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AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 1 PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO FICHA TÉCNICA Título Práticas Recomendadas para o Bloco Operatório Autor AESOP - Associação dos Enfermeiros de Sala de Operações Portugueses Impressão e acabamento: Contactos Av. do Brasil, n.º 1, Piso 4, Salas 1 e 2 1700-008 Lisboa Capa Rita Gomes - ritaivogomes@hotmail.com Paginação Espaço Gráfico, Lda. Impressão e Acabamento Espaço Gráfico, Lda. ISBN 978-989-20-3725-7 Depósito Legal 232171/05 3º Edição Abril 2013 Adoptadas como Normas de Boas Práticas, pela Ordem dos Enfermeiros, em Janeiro 2011 “A AESOP escreve de acordo com a antiga ortografia “ Associação dos Enfermeiros de Sala de Operações Portugueses Pessoa Colectiva de Utilidade Pública desde 28 de Setembro de 2001 2 | SUMÁRIO î 1. PRÁTICAS RECOMENDADAS: 4 O VESTUÁRIO DO BLOCO OPERATÓRIO 9 O USO DE ANTISSÉPTICOS NO BLOCO OPERATÓRIO 14 DESINFECÇÃO DO CAMPO OPERATÓRIO 19 PREPARAÇÃO PRÉ CIRURGICA DAS MÃOS 24 O USO DE LUVAS NO BLOCO OPERATÓRIO 31 TÉCNICA ASSÉPTICA CIRÚRGICA 40 UTILIZAÇÃO DE CAMPOS CIRÚRGICOS NO BLOCO OPERATORIO 47 MANIPULAÇÃO E ARMAZENAMENTO DE MATERIAL ESTÉRIL NO BLOCO OPERATÓRIO 53 UTILIZAÇÃO DE ELECTROCIRURGIA 63 UTILIZAÇÃO DE GARROTES PNEUMÁTICOS 71 CONTAGEM DE COMPRESSAS, INSTRUMENTOS E MATERIAIS CORTOPERFURANTES 76 DESINFECÇÃO DE MATERIAIS: USO DE DESINFECTANTES NO BLOCO OPERATÓRIO 83 TRATAMENTO DE INSTRUMENTOS CIRÚRGICOS 91 TRATAMENTO DE MATERIAL DE VIDEOCIRURGIA 97 LIMPEZA E DESINFECÇÃO DE EQUIPAMENTO ANESTÉSICO 105 HIGIENIZAÇÃO DAS SALAS DE OPERAÇÕES 113 FACTORES AMBIENTAIS NO BLOCO OPERATÓRIO 117 CUIDADOS A UTENTES COM DOENÇA DE CREUTZFELDT JAKOB 122 UTILIZAÇÃO DE PROTECÇÕES RESPIRATÓRIAS 128 USO DO LATEX NO BLOCO OPERATÓRIO 132 PREVENÇÃO DA CIRURGIA NO LOCAL ERRADO, DO PROCEDIMENTO CIRURGICO ERRADO E DO UTENTE ERRADO 135 DOTAÇÕES SEGURAS EM AMBIENTE PERIOPERATÓRIO 140 UTILIZAÇÃO DE AGENTES ANESTÉSICOS INALATÓRIOS 146 SEGURANÇA NO REPROCESSAMENTO DE INSTRUMENTOS CIRURGICOS REUTILIZÁVEIS, CEDIDOS EM REGIME DE EMPRÉSTIMO î2. TOMADAS DE POSIÇÃO DA AESOP • RECOMENDAÇÕES DA AESOP PARA A GESTÃO DA DESPESA E REDUÇÃO DO DESPERDICIO NO BLOCO OPERATÓRIO – Jan. 2011 • TOMADA DE POSIÇÃO DA AESOP SOBRE REPROCESSAMENTO DE DISPOSITI- VOS MÉDICOS DE USO ÚNICO – Junho 2012 • O PAPEL DOS DELEGADOS DA INDUSTRIA DE DISPOSITIVOS MÉDICOS EM AMBIENTE PERIOPERATÒRIO - Out. 2012 î3. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 3 AGRADECIMENTOS Agradecemos a todos que com os seus saberes, experiência profissional, disponibi- lidade, compreensão e amizade contribuíram para que este livro fosse uma realidade. INTRODUÇÃO Parte integrante do papel do enfermeiro perioperatório é garantir a segurança do utente e as condições ideais do ambiente cirúrgico. Como todos sabemos, cumprir estes objectivos, nem sempre é fácil dadas as inúmeras limitações que diversos blocos operatórios portugueses apresentam e os condicionalismos muitas vezes impostos à organização e gestão dos serviços. No entanto, em matéria de segurança de utentes e profissionais, as condições a que estão sujeitos representam um risco que deve ser minimizado através da implementação de boas práticas no desempenho quotidiano de toda a equipa mul- tiprofissional. Este livro pretende fornecer linhas de orientação e fundamentação científica relativamente a procedimentos comuns em bloco operatório. As Práticas Recomendadas são recomendações fundamentadas em evidência científica, obtidas através de compilação de literatura publicada, investigação e opinião de peritos. Representam a posição oficial da AESOP – Associação dos Enfermeiros de Sala de Operações Portugueses - e resumem o que acreditamos ser a boa prática que permite atingir um óptimo nível de cuidados no bloco operatório. Destinam-se a ser implementadas nos blocos operatórios, unidades de cirurgia ambulatória, salas de endoscopia, radiologia de intervenção e todas as áreas onde se realizam técnicas invasivas. As Tomadas de Posição são documentos fundamentados na prática baseada na evidência, elaborados por um grupo de peritos, com recomendações pertinentes para a resolução de problemas, que tem como objectivo defender a qualidade e se- gurança dos cuidados perioperatórios e as condições de trabalho dos enfermeiros. A AESOP sempre esteve atenta às situações politicas, económicas e sociais que possam causar dano ou por em risco a sociedade, com o sentido de oportunidade de evidenciar a importância e as competências dos enfermeiros perioperatórios. 4 | îO VESTUÁRIO DO BLOCO OPERATÓRIO Edição 2005 Estas Práticas Recomendadas pretendem fornecer linhas de orientação sobre o vestuário que deve ser usado e como deve ser usado nas áreas restritas e semi- restritas do bloco operatório. O corpo humano é a maior fonte de contaminação microbiana do bloco operatório. O vestuário do bloco, constituído por fatos próprios, toucas, barretes, másca- ras, protecções oculares, calçado e outras barreiras protectoras, é usado como medida preventiva de contaminação de utentes e profissionais expostos a micror- ganismos e materiais de risco. O vestuário do bloco é também um importante factor no controlo da contamina- ção do ambiente cirúrgico e é usado para promover um elevado nível de higiene. RECOMENDAÇÃO I Antes de entrar no bloco operatório deverão ser retiradas todas as jóias e adornos. Justificação – Pulseiras, relógios, anéis e outros adornos, podem alojar mi- crorganismos e impedir a sua remoção durante a lavagem das mãos. Os brincos podem ser permitidos desde que sejam de pequenas dimensões, usados junto aos lóbulos das orelhas e contidos dentro da touca. RECOMENDAÇÃO II Todas as pessoas que entram no bloco operatório devem vestir roupa própria para ser usada em ambiente cirúrgico – ROUPA DE CIRCULAÇÃO. A ROUPA DO BLOCO É DE USO EXCLUSIVO NESSE LOCAL Justificação – O uso de roupa exclusiva no bloco operatório, pretende promo- ver um elevado nível de higiene, o controlo da contaminação do ambiente cirúrgico, proteger os profissionais de parte dos diversos riscos a que estão expostos e evitar a contaminação de áreas exteriores ao bloco. 1 – As diversas peças de roupa devem ser produzidas a partir de materiais seleccionados, 100% algodão ou “tecido não tecido”, que não libertem cotão, pro- porcionem conforto e confiram uma aparência profissional aos utilizadores. Justificação – Os materiais que não libertam partículas, minimizam a dispersão microbiana e consequentemente, a contaminação do ambiente cirúrgico. 2 – Os fatos de circulação devem ser de cor perfeitamente distinta da roupa estéril e devem ser constituídos por duas peças: calça e blusa de manga curta. As mangas e pernas devem ter acabamentos justos. Os decotes devem ser reduzidos de forma a limitar a área de pele exposta e os bolsos, se necessários, devem ser colocados de chapa, lateralmente, nas pernas das calças. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 5 Justificação – A movimentação dos profissionais liberta, por fricção da pele, microrganismos para a atmosfera. Estudos indicam que o uso de calças e blusas em vez de batas ou vestidos, diminui significativamente os níveis de dispersão de partículas no ambiente cirúrgico. Os decotes reduzidos e os acabamentos justos nas extremidades, pretendem funcionar como um mecanismo de contenção da libertação de partículas de des- camação da pele. A ausência de bolsos nas blusas previne a queda acidental de objectos permi- tindo uma maior liberdade de movimentos aos profissionais. Para além disso, os bolsos nas pernas permitem o uso das blusas contidas dentro das calças, o que contribui também para a diminuição do número de partículas libertadas. 3 – Devem existir casacos com manga comprida, fabricados a partir dos mes- mos materiais dos fatos de circulação, que deverão ser usados fechados, sempre que a temperatura no bloco se torne desagradavelmente friapara os profissionais. Justificação – O conforto dos profissionais é fundamental para um bom desem- penho. O uso de blusões próprios para o bloco, protege os profissionais do frio e o ambiente cirúrgico da contaminação desnecessária. Não é permitido o uso de casacos de malha dentro do bloco operatório, quer pelo elevado grau de contaminação que representam (uma vez que não são pro- cessados diariamente), quer pelo elevado número de partículas que libertam para a atmosfera. 4 – Todas as peças que constituem o vestuário do bloco operatório devem ser mudadas e processadas, diariamente e sempre que se encontrem visivelmente sujas ou molhadas. Justificação – Roupas visivelmente sujas ou molhadas, deixam de constituir barreira protectora e podem ser um veículo de infecção cruzada. 5 – Após o uso, os fatos de circulação devem ser colocados em contentor pró- prio para recolha de roupa, o qual deve ser mantido fechado até à sua evacuação. Não é aconselhável a prática de pendurar ou colocar em armários roupa usada, mesmo que aparentemente limpa, para voltar a ser utilizada posteriormente. Justificação – A roupa de circulação do bloco, fica contaminada por diversos mi- crorganismos durante o seu uso. Foi demonstrado que se encontra um maior núme- ro de microrganismos nos blocos onde é rotina guardar a roupa utilizada, por exem- plo, nas horas em que os profissionais se ausentam para fazer as suas refeições. A colocação da roupa usada em contentor fechado, imediatamente após ter sido despida, diminui o risco de contaminação e promove um elevado nível de higie- ne no ambiente cirúrgico. 6 – Após a utilização, a roupa de circulação deve ser processada, diariamente, em lavandaria com qualificação para o processamento de roupa hospitalar. Justificação – O processamento de roupa hospitalar em locais sem qualifica- ção para o efeito, pode traduzir-se numa descontaminação ineficaz e tornar-se numa potencial fonte de disseminação de microrganismos patogénicos. 6 | 7 – Após o processamento, a roupa deve ser manipulada o mínimo possível e deve ser protegida de posterior recontaminação, durante o transporte e armaze- namento nos serviços de origem. Deve circular em carro próprio, fechado e deve ser armazenada em local limpo, seco e com boas condições de arejamento. Justificação – Os processos de transporte e armazenamento de roupa trata- da, são fundamentais para garantir óptimas condições na altura da utilização. Diversos estudos demonstram um aumento significativo de colónias de micror- ganismos na roupa processada, quando não são respeitados os requisitos neces- sários durante o transporte e armazenamento. RECOMENDAÇÃO III Cabelos e pêlos faciais, incluindo patilhas, devem estar completamente cobertos quando se entra no bloco operatório. 1 – Deve ser usado barrete ou touca cirúrgica, que cubra o cabelo na sua to- talidade. Justificação – Os barretes e toucas impedem a libertação de partículas para a atmosfera e a queda de cabelos sobre as roupas ou campos cirúrgicos. 2 – Os barretes e toucas cirúrgicas devem ser fabricados a partir de materiais que não libertem cotão. Devem ser escolhidos modelos de uso único que minimi- zem a dispersão microbiana. Imediatamente após a utilização, devem ser descartados em recipiente próprio. Justificação – Quando descoberto, o cabelo capta e fixa microrganismos na proporção do seu comprimento, ondulação e oleosidade. Está provado que, os microrganismos dos cabelos, têm implicações directas com a infecção das feridas operatórias pelo que, é necessário o seu isolamento total. RECOMENDAÇÃO IV Todas as pessoas que entram em áreas restritas do bloco operatório, devem usar máscara, quando decorrem procedimentos cirúrgicos, quando existem materiais estéreis abertos ou na presença de pessoas desinfectadas. 1 – A máscara deve ser usada na presença de ferida aberta, materiais estéreis abertos ou pessoas desinfectadas. Deve cobrir tanto a boca como o nariz e deve ser colocada de forma a desviar lateralmente as partículas provenientes das vias respiratórias que não devem ser dirigidas para o campo operatório. As máscaras de alto risco com protecção ocular devem ser utilizadas sempre que se prevêem aerossóis ou salpicos de sangue ou outros fluídos orgânicos. Justificação – O uso de máscara é uma importante medida de controlo de infecção. Tem a função de conter e filtrar as gotículas e microrganismos expelidos pela boca e nariz, durante a respiração, conversação, tosse, espirros, etc. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 7 Para além disso, as máscaras são também uma barreira protectora contra o contacto com fluídos orgânicos e/ou contra microrganismos patogénicos possíveis de transmissão por gotículas, minimizando o risco a que os profissionais estão expostos - Precauções Básicas (Standard). 2 – Todos os profissionais devem substituir regularmente as máscaras, de acor- do com as recomendações do fabricante relativamente à duração da sua capacidade de filtração (no máximo 5 horas) e sempre que se encontrem sujas ou danificadas. A equipa estéril, deve proceder sempre à substituição de máscaras entre proce- dimentos cirúrgicos, independentemente do tempo de duração das intervenções. Após o uso, as máscaras devem ser cuidadosamente removidas, seguras ape- nas pelas fitas e imediatamente descartadas em recipiente próprio para resíduos sólidos contaminados. Justificação – O uso da máscara pretende ser uma medida de controlo de infecção bem como uma barreira protectora para os profissionais. A acumulação de humidade e microrganismos expelidos pelas vias aéreas conduz à saturação da máscara e consequente ineficácia da sua capacidade de filtração. Um correcto protocolo de substituição de máscaras favorece a segurança de utentes e profissionais. RECOMENDAÇÃO V Todas as pessoas que entram no bloco operatório, devem ter disponível calçado para uso exclusivo nas áreas semi-restritas e restritas, resistente ao processa- mento diário recomendado (lavagem e desinfecção). 1 – A substituição de calçado deve ser obrigatoriamente respeitada nas zonas transfer. Justificação – O uso de calçado próprio exclusivo das áreas semi-restritas e res- tritas do bloco operatório, favorece o controlo da contaminação do ambiente cirúr- gico e limita a disseminação de microrganismos patogénicos nas áreas adjacentes. 2 – O calçado, (socos ou botas), deve ser fabricado a partir de materiais anties- táticos, resistentes à lavagem e desinfecção mecânica. A sua parte superior deve ser lisa, apresentando orifícios apenas nas partes laterais. Justificação – O calçado constitui uma das barreiras protectoras que devem estar disponíveis para uso dos profissionais. Os socos com orifícios superiores não protegem os profissionais do derramamento de fluídos orgânicos. Os orifícios late- rais são suficientes para o arejamento dos pés. O uso de socos é preferencial ao uso de botas uma vez que, para além do seu processamento ser simples, são práticos de calçar e descalçar o que favorece o respeito pelas zonas transfer. As botas só estão indicadas quando se prevê o der- ramamento dum elevado volume de fluídos. 3 – O calçado utilizado deve ser diariamente submetido a um processo de lava- gem e desinfecção, de preferência mecânico. 8 | Justificação – O processamento diário do calçado limita o grau de contamina- ção do ambiente cirúrgico e o risco a que os profissionais estão expostos, promove um elevado nível de higiene no bloco operatório e diminui substancialmente o nú- mero de calçado necessário uma vez que, o mesmo calçado pode ser usado, em óptimas condições, por vários profissionais em alturas diferentes. 4 – O uso de coberturas de sapatos não é permitido no bloco operatório. Justificação – As coberturas de sapatos de pano, plástico ou “tecido não teci- do”, para além de se rasgarem e sujarem facilmente, não constituem uma barreira protectora eficaz contra o derramamento de fluídos ou o risco de acidentes com objectoscortoperfurantes. Como não são completamente aderentes, funcionam como «vassoura», contri- buindo também para o aumento do grau de contaminação do bloco operatório. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 9 îO USO DE ANTISSÉPTICOS NO BLOCO OPERATÓRIO Edição 2005 Estas Práticas Recomendadas, pretendem fornecer linhas de orientação sobre o uso de antissépticos no bloco operatório. A prevenção da infecção durante procedimentos cirúrgicos, depende da inter- relação de diversos factores. Quanto mais invasivo o procedimento e mais suscep- tível o utente, maiores são os cuidados necessários. Para controlar o risco de infecção cirúrgica é necessário eliminar a contami- nação microbiana transitória, reduzir ao mínimo e impedir a proliferação da flora microbiana residente da pele e/ou mucosas quer do utente, quer dos profissionais envolvidos no processo cirúrgico. Um antisséptico é um desinfectante que obedece a determinadas caracterís- ticas que o tornam inócuo, para poder ser aplicado em tecidos vivos. Tais carac- terísticas também reduzem a sua adequação para outros fins, nomeadamente a desinfecção de materiais ou superfícies. A eficácia dos antissépticos na desinfecção da pele e mucosas, depende da sua escolha adequada e da correcta utilização pelos profissionais. As práticas aqui recomendadas têm o intuito de reter o que se considera ne- cessário para atingir um óptimo nível de cuidados nesta área. RECOMENDAÇÃO I A aplicação pré-operatória de qualquer antisséptico, obriga a uma limpeza prévia e rigorosa da pele e/ou mucosas. Justificação – A quantidade de microrganismos na pele ou mucosas, pode influenciar a eficácia do antisséptico. A redução de microrganismos e a remoção da sujidade por acção mecânica, é uma condição essencial, de preparação da pele e mucosas, para que a desinfecção seja eficaz. 1 – Na véspera e no dia da cirurgia (até duas horas antes da intervenção cirúr- gica) é obrigatório o banho do utente. Justificação – A limpeza mecânica com água e sabão, visa remover a sujidade e reduzir ao mínimo a presença de microrganismos transitórios na pele. 2 – No dia da intervenção após o banho, o utente deve vestir roupa lavada. Justificação – O uso de roupa lavada é fundamental para manter um baixo nível de microrganismos na pele. 3 – Sempre que possível a tricotomia deve ser evitada. Justificação – A prática da tricotomia causa micro-lesões da pele que favore- cem a multiplicação microbiana. 4 – Quando não é possível evitar a tricotomia, esta deve ser reduzida ao mínimo indispensável, efectuada o mais próximo possível do acto cirúrgico, de preferência no bloco operatório, em área própria, fora da sala de operações, com máquina eléctrica e lâminas descartáveis. 10 | Justificação – Quanto mais alargada e maior o tempo de exposição da área tricotomizada, maior o risco de infecção. O uso de máquina eléctrica evita as micro-lesões da pele. O uso de lâminas descartáveis é fundamental para prevenir contaminações cruzadas. RECOMENDAÇÃO II Antes de qualquer procedimento invasivo é obrigatório o uso de um antisséptico para desinfecção da área a intervencionar. Justificação – O uso de antisséptico pretende reduzir ao máximo o número de microrganismos residentes da pele e impedir a sua proliferação. 1 – Deverá ser assegurada a tolerância do utente ao antisséptico e a compati- bilidade deste com o produto usado para a higiene da pele. Justificação – A prevenção de reacções alérgicas aos antissépticos é funda- mental para a segurança e bem-estar do utente. O uso indiscriminado de detergentes na pele, pode favorecer a ineficácia do antisséptico. 2 – A aplicação do antisséptico deve ser feita com movimentos circulares, par- tindo do local da incisão para a periferia. Justificação – Os movimentos circulares facilitam uma maior penetração do antisséptico em toda a área a desinfectar e favorecem a remoção de partículas de descamação. Uma área desinfectada alargada, diminui o risco de infecção cirúrgica. 3 – Após a aplicação do antisséptico, a área desinfectada deve estar seca antes de serem colocados os campos cirúrgicos. O excesso de antisséptico que eventu- almente escorra, tem obrigatoriamente de ser limpo. Justificação – A humidade, para além de favorecer a proliferação de microrga- nismos, aumenta significativamente o risco de queimaduras no utente, em especial quando utilizado o bisturi eléctrico. RECOMENDAÇÃO III A utilização de antissépticos deve obedecer a normas de procedimentos que assegurem a eficácia do processo. Justificação – O incumprimento das normas pode influenciar a eficácia do an- tisséptico e consequentemente o resultado final. 1 – Devem ser rigorosamente seguidas as instruções do fabricante relativas à utilização e armazenamento. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 11 Justificação – O não cumprimento das indicações do fabricante compromete a eficácia do antisséptico. 2 – Devem ser respeitados os prazos de validade conforme indicações do fabri- cante e estes devem estar registados na embalagem, em rótulo facilmente visível. Justificação – O respeito pelo prazo de validade é um factor importante para garantir a eficácia do antisséptico. 3 – Os reservatórios de antissépticos devem ser de utilização única, de peque- nas dimensões e ser mantidos ao abrigo da luz e do calor. Justificação – O cumprimento destas medidas evita a contaminação e a possí- vel inactivação do produto. 4 – Os frascos que contêm antissépticos devem ser manipulados sem contami- nar o seu interior e devem manter-se rolhados quando não estão em uso. Justificação – O manuseamento correcto evita a contaminação e favorece a conservação das características do antisséptico. 5 – A lavagem e secagem dos doseadores são obrigatórias sempre que os reservatórios são substituídos. Justificação – Este procedimento é fundamental para remover resíduos de antissépticos e prevenir a contaminação do novo produto. 6 – Não é permitida a prática de acrescentar novo produto ao já existente nos reservatórios de antissépticos. Justificação – Esta prática favorece a contaminação do produto e consequen- temente da pele, quer dos utentes quer dos profissionais utilizadores. RECOMENDAÇÃO IV A gama de antissépticos a utilizar nas instituições de saúde, deve ser orientada pela Comissão de Controlo de Infecção. Justificação – Estas Comissões são os órgãos competentes para seleccionar os antissépticos adequados às necessidades das instituições e fornecer linhas de orientação sobre a sua utilização. 12 | CARACTERÍSTICAS DE ALGUNS ANTISSÉPTICOS Os antissépticos podem ser apresentados em soluções aquosas, com ou sem sabão, ou em soluções alcoólicas, sendo estes (álcoois e soluções alcoóli- cas), mais eficazes e de acção mais rápida do que qualquer solução aquosa. ÁLCOOIS - Etanol, Propanol, Isopropanol, com ou sem outro antisséptico as- sociado Em concentrações apropriadas os álcoois produzem maior e mais rápida redu- ção do número de microrganismos na pele. Actuam por desnaturação das proteí- nas, sendo necessário, após a aplicação, deixar secar. Espectro de acção Bactericida, incluindo BK, fungicida e virucida. Não têm acção esporicida. Vantagens Acção rápida, baixa toxicidade, evaporação rápida, boa tolerância Desvantagens Secam a pele, pelo que necessitam da adição de derma- protectores. São voláteis, inflamáveis e têm baixa pene- tração em presença de matéria orgânica. AMÓNIOS QUATERNÁRIOS Em solução alcoólica Cloreto de Benzalcónio - Etilsulfato de Mecetrónio São surfactantes (tensioactivos, bipolares) catiónicos, muito solúveis em água, álcoois e acetona. Têm uma acção detergente e solubilizante. O seu poder antis- séptico aumenta com a temperatura. Actuam por destruição da membrana citoplasmática e desnaturação das proteínas. Espectro de acção Bacteriostáticos em concentrações baixas. Bactericidas em concentrações elevadas e com contac- tos mais prolongados. O seu espectro de actividade englobaGram positivos e, em menor grau, Gram negativos, fungos e vírus. Não têm acção esporicida. Vantagens Pouco irritantes e pouco alergizantes. Desvantagens São inactivados por sabões, matéria orgânica e borra- cha. Não devem ser utilizados em soluções aquosas CLOROHEXIDINA - Digluconato É um bi-guanido catiónico. Tem melhor actividade em pH neutro ou ligeiramente alcalino. Sendo uma substância básica, forma sais com ácidos orgânicos e inorgâ- nicos. O digluconato é solúvel na água. Incolor e inodor, tem sabor amargo. Geralmente apresentado sob a forma de sabões antissépticos, com uma con- centração de clorohexidina de 4% indicado para desinfecção das mãos. Em solução alcoólica contendo 0,5% de clorohexidina em 70% de propanol e AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 13 1% de glicerol como emoliente, usado para desinfecção das mãos. Existe ainda uma formulação a 0,2% com indicação para desinfecção pré-ope- ratória da mucosa oral. Actuam por rotura da parede celular. Espectro de acção Mais activo sobre Gram positivos do que Gram negativos. É fungicida, não tem actividade sobre BK e tem pouca actividade virucida. Não é esporicida e algumas espécies de Pseudomonas e Proteus são resistentes. Vantagens Pouco inactivado em presença de matéria orgânica. Tem actividade residual. Absorção cutânea nula e baixa toxi- cidade. Desvantagens Inactivado pelo sabão e detergentes aniónicos. Não deve ser utilizado em cirurgia cerebral e do ouvido interno. OXIDANTES-HALOGENADOS - Iodopovídona e Iodo Iodopovídona em solução aquosa - 0,4% solução espuma; 10 % (1% de iodo) solução dérmica, 10% (1% de iodo) solução ginecológica e 10% (1% de iodo) so- lução oral. Iodopovidona em solução alcoólica – 10% Iodo em solução alcoólica - 1% Actuam por destruição das proteínas e das estruturas dos ácidos nucleicos da célula. Espectro de acção Bactericida incluindo BK, virucida, fungicida e com algu- ma actividade esporicida, dependendo do tempo de con- tacto. Vantagens Iodopovidona – Indicada como antisséptico da pele e mu- cosas. Não é irritante e não mancha. Tintura de Iodo – Seca mais rapidamente, tem uma ac- ção relativamente rápida e tem maior actividade. Desvantagens Não deve ser utilizado em recém-nascidos. É rapidamente neutralizado na presença de matéria or- gânica (sangue ou secreções). Não tem actividade residual. A Tintura de Iodo é mais alergizante que a Iodopovidona 14 | îDESINFECÇÃO DO CAMPO OPERATÓRIO Edição 2005 A flora da pele pode ser de dois tipos: Flora transitória, adquirida na sequência do contacto e que não sobrevive na pele mas pode ser fixada pelo oleosidade ou sujidade e, flora residente que se mul- tiplica na pele e se encontra nas camadas mais profundas. A preparação da pele do utente antes da cirurgia e a correcta desinfecção do campo operatório, têm como objectivo minimizar o risco de infecção operatória, já que facilmente as bactérias encontradas na pele podem ser causa de infecção. O cumprimento rigoroso das normas de procedimentos de desinfecção do cam- po operatório é uma medida fundamental para o controlo da infecção. Esta RECOMENDAÇÃO, pretende reter o que se considera ser necessário para atingir um óptimo nível de cuidados nesta área. RECOMENDAÇÃO I A aplicação pré-operatória de qualquer antisséptico obriga a uma limpeza prévia e rigorosa da pele e/ou mucosas Justificação – A quantidade de microrganismos na pele ou mucosas influencia a eficácia do antisséptico. A redução destes microrganismos e a remoção da su- jidade (por acção mecânica) é uma condição essencial da preparação da pele e / ou mucosas. 1 – Na véspera e no dia da cirurgia (até 2 horas antes da intervenção cirúrgica) é obrigatório o banho do utente. Justificação – A limpeza mecânica com água e sabão visa remover a sujidade e reduzir ao mínimo a presença dos microrganismos transitórios da pele. 2 – No dia da intervenção após o banho, o utente deve vestir roupa lavada. Justificação – O uso de roupa lavada é fundamental para minimizar o aumento de microrganismos na pele. 3 – Sempre que possível a tricotomia deve ser evitada. Justificação – A prática da tricotomia causa micro lesões da pele que podem favorecer a ocorrência da infecção. 4 – Quando não é possível evitar a tricotomia, esta deve ser reduzida ao míni- mo. A sua realização deve ocorrer entre o banho da véspera e o do dia que deverá ser o mais próximo possível da intervenção cirúrgica, não ultrapassando um perí- odo superior a 2 horas. Justificação – Quanto mais alargada e maior o tempo de exposição das áreas tricotomizadas, maior o risco de infecção. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 15 5 – A tricotomia indispensável deve ser feita com máquina eléctrica (clipper cirúrgico) e lâminas descartáveis. Justificação – O uso de máquina eléctrica evita as micro lesões da pele. O uso de lâminas descartáveis é fundamental para prevenir contaminações cruzadas. RECOMENDAÇÃO II Antes de qualquer procedimento invasivo é obrigatório o uso de antisséptico para desinfecção da área a intervencionar. Justificação – O uso de antisséptico tem como objectivo reduzir ao máximo o número de microrganismos residentes da pele e impedir a sua proliferação. 1 – A gama de antissépticos a utilizar deve ser orientada pela Comissão de Controlo de Infecção. Justificação – Estas Comissões são os órgãos competentes para seleccionar os antissépticos adequados às necessidades das instituições e fornecer linhas de orientação sobre a sua utilização. 2 – Na escolha do antisséptico a utilizar deve ter-se em atenção os seguintes aspectos: • Local a intervencionar, • Base do antisséptico, • Tempo de contacto, • Acção residual, • Toxicidade. Justificação – A escolha criteriosa do antisséptico em função dos aspectos mencionados é fundamental para a eficácia do processo. Os solutos de base alcoólica, em concentrações apropriadas, produzem maior e mais rápida redução de microrganismos na pele. Os solutos de base aquosa necessitam de um maior tempo de contacto para produzir uma redução eficaz de microrganismos, o período de secagem é significa- tivamente superior. Os solutos com detergente necessitam ser retirados com água, pelo que são indicados para a higiene da pele e não para a desinfecção do campo operatório. 3 – Deverá ser assegurada a tolerância do utente ao antisséptico utilizado e a compatibilidade deste com o produto usado para a higiene da pele. Justificação – A prevenção de reacções alérgicas aos antissépticos é funda- mental para a segurança e bem-estar do utente. O uso indiscriminado de detergentes da pele pode reduzir a eficácia do antis- séptico. 16 | RECOMENDAÇÃO III Deve ser estabelecido um protocolo de desinfecção cirúrgica da pele no Bloco Operatório. Justificação – A existência de protocolos favorece a execução correcta das manobras de desinfecção. 1 – O protocolo estabelecido deve ter em atenção os seguintes aspectos: • Antissépticos utilizados, • Elemento da equipa que procede á desinfecção, • Técnica da desinfecção do campo operatório, • Registos que devem ser feitos relativos á desinfecção. Justificação – É fundamental que todos estes pontos estejam estabelecidos e sejam do conhecimento dos profissionais para favorecer a eficácia do processo da desinfecção, impedir a má técnica e a indisciplina no bloco operatório, salvaguar- dando a segurança do utente. RECOMENDAÇÃO IV A técnica de utilização de antissépticos deve obedecer às normas protocoladas para a desinfecção do campo operatório. Justificação – O não cumprimento destas normas pode influenciar a eficácia do antisséptico e consequentemente o resultado final. 1 – A desinfecção da pele deve ser realizada por pessoal qualificado e com co- nhecimentos suficientes que lhe permitam executar a técnica com todo o rigor. Justificação – Um campo operatório mal desinfectado constitui por si só, um elevado risco de infecção intra-operatória que pode pôr em perigo o sucesso de todo o procedimentocirúrgico. 2 – Antes de iniciar a desinfecção do campo operatório é obrigatória a desin- fecção cirúrgica das mãos. Justificação – A desinfecção cirúrgica das mãos é fundamental para reduzir os microrganismos minimizando assim o risco de contaminação do campo operatório. 3 – A desinfecção do campo operatório deve ser realizada sem roupa estéril vestida. Justificação – A desinfecção do campo operatório obriga a uma proximidade de risco que acidentalmente pode conduzir à contaminação da roupa estéril. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 17 4 – A área a desinfectar deverá ser suficientemente alargada de forma a im- pedir a transição de microrganismos para o campo estéril a estabelecer. Deverá ter-se em consideração o tamanho da incisão e todos os procedimentos tais como, colocação de drenos, necessidade de aumentar a incisão ou converter a cirurgia. Justificação – A definição de uma área alargada a desinfectar, diminui o risco de contaminação do campo operatório por transferência de microrganismos du- rante a colocação de campos estéreis. 5 – A técnica de desinfecção do campo operatório deve ser padronizada para todo o pessoal de acordo com os seguintes procedimentos: • Deve ser preparada uma mesa própria para a desinfecção, • O antisséptico deve ser aplicado com compressa estéril montada em pinça ou similar descartável, com luvas esterilizadas que terão que ser retiradas após este procedimento. • A aplicação do antisséptico deve ser feita sempre com movimentos circulares partindo do local da incisão para a periferia, sem voltar à área já desinfectada, • O antisséptico em solução alcoólica deve ser aplicado com compressas reno- vadas e os movimentos circulares da 2ª aplicação deverão ser realizados até o antisséptico evaporar. Justificação – O cumprimento rigoroso de todos os procedimentos favorece a optimização da técnica e a eficácia do processo. 6 – Deve-se evitar que o antisséptico escorra para os lados, durante a aplicação. O excesso de antisséptico que eventualmente escorra tem obrigatoriamente que ser limpo. A pele do utente não deve estar em contacto com materiais (lençóis, eléctrodos, etc.), húmidos. Justificação – A humidade, para além de favorecer a proliferação de microrga- nismos, aumenta significativamente o risco de queimaduras no utente, em especial quando é utilizado o bisturi eléctrico. Os antissépticos com iodo são especialmente bons condutores de corrente eléctrica o que potencia este risco. Os antissépticos em solução alcoólica têm maior risco de incêndio. Só deve ser iniciada a utilização de electrocoagulação após a sua completa evaporação. 18 | RECOMENDAÇÃO V Devem ser efectuados registos de todos os procedimentos efectuados no bloco operatório relativos à preparação da pele da área a intervencionar. Justificação – Os registos intra-operatórios são fundamentais para a continui- dade dos cuidados. 1 – Relativamente à preparação da pele deverá ser registado no processo do utente: • Hora da tricotomia, • Descrição da área tricotomizada e material utilizado, • Observação da pele antes da desinfecção, • Antisséptico utilizado na desinfecção do campo operatório, • Descrição da área desinfectada, • Nome do profissional que procedeu á desinfecção, • Eventuais sinais de alergia no final da intervenção. Justificação – Os registos detalhados permitem a avaliação dos cuidados, a apreciação da responsabilidade da actuação da equipa e, ainda, podem ser uma fon- te de informação preciosa para o despiste e resolução de eventuais complicações. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 19 îPREPARAÇÃO PRÉ - CIRÚRGICA DAS MÃOS Edição 2005 1ª Revisão 2010 2ª Revisão 2012 A pele constitui a principal fonte de contaminação microbiana do ambiente ci- rúrgico. Apesar de todos os elementos da equipa estéril usarem bata, impermeável e estéril, e luvas esterilizadas, a descontaminação pré - cirúrgica das mãos é obriga- tória antes de qualquer procedimento cirúrgico / invasivo. São seus objectivos: • Remover na totalidade partículas e microrganismos transitórios das unhas, mãos e antebraços, • Reduzir ao mínimo o número de microrganismos residentes da pele • Inibir a proliferação dos microrganismos. Na última década a reintrodução de soluções de base alcoólica como produtos padrão para as práticas de higiene das mãos, veio alterar as práticas de descon- taminação pré- cirúrgica das mesmas. Estes produtos com acção anti-séptica de elevada eficiência, rápida acção, largo espectro e reduzida agressividade para pele, têm demonstrado uma superior actividade microbicida, condicionando alterações muito significativas nas práticas de preparação pré - cirúrgica, adicionalmente e de acordo com a evidência acumulada ao longo de vários anos, a alteração da prática de preparação ditou a exclusão da escova e a inclusão de palheta ou estilete como ferramenta para a descontaminação das unhas. Na Europa a norma EN 12791 – “Chemical disinfectants and antiseptics. Surgi- cal hand desinfection. Test method and requirement”, usa como solução padroniza- da para a preparação pré-cirurgica das mãos, uma solução de base alcoólica. A Organização Mundial da Saúde, nas suas orientações de boa prática publica- das no ano de 2009, no âmbito do primeiro desafio mundial para a segurança dos doentes, afirma serem estes os produtos com o melhor perfil para as práticas de preparação pré - cirúrgica das mãos. RECOMENDAÇÃO I Toda a equipa deve estar devidamente fardada antes de iniciar a preparação pré- cirúrgica das mãos. 1 – Antes de entrar em áreas semi-restritas e restritas, os profissionais devem estar devidamente fardados. Justificação – A utilização correcta do vestuário de circulação do bloco opera- tório reduz o grau de contaminação do ambiente cirúrgico e promove a segurança de utentes e profissionais. 20 | 2 – Devem ser retirados todos os adornos (anéis, relógios, pulseiras, etc.). Justificação – A presença de adornos durante a preparação pré-cirúrgica, impede a remoção de microrganismos, inibe a acção dos produtos antissépticos e impede o enxaguamento eficaz para a remoção destes produtos o que favorece a ocorrência de lesões na pele. 3 – As zonas de preparação pré-cirurgica devem dispor de um espelho que possibilite aos profissionais procederem a uma correcta colocação da máscara e verificarem a total cobertura de cabelos ou pêlos faciais, antes de iniciarem a preparação pré-cirúrgica das mãos. Justificação – São inúmeras as situações e os movimentos que podem provo- car o deslize dos barretes ou toucas, particularmente quando se trata de toucas que cobrem cabelos compridos e pesados. A garantia da correcta utilização destas barreiras é obrigatória antes da descontaminação pré-cirúrgica das mãos e não deve implicar a deslocação dos profissionais a áreas não restritas do bloco opera- tório. A existência de um espelho nas zonas de preparação permite a realização destas manobras e promove uma atitude responsável por parte dos profissionais. 4 – As condições em que se apresentam as unhas, mãos e antebraços devem ser verificadas antes de se iniciar a preparação pré- cirúrgica. As unhas, naturais, devem ser mantidas curtas, sem verniz, limpas e saudá- veis. As mãos e antebraços não devem apresentar soluções de continuidade ou qualquer outro tipo de lesão. Justificação – A região sub-unguial aloja grande quantidade de microrganismos e a remoção / inactivação destes microrganismos requer condições que não im- peçam a acção dos produtos antissépticos. A presença de verniz nas unhas, para além de poder ser um factor estético inibidor para uma correcta descontaminação, pode facilitar o alojamento de microrganismos nas áreas em que se encontra de- teriorado, estalado ou com soluções de continuidade. O risco de rompimento das luvas é maior quando as unhas ultrapassam as extremidades dos dedos. Cortes, queimaduras e lesões exsudativas da pele, constituem um meio óptimo para a proliferaçãode microrganismos, pelo que são uma contra indicação à prá- tica de procedimentos invasivos pelos riscos implicados. 5 – Antes de iniciar o procedimento, devem ser reunidos e verificados todos os recursos necessários para uma correcta preparação pré- cirúrgica das mãos. As extremidades das mangas nos braços, devem estar a uma altura que evite o toque nos antebraços quando se assume a posição correcta de descontaminação. Caso se utilize uma técnica de lavagem com detergente antisséptico, deve-se: Efectuar ligeira projecção do tórax para a frente, braços afastados do tronco e as mãos elevadas num plano perpendicular ao plano dos cotovelos. A pressão da água deve ser regulada de forma moderada, para permitir um en- xaguamento eficaz das mãos e antebraços mas impedir os salpicos e a projecção para a roupa de circulação ou para o chão. Reservatórios de antissépticos, doseadores e estiletes devem estar colocados AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 21 de forma acessível e a uma distância que permita a sua utilização, sem obrigar a deslocações depois dos profissionais terem assumido a posição de descontamina- ção e iniciado o procedimento. Justificação – A altura das mangas compatível com a posição de descontami- nação e a acessibilidade dos recursos, são medidas importantes para evitar conta- minações acidentais que, quando ocorrem, obrigam a reiniciar o procedimento. A pressão moderada da água, evita salpicos que podem causar a recontami- nação das mãos e antebraços e impede que a roupa de circulação se molhe. A humidade excessiva na roupa de circulação pode causar a contaminação do campo estéril uma vez que, diminui a resistência inicial dos materiais de que são consti- tuídas as batas esterilizadas, reduzindo a sua capacidade de barreira bacteriana e favorecendo a penetração de microrganismos. A presença de água no chão é uma das principais causas de acidentes de tra- balho por queda. RECOMENDAÇÃO II A selecção e gama de antissépticos disponíveis para a preparação pré-cirurgica das mãos, deve ser orientada e aprovada pela Comissão de Controlo de Infecção de cada instituição, atendendo a aspectos como qualidade, eficácia e custos. 1 – Um produto antisséptico deve: • Reduzir significativamente os microrganismos da pele sã, • Ser de largo espectro de acção, • Ter uma acção rápida e efeito residual. Justificação – A fácil proliferação microbiana no ambiente húmido e fechado das luvas, exige um efeito inicial altamente eficiente e um efeito residual, que o prolongue. Uma característica de determinados produtos é a capacidade de aderirem aos estratos cutâneos, favorecendo uma persistente actividade química. Os compostos iodados, têm pouco ou nenhum efeito residual. O gluconato de clorohexidina e o etilsulfato de mecetrónio têm efeito residual. As soluções alcoóli- cas têm uma actividade mais intensa e prolongada. 2 – Recomenda-se a lavagem com sabão simples, seguida da aplicação de um produto em solução alcoólica, considerando um intervalo de pelo menos 10 minu- tos, para uma perfeita secagem da totalidade das mãos. Justificação – O sabão remove partículas e microrganismos transitórios. A posterior desinfecção com um produto de base alcoólica é o método mais eficaz. A necessidade de uma completa secagem, explica-se pelo efeito de diluição que a água condiciona sobre qualquer produto que possamos utilizar. 3 – Os produtos de descontaminação devem ser armazenados em recipientes limpos e fechados. Justificação – O processo de reabastecimento e a reutilização incorrecta dos re- cipientes, pode constituir um meio de cultura e de transmissão de microrganismos. 22 | RECOMENDAÇÃO III A preparação pré - cirúrgica das mãos, é uma técnica que deve ser padronizada para todos os profissionais, de acordo com o tipo antisséptico a utilizar. Procedimento com utilização de detergente antisséptico • Verificar a altura das mangas e, se necessário, regular a pressão da água, • Assumir a posição de preparação – projecção do tórax para a frente, braços afastados do tronco e mãos elevadas num plano perpendicular ao plano dos cotovelos. As mãos têm que se manter sempre acima da linha dos cotovelos, • Molhar mãos e antebraços, (caso existam resíduos sub unguiais, utilizar pre- viamente, estilete, para a sua limpeza), envolvê-los com o volume recomendado do produto antimicrobiano, até 5cm acima do cotovelo, • Friccionar mãos e antebraços, primeiro um, depois o outro. Dedos, mãos e antebraços devem ser vistos como tendo quatro lados e cada um dos lados deve ser friccionado. Uma mão lava a outra, dando particular atenção aos es- paços interdigitais. Remover na totalidade o antisséptico sob água corrente, • Repetir a técnica. Friccionar ambos os antebraços com antisséptico até 5cm abaixo do cotovelo. Proceder à remoção total do antisséptico sob água corren- te, • Proceder à última aplicação de antisséptico, desta vez envolvendo e friccio- nando apenas mãos e punhos. Terminar com a remoção total do antisséptico sob água corrente, • Em todas os procedimentos devem ser respeitados, o volume de antisséptico e o tempo de contacto recomendado pelo fabricante, • Após a preparação inicial, mãos e antebraços devem ser secos, com toalhete estéril descartável, um para cada braço, no sentido distal-proximal. Procedimento com utilização de antissépticos de base alcoólica A utilização de antissépticos de base alcoólica, não dispensa a higienização das mãos. Este procedimento prévio deve ser efectuado, á entrada do Bloco Opera- tório, de forma a que o tempo de secagem total das mãos seja respeitado. • Molhar mãos e antebraços e friccionar com sabão simples, • Secar completamente cada braço, com toalhete de papel não estéril, este momento deve demorar o tempo suficiente para uma secagem eficaz, • Após um período mínimo de dez minutos, friccionar com antisséptico, dedos, mãos e antebraços, dando especial atenção aos espaços interdigitais, até o produto evaporar por completo, • Respeitar o tempo de contacto recomendado pelo fabricante que, deve cor- responder ao tempo mínimo que o produto deve estar em contacto com a pele na fase líquida até á sua completa evaporação. Fazer uma segunda aplicação de anti-séptico e manter as manobras de fricção até à completa secagem do produto, caso o tempo mínimo de contacto não tenha sido cumprido, • Não utilizar toalhetes de secagem. Não calçar as luvas estéreis antes da total secagem do produto de base alcoólica. Justificação – A preparação pré-cirúrgica das mãos, tem uma componente mecânica e química. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 23 A acção mecânica remove a sujidade, microrganismos transitórios e alguns microrganismos residentes. A acção química inibe a proliferação da flora residente. A inadequada secagem das mãos, condiciona diluição da solução antisséptica alcoólica, com resultados não controláveis. A preparação pré-cirúrgica só é eficaz se, a técnica utilizada for a recomendada em relação ao material disponível, se for correctamente realizada e se todas as áreas forem expostas à acção mecânica e à acção química do antisséptico, cujo tempo de contacto deve ser, no mínimo, 1,5 a 5 minutos (conforme indicação do fabricante). A temperatura das mãos, o seu tamanho e a temperatura ambiente, condicio- nam volumes diferentes de solução de base alcoólica, para uma adequada prepa- ração pré - cirúrgica das mãos 24 | îO USO DE LUVAS NO BLOCO OPERATÓRIO Edição 2005 O uso de luvas constitui uma importante medida de prevenção e controlo da infecção e é um dispositivo essencial ao equipamento de protecção individual. “Entende-se por equipamento de protecção individual (EPI) todo o equipamento, bem como qualquer complemento ou acessório, destinado a ser utilizado pelo tra- balhador para se proteger dos riscos, para a sua segurança e para a sua saúde” (Decreto-Lei nº 348/93, de 1 de Outubro, art. 3º). As luvas devem ser usadas para protecção do utente, do profissional ou de ambos,de acordo com as situações. Existe uma multiplicidade de tipos de luvas no mercado, pelo que deve ser feita uma selecção adequada a cada procedimento, pois o seu uso indiscriminado pode conduzir a um aumento de custos desnecessário e constituir um risco acrescido para utentes, profissionais e meio ambiente. De acordo com a Direcção Geral da Saúde (2006), dado o grau de incerteza relativamente à presença e/ou tipo de agentes biológicos deverão os profissionais desenvolver hábitos de trabalho seguro, adoptar um conjunto de procedimentos de- signados por “Precauções universais ou padrão”, que englobam aspectos relativos às barreiras de protecção e ao uso de luvas. As práticas aqui recomendadas têm o intuito de reter o que se considera ne- cessário para atingir um óptimo nível de cuidados nesta área. RECOMENDAÇÃO I Deve ser estabelecido um protocolo para a utilização de luvas no Bloco Operatório. Justificação – A existência de um protocolo favorece a correcta utilização dos diversos tipos de luvas em função das tarefas específicas que se pretendem de- sempenhar. 1 - O protocolo de utilização de luvas, deve ter em atenção: • As características dos diversos tipos de luvas quanto a resistência, maleabili- dade, permeabilidade, etc, • Os procedimentos a executar, • O risco previsto, • O tempo recomendado de utilização e mudança de luvas, • Tipos de luvas alternativos para casos de alergia ao látex dos profissionais e dos utentes. Justificação – O uso de luvas adequadas a cada tarefa é uma importante medi- da de controlo de infecção e/ou contaminação, favorece a boa prática de técnicas assépticas e a boa gestão de recursos materiais no meio hospitalar. O recurso a materiais com baixo teor de proteínas de látex e sem pó diminui o risco de sensibilização de profissionais e utentes. Em casos de alergia declarada de- vem ser utilizadas luvas isentas de látex para segurança de utentes e profissionais. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 25 RECOMENDAÇÃO II A lavagem das mãos é uma prática complementar da utilização de qualquer tipo de luvas. Justificação – Quanto maior for o grau de impermeabilidade das luvas e o tem- po de utilização, maior será o grau de humidade desenvolvido no espaço compreen- dido entre as mãos dos profissionais e as luvas, criando um meio particularmente favorável à proliferação de microrganismos. A má higienização das mãos potencia este risco. A permeabilidade dos materiais e a existência de micro roturas favorece a contaminação das mãos pelo que no fim dos procedimentos as mãos podem estar contaminadas. A lavagem das mãos depois da remoção de qualquer tipo de luva, é uma medida de segurança para os profissionais e uma medida de controlo de contaminação cruzada. 1 - Após a realização do procedimento para o qual foram calçadas, todas as luvas, devem ser descartadas de imediato, em local próprio, tendo em atenção a correcta triagem dos resíduos hospitalares. Justificação – Esta medida pretende limitar o risco de contaminação dos pro- fissionais e o nível de contaminação do ambiente cirúrgico. RECOMENDAÇÃO III Todos os procedimentos cirúrgicos, técnicas invasivas e/ou assépticas implicam o uso de luvas esterilizadas. Justificação – As luvas esterilizadas, constituem uma barreira microbiana que minimiza o risco de transferência de microrganismos das mãos dos profissionais para os utentes, durante procedimentos cirúrgicos e técnicas invasivas, para além de serem uma barreira protectora para os profissionais. 1 – O uso de luvas esterilizadas implica obrigatoriamente, uma prévia desinfec- ção das mãos. Justificação – A correcta desinfecção cirúrgica das mãos elimina os micror- ganismos transitórios e reduz significativamente os microrganismos residentes da pele, minimizando assim, o perigo de transferência destes microrganismos entre áreas não estéreis e estéreis. 2 – Os métodos preferenciais de colocação de luvas estéreis em bloco operató- rio são o método fechado e o método assistido. Justificação – A colocação de luvas estéreis por método aberto, implica o manuseamento da face interna do punho da luva que, posteriormente fica em con- tacto com o punho da bata esterilizada contaminando-a. Assim, o método aberto só deve ser utilizado quando não é possível um método alternativo ou quando o procedimento a realizar não implica a utilização de bata esterilizada. 26 | MÉTODO FECHADO: • Vestir a bata estéril sem exteriorizar as mãos, (Fig.1), • Mantendo as duas mãos dentro das mangas da bata, colocar a primeira mão a ser calçada, aberta com a palma voltada para cima. Com a outra mão, pegar na luva pelo punho dobrado e colocá-la sobre a mão que vai ser calçada, invertendo o sentido da luva de forma a apontar os dedos da luva ao punho, tendo o cuidado de fazer coincidir a posição do polegar da luva com a posição do polegar da mão, (Fig.2), • Mover a mão que vai ser calçada de forma a fazer chegar os dedos à metade do punho da bata sem os exteriorizar e segurar a luva pela extremidade adja- cente do seu punho dobrado, • Com a outra mão mantida dentro da manga da bata, pegar pelo punho e rodar a luva sobre a mão que está a ser calçada para que esta fique dentro da luva com os punhos da bata e da luva sobrepostos, (Fig.3), • Fazer deslizar a mão dentro do punho da bata e da luva, até os dedos ficarem devidamente acomodados na luva, (Fig.4), • Com a mão calçada, pegar na outra luva pelo punho dobrado e repetir as manobras. Fig. 1 Fig. 3 Fig. 2 Fig. 4 MÉTODO ASSISTIDO: Utilizado pelo elemento da equipa estéril que assiste os restantes elementos a vestir bata e calçar luvas esterilizadas. • Retirar da embalagem de protecção a primeira luva a ser calçada, • Desdobrar o punho da luva, • Colocar a luva em posição para ser calçada, segurando pelo punho, com os dedos voltados para baixo e o polegar da luva voltado para o elemento que vai ser calçado, AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 27 • Proteger as próprias luvas de contaminação acidental afastando ao máximo os polegares e cobrindo os restantes dedos com a extremidade do punho da luva que vai ser calçada, • Segurar a luva e afastar as mãos de forma a abrir, suficientemente o punho, para que o elemento da equipa a ser calçado, possa introduzir a mão na luva sem tocar nas mãos do elemento que o assiste ou na face externa da luva que está a ser calçada, • Depois de introduzida a mão, largar suavemente o punho da luva sobre o punho da bata estéril, • Repetir as manobras para calçar a segunda luva. 3 - A integridade das luvas esterilizadas deve ser inspeccionada logo após terem sido colocadas e frequentemente ao longo do procedimento cirúrgico. Sempre que se encontrem danificadas, devem ser imediatamente substituídas. Justificação – A verificação da inexistência de roturas ou outros danos visíveis nas luvas, minimiza o risco de transferência de microrganismos das áreas não estéreis para as estéreis e consequentemente o risco de infecção. 4 - As luvas esterilizadas devem adaptar-se perfeitamente às mãos dos profis- sionais. Justificação – O uso de luvas demasiado grandes ou demasiado pequenas, para além de dificultar o desempenho, pode levar a quebras da barreira microbiana e consequentemente à transferência de microrganismos, favorecendo o risco de infecção intra-operatória e de contaminação dos profissionais. 5 - A boa prática de utilização de luvas cirúrgicas obriga a que se adapte o tipo de luva ao tipo de cirurgia. Ex: Luva cirúrgica reforçada para cirurgia ortopédica, luvas cirúrgicas finas para cirurgia oftalmológica. Justificação - A correcta selecção de luvas estéreis, em função da especifici- dade do procedimento cirúrgico a que se destinam, para além de diminuir o risco de deterioração e consequente quebra de barreira microbiana, favorece boas con- dições de sensibilidade aos utilizadores. 6 – A utilização de duplo par de luvas é uma boa prática em todas as cirurgias, principalmentequando se prevê a existência de grande quantidade de fluidos ou a ocorrência de elevado stress mecânico e químico. O primeiro par a calçar terá de ser um número acima do indicado para o profis- sional sendo o segundo par, o normalmente utilizado pelo profissional pois só assim será confortável a utilização de duplo par. Justificação – A utilização de duplo par é um método efectivo para reduzir po- tenciais exposições dos profissionais a fluidos orgânicos e a ocorrência de infecção do local cirúrgico, constituindo uma medida eficaz de protecção adicional. Estudos confirmam que o duplo par de luvas reduz em 70%, a ocorrência de contaminação dos utilizadores por perfuração das luvas. A AORN (Association Of perioperative Registered Nurses) recomenda, a dupla 28 | luva em procedimentos com duração superior a duas horas ou com uma perda de sangue previsível superior a 100 ml. A probabilidade de rotura aumenta com o tempo de utilização. 7 - Sempre que ocorra perfuração das luvas exteriores, devem ser mudados os dois pares de luvas. Justificação – Quando ocorre rotura da luva exterior a possibilidade de existir contaminação do utilizador, leva a que se recomende também a mudança do par de luvas interior, mantendo-se assim íntegra a barreira de protecção. 8 - Deverá ser estabelecido um protocolo de mudança de luvas esterilizadas durante os procedimentos cirúrgicos, tendo em atenção os seguintes aspectos: • Tempos intra-operatórios recomendados para mudança de luvas (ex. antes do encerramento), • Manipulação de próteses e implantes, • Colocação de dispositivos médicos implantáveis, • Características das luvas, • Recomendações do Fabricante. Justificação – A durabilidade da barreira microbiana varia consoante o proces- so de fabrico das luvas e a qualidade dos materiais pelo que, as luvas cirúrgicas não devem ser utilizadas por períodos superiores aos recomendados pelo fabricante. A mudança sistemática de luvas antes da colocação de próteses ou dispositivos médicos implantáveis diminui significativamente o risco de infecção. 9 – As luvas cirúrgicas devem ser substituídas após 90 minutos de utilização, es- pecialmente em procedimentos com grau elevado de exposição a fluidos orgânicos. Justificação – A evidência demonstrou que a inspecção visual não é um método seguro para detectar perfurações nas luvas, sendo que 11-43% das perfurações são do conhecimento dos utilizadores só no fim do procedimento cirúrgico. Estes valores aumentam nas situações em que a utilização das luvas é superior a 3horas. 10 - Após a remoção final de luvas estéreis é recomendada a lavagem das mãos. Justificação - A lavagem das mãos minimiza o risco de contaminação acidental por quebra da barreira protectora e o risco de lesões cutâneas que, em pessoas sensíveis, podem ocorrer devido ao contacto da pele com o pó das luvas. 11 - As luvas esterilizadas devem ser armazenadas em áreas de armazenamen- to de material estéril do Bloco Operatório. Justificação – As áreas de armazenamento de material estéril do Bloco Ope- ratório, oferecem condições ambientais que, para além de favorecerem a manu- tenção da esterilidade dos materiais, previnem a alteração dos seus componentes e estrutura. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 29 RECOMENDAÇÃO IV O uso de luvas não estéreis é recomendado para protecção dos profissionais, em todos os procedimentos que não requeiram técnica asséptica e em que se anteveja o contacto com sangue, outros líquidos orgânicos ou materiais conta- minados. Justificação - O correcto uso de barreiras protectoras, minimiza o risco de contaminação dos profissionais de saúde. 1 - As caixas de luvas não estéreis, devem estar em locais acessíveis, que faci- litem a sua colocação, quando os procedimentos a realizar o justifiquem. Justificação – A acessibilidade das barreiras protectoras é uma medida impor- tante para a sua correcta e regular utilização, para limitar a exposição ao risco e para facilitar uma atitude responsável por parte dos profissionais. 2 - Para cada utente e para cada procedimento no mesmo utente, deverá ser usado um novo par de luvas. Justificação – A prática de usar as mesmas luvas de utente para utente favo- rece a infecção cruzada. A utilização das mesmas luvas em procedimentos diferen- tes no mesmo utente, poderá proteger os profissionais mas não protege o utente podendo mesmo constituir um risco acrescido. 3 - As luvas deverão ser de utilização única, calçadas apenas na altura da utilização e retiradas imediatamente após a realização do procedimento para que foram calçadas. Justificação – O recurso à utilização de luvas não estéreis justifica-se quando se pretende proteger os profissionais do contacto com materiais potencialmente infecciosos. Se após a realização dos procedimentos as luvas contaminadas não forem reti- radas, os profissionais estarão inadvertidamente a disseminar a contaminação do ambiente cirúrgico. 4 - Após a remoção de luvas não estéreis é recomendada a lavagem das mãos. Justificação – A lavagem das mãos minimiza o risco de contaminação acidental por quebra da barreira protectora e o risco de lesões cutâneas que, em pessoas sensíveis, podem ocorrer devido ao contacto da pele com o pó das luvas. 5 - Os tipos e tamanhos de luvas não estéreis disponíveis no bloco operatório, deverão estar de acordo com os procedimentos a executar e os utilizadores. Justificação – O uso de luvas mal adaptadas às mãos do utilizador pode condu- zir à contaminação acidental. A barreira protectora será mais eficaz se a selecção do tipo de luva for adequa- do ao procedimento. As luvas não estéreis de látex, são mais permeáveis, ao fim de algum tempo de contacto com líquidos do que as luvas de nitrilo. 30 | 6 - O uso de luvas não estéreis de nitrilo é recomendado para procedimentos em que se preveja um maior contacto com líquidos ou para utilizadores que apre- sentem reacções alérgicas ao látex. Justificação – As luvas não estéreis de nitrilo, embora sejam menos maleáveis, são mais resistentes e menos permeáveis, pelo que oferecem maior protecção em procedimentos como a manipulação de citostáticos, a lavagem de materiais ou outros em que o contacto com líquidos seja mais prolongado. Por serem fabricadas com um polímero sintético, não contêm as proteínas da borracha natural sendo uma opção de escolha em casos de alergias ao látex. RECOMENDAÇÃO V O uso de luvas de polietileno, vulgarmente chamadas de luvas de “palhaço”, não é recomendado para a realização de procedimentos em bloco operatório. Justificação – Estas luvas são muito permeáveis e muito frágeis, podendo facil- mente ceder nos pontos de selagem pelo que não constituem barreira protectora eficaz. RECOMENDAÇÃO VI É recomendado o uso de luvas isentas de látex ou com baixo teor de proteínas e revestimento sintético e sem pó. Justificação – A utilização de luvas de látex constitui uma das causas mais frequentes de alergia do profissional ao látex, dado ser uma das principais fontes de exposição. É de salientar que há uma relação directa entre a frequência e a du- ração da utilização e o desenvolvimento de sintomatologia, sabe-se também que os efeitos são cumulativos ao longo do tempo, provocando sensibilização progressiva. Segundo a guideline do Royall College of Physicians de Londres a percentagem do pessoal de saúde com sensibilidade ao látex é superior a 17%. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 31 îTÉCNICA ASSÉPTICA CIRURGICA Edição 2005 1ª Revisão 2012 Esta Prática Recomendada pretende fornecer linhas orientadoras que assegu- rem o estabelecer e manter um campo cirúrgico estéril. A técnica asséptica cirúrgica consiste num conjunto de medidas e procedimen- tos realizados intencionalmente pela equipa cirúrgica, com o objectivo de: • Reduzir o risco de IACS (infecção associada aos cuidados de saúde), nomea- damente da infecção do local cirúrgico, minimizando a contaminação microbia- na daincisão, • Prevenir a contaminação dos profissionais envolvidos no processo cirúrgico. Todos os profissionais presentes na sala de operações têm o dever de garantir um ambiente cirúrgico seguro. Devem reger-se por um conjunto de valores individuais e de ética profissional que motivem uma prática clínica de excelência, independentemente do controlo efectuado – Consciência Cirúrgica e promover medidas correctivas em situações de quebra de assepsia. A prática rigorosa da técnica asséptica cirúrgica é fundamental para a preven- ção da infecção. As recomendações aqui referidas têm o intuito de minimizar o risco de contaminação e favorecer um óptimo nível de cuidados. RECOMENDAÇÃO I Um ambiente asséptico deve ser estabelecido e mantido, com a finalidade de prevenir a contaminação do campo operatório. Justificação – Um ambiente asséptico implica: controlo dos parâmetros de tratamento do ar: filtração, fluxo, renovações de ar, temperatura (20 a 23º) e humidade (30 a 60%). A temperatura e a humidade controladas reduzem a proli- feração microbiana e a electricidade estática. Implica existência de pressão positiva na sala de operações, para mobilização do ar para fora, arrastando partículas em suspensão. Para a manutenção da pres- são, é essencial manter as portas sempre fechadas. A circulação de profissionais deve ser minimizada e controlada porque aumenta o risco de contaminação pelo aumento da turbulência do ar na sala. RECOMENDAÇÃO II Sempre que realizam técnicas cirúrgicas ou invasivas os profissionais têm que utilizar bata e luvas estéreis o que implica obrigatoriamente uma prévia prepara- ção cirúrgica das mãos. Justificação – A correcta preparação cirúrgica das mãos elimina os micror- ganismos transitórios e reduz os microrganismos residentes da pele, As batas e 32 | luvas esterilizadas constituem uma barreira microbiana e uma barreira protectora que diminui o risco de contaminação dos utilizadores. 1 – A bata deve ser vestida com técnica asséptica, assistida por um enfermeiro (circulante para o instrumentista, instrumentista para a restante equipa). Deve ser correctamente apertada com o apoio da enfermeira circulante, que deve realizar a passagem da fita em torno do outro profissional. Depois de vestida, a bata só é considerada estéril nas seguintes áreas: • Área anterior, desde 5cm abaixo da linha das axilas até ao nível do campo esterilizado adjacente, • Mangas, desde 5cm acima do cotovelo até ao início do punho. São consideradas não estéreis: Decote, ombros, axilas, punhos, costas e área anterior abaixo do nível do cam- po esterilizado adjacente. Justificação – Decote, ombros, axilas e punhos são áreas de fricção e humida- de consequentemente, podem não constituir uma barreira bacteriana eficaz. As costas e a área anterior da bata abaixo do nível do campo esterilizado adja- cente, não são consideradas estéreis uma vez que não podem estar sob observa- ção directa por parte dos utilizadores. 2 - Preferencialmente, as luvas estéreis devem ser colocadas pelo método fechado através do qual, a face interna do punho das luvas é manipulado com as mãos cobertas pelas mangas da bata estéril ou, pelo método assistido em que um elemento da equipa já vestido com roupa estéril, coloca as luvas aos restantes elementos. Estes métodos permitem a colocação das luvas sem a contaminação da face interna do seu punho. Após terem sido colocadas as primeiras luvas, particularmente se for utilizado o método aberto, os punhos da bata são considerados área contaminada pelo que devem permanecer sempre cobertos na totalidade. Justificação – A colocação de luvas estéreis por método aberto implica a ma- nipulação não estéril da face interna do punho das luvas que, posteriormente irá ficar em contacto com os punhos da bata contaminando-os. 3 – As batas e luvas cirúrgicas devem ser seleccionadas de acordo com as indicações e situações, devem constituir barreira eficaz, devem ser mantidas in- tegras e substituídas quando houver quebra da técnica asséptica e sempre que protocolado. Justificação – A integridade e esterilidade das batas e luvas utilizadas pela equipa cirúrgica é um factor importante na manutenção da esterilidade do campo cirúrgico e na segurança dos profissionais. 4 – Só após a colocação da bata e das luvas esterilizadas podem ser manusea- das coberturas ou campos estéreis para a preparação de mesas de instrumentos ou para estabelecer o campo de incisão. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 33 Justificação – O manuseamento de coberturas ou campos estéreis tem de ser efectuada pela equipa estéril, já equipada, para evitar a sua contaminação. RECOMENDAÇÃO III Deve ser assegurada a técnica asséptica durante a preparação das mesas ci- rúrgicas. Justificação – O correcto estabelecimento do campo estéril minimiza o risco de contaminação. 1 – Todas as superfícies planas devem estar secas e isentas de partículas an- tes da colocação de campos ou trouxas estéreis, que devem ser impermeáveis a líquidos e fluidos corporais. Justificação – A humidade pode deteriorar os campos e contaminá-los. Cam- pos impermeáveis estabelecem uma barreira asséptica eficaz. 2 – Apenas a superfície da área do campo em que se está a trabalhar se deve considerar estéril. Justificação – O campo abaixo da superfície de trabalho não está sob observa- ção directa e não pode ser considerado estéril. Os tampos das mesas servem de demarcação entre estéril e não estéril. 3 – Durante a preparação da mesa cirúrgica, a enfermeira instrumentista deve mantê-la permanentemente sob vigilância directa, preferencialmente deve estar de frente para a restante equipa e atenta à sua movimentação e proximidade. Justificação – Só mantendo-se vigilante a enfermeira instrumentista consegue assegurar a esterilidade na preparação das mesas e prevenir contaminações aci- dentais. 4 – As mesas cirúrgicas não devem ser cobertas com campos. Justificação – Não é possível remover a cobertura da mesa sem contaminação da mesma. O campo que serve de cobertura é considerado contaminado abaixo do tampo da mesa sendo impossível retirá-lo sem tocar no campo da mesa. 5 – Se o paciente entrar na sala e for cancelado, todos os dispositivos médicos que foram abertos devem ser descartados. Justificação – Esta medida previne a ocorrência de contaminação cruzada. 34 | RECOMENDAÇÃO IV Tem de ser garantida a esterilidade e utilizada a técnica asséptica na dispensa de dispositivos médicos a utilizar no procedimento cirúrgico. Justificação – O uso de dispositivos médicos sem garantia de esterilidade pode conduzir à contaminação do campo estéril. 1 – Os dispositivos médicos devem ser abertos o mais perto possível do início do procedimento cirúrgico, ou da altura em que vão ser utilizados. Justificação – O risco de contaminação aumenta com o tempo de exposição. Poeiras e outras partículas, levantadas pela movimentação dos profissionais, po- dem depositar-se nas superfícies horizontais. 2 – Deve ser previamente confirmada a esterilidade de todos os dispositivos médicos a adicionar ao campo cirúrgico, através da verificação da data de vali- dade inscrita pelo fabricante (se os dispositivos foram reprocessados devem ser considerados 6 meses após a data da esterilização, desde que armazenados e manipulados de acordo com Recomendação VII), da integridade e segurança do empacotamento (só deve ser permitido duplo empacotamento) e dos indicadores químicos (externo e interno) do processo de esterilização. Os dispositivos devem ser considerados “não seguros” na data em que expira a validade pré definida. Os dispositivos com empacotamentos ou indicadores químicos duvidosos devem ser considerados não estéreis. Justificação – A observação directa e cuidada das embalagens, das validades e dos indicadores químicos de esterilização são uma importante medida para des- pistar situações que possam conduzir à contaminação do campo estéril. Se houver alguma dúvida relativamente à esterilidadede um dispositivo médico, este deve ser considerado contaminado e ser descartado. A fita ou papel testemunho indicam que o dispositivo esteve exposto ao proces- so de esterilização, mas não garante a eficácia do processo e como tal não garante a esterilidade. 3 – As embalagens de material esterilizado devem possuir uma margem de abertura suficiente para permitir a técnica de abertura asséptica e apresentação do conteúdo à enfermeira instrumentista sem risco de contaminação. Justificação – A ausência de margens conduz ao risco de contaminação do material durante o processo de abertura da embalagem. 4 – Devem ser abertas ambas as embalagens, de forma lenta e cuidadosa, as margens devem ser mantidas seguras e progressivamente voltadas no sentido externo e distal. Não é permitido o método de abertura por rasgadura de embalagens de mate- rial estéril. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 35 Justificação – A rasgadura implica a contaminação dos bordos da embalagem e do material à sua passagem. Manter seguras as margens da embalagem previne a contaminação acidental do material. 5 – Os artigos esterilizados abertos para um campo estéril devem ser entre- gues à mão da enfermeira instrumentista. Não é aceitável a prática de “atirar” artigos esterilizados para a mesa de ins- trumentos. Justificação – Abrir as embalagens com técnica asséptica e entregar os con- teúdos à mão da instrumentista é a única forma de não “sobrevoar” o campo estabelecido como estéril. O material atirado provoca turbulência, pode cair, ficar contaminado ou deslocar outro material que já se encontre no campo. 6 – O uso de “clamp” para colocação de material estéril na mesa de instrumen- tos, não é permitido. Justificação – Depois de aberto, o “clamp” permanece sem ser vigiado, não devendo por isso, ser considerado estéril. As manobras para exteriorizar e colocar o “clamp” na coluna, são susceptíveis de contaminações acidentais pelo que não devem existir “clamps” em salas de operações. 7 – Os frascos de soluções que são dadas para o campo estéril devem possuir abertura de rosca e ser abertos apenas na altura da sua utilização. A transferência do soluto deve ser feita num gesto único e o excedente deve ser desperdiçado. Justificação – A abertura de rosca é a única que garante a assepsia dos bordos do frasco, prevenindo a contaminação dos solutos durante a transferência para o campo operatório. A prática de abrir, utilizar e voltar a tapar um frasco aumenta o risco de conta- minação, devem ser utilizados frascos de pequenos volumes, que permitam uma única utilização, sem desperdício. 8 – Na transferência de solutos para o campo estéril, os recipientes que lhes são destinados devem ser posicionados pela instrumentista, de forma a evitar sal- picos acidentais para a mesa de instrumentos. Justificação – A manutenção do campo estéril seco é uma importante medida para a prevenção da contaminação. A humidade provoca quebras da resistência inicial dos materiais. 36 | RECOMENDAÇÃO V Devem ser utilizadas campos impermeáveis estéreis para definir o local de inci- são e o campo operatório alargado e usadas coberturas estéreis para os equi- pamentos. Justificação – Os campos e coberturas impermeáveis esterilizados constituem uma barreira que minimiza a passagem de microrganismos entre áreas não esté- reis e estéreis e devem ter as características especificadas na Prática Recomen- dada “ Utilização dos Campos Cirúrgicos”. 1– Os campos estéreis devem apresentar-se dobrados de forma a possibilitar à equipa cirúrgica desdobrá-los progressivamente, partindo da área de incisão para a periferia mantendo a técnica asséptica. Justificação – O processo de colocação de campos esterilizados partindo da área desinfectada para a periferia, previne a transferência de microrganismos e consequente contaminação do campo operatório. 2 – Os campos e coberturas devem cobrir a totalidade da área corporal do doen- te, os equipamentos necessários e todas as áreas adjacentes ao campo operatório que entrem em contacto com material estéril, de forma a permitir o funcionamento de toda a equipa cirúrgica sem risco de contaminação. O seu manuseamento deve ocorrer o mais próximo possível da sua utilização. Justificação – A definição de uma área estéril alargada diminui o risco de contaminação e favorece a manutenção da assepsia no campo operatório Quanto maior for o tempo de exposição de materiais estéreis a partículas e possíveis agen- tes contaminantes em suspensão no ar, maior é o risco de infecção. 3 – Os campos cirúrgicos devem ser colocados por 2 elementos da equipa estéril e ser manuseados o mínimo possível, com movimentos suaves e seguros e devem envolver as mãos dos profissionais que procedem à sua colocação. Justificação – Movimentos rápidos durante a colocação de campos esteriliza- dos, favorecem a deslocação de ar e consequentemente de partículas em suspen- são, aumentando o risco de contaminação do campo operatório. Manter as mãos por dentro dos campos esterilizados durante o processo de colocação evita a contaminação acidental das luvas esterilizadas. 4 – Deve ser mantida uma distância mínima de 30cm entre um campo esteri- lizado e o chão. Justificação – O chão é uma área com elevado grau de contaminação. O con- tacto de campos esterilizados com esta área, favorece a transferência de micror- ganismos potencialmente infecciosos. Por outro lado, a permanência de campos esterilizados no chão, leva a que facilmente sejam pisados, podendo causar a sua deslocação do campo operatório e dar origem a acidentes intra-operatórios ou acidentes de serviço. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 37 5 – Após a colocação, não é permitido o reposicionamento de campos es- terilizados. O posicionamento incorrecto de um campo esterilizado obriga à sua substituição. Justificação – A deslocação e reposicionamento de campos compromete a sua esterilidade porque favorece a transferência de microrganismos. RECOMENDAÇÃO VI A manutenção da esterilidade do campo operatório é da responsabilidade das equipas estéril e não estéril, presentes na sala de operações. Justificação – Todos os elementos da equipa são responsáveis pelos seus procedimentos de segurança e de prevenção da infecção e pela monitorização dos procedimentos dos outros profissionais. 1 – Todos os dispositivos médicos abertos devem ser continuamente observa- dos para detecção de factores de contaminação. Justificação – Só a observação contínua assegura a esterilidade dos dispo- sitivos. A contaminação pode ocorrer em qualquer altura por via aérea, líquidos, insectos ou profissionais. 2 – A equipa estéril deve permanecer junto do campo estéril estabelecido. Justificação – A permanência da equipa estéril junto do campo estéril estabe- lecido, diminui o risco de contaminação do campo operatório. Abandonar a área definida como estéril ou a sala de operações com a bata esterilizada vestida, aumenta o risco de infecção para o utente e o grau de conta- minação do ambiente cirúrgico por transferência de microrganismos. 3 – Os elementos da equipa estéril devem movimentar-se apenas entre áreas estéreis e nunca voltar as costas aos campos esterilizados. Justificação – As costas das batas esterilizadas não são consideradas estéreis porque não estão sob constante observação directa e podem ser facilmente con- taminadas. O contacto entre as costas das batas e os campos esterilizados, pode provocar a sua contaminação. 4 – Sempre que haja necessidade de mudança de posição entre elementos da equipa estéril, esta deverá ser feita costas com costas, mantendo distância do campo operatório. Justificação – A mudança de posição entre os elementos da equipa estéril feita costas com costas, diminui o risco de contaminação do campo operatório e das áreas, consideradas estéreis, das batas esterilizadas. 5 - A equipa estéril deve sempre manter as mãos e os antebraços nas zonas consideradas estéreis. 38| Justificação – A contaminação acidental das luvas esterilizadas pode acontecer quando as mãos são colocadas abaixo do nível do campo operatório ou em áreas dos campos ou das batas não consideradas estéreis. 6 – Os profissionais da equipa não estéril devem manter-se afastados dos cam- pos estéreis e dos elementos da equipa cirúrgica e assegurar uma distância míni- ma de 30cm. Justificação – Manter uma distância segura dos campos estéreis, favorece a manutenção da sua integridade e esterilidade. 7 – Sempre que os elementos da equipa não estéril tenham necessidade de passar próximo de uma área estabelecida como estéril, devem fazê-lo não ultrapas- sando a distância mínima de segurança de 30cm e sempre de frente, mantendo o campo estéril sob observação directa durante a passagem. Justificação – Um grande número de contaminações acidentais pode ser pre- venida mantendo as áreas estéreis sob vigilância rigorosa durante os movimentos que lhes são próximos. 8 – Os elementos da equipa não estéril nunca devem passar entre dois campos estéreis. Justificação – Não é possível uma vigilância rigorosa sob observação directa, dos dois campos em simultâneo durante o processo de passagem, o que aumenta o risco de contaminação. 9 – Quando a temperatura da sala de operações é baixa e os elementos da equi- pa não estéril necessitem de vestir blusões, estes devem ser usados fechados. Justificação – O uso de blusões ou outras peças de vestuário abertas, pode levar à contaminação dos campos estéreis. Mesmo quando a distância mínima de 30cm é respeitada, podem tocar em áreas estéreis quando os profissionais se movimentam à volta do campo operatório. Provocam também uma maior des- locação de ar durante as movimentações, aumentando o número de partículas e microrganismos em suspensão e o risco de contaminação. 10 – Não devem ser executados movimentos que impliquem a passagem de mãos e braços de elementos da equipa não estéril, sobre campos estéreis. Justificação – A passagem de mãos e braços dos profissionais sobre campos estéreis, conduz à sua contaminação devido à libertação de partículas de descama- ção da pele que contêm microrganismos. 11 – Durante os procedimentos cirúrgicos, a conversação e os movimentos dos profissionais devem ser reduzidos ao essencial. Justificação – A conversação aumenta o número de microrganismos em sus- pensão uma vez que, gera a libertação de gotículas de saliva que se dispersam na atmosfera e causa a fricção da mascara na pele, aumentando a descamação. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 39 Os movimentos dos profissionais favorecem a deslocação do ar e a dispersão de partículas e microrganismos em suspensão. 12 – Quebras da técnica asséptica devem ser monitorizadas e documentadas e as medidas correctivas implementadas o mais rapidamente possível. Justificação – A implementação atempada de medidas correctivas pode evitar a contaminação. A documentação assegura o seguimento pós-operatório do pa- ciente e a implementação de medidas de controlo de infecção. RECOMENDAÇÃO VII Os dispositivos médicos esterilizados devem estar armazenados em condições que garantam a sua esterilidade. Justificação – Os materiais utilizados no empacotamento dos dispositivos mé- dicos podem alterar as características e a resistência permitindo a penetração de microrganismos, se as condições de armazenamento não forem adequadas. 1 – Os dispositivos esterilizados devem ser acondicionados em áreas separadas e protegidas, com controlo de humidade, temperatura, ventilação e higienização, em prateleiras no mínimo a 20 – 25 cm do chão e 45 cm do tecto. Justificação – O armazenamento e manutenção dos materiais nestas áreas pretende assegurar a esterilidade do conteúdo das embalagens à altura da sua utilização. 2 – Se existir alguma dúvida acerca da esterilidade do dispositivo deve ser con- siderado contaminado. Justificação – A garantia da esterilidade não depende apenas da validade pré definida, mas de múltiplos factores, por exemplo: tipo de embalagem, número de vezes que foi manipulado (são recomendadas 4 manipulações), condições de transporte, etc. 3 – Deve ser definido um sistema de rotação no armazenamento, para definição dos dispositivos médicos a utilizar em primeiro lugar (por exemplo: arrumar atrás e utilizar o da frente, ou arrumar à direita e utilizar o da esquerda). Justificação – Um sistema de rotação eficaz reduz o número de manipulações e promove a utilização dos dispositivos mais antigos. 40 | îUTILIZAÇÃO DE CAMPOS CIRÚRGICOS NO BLOCO OPERATÓRIO Edição 2005 1ª Revisão 2011 As infecções associadas aos cuidados de saúde constituem hoje um problema a nível mundial. As inovações tecnológicas e o desenvolvimento do conhecimento nos cuidados de saúde, permitem uma maior sobrevivência dos doentes mas também, porque são muitas vezes altamente agressivas e invasivas, aumentam o risco de efeitos adversos, entre elas a contaminação por fluidos orgânicos ou a infecção, tanto de doentes como de profissionais. O bloco operatório é um local de prestação de cuidados onde doentes e profis- sionais estão mais expostos e vulneráveis a este tipo de risco. Pelo menos 5% dos doentes submetidos a cirurgia, contraem infecção do local cirúrgico, o que representa 1 milhão de doentes por ano na Europa e em média, mais 2 semanas de internamento por cada doente. O risco de infecção pode estar relacionado com diversos factores: característi- cas do doente, tipo de cirurgia, tempo de intervenção, técnica cirúrgica, condições ambientais mas também, com a falta de rigor na técnica asséptica cirúrgica, a ina- dequada utilização de dispositivos médicos e o comportamento da equipa cirúrgica. Todos os procedimentos e técnicas aqui recomendados e realizados em am- biente perioperatório visam o controlo da infecção, a segurança e conforto do doente e profissionais de saúde. Prevenir a infecção do local cirúrgico passa pelo rigor profissional, individual e colectivo e por um desempenho correcto de toda a equipa de saúde, que não deve facilitar no mais pequeno dos pormenores durante o processo cirúrgico. As práticas aqui recomendadas têm o intuito de reter o que se considera in- dispensável para atingir um óptimo nível de cuidados, relativamente à utilização de campos cirúrgicos. RECOMENDAÇÃO I Deve ser estabelecido um protocolo de utilização de campos cirúrgicos em cada bloco operatório. Justificação – A existência de um protocolo favorece a correcta utilização dos di- versos tipos de campos, salvaguardando a segurança dos doentes e dos profissionais. 1 – O protocolo de utilização de campos cirúrgicos deve ter em atenção os seguintes aspectos: - Características técnicas dos campos cirúrgicos, - Composição dos conjuntos a utilizar em cada intervenção cirúrgica, por espe- cialidade, - Recomendações inerentes à técnica de colocação de campos cirúrgicos, - Recomendações inerentes à manutenção da assépsia durante procedimentos, - Recomendações inerentes à técnica correcta de retirar e descartar campos cirúrgicos no final dos procedimentos. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 41 Justificação – A incorrecta utilização de campos cirúrgicos aumenta significati- vamente o risco de infecção para o doente e o grau de contaminação do ambiente cirúrgico. A existência de um protocolo facilita a apropriação das diversas técnicas de utilização, permite um desempenho competente por parte dos utilizadores e, ainda, é, uma ferramenta essencial para o controlo de custos e adequada gestão dos recursos materiais. RECOMENDAÇÃO II Deverão ser observadas as características técnicas essenciais para que um campo possa ser considerado e utilizado como campo cirúrgico, conforme defini- do na Norma Portuguesa NP EN 13795 (norma europeia harmonizada). Justificação – A observância das características técnicas é fundamental para garantir que um campo cirúrgico cumpre eficazmente a função a que se destina: • Isolamentodo local cirúrgico, • Barreira microbiana, • Protecção e conforto do doente e profissionais de saúde. Os campos cirúrgicos são considerados Dispositivos Médicos e por esse facto devem obedecer aos Requisitos Essenciais da Directiva de Dispositivos Médicos 93/42/EEC de modo a serem seguros e adequados à utilização. Ao cumprirem a Norma Europeia 13795 demonstram o cumprimento dos requisitos mínimos essenciais. 1 - Os campos cirúrgicos devem permitir um isolamento eficaz do local cirúrgi- co, com particular ênfase da área de incisão. Justificação – O isolamento eficaz do campo operatório, impede a transferên- cia de microrganismos de áreas não estéreis para áreas estéreis, por transloca- ção dos campos e arrastamento de partículas e bactérias próprias da pele. 2 - Os campos cirúrgicos devem constituir uma efectiva barreira bacteriana no estado seco e húmido, impedindo a transferência de microrganismos entre áreas não estéreis e estéreis, por penetração da barreira. Os tecidos de algodão simples, não constituem barreira à penetração bacteriana. Justificação – Esta característica é fundamental para a manutenção da assép- sia do local cirúrgico durante o procedimento cirúrgico. Estudos realizados demonstram que os tecidos de algodão são caracterizados por poros superiores a 80mm pelo que, bactérias ou partículas portadoras de microrganismos com dimensões inferiores, podem facilmente passar, mesmo atra- vés de múltiplas camadas. 3 - Os campos cirúrgicos devem ser impermeáveis a fluidos orgânicos e outros líquidos. Justificação – A humidade é o meio óptimo para a proliferação de microrganis- 42 | mos, pode provocar a quebra da resistência inicial dos materiais, permitindo a sua transferência entre áreas não estéreis e estéreis, conduzindo à contaminação. 4 - Os campos cirúrgicos devem permitir o controlo de fluidos, através da sua capacidade de absorção e sempre que necessário, devem apresentar um sistema integrado de recolha de fluidos (bolsas). Justificação – Esta medida limita a contaminação pelo inevitável derrame de fluidos e previne a contaminação desnecessária durante o procedimento cirúrgico, pela transferência de microorganismos através de líquidos usados ou gerados no procedimento cirúrgico. 5 - Os campos cirúrgicos devem ser resistentes à ruptura, à tracção e à tensão mecânica, durante o procedimento cirúrgico. Justificação – Durante o procedimento cirúrgico os campos estão sujeitos a condições adversas que podem fragilizá-los e permitir a penetração microbiana, que conduz à contaminação dos campos, das mãos dos profissionais da equipa cirúrgica, dos instrumentos e consequentemente do local cirúrgico, aumentando significativamente o risco de infecção. 6 – Os campos cirúrgicos devem permitir a protecção e conforto do doente. Devem ser fabricados a partir de materiais e modelos que contribuam para a manutenção da temperatura corporal, limitem a sudurese da pele e permitam o controlo da sua condensação. Justificação – A manutenção da temperatura corporal é um factor importante na global estabilidade homeostática do corpo humano e um factor de protecção re- lativo ao risco de infecção do local cirúrgico, tendo por este motivo uma particular importância em procedimentos cirúrgicos muito prolongados. A utilização de campos cirúrgicos fabricados a partir de modelos que previnam e controlem a sudorese excessiva do doente, restringem a formação de conden- sados e consequentemente a variação da temperatura do doente e a proliferação de microrganismos. 7 - Os campos cirúrgicos devem ser fabricados a partir de materiais que per- mitam o controlo de libertação de partículas, possuam capacidade anti estática e de combustão retardada, baixa capacidade de memória, peso apropriado para a indicação e sem cheiro agressivo. Justificação – As características dos materiais utilizados no fabrico dos cam- pos cirúrgicos são importantes para adequação à sua função e diminuição dos riscos, pois existe uma relação proporcional directa entre o número de partículas suspensas no ar e o número de microrganismos aerotransportados. 8 – Os campos cirúrgicos devem apresentar-se com sistemas que permitam a fixação dos campos de forma atraumática e a manutenção do seu posicionamento durante todo o procedimento cirúrgico. Justificação: A fixação dos campos durante todo o procedimento cirúrgico é AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 43 essencial para a manutenção da técnica asséptica evitando a contaminação. A utilização de adesivos deve apresentar a característica de fixação dos campos associada a não lesão da pele sã. 9 – Os campos cirúrgicos devem apresentar-se em embalagens que garantam a manutenção da esterilidade e permitam segurança na abertura com técnica assép- tica. Idealmente deviam ter apresentação, que permita a verificação da existência de micro rupturas da embalagem. As embalagens devem ter etiqueta identificadora autocolante amovível para efeitos de registo e rastreabilidade. Justificação – O respeito pelas recomendações relativas ao empacotamento de dispositivos médicos estéreis, à sua manipulação, transporte e acondicionamen- to, é uma medida fundamental para garantir a esterilidade dos artigos, na altura da sua utilização. (Consultar Práticas Recomendadas – “Manipulação e Armazenamento de Mate- rial Estéril no Bloco Operatório”). 10 – Os campos cirúrgicos devem ser facilmente identificados, através de um código de cor. Não é permitida a utilização de roupa não estéril ou de circulação, da mesma cor da utilizada em campos cirúrgicos estéreis. Justificação – A definição de cores diferenciadas para roupa não estéril e esté- ril, previne a contaminação acidental durante procedimentos cirúrgicos. RECOMENDAÇÃO III Deverão ser rigorosamente respeitadas todas as recomendações inerentes à abertura de embalagens de campos cirúrgicos. Justificação – A eficácia na utilização de campos cirúrgicos passa, não só pe- las suas características técnicas mas também, pela forma como são utilizados. A técnica asséptica é essencial para prevenir a infecção do local cirúrgico. 1 – Todas as embalagens de campos cirúrgicos estéreis, devem ser manusea- das cuidadosamente, com mãos limpas e secas. Justificação – Como para qualquer outro material estéril, o manuseamento das embalagens com mãos húmidas ou sujas é uma das principais causas de con- taminação dos artigos que contêm. 2 – Antes de ser aberto qualquer tipo de campo cirúrgico, deverá ser verificado o prazo de validade de utilização e a integridade da embalagem. Deve ser retirada a etiqueta de registro e rastreabilidade e colada no processo clínico. Alternativa- mente em sistemas de registo clínico electrónico deve este último estar concebido para a leitura de código de barras ou similares. Justificação – A verificação das embalagens é uma importante medida de segurança. Embalagens danificadas ou visivelmente sujas, não devem ser abertas para o campo operatório. Os dispositivos médicos que contêm são considerados 44 | contaminados e constituem um enorme risco de infecção para o doente. Em caso de ocorrência de qualquer evento adverso, as etiquetas de registo e rastreabilidade permitem verificar os dispositivos médicos utilizados em qualquer altura. 3 – As embalagens de campos cirúrgicos só devem ser abertas na altura da sua utilização. Justificação – A abertura de dispositivos médicos estéreis, o mais próximo possível da altura da utilização, diminui o tempo de exposição a possíveis agentes contaminantes e consequentemente o risco de infecção. 4 - As embalagens de campos cirúrgicos devem ser abertas com técnica as- séptica. Justificação – A utilização de técnica asséptica na abertura de embalagens, diminui significativamente o risco de contaminação acidental (ver PR “Técnica as- séptica cirúrgica”). RECOMENDAÇÃO IV Deverão ser respeitadas todas as normas inerentes à colocação de campos cirúrgicos. Justificação – O respeito pelas normas de colocação,é uma medida funda- mental para garantir a eficácia do processo, limitar o risco de infecção do local cirúrgico e favorecer a segurança dos profissionais. 1 – Serão utilizados os campos estéreis necessários para permitir o isolamento do campo operatório, mesas de instrumentos e equipamentos necessários à inter- venção, que fiquem adjacentes ao campo operatório. Justificação – A área estabelecida como estéril deve ser suficientemente alar- gada, de forma a permitir o desempenho de toda a equipa cirúrgica, em seguran- ça, favorecendo a manutenção da assépsia e limitando o risco de contaminação acidental. 2 – A colocação de campos cirúrgicos deve ser iniciada apenas quando o local cirúrgico preparado se encontra completamente seco, de forma a garantir uma adequada acção dos vários componentes do processo de manutenção da desconta- minação da pele – acção mecânica e tempo de contacto do antisséptico (ver PR “O uso de antissépticos no bloco operatório” e “Desinfecção do campo operatório“). Justificação – A humidade favorece a proliferação de microrganismos, conduz à quebra da resistência inicial dos materiais, permite a transferência de bactérias e consequentemente aumenta o risco de infecção. Por outro lado, não permite uma eficaz aderência dos campos cirúrgicos, impedindo um efectivo isolamento da área de incisão. Acresce ainda que a actividade dos antissépticos na pele, só pode ser conside- rada, após um tempo de contacto antisséptico pré-determinado pelo fabricante. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 45 A presença de antiséptico na fase líquida, pressupõe um tempo de contacto não adequado ao fim a que se destina ou um excesso de produto que, se for retirado, condiciona a segurança da descontaminação. No caso de utilização de soluções antissépticas alcoólicas, a presença de humi- dade pode condicionar risco de incêndio / queimadura. 3 – A colocação de campos cirúrgicos deve ser realizada por dois elementos da equipa estéril, desdobrando o campo progressivamente, partindo do local da inci- são para a periferia e mantendo as mãos envolvidas pelas extremidades do próprio campo, de forma a evitar a contaminação acidental das luvas esterilizadas. Durante a colocação, o manuseamento deve ser mínimo e os gestos seguros e suaves. Justificação – A prática de sacudir campos cirúrgicos, para além de conduzir a quebras da técnica asséptica, favorece a deslocação de ar e consequentemen- te de partículas em suspensão, aumentando o risco de contaminação do campo operatório. 4 – Serão colocados em primeiro tempo os campos proximais à equipa cirúrgi- ca e só por fim os distais. As trouxas de utilização única apresentam os campos pela ordem de colocação. Justificação – Proteger primeiramente as áreas proximais à equipa cirúrgica, permite uma maior liberdade de movimentos e evita a contaminação acidental da indumentária estéril. 5 – Depois de colocados, não é permitido reposicionar campos cirúrgicos. Sem- pre que seja necessário reposicionar, os campos têm de ser substituídos. Justificação – A reposição de campos cirúrgicos favorece a transferência de microrganismos de áreas não estéreis para estéreis e a consequente contamina- ção do campo operatório. 6 – Depois de colocados, apenas serão consideradas estéreis as áreas dos campos que se encontrem sob observação directa da equipe cirúrgica e de acordo com as outras normas aqui enunciadas e a PR “Técnica asséptica cirúrgica”. Justificação – Definir e respeitar as áreas consideradas estéreis é uma medida fundamental para a manutenção da assépsia e consequente segurança de todo o procedimento cirúrgico. 7 – Deverá ser mantida uma distância mínima de 30 cm do chão. Justificação – O chão é uma área com um elevado grau de contaminação. O contacto de campos esterilizados com esta área, favorece a transferência de microrganismos potencialmente infecciosos. Por outro lado, campos no chão, facil- mente são pisados pela equipa cirúrgica, o que conduz à sua deslocação e potencia o risco de acidentes por queda dos profissionais. 8 - Profissionais não desinfectados e vestidos com indumentária não estéril, deverão manter uma distância mínima de 30 cm dos campos esterilizados. 46 | Justificação – Profissionais que não façam parte da equipa estéril devem man- ter-se tão afastados quanto possível da área estabelecida como estéril e nunca exceder a distância mínima recomendada. O cumprimento rigoroso das distâncias mínimas limita o risco de contaminação do campo operatório. 9 – Os campos cirúrgicos devem ser mantidos sempre sob observação directa. Quando não tenham permanecido sob observação directa constante, não devem ser considerados estéreis pelo que não é permitida a sua utilização. Justificação – São inúmeras as oportunidades de contaminação acidental de uma área exposta considerada estéril. Apenas a observação directa pode limitar o risco de contaminação. RECOMENDAÇÃO V No final do procedimento cirúrgico, deverá ser respeitada a técnica correcta para retirar campos cirúrgicos. Justificação – A observação desta técnica visa fundamentalmente a segurança dos profissionais e o limite do grau de contaminação do ambiente cirúrgico. 1 – Junto ao local de incisão, os campos cirúrgicos serão retirados parcial- mente pela equipa estéril que, pegando apenas na face superior do campo, (de forma a não contaminar as luvas esterilizadas), afastará cada um dos campos, no sentido proximal / distal da incisão, apenas o suficiente para proceder à execução do penso. Posteriormente, os campos serão retirados por elementos da equipa estéril ou da equipa não estéril, devidamente protegidos, dobrando cada um dos campos uti- lizados de forma a que a área com maior aporte de matéria orgânica, fique contida pelas áreas de menor grau de contaminação. Justificação – Esta manobra limita a contaminação inevitável e previne a con- taminação desnecessária. Constitui uma medida de segurança para os profissio- nais. 2 – Os campos cirúrgicos contaminados serão imediatamente colocados em recipientes próprios para resíduos sólidos contaminados que sairão da sala de operações devidamente fechados. Justificação – O manuseamento correcto de dispositivos médicos contamina- dos é uma medida fundamental para diminuir o grau de contaminação do ambiente cirúrgico e os riscos biológicos a que os profissionais estão expostos. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 47 îMANIPULAÇÃO E ARMAZENAMENTO DE MATERIAL ESTÉRIL NO BLOCO OPERATÓRIO Edição 2005 1ª Revisão 2011 Uma medida fundamental para a prevenção da infecção, é a utilização de mate- rial esterilizado em procedimentos cirúrgicos e técnicas invasivas. O material esterilizado é denominado dispositivo médico esterilizado de acordo com a Directiva 93/42/CE e o D.L.30/2003 de 14 de Fevereiro. São inúmeros os factores que influenciam a manutenção da esterilidade dos dispositivos médicos, desde que sofrem o processo de esterilização até serem utilizados no utente. O facto do dispositivo médico ter sido esterilizado, não garante só por si, que na altura da utilização ainda se encontre estéril. As condições de transporte, armazenamento e manipulação, têm uma impor- tância significativa na manutenção da esterilidade. Os principais factores que podem conduzir à recontaminação de dispositivos médicos estéreis são: • A quebra da integridade das embalagens, • A humidade, • A falta de higiene e inapropriadas condições ambientais nas áreas de armaze- namento de dispositivos médicos estéreis, • A falta de higiene nos recipientes de transporte, • O manuseamento inapropriado, • A inapropriada rotação de stocks, • Os prazos de validade desrespeitados, • A falta de formação do pessoal. As práticas aqui recomendadas têm o intuito de reter o que se considera ne- cessário para atingir um óptimo nível de cuidados. RECOMENDAÇÃO I Todos os dispositivos médicos estéreis, provenientes de centrais de esterili- zação, devem ser transportados em recipientesfechados e carros próprios, específicos apenas para esse fim. Justificação – O uso de recipientes fechados e carros próprios para transporte de dispositivos médicos estéreis, diminui o risco de contaminação. 1 – Recomenda-se, como recipientes de transporte, o uso de contentores pró- prios para transporte de dispositivos médicos estéreis, existentes no mercado em diversos tamanhos e modelos. Justificação – Os contentores de transporte próprios, são fabricados a par- tir de materiais não porosos, facilmente laváveis e, por serem, rígidos permitem acomodar os dispositivos médicos de forma ordenada, diminuindo o risco de dete- rioração das embalagens. Têm ainda a possibilidade de serem fechados hermeti- 48 | camente, o que diminui significativamente o risco de contaminação dos dispositivos médicos durante o transporte. 2 - Os contentores de transporte, devem ser limpos diariamente, antes da pri- meira distribuição do dia, e sempre que se encontrem visivelmente sujos. Justificação – A limpeza é condição essencial e medida de primeira linha para prevenir a contaminação dos dispositivos médicos. 3 - Após a limpeza e antes de ser colocado qualquer tipo de embalagem de dispositivos médicos estéreis nos contentores de transporte, é importante garantir que estes se encontram completamente secos. Justificação – A humidade é uma das principais causas de recontaminação de dispositivos médicos estéreis. Conduz à perda da resistência inicial das embala- gens, permitindo a penetração bacteriana. 4 - Para o transporte dos diversos contentores, deverão ser utilizados carros fechados próprios, que não tenham outro fim. Justificação – O uso de carros fechados de transporte permite que os conten- tores sejam transportados de forma ordenada e segura, diminuindo o risco de aci- dentes indesejáveis e facilita a tarefa dos funcionários que procedem à distribuição. 5 - Os carros de transporte deverão ser limpos e secos semanalmente e sem- pre que se encontrem visivelmente sujos. Justificação – As boas condições de higiene são fundamentais para prevenir a contaminação acidental. 6 - Na impossibilidade de usar os contentores próprios, recomendados para o transporte de dispositivos médicos estéreis, é importante ter em conta que: • Todo o tipo de dispositivo médico estéril deve ser transportado em recipientes limpos, fechados, impermeáveis, que não tenham outro fim e que não ofereçam risco de deterioração das embalagens, • Os dispositivos médicos pesados ou perfurantes, devem ser transportados em recipientes rígidos, • O uso de sacos de plástico apenas pode ser aplicado a dispositivos médicos leves, não perfurantes e de pequenas dimensões. Os sacos terão obrigatoria- mente que ser novos e serão utilizados apenas uma vez, • Não é permitido o uso de sacos de pano para transporte de dispositivos mé- dicos estéreis. Justificação – Para prevenir a recontaminação, os dispositivos médicos esté- reis não devem permanecer nem circular a céu aberto em áreas que não sejam consideradas restritas ou semi-restritas. Os materiais pesados ou perfurantes podem danificar as próprias embalagens se não forem transportados bem acomodados em recipientes rígidos. O uso de sacos de plástico novos e de utilização única, para materiais leves, não AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 49 perfurantes e de pequenas dimensões, diminui o risco de contaminação. Os sacos de pano não são permitidos porque não oferecem segurança em ma- téria de higiene, não constituem barreira por não serem impermeáveis, não evitam a contaminação nem a deterioração das embalagens ou dos dispositivos médicos. 7 - O transporte de dispositivos médicos estéreis, apenas deve ser feito por profissionais com formação específica para o efeito. Justificação – A formação dos profissionais é fundamental para que os procedi- mentos sejam correctos e para prevenir a contaminação acidental dos dispositivos médicos. RECOMENDAÇÃO II Os dispositivos médicos estéreis (de origem), provenientes de armazéns ou ser- viços de aprovisionamento das instituições, devem ser retirados da embalagem de transporte (geralmente caixas de cartão) antes de entrarem no Bloco Ope- ratório. Justificação – As caixas de cartão, pela sua constituição e contacto com o exterior, estão geralmente muito contaminadas e constituem uma importante fonte de microrganismos pelo que não devem entrar no Bloco Operatório. RECOMENDAÇÃO III Os dispositivos médicos esterilizados devem ser armazenados em local apropria- do para o efeito, imediatamente após terem chegado ao bloco operatório. Justificação – O armazenamento imediato dos dispositivos médicos, limita a sua exposição a agentes agressores e diminui o risco de contaminação acidental. 1 – As áreas de armazenamento de dispositivos médicos estéreis no bloco ope- ratório, são de circulação restrita. O número de pessoas que entram e permanecem nestas áreas deve ser limita- do ao mínimo necessário. Justificação – A circulação restrita, diminui a contaminação microbiana nas áreas de armazenamento de dispositivos médicos estéreis. 2 – As áreas de armazenamento dos dispositivos médicos estéreis devem ter um sistema de ventilação eficaz e controlado, que faça entre 15 a 20 renovações de ar por hora, temperatura compreendida entre 18ºC a 22ºC e humidade entre 35% e 70%. As portas devem permanecer fechadas e não devem existir janelas para o exterior. Justificação – As condições ambientais e de ventilação são fundamentais para minimizar o nível de contaminação microbiana e manter os dispositivos médicos em boas condições de utilização. 50 | As portas devem ser mantidas fechadas para favorecer as condições de venti- lação e renovação de ar e minimizar a transferência de partículas em suspensão provenientes de áreas adjacentes. Janelas para o exterior, mesmo que fechadas, favorecem alterações ambientais e a entrada de pó, lixo, insectos e outros que, consequentemente, podem conduzir à contaminação dos dispositivos médicos. 3 – O pavimento, paredes, tecto, armários, vitrinas e prateleiras das áreas de armazenamento, devem ser de materiais não porosos, facilmente laváveis. As vitri- nas e os armários devem estar colocados a uma distância não inferior a 30cm do chão e 45cm do tecto e não devem ser colocados junto a canalizações ou outras fontes de humidade. Justificação – A distância mantida do chão e do tecto, evita a acumulação de pó e lixo e facilita as manobras de limpeza. As canalizações podem representar áreas de humidade pelo que o contacto deve ser evitado. 4 – A higienização das áreas de armazenamento de dispositivos médicos esté- reis deve ser frequente e regular. O chão e superfícies horizontais externas dos armários ou vitrinas, devem ser limpas diariamente e sempre que se encontrem visivelmente sujas. O interior dos armários ou vitrinas deve ser limpo semanalmente. Justificação – A higienização frequente e regular das áreas de armazenamen- to, evita acumulação de pó, diminui o nível de contaminação microbiana e minimiza o risco de contaminação dos dispositivos médicos. 5 – Não devem existir prateleiras para armazenamento de dispositivos médicos estéreis, que não estejam contidas em armários ou vitrinas. Justificação – Dispositivos médicos estéreis não devem permanecer a céu aberto. Prateleiras fora de armários ou vitrinas, permitem uma maior exposição a partículas em suspensão, aumentando significativamente o risco de contaminação dos dispositivos médicos. 6 – Os armários ou vitrinas de armazenamento de dispositivos médicos estéreis devem permanecer sempre fechados. Justificação – Manter fechados os armários e vitrinas, limita a exposição dos dispositivos médicos a agentes possíveis de contaminação. 7 – Os dispositivos médicos devem ser mantidos nas áreas de armazenamento de material estéril até à altura da sua utilização. Justificação – As salas de operações, durante procedimentos cirúrgicos, são áreas de elevado nível de aero-bio-contaminaçãopelo que, nelas só devem perma- necer os dispositivos médicos estéreis necessários ao procedimento cirúrgico em curso. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 51 RECOMENDAÇÃO IV Dispositivos médicos estéreis devem ser armazenados de forma a favorecer a correcta rotação de stocks. Justificação – A correcta rotação de stocks, permite que os dispositivos mé- dicos sejam utilizados por ordem de chegada ao bloco operatório, evitando a per- manência prolongada dos materiais nas áreas de armazenamento e que sejam ultrapassados prazos de validade. 1 – Os dispositivos médicos esterilizados devem ser arrumados de forma orde- nada, evitando o empilhamento e o aperto excessivo. Justificação – O empilhamento ou aperto excessivo pode causar danificações nas embalagens, nem sempre fáceis de detectar. 2 – Apenas poderá ser sobreposto material estéril, contido em caixas ou cestos de esterilização com tampa. Justificação – A sobreposição de materiais não protegidos por caixas ou ces- tos de esterilização com tampa, danifica as embalagens, em especial quando se trata de dispositivos médicos pesados ou perfurantes, permitindo a penetração bacteriana e, consequentemente, a contaminação. 3 – Mensalmente deverá ser revisto todo o material armazenado e retirado o que atingiu o prazo limite de validade. Justificação – A verificação regular dos prazos de validade evita a utilização acidental de dispositivos médicos estéreis fora de prazo. 4 – Os prazos de validade de dispositivos médicos estéreis, devem ser atribuí- dos em função das condições de empacotamento, transporte, distribuição e arma- zenamento. A data marcada na embalagem deverá ser a data de esterilização. Justificação – Dependendo do tipo de embalagem, a validade de esterilização do dispositivo médico varia. Os prazos de validade atribuídos pelos serviços, devem também ter em atenção as condições de transporte, distribuição e armazenamen- to dos materiais. 5 – A integridade das embalagens deve ser verificada após o transporte, antes do dispositivo médico ser armazenado. Embalagens não íntegras ou deterioradas devem ser devolvidas ao serviço de esterilização. Justificação – A verificação cuidada das embalagens na altura do armazena- mento, é uma medida importante para minimizar o risco de utilização de dispositi- vos médicos sem condições de segurança para o utente. 52 | RECOMENDAÇÃO V O manuseamento excessivo de embalagens de dispositivos médicos estéreis deve ser evitado. Justificação – O manuseamento excessivo pode levar à quebra da integridade das embalagens ou à quebra da sua resistência inicial e, consequentemente, à contaminação dos dispositivos médicos. 1 – Todas as embalagens de dispositivos médicos estéreis, devem ser manuse- adas cuidadosamente, com mãos limpas e secas. Justificação – A humidade altera as características de materiais porosos como o tecido, o falso tecido (tecido não tecido) ou o papel, e permite a passagem de mi- crorganismos. O manuseamento de embalagens esterilizadas com mãos húmidas ou molhadas, é uma das principais causas de contaminação dos dispositivos médicos. 2 – Antes de ser aberto qualquer tipo de dispositivo médico estéril para o campo operatório, deverá ser verificado o testemunho de esterilização, o prazo de validade e a integridade da embalagem. Justificação – Mais uma vez, a verificação das embalagens é uma importante medida de segurança. Embalagens danificadas, não íntegras ou visivelmente sujas, não devem ser abertas para o campo operatório, os dispositivos médicos que contêm são considerados contaminados e constituem um risco de infecção para o utente. 3 – As embalagens de dispositivos médicos estéreis só devem ser abertas na altura da sua utilização. Justificação – A abertura de dispositivos médicos estéreis, o mais próximo possível da altura da sua utilização, diminui o tempo de exposição a agentes conta- minantes e, consequentemente, o risco de infecção. 4 – Todas as embalagens de dispositivos médicos estéreis, devem ser abertas com técnica asséptica. Justificação – A utilização de técnica asséptica na abertura de embalagens, diminui significativamente o risco de contaminação acidental. 5 – Os materiais abertos pela enfermeira circulante, devem ser entregues à mão da enfermeira instrumentista. Não é aceitável a prática de abrir embalagens e “atirar” o seu conteúdo para a mesa de instrumentos. Justificação – Entregar dispositivos médicos estéreis à mão da enfermeira ins- trumentista, evita a proximidade da mesa de instrumentos e do campo operatório e minimiza o risco de contaminação. 6 – Os dispositivos médicos esterilizados devem ser manuseados apenas por profissionais com formação específica para o efeito. Justificação – A formação dos profissionais envolvidos no “processo de este- rilização”, desde a descontaminação à nova utilização dos dispositivos médicos, é fundamental para a manutenção da sua esterilidade. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 53 îUTILIZAÇÃO DE ELECTROCIRURGIA Edição 2005 A electrocirurgia é hoje uma técnica utilizada na maioria dos procedimentos cirúrgicos. Os equipamentos electrocirúrgicos, também chamados de unidades electroci- rúrgicas (UEC), transformam a corrente eléctrica numa corrente de alta-frequência que percorre o corpo do utente entre um eléctrodo activo (ponta de corte e/ou co- agulação) e um eléctrodo indiferente (placa dispersiva), que devolve a corrente ao gerador (sistema REM). A estreita porta de entrada de corrente, associada à resis- tência dos tecidos, provoca um foco de alta temperatura, utilizado para controlar hemorragias por coagulação, ou para corte de tecidos por destruição celular. A maioria dos equipamentos permite dois tipos de utilização: Monopolar – Para corte e coagulação, sendo o eléctrodo activo o cabo de cor- te e/ou coagulação e o eléctrodo indiferente ou neutro, a placa dispersiva. Bipolar – Apenas para coagulação, sendo cada um dos bicos da pinça de coa- gulação, respectivamente o eléctrodo activo e o eléctrodo indiferente, não necessi- tando o uso de placa dispersiva. O manuseamento correcto deste tipo de aparelhos é essencial para a seguran- ça de utentes e profissionais. As práticas aqui recomendadas têm o intuito de reter o que se considera ser indispensável para atingir um óptimo nível de cuidados nesta área. RECOMENDAÇÃO I Deve ser estabelecido um protocolo para a utilização de equipamentos de elec- trocirurgia no bloco operatório. Justificação – A existência de um protocolo favorece a correcta utilização dos diversos equipamentos, salvaguardando a segurança de utentes e profissionais. 1 – O protocolo de utilização de equipamentos de electrocirurgia deve ter em atenção os seguintes aspectos: • Características dos diversos equipamentos, • Manutenção preventiva com a periodicidade recomendada pelo fabricante do equipamento, • Normas de utilização da unidade electrocirúrgica (UEC), • Normas de utilização dos eléctrodos activos, • Normas de utilização do eléctrodo indiferente ou neutro (placa), • Normas de verificação dos equipamentos antes de cada utilização, • Normas de verificação das fichas e tomadas de corrente eléctrica com linha de terra. Justificação – Os procedimentos electrocirúrgicos implicam riscos para utentes e profissionais pelo que, todo o pessoal utilizador deve estar familiarizado com a sua 54 | correcta utilização e devem ser observadas todas as normas e critérios de segurança. 2 – A elaboração do protocolo deve ter como base os manuais de instruções escritas, fornecidos pelo fabricante de cada equipamento. Justificação – Os manuais de utilização de equipamentos, fornecem linhas de orientação que permitem uma utilização correcta com a máxima segurança. RECOMENDAÇÃO II A unidade electrocirúrgica (UEC) deve ser colocada em carro próprio, que não tenha outro fim e deve ser convenientemente verificada e testada antes de cada utilização. Justificação – A UEC colocada em carro próprioresistente a trepidações, para além de evitar a deterioração do equipamento é também uma medida de seguran- ça para os utilizadores. A verificação do equipamento antes de cada utilização é uma medida fundamental para a prevenção de acidentes intra-operatórios. 1 – Na sala de operações, a UEC deve estar colocada num local acessível ao pro- cedimento cirúrgico, afastada dos equipamentos de anestesia e não deve ser utili- zada na presença de álcool, éter, tintura ou quaisquer outros produtos inflamáveis. Justificação – A utilização de equipamentos de electrocirurgia potencia o risco de incêndio e/ou explosão no bloco operatório. 2 – A UEC deve ser ligada à fonte de alimentação eléctrica de forma a minimizar o risco de acidentes. O cabo de ligação à corrente não deve apresentar quaisquer danos e deve ser de comprimento e flexibilidade adequados, de forma a alcançar a fonte de alimentação (tomada), sem tensão, torções ou nós e sem a necessidade do uso de extensões. Justificação – Como qualquer outro equipamento, a tensão do cabo aumenta o risco de se desconectar podendo ser causa de acidentes durante procedimentos cirúrgicos. Os nós e torções podem causar deteriorações internas nos cabos, dando origem ao mau funcionamento ou mesmo, à inoperância do equipamento. A deterioração da camada externa isoladora dos cabos e o uso de extensões, pode resultar em micro ou macro choques eléctricos para o pessoal utilizador. Por outro lado, fios condutores que não fiquem completamente pousados no chão represen- tam um potencial perigo de quedas. 3 – A UEC deve ter uma correcta ligação à terra. Justificação – A ligação à terra reduz o risco de acidentes por choque eléctrico para utentes e profissionais. 4 – Antes de cada utilização, deverá ser verificado o funcionamento de todos os alarmes de segurança da UEC. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 55 Justificação – A verificação dos alarmes é uma medida fundamental para a prevenção de acidentes. 5 – Sempre que seja necessária a utilização de pedal, o cabo deverá ser esten- dido sem tensão e de forma a evitar ser pisado pelos profissionais. O pedal deverá ser colocado em local que seja acessível ao utilizador mas que previna activações acidentais e deverá ser revestido com cobertura impermeável, transparente, sem- pre que se prevêem derramamentos de líquidos. Justificação – A colocação do cabo do pedal de forma a evitar ser pisado pre- vine possíveis deteriorações que podem conduzir ao mau funcionamento do equi- pamento. A activação acidental do pedal pode resultar em prejuízos para utentes e profissionais. As coberturas impermeáveis protegem o pedal de derramamento de fluídos e, consequentemente, previnem o risco de curto-circuito. 6 – No início de procedimentos cirúrgicos, a UEC deverá estar regulada para a potência mínima desejada. Justificação – A potência excessiva aumenta a destruição dos tecidos e o risco de queimaduras. 7 – Durante procedimentos cirúrgicos, deverá ser verificado todo o circuito da UEC sempre que for solicitado um aumento de potência acima do normal. Justificação – A solicitação do aumento significativo de potência pode ser in- dicador de sobrecarga, mau funcionamento da UEC ou dos cabos de ligação pelo que, a verificação dos circuitos é fundamental para minimizar os riscos de choque ou queimaduras acidentais. 8 – A UEC deve ser desligada, primeiramente no painel do equipamento e só depois na tomada de corrente. Para desligar da corrente, deve-se pegar pela ficha e nunca puxar pelo cabo eléctrico. Justificação – A prática de puxar os cabos eléctricos para desconectar as fichas das tomadas, conduz à deterioração interna dos fios eléctricos, causando mau funcionamento ou inoperância dos equipamentos e aumenta o risco de aciden- tes eléctricos para os profissionais. 9 – Todos os componentes da UEC que se encontrem deteriorados, devem ser rejeitados e substituídos. Justificação – A utilização de quaisquer componentes deteriorados, aumenta significativamente o risco de acidentes como choques, queimaduras, etc. 10 – Todos os componentes do carro de suporte e da UEC devem ser cuidado- samente limpos, de acordo com as instruções escritas pelo fabricante. As manobras de limpeza devem ser feitas com o equipamento desligado da corrente eléctrica. 56 | Justificação – As superfícies da UEC devem ser mantidas limpas e rigorosa- mente secas. O uso indiscriminado de agentes de limpeza agressivos, pode causar o mau funcionamento do equipamento ou mesmo o risco de curto-circuito se, aci- dentalmente, se permitir a entrada de substâncias líquidas no equipamento. RECOMENDAÇÃO III O uso de electrocirurgia obriga a que sejam cumpridas normas relativas ao posi- cionamento do utente na marquesa operatória. Justificação – O não cumprimento das normas de segurança relativas ao posi- cionamento pode resultar em queimaduras graves no utente. 1 – Independentemente do posicionamento requerido para a intervenção ci- rúrgica a realizar, deverá ser evitado o contacto de pele com pele. Por exemplo, quando os braços do utente ficam ao longo do corpo, deverá ser evitado o seu contacto com o tronco. Justificação – Permitir-se o contacto de pele com pele, aumenta desnecessa- riamente a área de passagem de corrente pelo corpo do utente que, por questões de segurança e prevenção de acidentes, deverá ser reduzida ao mínimo (quando da utilização de corte ou coagulação monopolar). 2 – Independentemente do posicionamento requerido para a intervenção cirúr- gica, a pele do utente deverá ser protegida do contacto com metais, tanto os da marquesa operatória como os de quaisquer apoios necessários (apoios de braços, pernas, cabeça, etc.). Justificação – Os metais em contacto com a pele do utente podem funcionar como portas de saída da corrente eléctrica, provocando queimaduras nas áreas de contacto. 3 – Deverá ser evitado o contacto da pele do utente com quaisquer superfícies molhadas ou húmidas. Justificação – A humidade favorece a passagem da corrente eléctrica pelo que, superfícies molhadas em contacto com a pele do utente podem originar quei- maduras graves. RECOMENDAÇÃO IV Antes do início de procedimentos cirúrgicos, devem ser observados cuidados rigorosos relativamente à localização e colocação do eléctrodo indiferente ou neutro (placa dispersiva). Justificação – O cumprimento rigoroso de todas as indicações de segurança relativas à colocação do eléctrodo indiferente é a principal medida de prevenção de queimaduras. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 57 1 – Os profissionais do bloco operatório, antes da aplicação de qualquer eléctro- do indiferente (placa), deverão estar familiarizados com as instruções de utilização escritas pelo fabricante. Justificação – O conhecimento efectivo da utilização de qualquer dispositivo médico é uma medida essencial para a segurança de utentes e profissionais. 2 – Deverão ser usados eléctrodos indiferentes auto-adesivos de utilização úni- ca e respeitados os seus prazos de validade. Justificação – Os eléctrodos indiferentes auto-adesivos existentes no mercado, oferecem maior segurança uma vez que, para além de já estarem impregnados de gel condutor, a sua flexibilidade e capacidade de aderência permitem um melhor contacto com a pele do utente, em toda a sua superfície. A utilização de eléctrodos indiferentes cujos prazos de validade estejam ultra- passados pode conduzir a queimaduras no utente por alteração das características do gel condutor. 3 – O eléctrodo indiferente deverá ser de dimensões adequadas ao utente e deve ser colocado numa zona musculada, bem vascularizada e o mais próximo pos- sível do local de incisão. Consoante a intervenção cirúrgica poderão ser utilizadas áreas como: trapézios, glúteos, costureiros ou gémeos. De preferência o eléctrodo indiferente deverá ser colocado do lado direito do utente e estar mais próximo do local de incisão do que os eléctrodos de ECG. Justificação – Acolocação do eléctrodo indiferente o mais próximo possível do local de incisão, para além de limitar a área de passagem de corrente pelo organis- mo do utente (entre o eléctrodo activo e o eléctrodo indiferente), limita o risco de saída de corrente por áreas não pretendidas e, consequentemente, o risco de quei- maduras. Áreas bem musculadas e bem vascularizadas, limitam a intensidade do calor provocado pela passagem de corrente e facilitam a direcção da mesma para a área de saída pretendida (eléctrodo indiferente) uma vez que, são áreas de maior aporte de fluídos e, consequentemente, de melhor condução de corrente. Alguns eléctrodos de ECG (em especial os que não têm preparação específica para poderem ser utilizados em simultâneo com electrocirurgia), quando colocados mais próximo da incisão que o eléctrodo indiferente, podem funcionar como vias alternativas para a saída de corrente, ocasionando queimaduras nos locais onde foram aplicados. A utilização do lado direito do utente para a colocação preferencial do eléctrodo indife- rente tem o objectivo de minimizar a passagem de corrente pelo músculo cardíaco. 4 – Depois de seleccionada a área em função do local de incisão, antes de colo- car o eléctrodo indiferente deverão ser verificadas as condições da pele do utente. Esta deverá encontrar-se íntegra, limpa, seca e liberta de pêlos que impeçam uma perfeita aderência e um contacto uniforme do eléctrodo indiferente em toda a sua superfície. Se necessário, deverá ser feita tricotomia da área. Justificação – A descamação da pele, a humidade, a sujidade ou a pilosidade abundantes, impedem o perfeito contacto do eléctrodo indiferente com a pele do utente pelo que, quaisquer destes factores podem favorecer a ocorrência de quei- maduras graves. 58 | 5 – Não é permitida a colocação do eléctrodo indiferente em áreas pouco mus- culadas, sobre proeminências ósseas, próteses metálicas e áreas onde se possa acumular qualquer tipo de fluído durante a intervenção cirúrgica. Deverá evitar-se a sua colocação em áreas que fiquem sujeitas a pressão ou tensão. Justificação – A colocação de eléctrodos indiferentes nestas áreas favorece a ocorrência de queimaduras pois, são áreas que não permitem o contacto uniforme de toda a superfície da placa com a pele do utente. 6 – Os eléctrodos indiferentes reutilizáveis, revestidos de borracha electros- tática (menos recomendados), devem ser fixos através da aplicação de bandas elásticas, o mais uniformemente possível, de forma a permitir o total contacto da placa com a pele do utente. As placas metálicas rígidas não são recomendadas. Justificação – As placas auto-adesivas de utilização única, permitem uma ade- rência uniforme e eficaz à pele do utente oferecendo por isso, menor risco de ocorrência de acidentes. As placas revestidas por borracha electrostática são menos recomendadas uma vez que, mesmo aplicadas com bandas elásticas, não é possível garantir um contacto uniforme de toda a sua superfície com a pele do utente e as áreas por onde passam as bandas elásticas, são sempre áreas de maior pressão, podendo causar efeito de garrote. As placas metálicas rígidas não são recomendadas pela sua fraca maleabili- dade, impossibilidade de uma uniforme impregnação de gel e impossibilidade de garantir um contacto uniforme com a pele do utente em toda a sua superfície. A utilização deste tipo de placas aumenta significativamente o risco de queimaduras no utente. 7 – A utilização de qualquer tipo de placa dispersiva obriga: • À utilização do cabo de retorno de corrente correspondente à placa utilizada, • À inspecção do cabo de retorno de corrente antes de cada utilização. O cabo de retorno de corrente, é seleccionado em função da placa e da unidade electrocirúrgica utilizada. Não são permitidas adaptações nem a utilização de cabos deteriorados. Justificação – As adaptações ou deteriorações nos cabos da placa dispersiva podem conduzir a fugas de corrente, consequentemente, a acidentes eléctricos ou mau funcionamento do equipamento. 8 – Não é permitido o reposicionamento de placas auto-adesivas. Sempre que isso se torne necessário, devem ser substituídas. Justificação – O reposicionamento de placas auto-adesivas, impossibilita a ga- rantia da sua total e uniforme aderência. 9 – Sempre que houver necessidade de reposicionar o utente na marquesa operatória, deverá ser verificado todo o circuito da placa dispersiva e cabo corres- pondente e proceder à sua substituição se necessário. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 59 Justificação – O reposicionamento do utente pode conduzir à deslocação da placa e à tensão ou desconexão dos cabos. Estes factores potenciam a possibilida- de de ocorrência de acidentes intra-operatórios. 10 – No final do procedimento cirúrgico, a unidade deve ser desligada da cor- rente eléctrica antes de desconectar quaisquer cabos. A placa dispersiva deve ser removida cuidadosamente de forma a prevenir le- sões na pele do utente. Justificação – A remoção brusca da placa, em especial quando se trata de placas auto-adesivas, pode conduzir a escoriações na pele do utente. 11 – No final do procedimento cirúrgico, depois de removida a placa dispersiva, deverá ser feita uma observação cuidadosa da pele do utente. Quaisquer alterações ou lesões causadas pela utilização de electrocirurgia, deve- rão ser registadas no processo do utente e informadas verbalmente à equipa cirúrgi- ca e à equipa da unidade de cuidados pós-anestésicos ou unidade de internamento. Justificação – A observação da pele do utente é essencial para o despiste pre- coce da ocorrência de acidentes como queimaduras ou outras lesões. A informação verbal e escrita é fundamental para a continuidade dos cuidados. RECOMENDAÇÃO V Devem ser respeitadas as normas de utilização de eléctrodos activos monopo- lares (EAM). Justificação – A eficácia da utilização de eléctrodos activos monopolares (EAM) e a segurança de utentes e profissionais depende, em larga medida, do cumpri- mento destas normas. 1 – Os eléctrodos activos monopolares (cabos de corte e/ou coagulação), de- verão ser seleccionados em função do equipamento utilizado e meios de reproces- samento disponíveis nas unidades hospitalares. Não é permitido o uso de adaptações ou o reprocessamento de eléctrodos ac- tivos de utilização única. O reprocessamento dos EAM reutilizáveis deverá ser feito segundo instruções escritas pelo fabricante. Justificação – O uso de adaptações ou o reprocessamento de materiais de uti- lização única pode conduzir à ocorrência de acidentes com consequências graves para o utente. 2 – Durante a colocação das mesas de instrumentos o eléctrodo activo deve ser rigorosamente inspeccionado para despiste de deteriorações. Qualquer dete- rioração encontrada obriga à sua substituição. Justificação – Eléctrodos activos deteriorados favorecem a ocorrência de cho- que ou queimaduras, tanto no utente como nos profissionais. 60 | 3 – Após a ligação do cabo ao gerador (unidade electrocirúrgica), deverá ser verificado o bom funcionamento dos comandos do eléctrodo activo, sejam estes manuais ou de pedal. Justificação – A verificação precoce do funcionamento dos equipamentos, pre- vine a sua inoperância durante procedimentos cirúrgicos e as consequências que daí podem advir. 4 – Os cabos dos eléctrodos activos devem ser fixados ao campo operatório de forma a permitir a sua utilização sem tensão e impedir a transferência da área não estéril do cabo para o campo cirúrgico estéril. Justificação – Cabos não fixos, facilmente se contaminam e a sua utilização favorece a transferência de microrganismos de áreas não estéreis para estéreis, conduzindo à contaminação do campo operatório. 5 – Durante procedimentos cirúrgicos, sempre que não esteja a ser utilizada, a parte funcionante dos eléctrodos activos (peça de mão), deve estar contida em bolsa ou suporte, de preferência rígido, próprio para o efeito. Justificação – A contenção das peças demão em bolsas ou suportes rígidos próprios, impede a contaminação, por deslize ou quedas abaixo do nível do campo operatório e, previne a activação acidental do equipamento. 6 – Durante a intervenção, em simultâneo com a utilização de corte e/ou coa- gulação, deverá ser usado aspirador de fumos de campo operatório. Justificação – A exaustão de fumos libertados pelo uso de electrocirurgia é fundamental para promover a qualidade do ar ambiente da sala de operações consequentemente, é uma medida que contribui para limitar os riscos a que os profissionais estão expostos. 7 – Durante procedimentos cirúrgicos e após cada utilização, deverá ser verifi- cada a ponta de corte e/ou coagulação do eléctrodo activo monopolar e proceder à sua limpeza sempre que necessário. Para o efeito, deverá ser usada esponja própria, ligeiramente abrasiva, existen- te no mercado. Justificação – A manutenção das pontas de corte e/ou coagulação limpas, sem resíduos de matéria orgânica coagulada, é uma medida fundamental para a eficácia da utilização dos eléctrodos activos e para prevenir a destruição desneces- sária dos tecidos. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 61 RECOMENDAÇÃO VI Recomenda-se o uso de eléctrodos activos bipolares sempre que, apenas seja requerida electrocoagulação ou que o uso de eléctrodos activos monopolares possa ser prejudicial para o utente. Justificação – As pinças de coagulação bipolar, são revestidas de materiais isoladores e a passagem da corrente faz-se entre os seus bicos, funcionando um dos bicos como eléctrodo activo e o outro como eléctrodo indiferente ou de retorno de corrente ao gerador. O seu uso limita a passagem de corrente pelo organismo do utente e os riscos a ela inerentes. A electrocoagulação bipolar dispensa a utilização de placa e é activada pelo uso de pedal. 1 – Recomenda-se o uso de electrocoagulação bipolar em utentes com pace- maker, outros dispositivos electrofisiológicos e prótese metálicas. Justificação – O uso de eléctrodos activos monopolares pode causar a altera- ção ou disfunção de qualquer dispositivo electrofisiológico. As próteses metálicas aumentam o risco de lesões por queimadura pelo que, a passagem de corrente pelo organismo de utentes com este tipo de dispositivos médicos deve ser evitada. 2 – Durante procedimentos cirúrgicos, após cada utilização, deverão ser verifi- cados os bicos das pinças de coagulação bipolar e proceder à sua limpeza sempre que necessário, com esponja própria adequada. Justificação – A precisão e eficácia das pinças de coagulação bipolar depende da manutenção da sua limpeza intra-operatória. Os resíduos de matéria orgânica coagulada nos bicos das pinças favorecem a aderência durante a utilização, podendo causar a lesão de tecidos ou vasos e até a sua rotura. Para evitar a aderência durante a utilização, pode recorrer-se à aplicação de pequenas gotas de soro fisiológico (ou outro soluto apropriado), entre os dois bicos da pinça, em simultâneo com a activação da electrocoagulação. RECOMENDAÇÃO VII A utilização de electrocirurgia implica cuidados essenciais relativos à desinfecção do campo operatório. Justificação – O cumprimento das recomendações para a desinfecção do campo operatório é uma importante medida de prevenção de acidentes quando da utilização de electrocirurgia. 1 – Deve-se evitar que o antisséptico de desinfecção do campo operatório es- corra para os lados durante a sua aplicação. O excesso de antisséptico que aciden- talmente escorra, tem obrigatoriamente que ser limpo de forma a que, a pele do utente não esteja em contacto com materiais húmidos (lençóis, eléctrodos, etc.). 62 | Justificação – O contacto da pele com materiais húmidos, potencia significati- vamente o risco de queimaduras. 2 – Deverá deixar-se secar completamente o antisséptico, antes de ligar e acti- var equipamentos de electrocirurgia. Justificação – Esta medida é fundamental para a prevenção de acidentes uma vez que, a humidade favorece a ocorrência de queimaduras. Os antissépticos com iodo são especialmente bons condutores de corrente eléctrica e os antissépticos em base alcoólica potenciam o risco de incêndio. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 63 îUTILIZAÇÃO DE GARROTES PNEUMÁTICOS Edição 2005 Estas Práticas Recomendadas orientam a utilização de garrotes pneumáticos na prática clínica. Preferencialmente utilizados para oclusão do fluxo sanguíneo e a obtenção de um campo cirúrgico das extremidades quase sem sangue, os garro- tes pneumáticos são também utilizados para confinar um volume injectado de anes- tésico local, numa extremidade do corpo, durante uma anestesia regional intrave- nosa (bloqueio de Bier). Os equipamentos de garrote pneumático são constituídos por uma câmara insuflável (cuff), uma fonte de gás pressurizado, um regulador de pressão, tubos de conexão entre as partes e um monitor de pressão. Estas recomendações providenciam informações gerais para o desenvolvimen- to de normas e procedimentos relativos à limpeza, testagem e utilização destes equipamentos. Devido à variedade e complexidade dos actuais equipamentos de garrotagem, as normas e procedimentos devem reflectir a especificidade local dos equipamen- tos em uso. RECOMENDAÇÃO I O enfermeiro perioperatório deve demonstrar competência na utilização de gar- rotes pneumáticos. 1 – O enfermeiro perioperatório deve participar em programas de formação e avaliação de competências, que facilitem a aquisição de saberes e capacidades que afectem o resultado das práticas de cuidados nos utentes. Assim, deve ser instruído para uma adequada utilização de garrotes pneumáticos, antes da sua utilização. Justificação – A formação e a demonstração de retorno da adequada utilização dos garrotes pneumáticos, reduz o risco de danos nos utentes e contribui para a preservação dos referidos equipamentos. RECOMENDAÇÃO II Os garrotes pneumáticos devem ser limpos, inspeccionados e efectuada a sua manutenção, antes e após a sua utilização, de acordo com instruções escritas pelo fabricante. 1 – No período pré-operatório, todo o sistema de garrotagem deve ser verifi- cado. Antes de qualquer utilização, os garrotes pneumáticos devem ser inspeccio- nados quanto à sua limpeza e testados relativamente à sua integridade e funcio- namento. A maior parte dos garrotes pneumáticos efectua automaticamente uma auto-testagem e calibração antes da sua activação. A câmara insuflável (cuff), tubos de ligação, conectores, manómetros e fonte de pressão devem ser limpos e mantidos em boas condições de funcionamento. • Câmara insuflável e tubos de ligação, devem ser inspeccionados relativamente 64 | a quebras e fugas, • Os conectores devem estar em condições que permitam uma adequada li- gação à fonte de pressão a fim de prevenir a desinsuflação acidental do cuff durante a utilização. Justificação – A segurança dos utentes obriga a que todas as partes dos garrotes estejam em boas condições de funcionamento antes de qualquer proce- dimento. Perdas de pressão não intencionais podem ser resultado de folgas nos conectores, tubagens deterioradas, perdas das torneiras, fugas nas câmaras insu- fláveis ou sistemas de bloqueio das mangas deteriorados (“velcros” estragados). 2 – Entre utilizações, as câmaras insufláveis (cuff) e mangas reutilizáveis de- vem ser limpas, enxaguadas abundantemente e secas, de acordo com as reco- mendações do fabricante. Durante o processo de limpeza, devem ser observados cuidados especiais no sentido de prevenir a introdução de qualquer tipo líquido no interior do equipamento. Justificação – A limpeza destes equipamentos é uma medida fundamental para uma prática segura em matéria de controlo de infecção. O enxaguamento abundante, previne a acumulação de resíduos de soluções detergentes que podem causar intolerância cutânea, aumentando as probabilida- des de alergias e, ainda, contribuir para a diminuição do tempo de semi-vida de utilização destes equipamentos.A presença de água no interior das câmaras insufláveis, para além de favorecer a proliferação de microrganismos, pode causar a deterioração dos mecanismos de regulação dos garrotes uma vez que, facilmente os penetra através de aerossoliza- ção produzida pela subsequente desinsuflação das câmaras. 3 – O contacto de qualquer tipo de matéria orgânica com qualquer dos compo- nentes do garrote pneumático implica que, após a limpeza com detergente, seja efectuada uma descontaminação com um desinfectante aprovado para o efeito, segundo as recomendações do fabricante e as orientações da Comissão de Con- trolo de Infecção. Justificação – Esta medida previne a contaminação de utentes e profissionais e favorece um ambiente cirúrgico seguro. 4 – A frequência, o método e critério para a testagem dos garrotes pneu- máticos, deve ser estabelecida de acordo com as recomendações escritas pelo fabricante. Um programa de gestão de risco na utilização de garrotes, pode ser uma ajuda na identificação de problemas dos equipamentos que podem ter efeitos adversos na segurança dos utentes. Justificação – O respeito absoluto pelas recomendações do fabricante é uma medida que garante o bom funcionamento dos equipamentos e, consequentemen- te, a segurança durante procedimentos. 5 – A documentação destes equipamentos, deve referir a sua marca, modelo, nº de série, data da última inspecção, manutenção preventiva e estado geral do equipamento. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 65 Justificação – Os registos da manutenção preventiva e das falhas do equipa- mento, podem facilitar a identificação de disfunções de desempenho do aparelho ou outros problemas potencialmente graves, minimizando os riscos físicos e clíni- cos durante a sua utilização. 6 – A ocorrência de acidentes provocados pelo mau funcionamento de garrotes, causando danos graves ou contribuído para a morte do utente, deve ser reportada ao fabricante do equipamento e ao Infarmed – Departamento de Vigilância Epide- miológica de Dispositivos Médicos. Para além da contextualização da ocorrência, devem ser incluídas na notificação a identificação do equipamento e informação sobre a manutenção e a utilização. RECOMENDAÇÃO III Os garrotes pneumáticos devem ser utilizados, tal como foram concebidos e de uma forma que reduza o risco de dano para os utentes. O enfermeiro periope- ratório deve estar consciente das complicações mais comuns relacionadas com a utilização destes equipamentos e implementar estratégias que minimizem a ocorrência das mesmas. 1 – Os sistemas de garrote utilizam gás comprimido que aplica, de forma con- trolada, uma pressão no garrote. A fonte de gás apropriada deve ser seleccionada de acordo com as instruções do fabricante. As especificações do sistema de garrote determinam se o gás é nitrogénio ou ar. O gás pode ter como fonte, um depósito portátil, um tanque ou uma rede de gazes medicinais. Os garrotes nunca deverão ser cheios com óxido nitroso (protóxido) ou oxigénio pelo perigo de incêndio. Alguns sistemas são oferecidos com controlo por microprocessadores que re- alizam a auto-testagem do sistema, indicam o tempo decorrido de insuflação e alarmam quando os parâmetros não estão assegurados. Justificação – A selecção inapropriada de gazes para a utilização de garrotes pode provocar acidentes graves. 2 – O comprimento e largura de garrotes devem ser individualizado, tomando em consideração o formato e tamanho dos membros e as necessidades específi- cas do procedimento. Deve ser sempre utilizado um “cuff” o mais largo possível, baseado no adequado comprimento do garrote. A manga deve sobrepor-se pelo menos 8cm e nunca mais de 15cm. Justificação – Uma sobreposição excessiva causa o aumento da pressão do garrote e, eventualmente, o enrugamento e deslize do tecido inferior, favorecendo um aumento ainda maior da pressão na área subjacente. 3 – Os garrotes circulares, especialmente desenhados para adaptação a extremida- des cónicas, ocluem o fluxo arterial a pressões mais baixas do que os lineares de igual comprimento. Um cuff circular pode ser mais apropriado do que um cuff linear, numa extremidade que é altamente musculada ou numa extremidade de um utente obeso. 66 | Justificação – Este tipo de cuff circular, pela sua capacidade de adaptação à forma do membro, aumenta o conforto e reduz o risco de deslizamento. 4 – As instruções do fabricante, podem sugerir que uma protecção, macia e não enrugável, seja colocada sobre a pele, à volta da extremidade, tão próximo da incisão quanto possível, tendo cuidado para que não dobre na área onde o garrote é aplicado. Para optimizar o posicionamento do garrote numa extremidade obesa, um assis- tente pode fazer a deslocação cuidadosa dos tecidos da extremidade, por tracção, na direcção distal do membro, antes da colocação do tecido de protecção e do gar- rote propriamente dito. A tracção deve ser mantida até que o garrote esteja seguro. Justificação – A protecção da pele do utente com materiais macios e não enrugá- veis diminui o risco de lesões cutâneas durante a utilização de garrotes pneumáticos. 5 – Os garrotes utilizados no braço, coxas e áreas supramaleolares, devem ser posicionados na zona do membro com o máximo de diâmetro em relação à incisão. Os garrotes utilizados na área da perna, devem ter o máximo de largura possível e devem ser colocados com a sua margem proximal, na área de maior diâmetro da perna a, pelo menos, 5cm distais da cabeça do perónio e 5cm proximais do maleolo. Justificação – Existe um elevado risco de lesão de nervos superficiais despro- tegidos durante a utilização de garrotes. Quando as câmaras são insufladas, os nervos e vasos sanguíneos são comprimidos podendo ficar lesionados. A colocação adequada das câmaras insufláveis minimiza este risco. 6 - Os garrotes devem ser protegidos de forma a que não haja a possibilida- de de alojamento de fluídos por baixo das mangas (ex. soluções antissépticas). Também devem ser tomadas medidas no sentido de prevenir a contaminação das mangas com matéria orgânica durante as cirurgias. Protecções para garrotes, campos adesivos e coberturas devem ser utilizados. Justificação – A acumulação de antissépticos por baixo das mangas pode oca- sionar queimaduras químicas graves no utente. A prática de proteger as mangas insufláveis do contacto com matéria orgânica, limita a contaminação inevitável e evita a contaminação desnecessária. 7 – A integridade cutânea por baixo do garrote deve ser mantida. A colocação da manga nas extremidades deve ser feita de forma a que, os tecidos e pele sub- jacentes não sejam traumatizados indevidamente. Alguns garrotes são fabricados com protecções de gel, adaptáveis à pressão. Se, em qualquer momento, a posição da manga tiver que ser reajustada, a manga deve ser completamente retirada e reposta na posição desejada. Justificação – Esta prática previne lesões por deslizamento. 8 – Uma banda elástica deve estar disponível para a exsanguinação. Depois da extremidade ser elevada, a banda elástica é utilizada para comprimir os vasos su- perficiais e forçar a drenagem de sangue do membro. No entanto, após uma lesão traumática ou no caso de um membro que esteve engessado, a exsanguinação com banda elástica pode não estar indicada uma vez que, os trombos existentes AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 67 nos vasos sanguíneos podem ser deslocados e causar uma embolia. Na presença de infecções, fracturas dolorosas ou tumores malignos, a exsan- guinação será efectuada somente pela elevação do membro. Justificação – Uma adequada exsanguinação, reduz o risco de complicações e favorece a diminuição da dor associada à utilização de garrotes. 9 – A utilização de garrotes pneumáticos está contra-indicada em utentes com doença vascular ou com problemas de circulação periférica. Justificação – Nestes utentes, o risco de complicações ou agravamento da sua patologia de base está aumentado quando se recorreà utilização de garrotes pneumáticos. 10 – Os garrotes pneumáticos devem ser insuflados rapidamente e a verifica- ção do enchimento do cuff deve ser feita por palpação do mesmo. Justificação – A rápida insuflação do cuff oclui quase simultaneamente artérias e veias, prevenindo o enchimento das veias superficiais antes da oclusão do fluxo arterial. 11 – A pressão de insuflação de garrotes pneumáticos deve ser mantida no mínimo possível. Durante o tempo em que o cuff está insuflado, o manómetro de pressão ou ecrã digital, deve estar claramente visível e monitorizado de forma a que, sejam detectadas flutuações excessivas de pressão. Na determinação da pressão de insuflação deve ser tomado em consideração: • A idade do utente, • A pressão arterial sistólica, • O diâmetro da extremidade, • A largura do garrote, • Patologia associada e outros factores clínicos. A pressão ideal de insuflação não está determinada. Deve ser usada a pressão mínima que produza um campo cirúrgico sem sangue. As orientações básicas para determinação da pressão são: • Acrescentar 50 a 75 mmHg à pressão arterial sistólica para as extremi- dades superiores, nos adultos, • Acrescentar 100 a 150 mmHg à pressão arterial sistólica para as extremi- dades inferiores, nos adultos, • Acrescentar 100 mmHg à pressão arterial sistólica, nas crianças. Justificação – As lesões de nervos com complicações neurológicas graves e permanentes, podem ocorrer devido à utilização de pressões excessivas na insu- flação de garrotes. 12 – O tempo de insuflação do garrote deve ser o mínimo possível. O cirurgião deve ser informado da duração da insuflação, regularmente, a inter- valos previamente estabelecidos. Não está determinado o tempo exacto que um garrote pode estar insuflado em 68 | segurança. O tempo varia em função da idade do utente, do seu estado físico e do suprimento vascular da extremidade. Recomendam-se como tempos limite de insuflação: • Uma hora, para extremidades superiores, • Hora e meia a duas horas, para extremidades inferiores. Adicionalmente, após um período de reperfusão não inferior a 10 minutos, o gar- rote pode ser novamente insuflado, por um período de tempo igual ao mencionado. Justificação – A utilização prolongada de garrotes pode causar a paralisia dos membros. 13 – Os garrotes devem ser desinsuflados de acordo com as recomendações do fabricante. Após a desinsuflação, a manga insuflável e as protecções da pele devem ser removidas de imediato. Justificação – Um pequeno aumento da resistência ao retorno venoso, pela presença da manga ou das protecções, pode levar à venocongestão e, consequen- temente, ao aumento do sangramento da ferida cirúrgica. 14 – A utilização bilateral de garrotes em simultâneo, cada vez mais comum, levanta problemas específicos. A utilização de qualquer tipo de garrote causa a presença de metabolismo anaeróbio, que produz ácido láctico e outros metabolitos. A acidose láctica diminui a resistência vascular e permite um aumento do fluxo sanguíneo à extremidade, quando se procede à desinsuflação dos garrotes. Quanto maior for a massa muscular, maior é a produção de metabolitos. Para impedir a rápida libertação de grandes quantidades destes produtos do metabolis- mo, os garrotes bilaterais devem ser desinsuflados individualmente, com 30 a 45 minutos de intervalo. Justificação – A desinsuflação sequencial de garrotes bilaterais reduz o poten- cial de efeitos adversos para o utente, causados pela libertação rápida de grandes quantidades de metabolitos. 15 - Um número considerável de efeitos adversos, causados pela utilização de garrotes pneumáticos, está identificado. • A sobrepressão pode causar: dor no local de aplicação da manga, fraqueza muscular, lesões de compressão em vasos sanguíneos, nervos, músculos ou pele, paralisia das extremidades, sangramento no campo cirúrgico, congestão passiva das extremidades, shock e infiltração hemorrágica dos nervos, • Tempos excessivos de insuflação de mangas podem causar: excessiva hiperé- mia, fadiga muscular, lesão isquémica ou paralisia das extremidades, • A inadequada colocação da manga pode causar: congestão venosa, contusão, equimose ou necrose da pele. Para prevenir possíveis complicações inerentes à utilização de garrotes, devem ser implementadas medidas de segurança que incluam: • Observar escrupulosamente as instruções do fabricante, AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 69 • Proceder a uma avaliação pré-operatória do utente, • Seleccionar a área da extremidade adequada para aplicação da manga insu- flável, • Assegurar um adequado ajuste da manga à extremidade, • Prevenir a retenção de líquidos debaixo da manga, • Utilizar a pressão mínima necessária que suprima a circulação arterial à ex- tremidade, • Monitorizar a pressão medida, deforma a assegurar que ela reflecte a pres- são do “cuff” do garrote, • Monitorizar o tempo de insuflação do garrote e respeitar os limites de segu- rança recomendados. RECOMENDAÇÃO IV Para garantir uma prática segura, as potenciais complicações associadas à anestesia intravenosa regional (AIR), devem estar identificadas e devem ser im- plementadas medidas que as previnam. Justificação – Apesar dos cuidados anestésicos serem monitorizados por es- pecialistas, relativamente às suas complicações, os enfermeiros perioperatórios devem estar atentos ao estado físico do utente. Reacções adversas aos anestésicos locais são potenciais complicações da anestesia intravenosa regional. O maior perigo é a entrada acidental de um bolus de anestésico local na circulação sistémica. Isso pode ocorrer quando, acidental- mente ou subitamente, o garrote se esvazia, logo após a injecção do anestésico ou, quando no fim da intervenção, a libertação for demasiadamente rápida. A rápida libertação de fármacos e metabolitos de anaerobiose na circulação, afecta o coração e o sistema nervoso central (ex. audição de sinos, zumbidos, torpor, perda de consciência, convulsões, etc.). Para minimizar o potencial de reacções adversas, o garrote deve ser gradual- mente desinsuflado. 1 – Em todos os locais onde se proceda à utilização de técnicas anestésicas, deve estar disponível equipamento de reanimação e suporte avançado de vida. Justificação – As reacções adversas aos fármacos utilizados em anestesia, po- dem ter consequências extremamente graves, colocando a vida do utente em risco. A prática segura de qualquer técnica anestésica, pressupõe condições específi- cas de segurança que não dispensam os materiais e equipamentos de reanimação e suporte básico de vida. 70 | RECOMENDAÇÃO V Políticas e procedimentos de utilização de garrotes pneumáticos, devem estar devidamente protocolados. Os protocolos devem estar acessíveis aos profissionais, nas áreas de prestação de cuidados e, devem ser regularmente revistos e actualizados. Justificação – A existência de protocolos favorece a segurança e a uniformiza- ção de boas práticas na utilização destes equipamentos. 1 – A elaboração de protocolos para a utilização de garrotes pneumáticos deve incluir: • Responsabilidade e procedimentos de aplicação do garrote, • Responsabilidade e procedimentos de monitorização do garrote durante a utilização, • Procedimentos em situações de reacção adversa, • Procedimentos de manutenção, testagem, inspecção e limpeza, • Cuidados após a utilização, • Registos. Justificação – A existência de protocolos favorece a correcta utilização dos equipamentos, salvaguardando a segurança de utentes e profissionais e, estabele- ce a autoridade e responsabilidade profissional e civil. RECOMENDAÇÃO VI Devem ser efectuados registos, no processo do utente, de todos os cuidados e procedimentos efectuados no bloco operatório, relativos à utilização de garrotes pneumáticos. Justificação – Os registos intra-operatórios reflectem a prática dos cuidados de enfermagem. São fundamentais para a sua continuidade e para a revisão re- trospectiva dos progressos do utente. Relativamente à utilizaçãode garrotes, deve ficar registado: • Local de colocação da manga insuflável, • Tipo de protecção da extremidade intervencionada, • Pressão do “cuff”, • Hora de insuflação e desinsuflação, • Estado de integridade da pele da área de aplicação do garrote, antes e depois da utilização, • Avaliação de estado do membro onde foi aplicado o garrote, • Identificação do equipamento utilizado, • Identificação do profissional que aplicou o garrote. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 71 îCONTAGEM DE COMPRESSAS, INSTRUMENTOS E MATERIAIS CORTOPERFURANTES Edição 2005 Esta Prática Recomendada pretende fornecer linhas de orientação sobre pro- cedimentos de contagens. A contagem de compressas, instrumentos e materiais cortoperfurantes duran- te intervenções cirúrgicas, é essencial à segurança de utentes e profissionais. Com alguma regularidade, tomamos conhecimento da ocorrência de acidentes relacionados com o inadequado controlo destes materiais. Nesta matéria, não existem acidentes menos graves. Qualquer destes dispositivos médicos deixado inadvertidamente no utente pode causar lesões gravíssimas e conduzir, no mínimo, à necessidade de um novo procedimento cirúrgico. Por outro lado, os acidentes de trabalho em profissionais de saúde estão, fre- quentemente, relacionados com materiais cortoperfurantes. O inadequado controlo e o mau acondicionamento destes materiais podem causar acidentes até em pro- fissionais não directamente implicados no seu uso como, por exemplo, os funcioná- rios que procedem à limpeza das salas de operações ou ao transporte de resíduos. Nesta área, como em quase todas relacionadas com o bloco operatório, a boa prática implica o envolvimento de toda a equipa pluridisciplinar. Não é possível uma prática segura sem disciplina, colaboração e sem o respeito pela interdependência do desempenho dos diversos profissionais. Todas as contagens são procedimentos conjuntos que envolvem dois elementos da equipa. Se a equipa de enfermagem é completa, a responsabilidade da conta- gem é partilhada pelos enfermeiros instrumentista e circulante. Se não existe en- fermeiro instrumentista, a contagem deve ser realizada em conjunto, pelo cirurgião ou outro elemento da equipa estéril em quem ele delegue e o enfermeiro circulante. As práticas aqui recomendadas têm o intuito de reter o que se considera ser indispensável para minimizar riscos e atingir um óptimo nível de cuidados. RECOMENDAÇÃO I Devem ser estabelecidos protocolos de contagem para cada artigo a ser con- trolado durante procedimentos cirúrgicos – compressas, tampões, algodões, instrumentos e materiais cortoperfurantes. Justificação – A existência de protocolos de contagem favorece o desempenho da equipa e salvaguarda a segurança de utentes e profissionais. 1 – O protocolo de contagem de cada artigo deve ter em atenção os seguintes aspectos: • Profissionais responsáveis pela contagem, • Procedimentos de contagem, • Procedimentos em casos de contagem incorrecta, • Registos. 72 | RECOMENDAÇÃO II Todas as compressas, algodões e tampões utilizados em procedimentos cirúr- gicos devem possuir contraste ao RX e devem ser de uso exclusivo no campo operatório. As compressas utilizadas pela anestesia não devem ser contrastadas e devem ser recolhidas em balde próprio. Justificação – No caso de contagem incorrecta, a utilização de materiais con- trastados permite a verificação de cavidades orgânicas e facilita a sua localização. PROCEDIMENTO DE CONTAGEM DE COMPRESSAS / ALGODÕES / TAMPÕES • A contagem de compressas é realizada por duas pessoas, de forma audível e sem interrupções. • A contagem de compressas é realizada e registada: a Antes do início da cirurgia, a Sempre que são abertos novos pacotes de compressas para a mesa, a No primeiro plano de encerramento, a No encerramento da pele, a Sempre que o enfermeiro instrumentista ou circulante são substituídos, a Se a incisão for reaberta após o final da contagem. • Os pacotes de compressas a utilizar no campo operatório devem ser norma- lizados. O enfermeiro instrumentista conta as compressas de forma audível, uma a uma, separando-as e verificando o contraste. O enfermeiro circulante conta as compressas em simultâneo com o enfermeiro instrumentista e proce- de ao seu registo. • Quando o número de compressas por pacote não estiver correcto, o conjunto deve ser retirado da mesa, recolocado no pacote e entregue ao enfermeiro responsável. • Se o procedimento cirúrgico envolver duas ou mais mesas, a contagem deve ser realizada e registada separadamente. • Só o enfermeiro instrumentista deve proceder à remoção de compressas do campo operatório para um balde alto, único, que não tenha outro fim. • O enfermeiro circulante conta as compressas uma a uma, retirando-as com pinça ou luvas, do balde alto para um balde baixo e procede ao seu registo. • O resultado da contagem deve ser comunicado ao cirurgião de forma audível e o enfermeiro deve assegurar-se de que o cirurgião tomou conhecimento. • Todas as compressas devem permanecer na sala de operações até ao fim da cirurgia. • O procedimento de contagem de tampões e algodões obedece às recomenda- ções descritas para a contagem de compressas no entanto, devem permane- cer na mesa de instrumentos para reduzir a possibilidade de perda ou engano na contagem. Erros de contagem: • Repetir a contagem, • Informar o cirurgião, AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 73 • Informar o enfermeiro chefe, • Procurar no lixo e campos cirúrgicos, • Registar o incidente, • Providenciar RX. Se no RX se verificar que a compressa, tampão ou algodão foi deixado no utente, o cirurgião assume a responsabilidade da remoção, • Em situações de emergência em que a contagem não seja possível, o enfer- meiro instrumentista pode ter que contar sozinho sempre que é aberto um pa- cote de compressas para a mesa. Deve ainda informar o cirurgião e o enfermei- ro chefe que a contagem não se realizou conforme protocolado, providenciar RX intra-operatório no final da cirurgia e registar o incidente. RECOMENDAÇÃO III Em cada serviço, a colocação de mesas de instrumentos deve ser padronizada por tipo de cirurgia e os instrumentos cirúrgicos devem ser contados em todos os procedimentos. Justificação – Os procedimentos de contagem de instrumentos cirúrgicos são essenciais à segurança do utente. A padronização da colocação de mesas de instrumentos facilita os procedimentos de contagem. PROCEDIMENTO DE CONTAGEM DE INSTRUMENTOS CIRÚRGICOS • A contagem de instrumentos é realizada por duas pessoas, de forma audível e sem interrupções. • A contagem de instrumentos é realizada e registada: a Antes do início da cirurgia, a Sempre que são abertos novos instrumentos para a mesa, a No primeiro plano de encerramento, a No encerramento da pele, a Sempre que o enfermeiro instrumentista ou circulante são substituídos, a Se a incisão for reaberta após o final da contagem, • Se o procedimento cirúrgico envolver duas ou mais mesas, a contagem deve ser realizada e registada separadamente. Erros de contagem: • Repetir a contagem, • Informar o cirurgião, • Informar o enfermeiro chefe, • Procurar no lixo e campos cirúrgicos, • Registar o incidente, • Providenciar RX. Se no RX se verificar que o instrumento foi deixado no uten- te, o cirurgião assume a responsabilidade da remoção, • Em situações de emergência em que a contagem não seja possível, o enfer- meiro instrumentista deve informar o cirurgião e o enfermeiro chefe que a con- tagem não se realizou conforme protocolado, providenciar RX intra-operatório no final da cirurgia e registar o incidente. 74 | RECOMENDAÇÃO IV Todos os materiais cortoperfurantes devem ser contados e controlados em to- dos os procedimentos cirúrgicos. Justificação – A falta de rigor no controlo de materiais cortoperfurantes du- rante procedimentos cirúrgicos pode resultar em acidentes graves em utentes ou profissionais. 1 – Durante procedimentos não é permitida a prática da colocaçãode materiais cortoperfurantes directamente sobre campos cirúrgicos ou coberturas de mesas de instrumentos. Recomenda-se a utilização de campos magnéticos ou tabuleiros de cortoperfurantes para a passagem destes materiais entre o enfermeiro instru- mentista e o cirurgião - técnica non-touch (não tocar). Recomenda-se ainda, a utilização de contentores rígidos, estéreis, específicos, para a colocação lâminas, agulhas de sutura ou outros materiais usados, na mesa de instrumentos, até ao fim do procedimento cirúrgico e à contagem final. Justificação – A colocação de materiais cortoperfurantes directamente sobre campos estéreis pode conduzir à quebra de técnica asséptica por microperfuração e, consequentemente, ao aumento do risco de infecção. A técnica non-touch para a passagem de materiais cortoperfurantes favorece a segurança dos profissionais uma vez que, com esta técnica os materiais não são passados de mão em mão. A utilização de contentores estéreis para recolher e manter na mesa de instru- mentos materiais cortoperfurantes usados, previne quebras de técnica asséptica e facilita a contagem destes materiais. PROCEDIMENTO DE CONTAGEM DE MATERIAIS CORTOPERFURANTES • A contagem de materiais cortoperfurantes é realizada por duas pessoas, de forma audível e sem interrupções. • A contagem de materiais cortoperfurantes é realizada e registada: a Antes do início da cirurgia, a Sempre que são abertos novos cortoperfurantes para a mesa, a No primeiro plano de encerramento, a No encerramento da pele, a Sempre que o enfermeiro instrumentista ou circulante são substituídos, a Se a incisão for reaberta após o final da contagem, • Se o procedimento cirúrgico envolver duas ou mais mesas, a contagem deve ser realizada e registada separadamente. Erros de contagem: • Repetir a contagem, • Informar o cirurgião, • Informar o enfermeiro chefe, • Procurar no lixo e campos cirúrgicos, • Registar o incidente, • Providenciar RX. Se no RX se verificar que o material foi deixado no utente, o AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 75 cirurgião assume a responsabilidade da remoção, • Em situações de emergência em que a contagem não seja possível, o enfer- meiro instrumentista deve informar o cirurgião e o enfermeiro chefe que a con- tagem não se realizou conforme protocolado, providenciar RX intra-operatório no final da cirurgia e registar o incidente. 76 | îDESINFECÇÃO DE MATERIAIS: USO DE DESINFECTANTES NO BLOCO OPERATÓRIO Edição 2005 Estas Práticas Recomendadas pretendem fornecer linhas de orientação sobre processos de desinfecção de materiais e equipamentos e o uso de desinfectantes no bloco operatório. A prevenção da infecção durante procedimentos cirúrgicos depende da inter- relação de vários factores. Quanto mais invasivo o procedimento e mais susceptível o utente, maiores os cuidados necessários. Para controlar o risco de infecção cirúrgica é necessário minimizar, reduzir ou eliminar a contaminação microbiana dos artigos que vão estar em contacto com o utente. A eficácia do processo de desinfecção, física ou química, dos diversos mate- riais, depende do correcto procedimento dos profissionais envolvidos e é funda- mental para minimizar o risco de contaminação e infecção cirúrgica. As práticas aqui recomendadas têm o intuito de reter o que se considera ne- cessário para atingir um óptimo nível de cuidados. RECOMENDAÇÃO I Todos os artigos ou equipamentos a desinfectar devem previamente sofrer um rigoroso processo de limpeza. Justificação – A lavagem com água quente e sabão remove a maioria dos mi- crorganismos existentes nos materiais (cerca de 80%) e, ainda, proteínas e outra matéria orgânica a qual, para além de constituir uma fonte de nutrientes para os microrganismos, protege-os contra a secagem e impede a acção do desinfectante. Assim, a limpeza constitui o primeiro passo nos procedimentos técnicos de desin- fecção e esterilização. O processamento precoce dos materiais limita a proliferação de microrganis- mos, facilita os procedimentos de limpeza, especialmente quando na presença de matéria orgânica e previne a deterioração dos materiais 1 – Todos os artigos constituídos por diversas peças devem ser desarticulados ou desmontados, na totalidade, antes de serem sujeitos a qualquer processo de limpeza. Justificação – Artigos constituídos por diversas peças são mais difíceis de lim- par correctamente quando não são desmontados, podendo reter matéria orgânica nas suas adaptações que, não sendo retirada, compromete todo o processo de limpeza e posteriormente de desinfecção ou esterilização. 2 – Preferencialmente, a limpeza dos artigos deve ser efectuada por processo mecânico. Justificação – Os processos mecânicos permitem associar à limpeza a desin- fecção térmica ou química, asseguram a secagem final e constituem um processo que pode ser controlado e validado. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 77 3 – Quando é necessário recorrer à limpeza manual, a lavagem dos materiais deve ser feita com água quente e detergente, imediatamente após a utilização. A temperatura da água não deve exceder os 40º. Justificação – A temperatura da água de lavagem não deve exceder os 40º uma vez que, temperaturas superiores causam a coagulação das proteínas dificul- tando a sua remoção. 4 – Após a lavagem manual, os artigos devem ser bem enxaguados e secos, antes do processo de desinfecção. Justificação – O enxaguamento tem como objectivo remover, dos materiais a desinfectar, possíveis resíduos de detergente. A secagem é fundamental para minimizar a proliferação de microrganismos uma vez que a humidade proporciona um meio óptimo para o seu desenvolvimento. Por outro lado, a concentração do agente desinfectante a que os materiais vão ser sujeitos pode ser alterada, por diluição, quando a secagem não é previamente assegurada. 5 – É recomendado o uso de barreiras protectoras pelos profissionais que pro- cedem à limpeza dos materiais: • Luvas, • Aventais impermeáveis, • Máscaras, • Protecções oculares. Justificação – O uso de barreiras protectoras é uma importante medida de segurança que previne a contaminação dos profissionais envolvidos no processa- mento dos materiais. RECOMENDAÇÃO II O material a processar é classificado, de acordo com o risco que representa, em três categorias: • Material crítico ou de alto risco, • Material semi-crítico ou de médio risco, • Material não crítico ou de baixo risco. Justificação – A classificação de material é fundamental para a selecção do método de tratamento adequado. 1 – Todos os artigos que penetram tecidos sub-epiteliais, sistema vascular ou outros órgãos isentos de flora microbiana própria (estéreis) bem como todos os que lhes estejam directamente ligados, são classificados como material crítico. Alguns exemplos de artigos pertencentes a esta categoria são os instrumentos cirúrgicos ou os campos cirúrgicos. Os artigos classificados como material crítico devem ser esterilizados. 78 | Justificação – Na altura da utilização, o material crítico deve estar livre de mi- crorganismos – bactérias, vírus, fungos ou esporos. A contaminação, mesmo que de baixo grau, em material desta categoria com- porta um elevado risco de infecção. 2 – Todos os artigos que entram em contacto com membranas mucosas ou pele não íntegra, são classificados como material semi-crítico. Alguns exemplos de artigos pertencentes a esta categoria são os materiais de anestesia e ventilação mecânica, os termómetros e os endoscópios gastrointestinais. Os artigos classificados como material semi-crítico devem sofrer um processo de desinfecção de nível elevado. Justificação – As mucosas íntegras são geralmente resistentes à infecção por esporos bacterianos mas podem ser susceptíveis a bactérias na forma vegetativa, a fungos e a vírus pelo que, a eficácia da desinfecção destes materiais é fundamen- tal para a prevenção da infecção. 3 – Todos os artigos que entram em contacto apenas com peleíntegra ou que não entram directamente em contacto com o utente são classificados como ma- terial não crítico. Alguns exemplos de artigos pertencentes a esta categoria são as braçadeiras de medição de TA, cabos de electrocardiógrafos, monitores vários, marquesas e outro mobiliário. Os artigos classificados como material não crítico devem sofrer um processo de limpeza ou de desinfecção de nível baixo. Justificação – A pele íntegra é uma barreira protectora eficaz contra a maioria dos microrganismos e os materiais que não entram em contacto directo com o utente não constituem um potencial risco de infecção. RECOMENDAÇÃO III O processo de limpeza e desinfecção dos materiais deve ser fundamentado com base científica, tendo em atenção o risco infeccioso que representam, a utiliza- ção prevista, a natureza de cada artigo e o custo do processamento. Justificação – O conhecimento dos diferentes riscos de transmissão de infec- ção, das dificuldades de descontaminação inerentes à natureza dos artigos e das limitações de cada processo, é fundamental para que seja adoptado o procedimen- to correcto e para que possam ser tomadas as medidas necessárias que levem à eficácia do processamento. 1 - A desinfecção térmica, sendo um processo mecânico que combina a limpeza com a desinfecção por calor, é o método preferencial de desinfecção de materiais e está indicado para uma vastíssima gama de artigos desde que sejam termo-resistentes. Justificação – O calor não é selectivo, actua de igual forma sobre os diversos microrganismos. As máquinas de lavagem e desinfecção sujeitam os materiais a temperaturas que podem variar entre os 65ºC e os 93ºC dependendo da natureza dos artigos a processar. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 79 Quanto mais elevada for a temperatura, menor será o tempo de exposição ne- cessário para a eficácia da desinfecção. Tratando-se de um processo mecânico, pode ser controlado e validado, assegu- rando melhores resultados. 2 – A utilização de desinfectantes químicos no bloco operatório só está indicada em: • Desinfecção de material semi-crítico termo-sensível, • Descontaminação manual de material não crítico se apresenta matéria orgâ- nica visível, • Remoção de matéria orgânica vertida no chão ou superfícies. Justificação – A eficácia da desinfecção química pode ser influenciada por varia- díssimos factores e é de difícil controlo e validação pelo que, a utilização de desinfec- tantes químicos no tratamento de materiais tem indicações específicas e limitadas. Por outro lado, os desinfectantes químicos são, de um modo geral, dispen- diosos e podem acarretar riscos para a saúde dos profissionais pelo que, a sua utilização deve ser limitada às situações em que não é possível outro método eficaz de desinfecção. RECOMENDAÇÃO IV A utilização de desinfectantes químicos deve obedecer a normas de procedimen- tos que assegurem a eficácia do processo e proporcionem um ambiente seguro para os profissionais utilizadores. Justificação – São inúmeros os factores que podem influenciar a eficácia da desinfecção química pelo que, o cumprimento rigoroso das normas de selecção, preparação e utilização, é fundamental para um bom resultado final e para a segu- rança dos profissionais envolvidos. 1 – A selecção do produto químico mais indicado deve ter em conta a natureza do material ou superfície em que vai ser utilizado, o tempo disponível, o espectro antimicrobiano necessário, os factores que podem inactivar o desinfectante, a corrosividade e o custo. Justificação – Os microrganismos variam na sua sensibilidade aos desinfectantes. As bactérias Gram positivas são comparativamente mais sensíveis que as Gram negativas. Os vírus e fungos variam de acordo com a sua estrutura mas, em termos ge- rais, são mais sensíveis que o BK e os esporos bacterianos. O conhecimento do tipo de contaminação presente é fundamental para a selec- ção do desinfectante adequado. 2 – Devem ser rigorosamente seguidas as instruções do fabricante relativas à preparação, utilização e armazenamento dos desinfectantes. Justificação – O não cumprimento das indicações do fabricante compromete a eficácia do desinfectante. 80 | 3 – Após a preparação de diluições, os prazos de validade devem ser calculados se- gundo indicação do fabricante e registados na embalagem em rótulo facilmente visível. Justificação – O respeito pelo prazo de validade do produto é um factor impor- tante para a garantia da sua eficácia. 4 – O conhecimento dos factores que podem influenciar a eficácia dos desinfec- tantes é fundamental para um bom resultado do processo. Alguns desses factores são: • Inadequada concentração do desinfectante, • Inadequado tempo de exposição do artigo ao desinfectante, • Configuração do material, • Inadequada temperatura e pH do desinfectante em função do artigo a desin- fectar, • Qualidade da água de diluição. Justificação – O conhecimento destes factores permite tomar as medidas ne- cessárias para tornar o processo de desinfecção eficaz. 5 – Os artigos a desinfectar devem estar limpos, secos e ser completamente imersos no desinfectante. Justificação – Para que a desinfecção seja eficaz, toda a superfície dos arti- gos deve entrar em contacto com o desinfectante durante o tempo de exposição recomendado. 6 – Antes de serem imersos os artigos com lúmens de reduzido diâmetro de- vem ser irrigados com a solução desinfectante. Justificação – A irrigação destes artigos evita a formação de bolhas de ar no seu interior que impedem o contacto directo do desinfectante com toda a superfí- cie do material. 7 – Após a desinfecção, os artigos devem ser bem enxaguados. Todo o material cuja posterior utilização o justifique, deve ser enxaguado com água destilada estéril. Justificação – O enxaguamento após a desinfecção tem o objectivo de remover resíduos de desinfectante tóxicos e /ou irritativos, prevenindo lesões dos tecidos ou mucosas. É usada água destilada estéril quando se pretende evitar a recontami- nação do material em situações específicas. 8 – Os desinfectantes químicos devem ser mantidos em contentores fechados e em local próprio, com boa ventilação. Justificação – Muitos dos desinfectantes químicos disponíveis libertam vapores tóxicos prejudiciais à saúde dos profissionais utilizadores. Outros são voláteis pelo que, evaporam facilmente quando não são mantidos em recipientes fechados. O uso de contentores herméticos e a boa ventilação do local, favorece a conservação das características do desinfectante e limita a expo- sição dos profissionais a agentes tóxicos. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 81 9 – É recomendado o uso de barreiras protectoras pelos profissionais que ma- nipulam desinfectantes químicos: • Luvas próprias – Nitrilo ou látex grosso, • Máscara de protecção química, • Protecções oculares, • Avental impermeável. Justificação – As barreiras protectoras são uma medida de segurança face à toxicidade da maioria dos desinfectantes químicos, prevenindo a inalação e as lesões da pele ou mucosas. CARACTERÍSTICAS DE ALGUNS DESINFECTANTES QUÍMICOS ÁLCOOL (60% a 80%) Actua por desnaturação das proteínas. Indicado no tratamento de superfícies previamente limpas e na desinfecção de algum material semi-crítico termo-sensível. Importante aplicar e deixar secar. Espectro de acção Bactericida incluindo BK, fungicida e virucida Vantagens Baixa toxicidade, efeito rápido, evaporação rápida e boa tolerância. Desvantagens Inflamável, volátil, não penetrante pelo que só actua em superfícies limpas. COMPOSTOS HALOGENADOS (Cloro) Actuam por inibição de algumas cadeias enzimáticas no interior da célula. Estão indicados na desinfecção de superfícies contaminadas sendo o desinfectante de primeira escolha contra vírus, incluindo Hepatite B e HIV. Importante respeitar os prazos de validade das diluições. Espectro de acção Bactericida incluindo BK, fungicida e virucida Vantagens Acção rápida e baixo custo. DesvantagensCorrosividade, instabilidade das diluições, inactivação pela matéria orgânica, incompatibilidade com alguns de- tergentes e possibilidade de libertar gás tóxico quando misturado com ácidos (ex. urina). Dicloroisocianurato de Sódio – Com apresentação em forma de pastilhas, pós ou grânulos, tem propriedades semelhantes ao hipóclorito mas é ligeiramente me- nos inactivado pela matéria orgânica e menos corrosivo para os metais. 82 | ÁCIDO PARACÉTICO Actua por desnaturação de proteínas, alteração da permeabilidade da parede celular e oxidação enzimática. Espectro de acção Bactericida, fungicida, virucida e esporicida. Vantagens Acção rápida, não inactivado por matéria orgânica, não poluente, não tóxico. Pode ser usado no ponto de uso. Desvantagens Corrosivo para metais embora a maioria dos produtos comercializados contenha aditivos anticorrosivos. Instável depois de diluído. Em soluções concentradas é irritante para pele e mucosas. Prazo de validade reduzido depois de activado. Custo elevado. ALDEÍDOS Glutaraldeído Actua por inibição da síntese proteica, por reacção de alquilação a nível do ARN a ADN. Espectro de acção Bactericida incluindo BK, fungicida, virucida e esporicida (dependendo do tempo de contacto). Vantagens Não corrosivo para equipamento endoscópico, borra- chas e plásticos. Desvantagens Tóxico, alergénico para a mucosa ocular e nasal. Prazo de validade reduzido depois de activado. Custo elevado. Necessidade de instalações específicas, isoladas e com sistema de exaustão de gases para segurança dos utili- zadores. Necessidade de equipamento de protecção individual (barreiras protectoras) para os utilizadores. Ortoftalaldeído Actua de forma idêntica ao Glutaraldeído Espectro de acção Bactericida incluindo BK, fungicida e virucida. Não tem actividade esporicida. Vantagens Boa estabilidade. Não necessita de activação. Boa compatibilidade com os materiais. Menor toxicidade, produz menos vapores. Não irritante para as mucosas. Desvantagens Irritante para a pele. Provoca manchas na pele, equipamentos e superfícies. É mais caro que o Glutaraldeído. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 83 îTRATAMENTO DE INSTRUMENTOS CIRÚRGICOS Edição 2005 Estas Práticas Recomendadas pretendem fornecer linhas de orientação sobre os cuidados a ter com instrumentos cirúrgicos. A utilização do instrumental cirúrgico em óptimas condições é fundamental para que a cirurgia decorra em segurança e é resultado de uma cadeia de procedimentos correctos que envolve, desde a equipa cirúrgica aos profissionais dos serviços de esterilização, funcionários responsáveis pelo transporte e distribuição de materiais. As diversas fases de um correcto processamento de material estão directa- mente relacionadas entre si. O sucesso de cada fase depende em absoluto da eficácia da fase anterior. A primeira fase do processamento de instrumentos cirúrgicos começa no Bloco Operatório, na altura da sua utilização. Os cuidados a ter com o instrumental du- rante a cirurgia são essenciais para a eficácia dos processos de descontaminação e esterilização. As práticas aqui recomendadas têm o intuito de reter o que se considera ne- cessário para atingir um óptimo nível de cuidados nesta área. RECOMENDAÇÃO I Os instrumentos cirúrgicos devem ser correctamente utilizados durante o pro- cedimento cirúrgico. Justificação – Os cuidados com os instrumentos durante a cirurgia, são funda- mentais para salvaguardar a segurança do utente e dos profissionais utilizadores. A utilização correcta de instrumentos cirúrgicos, minimiza o risco de infecção e/ ou contaminação e a deterioração dos próprios instrumentos. 1 - A colocação dos instrumentos na mesa (ou mesas), deve ser feita por or- dem de utilização. Justificação – A correcta colocação dos instrumentos cirúrgicos nas mesas permite uma rápida localização e favorece uma correcta técnica asséptica cirúrgica. 2 - Na altura da colocação das mesas os instrumentos devem ser contados e rigorosamente inspeccionados. Qualquer instrumento que não esteja em adequa- das condições de utilização deverá ser rejeitado. Justificação – A inspecção rigorosa dos instrumentos cirúrgicos na altura da colocação das mesas previne possíveis acidentes relacionados com quebras de técnica asséptica ou com o mau funcionamento dos instrumentos. O conhecimento do número de instrumentos colocados na mesa é fundamental para a sua confe- rência no final da cirurgia. 3 - Durante a cirurgia, os instrumentos deverão ser progressivamente encami- nhados para zonas bem distintas da mesa, estabelecendo um circuito não cruzado na mobilização do material – “técnica do circuito não cruzado”. 84 | Justificação – Esta técnica facilita a manutenção da assépsia das mesas e instrumentos, permite uma reserva de material asséptico na mesa e evita a con- taminação desnecessária. 4 - Os instrumentos cirúrgicos devem ser utilizados apenas para o fim específi- co para o qual foram concebidos. Justificação – A utilização inapropriada dos instrumentos cirúrgicos potencia- liza o risco de deterioração e consequentemente o risco de infecção e/ou de aci- dentes intra-operatórios. RECOMENDAÇÃO II Durante a intervenção os instrumentos devem ser mantidos livres de matéria orgânica. Justificação – A inadequada remoção de matéria orgânica, resulta num aumento da carga biológica no material e consequentemente num aumento do risco de infec- ção. Por outro lado, quando se permite que matéria orgânica seque dentro ou sobre instrumentos cirúrgicos, favorece-se o desgaste e a corrosão que ocorre devido a reacções químicas entre a superfície dos instrumentos e a substância em contacto. 1 – A limpeza intra-operatória dos instrumentos cirúrgicos deve ser feita com esponja própria ou compressa humedecida com água destilada estéril. Justificação – As soluções salinas, para além de serem mais dispendiosas, causam a deterioração da superfície dos instrumentos por corrosão. 2 – Os instrumentos tubuliformes, (agulhas de punção, material de cirurgia percutânea, cânulas de aspiração etc.), devem, durante a intervenção, ser sujeitos a irrigações frequentes com água destilada estéril, por aspiração ou por injecção, sob pressão com a ajuda de uma seringa. Justificação – As lavagens frequentes evitam a acumulação de matéria orgâni- ca e a obstrução do lúmen. 3 – Os instrumentos que possuam caixa de encaixe, (porta agulhas, pinças hemostáticas, etc.) devem ser submetidos frequentemente a uma manobra de limpeza que consiste em submergir a parte funcionante num recipiente com água destilada estéril e, por diversas vezes, abrir e fechar o instrumento. Justificação – A presença de matéria orgânica seca nas caixas de encaixe dos instrumentos, favorece o atrito, a má mobilização e, com a continuação, a corrosão da área articular dos instrumentos. Aumenta ainda o risco de infecção e pode ser causa determinante para a ineficácia dos processos de lavagem e descontaminação. 4 – A correcta remoção de matéria orgânica dos instrumentos de articulação tênsil (pinças goivas, forceps para cortar osso, distractores, etc), implica que as manobras de limpeza sejam feitas com o instrumento na posição de fechado e na posição de aberto. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 85 Justificação – Este tipo de instrumentos, pelas suas características, ocultam muitas vezes matéria orgânica no ângulo interno das suas articulações. A remoção de toda a matéria orgânica visível, apenas pode ser garantida se as manobras de limpeza forem feitas nas duas posições possíveis deste tipo de instrumentos. 5 – Os instrumentos próprios para cortar osso, (pinças goivas, pinças Kerrison, etc.), retêm frequentemente pequenos fragmentos de osso na sua parte funcio- nante, nem sempre facilmente visíveis. Durante a intervenção, este tipo de instru- mentos deve, a cada passo, ser verificado e liberto destes fragmentos. Justificação – Fragmentos de osso retidos na parte funcionante destes instru-mentos, podem ser responsáveis pelo mau funcionamento durante o procedimento cirúrgico e pela ineficácia do processo de descontaminação. 6 – Os instrumentos de articulação tipo “jacaré” (pinças de biópsia, material de cirurgia endoscópica, pinças Kerrison, etc), possuem geralmente, entre a sua par- te funcional e a extremidade de manipulação, um eixo longo, constituído por duas partes que deslizam uma sobre a outra e sem possibilidade de serem desassocia- das. Ao longo da cirurgia, estes instrumentos devem sofrer irrigações frequentes, fazendo correr água destilada estéril pelo seu eixo interno, no sentido distal proxi- mal da sua parte funcionante, com a ajuda de uma seringa. Justificação – Esta manobra evita a acumulação e a secagem de matéria orgâ- nica no interior do eixo destes instrumentos que é de difícil acesso à lavagem. 7 – Todo o instrumental que, durante a cirurgia, não possa ser sujeito a limpeza imediata deve ser submerso num recipiente com água destilada estéril, aguardan- do a primeira oportunidade de limpeza e verificação. Justificação – Esta manobra impede que a matéria orgânica se acumule e se- que no interior ou na superfície dos instrumentos, facilita a sua remoção e diminui o risco de corrosão e deterioração dos instrumentos. 8 – A solução destinada à limpeza intra-operatória dos instrumentos deve ser substituída sempre que se encontre visivelmente suja. Justificação – O excesso de carga biológica na água destilada estéril, diminui a eficácia do processo de limpeza dos instrumentos durante a cirurgia. 9 – No final da cirurgia, toda a matéria orgânica visível nos instrumentos cirúr- gicos deve ser removida antes da evacuação do material. Justificação – A elevada carga biológica num instrumento cirúrgico determina a ineficácia do processo de lavagem e descontaminação. Representa ainda um elevado risco de contaminação para os profissionais envolvidos no processamento destes materiais. 10 – No final da cirurgia deverão ser retirados todos os objectos perfurantes e cortantes antes de proceder à evacuação dos instrumentos. 86 | Justificação – Esta manobra é fundamental para minimizar o risco de contami- nação e possíveis acidentes. RECOMENDAÇÃO III Os instrumentos cirúrgicos devem ser evacuados e processados imediatamente após o procedimento cirúrgico. Justificação – O processamento precoce dos instrumentos cirúrgicos favorece a eficácia do processo de lavagem e descontaminação, diminui o grau de contami- nação do ambiente cirúrgico e o risco de contaminação dos profissionais. 1 – No momento da evacuação da sala de operações, todos os instrumentos utiliza- dos devem ser conferidos e verificados. Quaisquer alterações ou deteriorações encon- tradas devem ser comunicadas aos profissionais responsáveis pelo processamento. Justificação – A contagem do instrumental antes da evacuação é fundamental para conferir a contagem inicial e prevenir eventuais percas de material. Comunicar aos profissionais responsáveis qualquer alteração encontrada nos instrumentos facilita a execução de um correcto processamento ou a sua substi- tuição, se necessário. 2 – Os instrumentos devem ser retirados das mesas em tabuleiros perfurados ou de rede de malha larga. Justificação – Este tipo de tabuleiro permite que toda a superfície dos instru- mentos seja abrangida na altura da lavagem. 3 – Todos os instrumentos devem ser colocados nos tabuleiros, de forma orde- nada, abertos, desconectados, desmandrilados, para que não seja necessário o seu manuseamento antes do final do processo mecânico de lavagem e descontaminação. Justificação – Estas manobras favorecem a eficácia do processo de lavagem e descontaminação e diminuem o risco de contaminação dos profissionais envolvidos no processamento dos instrumentos cirúrgicos. 4 – Os instrumentos devem ser colocados em tabuleiros separados em função do seu peso. Serão utilizados tantos tabuleiros quantos os necessários para evitar a carga excessiva. Justificação – O excesso de carga dificulta o processo de lavagem e desconta- minação e a inapropriada colocação dos instrumentos nos tabuleiros pode causar a sua deterioração. 5 – Os instrumentos de articulação tênsil devem ser colocados nos tabuleiros, com uma ligeira abertura do ângulo interno das suas articulações, através do uso de pinos próprios aplicados nos tabuleiros ou de elásticos aplicados nas extremi- dades de manipulação dos instrumentos, de forma a forçar uma ligeira abertura das articulações. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 87 Justificação – Esta manobra favorece a eficácia da descontaminação uma vez que permite que toda a superfície dos instrumentos seja abrangida durante o pro- cesso de lavagem. 6 – Os instrumentos tubuliformes com lúmen de pequenas dimensões (agulhas de punção, cânulas de aspiração, etc.) devem ser colocados à superfície da carga, em local facilmente visível. Justificação – Este cuidado é fundamental para permitir que este material esteja acessível, uma vez que tem que ser submetido a uma pré-lavagem manual antes da lavagem mecânica. RECOMENDAÇÃO IV Os tabuleiros de instrumental contaminado devem ser colocados em contentores próprios para a evacuação destes materiais, que deverão ser hermeticamente fechados antes de saírem da sala de operações. Justificação – O cumprimento das Precauções Universais é essencial à boa prática de cuidados. A evacuação da sala de operações, de material contaminado, em recipientes próprios fechados, minimiza o grau de contaminação do ambiente cirúrgico e o risco de contaminação dos profissionais. 1 – Sempre que o processamento não possa ser feito de imediato, no local do processamento, os tabuleiros devem ser colocados nos contentores em solução detergente desencrustante e permanecer fechados até à altura do processamento. Justificação – Esta manobra impede que qualquer resíduo de matéria orgânica seque na superfície ou no interior dos instrumentos. 2 – Após cada utilização, os contentores de transporte de instrumentos cirúrgi- cos contaminados devem sofrer um processo de descontaminação mecânica. Justificação – A descontaminação dos contentores é essencial para eliminar a contaminação inerente a cada utilização. RECOMENDAÇÃO V Os contentores de material contaminado devem ser colocados em carros de transporte próprios, de preferência fechados e de uso exclusivo para este fim. Justificação – Os carros de transporte permitem uma boa acomodação de contentores diminuindo o risco de deterioração dos materiais, além de protege- rem e facilitarem o desempenho dos profissionais responsáveis pelo transporte de materiais contaminados. 1 – A colocação dos contentores nos carros de transporte deve respeitar a regra do peso, “os mais leves sobre os mais pesados”. 88 | Justificação – Esta regra permite um maior equilíbrio, facilita a condução dos carros e previne a deterioração dos contentores. 2 – Os carros de transporte de contentores de material contaminado devem ser limpos diariamente e sempre que se encontrem visivelmente sujos. Justificação – Esta manobra diminui o risco de contaminação dos profissionais e limita o grau de contaminação do ambiente cirúrgico. RECOMENDADA VI A lavagem mecânica é o método indicado para a lavagem e descontaminação de instrumentos cirúrgicos. Justificação – A lavagem mecânica associa à limpeza, a desinfecção térmica dos instrumentos, assegura a secagem final e constitui um processo que pode ser controlado e validado. 1 – Todo o material que não esteja rigorosamente limpo não pode ser eficaz- mente desinfectado ou esterilizado. Justificação – A existência de carga biológica no material impede a eficácia da desinfecção e esterilização. 2 – A lavagem manual só deverá ser usada como último recurso e apenas para instrumentos cujas características não permitam a lavagem mecânica. Justificação – A lavagem manual de instrumentos cirúrgicos contaminados constitui um elevado risco de contaminação para osprofissionais e ambiente cirúr- gico e é um processo falível que não pode ser controlado nem validado. 3 – Os profissionais que procedem à lavagem manual de instrumentos contami- nados, devem usar barreiras protectoras adequadas – bata ou avental impermeá- vel, luvas de borracha (tipo doméstico), máscara e protecções oculares. Justificação – As barreiras protectoras diminuem o risco de contaminação dos profissionais. 4 – A lavagem dos instrumentos deve ser efectuada em área própria para o tratamento de materiais contaminados, separada e isolada de outras áreas. Justificação – O isolamento das áreas de tratamento de materiais contamina- dos, diminui o grau de contaminação das áreas adjacentes. 5 – As soluções detergentes desencrustantes devem ser preparadas para cada utilização, em recipientes rigorosamente limpos, com água bem quente e apenas na altura do processamento. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 89 Justificação – As boas condições de higiene dos recipientes são uma medida importante para diminuir o grau de contaminação das soluções de lavagem. 6 – Deverão ser utilizados produtos de limpeza e desinfecção próprios para o tratamento de instrumentos cirúrgicos, nas concentrações recomendadas pelo fabricante. Justificação – O desrespeito pelas instruções do fabricante resulta na ineficá- cia do processo de lavagem e pode ser causa da deterioração dos instrumentos. 7 – Se o detergente for em pó, a solução deve ser preparada assegurando uma diluição completa. Justificação – Grânulos de detergente não dissolvidos, podem bloquear canais estreitos de alguns instrumentos ou ficarem retidos em articulações ou caixas de encaixe, favorecendo a sua deterioração. 8 – Os instrumentos a processar manualmente devem ser totalmente submer- sos na solução detergente desencrustante, de forma a evitar a formação de bolhas de ar que impedem o contacto da solução com toda a superfície dos instrumentos e assim permanecer, durante pelo menos 10 minutos, antes de ser iniciada a lavagem. Justificação – Esta manobra permite aos instrumentos algum tempo de con- tacto com a substância desencrustante pelo que facilita a remoção da sujidade. 9 – A lavagem manual deve ser feita com movimentos suaves, utilizando escova própria e mantendo o instrumento submerso. Justificação – Esta manobra evita os salpicos que podem causar a contamina- ção acidental dos profissionais. 10 – Após a lavagem, os instrumentos deverão ser abundantemente enxaguados com água quente corrente e o último enxaguamento deve ser feito com água destilada. Justificação – O enxaguamento com água destilada permite a remoção de re- síduos de calcário, sódio, carbonatos ou outras substâncias existentes na água da rede pública, que podem causar a deterioração dos instrumentos cirúrgicos. 11 – No final do processo de lavagem manual, deve ser assegurada a secagem dos instrumentos que deverá ser feita com toalhetes absorventes de utilização única. Justificação – Os toalhetes de utilização única, têm grande capacidade absor- vente, não deixam resíduos de fibras nos instrumentos nem facilitam a proliferação microbiana como acontece com os panos reutilizáveis. 12 – O processo de secagem pode, se necessário, ser complementado por injecção de ar comprimido nas áreas dos instrumentos de mais difícil secagem. Justificação – Assegurar a completa secagem dos instrumentos é fundamen- tal para limitar a proliferação de microrganismos. 90 | RECOMENDAÇÃO VII Antes de se proceder ao empacotamento e esterilização de instrumentos cirúr- gicos é obrigatória a sua verificação. Justificação – O processo de verificação de instrumentos é fundamental para garantir a sua qualidade, o seu bom funcionamento e as condições de segurança para a utilização no utente. 1 – Os instrumentos deverão ser cuidadosamente observados, na procura de resíduos de matéria orgânica resistentes à lavagem, em especial nas áreas onde mais facilmente isso pode acontecer (articulações, caixas de encaixe, parte funcio- nal, etc.). Instrumentos nestas condições devem ser encaminhados de novo para um processo de lavagem. Justificação – A existência de matéria orgânica anula a eficácia do processo de descontaminação e esterilização. 2 – Será observada a existência de danificações tais como, alterações das su- perfícies, fissuras, corrosão, desgaste, manchas não removíveis, etc. Instrumen- tos nestas condições devem ser substituídos. Justificação – A utilização de instrumentos nestas condições, favorece a in- fecção intra-operatória e a lesão acidental de tecidos ou estruturas durante os procedimentos cirúrgicos. 3 – Deverão ser verificados todos os instrumentos que possuam parafusos nas suas articulações, garantindo o seu aperto final. Justificação – Parafusos mal apertados, para além de provocarem o mau fun- cionamento dos instrumentos, podem originar acidentes durante procedimentos cirúrgicos. 4 – Deve ser testada a capacidade funcional de cada instrumento e proceder à sua substituição, se necessário. Justificação – Instrumentos com capacidade funcional alterada ou diminuída, não oferecem condições de segurança e precisão aos utilizadores. 5 – Deve ser testada a facilidade de manipulação de cada instrumento, em especial quando se trata de instrumentos com articulações ou caixas de encaixe. Estes instrumentos, sempre que processados, devem ser lubrificados com óleo hidrossolúvel próprio para lubrificação de instrumentos cirúrgicos, a fim de garantir a sua boa maleabilidade. Justificação – A boa maleabilidade dos instrumentos, favorece manobras fá- ceis e suaves durante os procedimentos cirúrgicos. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 91 îTRATAMENTO DE MATERIAL DE VIDEOCIRURGIA Edição 2005 A cirurgia mini-invasiva é hoje uma técnica com um vasto leque de indicações clínicas que, claramente, oferece inúmeras vantagens relativamente ao conforto do utente, tempos cirúrgicos, traumatismo de tecidos, agressão cirúrgica, tempos de internamento, etc. No entanto, como qualquer outra, esta técnica comporta riscos para a segu- rança do utente. Um dos principais é o risco de infecção e contaminação, relacio- nado com o manuseamento e processamento dos materiais. As Práticas Recomendadas, pretendem fornecer linhas de orientação para o tratamento de material de videocirurgia e reter o que se considera ser necessário para atingir um óptimo nível de cuidados nesta área. RECOMENDAÇÃO I Deve ser estabelecido um protocolo de utilização de todo o equipamento (Har- dware) e instrumental (Software) de Videocirurgia. Justificação - A existência de um protocolo, para além de facilitar a integração dos profissionais a novas tecnologias, favorece o cumprimento de procedimentos correctos relativos à utilização de instrumental e equipamentos de Videocirurgia. 1 – O protocolo de serviço sobre o funcionamento do equipamento (Hardware), deve ser baseado nos manuais de utilização fornecidos pelo fabricante, os quais devem contemplar informação respeitante à garantia, manutenção e revisões periódicas. Justificação - Os manuais são guias de orientação que permitem uma correcta e segura utilização dos equipamentos. O uso correcto dos equipamentos favorece a sua conservação e minimiza o risco de lesões no utente. 2 – O protocolo relativo ao instrumental (Software), deve estabelecer: - Instrumental indicado para cada tipo de cirurgia, - Manutenção da assépsia durante procedimentos intra-operatórios, - Precauções Básicas (Standard) e métodos indicados relativos ao manusea- mento e processamento de instrumental e acessórios (baseados nas recomen- dações dos fabricantes). Justificação - A utilização correcta do instrumental adequado ao tipo de ci- rurgia, para além de evitar tempos mortos e custos desnecessários, favorece a segurança dos procedimentos. O cumprimento das Precauções Básicas (Standard) limita o risco de contami- nação dos profissionais. O correcto processamento do instrumental é fundamentalpara a prevenção da infecção. 92 | RECOMENDAÇÃO II Antes do início da cirurgia, todo o equipamento (Hardware) de videocirurgia deve ser inspeccionado e testado. Justificação – A verificação prévia dos equipamentos pretende assegurar o seu correcto funcionamento durante os procedimentos cirúrgicos. 1 – Todo o equipamento deve estar devidamente acondicionado e permanecer em carro próprio “trolley”, específico para este fim. O “trolley” deve ser transporta- do com a máxima precaução e o mínimo de vezes possível. Justificação – O acondicionamento correcto do Hard-ware facilita a boa visuali- zação durante procedimentos cirúrgicos e evita a deterioração dos equipamentos, quase sempre muito caros e muito sensíveis a maus manuseamentos. 2 – O enfermeiro circulante deve testar o equipamento relativamente à: - Fonte de alimentação (energia eléctrica), - Fonte de CO2 – A existência de uma segunda fonte de CO2 é obrigatória, - Ligações entre os diversos equipamentos, - Outras ligações eventualmente necessárias. Justificação - Testar todo o equipamento permite despistar atempadamente quaisquer defeitos ou avarias que possam prejudicar ou mesmo impedir a realiza- ção da cirurgia. A presença de uma fonte suplente de CO2, limita o tempo de interrupção da cirurgia em caso de falência de gás. 3 – O enfermeiro circulante é responsável pela colocação do “trolley” na sala de operações, em local adequado ao procedimento cirúrgico a que se destina, tendo em atenção a boa visualização de toda a equipa cirúrgica bem como, a possibilida- de dos outros profissionais envolvidos se movimentarem na sala, sem colocar em risco a segurança e a assépsia dos procedimentos. Justificação – A boa visualização dos equipamentos é fundamental para a efi- cácia da técnica cirúrgica e para a monitorização de fluxos e pressões, permitindo uma actuação atempada em casos de anomalias ou complicações. RECOMENDAÇÃO III Antes do início da cirurgia, o enfermeiro instrumentista deve seleccionar e reu- nir todo o instrumental (Software) necessário e específico para a intervenção a realizar. Justificação – A selecção correcta do instrumental é fundamental para que a cirurgia decorra em segurança, prevenindo falhas que a possam comprometer e evitando custos desnecessários. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 93 1 – O enfermeiro instrumentista, em colaboração com o enfermeiro circulante, deve verificar a integridade das embalagens, os indicadores de esterilidade e os prazos de validade de esterilização de todo o material necessário ao procedimento cirúrgico. Qualquer material que se apresente em embalagem danificada, suja ou molhada deve ser rejeitado. Justificação – Os procedimentos de videocirurgia são realizadas em cavidades estéreis do organismo. Segundo a classificação de Spaulding, os dispositivos mé- dicos utilizados nestes procedimentos são considerados MATERIAL CRÍTICO pelo que, obrigatoriamente, tem que ser garantida a sua esterilidade. 2 – Durante a intervenção, o enfermeiro instrumentista deve manter os ins- trumentos livres de matéria orgânica, procedendo à sua limpeza intra-operatória. Deverão ser feitas irrigações, tão frequentes quanto possível, em todos os instru- mentos tubuliformes, por injecção sob pressão de água destilada estéril. Justificação – Dada a configuração tubuliforme e helicoidal dos instrumentos de videocirurgia, a sua limpeza intra-operatória frequente evita a acumulação de matéria orgânica, prevenindo a obstrução dos lúmens e, consequentemente, o risco de complicações. 3 – No final da cirurgia, o enfermeiro instrumentista deve garantir que o ins- trumental esteja o mais isento possível de matéria orgânica visível, antes de se proceder à sua evacuação. Justificação – Os cuidados a ter com o instrumental durante e no final da cirurgia, são essenciais para garantir a eficácia dos posteriores processos de des- contaminação e esterilização. 4 – Após o final da cirurgia, o instrumental deve ser evacuado imerso em so- lução detergente desencrustante (aconselhada pelo fabricante) e imediatamente processado. Justificação – A imersão do instrumental em solução detergente desencrus- tante, evita que possíveis resíduos de matéria orgânica sequem no interior dos ins- trumentos o que dificultaria o correcto processamento de lavagem / descontami- nação, já de si difícil de assegurar, dada a configuração deste tipo de instrumentos. A descontaminação imediata é obrigatória para prevenir a possível existência de matéria orgânica residual que levaria à ineficácia do processo de esterilização e, consequentemente, ao risco de contaminação e infecção cruzada. RECOMENDAÇÃO IV Todo o instrumental de videocirurgia, deve ser processado correctamente, respei- tando os cuidados inerentes às várias fases de pré lavagem, lavagem, enxagua- mento, secagem, verificação, empacotamento, esterilização e armazenamento. Justificação – As manobras correctas de todas as fases asseguram a eficácia do processamento. 94 | 1 – Deve ser estabelecido um protocolo de tratamento de todo o instrumental de videocirurgia (Software), baseado nas instruções escritas pelo fabricante. O protocolo de serviço deve observar: - Quem é responsável e quem executa as várias fases do processamento, - Como devem ser executadas as várias manobras do processamento e quais os produtos a utilizar, - Quando devem ser realizadas cada uma das fases do processamento. Justificação – Os manuais de instruções do software são guias de orientação que permitem o correcto tratamento de todo o instrumental. A existência de um protocolo de serviço para o processamento do instrumen- tal de videocirurgia facilita o correcto desempenho dos profissionais, fundamental para a eficácia do processo e para a conservação dos materiais. 2 – Todo o instrumental de videocirurgia deve ser preparado para o processo de lavagem pelo que, após a utilização, deve ser desmontado, desconectado, des- mandrilado e imerso em solução detergente desencrustante. Justificação – A correcta desmontagem do instrumental é essencial para per- mitir o contacto dos agentes de limpeza com toda a superfície dos instrumentos, favorecendo a eficácia do processo de lavagem. 3 – Independentemente do processo de lavagem, mesmo que se trate de pro- cessamento mecânico, é obrigatório proceder-se a uma pré-lavagem (sob pressão) do instrumental de videocirurgia. Justificação – O que não está devidamente limpo, não pode ser correctamente desinfectado e esterilizado. A configuração tubuliforme e helicoidal dos instrumentos de videocirurgia, per- mite a fácil retenção de matéria orgânica em locais de difícil acesso à lavagem, pelo que, a pré--lavagem é fundamental para reduzir a carga biológica no material e permitir a eficácia da sua descontaminação e esterilização. 4 – Preferencialmente, a lavagem dos instrumentos deve ser por processo mecânico, utilizando carros próprios para este tipo de materiais. As máquinas para lavar / descontaminar material de videocirurgia, devem obedecer a requisitos específicos, pelo que, a sua aquisição deve ser feita com base no parecer das Co- missões de Controlo de Infecção das Instituições. Justificação – A lavagem e descontaminação mecânica, submete o instrumen- tal a uma limpeza e desinfecção termoquímica de nível elevado. Constitui um mé- todo que pode ser validado e controlado e assegura a secagem final, fundamental para prevenir a recontaminação dos instrumentos. 5 – Na impossibilidade do processamento mecânico, a lavagem manual deve respeitar as normas de segurança (Precauções Básicas / Standard), fundamen- tais para prevenir a contaminação dos profissionais e os requisitos necessários à eficácia do processo. - Detergente adequado, AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 95 - Escovilhões de dimensões apropriadas, - Enxaguamento, - Secagem (sob pressão). • O detergente (aconselhado pelo fabricante), preferencialmente deve ser líqui- do e não abrasivo para nãodanificar a superfície dos instrumentos e evitar a sua corrosão. Quando é utilizado detergente em pó, deve ser garantido que todos os grânulos estão totalmente dissolvidos antes de iniciar o processo de lavagem, para prevenir o possível bloqueio de canais dos instrumentos. • O uso de escovilhões é obrigatório no processo de lavagem de material de vi- deocirurgia. Devem ser de dimensões adequadas que permitam a remoção de toda a matéria orgânica do interior dos canais e as manobras de utilização devem ser feitas introduzindo o escovilhão por uma extremidade do instrumento e retirando-o pela extremidade oposta. • O enxaguamento abundante tem como objectivo remover na totalidade resídu- os de detergente que possam eventualmente fixar-se no interior dos canais. O último enxaguamento deve ser feito com água destilada para remover resídu- os de calcário ou outras impurezas existentes na água da rede pública que podem causar a deterioração e o mau funcionamento dos instrumentos. • A secagem do material deve ser rigorosa a fim de evitar a proliferação de microrganismos que pode invalidar o processo de esterilização. Deve ser efectuada com ar comprimido. Só a passagem de ar sob pressão pode dar a garantia de que todos os canais ou outras zonas de difícil acesso do instrumental ficam completamente secas. 6 – Após a descontaminação, todo o instrumental de videocirurgia deve ser montado, inspeccionado (dando especial atenção a roscas e parafusos), lubrificado com produto próprio e verificado no que diz respeito a limpeza, ausência de dete- riorações e funcionamento adequado. Todo o material que apresente danificações deve ser substituído. Justificação – A utilização de instrumentos deteriorados aumenta o risco de traumatismo dos tecidos, o tempo da intervenção cirúrgica e o risco de ocorrência de infecção. A inspecção regular dos instrumentos minimiza o risco de complicações intra- operatórias de consequências adversas para o utente. 7 – Todo o material de videocirurgia, deve ser devidamente acondicionado em cestos ou caixas próprias para esterilização, com tampa e tapetes de silicone. Justificação – O acondicionamento adequado destes materiais é fundamental para a sua preservação uma vez que se trata de material muito frágil, muito sensí- vel, facilmente deteriorável e muito dispendioso. 8 – Todo o instrumental utilizado em videocirurgia, incluindo ópticas e cabos de fonte de luz deve ser estéril. O processo de esterilização (autoclavagem ou tecnologias de baixa temperatu- 96 | ra) dependerá das características do material e das recomendações do fabricante. Não é permitida a utilização de materiais que apenas tenham sofrido uma desinfec- ção, mesmo que de nível elevado. Nota – Durante procedimentos cirúrgicos, as câmaras não possíveis de este- rilizar deverão ser revestidas com cobertura estéril própria para esse fim. Esta manobra deverá ser feita cuidadosamente, sem quebras da técnica asséptica que possam comprometer a segurança do utente. Não é permitida a utilização de câmaras desinfectadas, sem cobertura estéril. Justificação - A classificação de Spaulding diferencia os materiais relativamen- te ao grau de risco infeccioso que representam para o utente e, em função desse risco, define o processamento a que os materiais devem ser sujeitos. Segundo a mesma classificação, o material de videocirurgia é considerado ma- terial crítico pois penetra tecidos sub-epiteliais, entra em contacto com cavidades estéreis do organismo e órgãos isentos de flora microbiana própria, pelo que, é obrigatório que se encontre estéril. 9 – Após o processo de esterilização, o material deverá ser armazenado de forma a garantir a manutenção da esterilidade até à sua reutilização. Justificação – O facto de qualquer material ter sofrido um processo de esterili- zação não garante por si só que, na altura da utilização, ainda se encontre estéril. A correcta manipulação e as condições adequadas de transporte e armazena- mento são fundamentais para impedir a recontaminação dos materiais esterilizados. RECOMENDAÇÃO V Não é permitida a reutilização de material de videocirurgia de uso único, não só pelo risco que esta prática comporta para os utentes como pelas suas implica- ções éticas e legais. Justificação – Os dispositivos médicos de utilização única, como o próprio nome indica, só oferecem para uma única utilização, a garantia de que estão aptos para a função a que se destinam, cumprindo as exigências no que diz respeito à concepção, produção, segurança, composição química, propriedades físicas e bio- lógicas e riscos de infecção. A reutilização destes materiais, comporta um elevado risco para a segurança dos utentes uma vez que o reprocessamento altera as suas características iniciais. A legislação portuguesa sobre dispositivos médicos (Decreto Lei 273/95, Por- taria nº136/96 de 3 de Maio de 1996), estabelece que todos os artigos por ela abrangidos ostentem a marca CE. Esta marca constitui a garantia da conformida- de dos artigos. Os serviços de processamento de materiais, não têm capacidade para certificar que um artigo de utilização única reprocessado, oferece garantias de conformidade. Sempre que esta prática lhes seja imposta, os profissionais que procedem ao reprocessamento de material de uso único, deverão exigir ao requisitante um ter- mo de responsabilidade escrito. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 97 îLIMPEZA E DESINFECÇÃO DE EQUIPAMENTO ANESTÉSICO Edição 2005 Estas Práticas Recomendadas pretendem fornecer linhas de orientação para a limpeza e desinfecção de dispositivos médicos utilizados em anestesia. Sempre que um utente é anestesiado e ventilado, é necessário minimizar o risco de infecção, através da aplicação de medidas preventivas adequadas, como a utilização de material e circuitos respiratórios apropriados, isentos de potenciais agentes patogénicos. Todo o utente deve ser considerado potencialmente infeccioso pelo que, os cui- dados a ter com o material e equipamento anestésico, devem ser uniformizados e aplicados a todos os utentes. As práticas aqui recomendadas têm o intuito de reter o que se considera ser necessário para atingir um óptimo nível de cuidados nesta área. RECOMENDAÇÃO I Deve ser estabelecido um protocolo de limpeza, desinfecção e esterilização de todo o material e equipamento anestésico. Justificação - A existência de um protocolo facilita o cumprimento de procedi- mentos correctos relativos ao tratamento de material de anestesia. 1 – O protocolo deve considerar os seguintes aspectos: • Os procedimentos dos profissionais que executam e apoiam as técnicas anes- tésicas, • O processamento dos materiais segundo a classificação a que pertencem - material crítico, semi-crítico ou não crítico, • Os procedimentos antes, durante e após intervenções cirúrgicas, • A limpeza periódica dos equipamentos de anestesia. Justificação – Para minimizar o risco de infecção associada aos cuidados de saúde (IACS), é necessário reduzir ou eliminar a contaminação microbiana de tudo o que vai estar em contacto com o utente. O material de anestesia pode constituir um reservatório e ser uma fonte de infecção cruzada se não for processado e preparado convenientemente, de acordo com a utilização prevista. 2 – Todos os profissionais que trabalham no Bloco Operatório, devem ser for- mados na aplicação do protocolo e motivados a cumpri-lo, de acordo com a sua área de actuação. Justificação – A formação e a motivação dos profissionais é fundamental para garantir procedimentos correctos. 98 | RECOMENDAÇÃO II Todos os dispositivos médicos reutilizáveis, utilizados em anestesia, que entram em contacto com o utente, devem ser limpos, desinfectados e se necessário esterilizados, de acordo com o grau de risco que representam e a classificação a que pertencem. Justificação – A eficácia dos processos de limpeza, desinfecção e/ou esteriliza- ção, é fundamental para prevenir a infecção associada aoscuidados de saúde (IACS). 1 – Todo o material necessário à anestesia, que entre em contacto com pele não íntegra ou mucosas do utente, é classificado como material semi-crítico e deve sofrer um processo de desinfecção de nível elevado. Justificação – As mucosas íntegras são geralmente resistentes à infecção por esporos, embora sejam susceptíveis a bactérias e a vírus. Os artigos classificados de material semi-crítico, devem estar livres de microrganismos patogénicos a fim de prevenir a contaminação e a infecção cruzada. 2 – O método preferencial para o processamento de material de anestesia é a lavagem e desinfecção mecânica termoquímica. Justificação – A lavagem/desinfecção mecânica sujeita os materiais a uma limpeza e desinfecção termoquímica de nível elevado, constitui um método que pode ser validado e controlado e assegura a secagem final fundamental para pre- venir a recontaminação do material. 3 – O processamento manual deste tipo de material não é recomendado. Só deve ser utilizado como último recurso e apenas para material cujas característi- cas não permitam o processamento mecânico. Justificação – A limpeza e desinfecção manual, constitui um método que pode ser influenciado por vários factores pelo que é falível e não pode ser validado nem controlado. Pode constituir risco de infecção para os utentes e de contaminação para os profissionais envolvidos no processamento dos materiais. 4 – A limpeza manual de material de anestesia contaminado deve respeitar os seguintes aspectos: • O uso de barreiras protectoras apropriadas – luvas de borracha, bata ou avental impermeável, máscara e protecção ocular, • As soluções de água e detergente, devem ser preparadas em recipientes próprios, limpos e o mais próximo possível da sua utilização, tendo em conta a temperatura da água, • Deverão ser utilizados produtos de limpeza aconselhados pelas Comissões de Controlo de Infecção Hospitalar das Instituições e respeitadas as diluições recomendadas pelos fabricantes, • O material a processar deverá ser mergulhado na solução detergente des- montado e desarticulado, • Nas manobras de lavagem, o material deve ser escovado submerso na solu- AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 99 ção detergente para evitar aerossóis e salpicos, • Após a lavagem, o material deve ser enxaguado com água corrente para eli- minar os resíduos de detergente, • A secagem do material deve ser rigorosa, podendo usar-se toalhetes descar- táveis para o exterior e ar comprimido ou álcool a 70º para o interior, • Os recipientes de lavagem de material contaminado, após cada utilização, devem ser lavados, secos e armazenados em local apropriado, • As escovas de lavagem de material contaminado devem ser mantidas limpas e secas. Devem ser lavadas diariamente com água quente e detergente, secas com ar comprimido e guardadas em local apropriado. Justificação – O cumprimento destas recomendações garante a eficácia da limpeza e minimiza o risco de contaminação do ambiente cirúrgico e dos profissio- nais envolvidos no processamento dos materiais. 5 – Para a desinfecção de material semi-crítico de anestesia após limpeza ma- nual, devem ser utilizados produtos desinfectantes aconselhados pelas Comissões de Controlo de Infecção Hospitalar das Instituições. Justificação – Estas Comissões são os órgãos competentes para seleccionar os desinfectantes adequados às necessidades das instituições e para fornecer linhas de orientação sobre a sua utilização. 6 – A imersão em álcool a 70º durante 10 minutos após a limpeza, é um méto- do eficaz para desinfecção de material semi-crítico. No entanto, qualquer que seja a solução desinfectante utilizada, deverão ser respeitadas as concentrações e os tempos de contacto recomendados. Justificação – O álcool é bactericida, virucida e fungicida. O respeito pelas concentrações recomendadas e pelos tempos de contacto é fundamental para garantir a eficácia do processo de desinfecção e impedir a de- terioração dos materiais. Tempos de contacto inferiores ao recomendado não ga- rantem a desinfecção e superiores ao recomendado podem danificar os materiais. Por exemplo a borracha, pode sofrer alterações das suas características devido à imersão excessivamente prolongada em álcool a 70º. 7 – Para imersão de materiais em soluções desinfectantes devem ser utilizados recipientes próprios. Os recipientes devem permanecer sempre fechados e em local próprio para processamento de materiais. Não deve ser colocado novo material no recipiente de desinfecção sem que tenha sido respeitado o tempo de contacto e retirado o material que previamente já se encontrava no recipiente. Justificação – Manter os recipientes fechados é uma das medidas que previne a evaporação, a alteração e a contaminação das substâncias desinfectantes. No caso de alguns desinfectantes, limita a exposição dos profissionais a agentes tóxicos. Acrescentar material à solução desinfectante, sem previamente retirar o ma- terial que já se encontrava no recipiente, obriga a que tenha que ser iniciada nova contagem do tempo de contacto para todo o material. 100 | 8 – Os recipientes de soluções desinfectantes de material de anestesia, devem ser lavados e secos diariamente e guardados em local próprio. Justificação – Recipientes mal higienizados e com humidade residual, podem diminuir a eficácia das soluções desinfectantes. Método de Tratamento de Material Material Método indicado Método alternativo Observações Máscaras de Oxigénio Lavagem e desinfecção termoquímica em máquina de lavar. Lavagem manual com água quente e detergente Secagem com toa- lhete descartável. Desinfecção por fric- ção com compressa embebida em álcool a 70º. A imersão em álcool endurece a borracha. Máscaras laríngeas Lavagem e desinfec- ção termoquímica em máquina de lavar. Lavagem manual com água quente e detergente Secagem com álcool e ar comprimido. Esterilização por calor húmido. Devem ser sempre lavadas com o cuff insuflado seja qual for o método de lavagem. Lâminas de laringoscópio Desmontagem e lavagem manual com água quente e detergente Desinfecção por fric- ção com compressa embebida em álcool a 70º se este ma- terial não permitir a imersão, ou Imersão em álcool a 70º no mínimo durante 10 minutos. Verificar recomenda- ções do fabricante para cada tipo de laringoscópio. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 101 Material Método indicado Método alternativo Observações Condutores de tubos endotraqueais. Lavagem e desinfec- ção termoquímica em máquina de lavar. Lavagem manual com água quente e detergente Secagem com toa- lhete descartável. Imersão em álcool a 70º durante 10 minutos. Pinças de Maggil Lavagem e desinfec- ção termoquímica em máquina de lavar. Lavagem manual com água quente e detergente Secagem com toa- lhete descartável. Imersão em álcool a 70º durante 10 minutos. Acordeões reutilizáveis Lavagem e desinfec- ção termoquímica em máquina de lavar. Lavagem manual com água quente e detergente Secagem rigorosa com álcool a 70º e ar comprimido. Esterilização por calor húmido. Embora se trate de material semi-crítico, recomenda-se a esterilização porque a imersão em álcool endurece a borra- cha. Ambus Desmontagem, lava- gem e desinfecção termoquímica em máquina de lavar. Desmontagem e lavagem manual com água quente e detergente Secagem com toa- lhete descartável. Desinfecção por fric- ção com compressa embebida em álcool 70º. Tubos nasofaríngeos reutilizáveis Lavagem e desinfec- ção termoquímica em máquina de lavar. Lavagem manual com água quente e detergente Secagem com álcool e ar comprimido. Esterilização por calor húmido. De preferência, utili- zar tubos nasofarín- geos descartáveis e não reprocessar. Válvulas Desmontagem. Lavagem e desinfec- ção termoquímica em máquina de lavar. Desmontagem. Lavagem manual com água quente e detergente Secagem com toa- lhete. Desinfecçãopor imersão em álcool a 70º durante 10 minutos. 102 | Material Método indicado Método alternativo Observações Traqueias reutilizáveis Lavagem e desinfec- ção termoquímica em máquina de lavar. Lavagem manual com água quente e detergente Secagem rigorosa com toalhetes des- cartáveis, álcool a 70º e ar comprimi- do. Esterilização por calor húmido. Embora se trate de material semi-crítico, a dificuldade na selecção do desin- fectante apropriado, torna preferível a es- terilização por calor húmido no processa- mento manual. Circuitos expiratórios de ventiladores. Desmontagem. Lavagem e desinfec- ção termoquímica em máquina de lavar. Desmontagem. Lavagem manual com água quente e detergente Secagem com toa- lhete descartável. Imersão em álcool a 70º durante 10 mi- nutos se o material permitir a imersão ou esterilização por calor húmido. Respeitar sempre as recomendações do fabricante para cada tipo de circuito expiratório. Reservatórios humidificadores de ventiladores. Desmontagem. Lavagem e desinfec- ção termoquímica em máquina de lavar. Desmontagem. Lavagem manual com água quente e detergente Secagem com toa- lhete descartável. Esterilização por calor húmido. Traqueias de humidifi- cação e nebulização. Lavagem e desinfec- ção termoquímica em máquina de lavar. Usar material de uso único. Evitar a lavagem manual se material de uso único, não reprocessar. Tubuladuras de siste- mas de aspiração. Não reprocessar. Utilizar material de uso único. Tubuladuras de siste- mas de administra- ção de oxigénio. Não reprocessar. Utilizar material de uso único. Conexões rectas ou em Y. Não reprocessar. Recomenda-se a utilização de material de uso único pela di- ficuldade de garantir uma limpeza eficaz. Tubos de exaustão de gases anestésicos. Lavagem e desinfec- ção termoquímica em máquina de lavar. Lavagem manual com água quente e detergente Secagem com toa- lhete descartável e ar comprimido. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 103 9 – No caso de contaminação por Bacilo de Koch, é recomendado o uso de filtros bacteriano e material descartável (traqueias, máscaras, etc.). Todo o material que não seja descartável deve sofrer uma desinfecção termoquímica mecânica. A lavagem manual não é recomendada mas, se não é possível o processamento mecânico, após a lavagem rigorosa, recomenda-se a imersão em álcool a 70º durante 10 minutos. Justificação – A via de transmissão do BK é através do ar e a porta de entrada a via respiratória. O filtro bacteriano constitui uma barreira protectora de contami- nação. Os bacilos depositados nos materiais não constituem risco para utentes ou profissionais. São removidos pela limpeza e destruídos por desinfectantes como o álcool e o hipóclorito. 10 – Após o processo de desinfecção, todos os artigos devem ser embalados individualmente e acondicionados de forma a prevenir a sua recontaminação. Justificação – O acondicionamento correcto destes materiais, previne a recon- taminação e favorece a utilização segura. RECOMENDAÇÃO III Entre os circuitos respiratórios de ventilação mecânica e o utente devem ser usa- dos filtros bacterianos sendo obrigatória a sua mudança de utente para utente. Justificação – Os filtros bacterianos interpostos entre o utente e os circuitos de ventilação mecânica impedem a contaminação do sistema. 1 – Uma vez que são usados filtros bacterianos, não há necessidade de mudar os sistemas de traqueias de utente para utente, mas é recomendado que o seu processamento seja diário. Justificação – O processamento diário de traqueias reutilizáveis de ventilação mecânica, promove um elevado nível de higiene no bloco operatório e limita o risco de infecção associada aos cuidados de saúde (IACS). 2 – Os reservatórios humidificadores de aparelhos de ventilação mecânica de- vem ser evitados. No entanto, quando utilizados, devem ser substituídos e proces- sados diariamente. Não é recomendada a prática de acrescentar água destilada estéril à já existente nos reservatórios. Justificação – O processamento diário dos reservatórios, limita a sua contami- nação e a da água destilada que contêm. 3 – Os circuitos expiratórios dos aparelhos ventiladores e os tubos de exaustão de gases anestésicos devem ser processados semanalmente. Justificação – Apesar do uso de filtros bacterianos, o processamento sema- nal dos circuitos expiratórios é uma medida importante para minimizar o risco de infecção respiratória. O processamento regular dos tubos de exaustão é uma medida que favorece a eficácia do sistema exaustor de gases anestésicos que contribui para limitar o grau de contaminação do ambiente cirúrgico. 104 | RECOMENDAÇÃO IV Todo o material que não entra em contacto directo com o utente ou que entra em contacto apenas com pele íntegra é considerado material não crítico. A sua limpeza é suficiente desde que não apresente matéria orgânica. Justificação – A pele íntegra é uma barreira eficaz contra a maioria dos mi- crorganismos e os materiais que não entram em contacto directo com o utente não constituem um potencial risco de infecção. A limpeza com água quente e detergente, remove a sujidade e a maioria dos microrganismos existentes nos materiais (cerca de 80%). 1 – Todo o material necessário à anestesia, classificado de não crítico, que esteve em contacto com o utente, (braçadeiras, cabos de monitorização, estetos- cópios, oxímetros, etc.), deve ser limpo após cada utilização. Justificação – A limpeza de todo o material que esteve em contacto com o utente é uma medida fundamental para prevenir a contaminação de utentes e profissionais. 2 – Embora considerado não crítico, sempre que este material apresente ma- téria orgânica visível, para além de limpo, deve ser desinfectado por fricção com toalhete descartável embebido em álcool a 70º. Justificação – A presença de matéria orgânica pode constituir um aumento no grau de risco que os materiais representam. 3 – A limpeza de superfícies e equipamentos que não estiveram em contacto di- recto com o utente, deve ser feita conforme protocolado para os seguintes períodos: • No início do programa cirúrgico, • Entre intervenções, • No final do programa cirúrgico, • Limpeza semanal, • Limpeza periódica. Justificação – A limpeza regular e rigorosa de equipamentos e superfícies, é uma medida fundamental para limitar a contaminação e promover um ambiente seguro para utentes e profissionais. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 105 îHIGIENIZAÇÃO AMBIENTAL DAS SALAS DE OPERAÇÕES Edição 2005 Estas Práticas Recomendadas pretendem fornecer linhas de orientação para a higienização das salas de operações. Para haver controlo de infecção é necessária uma boa higienização das salas de operações. A limpeza e desinfecção de superfícies reduzem significativamente os microrganismos presentes. Todo o utente deve ser considerado potencialmente infeccioso. Assim, não exis- tem recomendações especiais para a higienização das salas de operações, após cirurgias consideradas sujas/ infectadas. Os cuidados a ter e os procedimentos a seguir devem ser os mesmos para qualquer tipo de cirurgia. A prevenção da infecção durante procedimentos cirúrgicos depende da inter- relação de vários factores, entre eles, a correcta e cuidada higienização do am- biente cirúrgico. As práticas aqui recomendadas têm o intuito de reter o que se considera ne- cessário para atingir um óptimo nível de cuidados nesta área. RECOMENDAÇÃO I Deve ser estabelecido uma instrução de trabalho para a higienização das salas de operações. Justificação – A existência de uma instrução de trabalho, favorece o cumpri- mento correcto das actividades de higienização. 1 - A instrução de trabalho de higienização deve considerar os seguintes períodos: • Antes do início do programa cirúrgico, • Durante intervenções, • Entre intervenções, • No final do programa cirúrgico, • Limpeza semanal, • Limpezas periódicas. Justificação– Os procedimentos de higienização visam a diminuição da conta- minação do ambiente cirúrgico e estão directamente relacionados com o nível de contaminação a que o bloco operatório está sujeito durante o seu funcionamento. O grau de contaminação do bloco operatório é diferente durante as várias fases do seu funcionamento pelo que, as actividades de higienização devem ser adequa- das às diferentes fases. 2 - A higienização das salas de operações deve ser feita por profissionais devi- damente informados e treinados. Justificação – A formação dos profissionais que efectuam a limpeza é funda- mental para garantir a execução correcta dos procedimentos. 106 | RECOMENDAÇÃO II Antes de iniciar o programa cirúrgico é necessário proceder à higienização da sala de operações, segundo o determinado para este período. Justificação – A higienização da sala de operações antes do início do programa cirúrgico tem o objectivo de remover os resíduos acumulados durante o período de repouso. 1 - Quando existem capas a proteger equipamentos, estas devem ser retiradas com gestos lentos, dobrando progressivamente e para que a face que esteve ex- posta fique contida. Justificação – A manobra de conter a face externa das capas minimiza a dis- persão de partículas no ambiente cirúrgico. 2 - Deverão ser limpas todas as superfícies horizontais; (marquesas, mesas, uni- dade de iluminação cirúrgica, teclados de computador…) com toalhete humedecido. Justificação – A remoção do pó acumulado nas superfícies, horizontais com toalhete humedecido, reduz a dispersão de partículas em suspensão durante o procedimento cirúrgico pelo que é uma importante medida para a prevenção da contaminação do ambiente. 3 – O toalhete de limpeza de superfícies horizontais deve ser humedecido em álcool a 70º ou solução desinfectante equivalente. Justificação – O álcool a 70º é um bom desinfectante de superfícies limpas, tendo ainda a vantagem de secar rapidamente, impedindo a humidade e conse- quente proliferação de microrganismos. 4 - A remoção do pó acumulado deve ser efectuada partindo das superfícies horizontais mais elevadas para as mais baixas. Justificação – Esta medida impede a deposição de partículas em superfícies previamente limpas. RECOMENDAÇÃO III O ambiente da sala de operações deve ser mantido limpo, tanto quanto possível, durante as intervenções cirúrgicas. Justificação – Manter o ambiente limpo evita a contaminação excessiva e limita a contaminação inevitável. 1 - Todo o derramamento de qualquer matéria orgânica deve ser removido ime- diatamente e a área descontaminada com produto apropriado para o efeito. Justificação – A remoção de matéria orgânica derramada e a descontami- AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 107 nação precoce da área limita a contaminação inevitável durante procedimentos cirúrgicos. 2 - A remoção de líquidos orgânicos derramados, de grande volume, deve ser feita primeiramente com substancia absorvente (ex: toalhete seco) e, posterior- mente, a área deverá ser descontaminada com toalhete humedecido em solução apropriada ao local, (ex. hipóclorito de sódio a 1% - 10.000 ppm). Se o derramamento for de pequeno volume, a sua remoção poderá ser feita, numa única manobra, com toalhete previamente humedecido numa solução de descontaminação, como a referida. Justificação – Verter soluções desinfectantes sobre líquidos orgânicos der- ramados aumenta a área contaminada, favorece a inactivação do desinfectante e, em alguns casos, pode produzir misturas que libertam gases tóxicos. É funda- mental que os líquidos orgânicos derramados (grande volume), sejam previamente removidos com toalhetes secos. 3 - Devem existir recipientes apropriados para recolha dos diversos materiais contaminados e dos lixos produzidos no decurso da intervenção. Justificação – Manter materiais e resíduos contaminados em recipientes pró- prios limita a contaminação do ambiente cirúrgico. 4 - Devem ser implementadas medidas de triagem de lixo não contaminado (equiparado ao lixo urbano), como medida de redução do volume de resíduos hospi- talares e simultaneamente redução do impacto ambiental da actividade. Justificação: A grande maioria dos resíduos produzidos no ambiente cirúrgico são embalagens de dispositivos médicos limpos ou estéreis, compostas por plás- tico e papel. Estes resíduos, se não contaminados, são facilmente manipuláveis e valorizáveis, com reduzidos riscos para o ambiente e para os profissionais que os manipulam. 5 - Os recipientes de resíduos contaminados, devem ser facilmente identifi- cáveis por códigos de cores conforme protocolado. Devem ser impermeáveis e cheios apenas até 2/3 da sua capacidade. Justificação – Os códigos de cores facilitam a triagem e identificação dos lixos hospitalares. Não ultrapassar a capacidade de 2/3 dos recipientes é uma con- dição essencial para permitir que estes sejam fechados com segurança e evitar derramamentos de resíduos contaminados. 6 - A evacuação, da sala de operações, de lixos, roupas ou outro material con- taminado deve ser feita com os respectivos recipientes devidamente fechados. Justificação – Proceder à evacuação de sacos de lixo, recipientes de roupa ou contentores de material contaminado, previamente fechados ainda dentro da sala de operações, reduz significativamente o grau de contaminação do ambiente cirúrgico e o risco de contaminação dos profissionais envolvidos. 108 | 7 - Durante os procedimentos cirúrgicos, as portas e janelas da sala de opera- ções devem ser mantidas fechadas e a circulação de pessoas deve ser limitada ao estritamente necessário. Justificação – Manter portas e janelas fechadas evita alterações aos fluxos de ar e favorece a eficácia da ventilação. Limitar a circulação de pessoas ao estrita- mente necessário diminui a libertação de partículas portadoras de microrganismos. Estas medidas são fundamentais para reduzir o grau de contaminação do am- biente durante procedimentos cirúrgicos. RECOMENDAÇÃO IV Após o final de cada intervenção cirúrgica é necessário proceder a uma higieni- zação alargada das salas de operações. Justificação – A higienização das salas e de tudo o que esteve em contacto com o utente é uma importante medida para conter e eliminar a contaminação. 1 - A higienização entre intervenções deve ser iniciada após ter sido evacuado das salas todo o material contaminado (lixos, roupas, instrumentos cirúrgicos etc.). Justificação – A remoção de focos de contaminação, favorece a eficácia da higienização. 2 - Deverão ser limpas todas as superfícies horizontais (mesas de instrumen- tos, bancadas, marquesas, unidade de iluminação cirúrgica, teclados,...) e outras superfícies não horizontais que tenham sido expostas à matéria orgânica (ex. pa- redes salpicadas de sangue, aparelhos de anestesia etc.) ou que estejam visivel- mente sujas. Justificação – As superfícies horizontais, pela sua configuração, são um fácil depósito de partículas e microrganismos em suspensão. Para controlar a conta- minação é fundamental a sua limpeza, mesmo quando não apresentam matéria orgânica visível. Todas as outras superfícies que tenham sido expostas à matéria orgânica têm obrigatoriamente que ser limpas pois constituem um foco de contaminação, au- mentando o risco de infecção. 3 - Todos os equipamentos que estiveram em contacto com o utente (ex. cabos de electrocardiógrafos, medidores de pressão arterial, oximetria, cabo de eléc- trodo neutro, etc.) também têm obrigatoriamente que ser limpos de utente para utente e desinfectados se estiveram em contacto com matéria orgânica. Justificação – Este tipo de equipamentos, que apenas entra em contacto com a pele íntegra do utente, é considerada material não crítico, pelo que, a sua lim- peza é suficiente para prevenir a contaminação. Quando, por qualquer motivo, entraram em contacto com matéria orgânica, passam a constituir um maior risco de contaminação e infecção pelo que após a limpeza é também necessária a suadesinfecção. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 109 4 - Na limpeza das superfícies ou equipamentos devem ser observadas as 3 fases do ciclo de higienização, se compatíveis (para os equipamentos verificar as recomendações do fabricante): 1º - Fricção das superfícies com água quente e detergente, 2º - Enxaguamento, 3º - Secagem rigorosa. Esta técnica de três passos pode ser substituída pela utilização de soluções detergentes/desinfectantes, reduzindo – se à 1ª e 3ª fases. Justificação: A primeira fase é fundamental para a eficácia da limpeza e para a redução do número de microrganismos existentes nas superfícies. A terceira fase – a secagem - é igualmente importante para impedir a prolifera- ção de microrganismos. 5 - Os teclados dos equipamentos devem ter características intrínsecas que o protejam da contaminação pela sua utilização; a sua protecção pode ser efectuada pela utilização de capas protectoras (reutilizáveis ou descartáveis). Os computado- res portáteis não devem ser utilizados no ambiente das salas de operações pela impossibilidade da sua descontaminação. Justificação: Os teclados dos equipamentos, sempre que possível, devem ser à prova de água, de forma a poderem ser limpos. Os teclados tipo MD (medical device) são os recomendados; a utilização de ecrãs tácteis é uma solução também aceitável. 6 - Para a higienização do chão devem ser utilizadas práticas que evitem a conspurcação da solução de limpeza. A utilização de equipamento reutilizável (ex: panos de microfibras, mopas …) uma única vez em cada limpeza é a prática mais eficiente. Este equipamento nunca poderá entrar em contacto com a solução de limpeza, após a sua utilização no chão. Deve ser lavado após cada utilização. Justificação: A limpeza do chão deve iniciar-se com a remoção de todos os contaminantes excessivos (derrames de sangue, outros líquidos orgânicos ou quaisquer outros líquidos) utilizando produtos absorventes (ex: papel). Só após esta etapa se deve proceder à limpeza desta superfície com uma solução detergente. O equipamento de limpeza deve ser utilizado uma única vez e caso seja reprocessável deve ser submetido a esse processo depois de cada utilização. A solução detergen- te utilizada nunca deve ser conspurcada por equipamento anteriormente utilizado no chão. A higienização deve condicionar uma reduzida presença de líquidos, que após o processo, devem secar rapidamente. 7 - Os profissionais que procedem à higienização das salas de operações devem usar barreiras protectoras apropriadas: • Luvas domésticas (tipo ménage), • Avental impermeável. Justificação – A utilização de barreiras protectoras é uma importante medida de prevenção da contaminação dos profissionais envolvidos na higienização das salas de operações. 110 | RECOMENDAÇÃO V No final do programa operatório deve-se proceder a uma higienização conforme indicada na RECOMENDAÇÃO IV, alargada a todas as superfícies, equipamentos, unidade de iluminação cirúrgica, carros suportes de soros, rodados, manípulos de portas, recipientes de lixo e roupas etc. que tenham, ou não, estado em con- tacto com o utente ou expostos a matéria orgânica. Justificação – A higienização diária de todas as superfícies e equipamentos existentes nas salas de operações, é uma medida fundamental para evitar a acu- mulação de resíduos, pó, cotão etc., diminuir a contaminação e promover um ambiente cirúrgico seguro. RECOMENDAÇÃO VI A limpeza semanal das salas de operações deve respeitar o determinado para este período. Justificação – O procedimento de higienização semanal complementa a limpeza diária, promovendo a manutenção da boa higienização das salas de operações. 1 - A limpeza semanal das salas de operações será idêntica à recomendada para o fim do programa operatório, acrescida da limpeza das paredes até altura do braço. Justificação – Esta medida pretende minimizar a acumulação de pó e conse- quentemente de microrganismos. 2 - As grelhas de entrada e saída de ar condicionado e os sistemas de exaustão de gases anestésicos, incluindo os seus filtros, devem ser limpos semanalmente com pano húmido. Justificação – Estas áreas são por natureza áreas que acumulam uma grande quantidade de pó, pelo que a sua limpeza regular minimiza a dispersão de partículas, o grau de contaminação das salas de operações e favorece a eficácia da filtragem. 3 - Após a lavagem do chão por fricção com água quente e detergente deve, semanalmente, ser feita uma lavagem apenas com água. Justificação – A passagem do chão apenas com água, pretende remover a pe- lícula de detergente que se vai acumulando ao longo das diversas lavagens durante a semana e que pode alterar o seu poder electrostático. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 111 RECOMENDAÇÃO VII O procedimento de higienização periódica das salas de operações deve abranger todas as áreas anteriormente referidas e ainda a limpeza de paredes até ao tec- to e dos tectos. É recomendado que esta limpeza seja mensal. Justificação – A limpeza regular de paredes e tectos promove a qualidade da higienização das salas e proporciona um ambiente cirúrgico seguro. RECOMENDAÇÃO VIII Deve ser estabelecido um procedimento de higienização para as áreas semi- restritas do bloco operatório. Justificação – A limpeza regular das áreas adjacentes às salas de operações é uma medida fundamental para reduzir o grau de contaminação do bloco operatório e o risco de contaminação durante procedimentos cirúrgicos. RECOMENDAÇÕES DE HIGIENIZAÇÃO PARA ÁREAS SEMI-RESTRITAS DO BLOCO OPERATÓRIO ÁREAS FREQUÊNCIA Limpeza de áreas de grande contacto (puxa- dores de portas e áreas anexas, botoneiras e teclados de portas automáticas e campai- nhas, etc.) Duas vezes ao dia e sempre que necessário Limpeza do chão. Diária e sempre que necessário. Limpeza das paredes até à altura do braço Semanal e sempre que necessário. Limpeza de portas. Semanal e sempre que necessário. Limpeza de paredes até ao tecto e tectos. Mensal. Limpeza de estores, vidros de janelas e can- deeiros de tecto. Mensal. Limpeza de mobiliário, candeeiros, manípu- los de portas, telefones etc Diária. RECOMENDAÇÃO IX O material utilizado na higienização do bloco operatório deve sofrer um processo de descontaminação e ser armazenado em local próprio. Justificação – A descontaminação destes materiais é uma medida importante para a eficácia das actividades de limpeza. 1 - Preferencialmente, é recomendado para a limpeza de superfícies e chão, o uso de toalhetes e panos (de microfibras) reutilizáveis. 112 | Justificação – A utilização de toalhetes de limpeza e panos descartáveis limita o risco de contaminação, na falta de suporte logístico ao reprocessamento e á reutilização, actividade que tem menor impacto ambiental. 2 - Deve-se, a cada utilização dos equipamentos de limpeza, proceder à lavagem mecânica dos panos, mopas e esfregonas num programa de alta temperatura (> 65º durante 10 minutos), com secagem. Justificação – A manutenção das boas condições de limpeza de panos e esfre- gonas é essencial para diminuir o seu grau de contaminação. A secagem é funda- mental para impedir a proliferação de microrganismos. 3 - Os panos de limpeza reutilizáveis, devem obedecer a um código de cores, conforme as áreas a que se destinam. Justificação – A utilização de panos específicos para cada área a limpar, dimi- nui o risco de contaminação cruzada e favorece a eficácia da limpeza. 4 - Todos os recipientes utilizados na limpeza (baldes, bacias, etc.) devem tam- bém ser rigorosamente limpos com água quente e detergente, secos e armazena- dos em local próprio, após a sua utilização. Justificação – A higienização dos recipientes após cada utilização, é fundamen- tal para limitar a contaminação e favorecer as boas condições do material para a utilização seguinte. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 113 îFACTORESAMBIENTAIS NO BLOCO OPERATÓRIO Edição 2005 Os blocos operatórios são áreas complexas cuja construção e funcionamento obriga ao cumprimento de um inúmero leque de normas estabelecidas para salva- guardar, em variados aspectos, a segurança dos utentes e dos profissionais Os riscos a que ambos estão expostos – biológicos, físicos ou químicos – são, em larga medida, minimizados através de procedimentos correctos na prática pro- fissional diária e da existência de condições obrigatórias de segurança. O assunto – segurança no bloco operatório – é vastíssimo e não pretendemos esgotá-lo apenas num capítulo de “Práticas Recomendadas”. No entanto, há um mínimo de conhecimentos que todos os enfermeiros perioperatórios devem ter nesta área. Embora não seja da competência dos enfermeiros verificar e avaliar as condições ambientais do bloco operatório, é com certeza da sua responsabilidade intervir para que as normas sejam cumpridas e o ambiente cirúrgico seja tão se- guro quanto possível. As Práticas Recomendadas pretendem reter o que se considera indispensável que seja do conhecimento de todos os enfermeiros perioperatórios, relativamente a segurança e a factores ambientais recomendados para os blocos operatórios. Em publicações futuras abordaremos de novo este assunto, focando outros aspectos. RECOMENDAÇÃO I A existência de um sistema de ar condicionado apropriado (unidade de tratamen- to de ar) é obrigatória nas áreas restritas do bloco operatório. Justificação - As unidades de tratamento e condicionamento de ar, fazem si- multaneamente o controle de pureza, humidade e temperatura do fluxo de ar num ambiente delimitado, prevenindo a aero-bio-contaminação. Promovem a circulação de ar garantindo a existência de pressão positiva em cada uma das salas de ope- rações e previnem a acumulação de gases anestésicos. 1 – O sistema de ventilação das salas de operações deve estar ligado 24 horas / dia. Quando, por qualquer razão, houver necessidade de o desligar (avaria, ma- nutenção, etc.), não devem decorrer procedimentos cirúrgicos e, após o reinício do seu funcionamento, deve ser respeitado um período de repouso de 1 hora, antes do início de novos procedimentos cirúrgicos. Justificação – O sistema de ventilação das salas de operações é uma importan- te medida de prevenção de infecção intra-operatória. Diminui drasticamente o risco de infecção por depósito de microrganismos em suspensão no ambiente. Respeitar o período de repouso é uma medida fundamental para garantir a eficácia do siste- ma e o máximo possível de pureza da atmosfera das salas de operações, de forma a favorecer um ambiente seguro para procedimentos cirúrgicos. 2 - O número de renovações de ar recomendado para as áreas restritas do bloco operatório é na ordem de 20 renovações por hora. 114 | Justificação – As bactérias emitidas pelas pessoas que permanecem nas salas de operações são uma das causas de infecção intra-operatória e serão tanto mais rapidamente removidas da atmosfera quanto maior for o número de renovações de ar ambiente. A legislação portuguesa, no D.R. – I série B, Nº 253 de 2/11/1994, anexo IV do Decreto Regulamentar nº 63/94 preconiza para as salas de operações, 15 a 20 renovações de ar por hora. 3 – Os filtros das unidades de tratamento de ar devem ser de fácil acesso e substituídos regularmente, de forma a que a sua eficácia seja mantida numa taxa de 99.99%. Deverão ser respeitados os seus prazos de validade e a sua utilização não deve ultrapassar o período de um ano. Justificação – Se não forem substituídos regularmente, os filtros das unidades de tratamento de ar vão diminuindo a sua eficácia podendo mesmo vir a tornar-se numa fonte de contaminação bacteriana. 4 - Deverá existir um protocolo estabelecido para a verificação e manutenção periódicas das unidades de tratamento de ar dos blocos operatórios. Justificação – A existência de um protocolo, favorece o bom funcionamento e a correcta manutenção das unidades de tratamento de ar. 5 – As grelhas de exaustão de ar das salas de operações devem ser limpas semanalmente e sempre que se encontrem visivelmente sujas. Justificação – As grelhas de exaustão acumulam partículas de cotão em quan- tidades significativas. A sua limpeza regular é essencial para minimizar a dispersão de partículas, o grau de contaminação das salas de operações e favorecer a eficá- cia da filtragem. 6 - A existência de pressão positiva (sobrepressão) nas salas de operações é obrigatória e deve ser mantida mesmo nas cirurgias em utentes infectados ou colonizados com microrganismos resistentes. Justificação – A pressão positiva impede a transferência de ar das áreas ad- jacentes às salas de operações pelo que, é fundamental para minimizar o grau de contaminação das salas e diminuir o risco de infecção. 7 - O controlo e monitorização da temperatura e humidade relativa das salas de operações são obrigatórios. Preconiza-se uma humidade relativa de 60% e uma temperatura compreendida entre 20ºC a 24ºC (Decreto de Lei 63/94 do Diário da República nº253/94). Justificação – A humidade e temperatura controladas e mantidas dentro dos valores preconizados para os blocos operatórios, favorece a higienização do ar, baixando os níveis de aerobiocontaminação e, consequentemente, diminuindo o risco de infecção. Por outro lado, para além de ser uma medida de prevenção da desidratação dos utentes e dos tecidos expostos, contribui para o conforto dos profissionais favorecendo a sua produtividade. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 115 RECOMENDAÇÃO II A existência de um sistema de exaustão de gases anestésicos é obrigatória em todas as salas de operações e salas de indução anestésica. Justificação – Os sistemas de exaustão de gases anestésicos evitam a acu- mulação destes no ambiente e beneficiam a saúde dos profissionais diminuindo largamente os níveis de toxicidade a que estão sujeitos. 1 – O sistema de exaustão de gases anestésicos deve ser sujeito a monitoriza- ção e controle periódico mensal. Justificação – Esta medida não só testa a eficácia do sistema, como protege os profissionais dos riscos a que estão expostos. 2 – O sistema de exaustão de gases anestésicos, deve ser ligado antes do início do programa operatório e só deverá ser desligado após terem terminado todas as técnicas anestésicas que utilizem agentes anestésicos tóxicos e voláteis. Justificação – Esta medida reduz o grau de poluição de gases anestésicos no am- biente cirúrgico, diminuindo o risco de toxicidade a que os profissionais estão sujeitos. 3 – Os filtros dos sistemas de exaustão de gases anestésicos devem ser des- montados e limpos semanalmente. Justificação – A verificação e limpeza regular dos filtros favorece a eficácia do sistema e diminui o grau de contaminação das salas de operações. RECOMENDAÇÃO III No bloco operatório, é obrigatória a existência de sistemas de separação galvâ- nica e respectivos monitores de alarmes, que garantam a protecção dos utentes e dos profissionais. Justificação – Os dispositivos eléctricos de segurança permitem a detecção atempada de avarias e situações de risco. 1 – Cada sala de operações deve ter um quadro eléctrico independente com sistema de segurança que assinale, na sala correspondente, qualquer anomalia. Justificação – A existência de um quadro eléctrico independente para cada sala, impede a sobrecarga de um único quadro e permite identificar com maior brevidade a fonte e o tipo de qualquer avaria, facilitando uma conduta adequada, imediata e eficaz em situações de risco. 2 – O Bloco Operatório deve estar apetrechado com uma “U.P.S.” (Unintarrupta- ble Power Supply), compatível com as suas dimensões e com capacidade de alimen- tação a todos os equipamentos inerentes às salas de operações. As unidades de ali- mentação contínua devem ser regularmente sujeitas a controle e testes de eficácia. 116 | Justificação – A existência de U.P.S. no bloco operatórioé uma condição es- sencial para salvaguardar situações limite de risco, causadas por falência em todos os outros sistemas de alimentação eléctrica. 3 – Todas as tomadas existentes devem ter ligação à terra e respeitar a sua equipotencialidade. Justificação – A existência de tomadas com ligação à terra reduz significativa- mente possíveis artefactos nos equipamentos de monitorização de sinais vitais. RECOMENDAÇÃO IV O piso das salas de operações deve ser de material apropriado com caracterís- ticas anti-estáticas. Justificação – A existência de piso anti-estático nas salas de operações, evita possíveis descargas electrostáticas pelo que é fundamental para a segurança do utente e dos profissionais. 1 – Deve ser feita uma avaliação periódica anual das características anti-estáti- cas do piso das salas de operações. Justificação – Existem inúmeros factores que podem influenciar as caracterís- ticas anti-estáticas do piso, como por exemplo: • Acumulação de resíduos de detergente, • Limpeza inadequada, • Deterioração do piso. A avaliação do estado do piso permite-nos um controle de eficácia das suas características anti-estáticas 2 – Semanalmente, após a lavagem do chão das salas de operações com água quente e detergente, deve ser feita uma passagem apenas com água limpa. Justificação – Esta manobra pretende remover a película de resíduos de deter- gente que se vai acumulando ao longo das diversas lavagens e que pode alterar o poder electrostático do pavimento. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 117 îCUIDADOS A UTENTES COM DOENÇA DE CREUTZFELDT JAKOB Edição 2005 A doença de Creutzfeldt Jakob, uma forma de Encefalopatia Espongiforme, é uma doença neurológica degenerativa, de início insidioso, progressão rápida e fa- tal, transmitida por um agente infeccioso proteináceo – o prião. Caracteriza-se por perturbações sensoriais e cognitivas, demência, ataxia, disfun- ção do cerebelo, mioclonia, rigidez, alterações da visão e outros sinais neurológicos. O diagnóstico é baseado na sintomatologia, história de risco e EEG característico. A autópsia revela alterações cerebrais espongiformes de distribuição irregular pelo que, estas alterações podem não ser encontradas em biópsias. 85% a 90% dos casos descritos de Encefalopatia Espongiforme ocorre de for- ma esporádica, 5% a 10% são de causa familiar e < 5% de causas iatrogénicas – através do contacto directo com tecidos de risco elevado ou instrumentos con- taminados. Relativamente à identificação de utentes de risco, são estabelecidos dois tipos de utentes: • Grupo I – Utentes com diagnóstico de Encefalopatia Espongiforme e utentes com suspeita, sintomatologia sugestiva mas sem diagnóstico confirmado. • Grupo II – Utentes assintomáticos com risco potencial de Encefalopatia Espon- giforme (enxerto de duramater, hormona de crescimento, história familiar, etc.). O risco de contaminação em função do tecido manipulado divide-se em 3 cate- gorias: • Nível elevado de infecciosidade – Tecido cerebral, medula espinhal, duramater, pituitária e tecido ocular, • Nível médio de infecciosidade – LCR (liquido cefalo raquidiano), rim, fígado, gânglios linfáticos, baço e placenta, • Nível baixo de infecciosidade – Urina, fezes, sangue, saliva, expectoração, lá- grima, coração, supra-renal, tiroideia, medula óssea, músculo e tecido adiposo. As Encefalopatias Espongiformes são invariavelmente fatais, sem tratamento ou vacina. O agente infeccioso – prião – exibe uma notável resistência à maioria dos mé- todos de descontaminação conhecidos pelo que, os procedimentos em bloco ope- ratório a utentes com Encefalopatia Espongiforme devem ser ponderados, sempre que possível evitados e, quando absolutamente necessários, devem ser cuidado- samente planeados, respeitando as recomendações específicas para estas inter- venções. Não há transmissão pelo ambiente, o risco de contaminação reside no contacto com tecidos de risco de utentes com diagnóstico ou suspeita e não no contacto com utentes de risco. As práticas aqui recomendadas pretender fornecer linhas de orientação sobre esta matéria para salvaguardar a segurança de utentes e profissionais. 118 | RECOMENDAÇÃO I Deve ser estabelecido um protocolo para procedimentos cirúrgicos a utentes com Encefalopatia Espongiforme, confirmada ou suspeita. Justificação – A existência de um protocolo favorece a segurança de utentes e profissionais. 1 – O protocolo de procedimentos deve resultar de uma acção concertada de colaboração entre o bloco operatório, os serviços de internamento, o serviço de processamento de dispositivos médicos, e a Comissão de Controlo de Infecção Hospitalar. Deve ser igualmente aplicado quer se trate de doença confirmada ou suspeita e deve observar os seguintes aspectos: • Critérios de admissão ao bloco operatório, • Antecedência necessária de marcação para programação da cirurgia, • Procedimentos específicos para a preparação e manutenção da sala de ope- rações, • Procedimentos relativos à selecção, manipulação e descontaminação de ins- trumentos cirúrgicos, • Procedimentos pré, intra e pós-operatórios relativos ao desempenho e uso de barreiras protectoras de todos os profissionais directa ou indirectamente en- volvidos, • Procedimentos relativos à manipulação de resíduos e materiais de risco, • Registos. Justificação – Dadas as características do agente infeccioso e a sua resistência aos meios de descontaminação, as intervenções cirúrgicas em utentes com Ence- falopatia Espongiforme representam um elevado risco para utentes e profissionais e requerem procedimentos específicos. É fundamental que todos os profissionais, directos ou indirectamente implicados no acto cirúrgico, estejam familiarizados com as normas e critérios de segurança. RECOMENDAÇÃO II As intervenções cirúrgicas a utentes com Encefalopatia Espongiforme devem ser programadas com a antecedência necessária e suficiente que permita, a todos os serviços envolvidos, reunir condições essenciais para minimizar o risco contaminação e infecção cruzada. Devem ser realizadas no final do programa cirúrgico e na preparação da sala de operações devem ser observadas medidas de protecção suplementares. Justificação – Dada a resistência do agente infeccioso, todas as medidas su- plementares utilizadas visam minimizar o risco de contaminação do ambiente cirúr- gico e salvaguardar a segurança de utentes e profissionais. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 119 Medidas específicas para a programação da cirurgia: • Avaliar critérios de indicação cirúrgica de forma responsável, tendo em aten- ção o grau de risco que a intervenção representa, as condições e recursos existentes e os benefícios para o utente. Esta avaliação deve ser feita em con- junto, envolvendo todos os serviços implicados (unidade de internamento, bloco operatório, central de esterilização, etc.), sob a orientação da Comissão de Controlo de Infecção Hospitalar, • Providenciar todos os recursos materiais essenciais ao procedimento cirúrgi- co bem como, à prevenção de contaminação e infecção cruzada (materiais de utilização única), • Providenciar todas as barreiras protectoras necessárias para uso dos profis- sionais envolvidos, • Providenciar todos os recursos necessários ao processamento de materiais reutilizáveis, • Assegurar formação específica a todos os profissionais, directa ou indirecta- mente implicados no procedimento cirúrgico, • Programar a intervenção para o final do programa cirúrgico. Medidas específicas para a preparação da sala de operações: • Retirar todo o mobiliário e equipamentos não necessários à intervenção para prevenir a contaminação desnecessária, • Cobrir todo o mobiliário e equipamentos reutilizáveis que não podem ser reti- rados com capas de protecção impermeáveis, de utilização única, de forma a prevenir a contaminação acidental através do contacto com matéria orgânica de risco por salpicos ou outros, • Manter dentro da sala apenas o material deconsumo que vai ser utilizado no procedimento cirúrgico, • Estabelecer o número mínimo de profissionais necessários para permanecer na sala durante o procedimento cirúrgico. RECOMENDAÇÃO III Durante o procedimento cirúrgico, particularmente se há manipulação de tecidos de elevado risco, toda a equipa multidisciplinar deve funcionar de forma discipli- nada e coesa, utilizando uma técnica asséptica cirúrgica rigorosa e respeitando todas as medidas de controlo de infecção preconizadas. Justificação – A disciplina e a perfeita sincronia da equipa é essencial para minimizar o risco a que todos os profissionais estão expostos. O rigor da técnica asséptica e as medidas de controlo de infecção salvaguardam a segurança do utente e dos profissionais. Medidas específicas durante procedimentos cirúrgicos: • Todos os profissionais que permanecem na sala de operações durante a intervenção cirúrgica devem usar roupa de circulação de uso único e outras barreiras protectoras como avental impermeável, luvas e protecções oculares, 120 | sempre que os procedimentos o justifiquem. As luvas devem ser descartadas para recipiente de resíduos contaminados para incineração, imediatamente após a realização do procedimento para que foram calçadas, • Todos os profissionais que pertencem à equipa estéril devem usar máscara com viseira ou outras protecções oculares, avental impermeável sobre a roupa de circulação, bata estéril impermeável de utilização única e luvas reforçadas, • Todos os campos cirúrgicos estéreis devem ser impermeáveis, de utilização única e descartados para incineração no final do procedimento, • Preferencialmente, todos os instrumentos cirúrgicos utilizados devem ser de utilização única e descartados para incineração no final da cirurgia, particu- larmente quando são manipulados tecidos de elevado risco em utentes com Encefalopatia Espongiforme diagnosticada ou suspeita, • Na impossibilidade de utilização de instrumentos cirúrgicos de uso único, quando são manipulados tecidos de elevado risco em utentes com Encefalopatia Espongiforme diagnosticada os instrumentos, mesmo que reutilizáveis, devem ser incinerados. Quando são manipulados tecidos de elevado risco em uten- tes apenas com suspeita de Encefalopatia, os instrumentos cirúrgicos devem sofrer o processo de descontaminação preconizado e devem ser retirados do circuito de utilização (quarentena), até o diagnóstico ser ou não confirmado. Estes instrumentos apenas voltarão a ser usados em utentes com o diagnóstico confirmado mesmo que não tenha sido confirmado o diagnóstico na primeira utilização, • Durante a intervenção, apenas deve ser mantido na sala o material de consu- mo necessário ao procedimento, • Todos os produtos para análise laboratorial devem ser colhidos e acondiciona- dos respeitando as precauções básicas e as medidas de controlo de infecção para manipulação de materiais de risco, • Até ao final do procedimento cirúrgico, as portas da sala de operações devem ser mantidas fechadas e deve ser impedido o tráfego desnecessário de profissionais, • Todos os contentores de resíduos contaminados para incineração devem ser retirados da sala hermeticamente fechados, • No final da cirurgia, a descontaminação de materiais e equipamentos reutilizá- veis deve ser imediata e respeitar as medidas preconizadas. RECOMENDAÇÃO IV A descontaminação de materiais e equipamentos utilizados no procedimento ci- rúrgico e no processamento de materiais reutilizáveis, deve obedecer a medidas suplementares de segurança. Justificação – Conforme já foi referenciado, o prião é extraordinariamente re- sistente à maioria dos desinfectantes convencionais. No que diz respeito a desinfectantes químicos, são ineficazes: • Detergentes, álcool, formalina, gluteraldeído, peróxido de hidrogénio, iodófo- ros, ácido peracético e fenólicos. Relativamente a agentes gasosos, são ineficazes: • O óxido de etileno, o formaldeído e o plasma. Por último, como métodos físicos ineficazes temos: • A fervura, o calor seco, a radiação e o vapor convencional. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 121 A dificuldade em inactivar o prião e o consequente risco de infecção cruzada impõem a implementação de medidas não convencionais de descontaminação. Medidas específicas para a descontaminação de instrumentos cirúrgicos e outros materiais reutilizáveis: • Todos os instrumentos e materiais que não sejam de fácil limpeza ou que se- jam termo-sensíveis, devem ser incinerados, • Os instrumentos a processar devem ser retirados da sala de operações, em contentores hermeticamente fechados, • Os procedimentos de limpeza devem ocorrer imediatamente após a utilização dos instrumentos, não permitindo a secagem e fixação de matéria orgânica. Recomenda-se uma pré-lavagem em máquina de ultrassons, isoladamente, para libertar a matéria orgânica, seguida de uma lavagem em máquina de lavar, isoladamente, usando detergente alcalino que tenha actividade. No final, fazer um ciclo vazio, tanto na máquina de ultrassons, como na máquina de la- var. Após a limpeza, os instrumentos devem ser descontaminados por calor húmido a 134º durante 18 minutos ou 121º durante 60 minutos. A preparação dos instrumentos para uma futura utilização (apenas em utentes com Encefalopatia Espongiforme diagnosticada), só deve ocorrer após o proce- dimento de descontaminação referido e, será efectuada pelo método conven- cional, • Em circunstância alguma se deve recorrer à esterilização “flash”, • Os contentores de material contaminado devem sofrer um processo de des- contaminação idêntico ao dos instrumentos pelo que, para estes procedimen- tos cirúrgicos, é recomendada a aquisição de caixas herméticas, de pequenas dimensões, que possam ser processadas mecanicamente e posteriormente esterilizadas a 134º durante 18 minutos. Em alternativa, utilizar caixas hermé- ticas de utilização única e incinerar após a utilização. Medidas específicas para descontaminação de equipamentos e superfícies: • A descontaminação de equipamentos e superfícies deve ocorrer imediatamen- te após o procedimento cirúrgico, • Os profissionais envolvidos devem usar todas as barreiras protectoras reco- mendadas para a higienização das salas de operações, de utilização única e, no final do procedimento, descartá-las para incineração, • Todos os materiais utilizados na limpeza da sala de operações (panos, toa- lhetes, etc.), devem igualmente ser de utilização única e, no final, descartados para incineração, • Todas as superfícies contaminadas com tecido de elevado risco, depois de lim- pas devem ser desinfectadas com hipóclorito de sódio a 1:10 (10000ppm), • Todos os equipamentos contaminados com tecido de elevado risco, depois de limpos devem ser desinfectados com hipóclorito de sódio a 1:10 (10000 ppm) ou hidróxido de sódio 1N, dependendo da compatibilidade das soluções com o equipamento a desinfectar. 122 | îUTILIZAÇÃO DE PROTECÇÕES RESPIRATÓRIAS Edição 2010 Esta Prática Recomendada pretende fornecer linhas de orientação sobre a es- colha e utilização de protecções respiratórias. A utilização de protecções respiratórias é fundamental e tem como objectivo promover condições de segurança, de forma a prevenir e controlar a Infecção As- sociada aos Cuidados de Saúde (IACS) dos utentes e dos profissionais. O uso de protecções respiratórias é uma medida importante de prevenção e controlo de infecção associada aos cuidados de saúde. Têm a função de filtrar e controlar as gotículas e microrganismos expelidos pela boca e nariz, durante a res- piração, conversação, tosse ou espirros e está indicada em procedimentos com a capacidade potencial de produção de salpicos, aerossóis, secreções ou excreções, sangue e outros fluidos corporais. Nesta área, como em quase todas relacionadas com o bloco operatório, a boa prática implica o envolvimento de toda a equipa pluridisciplinar. Não é possível uma prática segura sem disciplina, colaboração e sem o respeito pela interdependência dodesempenho dos diversos profissionais. As práticas aqui recomendadas têm o intuito de reter o que se considera ser indispensável para minimizar riscos e atingir um óptimo nível de cuidados. RECOMENDAÇÃO I As máscaras e os respiradores devem ser seleccionados de acordo com a ca- deia epidemiológica da infecção, o tipo de patologia e a eficácia de filtragem de partículas necessária de acordo com as mesmas patologias. Justificação – As protecções respiratórias poderão ser denominadas de acor- do com o Comité Europeu de Normalização, por máscaras cirúrgicas e respirado- res de partículas. As máscaras devem cumprir os requisitos da Norma Europeia (Pr EN 14683: 2005). Os respiradores de partículas devem cumprir os requisitos referidos na Norma Europeia EN 149:2001 e em conformidade com a marca CE. Classificam-se em função da eficácia de filtração de partículas e da fuga total para o interior, ou seja da percentagem de partículas que atravessam o filtro e da per- centagem de partículas retidas pelo mesmo (Standard europeu EN 149, 2001) em: • P1 SL • P2 SL • P3 AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 123 RECOMENDAÇÃO II O uso de protecções respiratórias é uma medida importante de prevenção e controlo de infecção associada aos cuidados de saúde. Justificação – A utilização de protecções respiratórias tem como objectivos: - Minimizar a contaminação do ambiente por microrganismos, - Prevenir o risco de transmissão cruzada de infecção por via aérea, - Proteger o utente da contaminação microbiana de agentes infecciosos prove- nientes da boca e nariz, - Proteger os profissionais de saúde dos salpicos e/ou fluidos corporais poten- cialmente contaminados, provenientes dos utentes, - Evitar a contaminação no manuseamento de equipamento estéril e de procedi- mentos médicos de alto risco, - Proteger os profissionais de saúde da aspiração de produtos tóxicos existen- tes no ambiente. RECOMENDAÇÃO III Os profissionais devem substituir regularmente as protecções respiratórias de acordo com as recomendações do fabricante, relativamente à duração da sua capacidade de filtração, e sempre que se encontrem sujas ou danificadas. Justificação: Os quadros n.º 1 e n.º 2 apresentam de forma resumida o tipo de máscara e o tipo de respirador a utilizar de acordo com o respectivo proce- dimento, bem como as suas características: 124 | Quadro nº.1 – Tipo de máscara a utilizar de acordo com o procedimento Máscaras cirúrgicas (Pr EN 14683: 2005) Características Tempo de duração Utilização Figura 1 Máscara cirúrgica adulto Figura 2 Máscara pediátrica • Máscara de três camadas, sendo a intermédia um filtro de polipropileno. • Eficácia de filtra- ção bacteriana > a 95% • Hipo-alérgica • Isenta de látex • Não esterilizada • Uso único • A máscara deve ser mudada de utente para utente e entre procedi- mentos, máximo 5 horas de duração ou de acordo com o fabricante. • Protecção stan- dard para interven- ções cirúrgicas sem risco de salpicos. • Para procedimen- tos exploratórios ou outros de breve duração. • Para utentes e visitas que apresen- tem por exemplo, sintomatologia respi- ratória aguda. Figura 3 Máscara resistente a fluidos com atilhos Figura 4 Máscara resistente a flui- dos com viseira e atilhos • Máscara com quatro camadas, sendo a segunda um filtro de polipropileno e a terceira uma camada de polieti- leno impermeável a fluidos. • Eficácia de filtra- ção de partículas de 0,1m 99,93% • Respirabilidade (Delta P) = 2,08 mm H20/cm2 • Eficácia de filtração bacteriana (E.F.B. in vitro, 2,9m) = 99,6% • Nível de resis- tência a salpicos de sangue (ASTM 1862) =160 mmHg • Isenta de látex • Não esterilizada • Uso único • Com banda de car- bono anti- reflexo • Visor de acrílico • A máscara deve ser utilizada apenas numa intervenção ci- rúrgica, máximo 6 a 8 horas de duração ou de acordo com as recomendações do fabricante. • Recomendada para intervenções cirúrgicas, ou outros procedimentos, com alto risco de salpicos de sangue ou outros fluidos orgânicos. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 125 Quadro nº.2 – Tipo de respirador a utilizar de acordo com o procedimento Tipo de protec- ção respiratória (Pr EN 14683: 2005) Características Tempo de duração Utilização Figura 5 P1 SL Respirador P1 SL de acor- do com a Norma Europeia EN 149:2001 • Respirador com três camadas com uma Eficácia de Fil- tração de Partículas de 80 - 93.99% e uma Eficácia de Retenção Total de 78-92.01% para partículas de 0,6m. • Isento de látex • Não esterilizado • Uso único • O respirador foi desenvolvido para ser usado durante um só turno de tra- balho, máximo 6 a 8 horas de duração. • Protecção dos profissionais de saúde, visitas e utentes portadores de tuberculose. Figura 6 P2 SL Respirador P2 SL de acor- do com a Norma Europeia EN 149:2001 • Respirador com quatro camadas (dupla camada filtrante), com Eficácia de Filtração de Partículas de 94-98.99% e uma Eficácia de Retenção Total de 92.01-98% para partículas de 0,6m. • Isento de látex. • Não esterilizado. • Uso único • O respirador foi desenvolvido para ser usado durante um só turno de tra- balho, máximo 6 a 8 horas de duração. • Protecção do uten- te/profissional de saúde em ambientes contaminados (Tuberculose, Gripe das Aves, …) • Protecção de uten- tes imunodeprimidos • Preparação e administração de citostáticos. • Manuseamento de agentes químicos irritantes (ex: Gluteraldeído) Figura 7 P3 SL Respirador P3 SL com válvula exalatória de acordo com a Norma Euro- peia EN 149: 2001 • Respirador com quatro camadas e válvula exalatória que minimiza o calor e for- mação de humidade. • Percentagem de Efi- cácia de Filtração de Partículas de 99.52% e Retenção Total de 98,92% para partícu- las de cloreto de sódio de 0,6m a um fluxo de 95 l/m • Cada respirador apresenta-se embala- do numa bolsa trans- parente individual com instruções sobre o modo de aplicação. • A membrana da válvula exalatória é isenta de látex. • O respirador foi desenvolvido para ser usado durante um só turno de tra- balho, máximo 6 a 8 horas de duração. • Protecção dos utentes transplan- tados pulmonares, nomeadamente na presença de alguém utente, nas desloca- ções a Hospitais ou a locais onde exista grande aglomerado de pessoas. 126 | RECOMENDAÇÃO IV A máscara deve cobrir a boca e o nariz e deve ser colocada de forma a desviar lateral e posteriormente as partículas provenientes das vias respiratórias. As máscaras de alto risco com protecção ocular devem ser utilizadas sempre que existe risco de salpicos de sangue ou outros fluidos orgânicos e aerossóis. Justificação – O uso de máscara é uma importante medida de controlo de infecção. Tem a função de conter e filtrar as gotículas e microrganismos expelidos pela boca e nariz, durante a respiração, conversação, tosse, espirros, etc. Para além disso, as máscaras são também uma barreira protectora contra o contacto com fluidos orgânicos e/ou contra microrganismos patogénicos passíveis de transmissão por gotículas, minimizando o risco a que os profissionais estão expostos. Todos os profissionais ou outros utilizadores (utentes, visitas) devem: • Substituir regularmente as protecções respiratórias de acordo com as reco- mendações do fabricante relativamente à duração da sua capacidade de filtração e sempre que se encontrem sujas ou danificadas, • Mudar a protecção respiratória de utente para utente, assim como para cada procedimento no mesmo utente. Esta prática é fundamental para proteger o utilizador e o utente, • As máscaras devem ser cuidadosamente removidas, seguras apenas pelas fitas e imediatamente descartadas em recipiente próprio para resíduos sólidos contaminados (Grupo III, Saco Branco). RECOMENDAÇÃO V Devido ao risco de contaminação resultante do contacto das mãos, o protector respiratório deve ser retirado quando já não está aplicado(a cobrir o nariz e a boca). Se houver necessidade de protecção posterior, dever-se-á colocar um novo protector. Justificação – O uso de protecção respiratória é uma medida de controlo de infecção bem como uma barreira protectora para os utilizadores. A acumulação de humidade e microrganismos expelidos pelas vias aéreas conduz à saturação do protector e consequente ineficácia da sua capacidade de filtração. Um correcto protocolo de substituição de máscaras favorece a segurança de utentes e profissionais. O deslocar para outro local (por ex: debaixo do queixo) a protecção respiratória após o seu uso, aumenta o risco de contaminação, tanto pelo manuseamento como pela humidade mantida no protector. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 127 Infecção Associada aos Cuidados de Saúde Infecção adquirida pelos utentes em con- sequência dos cuidados e procedimentos de saúde prestados e que pode, também, afectar os profissionais de saúde durante o exercício da sua actividade. Contaminação Presença de microrganismos em objectos inanimados Colonização Presença de microrganismo sem doença clínica Procedimento Norma ou modo de proceder, comporta- mento ou acto a realizar D E FI N IÇ Õ E S 128 | îUSO DE LÁTEX NO BLOCO OPERATÓRIO Edição 2010 O Látex é um constituinte comum dos dispositivos médicos utilizados em am- biente hospitalar. Apesar de ser mais frequentemente associado a luvas descartá- veis, existem outros produtos que contêm látex, tais como tubos para vias aéreas, catéteres intra-venosos, seringas, estetoscópios, pensos, etc. A alergia ao látex é preocupante uma vez que pode colocar em risco a vida, e afectar a população em geral, bem como os profissionais de saúde. Qualquer pes- soa que seja afectada por uma reacção associada ao látex deverá ser observada por um especialista nesta área. As pessoas a quem seja diagnosticada sensibilidade ou alergia ao látex deverão ser tratadas ou trabalhar num ambiente isento de látex. A decisão de utilizar produtos com látex, ou isentos deste, em determinadas circunstâncias, é da responsabilidade da instituição e dos profissionais de saúde, com base na evidência científica. Para as instituições que decidam manter-se isentas de látex, poucas medidas adicionais terão de ser tomadas sempre que surja um caso de um utente com alergia ao látex. Nas outras instituições deverá existir um conjunto de normas e cuidados a ter sempre que se necessite tratar um utente com esta situação. Esta Prática Recomendada tem como objectivo orientar o trabalho dos profis- sionais que manipulam látex, bem como cuidam de utentes com sensibilidade / alergia ao látex em Bloco Operatório, por forma, a optimizar a qualidade dos cuida- dos prestados, e baseiam-se nos conhecimentos e opiniões de peritos disponíveis actualmente. RECOMENDAÇÃO I Deve ser estabelecido, em cada Bloco Operatório, um protocolo de actuação para procedimentos em utentes com alergia ao látex. Justificação: A existência de um protocolo favorece a correcta actuação relati- vamente a utentes com alergia ao látex, salvaguardando a sua segurança. 1 – Deverá existir um conjunto de material de anestesia e cirurgia isento de látex. Este conjunto deverá estar acompanhado de uma lista de verificação e ser revisto periodicamente. Justificação: Nem sempre o atendimento a um utente com alergia ao látex pode ser programado, daí a necessidade desta medida. A lista de verificação facili- ta o processo de revisão do conjunto e a sua reposição após a utilização. 2 – O procedimento de actuação em caso de alergia ao látex deve ter em aten- AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 129 ção os seguintes aspectos: - Localização e composição do conjunto de material de anestesia e cirurgia isento de látex. - Actuação perante um utente com sensibilidade / alergia ao látex: • Assegurar que todos os produtos utilizados são isentos de látex, • Utilizar sistemas de soros sem látex, ou administrar a medicação apenas atra- vés das torneiras de três vias e nunca através das portas de borracha do sistema, • Utilizar medicação que esteja em ampolas de vidro ou que possua portas sem látex, • Utilizar seringas sem látex, • Não utilizar garrotes nem drenos de borracha, • Se for necessário algaliar, utilizar uma algália 100% silicone ou em polivinilo, • Providenciar máscara de oxigénio, balão de ressuscitação manual sem látex, • Certificar-se que todos os itens pedidos intra-operatoriamente são isentos de látex, • Estar preparado para a eventual necessidade de reconversão da cirurgia, • Notificar o cirurgião / anestesista se não existir nenhum produto alternativo, • Assegurar que o utente está identificado como possuidor de alergia ao látex, • Relembrar a todos os profissionais de saúde que o utente tem alergia ao látex, • Monitorizar o utente quanto ao aparecimento de reacções anafiláticas, • Informar antecipadamente o pessoal na Unidade de Cuidados Pós-Anestésicos da hora prevista para a chegada do utente. Recomendações sobre: • O material e equipamentos que podem estar na sala de operações, • Como proteger o material de borracha que tiver de permanecer nesta, • Restrição da movimentação na sala operatória antes e durante a cirurgia, • Como avaliar o nível de risco de um utente e necessidade de alertar toda a equipa, • Medicação e soroterapia que deverá estar disponível de imediato para o tra- tamento de uma reacção alérgica. Justificação: A existência de um procedimento facilita a familiarização com o diverso material a ser utilizado, a sua localização, bem como uma actuação com- petente do pessoal. 3 – A sala operatória deverá ser identificada como “Isenta de Látex”. Justificação: Deste modo, sempre que outro pessoal de saúde que não conheça a história do utente necessite de entrar na sala, saberá que terá de ter cuidados especiais. 4 – Deverá existir no Bloco Operatório uma lista actualizada de luvas e outros dispositivos médicos sem látex. Justificação: Esta medida facilita o conhecimento dos produtos a utilizar em caso de sensibilidade / alergia ao látex. 5 – Um utente com alergia ao látex, que necessite de cirurgia electiva, deverá ser programado para a primeira intervenção do dia na sala operatória. 130 | Justificação: Esta medida deve-se ao facto de o nível de partículas de látex em suspensão no ar da sala operatória ser inferior no início do programa. A manipula- ção de luvas com pó liberta partículas de látex que entretanto se associaram ao pó das luvas. Estas partículas em suspensão no ar ambiente poderão ser aspiradas pelo utente alérgico ao látex e originar eventualmente uma reacção anafilática. RECOMENDAÇÃO II Deverá ser feito, no pré-operatório, um despiste para alergia ao látex Justificação: Esta medida facilita a avaliação do risco do utente para desenvol- ver uma reacção alérgica durante a realização da cirurgia. 1 – Avaliar a pertença a algum dos grupos de risco que se segue: utentes com espinha bífida ou com malformações do aparelho urinário, que tenham sido repeti- damente submetidos a cirurgias na infância, profissionais de saúde, trabalhadores da indústria da borracha, cozinheiros, pasteleiros, profissionais de cabeleireiro, utentes que já se submeteram a vários procedimentos anteriores. Justificação: Estes indivíduos têm uma maior probabilidade de desenvolverem sensibilização ao látex, pelo contacto contínuo e prolongado a este. Estima-se que nos utentes com espinha bífida a prevalência de alergia ao látex possa ser superior a 60%. 2 – Avaliar a história de doença atópica ou de uma reacção alimentar cruzada a um dos seguintes alimentos: kiwi, castanha, abacate, banana, maracujá, melão, tomate e aipo. Justificação: Estudos indicam que mais de 50% de pessoas com história de sensibilidade ao látex têm antecedentes de doença atópica. Os alimentos descritos apresentam uma reacção cruzada, pela semelhança bioquímica das suas proteínas com a proteína do látex. 3 – Despistara existência de reacções alérgicas quando em contacto com borrachas, ex: dificuldade em respirar ou edema ao soprar um balão, eritema ou prurido ao vestir luvas de borracha, ou na zona do elástico da roupa. Justificação: O látex é o constituinte da borracha natural, pelo que é importan- te despistar reacções que possam ter passado despercebidas. 4 – No caso de o utente ser alérgico ao látex este deverá ter uma pulseira indi- cativa do facto e deverá estar registado legivelmente e em local apropriado no seu processo clínico, bem como na sua cama. Justificação: Esta medida facilita o conhecimento da situação do utente ao pessoal de saúde, permitindo uma atempada e eficaz tomada de decisão. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 131 RECOMENDAÇÃO III Deverão ser desenvolvidas medidas para diminuir a possibilidade de sensibiliza- ção do pessoal que trabalha no bloco operatório. Justificação: De acordo com as Guidelines do Royal College of Physicians, UK, a percentagem de profissionais de saúde com sensibilidade ao látex é superior a 17% e, dados estatísticos dos E.U.A., referem a percentagem de 10% a 17% e que cer- ca de 2% desses profissionais sofrem de asma em resultado da exposição ao látex. 1 – As luvas a serem utilizadas no Bloco Operatório (quer para uso cirúrgico, quer para protecção pessoal) deverão ser isentas de pó e com baixo teor proteico e preferencialmente isentas de látex. Justificação: A finalidade desta medida é diminuir as partículas de látex em suspensão no ar ambiente e como tal o potencial para desencadear uma sensibi- lização. 2 – Deverá existir bom senso na utilização das luvas. Usá-las apenas quando realmente necessário. Justificação: Uma vez que a sensibilização se faz tanto pelo contacto como pela aspiração das partículas carregadas de látex existentes no ar ambiente, quando menos manipulação for feita pelo pessoal, menor será o risco de ficar sensibilizado. 3 – Após retirar as luvas lavar sempre as mãos, se for necessário aplicar um creme escolher sempre um cuja base seja água ou silicone e não à base de óleo ou petróleo. Justificação: Esta acção após retirar as luvas ajuda a diminuir os sintomas de irritação da pele. A escolha dos produtos deve-se ao facto dos cremes e loções cuja base seja óleo ou petróleo podem quebrar a integridade do produto de látex, razão pela qual deverá ser sempre confirmado com o fabricante se o creme ou loção é compatível com o látex antes de colocá-lo em uso. 4 – Sempre que exista uma reacção do tipo dermatite de contacto irritante (pele descamativa, seca ou com fissuras), ou alérgica (eritema, edema, prurido, rinite, conjuntivite, asma), o profissional de saúde deve ser observado por um especialis- ta, para diagnosticar a sua situação. Justificação: Apenas com o correcto diagnóstico da situação se podem definir taxas de prevalência e perceber a dimensão real da sensibilidade / alergia ao látex, bem como sensibilizar os profissionais de saúde para a problemática da utilização do látex. 132 | îPREVENÇÃO DA CIRURGIA NO LADO ERRADO, DO PROCEDIMEN- TO CIRURGICO ERRADO E DO UTENTE ERRADO Edição 2010 Esta Prática Recomendada pretende fornecer linhas de orientação sobre a preven- ção da cirurgia no lado errado, do procedimento cirúrgico errado e do utente errado. A prevenção da cirurgia no lado errado, do procedimento cirúrgico errado e do utente errado é essencial à segurança de utentes e profissionais. Esta RECOMENDAÇÃO tem a intenção de atingir esse objectivo e baseia-se no Protocolo Universal desenvolvido pela Organização Mundial de Saúde tendo em conta as recomendações da Joint Comission for Health Care Safety. No desenvolvimento desta Prática Recomendada chegou-se a consenso quanto aos seguintes princípios: • A cirurgia no local errado, o procedimento cirúrgico errado e a operação ao utente errado podem ser prevenidos, • É necessária uma abordagem forte, com a utilização de várias estratégias, para se atingir o objectivo de eliminar a cirurgia no local errado, o procedimento cirúrgico errado e a operação ao utente errado, • O envolvimento e a comunicação efectiva entre todos os membros da equi- pa cirúrgica são importantes. Não é possível uma prática segura sem disciplina, colaboração e sem o respeito pela interdependência do desempenho dos diversos profissionais, • Sempre que possível, o utente (ou o seu representante legal designado) deve ser envolvido no processo, • A Prática Recomendada deve ser aplicada em todos os procedimentos cirúr- gicos e outros procedimentos invasivos que exponham o utente a risco, incluindo os que se realizam fora do bloco operatório. As práticas aqui recomendadas têm o intuito de reter o que se considera ser indispensável para minimizar riscos e atingir um óptimo nível de cuidados. RECOMENDAÇÃO I Deve ser estabelecido um processo de verificação pré operatória que permita pre- venir a cirurgia no local errado, o procedimento cirúrgico errado e o utente errado. Justificação: Assegurar que todos os documentos e estudos relevantes estão disponíveis antes do início do procedimento, que foram revistos e são consistentes entre si, com as expectativas do utente e com o entendimento da equipa sobre o utente em causa, o procedimento e o local a operar e, se aplicável, sobre utilização de implantes. Informação em falta ou discrepâncias devem ser resolvidas antes do início do procedimento. Um processo contínuo de recolha e verificação de informação, começando na decisão de realizar o procedimento, continuando em todos os locais e actos in- tegrados na preparação pré-operatória do utente até (e incluindo) ao momento imediatamente anterior ao início do procedimento. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 133 A equipa de cuidados verifica que todos os documentos e exames necessários à intervenção estão disponíveis antes do início do procedimento, que estes foram revistos e são coerentes uns com outros, com as necessidades do utente, com o procedimento, o local (lado, órgão…) da intervenção e, quando se aplica, com os implantes a utilizar. A equipa deve assinalar a eventual falta de informação ou erros antes de iniciar qualquer procedimento. 1 - A verificação da pessoa, procedimento e local correcto, deve ser feita: • No momento em que a cirurgia/procedimento é marcada, • No momento da admissão ou entrada no estabelecimento, • Sempre que ocorrer a transferência da responsabilidade dos cuidados para outro prestador, • Antes da sedação, com o utente consciente e informado, • Antes de o utente deixar a área pré-operatória e de entrar na sala do proce- dimento/de operações. 2 - Uma lista de controlo de verificação pré-operatória pode ser útil para assegu- rar a disponibilidade e rever, antes do início do procedimento, o seguinte: • Documentação relevante (ex. história, exame clínico e consentimento), • Imagens relevantes, devidamente etiquetadas e apresentadas, • Quaisquer implantes ou equipamento especial necessários. RECOMENDAÇÃO II O local a operar deve ser marcado de modo a prevenir a cirurgia no local errado, o procedimento cirúrgico errado e o utente errado Justificação: Identificar sem ambiguidade o local da incisão ou inserção. Para procedimentos que envolvam uma distinção direito/esquerdo, múltiplas estruturas (tais como dedos da mão ou do pé), ou múltiplos níveis (caso das inter- venções à coluna), o local em causa deve ser marcado de maneira a que a marca seja visível depois do utente ter sido preparado e coberto com o campo operatório. Marcação do local a operar: • Fazer a marca no local da incisão ou próximo. NÃO marcar outros locais a não ser que seja absolutamente necessário por outros aspectos relacionados com os cuidados, • A marca deve ser sem ambiguidade (ex., usar iniciais ou ‘SIM’ ou uma linha representando a incisão proposta), ter em conta que ‘X’ pode ser ambíguo, • A marca deve ser visível depois do utente estar preparado e coberto com os campos cirúrgicos, • A marcadeve ser feita com um marcador dermográfico que seja suficiente- mente permanente de forma a manter-se visível depois de completada a prepa- ração da pele. Marcas adesivas não devem ser a única forma de marcar o local, • O método de marcação e o tipo de marca devem estar protocolados e ser consistentes em toda a organização, • No mínimo, marcar todos os casos que envolvam lateralidade, múltiplas estru- 134 | turas (dedos das mãos, dedos dos pés, lesões), ou múltiplos níveis (coluna), • A marcação do local deve ser feita pelo profissional que executa o procedi- mento cirúrgico, • Sempre que possível a marcação deve ser feita com o utente acordado e consciente, • A verificação final do local deve ser confirmada durante a última verificação, • Deve existir um procedimento definido pela Organização para aplicar quando os utentes recusam a marcação do local. ISENÇÕES: • Casos de órgão singular (ex. cesariana, cirurgia cardíaca), • Intervenções nas quais a inserção de cateter/instrumento não é predetermi- nada (ex., cateterização cardíaca), • Dentes: indicar o(s) nome(s) do(s) dente(s) na documentação ou marcar o(s) dente(s) nas radiografias dentárias ou no diagrama dentário, • Bebés prematuros, para quem a marca pode causar uma tatuagem perma- nente. RECOMENDAÇÃO III É mandatório fazer uma verificação de última hora, imediatamente antes do início do procedimento. Justificação: Deve ser feita a confirmação final do utente, procedimento, local e, se aplicável, dos implantes correctos. A verificação de última hora, imediatamente antes do início do procedimento deve ser realizada no local em que o procedimento é realizado, imediatamente antes do seu início. Deve envolver toda a equipa, usar comunicação activa, ser brevemente documentada, utilizando uma lista de verificação (a organização deve determinar o tipo e a quantidade de documentação) e deve, no mínimo, incluir: • A identidade correcta do utente, • O lado e local correctos, • Consentimento para a realização do procedimento, • Posição correcta do utente, • Disponibilidade dos implantes correctos, de equipamento especial ou outros requisitos específicos. A organização deve ter processos e sistemas em aplicação para reconciliar diferenças nas respostas dos elementos da equipa durante a verificação de última hora. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 135 îDOTAÇÕES SEGURAS EM AMBIENTE PERIOPERATÓRIO Edição 2010 Esta Prática Recomendada pretende fornecer linhas de orientação sobre dota- ções seguras em enfermagem, em ambiente perioperatório. Os cuidados perioperatórios seguros, eficazes e de qualidade estão directamen- te relacionados com dotações correctas em termos quantitativos e qualitativos. A AESOP defende que os cuidados perioperatórios devem ser prestados por enfermeiros perioperatórios de cuidados gerais e especialistas, com competências que lhes permitam actuar em qualquer uma das quatro funções perioperatórias: • Enfermeiro circulante, • Enfermeiro instrumentista, • Enfermeiro de anestesia, • Enfermeiro de cuidados pós - operatórios. A prática dos cuidados perioperatórios está relacionada com: Factores ambientais • Estrutura física do serviço, • Número de salas de operações, • Número de serviços que necessitam de cuidados perioperatórios fora do blo- co operatório (ex. imagiologia). Programação do trabalho • Dotação da UCPA, • Serviços cirúrgicos, • Complexidade dos serviços (de acordo com o tipo de hospital), • Complexidade das cirurgias, • Complexidade dos cuidados aos utentes, • Características dos utentes (pediátrico, etc.), • Horários dos enfermeiros, • Horário de funcionamento do bloco operatório. Recursos Humanos • Número de enfermeiros, • Experiência dos enfermeiros, • Competências dos enfermeiros, • Tipo de recrutamento dos enfermeiros. Responsabilidade por unidades de serviços especiais • Laboratório de hemodinâmica, • Unidade de endoscopia, • Departamento de imagiologia, • Cirurgia ambulatória, • Unidade de dor aguda. As práticas aqui recomendadas têm o intuito de reter o que se considera ser indispensável para minimizar riscos e atingir um óptimo nível de cuidados. 136 | RECOMENDAÇÃO I O número de enfermeiros gestores, experientes e competentes deve ser deter- minado de forma a garantir as necessidades do serviço. No mínimo tem que haver um gestor em cada Bloco Operatório. Justificação: Á gestão dos cuidados perioperatórios tem que ser alocado um enfermeiro especialista com experiencia em enfermagem perioperatória e compe- tências comprovadas na área da gestão. As competências e a experiência devem incluir: gestão do risco clínico, melhoria contínua da qualidade, competências rela- cionais e comportamentais. RECOMENDAÇÃO II Alocação de enfermeiros perioperatórios na sala de operações em cirurgia elec- tiva ou de urgência: Três enfermeiros por sala de operações, conforme definido pela AESOP, nas fun- ções de instrumentação, circulação e anestesia. Justificação: A prática de cuidados perioperatórios pressupõem um conjunto de actividades que decorrem em simultaneidade / parceria ((Enfermagem periope- ratória – da filosofia à prática de cuidados, capitulo 7- Funções dos enfermeiros pe- rioperatórios) que implica a presença de três enfermeiros por sala de operações, só assim garantindo a segurança e efectividade do processo. Critérios de complexidade que podem determinar alteração ao número de enfermeiros: • Procedimentos cirúrgicos com anestesia local, • Procedimentos cirúrgicos de baixa complexidade, • Mais que um procedimento cirúrgico em simultâneo, • Procedimentos cirúrgicos com mais do que uma classificação da contamina- ção da ferida cirúrgica, em simultâneo. (Ref: SSI CDC guidelines), • Procedimentos anestésico/cirúrgicos de alta complexidade (ex: caracterís- ticas particulares do utente – neonatologia, politraumatizados, transplantação pulmonar e hepática, colheitas multiorganicas, etc.), • Processos de formação/integração de enfermeiros, • Procedimentos de curta duração e alta rotatividade. RECOMENDAÇÃO III Alocação de enfermeiros perioperatórios na área de acolhimento: Um enfermeiro para acolher o utente, receber a informação pertinente para ga- rantir a continuidade dos cuidados e validar a lista de verificação de acolhimento. Justificação: De acordo com o Artigo 83º do Código Deontológico dos Enfer- meiros (Do direito ao cuidar) “…o enfermeiro, no respeito do direito ao cuidar na saúde ou doença assume o dever de…assegurar a continuidade dos cuidados …”. Sempre que exista transferência de cuidados entre equipas de saúde, de modo AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 137 a garantir a segurança e a efectividade do processo é mandatório a partilha de informação entre pares. A utilização da lista de verificação de acolhimento assegura a sistematização da verificação de critérios de admissibilidade do utente à área de cuidados periopera- tórios, reduzindo não conformidades e desperdícios com consequentes potenciais efeitos adversos e garantindo uma alta efectividade ao processo. Recomenda-se que esta lista de verificação seja partilhada pela equipa global de cuidados (área de internamento / área de cuidados perioperatórios) como forma de garantia de efectividade da organização. RECOMENDAÇÃO IV Alocação de enfermeiros perioperatórios no apoio às salas de operações - acti- vidades de suporte: Devem ser alocados enfermeiros perioperatórios às actividades de suporte. Justificação: A necessidade de alocação de enfermeiros para o desempenho das actividades abaixo mencionadas depende do modelo de gestão do bloco opera- tório, do número de áreas de especialidades cirúrgicas existentes, dos sistemas de apoio logístico à gestão e da estrutura física do bloco operatório: Coordenação operacional: Um enfermeiro por cada três salas em actividade. Este enfermeiro operacionalizará, por exemplo, as seguintes actividades: • Coordenação do funcionamento das salas de operações que lhe estão atribuídas, •Articulação entre as várias áreas perioperatórias e interior/ exterior do bloco operatório, • Confirmação das necessidades dos utentes e equipas cirúrgicas, • Substituição de enfermeiros. Será responsável por todas as actividades para uma efectiva e segura utilização das salas de operações e dependerá da organização interna de cada instituição. Critérios de complexidade que podem determinar alteração ao número de enfermeiros: • Procedimentos cirúrgicos de alta complexidade (ex: ortopedia, cirurgia car- diotorácica), • Procedimentos de curta duração e alta rotatividade, • Reforço na supervisão clínica, • Procedimentos cirúrgicos de longa duração. Gestão de materiais / equipamentos por especialidade cirúrgica: Um enfermei- ro que poderá acumular outras actividades, de acordo com a organização interna da instituição. Este enfermeiro operacionalizará, por exemplo, as seguintes actividades: • Controlo a existência de materiais, • Determinação das necessidades e assegurar os stocks, • Emissão de pareceres sobre a localização e instalação de materiais, • Supervisão a verificação das condições de materiais / equipamentos, • Articulação com os Serviços de Instalação e Equipamento nas manutenções preventivas e curativas. 138 | Descontaminação de materiais: Um enfermeiro que poderá acumular com outras actividades, de acordo com a organização interna da instituição. Este enfer- meiro operacionalizará, por exemplo, as seguintes actividades: • Responsabilização pelo reprocessamento de dispositivos médicos, no bloco operatório. Tutoria de alunos de enfermagem, pré e pós graduados e formação em serviço: Um enfermeiro, preferencialmente especialista, que poderá acumular com outras actividades, de acordo com a organização interna da instituição. Este enfermeiro operacionalizará, por exemplo, as seguintes actividades: • Responsabilizar-se pela orientação da formação dos alunos de enfermagem e enfermeiros em estágio, • Responsabilidade operacional pelo desenvolvimento do plano de formação do serviço, • Responsabilizar-se pela tutoria de novos enfermeiros em processo de integra- ção ou outro. RECOMENDAÇÃO V Alocação de enfermeiros perioperatórios na unidade de cuidados pós anestési- cos imediatos – UCPA: Devem ser alocados no mínimo dois enfermeiros Princípios: O que determina o nº de enfermeiros na UCPA: - Número de unidades de utentes, - Número de utentes presentes. Justificação: Os cuidados pós operatórios providenciados nas fases 1, 2 ou em vigilância alargada podem ser efectuados no mesmo ambiente/espaço físico. Fase 1: Nesta fase as actividades dos enfermeiros estão centradas na prestação de cuidados de enfermagem no período imediatamente após a cirurgia, visando a passagem do utente à fase 2 ou transferência para a unidade de cuidados intensivos. • 1 Enfermeiro por cada 2 utentes (1:2) ,1 utente a dormir, estável, sem via aérea artificial e mais de 8 anos de idade e o outro utente consciente estável e livre de complicações. • 1 Enfermeiro para 1 utente (1:1) na fase de admissão e até à fase de “aco- modação”. (transferência de informação necessária à continuidade dos cuida- dos, via aérea assegurada, avaliação inicial completa; via aérea instável, utente inconsciente até aos 8 anos de idade), • 2 Enfermeiros para um utente (2:1), (utente crítico, instável e com complica- ções, ex. suporte ventilatório, suporte de aminas simpatico-miméticas, etc.) Fase 2: Nesta fase as actividades dos enfermeiros estão centradas na prepa- ração do utente/família/pessoa significativa para a continuidade dos cuidados após a alta da unidade. • No mínimo 2 enfermeiros, estando 1 sempre em permanência. (ex: No mo- mento transferência de um utente), AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 139 • 1 Enfermeiro para 3 utentes (1:3) para utentes com mais de 8 anos, ou para utentes com menos de oito anos acompanhados de familiar, • 1 Enfermeiro para 2 utentes (1:2) para utentes com idade inferior a 8 anos, sem acompanhamento familiar; admissão do utente nesta fase (quando existem espaços diferentes para as fases 1 e 2), • 1 Enfermeiro para 1 utente (1:1) quando o utente está instável à espera de transferência. (Fonte: Associação Americana dos Enfermeiros de peri aneste- sia, 2008- 2010 Standards of peri anesthetic nurses practice). Vigilância alargada – Nesta fase os utentes, passaram as fases I e II, e reque- rem um número e intensidade de cuidados menor. Incluem-se nesta fase uten- tes que efectuaram procedimentos que necessitam observação e intervenções prolongadas (Ex. pelo risco de hemorragia, gestão da dor, controlo de náuseas e vomito, etc.) ou que estão em contexto ambulatório, aguardando transporte, não tenham um cuidador informal disponível de imediato, necessitem de ensino pós-operatório, etc. • 1 Enfermeiro para 3 a 6 utentes (1:3/6) em função da intensidade dos cuida- dos, as características especificas dos utentes (Ex. população geriátrica). A existência, no mínimo, de dois enfermeiros alocados a esta unidade não obri- ga à presença física a tempo inteiro. Pressupõe-se a disponibilidade do segundo enfermeiro nas situações onde o número de utentes com necessidade de cuidados é igual ou superior a dois e nos momentos em que o que está presente, necessita de substituição (ex. refeições, intervalos de descanso, transferência de utentes, etc.). A lotação das UCPA deve variar ao longo do dia em função das necessidades de unidades de utentes abertas; em cada momento só podem ser garantidos cuida- dos de enfermagem seguros, efectivos e de qualidade, quando a relação enfermei- ro / utente está de acordo com o anteriormente descrito. RECOMENDAÇÃO VI Alocação de enfermeiros perioperatórios nas unidades de intervenções espe- ciais: Devem ser alocados três enfermeiros perioperatórios. Justificação: Considerando que nestas unidades se realizam procedimentos invasivos de diagnóstico e ou terapêutica a utentes submetidos ou não a anestesia, a dotação de enfermeiros deve obedecer aos mesmos critérios descritos para o bloco operatório. 140 | îUTILIZAÇÃO DE AGENTES ANESTÉSICOS INALATÓRIOS Edição 2011 A segurança ambiental no Bloco Operatório é essencial para a promoção e pre- venção da segurança e da saúde dos profissionais e dos doentes. Um dos factores que contribuem para um ambiente de risco é a presença de gases inalatórios anestésicos no ar respirável. Os agentes mais utilizados no Bloco Operatório são: • Óxido nitroso – N2O (protóxido de azoto), • Agentes halogenados: Sevoflurano, Desflurano e Isoflurano. Para a realização da anestesia geral inalatória é necessária a existência de vaporizadores, normalmente integrados nos ventiladores, que possibilitem a pas- sagem de um agente anestésico em estado liquido para estado de vapor e a liber- tação de um fluxo de gases de forma quantificada e controlada, de acordo com as necessidades do doente. Se for detectada pelo odor, a presença destes agentes, significa que existe uma elevada concentração no ambiente. Segundo resultado de estudos efectuados, os agentes anestésicos inalatórios são agentes químicos passíveis de causarem efeitos adversos na saúde dos pro- fissionais expostos, nomeadamente no sistema nervoso central, equilíbrio hemato- poiético, fertilidade e reprodução, fígado e rim. São-lhes também atribuídos efeitos carcinogenicos e teratogenicos. Um profissional exposto a concentrações elevadas, mesmo por um curto perí- odo de tempo, pode apresentar: cefaleias, irritabilidade, fadiga, náuseas, sonolên- cia, diminuição na coordenação e tomada de decisões. O Decreto-lei 290/2001 de 16 de Novembro define “agente químico perigoso” como o que pode representar risco para a segurança e a saúde dos trabalhadores devido às suas propriedades físicas, químicas e toxicológicas. Refere ainda que o empregador deve proceder à avaliação de riscos e tomar medidas preventivas. A prevenção consiste essencialmente na adopção, pelos trabalhadores, de compor- tamentos adequados pelo que a suaformação é muito importante. As práticas aqui recomendadas pretendem alertar os profissionais para os riscos existentes e fornecer orientações aos enfermeiros perioperatórios para a minimização do risco ambiental por manuseio ou utilização de agentes anestésicos inalatórios e promoção da segurança e saúde dos profissionais e doentes. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 141 RECOMENDAÇÃO I No Bloco Operatório é obrigatório existirem condições que assegurem a manu- tenção de um ambiente seguro e qualidade do ar respirável para profissionais e doentes. Justificação – Um ambiente de trabalho seguro é um direito de acordo com o previsto no artigo 284.º do Código do Trabalho, regulamentado pela Lei 102/2009 de 10 de Setembro, que transpõe Directivas Comunitárias no artigo 2.º/2/b) e d), relativos à protecção dos trabalhadores dos riscos físicos, químicos e biológicos. A Directiva Europeia 98/24/EC de 7 de Abril de 1998 determina princípios gerais de prevenção do risco associado a agentes químicos, salienta a importância da ventilação para a segurança do ambiente; a redução ao mínimo da duração e intensidade da exposição e da quantidade de agentes químicos presentes; equipa- mento adequado; definição de procedimentos e da organização do trabalho e que o empregador deve assegurar a segurança e saúde do trabalhador e eliminar ou reduzir ao mínimo o risco. 1 – A existência de uma unidade de tratamento do ar é obrigatória nas áreas res- tritas do Bloco Operatório, incluindo Unidades de Cuidados pós Anestésicos (UCPA). Deve estar ligada 24 horas/dia, realizar 15 a 20 renovações de ar/hora, das quais 3 devem ser de ar fresco. Justificação – As unidades de tratamento e condicionamento de ar são essen- ciais para o controle da pureza, humidade, temperatura e pressão do fluxo de ar, previnem a aero-bio-contaminação e a acumulação de gases anestésicos. Na UCPA o risco de acumulação pode ser ainda superior às salas de opera- ções, pois não existe sistema de exaustão e há eliminação de agentes anestésicos pelas vias respiratórias dos doentes sujeitos a anestesia geral inalatória, durante a fase inicial. 2 – A existência de um sistema de exaustão de gases anestésicos é obrigatória em todas as salas de operações e salas de indução anestésica. Deve estar integra- do no ventilador, ter uma válvula de pressão positiva, que procede à libertação de gases sempre que existe uma pressão excessiva e uma válvula de pressão negativa que permita entrada de ar ambiente se a pressão for excessivamente negativa. Ter uma bolsa que serve de reservatório para compensar alterações bruscas na relação entre o fluxo de gás e a exaustão. O sistema de eliminação de resíduos da exaustão deve ser um sistema activo, ligado a um sistema de vácuo específico e independente do sistema geral de vácuo. Deve ter manómetro com uma pressão aproximada de 25 bar. Justificação – Os sistemas de exaustão de gases anestésicos permitem a evacuação destes directamente do circuito ventilatório, evitando a sua acumulação no ambiente. Se o seu funcionamento for eficaz não há libertação para o meio ambiente, excepto no caso de fugas, se a quantidade fornecida for superior à ca- pacidade de exaustão do sistema, se a pressão de vácuo não estiver ajustada, ou se o sistema se desconectar. 142 | 3 – Todos os equipamentos (ventiladores, vaporizadores, sistema exaustão...) e dispositivos médicos (circuitos ventilatórios, material intubação, conexões...) de- vem ser adequados, compatíveis entre si e mantidos em condições óptimas de funcionamento. Justificação – Equipamentos ou dispositivos médicos inadequados à função, não adaptáveis entre si ou com funcionamento deficiente podem ser ineficazes e conduzir a fugas. 4 – Devem ser utilizados sistemas de enchimento de vaporizadores que per- mitam a sua realização em sistema fechado, que não necessitem manipulação (exemplo: abertura da tampa sem contacto do agente anestésico com a atmosfera e a necessidade de adaptação intermédia para o enchimento). Justificação – Os agentes anestésicos inalatórios são altamente voláteis, se não existir sistema de segurança no frasco a abertura da tampa é suficiente para que uma grande quantidade se evapore, poluindo o ar ambiental. A utilização de adaptações aumenta a manipulação e favorece as fugas. Recomenda-se a utilização de sistema de segurança em que só é possível a saída do anestésico após adap- tação ao vaporizador, exercendo pressão sobre o sistema de protecção do frasco. RECOMENDAÇÃO II Deve ser estabelecido um plano de manutenção preventiva e uma norma de procedimento de verificação de todos os equipamentos relacionados com a utili- zação de agentes anestésicos inalatórios. Justificação – A manutenção preventiva e a verificação da funcionalidade de todos os equipamentos é garantia da eficácia e possibilita a detecção de pequenas ou grandes falhas que comprometam a segurança do ambiente. 1 – O Bloco Operatório e os Serviços de Instalações e Equipamentos devem estabe- lecer planos de manutenção preventiva dos equipamentos de anestesia (ventiladores, vaporizadores e respectiva calibração...) e dos que estão relacionados com a quali- dade do ar ambiental (unidade de tratamento do ar, exaustão gases anestésicos...). Justificação – A manutenção preventiva dos equipamentos é essencial para a garantia da funcionalidade e possibilita a detecção antecipada de avarias, fugas ou outras falhas que comprometam a segurança do ambiente. 2 – O Bloco Operatório deve estabelecer um protocolo de verificação diária, de preferência através de uma lista de verificação, que inclua: funcionamento da unidade de tratamento de ar e desobstrução das grelhas de entrada e saída de ar; ligação do sistema de exaustão de gases, manutenção da pressão de aspiração e adaptação de todas as conexões; testes do ventilador; verificação do vaporizador e integridade dos diversos acessórios. Justificação – Através da verificação diária e abreviada antes de cada utilização é possível detectar falhas que podem favorecer a acumulação de agentes anesté- sicos no ar ambiente. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 143 RECOMENDAÇÃO III Deve ser estabelecido um plano de avaliação, no mínimo semestral, da concen- tração de gases anestésicos no ar ambiental. Justificação – A avaliação e monitorização da concentração de gases anes- tésicos no ar ambiental permite ter dados para avaliar o risco de exposição dos profissionais e tomar medidas correctivas se os valores não estiverem nos limites mínimos aceitáveis. A NIOSH - National Institute for Occupational Safety and Health e a OSHA – Occu- pational Safety and Health Administration apresenta como limite máximo de expo- sição recomendada 2 ppm de agente anestésico halogenado, ou 0,5 ppm quando estes são utilizados em combinação com o protóxido de azoto. RECOMENDAÇÃO IV Devem ser tomadas medidas de segurança no manuseamento e utilização de agentes anestésicos inalatórios. Justificação – Durante o manuseamento e utilização dos anestésicos inalató- rios têm que ser mantidas todas as medidas de segurança, para diminuição dos riscos inerentes. 1 – Se existir necessidade de manusear um agente anestésico, por exemplo encher ou esvaziar um vaporizador, sem possibilidade de o realizar em circuito fechado, deve ser feito num local arejado, sem profissionais ou doentes e com protecção individual (máscara facial, bata e luvas). Justificação – Os agentes anestésicos são considerados agentes químicos pe- rigosos, com possível toxicidade para o ser humano, devendo ser tomadas todas as medidas de segurança. 2 – O reservatório deve estar cheio antes do início do procedimento, não ultra- passar a marcação de nível máximo. Assegurar que é o vaporizador correcto, cada agente anestésico tem um vapo- rizador específico com código de cores. Justificação – Evita a necessidade de enchimento durante o procedimento, interrompendo o fornecimento temporário ao doentee aumentando o risco de exposição. 3 – Sempre que o vaporizador não estiver adaptado ao ventilador deve ser mantido na posição vertical, desde que contenha agente anestésico. Deve ser es- vaziado antes de ser guardado ou de ser realizada manutenção. Para ser esvaziado utilizar um frasco vazio, mantendo o circuito fechado. Justificação – Quando se inclina o vaporizador o líquido do reservatório preen- che indevidamente outros compartimentos, o que pode levar a derrames e a avaria do vaporizador. 144 | 4 – O fluxo de gás anestésico só deve ser aberto quando todo o circuito do doente está conectado e se inicia a sua administração. Justificação – A abertura precoce conduz à disseminação para o meio ambiente. 5 – Na indução anestésica por via inalatória o risco de poluição do ar é muito elevado. Esta técnica é muito utilizada em Pediatria. Recomenda-se a indução en- dovenosa sempre que possível. Justificação – A selagem perfeita da máscara facial à face do doente é difícil de conseguir e manter, permitindo fugas. A utilização de máscara facial só deve ser permitida por um curto período e, após a indução, ser substituída por máscara laríngea ou tubo endotraqueal. O risco de poluição por gases anestésicos na sala de operações é muito eleva- do, com a utilização de máscaras faciais. 6 – No decurso da anestesia geral inalatória há múltiplas causas que poten- ciam fugas para o ar ambiente, nomeadamente em Pediatria: a utilização de tubos endotraqueais sem cuff, de circuitos anestésicos sem ligação ao sistema de exaus- tão (exemplo Mapleson D.), insuficiente insuflação do cuff do tubo endotraqueal, inadequado posicionamento ou insuflação da máscara laríngea, balão roto do sis- tema ventilatório ou do sistema de exaustão, traqueias com roturas, adaptações mal conectadas, etc. Justificação – Há múltiplas causas para a existência de fugas que aumentam o risco de elevada proporção de gases anestésicos no ar ambiental, com consequen- te aumento do risco de exposição dos profissionais. Deve existir uma permanente atenção e vigilância principalmente por parte dos intervenientes na anestesia, para detectar e corrigir qualquer evento adverso du- rante todo o procedimento e minimizar o risco de exposição para si próprio e para os outros profissionais. 7 – O absorvente de CO2, nomeadamente a cal sodada, deve ser substituído frequentemente de acordo com as instruções do fabricante e avaliação do valor de CO2 na monitorização de gases anestésicos. Justificação – Os agentes halogenados reagem com os absorventes de CO2 quando desidratados, provocando um aumento de temperatura, maior absorção do anestésico e degradação metabólica das moléculas, com produção de substân- cias tóxicas, o que constitui risco para o doente. Quando fica exposta ao meio ambiente 48 horas, recomenda-se adicionar água destilada, na proporção de 25 ml para 500 g de absorvente. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 145 RECOMENDAÇÃO V Deve fazer parte do plano de integração e formação, a temática do manusea- mento e utilização de agentes anestésicos inalatórios, para todos os profissionais do Bloco Operatório. Justificação – Práticas de trabalho adequadas são vitais para a redução da ex- posição dos profissionais, comportamentos inadequados podem potenciar o risco. A informação e a formação sobre cuidados e riscos contribuem para a adopção de comportamentos seguros que promovem a saúde e segurança de profissionais e doentes e favorecem a implementação de planos de melhoria. RECOMENDAÇÃO VI Deve existir um plano de avaliação sistemático de saúde dos profissionais, do Bloco Operatório, considerando a exposição a agentes anestésicos. Justificação – A lei 35/20 4 de 29 de Julho determina que os Serviços de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho devem tomar as medidas necessárias para prevenir os riscos profissionais e promover a segurança e a saúde dos tra- balhadores. Estas medidas de promoção de saúde devem ser do conhecimento de todos os profissionais. Devem ser relatados problemas de saúde relacionados com agentes anesté- sicos e relatos de incidentes de ocasionais situações de poluição ambiental que sejam detectadas. 146 | îSEGURANÇA NO REPROCESSAMENTO DE INSTRUMENTOS CI- RÚRGICOS REUTILIZÁVEIS, CEDIDOS EM REGIME DE EMPRÉSTIMO Edição 2013 É prática comum e generalizada a cedência de instrumentos cirúrgicos reutilizá- veis em regime de empréstimo por distribuidores ou fabricantes de dispositivos mé- dicos implantáveis, por um curto período de tempo, frequentemente corresponden- te ao tempo necessário à execução de uma determinada intervenção cirúrgica. O INFARMED na Circular Informativa 170 CD de 14 de Outubro de 2008 faz recomendações sobre o “Reprocessamento de Instrumentos Cirúrgicos reutilizá- veis – cedidos ao SNS em regime de empréstimo”. Esta prática recomendada pretende fornecer linhas de orientação sobre verifi- cação e gestão do processo de utilização de instrumentos cirúrgicos reutilizáveis em regime de empréstimo, no bloco operatório, de forma a assegurar as condi- ções de segurança na utilização desses dispositivos médicos. Está descrita a ocorrência de acidentes relacionados com as inadequadas con- dições para verificação e controlo de qualidade destes materiais, uma vez que os instrumentos cirúrgicos são utilizados por diferentes estabelecimentos de saúde de forma sequencial. Esta situação coloca problemas para a segurança dos doentes cirúrgicos, em especial no que se refere ao controlo da infecção devido a: • Inexistência de registos para controlo da descontaminação dos instrumentos que circulam entre instituições prestadoras de cuidados de saúde cirúrgicos; • Falta de uniformização das condições de reprocessamento por inadequadas instruções e informações do fabricante; • Inadequada / ausência de informação relativa ao processo de reprocessa- mento utilizado; • Embalagens de esterilização não adequadas para a manutenção da segurança dos dispositivos; • Contentorização para o transporte dos dispositivos desadequada ou inexis- tente. • Desconhecimento do número de utilizações e reprocessamentos permitidos e realizados, nos casos em que o dispositivo médico foi concebido para um nú- mero pré-determinado de utilizações. Nesta área, como em quase todas relacionadas com o bloco operatório, a boa prática implica o envolvimento de todos os intervenientes no processo e um conhe- cimento documentado que permita a verificação de segurança antes da utilização. As práticas aqui recomendadas têm o intuito de reter o que se considera ser indispensável para minimizar riscos e atingir um óptimo nível de segurança. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 147 RECOMENDAÇÃO I No momento da aquisição de dispositivos médicos implantáveis, que pressupõem a utilização de instrumentos cirúrgicos reutilizáveis (instrumental cirúrgico) em regime de empréstimo, deve ser estabelecido um protocolo entre o fabricante/ distribuidor e as instituições de saúde envolvidas, no qual sejam definidas as condições do empréstimo Justificação – A existência de protocolos minimiza os riscos inerentes à prática da utilização de instrumentos cirúrgicos reutilizáveis em regime de empréstimo. O protocolo de deve ter em atenção os seguintes aspectos: • O distribuidor/fabricante, no momento do empréstimo deve evidenciar, com base no processo de gestão do risco, que os diferentes circuitos por onde os instrumentais circulam são avaliados/geridos pelo fabricante. • O distribuidor/fabricante deve arquivar os registos relativos aos procedimen- tos que permitem o controlo de todos os passos do processo a que são sujei- tos os instrumentais após colocação no mercado e entrada em serviço, com especial relevância no que respeita à descontaminação e rastreabilidade dos dispositivos. • O distribuidor/fabricante deve controlar e fornecer informação do número máximo recomendado de descontaminações a que os instrumentais cirúrgicos emprestados podemser sujeitos e do histórico do número de reprocessamen- tos a que foram submetidos. Esta informação deve ser disponibilizada, sempre que requisitada, pelas entidades utilizadoras dos dispositivos médicos. • A unidade de saúde deve, aquando da devolução, entregar evidências dos pro- cedimentos (descontaminação e rastreabilidade), ciclos de lavagem e produtos utilizados, e nome do responsável e outros dados que possam orientar para o arquivo dos dados do reprocessamento, em caso de incidente ou acidente. • O distribuidor/fabricante deve garantir que toda a informação, incluindo fo- lhetos de instruções, que assegura a adequada utilização dos instrumentais, é cedida conjuntamente com os dispositivos, no âmbito da directiva europeia, considerando o fim a que se destinam. • O protocolo estabelecido deve incluir prazos, obrigatoriedade de registo da identificação do instrumental, data, local e pessoa responsável pela recepção e devolução e garantia de bom funcionamento de todo o instrumental e procedi- mento em caso de deterioração. • No protocolo deve também ser acordado o fornecimento de contentores de esterilização e transporte adequados aos instrumentos / dispositivos médicos emprestados. • Cada contentor de instrumental deve ser acompanhado por uma lista dos seus componentes e organização, preferencialmente com fotografias. • O fabricante deve realizar formação e validar competências dos utilizadores para que utilizem os dispositivos médicos de forma adequada e para os fins e forma para os quais foram desenvolvidos, reduzindo o risco de lesão para os doentes e utilizadores. 148 | RECOMENDAÇÃO II Os instrumentais destinados a múltiplas utilizações deverão conter nas suas ins- truções de utilização as informações necessárias para a realização dos proces- sos de reutilização adequados, incluindo a limpeza, desinfecção, acondicionamen- to e método de esterilização. Justificação – A Directiva 2007/47/CE, transposta para o direito interno pelo Decreto-Lei nº 145/2009, na sua actual redacção, apesar de não definir “repro- cessamento” prevê este procedimento para os dispositivos médicos destinados pelo fabricante a múltiplas utilizações. As informações acima descritas dão resposta ao Anexo I, parte VII, ponto 13.8.8 (informações fornecidas pelo fabricante). Devem também referir as restrições quanto ao número possível de reutilizações em segurança. RECOMENDAÇÃO III A responsabilidade relativa à limpeza, descontaminação, esterilização e outros processos de reprocessamento dos instrumentais deve estar definida. Justificação – A definição da responsabilidade dos diversos passos do repro- cessamento é essencial para garantia de que estes são realmente efectuados pelas entidades competentes e de forma correcta. Evita dúvidas na actuação dos profissionais por estes dispositivos poderem ter circuitos diferentes do circuito normal de reprocessamento de dispositivos da instituição. A informação constante das instruções de utilização, deverá ser a suficiente e adequada para garantir a satisfação dos requisitos essenciais aquando do repro- cessamento dos dispositivos médicos. O reprocessamento, feito segundo as instruções fornecidas pelo fabricante, deve- rá seguir especificações técnicas que garantam a conformidade dos instrumentais, no momento da sua utilização, para os requisitos essenciais da Directiva aplicável. As entidades que realizam o processo de reprocessamento deverão ainda imple- mentar um sistema de garantia da qualidade, de forma a evidenciar a consistência, a transparência e a validade dos processos. Recomenda-se que estas entidades estejam certificadas por um sistema de qualidade. AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 149 2. TOMADAS DE POSIÇÃO îRECOMENDAÇÕES DA AESOP PARA A GESTÃO DA DESPESA E REDUÇÃO DO DESPERDICIO NO BLOCO OPERATÓRIO Janeiro 2011 Considerando que o plafond previsto no Orçamento de Estado do ano fiscal de 2011 para o Serviço Nacional de Saúde prevê uma redução de 6,4% na despesa, que decorre das medidas identificadas no Plano de Estabilidade e Crescimento de 2010, em implementação nas Organizações Hospitalares; • Considerando que a redução de despesa prevista para os Hospitais não deve pôr em causa o nível de cuidados de saúde prestados aos cidadãos; • Considerando que no Orçamento de Estado para o ano 2011 é preconizada a racionalização e reorganização dos serviços; • Considerando que as organizações devem encontrar formas de reduzir os custos operacionais aumentando a qualidade e a efectividade; • Considerando que os Blocos Operatórios são um dos Serviços Hospitalares com elevado investimento de recursos; • Considerando o peso que a produção dos Blocos Operatórios tem no financia- mento dos cuidados hospitalares; A Associação dos Enfermeiros de Sala de Operações Portugueses – AESOP- en- tende que devem ser implementadas medidas tendo como objectivo a manutenção ou melhoria do valor dos cuidados prestados (sendo valor a relação entre a quali- dade dos serviços prestados e os recursos investidos), concretizável pela redução do desperdício e contenção da despesa, abrangendo os seguintes aspectos: 1. Identificar as áreas onde o peso da despesa variável é mais significativo, com o objectivo de detectar o desperdício e introduzir medidas correctivas: 1.1. Promover a prática clínica baseada na evidência cientifica, (ex: redução do risco de eventos adversos relacionados com cuidados de saúde - controlo do risco da constrição pelo frio intraoperatória, controlo não farmacológico do risco de tromboembolismo, programas de promoção da higienização das mãos, de cirurgia segura, etc.). 1.2. Avaliar a efectividade dos processos através de Mapeamento do pro- cesso de gestão clínica do doente com avaliação de desperdício e introdução de medidas preventivas e correctivas (ex: descrição do percurso do doente - ensino pré operatório, verificações de segurança, etc.). 1.3. Identificar e promover as práticas clínicas com maiores ganhos em saúde: 1.3.1. Utilização de indicadores da prática de enfermagem perioperatória (ex: avaliação da dor, prevenção de úlceras de pressão, avaliação da ansie- dade, prevenção do risco de constrição pelo frio / hipotermia, prevenção da infecção do local cirúrgico, etc.); 1.3.2. Promoção de competências actualizadas em enfermagem periope- ratória relacionadas com a mais elevada complexidade dos doentes e das tecnologias (ex: consulta de enfermagem pré e pós operatória - continui- dade de cuidados; cirurgia minimamente invasiva, cirurgia endovascular, cirurgia híbrida); 1.3.3. Promoção da cirurgia de ambulatório. 150 | 2. Implementação e integração dos sistemas de informação para a gestão global do processo de cuidados, com envolvimento dos utilizadores desde a concepção: 2.1. Desenvolvimento de ferramentas no sistema de informação integrado que permita registar informação clínica, colectar dados, garantir traçabili- dade e possibilitar benchmarking entre os hospitais do Sistema Nacional de Saúde. (ex: processo clínico electrónico, gestão de stocks, dados estatísticos / indicadores de gestão, comunicação – telefones, sistemas integrados de comunicação interna, etc.). 3. Monitorizar e analisar, sistemática e continuamente, os indicadores de ges- tão em “tempo real” como suporte à tomada de decisão e implementação de medidas correctivas: 3.1. Indicadores de diagnóstico (ex: cancelamentos cirúrgicos, resolução de cirurgias canceladas, satisfação do doente cirúrgico, etc.); 3.2. Indicadores de planeamento e execução (ex: agendamento cirúrgico, taxas de utilização do BO, etc.); 3.3. Indicadores do processo e resultado (ex: análise de atrasos e respectivas causas, etapas e análise do processo cirúrgico do doente, constrangimentos do percurso, taxa de infecção, taxa de ocupação das salas, taxa de efectivida- de, taxa de cancelamentos, taxa de adiamentos, taxa de reintervenções, taxa de eventos sentinela, etc.); 3.4. Deve ser premiada a efectividadee penalizada a ineficiência (ex: pla- neamento de programas cirúrgicos de acordo com a capacidade instalada; atribuição de tempo cirúrgico baseado na correlação entre tempo cirúrgico disponibilizado e taxa de ocupação / lista de espera cirúrgica, etc.) 3.5. Todos os processos, dados, indicadores e resultados devem ser pauta- dos pelo princípio da transparência sendo portanto disponíveis na sua totali- dade e em tempo real para a sociedade civil. 4. Gerir recursos humanos: 4.1. Garantia de dotações seguras (ver Prática Recomendada da AESOP: ”Práticas Recomendadas para Bloco Operatório, Lisboa, AESOP, Março 2010, 2ª Edição, ISBN: 972-9171-65-3, pag.127 – 131”); 4.2. Promoção da pró actividade individual nos processos de melhoria continua (ex: caixa / fórum de sugestões, metodologias de gestão participativa, etc.); 4.3. Envolvimento e responsabilização da equipa no processo, (ex: divulgação dos indicadores, exigir responsabilidade por incumprimentos e omissões, va- lorizar a excelência, etc.); 4.4. Definição de estratégias de optimização de horários de modo a garantir as necessidades da actividade cirúrgica, da dotação de recursos humanos e das necessidades pessoais, (ex: acordo entre as partes na definição dos ho- rários acautelando sempre as questões de segurança e direitos legais, etc.); 4.5. Planeamento da produção cirúrgica de forma rigorosa baseada nas ne- cessidades dos doentes, de acordo com a capacidade instalada e não perme- ável a conflitos de interesses (ex: utilização de tempos médios / mediana e desvio padrão dos tempos cirúrgicos, na elaboração dos planos de actividade cirúrgica, etc.). AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 151 5. Gerir recursos materiais: 5.1. Racionalização e normalização na aquisição e utilização de dispositivos médicos e produtos farmacêuticos: 5.1.1. Definição de protocolos de selecção, aquisição e utilização; 5.1.2. Gestão contínua do desempenho através da monitorização das re- clamações e ineficiências; 5.1.3. Definição de políticas de utilização aquando da existência de alter- nativas técnicas (ex: descartável versus reutilizável), baseadas em estudos de custo / efectividade; 5.1.4. Avaliação do impacto económico e eficiência de novas tecnologias / dispositivos médicos; 5.1.5. Benefícios / Oportunidades: • Estabelecimento de contractos de manutenção com melhor relação quali- dade preço; • Utilização de consumíveis partilháveis; • Aumento de capacidade de negociação; • Redução do tempo de formação dos utilizadores; • Racionalização da utilização dos equipamentos; • Racionalização da utilização de dispositivos médicos (ex: utilização de “Pa- cks” cirúrgicos); • Redução do risco de eventos adversos / aumento da segurança do doente; 5.2. Publicitação actualizada aos utilizadores dos preços unitários de maior impacto financeiro. 5.3. Redução dos stocks através da implementação de sistemas eficientes de gestão de stocks, (ex: externalização de serviços de gestão de stocks, consig- nações, reposição na hora, contratualização por portfólio, etc.). 152 | îTOMADA DE POSIÇÃO SOBRE REPROCESSAMENTO DE DISPOSITIVOS MÉDICOS DE USO ÚNICO Junho 2012 A Associação dos Enfermeiros de Sala Operações Portugueses – AESOP, tem to- mado conhecimento pela comunicação social, do crescente interesse de empresas privadas na implementação do reprocessamento de Dispositivos Médicos de Uso Único (DMUU) em Portugal, prática pouco comum na União Europeia. Desde há longa data que afirmamos a necessidade da adopção de medidas orientadores para a gestão eficiente e racional na utilização de Dispositivos Médi- cos. Como tal, consideramos que deverão ser afirmadas de forma inequívoca as vantagem na utilização de Dispositivos Médicos reutilizáveis - concebidos e fabrica- dos com características passíveis de serem reprocessados, ou seja Dispositivos de Uso Múltiplo (DMUM), preferencialmente à prática de reutilização dos DMUU. Como sabemos, este tipo de Dispositivos Médicos (DMUU) são concebidos e fabri- cados com características passíveis de serem utilizados uma única vez num único doente (Directiva 2007/47/CE do Parlamento Europeu e do Conselho de 5 de Setembro de 2007) . A opção de utilização de DM Uso Único (DMUU) / DM Reuti- lizável (DMUM) deve ser orientada por princípios baseados na segurança, evidência científica e estudos custo/benefício. A regulação do fabrico e utilização de Dispositivos Médicos na União Europeia (EU) baseia-se na Directiva 93/42/CEE de 14 de Junho de 1993 , alterada pela Directiva 2007/47/CE de 5 de Setembro de 2007, que designa responsabili- dades em todo o processo para os fabricantes. Nesta Directiva é diferenciado o conceito de DM reutilizável (DMUM) do conceito de Dispositivo Médico de Uso Único (DMUU). No relatório de 2010, da Comissão Europeia ao Parlamento Europeu e ao Con- selho da Europa sobre a questão do reprocessamento de DMUU na União Europeia , são levantadas questões em termos éticos, legais, económicos e ambientais que devem ser considerados e descritas como riscos associados à prática do repro- cessamento de DMUU. Destacamos: os riscos associados à biocontaminação, mais concretamente à contaminação por priões que podem não ser adequadamente inactivados no reprocessamento; o risco tóxico associado a resíduos químicos resultantes de reprocessamentos múltiplos; as alterações nas propriedades físicas e químicas dos DM e alterações na sua estrutura e funcionalidade que podem causar falhas mecânicas e, consequente, dano ao doente. Estes riscos são maiores em caso de reprocessamento DM que se destinam a procedimentos invasivos. Existem, por outro lado, aspectos éticos a considerar: O DMUU reprocessado não deverá constituir nunca maior risco para o doente do que um DMUU novo. É importante considerar a necessidade da informação ao doente e seu consenti- mento prévio, bem como, garantir que não haverá níveis de qualidade diferentes e tratamento desigual de doentes associados a este processo. Por outro lado, os benefícios económicos relacionados a esta prática têm de ser provados e deverão traduzir-se em benefícios e ganhos para a saúde da população nomeadamente pela melhoria da acessibilidade a cuidados mais avançados ou dispendiosos. Para salvaguarda de aspectos de responsabilidade legal, os profissionais de saúde deverão ter acesso a informação detalhada sobre o reprocessamento, con- trolo de qualidade, como o número de reutilizações seguras e instruções sobre o AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 153 manuseamento do dispositivo reprocessado. Qualquer alteração do DM causado pelo reprocessamento poderá exigir uma forma de manuseamento diferente e constituir fonte de complicações clínicas que poderão ser imputadas à prática dos profissionais. A responsabilidade pela segurança e desempenho do produto reprocessado deve ser claramente definida (fabricante original ou entidade reprocessadora), as- sim como, deverão ser definidos os requisitos para rotulagem do novo DM, além de garantir rastreabilidade do mesmo. Sabe-se, ainda, que não existem dados publicados que demonstrem claramente a vantagem económica do reprocessamento do DM de forma geral. Para a realização de avaliações do impacto económico e financeiro desta prática deverão ser tidos em linha de conta outros custos para além do reprocessamento propriamente dito, nomeadamente, os custos associados à logística, transporte, responsabilidade legal, validação dos processos e eventuais custos para o doente em caso de ocorrência de algum evento adverso. O impacto ambiental do processo de reprocessamento também deverá ser objecto de estudo, já que os ganhos relacionados com a diminuição de resíduos as- sociados ao reprocessamento (redução de DM descartados) poderão ser anulados pelo acréscimo de consumo de recursos, nomeadamente água e energia, e pela maior utilização e esgoto de produtos químicos e da necessidade de transporte intensivo dos materiais. O reprocessamentode DMUU é proibido sem o cumprimento de requisitos téc- nicos de acordo com a Directiva 2007/47/CE, pelo que não pode ser efectuado nas organizações hospitalares já que estas não dispõem de condições técnicas que assegurem o controlo de qualidade do processo e do produto final. Em Portugal o Decreto-Lei n.º 145/2009, de 17 de Junho transpõe para a ordem jurídica interna a Directiva n.º 2007/47/CE. Para a implementação da prática de reprocessamento de DMUU em Portugal, é necessário regulamentação legal do processo, actualmente inexistente. A entidade responsável pelo reprocessamento deve cumprir os mesmos requi- sitos aplicáveis ao fabricante de DM em geral. Entendemos que a reutilização de DM de uso único só deverá ser permitida se esse produto mantiver a qualidade, funcionalidade e segurança de um equivalente original não expondo o doente ou profissional a maiores riscos. Por fim, consideramos que as Associações Profissionais com competências nestas matérias (Ordem dos Enfermeiros-OE, Associação dos Enfermeiros de Sala de Operações Portugueses-AESOP, Associação Nacional Esterilização-ANES) devem ser obrigatoriamente envolvidas no processo de reflexão e decisão evitando-se as- sim a sobreposição de interesses comerciais aos interesses públicos. 154 | îO PAPEL DOS DELEGADOS DA INDÚSTRIA DE DISPOSITIVOS MÉDICOS EM AMBIENTE PERIOPERATÓRIO Abril 2013 Considerandos: A AESOP reconhece a necessidade de um processo estruturado de educação e treino aquando da introdução de novos dispositivos médicos, procedimentos, técni- cas e equipamentos a serem utilizados pela equipa multiprofissional. Pela sua formação, treino e conhecimento dos produtos, os delegados da indús- tria de dispositivos médicos podem fornecer auxílio técnico a toda a equipa cirúr- gica de modo a tornar as técnicas mais eficientes e a obter melhores resultados para os doentes. A primeira responsabilidade do enfermeiro perioperatório é garantir a seguran- ça dos doentes submetidos a cirurgia e/ou a procedimentos invasivos, realizados em ambiente perioperatório. O ambiente perioperatório é um local onde, devido às suas características, podem ocorrer eventos adversos e onde os riscos potenciais para o doente são muito elevados. Os delegados da indústria devem ter formação e conhecimentos que lhes permi- ta aperceberem-se da importância de garantir um ambiente seguro para a equipa perioperatória e para o doente, assegurando o direito à privacidade e confidenciali- dade quando estão presentes durante um procedimento cirúrgico. TOMADA DE POSIÇÃO A AESOP considera necessário que os enfermeiros perioperatórios recebam formação e treino aquando da introdução de novos procedimentos e ou técnicas e equipamentos, antes de serem utilizados num procedimento cirúrgico. A AESOP acredita que: • O enfermeiro perioperatório é responsável pelos cuidados de enfermagem durante a cirurgia e advoga pela segurança, privacidade, dignidade e confiden- cialidade de dados do doente. • Os delegados da indústria podem estar presentes nas salas de operações para providenciarem apoio técnico de acordo com os regulamentos dos Blocos Operatórios, das Organizações e de regulamentos locais ou nacionais. • Os delegados da indústria não devem prestar cuidados directos e a sua pre- sença na equipa estéril não é permitida. No entanto os delegados da indústria com treino e formação especializada e consentimento da organização podem realizar calibrações/sincronizações de ajuste/programação de dispositivos (tais como: dispositivos electrónicos implantáveis dispositivos de radio frequên- cia e laser) sob supervisão médica. • Os doentes têm o direito de serem informados sobre a presença do represen- AESOP | PRÁTICAS RECOMENDADAS PARA O BLOCO OPERATÓRIO | 155 tante da indústria durante o procedimento cirúrgico/invasivo, de acordo com os regulamentos existentes. • As organizações devem ter disponível e acessível, toda a legislação e regu- lamentos existentes relativos à presença de representantes da indústria em ambiente perioperatório. 156 | î3 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AESOP – Associação de Enfermeiros de Sala de Operações Portugueses. Bole- tim da Associação de Enfermeiros de Sala de Operações Portugueses. N.º1 (1994). 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