras, dos sinais detrânsito, do cinema, da pintura, da escultura, entre outros. Os principais signos
artificiais ou propriamente ditos são os símbolos e os signos linguísticos.
Os símbolos são objetos concretos que representam noções abstratas, não
tendo semelhança com essas noções abstratas a que se referem e representando-
as muitas vezes parcialmente. Quando vestimos uma roupa preta para dizer às
pessoas que estamos de luto, por exemplo, estamos utilizando um símbolo criado
pela nossa cultura, usando um objeto concreto (o pano preto) para simbolizar algo
abstrato (o luto), e essa representação é considerada parcial porque o conceito de
luto é muito mais amplo do que o conteúdo abrangido pela cor em questão, contudo
existe uma relação entre esse símbolo e a ideia correspondente. Os símbolos
variam de cultura para cultura; há países em que o pano branco simboliza o luto,
diferentemente de nós. Há, portanto, uma convenção, um acordo entre os falantes
que atribuem ao símbolo um significado.
Todo símbolo é um signo, um sinal. Algo concreto, como o pano preto, torna-
se um signo cultural, um sinal de luto, quando é utilizado como símbolo. Todavia,
podemos igualmente utilizar um signo já existente (uma palavra, um desenho) para
formar símbolos. Dizemos, nesse caso, que, a partir de um simbolismo de primeiro
grau (o signo), passamos para um simbolismo de segundo grau (o símbolo
propriamente dito). Exemplificando, as palavras “no war” são signos linguísticos
(simbolismo de primeiro grau), que significam em Inglês “não guerra”, “ausência de
guerra”, mas também se tornaram um dos símbolos do movimento pacifista
(simbolismo de segundo grau), significando “somos contra a guerra”. Concluindo,
todo símbolo é um signo, mas nem todo signo é um símbolo (de segundo grau).
Os símbolos podem apresentar duas características – a polissemia e a
sinonímia. A polissemia (poli = vários; semia = sentido) significa que eles podem ter
vários significados, como a cor branca, que pode simbolizar tanto a pureza (no
vestido das noivas, por exemplo) quanto a paz (na bandeira branca, por exemplo).
Já a sinonímia indica que vários símbolos podem ter um mesmo sentido. Citamos
como exemplos o sentido de paz, que pode ser representado pela cor branca, por
um ramo de oliveira, por uma pomba branca; bem como o sentido de amor, que em
nossa cultura pode ser representado pelos símbolos coração transpassado por uma
flecha, pela figura de Eros ou por um buquê de rosas vermelhas.
6.4 Os signos verbais
Os signos verbais ou linguísticos também são signos artificiais ou
propriamente ditos, pois também são criados e produzidos pelo homem para fins de
comunicação.
As palavras que constituem as línguas são signos verbais, fônicos. As
palavras (verbo significa palavra) não têm nenhuma semelhança com o que
representam e, por isso, dizemos que os signos verbais são imotivados, ou seja, não
há nenhuma razão (ou motivo) para que um objeto receba o nome de “porta”, por
exemplo. A única exceção a essa regra são as onomatopeias, que são
representações linguísticas de sons da natureza, como “tique-taque”, “bem-te-vi”,
“miar”, “cricrilar”, “zurrar”, etc., pois são palavras que formamos a partir de uma
interpretação dos sons naturais.
Os signos artificiais têm como função interpretar as diferentes linguagens. Os
signos verbais são interpretantes de todas as linguagens, traduzem todos os tipos
de signos, enquanto os signos de outras linguagens e naturezas nem sempre são
capazes de interpretar os signos linguísticos. Po exemplo, o que expresso
visualmente em um desenho animado pode se relatado através de signos verbais,
todavia nem tudo o que é expresso verbalmente pode ser dito de forma visual. Fiorin
(2008, p. 72) ilustra essa ideia citando o verso de Camões “Amor é ferida que dói e
não se sente”, visto que não é possível expressar visualmente que uma coisa dói e,
ao mesmo tempo, é indolor. Isso é possível na lingagem verbal, porque a mesma
dispõe de alguns recursos para ilustrar diferentes conceitos e ideias, como as figuras
de linguagem.
Para finalizar, é interessante relembrar algumas características do signo
linguístico, como a arbitrariedade do signo, em que, de acordo com Saussure, o
signo linguístico em geral é arbitrário, cultural e não é motivado, uma vez que não há
relação entre som e sentido, entre significado e significante (exceto as
onomatopeias). Outra característica é a linearidade do significantes, em que a fala e
a escrita respeitam uma sequência, pois os seus elementos dispõem-se uns após os
outros numa sucessão temporal ou espacial, isto é, um som precisa vir depis do
outro, uma palavra depois da outra, o que impossibilita a produção simultânea de
ambos.
Por fim, citamos a denotação e a conotação, em que denotação é o
significado ou o plano de conteúdo propriamente dito do signo, e a conotação é um
sentido figurado, é a atribuição de um outro sentido a um signo já existente. Para
exemplificar, o sentido do vocábulo “olho” é “órgão da visão, globo alocado na parte
anterior da cabeça”; e o sentido de “gordo” é “característica de quem está acima do
peso, aquele que tem uma quantidade de gordura acima da usual”. Ambas as
definições são no sentido denotativo. Contudo, em português existe a expressão
“olho gordo”, que significa “invejoso, olhar de inveja com o objetivo de prejudicar
outra pessoa, segundo a crença popular”, que imprime um sentido conotativo a
planos de conteúdos já existentes. Sendo assim, “olho” e “gordo” são signos
denotados, e “olho gordo” é um signo conotado. Os principais mecanismos de
conotação são a metáfora e a metonímia, sendo aquela o acréscimo de um
significado a outro quando há relação de semelhança (“Samuel é um gato”) e esta o
acréscimo de um significado a outro quando há relação de coexistência entre eles
(Gosto de ler Camões).
6.5 Os ícones
A noção de ícone foi inserida na Semiologia inicialmente por Peirce e,
posteriormente, por Morris. Os ícones são imagens que possuem certa semelhança
visual com aquilo que representam, ou seja, nos ícones há semelhança entre
significante e significado.
Fotografias, mapas, desenhos, esculturas, impressões digitais, entre outros
são ícones. É claro que uma foto se parece com a pessoa, mas não é a pessoa, um
mapa se parece com a região geográfica que representa, mas não é o local, pois se
tratam de representações e não do objeto real.
Alguns linguistas, como Reznikov, consideram que os ícones não são signos,
pois embora sejam produtos da mente humana, não existe nenhum tipo de semiose,
uma vez que inexiste a convenção, justamente pela similaridade. Assim, uma figura
de um homem se parece com um homem, isto é, não é necessário o
estabelecimento de nenhuma convenção social e cultural para que a mesma seja
interpretada como tal, diferentemente da palavra homem, que foi estabelecida
através de uma convenção, de um contrato social referente à união de seu
significante e significado. Entretanto, os ícones são utilizados como signos que
representam ideias, transmitem informações.
Pode acontecer de alguns ícones passarem a ser utilizados como símbolos.
Retomando o exemplo da figura de um homem, se a mesma estiver na porta de um
banheiro, estará sendo utilizada como símbolo, representando que aquele local é de
uso masculino, ou seja, haverá algo concreto (figura de um homem) representando
uma noção abstrata (uso exclusivo para homens).
Para melhor esclarecimento dos tipos de signos, vejamos mais alguns
exemplos, lembrando que muitas vezes um mesmo mecanismo de comunicação
pode ser constituído por mais de um tipo de signo:
a) No sistema de trânsito, temos a utilização de diversos signos (sinais),
para o organização e orientação do tráfego de automóveis, como
demonstrado a seguir:
Ícones: as placas com desenhos. No exemplo abaixo, há a imagem
de um ciclista e nessaplaca há também um símbolo, que é a cor
vermelha, representando a proibição de ciclista no local onde estiver
fixada.
Símbolos: as cores dos semáforos, em que há coisas concretas
(cores) representando noções abstratas. No caso, a cor
vermelha simboliza “parar”, a cor amarela indica “atenção”, e a
cor verde significa “seguir”;
Signos verbais: as placas com palavras, como no exemplo da placa
que indica que é para parar; além disso, a cor vermelha aparece
como um símbolo, reforçando a ideia do signo verbal.
b) O movimento hippie da década de 1960 possuía vários símbolos:
O gesto com o indicador e o dedo médio em forma de V (símbolo
gestual), que significava paz e amor;
A árvore de cabeça para baixo (ícone usado, por exemplo, em
colares);
As próprias palavras PAZ E AMOR (signo verbal);
c) Na cerimônia do casamento, há signos como:
A cor branca do vestido da noiva (símbolo) que representa a
inocência da moça;
A aliança (símbolo) que representa a união do casal;
As fotos (ícones) que comporão o álbum de casamento, retratando
tal ocasião.
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A Designação Gerativo-Transformacional
Competência e Performance
Gramatical e Agramatical
Estrutura Profunda e de Superfície